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Sinopse ELA ESTÁ ESCREVENDO SOBRE ELE. ELE ESTÁ ESCREVENDO SOBRE ELA. E TODOS ESTÃO LENDO NAS ENTRELINHAS.

Para Erin Blackwell, estudar escrita criativa na faculdade dos seus sonhos em Nova lorque é mais do que uma oportunidade para conquistar suas ambições, é sua passagem para longe das lembranças trágicas que acompanham a fazenda de cavalos de sua família no Kentucky. No entanto, quando ela se recusa a estudar administração e cuidar da fazenda algum dia, sua avó decide oferecer o dinheiro da faculdade e a prometida herança de Erin ao seu lindo cavalariço, Hunter Allen. Agora Erin precisa conseguir um estágio e trabalhar até tarde em uma cafeteria para tornar seu próprio sonho realidade. Ela deveria desprezar Hunter... mas por que ele entrou de surpresa em seus pensamentos como o herói de seu último dever de casa? No dia em que ela está compartilhando a história com a turma, Hunter aparece. E entra no grupo. E depois que ele lê sobre si mesmo na história, as fantasias íntimas de Erin são dolorosamente expostas. Ela espera persuadi-lo a não revelar seu segredo para o grupo, mas Hunter prepara sua própria vingança criativa e escreve histórias sensuais que deixam a sala inteira curiosa e enchem o coração de Erin de desejo. Agora ela não está apenas imaginando o que poderia ter

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acontecido, est谩 escrevendo um fim completamente novo para seu romance com Hunter... s贸 que essa hist贸ria poderia se tornar realidade.

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1 Quase uma Dama por Erin Blackwell

O CAPITÃO VANDERSLICE ERA UM IMBECIL. Ele segurou a mão de Rebecca e a beijou, fazendo uma reverência. ― Srta. O'Carey, você está se transformando em uma jovem maravilhosa. ― E você, senhor, está ótimo como sempre ― Rebecca mentiu, observando o capitão. Ele devia ter sido bonito. Era alto e moreno, mas uma bala atingiu sua bochecha na Guerra civil há dez anos, desenhando uma cicatriz do nariz até o olho. Dizem que o ferimento visível não foi o único que ele sofreu durante a guerra e que, apesar de estar solteiro em um lugar que perdeu muitos dos seus jovens para a guerra, a decepção em relação à procriação foi o principal fator que impediu várias damas de aceitar casar-se com ele. No entanto, a perspectiva de interromper sua linhagem não importava para a avó egocêntrica e calculista de Rebecca, que considerava a união vantajosa, pois algum dia ela poderia incorporar a imensa fazenda de cavalos do capitão Vanderslice à sua própria fazenda.

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Mas Rebecca se importava. Ela tentou pensar em algo para dizer ao capitão que não fosse nem grosseiro nem um estímulo para seus interesses amorosos. ― A corrida de cavalos do coronel Clark foi um verdadeiro deleite, não acha? Ele está pensando em torná-la um evento anual. ― Não vai fazer muito sucesso ― disse o capitão, com desprezo, mexendo o copo de uísque com hortelã na mão que também tinha uma luva. ― Eu consideraria a corrida um sucesso, com dez mil assistentes ― Rebecca insistiu e continuou trocando observações desagradáveis com o capitão, enquanto seu olhar percorria o salão, procurando uma saída antes que a conversa casual se transformasse em um galanteio, como aconteceu em todos os últimos eventos sociais. A sorte não estava do seu lado. Em uma típica dança country há alguns dias, um dos seus amigos estrategicamente interrompeu a conversa, livrando Rebecca das atenções do cavalheiro e deixando-a muito gradecida por isso, mas esta não era uma dança country. O coronel Clark havia organizado uma corrida com os melhores potros da região de Louisville e este baile exclusivo em sua mansão incluía apenas as famílias mais ricas. Em uma reunião de talvez cem pessoas, Rebecca estava sozinha. Quase sozinha, pois ela notou um movimento com o canto do olho. Emoldurado pela janela em arco que deixava entrar a fria noite de maio, depois do jardim, o casaco escuro de David se misturava às sombras, mas seu cabelo dourado e sua camiseta branca brilhavam sob a tênue luz das velas refletida nos espelhos do salão.

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Rebecca havia pedido que ele a encontrasse. Mais cedo, ela veio se esconder neste canto do salão para ter uma visão do jardim e sempre olhava pela janela como quem não quer nada, procurando-o depois de cada dança de quatro pares, três danças escocesas e uma dança circular. Quando finalmente o viu, ela sentiu seu coração acelerar, quase como se movesse a renda do vestido. ― Srta. Rebecca! Ela tremeu, surpresa, quase explodindo em seu espartilho, mas era apenas o velho Sr. Gordon, que parou entre ela e o capitão Vanderslice. Ela sorriu para ele, agradecida pela interrupção. Recentemente, em um passeio pelo jardim da propriedade de sua avó, ela compartilhou com ele sua opinião sobre o capitão e sobre os planos de sua avó. ― Sr. Gordon ― ela o cumprimentou e estendeu a mão. ― Gordon ― o capitão disse, sucinto. O sr. Gordon fez um gesto com a cabeça para o capitão e disse a Rebecca: ― Fiquei muito satisfeito com o desempenho do seu animal na terceira corrida hoje. Ouvi dizer que você mesmo treinou aquela égua? ― Você a treinou! ― o capitão gritou, olhando perplexo para Rebecca. Rebecca não tirou os olhos do sr. Gordon, o que parecia uma boa estratégia caso o capitão quisesse apenas parecer surpreso em vez de participar da conversa. ― Você ouviu isso dos nossos cavalariços ― ela disse ―, mas eles sempre exageram nos elogios. Nosso jovem David Archer fez a maior parte do trabalho. Eu apenas demonstrei interesse.

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― E escolheu essa égua no estábulo para treinar ― o sr. Gordon acrescentou. ― Bem, sim ― Rebecca disse ―, depois de algumas discussões sobre o assunto com David. ― Jovem, você disse ― o sr. Gordon meditou. ― Procurando conquistar seu espaço, longe das sombras de seu famoso e talentoso pai,talvez. O coração de Rebecca acelerou de novo, desta vez alarmado. Ela sabia que o sr. Gordon estava apenas distraindo o capitão de seus galanteios, e ela estimava seus esforços, mas o que ela queria mesmo era impedir que seu servente-amante fosse contratado por outro fazendeiro. ― Bem, não sei se Archer é isso tudo ― Rebecca recuou. ― É possível que eu tenha mais conhecimento sobre cavalos do que admito. Não é muito próprio de uma dama aceitar elogios. ― Tampouco é próprio de uma dama interessar-se tanto por cavalos! ― o ignorado capitão explodiu. ― Rebecca, você está louca? Esses passeios pelo estábulo vão acabar com sua reputação! Vou falar com sua avó! ― Que excelente ideia! ― Rebecca disse. ― Sr. Gordon, será que o senhor poderia fazer a gentileza de ajudar o capitão a encontrar minha avó? ― E você deveria nos acompanhar! ― o capitão exclamou para Rebecca, oferecendo o braço. Ela recusou.

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― Não é necessário. Sou incapaz de me disciplinar. É melhor o senhor tratar do problema e eu ficarei aqui, sozinha neste canto, pensando com remorso sobre meus atos. ― Vamos, capitão! ― o sr. Gordon fingiu ultraje e, quando colocou a mão sobre o ombro do capitão para guiá-lo, olhou para Rebecca. Ela piscou para ele, agradecendo a ajuda, mas se sentiu um pouco culpada por enganá-lo. Se ele soubesse que não estava apenas livrando-a de um galanteio desconcertante, mas também abrindo caminho para um encontro ilícito, não teria sido tão prestativo. Ela observou as elegantes silhuetas dos dois homens se misturarem aos outros convidados e desaparecerem em outra sala, à procura da matriarca. Olhando mais uma vez para as pessoas na festa, ela saiu em direção à porta em arco, caminhando extremamente devagar,

devido

inacreditavelmente

à

maldita

apertado,

moda que

da

estação,

permitia

passos

um de

vestido alguns

centímetros por vez. O vestido era elegante para mulheres solteiras, ela pensou, mas extremamente inconveniente para um encontro com um cavalariço. Finalmente ela passou debaixo do arco e saiu do salão. O ar frio a fez tremer em seu vestido sem mangas, mas ela tinha que esconder seu desconforto. A única forma de manter essa relação sem ser levada aos seus aposentos antes de atingir a maturidade e sem que David se afastasse dela, ou pior, se tornasse uma vítima da justiça do interior, era ter uma desculpa disponível o tempo todo. Sua desculpa no momento era que estava se sentindo um pouco tonta na festa e precisava de ar fresco. Isso nunca tinha acontecido com ela, o

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cavalariço tinha dito que ela conseguia manter a postura após beber, mas tudo tem uma primeira vez. Se ela conseguisse encontrar David, daria a desculpa de que havia deixado as finas luvas de equitação no estábulo de sua égua preferida e David, reconhecendo-as e não confiando nos brutos trabalhadores da fazenda, decidiu levar ele mesmo as luvas à festa do coronel. Pelo menos essa foi a desculpa que Rebecca inventou, e essas foram as ordens que ela deu a David, mas ele era conhecido por desobedecer ordens e escapar das consequências com um sorriso encantador. Pode ser que ele tenha cansado de esperar e tenha voltado para casa. Normalmente Rebecca não teria atribuído tanto desrespeito a um empregado, mas David não era normal. Nem devotado. Tampouco paciente. Na verdade, marcar um encontro romântico com ele era como tentar agarrar um gato, e em muitas ocasiões ela esteve a ponto de desistir dele e de uma tentativa de romance com o filho do verdureiro, e chegou a dizer isso a David. O fato de ele não parecer muito intimidado pela ameaça a fez desejá-lo ainda mais. A Guerra Civil começou quando eles tinham quatro anos e, mesmo não tendo devastado Louisville, a guerra foi uma preocupação para a comunidade, pelas ameaças de evacuação e pela perda de alguns homens. O pai de Rebecca foi designado como oficial do general Bull Nelson e morreu com um tiro na Batalha de Richmond, e sua mãe pouco a pouco faleceu de desgosto. Rebecca sentia muito a falta dos pais, mas não tinha muitas lembranças dessa época, exceto o mar de barracas brancas no local de treinamento do Exército Federal nos arredores da cidade. Ela foi praticamente criada pela avó, que era indiferente e foi ficando cada vez

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mais amarga, talvez por causa do falecimento da filha, mas Rebecca suspeitava que sua avó era naturalmente amarga, com uma intensidade e consistência que só podiam ser inatas e não adquiridas. Rebecca encontrou conforto em suas traquinagens pelos pastos, brincando de luta e outras perseguições próprias dos garotos com David, o filho do senhor que cuidava dos cavalos, uma amizade que teria sido duramente desencorajada se alguém estivesse prestando atenção. Mas ninguém estava. Na verdade, olhando sobre o ombro e os frisos do vestido branco, ela viu que mesmo agora ninguém a estava observando enquanto ela saía da mansão iluminada por velas nas janelas emarco e atravessava o jardim, adentrando a fria noite. David estava diante dela, os ombros largos e os quadris esbeltos parecendo mais cavalheirescos esta noite em seu traje para ocasiões especiais: casaco comprido, calças apertadas e botas de montaria de cano longo. Ao vê-la, ele se escondeu atrás de uma planta, onde eles não poderiam ser vistos por ninguém que saísse ao jardim para tomar ar. Ela deu a volta na enorme planta e deu uma olhada do outro lado. Satisfeita ao se certificar de que eles não seriam descobertos, ela olhou para ele. Ele sorriu, enquanto seus olhos buscavam o decote do vestido. Ela estava tão extasiada analisando o rosto de David após dias presa no redemoinho de bolas e corridas, e seu coração batia tão forte no peito que depois de alguns minutos ela se lembrou de cumprimentá-lo. ― Oi, David. ― Oi, srta. O'Carey ― suas palavras mostravam o tratamento adequado de um cavalariço para a filha da aristocracia. De fato, suas palavras sempre eram apropriadas, pelo menos em público, mas a

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atitude por trás de sua voz demonstrava que ele não se considerava inferior a ela, e era isso que a atraía nele, cada vez mais. No entanto, o que ele disse depois não foi nem um pouco apropriado. ― Gostaria de dar um passeio atrás dos estábulos? Ela deveria ter sorrido, pois eles nunca sairiam impunes de tal ato. Uma testemunha os veria e contaria a tragédia à avó de Rebecca antes que qualquer coisa pudesse acontecer, salvando a honra da jovem e arruinando sua noite. Mas Rebecca não sorriu. David a observava, cheio de expectativa, encarando-a, sério, com seus olhos azuis. ― Meus sapatos ficariam sujos ― ela murmurou ― e a empregada perceberia de manhã ― ela mostrou a ponta do sapato dourado para ele. ― Então acho que não podemos ir muito longe ― ele agarrou o pulso de Rebecca com força e a puxou para perto dele. Ela olhou para ele, surpresa, imaginando o que aquilo queria dizer. ― Venha comigo para os arbustos, Vossa Alteza. ― ele disse. ― Venha comigo para a escuridão. Não era isso que você queria quando me pediu para trazer uma luva que você não esqueceu? Claro que era isso que ela queria, mas ela não estava preparada para admitir, muito menos para levar o plano adiante. Ele se aproximou e naquele instante o calor explodiu no coração de Rebecca e inundou seus seios, fazendo suas bochechas corarem e seu corpo arrepiar dos pés à cabeça. Esse cavalariço, ou o homem no

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qual ele havia se transformado quando ela não estava olhando, era forte o suficiente para levá-la aos arbustos com ou sem seu consentimento. A única coisa que ela podia fazer era segui-lo. Mesmo aceitando segui-lo, ele sussurrou sobre o ombro: ― Estou começando a achar que você não conhece tanto sobre o amor quanto pensa. Você parece impressionada por eu ter entrado no seu jogo ― ele parou debaixo de um galho cheio de folhas e flores brancas perfumadas que brilhavam à luz do luar. ― Aposto que eu aprendi tanto no meu camarim quanto você no seu estábulo ― ela respondeu. ― Minha empregada trabalhou como dançarina antes, mas se você mencionar isso para minha avó provavelmente encontrará vidro moído no seu café. Ele suspirou. Rebecca não tinha certeza se foi um sorriso ou um suspiro, porque sua presença tendia a suscitar ambas as reações em David. Ele tocou o lábio inferior de Rebecca, o indicador de um lado e o polegar do outro lado, e pressionou com cuidado, como se quisesse preparar seu lábio. ― Vou beijar você agora, Rebecca. Não grite. Ela sorriu, nervosa, mas se acalmou quando os lábios de David encontraram os seus. Desde aqueles longos dias de verão e brincadeiras, há muito tempo ela considerava David um querido amigo. Ele era tão importante para Rebecca que ela havia cuidadosamente escondido essa amizade de sua avó, mas agora eles já tinham dezoito anos. Nos últimos meses, o próprio segredo de seu relacionamento havia se escurecido na mente de Rebecca e havia se tornado necessário. Agora

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David era um homem, e ela era uma mulher cortejada por outros cavalheiros, mas estava sendo atraída por este beijo. Ela abriu a boca para receber tudo o que havia sonhado e esperado. O que ela não esperava era sentir as mãos de David em seu espartilho. Primeiro elas agarraram sua cintura, depois subiram por suas costas e passearam por seu pescoço. Quando um dedo polegar passeou por seu decote, perigosamente perto de seus seios, ela interrompeu o beijo com um suspiro.

SERÁ QUE EU SUSPIREI DE VERDADE? EU ESTAVA morrendo de medo de ter emitido algum som enquanto lia minha história. Minha cópia de 'Quase uma Dama' estava na minha frente sobre a longa mesa de madeira escura polida, e havia uma cópia para cada um dos seis alunos ao redor da mesa, apenas metade da classe, mas nenhum deles estava lendo minha história. Dois deles ficavam cochichando, dois liam livros e dois digitavam ern seus laptops. E nenhum deles estava olhando para mim. Em uma tentativa de disfarçar meu suspiro, respirei fundo, como se estivesse me deleitando com o bom e fresco ar da cidade de Nova Iorque. Mais um suspiro e eu prendi a respiração por um minuto enquanto me concentrava em meu coração, que parecia palpitar. Eu estava nervosa. Eu, nervosa! Minha história, por uma infeliz coincidência, seria uma das três primeiras a receber críticas na aula. Eu só esperava não ser a primeira. Eu estava confiante, mas ninguém quer

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ser o primeiro, e nada importava mais para mim do que minhas histórias. Principalmente esta. Eu a escrevi por experiência própria, de certa forma, sobre meu próprio cavalariço, do lugar de onde eu vim, Kentucky. Primeiro éramos amigos, como David e Rebecca. Depois uma coisa terrível aconteceu e durante anos não consegui superar. Agora nunca superaríamos. Mas na história isso seria possível. Eu podia colocar obstáculos ao amor, assim como na vida real, mas depois, ao contrário da vida real, eu poderia ultrapassá-los. Poder colocar todas as peças do quebracabeça no lugar e escrever um flnal feliz não muito realista para meus personagens me fazia sentir bem. Por isso eu queria ser uma escritora de romances. As pessoas nas minhas turmas de escrita criativa no segundo grau não pensavam assim, mas agora eu estava em uma aula de escrita criativa em uma universidade de Nova Iorque famosa por seus programas de escrita criativa e publicação. É verdade que todos os calouros no programa de graduação tinham que fazer essa matéria, e a maioria deles nem estava se formando em Letras e não davam a mínima para a composição literária, mas com certeza alguns deles veriam o que eu via na minha história e se apaixonariam por ela tanto quanto eu me apaixonei. Se isso fosse verdade, eles não conseguiriam parar de ler e reler meu delicioso romance. Curiosamente, ainda assim eles parecem não se importar muito. Eu mal conseguia ouvir a respiração deles por causa do barulho nos teclados e do ruído do trânsito do lado de fora, mas tinha quase certeza de que ninguém havia suspirado. A garota que estava sentada perto de mim digitava mensagens em seu telefone

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preto, como se ler minha história fosse apenas outro dever de casa e não tivesse causado nenhuma mudança em sua vida. Danem-se todos eles. E eu mergulhei de novo na história.

― Será que eu deveria parar? ― David sussurrou, beijando o canto da boca de Rebecca. ― Se formos pegos, talvez você tenha que ficar confinada em seu quarto, mas eu perderei o emprego. Meu pai também pode ser demitido, e ele me mataria se isso acontecesse. David beijou o queixo de Rebecca e deixou um rastro de beijos em seu pescoço. Depois de beijar o decote entre seus seios, fez uma pausa e olhou para ela, encostando o cabelo loiro nos frisos da renda do vestido. ― É melhor fazer valer a pena. ― Com certeza ― ela suspirou, o que era uma façanha e tanto com aquele espartilho apertado. Se continuasse assim, era capaz até de desmaiar de tanta emoção. Com essa deixa, a língua de David percorreu a pele macia ente seus seios, seguiu pelo decote, deu mais alguns beijos no pescoço de Rebecca e passou o nariz pelos macios cachos que a empregada havia arrumado com tanto cuidado. ― Algumas coisas terão que esperar até que estejamos realmente sozinhos ― ele sussurrou em seu ouvido, fazendo seu pescoço e seus braços arrepiarem na noite fria. ― Eu adoraria colocar meus lábios

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aqui ― a mão de David passeou pelo decote de novo, tocando seu seio, e ele moveu o polegar para frente e para trás no mamilo sob a renda. Desta vez foi ela quem agarrou com força a camisa branca debaixo do casaco de montaria, as palmas deslizando pelos músculos do peito quentes e firmes. Ele beijou seus lábios e agarrou seus ombro para mantê-la imóvel enquanto explorava sua boca com a língua. Rebecca não notou quanto tempo esse êxtase durou antes de ele se afastar, ofegante, e encostar a testa na sua. ― Muito bem, isso satisfez minha curiosidade, Srta. O'Carey. Obrigado por esta encantadora noite. ― Quanta indelicadeza ― ela o empurrou levemente. Sorrindo como um canalha, ele se apoiou nos galhos, fazendo cair algumas pétalas brancas. Depois mexeu em alguma coisa nas calças. Ela pensou que os últimos minutos haviam sido os mais intensos de sua vida, mas eles não eram nada comparados ao susto e deleite envergonhado que agora corria em suas veias, até perceber que ele estava apenas pegando o relógio. EIe olhou para o relógio e disse: ― É melhor você voltar antes que sintam sua ausência. ― Está bem ― ela deu um passo para trás e o observou com calma agora que seu coração não estava tão acelerado. Ele tinha esse relógio para marcar o tempo dos cavalos, é claro, mas era fácil imaginá-lo como um cavalheiro, com um relógio de bolso de um cavalheiro, com as roupas de um jovem elegante, e não aquele uniforme de cavalariço.

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Ele poderia facilmente ter sido o grande partido das redondezas, e nesse caso eles teriam se casado, mas não era assim. Ela balançou a cabeça, querendo pensar em outra coisa. Uma coisa era marcar um encontro com o cavalariço, outra totalmente diferente era apaixonar-se por ele. ― Quase me esqueci de perguntar – ela disse ―, mas você trouxe minha luva? Ele ficou olhando para ela, sem entender nada, e ela pensou que ele não tinha trazido a luva e que sua avó exigiria uma boa explicação se Rebecca tivesse o azar de encontrá-la ao voltar para a festa, mas era mais uma de suas táticas para assustá-la. Ele sorriu e retirou a luva, dobrada com cuidado, de outro bolso. ― Acho que não posso voltar à festa segurando minha desculpa ― ela disse. ― Seria estranho ― ela tentou colocar a luva, mas a abertura era muito pequena. Não entrava. ― Deixe-me ajudar. Instintivamente ela recuou, sem querer que ele tocasse a luva com os dedos sujos. Logo olhou para ele, envergonhada. É claro que ele tinha lavado as mãos antes de encontrá-la. Seus dedos não estavam sujos, como era normal no estábulo. Ela ficou horrorizada por ter pensado uma coisa dessas, como se ele sempre estivesse sujo. A expressão sombria de David deixava claro que ele sabia exatamente o que ela estava pensando. Com cuidado, ele pegou a luva e ela o observou colocá-la com cuidado para não abrir muito e rasgá-la. ― Uma vez eu vi uma cobra comer um rato ― ele comentou ― atrás do celeiro da fazenda da sua avó. Cravou os dentes no bicho.

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― Acho que isso vai além da capacidade de uma cobra ― ela disse, e finalmente a luva cedeu. Ambos suspiraram, aliviados. Ele ajustou o topo adornado com joias e tocou as mãos de Rebecca. ― Quando nos veremos de novo? De manhã cedo, quando você nos levar de volta para casa, ela poderia ter dito, maliciosamente, mas ele olhou sério para ela e algo em seu olhar disse que o beijo que eles finalmente compartilharam havia mudado tudo entre eles. Talvez ela não o amasse, mas não podia decepcioná-lo. ― Minha avó viajará a negócios para Frankfort amanhã ― Rebecca disse. ― Vamos encontrar uma oportunidade. ― Combinado ― ele tocou a ponta do nariz de Rebecca, depois seu lábio inferior de novo. ― Cuide-se, e cuidado com os capitães. Ela sorriu e sussurrou: ― Sempre ― e foi embora. Ela voltou para a festa, analisando furtivamente os convidados. Ninguém prestou atenção nela, nem sua avó do outro lado do salão, nem o capitão Vanderslice, que conversava com a sra. Woodson, entediando a pobre senhora. Todos pareciam envolvidos em seus próprios assuntos. O uísque com menta era o amigo de Rebecca esta noite, pois lançava um véu sobre os poderes de observação dos demais. Ninguém a viu entrar nem comentou sobre sua luva, que estava quase explodindo. Ela nem precisaria usar sua mesada para pagar a empregada, como já havia feito diversas vezes no passado quando David a

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encontrava no celeiro. Naquela época eles apenas brincavam, não se beijavam. Ele a ensinou a balançar em uma corda que saía do palheiro e ia até o feno lá embaixo, como se fosse um pirata conquistando o convés. O problema era que ela estava velha demais para brincar, e ainda mais com o cavalariço. O último problema não mudou, ela pensou, olhando para a porta por onde tinha acabado de entrar. Ofuscada de novo pela luz das velas, ela não conseguia ver a silhueta na escuridão, mas viu o cabelo loiro ao longe, do outro lado do jardim. Observando-a e esperando.

SOLTEI UM SUSPIRO LONGO E SATISFEITO. Esta história contava a grande aventura de Rebecca e David, com um final feliz, tudo o que eu queria para meu cavalariço. Era perfeita. A turma se apaixonaria por ela. Eu só queria que eles confirmassem isso com palavras, mas eles continuaram com a cabeça abaixada, focados em seus próprios trabalhos, como se estivéssemos esperando o metrô. Talvez mais adiante no semestre nos sentiríamos confortáveis o suficiente uns com os outros para começar um diálogo de grupo enquanto esperávamos toda a turma se entrosar, mas esta era apenas nossa segunda aula. Mesmo assim, normalmente eu mesma teria iniciado uma conversa. Eu odiava o silêncio. Hoje não era um dia normal. Para não pensar no julgamento iminente do meu grande sonho, peguei minha calculadora na mochila.

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Meu chefe tinha oferecido mais um turno na cafeteria nos sábados. Se eu aceitasse, não poderia ir à matinê da Broadway que queria tanto ver. Se eu não aceitasse o turno e comprasse o ingresso barato da Broadway, teria que usar as economias que juntei no verão para pagar o aluguel do meu quarto no domitório. A bolsa de estudos cobria apenas as taxas de matrícula, e eu consegui montar um plano de pagamento do aluguel com a universidade. Um ingresso da Broadway podia ser uma despesa supérflua, diante de uma ameaça de despejo, mas eu sempre quis estudar composição em Nova Iorque, desde que eu me entendo por gente. Agora eu temia não poder me manter aqui por muito tempo e, se eu não aproveitasse ao máximo minha experiência, seria como se eu nunca tivesse morado aqui. Enquanto eu pensava nos números - minha nossa, eu ganhava muito pouco por hora e as gorjetas eram horríveis, mesmo eu usando decotes cadavez maiores -, tentei não olhar para os alunos que entravam na sala. Evitei principalmente encontrar os olhos dos dois garotos barulhentos que se sentaram bem na minha frente, assim como fizeram no primeiro dia de aula. Eles se conheciam de outro lugar, é claro, e o indiano era do tipo arrogante que poderia não gostar muito de 'Quase uma Dama'. As pessoas já riram de mim antes por escrever romances e eu esperava que ele e seu amigo não pegassem no meu pé. Summer foi a última a entrar, e senti meus ombros relaxarem. Eu nunca fui uma daquelas garotas tímidas que não conseguem dar um passo sem a sombra de sua melhor amiga atravessando seu caminho, mas expor minha história na frente desses estranhos era como tirar a roupa no pátio recreativo de uma prisão. Eu olhei para Summer

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esperando uma pergunta amigável de colega de quarto para me tranquilizar, do tipo Como foi a aula de cálculo? Ela me olhou de cima até embaixo e gritou: ― Onde você conseguiu essa echarpe? ― chamando a atenção dos garotos tempestuosos. Ela me pegou em flagrante! Eu tentei misturar minhas roupas caras de casa com as roupas baratas que eu conseguia pagar aqui, pois estava buscando um declínio gradual e elegante para a pobreza, mas estava cansada quando me vesti naquela manhã depois que Summer saiu às oito horas. Vesti uma camiseta, uma echarpe e minha calça jeans mais confortável, e eram todas roupas de marca. Eu deveria ter sido mais cuidadosa. Summer não tinha nenhuma roupa de marca, mas queria ter. E ela sabia reconhecer quando via uma roupa de marca. Eu olhei para ela, sem expressão. ― Não sei do que você está falando ― eu quis dizer que sabia exatamente do que ela estava falando e que deveríamos discutir esse assunto depois, mas éramos amigas há apenas cinco dias, pouco tempo para que ela pudesse decifrar meus códigos. Ela olhou para mim de cima até embaixo mais uma vez. ― E essa calça ― ela murmurou. ― Como? ― eu perguntei, ainda tentando dizer para ela ficar quieta. Ela jogou a mochila na cadeira, agarrou meu pulso e saiu me arrastando. Nós duas tropeçamos no tapete oriental enquanto ela me empurrava em direção à porta.

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A maioria das aulas era realizada em prédios modernos, como se espera de qualquer universidade, mas os alunos de escrita criativa se reuniam em uma casa. Nossa sala de aula era uma longa sala de conferências com painéis de madeira escura cheios de retratos de alunos mortos que nos encaravam em suas molduras. A mesa entalhada e as cadeiras grandes e confortáveis substituíam as carteiras usuais. A sala majestosa fazia nossa aula e nossa escrita parecerem importantes, até que Summer e eu tropeçamos no tapete que nos fazia rccordar que éramos apenas calouros vestindo shorts e moletons com capuz. Ou, no meu caso, uma echarpe de marca e... ― Jeans de marca! ― pelo menos já tínhamos chegado no corredor e ela me pressionou contra a parede antes de gritar comigo, longe da atenção dos nossos colegas. ― Pensei que você disse que comprava roupas no brechó. ― Eu compro mesmo ― a única coisa que eu havia comprado lá foi uma fantasia para a aula de dança do ventre. Um pouco extravagante, mas muito mais barata do que roupas novas. E eu sempre passeava pelo brechó, o que contava como compras. ― Você não pode ter comprado uma echarpe de duzentos dólares em um brechó ― ela sussurrou. ― E essa calça. É do ano passado. Uma mulher do seu tamanho não morreu e doou sua calça jeans de marca quase nova para uma organização de caridade. Pensei que você não tinha dinheiro. Você me disse que estava trabalhando na cafeteria porque sua bolsa cobre apenas as taxas de matrícula, não contou que tem uma linha de crédito em casa! ― Eu não tenho. Ganhei a echarpe e a calça de presente ― não era mentira. Minha avó comprou todas as minhas roupas durante os seis anos que eu morei com ela.

