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Capitulo 1

E

sta é a pior ideia que já escutei — eu disse ao Eric, tomando mais um gole de cerveja. — Vamos! — Meg — Tiffany me chamou, mas eu já estava na porta da

BMW do Eric. Minha cerveja respingou nas pedras enquanto eu os guiava pelo caminho escuro em direção à ponte da ferrovia. Eric me alcançou e me segurou pela nuca, me brecando no fim da ponte. Trocamos um olhar faminto. Ele tinha ficado maluco quando eu disse que Tiffany e Brian nos acompanhariam hoje à noite. E eu sabia por que ele estava com raiva: se não estivéssemos sozinhos, não faríamos sexo. E se não podíamos fazer sexo, para que estávamos saindo juntos? Nesse momento, sem dizer uma palavra, ele e eu entendemos que transaríamos de qualquer jeito. Afinal, nós quatro estávamos bêbados demais para querer privacidade. Sob a luz da lua cheia, busquei seu lindo rosto, impressionada com os cabelos negros cuidadosamente desgrenhados. Ele era atraente, e nós nos

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excitávamos. Estávamos quase transando em uma ponte de ferrovia. Pena que não gostávamos muito um do outro. Olhei para o fim da ponte. — Não faz muito tempo que aqueles jovens morreram aqui. Parece que eles poderiam ter corrido para uma extremidade ou outra quando escutaram o trem se aproximar. — Você não acredita nessa história — ele disse. — Estraga prazeres. Pra quê você quer atravessar a ponte se não acredita na história? Não é um desafio se você não acredita no perigo. — A menina ficou com o sapato preso nos trilhos — Brian disse atrás da gente. É o que sempre escutei. E o garoto voltou para ajudá-la e acabou morrendo também. — Isso é tão romântico — Tiffany murmurou. Parecia que ela realmente pensava assim. Já estava completamente embriagada com as primeiras três cervejas que tomou na vida, bêbada demais para ser sarcástica. — E então, pam! — eu disse. — Muito perigoso. Agora sim — virei a cerveja em meu copo. — Talvez seja melhor tirarmos os sapatos. Apesar de ser um estraga prazeres, Eric tirou os sapatos. Deixamos nossos sapatos embaixo da placa que dizia não ultrapassar e mostrava o número da lei municipal que estávamos violando. Pisamos com nossas meias nas traves da ferrovia, em direção ao centro da ponte: Eric e eu, com Tiffany e Brian logo atrás.

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Por meio de minhas meias de algodão, aos poucos comecei a sentir as traves frias e duras. O ar parecia mais frio à medida que nos distanciávamos da margem do rio. Escutei Tiffany tropeçar e rir. Brian provavelmente pensava que essa seria “sua noite”, e talvez fosse. Ele me incomodou durante meses no fundo da sala na aula de cálculo, querendo saber como avançar em sua relação com Tiffany. Eu lhe disse que não era mais tão próxima dela. Na verdade, não era muito próxima de ninguém. Ele disse que isso não importava. Acho que pensava que eu era uma especialista em sexo. O que eu poderia esperar? As notícias boas voam. E eu estava conseguindo o que queria com Eric. Eu assumia minha fama. Sendo a única adolescente no Condado de Shelby, no Alabama, com cabelos azuis, eu era uma referência para todos quando se tratava de mau comportamento. Esta noite eu vestia uma camiseta decotada que dizia “pressão social”, na esperança de seduzir Eric para outra aventura sexual. Mas até parece que ele precisava de alguma sedução, ele era praticamente autosseduzível. Quando chegamos à metade da ponte, ele me conduziu pelo pescoço até a parede de metal da armação. Eu não me importava de ser segurada pela nuca, mas me incomodava ser conduzida. O cheiro forte e enjoativo de ferrugem e alcatrão me deixou tonta. Eu estava prestes a me desvencilhar dele quando ele deslizou a mão até meu traseiro e me pressionou contra a parede. Tomei um gole de cerveja e segurei a parede enferrujada com a outra mão, olhando o reflexo da lua no rio escuro ao longe, sob nós. Árvores se

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agarravam às laterais do desfiladeiro; suas pequenas folhas primaveris cintilavam brancas com a luz da lua. As pessoas diziam que a vista da ponte era linda, mas parece que ninguém a havia realmente presenciado. Agora eu a tinha visto. Agora eu tinha visto tudo. Brian Johnson, o segundo melhor aluno da escola, capitão da equipe de matemática, pressionava Tiffany Hart, a melhor aluna da escola, editora do anuário, contra a parede da ponte de que em frente a ele. Pelo menos ele teve o cuidado de colocar a cerveja no chão. Ele usava roupas esquisitas, um sinal claro de que os pais não o deixavam assistir TV. Ela estava bem-vestida, uma versão simples, sem muita pele exposta. As mãos de Brian se moviam em direção a uma área arriscada e eu quase ri. A todo o momento ele espiava Eric e eu, como se precisasse de instruções. Indiferente aos amassos de Brian, Tiffany retirou do rosto os cachos louros desalinhados pelo vento e perguntou: — Por que esses jovens não pularam para a lateral da ponte? Essa é uma pergunta estúpida? Não sei mais diferenciar uma pergunta estúpida — ela estava bêbada. Comecei a me arrepender de ter deixado ela e Brian, a inocência encarnada me acompanharem e meu passeio selvagem. — Estamos todos embriagados — Brian disse, no mesmo tom do professor de A Ilha dos birutas. Pular na água desta altura seria como pular em um concreto. — Ser atingido por um trem é doloroso também — eu disse. — Mas a garota ficou com o sapato preso, e o garoto não quis deixá-la para trás. Por isso, de qualquer forma, eles estavam presos aqui.

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— Já falei — disse Eric — essa história não pode ser verdadeira. — Que idiota se deixaria ser atropelado por um trem por causa da sua namorada estúpida que ficou com o sapato preso? — imediatamente após declarar que o amor verdadeiro era algo que ele não podia compreender, começou a beijar minha nuca, quase deixando uma marca. Tentei aproveitar a situação, apesar da ironia. O vento frio de março beijou meu decote enquanto Eric me beijava. Um arrepio de excitação passou por meu corpo e inclinei a cabeça para expor mais de meu pescoço à sua boca. Eu tinha me agarrado a ele como a uma tábua de salvação para passar os últimos três meses do colegial. Ele não era grande coisa, mas era a única coisa que me mantinha em movimento, além da espera por minha viagem de férias de primavera para Miami em uma semana. Eu queria aproveitar o máximo possível aquela semana, o que me ajudaria a esperar minha formatura em junho e minha mudança para Birmingham para cursar a faculdade. Eram apenas 20 minutos de distância pela interestadual, mas pelo menos eu sairia desta cidadezinha. Enquanto isso, eu tinha l7 anos, um garoto queria transar comigo em uma ponte de ferrovia no meio do nada e eu me sentia viva. Por enquanto. — Pare. Shhh — empurrei o ombro do Eric para afastá-lo do meu pescoço. — O que foi? — Brian perguntou, por sobre o riso nervoso de Tiffany. — Shhh. Silêncio, Tiff. Encostei-me à parede enferrujada, sobre a distante água escura que se mexia com o vento e distorcia o reflexo da lua. Meus olhos estavam tensos, buscando a escuridão para encontrar a fonte do

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ruído. — Vocês estão escutando? — Não — disse Brian. Meu coração batia aceleradamente em meu peito. Eu odiava ser a pessoa cautelosa, mas desta vez não pude evitar. Olhei para um lado dos trilhos, mas não vi nenhum assustador farol de trem virando a curva. Olhei para o outro lado. Escuridão. Pensei em deixar minha cerveja e colocar o ouvido nas trevas da ferrovia para sentir as vibrações, como em filme antigo de faroeste. — De repente, estou com muito medo. Eric colocou os dois braços à minha volta, massageando meus seios fortemente. — É só uma viagem — ele sussurrou, para que Brian e Tiffany não pudessem escutar. Mesmo em estado de bebedeira, eles teriam ficado realmente petrificados se mencionássemos a palavra maconha. O efeito havia desaparecido há uma hora, foi o que pensei. Mas Eric deve estar certo. Eu estava paranoica por causa da maconha, e agora estava bêbada também. Mas nada daquilo explicava o zumbido em meus ouvidos. Finalmente, a clareira ao fim da ponte explodiu com as luzes azuis do carro de polícia.

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Capitulo 2

-S

aiam da ponte e venham em direção à minha voz — escutamos o comando metálico por meio de um megafone. Senti Eric tenso atrás de mim. Ambos desviamos o olhar da

viatura para a outra extremidade da ponte. Eric e eu éramos muito parecidos, infelizmente para nós dois. Tenho certeza de que estávamos considerando o mesmo cenário. Se fugíssemos na outra direção, não teríamos acesso ao carro. Seguiríamos pelos trilhos da ferrovia até a cidade mais próxima, ou caminharíamos quilômetros pela floresta até a próxima ponte sobre o mesmo rio. Teríamos de voltar para casa de qualquer forma, e no fim das contas a polícia nos encontraria. Brian e Tiffany nos dedurariam para não serem fichados. E o pior de tudo, meu pai me diria que eu havia tornado tudo mais difícil para minha mãe, deixando-a pensar que fui sequestrada, em vez de apenas detida. Além do mais, eu tinha de ficar com Tiffany. A verdade é que não era minha culpa de ela estar nesta confusão. Ela veio até mim, pedindo uma confusão, mas não estaria encrencada se não fosse por mim. E Brian

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definitivamente não ficaria do lado dela. Ele já estava seguindo a ordem do policial, pisando de trave em trave da ferrovia, deixando Tiffany paralisada contra a fria parede de metal. Ele provavelmente esperava consegui alguma vantagem com seu bom comportamento. Eu nunca poderia esperar que Eric ficasse firme por mim, mas pelo bem de Tiffany, esperava mais de Brian. Retirei o copo de cerveja da mão trêmula de Tiffany e o coloquei no chão, junto ao meu. O policial já devia suspeitar que estávamos bebendo, mas parecia estúpido levar a cerveja aos sair da ponte e apresentá-la a ele. Coloquei o braço em volta dela. — Vamos. — Ai meu Deus, ai meu Deus, ai meu Deus. Enquanto caminhávamos, atrás do Eric, ela retirou o celular do bolso e apertou um botão. — Para quem você está ligando? Para seu advogado? — pensei que um pouco de humor a animaria. Aparentemente não era o momento para isso. — Meu Deus! — ela berrou para mim. — Mãe? — gritou ao telefone. — Estou bem, todos estamos bem, mas estou em apuros. Você tem de ir à delegacia me buscar. — Tiffany, desligue o telefone — disse a voz metálica no megafone. Ela apertou outro botão para desligar o telefone, como alguém que estava acostumado a obedecer ordens. — Ai meu Deus — ela gritou para mim —, ele sabe quem eu sou! Isso era muito esquisito, mas não impossível. Esta era uma cidade pequena. Provavelmente frequentávamos a mesma escola da filha do policial. — De qualquer forma, ele descobriria quem você é quando visse sua carteira

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de motorista — eu disse. — O que importa? Ele vai contar para meus pais! Quase fazia sentido, se não fosse pelo fato de que ela mesma tinha acabado de ligar para os pais. Eu estava a ponto de recordar-lhe esse detalhe quando Brian chegou ao fim da ponte. O policial musculoso com corte militar saiu das sombras em direção à luz da lua e à luz azul giratória da viatura. O espertalhão deve ter dirigido todo o caminho desde a estrada principal até aqui com os faróis apagados. Disse algo, com tranquilidade. Brian murchou diante de sua autoridade. Inclinou a cabeça, cedeu um pulso para que o policial o algemasse ao corrimão no fim da ponte e afastou as pernas. Depois deixou o policial passar as mãos sobre ele, fazendo uma busca. Que idiota, ele teria se submetido a uma busca sem roupas se o policial estalasse os dedos. Logo Eric também chegou ao fim da ponte. O policial não parecia tão grande perto do Eric, que tinha 1,92 metros, mas Eric era magro e o policial tinha o corpo parecido com o do Matt Damon. Eric também deixou o policial algemá-lo ao corrimão e examiná-lo. Ao contrário de Brian, Eric não colaborou com o policial em nenhum momento, como se eles já se conhecessem, o que era provável, considerando o que Eric vinha aprontando ultimamente. De qualquer forma, todos na cidade conheciam Eric porque seu pai era um advogado bem-sucedido. Ajudei Tiffany a se sentar em uma trave da ferrovia no fim da ponte para que pudéssemos colocar nossos sapatos. O policial estava de costas e não pude

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escutar o que estava dizendo, mas podia ouvir Eric mentindo. — Não estou chapado. Você acha que alguma pessoa nesta cidade venderia para mim? Deus sabe que já tentei — e depois: — Para começar, foi ideia da minha namorada vir aqui. — Obrigada, imbecil — eu disse, fazendo sinal de aprovação com os dedos. — O cavalheirismo não está morto. — Foi sua ideia, Eric — lembrou Tiffany. Ela me olhou de soslaio. — Não foi? — Não digam mais nada uma para a outra. O policial ainda falava pelo megafone, calmo e indiferente, mas com uma ameaça disfarçada. Apontou um dedo para Tiffany. — Sua vez. — Ai, meu Deus — ela se levantou e caminhou em direção a ele. Eu a observei pronta para segurá-la se desmoronasse. Pelo menos eu tentaria. Não estava tão segura de meu próprio equilíbrio. Também observei para ter certeza de que o policial não era um pervertido, mas ele não a apalpou nem a algemou ao corrimão. Algemou suas duas mãos nas costas, enquanto ela balbuciava “Ai meu Deus, ai meu Deus". Depois a levou pelo cotovelo até o banco de trás da viatura, afivelou o cinto de segurança em volta dela e fechou a porta. Gesticulou para mim. Era minha vez. O zunido baixo começou de novo. Ou talvez nunca tivesse parado. Eric e Brian fizeram um ruído. — Ela tem um pequeno problema com

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ordens — Eric disse ao policial. — Já tentei isso também. — Parece um bom motivo para não beber, sendo menor de idade, e não invadir propriedades públicas — o policial caminhou em minha direção. — Ela tem mesmo um problema sério — disse Brian. — Senhor, eu nunca tentei controlá-la, mas sei que houve um incidente no nono ano. Imaginei se ele estava falando daquela vez em que eu não conseguia desatar meu tornozelo do tornozelo de Julie Meadow depois da corrida de três pernas na aula de Educação Física, ou daquela vez que Todd Pemberton me deixou presa entre os andares no elevador com defeito. — Levante-se — o policial me ordenou. — Veja bem — disse Eric —, quando ela resistir à prisão, não quero ficar mais encrencado por causa disso. Lembre que te avisei. O policial não se importou. Levantei-me lentamente, tremendo mais do que Tiffany. Alguma coisa ruim estava para acontecer. Ele me algemaria. Ou eu surtaria e imploraria para que não fizesse isso. — Vire-se de costas — ele disse. Coração acelerado. Fiquei de frente para a viatura. Atrás de mim, o policial segurou meu pulso. — Você precisa descobrir qual é a sensação — ele disse, com o hálito quente na minha nuca. — Já sei qual é a sensação — murmurei. — Não acredito que saiba — as algemas se abriram, fazendo um som

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metálico. — Vejam! — gritei, quando mais luzes azuis surgiram de entre as árvores. Uma segunda viatura chegou à clareira. Talvez a chegada de reforço distraísse Dudley Certinho de sua missão. — Será que somos uma ameaça tão grande para a sociedade? Ou é só um dia carente de crimes? Um enorme carro do corpo de bombeiros passou pela clareira. Galhos de árvores pendurados roçaram suas luzes vermelhas. — Carente de incêndios também — adicionei. Por último veio uma ambulância. — E ainda carente de emergências médicas. Por que você chamou a cavalaria? — Pensei que precisaríamos deles quando você fosse atingida por um trem — disse o policial. — Que trem? O zumbido que antes era baixo aumentou para um rugido quando o farol do trem surgiu por detrás das árvores escuras do outro lado da ponte. Em alguns segundos, a locomotiva chegou ao meio da ponte. Dois copos de cerveja explodiram na parede de metal e flutuaram, caindo e desaparecendo na escuridão. Mais alguns segundos e a locomotiva passou por nós. O maquinista escolheu esse momento para tocar a buzina ensurdecedora. Eric e Brian, algemados ao corrimão, taparam um dos ouvidos com a mão que estava livre. Tropecei alguns passos antes de perceber que o policial me arrastava de costas pelo cotovelo até o carro, resmungando. Passamos pelo pessoal da emergência, que conversava decepcionado por

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não ter serviço. — Lá está McPherson — Quincy, o paramédico que por acaso eu conhecia. — Eu sabia, mesmo quando você só tinha 13 anos, que seria encrenqueira. — Que cara de pau! — gritei para ele, mas o policial me empurrou para dentro do carro e fechou a porta. Tentei a maçaneta. Fechada. Não entre em pânico. Tentei respirar com calma. Pelo menos o policial tinha se esquecido de me algemar. E eu não podia entrar em pânico na frente de Tiffany. Estirando o cinto de segurança até o limite, ela se deitou de lado e chorou no banco de couro sintético. Coloquei sua cabeça em minha perna e retirei seus cabelos umedecidos de cima dos olhos. — Você já fechou a edição do anuário? Poderia acrescentar um comentário à lista de conquistas que está junto com a minha foto de aluna veterana: Conseguiu fazer a melhor aluna ser presa. Ela suspirou. — Não é engraçado, Meg. Eles podem me tirar esse título. Podem até tirar nossas bolsas de estudos para a universidade. Eu realmente duvidava que a Universidade do Alabama, em Birmingham, olhasse o registro policial dos calouros. — Eles não conseguem nem escrever meu nome direito — eu disse. — Recebi formulários de inscrição endereçados ao Sr. Mac McRearson. Bem que eu gostaria de morar no dormitório para que eles me dessem um colega de quarto homem. Mas me programei para trabalhar duro e poder pagar um apartamento. Não queria morar em um dormitório com horas de visita, horário de dormir e

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monitoramento. Já tive bastante do tratamento Big Brother com meus pais em casa. E minha prisão não ajudaria essa situação pelos próximos meses. Tiffany riu um pouco, depois suspirou novamente. — Também vou precisar de outro namorado, depois disso. Isso era verdade. Agora que ela e Brian tinham sido presos juntos, um encontro no curso de minigolfe não teria o mesmo ar romântico. Enquanto carros-tanque e caminhões reboque e furgões decorados com grafite continuavam passando e fazendo barulho, o policial encarou Brian e gritou com ele. Depois encarou Eric e também gritou com ele. Pelo vidro da janela da viatura e com o barulho do trem, não consegui escutar o que ele estava dizendo. Mas pela cara do Brian e do Eric, parecia bastante forte. Um dos bombeiros que observava caminhou em sua direção para tentar afastar o policial. Um segundo policial colocou a mão no ombro do bombeiro e o interrompeu. O segundo policial era mais velho do que o policial que nos deteve. Não estava nem perto da idade de se aposentar, mas era velho demais para estar usando um uniforme de guarda sem ter recebido uma promoção para detetive. A passagem interminável do trem atrás deles me deixou tonta. Olhei para Tiffany, que outra vez balbuciou. Ai meu Deus. — Estamos escapando fácil, Tiff. Fácil demais, se você pensar bem. Por que os garotos recebem os gritos, como se apenas eles importassem? Deveríamos nos sentir ofendidas. — Então vá dizer ao policial o quanto você está ofendida — ela

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contestou. — Deixe-o algemar você à ponte. Tentei abrir a maçaneta uma vez mais, brincando. — Portas fechadas — mas comecei a tremer novamente no carro aquecido. Eu não deveria ter dito isso — Tiflany se sentou meio sem jeito e encostou a cabeça em meu ombro. — Você tem uma obsessão com essa história de ser trancada. Que bom que eu estou algemada e não você. Também acho, pensei. Eu imaginava Tiffany como uma versão ambulante e falante de uma planilha de cálculo, mas ela tinha mais alma do que eu reconhecia. Nós duas demos um salto, provavelmente alguns segundos atrasado por causa dos nossos reflexos paralisados, quando o policial que nos deteve abriu sua porta. O barulho do trem o acompanhou para dentro da viatura. O último vagão do trem deixou a ponte. Observei suas luzes traseiras intermitentes desaparecerem na curva dos trilhos. O policial ajeitou o corpo musculoso no banco do motorista e bateu a porta. Depois disse algumas palavras em seu rádio, pegou uma prancheta e começou a preencher formulários. Em nenhum momento nos olhou de relance através da grade de metal que o separava de nós, perigosas delinquentes. Gotas de suor escorriam por seu grosso pescoço de policial. Procurei Eric e Brian e os vi no banco traseiro da viatura do policial mais velho que estava estacionada ao lado da BMW do Eric. O caminhão de bombeiros e a ambulância, desalentados, saíram pela clareira em direção à estrada, sem ligar as luzes.

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— Por que você está tão nervoso? — perguntei ao policial. — É verdade que dois adolescentes foram mortos aqui há muito tempo? — É verdade — ele disse, sem levantar a vista. — E por pouco vocês não adicionaram mais quatro à contagem de corpos esta noite. — Quatro não — eu disse. — Se eu tivesse ficado presa nos trilhos, teria sido a única a morrer. Meu namorado não atravessaria a rua para salvar a minha vida. Isso é que é namorado. O policial riscou algumas partes do formulário que não se aplicavam a nós, talvez condenação prévia, ou serviços à comunidade ou outra coisa significativa. — Como você nos encontrou aqui? — perguntei. — Vocês estavam sem sorte. Cuidado com o dia 15 de março. Uma onda daquela paranoia que eu havia sentido na ponte passou por mim. Era 15 de março. Meu cérebro submerso lutou para retornar à superfície. Mas antes que eu pudesse fazer uma observação engraçadinha, Tiffany levantou a cabeça de meu ombro. Seu próprio cérebro embriagado deve ter reconhecido a expressão Idos de março dos versos de Shakespeare. — Ah, você se formou em inglês na universidade? Eu vou me formar em inglês! — Neste momento — disse o policial — você não vai se formar em nada. Me segurei para não gritar com o policial. Claro que ele podia ver o quanto Tiffany estava assustada. Se ela pensasse que seu curso universitário

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de inglês estava ameaçado, poderia derreter em uma poça de lágrimas e cerveja bem aqui no banco de couro sintético rasgado de sua viatura. E seria bem feito para ele ter de limpar tudo. — Todo mundo lê Júlio César na escola — eu disse a ela, em um tom alto o suficiente para o policial escutar. — Você não precisa ir à universidade para ser policial. Para quê? Só precisa saber dirigir, ler e escrever — o vi marcar um X em outra seção do formulário. — Ou não. — Não — ela disse, quase desmaiando. Coloquei o braço em volta dela novamente e perguntei ao policial: — Será que você poderia tirar suas algemas? Eu me responsabilizo por ela. Seus olhos finalmente encontraram os meus. Eu não tinha registrado seu rosto antes, talvez porque estivesse tudo um pouco embaçado para mim. Não sei se foi porque o álcool ou a adrenalina já estava perdendo o efeito, mas observei seus olhos pela primeira vez agora, encaixados perfeitamente no retângulo do espelho retrovisor. Eles eram de um estranho castanho-escuro em contraste com o rosto claro. Ele olhou para o formulário. — Por que não? — perguntei — Você se sente ameaçado? Um homem do seu tamanho? Ele literalmente se virou em seu banco e me olhou através da grade de metal que nos separava. Um dos sarcasmos que lancei para ele finalmente surtiu efeito. Ele realmente se sentiu ameaçado. Mas por quê? — Ai! — uivei quando Tiffany me beliscou com as mãos algemadas. O policial saiu do carro e abriu a porta de Tiffany. Ela se inclinou em

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direção a ele no assento e ele se ajoelhou para abrir as algemas. — Aqueles meninos só querem levar vocês para a cama — ele disse. — Você sabe disso, não é? — imaginei que ele estivesse falando com Tiffany, pois não estava me olhando por sobre o ombro dela. Mas seus olhos cruzaram com os meus e logo se concentraram nas algemas de Tiff. — Isso não é verdade — ela disse. Bem, claro que era verdade. Mas se ela não sabia disso, agora não era o momento de informá-la. — Como você sabe que nós não estávamos tentando levá-los para a cama? — Perguntei. O policial parou de brincar com sua chave nas algemas, se agachou e me encarou. A ladainha de Tiffany mudou de "Ai meu Deus, ai meu Deus" para "Cale a boca, cale a boca". O policial disse: — Você tem uma boca tão grande que vai meter as duas em uma encrenca pior só para ter a última palavra. — Algumas pessoas não sabem a hora de fechar a boca — eu disse. — Cale a boca! — Tiffany choramingou. Comecei a pensar que podia ser um bom conselho. O policial deu alguns segundos a mais de atenção às algemas de Tiffany. Ela soltou os braços com

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um choramingo e esfregou os pulsos. Ele bateu a porta, deu uma volta por detrás do carro e abriu minha porta. — Saia. Saltei para fora e me apoiei no carro, tentando não demonstrar medo quando ele bateu a porta novamente. Parou exatamente na minha frente e me olhou com desprezo. Eu estava prestes a receber o mesmo tratamento do Eric e do Brian. Talvez não. Seu olhar desceu até minha camiseta pressão social. Ou à ausência dela sobre a linha do meu umbigo. Teoricamente isso poderia ter servido a meu favor, mas eu não tinha coragem nem condições de fazer algo sob a intensidade daqueles profundos olhos castanhos. Apesar de ser como sou, olhei em volta para ter certeza de que o carro do policial mais velho ainda estava a alguns metros de distância e de que ele não me havia abandonado com este policial, com a floresta e uma aventura sexual indesejada. O policial conseguiu se recompor. Desviou os olhos da minha camiseta e olhou diretamente em meus olhos. Provavelmente estava verificando se minhas pupilas estavam dilatadas. Eu só podia esperar que a maconha já tivesse perdido o efeito, deixando minhas pupilas no tamanho normal. Encarei seus olhos escuros, como se não tivesse nada a esconder. Com a cabeça, ele apontou para Tiffany no carro. — Quanto ela bebeu? — Dá um tempo para garota, pode ser? Sei que ela está bêbada, mas é a primeira vez. Poxa, é a primeira vez que ela toma uma bebida mais forte. — Mmph — ele disse.

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Graças a Deus ele acreditou em mim. Talvez eu tenha conseguido livrar Tiffany. — E você? — Eu? — ri — Sou culpada. Ele indicou com a cabeça. — E a maconha? Me senti ruborizar. Talvez ele estivesse blefando. Perguntei: — Que maconha? O policial colocou as mãos na cintura e inclinou a cabeça para um lado. Devia existir um desenho para ele, como no dicionário, ilustrando a palavra ceticismo. — Posso não ter feito faculdade — ele disse —, mas passei pela Academia de Polícia. Pronunciou as palavras Academia de Polícia cuidadosamente, como se fossem termos estrangeiros. Pensei que estivesse zombando de si mesmo. Quase ri, mas não me sentia confiante o suficiente. Ele prosseguiu: — O que você acha que nós fazemos na Academia de Polícia? Navegamos na internet? — Honestamente posso dizer que nunca pensei nisso. — Você sabe que seu namorado foi expulso de Auburn por traficar maconha em sua residência estudantil — ele disse. — Por isso estamos namorando. — Você queria maconha.

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— Nem tanto. O que acontece é que Eric é como eu. — Eric é... — ele se interrompeu com uma careta. Depois tentou de novo. — Você é uma i... Quase me chamou de idiota. O que eu não poderia discutir, considerando a presente situação. Mas era chocante que um policial me dissesse isso. Ou quase me dissesse. — Sou o quê? — provoquei-o. Ele balançou a cabeça. — Não adianta dizer nada a uma adolescente de l7 anos. Vocês pensam que são imortais. Não escutam. Precisam ver por si mesmos. — Ver o quê? Ele suspirou. — Antes de retirar vocês da ponte, dei uma olhada no carro do seu namorado. Tudo que vi foram dois barris de cerveja. Não tenho nada contra você, em termos de posse de drogas. Confesse agora e que sabe não faremos um teste de drogas em seu namorado. Você sabe que, se fizermos, vamos acusá-lo por dirigir drogado. Com certeza o acusariam. Me apoiei no carro frio para ganhar forças e olhei por sobre os ombros arqueados do Eric no carro do outro policial. Na verdade, estávamos namorando, se é que se pode chamar assim, há apenas algumas semanas. Ele tinha voltado para casa para morar com os pais e “se recompor” (tradução: “fumar bastante maconha”) depois da já mencionada prematura expulsão da instituição de ensino superior.

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Mas eu o conhecia bem o suficiente para saber qual seria a sua reação. Se eu o entregasse e ele ficasse encrencado, me chamaria de vadia estúpida. Se eu não o entregasse, eles testariam sua urina e ele se encrencasse mais ainda, me chamaria de vadia estúpida. — Era só eu e ele — eu disse rapidamente. — Tiffany e Brian não sabiam. Eles teriam pirado completamente. Fumamos antes de encontrá-los. Eric e eu estávamos chapados e famintos e fomos até o McDonald´s para comer Big Mac. Foi quando vi Tiffany no banheiro. Eu deveria estar obviamente bêbada, porque ela insinuou que viajaria com os veteranos nas férias de primavera na próxima semana sem nunca ter bebido antes. Ela tinha medo de parecer boba. — Eu pensei: — Ah, coitadinha. Posso comprar uma cerveja para você. Brian também não bebe, mas entrou na onda. Provavelmente pelos motivos que você mencionou há pouco. — Ah — disse o policial. — Foi um impulso no calor do momento. Ela nunca teria feito isso se tivesse tido tempo para pensar melhor. E eu nunca teria feito isso se não estivesse chapada. Nem caminhar pela ponte. Foi completamente sem premeditar. Tentei medir a reação do policial. Não consegui perceber nada. Seus olhos escuros estavam rindo de mim, ou imaginando minha cara quando eu saísse da prisão em tempo de me ajuntar à Associação Americana de Pessoas Aposentadas. — Interessante — ele disse. — Você violou muitas leis esta noite. Definitivamente estava rindo de mim. Ataquei: — Vamos listá-las? Que

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divertido. Invasão de propriedade. Posse de maconha. Menor de idade comprando álcool. O que mais? Intoxicação pública, vagabundagem, reunião ilegal. Corrupção de menor. Espera, você pode corromper um menor quando você mesmo também é um menor? — Você é quem me diz. Está usando a camiseta “pressão social”. Então ele havia notado. — É, eu vi você observando minha camiseta “pressão social” — eu disse, só para testar o quanto ele havia notado. Ele havia notado, claro. Seu rosto branco e pescoço rosado contrastavam com o uniforme azul-escuro. Na verdade eu estava petrificada. Com os anos eu havia percebido pela forma com que os homens na TV falavam sobre Taylor Swift e Miley Cyrus que homens de 40 anos gostavam bastante de garotas adolescentes. Eu não imaginaria que uma adolescente com cabelos azuis estaria à altura, mas claramente gosto não se discute. E aqui estava este policial, trabalhando duro às 11h30 da noite, inocentemente sustentando sua esposa e 14 filhos em casa, se esforçando e economizando dinheiro para comprar aquele novo depósito de alumínio no qual já estava de olho para guardar o cortador de grama. E eu exibindo os seios em sua cara. Realmente ele não era culpado por olhar. Ele suspirou novamente. Seu rubor lentamente desapareceu e ele se recompôs. — Você pelo menos está arrependida? Sim, eu estava arrependida por distraí-lo de sua mulher por dois segundos. Melhor não dizer isso. — Sinto muito que você tenha prendido

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Tiffany. E talvez sinta muito por ter prendido Brian. Eu estava com raiva do Brian por ter abandonado Tiffany, mas ele me havia salvado de ser a algemada. Sem as segundas intenções de se livrar de mais encrenca, diferente do Eric. — Você quer que eu me arrependa de ficar chapada? — Você se arrepende de quase ter morrido? — Isso não é verdade. — Claro que é! — agora ele estava furioso, gritando comigo e finalmente me dando o tratamento de Brian e Eric. — Você está tão bêbada que não viu o trem? — parecia que ele ia me atacar. Eu me encolhi, esperando o golpe. Mas ele pensou melhor. Fechou a boca e deu um passo para trás. Virando-se em direção à ponte, olhou a escuridão. Com meus olhos adaptados às luzes das viaturas, não conseguia ver nada além da placa "não ultrapassar". Mas a ponte tinha realmente impressionado esse policial. Parecia que ele conseguia ver aquela ponte mesmo na escuridão.

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Capitulo 3

O

policial acalmou-se no caminho até a delegacia de polícia. Ou talvez

fosse apenas o rádio na viatura que tocava Beck, o que tornava a péssima viagem das drogas e a prisão forçada um pouco mais agradável. Eu imaginava que um policial dirigia em silêncio total, para

que nada o distraísse de suas responsabilidades. No mínimo, imaginei que escutaria uma rádio sertaneja. Talvez o último prisioneiro no carro tenha trocado a rádio para a estação pop de Birmingham como uma piada. Tiffany se apoiou em mim, sonolenta. Apenas o cinto de segurança a impedia de cair no piso do automóvel. Eu também estava com sono. O interrogatório do policial tinha sugado cada gota da minha energia. O ruído do motor do carro me acalmava. Sentei-me no meio do banco. Inclinei-me sobre Tiffany, afastando seu cabelo dos olhos. Dessa forma, eu conseguia engana o policial, mantendo frouxo o cinto de segurança central em volta das pernas, sem afivelá-lo. Eu não usava cintos de segurança. Andar de moto normalmente me livrava desse problema, além de ser muito mais barato do que ter um carro. Tiffany balançou a cabeça e se despertou sem abrir os olhos. — Meg,

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você sabe o que nós somos? — Criminosas? — arrisquei. — Sim, mas o que mais? — Bandidas? — Somos malvadas! Através do espelho retrovisor, vi o policial sorrir. Obviamente ele gostava mais de Tiffany do que de mim. Ela abriu os olhos e o viu sorrir também. — Senhor policial, você acha que somos malvadas? — Sim, mas não por muito tempo. — Bem, quero que saiba, por mais insignificante que seja, aprendi minha lição. Esta noite aprendi algumas coisas sobre mim mesma e elas são todas muito ruins. Eu lhe fiz um afago, tentando consolá-la Eu não tinha aprendido nada sobre mim esta noite. Já sabia de todas essas coisas ruins. — Sua amiga me contou que essa foi a primeira vez que você bebeu — disse o policial. — Não — ela respondeu. — Foi a primeira vez — eu disse, entre os dentes. — Não quero menti para o policial — ela se sentou, ajeitando a postura.

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— Senhor policial, fui à Inglaterra com minha avó no verão passado e tomei uma lata de shandy, que é cerveja misturada com limonada. Comprei em uma máquina da Coca-Cola. Minha avó disse que não tinha problema, mas claramente ela estava errada. — Você ficou tonta? — perguntei. — Não sei. Comi bastante peixe e batata junto com a bebida. O policial riu, mostrando duas covinhas em suas bochechas. Decidi puxar conversa. — Você assiste Cops na TV? — Adoro Cops — ele respondeu. — E como a minha vida, mas sem as partes chatas. — Assiste Reno 911? — Sim. Provavelmente é até mais realista do que Cops. Pelo menos nesta

cidade

estacionou

e

desligou

o

motor

em

frente

à

delegacia/tribunal/prefeitura, ao lado da minivan da mãe de Tiffany. — Permaneçam sentadas um minuto, senhoritas — deslizou pelo banco para fora do carro, fechou a porta e falou com o policial mais velho através da janela meio aberta do outro carro, onde Brian e Eric estavam sentados no banco de trás. Eric me disse algo pelo vidro. Não parecia nada bom. Depois lutou com os braços algemados nas costas. Finalmente a cabeça e ombros desapareceram e as algemadas surgiram na base da janela mostrando o dedo médio. Mostrei o espetáculo para Tiffany. — Ainda bem que não vou ao baile

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de formatura. Ele provavelmente se recusaria a ir comigo. Tiffany coçou a testa. — Convide-o. Vamos todos juntos. Você consegue imaginar aonde eles nos levariam para jantar? — McDonald´s — eu disse com convicção quando o policial abriu a porta. O policial mais velho já estava puxando Brian e Eric para fora do carro. A mensagem que Eric estava tentando me passar se espalhou pelo estacionamento e ecoou no prédio. — Você contou a ele sobre a maconha. Ele te enganou, sua vadia estúpida! — Nossa! Não foi legal o que você disse — na verdade eu estava um pouco preocupada por ter sido enganada, e decepcionada comigo mesma. Afinal, eu tinha de manter minha reputação na prisão. Nosso policial nem me olhou. Eu era apenas mais uma informante para ele. — Não falem mais nada um para o outro — ele entoou no espaço entre nós. — Maconha? — a voz de Tiffany ecoou atrás de mim. — Você não — o policial lhe assegurou. — Sei que você não é uma pessoa má. Ele riu e Tiffany deu um risinho como se eles fossem velhos amigos. Meu Deus, esses dois quadrados foram feitos um para o outro. Dentro da delegacia, os policiais não pareciam interessados em tirar nossas digitais ou tirar uma foto nossa ou em nos vestir com o uniforme de presidiário. Possivelmente porque não queriam armar um escândalo. Os pais de Tiffany já estavam lá para superprotegê-la, histericamente. Ela se agarrou a

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eles como um pequinês apavorado que foi separado de seus donos em um tornado. Eu já tinha me perguntado por que Tiffany não iria para a liga das melhores notas e pontuações nos testes. Eu com certeza iria para bem longe de Birmingham se tivesse conseguido uma bolsa de estudos em outro lugar que não fosse apenas outra cidadezinha como esta. Mas após testemunhar a adulação coletiva entre Tiffany e seus pais, compreendi porque ela não estava pronta para se aventurar em um lugar mais adiante. — Me liga amanhã — ela disse, enquanto saía. — Pode deixar — eu disse, sabendo que não ligaria. Eu não ligava para ninguém. Seus pais a levaram para casa. O pai de Brian chegou logo depois. Era austero e quieto, como o filho. Devia haver muito silêncio naquela casa, e isso provavelmente funcionava. Ele levou Brian para casa. Depois o pai do Eric chegou gritando. Ele agiu como se a prisão tivesse sido culpa do policial, culpa da prefeitura por ter proibido a entrada na ponte, culpa minha por ter seduzido seu menino. Pelo menos deduzi que ele estava falando sobre mim quando disse “aquela vadia punk” Ele culpava todos, menos Eric. Até se atreveu a gritar com o meu policial. Não da forma como o policial havia feito com Eric gritando direto na sua cara. Aquilo era pessoal demais. Não, o pai do Eric caminhava em volta do policial e balançava os braços, nunca olhando diretamente dentro dos seus olhos escuros. O policial ficou lá parado, em silêncio. Olhava para frente, como um daqueles soldados que protegia a Tumba do Soldado Desconhecido ou o Palácio de Buckingham com um rosto sem expressão alguma. Parece que ele

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precisava de um shandy. O pai do Eric o levou para casa. Depois o policial ficou um bom tempo ao telefone em um escritório com parede de vidro. Tentei não observá-lo, mas ele continuou me olhando enquanto conversava. Provavelmente estava dizendo à sua mulher o quanto a amava e que nunca a trairia com uma garota criminosa de cabelos azuis, se é que existia essa criatura. Depois de alguns instantes, ele desligou o telefone e voltou à sala principal, onde disse algo ao policial mais velho que eu não consegui entender. Escorou-se na parede de cimento e cruzou os braços. Eu bocejei, espreguicei e me ajeitei na cadeira de metal dobrável. Estava assistindo uma reprise de Andy Griffith na minúscula televisão da escrivã, que se chama Lois, tinha três filhos adultos, oito netos, dois gatos, dois cachorros, uma iguana, muitas joias de ouro e um decote muito maior do que o meu. Morava em 2043 Sunny Level Cutoff e não se importava de dar seu endereço para delinquentes juvenis. — Quer ligar para seus pais de novo? — o policial mais velho me perguntou. Seu nome era policial Leroy. Nunca tinha se casado e não tinha filhos, uma iguana. — Quando falei com seu pai, ele parecia já estar acordado. Sim, meu pai já estava acordado. Meus pais eram os donos de um restaurante chamado Cafextra! Cafextra! Abaixo do nome, a placa dizia. Nossa especialidade é café da manhã, como se já não fosse óbvio o suficiente. Ficava aberto 24 horas por dia, único motivo pelo qual qualquer pessoa comeria lá. — Eles não virão — eu disse, sem tirar os olhos da TV. Dei uma risada nervosa. Este Barney Fife era mesmo uma comédia. Eu ainda estava bêbada. — Vou tentar ligar para eles — o policial Leroy pegou o telefone na

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mesa da escrivã. — Não perca seu tempo. Esta foi a última gota — repeti o que meu pai me disse ao telefone. — Eles já desistiram de mim. Em dezembro, quando matei aula com Davy Gillespie e Billy Smith e cheguei em casa bêbada, meu pai me avisou que isso aconteceria. Ele me disse que aquela seria a última vez que eu deixaria minha mãe preocupada, e da próxima vez eu estaria morta para eles. A verdade é que eu não tinha obedecido às suas ordens desde então. Já tinha aprontado bastante com Eric, mas não tinha sido pega, até agora. O policial Leroy colocou o telefone no gancho. Apesar de eu ainda analisar as proezas do policial Leroy me analisando. — Conheço seu pai — ele disse, finalmente Eu escutava isso bastante. Tradução: seu pai é um osso duro de roer. Suspirei. — Você jogou bola com ele na escola, certo? — Parece que você é o seu castigo merecido — ele deu um tapa no ombro de meu policial e se despediu de Lois, que estava falando ao telefone e digitando em seu computador. Ela acenou de volta, vagamente, enquanto o policial Leroy abria a porta. Parte da fria noite entrou quando a porta se fechou lentamente atrás dele. — Bem, vamos — disse o meu policial, mostrando o muro com o pé. Quando me levantei para segui-lo, Lois chamou: — After — parecia que

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ela estava falando com o policial, pois after quer dizer depois em inglês. Sim, eu gostaria de fazer esse passeio pela prisão depois. Depois que estivesse sóbria e aparecesse a luz do dia. Depois que eu tivesse certeza de que não passaria a noite aqui. Mas ela escutou algo ao telefone e seus olhos perderam o brilho. Em seguida falou ao telefone novamente e virou para o outro lado. O policial acenou com a cabeça para um guarda que assistia à sua própria TV, abriu uma porta de segurança e me levou a um corredor de cimento que tinha várias celas. Escutei muitos palavrões sonolentos, o que eu até podia aguentar, mas um cavalheiro agarrou as barras da sua cela e disse: — Boa-noite, Clarice — e começou a listar quais partes de meu corpo ele planejava explorar com sua língua. Concentrei-me nas forças que ainda havia dentro de mim para passar por ele e continuar caminhando no mesmo passo lento. — Cale a boca, Jerry — disse o policial. — Era isso que você queria que eu visse? — perguntei, tentando manter estável minha voz trêmula. — Não, era isso — ele abriu uma cela vazia no fim do corredor e me conduziu para dentro. Parei. Respirei. — Entre — ele disse. Caminhei em direção a ele, ficamos lado a lado, passei por ele para entrar na cela, com o coração acelerado. Comecei a entrar em pânico. Virei

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meu corpo par ficar de frente para ele e com uma mão alcancei seu ombro. Eu não sabia o que estava fazendo. Só estava desesperadamente tentando me conectar com ele, como uma amiga, qualquer coisa. Ele começou novamente. — Nunca me toque quando eu estiver de uniforme! — gritou. O rubor voltou ao seu rosto branco, como se estivesse tentando dar em cima dele e desviá-lo de sua mulher e dos 14 filhos e do depósito, brilhante e novo, direto do catálogo da Sears. — Tudo bem — murmurei. Coloquei a mão ofensiva sobre a minha outra mão e olhei a parede de cimento. As barras de metal se fecharam atrás de mim com um som estridente. Tentei desacelerar a respiração. Luzes vermelhas cegaram meus olhos, o que não era um bom sinal. — Será que você poderia deixar uma fresta da porta aberta? — Não. — Pode deixá-la destrancada? — Não. — Pode colocar a chave em um lugar onde eu possa alcançá-la? — Como em Andy Griffith? Isso vai contra o objetivo de uma prisão. — Claro — ele já estava saindo. Já estava voltando pelo corredor e me deixando nesta cela com dois beliches fixados à parede com suportes de metal, um vaso sanitário de metal Hannibal Lecter na cela ao lado. Eu não conseguia desacelerar a respiração e mal podia ver através das luzes vermelhas

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intermitentes. — Meg. Estranho, este policial. — Como você sabe o meu nome? — Estou familiarizado com sua carteira de motorista. Parei você duas vezes nos últimos meses por dirigir sua moto sem capacete. Ah, é verdade. Agora eu me lembrava vagamente desse idiota. Mas — e era impressionante como meu cérebro podia processar isso na situação atual — em minha carteira de motorista aparecia meu nome como Margaret, não Meg. De alguma forma ele sabia que eu era Meg e não qualquer um dos outros apelidos de Margaret, dos quais eu já havia sido chamada por meus parentes idosos quando eu era pequena. — Como você sabe que não sou Maggie? — perguntei à parede de cimento. — Peg? Margot? Claro, Margot sempre me lembra um fungo — eu estava ofegante. — Meg olhe para mim. Comecei a me virar. Quando girei a cabeça, a escuridão se aproximou. O policial apareceu através das barras no fim de um longo túnel que se fechava enquanto eu observava. Minha pele se contraiu contra meus ossos. Me senti encolher e flutuar. Com o nariz cheio de amônia, afastei os sais aromáticos com um tapa. O frio da mesa de metal de Lois entrou pelas minhas costas. Virei o rosto de arquivo e dei de cara com a fivela do cinto do policial. Ele apertou meu pulso com dois dedos e olhou para o relógio, verificando minha pulsação.

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Repassei o que podia ter acontecido. Desmaiei no chão da cela da prisão. Eca. E o policial me levantou com seus grandes e fortes braços e me retirou de lá. Eca? — Ela está fingindo — disse o policial, me odiando com seus olhos escuros. — Forçou o desmaio por hiperventilação. Sim, eca. — Não importa se ela está fingindo ou não — Lois falou de algum lugar na sala. — A maioria das adolescentes ficaria chateadas se você as jogasse na prisão com um bando de homens. — Não havia nenhum homem na cela com ela. — Quer dar um tempo, After? — Lois disse. — Melhor ainda — eu disse, quase sem forças — dá um tempo agora mesmo. Ele retirou os dedos de meu pulso. — Você tem algum problema de saúde do qual deveríamos estar cientes? — me perguntou, com tom oficial. Será que tenho? Em que ano estamos? Lembro-me de ter corrido oito quilômetros naquela manhã. Não, não hoje — sentei-me lentamente na mesa. — Aqui, querida — Lois me passou uma Sprite. Abri a lata com os dedos latejando e tomei um gole. — Beba mais rápido — disse o policial — É proibido comer ou beber na

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cela. — Você não vai colocá-la de novo naquele lugar — Lois disse, incrédula. — Lois, eu não a trouxe aqui por atravessar a rua fora da faixa de pedestres. Você vai deixá-la passar a noite tomando Sprite e assistindo TV? — Os outros três vão passar a noite em casa com sua mães, e vão dormir em uma cama. Eles se encararam por alguns segundos. — Você não devia estar patrulhando? — Lois insinuou. O policial resmungou, atravessou a sala e abriu a porta. Desta vez um vento ainda mais frio entrou enquanto a porta lentamente se fechava. Ele se foi. — Obrigada — suspirei. — Mmmm-hmmm. Lois me ajudou a descer da mesa para a cadeira de metal dobrável. Ela também se sentou e falou baixinho ao telefone. Quando terminou de falar e olhou para mim novamente, perguntei: — Qual é o problema dele? — Ele é um bom policial — ela disse. — Bom demais, talvez. — O que ele tem de tão bom? Ele me assediou — deixei a Sprite e coloquei a cabeça entre as mãos. — Se esta cidade não é grande o suficiente para nós dois, vou embora de Birmingham em breve. Tudo o que eu quero é me formar em junho. E ir para Miami na semana que vem.

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Ela murmurou no fone de ouvido Depois perguntou: — Miami? Para quê? Férias de primavera? — Sim — eu disse, sonhadora. — Com seus Pais? — Não, graças a Deus. Tiffany, Brian e eu vamos com vários veteranos da escola. Estaremos acompanhados, mas teremos um pouco de liberdade. Todos querem participar dessa viagem. Todos os anos, o técnico de futebol deixa a patrocinadora das torcedoras bêbada na primeira noite e ninguém tem notícias deles até o fim da semana. É uma tradição. Lois escorregou um pouco em sua cadeira — Odeio ter de te contar isso, querida. — Me contar o quê? — como se passar a noite na delegacia fosse bom demais para ser verdade. — Espero que não pense que o policial que te prendeu já te liberou. Eu o escutei ao telefone com os chefes há alguns instantes. Ele tem seu número. — Tem meu número? — ela quis dizer meu telefone? Será que ele estava planejando me ligar, apesar de sua esposa e os 14 filhos e o depósito? Deve estar passando por uma crise de meia-idade. — Ele vai te atingir no ponto fraco — Lois disse. — Quer ter certeza de que vocês não se livrarão dessas acusações com seus pais pagando uma multa. Ele quer que você pague. Mas quer você reabilitada, não em um centro de detenção de menores. Por isso pensou em um plano.

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— Odeio planos. — Um de vocês passará uma semana com os bombeiros, outro com a ambulância e um com a patrulha policial. Todas as pessoas que você arrastou para a ponte da ferrovia no meio da noite. — E a quarta pessoa? — perguntei, já sabendo a resposta. Ela Piscou os olhos. — Creio que todos supõem que o advogado vai livrar seu filho drogado, como sempre. Obviamente. — E até o fim de semana — ela disse — você terá de entregar uma proposta de projeto aos chefes para desencorajar outros jovens de fazer o que você fez. Meu Deus, que hipocrisia. Mas eu tinha certeza de que poderiam me safar dessa proposta estúpida com os olhos fechados. — Não parece tão ruim. A parte de passear até parece divertida. Talvez eles me deixem dirigir — provavelmente soaria divertido se eu não me sentisse agora como se tivesse sido atropelada por aquele trem. — Eles querem que você faça a ronda à noite — ela disse. — Posso aguentar isso. Ela balançou a cabeça, melancolicamente. — Eles querem que você faça a ronda durante as férias de primavera, para que possa passar uma semana no turno da noite sem perder as aulas.

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Levou um segundo para cair a ficha. Depois gritei: — O quê? Aquele policial é o demônio! — Não, ele simplesmente entende como os adolescentes pensam. Eu não estava segura de que isso fosse verdade. O policial pensou que eu planejava passar minhas férias de primavera bebendo e mostrando os seios. Sim, era isso mesmo. Mas não era só isso. Senti as lágrimas encherem meus olhos enquanto visualizava o vasto Atlântico azul. Meus pais costumavam falar sobre me levar para a Flórida algum dia quando tivessem economizado dinheiro, mas essa conversa parou há alguns anos. Agora eu passaria o resto da minha vida a cinco horas da praia sem nunca ver o mar. Meu primeiro pensamento foi para mim mesma, claro, mas o segundo foi para a minha mãe. Enquanto outra pessoa supostamente tomaria conta de mim em Miami, meus pais estavam planejando tirar suas primeiras férias, em quatro anos, em Graceland. Eles ainda poderiam ir, enquanto eu cumpria minha pena no turno da noite. Os pais de qualquer outra pessoa iriam, mas eu conheço minha mãe. Agora certamente ela ficará em casa. Ela até ficaria comigo na viatura se eles deixassem. Cancelaria suas férias por minha causa, e eu sofreria uma punição pior do que a cadeia: culpa. Era o suficiente para levar uma garota a beber. De novo. — Sei que parece o fim do mundo para você — Lois disse, dando um tapinha em meu joelho. — Era exatamente com isso que ele estava contando. Mas um adulto consegue ver que você tem muita, muita, muita sorte e deveria estar agradecida. Isso não é melhor do que ir ao tribunal? Refleti sobre sua pergunta. Coisas ruins podem acontecer em um

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tribunal. Provavelmente eu não seria presa, mas havia uma possibilidade remota. Tremi e coloquei minha jaqueta em volta do meu corpo. Se eu pudesse passear na ambulância, seria melhor do que ser julgada. Eu não gostava de ambulâncias, e menos ainda de ficar presa dentro delas. Mas Quincy, meu amigo paramédico, estaria comigo. Ele entendia meu problema e poderia me ajudar. Ele foi um idiota comigo na ponte, mas imagino que estivesse fingindo ser um moralista em frente a outros moralistas que estavam ali. Passear no carro de bombeiros seria ainda melhor. Eu dormiria bastante. Não acontecia muita coisa nesta cidade, portanto não havia muito para atear fogo. Definitivamente era melhor do que ir ao tribunal. Mas talvez eu tivesse de ficar com os policiais. Especificamente, com o meu policial. Neste caso, eu não tinha tanta certeza de que valeria a pena.

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Capitulo 4

L

ois saiu do trabalho às 6 horas da manhã e me ofereceu uma carona para casa. Disse que eu deveria ter ficado na prisão até que meus pais viessem me retirar, mas mudou de ideia quando eu contei que, se eles não tinham aparecido até agora, não apareceria antes que o tumulto

do almoço passasse. Suas palavras exatas foram: — Dane-se. Vou te levar para casa, querida. Como qualquer senhora de 50 anos que tinha um pouco de dinheiro guardado e se considerava um espírito livre, Lois dirigia um fusca com uma flor amarela falsa em um vaso fixado no painel para combinar com a pintura amarela.

Quando

paramos

na

esquina

do

estacionamento

da

prisão/tribunal/prefeitura para fazer a curva para a rodovia, uma viatura entrou. Pelo canto do olho vi o policial levantar a mão. Acenando para Lois. De forma pouco exemplar, parou seu carro metade no estacionamento e metade na rodovia. Sim, era o meu policial. Não imaginei que ele me notaria no assento do passageiro do carro dela com o reflexo da luz dos postes no parabrisa. No entanto, eu tinha cabelos azuis, o que era quase como andar com uma seta sobre a cabeça.

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Ele abaixou o vidro da janela e olhou para Lois com cara feia, obrigandoa a abaixar o vidro também. Opa! Ele a repreenderia por transportar uma criminosa impulsiva sem autorização. Depois me levaria de volta para dentro. Meu coração acelerou e meu corpo se preparou para outro golpe deste homem que havia decidido que eu precisava de um castigo, como se eu já não fosse castigada o bastante por meu pai. Lois acelerou. A força de inércia me apertou contra o assento enquanto o fusca partia para a rodovia. O motor pequeno chorava em protesto. — Dá um tempo, policial After — ela resmungou. — Vou te colocar em meu colo e te dar umas palmadas na bunda. Virei-me para encará-la, surpresa. Ela me olhou, agitada. — O que foi? — Nada — eu não quis admitir que estava tão bêbada que não tinha percebido que o nome do policial era After. E como ela estava sendo muito legal de me levar para casa, pareceu grosseiro abordar o assunto de suas relações sexuais durante o turno da noite no departamento de polícia. Se ela queria se envolver em umas palmadas extraconjugais com um homem dez anos mais novo, bem, isso era entre ela e o policial After, sua mulher, os filhos e a iguana da Lois etc. Se bem que eu duvidava seriamente que Lois — ou qualquer outra pessoa — já tivesse infligido punição corporal no policial After. Durante todo o caminho até minha casa ela verificou os espelhos, esperando que luzes azuis explodissem atrás da gente. Mas ele nos deixou livre.

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Ela parou no estacionamento do restaurante. O cascalho saltou sob os pneus. Limpando as mãos em um pano, meu pai me olhou com raiva por detrás do balcão. Depois voltou para a chapa. — Não quero mais ver sua cara — Lois me disse —, pelo menos até o próximo fim de semana. Não se meta em confusão — ela deu um tapinha na ponta do nariz duas vezes. Um pouco da sua maquiagem pesada tinha saído durante a noite. Veias vermelhas apareceram. Sim, senhora, vou me comportar, seria a coisa mais educada a dizer. Mas não fiz promessas. — Obrigada por tudo. Em vez de entrar no restaurante fui para o trailer, que adquirimos junto com o restaurante. Meus pais haviam decidido que moraríamos ali temporariamente para economizar dinheiro até que o restaurante tivesse se firmado como principal estabelecimento da cidade e eles pudessem construir a casa dos seus sonhos, mas ainda morávamos no trailer. A coisa toda balançou quando bati a porta de metal atrás de mim. O chão rangia enquanto eu caminhava em direção ao banheiro. Depois de meu desmaio na prisão, meu corpo queria correr um pouco e provar a mim mesma que não estava doente, que não estava se desgastando e que estava bem. Mas a cabeça latejava. Eu precisava de mais tempo para me recuperar da cerveja, porém estava escalada para trabalhar durante toda a manhã. Algo na expressão de raiva de meu pai me dizia que era melhor não usar a prisão como uma desculpa para não trabalhar. Eu poderia correr mais tarde. Tomei banho com a cortina aberta e sequei a água do chão com uma toalha. Depois vesti

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uma camiseta decotada que parecia inapropriada para trabalhar, mas 50% menos provocante do que minha camiseta "pressão social” e fui arcar com as consequências. Entrei pela porta da frente para poder pegar uns pratos e cumprimentar meu pai já com os braços cheios. Minha mãe se sentou em um banco com alguns clientes regulares, provavelmente reclamando sobre o que eu tinha feito desta vez. Ela parecia o antes em um daqueles programas de transformação da TV: permanente ruim, 18 quilos acima do peso, camiseta enorme com a foto de um gato com as patas na cabeça e um balão desses de pensamento que aparecem nos gibis que dizia: Já chegou o fim de semana? O que não fazia simplesmente nenhum sentido, porque meus pais trabalhavam nos fins de semana. Todos nós trabalhávamos. Quando minha mãe me viu, abriu a boca. Seus olhos se viraram em direção ao meu pai, atrás do balcão. Ela fechou a boca e me olhou com uma expressão atormentada enquanto eu passava. Eu sabia que meu pai tinha falado com ela: Quando Meg chegar, não se atreva a abraçá-la como se ela tivesse ganhado um concurso de beleza. Sem dizer uma palavra a ninguém, empilhei os pratos na lavadora, amarrei meu avental e anotei os pedidos dos clientes. Atendi os clientes e cozinhei, limpando cada bagunça antes que meu pai pudesse apontá-la para mim. Se eu trabalhasse rápido o suficiente, a adrenalina colocaria uma parede entre mim e minha terrível dor de cabeça. Estava cortando salsicha e relembrando meu tempo na prisão, desejando saber exatamente onde o policial After tinha colocado as mãos quando me levantou do chão, para que eu pudesse virar o jogo e deixá-lo em

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apuros com os chefões, quando meu pai resmungou na chapa: — É muita cara de pau sua voltar aqui. Sua barba escondia o queixo, de forma que não pude perceber nada em sua mandíbula. Mas a mirada dos seus olhos azuis era tão forte que pareciam fazer estalar os ovos na chapa. Estávamos entrando em uma zona desconhecida. Ele podia até ter desistido de mim, mas nunca havia sugerido que eu não pudesse voltar para casa. Até agora. Normalmente a ameaça implícita me assustaria bastante, mas o policial After tinha me assustado algumas vezes durante a noite, e eu já estava cheia. Golpeei a tábua de cortar salsicha com a ponta da faca. — Ah, agora você está me expulsando de “casa”? — fiz aspas com os dedos. — E está me “demitindo"? — meus pais me obrigavam a trabalhar, mas não me pagavam. Eu os lembrava disso sempre que me metia em confusão. — Boa sorte em convencer Bonita a cobrir meu turno. Ela sempre cuida dos netos pela manhã. Ele olhou para ter certeza de que minha mãe estava na outra ponta da cozinha, fora do alcance da sua voz. Depois explodiu: — Não me importa o que sua mãe diz. Estou cansado de ver você brincar com ela como se fosse uma boneca. Vou levá-la Graceland como planejamos. — Você... — comecei a dizer, mas parei. Não tinha sentido sussurrar algo assim como: Você vai me mandar para um centro de detenção de menores? Ele diria que eu mesma estava cuidando disso. Justo neste momento minha mãe derrubou um pão que estava assando, fazendo um barulho

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estridente, igual ao da porta da cela da prisão se fechando. O sangue sumiu do meu rosto e se concentrou nos pés. Meu coração acelerou, bombeando ar, mas eu não daria o gosto que meu pai me visse desmaiar por causa disso. Inclineime sobre o balcão e cortei mais salsicha, imaginando vagamente onde a faca me cortaria quando eu ficasse inconsciente. Meu pai rosnou para mim: — Você vai passar as férias de primavera no turno da noite com aquele policial After, como o Promotor Público me disse ao telefone. E depois vai trabalhar no turno da manhã aqui. Se tiver energia para ser presa nas oito horas restante do dia... — como um especialista, deslizou a espátula sob os ovos e os virou para cozinhar do outro lado sem quebrar as gemas. — Vaya con Dios. Vi os ovos deslizarem na chapa, com as gemas lentamente escurecendo. — O que você quer dizer com essa história de que vou participar do turno da noite com o policial After? Pensei que ficaria no carro de bombeiros ou na ambulância. — Não foi o que o promotor disse — meu pai se virou para mim pela primeira vez, com os olhos azuis em fúria. — Você acha que tem mais a aprender passeando de ambulância? — Já escutei essa ladainha — eu disse, usando a faca para raspar a salsicha da tábua de cortar dentro de uma vasilha. Eu pretendia juntar o resto do cozido de batatas picadas e fritas com muita eficiência, como se estivesse arrasando no programa Iron Chef. Mas estava pensando no policial After, seus olhos escuros deslizando para meu decote, as mãos fantasma em meu corpo

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indefeso. Agora que eu sabia sobre minha punição, estava gostando da ideia de provocá-lo com minha sensualidade se por acaso ficássemos juntos. Dane-se sua mulher. Mas se ele não só planejou o fim das minhas férias de primavera como também me escolheu para passar esse tempo, não há dúvida de que ele mais uma vez tinha o controle da situação. Talvez até pretendesse conseguir o queria comigo. Coisas mais estranhas haviam acontecido. Mais coisas horríveis. E eu mereceria. — Fique no veículo — o policial After me ordenou. — Talvez eu tenha de sacar minha arma. Franzi as sobrancelhas para ele no banco da frente. Eu tinha pensado que ele poderia me fazer sentar no banco de trás esta noite. Felizmente, eu tinha sido promovida para o banco da frente E ele não tinha mais um corte militar. Na semana desde nosso infeliz encontro, seus cabelos haviam crescido e ele parecia ter um corte quase normal. Já não parecia ter acabado de voltar do Iraque. Olhei o Cadillac enferrujado à nossa frente, no acostamento da rodovia, inundado em grandes pinceladas de azul produzidas pelas luzes da viatura. — Sua arma? Você quer dizer seu revólver? Por quê? Eles só estavam em alta velocidade. — Você não viu as coisas que eu vi. Ainda — usou os controles na sua porta para levantar meu vidro, que eu deixara abaixado durante toda a noite,

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apesar do frio. — Parte da minha tarefa é ir com você a todos os lugares e descobrir como realmente é seu trabalho. Não posso fazer isso se ficar no carro. — Acho que há uma regra de que quando minha arma é sacada, você permanece no veículo. — Nenhuma regra desse tipo foi especificada pelos chefões. Ele suspirou pelo nariz. — Se você se ferir, tenho certeza de que serei designado para a função de carcereiro. — Não vou me ferir. — Não estou discutindo com você. Faça o que estou mandando — abriu a porta. — Espere um minuto — eu disse, colocando uma mão no seu braço exposto. Ele olhou para minha mão. Não me toque quando eu estiver de uniforme. Essa história de ele querer me seduzir já era. Retirei a mão — Desculpe, foi reflexo. Mas você não pode me deixar presa em seu carro. E se você levar um tiro e eu estiver presa aqui? Eu não acreditava que ele pudesse levar um tiro. Não acreditava que ninguém pudesse levar um tiro. Principalmente considerando como passamos a patrulha desta noite. Depois de toda aquela conversa agressiva quando ele

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me prendeu sobre como ele queria que eu visse alguma coisa, isso é o que eu tinha visto: um policial retirar as vacas dos campos de morango do prefeito e colocá-las de volta no pasto ao lado. E eu estava pagando o salário desse policial com meus impostos. Ou estaria, se eu pagasse impostos, se trabalhasse em um emprego remunerado em vez de me escravizar no restaurante sem receber nada. Eu devia, sei lá, um dólar por ano em impostos sobre minhas gorjetas. Assediamos muitas pessoas inocentes. Expulsamos skatistas da calçada no trevo no centro na cidade. Expulsamos jovens com suas caminhonetes estacionadas nos fundos do cinema. Lois estava certa quando disse que o policial After sabia como os adolescentes pensavam. Maldito sorrateiro. Causamos um pequeno acidente de trânsito no cruzamento entre a rodovia que passava pela cidade e a interestadual que ia para Birmingham. O cruzamento de Birmingham era famoso por colisões, mas esse acidente nem era interessante — apenas um farol traseiro estilhaçado e alguns exasperadamente educados homens de negócios japoneses da fábrica de automóveis. Dirigimos até a ponte três ou quatro vezes com os faróis apagados para garantir que não havia nenhum jovem bebendo lá. Idos de março, nada. Não foi azar o policial After ter descoberto a gente na ponte. Ele nos descobriu porque estava obcecado por aquela ponte, como se ele fosse o fantasma de alguém que morreu lá mesmo. Jantamos, se é que se pode chamar de jantar uma refeição à 1:00 hora da manhã no Cafextra! Cafextral! Dava para perceber que o policial After fazia isso toda noite. Purcell lhe serviu café e cozinhou para ele sem perguntar seu

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pedido, da mesma forma que fez comigo. O estranho é que isso acontecia em meu quintal e eu nem sabia, porque normalmente saía do trabalho por volta das 22 horas da noite. Enquanto o policial After e eu comíamos, o restaurante lotou com a multidão que voltava para casa depois da corrida de demolição. Claro que Purcell queria que eu anotasse os pedidos e servisse bebidas enquanto ele cozinhava, e obviamente eu recusei. Já bastava o fato de meus pais não me pagarem para trabalhar lá. Nem morta eu trabalharia de graça quando nem era meu turno. Purcell na verdade teve a coragem de começar a me insultar. Imagino que não estava preocupado em manter seu emprego. Nossa cidade oferecia muitos empregos para uma pessoa analfabeta, e a maioria deles provavelmente pagava melhor. Ele me ofendeu, quer dizer, até o policial After se levantar. Foi o que bastou. Purcell de repente se concentrou em virar a carne cortada na chapa. O policial After voltou a comer como se nada tivesse acontecido, sem olhar para mim. Sem conversar comigo, também. Tínhamos passado a maior parte da noite em silêncio. Quando estacionamos na rodovia, apagamos as luzes e esperamos os motoristas que dirigiam em alta velocidade. Era quase como um jogo para ver quem dormiria primeiro. Quem roncaria primeiro? Que tortura. Eu tinha saído do trabalho no Cafextra! Cafextra! aquela tarde, corrido um pouco e depois tentado dormir, mas o que eu poderia fazer? Nunca dormi às 3 horas da tarde e estava tensa demais pensando em hoje à noite. Agora o policial After estava me fazendo pagar. Será que não era suficiente perder as férias de primavera de meu último ano na escola para

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passear pela cidade com um policial a noite toda? Ele não precisava me deixar entediada também. Mas agora pelo menos haveria um pouco de ação. — Você ainda vai poder sair pela porta — ele disse — O carro está configurado para que apenas as portas traseiras fiquem travadas e os suspeitos não possam sair. E ninguém conseguirá abrir sua porta pelo lado de fora. Os suspeitos não podem entrar. —Entrar? — gritei, enquanto ele se esforçava para se levantar do banco fazendo ruído por causa dos equipamentos presos em seu cinto. Fechou a pesada porta atrás de si com um barulho. Mas estava blefando, tentando me amedrontar. As luzes azuis projetavam listras na parte de trás de seu uniforme enquanto ele caminhava casualmente até o Cadillac enferrujado, parando bem atrás da porta do motorista. Inclinou-se para conversar com o motorista através da janela. Depois lentamente abriu o coldre de seu revólver com uma mão. Freneticamente busquei meu telefone em meu bolso. Eu não ligava para as pessoas, mas apertei o botão para ligar para Tiffany, que estava no hospital. Não estávamos tão próximas como quando éramos crianças. Estávamos tentando ser amigas de novo como antes, desde a oitava série. Ou talvez um pouco menos, agora que eu a havia feito perder as férias de primavera e o namorado. Mas sexta-feira na escola trocamos os números de telefone quando ela me pediu. Ela me disse que os paramédicos assistiam TV ou dormiam no hospital a maior parte da noite, mas eles a avisaram que, quando recebiam uma ligação, a coisa ficava feia. Ela precisaria de alguém para contatar para

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salvá-la caso a ambulância em alta velocidade capotasse. Essa era uma emergência parecida. — Alô — ela disse, sonolenta. — Acorde! — gritei. — É Meg. Preciso que esteja em alerta de emergência. Se eu gritar, traga os paramédicos até a rodovia entre a loja de conveniência Compre até não poder mais e o Motel Cereja Dourada. O policial está com a mão em sua arma. — Ele está com a mão na arma? — agora ela estava acordada. — Achei que era só uma parada de trânsito, mas ele está com a mão na arma. Tenho certeza de que há alguma forma de alertar Lois, a escrivã, de dentro da viatura, mas não vejo um botão vermelho claramente identificado para chamar socorro — soltei uma pequena lamúria e quis me bater. — O que ele está fazendo? — Está parado ao lado do carro, conversando com o motorista. — Calma, Meg. Ele transmitiu por rádio o que está fazendo, certo? E, se pediu reforço, eles estarão a caminho. — Mas e se o reforço estiver do outro lado da cidade? E se ele levar um tiro na rodovia? Eu me sentiria muito melhor sabendo que a ambulância já está vindo para cá. Meu Deus, por que não prestei mais atenção nas aulas de reanimação cardiorrespiratória? Deixa para lá. Vou te dizer por que não. Era vez de Derek Bledsoe fazer o exercício de reanimação antes de mim, e ele babou sobre todo o manequim. A máscara bucal nova sobre sua boca não me fez sentir mais protegida.

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— Meg, quer fazer o favor de se acalmar? Nunca te vi tão chateada. Nada te chateia. Exceto, você sabe, claustrofobia. — Agora ele está arrastando o motorista para fora do carro, algemandoo fazendo uma busca nele. — Calma. Pare de pensar nisso — ela fez uma pausa — Seu pai estava certo sobre esse policial ser o mesmo da ponte? — Sim. — Ele é bonito? Estranhamente senti meu rosto ficar vermelho. Pelo menos ela estava me fazendo esquecer a morte iminente do policial — Você o viu naquela noite. — Eu já te falei na escola. A única coisa que me lembro daquela noite é de ter balbuciado algo sobre shandy e tentar colocar a culpa em minha avó. — Certo. Bem, ele tem lindos olhos castanho-escuro, olhos sonolentos que te observam lentamente. — Oh! — Mas fora isso é um policial militar. Você sabe; uniforme perfeito, botas lustradas. — Ah... — ela parecia decepcionada. Depois abaixou o tom de voz para um sussurro. — Fique feliz por não ter de passar as férias de primavera com essas pessoas. — Já passei muito tempo com uma delas, Quincy, dos cabelos grisalhos.

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Ele me levava na ambulância até o hospital em Birmingham. — Sério? Bom, eles têm muitas histórias. Dizem que quase todos os incidentes domésticos para os quais são chamados envolvem álcool. Ou uma motosserra. — Ou álcool e uma motosserra. — Vejo que você já escutou as histórias. E eu disse a eles "Gente, vou me formar em inglês, não em medicina". E nunca mais vou beber novamente. E então vocês podem pular essa parte. — Vai passar, e eles vão começar a contara as histórias dos fogos de artifício. Pelo menos você está conseguindo dormir um pouco. Ela bocejou. — Você ainda não teve notícias do Eric? — Não —, mas eu teria notícias dele. Ele ficaria furioso comigo até quando estivesse pronto para me chamar para fazer sexo. Era assim que funcionava com ele. — E você ainda não teve notícias do Brian? Em uma dessas rondas na ambulância você não o encontrou no carro dos bombeiros? — Não — ela parecia triste. Brian se recusou a falar com a gente na escola na semana passada. Agiu como um mártir que estava aguentando um castigo em vez de um aluno do último ano sofrendo as provocações por ter sido preso. Tiffany não lembrava nada daquela noite. Portanto não recordava que quando o longo braço da lei agarrou Brian e o retirou da ponte, ele a abandonou. Mas ela provavelmente não gostaria de saber isso. Ela e eu pensávamos de forma muito diferente quando se tratava de garotos. Ela queria

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um relacionamento, eu queria uma aventura. — Qual o nome de seu policial? — ela perguntou. — Você disse que ele parecia nos conhecer na ponte. Descobriu se é o pai de alguém? — Não sei. Seu nome é policial After. — After, como depois, em inglês? — Sim. Esse nome pode causar confusões, não? Perguntei o que ele estava procurando. Ele disse que poderia me contar, mas teria de me matar. — Acho que eu sei quem ele é, Meg. Qual é seu primeiro nome? — Até onde sei, Policial. — Ele é alto? — Não tão alto quanto Eric. — Ninguém é tão alto quanto Eric — ela disse. — Magro? Observei seu corpo de Matt Damon. — Ah, não. — Loiro? — Honestamente, não saberia dizer. Seus cabelos têm menos de um centímetro de comprimento. — Meg, eu sei quem é ele. Ele é...

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Capitulo 5

-D

roga! — gritei. O passageiro do Cadillac abriu a porta e correu em direção à floresta. O policial After o intimou, sacou sua arma e mirou precisamente. Depois resmungou, guardou a arma e correu em direção ao suspeito.

— O que aconteceu? — Tiffany perguntou, bruscamente. — Os paramédicos estavam escutando o policial After no rádio. Outro policial está a caminho. — Diga-lhe que venha rápido — o motorista, algemado e escorado no Cadillac, me viu. Caminhou em direção à viatura, me dizendo coisas que eu não queria escutar. — Quem é esse? — Tiffany perguntou. — Tem certeza de que ele não está dizendo isso para você? Onde está a mãe dele? Ele se aproximou. — Tiffany, o policial After está perseguindo outro suspeito — o motorista alcançou o para-choque dianteiro da viatura. — Não me sinto segura — ele veio até minha porta e deu um chutão. O carro inteiro tremeu. Me apoiei nos controles da sirene e fui para o banco do policial After. — Estou com muito medo.

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Escutei um grito do lado de fora do carro e um barulho de cassetete. A porta traseira se abriu e o policial After empurrou o motorista no banco de trás. Depois veio o passageiro, tentando respirar e reclamar ao mesmo tempo. E foi isso. O policial After bateu a porta e caminhou em volta do carro. Voltei para o meu assento e agarrei a maçaneta para não ter de ficar nesta prisão com outros criminosos, mas o policiai abriu sua porta e se ajeitou atrás do volante. Agora eu me sentia segura. Outra viatura estacionou, com as luzes azuis girando. O policial Leroy passou por nós e averiguou o Cadillac com uma lanterna. Atrás de mim, o motorista suspeito gritava ao policial Leroy, como se ele pudesse escutá-lo. O passageiro suspeito continuava reclamando. O policial After falou algumas palavras pelo rádio para Lois, depois ligou o rádio na estação de rock de Birmingham nos alto-falantes traseiros. Um rap sobre a maconha abafou os suspeitos. Não parecia uma forma eficaz de iniciar a reabilitação deles, muito menos a minha. Mas o policial After estava indiferente. Anos trabalhando como policial deve tê-lo ensinado a não se perturbar com isso. Alcançou sua prancheta e começou a preencher formulários. Uma veia pulsava em seu pescoço, mas ele estava longe de perder a calma. — Foi bom conversar com você, Tiff — murmurei ao telefone. — Sem problemas — ela disse, quase sem forças. — Boa-noite.

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Desliguei o telefone, e coloquei-o em meu bolso e me agachei para alcançar meu caderno no chão. Eu tinha dito ao policiai After que precisava tomar notas para a proposta estúpida e hipócrita que eu tinha de entregar aos chefões. Na verdade eu só queria fazer alguma coisa enquanto ele riscava os formulários em sua prancheta daquele seu jeito todo certinho. Eu já tinha escrito Idos de março, Academia de Polícia, levar para a cama e uma coisa que eu quero que você veja. Agora adicionei veículo, sacar a arma, ferido e suspeito. Ainda rabiscando perguntei ao policial After informalmente: — O que foi tão perigoso nisso? Reunir vacas foi mais perigoso. — Não ria — ele disse. — Reunir vacas pode ser realmente perigoso. Não tem que ser emocionante. Será uma sorte se não houver um touro — desenhou um X em uma seção do formulário. — Galinhas também são difíceis — suas covinhas apareceram novamente quando ele riu, da mesma forma que ele riu para Tiffany naquela primeira noite. Mas ele ainda não estava rindo para mim, estava rindo da sua própria piada. Nossa, Hulk Hogan deu uma de engraçadinho. O passageiro suspeito continuou reclamando e o motorista suspeito gritou ainda mais alto para o policial Leroy. Sem se virar, o policial After disse: — Cale a boca, Zeke. Aguenta firme, Demetrius — e aumentou o rádio novamente: All-American Rejects cantava Dirty little secret. Voltou aos formulários. Eu o analisei enquanto ele escrevia. Imaginei se eu estava desenvolvendo a Síndrome de Estocolmo, me identificando com meu captor, como fez Elizabeth Smart, ou se estava tendo alguma reação biológica pré-programada de mulher das cavernas a um homem

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das cavernas que me salvou de um tigre dente de sabre. Na ponte, quando ele me ameaçou, eu havia notado apenas o uniforme escuro do policial After, seu rosto branco e seus olhos escuros. E suas covinhas. Agora que ele me havia resgatado, de certa forma, posso dizer que notei muito mais. Notei o quanto seu rosto era suave, exceto pela barba que já começava a parecer no fim da tarde e algumas rugas entre as sobrancelhas. Percebi como sua boca parecia delicada e macia enquanto ele mordia levemente o lábio, pensando sobre uma seção do formulário. Percebi como seus cílios loiros eram longos, adornando seus olhos escuros. Seus cílios não eram ralos, o que provava que ele havia cortado o cabelo tão curto de propósito. Não queria deixar crescer depois de perdê-lo todo. Nunca me havia sentido atraída por homens mais velhos, os pais gordos de meus amigos. Até imaginava como suas esposas suportavam fazer sexo com eles. Mas com o policial After era estranho. Eu quase podia ver como não seria nada desagradável ser sua mulher. Ele provavelmente a engravidou quando eles eram um pouco mais velhos do que eu, talvez quando tinham 19 anos, como aconteceu com meus pais. Agora o policial After tinha 4 filhos (mudei de 14 para 4, pois ele parecia ser mais responsável do que eu imaginei), com a mais velha quase e terminando o segundo grau e quase por engravidar. Moravam em um trailer triplo e eram muito felizes. Sua mulher ficava acordada algumas noites, escutando o rádio da polícia só para se sentir mais perto dele. Havia sempre bolo de frutas. Ela cozinhava com manteiga e esta era uma das coisas que o excitava nela depois de todos esses anos.

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Ela não exagerava no bolo de frutas para manter a forma. Era uma das mulheres nesta cidade que parecia uma caipira, mas muito, muito bonita e cuidada, se você descontasse o cabelo armado como Lois, há 20 anos. É isso aí, ela excitava o policial After. Ao contrário de mim. Olhei para minha camiseta. Nenhum decote esta noite. Apesar de eu ter fantasiado sobre isso um pouco, no fim das contas toda essa estória de seduzir um homem casado me deixava desconfortável. E esta noite eu estava usando uma camiseta de gola alta com uma caveira e ossos cruzados para mostrar como eu me sentia sobre minha punição caso não estivesse claro. — Acho que você não estava preocupado com o perigo que corri — eu disse. — Imagino que você queria que eu ficasse no carro porque estava com vergonha de ser visto comigo na frente dos suspeitos. Ele retirou os olhos dos formulários e me olhou. Depois olhou através da grade de metal para os suspeitos. Demetrius ainda estava reclamando, e Zeke resmungou: — O que você está olhando? — Você tem o direito de ficar em silêncio — disse o policial After a Zeke. Olhou para mim: — Não sei o que quer dizer. Por que eu teria vergonha de ser visto com você? Ele perguntou de uma maneira tão séria que senti que deveria explicar o óbvio. — Meus cabelos e a forma como me visto. — Você se veste como se fosse japonesa.

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— As japonesas sem noção que trabalham na fábrica de carros e usam aquelas sandálias esquisitas de plástico? Muito obrigada. — Não, as japonesas gatinhas que você vê no shopping em Birmingham. Ele olhou para os formulários, com a caneta na mão, mas não escreveu nada. O rubor passou do pescoço para as bochechas. Ele acabava de se dar conta que tinha me chamado de gatinha. — Quero dizer, as garotas japonesas — ele disse, olhando para baixo. — Você sabe como se veste. Com sua camiseta, sua jaqueta e suas calças jeans, seus sapatos e suas meias estranhas, seus grampos de cabelo e seus cabelos azuis. Ele estava cavando um buraco ainda mais fundo. Agora tinha dito que havia observado cada detalhe meu. Talvez isso fizesse parte do treinamento policial, para que ele pudesse fornecer uma descrição precisa minha quando eu fugisse. Apesar de que a parte dos cabelos azuis provavelmente seria suficiente para que eu fosse pega. Ou talvez ele se sentisse atraído por mim. Observei enquanto ele desenhava um X no formulário e bruscamente virou a página. Honestamente eu não sabia mais o que pensar. Normalmente eu era muito boa em ler as pessoas porque não me envolvia emocionalmente. Quando você é um forasteiro observando, é fácil ver com clareza, mas esse cara eu não conseguia ler. — Você se veste como um personagem de mangá — ele disse. Bom, isso explicava tudo.

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— Seus filhos leem mangá? — ele provavelmente tinha uma filha que gostava de mangá e eu era parecida com ela. Ele tinha ficado vermelho porque pensou que eu entendi mal. E estava certo. Olhou para mim e colocou as mãos uma sobre a outra, com a caneta entre dois dedos. — Que filhos? Notei que sua mão esquerda não tinha aliança. — Eles não deixam vocês usarem aliança no trabalho? Virou sua mão grande e olhou-a. — Que aliança? Não sou casado. Zeke me disse que eu poderia ir até sua cela para uma visita conjugal sempre que eu quisesse. Ele me amarraria. Meu coração acelerou como se ele estivesse me amarrando com suas palavras. A palavra Vadia amarrou um dos meus pulsos, pinto amarrou o outro e mostre estava se enrolando em tomo do meu calcanhar esquerdo. Derrubei meu caderno e tentei abrir a maçaneta. Travada. Droga. Golpeei a janela. Me deixe sair. Que inferno! Escutei a trava se abrir. Tentei a maçaneta novamente, saí do carro e corri em direção ao Cadillac, longe do heh heh heh de Zeke. Depois daquele monte de faróis e do movimento das luzes azuis, a noite estava escura e a rodovia estava vazia. O policial Leroy se inclinou sobre o Cadillac, olhando debaixo dos bancos. Talvez pelo fato de ele conhecer meu

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pai (ainda que não gostasse dele), pensei que poderiam me proteger dos suspeitos. E do policial After. Engraçado como um homem gordo quase estranho me confortava. Mas eu não conseguia me sentir confortável porque havia um zumbido que vibrava por meu corpo. Olhei em volta, nervosa, até perceber que era o motor do carro do policial Leroy que estava ligado em ponto morto. O policial After acendeu um cigarro atrás da sua porta para se proteger do vento. Depois jogou o pacote de cigarro dentro do carro, fechou a porta e caminhou em minha direção. Parou perto de mim e encostou-se ao parachoque do Cadillac. Afastei me um pouco dele. — Você prometeu que não me trancaria no carro. Ele exalou fumaça. — Eu não te tranquei antes. Travei a porta quando voltei para o carro. Esqueci. É o hábito. — Mesmo assim. Sua ideia de me punir é me encurralar em um canto e deixar homens lascivos me insultarem. — Eu não tinha pensado dessa forma Mas serve, de qualquer jeito — gesticulou com o cigarro, deixando um rastro de fumaça e um ponto de brasa. — É um alerta sobre o tipo de pessoa que você vai conhecer se continuar fumando maconha depois que Eric for encontrado deitado de barriga para baixo, morto em uma vala daqui a alguns anos, e seu suprimento acabar. O suspeito que foi mal-educado com você na cadeia semana passada está

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esperando ser transferido para a penitenciária estadual por tráfico de drogas. E vamos encontrar algo bom aqui também disse, batendo no porta-malas do Cadillac. —Prendemos muitas pessoas que trazem drogas da Flórida para Birmingham passando por aqui. Elas supõem que estarão seguras se ficarem longe da interestadual, mas se enganam. — Odeio ter de te contar isso — eu disse —, mas traficantes de drogas não guardam maconha no porta-malas como se fosse uma mala ou um pneu reserva. — Sim, eles guardam. De qualquer forma, não dá para esconder a droga quando trazemos o cachorro. Eles sabem disso. Simplesmente esperam não ser pegos, mas eles mesmos estão chapados e sem discernimento. Não entendem que poderiam reduzir bastante suas chances de serem pegos se dirigissem dentro do limite de velocidade. E se escolhessem um veículo que não fosse um Cadillac Eldorado 1987 roubado — joga as cinzas no asfalto e deu mais uma tragada. Soltando a fumaça, disse: — Está frio aqui. Volte para o carro. Vamos sair assim que Leroy terminar sua busca. — Voltarei para o carro quando você apagar este cigarro. Não quero inalar sua fumaça. Isso é que é trabalho perigoso Ele riu. — A maconha é muito mais cancerígena do que o cigarro. — Se eu fosse uma completa maconheira, o que não sou, ainda assim não fumaria o equivalente a um pacote por dia. — Eu também não fumo tudo isso.

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Era verdade. Esse era o primeiro cigarro que ele fumava nas quase oito horas que passamos juntos em seu turno. Seu vício não podia ser muito intenso. — Mas fumará — eu disse. — É um vício É como cair em uma armadilha. Ele me olhou e deu uma tragada especialmente longa, como se estivesse se exibindo, para que eu visse. Essa reação parecia imatura da parte dele. Imaginei qual seria sua idade, já que não tinha mulher nem filhos. Os cabelos curtos, o corpo musculoso e o uniforme oficial o faziam parecer mais velho do que provavelmente era. Também a forma como se movia e falava, com tanta confiança. Jogou fora a bituca de cigarro (de repente jogar lixo no chão não era crime?) e indicou o carro com a cabeça. Abri minha pesada porta decorada com o símbolo da prefeitura e o lema do departamento de policia, Proteger e Servir, e me sentei no banco do carro. No rádio estava tocando a música Touch my body, de Mariah Carey. Gritando junto com a música, Zeke me deu alguns detalhes de como ele me estupraria. O policial After se inclinou no banco em minha direção — o que, naquelas circunstâncias, me fez recuar. — Sinto muito não poder quebrar a cara dele por você. — Está tudo bem. — É uma das primeiras coisas que eles ensinam na Academia de Policia

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— disse, virando-se para Zeke. — Se você disser mais alguma coisa para ela vou adicionar corrupção de menor em sua lista de acusações — depois sussurrou para mim: — Que bom que você me deu essa dica na semana passada. Muito útil. — Poxa, cara! — disse Zeke. — Esta é a última mulher que vou conseguir em pelo menos dois anos. — Você não vai conseguir esta — pela janela, o policial After fez um movimento supersecreto de policial. O policial Leroy veio tentando se equilibrar por causa do peso e arrastou Zeke para fora do carro. Tropeçando atrás do policial Leroy enquanto caminhava até a outra viatura, Zeke virou o rosto e olhou para mim, lambendo os lábios. — Pronto? — o policial After me perguntou. Balancei a cabeça. Estava aliviada por Zeke ter saído, mas o peso do que ele me disse ainda estava em meu peito. As reclamações atormentadas de Demetrius no banco de trás eram uma constante lembrança. — Coloque o cinto de segurança — disse o policial After, impacientemente. — Não quero ter essa mesma conversa com você todas as vezes que der partida no veículo. Esperei, torcendo para que ele ligasse o carro de qualquer forma. Não ligou. — Não consigo — eu disse. — Claro que consegue. Eu não disse nada na noite em que te prendi, quando você fingiu ter colocado o cinto, porque estava no banco de trás, onde

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é mais seguro, e eu estava cansado de discutir com você, mais viaturas policiais não saem do lugar se os cintos de segurança dos bancos da frente não estiverem afivelados. Olhei para ele. — Você acha que eu sou uma maluca drogada? Acha que eu sou idiota? — Então deixa eu te explicar dessa forma. Ou você afivela o cinto de segurança ou vamos à delegacia agora mesmo, ligamos para o promotor e contamos que o trato está cancelado. O cinto de segurança parecia um braço peludo quando o passei sobre meu peito e o clique do encaixe parecia o som de uma chave em uma fechadura. O policial After deu partida no motor e saiu em direção à rodovia. Ficamos em silêncio por alguns minutos, exceto pelo rádio, pelas reclamações de Demetrius e por minha própria respiração em meus ouvidos. Finalmente o policial After disse: — Meg. Ele provavelmente percebeu que eu desmaiaria novamente. Meus braços estavam cruzados. Aprendi na aula de oratória na escola que essa posição mostrava às pessoas que você se sentia desconfortável. Como se eu pudesse esconder isso. O cinto também apertava meus seios, fazendo parecer que eles eram maiores. Além disso meu peito crescia com respiração pesada. Minha camiseta de caveira e ossos cruzados parecia uma bandeira pirata sacudindo ao vento. Não é de se estranhar que o policial After tivesse notado.