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Summer apontou para mim. ― Eu sabia que todos aqueles detalhes em sua história eram realistas demais. Você é Rebecca, não é? Só que nos dias atuais? Você é dona de uma fazenda no Kentucky. ― O quê? Não! De onde você tirou isso? ― Na semana passada, quando Jordis trouxe o jornal Times de domingo para o dormitório, você foi direto para a seção sobre cavalos. ― Não existe seção sobre cavalos no New York Times. Ela me cutucou ― Você entendeu o que eu quis dizer. A corrida de cavalos na seção de esportes. Eu me ajeitei e olhei fixamente para Summer, tentando impressioná-la e mostrar que sua teoria era ridícula, mas o fato é que ela estava bem perto da verdade. ― Com certeza eu não sou dona de uma fazenda ― eu disse, arrogante. Minha avó era a dona da fazenda. Mesmo quando ela morresse eu nunca seria a proprietária da fazenda. Ela ia se certificar disso. Summer continuou me encarando, teimosa. Depois olhou para minha camiseta. ― E essa camiseta. Eu devia saber que ninguém fica tão bonito em uma camiseta velha normal, nem você. De que marca é? – ela agarrou meu braço, segurou-o nas minhas costas e encostou o meu rosto na parede, tentando ver a etiqueta. ― Nós nos conhecemos há apenas alguns dias ― ela murmurou ―, mas eu sempre pensei que

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compartilharia tudo com minha colega quarto, e parece que não começamos muito bem. Ela era uma menina pobre tentando parecer rica. Eu era uma garota rica que de repente ficou pobre. Eu era alta e ruiva, totalmente diferente de Summer, que era baixinha e negra, mas nós duas éramos do sul e estávamos lutando para viver em Nova Iorque. Senti uma conexão com ela desde o começo, até ela me arrastar ao corredor e ameaçar arruinar meu disfarce. Eu estava a ponto de enfiar o cotovelo em suas costelas para me livrar dela, pois eu tinha que esconder aquela etiqueta da camiseta de marca a todo custo, quando uma voz ao nosso lado rugiu: ― Boa tarde, senhoritas. Summer e eu nos soltamos. Gabe Murphy era nosso professor de composição, um homem rechonchudo com nariz protuberante e cabelo branco. Ele poderia parecer feliz, como o Papai Noel, só que estava vestido com um moletom, uma bermuda e chinelo de dedo, como a maioriada turma. Para mim ele deve ter sido surfista na Califórnia até o dia em que se olhou no espelho e percebeu que estava dezoito quilos acima do peso e quase na idade de se aposentar, e pensou que seria melhor vir a Nova Iorque para investir na carreira de escritor que ele sempre achou que teria tempo mais tarde. Acho que ele era apenas um professor comum, não sei se poderia ser chamado de professor universitário. Esse era um título especial que a universidade designava para pessoas com formação avançada. Duvido que se aplicasse a Gabe. Eu não sabia se devia chamá-lo de dr. Murphy ou sr. Murphy ou apenas Gabe. Ele não havia se apresentado, e o plano de estudos dizia GABE MURPHY, o que não ajudava muito.

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Nenhum dos alunos se pronunciou sobre o assunto, portanto eu me contentei em chamá-lo de Com licença, ou... ― Oi ― eu disse, evasiva. ― Summer estava ajeitando minha camiseta antes da aula. Quero parecer profissional quando discutirmos sobre a minha história. ― Nós somos escritores ― ele disse. ― Podemos nos dar ao luxo de ser excêntricos ― ele balançou a cabeça mostrando a sala de aula e indicando que deveríamos segui-lo. Quando ele desapareceu dentro da sala, o sorriso de Summer desapareceu. Ela apontou para mim de novo. ― Nossa conversa ainda não acabou. ― Deu para perceber! Atravessamos a sala e nos sentamos. Não podíamos deslizar nas cadeiras porque elas eram enormes e acolchoadas. Puxá-las para fora e arrastá-las de novo causou uma comoção na sala quieta. Até os garotos barulhentos do outro lado da mesa ficaram calados quando Gabe entrou. Agora eles nos observavam com um olhar de reprovação, como se nós fôssemos crianças de cinco anos jogando baralho no banco da igreja durante um funeral. Ignorando o ruído, Gabe disse algumas palavras sobre admirar aqueles que foram corajosos o suficiente para compartilhar sua história primeiro. Até parece que nos voluntariamos para isso. Ele deu uma olhada nas três histórias à sua frente, como se quisesse confirmar que todas estavam lá. Ele tinha dito na primeira reunião da turma que hoje em dia os estudantes de composição estavam paranoicos e não queriam compartilhar suas histórias porque tinham medo de alguém roubar seu trabalho e publicá-lo na internet. Por isso nossas instruções eram de deixar uma cópia reserva das

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histórias na biblioteca para que outros alunos pudessem ler. Depois, trazíamos cópias para todos, a turma fazia anotações durante a discussão e passava cópias para o autor original. Eu estava ansiosa para ler os elogios dos meus colegas. ― Estas histórias possuem uma ordem natural e fluem de um texto ao outro ― Gabe começou a dizer ―, portanto, vamos começar com... Ouvimos uma batida na porta. Deu para ouvir meu suspiro de novo no silêncio da sala. Nao foi um suspiro de satisfação, mas um suspiro de 'quem se atreve a bater na porta em um momento como esse?'. Gabe se levantou da cadeira acolchoada. Não foi instantâneo, por causa do peso da cadeira e de sua própria barriga debaixo da camiseta La Jolla. Ele abriu uma fresta e conversou em voz baixa com o intruso. Summer e eu estávamos mais perto da porta. Não conseguíamos olhar para trás sem ser óbvias, mas podíamos ouvir a maioria do que estava sendo dito. O intruso queria se transferir para a nossa turma. Gabe estava dizendo a ele que tínhamos espaço para mais uma pessoa, mas que uma turma de escrita criativa era como uma família e, antes que o intruso pudesse se unir ao grupo, os outros alunos teriam que aprovar. O intruso disse que tinha certeza de que isso não seria um problema. Eu reconheci sua voz. Na verdade reconheci o tom da sua voz. O garoto indiano era arrogante, mas a arrogância do intruso o faria parecer modesto em comparação. ― Você está bem? ― Summer sussurrou, conseguindo fazer essas palavras baixinhas parecerem berradas. ― Está tão preocupada assim com a discussão do grupo sobre sua história? Você ficou pálida de

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repente. Na verdade você já é naturalmente pálida, mas agora parece que até suas sardas desapareceram. Eu só consegui agradecer. Eu não estava bem. Estava agarrando com tanta força a borda da mesa entalhada que não me surpreenderia se meus dedos se soltassem das minhas mãos. O intruso era o meu cavalariço. E eu não podia deixá-lo ler minha história.

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2 ― TEMOS UM NOVO ALUNO ― Gabe anunciou, fechando a porta, e depois puxou a cadeira na cabeceira da mesa e se sentou. ― Um potencial novo aluno que está no corredor desenhando um cavalo. Enquanto isso, onde estávamos? Não importava onde estávamos. Gabe começou a revisar as regras para a crítica das histórias. Eu devia me importar, mas minha mente estava lá fora no corredor com Hunter Allen, mexendo o cotovelo para bagunçar o desenho. Todos nós tivemos que desenhar um cavalo como demonstração de criatividade no primeiro dia de aula. A ideia de Gabe, eu acho, era que cada pessoa tinha uma perspectiva única e algo novo para agregar a um grupo de escrita criativa. O indiano arrogante definitivamente tinha uma perspectiva única, pois desenhou o traseiro de um cavalo. Summer desenhou a parte de baixo de um cavalo, sem muita precisão. O animal parecia não ter gênero, ou pelo menos nenhuma genitália, como uma boneca Barbie ou um boneco Ken, mas era uma perspectiva que não tinha passado pela minha cabeça e me impressionou. Eu não era uma artista, mas tentei capturar um cavalo em movimento, não em uma corrida preparada pelos humanos, mas correndo apenas por correr, um cavalo sendo um cavalo. Eu adorava olhar pela janela do meu quarto de manhã cedo, com a neblina cobrindo a grama, e

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observar os cavalos correrem um atrás do outro quando ninguém estava apostando, porque é isso que os cavalos faziam. Cruzei os dedos para que Hunter desenhasse um cavalo que a turma não aprovasse. ― E é assim que a nossa turma critica os trabalhos ― Gabe disse. ― Precisamos ter certeza de que entendemos esse processo de antemão. A dinâmica em sala de aula é muito importante, ele olhava ao redor da mesa enquanto dizia isso, observando cada aluno, como um instrutor de composição maduro. É provável que ele tenha ensinado composição na faculdade em meio período durante anos para financiar seu vício em surf. ― Vocês precisam confiar uns nos outros para trabalhar melhor. Quando a dinâmica em sala de aula fica amarga, é quase impossível adoçá-la. Alguma pergunta? Seus olhos se fixaram em mim, como se eu estivesse sonhando acordada. Quem, eu? Na verdade eu fiquei um pouco envergonhada, porque queria que Gabe gostasse de mim. A faculdade permitia que os melhores alunos de escrita criativa do primeiro ano trabalhassem como estagiários em uma das maiores editoras durante um semestre. Essa podia ser minha oportunidade de trabalhar no campo editorial quando eu me formasse, quem sabe até publicar meu próprio romance. Além disso, pagava mais por menos horas do que meu atual emprego na cafeteria, que estava me matando, e eu não teria que trabalhar em pé. Gabe não parecia ser o tipo de pessoa que tinha muita influência em um comitê de estágio de uma editora, mas depois que os responsáveis revisassem meu portfólio, poderiam perguntar a ele se eu era uma pessoa agradável de trabalhar. Talvez um bom relacionamento com outros autores fosse o critério mais importante. No entanto, quem já

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ouviu falar de autores que se dão bem uns com os outros? É só ver o exemplo de Hemingway e Stein, ou Hemingway e Fitzgerald, ou Hemingway e qualquer pessoa. Outra batida na porta e meu cavalariço entrou na sala, sem as roupas de montaria. Seus olhos eram de um azul intenso, igual à cor de sua camisa polo. Ele poderia ser acusado de vaidade por ter escolhido aquela cor de propósito, mas sua aparência desgrenhada deixava claro que ele não se importava com esse tipo de coisa. Só que na verdade ele se importava, sim. Aquele desleixo havia sido planejado com cuidado. Eu esperei seus olhos encontrarem os meus. Claro que ele me viu. Eu tinha cabelo ruivo e longo. Praticamente brilhava no escuro. Ele parou ao lado de Gabe e olhou para cada um de nós, analisando a turma. Só não olhou para mim. ― Diga seu nome ― Gabe disse a Hunter ― e por que você quer fazer parte desse grupo. Seja convincente. Esta é sua grande chance. Hunter balançou a cabeça. ― Meu nome é Hunter Allen ― a maioria dos calouros teria sido cautelosa ao se apresentar, mas Hunter agarrou a oportunidade como se estivesse em uma turnê promovendo seus DVDs de autoajuda. – Eu quero entrar nessa turma porque o outro grupo de escrita criativa para calouros que estou frequentando é no mesmo horário da minha aula de química. Não posso estar em dois lugares ao mesmo tempo, um conceito que parece escapar a esta instituição de ensino superior. Minha grade de horários é uma droga. Alguém deu uma gargalhada porque Hunterfalou um palavrão em sala de aula, e as garotas ficaram boquiabertas. Hunter estava testando Gabe. Ele gostava de testar as pessoas.

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Gabe passou no teste. Nem levantou a sobrancelha, continuou sentado, olhando para Hunter. ― Além do mais ― Hunter prosseguiu ―, meus colegas de quarto, Manohar e Brian ― ele fezum gesto para o indiano e seu amigo ―, me disseram que essa turma não estava cheia e que tinha muitas garotas bonitas. Todos os rapazes começaram a rir e uma das garotas na outra extremidade da mesa exclamou: ―Você pode entrar! Summer olhou para mim. ― Eu odeio esse cara. ― Eu entendo ― murmurei. As garotas sempre o odiavam. Inclusive eu. ― Seu cavalo, senhor ― Gabe disse. Hunter entregou a folha de papel para Gabe e ainda teve a coragem de sorrir e nos cumprimentar quando saiu da sala. Gabe analisou o papel e nos mostrou o desenho. Todos se inclinaram para frente, tentando ver. Eram os equipamentos de um cavalo, rédeas, sela, tudo ordenado como se tivesse sido colocado por um cavalariço. Tinha até uma vassoura para limpar os excrementos. Só faltava o cavalo. Era uma mensagem. Para mim. Ele tinha sido provocado na escola por ser meu cavalariço nos últimos seis anos, mas agora ele não era mais meu subordinado e não queria mais ser chamado de cavalariço. Ele não ia gostar muito da minha história.

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― Todos os que concordam com a inclusão de Hunter Allen na turma ― Gabe disse ― levantem a mão. Todos na sala levantaram a mão, menos eu. Summer olhou para mim e perguntou, em voz alta: ― Por que você não levantou a mão? ― mais tarde eu ia ter uma conversa com Summer sobre sutileza e discrição, faça-me o favor... ― Acho que já temos alunos suficientes. É uma matéria para alunos aplicados e estamos tentando manter um número limitado de pessoas. O ideal é ter doze alunos. ― O ideal é ter treze ― Gabe me corrigiu. ― Deveria ser doze ― eu disse. ―E já organizamos a programação para discutir nossas histórias. Eu podia sentir Summer me encarando. ― Você fumou alguma coisa? Eu levantei a voz por causa das gargalhadas dos garotos do outro lado da mesa. ― Estou me esforçando para tirar boas notas na faculdade e estou preocupada em gastar bem o dinheiro que ganho com muito suor. Summer desistiu de mim e olhou para Gabe. ― Posso ficar com o voto de Erin? ― Não ― disse Gabe. ― Eu posso votar duas vezes? ― Brian perguntou. A turma começou a rir. Manohar olhou para Brian, escandalizado.

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― Porque ele é meu colega de quarto! ― Brian exclamou para Manohar. ― Só porque eu estou feliz não quer dizer que eu gosto de homens, seu pervertido. Hunter abriu a porta e enfiou a cabeça na sala. ― Vou fingir que não ouvi nada disso ― e saiu e fechou a porta de novo. ― De qualquer forma, ela é minoria ― Gabe disse. ― Parece que teremos mais um aluno ― ele olhou para mim e apertou os lábios, perplexo. Depois, sob os aplausos da turma, ele se levantou da cadeira e foi até a porta para deixar Hunter entrar. Violinos chiaram repetidamente, como quando a heroína está prestes a ser apunhalada em um filme de terror, mas eu acho que ninguém ouviu, só eu. Os violinos foram abafados pelos aplausos quando Hunter seguiu Gabe até a mesa. Gabe se sentou na cabeceira e mostrou uma cadeira vazia. Enquanto caminhava em volta da mesa, Hunter parou e deu um tapa na cabeça de Manohar e de Brian. ― Vocês não me falaram sobre o cavalo. Brian

tentou

agarrá-lo,

mas

Hunter

instintivamente

se

desvencilhou, deu uma corridinha e depois voltou ao seu passo normal, jogando-se sobre a cadeira confortável na outra ponta da mesa, como se esse episódio o tivesse cansado. Encostado em um braço da cadeira ele olhou para a garota à sua direita com o cabelo loiro sobre os olhos e disse alto o suficiente para que todos escutassem: ― Estou muito feliz por estar aqui. Os

garotos

deram

gargalhadas,

as

garotas

sorriram,

envergonhadas, e toda a química da turma mudou de calouros

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assustados para um grupo amigável, só porque Hunter se uniu ao grupo. Gabe se ocupou de novo com tarefas administrativas, pois teria que providenciar cópias das histórias para o novo aluno. Kyle, cuja história estávamos lendo hoje, não tinha uma cópia extra para Hunter. Nem a outra garota. Eu tinha, mas de jeito nenhum daria essa informação. Não foi preciso. A garota que estava sentada ao lado de Hunter, Isabella, já tinha lido as histórias na biblioteca, como deveríamos ter feito, e passou suas cópias para ele. ― Já expliquei isso ― Gabe disse ―, mas não custa repetir. Quando sua história for discutida, você não pode participar da discussão. A escrita criativa tende a ser muito pessoal. Ficamos mais defensivos do que percebemos. Se eu permitisse que vocês respondessem a tudo o que seus companheiros dissessem sobre seu trabalho, a discussão logo se transformaria em uma briga. Você poderá responder às críticas, mas apenas ao final. Gabe continuou falando. Disse que primeiro comentaríamos sobre a história de Kyle, depois a da garota. Dez minutos antes eu teria ficado aliviada por não ser a primeira, mas agora a espera significava dois terços da aula sendo torturada até que Hunter lesse minha história. Eu fingi prestar atenção na história de Kyle, mas com o canto do olho eu observava Hunter. Ele folheou as histórias e parou em uma, lendo o título. Ou o nome do autor. Depois a retirou da pilha e a colocou no final.

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TENTEI FAZER COMENTÁRIOS INTELIGENTES sobre as duas primeiras histórias, que eu tinha lido na biblioteca e já tinha feito algumas anotações. Elas não eram exatamente o meu estilo. A história de Kyle era contada por um lobo cujo ecossistema estava desaparecendo, um conto de apocalipse ambiental, mas dava para perceber pela descrição da floresta e pelo sotaque dele na aula que ele nunca saiu das fronteiras do Brooklyn. A história da garota era sobre um velho, sentado em uma cafeteria, que remoía seu arrependimento por tudo o que não tinha feito na vida. Eu teria ido dormir se o homem não tivesse tomado tanta cafeína, mas a crítica construtiva fazia parteda aula e da nota, assim, em nome da comunidade de escritores e do meu estágio fiz o possível para dizer algo útil com uma voz trêmula que mostrava a Hunter meu coração acelerado de tanta ansiedade. Finalmente, todos pegaram 'Quase uma Dama' na pilha de papéis e colocaram minha história no topo. Senti meu estômago doer, como se eu estivesse descendo uma montanha russa. Hunter estava com a cabeça abaixada. Se ele ainda não tinha lido minha história, agora estava lendo. ― Manohar ― Gabe disse ―, você pode começar? Manohar olhou para mim e sorriu. Essa não... ― Em primeiro lugar ― ele disse ―, eu gostaria de consultar uma uma coisa. É isso mesmo que eu li? O capitão 'Vanderslice' (ele fez o sinal de aspas com os dedos) perdeu seu negócio na guerra? Isso não está em O sol também se levanta, de Hemingway?

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― Com licença ― eu disse ―, mas é como dizer que você não pode descrever uma pessoa atravessando a rua porque James Joyce escreveu sobre isso uma vez. Em toda a literatura apenas um personagem pode levar um tiro nas partes íntimas? Todos ao redor da mesa se inclinaram. Eu foquei minha raiva em Manohar, mas pude ver os outros alunos com o canto dos olhos e o clima na sala começou a ficar mais quente. Apenas Hunter parecia confortável em sua cadeira, lendo minha história, mais despreocupado do que nunca. ― Você está usando o termo 'literatura' de forma imprecisa ― Manohar disse, fazendo mais aspas no ar. ― Parece uma história romântica ― ele balançou a cabeça. ― 'Ela o viu do outro lado da sala e sabia que ele era especial, o cavalariço.' ― Você lê muitos romances? ― Summer perguntou para ele. Os garotos começaram a rir. Eu também teria sorrido se não estivesse no leito de morte. Manohar ficou vermelho, mas riu também. ― Eu... ― ele começou. Summer estava séria. ― Porque você está baseando esse julgamento em alguma coisa, não é? Eu me senti mal por ela estar falando no momento errado, desobedecendo Gabe por minha causa. Por outro lado, ela era muito mais adorável do que eu, e era mais difícil alguém ficar com raiva dela. Manohar inclinou a cabeça enquanto ela esbravejava. ― Todo mundo sabe como são os romances... ― ele continuou.

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― Não se eles nunca leram um romance ― ela insistiu. Ele a interrompeu. ― Só estou dizendo que não há espaço para esse tipo de idiotice em uma aula de escrita criativa – a voz dele ecoou ao terminar a frase, porque várias garotas se surpreenderam quando ele disse idiotice. – Eu sei que não sou o único aqui que pensa assim. Ninguém deveria escrever um romance para uma aula de escrita criativa. ― Eu não sabia disso ― eu disse, tentando manter a voz calma e querendo que as lágrimas desaparecessem dos meus olhos. ― Como você não pensou nisso? ― ele insistiu. ― No ensino médio, as pessoas não riam de você por escrever esses romances? E ainda por cima por ter que lê-los? ― Claro que sim ― bati com força na mesa. Todos se assustaram, inclusive eu. Tirei a mão de cima da mesa. ― Meu erro foi pensar que, quando eu estivesse na faculdade, as pessoas não seriam tão imbecis. Deus me livre de seguir uma carreira como escritora de romances. Os romances representam apenas cinquenta e três por cento do mercado editorial e eu odiaria ter um salário estável sabendo que vocês estariam morando no porão da casa dos pais, escrevendo histórias sobre lobos mortos... ― Ei! ― Kyle exclamou. ― ... sendo rejeitados pelo The New Yorker e tentando se matar. Dois garotos perto de Summer começaram a rir. Eu podia ver a cara deles. Um deles disse bem alto e com um sotaque que lembrava mais o Tennessee do que Kentucky: ― Deus me livre!

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― Você está supondo que isso é publicável ― Manohar me disse. Antes ele parecia convencido, com um intelecto superior que arrasaria uma garota do sul, mas agora suas sobrancelhas pretas formavam um V. ― Isto não é publicável. Dá para ler em voz alta e tomar um gole de alguma bebida toda vez que aparece a palavra seios. E não acho que nenhuma história que você escreve para um curso de escrita criativa deve conter a palavra mamilo. ― Me corrija, se eu estiver errada ― eu gritei ―, mas não tem nada no programa desta matéria que diz que não podemos escrever a palavra mamilo. ― Porque já está implícito! ― Manohar exclamou. ― Será que está implícito? ― perguntei. ―Talvez a palavra mamilo incomode você em particular. ― Todos se incomodam com essa palavra ― ele disse, batendo na mesa. ― Qualquer escritor sério sabe disso. Você não vai encontrar mamilo nem uma vez no The New Yorker. ― Ela não escreveu essa história para o The New Yorker – Summer disse. Manohar abriu os braços, atingindo o peito de Brian sem perceber. ― Exatamente! Eu balancei a cabeça. ― Acho que o problema não é a minha história. É você, Manohar. Posso ver que essa história deixou você desconfortável, e imagino por que isso aconteceu. Você só pode ser um virgem muito curioso, ou talvez também queira um cavalariço.

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Manohar ficou boquiaberto. Não disse nada. Nem precisou. Todos os garotos da turma gritaram 'Oooooooooh!' Exceto Brian, que levantou a mão e disse: ― Esse seria eu. E exceto Hunter. Eu tinha quase certeza que Hunter não gritou. Nem me atrevi a olhar para ele. Meu rosto queimava de raiva de Manohar, de vergonha por ele ter me feito perder a calma e atacá-lo com uma brincadeira digna dos estábulos da minha avó e ainda a preocupação com o que Hunter diria. Eu li os lábios de Gabe mais do que o escutei. ― Nós nunca discutimos que tipo de escrita era aceitável nesta matéria. Todos ficaram quietos, como se ele tivesse se levantado e dado um soco na mesa, mas ele falou com uma voz suave, como se estivesse tomando café com um de nós e contando como era surfar no Pacífico. O fato é que todos estavam se perguntando: O que Gabe disse? Será que ele disse alguma coisa sobre o tipo de escrita de Erin? Mas ninguém queria admitir que não estava prestando atenção, afinal, era apenas nossa segunda aula. ― Em relação à história de Erin ― Gabe disse ―, não especificamos nenhum estilo. Espero que vocês se sintam livres para explorar qualquer tipo de história que lhes interessa e a aperfeiçoem de acordo com seus objetivos. Para isso ― ele olhou para Manohar ―, nossas críticas devem ser construtivas ― depois olhou para mim e tentei não parecer intimidada. ―E precisamos responder às críticas possibilitando uma comunicação aberta e sincera.

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O clima estava tenso, todos olhavam para mim. Se isso fosse o ensino médio, eu teria ficado quieta e assustada, mas quer saber de uma coisa? Um ano de idade (não vou dizer de maturidade, considerando que perdi a calma, mas pelo menos de idade) havia me transformado, e o estágio na editora era como uma cenoura pendurada na minha frente que me motivava. Gabe fez anotações durante todo o tempo que Manohar e eu discutimos. Eu devia ter sido mais cuidadosa com o que dizia na frente dele. Escrevi uma história sobre Hunter e não sabia se ele ia me desmascarar, portanto, forcei um sorriso e disse: ― Gabe, sinto muito. Reconheço que foi uma atitude inapropriada e prometo que vou melhorar. É difícil ser a primeira! Ele balançou a cabeça e Summer e outras garotas riram, nervosas. Manohar desprezava minha história. Eu escrevi estágio em letra de forma no meu caderno, como um lembrete. ― Brian? ― Gabe disse. ― O que você achou da história de Erin? ― Eu gostei ― Brian disse. ― Esse era um cavalariço e tanto. Eu engoli em seco, sem olhar para Hunter, e desenhei umas flores ao redor de ESTÁGIO. A garota perto de Brian disse que a primeira frase da minha história era a mais engraçada que ela já tinha lido. Ao lado dela estava Kyle, o garoto que tinha escrito sobre o lobo. Ele disse que minha primeira frase acabou com a história inteira. Os dois próximos fizeram comentários parecidos e contraditórios, ou seja, inúteis, e depois foi a vez de Hunter, mas Gabe pulou Hunter, dando mais tempo para ele ler as histórias, e pediu o comentário de Isabelle.

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As outras garotas disseram que gostaram da minha história. Os outros garotos disseram que não gostaram. Eu nem me importava mais. Minha estreia como autora em Nova Iorque já tinha sido arruinada mesmo. Agora minha única preocupação era se eles perceberiam que o cavalariço sobre quem eu escrevi era na verdade o cavalariço que estava sentado nesta mesma mesa. Uma estranha semelhança, eles diriam! Uma descrição incrivelmente precisa! Obviamente escrita por alguém que estava apaixonada por Hunter Allen! Mas aos poucos percebi que ninguém descobriria que essa história era sobre ele. Ninguém suspeitaria que eu colocaria um personagem na minha história que, uma aula depois, aleatoriamente se juntaria ao grupo. Eles nem saberiam que nós nos conhecíamos. A menos que ele contasse. Chegou avez de Summer e ela começou a me defender com tanto entusiasmo que estava claro que ela falava como minha colega de quarto, não como uma escritora. ― Ah, e mais uma coisa ― ela olhou para Manohar ―, mamilo! A turma começou a rir. Eu sorri para Summer, que fez o mesmo. Naquele momento eu gostei muito mais dela e quase a perdoei por ter feito aquela algazarra por causa das minhas roupas. ― Hunter, o que você achou? ― Gabe perguntou. Todos na sala olharam para Hunter, na expectativa. Eu olhei para baixo. ― Eu não deveria comentar ― Hunter disse, sorrindo e mostrando uma covinha.

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Eu na verdade nem vi isso porque estava olhando para o papel, justo na parte em que David tocava o mamilo de Rebecca. Nem precisei ver o sorriso charmoso de Hunter para saber que ele estava lá. ― Eu não tive a chance de ler a história com a devida atenção ainda ― ele continuou. ― Você comentou sobre as duas primeiras histórias ― Brian lembrou. ― Elas eram mais curtas ― Hunter disse. ― Esta era uma história longa ― Isabelle concordou. ― Eu quase tive um ataque cardíaco quando a vi na biblioteca, tem treze páginas. Para mim já é difícil escrever cinco. Em meio ao murmúrio geral de aprovação pela extensão impressionante de 'Quase uma Dama', Manohar me disse: ― Parabéns!Você escreveu uma história muito longa. Eu mostrei o dedo médio para ele. Gabe segurou minha mão, abaixou-a com cuidado e colocou-a sobre a mesa sem olhar para mim, depois limpou a garganta. A turma ficou em silêncio e ele perguntou de novo: ― Hunter? Hunter, que estava conversando com Isabelle, olhou para Gabe, depois deliberadamente virou os ombros para mim e olhou dentro dos meus olhos. E sorriu. Eu conhecia Hunter há muito tempo. Esse não era seu sorriso charmoso e malicioso. Era um sorriso falso. Ele nunca demonstraria intencionalmente, mas eu sentia que ele estava furioso comigo.

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― Erin ― ele disse ―, eu sou de Long Island, mas passei algum tempo em Churchill Downs, em Louisville, e já frequentei festas com pessoas que convivem com cavalos. Você capturou a experiência com perfeição. ― A história dela se passa no século 19 ― Isabelle disse. Hunter balançou a cabeça, ainda olhando para rnim. ― As festas não mudaram muito. ― Muito bem, Erin ― Gabe murmurou. ― Finalmente chegou a sua vez de falar. Eu abri a boca. Tinha tanto a dizer em defesa da minha história trinta segundos antes, mas não conseguia pensar em nenhuma palavra, sabendo que Hunter me observava com aqueles olhos azuis e aquele sorriso tenso. Que eu saiba, ele nunca tinha ido a uma festa de corrida de cavalos. O mais perto que ele chegou disso foi a noite da corrida de cavalos em maio, quando ele assobiou para mim no jardim e me entregou meu mp3 player e o fone de ouvido que eu tinha deixado em uma prateleira no estábulo. Agora ele queria me lembrar que minha fazenda de cavalos era dele. Meus cavalos, minha casa, minhas festas. Durante o verão ele mesmo deve ter dado algumas festas. E olhei para baixo e desenhei fogos de artifício explodindo na palavra estágio. ― Eu disse tudo o que queria dizer quando falei no momento inoportuno. ―Tem certeza? ― Gabe me perguntou. ― Dou-lhe uma, dou-lhe duas...