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— Meg, sinto muito — ele disse. — É ilegal no Alabama dirigir sem o cinto de segurança. Não posso deixar que você faça uma coisa ilegal em minha viatura. Era comovente sua atitude tão doce com uma criminosa. Eu quase me sentia culpada por fazê-lo sentir-se mal. Realmente não era culpa dele. No entanto, como eu estava tendo dificuldade para manter a consciência, me concentrei em minhas próprias necessidades. Apertei o botão para abaixar o vidro e coloquei a cabeça para fora, como um cachorro. Entre seus resmungos, Demetrius reclamou do vento e do frio, mas ao contrário de Zeke, não mencionou minhas partes íntimas, o que tornava mais fácil ignorálo. Olhando a enjoativamente familiar rodovia, as árvores e os prédios girando, imaginei se Graceland era tudo o que minha mãe tinha sonhado ou se ela estava mais impressionada com o candelabro no saguão do hotel em Memphis. Imaginei se o técnico de futebol, a patrocinadora das torcedoras e meus colegas já tinham chegado a Miami no ônibus. Imaginei se primeiro eles ficariam bêbados ou se correriam para a praia, como eu teria feito. Imaginei como seria a sensação da areia entre seus dedos, e se a água era agradável e morna. Ajeitei-me no banco quando estacionamos na entrada de emergência do hospital — O que estamos fazendo aqui? — o hospital era um dos lugares que eu menos gostava de visitar.

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— Acho que quebrei o braço do suspeito — o policial After me olhou de lado — Por acidente. Segui a uma distância segura enquanto o policial After arrastava Demetrius para fora do carro e o conduzia a uma sala de emergência. Tiffany me encontrou na entrada com um abraço violento que quase me derrubou, — Foi tão emocionante ouvir pelo rádio o que estava acontecendo! Se eu pudesse trocar de lugar com você... — Cuidado com o que deseja — eu disse, enquanto o policial After voltava sozinho. — Tiffany, este é o policial After, aquele que te prendeu. Policial After, esta é Tiffany Hart, que não se lembra de você. Eles apertaram as mãos mais cordialmente do que deveriam. O policial After não tinha problema quando ela o tocava. — Sinto muito — Tiffany deu um risinho nervoso e se emocionou. — Você sabe como é quando a pessoa bebe muito. — Não, ele não sabe — eu disse. — Ele está sóbrio desde que nasceu. — Eu também! — disse Tiffany. — A não ser pelo sábado passado — inclinou a cabeça, aborrecidamente. O policial After mostrou suas covinhas. — Mas na verdade eu me lembro dele — ela disse. — Você sabe quem ele é, não sabe, Meg? As covinhas do policial After sumiram.

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— O Sr. Harrison, meu patrocinador do anuário, também ensinou inglês para o programa avançado de seleção no ano passado Ele era o único John no grupo — ela tocou levemente a mão do policial After, que não recuou. Ela continuou tagarelando: — Mas seu nome completo era tão sonoro que o Sr. Harrison usou tudo junto: Johnafter. Os veteranos contaram à equipe do anuário sobre isso e nós começamos a chamá-lo de Johnafter também. Virou uma brincadeira, pois quando não conseguíamos decidir qual foto usar em um determinado lugar, dizíamos: — É o lugar perfeito para Johnafter. — Então ele aparece no anuário 50 vezes? — perguntei. — Não tínhamos nenhuma foto dele. Nenhuma foto social. Achamos que ele era muito antissocial — ela deu uma leve cotovelada nas costelas dele. — Não, só seu retrato de graduação e a foto de seu time de trilha. Ele estava no time de trilha que ganhou o campeonato estadual no ano passado, com Will Bilingsley, Rashad Lowry e Skip Clark. E namorou Angie Pettit. E — apontou para ele, dando a entender que havia mais por vir — ele estava na aula de espanhol comigo e com você, Meg. Eu olhei para ele. — ¡De verdad! —Sí — ele me olhou com cautela. — Esqueci completamente — eu disse. — Eu devia estar no fundo da sala, fumando metanfetamina e hackeando os computadores do Departamento de Defesa. Então, Johnafter, você tem apenas 18 anos?

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Capitulo 6

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ezenove ele disse, cheio de autoridade, como se fizesse a maior diferença do mundo. Depois acabou com meu indignado protesto e me informou que,

apesar de seu turno ter terminado, teria de ficar até mais tarde (ou mais cedo, já que eram 6 horas da manhã) para esperar o suspeito receber assistência médica e depois transportá-lo de volta à delegacia em seu veículo. Tiffany se ofereceu para me levar de volta até a delegacia para que eu pudesse pegar minha moto. O policial After foi até a sala de emergência vigiar Demetrius. Uma noite estava cumprida, faltavam quatro. Antes de começar meu turno no restaurante, corri para dentro do trailer para dar uma olhada no anuário do ano passado. Durante a manhã, enquanto atendia aos pedidos de bacon e ovos, folheei as páginas. Em ordem alfabética, ele apareceu na primeira página das fotos de veteranos, onde deveria estar After, John. Mas, ao invés disso, seu nome foi impresso como Johnafter. Aquele Sr. Harrison era mesmo uma figura. Conferi o nome duas vezes, porque a foto não era do policial Era de um

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veterano em um smoking falso que eles obrigavam os garotos a vestir, com rosto fino e cabelos loiros razoavelmente longos. Como um garoto normal. A única coisa que reconheci foram os olhos escuros com pálpebras, pesadas. Mas conforme prestaria mais atenção, sua boca delicada me pareceu familiar. E o queixo. Na noite passada, no canto escuro, a única coisa que eu consegui ver claramente na maior parte do tempo foi seu queixo iluminado pelo led do rádio. Na verdade, quanto mais eu olhava para esse garoto normal, mais clara se tornou minha lembrança de tê-lo visto na aula de espanhol no ano passado. Costumávamos passar pelas fileiras o dever de casa do dia anterior corrigido e olhávamos na pilha para retirar nossas folhas. Uma página estava sempre decorada com rabiscos intrincados nas margens, pequenas ilustrações cuidadosas das palavras em espanhol Perro. Sombrero. Corazón. Observei para ver quem pegaria esse trabalho. Foi um garoto mais velho com cabelos loiros sobre os olhos, bonito, porém tímido, não era meu tipo. Não era o tipo que gostava de garotas com cabelo lilás, ou sei lá que cor eu tinha naquele mês. De qualquer forma, ele não olhava para mim, ou se olhava, não era por muito tempo. Eu teria me lembrado desses olhos escuros. Encarei seus olhos na foto do anuário e li a legenda sob a foto: Johnafter. Trilha 1, 2, 3, 4. Capitão do time de trilha 4. Maior pontuação no exame de qualificação do ensino médio 4. Ele conseguiu a maior pontuação da escola no Exame de Qualificação. Assim como Tiffany. Naquele momento fui chamada para servir cuscuz de queijo, mas tentei resolver o enigma em minha cabeça. Alguma coisa não encaixava no Johnafter.

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Há apenas alguns anos, nossa cidade estava no meio do nada, mas ultimamente Birmingham estava se expandindo e quase nos incorporando. A periferia da área metropolitana estava a apenas alguns quilômetros de distância. Nossa pequena cidade tinha perdido um pouco de seu charme e conservado todo o seu atraso. Famílias vindas do norte se mudaram para esta área para trabalhar nas fábricas de carros que estavam surgindo por todos os lados. Como não conheciam muito bem o local, compraram casas baratas que estavam sendo construídas. Permaneceram aqui até perceberem que não tinha muita graça e se mudaram para mais próximo de Birmingham. Portanto, na prática, nossa cidade ainda estava no meio do nada, mas agora tínhamos uma meta. Se você tivesse capacidade de entrar na universidade, logo depois de terminar o segundo grau, escaparia para a UAB. Depois encontraria um trabalho profissional se acomodaria em Birmingham, para nunca mais voltar. Exceto em ocasiões especiais, como de passagem no caminho, para a praia. Mas se você não tivesse condições de ir para a universidade, se acomodaria aqui na cidade. Teria um bebê aos 19 anos de idade e depois pensaria: Que pena que não tenho um diploma universitário, porque preciso de um trabalho. Depois de alguns anos trabalhando como zeladora, operadora de telemarketing, vendedora de lâminas de vinil, você abriria uma porcaria de um restaurantezinho. Sua filha ingrata ficaria doente e pintaria os cabelos de azul. Que decepção... Você gostaria que essa filha ficasse na cidade e mantivesse o restaurante livre de problemas realizando grande parte do trabalho de graça. Mas, o que posso dizer, sua filha tinha capacidade de ir para a universidade. Se conseguisse ficar longe da cadeia.

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O que não fazia sentido era você ter a maior pontuação da escola no exame de qualificação, depois decidir cortar todo seu cabelo loiro, ganhar nove quilos de músculos, se tornar um policial e ficar aqui. Alguma coisa tinha acontecido com Johnafter. Por sobre a vasilha de cebolas fatiadas dei uma olhada no anuário sobre o balcão. Fiquei olhando sua foto, com as mãos sobre a minha boca, e percebi que alguma coisa tinha acontecido comigo. Pela primeira vez em minha vida estava apaixonada. Por um policial. Que nunca sairia desta cidade. Cuidado com o dia 15 de março. Quando saí do trabalho às 2 horas da tarde, dirigi minha moto até o parque da cidade. Eu poderia ter corrido meus oito quilômetros diários subindo e descendo a rodovia em frente ao Cafextra! Cafextra!, mas preferi ir ao parque. O hospital e o centro de reabilitação estavam próximos. Muitas pessoas com lesões nos joelhos ou esclerose múltipla mancavam ao longo da pista. Isso fazia pensar que, se eles conseguiam, eu também conseguiria. Mesmo se tivesse acabado de ficar oito horas virando panquecas no Cafextra! Cafextra! depois de passado oito horas sendo enganada por um policial adolescente. Como sempre, me alonguei em frente ao portão do parque decorado com marcas de mão vermelhas, azuis e amarelas de minha turma de ensino fundamental. A marca da mão da Tiffany estava lá e, a do Brian e a do Eric também. A minha estava no canto inferior esquerdo. Eu ainda me lembrava de como estava empolgada para ver a marca de minha mão e meu nome no muro pela primeira vez. Isso foi antes, quando eu era criança e (mais) boba. Eu

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achava que era famosa, juntamente com todos os alunos da terceira e quarta séries. Agora eu lamentava o fato de que uma parte de mim estaria cimentada neste lugar para sempre Apoiei-me no muro com uma mão, estiquei a perna por trás e puxei meu calcanhar para alongar os quadríceps. Minha cabeça latejava e meu sangue vibrava com tanta cafeína. As árvores no parque se agarravam com força às mínimas folhas verdes brilhantes. O céu estava tão azul que parecia de mentira, e os narcisos amarelos pareciam de plástico, como em um cemitério. Isso me insinuava que eu estava com muito sono e realmente precisava deixar a cidade. Correndo em minha direção veio o fantasma de Johnafter. Eu acho que na verdade tive de olhar de novo. Ele estava sem camisa, mostrando o abdômen sarado que eu via o tempo todo na televisão, mas raras vezes pessoalmente. Sua pele branca brilhava contra os verdes brilhantes e os amarelos do parque, provavelmente por viver na escuridão do turno da noite. Seus cabelos loiros pareciam brancos também, e a esta distância seus olhos escuros eram como buracos em seu rosto, Ele não parecia mais um policial de 40 anos para mim. Eu não entendia como pude cometer esse erro. E não parecia o garoto do anuário. Parecia exatamente o que era: um jovem de 19 anos com um corpo fantástico. Vejam só — eu resisti à vontade de me esconder atrás do muro de tijolos. Eu me sentia tímida na frente dele. Era como se eu o admirasse de longe, mas soubesse que não tinha nenhuma chance com ele. De repente desejei que meu cabelo não fosse azul.

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Ele correu até uma parada em minha frente e ofegou algumas vezes até recuperar a respirar. Finalmente, disse: — Ei! — como se eu fosse alguma garota da escola, e não sua prisioneira. — Ei — eu disse. Ele olhou para o muro. — Você está aí? Abaixei a perna e indiquei com o pé a marca de minha mão. Segurei o outro calcanhar por trás. Ele se inclinou para ver minha marca. — Mmph — disse —, perto da marca do Eric. Isso me irritou por algum motivo. — Você está aí? — Perguntei rapidamente. Quando disse isso, percebi que tinha passado todo esse tempo em que estava me alongando observando o muro em busca de seu nome. Ele caminhou até o outro lado do muro e levantou a mão para indicar uma marca. Estava o mais longe possível da minha. Levantei a cabeça para vê-la. — Por que a sua é a única marca preta no muro? — Passei por uma fase gótica quando tinha 9 anos — ele me olhou, sutilmente. —Mas superei.

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Ele quis dizer que meu cabelo azul era imaturo? Imbecil. Eu disse: — E você entrou na fase policial. Ele se virou sem dizer uma palavra, caminhou alguns passos até o estacionamento e abriu a porta da caminhonete. Ótimo, eu o havia irritado. Fazer a ronda com ele hoje à noite seria só diversão. Para cobrir seus músculos expostos ele pegou uma camiseta do Audioslave que eu me lembrava de ter visto na aula de espanhol no ano passado. A diferença é que agora estava mais justa em seu corpo. Acendeu um cigarro, bateu a porta da caminhonete e caminhou lentamente em minha direção. Fiz um gesto para o cigarro. — O que você pensa que está fazendo? Exibindo sua juventude e saúde na frente dos debilitados? Seus olhos castanhos se abriram para mim e ele olhou na direção de uma velhinha que se movia em passos glaciais no andador. — E a única coisa que eu faço de errado — tragou uma vez e exalou pelo nariz, como fazia quando estava frustrado, só que desta vez soltou fumaça. — Me mantém acordado. Estou cansado. Estou sempre cansado. O corpo humano não foi feito para trabalhar das 22 horas às 6 horas da manhã. — Já tentou tomar café? Mountain Dew? Red Bull? — Isso me manteria acordado por tempo demais. Quero dormir quando chego em casa. Já experimentei e desmaiei por oito horas. Depois de meus dias de folga, o primeiro dia de volta é sempre o mais difícil. Vim aqui para correr e me cansar — a imagem da saúde tragou mais uma vez seu cigarro. — Você

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acabou de acordar? — Não, acabei de sair do trabalho. — Trabalho! — Ele passou uma mão pelos cabelos com uma expressão de dúvida, como se não pudesse acreditar que eles não estavam mais lá. — Onde? — No Cafextra! Cafextra! — Por quanto tempo? — Desde que acabou seu turno. — Nossa, por quê? — Meus pais estão em Graceland. Eu deveria estar em Miami na viagem de veteranos — se ele estivesse de uniforme, eu provavelmente teria adicionado alguns espinhos afiados a esta conversa, como: Não posso ir à praia graças a você, imbecil. Estranho como eu poderia dizer isso a um policial enorme, mas não a um loiro gatinho em uma camiseta do Audioslave. Eles pensaram que seria seguro sair da cidade quando eu saísse também. Agora que fiquei, precisam de algo mais para me manter presa. Como Purcell, o cozinheiro idiota da noite passada, que ligou para eles e disse que eu não havia aparecido para o meu turno ou algo do tipo. Eles não confiam em mim. Por que será? Ele não mordeu a isca. Simplesmente balançou a cabeça e se compadeceu, por incrível que pareça. — Esse é um esforço brutal. Por que você não está na cama agora?

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— Tenho de correr todos os dias. — Para perder peso? Por favor, Diga que não. — O que você quer dizer com isso? — Quero dizer... — puxou o cabelo em sua nuca. — As garotas sempre pensam que precisam perder peso, e você não precisa. Ajeitei minha postura e tapei a barriga com as mãos. — Está dizendo que eu sou muito magra. Ele deu uma longa e pensativa tragada e exalou enquanto falava. — Não, Você não é. Agora estava dizendo que eu era gorda nos lugares certos? Coloquei as mãos nos quadris, empurrei os ombros um pouco para frente, para melhorar o decote na camiseta de gola V e me inclinei para a esquerda para alongar a lateral. Acho que eu provavelmente parecia bem bonita, se ele gostasse de cabelos azuis e de pessoas cansadas. Mas ele era como um cavalo assustado a ponto de fugir. Tinha aquela expressão que costumava usar quando eu me aproximava demais, tipo aquele olhar de Ai meu Deus, ela está tentando me seduzir e eu não gosto disso. Desisti e relaxei os ombros. — Você está falando sobre Angie Pettit. Ela não conta. E uma anã. É tão bonita e pequena que dá vontade de estrangular. Johnafter deu uma última e curta tragada no cigarro, jogou-o no chão e o amassou na terra com o calcanhar de seu tênis de corrida. Imaginou que a

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bituca do cigarro fosse minha cabeça. — Aposto que você ainda está saindo com ela — eu disse. — Não, ela terminou comigo no outono passado. Ah, o cigarro era a cabeça da Angie. Por que ela terminou com você? Ele colocou as duas mãos no que restava de seus cabelos e lentamente deu um passo para trás. Ou era uma demonstração de desconforto que ele cuidadosamente controlava quando estava de uniforme, ou queria que eu notasse seus enormes tríceps. Acredite, eu notei. — Porque sou um policial — ele disse — e vivo nesta cidade, e ela não quer ficar presa aqui Ela queria ir para a Universidade do Alabama em Birmingham. Isso me surpreendeu Angie não parecia ter capacidade de ir à universidade. Parecia mais adequada para uma escola de cosmetologia Não que isso fosse um insulto. Eu sabia, por experiência própria, que era muito difícil deixar os cabelos azuis e mantê-los assim por qualquer período de tempo. — Bem, por que não? — Inclinei-me para a direita e lhe perguntei: — Você está namorando alguém no momento? — O quê? — ele abriu caminho para uma corredora que passava pela pista. Observando o enorme traseiro coberto com um tecido felpudo rosa da mulher que se afastava, ele explicou: — Não tenho muitas oportunidades de

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namorar, ou mesmo de conhecer alguém. Não estou acordado quando as outras pessoas estão. — O que você faz Para se divertir? — Diversão — ele pensou. — Qual é sua definição de diversão? — Não é um bom sinal se você tem de pensar tanto sobre o assunto. Basicamente, sua vida é chata por causa desse trabalho. Por que você quer tanto esse trabalho? — É o que eu sempre quis fazer, desde criança. Eu queria gritar: Por quê? Mas sabia que receberia outra resposta vaga. — Então você era corredor de trilhas, certo? — No colégio? Endireitei-me. — Você se formou há apenas nove meses. Realmente age como se tivesse 40 anos. Ele piscou. — É mesmo? — Sim, no colégio. Tiffany disse que você era amigo de Will Billingsley, Rashad Lowry e aqueles caras das trilhas. — Sim — ele disse. — Vocês ainda saem juntos?

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— Não, eles estão na Universidade do Alabama. — Por que você não foi para a Universidade do Alabama? — Já te disse. Eu queria ser um policial — olhou em volta do parque, buscando uma saída, como se essa conversa o estivesse deixando desconfortável. — Por que não conseguiu primeiro um diploma em, sei lá, estudos policiais? — Justiça criminal — ele disse. — Eu queria ser um policial o quanto antes. — Mas você não vai precisar desse diploma de qualquer forma para ser promovido no departamento? — Sim, mas não necessariamente quero ser promovido. Estou feliz com o que faço. Sim, você parece feliz, me deu vontade de dizer, mas essa conversa estava interessante. Eu não poderia parecer muito rude e dar-lhe a desculpa que ele precisava para ir embora. — Se Tiffany não tivesse contado esse segredo, você me diria quem realmente é? — Você quer dizer o fato de eu ter 19 anos e de que estudamos juntos? Dããã, pensei. Eu não podia dizer Dããã. Óbvio demais. Meu cérebro não conseguiu pensar em outra gracinha. Eu não dormia há 30 horas.

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— Eu não estava tentando esconder isso de você — ele disse — Mas estou em uma posição de autoridade e tentando controlar as pessoas em situações às vezes perigosas. Naturalmente não vou sair contando: — A propósito, esse é meu ponto fraco. — Ponto fraco — repeti, pensativa. Sim, essa tinha sido uma conversa muito interessante. Descobri todo tipo de botão que poderia apertar para deixá-lo desconfortável fazê-lo largar de meu pé pelo resto da semana. Depois ele se virou para mim: — E por que você corre? Não é pela saúde. Não parece algo que você faria. De onde estava vindo aquele zumbido baixinho? Olhei em volta, provavelmente frenética demais. Era um poste com defeito atrás do Johnafter, piscando no meio do dia ensolarado, jogando mais luz em sua cabeça e ombros brancos. — Mais por medo — revelei sem pensar. Ele deu um passo à frente e abriu a boca para me perguntar mais alguma coisa. — Nos encontraremos à noite — eu disse, e saí apressada. Fiquei aliviada quando terminei a primeira volta e vi que sua caminhonete tinha ido embora. Eu me sentia muito mais confortável quando ele estava com seu uniforme de policial. Atrevimento na cara da autoridade — isso eu podia fazer. E depois de correr com obstáculos de emoções no parque com o atraente Johnafter, eu preferia uma boa e velha perseguição de carros em alta velocidade.

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Capitulo 7

-A

guente firme — ele disse. Essa sugestão era completamente desnecessária, pois eu já tinha afivelado meu cinto de segurança esta noite.

Ainda assim, agarrei-me à porta e ao painel com todas as minhas forças enquanto ele dava um giro de 180 graus. John acelerou o carro na direção oposta, atrás do suspeito. O motor zuniu baixinho, depois mais alto quando ele acelerou. — Seria bom acionar a sirene — disse. — Foi mal — dei um peteleco em um interruptor na caixa sob o painel, acionando um som esquisito. — Foi mal de novo — apertei outro interruptor para acionar o som correto. Lois tinha passado uma chamada de tráfico de drogas no outro lado da cidade. Num jeito tipicamente Johnafter, passamos despercebidos pelas ruas com os faróis apagados até surpreender o motorista de um Kia no meio da negociação. O policial Leroy e alguns outros policiais tinham ficado para trás para realizar uma busca nos vendedores, enquanto John e eu perseguíamos o

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comprador que fugiu. — Aonde você pensa que vai? — John murmurou. Ele falava sozinho o tempo todo, eu tinha percebido isso na noite passada. Na verdade ele estava falando com os suspeitos, que não podiam escutá-lo. Em minha opinião ele trabalhava no turno da noite há tempo demais. — Por favor, não vá para o centro da cidade. — Sim, centro da cidade — eu disse, como se ele estivesse falando comigo. Corremos pelas ruas desertas e quase voamos ao passar pelo quebramolas ao lado da delegacia/tribunal/prefeitura. — Eba! — gritei. — Sempre quis fazer isso. — Não nos faça parecer Os gatões — ele disse. — Pelo menos não com a janela aberta. — Desculpe. — A rotatória não — ele disse. Certamente, o Kia entrou na rotatória no centro da cidade. Demos duas voltas atrás dele. — Droga — ele disse, e eu sabia o que estava prestes a fazer. No último segundo, jogou o carro para fora da rotatória e entrou em uma rua que era difícil de ver se você não soubesse que ela estava lá. Acelerou, passando por três curvas, e entrou novamente na rotatória para interceptar o Kia, mas o motorista foi muito esperto, já estava fora da rotatória. Suas luzes traseiras brilhavam quando passou pelo colégio. John resmungou. — Você precisa de reforço, John. Ele balançou, a cabeça, olhando para o rádio. — É o que Lois está me

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dizendo. Não há ninguém para me ajudar. Eles detiveram os vendedores e agora estão presos em uma colisão no cruzamento de Birmingham. — E se ele começar a atirar na gente? — Você assiste muita TV. Ele é insignificante, assim como Eric — saiu da rotatória e acelerou novamente. — Não quero mesmo deixar esse cara se safar. De jeito nenhum meu Ford vai ser ultrapassado por um Kia. Simplesmente não faz sentido. — John — eu disse. Sob a sirene, abaixo do motor, um zumbido fazia o carro vibrar. Ele acelerou em direção ao cruzamento da ferrovia, onde luzes vermelhas piscavam em alerta. — John! — gritei, quase sem ar, no mesmo instante em que ele pisou no freio. Derrapamos em uma parada em frente aos sinais que piscavam, enquanto o Kia continuava correndo e chiando, quando passou pela locomotiva por um triz. Observamos os vagões passarem. Nós o tínhamos perdido. Suspirando pelo nariz, John alcançou o rádio para chamar Lois. Senti o cheiro novamente. Eu tinha imaginado sentir o cheiro de perfume várias vezes no período de uma hora desde que o turno de John começou esta noite. Não era muito forte, só um pouco, por isso inspirei apenas um sopro do perfume quando ele se moveu. Não poderia ser ele. Não se atreveria a usar um perfume sexy para a prisioneira de cabelos azuis que ele achava tão detestável. Mas eu tinha quase

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certeza de que nada mais neste Crown Victoria dos anos 1990 tinha um cheiro tão bom. Inclinei-me para chegar mais perto, fingindo examinar os controles da sirene, e tentei cheirá-lo sem fazer muito ruído. Sem sucesso. Ele disse: — Tenho alguns lenços de papel no porta-malas. Era melhor admitir o que eu estava fazendo do que deixá-lo pensar que eu tinha uma coriza. — Você está cheiroso. Quando ele me encarou, meu coração parou. Depois da ronda da noite passada com minha janela aberta no frio, ele ficou mais esperto e vestiu a jaqueta policial de couro, que o fazia parecer muito mais impetuoso e perigoso. Seus olhos escuros me penetraram, mas o brilho dos postes no centro da cidade suavizou sua expressiva mandíbula e aqueles lábios delicados. Todo o seu corpo se banhou em vermelho quando as luzes do cruzamento da ferrovia acenderam e apagaram, acenderam e apagaram. Apagaram permanentemente. O trem havia passado. Ele olhou para frente, na rua vazia. — Para onde você iria? — perguntou ao suspeito. Depois se virou para mim: — Ajude-me a buscar o Kia em estacionamentos enquanto avançamos. Às vezes eles são estúpidos. Claro! Eu procuraria estacionamentos no caminho até nosso destino. Eu sabia exatamente para onde estávamos indo. Como esperado, alguns quilômetros depois ele saiu da estrada principal

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e entrou na estrada de terra em direção à ponte. — Estamos indo para esse lugar de novo? — exclamei. Já tínhamos visitado a ponte no começo do turno. Ele me passou o rádio sem retirar os olhos da estrada. — Se você alguma vez se sentir ameaçada aperte este botão para chamar Lois. Ela enviará outro carro para proteger você de mim — ele parecia quase magoado. — Não me sinto ameaçada. O que acontece é que um criminoso não se esconderia em um lugar que só tem uma saída, a qual você está bloqueando. Criminosos não se encurralam. Ele continuou pela estrada de qualquer forma e eu pensei melhor sobre o que ele tinha dito. Ameaçada? Sim, a imagem dele se aproveitando de mim passou por minha cabeça na primeira vez que ele me prendeu na ponte, e na noite passada, mas isso foi antes de eu conhecê-lo. Esse pensamento não tinha passado por minha cabeça esta noite. Tinha passado pela dele. E ele estava usando perfume. — Por que eu fiquei com você? — perguntei. Ele me encarou com os olhos arregalados. — O quê? — o carro passou por cima de uma pedra, e ele colocou os olhos de volta na estrada. — Por que estou em sua viatura em vez da ambulância ou do carro de bombeiros? Vocês sortearam palitinhos e você foi o sortudo vencedor? Aposto que todos queriam Tiffany, mas que pena...

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Eu quase esperava que ele ficasse animado com a menção de Tiffany. Ou que protestasse bastante, se delatando. Mas ele não respondeu. — John? — Eu escolhi você — disse baixinho. Engoli em seco. Provavelmente isso não queria dizer nada, pelo menos não o que eu queria que significasse. — Por que você me escolheu? Para que pudesse ficar sozinho comigo em um encontro de chamada policial? Vou contar para Angie. — Não, eu não vou dar em cima de você de jeito nenhum — ele disse, aumentando o tom de voz. Não quero que entenda mal. Não. — Claro! — gritei. Não queria gritar. Na verdade nunca acreditei que ele gostasse realmente de mim. O que acontece é que ele fez a ideia parecer abominável. — Como pude sugerir algo tão ridículo? Você não se sentiria atraído por uma garota tagarela de cabelos azuis. Claro, Eric sim. E claro, Eric está sendo acusado de vários delitos. — Não sei se chamaria isso de atração — ele disse. — Pela forma como você fala dele. Eric não é bem um namorado. É mais como um cliente de prostituta. Contei até dez silenciosamente. Eu tinha autocontrole suficiente para não da um soco em um policial. Quando cheguei ao número oito, podia sentir o ciúme em sua voz.

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Ele estava com ciúme. Não havia desculpa. Retirei meu caderno do painel e escrevi: ele não é bem um namorado, é mais como um cliente de prostituta. — Meg. — Você me chamou de prostituta. — Percebi que não deveria ter dito... — Obrigada, policial After. — É que sua relação com ele parece se basear apenas em sexo... — Então por que você não pode... — Para você pensar que ele nem te salvaria de ser atropelado por um trem... — Por que eu não posso ser o cliente? — perguntei. — Você pode ser. — Por que ele não pode ser a prostituta e eu o cliente? — Você pode ser o cliente. Meu Deus! — ele parou o carro na clareira com um solavanco. Os faróis dianteiros brilharam no cascalho, mas não chegaram a tocar o fim da Ponte. Ele se virou para mim com os braços cruzados no peito, o que obviamente não deveria ter feito, porque eu sabia exatamente o que aquilo significava: ele se sentia vulnerável.

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— Veja bem — ele disse —, eu não quis me meter nisso. Nem brincando podemos pensar que eu escolheria uma suspeita para começar uma relação. Quero dizer, aqui estamos, dirigindo para todos os lados sozinhos na escuridão, e eu com uma arma e algemas. O que ele estava tentando dizer é o quanto essa situação deveria ter sido ameaçadora para mim, mas eu não via dessa forma. Arrepiei-me na escuridão ao imaginá-lo dando em cima de mim. E verdade que eu era alérgica a algemas e não queria ser ameaçada com uma arma, mas o cenário em geral tinha o gostinho daqueles filmes indecentes para adultos e de repente eu queria muito ser adulta. Com Johnafter. Eu não conseguia ver seus olhos claramente na escuridão, apenas a parte inferior de seu rosto. Ele suavemente mordeu o lábio inferior. Vulnerável. — Por que você me escolheu? — perguntei. — Você me lembra alguém. — Com cabelos azuis? — ri. — Quem? — Não. Lembra aquela história que você me perguntou na primeira noite? Sobre aqueles jovens que morreram na ponte? Confirmei com a cabeça, já esperando a bomba. — Os jovens acham que é uma história de fantasma — ele disse —, mas os adultos se lembram disso como uma tragédia. — Como você se lembra? — Das duas formas — suspirou pelo nariz, dessa vez um longo e lento

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suspiro. — Você me lembra aquela garota que morreu. Ela era muito mais velha do que eu, mas vivia em meu bairro. Você tem os mesmos olhos que ela. Pisquei. Meus olhos são azuis. Provavelmente realçados por meus cabelos azuis. Eu não tinha verificado, mas sabia que cabelos verdes não tinham ajudado muito a destacam meus olhos. Senti um barulho baixinho no piso do carro, mais forte do que o motor. Automaticamente olhei para os trilhos e vi o círculo branco dos faróis. O trem havia cruzado a cidade e chegado até a ponte. John prosseguiu: — Ela também tinha essa ideia de que precisava de algum garoto problema para sentir-se viva. Sabia que ele a meteria em problemas, mas não se importava. O seguiria a qualquer lugar — ele gritou por sobre a buzina do trem, que era exageradamente alta através de minha janela aberta. — E o pior é não admitir a si mesma. Um garoto será sua perdição. — Nossa — tentei a maçaneta. — Deixe-me sair — bati na porta com a palma da mão. — Deixe-me sair, John, juro por Deus! Comecei a subir pela janela ao mesmo tempo em que tentava abrir a maçaneta novamente. A porta se abriu sobre o cascalho e caí de costas nas pedras afiadas. Pensei ter escutado John me chamar por sobre o ruído que preenchia a clareira, mas simplesmente corri para longe dele em direção ao trem. O capitão do time de trilha do campeonato estadual e agarrou pelo braço em dois segundos. — Meg, vamos. Devemos procurar aquele Kia. Não temos tempo para

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isso. Puxei meu braço. — Não temos tempo para que eu esteja completamente apavorada por estar passeando com você porque te lembro uma garota morta, mas temos tempo de dirigir em uma estrada de terra para nos certificarmos de que a ponte ainda está aqui. — Dei uma volta e apontei na escuridão para o lugar onde supunha que estava a ponte. — Bem, veja só. A ponte ainda está aqui. Não levantou suas vigas e se arrastou rio abaixo. — Meg. — Você não me conhece, não sabe nada sobre mim. Me viu uma vez invadindo um lugar proibido, chapada, o que, devo adicionar, é um pouco atípico para mim, independente do que você quiser pensar, e decide que já sabe tudo sobre mim? Formar-se na Academia de Polícia não te qualifica como psiquiatra. — Foi ideia sua subir naquela ponte? — Não. — Também não foi ideia daquela outra garota. O trem passou, mas dessa vez não me virei para ver as luzes traseiras desaparecendo entre as árvores. Eu estava presa em uma mirada obstinada dos olhos escuros de Johnafter. O barulho de rodas em contato com os trilhos cessou, deixando apenas o baixo zumbido da viatura. No meio da floresta, os sapos deveriam estar

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gritando embaixo das árvores, mas estávamos em março. Eles ainda não tinham acordado. — Se eu pudesse — ele começou, depois percebeu como sua voz soava alta. Limpou a garganta e disse baixinho: — Se eu pudesse salvar apenas uma pessoa, só você, tudo isso valeria apena. — Tudo isso o quê valeria a pena? Guiar-me por uma semana? Ou ser um policial, para começo de conversa? Mordeu mais uma vez o lábio. Cruzou os braços e olhou para frente, na direção dos trilhos da ferrovia. Ele queria desaparecer nas sombras, eu sabia, mas que pena, estava parado bem no feixe de luz dos faróis da viatura, tão iluminado como se fosse o número um em uma fila de reconhecimento. — John, você se tornou um policial só para poder salvar pessoas da ponte? — Não é tão simples assim — ele disse, olhando os trilhos. — Isso é um pouco estranho, John. — Não é tão simples assim — disse novamente, entre os dentes. Era realmente um problema para ele. Captei toda a sua imagem, olhos escuros, olhar raivoso, braços cruzados. Depois pensei como eu pareceria se estivesse no feixe de luz dos faróis. Tinha cruzado os braços em algum momento sem perceber. Estava exatamente como John, mas com os olhos azuis de uma garota morta. Ficamos lá parados perto da ponte, neste impasse durante o que

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pareceu ser um longo tempo. Finalmente respirei fundo e descruzei os braços com esforço, deixandoos soltos. Me senti nua. — O Kia sabe que você o está procurando e que provavelmente trabalhará durante toda a noite. Ele planeja se esconder em algum lugar até de manhã e depois se misturar ao trânsito no horário de pico em direção a Birmingham. Enquanto isso sabe que você é a única pessoa que o está perseguindo. Deve imaginar que ele não é tão importante e escolherá um esconderijo que tenha duas saídas, como eu já tinha dito. John descruzou os braços. — Por exemplo? — A pedreira. O aeroporto. Atrás dos depósitos para alugar. Olhou para o carro. — Vamos. Na sacolejante viagem de volta para a estrada principal, tentei avaliar como estávamos em termos de conversa, ou se passaríamos o resto da noite mais três outras noites neste silêncio desconfortável. Tentei algo: — Você está perdendo tempo. Ele deve ter jogado o pacote pela janela há 15 minutos. — Mesmo se eu o pegasse com algo, não adiantaria. Normalmente não adianta, ou ele estaria livre em seis meses. Só gosto de assustá-los.

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Um pouco antes de entrar na estrada principal, ele ligou o rádio, provavelmente para não ter de conversar comigo de novo. Mordeu o lábio suavemente, mas quando chegamos à estrada de terra pela da floresta que sairia atrás dos depósitos, ele já estava recuperado. Me olhando de soslaio, disse: — Infelizmente, você sabe bastante sobre como se esconder de policiais. — Não compro drogas diariamente, se é isso que você está pensando. Eu estaciono. Ele riu, mostrando as covinhas. — Não aja como se você estivesse acima disso — ri. — No próximo fim de semana será melhor eu não te encontrar nos lugares onde estaciono. — Não preciso mais estacionar. Tenho um apartamento. — É verdade, esqueci que você já tem 19 anos — eu supus que ele ainda morava com os pais. Agora imaginava como seria beijar (ou fazer outras coisas) no apartamento de um garoto. Sem policiais para te surpreender. Sem pais para chegar de repente. Com Johnafter. Que gostava de mim só porque eu lembrava uma garota morta. Bom, deixa para lá. Ele apagou os faróis e o carro deslizou para a beira de um penhasco. Lá embaixo podíamos ver o teto do Kia atrás dos depósitos. — Se você dirigir até lá — eu disse — ele vai escapar pelo outro lado.

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Era exatamente com isso que ele está contando. Você tem de caminhar até lá, apontar sua arma e gritar com ele com aquele charme que você tem. John falou com Lois pelo rádio e abriu a porta. Quando estava saindo do carro, me disse: — Você tem uma brilhante mente criminosa. — Obrigada, acho... — eu o observei descer a estrada pelo meio da floresta com a mão em sua arma, enquanto os refletores nos depósitos zuniam baixinho.

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Capitulo 8

-V

amos comer no McDonald's em vez do restaurante esta noite? — perguntei, enquanto ele dirigia o carro até o estacionamento do McDonald's.

— Não, ainda é muito cedo. Era verdade, 11h30 da noite era cedo demais para almoçar. — Só preciso perseguir esses desocupados — ele disse. Reconheci o desocupado de cabelos encaracolados como Will Billingsley, o suposto ex-amigo de John do time de trilha. Eu não o conhecia muito bem, mas sabia quem ele era. Todos sabiam quem era Will. Ele era bastante amigável. O ruivo era Skip Clark, e o negro bonitão possivelmente era Rashad Lowry. John devia estar se sentindo o máximo depois de ter conseguido prender o insignificante comprador de drogas. Ele havia encurralado o Kia, e agora estava perseguindo seus amigos? Sim, eles estavam onde os desocupados adolescentes costumavam ficar para ver e ser vistos, no canto da zona de recreação, perto das mesas de piquenique. Mas também estavam comendo

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batatas fritas, portanto eram fregueses e não poderiam tecnicamente ser considerados desocupados. John me esperou dar a volta no carro, depois atravessou o estacionamento comigo. Eu estava quase sugerindo que ele reconsiderasse suas táticas com a juventude da cidade quando Will gritou: — Pequeno Johnaftrrrrrrrr. John deu aquele sorriso, com covinhas e tudo. Quando chegou ao círculo, Rashad se inclinou para dar-lhe um abraço apertado, mas Will o conteve: — Não o toque quando ele está de uniforme. — Desculpa — disse Rashad. — Esqueci que não devo tocar o incrivelmente uniformizado Johnafter. Os sarados garotos do time de trilha eram mais altos do que eu, e John era apenas um pouco mais alto do que eles, mas eles lhe deram mais espaço do que davam uns aos outros. O uniforme azul-escuro, o peito amplo e a postura de estou no comando criava uma bolha ao seu redor. Ele parecia um deles, mas não era. Como essas coisas que parecem, mas não são. — O que conta de novo, governador? — Skip perguntou com sotaque estilo Arnold Schwarzenegger. — A implacável perseguição de crimes — John disse. Pronunciou a palavra crime com um longo sotaque sulista e uma piscadela, depois caiu na gargalhado com eles.

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Vê-lo correr no parque abriu uma fresta na janela para que eu pudesse espiar sua alma, mas vê-lo com seus amigos escancarou janela. Ele tinha uma atitude tão adolescente. Como se pudesse ler minha mente, ele se virou para mim e sussurrou — Você não me viu rir — e aos demais, disse: — Não me façam rir quando estou de uniforme. Skip lhe perguntou sobre o trabalho, e Will olhou para mim: — Conheço você da escola. Meg, certo? — Isso mesmo. — Por que você está fazendo rondas com John? Aposto que você é um daqueles suspeitos da ponte. — Não, ela está disfarçada — John gritou. — Ah, como Sydney na série de TV Alias — Will disse. Das possíveis comparações, essa era bastante lisonjeira. Ele puxou um tufo de meus cabelos para ver se era uma peruca. A desaprovação brilhou no rosto de John. Imaginei que ninguém poderia me tocar quando ele estava de uniforme. Will percebeu o olhar de John e tirou a mão. Falando alto o suficiente para que John escutasse, me perguntou: — O que você está achando do policial After até agora? — Ele é um excelente motorista.

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— Não foi sempre assim — disse Will. — Eu o ensinei a dirigir. A Academia de Polícia pode ter ajudado um pouco — pronunciou as palavras Academia de Polícia de forma estranha, assim como John fazia. Parecia ser uma brincadeira antiga entre eles. — Vamos ao Redneck Riviera amanhã — disse Rashad a John. — Quer vir? — deve ser por isso que eles estavam passeando por esta cidade. Tinham parado aqui para visitar seus pais no caminho para o cabo da Flórida para as férias de primavera — Já perguntei — disse Will — Ele tem de trabalhar — Só porque você não está na escola não significa que não merece ter férias de primavera — disse Rashad a John. — Os brutos também amam. — Parece que ele já tem alguém — disse Skip. Todos olharam para ele sem expressão. Ele quis dizer eu? — De qualquer, forma — disse John —, não creio que eu seria bemvindo, se Eric for. — Ele não vai — disse Skip. — Seus pais o colocaram de castigo por causa do incidente da ponte. Você pode imagina? De castigo. De fato eu não conseguia imaginar. John e Eric tinham a mesma idade, mas John era policial, e Eric estava de castigo. — Ele não está exatamente de castigo — disse Rashad. — Vi sua BMW há cinco minutos.

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— O castigo não inclui sua BWM — disse Will. — Ele só não pode dirigir 400 quilômetros até a praia. Dá um tempo. Vocês não queriam que castigo significasse para ele a mesma coisa que significa para todo o mundo, não é? Skip começou a imitar Eric: — Sou melhor do que vocês — disse, com uma voz chapada. — Já terminei o segundo grau! Rashad gargalhou, mas John e Will não riram. Na verdade, Will parecia dar a Rashad e Skip um olhar de alerta que eles não perceberam. John apontou para mim: — Café? — acenei com a cabeça e ele se virou e caminhou em direção ao McDonald's. Quase o chamei para dizer como eu queria o café: com creme e três cubos de açúcar. Mas, depois de uma noite comigo, ele já sabia como eu gostava do café, afinal, tomávamos muito café. Will manteve o olhar sobre John até a porta do McDonald's se fechar atrás dele Depois gritou: — Skip, seu idiota. Para que você falou aquilo? — O quê? — Skip perguntou, inocentemente. — Tirando sarro de John por não estar na faculdade? — Eu estava tirando sarro de Eric, não de John. — Além do mais — disse Rashad —, John foi além do segundo grau. Ele

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se formou na Academia de Polícia — Rashad também pronunciou essas palavras de forma estranha. Todos estavam na brincadeira. Eles devem ter provocado John bastante no verão passado, quando terminaram o segundo grau e todos foram morar fora, menos John. Will balançou a cabeça e se virou para mim: — Então você é namorada de Eric? Como é isso? — Não sou exatamente sua namorada. — Pensei que vocês estavam namorando. Pensei ter escutado John dizer que surpreendeu vocês juntos na ponte. — É mais como uma associação. Will abriu a boca e cobriu-a com a mão, fingindo uma cara de horror. Por sorte Rashad e Skip estavam conversando e não perceberam. Do contrário, eu teria feito Will pagar pelo que fez. — Caso você ainda não tenha percebido — ele disse —, Eric é problemático. Você deveria ficar longe dele. Encolhi os ombros — Ele não é tão mau. É um rito de passagem envolver-se em confusão quando você é um calouro na faculdade, não é? Descobrir algo sobre você mesmo ou sei lá. — Eric se descobriu há muito tempo — disse Skip. — Descobriu que é um drogado — Talvez você não o conhecesse bem na escola — Will me disse —,

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mas todos nós aprendemos nossa lição sobre Eric no sexto ano, quando ele espalhou gasolina em um acampamento de escoteiros. — E John contou ao monitor — Rashad entregou. — E John contou ao monitor! — Will disse, sorrido — Virou uma disputa sanguinária. Encolhi os ombros novamente. — Como eu disse, de qualquer forma não tenho nada sério com Eric. — O que você acha de... — Will apontou para o McDonald's. — Quer saber se existe algo sério entre John e eu? — meu coração acelerou com essa ideia, excitante e assustadora ao mesmo tempo. Recordei a mim mesma que ter algo sério com John não era uma possibilidade, apenas um mal-entendido da parte de Will. — John não gosta muito de mim. Os três começaram a gritar. — Quando vocês saíram do carro e caminharam até aqui — Will disse —, ele estava com a mão na sua... Ele colocou a mão na altura da minha cintura por detrás, mas sem me tocar. — Ele estava com a mão em minha bunda? — Não — eles disseram. — Nas suas costas — disse Rashad. — Como se vocês estivessem namorando ou algo assim — colocou a mão nas costas de Skip, que lhe deu um

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tapa. — Foi o suficiente para nós três notarmos — Will disse.

Eu queria dizer: Mas meu cabelo é azul, mas decidi que não era necessário. — E ele tem um cheiro bom — disse Will. Skip cheirou Rashad. — Você tem cheiro de adolescente. Enquanto Skip e Rashad se empurravam, olhei para Will e disse baixinho: — Eu lembro ao John a garota que morreu na ponte. Will ficou imóvel. — Ah, é verdade. Você bagunçou a ponte dele. Ele é obcecado por aquela ponte desde que tinha 9 anos. O que ele não tem de objetividade, compensa em persistência. — Ai vem o bonzão — disse Skip. — Aja naturalmente. John voltou ao círculo, me passou um dos copos de café e parou entre Will e eu. Will se afastou. John olhou para nossos rostos. — Confessem. — Nunca — disse Skip, imitando a voz de Schwarzenegger. — Encontrei Angie no Target — Will disse a John. — Ela vai ficar com os pais está semana.

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— Por que ela não vai para a Flórida? — John perguntou. — Ela disse que espera ver você enquanto estiver aqui. John se surpreendeu. — Por quê? Ela terminou comigo! — Garotas são nojentas e têm piolho — Will olhou para mim. — Perdão. — Angie vai à minha festa quando voltarmos no sábado à noite — disse Rashad. — Você pode pelo menos ir à festa, John. Independente de querer vêla ou não. — Tenho de trabalhar — John disse. — Há muito trabalho a fazer para as pessoas da Califórnia — disse Skip Schwarzenegger. — Você gostaria de vir à minha festa? — Rashad me perguntou. — Eric provavelmente estará lá. Que eu saiba Eric nunca perdia uma festa, mesmo quando não era convidado. John disse Não quando perguntei onde era. — Virando a esquina de Five Points — disse Rashad. — Sabe onde é? Eu adorava Five Points, a parte pomposa de Birmingham perto da UAB, cheia de lojas legais e prédios residenciais dos anos 1920. No centro do cruzamento havia uma fonte com estátuas de animais. Um enorme carneiro

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segurava um livro e lia para um urso, um coelho em cima de uma tartaruga e outras criaturas da floresta. Algumas pessoas diziam que o carneiro era o diabo. Ele tinha chifres e garras e contava histórias a outras bestas. E cinco sapos formando de um pentagrama jogavam água nele. Mas a fonte ficava em frente a uma linda igreja antiga, com uma sinagoga de vidro no fim da rua. Era de se esperar que o diabo fosse neutralizado pelos templos religiosos. — Estarei lá — eu falei, ao mesmo tempo em que John disse: — Ela não vai, só tem 17 anos. Enquanto Rashad me passava os dados do prédio e do apartamento, John se aproximou mais de mim. — Rashad, ela tem 17 anos. Olhei para ele: — Vou fazer 18 anos em maio. — A festa é em março — o pequeno rádio em seu ombro de repente zuniu com a estática e com a voz de Lois. Ele falou por alguns segundos, depois colocou a mão em minha nuca. — Assuntos oficiais da polícia. — Deixa a garota em paz — disse Skip. — Ela tem de passar pela inspeção estadual. John apertou sua mão em meu pescoço por alguns segundos, depois a soltou. Ele estava atrás de mim, por isso não pude ver quando encarou Skip. Deve ter sido feio. Skip mostrou as duas mãos. — Estou brincando.

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John e eu voltamos para o carro. Quando entramos, ele deu partida no motor e eu apertei o botão correto da sirene. Deveria ser excitante investigar outro crime, mas eu só conseguia pensar em sua mão na minha nuca. Aconteceu tão rápido — estava lá, depois não estava mais. Mesmo assim, meus cabelos eriçaram. Enquanto John saía do estacionamento, Rashad e Skip conversavam e Will observava nosso carro. Rashad bateu no ombro de Will, mas ele continuou nos observando. Não tirou os olhos da viatura, como se esperasse que ela se incendiasse. Aceleramos pela cidade, com a sirene tocando. Quando chegamos à cena do crime, o roubo já tinha terminado. Vizinhos disseram que as vítimas estavam fora da cidade por causa das férias de primavera. O policial Leroy estava de guarda. Não havia muito que John podia fazer. Apenas algum trabalho oficial, como isolar a cena, fumar um cigarro e esperar por uma hora até que o detetive aparecesse. John também fazia muita cara feia. Eu o segui pela casa saqueada, pisando em móveis quebrados e tentando puxar conversa. Sempre que eu fazia uma pergunta, ele dizia: — Não toque isso. — Vocês são promovidos de policiais a detetives em algum momento? — Se a pessoa quiser. Eu não quero. Não toque isso. — Entendo... Você é todo machão, não é? Não quer um trabalho de

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escritório. Quer a emoção da caça, a adrenalina. — Não, eu simplesmente não quero ser detetive. Eles descobrem o que aconteceu depois do fato, quando já é tarde demais. Quero evitar que aconteça. Não toque isso. — Sim, você foi bastante útil para essas pessoas. Quando elas voltarem das férias e virem que os ianques roubaram sua prata, vão querer conhecê-lo e agradecer-lhe pessoalmente. Talvez até comprem um bolo para você. — Meg, pela última vez, vocês está interferindo nas evidências. Não toque em nada, saia daqui. Vá me esperar no bendito carro. Bati a porta da cena do crime quando saí. Sentei no bendito carro, abaixei os vidros das janelas, liguei o aquecedor para não congelar na escuridão e liguei o rádio. Dirty little secret de novo. Percebi na noite passada, depois que tocaram essa música pela sexta vez, que ninguém se importava em administrar a estação de rádio nas madrugadas. Eles juntavam 20 músicas em um rodízio infinito. Além do mais, essas músicas formavam uma mistura estranha, como se alguém tivesse pegado um monte de CDs e os jogado na máquina antes de ir para casa dormir. O grupo My Chemical Romance cantou The Ghost of You. Coloquei meus pés no painel do carro. Agora uma música melosa de Phil Collins de algum filme da Disney. O banco não reclinava. A grade de metal que separava o banco dianteiro do banco para criminosos estava no meio do caminho. Encostei minha cabeça

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na porta e fechei os olhos. Mariah Carey cantava Touch my body. Inclinei-me para frente e aumentei o volume o mais alto que consegui aguentar, só para contrariar. Estava alto o bastante para acordar a vizinhança, mas eu estava cansada o suficiente para dormir, independente de qualquer barulho. Relaxei e fechei os olhos novamente. — Maldição — John abriu sua porta com um solavanco e desligou o rádio, depois se sentou e deu partida no motor. O carro do detetive estava estacionado na nossa frente. Imaginei se causei algum problema para John. Na verdade eu não me importava. Retirei os pés do painel. Alguns minutos depois, ele estacionou no Cafextra! Cafextra! Excelente, poderíamos compartilhar uma refeição com esse humor. Seria bom para a digestão. Fiquei ainda mais irritada quando ele pendurou sua jaqueta de couro no suporte da porta, como se fosse o dono do mundo. Suponho que para isso serve esse suporte. Nunca vi ninguém usá-lo antes. Ele se dirigiu à mesa do moinho de vento, como na noite passada. — Espere aí, policial — eu disse, atrás dele. — Sofri por ter ficado na mesa do moinho quando pensava que você tinha 40 anos, mas agora sei que você tem 19. Vou me impor. Ele olhou em volta no restaurante. — O quê? Ah, você quer dizer os saleiros e pimenteiros de moinho.

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— Minha mãe coleciona saleiros e pimenteiros. Meus pais se divertem facilmente — apontei para um dos cantos. — Não posso me sentar à mesa do moinho. Ela me causa claustrofobia. Sempre me sento à mesa do unicórnio perto da janela. — Não posso me sentar perto da janela. É muito exposto. Ele queria dizer muito vulnerável. — Vamos ficar no meio então — ele disse. Acabamos nos sentando à mesa do Elvis. Purcell nos serviu café, felizmente. — Você realmente pensou que eu tivesse 40 anos? — John perguntou. — Por que pensou isso? Por causa de meu corpo másculo? Seus olhos escuros me desafiaram. Eles eram como armas que podiam me ferir. Essa era a pior coisa neles: eu podia ver que se Johnafter me amasse, seus olhos escuros seriam lindos, amigáveis e acolhedores. Portanto, cada vez que ele me cortava com um olhar frio, distante e feio, era um duplo insulto, uma lembrança do que eu nunca poderia ter. Percebi que eu evitava seus olhos escuros sempre que era possível. — Acho que são os cabelos — eu disse. Ele tocou a nuca e quase passou os dedos pelo corte militar. — Então... — deslizou um dos bustos de Elvis em sua direção. Um pouco de sal caiu do nariz do Rei. — Parece que você se deu bem com meus amigos. Esse era o motivo da cara feia?

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— Para um funcionário público em tempo integral, você é bem imaturo. Quando é seu aniversário? Ele virou o saleiro de Elvis, fazendo o sal voar em todas as direções. — Dezembro. — Viu? Sou um ano e meio mais nova do que você. Como os garotos são dois anos atrasados em nível de maturidade em relação às garotas, na verdade sou seis meses mais velha do que você. Ele colocou Elvis de volta no lugar, perto do açúcar, e me olhou: — Isso é para garotos do colégio. Eu tenho 19 anos. — Nossa 19! Você provavelmente ainda nem terminou de crescer. Ele se ajeitou no banco e esticou os braços sobre sua cabeça. — E daí? Sou um dos mais altos na tropa. Quase ri da ideia de nossa policia de cidade pequena como uma tropa. Não acho que você deveria ser contratado como policial antes de atingir sua total altura de adulto. Parece bárbaro. Nunca ouvi falar de um policial de 19 anos. — E preciso ter 21 anos na maioria dos lugares, mas há alguns em que você pode ter 19. Polícia de Montgomery Patrulha Rodoviária da Flórida. — Parece que eles deveriam ter outro policial dirigindo com você. Quero dizer, qual é... Você só dirige há três anos. — Na verdade tinham. Leroy dirigia comigo até o mês passado, mas eles tinham pressa para me colocar em meu próprio veículo porque precisavam de

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outra pessoa no turno da noite — ele bocejou. — Turno da noite ou não, parece um enorme elogio. Se eles te colocaram na patrulha sozinho, cofiam sua vida a você. Ou pelo menos sua viatura. — Acho que sim, mas também me ameaçaram. Disseram que era melhor eu não fazer besteira, ou... Já assistiu Coração Valente? — Não... — Sabe o Mel Gibson? Eles cortam fora... Bem, está quase na hora de comer — sorriu palidamente para combinar com a imagem triste. Mesmo assim, suas covinhas apareceram. — Agora você parece um jovem de 19 anos — tentei não dizer isso de forma muito terna. — O que você fez depois de se formar no colégio e antes de começar esse trabalho? Muita festa? — Não, fui para a Academia de Polícia. — Claro, a Academia de Polícia. Por favor, me diga que pelo menos saiu e se divertiu em seu aniversário de 19 anos. — Não, vim trabalhar. Foi meu primeiro dia no trabalho. Noite, na verdade — falou com aquela voz autoritária, calma na superfície, mas com uma ameaça implícita. — A maioria dos adultos não aproveita qualquer oportunidade disponível para beber até cair. Você ficou com Eric tempo demais, ele não vai chegar aos 30 anos. — Meu Deus, ele é inofensivo.

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— Eu não teria tanta certeza, principalmente quando ele está perto de você. Nunca se sabe o que acontece com os casos domésticos, eles são totalmente imprevisíveis. — Domésticos! Não somos um caso doméstico. Não somos casados. Eca — me contorci ao imaginar a cena, que era provavelmente o que John queria. — É assim que chamamos — ele disse. — Doméstico. — É assim que vocês chamam o quê? Não estamos morando juntos. Não é nada sério mesmo. — Vocês estão fazendo sexo. Não, há mais de uma semana, pensei. Mas consegui me conter e não falei nada. Percebi bem a tempo como soaria idiota. — Portanto, vocês são um caso doméstico — John disse. Eu não tinha de dar nenhuma explicação a ele, e não acreditava que essa atração que eu sentia por ele algum dia se concretizaria. Ainda assim, me incomodava o fato de ele me considerar uma espécie de prostituta. — O que acontece é que eu não queria nada realmente com ele — eu disse. —Eu queria em geral. Essa explicação provavelmente não amenizou meu perfil de prostituta. — De qualquer forma — tagarelei desatinadamente —, agora eu me arrependo um pouco, porque ele é maluco. John concordou com a cabeça

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— Doméstico.

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Capitulo 9

J

ohn me congelou com aquele olhar obscuro. Parte de mim queria agarrar seu olhar e segui-lo a todas as partes, caso eu pudesse convertê-lo a meu favor. A outra parte queria escapar

desse olhar obscuro. Olhei em volta para as mesas vazias: mesa de borboleta, mesa de bota de caubói, mesa do Liberace. Gostaria de poder ver a chapa daqui. Imaginei se nossa comida demoraria muito. Qualquer coisa para distraílo. E a mim. — Ele não é seu tipo disse John. — Olhei para ele: — Claro que é meu tipo. Eu também não vou chegar aos 30 anos. Ele me encarou por alguns segundos. Depois piscou. — Não Eric. Eu estava falando de Will. — Will! Billingsley? De onde você tirou isso? Do McDonald's? Ele respirou profundamente. Tão profundamente que pensei que estava prendendo a respiração enquanto esperava minha resposta. Abaixou os ombros e pareceu relaxar um pouco.

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— Tudo bem, talvez não estivesse rolando nada entre vocês dois no McDonald's. — Ele puxou meu cabelo, John. — Mas eu queria que você soubesse que e ele é cara legal. — E por isso não é o meu tipo, certo? — meu Deus, será que ele me achava tão galinha assim? — Eu poderia tentar ficar com um cara legal. Poderia ensinar-lhe algumas coisas. Seus ombros ficaram tensos novamente. — Ele é um cara legal, e se apaixonaria por você, e você partiria seu coração. Inclinei-me para frente até que meus seios se apoiaram na mesa como um saleiro e um pimenteiro gigantes. A mesa de peitos. — Não tem problema. Prefiro ainda mais que os garotos me ensinem coisas. Seu olhar obscuro encontrou meus seios brevemente, depois subiu para meus olhos. — Estamos nas férias de primavera. Não há aulas — ele tomou seu café como um adulto. Tomei meu café e o analisei. Notava-se a obstinação em seu rosto. A forma como ele olhava em direção às janelas a cada segundo para ver se havia algum perigo. Eu sabia o que ele estava pensando. Não estava realmente com ciúmes, mas parecia. Éramos uma garota e um garoto patrulhando à noite juntos, e ele

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não tinha nenhuma outra distração. Não queria sair comigo, só estava interessado em mim por falta de algo melhor para fazer, por que estava solitário. E porque eu o havia revitalizado na primeira noite na ponte ao fazêlo recordar a garota morta. Deve existir algum tipo de cartão para essa situação. — Eu nunca namoraria Will, mesmo se ele não fosse um cara legal — eu disse, com sinceridade. — Foi divertido flertar com ele, mas todos sabem que ele faz isso com todos. Ele faz as pessoas se sentirem bem consigo mesmas. Também é como um tipo daqueles clubes de drama que diz coisas muito engraçadas com voz alta e gestos espalhafatosos, como se quisesse que as pessoas olhassem para ele. A sobrancelha de John se contraiu. — Você está se descrevendo. — O quê? — É por isso que não gosta dele. — Não estou me descrevendo. Ele sorriu. — Não me diga que não quer que as pessoas olhem para você. E você provavelmente tem muitos amigos. É carismática — Carismática — admiti — e meio sem noção. Não tenho nenhum amigo porque irritei todos eles. Eu deixo as pessoas plantadas. Sua sobrancelha se contraiu novamente. — Por quê?

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— Ah, os garotos me convidam para encontros, ou as garotas me chamam para sair. Parece divertido, e quero, mas depois, quando chega a hora, não consigo cumprir. Odeio planos. Me sinto... — busquei a palavra. — Algemada — tremi. — Algemada ao plano? — À outra pessoa. — Então como você namora Eric? — Nós não namoramos. — Certo — John concordou com a cabeça. — Só transam. Agora ele tinha ido longe demais. — John... Ele abriu as mãos sobre a mesa, — Como você vai ter um relacionamento? — Acho que ficarei sozinha. Eu quase podia ver as rodas girando atrás dos seus olhos escuros, processando essa informação e buscando um furo na teoria. — Você chegou na hora combinada para meu turno nas duas noites até agora — ele lembrou. — Sim, e perdi alguns anos da minha vida. — Você planejava ir a Miami para as férias de primavera.

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Sorri docemente para ele. — Obrigada por me lembrar disso. Sim, eu planejava ir, o que envolvia ir até o ônibus em um determinado horário, mas não planejei sair com uma determinada pessoa ou fazer uma determinada coisa quando chegasse lá. Eu estava aberta. Ele se esqueceu, e passou a mão pelos cabelos curtos na nuca. Depois se lembrou, e tirou a mão. — Você é amiga de Tiffany. E obrigada por trazê-la para a conversa. — Não tanto. — Não estava conversando com ela pelo telefone ontem à noite? No carro? — Ela é a única pessoa que conheço que estava acordada àquela hora — isso não era bem verdade, pois até Tiffany e os paramédicos estavam dormindo quando eu liguei para ela. — Mas vou te comunicar um plano que já fiz: vou à festa de Rashad no sábado à noite. Ele mordeu o lábio inferior. — E quando eu estiver lá, talvez você possa patrulhar com Tiffany. Parece que você se dá muito bem com ela. Nos afastamos da mesa quando Purcell se meteu entre a gente com seus braços tatuados, para colocar os pratos. Eu não tinha percebido o quanto estávamos inclinados em direção um ao outro.

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— Tiffany é bonita — John disse do outro lado da mesa, o que parecia um grilo por meio do Grand Canyon em comparação a como estávamos conversando antes. — Ela é legal. Não sexy, se é o que você está insinuando. Eu queria informar ao policial After que não estava insinuando nada sobre Tiffany. Estava apenas tentando obter informações sobre mim. E agora eu imaginava se ele estava insinuando que eu não era bonita, que eu não era legal. Foi o que entendi. Ou que eu era sexy. Poxa, qual é o meu problema? Ele não estava nem me olhando, já estava engolindo sua comida. Peguei meu garfo. — Por que não pede uma noite de folga para que você possa ir à festa? Ele retirou os olhos da comida. — Não posso pedir folga para ir a uma festa de faculdade. — Por que não? — As pessoas pedem folga para ir à reunião de colégio de sua esposa ou ao casamento de seu filho, não para ir a uma festa de faculdade. — As pessoas não têm 19 anos. Todos deveriam ter o direito de pedir folga para o que é importante para eles — apontei para seu prato. — O que você tem aí? Bife e ovos com verduras cozidas ao vapor? Muito saudável. Proteína e vitaminas, a refeição de um corredor. Tudo o que falta é fumaça. Que pena que você já fumou seu cigarro noturno.

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Ele sorriu para mim, mostrando uma covinha. — O que você pediu? — O Especial Meg. — Ovos? — Tipo uma omelete Texas-México. O Especial Meg é diferente a cada dia — dei uma garfada, mastiguei e desesperadamente quis colocar tudo para fora. Engoli e bebi o café para ajudar a descer, mas não ajudou muito. — Saboroso? — John perguntou. — Um pouco apimentado — resmunguei. — Precisa de um pouco de água? — Não posso pedir água — sussurrei. — Devo ter cuidado para solucionar isso. Se eu irritar Purcell, sabe se lá o que ele servirá às pessoas pelo resto da noite — acenei para Purcell e ele deixou a chapa, caminhando em nossa direção. Sorri. — Quanta pimenta você colocou? — Metade. Meu Deus, metade de uma colher de pimenta em dois ovos. Não é de se estranhar. — Eu gostei, mas acho que está um pouco apimentado demais para a clientela. Vamos tentar um oitavo. Purcell balançou a cabeça brevemente e começou a caminhar. — Água, por favor — John pediu, murmurando para mim: — Estou com sede hoje.

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Purcell trouxe um copo de água, e quando voltou para a chapa, John apontou para o copo. Observando Purcell com o canto do olho, bebi metade da água e deslizei o copo de volta para ele. — Obrigada — respirei. — Experimentando com os clientes? — Eu disse a ele para colocar um oitavo da colher quando saí. Ele esqueceu. — Por que você não deixa anotado? — Ele não sabe ler — dei uma grande garfada na omelete para me livrar o mais rápido, depois um gole de café e outro longo gole da água de John. — Tento trabalhar com ele porque é um bom funcionário. Sempre aparece. Meus pais não entendem isso. —- Você vai ficar aqui quando terminar o colégio para ajudar a tocar o restaurante com eles? — John deu mais uma garfada em sua bendita comida saudável. Ri. — Deus me livre. Vou embora na noite do dia 7 de junho, depois da formatura. Nem vou ficar para a festa. E isso já diz tudo, porque para que eu perca uma festa. Ele engoliu.

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— Você conhece esta cidade tão bem. Até melhor do que eu. Este lugar é seu. É um motivo realmente bom para ficar. Engraçado, eu nunca tinha me sentido claustrofóbica na mesa de Elvis antes. Olhei em volta no restaurante. Talvez fosse o jukebox, que zunia baixinho quando ninguém colocava uma moeda para escutar uma música. Talvez o zunido tenha me deixado nervosa, mas meu olhar se fixou em John, e eu sabia que ele estava me deixando nervosa. Conversando comigo como se estivesse falando com uma garota morta. Tentando me prender aqui. — É um motivo ainda melhor para ir embora — eu disse rapidamente. — Você não sente nenhum carinho por seus pais? Não quer ficar aqui e ajudá-los? — Eu os ajudei bastante. Eles me obrigam a trabalhar aqui e não me pagam. É praticamente trabalho escravo, como andar atrás de você na patrulha. Ele continuou comendo, como se o que eu dissesse não tivesse nada a ver com ele, mas parecia magoado. Aquelas linhas de preocupação apareceram entre suas sobrancelhas. Eu não conseguia resistir a ele quando sua faceta de menino surgia. Abaixei meu tom de voz. — Eles não precisam da minha ajuda. Só fingem que precisam para me manter perto. São superprotetores, é para deixar a pessoa maluca. De verdade. — Superprotetores, por quê? — ele perguntou, sem levantar os olhos do prato. — Filha única?

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— Sei lá. De qualquer forma, eles dizem que precisam de mim, mas não precisam. Vão contratar outra pessoa, assim como fizeram para suprir suas ausências esta semana — dei minha última garfada. — E se você for embora e eles fecharem o negócio? Não vai se sentir culpada? Desculpe — ele deixou o garfo na mesa. — Não quis te deixar chateada. — A pimenta, John — bebi sua água, funguei e sequei os olhos com um guardanapo de papel. — Claro que não vou me sentir culpada. E a melhor coisa que posso fazer por eles. Se eles não conseguem tocar um restaurante sozinhos, precisam voltar a vender lâminas de vinil. Não posso fazer isso por eles. Sempre seríamos dependentes um do outro e sempre estaríamos infelizes, nos sentindo pressionados e nos decepcionando. — Hum... O que você vai fazer quando crescer? Olhei para ele. — Legal. Tenho uma bolsa de estudos para a UAB. Ele soltou o garfo. — Você? Conseguiu uma bolsa de estudos? — Não é uma bolsa de estudos por ter boas notas — eu lhe assegurei. — É uma bolsa de estudos por ter dois pais fracassados que mal conseguem manter um restaurante livre da falência. — Mesmo para uma bolsa de estudos baseada em necessidade, você tem de ter boas notas — ele se acomodou no assento e me encarou como se nunca

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tivesse visto uma garota com cabelos azuis antes. — Não se preocupe. Não vou contar a ninguém. — Tá bom. — Mas como você vai poder pagar as outras despesas? Alojamento e alimentação? — Vou arrumar um emprego e alugar um apartamento barato na zona sul com uma colega de quarto ou duas Ele balançou a cabeça. — Tiffany. — Ainda não pensei nisso — eu disse. — Isso envolveria planejamento e compromisso, — Certo — ele continuou me olhando com uma expressão séria. — Em que você vai se formar? — Administração, para poder dirigir hotéis e restaurantes. Ele riu. — O que é tão engraçado? Eu gosto de fazer isso. Só não quero fazer isso aqui. Ele riu de novo. — Desculpe. Não consigo imaginar você administrando nada — continuou rindo até que levantou o olhar e viu meu rosto. — O que foi? — Eu coordeno os registros deste lugar desde que tinha 11 anos, com

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alguns meses livres quando tinha 13 anos. — Bem, como eu poderia saber... — Eu me sentei aqui e te contei que consegui uma bolsa de estudos para a universidade, e você age como se precisasse me salvar. — Se você me contasse essas coisas logo... — Por que eu deveria? Nunca quis te impressionar com minhas credenciais. Você é que começou esse interrogatório de como salvar as crianças. Ele se endireitou no banco do carro para parecer mais ameaçador. ��� Era de se imaginar que alguém na sua situação, encrencada como você está, tentaria causar uma melhor impressão na polícia. Era de se imaginar eu não conseguia lembrar porque me apaixonei por esse idiota. — Na verdade, eu estava muito bem até você aparecer naquela ponte. Ele abriu a boca, como se não acreditasse. Me senti encolher sob seu olhar obscuro e frio. — Meg, você estava bêbada, chapada, deixando Eric Wexler passar a mão em seu corpo, e a cinco minutos de ser atropelada por um trem. Virei os olhos. — Suponho que eu deveria lembrar a você mais uma vez que eu não fui atropelada por um trem. Cometi um erro. Se eu entregar minha proposta aos

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chefões, tudo vai ficar bem. Acho que você tem medo de aproveitar a vida e está projetando isso em mim. — É exatamente o contrário. Você se sente culpada por querer morar fora e está tentando virar o jogo e me fazer sentir como um idiota por ficar aqui. — Você está errado — eu disse, porque ele estava mesmo. Mas agora que ele havia mencionado isso, eu poderia fazê-lo sentir-se como um idiota por ficar nesta cidade. — Busquei você no anuário do ano passado e vi que teve a maior pontuação no Exame de Qualificação. Com certeza deve ter recebido ofertas de bolsas de estudos. Seu bife de repentinamente exigiu sua atenção. — Tremendas bolsas de estudos — eu disse — Você era capitão do time de trilha no campeonato estadual. Suas verduras também precisaram ser cortadas em pequenos pedaços. — É bem comum às pessoas adiarem a universidade por um ano — eu disse. — Você ainda pode ir para a UAB e juntar-se ao time de trilha com seus amigos, e a universidade te daria a bolsa de estudos novamente. Poxa, com seu treinamento na Academia de Polícia, você poderia conseguir um trabalho com bom salário como guarda de segurança ou trabalhar por contrato enquanto o resto dos estudantes, como eu, nos escravizaríamos, atendendo mesas para pagar o aluguel. — Tenho um trabalho a fazer aqui — resmungou. — Que trabalho? Sua estranha compulsão de proteger e servir? Você

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pode fazer isso em qualquer lugar. Por que tem de ser aqui? — Este é meu lar. — Achei que morasse sozinho em um apartamento. Sua família está na cidade? Ele olhou para mim. — Você quer dizer minha mulher e meus filhos que leem mangá? Senti meu rosto ficar vermelho. Muito bom. — Quero dizer seus pais. Ele balançou a cabeça. — Eles se divorciaram quando eu tinha 9 anos. Minha mãe ficou na cidade por alguns anos depois disso, porém não conseguiu mais aguentar e foi embora. Mora na Virginia. Meu pai queria que eu terminasse a escola onde comecei, por isso ficou comigo até minha formatura. Depois foi embora. Mora no Colorado. — Este restaurante é o que você tem de mais parecido a um lar — meditei — Você é como um colono solteiro no prado que faz todas as refeições na cidade. — Se eu fosse um colono solteiro no prado, saberia manejar uma frigideira de ferro e carne de porco — ele estava olhando para o prato, mas suas covinhas apareceram quando sorriu para si mesmo. — Seus amigos se foram, sua família se foi e você não está morando na casa onde cresceu. O que faz desta cidade seu ar? O que você ainda tem aqui?

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Só a ponte? As covinhas desapareceram. — Digamos, hipoteticamente, que você tivesse ido para a UAB — sugeri. —Você se formaria em justiça criminal? — Não, seria uma perda de tempo. Isso me surpreendeu, considerando como ele gostava de sua vida de policial. Depois pensei que poderia descobrir mais coisas. Mirei mais alto. — Curso preparatório para Direito? — Não. Pegar as pessoas nesta fase final não ajuda. Você se forma em justiça criminal ou direito para aprender a mandar os acusados para a cadeia da forma mais econômica possível e impedi-los de se matar enquanto estiverem lá. Mas eles passam a maior parte do tempo na cadeia aprendendo como cometer crimes maiores e melhores. Para quê perder tempo? — O que você estudaria então? — Não vou para a universidade, portanto não faz diferença. — Hipoteticamente, lembra? Entre uma garfada e outra, ele disse: — Arte. Meu queixo caiu. — Arte!

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— É o que todo o mundo me diz. E esse é outro motivo para não ir à universidade. Não dá para viver de arte. — Algumas pessoas conseguem, com algum esforço. Só que era a última coisa que eu imaginaria para você — por alguns momentos, observei-o enquanto comia. O policial After em seu uniforme azul-escuro, eu não conseguia imaginá-lo formando-se em arte. Será que ele pensava que arte era para maricas? Johnafter correndo no parque? Talvez. Johnafter na aula de espanhol? Definitivamente. — Você poderia pelo menos trabalhar como policial e ao mesmo tempo estudar arte, assim se sentiria mais realizado porque estudaria o que deseja. Se não, sempre será amargo com sua mulher e seus filhos que leem mangá. Sempre vai pensar que deveria ter ido embora e vivido sua vida quando teve a oportunidade — abaixei a cabeça, tentando encontrar seus olhos, que ainda estavam focados na comida. Ele não me olhava. — Por que arte? Atacou o bife com sua faca novamente. — É uma forma de comover as pessoas, mudá-las e evitar que elas machuquem e machuquem outras pessoas. A arte é a forma mais eficaz de comunicação. Você pode usá-la para elevar o espírito humano e fazer as pessoas perceberem que a vida é muito mais do que a próxima viagem de metanfetamina — deu uma garfada, mastigou lentamente, olhou para mim, engoliu. — Qual o problema? Percebi que eu estava boquiaberta. — Nenhum — fechei a boca.

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— Desculpe, esqueci que policiais deveriam ser burros. — Eu nunca disse que você era burro. — Você não precisa ir à universidade para ser policial. Só tem de saber dirigir. Ler. Escrever. Ou não — repetiu o que eu disse naquela primeira noite na ponte. — Perdoe-me por fazer um comentário grosseiro quando você tinha acabado de me prender! — quando Purcell se inclinou sobre a mesa com uma jarra de café, eu disse: — Garçom, este não foi o policial que eu pedi. Eu queria um com muito menos tempero. Purcell fez uma careta e se virou. — Seus pais não me pagam o suficiente para isso. John observou Purcell voltar para a chapa. Depois se inclinou para frente na mesa e disse, calmamente: — Não vou à universidade. Tudo o que você está fazendo é me deixar insatisfeito com meu destino Inclinei-me para frente também e sussurrei como se fosse um grande segredo. — Seu destino? O destino é algo que você constrói. É a oportunidade. Você não tem esta por acaso. Você a escolheu de propósito. Se está insatisfeito com ela, pode mudar. — Não estou insatisfeito — inclinou-se para trás e aumentou o tom de voz para um nível normal, como se tivesse pressionado um interruptor. —

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Então você quer se formar em administração para poder gerenciar um restaurante que não é o restaurante de seus pais. Suspirei e deixei-o mudar de assunto. Já era um milagre eu ter conseguido tirar tudo aquilo de Dudley Certinho. — Sim, e nem seu restaurante Applebee's local. Quero experimentar lugares exóticos. — Lugares exóticos. Tipo o quê? — Não sei, nunca estive em um lugar exótico. Deveria ter ido a um lugar exótico pela primeira vez nas férias de primavera — como eu disse, era muito mais fácil para eu acertá-lo quando estava de uniforme. Em vez de me morder, ele deu uma garfada nos brócolis. Continuei: — De tanto assistir o Travel Channel, eu diria que o lugar no mundo onde mais quero conseguir um trabalho é Key West, Flórida. Parece tão legal. Um paraíso tropical. É o ponto mais ao sul nos Estados Unidos, mais do que Miami. E eles se separaram dos Estados Unidos, isso foi declarado em 1982. Você sabia disso? — Sim. — Mas não funcionou. — Ninguém os levou a sério. — Imagine.

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Eu estava um pouco irritada com ele por tirar sarro de meu paraíso tropical. — Você já esteve lá? — Não. — Já esteve em qualquer outro lugar? Ele pareceu magoado novamente. — Claro que já visitei outros lugares. Só porque sou policial... — Ai, não comece com isso de novo. Eu nunca estive em nenhum outro lugar, portanto não suponha. Onde você esteve? — Porto da Europa. França, Portugal, Espanha, Itália, Suíça, Áustria, Alemanha, Dinamarca, Holanda, Bélgica, Luxemburgo — traçou sua rota no ar como dedo. — Viajei de trem e me hospedei em albergues. — Nossa, não brinca! Quando? — Há alguns meses. Me formei na Academia de Policia em novembro, mas só consegui esse trabalho quando completei 19 anos, em dezembro. Precisava de alguma coisa para fazer por um mês. Alguma coisa que não fosse ficar por aqui. — Que inveja — eu disse, com sinceridade. — Bem, economizei meu salário nesse período em que estive na Academia de Polícia, pois pensei que poderia ser minha única chance de ver o mundo, já que trabalharia nesta cidade pelo resto de minha vida.

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— Nossa — que estraga prazeres. Como eu já estava no meio do assunto, decidi pressioná-lo um pouco mais. Ajudaria a superar minha paixão por ele. — Angie foi com você? — Ela teria medo de fazer algo assim. De qualquer forma, terminou comigo antes disso. Não pude resistir. — Não é para menos. Você é uma caixinha de surpresas. Ele deixou o garfo sobre o prato vazio e me encarou. Decidi que era uma boa hora para terminar minha refeição. Enfiei o último pedaço do pão de milho na boca e desejei desesperadamente que o Especial Meg viesse com mais carne para que eu tivesse algo mais para fazer. Ele ainda estava me encarando, eu podia sentir seu olhar queimando meus cabelos. Finalmente me rendi e olhei para ele, quase dando um salto com a força de seus raivosos olhos escuros. — Nossa, Meg! — Bem, agora é minha vez de retroceder — eu disse. — Não quis dizer o que parece. — De que outra forma você diria isso? — Eu não sabia que você ainda sentia algo por Angie. — Não sinto, mas você não sabe disso. Está realmente passando do

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limite. Durante todo o tempo em que estivemos sentados aqui, você estava buscando uma oportunidade para me apunhalar — ele fechou os olhos, suspirou pelo nariz, abriu os olhos. — Você me odeia? — Tenho um bom motivo para te odiar, John. Você me prendeu e arruinou minhas férias de primavera de propósito — joguei minha faca sobre o prato. — Não, eu não te odeio, mas você não é exatamente inocente nesta história. Há uma hora, na cena do crime, você estava fazendo cara feia para mim. Muito lentamente, ele pareceu derreter-se em dois olhos amigáveis e sorridentes. — Cara feia. . . Você estava tocando as evidências. — Você estava chateado comigo porque Will puxou meu cabelo. Qual é? Ele olhou através das janelas para a viatura no estacionamento. — A noite é uma criança. Vamos voltar ao trabalho. Trégua — estendeu a mão na mesa para que eu a apertasse. — Amigos. Parceiros por mais três noites e meia. Coloquei minha mão perto da sua, depois retirei. — Não posso tocar você quando está de uniforme. — Para você, vou fazer uma exceção. O que isso significava? Enquanto as possibilidades circulavam em meu cérebro, toquei seu pulso com os dedos. Sua mão agarrou meu pulso, depois

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deslizou até a palma da minha mão. Seu polegar roçou as costas da minha mão. Não houve um aperto de mãos, apenas uma tentativa de toque. Isso não era como nenhum aperto de mãos que eu já tinha vivenciado. Desajeitado, sexy e amigável demais. Amigos uma ova.

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Capitulo 10

-A

lguma coisa ruim vai acontecer aqui — Tiffany disse. Já tinha acontecido. Esta era a terceira vez que eu patrulhava no turno da noite com John, e era o terceiro acidente no cruzamento de Birmingham nesse mesmo

período.

Tiffany e eu nos sentamos no para-choque traseiro da ambulância com as portas abertas. Normalmente o familiar cheiro de desinfetante hospitalar teria me afastado, mas eu estava cansada, e não havia nenhum outro lugar para sentar e ver os paramédicos tratarem pequenas lesões. Pelo menos deduzir que Tiffany observava os paramédicos enquanto eles tranquilizavam um senhor em uma maca e apontavam uma pequena lanterna dentro de seus olhos. Pessoalmente, eu observava John. Ele estava tão atraente, parado em um círculo de vidros quebrados, direcionando o tráfego em volta de dois carros batidos e dois guinchos que se posicionavam para retirá-los dali. O fluxo do trânsito continuava indo na direção de John. Uma vez ele até saltou para fora do caminho para não ser atropelado. Provavelmente os

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motoristas se distraíam com sua beleza. Imaginei se deveria dizer-lhe isso, para sua própria segurança, e deixar o policial Leroy direcionar o trânsito. — Eles nem precisavam chamar o carro de bombeiros para este acidente — Tiffany disse. — Trouxeram o carro de bombeiros na noite passada porque o acidente foi grave. Os paramédicos me disseram que este é o cruzamento mais perigoso que eles já viram. — Ainda mais importante — eu disse —, é saber que Brian estava no carro de bombeiros na noite passada. — Sim, e me disse para não ligar mais para ele — ela ainda estava olhando para os paramédicos, mas piscava mais rápido, lutando contra as lagrimas. — Está te dando um gelo — murmurei. Honestamente, eu achava que era melhor assim. Brian não era bom o suficiente para Tiffany, mas de jeito nenhum ela acreditaria nisso. E eu odiava vê-la infeliz. Felizmente, naquele momento nos distraímos do assunto que eu estupidamente comecei. Meu amigo paramédico Quincy voltou para a ambulância. Bateu em meu ombro e mexeu as sobrancelhas grisalhas. — Oi, gata. Aposto que você está gostando de patrulhar com os policiais. Velocidade máxima e muito barulho. É a sua cara. — Agora você é todo flores e coelhinhos fofinhos para a primavera — eu disse. — Por que foi tão malvado comigo no episódio da ponte semana passada? — Você estava tentando se matar depois de eu ter me esforçado para te

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manter viva há quatro anos. Deixe-me explicar algo a você. Aqui estão 13 anos, e aqui 17 — veias azuis apareceram em sua pele desgastada quando ele posicionou sua mão esquerda no ar e a mão direita um pouco mais acima, traçando uma linha imaginaria em diagonal com o dedo. — Você deveria ter amadurecido — pegou o kit de primeiros socorros dentro da ambulância e voltou para o local do acidente. — Ei — eu gritei. Era difícil pensar em uma resposta rápida quando ele tinha razão. Depois murmurei: — Pelo menos amadureci em bom gosto. Tiffany repetiu baixinho: — Você gosta de Johnafter, você gosta de Johnafter. — Ele é um colírio para os olhos — eu gostava quando ele fazia o movimento para parar os carros, mas o que eu mais gostava era de seu movimento tipo o que você está esperando, acenando brevemente com a mão na altura do rosto. — Mas nada vai resultar disso. — Se alguma garota pudesse namorar o policial que a prendeu, seria você. — Obrigado, Tiff. — Por que não vai resultar nada daí? Ele teria problemas? — Acho que não. Não depois de eu entregar minha proposta hipócrita aos chefões e John não for mais meu chefe. E tenho certeza de que antes de fazermos qualquer coisa, ele validaria tudo com o chefe de polícia e preencheria alguns formulários em quatro cópias, mas há esse pequeno detalhe de que ele não gosta muito de mim.

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Ela fez ruídos tipo umm-hum, igual aos amigos de John na noite anterior no McDonald's. — Você já percebeu se ele anda com a mão nas minhas costas — perguntei. — Não. Mas, entre um carro e outro que passa, sempre olha para você. Olhei para ela, tentando enganar John. Depois olhei para ele. Ele estava me encarando, é verdade. E, quando viu que eu tinha percebido, não tentou esconder. Sorriu para mim. Talvez minha tática tenha funcionado. Eu estava vestindo uma blusa respeitável que abotoava na frente, só que — ops! — devo ter me esquecido de fechar o botão em meu decote. Nenhuma garota respeitável usaria esta blusa tão aberta. (Tossi.) Além do mais, antes de iniciar o turno esta noite, fui até a farmácia do outro lado da rua do Cafextra! Cafextra! e usei um de seus provadores de perfume. Nada muito óbvio ou floral, apenas uma colônia com um pouco de almíscar que insinuava que você gostava de seu captor. Ele também estava usando perfume outra vez, o que significava no mínimo que não chegou à sua casa e jogou fora todos os seus cosméticos depois que eu disse que ele estava cheiroso. Eu esperava que nós dois juntos não cheirássemos forte demais para outras pessoas, como se estivéssemos tentando atrair um búfalo asiático. Os guinchos já tinham ido embora com suas cargas de carros destroçados. John apontou para mim a fim de chamar minha atenção. Fez um

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círculo com o dedo no ar, me dizendo para encerrar tudo, depois apontou para a viatura. Fiz uma série de sinais de receptor de baseball. Ele sorriu e balançou a cabeça em direção ao carro. Mostrei o polegar em sinal de positivo. — Você está certa — disse Tiffany. — Acho que ele não gosta muito de você. Eu mesma não pude evitar sorrir. Depois senti o sorriso desaparecer. — De qualquer forma, não funcionaria. Eu estou indo embora, ele vai ficar. — Pode funcionar. — Não pode — inalando um pouco de desinfetante da ambulância, desci do para-choque e caminhei até o carro de John. O vento noturno ficou gélido, e eu tremia mesmo vestindo uma jaqueta. Abri a porta do passageiro da viatura e já estava quase me sentando quando algo me interrompeu. John estava lendo meu caderno. Sem olhar para mim alarmado, sem ao menos retirar os olhos do caderno, ele disse: — Recebi uma ligação de Lois. Temos de ir ao Martini's para separar uma briga. Lentamente me sentei e fechei a porta. Ele estava lendo meu caderno. Desde nossa conversa na noite passada, estávamos nos dando super bem. Por causa da trégua. Ou porque entendíamos um pouco mais um ao outro, como um feixe da luz do sol brilhando no escuro turno da noite.

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E agora isso! Em minha cabeça, revisei todas as frases que estavam no caderno. Será que eu deveria puxá-lo de suas mãos? Isso me salvaria se ele não tivesse avançado muito a leitura. Também exporia o quanto o caderno era desconcertante para mim. Ou será que eu deveria manter a cabaça fria? Aparentemente o caderno continha informações para minha proposta hipócrita. Só me deixava desconcertada porque eram informações sobre ele, e eu estava realmente me apaixonado. A opção de puxar o caderno ganhou. — Me dê isso — eu disse, tentando tirá-lo de suas mãos. Ele o afastou de mim, colocando-o sobre sua cabeça, e deu um risinho arrogante, mostrando uma covinha. Meu coração acelerou. O que era isso, escola primária? — É meu! — É evidência. Com certeza era. Ele abaixou o caderno e os estudou contra o volante. — É um haicai. — Por acaso eu pareço japonesa? — Já te disse que sim.

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— Número errado de sílabas em cada linha. Ele passou o dedo pela linha, contando em voz alta. — É apenas uma coleção de coisas estranhas que você diz — expliquei. Ele abriu a boca, fingindo estar escandalizado. — Você me disse que estava tomando notas para o projeto que vai propor. — E estou, indiretamente. Meu projeto tem a ver com você. Quando ele finalmente me devolveu o caderno, o escondi sobre o banco, embaixo das pernas, John deu partida no carro e olhou para baixo. Indicando que eu ligasse o interruptor da sirene. Enquanto acelerávamos cruzando a cidade, seu sorriso não desapareceu, só se reforçou. — Conte-me sobre seu projeto. — É uma surpresa — eu disse, gritando por causa do barulho da sirene. — Não gosto de surpresas. Que novidade. — Estou interessada na transformação pela qual você passou tão rapidamente para se tornar um policial. Você não tem o coração de um policial. — Quem disse?