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Eu mordi o lábio e balancei a cabeça. ― É um grande desafro ser os primeiros ― Gabe disse para todos ― e eu acho que esses autores merecem um aplauso. As pessoas aplaudiram e alguém gritou: ― Mamilo! ― Escrevam com afinco ― Gabe disse. ― Nos vemos na quintafeira. ― As pernas das cadeiras ecoaram ao serem arrastadas pelo chão de madeira. Todos começaram a conversar sobre tudo o que tinham reprimido no caminho até a sala, antes da chegada de Hunter, que deixou todos mais relaxados. Em meio a esse alvoroço, Gabe suspirou profundamente, pegou um lenço no bolso e passou na testa. ― Aí ― eu quase disse 'Gabe', mas me interrompi, pois ainda não sabia se devia chamá-lo assim ―, isso é por minha causa? Desculpa por ter feito você suar. Ele riu. ― A primeira sessão de críticas sempre é a mais difícil e alguns semestres são mais difíceis do que outros. Eu vou sobreviver, não se preocupe ― ele ainda estava sorrindo quando me entregou sua cópia de 'Quase uma Dama', depois se levantou e foi embora, mas eu fiquei me perguntando: será que ele quis dizer que eu deveria me preocupar comigo mesma, com minha forma de escrever, com minhas notas, com minha carreira? Enquanto as pessoas passavam por mim para sair da sala, jogavam as cópias da minha história na minha frente. Normalmente eu teria folheado os papéis imediatamente para ler os comentários, mesmo se tivesse que chegar atrasada no trabalho, mas eu precisava

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falar com Hunter, que estava paquerando Isabelle. Eu me esforcei para ouvir o que eles balbuciavam. ― Essa matéria de cálculo está acabando comigo ― ele disse para ela. ― É tudo rápido demais para você? ― ela o provocou. ― Não, parece vagamente com o ensino médio. Não sei de onde é o professor, mas... ― Ele tem um sotaque inglês interessante? ― Ele estava falando inglês? Sinceramente não sei. Isabelle riu. ― Pode reclamar. Ele não deveria dar aulas se seus alunos não conseguem entender o que ele diz. ― Eu não quero ser responsável por dedurar o cara. Claro, a simpatia. Hunter era bom emfazer as pessoas acreditarem que ele se importava, até apunhalá-las pelas costas. ― Consiga um daqueles programas de computador que ensinam línguas estrangeiras ― Isabelle sugeriu. ― Essa seria uma boa ideia se eu soubesse que língua ele fala. Hunter era engraçado. Eu deveria estar tendo essa conversa divertida com ele em vez dessa vadia, quem ela pensa que é? Eu me levantei e enfiei as cópias de 'Quase uma Dama' na mochila, junto com o livro de cálculo de treze quilos e o livro de literatura americana de vinte e dois quilos (não era minha matéria preferida, muito sermão puritano sobre virtudes, eca!) e meu laptop.

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Manohar também estava parado perto da cadeira, me observando e ainda sorrindo para mim. Eu deixei minha mochila na cadeira e me inclinei sobre a mesa com tanta rapidez que ele recuou. Tentei não rir por tê-o assustado. Estendi a mão. ― Sem ressentimento ― eu disse. ― Eu não concordo com suas críticas, mas as aceito. Acho que ele apertou minha mão só porque estava surpreso. ― Sem problema ― ele disse. Depois pareceu se recuperar e apertou minha mão com tanta força que me machucou. ― Desculpa se eu passei dos limites. Eu retirei a mão. ― Não precisa se desculpar. Eu guardo rancor. Se você escrever sobre uma aventura/ação ridícula e ultraviolenta em sua primeira história, vou acabar com você. Eu pensei que Summer estava conversando com o garoto que estava ao seu lado, mas quando eu disse isso ela deu uma gargalhada, depois se desculpou baixinho e voltou à conversa. ― Que vença o melhor, Kentucky ― Manohar me disse, sorrindo, como se não visse a hora de o jogo começar (e era o único), depois colocou uma alça da mochila sobre o ombro e foi embora. Isabelle flnalmente saiu de perto de Hunter. Eu peguei minha mochila e caminhei até ele. Hunter se sentou na cadeira, escrevendo na cópia da minha história. Quando eu me aproximei, ele levantou o olhar e me entregou as folhas. ― Oi, srta. Blackwell ― ele disse, sério.

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Eu peguei a história e percebi pera primeira vez que sua barba por fazer estava brilhando, dourada, em seu queixo. ― Oi, Hunter ― eu resmunguei. E ele deu aquele sorriso carismático que eu conhecia no colégio. ― Obrigada por não contar que eu sou de Louisville. Eu disse aos meus colegas de quarto que sou de Long Island. ― Por quê? ― eu perguntei. Isso é estranho, já que você roubou minha fazenda em Louisville, eu quis acrescentar, mas apenas desenhei o E de ESTÁGIO com a ponta do dedo na minha calça jeans e fiquei quieta. ― Porque as pessoas aqui pensam que o sul é ridículo ― ele disse. ― Além do mais, eu sou mesmo de Long Island. Eu franzi as sobrancelhas e dei uma olhada na sala para ver se todos já tinham ido embora. Apenas summer me esperava do lado de fora, encostada na parede e conversando com Brian. Eu olhei para Hunter de novo e disse, com calma: ―Você se mudou de Long Island para o Kentucky antes da sétima série. ― Mas nunca senti que era de lá. Até agora. Havia tanta ironia nas palavras não ditas entre nós. De alguma forma eu tinha que superar isso e me conectar com ele. ― Eu ouvi você reclamar do seu professor de cálculo ― eu disse ― Já que você está reorganizando seus horários, talvez pudesse se transferir para a minha turma. Agora eu tenho que trabalhar, senão daria mais detalhes... Essa era uma desculpa esfarrapada. Eu precisaria de menos de trinta segundos para dar o nome do meu professor e o horário da aula.

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― ... mas tenho um intervalo às nove. se você quiser passar por lá, podemos conversar. Eu trabalho na cafeteria da esquina... Ele balançou a cabeça. ― Eu sei onde é. Já vi você lá. Nos vemos às nove. Ele já tinha me visto lá? Eu não o via desde a noite da formatura. Eu queria tanto bater nele. Ou beijá-lo. Mas não deixávamos transparecer nada da emoção que havia entre nós, camada sobre camada, as de cima esmagando as de baixo com uma enorme pressão. Eu simplesmente saí da sala, levando 'Quase uma Dama' comigo, mas eu teria que desvendar essas camadas quando estivesse sozinha com ele. Eu tinha que fazê-lo calar a boca antes de contar qualquer coisa sobre mim e o cavalariço para Gabe. Eu não podia deixar Hunter Allen arruinar a minha vida. De novo.

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3 ― NÃO POSSO ACREDITAR NISSO! ― Summer exclamou. ― Sério? ― Eu olhei para ela, desconfiada, e passei pelo corredor de lado de fora da sala, esperando que ela me seguisse pela escada. Brian já tinha ido embora, mas Hunter, sentado na cabeceira da mesa, ainda podia nos ouvir. ― Sério mesmo! ― ela me seguiu pela escada. ― Você parece um cachorro raivoso. Eu já vi você em ação. Nunca vou esquecer como você gritou com aquele taxista. ― Você tem que gritar com os taxistas, senão eles se aproveitam de você ― na verdade, eu nunca tinha conversado com um taxista antes, porque nunca tinha dinheiro para pegar táxi, mas logo depois de conhecer Summer, há quatro dias, concordei em dividir um táxi até MoMA com ela e acabei discutindo com o taxista por causa do valor da tarifa. Eu queria meu dinheiro de volta. ― Mas nós começamos a criticar sua história e você desaba? ― Summer perguntou. Terminamos de descer a escada e ela abriu a porta que dava para a rua. O crepúsculo me surpreendeu, como sempre. No Kentucky ainda teríamos mais uma hora de luz do sol, que devagar

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começaria a se esconder nas colinas verdes, adentrando as árvores no horizonte. Aqui cinco edifícios formavam um canal artificial, bloqueando o sol, e a noite chegava mais cedo. Summer pareceu não perceber, estava concentrada em mim. ― Eu tive que defender você. Gabe deu a oportunidade de você se defender, mas você não disse nada. Se eu não te conhecesse, diria que aquele idiota do Manohar fez você chorar! Você parecia ter lágrimas nos olhos. ― Pode ser ― eu olhei de novo para a entrada do prédio para me certificar de que Hunter não tinha nos seguido. Depois caminhamos pela calçada em direção à cafeteria. Os cinco minutos que perdi conversando com Hunter me atrasaram ainda mais. Não havia espaço na minha programação. ― Não quero que você se desmotive por causa de alguém como ele ― ela insistiu. Eu caminhava rápido e ela teve que se apressar para me alcançar. As pessoas corriam do trabalho para casa e saíam do nosso caminho, observando a comoção com o canto dos olhos. ― Você vai terminar a história, não é? ― Não. ― Por que não? ― ela insistiu. ― Eu adorei sua história! Todas as garotas da turma gostaram, mas você nem prestou atenção nos comentários delas. Depois que Manohar foi tão duro, você se desligou completamente. Só ouviu os comentários negativos. Eu estava te observando. Suas orelhas levantaram quando o garoto-lobo Kyle disse que odiou a primeira frase, mas muitos gostaram da história. Por que você não termina a história e tenta publicá-la? Esquece Manohar.

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― O mercado de romances históricos está mais restrito do que antes. Ela encolheu os ombros. ― Tenho certezade que eles ainda publicam autores novos. ― Claro, se os autores dançarem conforme a música. Para um novo escritor que está tentando entrar no mercado, isso é muito importante. 'Quase uma Dama'não segue as regras. ― E qual é o problema? ― ela parecia genuinamente curiosa, mas quando fez essa pergunta levantou a cabeça para ver o topo dos prédios. Estava na cara que ela era sulista, e eu esperava que ela parasse de se maravilhar assim para que as pessoas não me achassem uma caipira também. ― Uma heroína histórica tem que ser inocente e virtuosa – eu disse. ― Não pode ser como Rebecca. E meu herói, David, não tem nada a ver com nada. Um herói histórico não pode ter a mesma idade da heroína. Tem que ser muito mais velho. Tem que ser respeitado na comunidade, ou seria respeitado, se não tivesse sido injustamente acusado de assassinato. ― O quê? ― Summer agora estava prestando atenção. ― É assim que são essas histórias ― eu disse ―, mas o herói histórico será absolvido das acusações ao longo da narrativa.Talvez a heroína o ajude, colocando sua vida em risco! E o herói histórico tem rios de dinheiro. Pode ser que ele tenha herdado algum título também, porque as histórias se passam geralmente na Inglaterra, no século 19. Uma história que se passa nos Estados Unidos está pedindo para ser rejeitada. Da mesma forma que ter um cavalariço como herói.

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― Então por que você escreveu a história assim? Eu achei que você quisesse publicar um romance. ― Eu escrevi a história que estava na minha cabeça ― respirei fundo e confessei. ― Hunter é o cavalariço. ― Espera um pouco. Eu vi um rato ― ela entrou em um beco, indo em direção a uma lata de lixo. ― Meu primeiro rato em Nova Iorque ― ela gritou. ― Ele é tão fofo! ― Cuidado ― eu gritei. ― Eles saltam. O adorável animal deve ter saltado nela, porque ela voltou gritando. Depois se aproximou e sacudiu meus ombros. ― Por que você não me avisou? ― Porque você estava perseguindo um rato e dizendo que ele era fofo.

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Ela me soltou, mas continuou me olhando com cara feia. ― Hunter é o cavalariço? Eu achei que David era o cavalariço. Ao mencionar Hunter, a cidade de Nova Iorque ficou mais clara para mim: a rua azul tatuada com linhas amarelas. Um prédio de tijolos marrons de um lado da rua e outro de mármore cinza do outro lado. Pequenas árvores plantadas na calçada, folhas já ficando vermelhas nessa metade de setembro. A janela de uma loja refletia meu cabelo, um borrão laranja no meio da cidade. Eu achava que meu verão aqui tinha sido uma experiência única, mas pensar em Hunter intensificava tudo ainda mais, porque ele quase estragou tudo para mim. E ainda podia estragar agora. ― Vamos ― disse para Summer. ― Está ficando tarde. ― Quando ela veio correndo atrás de mim de novo, dando três passos enquanto


eu dava dois, eu expliquei: ― David é o cavalariço na minha história, mas ele foi baseado em Hunter, da nossa turma. Aquele Hunter de olhos azuis e de uma beleza estonteante, o Hunter do cavalo invisível. ― Ah, Hunter! ― ela colocou as duas mãos na boca depois suspirou ― Como isso aconteceu? Você o conheceu no dormitório e baseou esse personagem nele, pensando que ele nunca leria a história porque não fazia essa matéria? Que situação! ― Não exatamente ― eu murmurei. ― Quero dizer, sim, é complicado, mas eu o conhecia antes. Ela olhou para mim. ― Do seu verão aqui? Chegamos ao parque, onde dois cavalos de policiais, um marrom e um cinza, estavam amarrados. Enquanto esperavam, relinchavam um para o outro para se assegurar de que não estavam sozinhos nesta cidade estranha. Senti uma vontade súbita de tocar um cavalo, passar meus dedos por seu pelo, mas eu seria presa. Tirei os olhos dos cavalos e engoli em seco. ― Não, de casa. ― Do Kentucky? ― ela gritou. ― Mas quando ele se apresentou na aula, disse que era daqui. De Long Island! Eu balancei a cabeça. ― O pai dele trabalhava com cavalos em Belmont, por isso minha avó o contratou. Ele e Hunter se mudaram para nossa fazenda quando Hunter estava no ensino fundamental.

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― Quer dizer que eles se mudaram para a sua cidade e trabalhavam na sua fazenda? Você está dizendo que ele se mudou mesmo para a sua fazenda? Meu Deus. ― Bem, nós temos umas casas pequenas para os cavalariços, e eram só eles dois. A maioria das famílias não gostava de morar na fazenda, mas eles quiseram. ― Vocês têm casas pequenas para os cavalariços ― ela repetiu, sem acreditar. ― Hunter e eu éramos amigos no começo, mas depois nossos pais tiveram uma briga ― eu não quis me estender muito sobre aquela noite horrível. ― Ele e eu nos evitamos pelo resto do verão e, quando as aulas voltaram no outono, alguém descobriu que o pai dele trabalhava para a minha avó e que Hunter também ajudava na fazenda às vezes, e todo mundo começou a chamá-lo de... adivinha... ― Cavalariço ― Summer disse, agarrando meu braço. ― Eu estava certa! Você é Rebecca! Você é rica! ― Era rica ― eu murmurei. ― Mas Hunter também é rico ― Summer insistiu. ― Ele estava com um Rolex no braço. ― Eu percebi. Foi um gesto de bondade da minha avó. O que aconteceu foi o seguinte... Ela olhava para mim enquanto caminhava. De repente percebi um movimento atrás de seus ombros. No mesmo instante coloquei meu braço na frente dela para impedir que ela saísse da calçada e entrasse na frente de um táxi.

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― Ei ― ela reclamou. Depois viu o táxi e arregalou os olhos. ― Nossa... Eu coloquei a mão no coração e respirei fundo para acalmar a adrenalina. ― Preste mais atenção até se acostumar a andar pela cidade ― eu a repreendi. ― Acidentes acontecem. ― Todos na minha escola comentavam sobre uma garota que era editora de um jornal há muito tempo ― Summer exclamou. ― Ela foi para Nova Iorque com uma bolsa de estudos e ao atravessar a rua morreu atropelada por um táxi no primeiro dia. Eu quase fui essa garota! ― Na minha escola comentávamos sobre a mesma história ― lhe assegurei. ― É um mito urbano para assustar os jovens e mantê-los em casa. E só olhar para os dois lados antes de atravessar, entendeu? Ela observou os carros passarem zunindo na nossa frente até que o semáforo ficou verde e finalmente pisamos na faixa de pedestre. ― O que aconteceu foi o seguinte... ― ela disse. Eu olhei para a rua de novo, paranoica com os táxis em alta velocidade. Estávamos atravessando a Quinta Avenida. As casas de cinco andares tinham sido transformadas em elegantes hotéis de vinte andares, com pedras talhadas em todos os cantos dos prédios. Dez quadras depois, o Empire State Building brilhava, branco, em contraste com o céu rosa, enorme perto dos prédios menores na frente dele. Eu passei para o lado oposto da calçada. ― Quando minha avó tinha a nossa idade, conseguiu um diploma em Administração em Nova Iorque para poder dirigir a fazenda de

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cavalos da família. Ela queria que eu fizesse o mesmo e me encarregasse dos negócios um dia. ― Eu achei que você estava estudando Letras ― Summer protestou. ― Eu estou. Alguns dias antes da formatura do ensino médio, eu admiti para ela que queria fazer faculdade aqui, mas não de Administração. Eu queria me formar em Letras para poder escrever romances. ― E ela enlouqueceu? ― Summer perguntou. ― Minha avó não enlouquece ― senti meu corpo estremecer ao pensar nela. ― Ela esperou a noite da formatura, quando eu cheguei em casa para me trocar entre a cerimônia e as festas, e me chamou em seu escritório. Hunter já estava lá. Ela disse que não precisava mais de mim. Como o sangue claramente não era tão importante para ela, ela daria a Hunter o dinheiro da minha faculdade, ele se formaria em Administração aqui e depois se encarregaria da fazenda. E, quando ela morrer, ele herdará a fazenda por sua lealdade. ― Como é que é? ― Summer gritou, mas teve que ficar atrás de mim, porque chegamos a uma parte da calçada com um andaime suspenso para que os pedreiros no prédio não deixassem cair blocos de cimento nos pedestres. Eu continuei falando quando entrei na passagem cheia de pessoas que formavam duas filas na calçada. ― O pior é que eu já devia ter percebido que isso ia acontecer. Nossos colegas diziam que iam para a Universidade de Louisville ou para a Universidade do Kentucky. Hunter sempre balançava a cabeça e dizia 'Eu vou embora daqui'.

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A passagem ficou mais estreita, deixando espaço para apenas uma fila. Uma enorme poça formada pela chuva da noite anterior bloqueava a metade da calçada. Pontas de cigarro e a embalagem de um biscoito da sorte flutuavam como aves tímidas em um oceano frio. ― Mas ainda não entendi por que ele aceitaria a oferta da minha avó para administrar a fazenda ― disse, tentando passar pela multidão e evitar a poça. ― Sim, ele estudará de graça e sairá do Kentucky por alguns anos, mas depois terá que voltar. Pelo resto da vida. Sabendo o que ele acha do Kentucky, fiquei surpresa por ele ter aceitado esse plano. Mesmo por dinheiro. Mesmo por ela. Summer não me interrompia há algum tempo, o que era estranho. Tentando me manter de pé enquanto as pessoas empurravam, olhei para trás e vi que ela ficou presa do outro lado da poça, educadamente esperando uma brecha no meio dos pedestres que passavam. ― Vá em frente ― a mulher com roupa indiana atrás de Summer a repreendeu, com um sotaque cantado ―, senão vamos ficar aqui o dia todo. Eu dei uns passos para trás até onde estava Summer e agarrei seu braço. Puxei-a com força contra a corrente, ignorando os olhares maldosos dos outros pedestres. Minha mochila atingiu um homem no ombro e ele me disse para ter mais cuidado. Segurei a mão de Summer e a arrastei, saindo de baixo do andaime. E da confusão. Ela suspirou, aliviada. Eu contive meu suspiro. ― Quanto tempo você levou para se transformar de uma garota sulista normal e simpática em uma nova iorquina dura? ― ela perguntou.

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― Algumas horas, mas eu estava morando em um apartamento minúsculo de dois quartos em Hell's Kitchen com cinco colegas de quarto. Eu olhei para meu relógio barato, pois tinha deixado meu Rolex na caixa de joias na casa da minha avó. Eu estava atrasada para o trabalho. Apressei o passo e Summer praticamente começou a correr ao meu lado. ― Durante o verão, eu trabalhei em dois lugares e juntei algum dinheiro. Estava ocupada demais para pensar no que minha avó e Hunter fizeram, mas na semana passada comecei a ficar obcecada com Hunter. Eu sabia que ele estava aqui. Já suspeitava que ele estivesse no nosso programa e morava no nosso dormitório .Talvez eu até tenha alimentado uma fantasia de que poderíamos ficar juntos, o que de alguma forma resolveria todos os nossos problemas, em vez de piorálos. Escrevi a história para satisfazer essa fantasia. Eu não tinha ideia de que ele ia aparecer na nossa aula. Apesar de conseguir ver a cafeteria agora, eu parei na calçada e olhei para Summer, irritada, lembrando o que ela tinha feito. ― Eu tentei mantê-lo fora do grupo, senhorita. Será que eu posso ter o voto de Erin? Temos que desenvolver uma melhor linguagem de sinais se quisermos ser amigas. Quando eu solto um gemido como se estivesse morrendo, quero dizer 'Não deixe o bonitão entrar no grupo de escrita criativa. Minha história é sobre ele'. Summer recuou. ― Desculpa. E você se arrependeu. Pode se desculpar com ele.

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― Eu não me importo com ele ― eu menti. ― O que me importa é conseguir o estágio na editora. ― Ai, não! ― ela colocou a mão na boca, pois sabia o quanto eu precisava daquele estágio. ― Eu não quero que Hunter conte a Gabe que ele é o cavalariço ― eu expliquei ―, porque Gabe vai pensar que eu não estou levando a aula de escrita criativa a sério. Hunter só precisa abrir a boca para estragar qualquer oportunidade que eu tenho de conseguir esse trabalho! ― Não grite na rua ― ela sussurrou, se aproximando. – Dizem que isso atrai ladrões. Foi quando eu percebi que minha voz tinha se transformado em um grito histérico que ecoava nas vitrines das lojas. As pessoas sequer olhavam para mim enquanto caminhavam apressados. Eu olhei ao nosso redor para me certificar de que Hunter não estava entre eles. E ele não estava. ― Eu vou encontrá-lo na cafeteria às nove ― contei a Summer ― para tentar persuadi-lo a não contar nada a Gabe, mas eu não sou como você. As pessoas olham para você e querem te ajudar, mas olham para mim e querem ganhar qualquer jogo que estão jogando comigo. Eu queria estar errada sobre isso, mas Summer não negou. ― Porque você é teimosa, por isso pede para se meter em enrascadas. Pelo menos é um bom sinal Hunter ter concordado em encontrar você. Isso quer dizer que ele não está com tanta raiva. ― Não é verdade. Hunter pode estar furioso com você e ainda ser educado. Assim como minha avó.

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Eu estava atrasada. Acenei para Summer e gritei 'Obrigada por me escutar!' enquanto atravessava a rua e entrava na cafeteria. Soltei minha mochila, coloquei o avental e gritei: ― Já sei, estou atrasada! Sinto muito! Ao mesmo tempo meu chefe gritava: ―Você está atrasada, Blackwell! Falaremos sobre isso depois! Amarrei o avental na cintura e fui até o balcão. Trabalhos de salário mínimo eram comuns em Nova lorque. Eu já tinha tido sete deles, mas ter que procurar outro me custaria tempo e dinheiro. Dinheiro que eu não podia perder, principalmente se Hunter decidisse arruinar a minha vida. De novo. 61

EU FERVI LEITE E SERVI CAFÉ por horas até que o movimento da cafeteria diminuiu e eu pude dar uma olhada nas cópias de 'Quase uma Dama' no fundo da mochila. Eu não podia fazer dever de casa no trabalho e meu chefe provavelmente faria comentários sobre minha história nessa categoria, e não na categoria à qual essa atividade pertencia: a categoria Um dia quando eu for uma autora reconhecida você pode pegar seu leite de soja e se entupir com ele. Mas desta vez eu não me importava com o que ele pensava. Ele estava no fundo da cafeteria, e isso era importante.


Primeiro eu li a cópia de Gabe, porque seus comentários eram mais importantes. Fechei os olhos por um momento e imaginei o que eu queria que ele dissesse sobre minha narrativa. Eu tinha usado essa técnica durante o verão. Se eu me imaginasse fazendo sucesso, teria mais probabilidade de ter sucesso. Todas as vezes que fiz isso no verão, abri os olhos ainda pobre, não publicada, morando com cinco colegas de quarto desorganizadas e prestes a ser despedida do trabalho de passear com cachorros. Mas a esperança é a última que morre e, antes de ler os comentários de Gabe, eu o imaginei maravilhado como minha história e sugerindo que eu me inscrevesse para o estágio na editora. É mesmo? Eu diria. Eu não tinha pensado nisso! Abri os olhos e dei uma olhada nas páginas. Nenhuma marca de caneta vermelha manchava as folhas. Todas as páginas estavam limpas. Ele reservou seus comentários para a parte em branco na última página, onde escreveu a lápis:

Erin, Já li muitas histórias de calouros de turmas de escrita criativa. Comparado com o talento dos alunos anteriores, seus diálogos e o ritmo da história são extraordinários. Você tem um dom e está trabalhando duro para aperfeiçoá-lo. Estou ansioso para ler o que você produzirá ao longo do semestre e para ver até onde você consegue ir. Quanto a Rebecca, não consegui me conectar com ela e gostar dela, porque você nunca disse o que ela quer da vida. Não é apenas o cavalariço.

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Minhas bochechas arderam como se Gabe tivesse me dado um tapa. No fundo eu sabia que ele me elogiou no primeiro parágrafo, mas registrei apenas o insulto no segundo. Claro que tudo o que Rebecca queria era o cavalariço. Essa era a questão. O que Gabe queria que ela quisesse? Será que eu deveria descrevê-la como uma garota sozinha no mundo, lutando para se sustentar em uma grande cidade? Seria ridículo. Senti que estava sendo observada e tirei os olhos do papel. Eu pensava que a cafeteria era legal e adorável, com suas cadeiras que não combinavam, paredes de tijolos expostos e arte dos alunos da minha faculdade, exatamente o tipo de lugar onde eu sempre quis trabalhar, só que meu chefe tinha gritado tanto comigo nas últimas duas semanas que estragou tudo. A cafeteria estava vazia. Meu colega de turno tinha desaparecido nos fundos, junto com meu chefe, e nenhum transeunte queria cafeína a essa hora da noite. Abaixei a cabeça de novo. Como meu peito já estava apertado, eu podia ler logo os comentários de Hunter também. Olhei na pilha de 'Quase uma Dama' até encontrar a cópia que ele pegou emprestado de Isabelle e na qual ele assinou seu nome como se fosse sua cópia, não dela, nem minha. Ao folhear as páginas, vi um texto enorme escrito com caneta azul em uma página perto do fim da história, uns garranchos quase ilegíveis, como se ele já estivesse no mercado há quarenta e cinco anos e, se outras pessoas não conseguissem ler o que ele escreveu, era problema delas. Continuei folheando, mas não encontrei mais nada, nem no verso das páginas. Voltei para a página das ofensas. Ele tinha circulado 'Uma vez eu vi uma cobra comer um rato' e rabiscado na margem:

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David não diria isso. É deselegante. Ele não expressaria uma metáfora sexual correndo o risco de causar repulsa na dama. Na verdade, ele não arriscaria seu emprego, nem o emprego do pai por essa garota que você menciona. Ele tem outras garotas.

― Em que você está pensando? Eu levantei a cabeça ao ouvir a voz de Hunter. Ele estava parado na frente do balcão, com o cabelo loiro sobre os olhos, me observando. Eu imaginava há quanto tempo ele estava ali e se meus lábios tinham balbuciado 'ai' enquanto eu lia. Enfiei a pilha de papéis atrás do balcão. Ele pode ter visto o que eu estava lendo e reconhecido sua letra. ― Eu estava pensando que não vou aproveitar tanto a aula de escrita criativa quanto imaginava ― admiti. ― Você precisa relaxar ― ele disse, com aquela voz suave que as garotas adoravam. ―Você investiu nessa matéria e teve suas primeiras críticas. Que conselho legal, e bastante inofensivo. Óbvio que ele estava se exibindo, assim como quando disse que David não usaria metáforas sexuais ao colocar a luva em Rebecca. Eu podia ter perguntado a Hunter que variedade de cafeína ele queria, mas não perguntei. Levei-o até uma mesa perto da janela, de frente para a rua iluminada com neon, preparei um latte, que é aquela bebida espumosa na qual um barista talentoso faz um desenho, como uma flor ou uma palmeira. Observe que eu disse barista talentoso, não uma garota que trabalha em uma cafeteria há duas semanas. A única

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coisa que eu sabia fazer era um coração, mas a parte de baixo saiu muito arredondada e, quando eu olhei de cabeça para baixo, parecia um bumbum. Preparei uma xícara de café para mim, peguei o latte de Hunter no balcão e disse ao chefe que ia fazer meu intervalo. Caminhei pela cafeteria com total confiança, mas, quando me aproximei de Hunter, percebi que, além da aula, esta era a primeira vez que eu o via desde a noite da formatura no Kentucky, quando ele ficou do lado da minha avó. Ele tirou os olhos da janela e focou aqueles lindos olhos azuis em mim. Eu diminuí o passo. Meu coração batia tão alto no peito que eu estava com medo de ele ouvir se eu me sentasse perto dele. Dica para mim mesma: eu não deveria tomar tanto café enquanto trabalhasse na cafeteria se meu coração palpitasse toda vez que um cavalariço olhasse para mim. Finalmente me sentei de frente para ele com minha xícara de café e passei o latte para ele com o bumbum virado para baixo. Só então percebi o que significava trazer a Hunter um latte com um coração desenhado na espuma depois de ter ficado com ele na ficção. Eu devia ter tentado desenhar a palmeira. Agora era tarde demais, mas ele não percebeu o coração, pelo menos não de imediato. Olhou pela janela e começou a bater o pé, como se estivesse ansioso para ir embora. Isso não era do feitio dele. Ele parecia confortável em qualquer situação, ainda que não quisesse estar nela. O charme sempre estava ativo. O sino da porta tocou e alguns estudantes às gargalhadas entraram e se aproximaram do balcão. Hunter os seguiu com os olhos e por fim, bem devagar, olhou para a xícara sobre a mesa. Franziu as

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sobrancelhas e girou o pires, tentando descobrir o que era aquela figura. ― Nossa ― ele exclamou. ― Muito apropriado. Você desenhou um coraçãozinho para mim. ― É um bumbum. Ele inclinou umpouco a cabeça para ver em outro ângulo, depois virou a xícara na posição original. ― Agora estou vendo ― ele piscou para mim. ― O que você quer dizer é que no começo era um coração, mas você percebeu tarde demais que desenhar um coração no meu latte seria desconcertante depois de eu ter lido sua história.

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4 ELE PRONUNCIAVA A PALAVRA CAFÉ de um jeito estranho. Na verdade ele não tinha muito sotaque nova iorquino, nem quando se mudou para o Kentucky. O sotaque só aparecia em algumas palavras. Fiquei pensando nisso para não sair correndo de vergonha. ― Não, a figura no seu café é um bumbum ― eu disse, tentando me defender. ― Também sei desenhar um baço. Suas sobrancelhas se levantaram, e eu sabia que o tinha irritado. ― Você também sabe desenhar um fígado? ― ele perguntou. ― Com bile? Essa conversa não estava evoluindo como eu tinha planejado. Para convencê-lo a ficar quieto em relação ao cavalariço, eu tinha que ser gentil. Eu queria poder desenhar estágio na superfície do meu café como um lembrete. Sorri para ele com toda a falsidade possível. Minhas bochechas até doeram. ― Espere mais uma semana de treinamento. Eu só trabalho aqui há duas semanas. Ele abaixou as sobrancelhas.