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— Mas você faz e diz coisas que o fazem parecer um policial, enganando a todos. Por exemplo, o fato de que ninguém pode te tocar quando você está de uniforme. — Essa é uma questão de segurança. Porto uma arma. Se as pessoas me abraçarem ou mesmo me tocarem casualmente poderiam puxar a arma ou dispará-la. — Dispará-la? Você não tem uma trava acionada ou sei lá o quê para que ninguém leve um tiro acidentalmente? — Todo cuidado é pouco com armas. Além do mais, quando você chega a uma cena, principalmente doméstica, os suspeitos querem se aproximar para que você fique do lado deles. Não posso deixá-los me tocar. Devo manter uma zona de segurança ao meu redor, o que me torna mais ameaçador. É outra questão de segurança. Quase voamos ao passar pela lombada no centro da cidade, mas desta vez eu não quis acordar os mortos com meu grito estilo Os Gatões. Meus olhos estavam em John. — Gosto de ser respeitado. Não era muito respeitado quando era garoto magrinho no colégio. E gosto do fato de as pessoas não me questionarem — ele me olhou. — Até agora. — Por que não quer que as pessoas te façam perguntas? — Acho que não tenho réplicas muito boas. — Réplicas — repeti. —Está vendo? É outra coisa que você faz. Usa palavras que te distanciam do assunto sobre o qual está falando. Réplicas em

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vez de respostas. Veículos em vez de carros. Armamentos em vez de armas. Como você chama isso? — Toquei minhas calças jeans. — Calças de brim. — E isso? — toquei uma parte discreta de minha camiseta. — Camiseta feminina. Coloquei minhas mãos sobre meu rosto. — Isso? — Face. Toquei meus cabelos. Ele saiu da estrada principal e entrou na estrada de terra através da floresta que levava ao Martini's. Sim, tudo nesta cidade ficava no fim de uma estrada de terra através da floresta. Ele me olhou e disse: — Índigo. Ciano — olhou de relance a estrada, depois olhou para mim. Estendeu a mão e passou os dedos em uma das mechas mais escuras na parte de trás, onde eu tinha usado um pouco de lilás. — Violeta. — O carro ficou muito quente. Tirei minha jaqueta. Ele me olhou novamente com o canto do olho, mas eu não coseguia identificar se estava olhando para o meu cabelo violeta ou meu decote.

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— Ei — ele disse —, tenho o dia livre, ou melhor, a noite livre para ir à festa de Rashad. — Não brinca! — Não. Normalmente eu estaria de folga na quinta e sexta-feira e voltaria ao trabalho no sábado, mas esta semana terei folga na quinta, trabalharei na sexta e estarei livre no sábado. Obrigado! — fez um gesto ao para-brisa como que prestando uma homenagem aos chefões que o deixaram mudar seu turno de trabalho. Depois, olhando para mim, disse: — Obrigado. — Não há de quê — antes disso, eu tinha pensado no que aconteceria se eu visse John quando minha punição oficial terminasse daqui a duas noites. Esse pequeno pensamento não se havia tornado grande porque não tinha terreno para crescer, mas agora John o estava fertilizando. Eu já estava pegando as tesouras de jardim para cortar o pensamento quando ele estacionou em frente ao Martini’s. O único bar sertanejo da cidade era tão decepcionante quanto tudo aqui. Com um nome como Martini’s, era de se esperar um lugar elegante, como você encontraria em Five Points em Birmingham, com a iluminação discreta e um interior moderno. Bem, eu nunca o tinha visto por dentro, mas a parte externa era feita de cimento, e u podia usar minha imaginação. Eles provavelmente nem sabiam fazer um coquetel com Martini’s. Ou, se sabiam, o serviam em uma caneca de cerveja. O estacionamento de cascalho estava lotado de carros. John estacionou perto da estrada de terra para ter acesso rápido, caso tivesse que perseguir

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algum motorista bêbado. Eu conhecia John, mas depois ele se sentou no carro com a sirene ainda ligada, enquanto os clientes do bar espiavam pela porta de entrada e voltavam para dentro. — Você está com medo — perguntei. — Claro — ele disse, observando a entrada. — Se uma pessoa não sentisse medo ao entrar sozinha em uma briga de bar, seria estúpida. Ou insana. Ou talvez apenas terrivelmente mal informado. Mas não é por isso que estou esperando. Estou deixando o barulho de a sirene acalmar a todos lá dentro — ele se abaixou e desligou o interruptor. No lugar da sirene, agora se ouvia um som de contrabaixo vindo do bar. — Volto em um piscar de olhos. — Vou entrar para te proteger. Ele suspira. — Sabia que você diria isso. Estou falando sério, Meg. Não posso te levar lá dentro. Realmente nãoa Cho que vá acontecer nada. Se eu achasse que alguma coisa pudesse acontecer, chamaria reforço antes de entrar, mas, nunca se sabe, com aquele tanto de gente, a maioria bêbada. Exatamente por isso eles brigam. — Como vou coseguir material para meu haicai? — Veja bem, já é perigoso o suficiente quando estou preocupado com minha própria segurança e com a segurança de todos lá dentro. Não quero ter de me preocupar com a sua também. — Então para de se preocupar comigo. Posso me cuidar sozinha.

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— Não quero que se machuque. — Certo. Você seria rebaixado pra carcereiro. Não caio nessa história. — Não. Que não quero que você se machuque. — colocou a mão em meu joelho. — Meg, por favor, fique no veículo. — Está bem. Meu joelho irradiava calor. Enquanto eu o observava sair do carro e caminhar casualmente pelo iluminado estacionamento, pensei algumas bobagens: nunca vou lavar meu joelho. Nunca mais vou levar estas calças jeans. Vou cortar a parte do joelho dessas calças e costurá-la em meu travesseiro, só para ter uma molécula dele em minha cama comigo todas as noites. Ele retirou seu cassetete de um compartimento no cinto e desapareceu dentro do bar. A batida da musica parou. Pelo menos uma vez por noite, eu o observava caminhar em direção ao perigo, com a mão no cassetete ou em sua arma, era como sentar-se à noite em seu trailer, manter o bolo de frutas aquecido no forno e escutar o radio da polícia. Eu não coseguia suportar isso. Não nasci para ficar sentado sozinho e ainda mais na escuridão, esperando. Eu me forçava a suportar. Preparei-me para esperar longos minutos ates de escutar o disparo. Ou até que ele saísse em choque pela porta com uma faca nas costas.

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Mas não houve nenhuma espera. Quase imediatamente, as pessoas trasbordaram para fora do bar, como se fossem formigas de um formigueiro pisado por John. Entre eles estava Eric, vacilante, levando Angie pela mão através do estacionamento, parando atrás de uma caminhonete. Depois o motorista ligou os faróis da caminhonete e foi embora, revelando a BMW de Eric. Eu os observei. Acompanhei a cena de baixo nível. Humm, o que aquele idiota bêbado estava fazendo com a anã. Mas qualquer indício deles desapareceu no segundo em que John surgiu na porta do bar, não baleado, não esfaqueado, tão casual e bem composto em seu jeito de policial como quando entrou. Agarrei a frente do banco com as duas mãos suadas para me impedir de saltar para fora do carro e correr até ele. Depois fiquei completamente furiosa comigo mesma. Eu realmente esperava que não estivesse recriando um plano para, de alguma forma, namorar Johnafter. Acionei a motosserra para cortar a cena imaginaria alimentada pelo fertilizante. Ele entrou no carro fazendo barulho por causa das armas presas em seu cinto. — Qual o problema? Acho que você viu Eric e Angie. Eric e Angie, A-ha. Coloquei a mão na cabeça, ainda me concentrado na motosserra. Seja a motosserra. — Você sabe que isso não significa nada — John disse, gentilmente, —

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Ele só a chamou para sair para se vingar de mim. — Funcionou? — como se eu estivesse preocupada com Eric agora. A motosserra ficou sem combustível. — Não. Conheço Eric há muito tempo. Já esperava esse tipo de coisa dele. Mas Angie... Parece vulgar, você não acha? Ajeitei-me no banco e encolhi os ombros, mostrando indiferença. — Não sei nada sobre ela, exceto que veste roupas feitas para as bonecas Barbie. Ele não deveria esta com muito ciúme, porque não discutiu. Em vez disso, pegou a velha prancheta. Eric estava sentado atrás do volante da BMW, com a Angie no banco do passageiro, mas ele tinha medo de fazer alguma coisa enquanto John estivesse do outro lado do estacionamento. — Você vai até lá? — perguntei. — Sei que Eric não vai para a cadeia por beber sendo menor de idade, mas pelo menos você poderia fazer com que seus pais lhe tirassem seus privilégios de ver TV. John riscou alguns dos formulários na prancheta. — Acho que vou chamar o Eric e Angie para virem até aqui. É mais ameaçador fazê-los moverse, em vez de eu ir até eles. Eles estarão de pé e nós estaremos sentados, o que não é ideal. O melhor é estar mais alto do que os suspeitos, para poder falar com eles olhando do alto, com autoridade, se possível. Mas, neste caso — ele mostrou o equipamento policial oficial e o interior de couro sintético rachado —, esta viatura fala por si só, não acha?

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— Com certeza, este carro é só autoridade — uma autoridade velha, cansada, presa nesta cidade. John piscou os faróis e fez um grande movimento com uma das mãos. Eric poderia facilmente fingir que não sabia que John estava fazendo sinal para ele mo estacionamento lotado, mas nãos e atreveu. O que ele se atreveu a fazer foi abrir a porta para Angie (um gesto cavalheiresco do qual eu não imaginava que ele fosse capaz) e segurou sua mão novamente enquanto atravessavam o estacionamento de forma cambaleante. John não os observava enquanto caminhavam. Inclinou sua cabeça sobre a prancheta. — O que você escreve nestes formulários? — perguntei. — Nada. Só faço isso para parecer ameaçador. Eu vi que estava rabiscado e desenhado uma pequena taça de Martini com uma azeitona. Não era sempre que eu conseguia analisá-lo assim, concentrado. Ele suavemente mordeu o lábio inferior. Talvez eu estivesse experimentando mais da Síndrome de Estocolmo, mas não foi assim que senti. Senti alivio por ele estar vivo, e alegre por estar no carro comigo. Não pude disfarçar meu interesse. — Você é sexy quando ameaça as pessoas. Ele se virou para mim olhar daquele jeito! Não o olhar obscuro ameaçador, mas sim o olhar obscuro e quente que eu tinha imaginado se ele

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estivesse apaixonado por mim. Mas também foi cauteloso. O que era inteligente da parte dele. As linhas de preocupação apareceram entre suas sobranceiras. — Não me provoque — ele diss. — Não estou te provocando. Ele me apontou com sua caneta. — Estou falando sério. — Eu também — retiro um fio imaginário de minha camiseta, ou toquei meu decote para chamar sua atenção, dependendo de seu ponto de vista. — Você tem medo de se meter em encrenca? Imagino que teria problemas se fizéssemos algo, mas não as 6h01 da manhã na quinta-feira, quando minha pena acabar e você estivesse de folga. — Quinta-feira — ele disse, considerando. — Que dia é hoje. — Segunda... já passa da meia-noite, Terça-feira. Enquanto ele verificava seu relógio, Eric e Angie chegaram até nosso carro. — Você parece entediada — ele me disse. E daí. Ele pressionou o botão para baixar o vidro de sua janela. — Sr. Wexler. Srta. Pettit.

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Eric balançou a cabeça e gaguejou. — Policial After — Angie se encolheu atrás dele. — Vocês dois estão um ano e meio abaixo da idade permitida para frequentar este lugar — eu adorava ouvir sua voz calma e autoritária, quando não era dirigida a mim. — Você também — Eric disse, mas não parecia tão arrogante como naquela noite na ponte. Provavelmente não estava tão bêbado. — É meu trabalho — John disse. — Venho aqui quase toda noite para separar uma briga, entre as 11h45 e — ele se virou para mim —, o que você me diria? — Meia-noite e quinze. — Meia-noite e quinze — ele concordou, olhando para Eric. — Portanto, lembre-se disso da próxima vez que tiver sede. Até lá, você não voltará para casa dirigindo bêbado. E Angie, se você não pegar carona com o pai de Eric, terá de ligar para seu pai. Angie saiu detrás de Eric. Fazendo uma voz de coitada, perguntou: — Será que você não pode me levar para casa. Se ela piscasse os olhos, eu sairia do carro para lhe dar um tapa. — Isso é uma viatura policial, não um taxi. — John disse. Coloquei a mão na boca para evitar uma gargalhada, depois fingi que estava limpando minha garganta.

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Eric se inclinou para me passar aquele olhar maligno através da janela aberta. Eu quase esperava que ele me chamasse de vadia estúpida, mas essas coisas não aconteciam quando você era parceira do policial After. — Está com seu telefone celular? — John alfinetou Eric. — Vamos esperar você ligar para seu pai. — E se eu não quiser fazer isso? — Eric perguntou. John se inclinou sobre a prancheta novamente. Segurando-a de forma que apenas eu pudesse vê-la, rapidamente desenhou um incrivelmente precioso rosto de Eric coma língua para fora. — Meu turno termina às 6 horas da manhã — disse, sem levantar os olhos. — Posso ficar aqui sentado, de olho em você, até essa hora. Se você ligar o carro eu te prendo — levantou o vidro. Eric entendeu a mensagem. Atravessou o estacionamento e levou Angie de volta para a BMW, cambaleando um pouco. Manteve a cabeça levantada e balançou a mão de Angie, tentado salvar sua dignidade, mas não havia dignidade para salvar. Sorri. — Meu Deus — John disse. — Ela está agindo como se quisesse me deixar com ciúmes ou se vingar de mim. E ainda pergunta se eu posso levá-la para casa. Por que ela faria isso? Estou te dizendo, foi ela quem terminou comigo. Não gostei dessa mudança de assunto. Eu queria voltar ao lido e obscuro olhar que ele tinha me dado, mas, se ele estava interessando em Angie, fazer o quê... A garota de cabelos azuis não poderia competir com a anã

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ou com a garota morta. A garota de cabelo azul tem de se enxergar. — Ela quer você de volta — eu disse. — Mas eu não a quero. Ela foi bem decidida e foi bastante detalhista no outono passado quando explicou por que não queria mais ficar comigo. Tenho certeza de que isso vai passar. A universidade não deve estar funcionando para ela. — O que ela estuda? — se não for educação infantil, ela deve estar com problemas. — Porcaria. Dei uma gargalhada. Fiquei observando Eric e Angie na BMW do outro lado do estacionamento, esperando que eles pensassem que eu estava tendo outra crise de tosse. — Porcaria despeitada — John agregou. Agora eu já não disfarçava a gargalhada, e até John estava rindo para mim. Arfando, perguntei. — Ela está estudando porcaria despeitada? Isso é bobeira. John endireitou os ombros e seu rosto. — Não dá para se sustentar se formando em porcaria despeitada. Já bastava. Deixamos para lá. A punição de Angie era saber que pessoas estavam rindo dela. Mas eu não podia deixar para lá, podia? No meio da gargalhada,

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perguntei: — Por que você começou a namorá-la? Por que ela transava com você? Ainda com as covinhas aparecendo, John fungou e limpou as lágrimas dos olhos. Balançando a cabeça em direção a Eric. — Você deveria saber. A gente passa dos limites quando tem 17 anos. Obviamente. Falando nisso — eu disse. Ele passou o polegar lentamente pelo lábio inferior. — Onde estávamos? Seis horas da manhã e um minuto da manhã na quinta-feira, certo? Sorri. Ele engoliu em seco. — Do que exatamente estávamos falando. — Ah, não, você vai me encurrala. Eu já vi algumas cenas de prostituição na série Cops. Não vou ser a primeira a mencionar sexo. Sob seu uniforme azul-escuro, seu peito inchou e esvaziou rapidamente. Eu queria ter coragem de colocar minha mão para sentir seu coração acelerado. Não era nada comparado com o meu. Eu mal podia acreditar em minha sorte. Estava apaixonado por um policial e, por algum motivo desconhecido, ele também estava interessado em mim. Eu, uma garota criminosa de cabelos azuis, estava seduzindo o policial After. — Já passei por isso antes com Angie, lembra — ele disse. — Ela foi embora e me deixou. Isso seria igual, não seria?

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— Não se não tivéssemos nenhum compromisso — eu disse. Mordendo o lábio de novo. — Não sei se posso lidar com uma relação sem compromisso. — Tente. Você vai gostar. Pelo menos uma vez. Relaxe. Ele se acomodou no banco de couro sintético e olhou para a BMW. — Acho que pode ser um desastre. — Acho que seria perfeito — eu disse, com sinceridade. Ela passou a mão no queixo barbeado, depois pegou a caneta e rabiscou algo na prancheta. — Seis horas da manha e um minuto, quinta-feira, certo? Anote isso em seu caderno. Já temos um plano.

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Capitulo 11

E

le me deixou dirigir! Levou quatro noites, mas ele me deixou dirigir! Bem, apenas por alguns minutos. E apenas por alguns metros,

mas não a viatura. Uma tempestade de março caiu, molhando a fria noite. Um carro derrapou na estrada escorregadia no cruzamento de Birmingham e ficou preso no acostamento enlameado. Enquanto o motorista acelerava o carro, John jogava seu peso sobre o para-choque traseiro. Os pneus giravam, mas o carro não se movia. Saí da viatura para ajudar, apesar da chuva. Não que eu esperasse poder ajudar, mas era melhor do que ficar sentada esperando John e preparando em minha cabeça um bolo de frutas imaginaria para ele. Ele sinalizou para o motorista, e nós dois empurramos o carro. Pelo menos foi o que pensei. Empurrei o máximo que pude, fazendo os pneus girarem. Depois olhei para John. Ele estava de pé, olhando meu traseiro. Agora que ele tinha chamado

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minha atenção, percebi que realmente havia sentido um vento em minhas costas, justamente onde minha jaqueta havia levantado quando me inclinei. Ele estava olhando fixamente para minha tatuagem na parte inferior das minhas costas: um pássaro escapando de uma gaiola. Essa tatuagem me havia custado meses de gorjetas. O artista me cobrou um extra, pois fazer tatuagem em menos de 18 anos sem cosentimento dos pais era ilegal. Levantei e cobri as costas com a mão. Esperava que John não estivesse considerando a possibilidade de uma investigação policial camuflada em um estúdio de tatuagem em Birmingham, pois estava fora de sua jurisdição. Não... ele estava pensando na quinta-feira as 6h01 da manhã. Fixou o olhar em minha mão, que cobria a tatuagem que ele havia visto alguns segundos antes. Lentamente passeou os olhos por meu corpo até encontrar meus olhos. Piscou por causa da chuva e lembrou-se de que estava trabalhando. Depois olhou para o motorista. — Isso é muita distração. Troque de lugar com o motorista, afinal o carro é dele. Sentei-me no banco de motorista e obervei pelo espelho retrovisor, esperando o sinal de John. Quando ele apontou para mim, acelerei o carro. Os pneus giraram, fazendo o carro disparar. Verifiquei o espelho novamente. O motorista estava molhando por causa da chuva, mas nada demais. John, com lama até os olhos, tentava limpar o rosto coma manga do uniforme. O motorista escorregava, feliz. De volta à viatura, John assou lama do nariz com um lenço que retirou do porta-malas.

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— Odeio ter de ir para casa trocar de roupa faltando menos de suas horas para terminar o turno. O que você acha? — ele espirrou. — Se eu fosse uma criminosa — e não sou —, te acharia bastante intimidador agora. Na verdade te acharia assustador. — Já basta. Seu apartamento ficava em um daqueles complexos com 20 edifícios, todos iguais, que haviam brotado ao longo da interestadual. Ali moravam as pessoas que trabalhavam na fabrica de carros aqui na cidade, mas que não queriam vir de Birmingham todos os dias. Ou seja, pessoas sem vida própria. Do cruzamento de Birmingham levava apenas um minuto. Por isso, de seu apartamento John provavelmente podia escutar as batidas de carro. E certamente podia escutar o ruído de carros na interestadual. Eu escutei assim que estacionamos e ele desligou o motor. Durante uns dez segundos ficamos lá sentados, em silencio, exceto pelo zumbido distinto dos caminhões. — Será que você deveria entrar? — ele perguntou. — Por que não? Não quer que eu conheça seu apartamento? — Não é isso. É que não me parece apropriado. — De qualquer forma, vou conhecê-lo às 6h01 da manhã na quinta-feira. A menos que você queira transar atrás dos depósitos. Sob as luzes discretas do estacionamento, não coseguir ver seu rosto ruborizado, mas pude escutá-lo, pois sua respiração acelerou.

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— Sim — ele disse —, mas isso só acontecerá daqui a 24 horas. Olhei meu relógio. — Vinte e cinco. Ele puxou meu pulso para ver meu relógio ele mesmo, causando arrepios por todo o meu braço, já que ele poderia ter olhado seu próprio relógio, mas preferiu me tocar. — E 47 minutos — ele disse, tão perto do meu ombro que senti sua voz vibrar por todo meu corpo. — Mas, se você ficar no carro, terei de deixar as chaves para que você possa ligar o aquecedor. E agora que já deixei você sob o volante uma vez esta noite, tenho medo de que saia para passear. Sorri e pisquei para ele. — Vamos entrar. Eu esperava que seu apartamento tivesse paredes, carpete e azulejos de cozinha da cor de fita adesiva, tão virgem como no dia em que ele se mudou. Ou pequenos toques caseiros, cortinas de rendas e velas com cheiro de biscoito, deixadas pela esposa fantasma que cozinhava bolos de frutas. Mas não foi isso que encontrei. A sala de estar era uma galeria. Desenhos arrojados lotavam as paredes, alguns emoldurados, a maioria pregadas com tachas. Minha primeira reação foi de choque pelo bom gosto que ele tinha. Depois imaginei como ele podia pagar por desenhos de verdade feitos por artistas de verdade. Por último. Suspeitei de que os desenhos foras todos feitos pelo mesmo artista. Eles tinham um estilo semelhante, algo entre realismo fotográfico e mangá. Eram semelhantes aos pequenos esboços nas margens do dever de casa de espanhol de Johnafter, perro, sombrero, corazón.

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— Você sabe desenhar! — exclamei. — Sim — sua voz ecoou de dentro da cozinha. — Quero dizer desenhar mesmo, como um profissional. Como podemos dizer que demos uma trégua, e ser amigos, e fazer planos para a quinta-feira às 6h01 da manhã, quando você está escondendo de mim esse sue outro lado? — Eu te disse que me formaria em arte, hipoteticamente. — Sim, mas pensei que aquelas besteiras que você me contou sobre elevar o espírito humano eram uma compensação por não saber desenhar. Ele riu. Dei mais alguns passos para poder ver suas covinhas através da porta da cozinha. — O que você usa? Isso é giz? — Pastel e lápis de cor. — Em vez de tinta? — Mais controle — ele havia tirado as botas enlameadas e estava parado, de meias, perto da pia, suspendeu uma das pernas das calças, retirou a arma do coldre e colocou-a sobre a mesa da cozinha. Depois, com a mão tirou a lama das calças e jogou-a na lata de lixo. — Não adianta ser cuidadoso — eu disse —, de qualquer jeito você vai fazer uma bagunça e terá de limpar tudo depois. — Hum... — ele disse, retirando mais lama.

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Comecei meu percurso ao lado da cozinha e caminhei pela sala, analisando cada desenho. Cada um era um tesouro de cores e pinceladas. Eu poderia observar cada um deles por horas, mas senti que deveria me apressar para poder ver todos. Na verdade, eu estaria de volta amanhã às 6h01 da manhã, mas nesse momento faria outra coisa. E, depois disso, nunca mais voltaria. Os desenhos eram como um mapa de sua viagem pela Europa. Havia uma pirâmide no Louvre, a montanha Matterhorn nos Alpes suíços, e praias e mais praias maravilhosas, que poderiam ser qualquer lugar do Mediterrâneo. Algumas pessoas estavam no próprio plano, de costas, admirando a vista. Pessoas, acentuadas com um ocasional alienígena verde, ou um elefante com um chapéu. Estranho que tudo isso estava escondido naquele uniforme azul-escuro. Dentro dele, ou atrás dele. Fiz todo o circuito da sala até a cozinha novamente e parei em frente ao meu desenho favorito até agora: Veneza, a julgar pelos barcos no canal e pelo prédio coloridos. Um garoto e uma garota, distantes demais para ver detalhes, estavam parados no meio de uma ponte sobre o canal. Mas ao lado deles o desenho se dissolvia num fundo branco. — Este é um de meus favoritos — John disse, da cozinha. — Odeio não ter podido terminá-lo. A rua inundou na maré alta, e tive de ir embora. Balancei a cabeça, como se soubesse tudo sobre ruas inundadas na maré alta em Veneza quando ele estava tentando terminar seu desenho. A última moldura na sala, ao lado da porta da frente, não era um

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desenho, mas uma enorme foto de uma família formada por quatro pessoas, com roupas e cabelos que devem ter sido moderno no fim dos anos 1990. Impressa em preto e branco, daquela forma que as pessoas exibiam fotos que eram realmente especiais. Mão loira, pai moreno. O menino loiro com olhos escuros era John. O adolescente com cabelos mais compridos devia ser irmão. À parte os olhos claros, ele se parecia mais com John do que o próprio John. — Seu irmão mora aqui, nesta cidade? — perguntei. Ouvir o barulho de água correndo na cozinha. John estava lavando as mãos. Secou-as em uma toalha e olhou para elas. — John? Lavou as mãos novamente. Usei minha melhor voz de assassina com sentimento de culpa. — Fora, mancha maldita! Fora, digo! — Macbeth. Primeiro ano do ensino médio — ele secou as mãos. — Seu irmão mora aqui, nesta cidade? — repeti. — Não, ele foi embora — desafivelou o cinto que cotinha a arma e colocou-a sobre a mesa da cozinha, ao lado do coldre de tornozelo. — Posso tocá-la — atravessei a sala, entrei na cozinha e espiei as armas em seus coldres. — Acha que eu vou atirar em você? Ele me observa com um sorriso descontraído. — Na verdade, eu estava pensado em te ensinar algumas coisas básicas, como parte de seu treinamento

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está semana. Ou caso seja nocauteada nas próximas 25 horas e você seja abandonada no veiculo com um policial inconsciente e uma arma carregada. Eu não esperava que ele concordasse. — Todo cuidado é pouco com armas — recordei-lhe. Mesmo assim ele pegou uma pistola e me mostrou algumas coisas básicas. Como retirar o pente de balas e como verificar se havia balas na câmara. Ele parecia estar concentrado na arma, mas duvido que não tenha percebido minhas mãos tremeram sobre a mesa enquanto ele realizava esse movimento tão familiar para ele. Eu não queria que ele me desse um olhar de compaixão do tipo que se dá a uma garota assustada. Eu me odiava por estar assustada. Ele me ofereceu a arma, como o cano apontado em sua direção. — Sem balas — ele disse. — É seguro. Tentei controlar minha mão trêmula, enquanto ele colocava a arma na palma de minha mão. — É pesada — eu disse. Diferente. Estranha segurá-la em minha mão. Estava quente por causa de seu corpo. Segurei-a o máximo que pude aguentar, depois a devolvi — com o cano apontado para a porta, não para mim. — Bom, para mim já deu. — Tão rápido? — ele gentilmente recebeu a arma. Click, click, pop, e estava pronta outra vez.

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— Estou com muito medo. — De uma arma? — ele inclinou a cabeça para um lado, me observando. Sua voz saiu doce quando adivinhou: — Da quinta-feira às 6h01 da manhã. Eu nunca tive medo de sexo. O que me aterrorizava era o que poderia acontecer depois, as ataduras que me prenderiam aqui. Tremi. Ele tocou meu ombro. — Nossa, aqui estou eu, preocupado com a forma como os suspeitos me verão, e você toda ensopada também. Venha comigo. Eu o seguir pela sala de estar até seu quarto. Mais desenhos cobriam as paredes. Em sua mesa de cabeceira havia um rádio de polícia zunindo, ocasionalmente estalando com a voz de Lois. Ele desapareceu dentro do closet e trouxe uma camiseta de mangas longas decorada com as palavras Para Proteger e Servir. Retirei-a de suas mãos. — Nossa, subi de nível. Ele desapareceu novamente e trouxe outra jaqueta policial de couro. Peguei-a. — Isso quer dizer que estamos namorando firme? Ele sorriu, mostrando uma covinha, antes de olhar outra vez para o closet, buscando um uniforme limpo em um cabide.

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— Já volto — entrou no banheiro e fechou a porta. Eu poderia ter entrado no closet para me trocar, mas como sou diferente, tirei minha jaqueta e camiseta molhada lá mesmo em seu quarto. Esperei apenas alguns momentos na esperança de que ele (ops!) me visse de sutiã. Mas, ainda que isso acontecesse, é tudo o que aconteceria, porque ainda não era quinta-feira às 6h14 da manhã, e John obedecia as regras. Vesti sua camiseta e sua jaqueta, que estavam quentes e secas. Iniciei meu passeio por esta nova sala da galeria de arte. Um dos desenhos que vi foi o da fonte do Diabo em Fiver Points, com várias das estátuas de animais ganhado vida e usando chapéus. Depois, mais ângulos de seção artística de Birmingham, mansões decoradas ao lado de prédios dilapidados. E, depois, do outro lado de sua cama, bem no primeiro lugar que ele via quando acordava todas as manhãs (ou tardes), estava um grande desenho da ponte. Sem alienígenas verdes e sem animais usando chapéus. Sem pessoas. Apenas a ponte. Uma forma lúgubre contrastando com o céu azul. Ele saiu repentinamente do banheiro. Pelo menos foi o que pareceu, pois me assustei. Enquanto ele calçava botas limpas, fui até a cômoda, como quem não quer nada, destampei um frasco de perfume e cheirei-o. Não era esse. Peguei outro. Também não. Se o cheiro de seu perfume fosse, na verdade, sabonete ou desodorante, ou mesmo creme pós-barba, eu ficaria decepcionada.

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Ele passou em minha frente, pegou o último frasco e me entregou. — É este. Retirei a tampa e coloquei um pouco em meu dedo. Pensei que ele me colocaria para fora de seu apartamento, para nunca mais voltar, nem na quinta-feira às 16h01 da manhã, por causa do que fiz depois. Mas fiz assim mesmo. Levantei a mão para tocar seu pescoço. Deslizando minha mão por seu colarinho escuro, passei meu dedo por seu pescoço. Ele olhou para mim e colocou sua mão grande e quente sobre a minha. O rádio zuniu com a voz de Lois. John não se moveu, mas aquelas rugas de preocupação apareceram entre as sobrancelhas. — Não entendo o código que Lois usa — sussurrei. — O que aconteceu. Ele soltou minha mão e se afastou de mim. Recolhendo minhas roupas ensopadas do chão. O segui até a sala, onde ele já estava colocando seu sinto com a arma. — Uma fatalidade no cruzamento de Birmingham — ele disse. Inclinou-se para fixa a outra arma em sua perna. — Era o que estávamos esperando. Eu seguir o rastro de seu perfume para fora do apartamento, depois sob a neblina que havia substituído a chuva. Descemos as escadas e chegamos até o carro. Ele respondeu a Lois, dizendo que estávamos perto e que ele poderia atender a chamada, o que não importava muito, já que todas as sirenes na cidade já estavam tocado.

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Passei o cinto de segurança sobre o peito e afivelei-o, como uma boa menina. Nas últimas noites eu havia acostumado a usá-lo. Quase nem tinha vontade de desmaiar. Mas agora a sensação de pânico voltou. Eu sabia que John quis dizer quando falou que já estávamos esperando por esse acidente. Finalmente, depois de atender a vários chamados de pequenos acidentes no perigoso cruzamento, o pessoal da emergência se deparou com uma fatalidade que tanto temia. E era uma tragédia. John queria que eu, e Tiffany e Brian observássemos tudo. Eu estava assustada. E cansada de ficar assustada. Enquanto ele verificava as duas vias para garantir que não havia trafego e entrava na estrada principal, eu disse: — Meu desenho preferido não foi o de Veneza. Foi o da ponte. Sua ponte. Ele respirou fundo e suspirou pelo nariz: Aqui vamos nós outra vez. — Mas o que você deveria desenhar não é a ponte — continuei. — É a visão de alguém que está na ponte. Sua mandíbula enrijeceu. — Isso é ilegal, como já sabemos. — À vezes quebra uma regra vale a pena. Você é tão obcecado com essa ponte. Nunca quis ver a vista do outro lado. Ele fez uma última curva e pudemos ver as luzes vermelha e azuis piscando ao longo do asfalto molhado.

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— Por que está fazendo isso? — ele perguntou, tão baixinho que mal pude ouvi-lo por causa do barulho das sirenes. — Por causa do que você está prestes a fazer comigo. Havia apenas um carro envolvido no acidente. Um círculo de viaturas, carros de bombeiros e ambulância cercava o carro, que avia colidido contra um pilar redondo sobre a interestadual. — Como uma Batida dessa é possível? — perguntei. — Bêbado. Sem juízo — ele abriu a porta. — Vamos. Normalmente eu teria adorado a oportunidade de sair da viatura com ele em uma chamada. Brian e Tiffany já estavam lá. Estavam parados, um de cada lado do carro destroçado, longe um do outro, ambos com os braços cruzados. Apoiei-me sobre o capô da viatura, tentando controlar o pânico. John atravessou a cena do acidente e conversou com alguns bombeiros em seus casacos longos, com os capacetes e protetores faciais abaixados. Ele deslizou um motor embutido em uma estrutura de metal em formato de cubo para fora do carro de bombeiros e colocou-o perto do acidente. Os bombeiros anexaram algumas mangueiras ao motor e conectaram a outra extremidade das mangueiras ao que parecia um enorme conjunto de alicates. Quando Quincy, o paramédico, passou por mim, chamei-o. — Aquelas são as ferramentas de resgate para salvar vidas? — Sim, só que é um pouco tarde demais para salvar alguma vida. Como você pode ver, ninguém está com pressa — e seguiu calmamente seu caminho.

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O motor de resgate iniciou com uma barulheira, e os bombeiros começaram a trabalhar, abrindo uma parte destroçada que antes havia sido a porta dianteira do carro. Vidros quebrados e pedaços de metal voaram, batendo no capô do carro e caindo no asfalto. Meu coração acelerou as pontas dos dedos formigavam. Luzes vermelhas piscavam atrás de meus olhos. Mas eu tinha de fazer o que ele mandava, caso contrario, ele poderia me colocar de novo na cadeia, com ou sem 6h01 da manhã. Avencei alguns passos. Brian se colocou m meu caminho, balançando a cabeça: — Meg, você não precisa ver isso. Atrás de Brian, John ainda acenava para mim dizendo: — Venha. Brian caminhou até John. — Não a obrigue a vir aqui — e colocou a mão em seu ombro para impedi-lo. John recuou. — Não me toque quando estou de uniforme! — gritou. Brian saiu do caminho. John caminhou até mim, agarrou meu pulso e me puxou. Neste momento meu rosto parecia uma máscara; o sangue não chegava até minha

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pele. Eu sabia que deveria estar preparada, mas sentia que estava perdendo minhas forças. Segui hesitando em direção ao acidente. O barulho dos equipamentos de resgate era tão alto que eu não entendia como os bombeiros ou qualquer outra pessoa aguentava ficar lá. Vibrava tão alto que doía, como uma motocicleta duas vezes maior do que o silenciador. Senti a concussão de cada pulsação em meu peito, descontrolado o ritmo do batimento cardíaco. Enquanto a cena se desfazia na visão de um túnel, a pulsação do motor se fundia em um longo grito. As luzes da interestadual resplandeceram nos protetores faciais dos bombeiros, de forma que não pude ver suas expressões. Eles pareciam alienígenas em ternos espaciais. Quando John fez sinal, eles se afastaram para nos deixar ver o interior do carro. Ela estava contorcida de uma forma que o corpo humano não se contorce, em um espaço muito, muito pequeno. Para que eu o escutasse por sobre o ruído dos equipamentos, John deve ter gritado, mas em minha cabeça sua voz soou suave, vazia e sinistra, como um medico em meu quarto de hospital depois de eu ter sido sedada. — Isso era o que eu queria que você visse.

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Capitulo 12

A

os poucos fui perdendo a consciência. Me senti encolher tão rapidamente que eu parecia derreter, desmorona dentro de mim mesma. Através de minha pele transparente se podia ver meus ossos. Balancei um dedo para frente e para trás,

observando os ossos estalando sobre a pele. A amônia entrou e se alojou em meu nariz como se fossem duas hastes flexíveis. Tentei alcançar meu braço esquerdo com a mão direita para puxar o dispositivo intravenoso, mas não consegui, e minha mão acabou caindo sem forças sobre o ombro. Deslizei minha mão pelo braço, tentando sentir a agulha. Não havia dispositivo intravenoso. Cheirei mais um pouco da amônia, tentando fazê-la chegar até o cérebro. Não conseguia acordar. Não conseguia abrir os olhos. — Não enfiem uma agulha em mim — murmurei. — Podem fazer o que quiserem, mais não coloquem um dispositivo intravenoso em mim. Prefiro morrer, vocês estão entendendo? Deixe-me morrer.

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— Você não esta morrendo — ouvi a voz de Tiffany. — E está louca se pensa que eles me deixaram fazer uma aplicação intravenosa. Tenho sorte por ter conseguido medir sua pressão, que esta muito baixa, por sinal, portanto, fique deitada. Inspirem mais uma vez e me sentei. Do lado de fora da ambulância, John conversa com o policial Leroy, outro policial e Quincy. John estava fumando um cigarro. Que ridículo. Ridículo! Tentei caminhar em direção a ele. Caí da ambulância. Ouvi Tiffany gritar. Percebi que eu estava deitada de costas na estrada molhada, com o choque da queda ainda vibrando por meus músculos. John me pegou nos braços e me apoiou no para-choque da ambulância. — Cuidado com o primeiro degrau. É o mais importante — ele disse, com o cigarro aceso pendurado nos lábios. Empurrei-o. Seu peito era sólido sob o uniforme escuro, e ele não se moveu. Empurrei-o novamente, com toda a força que tinha, mas só consegui me mover para trás, batendo na ambulância. — Eu tive câncer, seu idiota! — gritei pra ele. Os outros policiais e Quincy se reuniram ao meu redor. De repente, pude me ver da forma como eles me viam: uma garota de cabelo azuis gritando sem motivo. Eu estava a ponto de ser levada para a cadeia por agredir um policial.

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O cigarro de John caiu no asfalto molhado. Não olhei para ele para verificar se ficou boquiaberto comigo e o cigarro caiu de sua boca ou se o tinha jogado fora de propósito. Eu não queria saber se o tinha humilhado na frente de seus colegas machões. Não me importava. — Vou pegar uma carona no carro de bombeiros até o lugar onde está minha moto — eu disse, olhando para o cigarro no chão. – Já estou cheia do que você queria que eu visse. Por hoje chega. As minhas pernas cambaleavam enquanto eu caminhava em direção ao carro de bombeiros, mas ninguém se ofereceu para me ajudar, nem Tiffany, nem Brian. Mantendo a cabeça virada para o lado contrário ao acidente, me joguei na espaçosa cabine do carro de bombeiros. Me escolhi como um gato perto dos alicates gigantes do equipamento de resgate, o que provavelmente era bom, pois eu certamente precisaria deles para me ajudar a extrair esses problemas que eu havia arrumado com Johnafter. Eu tive câncer, seu idiota. Eu estava tão cansada. Quase terminei minha corrida diária de oito quilômetros no parque. E ainda não tinha conseguido dormir, exceto por um cochilo de meia hora em frente ao carro de bombeiros antes do pessoal da emergência me deixar onde estava minha moto. Mesmo já perdendo as forças, consegui um pouco de energia, tentando superar a lembrança de minhas próprias palavras. Eu – ti – vê –cân – cer – seu – idiiiiiiiii...

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Parte de mim queria não ter dito aquilo. Eu não tinha visto o rosto de John quando gritei com ele. Não tinha visto seu olhar obscuro de dor, mas podia imaginar. Esse machão orgulhoso era muito frágil, eu sabia. Eu tinha colocado o dedo na ferida, na frente dos homens mais velhos com os quais ele estava tentando desesperadamente se parecer. Depois recordei o corpo contorcido no minúsculo espaço do carro destroçado e quis empurrar John ainda com mais força. Feito. Cheguei até o muro com as marcas de mãos e caminhei em volta dele para esfriar a cabeça. Acho que esperava que o fantasma de Johnafter virasse a curva em minha direção. Não havíamos mais nos encontrado no parque desde aquela primeira tarde. Uma noite lhe perguntei se ele estava tentando evitar me encontrar lá. Ele respondeu como a pessoa honesta e bem-intencionada que era que às vezes tinha de ficar até tarde na delegacia para finalizar a papelada das prisões que havia feito e os relatórios daquela noite. Por isso, não dormia até a metade da manhã e ainda estava dormindo quando eu saia para correr. Ele corria á tarde, depois de acordar. Eu não estava disposta a ficar acordada até mais tarde e perder minhas horas de sono para vê-lo, da mesma forma que ele não estava disposto a acordar cedo e perder suas horas de sono para me ver. Acho que nós dois entendíamos que nossa relação estava construída inteiramente baseada em conversas inteligentes, e nenhum dos dois conseguiria ser inteligente depois de apenas quatro horas de sono. Espere um minuto – o que eu estava pensando? Que relação? Nós provavelmente nem tínhamos mais um encontro para transar. John se foi,

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estava de volta ao anuário de onde havia saído e eu já não desejava passar minha ultima noite na patrulha com o policial After. Meu telefone celular tocou. — John! — exclamei, correndo até minha moto no canto do estacionamento e buscando o celular em minha bolsa. Havíamos trocado nossos números de telefone caso outro suspeito tentasse golpear a porta da viatura quando John não estivesse por perto. — Alô? — Oi! — disse Tiffany. — Estava com medo de você já estar dormindo, mas você parece bem acordada. Tentei não demonstrar minha decepção. Retirando mechas azuis molhadas de meus olhos, eu disse: — Acabei de terminar minha corrida. — Você esta correndo esta semana, mesmo com tudo o que esta acontecendo? — Eu preciso. — E então? Você tem ou não leucemia? Distanciei o telefone do ouvido e franzi as sobrancelhas. Se Tiffany sabe por que eu corro, é porque estou ainda mais transparente do que imaginei. Coloquei o telefone de novo no ouvido. — Não hoje.

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— Isso é bom. E na noite passada? Você estava bem? Nunca vi ninguém tão fora de si. Chutei a marca de minha mão no muro. — Graças a John — eu deveria estar chutando a marca da mão dele, mas ela ficava muito alta. — Ele foi atrás de você, sabia? Quando você caminhou até o carro de bombeiros, parecia que cairia sobre os cones laranja. Mas eu pedi para ele voltar. Eu tinha medo de você bater nele de novo e se meter em confusão. — Claro, sou uma ameaça — senti meu rosto corar ao pensar em John vindo atrás de mim. Ele se importava, ele se importava! Ele se importava tanto que me fez desmaiar de propósito! Eu era patética. Tiffany limpou a garganta. — Escuta, queria te pedir um conselho. Dei uma risada. — Claro, sou uma conselheira excepcional. Manda. — Brian ainda não está falando comigo. Não retorna minhas ligações. Mas, logo antes de irmos para a ponte, ele estava dando indiretas de que deveríamos transar... Eu sabia onde ela queria chegar. — Não — E estava tentando me convencer a fazer isso, mas eu não queria. — Não

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— Agora, se eu quiser voltar pra ele... — Não — Pensei em dizer a ele que mudei de ideia. — Planeta Terra Tiffany! — Por que não? — ela exclamou. Tradução: Se você pode transar com um drogado, por que eu não posso transar com o melhor aluno da escola? — Eu provavelmente conseguiria pensar em 20 motivos. Como ainda não dormi hoje, posso pensar em apenas três. Primeiro você não deve voltar a namorar alguém que te ignora. — O silêncio não é tão ruim. — Obviamente está deixando você maluca. Em segundo lugar, você está querendo ficar bêbada e transar por que todo mundo esta fazendo isso. Pelo menos, você pensa que todo o mundo está fazendo isso, porque as pessoas ficam se gabando, mas você tem de fazer o que é melhor para você. Silencio do outro lado da linha. Esperei ela me agradecer por minha infinita sabedoria, mas o que ela disse foi: — Pensei que poderia contar com seu apoio, afinal, você tem uma camiseta que diz “pressão social”. — Hoje vou te pressionar a não fazer algo, em vez de uma pressão para fazer algo. Veja bem, eu uso camisinha quando faço sexo. Quando termina, nunca mais penso no assunto. Com você, seria diferente. Você usaria uma camisinha, que não furaria, e não haveria nenhum problema. No dia seguinte,

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iria ao medico para se certificar de que não estava grávida e não tinha aids. E voltaria todos os dias durante um mês — aumentei minha voz por causa dos risos de Tiffany. — Três anos depois, você ainda estaria obcecada, pensando que poderia ter uma reação retardada. Você pode estar grávida e ter AIDS. Faria o possível para impedir que Brian terminasse com você, porque, se ele fizesse isso, poderia ligar para sua mãe e diz que você não era mais virgem. — Sou tão previsível assim? — Tiffany perguntou. — Sim, e não estou dizendo que é ruim ser assim. Provavelmente me faria bem ter um pouco de preocupação obsessiva por vida. Ajudaria a equilibrar as coisas. Percebi que estava caminhando loucamente para cima e para baixo no estacionamento, como se a vida sexual de Tiffany realmente me preocupasse. Voltei para a moto e continuei: — Estou dizendo que você não se sentiria confortável fazendo sexo casual, ou seja, á o que estamos falando. A versão prostituição da Associação dos Melhores Alunos. Quando for a hora, você não precisará me chamar para confirmar. Você saberá. E há o terceiro motivo pelo qual você não deveria fazer isso: sexo não é tão bom assim. Ela ficou quita. Touch my body começou tocar, como se quisesse estimulá-la. — Ah, qual é... — Não é mesmo.