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― Eu pensei que você tinha pegado o ônibus para cá no dia seguinte à graduação. Meu pai me disse que levou você até a rodoviária. Você quer dizer no dia seguinte à noite em que você roubou a minha vida, eu pensei, sorrindo com mais falsidade. Depois eu disse em voz alta. ― Eu vim. Primeiro trabalhei em um restaurante, mas eles sempre me diziam o que fazer, e eu não estava acostumada a isso. Eu estava brincando, mas Hunter não riu. Só piscou para mim enquanto tomava o café. ― Depois fiquei sabendo de um trabalho para passear com cachorros ― eu disse. ― Também não funcionou. ― Por que não? ― Hunter perguntou. ― Você adora animais ― parecia que ele estava querendo me convencer. ― Cachorros não são cavalos ― disse ―, mas deveriam ter uma rédea na boca. ― Eu fiz uma garra com a mão, como se fosse a parte das rédeas que se conecta à boca do cavalo. Hunter olhou para a minha mão, confuso, como se não tivesse entendido. Eu abaixei a mão. ― Eu adorava meu trabalho na biblioteca, mas fui demitida quando me pegaram com maconha. Ele ficou boquiaberto. ― Erin Elizabeth Blackwell! Eu tentei tranquilizá-lo com uma mão e quase derrubei meu café.

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― A maconha não era minha. Eu tinha muitas colegas de quarto e elas eram um horror. Uma delas escondeu a maconha na minha mochila e esqueceu. Ser demitida foi a última gota. Eu tive sorte de ter sido demitida e não presa! Comecei a caminhar até o apartamento, mas de repente parei na calçada, fiquei olhando para a janela, imaginando minha saída dramática do apartamento e pensei Para onde estou indo? Fiquei perambulando pela rua naquele dia quente e solitário de julho, com o pescoço doendo de tanto olhar para cima e os olhos ardendo de tanto chorar. Summer e Jordis tinham reclamado nos últimos dias sobre morar no dormitório, por causa do barulho e da quantidade de gente. Eu não reclamava. Cinco colegas de quarto desorganizadas me ensinaram o valor de duas organizadas. ― Você tem certezaque não fumou nem um pouquinho? – Hunter colocou os dedos na boca, fingindo fumar.

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― Eu não tenho tempo para isso! Ele arregalou os olhos azuis e eu percebi que meus braços também estavam escancarados enquanto eu gesticulava, irritada. Eu ainda estava presa naquele dia horrível de julho. Precisava esquecer aquele dia.

Esta

conversa

com

Hunter

era

uma

situação

horrível

completamente diferente e eu não estava tão desesperada quanto antes. Ainda não. Limpei a garganta. ― Você quer as informações sobre minha aula de cálculo? ― Sim ― ele disse, no mesmo instante. ― Essas aulas são imprevisíveis. Seu celular era o modelo mais recente, uma evolução gigantesca em relação ao modelo básico que ele tinha no Kentucky. Eu passei o


nome do instrutor e o horário da aula e ele digitou as informações, mas várias vezes seus dedos falharam e os músculos do seu maxilar se enrijeceram. Essa era a forma de Hunter resmungar 'que droga', frustrado. Ou ele tinha acabado de comprar esse celular e ainda não estava acostumado com ele, ou estava mesmo mal-humorado. ― Por que você está fazendo cálculo? ― perguntei. – Você não deveria

estar

fazendo

matemática

financeira,

que

estuda

Administração? ― Pelo mesmo motivo que você está fazendo cálculo apesar de estudar Letras ― ele terminou de digitar os dados com um esforço enorme e jogou o telefone da mochila. ― A universidade não quer que alunos exemplares façam matérias fáceis. ― Pode ser uma matéria fácil, mas matemática financeira faria mais sentido para o curso de Administração ― eu disse. Ele girou o pescoço até estalar. ― Por que você está fazendo aula de dança do ventre? Não faz nenhum sentido para o curso de Letras. Achei aquilo suspeito. Como ele sabia que eu estava fazendo aula de dança do ventre? Mas ele também sabia onde eu tinha trabalhado antes mesmo de eu contar para ele. Ele deve ter me observado na última semana sem que eu o visse. Claramente nós estávamos nos rodeando. ― Estou fazendo aula de dança do ventre porque posso ― disse, casualmente. ― Mas se você está fazendo cálculo, está perdendo a aula de matemática financeira que é necessária para seu curso – eu olhei para o catálogo. ― Na verdade eu cheguei a pensar em estudar Administração, como minha avó queria.

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Desta vez ele reagiu. Não havia outra forma de descrever isso. Ele parecia bastante surpreso e, como Hunter nunca demonstrava surpresa, eu estava mais convencida do que nunca de que havia algo errado com ele. ― É mesmo? ― ele perguntou. ― Sim, por cinco segundos. Recuperando a calma, ele tomou um gole do latte, olhando para mim como se esperasse um sinal de que eu tinha colocado algum veneno na bebida. ― Você não entende ― ele disse, colocando a xícara na mesa ―, mas administrar uma fazenda é extremamente complicado. Envolve mais do que adicionar colunas de números. É preciso saber a derivativa de Horse of Course e a transformação linear de Boo-boo. Eu tomei o café, esperando que a xícara ocultasse meu rosto quando contraí todos os músculos. Boo-boo era meu cavalo. Hunter se inclinou para frente e olhou fixamente nos meus olhos. ― Este cavalariço precisa de formação. Se

Hunter

nunca

demonstrava

surpresa,

nunca,

nunca

demonstrava raiva. E agora mesmo ele parecia estar com raiva de mim. Apesar de sentir um aperto no peito, tomei outro gole de café como se estivesse pensando com calma. E eu levaria o tempo que fosse necessário. ― Hunter ― eu comecei ―, sinto muito sobre a história do cavalariço no meu romance. Espero que você não tenha entendido mal.

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Ele ficou me observando de um jeito que parecia ultraje mal controlado. Percebi pela primeira vez que seus olhos estavam um pouco vermelhos. ― Como você queria que eu entendesse, Erin? A ponta dos meus dedos doía de tanto pressionar a xícara quente. ― Talvez eu estivesse pensando em você porque imaginei que você podia morar no meu dormitório ou,fazer alguma matéria comigo, mas nunca quis que você lesse minha história. Eu não estava assediando você, se é isso que você pensa. Ele continuou me olhando. Entre meu rosto quente e a xícara de afé, parecia que eu estava sentada em uma sauna. Finalmente, eu perguntei: ― Por que você está com raiva de mim? Ele se ajeitou na cadeira. ― Por que você acha que eu estou com raiva? ― Posso sentir. Por algum motivo, você está deixando transparecer um pouco ― ele sorriu. ― Estou com raiva porque o que você fez foi ofensivo. Existem apenas duas possibilidades. A primeira é que você sabia que eu entraria naquela aula e escreveu a história de propósito para me deixar chateado, mas a história foi escrita há vários dias e eu só fui transferido hoje. Não sei como você poderia saber disso. ― Eu não sabia ― eu assegurei. E eu não sabia mesmo. ― O que nos traz à outra possibilidade. Você escreveu a primeira tarefa da sua aula de escrita criativa sobre mim, o que significa que eu estava na sua mente. O que significa que você gostava de mim no

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ensino fundamental e no ensino médio, assim como Rebecca era apaixonada por David, durante os seis anos em que aqueles garotos ridículos me chamaram de seu cavalariço e você nunca disse nada. Eu mal podia acreditar no que estava ouvindo. Ele não só estava furioso como também admitiu pela primeira vezque se importava com o que as pessoas falavam sobre ele em relação a mim. Isso me assustava. Quando Hunter e eu começamos a sétima série, ele era novo na minha escola. Eu poderia ter facilitado as coisas e apresentado ele aos meus amigos, mas não fiz isso. Fingi que ele não existia. Isso provavelmente contribuiu para que os garotos rissem dele quando descobriram que ele morava na minha fazenda. E eu sempre me senti culpada por isso, mas logo depois do que aconteceu entre nossos pais eu mal conseguia olhar para ele, muito menos manter a amizade que começamos ou passar tempo com ele na escola. Eu ainda não conseguia falar sobre esse assunto. Minha raiva aparecia como mecanismo de defesa. ― Não entendo por que você acha que só existem duas possibilidades para o que acontece na minha mente ― disse ―, se nós nem somos amigos. Parece que você está simplificando muito as coisas para se sentir melhor em relação ao que está fazendo. Até você deve se sentir mal por roubar a herança de uma garota, mas se eu for uma garota superficial, rigorosamente desenhada em preto e branco, aí não tem problema. Ele ficou ruborizado. ―Nao estou roubando nada. Ainda não. ― Ah, é? ― eu o desafiei. ― Que horas são? Como um reflexo ele olhou para o Rolex. Bingo!

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Eu ganhei de novo. ― Onde você conseguiu dinheiro para comprar essa camiseta caríssima que está vestindo? Será que eu deixei cair algum dinheiro no estábulo de Boo-boo antes de ir embora? Porque pelo que eu sei, você fazia compras do outro lado do rio, em Indiana, no brechó perto do shopping, para se certificar de não usar nada que seus amigos tivessem jogado fora. Eu tinha passado pelo estacionamento e visto a caminhonete que minha avó o deixava dirigir até a escola. Eu sabia o que estava acontecendo. Dessa vez eu tinha ido longe demais e prendi a respiração, esperando que ele reagisse. Eu nunca o tinha visto perder a calma completamente. Agora eu estava prestes a presenciar isso no meu local de trabalho e provavelmente seria demitida de novo. Ele me encarou, com o maxilar rígido... E depois riu. Começou a dar gargalhadas, como seu eu fosse a pessoa mais engraçada do mundo e o fizesse feliz. Hunter morrendo de rir, isso eu já tinha visto, mas ele fazia isso estrategicamente, como quando o professor de química no colégio ou o pesidente do banco ou o orientador que o ajudou a se matricular nesta faculdade faziam essas brincadeiras. ― Você andou bebendo? ― eu perguntei, desconfiada. Ele olhou para mim. ― Bebendo? ―Você saiu para beber depois da aula de escrita criativa?

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Ele encolheu os ombros. ― Manohar, Brian e eu tomamos algumas cervejas. Parecia que ele tinha tomado mais do que algumas cervejas. ― E quando você tomou algumas cervejas com Manohar e Brian ― meu Deus, eu podia imaginar as gargalhadas ―, sobre o que conversaram? Ele continuou com aquela expressão educadamente jovial, como se não entendesse o que eu estava falando. Eu agarrei a borda da mesa com as duas mãos. ― Vocês não conversaram sobre cavalariços, não é? Ele olhou para o teto e riu. ― Pode ser que eu tenha mencionado algo. ― Hunter ― olhei para a xícara, sentindo meu estômago afundar. ― Era sobre isso que eu queria conversar com você. ― Sério? ― ele sorriu, irônico, com aquele rosto lindo. – Achei que você queria conversar sobre cálculo. Eu me senti uma idiota. Eu tinha me preparado psicologicamente para esta conversa, fiquei preocupada porque era importante para mim, e ele se preparou ficando bêbado. ― Eu acho que tenho uma chance de conseguir o estágio que eles oferecem no fim do semestre. Ajudaria a tirar a pressão de cima de mim, mas, para conseguir isso, eu preciso ir bem nessa matéria. Preciso que Gabe me leve a sério. Não quero que ele descubra que existe um cavalariço real.

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Hunter pegou a xícara e puxou-a para mais perto. Ainda dava para ver a superfície do latte, e eu o observei sugar o coração. ― Você está trabalhando com a minha avó ― eu disse. ― sei que quer deixar o cavalariço para trás. Estou tentando deixar minha vida inteira para trás e sair do seu caminho, e o estágio me ajudará a fazer isso. Ele colocou a ponta da língua para fora e lambeu um pouco da espuma no lábio superior. ― Sei que você está com raiva de mim, Hunter, e entendo seus motivos, mas juro que eu nunca quis te ofender. Meu único crime foi ter ido embora e deixado você com milhões de dólares e cento e quarenta e dois cavalos. ― Cento e quarenta e sete ― ele corrigiu. Claro que eles compraram e venderam e alguns reproduziram durante o verão. Como ele estava meio bêbado, não conseguiu resistir e fez questão de me mostrar que a fazenda estava indo muito bem sem mim. Ele colocou a xícara na mesa. ― Não vou contar a Gabe. Eu ignorei seu tom arrogante. Estava ficando cada vez mais desesperada. ― Nao conte a ninguém, porque Gabe pode acabar descobrindo. Ele deu um sorrisinho. ― Não vou contar. ― E peça a Manohar e Brian para não espalharem isso por aí. ― Vou pedir, mas não posso prometer nada. Você vai ficar devendo um favor para eles.

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Eu olhei para ele, quieta. Agora ele estava brincando comigo. Hunter era muito persuasivo. Ele podia convencer Manohar e Brian a fazer o que ele quisesse. E ele não queria. E que tipo de favor eu poderia fazer para eles? Na primavera passada eu poderia tê-los ajudado a entrar no crube churchill Downs, mas agora eu não tinha dinheiro nem nada para oferecer. Talvez fosse isso que Hunter quis dizer. E eu faria qualquer coisa para salvar meu estágio. Meu chefe estava parado no balcão, recordando que meu intervalo estava quase terminando. Eu afastei a cadeira. ― Obrigada, Hunter. E, mais uma vez, sinto muito por isso. Sei que nós dois queríamos voltar atrás e aproveitar Nova Iorque como se o outro não existisse ― peguei a xícara e levei de volta para o balcão. Antes que meus dedos tocassem a cerâmica, Hunter agarrou minha mão e olhou para mim. Eu odiava a forma como meu corpo respondia, como se ele fosse meu namorado, não como meu colega, nem mesmo como meu pior inimigo. Talvez o calor subisse pelo meu peito porque Hunter era bonito e confiante, uma força da natureza, mas eu tinha medo de ter feito esse estrago comigo mesma. Na vida real nós não conversávamos amigavelmente desde o verão antes da sétima série, exceto em uma noite de maio, mas na minha mente eu já tinha escrito 'Quase uma Dama', o romance inteiro. Na minha mente, nós dormimos juntos. Ele continuava apertando a minha mão. Seu polegar passeou pela palma da minha mão e eu vi as pupilas dilatarem em seus olhos azuis. Imaginei se em sua mente nós também tínhamos dormido juntos. Ele soltou minha mão e olhou para a cadeira.

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― Sente-se mais um segundo. Sua avó queria que eu trouxesse algo sue você esqueceu em casa ― ele colocou a mão dentro da mochila. Obediente, eu me joguei sobre a cadeira porque minhas pernas estavam fracas e porque eu realmente precisava dele do meu lado, mas no mesmo instante eu disse: ― Não quero nada. Ele sorriu, como se estivéssemos nos paquerando, e não conversando sobre um assunto delicado. ― Como você sabe que não quer? Você ainda nem viu o que é. ― O que quer que seja, eu deixei lá porque quis. Ele retirou alguma coisa da mochila e colocou sobre a mesa. Era meu mp3 player e o fone de ouvido. Da última vez que ele me entregou meu mp3 player na festa da minha avó em maio, ele me salvou de uma conversa com Whitfield Farrell, um jovem de vinte e um anos que desistiu da faculdade e herdaria a famosa fazenda vizinha. Whitfield era conhecido por suas bebedeiras em festas, e corriam rumores de que ele queria dormir comigo. Minha avó me ordenou a ser gentil com ele porque ela tinha negócios com o pai do garoto. Whitfield colocou a mão no meu bumbum e eu estava prestes a dar uma bofetada nele e receber o castigo que a minha avó designasse, quando Hunter bateu na janela e me entregou o mp3 player que eu tinha deixado no celeiro. Quando ele viu que eu não conseguia me livrar de Whitfield, entrou na mansão , fazendo uma sujeira ao pisar no tapete persa antigo com as botas de estábulo. Whitfield saiu para preparar outro uísque. Hunter o observou e depois olhou para mim. E

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me paquerou como paqueraria qualquer garota da escola, até que minha avó chegou e perguntou, com um sussurro irritado, o que diabos que ele achava que estava fazendo dentro da casa. A questão era que essa atitude condizia com o caráter de Hunter. Ele era charmoso, o salvador, o líder, o herói de toda garota. Quando os valentões das redondezas escolhiam uma garota, claro que Hunter se metia, mesmo contra a vontade da dama. Por qualquer pessoa. Menos por mim. Durante anos, Hunter e eu mantivemos uma distância. Quando ele se intrometeu, eu comecei a pensar nele de um jeito diferente. Comecei a pensar muito nele. Comecei a vê-lo não como o herói de todos, mas como meu herói. A festa já tinha passado, mas a formatura estava se aproximando. Nós iríamos para a mesma faculdade. Por causa do nosso passado juntos, teríamos muito trabalho, mas talvez a faculdade fosse o lugar ideal. E então ele roubou a minha vida. Consegui dar um sorriso minúsculo para Hunter, que já estava alguns meses mais velho e agora um pouco bêbado, como se o mp3 player representasse um período da minha infância quepassou há muito tempo. ―Com certeza eu deixei isso no Kentucky de propósitov― eu disse. ― Não me servirá aqui, não posso pagar por músicas novas. Ele ficou de queixo caído. Piscou os olhos. Devia estar bêbado. ― Músicas não são tão caras assim ― ele disse. ― Qualquer miséria ajuda ― eu disse ―, quando estou tentando pagar o aluguel e aproveitar Nova Iorque.

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Ele começou a falar por cima de 'Nova Iorque', como se não tivesse me escutado. ― Você adora suas músicas. ― Eu gostava quando estava tentando fugir de tudo. Agora estou tentando aproveitar tudo. Quero ouvir Nova Iorque em vez de uma música baixada da internet. Quero sentir o cheiro de Nova Iorque. Bem, Nova Iorque tem cheiro de lixo. Lixo vietnamita, lixo mexicano, lixo lituânio, lixo nigeriano, tudo em uma caminhada de três quarteirões. Até esse cheiro horrível faz parte da experiência. Quero estar atenta a tudo. Inclinando-se para frente, ele cobriu minha mão e o mp3 player e o fone de ouvido sobre a mesa com aquelas duas mãos enormes. Meu rosto esquentou e corou, como se ele tivesse jogado o latte nele. ― Você não quer o mp3 player porque foi um presente da sua avó ― ele disse. ― Admita. Eu tentei me livrar dele, mas o canto do mp3 player entrou no meu dedo. Eu me levantei. ― Sente-se ― ele parecia autoritário, e de repente bastante sóbrio. Apertou minha mão sobre a mesa. ― Ainda não terminamos. ― Terminamos, sim ― eu soltei a mão e toquei seu ombro ― Algumas pessoas precisam trabalhar para sobreviver ― eu olhei para o balcão. Antes que eu pudesse retirar a mão, ele a agarrou de novo. ― Qual é seu novo número de celular?

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Eu ri por causa da ironia. Hunter pedindo meu telefone, quando eu não podia passar o número para ele. ― Eu não tenho celular. Ele fechou os olhos e ficou assim por vários segundos, como se esperasse que, ao abri-los de novo, minha segunda cabeça tivesse desaparecido. Sob a luz de duas lâmpadas nas mesas ao lado, seu cabelo loiro formava duas longas sombras em suas bochechas bronzeadas. Ele abriu os olhos. ― Como você pode não ter um celular? ― É muito caro. Balançando a cabeça, ele puxou minha mão e colocou-a sobre a mesa. Depois tirou uma caneta do bolso. ― Este é meu número. Se você precisar de mim, encontre um telefone e me ligue. Dessa vez eu puxei com mais força, mas, apesar do meu esforço, quando ele parou de falar já tinha escrito Hunter na palma da minha mão, caso eu esquecesse de quem era aquele telefone, e o código da área. ― Hunter ― eu olhei ao redor da lanchonete, temendo fazer um escândalo no trabalho, mas sem querer o número dele tatuado na minha mão. ― Isso pode ser difícil para você entender, já que você está roubando minha herança e não está no lugar da vítima. Se eu precisar de ajuda, você é a última pessoa no mundo para quem eu ligaria. Puxei a mão uma última vez e recuei alguns passos. A caneta tinha deixado todo o número dele na minha mão e mais uma linha no meu dedo médio até a ponta.

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― Meu intervalo acabou e eu já estou encrencada por ter chegado aqui tarde. Peguei minha xícara na mesa e saí apressada, tentando passar pelas mesas que agora já estavam cheias com a segunda rodada dos viciados em café noturno. Meu chefe olhou para mim com as mãos na cintura. Eu só podia esperar que Hunter, o futuro presidente de uma empresa equina multimilionária e herdeiro de uma fortuna, entendesse minha situação como uma mulher sozinha lutando para se manter financeiramente. Eu esperava que ele me deixasse em paz em relação ao cavalariço. Até parece que isso aconteceria.

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NOVA IORQUE É A CIDADE QUE nunca dorme, mas fica cansada. Suas pálpebras ficam pesadas e ela tem vontade de relaxar em frente à televisão. Quando meu chefe me liberou do trabalho às onze horas, todas as outras cafeterias já estavam fechadas. o trânsito era escasso. Apenas alguns pedestres passavam por mim na rua. As luzes ainda eram claras, mas a noite havia formado uma cúpula sobre elas, como se eu estivesse caminhando por um local de filmagem que era parecido com a cidade, mas não era real, e eu nunca conseguia ver muito longe nas ruas laterais escuras, mesmo quando começava a amanhecer. Quando cheguei ao dormitório, me sentia como a única pessoa no mundo que estava acordada e caminhando, mas todas as janelas na


parte da frente do prédio ainda estavam iluminadas, até a minha, com uma luz que brilhava na porta, vinda do quarto de Summer e Jordis. Era capaz até de eu encontrar Hunter na escada. Essa deveria ser a última coisa que eu queria, mas não era. Dei uma olhada na minha caixa de correspondência no saguão e encontrei infinitos panfletos sobre eventos no campus programados justo no meu horário de trabalho, portanto joguei todos no lixo. Finalmente subi a escada e abri a porta do meu dormitório. A primeira coisa que eu vi foi Summer e Jordis sentadas na cama de Jordis, cortando fotos. A segunda foi minha roupa verde de dança do ventre pendurada na parte de trás da minha porta. Quando eu trouxe essa roupa do brechó, planejava colocá-la no guarda-roupa que eu compartilhava com Summer, mas Jordis me pediu para deixá-la à vista porque ela gostava do brilho. Ela estava estudando arte. Talvez por isso Hunter soubesse que eu estava fazendo aulas de dança do ventre. Fiquei pensando em que momento da semana passada ele esteve no meu quarto. Summer tirou os olhos da tesoura e sorriu para mim. ― O cavalariço entrou na sua turma? Eu olhei para ela, depois olhei fixamente para Jordis. Summer e eu realmente precisávamos de uma linguagem de sinais. Summer apontou para Jordis com a tesoura. ― Ela já sabe de tudo. Brian passou aqui e disse que ele, Manohar e Hunter saíram e beberam muito, e Hunter contou que era o cavalariço. Normalmente eu tinha muito cuidado com as minhas coisas porque elas tinham que durar muito. Minha mochila era uma grande

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bolsa de couro que eu quase não usava em casa e ela teriaque durar todo o período da faculdade e mais tempo, porque eu nunca mais ia poder comprar uma como aquela. E eu a joguei no chão, sem conseguir aguentar o peso dos livros e de 'Quase uma Dama' por um momento. Jordis pegou uma terceira tesoura e passou para mim. A quantidade de instrumentos afiados que ela tinha era ilimitada. ― Enquanto conversamos, me ajuda a cortar isso, vai acalmar sua agressividade. Jordis era dinamarquesa e bem direta, suavizada apenas pelos lenços de seda que ela mesma pintava e amarrava no cabelo. Ela parecia ser uma pessoa boa e ainda não tinha reclamado de eu entrar e sair do quarto dela em horários estranhos para chegar até meu quarto quando eu voltava tarde do trabalho. Ela só parecia distante por causa daquele sotaque escandinavo e do fato de que normalmente ou ela estava fora, e sua cama sempre ordenada, ou estava sentada na cama com cuidado para não desarrumá-la, segurando uma tesoura. Quando ela, Summer e eu nos conhecemos, ela nos disse logo de cara como se soletrava seu nome, que a letra o no meio tinha uma barra. Summer e eu a chamamos de 'Jordis com uma barra' por vários dias quando ela não estava até decidirmos que ela não era tão ruim assim. Na verdade ela era muito boa em fazer amigos e já tinha escolhido seu projeto para a mostra na galeria da faculdade no fim do semestre. Seria uma série de grandes colagens compostas de pequenos rostos cortados, o que significava que, sempre que Summer e eu tínhamos um minuto livre, Jordis colocava uma tesoura na nossa mão e jogava uma pilha de revistas velhas ou fotos antigas no nosso colo. Ela também recrutava pessoas que conhecia no saguão ou no corredor para vir ao quarto ajudar a cortar rostos com ela.

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Cansada como eu estava, achei que manusear um instrumento afiado não era uma boa ideia, mas eu sabia por experiência própria que não adiantava discutir com Jordis, portanto me sentei na cama e aceitei a tesoura e uma revista Rolling Stone de dez anos atrás. ― Hunter prometeu não contar nada a Gabe ― murmurei ―, mas como ele ficou bêbado com Manohar e Brian e contou tudo para eles, agora já era. Eles vão espalhar para os quatro cantos, porque eu sou a piada do programa de alunos exemplares. ― Brian não deu essa impressão ― Summer colocou um rosto muito bem cortado na frente de Jordis e virou a página da revista Tiger Beat. ― Hunter ficou chocado e impressionado com sua história e ficou bêbado com Manohar e Brian porque eles estavam discutindo se você era apaixonada por ele. Por um longo e delicioso momento eu acreditei em Summer. Depois me lembrei da conversa com Hunter. ― Brian disse que foi isso o que aconteceu ― perguntei – ou esta é sua interpretação dos fatos? ― É minha inter... ― Certo ― interrompi. ― Faça-me o favor de parar de interpretar. Hunter não se importa se eu sinto alguma coisa por ele, porque ele não sente nada por mim. ― Não tenho tanta certeza disso ― Jordis mordeu o lábio e com cuidado cortou a orelha de alguém por um momento dolorosamente longo antes de continuar. Eu vi seu Hunter do lado de fora no corredor há alguns dias, lendo nosso nome na porta. Eu o fiz entrar e cortar para mim. Nossa! Eu olhei para a porta do meu quarto.

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― Ele perguntou de quem era aquela roupa de dança do ventre? ― Sim ― ela disse. Mistério solucionado. ― Ele entrou no meu quarto? ― O quarto era minúsculo, apenas a largura da janela que tomava toda a parede, e exatamente grande o suficiente para uma cama de solteiro e um pequeno guarda-roupa e uma mesa de estudo. Todos os quartos na parte da frente do dormitório tinham duas pessoas no ambiente externo e uma nesse canto. Eu ouvi dizer que os estudantes se matavam para ficar nesses quartos da janela e os mais antigos tinham prioridade, mas Jordis disse que o quarto pequeno era claustrofóbico e a fazia recordar o verão no Japão, onde "ela teve que dormir em um tubo”. E, como Summer não se interessou, eu aproveitei a oportunidade. Eu adorava o tamanho do quarto, o aconchego e a porta que eu podia fechar. Lembrava Virginia Woolf, até você lembrar que ela cometeu suicídio, o que não era tão divertido. Eu adorava meu quartinho, mas tinha que deixar a maior parte das minhas coisas no guarda-roupa de Summer, que ficava neste quarto grande. Não havia muito para Hunter ver dentro do meu quarto. Mesmo assim, eu queria saber se ele tinha entrado lá. ― Ele não bisbilhotou ― Jordis disse ―, mas pediu informações sobre minhas colegas de quarto, principalmente você, até que eu perguntei se ele conhecia você. Summer se inclinou para frente, na expectativa, soltando a revista e a tesoura. ― O que ele disse? ― Ele disse 'Não exatamente'.

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Summer olhou para mim. ― Está vendo? EIe ficou confuso com sua saída do Kentucky. Jordis perguntou se ele te conhecia e ele disse 'Não exatamente', como se ele quisesse se reconectar com você, mas não soubesse como. Eu cortei a foto no meio. Estava cansada demais para discutir com Summer, mas queria que ela parasse que recolher os pedaços da minha vida e tentar construir um romance com eles. Foi isso que eu tentei fazer com 'Quase uma Dama' e acabei me metendo nesta confusão. Apontei minha tesoura para Summer. ― Hunter disse que pediria a Manohar e Brian para não contar a Gabe nem a ninguém sobre o cavalariço, mas não prometeu nada. É aqui que você entra. Você e Brian são amigos. Peça a ele para ficar quieto, como um favor para você. Comece a se aproximar de Manohar e faça a mesma coisa. ― Nossa! ― ela segurou Tiger Beat como um escudo. ― Eu já defendi sua história. Não foi suficiente? ― Sete palavras ― mostrei com os dedos para ela, com a tesoura pendurada no meu polegar. ― Posso. Ficar. Com. O. Voto. De. Erin? Summer começou a rir. ― Não posso me imaginar pedindo um favor a Manohar. Você o ouviu na aula. Ele me odeia. ― Então você vai ter que se segurar e parar de discutir com ele – eu Disse. ― Se ele quiser dizer que romances não servem nem para limpar o bumbum dele, fique quieta e deixe-o dizer. Meu estágio é mais importante do que meu orgulho.