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— Não deve ser bom na primeira vez. Pensei que você já tinha passado por essa fase. Ri. — Obrigada, Tiff, mas ainda assim não é bom. — Então por que você esta fazendo? — ela gritou. Uma rajada de vento me fez tremer em meu moletom suado. — Quero garantir que vivi, caso não tenha muito mais tempo de vida. — Você me disse que acabou de correr e que não tem leucemia! — Sempre espero o pior. — Parece bastante com uma preocupação obsessiva — ela disse. — Sim, sobre isso em partícula. — É uma particularidade bastante intensa, Meg. — Claro, olha quem fala. Vá em frente e faça a proposta ao Brian e vou dizer a toda a escola que você é uma vadia bêbada. Ela desligou em minha cara. Eu já estava colocando o telefone de volta em minha bolsa quando ele tocou novamente. Atendi. — Tudo bem, você não é uma vadia. Mas, se quiser sair com cachorro grande, tem de aprender a aceitar uma brincadeira.

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Silencio do outro lado da linha, mas não se ouvia Touch my body. Meu coração parou. — John? — perguntei. — O outro — disse Eric. Meu coração voltou a bater, lentamente. — Oi! Estava esperando sua ligação. E retiro o que disse sobre você não ser uma vadia. — Igualmente — ele disse. — Está a fim de transar? — Não sou uma vagabunda qualquer. — É sim. Uma viatura policial atravessou o parque lentamente. Não era John, obviamente. Era algum sortudo que trabalhava de dia, mas meu coração parou novamente um segundo antes de perceber que não era ele. Eu já estava longe, precisava voltar á realidade, senão terminaria como Tiffany, fazendo sacrifícios por um garoto. — Ta bom, acho que sou, mas antes preciso dormir um pouco. — Deixa sua moto na delegacia hoje à noite — disse Eric. — Te pego lá às 21 horas e te deixo lá novamente no começo do turno de John, às 22 horas, certo? Eric nunca precisava de muito tempo.

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— Não consegui nenhuma maconha — ele me alertou —, mas vou levar um pouco de cerveja. — Você esta maluco? — algumas velhinhas que caminhavam pela pista em moletons enfeitados com lantejoulas se viraram para me encarar. Abaixei o tom de voz. — Não posso beber cerveja e depois patrulhar por oito horas com John. — Então acho que terei de fazer isso sóbrio — quase pude escutar Eric tremer quando desligou o telefone. Eu também. Naquela noite, fui até a farmácia do outro lado da Rua do Cafextra! Cafextra! E comprei camisinhas. Eu sempre levava camisinhas. Eric era capaz de esquecê-las e não se importar. De alguma forma eu sabia disso sobre ele desde o começo. Depois dirigi minha moto até a delegacia, como combinamos. Eric estava 15 minutos atrasado, como esperado. E se atrasaria 15 minutos para me trazer de volta, o que deixaria John nervoso. Era o plano de Eric, e era um bom plano. Eu não disse nada quando ele entrou coma BMW na estrada de terra e estacionou na clareira ao lado da ponte. Desligou o motor e me olhou. Pelo menos, parecia que estava me olhando, pois nuvens cobriam a lua e as estrelas. Com o motor e as luzes do painel desligadas, a escuridão era total.

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— Desta vez, quero que você tire toda a roupa — ele disse —, não é só pra baixar suas calças 15 centímetros. Seu tom era suave, mas por algum motivo recebi suas palavras como um alerta. Precisava ver o olhar em seu rosto. — Não é assim que eu faço — eu disse. — Desta vez quero que você faça do meu jeito. — O que? Sem preliminares? — perguntei, com desdém. — Preliminares — ele murmurou como se fosse uma ideia nova. Depois me beijou. Queria não ter falado em preliminares. Eric não beijava bem. Seu beijo era molhado demais, com língua demais, tudo demais, demais, demais. Suas mãos já estavam em minha camiseta, como se não fizesse sentido me deixa no clima, como se eu fosse apenas uma garota no último ano do segundo grau com cabelos azuis e fama de fácil. Fechei os olhos e pensei em John, na forma com aqueles olhos escuros e sonolentos me olhariam quando colocasse suas mãos em minha camiseta. Como ele não teria pressa. Honestamente, não ajudou nada. Havaí um antônimo na minha frente. Esquivei-me do seu beijo, mas Eric me seguiu. Virei a cabeça. Ele colocou a língua em minha orelha. Finalmente coloquei uma mão em seu peito e o afastei. — Da um tempo, pode ser? — eu disse como sotaque britânico, para amenizar.

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— Qual é o problema? — ele rosnou, com a boca inda em minha orelha. — Agora você quer que eu te mande flores? Credo. — Não consigo fazer isso. Não tenho a menor vontade de transar com você quando não estou bêbada. Suas mãos pararam em minha camiseta. Depois começaram novamente. — Hoje é a sua última noite com John? Posso te ligar amanhã. Não consegui acreditar nisso. Eu tinha acabado de dizer que não me sentia atraída por ele quando estava sóbria. Ele nem se importou. Ele tinha de saber que havia algo entre John e eu – ou que tinha havido. Não conseguia evitar pronuncia o nome de John com uma voz esperançosa. Eric não se importava. Provavelmente transou com Angie ontem à noite e não se importava com isso também. Eu não teria me importado há uma semana, mais agora sim. Segurei seus pulsos e tentei afastá-lo de minha camiseta. — Não, acho que você não deveria mais me ligar. Ele me apertou com mais força. Comecei a me sentir estranha, com muito medo. Esperava que ele fizesse cara feia, ou me chamasse de vadia estúpida, mais não esperava que continuasse insistindo depois que eu dissesse que eu não queria nada. A definição de John deu um caso domestico passou por minha cabeça.

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— Você esta terminando comigo? — Eric perguntou. — Eu terminaria, mas acho que não é possível — Eu disse, tentando manter minha voz calma. — É preciso existir uma relação antes de terminá-la. Olhamos um para o outro. Agora conseguia vê-lo na fria escuridão. Seus olhos brilharam e se tornaram duros. Pressionei-o até o limite de seu controle, e não havia nada mais que raiva. Ele faria alguma coisa. Sentindo a ponta de seus dedos em minha pele e meu batimento cardíaco golpeando em meus ouvidos, tentei pensar, a pesar do medo. Ele era duas vezes maior do que eu, ainda por cima. Eu não lembrava exatamente o que tinha feito a Tedd Pemberton quando ele tentou me prender no elevador no nono ano, mais foi legendário. Eric que tente me prender. Ele que tente.

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Capitulo 13

E

le tirou as mãos de minha camiseta e recostou-se em seu banco. — Você não deveria brincar comigo — disse, rudemente. — Meu pai conhece todos os agentes sanitários do pais. Ele

poderia arruinar o Cafextra! Cafextra! Em um piscar de olhos. Foi quando realmente me senti aliviada. Pensei que ele ia me machucaria, mas, se só queria ser mesquinho, isso eu poderia aguentar fácil. — Eric — eu disse —, noticia de última hora: seu pai não se importa nem um pouco com você. Não se importa se você terminou com a namorada. Já vi a maneira como ele olha para meus cabelos. Ele vai ficar muito grato se meus cabelos não estiverem mais associados á sua família. — Ei! Meu pai me tirou da cadeia. Seu pai deixou você lá, apodrecendo. Isso doeu, mas fui firme: — Seu pai não queria ser mais envergonhado. Meus pais já têm experiência em ser envergonhados por mim. Sua mandíbula se moveu um pouco sob a luz fraca, como se estivesse

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mastigando algo. Ele veio em minha direção, e me esquivei, mas ele só estava tentando alcançar um saco com maconha no porta-luvas. — Você estava mentindo — eu disse. Ele retirou um cigarro enrolado e um isqueiro do meio da erva. — Ah, não. Esqueci que menti para você. Quer um pouco? Quem sabe você mude de ideia sobre... a outra coisa. — Não, e particularmente não quero patrulhar com um policial cheirando a maconha. Ele acendeu o isqueiro, tocou o fogo com a extremidade do cigarro e deu uma longa tragada. Segurando a fumaça nos pulmões, sugeriu: — Abra o vidro — exalou uma nuvem tão espessa intoxicado com seu hálito. Busquei os controles da janela sem pensar. — São vidros automáticos, Eric. Ligue o motor. Ele se moveu para ligar o carro. — Não, espere! — exclamei. — O que você esta pensando? Por que está fumando maconha antes de me levar de volta? Você não vai realmente dirigir, chapado. Até a delegacia. Vai? — Por que não? Meu pai pode me livrar de qualquer problema — deu outra tragada. O que eu poderia fazer? Poderia sair do carro e ligar para John. Ou

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simplesmente ficar parada na escuridão esperando John aparecer, já que ele amava tanto a ponte, mas então eu teria de explicar como cheguei aqui e por que minha moto estava na delegacia. E eu me salvaria, mas deixaria Eric ir embora e talvez causar um acidente, matando pessoas inocentes. Não que houvesse mais chance de isso acontecer agora do que todas as outras vezes em que ele dirigiu bêbado ou chapado e eu estava no carro com ele. Mas eu tinha de admitir que ver uma mulher morta na noite passada me afetou exatamente como John e os chefões queriam. Eu odiava isso, mas era assim. Tudo bem, eu ligaria para John e lhe pediria para parar Eric na estrada e depois vir me resgatar. Sai e bati com força a pesada porta da BMW. Ao ouvir um zumbido baixinho, me virei em direção a ponte e busquei o farol do trem. Luzes azuis surgiram atrás de mim. Com o coração acelerado, dei uma volta e esperei John dizer algo para me humilhar pelo megafone. — Motorista, permaneça no carro. E nem tente esconder a mercadoria. Era a voz do policial Leroy. Ele deixou o motor ligado e caminhou da viatura até a BMW. Aproximando-se de mim. — Sei o que parece — eu disse rapidamente, antes que ele pudesse pegar as algemas.

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— Parece como todas as vezes que pego os jovens estacionando para namorar — sob a luz giratória, não consegui identificar se ele estava me olhando com aquele olhar de desaprovação dos adultos. — Mas não é assim — eu disse. Tentei pensar em algum argumento para tentar convencê-lo a não contar a John. Ainda que eu não me importasse com o que John pensava. O policial Leroy indicou com a cabeça: — Vá até o carro de After. Ele quer falar com você. After. Forcei meus olhos para tentar ver algo na escuridão. Sem dúvida, uma segunda viatura estava estacionada ao lado da viatura do policial Leroy. Ai, não. — Será que você não pode me passar o sermão? — Ele está bastante irritado — disse o policial Leroy. — Eu não brincaria com ele se fosse você. — Ele está irritado — resmunguei. Eu estava realmente com raiva. Pelo menos queria estar com raiva, mas me sentia assustada e culpada. Porém, não havia nada para temer ou sentir culpa. Eu não tinha feito nada de errado. Bem, talvez essa fosse uma afirmação forte demais. Eu não tinha feito nada ilegal. Tremendo, passei pelo policial Leroy e fui ate o carro de John. Puxei a maçaneta da porta traseira. Estava travada. Bati na porta e ouvi a trava abrir. Sentei no banco de trás, cruzei as pernas formalmente e fechei a porta.

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Provavelmente estava me trancando lá dentro. Através da grade de metal, sob o brilho do painel e os faróis da viatura do policial Leroy, John rabiscava formulários em sua prancheta. Olhei para o espelho retrovisor, esperando o choque inevitável quando nossos olhares se encontrassem. Tentei controlar a tremedeira para que ele não escutasse meus movimentos no banco de couro sintético no carro aquecido. Mas ele não encontrou meus olhos no espelho retrovisor. Virou-se para me olhar com toda a intensidade a traves da grade de metal. Não estava indignado, apenas magoado. O que me deixou pior do que qualquer outra coisa, porque isso significava que poderíamos ter salvado a quinta-feira ás 6h01 da manhã, e eu tinha jogado tudo pela janela. Para piorar, um sopro do perfume que ele tinha usado para mim tocou meu nariz. — Você sabe que venho aqui sempre — ele nunca tinha falado nesse tom comigo antes: magoado, acusatório, de 19 anos. — você queria que eu te encontrasse aqui transando com o Eric. — Eu não estava transando com Eric. Estava parada fora do carro quando vocês chegaram aqui, portanto teria que me esticar bastante. — Mas você pretendia. Eu queria me desviar de seu olhar, mas seus olhos prenderam os meus. Meu cérebro lutou, buscando uma arma pra me defender.

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— Você me seguiu. Funcionou. Ele ate se ajeitou no banco um pouco detrás da grade e ficou na defensiva. — Não te segui. Estava indo para o trabalho alguns minutos antes para escrever meu relatório semanal. Geralmente faço isso durante meu turno, mas ele tem sido mais interessante do que o normal esta semana — fez uma pausa para ver minha reação. Minha pulsação acelerou com aquela sensação idiota novamente. Ele gosta de mim. Ele gosta de mim, mas tive o cuidado de não demonstrar nenhuma reação. Ele continuou: — Depois reconheci o carro de Eric e vi vocês indo em direção a ponte. Esperei que ele se escutasse, mas obviamente isso não aconteceu. John era seletivamente sonso. Finalmente enfatizei: — E então você me seguiu! Ele fechou os olhos. — Eu... — Já estou envergonhada o suficiente. Por que você trouxe Leroy? Queria que eu me sentisse o mais humilhada possível, não é? Você gosta de fazer outras pessoas se sentirem vulneráveis e capturadas, porque isso te faz sentir mais forte e no controle. — Eu...

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— Isso é o que você quer, certo? Isso é exatamente como você me quer. — Não! — ele gritou. Seu peito inflou e desinflou rapidamente. Ele levantou uma mão para agarrar a grade de metal entre nós. Suas articulações estavam brancas. —Se eu mesmo tivesse retirado Eric do carro, tenho medo do que poderia ter feito com ele. Virou-se em seu assento e pegou a prancheta novamente. Sua mão tremia segurando a caneta. — O que pretende escrever, se eu já sei que só esta fazendo isso para me intimidar? — perguntei calmamente. —Não tente me deixar mais nervoso do que já estou — continuou fazendo anotações e marcando X e passando os formulários enquanto rosnava: — Você esta tentando se vingar de mim por causa da noite passada. Acha que eu não sinto a mesma coisa, só porque estou de uniforme? Eu quis continuar agindo como se estivesse chateada, mas ele estava muito nervoso. Exigia, e talvez até merecesse, uma resposta verdadeira. — Você me disse no restaurante uma noite que eu estava buscando pontos fracos para te apunhalar. O que você acha que fez comigo na noite passada? Já me viu desmaiar antes, sabia o que aconteceria. John balançou a cabeça. — Eu não estava te algemando ou te prendendo. Não tinha ideia que você desmaiaria. Só queria te mostrar aquele acidente para te assustar, porque não quero que você se machuque — Ele se virou em seu assento e se aproximou da grade de metal entre nós, como se quisesse passar por ela. — Eu me importo

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com você, Meg. Seus olhos escuros e sonolentos me derreteram. Quase. Eu não cairia nessa historia. Olhei para ele. — Você se importa com a menina morta. — Não, me importo com você. — Sim, entendi isso ontem no acidente. Nada melhor para dizer “Eu te amo” do que um corpo morto. Ele suspirou. — Você não quer ser amarrada ou presa. Mas a morte é a prisão final, e você esta indo em direção a ela. É isso que estou querendo te dizer. — Mas uma pessoa não pode viver preocupada com a morte o tempo todo. Se fizer isso, já esta morta. Como você. Ele havia se esquecido completamente de ser o policial grande e forte. Mordeu o lábio suavemente, passando os dedos pelos cabelos curtos. Mas estávamos conectados. Cruzei os braços sobre o peito. —Mesmo se você estivesse com raiva de mim — ele disse —, mesmo se pensasse que te ofendi, não imaginei que você pudesse vir aqui com Eric. Eu achava que a semana que passou significou algo para você. — Não transei com ele — repeti. — Mas o faria — ele repetiu.

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As duas coisas pareciam verdadeiras, mas não encaixavam. — Eu não faria nada — eu disse. — talvez eu tivesse pensado que faria, mas não faria nada. Ele me observou cuidadosamente. — Por minha causa? Suspirei. — Por sua causa. Ele me olhou com aquele olhar obscuro e afetuoso. — Agora é quando eu deveria te abraçar e nos sentiríamos muito melhor, mas não posso na frente deles — mostrou o policial Leroy, que estava revistando Eric sob a luz azul giratória fora do carro. Depois se virou e abriu as mãos em frente a grade de metal. — Considere-se abraçada. Abraço virtual. Senti o abraço virtual, quente e apertado. — Tudo bem — eu disse —, mas, a partir de agora, cada vez que você me mostrar um corpo morto, vou transar com Eric. — Nossa, Meg! — É o máximo que posso fazer por você agora. Nos encaramos através da grade por alguns segundos. Apesar de sua expressão austera não ter mudado, ele inclinou a cabeça, como se me olhar de um novo ângulo pudesse ajudar. Finalmente se ajeitou em seu banco, ficando de frente para o volante. Como se nada tivesse acontecido — nenhum desmaio induzido, nenhum quase sexo com um namorado maconheiro, nenhum abraço virtual —, Disse: — Venha para o banco da frente, que é seu lugar, e vamos sair daqui.

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Temos trabalho a fazer. Dirigimos ate a interestadual e ao centro da cidade, fomos até a ponte, ao McDonald´s, ao Martini´s, ao Cafextra! Cafextra!, até a ponte, ao lado perigoso da cidade, ao cruzamento de Birmingham e novamente até a ponte. Depois Lois informou sobre uma tentativa de invasão em umas das lojas menores perto de Target no centro comercial da cidade, que alguns de nossos menos sofisticados cidadãos, incluindo minha mãe, chamavam de shopping center. Lois disse que os suspeitos estavam dirigindo um velho Aztek. Atravessamos todo o estacionamento do shopping e atrás dos prédios. Nenhum Aztek. Como sempre, o crime já tinha sido cometido quando John chegou lá. Ele estacionou a viatura e caminhou sob a cobertura do shopping. Verificou as portas de todas as lojas e passou sua lanterna pelas janelas para se certificar. Alto-falantes sob a cobertura tocavam a estação de rádio de Birmingham,como se fosse horário comercial, e não 4 horas da manhã. Como se John estivesse em um encontro no shopping. Ele tentou abrir a porta trancada da Dixie Dental e apontou sua lanterna para a sala de espera. Despreocupadamente, disse: — Não conversamos sobre nada importante durante o turno. — Como o quê? — eu esperava que ele dissesse que deveríamos falar sobre a quinta-feira as 6h01 da manhã, que seria aproximadamente daqui a duas horas. Esperava que estivéssemos combinados de novo. — Como o câncer — ele disse.

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Que decepção. Mas eu podia sentir que isso realmente o estava incomodando. Ele evitou meus olhos e, para facilitar minha resposta, continuou examinando os cartazes da Dixie Dental, com desenhos de pessoas sorrindo e mostrando os dentes. — Eu não teria te pressionado tanto se soubesse — ele disse. — Não me pergunte como estudei com você e nunca fiquei sabendo disso. Eu o segui enquanto ele caminhava ate a loja Bama Blinds, Curtains, and More, que estranhamente não tinha cortinas nas janelas. Ele tentou abrir a porta. Tentei prestar atenção por onde andava. Apesar de estar olhando para baixo, ou talvez por causa disso, tropecei em meus próprios pés e quase cai ao tentar evitar um buraco. Não queria dar mais trabalho para minha mãe. Na verdade de todas as coisas que eu e me arrependia sobre a forma como lidei com a leucemia (ou como falhei miseravelmente em fazê-lo), eu sentia mais por ter preocupado minha mãe. Todas as vezes que meu pai me culpava pelo sofrimento dela, eu queria escapar ainda mais, o que me metia em mais problemas. Queria poder voltar atrás e apagar tudo isso. Deus sabe quantas vezes já dei trabalho para minha mãe. O teto da passarela parecia terrivelmente baixo de repente. Sai da calçada e pisei no estacionamento, onde era mais seguro. Postes de luz altos sustentavam o céu azul-escuro sem estrelas. — O tratamento durou ate quando cheguei ao segundo ano — eu disse. — Mas toda a questão da queda de meus cabelos, da ambulância correndo para me pegar na escola quando eu desmaiava no corredor, tudo o que chamaria sua atenção, aconteceu na oitava serie do ensino fundamental,

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quando você já estava no primeiro ano do ensino médio. Não teria porque você ter escutado sobre isso. E nem faz sentido eu te incomodar por causa de seus cigarros. Não tive câncer por fumar cigarros, e sim porque sou sortuda. Acho que não quero que mais ninguém passe pelo que passei. Principalmente você. Pensei, mas não consegui dizer. Ele se virou na calçada e me olhou. — Conte-me o que aconteceu. — Não, não é nada importante. Sei que ajo como se fosse, mas... A música enjoativamente inspiradora de Phil Collins tocou nos altofalantes. Não pude evitar sorri. — Tudo bem, vou te contar porque esta e minha musica. Look Through My Ass. John me mostrou suas covinhas. — Acho que é Look Through My Eyes. — Não, não, não. Eu tive uma reação adversa a quimioterapia. Eles ficavam trocando meus medicamentos e começando tudo de novo. Estive a ponto de morrer durante meses. Na verdade a ambulância na qual Tiffany está passeando agora era meu leito de morte. Balançando a cabeça para me mostrar que ele ainda estava escutando, ele se virou para o outro lado e apontou sua lanterna para a loja novamente para que eu pudesse falar, o que apreciei. Quando terminei de examinar Bama Blinds, Curtains, and More e caminhou pela calçada até a próxima loja, me olhou de canto de olho para se assegurar de que eu ainda o seguia pelo

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estacionamento. Expliquei a historia da musica: — Tive de fazer varias ressonâncias magnéticas para que eles pudessem acompanhar minha falência múltipla de órgãos. Não sei se você já fez uma ressonância magnética, mas eles te colocam em um tubo extremamente pequeno. Eu sempre fechava meus olhos e cantava essa musica com todas as minhas forças para o radiologista horripilante que olhava as imagens do interior de meu corpo. Juro, é essa musica melodiosa de um filme da Disney que eles tocavam na sala de recreação na ala pediátrica, com uma orquestra pomposa e os violinos e tudo, e depois Phil Collins começa a cantar Look Through My Aaaaaaaaaass. Os ombros de John balançavam com suas gargalhadas. Ele ate abaixou a lanterna, fechou os olhos e não parou de rir por alguns segundos. E eu resplandeci por tê-lo feito rir. Como eu era idiota. Ele soltou uma última gargalhada e continuou caminhando pela calçada. — Foi ai que surgiu sua claustrofobia — ele disse, por sobre o ombro. — Não.

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Capitulo 14

O

que acontece é que eu corria todos os dias na aula de Educação

Física e comecei a me sentir realmente cansada. Foi assim que eles descobriram que eu tinha leucemia. Disseram que eu precisava de tratamento que me faria sentir muito pior do que a

própria doença. Eu os mandei para aquele lugar. Minha mãe ficou nervosa e disse que eu era vaidosa e por isso não queria que meus cabelos caíssem. Bem, claro, isso era um problema, mais o problema mesmo é que eu não sentia que estava morrendo. Eu sabia que estava morrendo porque eles me disseram, mas não me sentia assim. Só me sentia cansada. E, se eu fizesse a quimioterapia, me sentiria como se estivesse morrendo. O médico ficou surpreso com minha reação e chamou a psicóloga infantil do hospital para me convencer. Ela queria me colocar no blog de suporte ao câncer on-line e me inscrever no acampamento de verão para pacientes com câncer. O câncer pode ser divertido! Eu disse a ela o que pensava sobre esse acampamento. Foi quando pintei meu cabelo de rosa, antes de uma das consultas com a psicóloga. Não uso minha cor natural desde esse momento. É minha forma de dizer dane-se. Não que eu tivesse nada contra aquela pobre mulher. Ela estava fazendo seu trabalho, mas eu não queria ser aconselhada. Eu não queria morrer. Eles me passaram para outro psicólogo, um homem que usava uma abordagem mais

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dura, mas não adiantou, pois eu já vivia esse tipo de atitude com meu pai há 13 anos. Eu disse ao Sr. Psicólogo onde ele deveria enfiar sua rigidez. O primeiro dia do tratamento passou. Recusei-me a fazê-lo. Eles esperaram alguns dias e me aconselharam mais, me adularam e suplicaram, e quase me convenceram, mas voltei atrás no ultimo minuto. Naquele momento minha mãe já estava seca de tanto chorar, sempre sentada em uma cadeira confortável e tricotando uma manta com fios de tristeza, como se amortecesse sua realidade, e meu pai já estava cheio de tudo aquilo. Ele me disse que eu estava matando minha mãe. Disse que iríamos para nossa terceira consulta para a quimioterapia e que eu deixaria os medico colocarem o dispositivo intravenoso em meu braço e sorriria enquanto eles fizesse isso, ou não teria mais iPod, nem TV, nem amigos, nem encontros com garotos no cinema. Ficaria de castigo por toda ávida. Que ótimo! Chegamos cedo ao hospital de Birmingham. Perguntei aos meus pais se eles podiam dirigir até Dreamland e pedir um churrasco para a viagem como minha ultima refeição antes de começar a quimioterapia e vomitar. Pedi educadamente. Eles disseram que sim. Meu pai nos deixou no carro e entrou no restaurante. Perguntei a minha mãe se eu podia tomar um chá gelado como meu churrasco. Ela disse que sim e entrou atrás de meu pai. Então sai do carro e comecei a correr pela Avenida Treze, fugindo para salvar minha vida. Corri até não poder mais, porém não cheguei muito longe. Birmingham está cercada por morros, e, claro, eu tinha leucemia. Consegui passar por dez casas e virar uma curva na estrada antes de cair em cima das azáleas de alguém. Era essa época do ano, fria, mas com tudo florescendo. Uma cerejeira esparramou delicadas pétalas rosa sobre mim. Foi quando percebi que morreria. E por que eu estava sendo tão emotiva? As pessoas morriam

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todos os dias. Eu não era especial. Por outro lado, a maioria das garotas de minha idade, como Tiffany, Julie Meadows e LaShonda Smith, estava sentada na aula de álgebra naquele exato momento, cantarolando música pop e memorizando o teorema de Pitágoras, enquanto eu definhava sobre os arbustos de um estranho. Por que eu? Eu era exatamente como elas algumas semanas antes, mas não era mais uma delas. Agora eu era uma adolescente que desafiava seus pais e maltratava os adultos. Morrer fazia mais sentido agora que eu merecia. Uma viatura policial virou a esquina. Eu soube instantaneamente que meu pai tinha chamado a policia pra me buscar. Tentei me levantar e correr, mas ainda estava ofegante. Eles me abordaram e me algemaram e eu lutei e gritei, sem me importar com nada. Dirigiram alguns quarteirões e estacionaram na sala de emergência do hospital. Tentaram me tirar do carro e comecei a chutar. Eles juntaram minhas pernas e me levantara como uma ovelha que está prestes a ser sacrificada. Meu pai também me puxava, junto com eles. Minha mãe estava chorando no banco de passageiro. Mesmo com todo o barulho da cidade, eu podia ouvi-la chorando dentro do carro. Meu pai lhe disse para estacionar o maldito carro e nos seguiu. Os dois policiais me carregaram até o elevador com meu pai. Alguém entrou no elevador com a gente, alguma secretaria azarada que não tinha nada a ver com a história, alguém que normalmente acenaria educadamente quando entrasse no elevador. De repente me pareceu hilário que eu tivesse esse pensamento sobre bons modos, enquanto olhava para baixo, segurada pelos pés e pelas mãos por dois policiais. Ri nervosamente. O policial me perguntou se eu poderia ser uma boa menina e ir gentilmente para minha execução. Comecei a chutar novamente, o

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máximo que pude, contorcendo-me. Pela primeira vez em toda essa provação, eu quis machucar alguém. Chegamos ao andar. Os policiais me colocaram sobre uma maca, mas ficara para ajudar a me segurar enquanto eu era levada pelo corredor. Todas as crianças naquela ala pararam na porta de seu quarto, vestindo pijamas claros, e me observaram passar ofendendo. Enfermeiras se aglomeraram em volta da gente e caminharam pelo corredor, nos acompanhando e protegendo os inocentes de mim. Elas sussurravam as palavras resistentes, não cooperativa e desobediente, que são termos técnicos para pirralha histérica no quarto 86. Gritei qualquer coisa para fazê-los soltar-me. Na verdade não tenho câncer. Meus pais querem me matar. Meu pai está tentando se livrar de mim. As enfermeiras faziam todo tipo de barulho para tentar calar minha boca. Você esta agindo como se tivesse 3 anos de idades. Está assustando as outras crianças. Recebemos uma criança autista aqui na semana passada que gritava menos do que você. Caminhando trás da gente, o médico falou com um sotaque indiano e uma pronuncia britânica em suas palavras, tão diferente do sotaque sulista de meu pai que era como se eles nem tivesse falando a mesma língua. Médico: Ela está na idade limite em que deveríamos respeitar sua vontade e oferecer mais aconselhamento, buscando seu consentimento para o tratamento. Pai: Eu sei. Médico: Também é o limite em que, se não a tratarmos, ela terá altos riscos de fracasso no tratamento, independente do que façamos depois.

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Pai: Eu sei. Médico: Mas seu exame sugere que ela tem possibilidade de vencer a doença. Pai: Veja bem, doutor, eu sei de tudo isso. Amarre-a e faça o que for preciso para salvá-la. Fomos até o quarto e os policiais me seguraram na cama para que as enfermeiras pudessem me atar pelos pulsos e calcanhares. Forcei as amarras até que as mãos ficaram dormentes. Isso não estava acontecendo, não podia ser a forma como tudo acabaria, mas era. Gritei tão alto que quase nem conseguia ouvir a enfermeira dizer ao meu pai que ele precisaria preencher um formulário consentindo que eles me amarrassem e outro formulário consentido que me sedasse, e ele deveria ir até o posto das enfermeiras para fazer isso. Ele saiu do quarto. Outra enfermeira sussurrou calmamente em meu ouvido “Querida, em qual mão você quer o dispositivo intravenoso?” Ela tentou me fazer pensar que eu tinha alguma escolha, enquanto me dava uma injeção de tranquilizante. Calma, querida, vai acabar logo. Senti o efeito imediatamente. Eles retiraram as amarras. Prensei, agora estou livre, mas não conseguia me mover. Era como se as amarras inda estivessem lá. Dormi, e mais tarde acordei morrendo. Depois disso, fui de boa vontade a todas as sessões de quimioterapia e de radioterapia, pois não queria ser amarrada novamente. Ás vezes meu cabelo crescia de novo apenas um pouquinho entre uma sessão e outra, e minha mãe me dizia o quanto eu estava bonita, e eu pintava meu cabelo de lilás. Cada vez que tinha uma reação adversa e comecei a morrer de novo, olhava para meu pai e dizia Eu te avisei.

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John e eu estávamos sentados no capô da viatura. Na verdade John estava inclinado sobre o para-choque. Eu balançava sobre o capô, enrolada como uma bola com meus joelhos encostados em meu peito, tocando as costas da mão onde o dispositivo intravenoso tinha sido colocado. Agora que eu estava voltando para o presente em um piscar de olhos, continuei piscando para não chorar. Não chorei. John me observou com olhos escuros impenetráveis. Seus ombros levantavam quando ele inspirava. Estava a ponto de dizer algo como Sinto muito ou Não tinha ideia ou Você é uma pessoa terrível. Em todo caso eu poderia. Havia um motivo pelo qual eu não falava sobre esse assunto. — Sinto pena dos policiais que atenderam aquela chamada – ele disse. Dei uma gargalhada. Essa era uma boa desculpara para chorar um pouquinho. Continuei rindo e limpando as lágrimas. — Historicamente a polícia adora me ver. Ele riu também, colocando uma mão sobre os olhos, mas olhando para baixo. Eu também olhei para baixo, Tento dizer a mim mesma que suas lagrimas eram imaginação minha. Ele fungou. Como se virou para o outro lado, sua voz parecia abafada quando disse: — Seu pai te ama, ele estava assustado. Inclinei-me para frente e peguei sua mão.

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— John, esta semana sei que você tentou me mostrar que estou vivendo no limite e que não sou imortal. Entendi. Mas eu tive câncer, e nada vai parecer tão perigosa para mim depois disso, portanto, eu agradeceria se você parasse com isso – dei um tapinha em sua mão amigavelmente, que depois foi seguido por um tapa mais forte antes de eu soltá-la. – De qualquer forma agora acabou. Ele olhou para a mão que eu bati. — Será que acabou mesmo? — Bem, claro. Foi pior do que uma leucemia infantil comum, porque eu já estava crescida quando tive a doença. Poderia voltar, mais provavelmente não acontecerá. — Quero dizer que não acabou em sua mente. Você ainda está naquela mesa, amarrada, com um dispositivo intravenoso na mão. Observando o dourado distintivo policial reluzir enquanto seu peito inflava e desinflava, passei os dedos por uma mecha de meus cabelos. Me surpreendi com o quanto ele havia crescido. Quando puxei meus cabelos pra frente, me surpreendi novamente ao ver que eram azuis. — O que aconteceu depois disso no hospital? — John perguntou. — Você acabou aceitando a situação? — Eu não iria tão longe. — Você se tornou um modelo para aquela ala do hospital? — Não mesmo.

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— Mas as outras crianças brincavam em seu quarto. Olhei para ele. — Sim! Era como a estação central de trem lá dentro. Como você sabe? — E você sobreviveu. — Sim, e algumas crianças que estavam lá não sobreviveram. Minha companheira de quarto morreu. Quando terminei de falar, me arrependi de ter mencionado esse assunto. Eu estava indo bem, mas acabei fazendo besteira. Eu não tinha a intenção de estragar minha mágica ultima noite de prisão com John lembrando Lizzie Dark, que tinha 10 anos e cujos pais traziam seu cachorro para visita-la no hospital todas as tardes de domingo e sempre ganhava de mim no jogo de cartas. Que pena, Lizzie. Tive vontade de chorar de verdade. Erra difícil segurar. — Meg — John disse ao meu lado. Me preparei para mais questionamento. Eu sabia por que era claustrofóbica, mas o fato de saber não fazia esse sentimento desaparecer. Imaginei como seria ver o céu azul-escuro acima de nos como uma pesada cortina de pano, ou como o topo de uma tenda de circo, mas sim como um espaço infinito. Como todo o mundo via. John tinha coisas mais importantes para fazer do que se preocupar com minhas neuroses. Depois de escutar Lois no rádio, disse: — Um alarme foi disparado na loja Compre até não poder mais. Aposto que é nosso Aztek.

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Ele estava certo. – Aqui está você – John disse ao Aztek, que estava estacionado na loja de conveniência. Dirigiu a viatura até o acostamento do outro lado da rodovia com os faróis apagados e desligou o motor. Não era sempre que ficávamos no carro sem o rádio. Ou o aquecedor. O frio silencioso se fechou ao nosso redor. Meu corpo ficou ainda mais frio enquanto eu observava o que estava acontecendo dentro da loja de conveniência. Um homem apontava um rifle a alguém atrás do balcão, onde não conseguíamos ver. Um segundo homem com um rifle estava parado em frente ao balcão, com as costas viradas para a janela de vidro. Um terceiro homem na seção de gêneros alimentícios escorou seu rifle em uma prateleira para poder abrir um pacote de alguma coisa que eu não conseguia distinguir por causa da distância. Talvez fossem bolachas recheadas. John olhava para a loja quase sem piscar. Agarrou o volante com as duas mãos. Eu podia sentir sua tensão no ar. — Imagino que você esteja esperando reforço — era o que eu esperava. Ele balançou a cabeça, sem tirar os olhos da loja. — Por que eles estão cometendo esse crime em frente a janela, de onde qualquer pessoa poderia vê-los? — perguntei, só para puxar assunto. Para liberar um pouco de sua tensão. Ou da minha. — Entendo que são 4h30 da manhã, mas nunca se sabe quando um policial pode estar sentado do outro lado da rodoviária, observando. Ele soltou uma risadinha.

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— Pelo mesmo motivo que estão obrigando o caixa a abrir o cofre sob o balcão, em vez de retirar o dinheiro da caixa registradora e corre. Eles sabem que, quanto mais tempo ficarem, tem mais chances de serem pegos, mas estão chapados. Sem juízo. Pelo mesmo motivo que estão passeando pela cidade, cometendo crimes em Aztek — ele respirou fundo, exalou lentamente e diminuiu o tom de voz quase para um sussurro. – Quando eu entrar, abaixe-se. Meu coração batia desconfortavelmente em meu peito. Eu queria perguntar: Você quer dizer que eles realmente vão usar aquelas aramas? Eu não estava segura de já ter visto alguma vez uma arma de verdade pessoalmente, exceto a de John. Eu achava que ele tinha estado em perigo nas noites anteriores, mas tudo parecia distante e surreal até agora. O que acabei perguntando foi: — Este carro não tem vidros a prova de balas? — inclinei-me um pouco para poder ver seu rosto melhor. Depois me arrependi. As linhas de preocupação apareceram entre suas sobrancelhas. — Mais do tipo resistente a balas. Recostei-me no braço e observei os homens dentro da loja. Onde estava o reforço de John? Se ficássemos sentados aqui mais tempo, eu entraria em pânico. Eu nem conseguia escutar sua respiração. O carro estava tão silencioso que meus ouvidos chiavam. — Está com medo? — sussurrei. — Fui bem treinado.

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Sim, ele tinha sido bem treinado para entrar em um assalto em progresso com três armas apontadas para ele. Ou bem treinado para esconder que estava com medo. A forma como segurava o volante o entregou. — Quer um beijo de boa sorte? — perguntei. Seus olhos me encararam por um segundo, depois voltaram a loja. Ele esperou tanto tempo que pensei que não responderia. Pensei que ignoraria minha pergunta inapropriada. Depois disse: — Sim. Aproximei-me dele no banco. O calor de sua perna impregnou minha calça jeans. Inalando seu perfume, inclinei minha cabeça na direção dele. Ele não se virou pra mim nem desgrudou os olhos da loja, e claro que eu não queria fizesse isso, pois não seria seguro. Fechei meus olhos e suavemente beijei seu rosto. Sua mão grande tocou meu joelho, depois subiu por minha perna. Massageando-a com os dedos. Abri os olhos novamente para me certificar de que não estava arruinando seu trabalho oficial de policial. Ele ainda estava observando a loja, mas, quando terminei de beija-lo, ele suspirou. Beijei-o novamente, agora mais perto de sua orelha. Ele respirou fundo. Sua mão agarrou minha coxa.

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Recuei relutante. Deslizando minha perna para longe de sua mão, voltei ao banco do passageiro. Eu poderia ser responsável por metê-lo em uma encrenca. E, estranhamente, apesar de ele ainda estar olhando para a loja, senti que tive mais autocontrole do que ele. Sua mão deslizou até minha perna, encontrou minha mão e puxou-a para o meio do banco. Estávamos de mãos dadas. O policial After estava em sua viatura de mãos dadas com uma criminosa de cabelos azuis. Deve ter tido uma premonição de que morreria. Um zumbido baixinho vibrou o carro. Virei meu corpo. Uma viatura estacionou atrás da gente, com os faróis apagados. Outras duas estacionaram atrás dela. John apertou minha mão pela ultima vez. Depois, sem me olhar, saiu do carro, fazendo um ruído por causa do equipamento em seu cinto, e fechou a porta com cuidado. Teve uma breve reunião com os outros policiais na frente da viatura. Os quatro atravessaram a rodovia juntos, daquele jeito que os policiais andam, casual e calmamente, com propósito assustador. Caminharam rapidamente em direção a loja, mas pela lateral, onde não podiam ser vistos pelas janelas da frente. Quando chegaram ao prédio, o policial Leroy e outro policial se agacharam na esquina da frente. John e um quarto policial desapareceram pelos fundos.

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Os homens dentro da loja continuavam como se nada tivesse acontecendo. Um deles finalmente pegou o conteúdo do cofre com o caixa e estava enchendo os bolsos do seu casaco com os montes de notas. O outro ainda estava de guarda, com pouca eficiência, pois estava de costas para as viaturas estacionadas na rodovia. O terceiro comia bolachas. O policial Leroy falou pelo rádio em seu ombro e apontou sua arma para cima, pronto para disparar. Dentro da loja, uma porta atrás do balcão se abriu. John estava parado na porta com uma pistola apontada. O suspeito que estava de guarda apontou o rifle para ele, depois abaixou-o. Todos eles soltaram os rifles e colocaram as mãos para cima enquanto John avançava, apontando sua pistola para um suspeito e depois para o outro. Os três policiais entraram na loja. Obviamente eu não consegui ouvi-los, mas todos eles ficaram vermelhos e pareciam gritar bastante. Ordenaram que os suspeitos largassem suas armas, deitassem no chão e colocassem as mãos nas costas. John ainda dava cobertura a seus companheiros policiais, protegendo-os e apontando a pistola para os suspeitos. Finalmente, quando os suspeitos foram algemados e os policiais recuaram, John relaxou os braços e guardou sua arma. Depois olhou para mim. Eu tinha certeza de que ele não me podia ver observando-o àquela distância, ainda mais na escuridão. Mas ele me olhou. E acenou pra mim. Ofeguei no carro gelado, e percebi que estava prendendo minha respiração, mas agora eu estava tão aliviada.

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E nĂŁo, porque em alguns momentos nos Ăşltimos cinco dias eu tinha me apaixonado perdidamente por Johnafter.

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Capitulo 15

E

stacionamos na delegacia/tribunal/prefeitura e ele desligou o motor, mas não saiu do carro. Nem eu. — Já é quinta feira às 6h01 da manhã? — eu estava com meu

relógio, mas estava mais interessada na hora que ele tinha. Ele olhou seu relógio. — São 6h05. — Perdemos? Ele riu. — Então onde nós... — olhei em volta, depois olhei para ele. — Você não quer fazer isso, quer? Ele me olhou com seus olhos escuros. Não era um olhar de amor. Também não era o olhar duro e raivoso. Droga, eu não conseguia interpretar aquele olhar. Eu sabia que era melhor não me envolver muito, pois era mais fácil ver o que estava acontecendo com um pouco de distanciamento. Eu sabia disso, mas

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me envolvi demais. Não deveria ter lhe contado o que aconteceu há quatro anos. Ele pensava que eu estava doente. Sabia que eu era má. Agora eu acabaria me machucando. — Você estava sozinho no turno da noite com uma garota e estava entediado — respirei. — Por que eu levaria você a sério? — ele protestou. — Você me disse que não planeja. Pensei que você estava entediada. Além do mais, você terá problemas se não aparecer para trabalhar no restaurante agora. Ele tinha razão. Eu não tinha pensado no restaurante. Esse é o problema de não planejar. Você se mete em encrenca sempre. — Certo — inclinei-me e peguei meu caderno no chão. — Pode abrir o porta-malas? — nem bati a porta. Consegui fechá-la educadamente. Quando ele não o abriu, bati de leve no carro. O porta-malas abriu. Retirei meu capacete, fechei o porta-malas suavemente e coloquei o caderno dentro da bolsa em minha moto. John abriu a janela e me chamou. — Você sabe que não estará livre até entregar sua proposta de projeto ao promotor e dizer-lhe o que aprendeu. — Já lhe enviei por e-mail ontem — subi em minha moto. Ele colocou a cabeça para fora da janela. — Não vai me dar uma dica sobre do que se trata a proposta?

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— Sim, John. Isso é o que aprendi ao perder minhas férias de primavera com a polícia: aprendi que você é um maldito idiota — dei partida no motor para não escutar nada do que ele dissesse, depois coloquei meu capacete. Por um momento, pensei em tirá-lo, pendurá-lo na moto e cair fora, mas isso faria com que ele me seguisse. Eu não queria que ele viesse atrás de mim. Repito: eu não queria que ele viesse atrás de mim. Além do mais, eu não tinha condições de receber outra multa. Ajeitei meu capacete e depois fui embora, sem olhar para trás. Como se eu tivesse rido por último. Mas a última risada foi definitivamente dele. Ele conseguiu o que queria: ensinou uma lição à garota morta. Pareceu o turno mais longo de minha carreira naquele restaurante de quinta categoria. Alguns dias eu quase gostava de trabalhar no Cafextra! Cafextra! Cozinhar, inventar novas receitas. Observar os clientes mais pitorescos: os caçadores e pescadores se gabando, ou os amantes que usavam o restaurante como ponto de partida para seus encontros; se pudessem escolher, eles sempre ficavam na mesa da Princesa Diana, como se ela desse uma boa fama à traição. Hoje eu não estava gostando do trabalho. Estraguei alguns pedidos e queimei meu dedo na chapa. Não conseguia me concentrar no trabalho com os últimos cinco dias passando por minha cabeça sem parar, como o dia em que gritei com John fora do carro na ponte; ou quando o toquei em seu apartamento; ou quando o beijei em seu carro; ou quando o observei caminhar calmamente em direção à sua morte iminente na loja de conveniência,

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enquanto eu ficava esperando, como sua mulher preocupada, preparando um bolo de frutas para ele em minha mente. Senti com ele uma conexão maior do que jamais havia sentido com qualquer pessoa em minha vida. Será possível que eu imaginei essa vibração? Talvez. Decidi, enquanto limpava uma mesa cuidadosamente e virava os bustos de Elvis em direção à parede. Nos outros dias dessa semana, consegui fazer um intervalo no meio da manhã. Deixei Corey responsável pelo atendimento e verifiquei meu e-mail no escritório. Hoje estávamos tão ocupados que não consegui fazer um intervalo até quase 2 horas da tarde, a hora de finalizar o meu turno. Mas tive boas notícias. O promotor havia aceitado minha proposta idiota para desencorajar outros adolescentes perdidos a seguir meus passos. Na verdade, a prefeitura instituiria minha proposta hoje. De repente me transformei em uma cidadã exemplar. Imagine só. John adoraria meu projeto. Ou o odiaria. E a mim. Não que agora eu me importasse. Desliguei o computador e voltei para o restaurante para trabalhar alguns minutos mais limpando os pés das mesas ou outra coisa que os funcionários pagos não se preocupavam em fazer e — claro — pensar um pouco mais em John. Você acredita que um cliente teve a audácia de entrar naquele momento? Não pude ver seu rosto por causa do feixe de luz do sol ofuscante atrás dele, mas pude perceber, pela forma como caminhava, que era um adolescente.