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Eu não sabia se isso era verdade. Meu orgulho era muito importante, mas eu estava cansada e agora estava cortando com apenas um olho aberto. Se eu conseguisse aquele estágio, não precisaria trabalhar seis horas além de assistir aulas e estudar por doze horas. Summer recuou. ― Meu pai me alertou a não ficar muito urbanizada na faculdade e levar um garoto branco para casa. Eu troquei um olhar breve com Jordis. Eu era mais fluente em minha língua de sinais com ela do que com Summer. Jordis e eu estávamos imaginando como Summer deu um salto de não discutir com Manohar para levá-lo ao Mississipi com ela. Eu entrei na onda. ― Manohar não é branco. ― Ele é pior ― Summer disse, sem tirar os olhos da revista. – Na opinião do meu pai. ― Não estou pedindo para você ter um relacionamento sério com ele e levá-lo para casa para conhecer seu pai racista. Summer enrijeceu os lábios. Ela queria mostrar ao pai quem mandava em sua vida. Eu já a tinha convencido. ― Estou pedindo para você paquerar Manohar e conseguir algumas informações. Se você partir o coração dele, será igual a todas as histórias românticas, e é bem o que ele precisa, não é? ― Isso mesmo ― ela disse, flngindo relutância. De repente pareceu se concentrar em recortar outro rosto. Ela estava determinada a não olhar para nós, para que não pudéssemos ver a expressão que eu

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já tinha adivinhado: ela estava apaixonada por Manohar e estava adorando essa desculpa para ir atrás dele. Jordis encostou na parede e sorriu para mim, admirada. A mensagem silenciosa era tão óbvia que eu fiquei com medo de Summer ter percebido, mas ela era desatenta. Sim, eu era muito boa em ler as pessoas, pois estudei-as para colocá-las nos meus romances. Infelizmente eu não conseguia ler cavalariços.

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5 DEPOIS DE MAIS ALGUNS MINUTOS cortando rostos e rindo com Jordis em silêncio sobre a total falta de sutileza de Summer, eu dei boa noite, me tranquei em meu quarto e comecei a estudar. Fiquei lá por três dias. Pelo menos foi o que pareceu. Eu saí de dentro do quarto durante esses três dias. Fui para a aula e passei um bom tempo na lanchonete, mas a experiência de Nova Iorque pela qual eu esperava estava se distanciando, não por causa da minha falta de dinheiro, mas porque eu estava tão sobrecarregada com os deveres de casa que eu não conseguia terminar enquanto estava ocupada fazendo café. E eu adorava meu quartinho. É verdade que quase não havia espaço, mas de qualquer maneira eu não tinha trazido muitas coisas de Kentucky e não tinha dinheiro para comprar os quadros fofos que eu vi no quarto das garotas em outros andares. Em minhas paredes havia pinturas a óleo abstratas e coloridas que Jordis tinha me emprestado. E é claro que a maior parte do espaço era ocupada pela janela saliente: uma parede de vidro larga na parte da frente do prédio, e uma estreita diagonal de cada lado. Eu abria as cortinas e via as pessoas na calçada passando pelo prédio e descendo a rua até desaparecerem nas intermináveis fileiras de casas do século 19. Eu podia imaginar os vários estudantes que antes de mim haviam se distraído dos exercícios de cálculo para assistir o tráfego de pedestres. Imaginava os homens e

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mulheres jovens com suas roupas chiques que ficavam de frente para esta janela quando ela ainda fazia parte da sala da família. Eles olhavam para a rua empoeirada, sentindo um frio na barriga, esperando a carruagem puxada por cavalos vigorosos que os levariam ao baile. Minha única pequena prateleira sobre a mesa estava amontoada com meus livros. Eu não enchi minha prateleira com bugigangas de Nova Iorque, como Summer fez. Eu precisava focar não em estar aqui, mas sim em permanecer aqui, estudar bastante, escrever bem e conseguir aquele estágio. A única besteira que eu me permiti colocar foi o ímã da cidade de Nova Iorque que eu trouxe do Kentucky: o Empire State Building, o Edifício Chrysler, a Ponte do Brooklyn e a Estátua da Liberdade reunidos e reproduzidos na melhor miniatura de plástico. Eu tinha isso há anos. Olhava para ele como uma criança, desejando vir aqui algum dia. E agora ele fica grudado no armário de metal que se transforma em mesa de cabeceira, lembrando-me que é melhor eu não jogar tudo fora. A música estava alta alguns andares acima do meu, indicando que estava acontecendo uma festa. Eu havia escutado Monohar e Brian conversando sobre uma aula de escrita criativa há alguns dias. Senti o rubor inevitável em meu rosto e o impulso obrigatório de olhar para Hunter no final da mesa, onde ele ria com Isabelle. Se nosso dormitório desse uma festa, com certeza ele estaria lá. Mas quanto mais longe eu ficasse de Hunter, melhor seria para nós dois. Eu até sorri para Manohar durante a aula quando ele soltou algumas farpas para mim sobre os elementos românticos da história horrível de Isabelle. Depois da aula, quando eu estava saindo com

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Summer, eu pensei ter escutado Manohar relinchar para mim, mas ignorei. O som do baixo da música de rock abalou minha janela e, enquanto eu virava a página do livro, desejei meu MP3 player. Eu quase tinha recuperado a concentração, focando as palavras em vez da batida, quando a porta abriu com força e bateu na minha mesa. ― Estamos indo para uma festa tipo praia! ― Summer avisou. ― Vista sua roupa de banho! Eu espiei o quarto maior pela fechadura da porta, onde ela estava tirando um biquíni amarelo da cômoda. ― A cafeteria ocupa muito do meu tempo ― disse. – Preciso estudar quando consigo. Ela olhou para mim e balançou as mãos, segurando uma peça de biquíni em cada mão. ― Você queria que eu paquerasse Manohar e o trouxesse para você. Esta é a oportunidade perfeita e eu não vou sozinha para uma festa no banheiro masculino usando um biquíni. Relutante, eu tirei meu biquíni da cômoda. Ele era de marca, do ano passado. Ainda bem que era azul e não um modelo ousado que o ligasse a alguma coleção em particular. E não estava muito desgastado. Eu quase não o usei durante meu longo e quente verão de trabalho em Nova Iorque. Agora que eu já tinha entrado em uma loja de departamento com preços muito baixos em Nova Iorque, descobri que uma das diferenças entre roupas caras e baratas é que as roupas caras podem melhorar a

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aparência de quem as veste. Meu biquíni não era uma exceção e me fazia parecer uma estrela dos anos 50. Mas ao me olhar no espelho de corpo inteiro de Jordis percebi que não havia nada que o biquíni de marca mais bonito pudesse fazer em relação às minhas sardas. Neste verão eu não tive nenhuma oportunidade de pegar um leve bronzeado e as sardas sobressaíam como varíola na minha pele branca. Em Pride and Prejudice, Lydia chama uma garota da vizinhança de "coisinha detestável e sardenta". Em silêncio, Elizabeth concorda. O leitor não deve simpatizar com Lydia, mas deve simpatizar com Elizabeth. Eu amava Jane Austen com todo meu coração, mas não podia perdoá-la por isso. Summer disse: ― Acho que, se eu for levar adiante essa ideia bizarra de paquerar Manohar, preciso retocar minha maquiagem para parecer que eu realmente quero isso. Essa foi a indireta de Summer, eu pensei, porque eu tinha limpado minha maquiagem e ela não aprovava meu visual para uma festa. Relutante, eu tirei o creme facial da minha bolsa de maquiagem. Ele estava quase acabando e eu nunca mais compraria este creme milagroso em particular. Ele era extremamente caro, eu percebi quando comparei o preço ao aluguel do dormitório. Eu me senti mal por ter que gastar tanto nessa festa só para silenciar Manohar a respeito do cavalariço. Summer me viu lutando com o tubo. ― Dobre-o como um tubo de pasta de dente.

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― Eu já fiz isso. Acho que posso conseguir passar mais um bom tempo com ele se conseguir cortá-lo, mas já tentei usar todas as tesouras de Jordis. Elas não são afiadas o suficiente. Eu suspirei aliviada quando consegui tirar um pouco e hidratei o meu rosto. Depois eu peguei o pó facial. ― Você está tentando cobrir as sardas? ― Summer ficou me olhando no espelho sobre sua cômoda. ― Eu não estou dizendo que você deveria, mas eu uso uma marca de base que é bem mais espessa do que a sua. ― Não, eu não estou tentando cobri-las. E inútil. Eu tentei de tudo e já me conformei com elas ― mentira. ― O máximo que eu consigo é clareá-las e deixá-las com uma aparência mais limpa. Eu passei o pincel com pó no nariz mais uma vez. Eu vivia uma vida dura e já havia perdido minha beleza. Ou talvez fossem as olheiras sob meus olhos de tanto estudar até tarde. De qualquer forma, eu não estava me embelezando para encontrar um homem. Summer estava salvando meu estágio e eu estava indo com ela em uma roupa que me fazia sentir ainda mais indefesa e exposta do que durante a primeira sessão de críticas da aula de escrita criativa, quase como se Hunter tivesse planejado a festa nesse estilo. ― Você está linda ― Summer disse, vendo meu reflexo no espelho. ― Você também está linda ― disse. Ela se animou em seu biquíni brilhante. Naquele momento eu desejei poder trocar de lugar com ela, queria ser a sulista ingênua encantada com Nova Iorque, buscando nada mais na vida além de um trabalho

profissional

fabuloso

e

um

relacionamento

amoroso

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verdadeiro, empolgada com a possibilidade de ser forçada a paquerar um garoto da turma. Trancamos a porta externa e abrimos a porta para a escada. ― Eu estou tão empolgada ― ela disse, com uma voz inexpressiva. ― Talvez depois eu possa escrever uma história de espionagem para Gabe. É como se eu fosse uma espiã. Uma espiã do amor – ela continuou falando, mas a música abafou sua voz quando passamos do terceiro andar. Continuamos subindo e finalmente abrimos a porta do quinto andar. Eu ia a festas com temas de cavalos desde que tinha catorze anos. Em retrospecto, percebi que não era porque minha avó achava que eu era madura o suficiente para lidar com bebidas e conversar com garotos mais velhos como whitfield Farrel. Não era por isso. Era porque ela estava me preparando, desde aquela época, para assumir o controle. Quatro anos depois, Hunter estava no controle e eu estava desamparada, com um monte de festas em meu histórico. Eu já havia até tirado fotos com algumas celebridades que foram ao Kentucky apenas para a temporada de corridas de cavalos e que pensavam que poderiam se misturar à multidão se bebessem uísque e usassem um chapéu. Agora, indo para uma festa de faculdade no quinto andar do dormitório com boa reputação (que coisa mais idiota), eu me sentia nervosa. De repente me acovardei, coloquei as mãos na barriga descoberta e teria descido novamente a escada se Summer não tivesse segurado minha mão e me puxado para o meio da multidão que estava do lado de fora do banheiro.

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― Você gosta do Hunter mais do que quer admitir ― ela disse em meu ouvido enquanto abria a porta ―, mas talvez ele não esteja aqui. Ela me empurrou para dentro. O lugar estava mal iluminado com algumas lâmpadas coloridas giratórias e o vapor quente tornava ainda mais difícil enxergar qualquer coisa. Os chuveiros em cada cabine jorravam água com toda força, água quente, ajulgar pelo vapor. O lugar parecia mais uma sauna do que uma praia. Mas os garotos tinham se esforçado para simular o cenário de uma praia. Algumas palmeiras em vasos enfeitavam a entrada e metade das trinta pessoas que estavam ali fizeram um círculo perto das pias e jogavam uma bola de praia de um lado para o outro. Um veterano montou um bar em frente aos mictórios, triturava gelo em um liquidificador, misturava com suco de frutas e vodca e enfeitava as bebidas com guarda-chuvas de papel. Por sobre os ombros desnudos dos garotos, imediatamente eu vi Hunter com roupa de banho e chinelos. Pela primeira vez em meses, aqui estava o que eu via quase diariamente nos verões do Kentucky: Hunter sem camisa. Em casa, seus músculos trabalhavam empilhando feno e segurando os cavalos menos mansos. Músculos como aqueles deviam fazer barulho enquanto trabalhavam, uma música baixa de trituração, em vez de escorregarem silenciosamente durante as tarefas. Na sala de aula ou na cafeteria, eu sabia que aqueles músculos silenciosos estavam lá, cobertos por uma camisa de algodão ou uma camisa polo para que outra garota os descobrisse. Agora outra garota os havia descoberto. Apoiando uma mão na parede de azulejo molhada, Hunter se inclinou enquanto conversava com uma loira, com tanta confiança e naturalidade como se tivesse conhecido uma garota da escola rival à nossa do lado de fora da loja de pretzel no shopping.

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Esperei ele olhar para mim na entrada, sorrir presunçoso e olhar de novo para ela. Isso demonstraria que ele estava interessado em mim e queria me deixar com ciúme. Mas ele não olhou para mim. Continuou conversando com a garota como se eu não estivesse lá. Summer também reparou. Convenientemente ignorando o acessório loiro de Hunter, ela suspirou: ― Meu Deus! O corpo de Hunter. Ele conseguiu aqueles músculos trabalhando como cavalariço? ― Acho que sim. Na verdade, eu não sabia. Foi assim que ele desenvolveu os músculos no começo, mas com certeza minha avó não o mandou trabalhar durante todo o verão. Ele devia ter emagrecido e ficado desbotado pelas luzes elétricas do escritório caro e elegante dela, mas isso não aconteceu. ―Você sabe por que ele tem aquela cicatriz? ―Summer perguntou, mostrando o local aproximado da cicatriz grande e branca de Hunter. Agora ele saberia que nós estávamos falando dele, se ele olhasse na nossa direção, o que parecia pouco provável. A loira olhava nos olhos dele e inclinava a cabeça, com seu cabelo longo molhado movendo-se sobre seus ombros desnudos. ― Cirurgia ― eu disse. ― Ele quebrou alguns ossos. Um cavalo caiu sobre ele. ― O quê? ― Summer exclamou. ― Quando? Eu fiz um gesto de indiferença. ― Na oitava série, acho.

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― Ai, não! ― ela choramingou. ― Ele era tão jovem! Você o visitou no hospital e sentou-se ao lado da cama dele? Que fofo! ― Hunter a escutaria mesmo com a batida forte da música. ― Shhh ― disse. ― Não, nós não estávamos nos falando. ― Erin! ― ela protestou. ― Por que não? Porque apenas um ano havia passado desde que minha mãe morreu. Eu fiquei apavorada pelo que aconteceu com ele, mas se o tivesse visitado, não saberia o que dizer. Eu mostrei o bar em frente aos mictórios. ― Vamos pegar uma bebida. Eu saí na frente, caminhando sobre o piso escorregadio, sem esperar a resposta de Summer, e pedi ao veterano uma raspadinha de limão sem vodca. ― Tudo bem ― ela disse, quando me alcançou ―, mas tem muito mais coisa que você não está me contando sobre esse cavalariço – ela pediu um daiquiri de manga com bastante rum. Eu achava que uma discussão com Manohar era meu maior medo. Depois de olhar para Hunter com a loira de novo, a perspectiva de conversar com Manohar parecia prazerosa. Ele e Brian estavam sentados em poltronas no canto da sala, usando óculos de sol. Summer correu até Manohar e, sem cerimônia, pediu que ele fosse um pouco mais para o lado na poltrona. Isso significava que eu poderia sentar na ponta da poltrona de Brian. Infelizmente, tive que ficar de frente para Hunter novamente. A loira estava debaixo do jato de água do chuveiro com os olhos fechados, água quente caindo no rosto e escorrendo pelo cabelo e

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caindo no chão de azulejo em torno de suas unhas vermelhas perfeitamente elegantes. Enquanto eu olhava, Hunter se aproximou e acariciou o cabelo castanho e molhado dela, no meio do jato de água. Seu cabelo devia estar suave e quente para ele, quase como o próprio corpo dele, como se não fosse nada. Como ele podia fazer algo tão íntimo com ela? Ele mal a conhecia. A sala estava lotada e quando alguém sem camisa ou de biquíni passou na minha frente e bloqueou minha visão, eu percebi que estava olhando demais para eles. Voltei minha atenção para a conversa com Summer, Manohar e Brian sobre a comida do refeitório que eu nunca tinha comido, porque implorei ao orientador financeiro que me deixasse de fora do plano de refeição caro, mas os corpos seminus se moveram e minha contemplação tola voltou-se para Hunter novamente. Eu poderia ter me perguntado pelo resto da noite se prestar atenção na outra garota era a forma de Hunter me dizer que na verdade estava interessado em mim. Eu era uma escritora de romances e criei cenários da forma como queria que eles acontecessem. Mas aquilo estava me deixando louca. Eu podia prever que por um semestre inteiro agiria como uma aluna da sétima série, obcecada em saber se Hunter gostava de mim, ou pior, durante os quatro anos de faculdade, se eu conseguisse ficar aqui todo esse tempo. Em vez disso, eu usei uma técnica que desenvolvi para superar a morte da minha mãe, colocando toda aquela dor em uma pequena caixa para ficar livre dela pelo resto da minha vida. Com o queixo levantado, observei Hunter olhar para aquela loira, deslizando a mão sobre suas costas desnudas, e disse a mim mesma: Hunter gosta dessa

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garota e não de mim. Eu não deveria querer ficar com ele mesmo, porque ele roubou minha fazenda e está mancomunado com minha avó. Ele não tem interesse amoroso em mim. Eu ainda estou bem. Depois me afastei. Havia muitos outros garotos com quem eu podia conversar na sauna e alguns deles pareciam tão bons quanto Hunter, detrás daquele vapor. Por exemplo, o garoto-lobo Kyle sentouse na ponta da cadeira de Manohar, próximo a Summer, tão bêbado que nem percebeu a expressão de desaprovação de Manohar detrás dos óculos escuros ou a forma com que Manohar lenta e sutilmente se afastou na cadeira, mexendo as pernas e virando-se para se sentar sobre ela como se fosse um banco, fazendo sua coxa desnuda tocar a de Summer. Kyle se inclinou para mim no espaço entre as cadeiras. ― Você é aquela que escreveu uma história excitante na aula de escrita criativa. Você é bem corajosa. Summer o empurrou com cuidado. Manohar riu alto e Brian ajeitou a postura, sussurrando: ― O que ele disse? A música pulsava e ecoava através das paredes de azulejo. Para ter uma conversa era preciso ler lábios e ouvir bem. Eu limpei a garganta. ― Para ser educada, Kyle, prefiro ignorar essa metáfora ambígua. E minha história não era excitante. Todos, até Summer, ficaram boquiabertos comigo. Eu ri.

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― Tudo bem, eu acho que era ― eu admiti, quando Hunter se sentou ao meu lado na ponta da cadeira de Brian. Hunter sorriu ironicamente para todos, menos para mim. ― Estou perdendo a aula? Eu queria perguntar para onde a loira tinha ido. Quando eu olhei, ela tinha desaparecido do chuveiro e não estava atrás dele com a mão em seu ombro, mas eu não deveria desejá-lo e ele provavelmente não tinha ideia de que estava fazendo minha pele queimar no lado onde se sentou. Eu me esforcei para prestar atenção na conversa do pessoal que agora girava em torno de Gabe. ― Estou um pouco decepcionada com ele ― Summer disse. ―Minha outra companheira de quarto, Jordis, acho que você já conhece, Hunter... Hunter sorriu para Summer, sem olhar para mim. ― Ela está no segundo ano e disse que, quando ainda era caloura, sua primeira professora de escrita criativa era uma senhora esbelta que usava uma capa e levava a turma em missões de observação na West village durante a aula. Eu não acho que nós iremos a nenhuma missão de observação. Gabe apenas se senta e nos ouve enquanto toma seu café. ― Se é que aquilo é realmente café ― Manohar disse. ― Ele é tão quieto, como se estivesse entorpecido. ― E isso aí ― Kyle encostou o copo de plástico no meu, fazendo um brinde. Meu estômago revirou. Eu quis defender Gabe.

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― Eu sei que é café ― eu disse. ― Ele compra na cafeteria onde eu trabalho. Às vezes ele passa por lá depois da aula. ― Falando nisso ― Hunter se aproximou, pegou o copo da minha mão e provou a raspadinha de limão. O Hunter que eu conhecia não era tão rude assim, a ponto de pegar meu copo sem ter sido convidado. Será que ele estava me paquerando? Minha reação deveria ser de indignação, principalmente depois de ele ter acariciado o corpo daquela loira. Tentei não olhar demais para os lábios molhados dele. ― Como você pode ter certeza de que Gabe não coloca bebida dentro do café? ― Brian perguntou, me arrastando de volta para a conversa. Eu não sabia, mas parecia difícil conectar o fato de Gabe ser quieto a ficar bêbado no trabalho. E apesar de estes garotos bêbados estarem apenas criticando o professor pelas costas, eu me senti mal por Gabe, já que ele não estava lá para se defender. ― Essa é uma boa ideia ― Hunter sussurrou em meu ouvido. ―Quer que eu coloque uma bebida aqui para você? Eu balancei a cabeça e disse, com cuidado: ― Tenho dever de casa para fazer mais tarde ― seu ombro desnudo próximo ao meu caiu como se ele estivesse decepcionado. Eu não podia gastar minha energia com isso, pois precisava recuperar a confiança de Gabe. Gabe era importante para mim, e Hunter não. ― Eu gosto de Gabe ― eu disse alto o suficiente. ― Ele me lembra alguém. ― Quem? ― Hunter perguntou. ― Tommy?

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Se antes tínhamos dificuldade para nos ouvir por causa do barulho, isso que Hunter disse parece ter sido ouvido bem claro por todos. ― Quem é Tommy? ― Kyle perguntou, e os outros se ajeitaram nas cadeiras para ouvir a resposta. Eu não achava que aquele era o melhor momento ou lugar para dizer que Tommy era o pai tranquilo de Hunter, e que Hunter e eu nos conhecíamos há muito tempo. Eu não podia confiar no garoto-lobo, nem em todos os outros que estavam ali, para contar o segredo do cavalariço. Hunter estava pensando a mesma coisa e mudou de assunto. ― Eu gosto da confiança que Gabe tem em nós para comentar sobre as histórias uns dos outros. ― Ele vai longe demais ― Brian disse. – Pedagogicamente falando, uma coisa é criar um ambiente cujo foco são os alunos, outra coisa é deixá-los intimidar uns aos outros. ― É intimidante expressar sua opinião? ― Manohar perguntou. Por algum motivo estávamos tendo certa dificuldade em ouvir uns aos outros novamente e ele começou a gritar. ―Se você deixar uma aluna de escrita criativa pensar que sua história é ótima, quando na verdade não é, você não a estará prejudicando? Se ela for péssima, ela precisa saber, para poder estudar outra coisa antes que seja tarde demais. Eu abri a boca e fechei-a, rápido, pois estava vulnerável e não queria que Manohar contasse a Gabe o segredo do cavalariço. Se o preço para isso fosse aceitar que ele discordasse de mim em público, eu podia viver com isso.

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Summer disse o que eu não tive coragem de dizer. ― Você está supondo que o estudante que faz o comentário sabe do que está falando. E se ele disser a outra escritora que ela é péssima e desencorajá-la, mas na verdade o trabalho dela for realmente bom? E se o estudante que fez o comentário for, por exemplo, um aluno de economia que está assistindo às aulas de escrita criativa apenas porque é necessário para seu histórico e na verdade ele não sabe de nada? ― Esta é apenas uma repetição da aula ― Hunter disse. – Se vamos conversar sobre escrita criativa, sejamos menos específicos. Eu queria que ele estivesse me ajudando, mas sabia que ele estava apenas controlando a situação e mantendo a calma, como sempre. E eu já estava cheia disso. ― Eu não acho que seja possível conversar sobre escrita criativa sem ser específico ― eu olhei para Kyle na minha frente. ― Você tem uma faca bem afiada? Ele piscou para mim e depois olhou para o copo. ― Você está falando sério? ― Estou, eu só vim aqui porque preciso de uma faca bem afiada e achei que você poderia ter uma. ― Eu não disse isso pensando nele como o "garoto-lobo" que precisou de uma faca no deserto. Esta conexão nem fazia sentido, pois ele era do Brooklyn. Brian levantou a mão e gritou: ― Eu tenho uma faca bastante afiada. ― Você pode me emprestar? ― Foi meu pai quem me deu.

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Eu olhei para ele através do vapor. ― Você pode me emprestar sem contar ao seu pai? ― Por que não vamos buscá-la em seu quarto? ― Hunter disse para Brian. ― Depois a levamos até o quarto de Erin e a usamos. Ela nunca terá saído da sua supervisão. Eu fiz um esforço para não dizer nada sobre o "nós" presunçoso de Hunter e sua decisão de que eu precisava de ajuda para usar a faca de Brian. Eu não conseguia esquecer suas mãos naquela garota. Brian olhou com cara feia por trás dos óculos escuros, mas ninguém estava imune ao charme de Hunter. Ele se levantou e disse para Summer: ― Você pode guardar o meu lugar? ― Kyle vai guardar, não é, Kyle? ― Summer perguntou. – Eu estou confortável aqui ― ela sorriu para mim. Eu supus que aquele era um sinal de que ela se sentia confortável com Manohar, mais do que confortável. Provavelmente o daiquiri de manga estava ajudando. Eu me senti desconfortável em deixá-la ali, mas, afinal, metade das pessoas naquele banheiro eram garotas e eu estaria a apenas três andares de distância. Com cuidado caminhei pelo piso escorregadio, supondo que Hunter e Brian estavam vindo atrás de mim. Estendi a mão para abrir a porta do banheiro, mas a mão de um homem a alcançou antes de mim e a abriu. Hunter, eu vi, olhando por cima do meu ombro. Eu saí para o corredor, senti o ar seco e frio e disse a mim mesma que a mudança de temperatura era o motivo de eu estar tremendo. ― Por aqui ― ele esticou o braço e tocou meu ombro.

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Eu e Brian fomos atrás dele, três portas abaixo. Brian pegou a chave no bolso da roupa de banho, mas Hunter alcançou sua própria chave antes e abriu a porta. O quarto deles estava organizado exatamente como o meu, mas parecia completamente diferente. Enquanto Brian abria uma gaveta da cômoda para pegar a famosa faca, eu observava sua colagem de pôsteres psicodélicos do chão ao teto. Hunter sentou-se com calma na outra cama. Sua parede estava vazia, quase como se ele e Brian estivessem em um impasse em relação à decoração. Eu fiquei sem jeito entre eles. ― Manohar ficou com o quarto pequeno? Como isso aconteceu? Eu conversei com várias pessoas nesse dormitório e sempre existe uma história por trás de quem fica com o quarto pequeno. Hunter colocou a mão na cama, me convidando para sentar. Envergonhada, eu balancei a cabeça. Ele falou, sem perder o ritmo: ― Eu não queria ficar lá. Aquele quarto é claustrofóbico. ― E eu saí do cubículo quando tinha treze anos ― Brian olhou para nós, com uma adaga brilhante na mão. ― Não vou voltar para lá― ele veio na minha direção com a faca. ― Brian! ― Hunter pulou da cama. ― Não dê isso a ela, porque ela nunca usou uma faca. ― Ela pediu ― Brian disse. ― Não é por isso que estamos aqui?― Você irá usá-la para ela, ou eu ― Hunter pegou a adaga pelo cabo. – Às vezes Erin não sabe o que é bom para ela.

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Com as costas desnudas e com a lâmina para baixo, como um homem da selva pronto para apunhalar a cobra que cruzar seu caminho, ele saiu do quarto. Brian e eu trocamos um olhar e saímos. ― Para que você precisa dessa faca? ― Brian me perguntou na escada. ― Meu creme facial já está acabando e eu não posso comprar um novo. Se eu cortar o tubo e colocá-lo em uma embalagem plástica, acho que consigo passar mais um mês com ele, talvez seis semanas. Hunter virou-se de repente no degrau abaixo do nosso. Brian e eu pulamos para trás, mas Hunter não viraria com a faca apontada na nossa direção. Ela estava abaixada, encostada no corpo dele. ― Por isso que você pediu a faca? Você não precisa de creme facial. Você está bonita. ― Isso é porque eu estou usando o creme ― eu disse ao mesmo tempo em que Brian disse. ― É porque ela está usando o creme ― e piscou os olhos. Chegamos ao segundo andar. Eu destranquei a porta, convidei-os para entrar e abri a porta interna que dava para o meu quartinho. ― Qual é sua história? ― Brian perguntou, mexendo nas minhas coisas. ― Como você veio parar nesse cubículo? ― Eu me ofereci ― disse, na entrada. ― Eu gosto dele. Hunter sussurrou: ― Você sempre gostou de cubículos. Eu me abracei depois de sentir um calafrio no corpo.

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Ele não me olhava nos olhos. Estava tocando o tecido verde transparente da roupa de dança do ventre que estava atrás da minha porta. Em um tom de voz normal, ele disse: ― Não acredito que você está fazendo aula de dança do ventre para os créditos de educação física. Isso não te fará bem nenhum. ― Eu acho tão legal! ― Brian exclamou. No fundo eu sabia que devia ter agradecido Brian por me defender, mas eu só conseguia pensar em Hunter, que tinha acariciado outra garota no chuveiro e depois teve a ousadia de se intrometer na minha vida. ― Qual crédito de educação física me fará algum bem? ― eu perguntei, desconfiada. ― Hipismo? ― Foi você quem disse isso ― ele murmurou ―, não eu. ― Eu gostei da ideia de deixar meu abdômen em forma ― eu disse, com sinceridade. ― Eu estou praticando há três semanas e veja só ― eu estufei a barriga e mostrei para ele. Estava gorda. Não que ele se importasse. Brian esticou a cabeça para fora do meu quarto. ― Você deveria colocar um piercing no umbigo ― ele desapareceu pela porta de novo. ― Você está brincando? ― eu disse. ― Sabe quanto isso custaria, sem mencionar o preço de um acessório para tapar o buraco? ― Sua avó ficaria furiosa ― Hunter disse, baixinho ―, como quando você colocou esse piercing ― ele tocou o piercing de diamante no meu nariz. Ficamos nos encarando por um longo e eletrizante momento.

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Eu bati na mão dele e sussurrei: ― Tudo o que eu faço não é para deixar minha avó furiosa. Eu não me importo com o que ela pensa. Passei agitada pela porta para entrar no meu quarto. Brian bisbilhotando tudo não tinha me incomodado, mas agora que Hunter estava vindo atrás de mim, eu olhei em volta freneticamente. Nada estava fora do lugar. Nada revelaria minhas fantasias secretas com Hunter. De qualquer forma, ele já conhecia todas elas. Brian ficou olhando para um quadro barato pregado na minha parede. ― Uau, uma carta de rejeição. você deveria tirar isso daqui. Isso não é desalentador? Droga, eu tinha esquecido a carta de rejeição. Significava muito para mim exibi-la. Naquele verão eu tinha terminado de escrever um romance no qual tinha trabalhado durante todo o meu último ano do ensino médio. Eu o enviei à editora e, depois de apenas um mês, recebi a carta de rejeição. Foi tudo bem rápido, eles devem ter odiado a história. Procurei o creme na gaveta da cômoda. ― Não, ela me estimula. Foi meu primeiro passo firme em direção à carreira de escritora que eu desejo. Brian olhou para mim. ― Uma carta de rejeição não deixa você um passo mais longe da carreira que você deseja? ― Não ― eu disse. ― Todos os escritores lidam com rejeições. ― Não os que são publicados ― Hunter enfatizou.

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Eu peguei o creme na gaveta. ― A faca, por favor. Em vez de me dar a faca, ele estendeu a mão para pegar o tubo. Eu entreguei e ele o colocou em cima da mesa, posicionando a lâmina sobre o tubo. Brian e eu nos inclinamos para observar. Eu queria ter certeza de que Hunter não cortaria o tubo e derramaria seu precioso conteúdo. Percebi, quando me aproximei dele, que o ar ao redor do seu corpo estava tão quente. Minha pele se aqueceu sem encostar na dele. ― Isso é como uma cirurgia, só que com um machado ― bem devagar ele abriu uma fenda no tubo, na parte inferior, e em seguida na parte superior, chegando até a tampa, e depois no meio, conectando o corte de cima ao de baixo. Com a ponta da lâmina, levantou uma das abas que tinha feito. ― Isso se abre como o compartimento de carga do ônibus espacial. ― Gênio ― eu disse. ― Meu herói. Ele ajeitou a postura e olhou para mim. Brian e eu também nos ajeitamos porque, quando Hunter fez isso, a faca ficou mais perto de nós. ― Você tem uma embalagem plástica para evitar que ele seque? ― Hunter me perguntou. ― Sim ― disse. Quando não me mexi, ele olhou para Brian e depois para mim. ― Deixe isso aí e volte para lá conosco ― ele me disse. ― Vocês podem ir ― eu balancei a cabeça mostrando meu livro de literatura americana (eca!) em cima da mesa. ― Tenho muita coisa para ler.

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Ele pareceu decepcionado. Ou era um ator melhor do que eu pensava, ou estava realmente surpreso por eu não ter aceitado voltar para a festa com ele depois de ele ter realizado com tanta coragem uma cirurgia no meu creme facial. ― Mas foi divertido ― disse. ― Foi um prazer. ― Olhei para Brian e disse: ― Você pode fazer um favor para mim? Pode se certificar de que Summer volte para casa sã e salva? ― Pode deixar ― Brian já tinha saído do meu quarto e ido em direção à porta externa. Hunter ficou lá por mais um tempo, com as sobrancelhas loiras caídas, desorientado porque outro homem havia sido encarregado de cuidar da minha amiga. Depois se recuperou, fazendo seu rosto voltar à beleza natural. ― Tenha uma ótima noite, Erin. Vejo você na aula. ― Obrigada, Hunter. ― disse, com um tom de voz um pouco sarcástico, mas sem exagero. Eu o acompanhei até a porta. Fechei e tranquei-a atrás dele e corri de volta para o meu quarto para tirar meu biquíni úmido antes de começar a sentir frio. Enquanto eu me trocava, dava para ouvir os passos deles. Minha janela saliente ficava em um canto do quarto, e as paredes do meu quarto ficavam de frente para a escada. Eu não quis colocar o travesseiro na outra ponta da cama porque eu ficaria vulnerável com a cabeça tão próxima da porta, mas em algumas noites eu ficava tentada, quando os estudantes gritavam e subiam a escada de madrugada. Nesta noite eu estava feliz por poder ouvir os rápidos passos de Brian, segurando o corrimão, e o ritmo mais lento e pesado de Hunter no meio dos degraus. Eu os ouvi subindo entre o segundo e o terceiro

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andar, terceiro e quarto, quarto e quinto, e seus passos desapareceram por trás da porta do quinto andar. Assim eu sabia que eles realmente tinham ido embora. A porta se fechou na festa. Hunter podia voltar para sua loira e eu podia voltar ao trabalho. Algumas horas depois, dois pares de passos voltaram a descer a escada. Um mais rápido do que antes e o outro mais devagar, um pouco embriagado. A voz de Brian ria na porta do outro quarto. A porta se fechou e apenas os passos embriagados tropeçaram entre as camas e Summer veio em direção ao meu quarto, empurrando meus livros e se enroscando no meu colo. Eu afastei seu cabelo moreno dos olhos fechados. ― Qual é o problema? ― eu bocejei. ― Eu falei sobre o cavalariço para Manohar ― ela murmurou. ― Ele ficou bravo comigo. Ele acha que eu não gosto dele e que a única razão pela qual eu estava paquerando ele foi para conseguir alguma coisa para você. Eu poderia ter sido recatada e dito: Achei que você só estivesse paquerando ele para conseguir alguma coisa para mim. Então você realmente gosta dele? Em vez disso, tentei ser reconfortante. ― Ele mora no mesmo dormitório que você e vocês terão aulas juntos durante todo o semestre. Você terá muitas oportunidades para resolver isso. Ele vai mudar de ideia. Ela se levantou e coçou as costas desnudas entre as alças do biquíni amarelo. Jordis chegou do estúdio de arte. Eu queria estar lendo sobre literatura americana (eca!), mas me concentrei nas palavras que disse para Summer. Pelo menos dessa vez eu acreditei nelas. Summer e Manohar eram brilhantes e divertidos e, se pudessem

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superar as barreiras impostas por seus próprios egos, nada os atrapalharia. Pelo menos isso é o que eu esperava. Toda noite durante meu intervalo de quinze minutos na cafeteria, eu olhava para os clientes, escolhia dois deles para ficar juntos e criava um final feliz para eles. No geral eles eram estudantes, porque a cafeteria era bem próxima do campus. Eles não tinham problemas reais, seus pais estavam pagando sua estadia na faculdade e o preço de um dos seus cafés noturnos poderia me manter com bolachas de manteiga de amendoirn por duas semanas. Qualquer um desses homens e mulheres poderia ser perfeito um para o outro. Eles apenas não sabiam disso, e nunca tinham se conhecido, exceto em um arquivo no meu laptop. Mas às vezes os consumidores eram jovens trabalhadores. Rapazes com cortes de cabelo da última moda, garotas com cabelo rebelde, mas com uma aparência estranhamente agradável, sem maquiagem, todas vestindo as roupas mais caras possíveis. Eu seria essa garota um dia. Se eu fizesse tudo certo e conseguisse o estágio na editora, poderia ser essa garota em janeiro. Ela adorava seu trabalho e estava pronta para a vida. Mal pôde acreditar em sua sorte quando o garoto lindo do departamento de não ficção adulta em sua editora foi até sua mesa e pediu para se sentar. Eu apreciava esses quinze minutos de escrita por dia. Ansiava por eles e, por mais que eu adorasse Summer, senti uma pontada de aborrecimento quando ela apareceu na cafeteria durante meu intervalo quase uma semana depois da festa estilo praia. Deve ter surgido mais algum problema entre ela e Manohar, pois a cafeteria estava fora do percurso que ela fazia. ― Ei! ― a chamei. ―Tudo bem?

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Ela deslizou na cadeira à minha frente. ― Eu estava acabando de voltar da biblioteca. ― Indo para o dormitório? Este não é seu caminho. ― É que eu queria perguntar uma coisa ― ela conteve um sorriso. ― Você já leu as histórias para a aula de escrita criativa de amanhã? ― Não! Eu tinha que fazer isso, mas atrasei a leitura e, quando sair do trabalho, preciso estudar para uma prova de cálculo de amanhã. Estou por um fio ― eu estremeci com a metáfora involuntária de corridas de cavalos ―, mas vou ler as histórias até a hora da aula. Por quê? ― A história de Hunter é sobre você. ― Como assim? A história dele é sobre mim? ― perguntei tão alto que meu chefe espiou pela porta dos fundos e colocou as mãos na cintura. ― Essa não ― Summer sussurrou. ― É melhor eu ir antes que cause algum problema para você. Tarde demais, mas eu ainda não podia deixá-la ir embora. Meu coração estava batendo tão forte que eu podia até morrer de curiosidade. ― Existe uma ruiva na história de Hunter? ― Não, mas... ― Obrigada pelo aviso. Vou ler amanhã ― eu fechei o laptop, dispensando-a, e voltei ao trabalho. Enquanto eu preparava um capuccino para minha próxima vítima, meu coração desacelerou. Eu não estava na história de Hunter. Isso era mais uma ilusão de Summer, que estava criando mentalmente uma história própria.

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Aquela ideia ficou na minha cabeça durante minha noite no trabalho, nas horas de estudo e na prova de cálculo que me pareceu razoavelmente boa na manhã seguinte, mesmo com Hunter sentado na sala. No entanto, uma hora antes da aula de escrita criativa, sozinha na biblioteca, absorvida na história literal e metaforicamente fumegante de Hunter, eu já não tinha tanta certeza.

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6 Visão embaçada Por Hunter Allen

SEUS AMIGOS PREPARAVAM UMA “festa estilo praia" no banheiro masculino e abriram todos os chuveiros no máximo. Disseram que o dormitório tinha um enorme aquecedor que nunca ficava sem água quente, como qualquer pedra de arenito pardo em Nova Iorque. Ele achou estranho, porque era do interior, onde as cercas eram feitas de pedra calcária que os trabalhadores escavaram em 1900, onde as plantações eram colocadas para secar em celeiros pintados de preto para aproveitar melhor o sol, onde a grama era verde o ano inteiro por causa do sol e da chuva e da pedra calcária que nutria o solo. Os humanos e a natureza viviam em harmonia no interior. Ele não entendia a cidade grande, onde o número de pessoas era maior do que o número de elementos naturais, e ainda assim o aquecedor nunca ficava sem água quente. ― Isso é tão bom ― disse a garota que estava com ele. Seu amigo, que estava preparando as bebidas, disse que a garota já tinha tomado três daiquiris de morango e já estava com o quarto copo na mão, que colocou sobre a saboneteira quando entrou debaixo do chuveiro

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quente, ensopando o maiô. Ela olhou para ele com os olhos entreabertos. Ele observou as gotas de água tocarem as paredes mofadas do banheiro e respingarem no copo de plástico transparente, formando uma camada de água quente no topo e uma segunda camada de suco de morango derretido no fundo. A bebida já não parecia tão deliciosa, mas ela estava tão bêbada que não se importava. ― Isso é bom mesmo ― ele colocou a mão em volta do latissimus dorsi da garota, esperando que o movimento fosse suave, mas sua pele encostou no corpo dela com uma tensão molhada. Ele mal tinha começado e já precisava de lubrificante. Seus amigos ririam dele por pensar isso. Todos os homens devem chegar à faculdade com experiência, devem saber como tocar uma garota no chuveiro na frente de metade do dormitório com suavidade, devem saber como levar a garota para a cama logo depois e fazê-la pensar que é uma boa ideia. Ele nunca admitiria para os amigos nem para ninguém, mas ele não tinha experiência, e o principal motivo por ele não ter adquirido muita experiência no ensino médio tinha acabado de entrar pela porta do banheiro bem atrás dele. Ele não a viu, pois estava de costas. Também não conseguiu ouvir sua voz rouca, mas ouviu as risadas da amiga da garota. E ele ficou observando o vapor dos chuveiros se assentar em camadas, igual ao gelo de sabor artificial no copo na saboneteira. O vapor dos chuveiros deveria ter se agitado quando ela e sua amiga abriram a porta do banheiro, mas tudo se acalmou quando ela se aproximou, como se o mundo inteiro tivesse se tranquilizado aos poucos em um galope, depois uma caminhada e finalmente uma parada.

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Ela olhou para ele tão fixamente que formou um buraco entre as omoplatas do garoto. Ela podia olhar o quanto quisesse, mas ele não se viraria. Nunca mais. Ela tinha deixado claro desde que eles tinham doze anos que ele não era bom o suficiente para ela. Se tinha mudado de ideia agora só porque ele estava tocando o latissimus dorsi de outra garota em um chuveiro público, ela podia se roer de inveja. Encostando o queixo no ombro da garota, com o dedo indicador ele desenhou um caminho prateado nas gotas de água que caíam em suas costas. A ponta do dedo chegou até a coluna e desenhou pequenos círculos, uma demonstração do que ele faria com outras partes do seu corpo mais tarde. Ele se perguntou se ela já estava bêbada demais para sentir seu toque e entender a indireta. Com os olhos ainda meio fechados, ela levantou o queixo e abriu um pouco os lábios, esperando um beijo. Em vez de beijá- la, ele apertou suas fossae lumbales laterales e parou. Ela era uma garota bonita, sem dúvida, e ele até sabia seu nome. A situação ainda não tinha chegado a esse nível de clichê, mas ele não sabia o que ela estudava, ou que planejava como carreira, ou de onde era. Seus amigos ririam dele se descobrissem que isso o incomodava. A outra garota atravessou o quarto atrás dele e se sentou em uma cadeira. Agora ele podia ouvi-la conversando como se não estivesse olhando fixamente para ele. ― Talvez não estivesse. Problema resolvido. Ele beijou a garota que estava na sua frente, encostando-a na parede, mas na verdade nem precisava encurralá-la, pois ela de boa vontade abriu a boca para ele.

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Talvez ela soubesse o que ele estudava e de onde ele era. Ele não tinha contado nada, mas talvez ela tivesse descoberto. Ou talvez isso não fosse tão importante. Foi o que ele disse a si mesmo quando colocou a língua em sua cavidade oral. Seus lábios eram zonas erógenas. Quanto mais intensamente ele a beijava, mais rápido seus sensores enviavam mensagens ao nucleus accumbens no cérebro dela e esse centro enviava uma sensação de formigamento ao mons pubis, despertando-o para a possibilidade de que ele podia ser o próximo. Ela e ele vinham de lugares diferentes e tinham poucas probabilidades de ser parentes. Sentir isso em seus feromônios era aparentemente toda a motivação que eles ou qualquer outra pessoa precisava para iniciar o ciclo reprodutivo. Ele estava deslizando a língua acima da clavícula quando ela apertou seus músculos peitorais, fingindo pedir que ele parasse. ― Está muito cheio aqui ― ela sussurrou, misturando sua respiração ao vapor. ― Será que poderíamos ir a um lugar mais reservado? Ela tinha dado o pontapé inicial e ele conseguiria o que queria sem se sentir culpado. Ele suspirou profundamente, satisfeito, saboreando o momento, e sentiu o cheiro de Stachybotrys crescendo nas paredes. Antes que pudesse voltar atrás, agarrou a mão da garota, epiderme com epiderme, e puxou-a em direção à porta. Havia muita gente, muito vapor, as luzes piscavam como em uma discoteca e ele ainda conseguiu ver de relance a garota que ele esperava que não estivesse atrás dele, observando-o.

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Do lado de fora do banheiro, no corredor frio, os mamilos de sua companheira ficaram rígidos debaixo do biquíni pela liberação de testosterona causada pelo álcool e de oxitocina causada pelas mãos dele em seu corpo. Quando ele a levava para seu quarto, ela tropeçou. Ele diminuiu o ritmo e com cuidado segurou os gluteus maximus para que ela não caísse antes de chegar ao destino. Ele fechou a porta. Ela se jogou na cama e tirou os chinelos. Estava muito mais preparada do que ele. Os amigos do garoto não aprovariam essa hesitação. Não havia nada de errado com este cenário. Nada. Ele a levantou, afastou a colcha e a fez sentar de novo sobre o lençol. Algodão, Gossypium hirsutum, em vez de seda, uma secreção de Bombyx mori,

mas ele estava na faculdade e ninguém perdia a

virgindade nas circunstâncias ideais. Do contrário, ele não teria uma história para contar quando tivesse cinquenta anos. Com cuidado, ele a colocou por cima, abriu sua roupa de banho e pressionou seu corpo contra o corpo da garota. Enquanto o nucleus accumbens em seu próprio cérebro se inundava, ele ficou pensando no tipo de monstro em que tinha se transformado.

― UM MONSTRO QUE CONSEGUE FAZER SEXO ― Kyle murmurou quando colocamos a história de Hunter no topo da pilha de papéis.

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Mas ele fez esse comentário por debaixo dos panos, não fazia parte da discussão oficial da aula. A discussão oficial, que começou com a opinião de Manohar, foi ainda pior: ― Eu só gostaria de agradecer Hunter por ter tido a coragem de compartilhar sua primeira vez conosco. A resposta veio em forma de urros e uivos e gargalhadas dos homens na turma, e isso deu o tom para a discussão sobre a história de Hunter. Eu esperava que alguém, talvez até Manohar ou Brian, dissesse que o local de origem "caipira equino" do narrador não era Long Island. As cercas de pedra calcária, os celeiros de tabaco e a grama verde no verão eram icônicos do Kentucky, região de Bluegrass, e qualquer pessoa que soubesse ler nas entrelinhas teria percebido que Hunter era meu cavalariço, mas ninguém mencionou isso. Eles estavam ocupados demais rindo do sexo. As mulheres discutiam o quanto a história era tocante, o quanto o narrador era vulnerável e o quanto era interessante conhecer o ponto de vista de um garoto sobre relacionamentos. Essa foi a forma educada de esconderem que na verdade elas já se sentiam atraídas por Hunter antes e agora mal podiam se segurar. Ele tinha se tornado uma estrela de cinema. Os homens riam e diziam que a história tinha acabado cedo demais, essa era sua forma de dizer que tinham percebido que todas as mulheres queriam Hunter e eles se arrependiam de não ter pensado nesse enredo. Eles estavam tão preocupados em vestir as roupas certas, ter o corte de cabelo certo e juntar dinheiro para os encontros que nenhum deles pensou em usar a aula de escrita criativa para conquistar garotas.

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Summer colocou a mão no queixo e ficou olhando para Manohar do outro lado da mesa. ― Você acha que essa história é sobre o quê, Manohar? ― ela se inclinou e disse a Gabe: ― Desculpe-me por falar na hora errada, mas acho que isso é importante ― e olhou para Manohar. ― Você não acha que essa história é sobre um amor não correspondido, acha? Você acha que é sobre fazer sexo. ― Sim! ― a maioria dos homens exclamou, enquanto a maioria das mulheres gritava: ― Não! Gabe e Hunter, nas extremidades opostas da mesa, escreviam em seus papéis sem levantar o olhar. Hunter estava sentado em sua cadeira, confortável, como se a turma discutisse suas histórias todos os dias. ― Mesmo sendo tão sem graça? ― Summer perguntou. ― Têm muito mais na história. Hunter é inteligente demais para isso. ― Você está exagerando ― Manohar disse. ― Ele está ironizando outra suposta história sensual escrita para esta aula. Está mostrando o quando a história era clínica, previsível e sem graça. Eu abri a boca para dizer a Manohar que já estava cheia disso. Uma coisa era ele insultar a minha história enquanto a discutíamos na aula, mas era demais ele fazer isso enquanto discutíamos a história de outra pessoa. Ele já tinha deixado claro que odiou a minha história. Já entendi. Dá um tempo! Como sempre, Summer foi mais rápida.

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― Não sei se Hunter fez isso de propósito ou se percebe que fez isso, mas há uma linda dicotomia entre o vocabulário que ele usa para as duas garotas. A garota que está no chuveiro é descrita em termos anatômicos, como um objeto. Ele até omite o sujeito em uma frase no começo, "Isso é bom mesmo". A sala se transformou em um alvoroço quando todos começaram a folhear as páginas, e quando encontraram o trecho houve uma pausa. ― Não! ― Manohar disse. ― Ele está respondendo à garota quando ela disse "Isso é tão bom". "lsso" significa estar no chuveiro. Summer o interrompeu. ― A garota que ele está tentando deixar com ciúmes nunca é descrita fisicamente. Ele expressa apenas emoções em relação a ela. Ele a ama tanto que nem consegue olhar para ela. Eu tinha decidido não olhar para Hunter enquanto a turma discutia a história e com certeza não espiaria agora para ver sua reação. Se Summer quisesse dar mais valor à relação dele comigo do que realmente havia, isso era problema dela, não meu. Eu estava muito interessada em ficar fora de futuras complicações envolvendo essa aula de escrita criativa e minha vida real. Para não esquecer isso, escrevi estágio várias vezes em uma folha de papel rascunho, não em minha cópia da história de Hunter, que eu teria que devolver para ele. ― Erin? ― Gabe perguntou. Neste chocante bilionésimo de segundo, eu pensei que Gabe estava perguntando a Hunter se eu era a garota que ele amava tanto. No horrível próximo bilionésimo de segundo, percebi meu erro idiota. Enquanto eu estava sonhando acordada, todos já tinham comentado sobre a história de Hunter. Summer tinha perdido a vez,

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pois já tinha respondido a Manohar e Gabe estava pedindo a minha opinião. Eu suspirei quando senti meu rosto corar. Meu rosto corava toda vez que Hunter mexia o dedo mindinho nesta aula. Bem na minha frente, Manohar deve ter pensado que eu tinha uma inflamação na pele. ― Essa história não é meu estilo ― eu comecei, passando o dedo pela margem da primeira página. Depois tirei a mão, percebendo que cortei o dedo, e me sentei sobre a mão machucada. ― Não gosto de histórias em que os personagens não conseguem o que querem... ― Mas eu acho que ele conseguiu o que queria ― disse Kyle. Outros garotos riram. Eu levantei o tom de voz. ― ... ou quando não sabem o que querern. Todos nós já ouvimos essas crises existenciais um milhão de vezes. Dito isso... Hunter... Ele olhou para mim quando eu disse seu nome. Eu não queria dizer isso para a turma em geral, falando nele na terceira pessoa. Esta mensagem era para ele, e eu queria que ele ouvisse. ― Achei sua narração lírica e descritiva, mas completamente clara. Pude visualizar este cenário na sauna. ― Quase como se você estivesse lá ― Brian comentou. ― Sério mesmo ― levantei a mão para calar Brian sem tirar os olhos de Hunter. ― Foi a melhor história que eu li até agora para esta matéria. Hunter inclinou a cabeça para rabiscar alguma coisa, sorrindo. ― Melhor do que a sua?

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A turma deu gargalhadas. Claro que ele agiria como um imbecil quando eu estava tentando ser gentil. ― Como eu disse, não é meu estilo. Outra coisa que eu gostaria de comentar... Todos ficaram quietos e eu me inclinei para frente, fazendo suspense. Eles esperavam outra cena, como minha resposta divertida ao que Manohar disse sobre minha história. ― ... é que não há nenhum diálogo ― eu concluí. ― Há diálogo, sim ― Brian disse. ― A garota diz "Isso é tão bom"― ele não resistiu e imitou avoz ardente da garota ― e depois o garoto diz... ― Sim, ela diz algo ― eu interrompi ― e depois ele diz outra coisa, mas a definição de diálogo é falar em conjunto, trocando ideias. Esses personagens nunca fazem isso. E o personagem principal nunca troca uma palavra com a garota misteriosa, que é muito mais importante do que a garota do chuveiro. ― Pensei que Hunter tivesse escrito assim de propósito ― disse Kyle. ― Talvez tenha sido essa a intenção ― eu disse. ― Essa escolha tem certo mérito artístico. Por outro lado, fazer os personagens importantes conversarem e interagirem teria sido mais difícil de escrever. Talvez Hunter tenha escolhido a opção mais fácil. Desta vez ele olhou para mim sem sorrir. Levantou o queixo, abriu os olhos azuis e me encarou do outro lado da mesa como se finalmente tivesse escutado o que eu estava dizendo.

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― Se não houver diálogo ― falei diretamente para ele ―, se não houver nenhuma conexão entre os personagens, nada acontece na história. Está tudo na cabeça do personagem e não há ação. ― Acho que teve bastante ação. Esse comentário estilo Manohar foi feito por um garoto que quase nunca dizia nada na sala de aula. Se até ele achava seguro me criticar, insistir no assunto era inútil. Eu olhei para Gabe, como um sinal de que já tinha terminado. ― Sua vez, Hunter ― ele disse. A turma ficou em silêncio enquanto Hunter terminava de fazer uma anotação na história, ou fingia terminar de escrever algo. Depois ele sorriu de uma forma brilhante para nós. ― Agradeço seus comentários. Eu estava um pouco nervoso por ser minha primeira vez ― todos riram, porque ele era tão hilário ―, mas não foi tão doloroso quanto pensei. A opinião de vocês me ajudará a revisar esta história para meu portfólio no fim do semestre ― ele parecia tão formal. ― Você quis mesmo evitar os diálogos? ― Summer insistiu. ― Era difícil demais escrever diálogos, como Erin disse? Ele continuou sorrindo, sem graça, até que o sorriso desapareceu de seus olhos azuis. ― Gabe pode tomar isso como uma exceção, mas sinto que minha contribuição para a turma no dia em que a minha história está sendo discutida é a própria história. Vocês me dizem o que acharam da narração e eu aprendo com isso. Eu não deveria responder à resposta de vocês. Isso não seria mais escrita criativa para calouros, seria psicologia para calouros, e eu não preciso de terapia.

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― Talvez você precise ― Isabelle disse, ao lado dele. ―Talvez você tenha escrito algo que nunca pretendeu. Você poderia aprender muito sobre si mesmo. ― Eu sempre faço exatamente o que pretendo ―Hunter respondeu. Treze pessoas olharam para ele. Hunter não perdia a calma. Eu sabia disso depois de seis anos no colégio com ele. Até seus novos amigos agora já sabiam disso sobre ele. Ele percebeu o que tinha feito. O lento sorriso se abriu em seu rosto de novo. Ele piscou para Isabelle. ― Mas agradeço o conselho. Eu sinceramente aprecio o trabalho que vocês tiveram em criticar minha história. 127

A DISCUSSÃO PASSOU PARA A HISTÓRIA DE OUTRO COLEGA, mas o que eu disse sobre aquele não ser "meu estilo" gerou outra discussão entre Summer e Manohar sobre os estilos apropriados para o curso. O tempo da aula acabou, eu tinha que me levantar e ir embora antes que Gabe nos liberasse e, ainda assim, chegaria atrasada na cafeteria. Não importava. Durante todo o meu turno eu só conseguia pensar na história de Hunter. Eu sabia exatamente sobre o que Summer estava falando quando entrei no nosso quarto seis horas depois. ― Estava contando a Jordis tudo o que aconteceu ― ela me mostrou uma tesoura.


― Meu cavalariço era loiro ― eu protestei, pegando a tesoura e a revista que Jordis me entregou e me sentando nos travesseiros ao lado dela. ― Se essa garota sou eu, por que ela não é ruiva e não tem o rosto cheio de sardas? Eu não sou tão difícil de descrever. ― Exatamente ― Summer disse. ―Ele não poderia dizer que ela era ruiva, porque todos saberiam que era você. Ninguém suspeitou que ele era o cavalariço na sua história porque ele nem tinha aparecido ainda quando você entregou a história, mas essa garota é você. E óbvio. Desde que ele tinha doze anos, essa garota o fazia sentir como se o mundo parasse de girar. Ele ainda é virgem porque, se não pudesse ter essa garota no ensino médio, não queria mais ninguém. Ela até tem sua voz rouca. Eu estremeci. ― Sim, tudo se resume ao sexo, não é? ― Aceitei a descrição da voz rouca. Só porque eu era contralto não queria dizer que ele tinha que me fazer parecer um puma. ― E como você pode ignorar o fato de que ele estava falando de você? ― Summer insistiu. Eu não estava ignorando nada. Percebi que ele estava falando de mim, mas também sabia que ele não estava levando nada disso a sério. Se ele sentisse mesmo alguma coisa por mim, não teria roubado minha fortuna. Não adiantava explicar isso para Summer, porque ela encontraria uma forma de transformar o roubo de cento e quarenta e sete cavalos em um gesto romântico. Eu balancei a cabeça ― Ainda que a garota fosse eu, o garoto na história conhece anatomia, portanto, não pode ser Hunter.

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― Hunter está fazendo aula de anatomia ― Summer disse. Minha tesoura parou no meio da página da revista e o barulho metálico da tesoura de Summer e Jordis entrou nos meus ouvidos como uma campainha. Eu comecei a cortar de novo antes que elas percebessem que eu tinha parado. ― Não, ele não está ― eu disse a Summer. ― Ele está estudando administração. Por que teria aulas de anatomia? ― Não sei ― ela admitiu ―, mas eu vi o livro de anatomia em cima da cama dele quando eu fui ao quarto de Manohar ontem. ― E por que você foi ao quarto de Manohar ontem? ― Jordis perguntou com tanta insinuação quanto seu sotaque dinamarquês permitia. ― Não foi nada disso ― Summer assegurou. ― Eu estava passando no corredor do lado de fora do quarto dele... ― Porque você por acaso estava três andares acima, no andar dos garotos, sem um motivo aparente ― entrei na dança. Rindo, ela colocou a mão na boca. ― ... e ele me convidou para entrar porque estava fazendo uma sopa indiana e queria que eu provasse. Jordis e eu começamos a rir, cuidando para deixar as tesouras de lado quando nos contorcíamos na cama. Summer sorriu, melancólica. Finalmente Jordis disse: ― Você provou a sopa indiana dele! Estava boa? ― Estava razoável ― Summer disse. ― Eu teria que me acostumar...

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Jordis e eu rimos ainda mais. Eu perguntei a Summer, rindo e tossindo: ― Você vai provar a sopa indiana dele de novo? Ainda sorrindo, ela balançou a cabeça. ― Às vezes sopa indiana é apenas sopa indiana. ― Tá bom ― Jordis e eu dissemos juntas. Eu estava decepcionada por Summer não ter progredido em seu romance com Manohar. Eu queria poder enviá-la em outra missão, já que ela parecia precisar de uma desculpa para se aproximar dele, mas não me atrevi. Se Manohar estava tão irritado quanto Summer disse sobre ser manipulado em relação à questão do cavalariço, eu não queria pressionar. Gabe ainda não tinha me chamado em seu escritório para conversar e já era a terceira semana de aula. Talvez eu tenha me livrado de um problema. ― De qualquer forma ― Summer disse ―, Hunter está fazendo aula de anatomia. Tudo o que aconteceu na história é exatamente o que aconteceu na festa estilo praia. Isso quer dizer que ele gosta de você, Erin. ― Também quer dizer que ele dormiu com aquela loira ― eu lembrei. ― Se ele fez isso, pelo menos quer que você saiba ― Summer disse. ― Preciso dar um jeito de ler essa história ― Jordis disse. ― Mas ele não dormiu com aquela garota ― Summer disse, descartando a ideia com um movimento da tesoura. ― Lembre-se de

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que ele saiu da festa com você e Brian. Ele e Brian voltaram. Eu vi a loira outras vezes, mas nunca com ele. ― Quem foi embora primeiro? ― eu perguntei. ― Eu podia ouvir a música daqui. Você discutiu com Manohar e foi embora algumas horas depois que a festa terminou. Hunter teve tempo de sobra para ficar com ela. E parece que ficou.