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Peguei um cardápio e levei até ele. Queria poder dizer a esse garoto para ir ao McDonald's, porque adolescentes não davam gorjeta, mas ele poderia causar um tumulto que chegaria aos ouvidos dos meus pais. Eu sabia disso por experiência própria. Quando fiquei de frente para ele, onde sua cabeça e ombros bloqueavam o sol, congelei. Era John. O sol atrás dele fez as pontas de seus cabelos loiros brilharem como uma auréola. Nunca o vi tão lindo. Quero dizer, o policial After era másculo. Johnafter, o corredor, era gostoso. Mas esse garoto vestia calças jeans folgadas e uma camiseta desbotada apertada. Era uma camiseta da marca Incubus, aquela com um coração dentro de uma granada. Seu cabelo estava curto, mas não estranhamente tão curto. Sobressaía em lugares estranhos, como se ele tivesse passado as mãos pelos cabelos no caminho até o restaurante. Apesar da auréola, ele estava desarrumado. Exatamente como um garoto deve ser, Olhei em volta, procurando Corey. Ele poderia servir John em vez de mim, mas deve ter ido ao banheiro. Olhei para o estacionamento através das janelas da frente, caso Bonita estivesse chegando. Normalmente ela chegava 15 minutos antes para seu turno, o que era um milagre, considerando o salário que meus pais pagavam aos funcionários. Mas hoje não tive essa sorte. John passou por mim e sentou-se em nossa mesa, a mesa de Elvis. Caminhei até ele e parei em frente à mesa, segurando o cardápio de forma estranha. Eu estava completamente muda. Para variar.

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— Não preciso de um cardápio — ele disse. Eu deveria ficar surpresa por vê-lo. E definitivamente não deveria ficar eufórica. Deveria estar com raiva dele por me dar um fora hoje de manhã. Tentei fingir que estava com raiva. — O que você quer? — O Especial Meg. — Ele me paralisou com os olhos escuros e sonolentos, me olhando de cima até embaixo. Isso realmente me deixou com raiva. — Não temos mais essa opção. — Então por que ainda estão anunciando? Para esse tipo de joguinho são necessárias duas pessoas. Deslizei o cardápio na frente dele e coloquei as duas mãos na mesa. Inclinando-me para frente, para que ele pudesse ver meu decote, eu disse baixinho: — Cometi um crime. Já paguei por isso. Você não tem nada contra mim, policial. Estava me erguendo quando ele cobriu minha mão com suas mãos e fez um gesto com os olhos para o assento ao seu lado — Sente-se. O que ele me havia dito no Martini's passou por minha cabeça: O melhor é estar mais alto do que os suspeitos, para poder falar com eles

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olhando de cima. Nesse momento, eu estava mais alta do que ele. Se eu me sentasse, ele fiaria mais alto. Ele levantou as sobrancelhas e sorriu, mostrando as duas covinhas. Sentei-me. Apertou minha mão e se aproximou. Senti o calor de seu corpo e a essência de seu perfume. — Quero te mostrar uma coisa — ele disse — Obrigada, mas você já me mostrou coisas demais — tentei me afastar. Ele me conteve colocando a mão sobre a minha. — Não é nada disso. É uma coisa diferente. Uma coisa boa. Então John finalmente queria me mostrar uma coisa boa? Passei meus olhos de seu pescoço forte até a camiseta que cobria seu peito amplo. Eu podia pensar em vários lugares que serviriam. — Tipo o quê? — A praia. Lutando contra a vontade repentina de chorar, retirei minha mão debaixo da sua e me recostei no assento. Apontei para ele, assim como ele havia apontado para mim com sua caneta na viatura uma noite. — Não me provoque.

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— Mas Miami é muito longe. Tenho que trabalhar amanhã à noite. Espero que você se contente com Redneck Riviera. Claro que eu me contentaria com o cabo da Flórida. Com John. E claro que ele não poderia estar falando sério. E de qualquer forma, eu não poderia ir. — Tenho que estar de volta antes de você, porque meu turno começa às 6 horas amanhã. E não me diga que esqueceu o restaurante. Você foi legal o suficiente para me lembrar dele esta manhã. — Não, não esqueci. Acredito que levaremos cinco horas para dirigir até lá... — Três, se você me deixar dirigir. Ele limpou a garganta e me olhou, carrancudo. — Eu vou levar cinco horas para ir até lá e cinco horas para voltar. Com isso você terá seis horas de férias de primavera. Comecei a acreditar que ele estava falando sério. — E quando vou dormir? Preciso dormir antes de trabalhar amanhã. — Pode dormir em minha caminhonete na viagem de ida e na viagem de volta. — E quando você vai dormir?

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— Dormi durante as últimas sete horas e vou dormir novamente quando você estiver trabalhando amanhã de manhã — ele se inclinou no banco e bateu os dedos sobre o cardápio. — Próximo ponto. Eu não dormia desde ontem, logo depois de minha corrida e minha conversa com Tiffany sobre a possibilidade de ela se tornar uma vadia. E logo antes de eu mesma quase dar uma de vadia com Eric novamente. Parece que isso foi há quase um ano, mas nada no restaurante havia mudado. A mesma luz do sol da tarde passava pelas janelas da frente. As mesmas mesas de segunda mão, os mesmos saleiros cafonas. A única coisa notável era John, ainda lindo de morrer e sarado, porém com roupas de adolescente. Policial After, transformado em namorado. — Por que a repentina mudança de opinião? — perguntei. Ele segurou minha mão novamente e sussurrou: — Não mudei de opinião. — Você quer dizer que esta manhã já pretendia me convidar para ir à praia? Ele balançou a cabeça. Puxei minha mão e bati em seu peito. — Então por que agiu como se me odiasse?

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Ele sorriu. — Você disse que não gosta de planejar. Eu não queria que me deixasse plantado esperando. — Quer dizer que estava me manipulando? Ele tocou meus lábios com o dedo. — Só diga que sim. Me perdi em seus olhos escuros. — Sim. Bonita chegou naquele momento. Pedi-lhe que servisse a John bife e ovos com verduras cozidas ao vapor enquanto eu corria para o trailer e tomava o banho mais rápido de minha carreira no restaurante de quinta categoria. De repente minha carreira havia acelerado, juntamente com minha pulsação. Peguei um par de calças jeans limpas e a camiseta mais curta que eu tinha, o que significava muito, pois eu tinha alguns admiráveis exemplares. De meu ponto de vista, a ocasião pedia decote e até umbigo à mostra. Parei por um segundo em frente ao espelho e desejei pela milésima vez esta semana que meu cabelo não fosse azul, mas eu já estava saindo. — Sei o que você está pensando, e quero que planeje pelo menos uma vez na vida — John disse, por sobre o ruído das ondas. — Vai ser uma longa viagem de volta em uma roupa de banho molhada.

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Estranho ele saber que eu pretendia mergulhar meu corpo inteiro na água, com roupa e tudo. A fria noite em casa se transformou no dia mais quente do ano até agora. A Flórida estava ainda mais quente e, apesar de o oceano ainda estar frio, eu queria aproveitá-lo o máximo possível, pelo curto tempo em que ele seria meu. Mas o danado do John estava certo, para variar. — Não fique pensando em minha roupa de banho — eu disse. Na verdade, eu estava adorando que ele pensasse nela. Minha expressão deve ter me entregado, porque ele segurou minha mão. Caminhamos juntos pelas ondas, com as calças enroladas até os joelhos. Logo que chegamos aqui, há meia hora, o sol ainda estava brilhando sobre o oceano azul-escuro. Eu já tinha ouvido dizer que a Costa do Golfo tinha as praias mais brancas do mundo, mas não esperava que fossem tão brancas. Não eram brancas como papel, mas da cor das mãos de John. Agora a praia estava pintada de rosa, as nuvens e o oceano brilhavam um rosa neon e um enorme sol laranja submergia no céu violeta. Toda vez que eu olhava para John, esperava olhar de novo para o pôr do sol e descobrir que ele tinha sido uma invenção de minha imaginação. Obviamente, toda vez que eu olhava para o pôr do sol, esperava olhar para John e perceber que ele tinha desaparecido. Ele balançava minha mão enquanto caminhávamos pelas águas do mar. — E tão lindo que eu nem sei como começaria a desenhá-lo.

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— Você desenhou a montanha Matterhorn, John. Tenho certeza de que conseguiria desenhar o pôr do sol da Flórida. — Este é especial. Seria difícil transmitir o quão chocante e provocante ele é — ele me olhou. — E, ainda assim, tão bonito. Sorri para ele, escolhendo ignorar a parte do chocante e escutando a parte do bonito. — Além do mais, onde você colocaria os elefantes com chapéu? — Acho que desenho essas coisas porque não estou tão confiante em minha arte. As outras pessoas pensarão duas vezes em me julgar se eu já tiver feito elefantes com chapéu para julgar o próprio desenho. — Sabe o que pode resolver esse problema? A luz diminui ao ponto em que eu não conseguia decifrar seus olhos escuros e rígidos. Eu estava feliz. — Faculdade de arte? — Ele perguntou, sem rodeios. — Não. Desenhar apenas a ponte, repetidamente. Não existem criaturas críticas em seu desenho da ponte da ferrovia. Continuamos caminhando em silêncio sob o rugido do oceano. Esperei que ele se vingasse. E veio:

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— Tem uma coisa que está me incomodando desde que descobri que você teve leucemia. Seus pais te apoiaram durante todo o processo. Você não sente como se devesse algo a eles? — Eles são meus pais. O que mais poderiam fazer? Deixar-me morrer na rua? Estranhamente, ainda estávamos de mãos dadas enquanto lançávamos farpas um ao outro, mas ele tinha parado de balançar minha mão alegremente. — Claro que eu devo muito a eles — eu disse. — O seguro não cobriu tudo, por isso eles me fazem trabalhar no restaurante de graça. Meu pai diz que eu ainda estou pagando pelo metotrexato e daunomicina. Eu podia sentir John balançando a cabeça sobre mim, como se eu não estivesse entendendo. — Você precisou deles, e eles te ajudaram. Agora eles precisam de você. Não quer ficar e ajudá-los? Não se sente grata? — Me sinto grata. Grata o suficiente para enviar-lhes um cartão. Grata o suficiente para ter uma carreira e deixá-los orgulhosos de mim. Grata o suficiente para ter filhos algum dia e trazê-los para visitá-los no Natal. Mas não grata o suficiente para passar o resto de minha vida com eles, administrando seu restaurantezinho de quinta categoria no meio do nada. Queria que ele não tivesse começado esse assunto. Ou que eu não tivesse começado. Tínhamos de mudar de assunto e não falar mais disso pelo resto da noite, ou nunca transaríamos,

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Ele deve ter tido a mesma ideia, pois soltou minha não, me deu um beliscão na bunda e saiu correndo pela água que já estava na altura dos joelhos. Corri atrás dele. Brincamos de dar beliscões sob a luz que se esvaía, o que se transformou em uma corrida de 90 metros para cima e para baixo na praia cinzenta. Ele ganhou todas as vezes, portanto, transformei a brincadeira em um jogo de futebol americano com uma toalha enrolada. O que jogávamos não importava, contanto que suas mãos grandes agarrassem minha cintura a cada minuto, reavivando o fogo. Me senti como se nunca tivesse tido uma doença terminal. Em algum momento ficamos com fome e caminhamos pela estrada até uma barraca que vendia frutos do mar fritos. Este lugar fazia o Cafextra! Cafextra! Parece um restaurante fino, mas, quando levamos as caixas de volta para a praia iluminada pela luz da lua e armamos nosso piquenique sobre nossas toalhas, fiz uma descoberta surpreendente: os camarões eram frescos. Alguém os havia pescado na costa naquela mesma tarde. Os camarões que servíamos no Cafextra! Cafextra! estavam congelados há sabe se lá quantas décadas. Na verdade, eu provavelmente nunca tinha comido camarões frescos na vida, mas os reconheci quando os provei. Comecei a suspeitar de que esta noite estava boa demais para ser verdade. Eu sabia que estava boa demais para ser verdade quando ficou ainda melhor. John pegou seu telefone e ligou para Will.

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— Vou ficar aqui por apenas algumas horas e quero que a patroa se divirta enquanto estivermos aqui — ele gritou, por sobre o barulho das ondas. — Onde é a festa? Ele conseguiu me prender. Eu adorava festas. Riu ao telefone. — Não, a patroa por acaso não tem cabelos azuis. Seus cabelos são índigos. Ciano. — Violeta — murmurei. Ele colocou a mão em minha cabeça e passou os dedos pelas mechas lilás na parte de trás. Acariciou-me sem pensar enquanto terminava de falar ao telefone, como se deixar meu sangue fervendo fosse a coisa mais natural do mundo.

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Capitulo 16

D

irigimos alguns quilômetros pela rodovia costeira até chegar a uma enorme boate construída sobre pilares A música que vinha de dentro pulsava tão alto que a areia espalhada pela estrada vibrava a cada batida. Pagamos a entrada e

caminhamos dentro da construção até chegar onde queríamos. John segurou minha mão como se a sua fosse um alicate de pressão para que não nos separássemos ao passar entre os corpos que se contorciam. Observei o olhar no rosto das garotas enquanto passávamos. Elas analisaram John por longos segundos, depois viram que estávamos de mãos dadas. Depois me analisaram também: cabelos, rosto, seios, umbigo, finalizando com um longo e detalhado olhar em meus cabelos. Depois olharam de novo para John, como quem diz, Quando você se cansar disto, me liga. Todo o rímel, decote e barriga sarada do mundo não compensavam o fato de que eu tinha cabelos azuis e isso era estranho. Eu definitivamente não queria entrar em uma briga com uma garota durante minhas seis horas na praia, mas confesso que tentei pisar em seus dedos nas sandálias de salto alto enquanto eu caminhava Na parte de trás do clube, encontramos o melhor dos mundos: nossa praia de areia branca e o oceano negro com a lua branca, somados a uma festa

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agitada. Centenas de estudantes universitários dançavam dentro de um quadrado feito com tochas. Tiramos os sapatos e caminhamos pela areia. Sozinho, afastado da multidão, em um monte de cadeiras de plástico que a maré alta ameaçava levar. Will tomava uma cerveja. Reconhecemos a silhueta de seus cabelos encaracolados em contraste com o céu. Agora que John não estava de uniforme, ele e Will se abraçaram como garotos crescidos, batendo forte um nas costas do outro. Will me olhou e fez menção de querer me abraçar. Depois viu o olhar na cara de John e simplesmente cruzou os braços. — Vou buscar uma bebida para ela — John avisou. — Não a roube de mim enquanto eu estiver ausente. — Você está maluco? — Will perguntou. — Eu não me atreveria a roubar nada da Academia de Polícia. — Daiquiri frozen? — John me perguntou. — Piña colada, por favor. — Virgem? — ele não estava pedindo minha permissão, estava apenas se certificando de que sabia que eu não tentaria tomar nenhuma bebida alcoólica. — Que otimista — eu disse. Ele franziu as sobrancelhas e encarou Will antes de caminhar em direção aos bares nas barracas de palha. Aparentemente eu não tinha permissão para fazer brincadeiras relacionadas a sexo na frente de Will. Claro que John não estava mais com ciúmes.

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— Falando de virgens — eu disse a Will. Ele me olhou com cautela. — Perdão? — tomou um gole de cerveja. — As férias de primavera estão quase terminando. Você está aqui sozinho. O tempo está passando. — O quê? — balbuciou, enquanto tomava a cerveja. — Estou dando a impressão de que sou virgem? — Mais ou menos. Ele ficou boquiaberto, depois fechou a boca e balançou a cabeça, indignado. — Eu queria vir aqui. Pelo menos pensei que queria. Realmente gosto de observar, mas, na hora H, quero que signifique algo, entende? Balancei a cabeça. — Na verdade, não, mas posso imaginar. Um telefone celular tocou. — E não se atreva a contar a John que eu te disse isso — Will continuou. — Algumas coisas os garotos simplesmente não contam uns aos outros — pegou o telefone no bolso de trás da calça e olhou para a tela. — Falando no diabo — aceitou a chamada — Sim, governador? — depois ficou dando voltas, olhando em todas as direções da praia — Está observando a gente? Onde você está?

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— Ele é sorrateiro — eu disse. Will desligou o telefone e guardou-o no bolso novamente — John disse para eu me mover 15 centímetros para a esquerda — pegou sua cadeira de plástico e se afastou de mim na areia molhada. — Ele gosta mesmo de você. — Ele faz algumas coisas que me levam a acreditar nisso — admiti. Como me trazer para a praia. — Isso é bem sério — Will concordou. — Mas às vezes ele faz coisas que me fazem pensar que não gosta de mim nem um pouco. Por exemplo, na terça-feira à noite, ele quis que eu visse um corpo morto em um acidente de carro. Essa não é minha ideia de um encontro romântico. Will se encolheu e balançou os ombros como se tivesse arrepios. — Ele leva essa história de policial muito a sério, mas sei que ele gosta de você, Meg. Aquela noite que vimos vocês no McDonald's, ele me ligou do Martini's e me disse para recuar. Você não pensou que eu estava dando em cima de você, não é? — Não. — Nem eu — percebi que Will estava um pouco bêbado.

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— Espere um minuto — eu disse. Agora era minha vez de ficar surpresa. — Ele te ligou do Martini's? Mas ele deveria estar separando uma briga de bar! Eu estava preocupada com sua segurança. Que sem-vergonha. — Sim, acho que a briga tinha acabado. Ele só conversou com o gerente por alguns segundos. Depois provavelmente ficou num canto, observando as pessoas, como sempre faz, e me ligou, fingindo que era um assunto policial oficial — imitou John com uma voz séria e grave. — Sou responsável por ela quando estou trabalhando, e não quero que meu melhor amigo dê em cima dela. — Will, da forma como ele falou parece que ele não gosta de mim. — Ele gosta de você, confie em mim. O que acontece é que ele não quer gostar de você. — Por quê? — Porque você está indo embora. E ele vai ficar. Foi exatamente o mesmo problema que ele teve com Angie — desenhou um coração na condensação do copo de cerveja. — Eu pessoalmente não entendi por que eles não poderiam ficar juntos. Birmingham fica a apenas 20 minutos de carro da cidade. Teria sido difícil para eles se verem por causa dos horários esquisitos de trabalho e de sono de John, mas poderiam ter conseguido. Isso nem de longe se qualifica como uma relação de longa distância. Acho que John não estava mais tão interessado nela — piscou. — De qualquer forma, eles não se gostavam tanto assim. — Mas foi ela quem terminou com ele.

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— Sim — Will disse, apontando para mim. — Mas agora ela está interessada nele de novo. — Se ela tiver um pouco de bom-senso, faz muito sentido para mim que esteja em conflito. Ele é um cara extremamente bonito e muito legal que se acorrentou a uma ponte. É quente e é frio — aproximei-me de Will, sem me preocupar se John estava observando ou não. Isso era importante. — Quando você era criança, assistiu alguma vez a série Arquivo X? Mulder é o cara inteligente e bonito que está obcecado em prender os alienígenas que sequestraram sua irmã. Ele ignora totalmente a Scully de cabelos vermelhos que está bem debaixo de seu nariz... — Não acho que John te ignore totalmente. Não creio que isso seja possível. Você fala alto demais. — E se por acaso ele beijá-la, ela aceitará. Se ele por acaso pensar em transar com ela, ela realmente aceitará. E ela diz coisas para ele do tipo Logicamente, Mulder, isso não faz sentido, por favor, esqueça isso, e dá um tapinha em seu ombro, esperando que ele transe com ela novamente. Will estava me encarando com os olhos arregalados. Esqueci que ele era virgem. Falar sobre sexo com ele era como falar com Tiffany. — Bem, eu não sou Scully — prossegui. — Não posso dar um tapinha nas costas de John e confortá-lo. Quero colocar minhas mãos em volta de seu pescoço, chacoalhá-lo e gritar O que você está fazendo? — fiz alguns movimentos no ar, esperando que John me visse asfixiando seu fantasma. — Ele me frustra, me deixa com raiva. Não acredito que esta seja uma boa relação, construída com base em frustração e raiva, você não acha?

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Will balançou a cabeça, melancolicamente. — Mas ele serve para transar — meditei. — Por favor, não diga isso. Esperei que Will explicasse o que queria dizer, mas ele só me encarava, Depois bateu com força em sua testa com a palma da mão. — Não posso acreditar — gesticulou — que estou sentado aqui em uma festa de férias de primavera em Redneck Riviera, alertando uma garota a não fazer sexo casual com meu melhor amigo. Acho que entramos em um universo paralelo. Fico esperando as pessoas saírem do banheiro com a cabeça virada para trás. — Exatamente — eu disse. — Pare de tentar. Não faz sentido eu e John namorarmos. Faz sentido transarmos. — Mas estou te dizendo, não é assim que funciona com John. Ele vai querer mais de você. — Não tenho mais nada para dar a ele — eu disse. — Não enquanto ele estiver acorrentado à ponte. Will respirou fundo e soltou um longo suspiro. — Queria que houvesse alguma forma de libertá-lo da ponte, para que ele pudesse trabalhar com sua arte. Penso em como fazer isso há anos. — Eu tentei. Will me olhou, depois tomou mais um gole de cerveja.

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— O que você fez? — Para não me meter em encrenca, tive de escrever uma proposta de um projeto ao promotor para manter outros adolescentes livres de problemas. Sugeri que eles colocassem uma câmera na ponte, com uma conexão para a escrivã da polícia. Dessa forma, eles sempre saberão quando alguém tentar ir até a ponte. John não terá motivos para verificar se há invasores a cada cinco minutos. O promotor disse que a prefeitura vai realmente colocar minha proposta em prática. Will pegou outra cerveja e tomou um gole, olhando para mim. — Desculpe, preciso disso mais do que você, porque sou virgem. Ele ainda estava pensando nisso? — Não tem problema — me senti mal por ter feito aquele comentário, principalmente quando estávamos falando sobre seu amigo se dar bem. Os garotos eram tão sensíveis sobre coisas estranhas. E às vezes eu não conseguia ficar calada. — O que John disse sobre a câmera? — Will perguntou. — Ainda não contei para ele. Eles deveriam instalá-la hoje, mas duvido que adiante alguma coisa. John tem um circuito curto. A lógica não chega a essa parte de seu cérebro. Vai ser preciso mais do que uma câmera para libertá-lo. Eu queria ouvir o que Will tinha a dizer sobre isso, porque ele parecia preocupado, e estava bebendo rápido, mas John voltou com bebidas virgens (que comédia!) para nós dois, coco gelado e suco de abacaxi em copos de

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plástico com canudos e guarda-sóis de papel e figuras de macacos pregada às base. Bem estilo férias de primavera. Nos sentamos com as ondas frias passando por nossos pés descalços, tomando nossas bebidas e observando as pessoas dançarem dentro do quadrado marcado pelas tochas. Will conversou com a gente sobre a confusão em que Rashad e Skip tinham se metido com garotas durante os últimos quatro dias e as escapadas de alguns de seus amigos de colégio — agora amigos de faculdade, pelo menos para Will. Depois fez uma referência a Guerra nas Estrelas para John, o que era claramente um código entre garotos sobre sexo, e se levantou, cambaleando. — Te vejo no sábado na festa de Rashad? — nós dois dissemos que sim e observamos Will se mistura à multidão. Sentei-me mais perto de John. — Não está preocupado com ele? John balançou a cabeça. — Ele vai para o quarto assistir filmes e dormir. Rashad e Skip chegarão com garotas às 4 horas da manhã e o expulsarão do quarto. Ele vai sair para correr 25 quilômetros. É o que Will faz nessas viagens. — Isso é tão triste — imediatamente quis retirar o que disse. Não queria que John pensasse de novo que eu estava interessada em Will. Tentei decifrar seus olhos escuros sob a luz da lua. Pensei ter visto raiva neles, mas não, era desejo. Oooh

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O barulho da música dentro do quadrado se transformou em um ritmo lento. John se levantou — Não fique triste nas férias de primavera. Vamos dançar. Ele me conduziu pela areia até a multidão de pessoas. Dessa vez, nenhuma garota má olhou feio para meus cabelos azuis. Elas estavam concentradas nos garotos com quem dançavam. Havia mais amasso do que dança. Esperava que John e eu estivéssemos na mesma sintonia pelo menos uma vez ele colocou seus braços em volta de mim, inclinou-se, apoiando seu queixo sobre meu ombro, e dançou comigo. Ao som da música, deslizou suas mãos até minha cintura, me acariciando. Até agora, tudo bem. Se suas mãos se movessem alguns centímetros mais, ele tocaria meus seios. A próxima música lenta começou. Obviamente seria a música dos seios. Mas, espere um minuto. Ele desviou dos seios para tocar a parte posterior de meus braços. Certamente era excitante, mas não era o bom e velho amasso que eu queria. Imaginei porque ele não tocou meus seios. Talvez tivesse receio de que eu realmente estivesse com a Síndrome de Estocolmo, daquele tipo que faz os braços arrepiarem só de ver seu captor. Talvez tivesse receio de se aproveitar de mim. Ou talvez eu o tenha interpretado totalmente errado todo esse tempo. Ele gostava de mim como uma amiga e não queria tocar meios seios. — Por que você não toca meus seios? Ele retirou o queixo de meu ombro e me encarou.

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— Aqui? — olhou em volta para os outros casais. — Porque não estamos bêbados. Certo tentei não parecer decepcionada, mas o ar estava carregado com sexo, definitivamente faiscando sexo. Não parecia justo sermos os únicos sóbrios e os únicos puros. — E não é muito original — ele apoiou os polegares na cintura de minha calça e lentamente arrastou seus dedos por minha pele até tocar a barriga, bem abaixo do umbigo. Ai meu Deus. Ele não colocou as mãos dentro da calça, mas agora não havia dúvida do que queria. E me beijou exatamente onde eu o beijei no carro: no rosto, depois na orelha. Eu deveria ter tido mais cuidado com o que desejo. Aquela sensação claustrofóbica surgiu em mim no mesmo momento em que me abri e me senti mais atraída por John. Era o melhor e o pior ao mesmo tempo, e me destroçaria. Eu não poderia aguentar muito mais tempo. Puxa, queria não me sentir assim. Queria ser uma pessoa diferente, mas eu não ficaria presa em nossa cidade pelo resto da vida. Nem mesmo por John. Tínhamos de acabar com isso. — Você está pronto para ir embora? — sussurrei. — Não está gostando de suas férias? — ele murmurou, antes de gentilmente morder minha orelha. — Estou gostando muito, mas, se sairmos agora, quando voltarmos ainda terei algumas horas com você antes de ir trabalhar.

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Ele me arrastou pela multidão tão rápido que não pude evitar sorrir. Sim, tudo sairia perfeitamente. Ficaríamos juntos por uma noite e, depois, contanto que eu não fosse à festa de Rashad, usasse meu capacete quando saísse de moto e conseguisse ficar longe da ponte até me mudar para Birmingham em junho, nunca mais veria John novamente. Consegui dormir um pouco na caminhonete durante a viagem de volta, apesar de sua mão suavemente fazer carinho em meu ombro. Acho que ele queria ser delicado, mas claro que cada parte de meu corpo tocada por ele ganhava vida. Eu estava tão cansada que dormir mesmo assim. E tive sonhos quentes com ele na praia escura. A caminhonete passou por uma lombada. Acordei. Estávamos no Condado de Chilton, ainda acerca de 20 minutos de casa. Sobre a interestadual vimos a torre de água em formato de pêssego gigante. Ou uma bunda gigante, dependendo de quanto sono você tinha. Deitei-me no banco sobre sua perna, como antes, mas dessa vez não pude evitar. Minha mão deslizou por sua coxa musculosa. Não me atrevi muito, porque não queria que ele me dissesse não, mas cheguei bem perto de tocar aquela parte do corpo de um policial que os prisioneiros não devem se atrever tocar. Sua respiração acelerou. Pensei que ele pegaria minha mão, a tiraria dali e a colocaria novamente do meu lado do carro. Mas ele não fez isso.

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Não consegui dormir depois disso. Estava tão excitada pensando no que faria com ele, e no que ele faria comigo. Pelo menos pensei que não voltei a dormir, mas, quando ele bateu sua porta, acordei. Já estávamos na porta de seu prédio. Ele abriu minha porta, apoiando seu corpo enorme sobre a estrutura do carro. — Você está cansada demais para isso — ele disse, gentilmente. — Entre e durma um pouco. Droga, ele estava tentando se safar. Pelo menos não se ofereceu para me levar para casa, Balancei minha cabeça. Eu não perderia essa oportunidade de forma alguma. Chegando até a extremidade do banco, coloquei as pernas em volta de seus quadris e puxei-o com um abraço de corpo inteiro. Passei os dedos por seus cabelos curtos, encostei minha cabeça na sua e beijei-o. Depois ele assumiu o controle. Ai. Meu. Deus. Ele beijava exatamente da forma que eu havia imaginado. Lentamente. Profundamente. Para deixar qualquer mulher louca. E eu estava muito equivocada quando pensei que ele podia não gostar de mim Pude perceber, pela forma como suas mãos agarravam meus cabelos e tremiam em minha nuca, que ele queria isso tanto quanto eu. Quando nos soltamos para respirar um pouco ele me conduziu para fora do carro e pelas escadas. Nossos passos ecoaram nos outros apartamentos. Eram aproximadamente 4 horas da manhã. Até o ruído do trânsito na interestadual tinha se acalmado.

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Ele destrancou a porta e segurou-a para que eu pudesse entrar na escura sala de estar. Depois fechou a porta com um ruído seco e colocou a tranca. Virou-se para mim. Era isso. Quase uma semana me insinuando para ele aliás, duas semanas, se eu admitisse para mim mesma que já estava interessada nele desde aquela primeira noite na ponte. E hoje, depois de 14 horas de um lento, persistente, próximo e pessoal desejo por ele, finalmente, chegou a hora H.

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Capitulo 17

E

le me apoiou com os braços e me pressionou em um canto. Seu dedo médio passou, por minha bochecha, por meu queixo e por meus lábios. Sob a luz dos postes que passava pelas cortinas, ele me tocou como se realmente me achasse bonita.

Ou pelo menos eu estava determinada a me esforçar para parecê-lo. Seus olhos escuros eram tão ternos que eu estava pronta para acreditar neles. Ele me beijou novamente. Abri minha boca e deixei que ele me beijasse o mais profundo que quisesse. Suas mãos agarraram minha cintura e começaram a passear, e eu as deixei ir para onde quisessem. Estava indo tudo bem, até que me senti esquentar sob minha pequena camiseta, estava quente demais. Meu peito vibrava como se eu estivesse tendo um ataque cardíaco. Luzes vermelhas de alerta piscavam atrás de meus olhos. Empurrei John, agarrando-o ao mesmo tempo para não cair. Confuso e ofegante, ele olhou para mim. Ele não conseguia recuperar o fôlego. — O que aconteceu? — sussurrou.

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— No canto não — respirei. — Em qualquer lugar, menos no canto. Ele colocou seu braço pesado em volta de meus ombros e me conduziu pela sala. Pensei: Sofá? Sofá? Sofá? Não. Passamos pelo sofá da sala de estar e atravessamos o corredor até o quarto. Pensei: me dei bem. A voz de Lois soou no rádio da polícia. Desvencilhei-me de seu braço, me arrastei pela cama e desliguei o rádio. No silêncio, senti uma onda de alívio. Pensei que ele poderia achar estranho deixar o rádio ligado o tempo todo, escutando problemas. Sentei-me com as pernas cruzadas sobre a cama. Ele ainda estava na porta, ao lado do grande desenho da ponte, me observando. Como eu já tinha desligado o rádio e ele ainda não tinha me expulsado de seu apartamento, pensei em pedir-lhe para tirar o desenho da ponte da parede e colocá-lo no closet, só pelas próximas duas horas, mas optei por não fazer isso, para que ele não pensasse que eu era uma louca. Espere um minuto. Quem era o maior louco? Ele era o obcecado pela ponte. Tudo bem, eu não queria dar uma de maluca agora. Queria que John transasse comigo. Estendi a mão para ele. Ele me abordou cuidadosamente, enquanto feixes da luz da lua que passavam pelas persianas se moviam sobre ele. Sentou-se de frente para mim, pesando sobre a cama e me fazendo afundar um pouco no colchão em direção

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a ele. Com uma palma quente em cada uma de minhas coxas, ele se inclinou até que nossas testas se tocaram. Depois passou seus lábios delicados em minha bochecha e em minha cabeça. Isso era mais do que eu esperava de John. Um atormentado autocontrole. Eu não tinha tanto autocontrole quanto ele. Inclinei-me e beijeio com vontade. Brincamos assim durante uma hora e meia. Ele me segurou e me beijou lentamente, atento a cada detalhe, como se eu fosse um de seus desenhos. Foi a sessão de amasso mais lenta, profunda, agonizante e maravilhosa imaginável. Até o momento em que ele tentou tirar minha blusa ou minha calça. Eu não podia permitir isso. Então assumi o comando da situação e as coisas aceleraram. Também havia uma parcela de experimentação fascinada de minha parte. Depois de seu show como um policial grande e forte, me excitava saber que, no fim das contas, ele era um garoto normal. Um garoto extraordinariamente robusto, admito, mas ainda assim um garoto que reagia de formas previsíveis. Quando eu sussurrei em seu ouvido, ele tremeu. Quando o toquei, ele me agarrou com mais força. Consegui tirar todas as suas roupas quando foi minha vez de estar no comando. Seu lindo corpo nu se pressionou contra o meu, querendo entrar. Eu poderia facilmente passar uma semana inteira nas preliminares com ele, mas tinha de ir para o restaurante logo. Precisava fazer o que eu tinha vindo aqui para fazer. Uma das camisinhas que eu levei para Eric ontem estava em meu bolso. Se eu a tirasse de lá, pareceria um pouco oferecida, como se eu estivesse

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sempre pronta para transar. De qualquer forma imaginei que, como John era tão responsável, deveria ter uma camisinha, mesmo se não a tivesse comprado exatamente para mim. Saí de debaixo dele, rolei pela cama, abri a gaveta de cabeceira xeretei para ver o que havia dentro dela. — Que sorte — murmurei. — Uma variedade — espalhei-as pela cama para vê-las melhor. — Meg, acho que não deveríamos fazer isso. Suas palavras suaves me apunhalaram. O único outro som no quarto eram os lençóis deslizando um sobre o outro quando respirávamos. De repente desejei ouvir o zumbido de carros na interestadual, ou até o rádio. Qualquer coisa que abafasse aquelas palavras gentis que eu sabia que viriam em seguida. — Você quase me enganou — eu disse. —

Na verdade eu quero. Claro que quero, mas acho que alguma coisa

está errada, pois você quer transar comigo, mas nem quer tirar suas roupas. Fechei o zíper da calça. — Eu te dei acesso. — Você provavelmente nem tirou os sapatos — senti que ele explorava meus pés com seus pés descalços na beira da cama. — Sim, você nem sequer tirou os sapatos. Para poder sair correndo pela porta. — Não é por isso. — Está bem — ele se apoiou em um cotovelo e me olhou. — Não vai tirar suas roupas? Tremi com um pequeno calafrio que passou pela cama quente.

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— Eu me sentiria nua. — Você estaria nua. — Exatamente. Sob a luz suave, vi as linhas de preocupação surgir entre suas sobrancelhas. Ele tirou uma mão de debaixo do cobertor e tentou tocar meus cabelos, mas algo em minha expressão deve tê-lo impedido. Abaixou a mão. — Você não me deixa te beijar no canto. — Não deixo ninguém me beijar no canto. — Então você não confia em ninguém. Não sei se quero transar com uma garota que não confia em mim. — Você não sabe? Então me deixe ajudar-lhe a tomar essa decisão — deslizei para fora da cama e aterrissei meus sapatos sobre o carpete, com tanta força que o quarto tremeu, só para deixar claro como eu me sentia. Ele agarrou meu pulso, colocando sua mão grande e quente em volta de meu braço. — O que eu quero dizer é que realmente quero transar com você, mas quero que confie em mim. As luzes vermelhas piscaram atrás de meus olhos novamente. — Nunca me agarre. Acho que alguns segundos passaram antes que as luzes vermelhas desaparecessem e eu olhasse para John novamente. Ele me deixou ir, surpreso e com os olhos escuros arregalados.

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— Espero ter deixado areia em sua cama — eu disse, enquanto saía do quarto. Passei rapidamente pela sala de estar, saí pela porta de seu apartamento e desci as escadas até sair do prédio. Quando meus pés pisaram o asfalto, eu já estava correndo a toda velocidade pelo estacionamento até o acostamento da rodovia. O Cafextra! Cafextra! ficava a apenas três quilômetros de distância. Além do mais, a corrida me faria bem, pois não pude correr ontem. Eu provavelmente tinha leucemia. Por entre as árvores, a interestadual começava a zunir novamente, com o tráfego das primeiras pessoas que iam para Birmingham. Alguns passos soaram atrás de mim. John passou e parou bem na minha frente. Parei no exato momento antes de esbarrar nele. Ele estava de tênis e calça jeans, sem camiseta. Seu peito branco brilhava sob a luz dos postes. Ele respirou fundo. — Você é rápida. — Já me disseram — passei por ele e comecei a correr novamente. — Ei! — ele correu alguns passos depois de mim e agarrou meu braço. Parei e gritei: — Já te disse para não me agarrar! — Pelo amor de Deus, Meg! Estamos parecendo um caso doméstico! — E de quem é a culpa? Você é quem está sem camisa.

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Ele olhou para seu peito descoberto, depois acusadoramente para um carro que passava. Depois olhou dessa mesma maneira para mim. — Qual é o problema? Coloquei as mãos em meus quadris. Entre tentativas de respirar, eu disse: — Tudo bem, John. Você quer se fazer de bobo? Então vou te explicar a situação. Garotas não gostam quando os garotos não querem transar com elas. — Eu... — Garotos deveriam ser indefesos diante de seus hormônios, ou um par de seios grandes. Você não me deu um fora porque eu não tirei os sapatos. Isso é besteira. Você está apaixonado por outra pessoa. — Não estou apaixonado por Angie — ele disse, levantando as mãos. — Para falar a verdade, eu fiquei até aliviado quando ela terminou comigo. Eu deveria ter terminado com ela muito tempo antes disso, mas ela tinha se tornado um hábito. Um mau hábito. — Você está apaixonado por aquela garota morta. Ele abaixou as mãos. — Ah, qual é, Meg — gritou. — Porque tudo sempre tem de girar em torno disso? — Exatamente. Por quê?

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Ele passou os dedos por seus cabelos e parou na nuca, com os dois bíceps inflados. Como aquele danado podia estar tão lindo justo quando eu queria sair correndo? — Você me fez lembrá-la naquela primeira noite na ponte — ele disse. — É só isso. Você já nem se parecia com ela quando eu te contei. E agora você não me lembra ninguém — ele fechou os olhos é respirou fundo, juntando coragem, antes de me dizer: — Estou apaixonado por você. Senti as lágrimas vindo. Pisquei para não chorar. — Você gosta tanto de mim que se recusou a transar comigo quando surgiu a oportunidade. Tudo se resume em você querer estar no controle. Não basta me prender. Você me obriga a patrulhar com você enquanto caras imundos dizem que querem me estuprar. Não basta destruir minhas férias de primavera. Você me devolve um pouco delas, mas só se puder me prender em uma coleira. Nem basta transar comigo. Quando parei para respirar, ele parou na minha frente. — Quer que eu te implore — engasguei — para você depois dizer não. Eu queria que isso não fosse verdade, mas podia perceber por seu silêncio que era verdade. Talvez só agora ele estivesse percebendo isso. Mas depois disse: — Isso é ridículo. Eu disse não porque você não me ama. — Eu te amo sim — gritei.

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— Não pode ser possível! Você é tão fechada. Só está dizendo isso para transar comigo. Ele hesitou e se virou para ver um carro que passava pela rodovia. Aproveitei a oportunidade e corri. Ele me alcançou em cinco segundos e atravessou meu caminho. — Não podemos viver assim — ele disse, tentando segurar minha mão, buscando-a enquanto eu a afastava dele. — Vamos conversar quando não estivermos irritados. Te ligo mais tarde. Pisquei, querendo chorar. — Ainda estarei irritada mais tarde. — Então me ligue quando não estiver mais irritada. — Eu não ligo para as pessoas — nos esbarramos levemente quando passei por ele e fui embora. Dessa vez, ele me deixou ir. Depois de dois quilômetros, eu já estava cansada de mais para continuar correndo. Diminui o ritmo, parei em uma parede do acostamento coberta com capim e me inclinei com as mãos nos joelhos, recuperando a respiração. Eu não tinha leucemia. Esse cansaço era completamente diferente. Olhei meu relógio sob a luz da lua. O problema de caminhar era que eu nunca chegaria ao trailer a tempo de tomar banho antes de meu turno no restaurante. Eu precisava tirar a areia e o oceano e John de mim. O cheiro de seu perfume e de seu suor estava impregnado em minha pele.

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Mas eu não conseguia mais correr. Caminhei pela escura rodovia, atravessando o capim que tinha crescido nos últimos dias. Deveria ter sentido medo, uma adolescente caminhando sozinha pela rodovia com uma camiseta minúscula às 5h30 da manhã. Mas eu não estava com medo. Não havia ninguém para me assustar. Esse trecho da rodovia principal que passava dentro da cidade estava ladeado por pinheiros e totalmente abandonado. Imaginei John dirigindo para cima e para baixo nesta rodovia, 19 vezes por noite, pelo resto de sua vida. Eu já tinha definido meu projeto para o promotor para desencorajar outros adolescentes de se aventurar na ponte, mas também para encorajar John a deixar a ponte em paz e sair da cidade. Agora que ele finalmente sabia o que eu sentia por ele, percebi que todo esse tempo estava esperando que ele me acompanhasse até Birmingham e ficássemos juntos de novo. E agora que eu havia tido um contato mais próximo e pessoal com seu lado controlador, sabia que isso não aconteceria. Só meu projeto não seria suficiente para retirá-lo de sua órbita em volta da ponte. Ele ficaria. Eu iria embora, mas sentiria como se parte de mim ficasse aqui com ele, tão bem cimentada quanto minha mão no muro do parque. Isso não estava acontecendo, não poderia ser a forma como tudo acabaria, mas era. A menos que eu fizesse algo. Com um suspiro final, comecei a correr de novo. Já estava com a energia revigorada. Eu tinha muito a fazer depois de meu turno no restaurante, antes

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de finalmente ir dormir. Precisaria ter uma conversa bajuladora com Lois. Depois teria um horário marcado com um trem. Às 6h01 da manhã seguinte, liguei para ele. — Ei — ele disse. — Eu já estava indo de novo para a delegacia — ele parecia eufórico por ouvir minha voz. Mal sabia o que lhe esperava. — Onde você está? — Na ponte Pelo telefone, ouvi sua sirene começar a gritar. Também escutei a sirene em estéreo, na rodovia. Em algum lugar além da ponte e da clareira e a silhueta escura das árvores contrastando com o amanhecer cinzento, a sirene acordou os mortos. — John — gritei. — John, não precisa fazer isso. Vi a programação na internet. Verifiquei duas vezes. O trem só passará daqui a 15minutos. A sirene parou te tocar. — E você pensou que eu não seria uma boa administradora — brinquei. John também tinha se desligado. Repeti seu nome pelo telefone, mas só havia a estática e o murmúrio da voz de Lois. Ele devia ter jogado o telefone no banco. Observei através da clareira, esperando. Finalmente, ouvi o zumbido baixo do motor do carro. Então o carro surgiu do meio das árvores, com as luzes azuis apagadas, porém com os faróis acesos. Ele dirigia tão rápido pela

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clareira que derrapou parou sobre o cascalho. Uma nuvem de poeira surgiu em frente aos faróis e permaneceu no ar calmo do amanhecer. Ele saiu do carro, avançou em direção à ponte e parou em frente à placa "não ultrapassar". Pude notar pela forma como ele se movia que ainda não tinha visto a nova instalação da prefeitura. Uma nova placa fixada abaixo da placa "não ultrapassar" dizia "SORRIA! Você está sendo observado pelo Departamento de Polícia". Ele se virou e viu a câmera montada no alto de uma árvore. Depois pegou seu telefone. — Esta é sua surpresa para mim? — seu tom de voz era completamente indiferente, mas ele deu uma suspirada no final, como se estivesse fazendo um esforço para permanecer calmo. — Imaginei que você já tivesse visto a nova placa, em uma de suas muitas viagens até a ponte em seu turno da noite. — Não saí do carro — ele respirou fundo ao telefone. — A câmera realmente mostra as imagens na delegacia? — Sim, Lois está vendo a gente agora mesmo. Diga oi — acenei com um movimento bem aberto para que a câmera pudesse captar a distância. — Meg, você está fazendo exatamente o que causou sua prisão. — Eu contei o que faria para Lois, para que ela não me dedurasse. O único motivo que torna isso ilegal é o fato de não ser seguro, mas já te informei que, pelos próximos 15 minutos, é seguro. — De alguma forma, não creio que o promotor vai acreditar nisso — suas palavras soaram racionais, mas a voz estava tensa.

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— Sim, eu deveria ter fugido de você, começado a faculdade e ter continuado sem você, mas sempre me arrependeria de não ter dado uma oportunidade para nós — afastei a jaqueta de policial, para que ele pudesse ver, ainda a uma distância, que eu estava vestindo sua camiseta "para proteger e servir". — Venha me pegar. Você tem 15 minutos antes de o trem passar — olhei para meu relógio. — Doze. Ele estava respirando tão forte que exalava estática ao telefone. Eu podia ver seus ombros subindo e descendo sob a luz tênue. — Vamos, John. Você é a pessoa mais corajosa que já conheci. Rapidamente ele percorreu o resto do espaço atravessando a clareira e colocou um pé na ponte. — Tire seus sapatos para não ficar preso — sugeri. — Quero que esteja seguro. Escutei-o resmungar antes de colocar o telefone no bolso e se abaixar para desamarrar as botas. Resmungou novamente, tapando a boca com a mão, como se não conseguisse desamarrar os sapatos rápido o suficiente. Depois se ergueu e pisou de meias nas traves, vindo em minha direção. Colocou o telefone no ouvido. — Você não deveria estar no trabalho agora? — perguntou com aquela voz estranha e indiferente. — Tenho alguns minutos. Pedi que Purcell ficasse um pouco mais quando terminasse seu turno.

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— Pensei que você não se desse muito bem com Purcell — ele estava a apenas alguns metros de distância, caminhando rápido pelas traves da ferrovia, sem olhar para os pés. — Isso era importante. — Foi preciso bastante planejamento — ele disse, com a voz estranha. Estava a alguns passos de distância. Seus olhos escuros não pareciam afetuosos. E não pareciam assustados. Essa foi a primeira indicação de que algo estava terrivelmente errado. Eu sabia que era melhor começar a me explicar ou me meteria em encrenca. — Agora que a câmera está aqui, não há motivo para você fazer guarda nesta ponte pessoalmente. Mas sua mente ainda estaria aqui. Pensei que poderia ajudar se você subisse na ponte, para poder parar de imaginar. Ver o que a garota morta viu. Isso provavelmente não foi o que ela viu. Eu não sabia a que horas aqueles jovens haviam sido mortos, mas, se estavam bêbados, provavelmente foi à noite. A visão noturna da ponte era linda, mas não havia muito para ver, cercado pela escuridão. Por isso eu quis traze John aqui para o nascer do sol, quando ele poderia ver melhor. E eu estava certa. O menor toque de rosa no céu refletia bem abaixo de nós no rio, transparente como vidro. Uma neblina surgiu da água e subiu até mim. Pinheiros escuros e árvores com novas folhas verdes se aferravam desesperadamente até o violento ângulo do desfiladeiro.

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Guardei meu telefone. — E sinta o que eles sentiram — enquanto John se aproximava de mim, coloquei a outra mão sobre seu braço desnudo. — Não me toque — ele ladrou. Olhei bem dentro de seus olhos. Meu coração parou de bater quando reconheci aquele olhar. O olhar que Eric recebeu quanto o tirou do sério, e não havia nada mais que raiva. — John — eu disse, rapidamente. — Desculpe. Pensei... — Sem noção. — Ele colocou uma algema fria em volta de meu pulso. Lutei contra ele sem pensar, com a mais vaga consciência de que eu o havia golpeado e machucado de alguma forma. Meu ombro atingiu o muro enferrujado da ponte, e o barulho ecoou nas montanhas. Em meio a luzes vermelhas intermitentes, eu estava olhando para o rio rosa, observando nossos telefones celulares caírem na neblina. Já estava quase desmaiando, quando ele disse não resista à prisão e fechou a outra algema em volta de meu outro pulso.

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Capitulo 18

E

u era um esqueleto. Inclinei-me sobre a cama de hospital de Meg, aquela Meg que existiu. Ela dormia. Retirei o cabelo rosa de seu rosto. Uma mecha de cabelo se soltou, e os fios escorregaram por meus dedos.

— After? — disse Lois. — John! — disse Lois. Da segunda vez, despertei o suficiente para perceber que Lois estava chamando John pelo rádio preso em sua camisa. John tinha me colocado sobre seu ombro, que apertava minha barriga a cada passo que ele dava. Com o nariz em suas costas, cheirei seu suor. Estranho eu reconhecer seu cheiro tão rápido, mas não havia perfume misturado. Ele se transformou em outra pessoa. — Posso ver você pela câmera, John — Lois disse — Vi o que você fez. Lentamente percebi que estava no banco de trás da viatura, de barriga para baixo, com o rosto colado ao couro sintético. Alguns homens murmuravam do lado de fora. A conversa ficou mais alta quando a porta se abriu atrás de mim.

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— Por isso ela desmaiou — reconheci a voz de Quincy, meu amigo paramédico. — Você poderia retirar as algemas? Senti as algemas deslizarem por meus pulsos, mais ainda não conseguia me mover. — Por que ela faz isso? — o policial Leroy perguntou. — Ataques de pânico — senti Quincy inclinar-se sobre mim. — Venha comigo, sua encrenqueira. Meu rosto desgrudou do couro sintético. Quincy me puxou para trás no banco e me pegou no colo. Agarrei-o pela camisa, como se ele fosse meu pai. — Você tem de superar isso, querida — ele murmurou. — É totalmente psicossomático. Você esteve doente há quatro anos — ele me colocou no parachoque traseiro da ambulância e me segurou com uma mão enquanto tentava alcançar algo. — Não os sais... — os sais aromáticos entraram em meu nariz e em meu cérebro. Pelo menos eu podia ver claramente de novo: Quincy parado em minha frente, com o rosto envelhecido pelas rugas de preocupação, e o policial Leroy atrás dele. — Onde está John? — perguntei. — Onde está John — o policial Leroy murmurou, balançando o dedo para mim. — John está tendo seu próprio ataque de pânico. Foi uma façanha e tanto essa que você armou, senhorita. Você sabe que o irmão dele morreu naquela ponte.

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Tentei respirar. Mas não consegui. — O irmão dele? — perguntei. Quincy me pegou, enquanto eu começava de novo. Sobre seu ombro, ele disse ao policial Leroy: — Você poderia ter esperado para contar isso a ela mais tarde. — John disse que era uma garota que morava em seu bairro — gemi. — Certo — disse o policial Leroy. — Era a namorada do irmão dele. — Meu Deus — tentei me levantar, mas Quincy me conteve, dizendo: — Calma. — E isso fica entre nós o policial Leroy — insistiu. — A maioria de nossos colegas policiais não sabe, ou não entende que foi por isso que After virou policial. Se o chefe descobrisse, poderia expulsá-lo. Essa é a vida dele e, você insiste em tratar como se isso fosse uma brincadeira? — O policial Leroy se aproximou de mim, como se quisesse me estrangular. Quando Quincy levantou as mãos, dizendo para o policial Leroy recuar, ele levantou a voz e gritou comigo. — Não vá até lá, não cutuque a onça com vara curta Se você tentar se aproximar dele novamente, eu mesmo vou te algemar. Agora tudo fazia sentido: o pai tinha se mudado para o Colorado; a mãe tinha se mudado para a Virgínia porque não podiam mais aguentar; o retrato de família de dez anos atrás, com um irmão que também tinha ido embora da cidade — exceto pelo fato de que John não deixou claro exatamente para onde seu irmão tinha ido; uma marca de mão preta no muro colorido no parque quando John tinha 9 anos.

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Eu tinha me acostumado tanto a escutar esse som na semana que passou que nem percebi o zumbido baixo até que o trem tocou sua buzina ensurdecedora. Todos nos viramos para olhar. John estava parado de costas para nós no trilho em frente à ponte. Sua cabeça estava abaixada. Ele não levantou a cabeça para ver o trem. Nem tapou os ouvidos. O zumbido baixo que eu pensei ter ouvido nas últimas duas semanas tinha sido o trem na cabeça de John o tempo todo. Cruzei os braços e me abracei, mas não adiantou. — O que fizemos um com o outro? — sussurrei. Fiz uma coisa que não fazia desde meu segundo ano, quando o médico me disse que eu estava em recuperação. Chorei. Chorei tanto que Quincy não quis me deixar ir de moto até o Cafextra! Cafextra! De jeito nenhum eu entraria na ambulância daquele jeito, muito menos em uma viatura. Ele finalmente me deixou ir de moto e me seguiu na ambulância, com o policial Leroy atrás dele. Deixamos John na Ponte. Chorei enquanto passava pela porta do trailer e guardava a jaqueta de policial de John e a camiseta "Para proteger e servir"' que tinha começado a queimar minha pele. Obviamente, eu tinha que vestir alguma coisa para trabalhar, mas lavar roupa não estava no topo da lista de prioridades na última semana. A primeira camiseta que encontrei em meu guarda-roupa foi a camiseta do Come-Come. Sempre adorei o Come-Come da Vila Sésamo, um glutão desinibido que vivia como se estivesse morrendo. Eu tinha deixado de usar essa camiseta quando pintei meu cabelo de azul, porque o Come-Come e eu

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não combinávamos muito bem. Mas eu não tinha tempo de procurar outra coisa nesta manhã. Purcell já tinha ficado quase uma hora a mais para mim. Chorei quando passei pela porta do Cafextra! Cafextra!, com os ombros tensos por causa da grande discussão que eu teria com Purcell e que faria metade dos clientes sair correndo do restaurante lotado. Mas quando Purcell e Corey me viram, os dois deixaram a comida queimando na chapa e vieram correndo, perguntando o que tinha acontecido. Chorei mais ainda. Eu poderia ter lidado com sua raiva, mas não sabia o que fazer com sua compaixão. — Estou bem. Está tudo bem — eu disse. — É só uma ansiedade de adolescente. Nada importante. Corey voltou correndo para a chapa para virar o presunto, depois relutantemente jogou o no lixo. Purcell ainda estava comigo. Olhando para o chão, murmurou: — Tire mais uma hora de folga. Eu posso ficar aqui. — Não, trabalhar vai me fazer bem. E você já ficou muito tempo — limpei as lágrimas sob meus olhos. — Quer que eu te ensine a ler? Ele parecia tão chocado quanto eu, quando me ouvi. — Não sei ensinar ninguém a ler, mas existem livros de exercícios e materiais que posso pegar emprestado na biblioteca da escola. Você está no turno diurno na semana que vem? Ele balançou a cabeça.

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— Podemos fazer isso depois da escola, no período mais calmo antes de chegar a multidão do jantar. Ele levantou o punho. Eu não sabia bem o que fazer, mas toquei seu punho com o meu. Parecia a coisa certa a fazer, porque ele retirou seu avental e saiu pela porta da frente. Imaginei que tinha aceitado minha oferta com um agradecimento. Era difícil dizer, já que só agora nos tornamos amigos. Tentei secar as lágrimas enquanto Corey e eu preparávamos o café da manhã para a multidão de pessoas da fábrica de carros que saía do trabalho às 7 horas da manhã e para os viajantes que iam para casa depois das férias de primavera. Mas, cada vez que eu via o reflexo de minha camiseta na torradeira, queria arrancar os cabelos. Mais tarde, quase no fim do turno, depois que a multidão do almoço tinha diminuído, liguei para Tiffany. Mais uma vez, eu não sabia quem estava mais chocada: Tiffany, por eu estar ligando para ela, ou eu, por estar ligando para ela. Logo ela entrou no restaurante e se sentou em um banco em frente ao balcão. Preparei uma xícara de café para ela. — Desculpe te fazer vir até aqui em seu último fim de semana de férias. — Não tem problema. Nem tenho namorado para passar o tempo nem nada. Só durmo desde quinta-feira— ela olhou para o café. Passei lhe o creme e o açúcar. Ela colocou um pouco dos dois de forma desajeitada, como se fosse virgem nesse assunto. Depois me olhou, mostrando preocupação. — Meu Deus, Meg, o que aconteceu?

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O que não tinha acontecido? Contei que John me levou até a praia, que quase transamos, que induzi seu colapso nervoso acidentalmente e ele me fez ter um ataque de pânico de propósito. Quando terminei, ela ficou sentada, piscando para mim Por alguns segundos. Depois exclamou: — Você transou com Johnafter? Olhei para os fregueses que tentavam não nos encarar — Eu te disse, não transamos. Mas eu vi a terra prometida. Ela olhou bem dentro de meus olhos sem piscar. — Ele beija bem? Encarei-a. — Ele faz tudo bem — então vi que minha mão passeava distraidamente pelo balcão. — Queria esclarecer algo que te disse ao telefone na quarta-feira. Ainda acho que não é uma boa ideia você transar com Brian só para voltar com ele, mas, como você me procurou para te aconselhar sobre esse assunto, quero rever o que te falei sobre o sexo não ser uma coisa boa. Com Eric, eu ficava pensando em outras coisas. Com John, não havia nada mais além dele. Os lóbulos frontais paravam de funcionar, e apenas a boa e velha medula continuava operando. Não acontecia nada, apenas respiração — respirei fundo e expirei lentamente — e toque. Agora sei que o sexo pode ser realmente fantástico se o garoto for lento e carinhoso e detalhista e obviamente interessado em você, e se você estiver apaixonada — eu estava tão

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cansada de chorar que observei com uma indiferença estranha quando minhas lágrimas caíram sobre o balcão em pequenas poças circulares. — Como você vai consegui-lo de volta? — Tiffany perguntou. Funguei. — Por isso te liguei. Quero deixar meu cabelo com a cor natural. Claro que cor natural é um termo relativo. Quando eu sair do trabalho em um minuto, você pode ir comigo até a farmácia do outro lado da rua e me ajudar a escolher o tom original de meu cabelo? — Nossa — disse Tiffany. — É até difícil lembrar. Faz tanto tempo... Não era castanho-escuro? E com seus olhos azuis, você vai ficar espetacular. Uau — ela tomou um gole do café e fez uma careta. — Você acha que pintar o cabelo vai trazer Johnafter de volta? Vi meu reflexo na torradeira. — Acho que vai ajudar a me conectar com ele. Você sabe, John vai ficar nesta cidade para sempre. E não há nada que eu quero menos na vida. Mas estou quase a ponto de querer morar em um apartamento triplo e assar bolos de frutas para ele e ouvir o rádio da polícia enquanto ele está trabalhando. Tiffany engasgou com o café. — Você quer isso? — Não, definitivamente não. Quase. Nunca chegarei a esse ponto realmente. Tenho muito medo de ser como meus pais, mas sinto uma conexão com John. Não posso descartá-lo só porque é inconveniente e seria

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inconveniente. Quero ir à universidade. Quero morar em Key West. Quero ver o mundo, mas acho que, se as coisas continuarem assim, vou ver o mundo sozinha. Vou me mudar para Key West sozinha e morar lá sozinha e ir embora de novo sozinha. Nunca tinha percebido que era isso que eu estava fazendo. Quero dizer, veja meus cabelos. Eu me dou bem aqui porque as pessoas sempre me conheceram. Ninguém na universidade me conhece. E se você vê alguém que você não conhece de cabelos azuis, por aqui, onde a estética estilo mangá é raramente a norma, o que pensa? Cabelo azul significa fique longe de mim — passei os dedos em uma mecha e segurei-a diante dos olhos para analisá-la — Mas você acha que se eu pintar meu cabelo de castanho, logo depois de tudo o que aconteceu com John, vai parecer que estou desesperada para consegui-lo de volta? — Não — ela disse, lentamente. — Não agora que você explicou. Acho que vai parecer que você finalmente decidiu que não está morrendo de leucemia. Ah... Meus pais ficariam felizes ao saber disso. Como eles estavam voltando de Graceland, pedi que meu pai me trouxesse uma pasta de amendoim frito e um sanduíche de banana. Ele me disse que eles não me trariam porcaria nenhuma. De qualquer forma, minha mãe provavelmente tentaria disfarçadamente comprar um ursinho de pelúcia com camiseta de Elvis ou alguma outra coisa igualmente fofa. Mas, quando eles voltassem amanhã à noite e vissem meus cabelos castanhos, aí sim. Desejariam ter me trazido aquela jaqueta jeans com a mansão de Graceland impressa nas costas, eu tinha

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certeza. E depois eu me sentaria com eles e teria uma conversa de coração aberto, e pediria desculpas. Por tudo. Tiffany deixou seu café de lado. — Quando você acha que verá John novamente? Está planejando roubar um banco? — Engraçadinha. Talvez ele vá a uma festa universitária em Birmingham hoje à noite. Esse foi o outro motivo pelo qual te liguei. Preciso que você vá comigo. — De jeito nenhum — ela disse. — Não quero beber. — Acredite em mim, não quero que você beba. Nunca mais. Você não precisa beber. Uma festa universitária não é lá essas coisas. É bem parecida com uma festa de colégio. Os garotos ainda são estúpidos. Só são mais altos e sabem aguentar a bebida melhor. — Por que tenho de ir com você? — ela choramingou. — Não tenho certeza de que John estará lá. Ele pode se manter distante para evitar me ver. E Eric pode estar lá. Você sabe que ele estará muito bêbado. Ajudaria se eu fosse com alguém para me proteger. — Meg, se você acha que John não estará lá e que Eric sim, roubar um banco parece uma ideia melhor para chamar a atenção de John. Balancei a cabeça. Fios azuis caíram sobre os olhos. Retirei-os do rosto, incomodada.

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— Will Billingsley estará lá. Preciso falar com ele. Já tivemos algumas conversas sobre John e a ponte, e ele nunca me alertou sobre o irmão de John. — Will Billingsley? — ela se animou e inclinou-se para frente. — Eu era apaixonada por ele. Participamos do time de debate juntos. Pisque os olhos. — Juro, Tiff, que se meu traseiro tirasse boas notas, você gostaria de sair com ele. — Ei! — ela bateu a mão no balcão. — Você tem uma atração pela cadeia. Namora garotos que vão para a cadeia e garotos que colocam outros garotos na cadeia. Eu tenho uma atração por boas notas. O que é mais saudável? — Caso encerrado — eu disse. — Esta noite vamos caçar um garoto juntas. Talvez essa saída termine melhor do que nossa última saída. — Minha primeira festa universitária — ela colocou a mão no queixo e me analisou. — Você vai procurar um apartamento perto da universidade no verão? Já tem uma colega de quarto? Eu ainda não tenho. Passei a mão sobre um nó de tensão em minha nuca. — Você quer dizer que gostaria de alugar um apartamento comigo? — Pense em como nos divertiremos! — Tiffany se empolgou. — Vamos fazer compras. Vamos sair para dançar. Vamos rir sobre nossos gostos diferentes por garotos. Você vai me meter em encrenca. Eu vou te manter longe de encrenca. Será perfeito!

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— Não sou muito boa com planos. Tentei esta manhã. Planejei curar John da obsessão pela ponte, e você sabe como essa história terminou. — Mas foi a primeira vez. A primeira vez não é tão boa. Suspirei. — Um dia de primeiras vezes para você. Você acabou de fazer sua primeira brincadeira sobre sexo. Parabéns — levantei a mão. Ela apertou-a. — Colegas de quarto. Parte de mim queria tirar minha mão em repulsa, mas não seria educado. E uma grande parte de mim estava gostando de ter uma... amiga. — Colegas de quarto, talvez. Tá bom, pode ser, colegas de quarto. — Eba! — ela soltou minha mão e levantou os dois braços para sinalizar um gol. — Agora se você e John pudessem reatar na festa hoje à noite, não seriam férias de primavera tão ruins no fim das contas. — Duvido que ele esteja lá — eu disse. Mas, caso esteja, não quero deixá-lo esperando.

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Capitulo 19

P

ara consegui uma vaga, Tiffany teve que estacionar na fonte do Diabo em Five Points. Caminhamos pelas fachadas dos anos 1920 em nossos sapatos de salto alto e vestidos chiques como

se fossemos adultas. As árvores ao longo da calçada mostravam a flores de primavera à noite fresca. A cada passo, eu sentia um frio na barriga. Esperava que John estivesse na festa. Esperava mais ainda que ele gostasse de meu novo visual. Quando viramos a esquina e vimos a caminhonete, bem, quem diria que eu gostava tanto de Ford. Eu queria subir correndo os degraus até o apartamento de Rashad. O que seria definitivamente sem noção. Notícia ruim da noite: depois da caminhonete de John, estava a BMW de Eric. Rashad nos recebeu e nos deu as boas vindas à sua casa. Cumprimentou Tiffany cordialmente. Levantou as sobrancelhas quando viu meu cabelo e me disse que sempre teve uma queda pelas morenas. Atrás dele a festa tinha uma atmosfera universitária: pôsteres enormes de Jimi Hendrix cobriam as paredes; cortinas adornadas estavam penduradas nas portas; luzes de Natal

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enfeitavam as janelas; o som tocava Kanye West, casais se beijavam nos cantos, e muitas pessoas riam e tomavam cerveja. Enquanto eu caminhava pela multidão, conduzindo Tiffany e procurando John, reconheci algumas pessoas que estudaram em minha escola. Se antes elas vestiam jeans muito curtos, agora que estavam na universidade tinham se dado conta do comprimento apropriado. Se antes elas arrumavam os cabelos para ir à igreja, a vida na cidade grande lhes ensinou a se arrumarem para ir a festas. Se fosse uma festa em nossa cidade, elas estariam conversando sobre a caça de cervos ou a liquidação de delineadores na Target. Agora, entre as batidas da música, consegui ouvir alguns fragmentos de conversas sobre Harper Lee e Condoleezza Rice, que haviam crescido em Birmingham, e o exgovernador do Alabama, que entrava e saía da prisão (acontecia nas melhores famílias). Filosofia universitária. Era tão legal. Eu esperava que John não perdesse isso. Tiffany e eu entramos na cozinha. Me preparei para que John aparecesse quando a porta da geladeira se fechasse, mas era Will, segurando uma jarra. — Tiffany Hart! — gritou. — Will Billingsley! — ela inclinou a cabeça daquela forma que me irritava quando fazia com John. Agora era fofo. Will mostrou a jarra. — Eu estava colocando um pouco de chá gelado para mim. Quer um pouco? Ela franziu o nariz. — Tem bebida alcoólica?

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Ele olhou para a jarra. — Só chá. Não vou beber esta noite. Tenho dois trabalhos para entregar na segunda-feira. Dever de casa nas férias. Acredita nisso? — Não! — ela exclamou, aproximando-se dele. Eu faço meu dever de casa era claramente um grito de acasalamento para a espécie dos dois. — Sim, quero um pouco de chá. Ele me olhou. — Desculpa, e sua amiga... — quando nossos olhos se encontraram, eles e surpreendeu. — Meg! Não te reconheci — franziu as sobrancelhas e afastou a jarra de mim. — Sem chá para você. Como pôde fazer aquilo com John? Cheguei da praia às 4 horas da manhã e ele apareceu em meu apartamento às 8 horas, aturdido, armado e balançando seu cassetete! Tiffany colocou as duas mãos sobre a boca. Depois as retirou para dizer Ai meu Deus, e tapou a boca novamente. — Eu não sabia que o irmão dele tinha morrido — eu disse, diminuindo o tom de voz caso John estivesse por perto. — Por que você não me contou? — Você sabia sim que o irmão dele estava morto! — Will insistiu. — Nós conversamos sobre isso na praia. Você comparou John a Mulder em busca de sua irmã perdida. Eu me lembro bem. Não estava tão bêbado. — Eu estava falando sobre a série Arquivo X! Era uma analogia, uma analogia bastante distante! — Ah — ele disse, relaxando os ombros. — Bem, esta manhã eu o

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convenci do contrário. Também o fiz acreditar que você é uma vadia manipuladora. Desculpe. Eu estava me preparando para dizer a Will o que pensava dele quando fui atacada por trás. Eric me levantou, me colocou sobre o balcão e colocou seus quadris entre minhas pernas, o que era ainda mais ofensivo, porque meu vestido era curto. Olhando para mim com os olhos vermelhos, inclinou-se e sussurrou em meu ouvido: — Seu passeio com John já terminou? Ele ia me perguntar se eu precisava de um novo passeio. Se ele me perguntasse isso, eu daria um tapa em sua cara. — Você precisa de um novo... Levantei a mão. Ele agarrou meus pulsos e apertou-os. Com força. Inclinei-me sobre ele. — Tiffany — eu disse, tentando não parecer desesperada. — Lembra por que eu te trouxe aqui? — Solte-a, seu idiota — Will gritou. Olhando para Will, Eric soltou meus pulsos e recuou. — Meu passeio com John não necessariamente acabou — eu disse a ele, com arrogância. Eric fez uma careta.

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— Quer dizer que você está transando com o policial? — Ainda não, mas me pergunte outra hora — como ele estava praticamente entre minhas pernas, decidi que este seria um bom momento para perguntar algo que estava me incomodando nas últimas horas. Se eu fosse gentil o suficiente e ele estivesse bêbado o suficiente, talvez eu conseguisse uma resposta direta. — Você sabia que o irmão de John era o garoto que morreu na ponte? Eric encolheu os ombros. — Claro. Todo o mundo sabe disso. Aconteceu quando estávamos na terceira ou quarta série. — E quando você sugeriu que fôssemos para a ponte, foi porque você sabia que John nos encontraria e surtaria? — Não na primeira vez — ele disse. — Eu não sabia que ele patrulhava naquele lugar, mas quando você e eu estacionamos lá, sim — ele me encarou, sem nenhuma vergonha. Senti frio na cozinha minúscula, e a batida da música na sala ao lado parecia mais alta. Eu não podia acreditar que algum dia pensei que Eric e eu éramos parecidos. — Isso é maldade — eu disse. — Você ainda não viu maldade. Pense que ele colocaria a mão em minha virilha, ou algo assim, por isso saltei do balcão para evitar uma situação tão desafortunada. Mas ele não

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tentou. Simplesmente saiu da cozinha. — Meg, quando você quer procurar nosso apartamento? — Tiffany perguntou. — Sei que você sempre diz que vai embora assim que puder em junho, na noite da formatura, mas Will acha que seria mais fácil conseguir alugar um apartamento no começo de julho eles estavam bem próximos um do outro. A jarra de chá estava sobre o balcão, esquecida. Caminhei até eles, balançando a cabeça. — Pode ser. Posso aguentar ficar mais algumas semanas na cidade. Talvez tente aproveitar meus últimos meses de colégio. Posso até ir à festa de formatura, se tiver um par. Os olhos de Tiffany brilharam para Will, como se ela soubesse quem seria seu par para a festa de formatura, se conseguisse convencer um estudante universitário a levá-la. Will se escorou nos armários, sorrindo para ela. — Inglês ou o curso preparatório para medicina. — Inglês ou o curso preparatório para medicina — ele meditou. — São áreas bem diferentes. Vou te dar uma dica. No próximo outono, não saia dizendo para as pessoas que está estudando inglês ou o curso preparatório para medicina. Você vai parecer uma caloura. — Ah, é? — perguntei. — E o que você estudando? — Química — ele disse, na defensiva. — Ou dança moderna — piscou

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para Tiffany. Ela sorriu. — Eu queria estudar inglês — explicou —, mas passei por uma experiência que mudou a minha vida e me fez pensar que talvez queira estudar medicina. Passei a semana toda ajudando o pessoal da emergência em uma ambulância. Will se inclinou para frente e perguntou, conspirativamente: — Você é um dos travessos da ponte? Ela sorriu secretamente. — Você não parece travessa — Will disse. Depois fez um gesto para mim. — Esta aqui eu posso entender, mas você? Qual é sua média de notas? — É 9,0 — ela disse. — Você é a melhor aluna da sala? — ele exclamou. Ela só riu. — Qual é sua média de notas? — Agora é 8,5, mas estou tentando chegar a 8,8 este semestre — ele balançou a cabeça, tristemente. — As matérias difíceis do primeiro ano realmente acabaram comigo. Só consegui tirar 8,0 no semestre passado em cálculo... — Vou ter de interromper vocês dois para dizer o quando me desagradam — eu disse. — Vocês são terrivelmente bem ajustados. Por que não pulam esta parte e conseguem um fundo de aposentadoria conjunto? Os dois arregalaram os olhos. Depois Tiffany disse que talvez não

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quisesse morar comigo, ao mesmo tempo em que Will resmungava: — Ela só está chateada por causa de Johnafter — ele colocou seu braço em volta de mim e me abraçou — Queria poder dizer que vai ficar tudo bem com vocês, mas você foi responsável por tudo isso, antes de eu ser envolvido nessa história hoje de manhã. Parece que você viu o outro lado do temperamento de John. — Que temperamento? — perguntei sem pensar. O John com quem eu patrulhei por uma semana era muito equilibrado, com um alto nível de paciência para os suspeitos que o maltratavam, ou para as delinquentes de cabelos azuis que acionavam sua sirene. Depois me lembrei de sua expressão quando gritou com Brian e Eric na ponte. Lembrei-me de como suas articulações tinham ficado brancas na viatura quando ele me disse Se eu mesmo tivesse tirado Eric do carro, tenho medo do que teria feito com ele. — Não faça isso, John — a voz estridente de Angie ecoou na sala ao lado. — Eric só está implicando com você. John estava na porta da cozinha. Engraçado, eu até esperava vê-lo em seu uniforme de policial, mas ele estava vestindo jeans desbotados e uma camiseta verde apertada. Talvez fosse o reflexo da camiseta, ou seus olhos realmente estivessem mais castanho-claros do que escuros, e eu não tinha percebido isso quando ele usava o uniforme azul-escuro, mas agora seus olhos pareciam verdes. Angie se agarrou a ele por trás, tentando inutilmente contê-lo. Ele me viu de relance e depois olhou de novo para mim, mas não se deleitou com meu novo visual nem metade do que deveria. Quase

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imediatamente, seu olhar passou para Will e se transformou naquele olhar perigoso e inexpressivo. Me vi através de seus olhos: cabelos escuros, vestido curto, com o braço de Will em volta de mim. — Ah, aquele temperamento — eu disse. Will olhou para John, afastou-se de mim e de Tiffany e recuou um passo. — Rashad! — gritou. Olhou para trás, mas só havia parede. Ele não tinha para onde correr. John estava do outro lado da cozinha, mais alto do que Will. Tiffany e eu colocamos as mãos entre eles antes de poder pensar sobre aquele movimento desacertado. Pelo menos temporariamente conseguimos evitar que John batesse em Will. John apenas agarrou a camisa de Will, levantando-o do chão, e depois o soltou, fazendo com que ele caísse. — Me deixe em paz, After — Will urrou, com o rosto vermelho. — Você está fora de controle. Rashad! Não havia espaço suficiente na minúscula cozinha para todos esses rapazes fortes, mas de alguma forma Rashad se espremeu para entrar e disse Calma, garotão, enquanto puxava um dos braços de John. Skip agarrou o outro cotovelo de John e disse com a voz de Schwarzenegger: — Você será desativado. John pareceu se acalmar e deixou que o afastassem de Will, mas então ele se livrou deles e foi atrás de Will novamente. Eles mergulharam atrás dele, se amontoando no chão da cozinha. Finalmente Tiffany bateu o pé e gritou:

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— John, ele nem estava dando em cima da Meg. Ele estava dando em cima de mim! Não foi, Will? — Sim! — a voz agonizante de Will veio do fundo da pilha. — Mas Eric disse... — a voz abafada de John se esgotou. Ele surgiu do meio da pilha, me olhou de relance e saiu da cozinha, empurrando Eric, que estava atrás de Angie perto da ponta da cozinha. — Ainda está procurando briga? — Eric gritou. — Você é bem covarde sem todos aqueles policiais atrás de você. — Cale a boca, Eric — a voz de John ecoou. A porta bateu mais forte do que a batida de Kanye West. Saí empurrando todo o mundo, sem sequer prestar atenção em quem eu empurrava, mas ouvi Will respirando com dificuldade atrás de mim. — O que vamos fazer? — Tiffany ofegava enquanto saíamos pela porta do apartamento de Rashad e descíamos as escadas até sair do lado de fora, sob a noite fresca. —Vamos persegui-lo em meu carro? — Nunca o pegaremos se ele não quiser ser pego — Will parou repentinamente no fim da escada. — A caminhonete dele ainda está aqui. — Aonde ele poderia ter ido? — gritei, olhando para os dois lados da rua, — Ele gosta da fonte que fica em Five Points — Will disse. Todos corremos até a esquina e paramos novamente. A fonte estava bem à nossa frente. Atrás de uma parede baixa circular,

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coelhos e sapos escutavam o carneiro ler histórias diabólicas. Não pude ver o rosto de John no cruzamento, mas reconheci a camiseta verde. Ele estava bem no meio da fonte, sentado no colo do Diabo. — Ele realmente gosta desta fonte — Will disse. Até Tiffany perguntou: — O que diabos? — Ótimo — eu disse. — Finalmente começo a agir como uma pessoa normal e John enlouquece — olhei para Will. — Ele não é um daqueles policiais arrogantes que carregam algemas escondidas quando não está de plantão, é? Não vi nenhuma algema com ele na quinta-feira à noite. — Não — disse Will —, mas irei com você se estiver com medo dele. Olhei para John, sentando imóvel na fonte. — Não, obrigada — atravessei a rua, dizendo por sobre meu ombro: — Tenho tanto medo dele quanto ele tem de mim. John me observou enquanto eu me aproximava. Parei perto da parede em volta da fonte. Ele me encarou, sentado no colo do carneiro, com os braços cruzados. Sua calça estava molhada por causa das estátuas de sapos que cuspiam nela. Um cigarro apagado pendia de seus lábios. Coloquei as mãos na boca como um megafone. — Afaste-se do Diabo e venha em direção à minha voz. Sua expressão não mudou. O cigarro estremeceu no canto de sua boca

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quando ele disse: — Estou tentando pensar como você. Ri. — Se você estivesse tentando pensar como eu, estaria virado para o outro lado, cavalgando o Diabo. — Ou Will — ele disse — Ou Eric. Minha barriga se contraiu novamente quando pensei em Eric e eu. Certamente John não acreditava que eu sentia atração por Eric ou por Will, mas obviamente acreditava que Eric e eu éramos parecidos. Assim como eu mesma lhe disse — Eu não sabia sobre seu irmão. Ele recuou. Eu odiava machucá-lo. Novamente. Mas pelo menos seu olhar enfurecido havia desaparecido. Ele retirou o cigano da boca e inclinou-se para frente com as mãos sobre os joelhos. — Mesmo que não soubesse, Meg, como pôde fazer aquilo comigo? Foi minha vez de recuar. Afastei-me da parede da fonte com a força do golpe. — Não posso ficar naquela cidade, John — eu disse, de forma não muito convincente. — Mas eu te amo e não posso deixar você lá — me aproximei da parede novamente. — Juro que não sabia sobre seu irmão. Se eu soubesse,

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teria pensado em outra coisa. Teria dinamitado a ponte. — Mmph — ele disse. — Sei que você não sabia. Will me disse que você sabia... — Ele estava errado — eu disse, rapidamente. — Ele sente muito, e não tarda por esperar. — Depois jantei com Leroy — John prosseguiu — e ele me disse que você não sabia. Por isso fui até a casa de Rashad, na esperança de te encontrar, e passei as últimas horas fazendo grandes planos para nós dois. Depois Eric me disse que você estava com Will — ele balançou a cabeça. —Eric tenta me pregar peça há anos. Finalmente conseguiu. Caminhei até o lado da fonte mais perto do coelho, onde poderia estar o mais perto possível de John sem atravessar o fosso entre nós. — Que tipo de planos? Ele fechou os olhos, depois balançou a cabeça e abriu aqueles olhos escuros novamente, me observando. Eles não estavam mais verdes. Haviam voltado ao lindo e familiar castanho. — Fico feliz que tudo isso tenha acontecido. Quero dizer, queria que não tivesse acontecido exatamente desta forma, mas algo tinha de acontecer para abrir meus olhos. Eu achava que estava protegendo as pessoas, mas, quando te algemei, percebi que deixei a ponte me transformar em um monstro. Pode me fazer bem sair daquela cidade. Encarei-o boquiaberta por alguns segundos, sinceramente sem acreditar a princípio que o ouvi dizer isso. Depois ri. Dei gargalhadas.

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— Não! — eu disse, sarcasticamente. Ele sorriu. — Estou planejando perguntar a Will se posso morar com ele neste verão. E vou entrar no time de trilha da universidade. Estava pensando que talvez você quisesse também. Respirei ofegante, horrorizada: — Entrar? Em um time! — Você está correndo oito quilômetros por dia — ele disse. — Poderia muito bem entrar no time de trilha e conseguir mais dinheiro para a bolsa de estudos. — Isso, na verdade, parece — engoli em seco — divertido. — Sei que precisamos de dinheiro para o aluguel e outras coisas, mas, se conseguirmos juntar o suficiente, neste verão ou no próximo talvez possamos ir à Europa. Eu poderia te mostrar o que fiz, e poderíamos descobri novos lugares juntos. — Espero que você esteja dizendo isso com o sentido mais sujo possível — eu já tinha chorado o bastante para um dia, portanto fechei os olhos e afastei as lágrimas. Será que eu havia caído no universo paralelo que Will mencionou na praia? Olhei em volta para a majestosa igreja atrás da fonte, com a fachada boêmia, Tiffany e Will conversando sob uma árvore florida. O céu azul-escuro acima de mim parecia infinito.

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John se sentou, respirou fundo e suspirou. — Então, você gostou dos planos? — Sim, gostei dos planos — eu disse. — Gosto de ter planos com você. Agora desça do Diabo. É ilegal. Ele pulou do carneiro para o coelho, parou para equilibrar o cigarro na boca de uma tartaruga, pisou em um sapo que cuspia, chegou até a parede em frente a mim e saltou ao meu lado. Depois escutei um zumbido baixo. Olhei em volta, desesperadamente. Quando as luzes azuis e a sirene surgiram, a viatura já estava perto da gente no cruzamento. — Deixe que eu resolvo isso — gritei para John. — Sei lidar com policiais. — Sim, você sabe — ele murmurou, enquanto a viatura passava por nós e seguia seu caminho, subindo a ladeira. — Eles não estavam atrás de mim. Não usamos a sirene para estudantes universitários na fonte. De qualquer forma, obrigado por me proteger — ele passou um braço em volta de minha cintura, me puxou para perto dele e passou os dedos por uma mecha de meu cabelo. — Você é a pessoa mais corajosa que já conheci — seus olhos escuros me olharam com amor. O olhar que eu tanto ansiei. Tremi com um calafrio que passou da minha cabeça por meu corpo até os dedos dos pés. — Você ainda não disse o que achou de meu cabelo. Ele escolheu outra mecha e a enrolou em volta de seu dedo. — Eu gostava mais do ciano.

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— Sério? Então foi um desperdício de US$ 6,99. — Não, na verdade não — ele riu. Está brincando? Agora todos podem ver o que eu vi desde o começo. Ele me abraçou ainda mais apertado com os braços grandes e me inclinou. Cheirei seu perfume. Seus lábios quentes e delicados encontraram os meus. E vivemos felizes para sempre. Na noite seguinte, John veio até o restaurante por volta das 22 horas. Ao vê-lo estacionar a viatura, tentei parecer desencanada e indiferente atrás do balcão, mas, considerando o que fizemos depois da festa de Rashad, não tinha como. Sorri como uma idiota quando ele pendurou a jaqueta policial de couro no suporte. Quando ele se virou, retribuiu o sorriso, mostrando as covinhas. Este policial era meu namorado. Estranho! Ele se espremeu entre dois bancos do bar e veio direto até o balcão. Fiquei na ponta dos pés e me inclinei para beijá-lo. Seus lábios tocaram os meus, intensamente. A ponta de sua língua tocou meus lábios, tão lentamente. Tremi. Apesar de Bonita estar nos fundos marcando sua saída e de haver apenas dois clientes sentados à mesa da Princesa Diana, não podíamos nos empolgar muito aqui no restaurante, com John de uniforme. Mas eu nunca quis tanto alguém, e podia ver que ele sentia o mesmo. Ele interrompeu o beijo, tocou minha testa com a sua por um momento e finalmente recuou. — Você não trabalhou durante toda a manhã? Receava que não

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estivesse aqui agora. — Achei que você poderia vir no começo de seu turno. Não queria perder a oportunidade. Seus lábios se fecharam levemente. Ele se apoiou sobre o balcão para tirar meus cabelos do meu rosto. Ri nervosamente. Meu Deus! — Você me conquistou de tal forma que não consigo pensar em nada sarcástico para dizer. — Isso me faz senti poderoso e másculo. Não se preocupe. Tenho certeza de que você pensará em algo — ele olhou para o quadro negro na parede dos fundos. — Qual é o Especial Meg do dia? — Bolo de frutas — mostrei para ele uma das mesas. — Sente-se para que possamos conversar enquanto eu cozinho. Já se dirigindo até a mesa de Elvis, ele sacudiu o dedo por sobre o ombro. — Desculpe. Não posso ficar de costas para a janela — Eu te desafio. Ele levantou as sobrancelhas para mim. — Você me desafia, é? — mordendo o lábio, sentou-se no banco. — Eu posso ver através da janela — lhe garanti — Vou ficar atenta se aparecer algum criminoso — para fazer jus à minha promessa, inclinei-me

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para um lado para observar o estacionamento por sobre seu ombro. Um carro estacionou no espaço ao lado da viatura. Ele me observou com atenção. — Não consigo suportar. Quem chegou? Algum criminoso? — virou-se para olhar. — Meus pais — eles estacionaram aqui em vez do trailer porque o suspense os estava matando. Precisavam ter certeza de que eu não havia incendiado o restaurante enquanto estavam fora. Obrigada pelo voto de confiança. Mostrei os polegares em sinal de positivo para meu pai. Ele me encarou. Minha mãe olhou para ele no carro, perguntando O que foi? O que aconteceu? Ele continuou me encarando. Meus cabelos castanhos foram um choque ainda maior para ele do que eu esperava. Sorri e acenei para ele, gritando: — Bem-vindos de volta. Ele colocou a mão nos olhos. Sabia que eu estava finalmente curada.

Fim... 292


Sobre a Autora: Jennifer Echols Jennifer Echols é autora de dramas românticos adolescentes para a MTV Books e de comédias românticas adolescentes pela Simon

Pulse.

Cresceu

em

uma

pequena cidade do Alabama próximo a um

bonito

inspirou

lago,

muitos

um

cenário

dos

seus

que

livros,

atualmente mora no Alabama com sua família.

Está

no

seu

sétimo

livro

incluindo o Major Crush, que ganhou o National Reader's Choice Award. Longe Demais,

foi

o

finalista

do

RITA,

National Reader's Choice Award, e foi nomeado pela American Library Association como Melhor Livro para Joven Adultos.

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Esta obra foi formatada e digitada pelo grupo de MV, de forma a propiciar ao leitor o acesso à obra, incentivando-o à aquisição da obra literária física ou em formato ebook. O grupo é ausente de qualquer forma de obtenção de lucro, direto ou indireto. O Grupo tem como meta a formatação de ebooks achados na internet, apenas para melhor visualização em tela, ausentes qualquer forma de obtenção de lucro, direto ou indireto. No intuito de preservar os direitos autorais e contratuais de autores e editoras, o grupos, sem prévio aviso e quando julgar necessário poderá cancelar o acesso e retirar o link de download do livro cuja publicação for veiculada por editoras brasileiras. O leitor e usuário ficam cientes de que o download da presente obra destina-se tão somente ao uso pessoal e privado, e que deverá abster-se da postagem ou hospedagem do mesmo em qualquer rede social, blog, sites e, bem como abster-se de tornar público ou noticiar o trabalho do grupo, sem a prévia e expressa autorização do mesmo. O leitor e usuário, ao acessar a obra disponibilizada, também responderão individualmente pela correta e lícita utilização da mesma, eximindo-se os grupos citados no começo de qualquer parceria, coautoria ou coparticipação em eventual delito cometido por aquele que, por ato ou omissão, tentar ou concretamente utilizar da presente obra literária para obtenção de lucro direto ou indireto, nos termos do art. 184 do código penal e lei 9.610/1998.

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Longe Demais - Jennifer Echols