ACODEI DE MADRUGADA. Fiquei deitada na cama por um longo tempo sem perceber que estava acordada. Finalmente algo me fez rolar e olhar pela janela perto da cabeceira da minha cama bem na hora em que Hunter voltava para o dormitório. Ele estava no andar de baixo, a alguns passos da varanda, e as folhas vermelhas nas árvores o ocultavam sob as sombras dos postes, mas eu sabia que era ele pela forma como ele caminhava. Seu casaco estava aberto, mostrando o jeans e a camiseta casual. Casaco? O outono mal tinha começado, não fazia tanto frio, mas ao ver o relógio na minha mesa de cabeceira, percebi que devia estar fazendo frio, pois eram quatro e meia da manhã. O vento bateu na parte de trás do casaco quando ele segurou no corrimão da escada. Ele suspirou, querendo chegar mais rápido à sua cama. Eu conhecia essa sensação. Ele desapareceu debaixo do toldo. Através dos andares e das paredes, escutei o barulho de seus dedos nos botões quando ele digitou a combinação da fechadura, depois o ranger da porta se abrindo para ele. Ele a fechou com cuidado, o que eu não esperava. Eu nunca tinha

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observado a forma como ele abria e fechava as portas quando outras pessoas estavam dormindo, mas ele tinha me causado tantos problemas ultimamente que eu esperava que ele batesse a porta com força. Ele não bateu. Quase não escutei quando ele fechou a porta. Depois ouvi seus passos na escada, primeiro rápidos, ainda empolgados para ir dormir, depois devagar, quando ele chegou ao meu andar. Agora ele estava o mais perto de mim possível, segurando o corrimão do segundo andar em direção ao próximo lance de escadas, apoiando o peso no corrimão, exausto. Se eu saltasse da cama e corresse pelo quarto de Summer e Jordis e chegasse ao corredor, poderia alcançá-lo. Seus olhos azuis sonolentos se arregalariam, surpresos, depois voltariam ao normal quando ele percebesse que era eu. E ele se foi, subindo os primeiros degraus do segundo lance de escadas com a energia renovada, desacelerando ao chegar no topo. Uma pausa quando ele deu a volta no corrimão do terceiro lance de escadas. Passos mais silenciosos agora, cada vez mais devagar. Um chiado quando ele abriu a porta de casa no quinto andar. Uma pancada quando a fechou. Aberta e fechada, feito e acabado. Fechei meu coração para ele. Pensei que tinha consegui esquecê-lo dez vezes. Todas as vezes eu estava errada. Ele sempre dava um jeito de voltar ao meu coração e sabotá-lo. Esta vez seria a última. Na calada da noite ele tinha ido visitar aquela loira e agora estava voltando para casa.

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7 MINHA PRÓXIMA HISTÓRIA ERA PARA o dia seguinte. Eu poderia ter escrito uma história acusando-o de dormir com aquela garota, mas eu nunca tinha pretendido intimá-lo e certamente não escreveria outra história sobre ele agora. O problema era que eu tinha perdido meu gosto por escrever romances, pelo menos para que essas pessoas lessem e Hunter sorrisse maliciosamente e Manohar as ridicularizasse. Meu laptop e eu ainda jogávamos Cupido durante o intervalo na cafeteria e, durante algumas horas preciosas, eu passava o tempo nos fins de semana escrevendo e observando as pessoas no parque, mas isso era para mim, não para mostrar aos outros. Para a aula, escrevi uma história sobre uma menina que lidava com uma grande tragédia e se escondia no armário de uma casa enorme e vazia. Uma figura autoritária, malvada e sem nome andava pesadamente pelos corredores, mandando os empregados verem se a menina estava no armário. Ela nunca se aventurava dentro de si mesma. Duas semanas depois, minha próxima história foi sobre uma aluna da sétima série obcecada com a ideia de que, se ganhasse o concurso de ortografia do ensino fundamental e avançasse para a próxima rodada,

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veria seu pai na plateia. Ele finalmente tinha vindo vê-la! Mas ela nunca avançou porque soletrou deserção com dois s. Talvez eu estivesse tentando contar a Hunter um pouco sobre mim mesma através dessas histórias e pedir desculpas de maneira muito indireta por não ter tido muito contato com ele no ensino médio. Como sempre, eu não sabia se ele tinha sido afetado por elas ou não, porque na sala de aula ele fazia comentários frios e compreensivos e no papel ele escrevia comentários técnicos úteis. Ai, ai. Mas eu achava que essas histórias me aproximariam mais do estágio na editora, se é que Gabe tinha alguma influência. Ele parecia animado com minhas narrações durante a aula e escreveu a lápis que eu aproveitava as oportunidades e estava crescendo como escritora. Meus colegas também pareciam impressionados e discutiram minhas histórias com entusiasmo, inventando significados absurdos para o que era essencialmente as páginas do meu diário do ensino fundamental. Fiquei surpresa e decepcionada por meus colegas de classe gostarem tanto dessas histórias, porque eu as odiava. Decidi que todos eles estavam deprimidos. Algumas semanas mais tarde, as meninas da classe, até Summer, colocavam a mão na boca e riam, esperando ansiosas as histórias sensuais de Hunter, mas para mim a história que ele escreveu sobre uma cartomante parecia o capítulo dois da "Unidade de Anatomia sobre o Sistema Reprodutor". E ele não usava suas histórias como uma forma de insinuar que gostava de mim. Nem o fato de ele estar sentado na cama de Jordis em uma tarde de sexta-feira quando eu passei com minha roupa de dança do ventre. Sim, eu sabia que era estranho andar com ela pela rua, e minha avó morreria se me visse assim, mas com o casaco por cima não

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parecia muito mais estranho do que as outras esquisitices que os novaiorquinos usavam em público. Eu passei de propósito na frente de Hunter. ― Oi, Erin ― ele disse, sem tirar os olhos do recorte. ― Oi, Hunter ― eu disse, sem desacelerar. Entrei no meu quarto e empurrei a porta até que ficasse aberta apenas uma fresta. Fiquei ali olhando pela janela da sacada por um momento. Normalmente depois disso eu fecharia as cortinas. Lentamente alcancei o puxador da primeira cortina, mas, mesmo depois de ter fechado todas elas, saber que Hunter estava do outro lado da porta enquanto eu me trocava me fez sentir tão quente e exposta como se elas estivessem totalmente abertas. Pendurei minha roupa de dança do ventre em um gancho dentro do quarto, em vez de deixá-la do lado de fora da porta, onde ela costumava ficar, pois pareceria uma tentativa dolorosamente óbvia de chamar a atenção de Hunter. Preparei meu jantar, que era um pacote de bolacha de amendoim e me deitei na cama para estudar. Ouvi Hunter do lado de fora. Fiquei esperando ele abrir a porta. É claro que ele não fez isso. Eu me sentia incomodada por ele não vir me perturbar, e ele sabia disso. No entanto, eu tinha prometido fechar meu coração para ele, e dessa vez era para valer. Fiz o que pude para me concentrar no estudo de História. Mas era uma luta entre História e Hunter. Depois de meia hora de tortura, espiei pela porta. Eu me sentiria boba se tivesse ficado pensando em Hunter e perdido meia hora do

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meu precioso tempo para fazer a lição de casa quando ele nem estava lá. Ele estava dormindo. Sem acreditar no que eu estava vendo, cruzei o quarto na ponta dos pés para ver mais de perto. Aluzdo teto e do abajur do lado da cama de Jordis brilhava sobre Hunter como se ele estivesse numa sala de operações, mas ele estava morto para o mundo, estava encolhido na ponta da cama de Jordis. Suas pálpebras não vibraram quando eu parei do lado dele. Seus longos cílios loiros lançavam sombras sobre sua bochecha macia e sua camiseta cara tinha se afastado do cinto, revelando sua musculatura rígida e a longa cicatriz branca. As visitas à loira durante as madrugadas devem ter sido desgastantes. Irritada como eu estava, me identifiquei com ele. Se eu estivesse tirando uma soneca em outro dormitório ou na biblioteca, não ia querer ser acordada. Deslizei a tesoura com muito cuidado pela ponta de seus dedos, longe de seus olhos, e coloquei-a na mesa de cabeceira. Depois voltei para o meu quarto, mas não demorou muito para que Summer saltasse em minha cama, parecendo muito mais animada com a presença de Hunter do que eu. ― A cicatriz dele está aparecendo ― ela sussurrou. ― Você deveria esfregar as costas dele, afagar o cabelo ou algo assim. ― Ele não é um filhotinho ― eu respondi ― e eu duvido que ele goste disso. Ele não está aqui por minha causa. ― Claro que está! ― Summer insistiu.

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― Ele está recortando rostos para Jardis ― eu a corrigi. ― Todos no dormitório já recortaram rostos para Jordis em algum momento. ― Sim, mas a maioria não volta aqui. Ela tinha razão. Verdade seja dita, eu achava que Hunter estava lá por minha causa, eu só não sabia por quê. Suspirei e sussurrei: ― Ele já pegou o dinheiro da minha faculdade e minha herança e já conseguiu uma carreira na minha fazenda. Ele não tem nenhum motivo para me paquerar e às vezes me insulta e tenta me fazer sentir horrível por fugir da minha avó. ― Ele gosta de você ― Summer sussurrou. ― Mais do que isso, está interessado em você para um romance. ― Ah, é? Então por que ele agarrou aquela loira dentro do banheiro durante a festa? ― Ele estava tentando fazer você sentir ciúmes ― Summer disse, com muita paciência ―, assim como na história dele. Ele está dando dicas óbvias e você está escolhendo ignorá-las. ― Isso não combina com ele. Se ele me quer, por que não me diz? Ela encolheu os ombros. ― Você é tão defensiva. Você guarda um ressentimento enorme e a história do incidente com o cavalariço não ajudou. Não estou dizendo que tudo isso é culpa sua, eu também ficaria na defensiva. Estou dizendo que é um obstáculo e ele está tentando contorná-lo, mas você continua bloqueando o caminho. Eu queria acreditar nela, mas parecia muito simples. ― Você sabe por que ele está dormindo a essa hora? Ela balançou a cabeça.

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― Ele tem saído às 23h30 e voltado às 4h30 três ou quatro noites por semana ― ela me olhou de um jeito estranho e eu me apressei. – Não estou espionando. Acordei quando ele desceu as escadas tarde da noite e o vi andando pela calçada. Depois vi quando ele voltou ― mostrei a janela da minha sacada. ― Talvez ele tenha um emprego ― disse ela. ― Ele não precisa de um emprego. Ele tem a minha avó. Não colocaria em risco suas notas perfeitas por um dinheiro extra. Além do mais, os dias dele não têm um padrão. Eu sempre trabalho das 17h00 às 23h00 de segunda a quinta. A única razão pela qual minha programação do fim de semana está irregular é que estamos no período mais movimentado e meu chefe quer que eu faça o mínimo possível de cafés ruins para reduzir os prejuízos ― senti minhas narinas queimarem quando disse: ― Hunter está visitando aquela loira. Summer me olhou, severa. ― Você inventou isso. Eu inventei? Ele era muito namorador no ensino médio, mas as meninas com quem ele saía falavam dele como se fosse o perfeito cavalheiro. Elas só ficavam tristes e confusas porque ele não as chamava para sair novamente. Ele não era do tipo que saía dormindo por aí, e definitivamente não era do tipo que dorme por aí e depois escreve uma história detalhando tudo para a turma da faculdade. Mas o que eu realmente sei sobre Hunter? Eu sentia uma forte conexão com ele, porque nossos caminhos nos últimos seis anos tinham se cruzado, mas não éramos amigos. E essa ligação que eu

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sentia com ele... Talvez eu tivesse inventado isso também, afinal, eu era uma escritora. ― Ele vai ver aquela cartomante da segunda história ― sugeri, mas não, realmente não acreditava nisso, só queria que Summer me tranquilizasse. Ela pareceu impaciente. ― Hunter Allen não está transando com uma cartomante, está entretendo os homens da classe, fascinando as mulheres e provocando você. Olha como você está alterada ― ela saltou de cima da minha cama e voltou para o outro quarto. Alguns minutos passaram e eu não tinha feito nada do dever de casa. Podia ouvi-la folheando silenciosamente um livro. Finalmente ouvi o ruído do colchão de Jordis. Um travesseiro caiu no chão. Ouvi Hunter e Summer conversando. Summer: ― Acorde dorminhoco. Hunter: ― Minha nossa, sinto muito. Summer: ― Você não deve recortar rostos para Jordis quando estiver tão cansado. As bordas estão muito largas, ela vai ficar furiosa. Hunter, depois de bocejar: ― Ela precisa de uma borda mais larga para sobrepor as fotos nas telas, acho que ela não pensou nisso. Summer: ― Só estou avisando. Hunter: ― Obrigado pelo aviso. A conversa terminou e depois de vários minutos de silêncio eu percebi que estava me esforçando para ouvir através da parede, em vez de estudar história, então abaixei a cabeça e comecei a ler o livro. ― Ei ― Hunter disse, aproximando-se de mim.

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Deixei escapar um suspiro abafado e meu livro e laptop voaram em direções diferentes. ― Desculpe, desculpe ― ele me tranquilizou, levantando as duas mãos para me acalmar. ― Esqueci que você se assusta fácil. ― Qual é o problema? ― Summer enflou a cabeça pela porta. ― O que você fez com ela? ― Ela se assusta fácil ― Hunter parecia um pouco chateado. ― Foi um acidente. Summer me olhou, inquieta, depois piscou para mim e desapareceu. Eu respirei fundo e estremeci, sentido o coração acelerado. Peguei o laptop que Hunter me passou, depois o livro de História. ― Não ouvi você atravessar o quarto. Você por acaso é um ninja? ― Talvez ― ele respondeu, sentando na minha cama com aquele sorriso que me fez suspeitar que sua próxima história para a aula de Gabe seria sobre um ninja, mas era tão difícil ficar na defensiva quando ele combinava o sorriso com aqueles olhos azuis sonolentos. ― Eu não queria dormir lá. Pensei que você fosse lá falar comigo vestindo a roupa de dança do ventre ― ele mostrou o amontoado de tecido verde que tinha caído do gancho no canto do quarto. Na minha cabeça o que ele quis dizer foi: Passei as mãos por todo o corpo daquela garota no chuveiro e depois escrevi uma história sobre como transei com ela. Também escrevi uma história sobre sexo com uma cartomante. Então não vejo por que você não foi até o quarto da Jordis me paquerar. Parecia que era isso que ele estava querendo dizer, mas eu não tinha certeza.

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― Tenho muito dever de casa ― disse. ― E eu tenho uma proposta. ― Tá bom ― eu disse, com cautela. Tentei manter meu tom de desinteresse, mas estava morrendo de vontade de saber o que era. ― Eu prometi que não contaria a Gabe sobre o... ― ele colocou a mão sobre a perna. Isso significava história embaraçosa sobre o cavalariço. Ele continuou: ― Mas eu disse que não podia me responsabilizar por Brian ou Manohar. ― Ai, não ― eu sussurrei. ― Escute ― ele colocou a mão no meu tornozelo. ― Brian não vai direr nada. Ele gosta de você, gosta de Summer, e Summer tem trabalhado duro com ele, mas Manohar precisa de um favor. Eu balancei a cabeça, sinalizando para que ele continuasse e esperando poder ouvi-lo mesmo com o sangue pulsando nas minhas orelhas. Foi esse o efeito de sua mão no meu tornozelo. ― Manohar quer fazer parte de uma fraternidade ― Hunter disse ― e alguns dos membros mais velhos e mais influentes vão viajar para Belmont Park amanhã. Manohar poderia cair nas graças deles se levasse alguém que entende de corridas de cavalos. Eu franzi as sobrancelhas. ― Você quer que eu dê vantagem para eles nas corridas? Mas você também não vai? Por que não faz isso? ― Não sou tão bom quanto você ― ele disse. ― Eu me interessava mais pela parte do treinamento e gostava de prever quais potros treinariam melhor, mas eu não assistia as corridas, ficava no estábulo escovando os cavalos ― ele apertou com força meu tornozelo e eu

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fiquei me perguntando se foi inconsciente. ― Você era a única que ficava na arquibancada, observando todo o panorama. Eu poderia ter discutido com ele, porque ele sabia, assim como eu, que as corridas de cavalos eram imprevisíveis. Mesmo que eu pudesse fazer suposições sobre os cavalos vencedores melhor do que a maioria das pessoas, nunca pensei em usar meus conhecimentos para fazer apostas em Belmont Park. Se eu achasse que podia ganhar dinheiro assim, não estaria trabalhando na cafeteria. Mas se eu começasse essa discussão, quebraria a promessa de silêncio de Manohar. Acabei dizendo: ― Ótimo! ― Um dos rapazes vai pegar emprestada uma limusine da empresa do pai ― Hunter disse ― e vai nos buscar em frente ao dormitório ao meio-dia ― ele olhou para a mão no meu tornozelo como se não tivesse percebido que ela estava ali, retirou-a e se levantou. Eu quase esqueci de perguntar: ― Posso levar Summer? ― Claro ― disse ele, num tom que pareceu que já estava esperando essa pergunta. Summer colocou a cabeça dentro do quarto de novo. ― Para onde nós vamos? ― Hunter ― Jordis gritou no outro quarto ―, o que você andou fazendo com essas bordas? Eu disse para não cortar a borda tão larga!

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Hunter sorriu para mim, como se fôssemos cúmplices, pois compreendíamos Jordis e sua tendência a exagerar em relação aos recortes. Eu não devolvi o sorriso, mas nem precisava. Hunter podia me fazer sentir sua parceira mesmo quando eu não queria. ― Bons sonhos, Erin ― ele disse e foi acalmar Jordis.

AO MEIO-DIA DO DIA SEGUINTE, SUMMER e eu descemos as escadas em frente ao dormitório no meio a um bando de seis rapazes, que disseram que eu estava usando um chapéu legal. Meu chapéu era de veludo e abas largas, minha avó tinha comprado para mim para a reunião de outono em Churchill Downs no ano passado. Eu precisava dele nesta tarde fria e clara e não precisava de mais nenhuma sarda. Tudo bem, talvez eu quisesse mostrar para Hunter que ainda tinha um pingo de senso de moda. Escolhi um suéter de lã salpicado de verde e uma saia bege de camurça para combinar com o chapéu. Em comparação, perto de mim os garotos pareciam subordinados, com exceção de Hunter, claro, que já tinha previsto o que eu vestiria para uma corrida de cavalos, mesmo em Nova Iorque. Ele usava calça cáqui e um blazer e, com o cabelo loiro perfeitamente penteado e um pouco bagunçado pela brisa, parecia que o pai dele era o dono do clube de campo.

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― Obrigada - eu disse. ― Carro bonito. CASA FUNERÁRIA NIEWIAROWSKI & FILHOS ― VÁ EMBORA COM ESTILO estava pintado na porta da limusine em letra cursiva dourada. ― Oi ― disse o garoto que tinha trabalhado como garçom na festa do banheiro. ― Você tem sorte que não trouxemos o carro funerário. ― Para com isso ― quis dizer, tentando imitar o sotaque dele, mas na verdade eu precisava ser boazinha para calar Manohar para sempre, portanto apenas sorri ao ver a expressão horrorizada de Summer quando os rapazes abriram a porta da limusine e nos ajudaram a entrar. Deslizei pelo banco até a outra porta e Summer sentou do meu lado. Ela deve ter ficado um pouco assustada com a ideia de andar em uma limusine funerária, pois até se inclinou para olhar debaixo do banco. Os rapazes fecharam a porta e pareciam estar conversando discretamente. Achei que eles pudessem estar tramando algo. Obviamente, quando a porta se abriu, Hunter entrou e sentou no banco à nossa frente, deslizando até a outra porta e parando bem de frente para mim. Manohar sentou do lado dele, de frente para Summer. Ele estava feliz por ela ter vindo, mas era teimoso demais para dizer isso. Mais dois rapazes sentaram do nosso lado e os outros dois subiram no banco da frente. Hunter me olhava, claro e brilhante na minha frente, o cabelo loiro e olhos azuis em contraste com a limusine preta, mas fomos poupados de uma conversa forçada porque os outros garotos começaram afazer barulho de novo. Eles eram impetuosos e adoráveis se você gostasse de nerds. Os garotos que estavam atrás conosco gritavam citações de filmes pela pequena janela para os meninos que estavam na frente. No

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meio do barulho, Summer e Manohar, hesitantes, começaram a conversar. Eu esperava uma curta viagem por Manhattan, mas os garotos quiseram se afastar algumas quadras do nosso caminho para evitar o pedágio do túnel do centro da cidade. Olhei pela janela e observei a cidade passar. Nova Iorque era enorme, mas tudo o que eu via todos os dias eram os mesmos prédios da faculdade e as mansões. A Sexta Avenida era um mundo diferente. Passamos pela Fortieth Street. Dois quarteirões depois, Manohar disse que deveríamos observar a parte de baixo da rua para ver de relance a Times Square, mas eu ainda estava me inclinando sobre Hunter e olhando para o prédio da Kensington Books, me perguntando se, caso eu trabalhasse lá, almoçaria e faria uma pausa para escrever naquele grande parque. Alguns minutos depois, Summer deu um grito quando Manohar apontou para o Rockefeller Center. Eu estava olhando em outra direção, o prédio estranhamente severo da Simon & Schuster, como se tivesse saído de um filme de Charlie Chaplin sobre a época da Grande Depressão, quando as pessoas temiam o futuro. No início do semestre, quando visitamos o Museu de Arte Moderna, eu arrastei Summer comigo para conhecer o edifício HarperCollins, uma moderna monstruosidade listrada de preto e branco, mas agora eu olheipara ele novamente me imaginando como uma estagiária na editora, passando por aquelas portas de vidro. Eu não conseguia tirar os olhos dele. De repente, Summer exclamou: ― Olhem, lá está a escultura do AMOR! Eu ainda estava observando o arranha-céu pela janela de trás da limusine quando fizemos uma curva fechada no Central Park, fazendo Summer cair no meu colo.

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Na comoção que se seguiu, enquanto Hunter olhava indignado para Manohar e outro garoto, que tinham caído sobre ele também, Summer sussurrou para mim: ― Esses meninos da cidade não podem dirigir. Eu balancei a cabeça. ― Hunter vai se aproveitar disso. Ela arregalou os olhos. ― Para quê? ― Ele não suporta não estar no comando, garanto que ele vai encontrar uma maneira de nos levar de volta para casa. ― Bebida, senhoras? O garçom, que estava dirigindo, passou uma garrafa de uísque do Kentucky através da pequena janela. Parece que a limusine era usada por pessoas que bebiam muito, porque os garotos que estavam conosco tiraram alguns copos de um compartimento secreto na parte de trás do assento do motorista e circularam a garrafa. Hunter levantou a mão, recusando. Como eu pensava. Depois que todo mundo ficasse bêbado, ele poderia dirigir a limusine na volta, porque seria o último a ficar de pé. ― Bebida? ― Hunter me perguntou. Um dos meninos estava tentando me passar um copo. ― Não, obrigada ― respondi. Quando os meninos começaram a conversar de novo, ele me perguntou baixinho: ― Mais tarefa de História esta noite?

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― Cálculo ― eu respondi. ― Não posso deixar para amanhã, estou trabalhando doze horas por dia. Eu tinha tomado cuidado para não ousar parecer arrogante. Ainda assim, esperava que as palavras o fizessem ficar quieto, mas não tive essa sorte. Ele disse: ― Você está muito cansada. ― Não estou cansada ― eu olhei para ele, desconfiada. ― Como você pode dizer que estou cansada? Talvez eu tivesse sido muito mesquinha com o resto do meu creme milagroso e precisasse usar um pouco mais debaixo dos olhos. ― Quando você está cansada, levanta o queixo ― ele demonstrou, empinando o nariz. ― Você parece mais orgulhosa do que o habitual. ― Interessante ― eu disse. ― Eu não quis dizer isso ― ele se espalhou ainda mais no banco, com o braço encostado na janela e um tornozelo sobre o outro joelho, ocupando mais do que sua cota de espaço, como sempre. Depois sorriu, arrogante. ― Gosto quando você fica orgulhosa. Eu não sabia o que dizer. Ele estava flertando comigo mais uma vez.Tentei não parecer lisonjeada. Ele flertou comigo na festa da praia, logo depois de passar a mão pelo corpo daquela loira. Paquerar não significava nada para ele. Eu disse, evasiva: ― Acho que é o chapéu. ― O quê? ― Summer gritou para Manohar ― Não consigo ouvir.

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Ela olhou para os outros garotos. ― Acalmem-se! Isso está parecendo um acampamento de escoteiros. Depois olhou para Hunter. ― Troque de lugar comigo. Sem protestar, Hunter se agachou e permitiu que Summer passasse atrás dele e sentasse entre a porta e Manohar. Hunter sentou do meu lado, colocou o tornozelo no joelho oposto e o braço nas costas do banco atrás de mim. Summer tentava explicar o fenômeno sulista de equitação na lama para Manohar, que parecia não acreditar muito, mas entre uma conversa e um gole de uísque, ela teve tempo de me dar um sorriso malicioso. Tentei ignorar o formigamento no meu pescoço e nos meus ombros, onde o braço de Hunter acidentalmente encostou. Olhei pela janela.

NA ARQUIBANCA, OS RAPAZES QUERIAM comprar bebidas e encontrar um lugar para sentar, mas seria um longo processo, pois seis pessoas estavam bebendo e apenas duas delas tinham 21 anos. Eles não entendiam que apostar com confrança e estilo dava trabalho. Enquanto eles riam no meio da multidão sob as árvores do outono, Hunter e eu pegamos os folhetos, paramos na cerca perto das baias dos cavalos e

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ficamos assistindo os cavalariços desfilarem os puros-sangues que correriam primeiro. Foi como um déjà vu, estar ao lado de Hunter em uma cerca com os cavalos do outro lado. Eu não queria gostar dele, nem queria me divertir hoje. Queria que o cavalo na nossa frente não me lembrasse Boo-boo, queria não ter tanta vontade de tocá-lo para sentir sua pele quente e sua energia na palma da minha mão. ― Ei, aquele é Boo-boo ― disse Hunter. Ele se referia às manchas do cavalo, mas eu preferi entender mais literalmente. Olhando o folheto, eu disse: ― Não, a linhagem desses cavalos é da California. Folheei o livreto para conhecer o próximo cavalo, que balançava a crina na nossa frente. Seu pai era da minha fazenda, mas eu nunca tinha me impressionado muito com ele, embora ele tivesse vencido o Stephen Foster Handicap. A mãe era de uma fazenda de prestígio e tinha ganhado o Oaks Kentucky. No fundo, corridas de cavalo nunca são previsíveis, por isso as pessoas apostam nelas. Além do mais, todas as informações disponíveis para mim sobre esses cavalos também estavam disponíveis para todos os que se encontravam na pista. Tudo que eu podia fazer com meu histórico era dar o peso adequado. ― Os amigos de Manohar saberiam tudo isso se tivessem feito a lição de casa ― eu disse. ― É uma fraternidade ― Hunter explicou. ― Eles querem o caminho mais fácil. Você é a lição de casa.

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Enquanto ele falava, vi algo com o canto do olho. Nós dois olhamos para as baias a tempo de ver um cavalariço conduzir o próximo puro-sangue, um enorme cavalo com manchas pretas. Ele parecia ter força e velocidade, as veias se destacavam no peito e os músculos estavam tensos pelo esforço que o cavalariço fazia para evitar que o animal saísse das baias, passando pela multidão e indo para o lado de fora, no estacionamento. Era o tipo de cavalo que me dava medo. ― Que cavalo lindo ― eu murmurei. Ao mesmo tempo, Hunter sussurrou: ― Que cavalo lindo. Nós nos entreolhamos. Ele sorriu para mim. Sem querer, eu sorri também. ― Está dizendo para os meninos apostarem nele? ― ele perguntou. Livrando-me do arrepio que tinha me tomado quando ele sorriu para mim, consultei o folheto mais uma vez. ― Não com aquele jóquei. ― Você está louca. ― Quem é a especialista em cavalos, eu ou você? ― Você vai fazer com que Manohar seja banido ― ele disse, sem olhar para mim. O fato de Hunter não olhar para alguém não significava que a pessoa não tinha sua completa atenção em uma conversa. Eu segui seu olhar até um potro marrom avermelhado com uma faixa branca. O cavalo não parecia bom o suficiente para uma corrida como esta.

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Depois percebi que Hunter não estava olhando para o cavalo, mas para o cavalariço, um afro-americano magro e de cabelo branco. Descobri isso quando os olhos do cavalariço passearam casualmente pela multidão e pararam em Hunter. Seus olhos arregalaram, seu queixo caiu e ele abriu um sorriso. Hunter sorriu também, cumprimentando-o. O homem percebeu que ainda estava guiando o cavalo, mas acenou para que Hunter o esperasse. Hunter concordou. Quando o homem passou com o cavalo atrás da gente, fazendo a volta na baia, girou o dedo em círculos, pedindo que Hunter o encontrasse na parte de trás dos estábulos. Hunter esticou os braços e disse: ― Vou lá atrás tentar dar uma desculpa para chegar até o estábulo. Duvido que funcione, mas nunca se sabe. ― Ele é seu amigo? ― eu perguntei. ― Seu pai trabalhou com ele quando você morava aqui? Hunter olhou para mim, surpreso. ― Sim, eu esperava encontrá-lo, mas nunca pensei que ele me reconheceria. Eu balancei a cabeça. ― Porque você tinha só doze anos quando foi embora? ― Sim ― seus olhos seguiram o cavalariço e o potro para fora da baia. ― Ele parece exatamente igual.

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― Vá em frente ― balancei a cabeça na direção que o cavalariço tinha seguido ―, não vou deixar os outros saberem que você é humano. Ele me olhou de um jeito que eu não consegui entender, depois se curvou, abaixando-se sob a aba do meu chapéu, e beijou minha bochecha. E foi embora, serpenteando pela multidão que estava espalhada ao redor da cerca, segurando com dois dedos o paletó sobre o ombro.

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8 ASSISTI AO RESTANTE DO DESFILE de cavalos perto do campo, analisei o folheto com cuidado e disse aos garotos em qual cavalo eles deveriam apostar. Avisei que corrida de cavalos não era exatamente uma ciência e que meu conhecimento do esporte poderia tanto dar uma vantagem a eles quanto fazê-los jogar dinheiro fora. Mesmo assim, eles apostaram no cavalo que eu escolhi, o cavalo venceu (todas as outras pessoas apostaram no cavalo mais vigoroso) e depois disso os garotos não quiseram mais saber dos meus conselhos de ir com cuidado. Antes da última corrida daquela tarde, os garotos já estavam bêbados e ambiciosos e insistiram para que eu escolhesse a trifeta para eles, ou seja, os cavalos que chegariam em primeiro, segundo e terceiro lugar, nessa ordem. Se eu acertasse, eles teriam um lucro extraordinário, mas acertar a trifeta era praticamente impossível. Eles estavam tão empolgados que até saíram da cabine e desceram para mais perto da cerca, onde poderiam incentivar os cavalos ao lado da pista. Eu estava feliz, mas quando eles perdessem todo o dinheiro que haviam ganhado naquela tarde, eu não queria estar por perto. Manohar e Summer tinham esquecido as apostas. Estavam bêbados e apaixonados e conversaram bem próximos durante toda a tarde e, pelo que consegui ouvir, não era nada relacionado aos cavalos.

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Aconchegados e de mãos dadas no encosto das cadeiras, eles pareceram não reparar quando Hunter entrou na nossa cabine e jogou o paletó em uma cadeira, com a testa brilhando de suor, como se tivesse estado trabalhando nos estábulos. ― Você encontrou quem estava procurando? ― eu perguntei, observando o trator rebocar a cancela para alinha de partida. ― Velhos amigos ― ele sorriu para si mesmo. Eu olhei para ele e depois para o campo à nossa frente, banhado pela luz do sol quente e pelas sombras oblíquas da tarde. ― Esta pista é enorme. Quando você veio pela primeira vez a Churchill Downs, ela parecia pequena? ― Eu nunca via muito da pista ― ele disse. ― Eu ficava nos estábulos, não na pista. Talvez ele tenha percebido que estava parecendo um disco repetido, na verdade nós dois começamos a recordar como costumávamos ser e o que havíamos feito um ao outro. Ele retomou o fôlego e continuou. ― Nós tínhamos nossa própria casa aqui em Long Island. Era alugada, mas parecia nossa. E nós íamos bastante à cidade. Em Louisville moramos na fazenda da sua avó e isso é tudo. Churchill Downs parece minúscula em comparação e todo o meu mundo também. ― Então me diga uma coisa, cavalariço ― Manohar disse. ― Fiquei confuso com essa história. Se você roubou a herança de Erin na noite da formatura... Hunter abriu a boca para protestar, mas Summer interrompeu.

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― Deixe-o terminar, Hunter. Nós dois estamos curiosos. ― ... como você foi aceito na faculdade tão rápido? ― Manohar perguntou. Você age como um coitado que acabou recebendo a fortuna de Erin... Eu ri, debochando. Depois percebi que não deveria ter feito isso enquanto desfilava com meu elegante chapéu de outono. ― Exatamente ― Manohar apontou para mim. ― Para ser aceito, Hunter tinha que ter se matriculado na faculdade antes, junto com você, Erin. Portanto, essa apropriação foi premeditada. ― Não foi isso que aconteceu ― Hunter disse. Eu não podia ver seus olhos detrás dos óculos escuros, mas ele parecia irritado. ― Eu sempre planejei estudar aqui. sou daqui e queria voltar. Consegui uma bolsa de estudos, na verdade, a mesma que Erin conseguiu, mas para mim não era suficiente. Se não fosse pela avó de Erin, eu teria ficado no Kentucky. ― Você poderia trabalhar quarenta horas por semana em uma cafeteria depois das aulas ― interrompi. ― Deus te livre, não é? ― Na verdade ― Hunter aumentou o tom de voz ―, fui eu quem deu a ideia para Erin vir estudar aqui, e não o contrário. Eu tinha mantido distância dessa conversa, apenas observando Hunter sofrer, mas já devia saber que ele tentaria contorná-la para parecer inocente. Sentei na cadeira entre ele e Manohar e exclamei: ― Isso é ridículo. Minha avó estudou aqui e queria o mesmo para mim. Depois que investiguei e descobri que eles tinham um ótimo programa de escrita criativa, concordei. Planejei isso desde o princípio,

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mas quando ela insistiu em controlar minha carreira e minha vida as coisas desmoronaram. ― Não foi isso que aconteceu ― Hunter repetiu. ― Quando eu te conheci, você jurou que voltaria para a Califórnia. ― Voltar para a Califórnia? ― Summer interrompeu. ― Erin, você nunca me disse que havia se mudado da Califórnia para o Kentucky. Hunter a interrompeu. ― Você só se interessou por Nova Iorque depois que eu contei como a cidade era legal e te dei de presente um ímã com a Estátua da Liberdade, o Empire State Building e outros lugares importantes. Minha avó me deu aquele ímã antes de eu ir embora de Long Island. Eu dei o ímã como presente e você ainda tem coragem de dizer que eu roubei sua vida? Por sorte eu estava usando óculos escuros e um chapéu, porque podia até sentir meu rosto queimando. Será que foi mesmo Hunter que meu deu meu estimado ímã de Nova Iorque? Os meses seguintes à morte da minha mãe agora eram uma imagem confusa para mim. Eu realmente não me lembrava de onde vinha aquele ímã. Fiquei envergonhada por não conseguir afirmar com certeza, e ainda mais envergonhada por nunca ter considerado que ele também tinha uma avó. ― O que você fez? ― Summer sussurrou para Manohar. ― Pessoal ― Manohar disse ―, eu só estava curioso em relação à linha do tempo, não quis... Sem demonstrar emoção, Hunter me disse:

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― Você plagiou minha vida. Você é como uma aluna da sétima série que faz anotações da Internet, se esquece de onde vieram as informações e copia tudo em seu dever de casa. Você plagiou a minha vida sem sequer se dar conta. Um sino tocou na minha cabeça. Depois de olhar para o rosto insensível de Hunter por alguns segundos e começar a achar que eu estava louca, percebi que a corrida tinha começado. Nós quatro nos levantamos e nos apoiamos na grade. ― Erin, qual cavalo você disse que venceria? ― Summer perguntou. ― Número nove ― disse, esperando que Hunter não conseguisse ouvir minha voz tremendo de emoção no meio do barulho da multidão. Limpei a garganta: ― Com a faixa rosa e branca. ― Ele está muito atrás ― Manohar disse. ― Espere ― resmunguei. ―Venho acompanhando este jóquei há anos e com esse cavalo ele vai se sair bem. ― Qual você disse que ficaria em segundo? ― Summer perguntou. ― O número dez, de amarelo ― respondi. ― Acho que está bem ― ela disse. ― Ele é o segundo agora. Os garotos ganham alguma coisa se você estiver certa somente a respeito desse? Hunter inclinou-se na minha direção. ― Você disse a eles para combinar os cavalos? Odiando a aceleração no meu batimento cardíaco quando a manga da camisa dele encostou no meu suéter, confirmei com a cabeça.

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― Então eles vão ganhar alguma coisa ― Hunter disse a Summer. ― Nem perto do que ganhariam se acertassem a trifeta. ― Qual você disse que chegaria em terceiro lugar? ― Summer perguntou. ― O número sete ― disse ―, de azul. ― O que você está fazendo comigo, mulher? ― Manohar exclamou ― Aquele cavalo é o último dos catorze. ― Tenha calma ― disse. ― É uma pista grande e uma corrida longa ― e me desliguei deles e do público, me concentrando no número sete da sorte. Eu adorava ver os cavalos correrem, estendendo aqueles longos músculos e competindo uns com os outros em uma corrida de pura adrenalina e lama. Eu adoraria ser um cavalo, mas não um cavalo de corrida, educado, treinado e controlado, eu queria ficar livre em uma planície, correndo simplesmente porque me fazia sentir bem. ― Erin ― Summer empurrou Manohar para o lado e se colocou entre nós dois na grade, depois apertou minha mão. ― Erin, seus cavalos estão chegando. Meu Deus! E se você estiver certa? ― Vamos lá, número nove! ― Manohar gritou, o que não era comum para ele, e subiu no degrau inferior da grade, dando socos no ar. ― Número nove! Número dez! Os cavalos se espalharam pelo caminho no trecho final. Faltavam dez segundos para o fim da corrida, o número nove liderava, o número dez vinha logo atrás dele e o número sete era o terceiro. Summer saltava do meu lado e apertava minha mão cada vez mais forte, e

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Manohar gritava ainda mais alto. Eu esperava que o número quatro, que eu quase coloquei na trifeta, se aproximasse, mas isso não aconteceu. Os gritos da plateia silenciaram, mas Summer continuava berrando e Manohar gritava: ― Erin Blackwell, eu te amo e peço desculpas por todos os comentários negativos que fiz sobre suas histórias lascivas. Lá embaixo, na grade perto da pista, os outros quatro garotos gritavam e vibravam, embriagados. Hunter riu ao meu lado e disse: ― Erin, você acaba de ganhar nove mil dólares para os amigos da fraternidade de Manohar.

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COMO EU HAVIA PREVISTO, DEPOIS DAS CORRIDAS os garotos da fraternidade estavam bêbados demais para dirigir e comemoraram a vitória com mais uma cerveja para cada um, enquanto os apostadores que haviam perdido deixavam os estandes. Os garotos ainda tomaram mais doses de uísque na limusine e Hunter não teve dificuldade em assumir o volante. Os garotos exaltados se amontoaram no fundo, Manohar e Summer inseparáveis, e o único lugar que me restou foi na frente, do lado de Hunter. ― Onde você está indo? ― eu perguntei quando ele passou pela entrada do Cross Island Parkway. ― Para a baía ― ele disse. ― Comer mariscos, sinto falta disso ― ele olhou para mim. ― É por minha conta.


Ele deve ter adivinhado o que eu estava pensando. Jantar fora não estava no meu orçamento, mas eu seria censurada se aceitasse esse convite depois daquela história de plagiar sua vida. ― Não, obrigada ― disse. ― Não preciso da sua caridade nem do dinheiro da minha avó. Ouvimos gargalhadas pela janela do banco traseiro. ― Os rapazes devem um jantar a você pelos nove mil dólares ― Hunter disse. ― Talvez mas eles estão bêbados demais para perceber isso. ― Bom, você não vai ficar sentada na limusine enquanto nós comemos ― ele aumentou o tom de voz. ― Alguém vai pagar pelo seu jantar e você vai comê-lo, ou eu direi a Gabe que sou o cavalariço. Eu soltei um suspiro irritado. ― Acabei de resolver esse problema com Manohar, paguei minhas dívidas e você não pode continuar me chantageando com essa história do cavalariço e querer que eu faça tudo o que você pedir. Ele parou a limusine em um sinal vermelho. ― Posso, sim. Ficamos nos encarando por alguns segundos. Eu olhava furiosa para ele. Estava irada por ele me manipular e mais irada comigo mesma por deixá-lo perceber que eu estava com raiva. Ele sorriu para mim com as sobrancelhas levantadas, depois olhou para seu Rolex, um gesto estrategicamente planejado para parecer casual. Eu sabia que isso era uma encenação e a mensagem era clara: Eu tenho o cartão de crédito da sua avó, e você não.

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Em seguida ele inclinou a cabeça para o lado, o sorriso desapareceu e ele abaixou a voz em um resmungo ofendido. ― É apenas um jantar ― buzinas começaram a soar atrás do nosso carro, mas ele continuou me olhando por mais alguns segundos antes de dar partida no carro. Depois perguntou: ― Quantos quilos você já perdeu desde que chegou aqui? Os quinze dos calouros quer dizer ganhar 15 quilos, não perder. Normalmente Hunter era a pessoa mais educada que eu conhecia, pelo menos aparentemente. Ele só fez esse comentário rude sobre meu peso porque já estava com raiva de si mesmo por ter me forçado a ir jantar. Esperei ele ouvir o que estava dizendo e se sentisse ainda mais culpado. Minha reação mais eficaz foi não dizer nada, como se eu pudesse suportar isso. Ele esperava uma resposta minha, não silêncio. ― Você está linda ― ele disse, rápido. ― Você sempre está linda. Só quis dizer... ― e a voz dele foi sumindo. Eu o observei por baixo da aba do meu chapéu. Ele olhava com raiva para a estrada, manobrando a limusine em uma curva fechada num cruzamento cheio de restaurantes e pessoas de Long Island famintas. ― Você me disse antes que não está gastando no dormitório tudo o que ganha. Ainda consegue ir ao teatro e ao cinema, não é? Você poderia gastar uma parte desse dinheiro com comida. Restaurantes são uma parte importante da experiência em Nova Iorque. ― Pasta de amendoim e bolachas me satisfazem ― eu disse, indiferente. ― Entendo o que você quer dizer, mas preciso estabelecer um limite. Manohar disse pela janela:

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― Por que você não se muda do dormitório? ― ele perguntou. ― Não ― Hunter disse, baixinho. Em algum lugar no banco de trás, Summer gritou: ― Não! Manohar continuou. ― Não seria mais barato viver em um apartamento com várias outras pessoas? Talvez não tão agradável, mas pelo menos você poderia bancar. ― Não ― Hunter repetiu. Desta vez Manohar levantou o pescoço e olhou para ele. ― Sim ― eu disse a Manohar ―, seria mais barato. Fiz isso no verão passado. ― E ela teve uma péssima experiência que a deixou assustada ― Hunter disse. ― Não fiquei assustada, apenas com muita raiva porque acabei sendo demitida. ― Mas deveria ter ficado assustada ― Hunter disse. ― Manohar, ela não mora aqui há tempo suficiente para saber em quem pode confiar. No dormitório ela está mais segura. Não sugira isso de novo. ― Não faz sentido ― Manohar insistiu. ― Como você sabe que ela pode confiar nas colegas de quarto que foram escolhidas aleatoriamente? Jordis com um traço, pelo amor de Deus! ― Ela parece menos perigosa depois que você a conhece melhor. ― E Summer poderia ser uma assassina em série ― Manohar disse.

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Summer riu no banco traseiro. ― É a minha vida, Hunter ― eu disse ―, e você vai ter que confiar no meu julgamento. Sinto muito. Sem tirar seus olhos da estrada, Hunter fechou a janela atrás dele com um estrondo. ― Você é tão teimosa! ― ele explodiu tão alto que os rapazes no banco de trás se calaram, ouvindo atravrás da janela o caminho sombrio que nossa conversa tinha tomado. ― Só está fazendo tudo isso para se vingar da sua avó ― ele disse. ― Como você pode continuar insistindo que não pertence àquela fazenda? Você não acha que a trifeta foi um sinal? ― Você sabe tão bem quanto eu que acertar a trifeta foi pura sorte. Eu quase escolhi o cavalo número quatro para a aposta. ― Mas não escolheu. Esse negócio está no seu sangue. O sol estava se pondo. Enquanto Hunter estacionava a limusine com dificuldade em um estacionamento congestionado, a luz alaranjada brilhava diretamente em seus olhos azuis, obrigando-o a fechá-los. Ele parecia uma criança naquele momento, o garoto de doze anos de idade que eu conheci há muito tempo em um campo verde no verão, com a luz do sol brilhando em seu cabelo loiro. Nós deveríamos continuar sendo amigos. Fomos feitos para sermos amigos, não inimigos. Talvez ele tenha percebido a insanidade da nossa situação e por isso estava tentando me convencer pegar de volta a herança que ele havia roubado de mim.

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― Não está no meu sangue ― eu abaixei a voz porque não tinha a intenção de compartilhar isso com todos na limusine. ― Escritores de romance escrevem isso sobre suas heroínas o tempo todo. Não faz sentido que a fazenda de cavalos esteja no sangue da heroína, ou que a cidade esteja em seu sangue, ou a costa do oceano Pacífico, ou a plataforma de perfuração de petróleo na vasta propriedade de seus pais no Texas. O lugar não estaria no sangue da heroína, Hunter. Ela simplesmente cresceu lá e sua avó dominadora insistiu tanto que ela voltasse para lá que a heroína finalmente entregou os pontos... ― Ela fez isso? ― Hunter perguntou com as sobrancelhas loiras levantadas. ― Num livro de ficção, Hunter, não na vida real. E depois todos concordaram que isso estava no sangue dela, para fazê-la sentir-se melhor por voltar à fazenda de cavalos, já que ela não queria ir. Mas ela não se sentiu melhor, se sentiu da mesma forma que antes, porque queria ser uma escritora e não queria fazer isso numa fazenda de cavalos no Kentucky. ― Ainda não ― Hunter parou a limusine na extremidade do estacionamento lotado e desligou o motor ―, mas vai acontecer, porque vai se cansar de ser pobre. Sei disso porque já fui pobre e é horrível. Se você não fosse rica, nunca teria deixado a oportunidade de gerenciar a fazenda da sua avó, nunca iria querer ser escritora, nunca passaria pela sua cabeça abandonar o apoio da sua família para ver como as outras pessoas vivem. É o que essa situação significa para você. Você não está vivendo a vida de uma escritora necessitada, está apenas de visita. Você pode até se aferrar a bolsas de estudo e gorjetas da cafeteria, mas se algum dia perder o emprego ou for presa por posse de maconha que nem é sua ou se machucar, sua avó estará lá

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para ajudar quando você cair. Você sabe disso e ela sabe disso. Reconheça, Erin, você nunca será pobre, por mais que tente. Com o tempo você vai perceber isso. ― Deixe-a em paz. ― veio um grito do banco de trás. ― Dá um tempo, Allen! Hunter piscou os olhos, mas não se importou com os garotos da fraternidade que gritavam com ele. ― Erin, você encara a vida com uma dignidade e confiança que são provenientes do dinheiro que você tinha. Você nunca vai se comportar como uma pessoa que cresceu pobre. Mesmo se precisasse desesperadamente de uma porção de comida para não passar fome, você poderia achar que estaria pedindo esmola, mas as pessoas dariam um pouco de comida porque pensariam que você estava no comando. Você não conseguiria pedir esmola se tentasse. Ele saiu do carro e fechou a porta. Enquanto ele conversava, os garotos e Summer tinham saído do banco de trás e agora eu estava sozinha no silêncio, olhando para os edifícios de tijolos antigos e desgastados pelos ventos do Atlântico. Uma estranha em um lugar estranho. Os garotos eram daqui. Até Summer parecia estar se adaptando melhor, mas e eu? Eu tinha um chapéu com ebas largas sobre meus joelhos. Tomei um susto quando Hunter abriu minha porta. ― Desculpa, não quis assustar você ― ele estendeu a mão para me ajudar a sair do carro.

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DEPOIS

DE

ALGUMAS

HORAS,

UM

JANTAR

com

camarões€enormes e um longo passeio de limusine, Hunter nos deixou em frente ao dormitório. O barman se sentou no banco do passageiro para guiar Hunter de volta à casa funerária e me ofereceu mil dólares pelo meu conselho que havia resultado em nove mil dólares para ele e seus amigos. Eu calculei na minha mente quantas horas longe da cafeteria aquele dinheiro me renderia. Podia sentir os olhos de Hunter sobre mim, julgando a pobre garota rica. Recusei. Manohar e Summer ficaram tão colados durante toda a noite que eu me surpreendi quando ela me seguiu até nosso quarto, mas quando ela tirou a saia e ficou parada olhando para o guarda-roupa aberto, com a cabeça encostada no batente da porta, percebi que ela estava trocando seu belo traje de passeio vespertino por um traje apropriado para uma noite sensual com seu novo namorado. Brian devia estar fora em algum encontro. Fiquei me perguntando o que Hunter estava fazendo naquela noite. Summer quase caiu ao tentar vestir seu jeans apertado. Ela não disse quase nada desde que chegamos. Dava para perceber que ela queria me contar para onde estava indo, mas não sabia como. Eu não disse nada, com medo de deixá-la sem graça ou fazer com que ela desistisse. Dois estranhos que se conheceram por acaso acabaram se apaixonando. Não havia nada mais romântico e nenhum motivo para se envergonhar. Mesmo assim ela estava sem graça. Sentou-se ao meu lado em sua cama, onde eu estava polindo as botas caras e extremamente confortáveis que havia usado para ir a Belmont. ― Se eu não voltar hoje à noite... ― ela começou.

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― Sim? disse, espalhando mais graxa em uma das botas. ― Não se preocupe comigo. Eu estarei lá em cima. Manohar também dorme num quarto sozinho, como você. ― Parece ótimo ― eu olhei para ela e sorri. ― Talvez devessem parar de beber, porque é uma noite e tanto. ― Possivelmente ― ela balançou a cabeça. ― Não vou mais beber hoje, estou sóbria. Bem... não sóbria, mas mais sóbria. ― Tudo bem. ― Estou preocupada com você ― ela tirou o suéter e parou na frente do guarda-roupa de novo, esperando encontrar um melhor. ― Você e Hunter brigaram feio algumas vezes, não entendi qual foi o problema. Eu foquei minha atenção na parte da frente da minha bota, colocando ainda mais graxa em um arranhão no couro. ― Acho que o contato com os cavalos nos fez lembrar porque nunca ficamos juntos ― pelo menos desde a sétima série. ― Ele está planejando fazer uma de suas caminhadas de fim de noite hoje? ― Essa foi minha impressão ― ela vestiu um suéter e depois olhou para mim com as mãos na cintura. O suéter preto a deixava ainda mais sexy e mais sofisticada do que ela imaginava. O efeito teria sido exatamente o que Manohar procurava, se ela não tivesse se movido ligeiramente. Ou talvez isso ajudasse. Depois ela disse: ― Não quero abandonar você. ― Você não está me abandonando ― balancei minha roupa com desdém, tentando me livrar do cheiro da graxa. ― No momento em

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que começarmos a dispensar sexo para apoiar as neuroses uma da outra, precisaremos fazer uns ajustes na nossa relação. Mas enquanto você estiver lá em cima... Eu odiava ter que pedir outro favor, pois na primeira vez que the pedi para sondar Manohar, eles discutiram e ela ficou em pânico por três semanas, mas se tudo desse certo ela e Manohar estariam prestes a dividir o quartinho dele. Decidi que não havia problemas em pedir. ― Será que você poderia perguntar a Manohar se Hunter vai sair hoje à noite? ― Já perguntei. Manohar não sabe. Hunter disse que não pode contar a Manohar agora que há uma brecha na segurança. Ou seja, eu ― ela jogou os ombros para trás e bateu orgulhosamente no peito. ― Isso significa que ele está indo para algum lugar que você não pode saber. Eu concordei, mas parecia provável que esse lugar fosse a cadeira de veludo da loja da cartomante. Ou o quarto da loira. Summer olhou para mim. ― Você adora essas botas , não é? Eu dei uma gargalhada ao ver o quanto estava polindo aquela parte da bota. ― Eu realmente adoro estas botas. Além do mais, minha avó pagou caro por elas quando eu estava no ensino médio. Provavelmente nunca conseguirei comprar outro par de botas como estas. Já estão no passado os dias em que eu podia chegar em casa, tirá-las e jogá-las no armário por que já estavam desgastadas e podia simplesmente comprar outro par. Estou tentando fazer com que elas durem mais, por

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isso as limpo e guardo com cuidado ― esfreguei o salto mais uma vez. ― lsso é muito parecido com a série Os Pioneiros. Ela se aproximou e olhou para as botas. ― Se fosse como Os Pioneiros, você as embrulharia com jornal e as colocaria na prateleira mais alta. ― Ou cavaria um buraco para elas no chão e o encheria de feno para mantê-las novas e frescas. ― Ou as colocaria em um barril de sal. ― Minha nossa ― disse. ― Sao botas, não peixes. ― Você deveria ter aceitado aqueles mil dólares ― ela disse. ― Você merecia. Esperei ela sair para sua noite tranquila com Manohar, depois juntei todas as minhas roupas que estavam no guarda-roupa e coloquei sobre minha cama. Tirei minhas calcinhas da gaveta da cômoda e empilhei meus livros no travesseiro. Tudo o que me eu tinha cabia naquela cama. Dividi os objetos em duas pilhas: coisas que minha avó tinha comprado e coisas que eu comprei com meu dinheiro desde que me mudei para Nova Iorque. Olhei com muito cuidado para a pilha da minha avó e pensei em jogar tudo fora. Eu poderia me desfazer de algumas coisas, mas tinha uma que eu simplesmente não podia abrir mão: meu laptop. Se fizesse isso, também acabaria com minha carreira como escritora e, se eu não podia me desfazer de absolutamente tudo o que ela havia me dado, este exercício não fazia sentido. Quanto mais eu pensava sobre isso, mais percebia que não era possível contornar o que Hunter havia dito. Somente uma garota rica

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consideraria se desfazer de coisas caras porque eram presentes de alguém que ela odiava no momento. Isso era uma atitude de pessoas privilegiadas. Continuei olhando para as minhas coisas. Já era o bastante, eu estava perdendo meu tempo. Tinha dever de casa para fazer e tinha que chegar ao trabalho às seis da manhã. Tirei todos os livros de cima do travesseiro, exceto o de cálculo. Ouvi passos na escada. olhei para cima como se pudesse ver através da parede. Poderiam ser os passos rápidos de Hunter. Era o momento errado da noite, mas era fim de semana e Summer havia dito que achava que ele fosse sair. De fato, quando a porta da frente do prédio se fechou e eu olhei pela janela, vi o corpo alto de Hunter se misturar à multidão na calçada, com o casaco pendurado no ombro para quando ele voltasse no frio da madrugada. Na quinta-feira o grupo de escrita criativa discutiu mais uma história de Hunter. Podemos acrescentar o quarto dos fundos do bar onde uma garçonete trabalhava à lista de possíveis lugares. A única forrna de descobrir aonde Hunter ia à noite seria fazê-lo parar de me provocar e me contar logo. A história que eu escrevi Para a semana seguinte foi planejada para que fizesse exatamente isso.

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9 MAS NO GRANDE DIA EU NÃO conseguia relaxar. Os alunos cujas histórias eram discutidas na segunda-feira tinham que entregálas na sexta-feira anterior, ao meio-dia. Agora eram onze e cinquenta e cinco da sexta-feira. Eu me sentei à mesa do saguão da biblioteca no quinto andar, em uma cadeira vermelha moderna que pareceria extravagante e adorável, se não estivesse desgastada e manchada. Segurei 'Tudo é Possível', com as duas mãos, dobrei as folhas no meio, manchando-as com meu suor e estragando a originalidade que eu tanto apreciava em minhas histórias porque pensava que elas pareciam mais profissionais e faziam os leitores desistirem de rasgá-las na discussão na sala de aula. No grande relógio digital atrás da mesa, onze e cinquenta e cinco piscou e se transformou em onze e cinquenta e seis. Eu precisava entregar esta história, mas estava sem coragem. Eu a tinha escrito para um propósito específico, para tirar de Hunter sua mania de me procurar, me excluir e escrever uma história sensual sobre outra pessoa. Se minha história não o motivasse a contar como ele realmente se sentia, nada mais faria. O problema era que, ao alfinetar Hunter e fazê-lo baixar a guarda, eu mesma tinha baixado minha guarda um pouco além da conta. As

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outras histórias que eu escrevi para a matéria eram narrativas fictícias da minha vida, mas esta não era nem um pouco fictícia. Às onze e cinquenta e sete eu comecei a me criticar. Por que escrevi esta história? O que me induziu a fazer isso comigo mesma? Eu poderia facilmente escrever outra história para substituir esta. Seria péssima, mas pelo menos eu me protegeria dos olhos inquisitivos da turma. Eu não podia correr esse risco. Talvez Gabe tivesse um sistema para saber quando uma história era entregue com atraso. No mínimo alguns dos meus colegas viriam à biblioteca e pediriam a pasta reserva nos próximos minutos para poder ler a história antes do fim de semana. Eu seria repreendida, minha nota seria prejudicada e meu sonho de conseguir o estágio seria destruído. Não valia a pena correr esse risco. Às onze e cinquenta e nove, eu sequei as duas mãos suadas na cadeira vermelha acolchoada, atravessei o saguão e pedi ao garoto do outro lado do balcão para colocar a história na pasta reserva da minha turma. Antes de mudar de ideia, fui embora, passei por algumas cadeiras e subi a escada. Meu dinheiro do verão estava acabando mais rápido do que eu esperava e eu tinha aceitado turnos extras na cafeteria durante todo o fim de semana. Eu tinha que terminar um trabalho sobre literatura americana (eca!) no intervalo de duas horas antes da aula de dança do ventre, não havia tempo a perder. Escolhi uma mesa em uma sacada no segundo andar com uma parede de vidro debaixo do corrimão para poder ver o andar térreo. Esse é um dos meus lugares preferidos para estudar. O barulho nos cinco andares da biblioteca era a música de

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fundo perfeita, já que eu não tinha meu mp3 player nem o fone de ouvido. Eu tinha certeza de que nada havia mudado no ruído de fundo da biblioteca. Os scanners na mesa de retirada de livros abaixo de mim funcionavam com suavidade, o elevador subia e descia, e atrás de mim algumas garotas estavam conversando alto demais para estar em uma biblioteca. Mas alguma coisa tinha mudado. Alguma coisa me fez tirar os olhos do laptop e fixá-los no primeiro andar. Hunter estava vendo as histórias. Ele pegou a pasta e entregou sua carteira de estudante, depois foi até as cadeiras onde eu estava sentada antes. Nada anormal nisso. Era um lugar conveniente para ler, se você entrasse na biblioteca apenas para ler as histórias desta matéria. Ele não escolheu minha cadeira vermelha. Sentou-se em uma cadeira grande entalhada e acolchoada com veludo dourado, praticamente um trono estilizado. Pelo menos desta vez ele não parecia um rei. A enorme cadeira o fazia parecer menor. Ele parecia jovem, concentrado nas histórias, sentado sobre uma perna. Eu não o via sentado assim desde o ensino fundamental, quando o vi lendo debaixo de uma árvore na fazenda da minha avó. Ele não se sentaria assim se soubesse que alguém o estava observando. Era estranho o que um olhar causava em Hunter. Eu o observei por alguns instantes. Sabia que ele estava lendo minha história, e não as dos demais, porque meu papel era branco e de alta qualidade, um dos poucos luxos que eu ainda conservava. Ele ficou lendo uma página por bastante tempo, depois voltou pata a página anterior e leu a passagem inteira de novo. E recuou. Tentei descobrir qual das muitas seções intimidantes ele estava lendo, a julgar

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pela quantidade de páginas que ele já tinha folheado. Não consegui decifrar. Ao terminar a leitura, ele segurou os papéis e ficou olhando para eles por alguns minutos. Depois alongou e estalou o pescoço e se preparou para ler as duas outras histórias, mas a história do papel branco voltou mais uma vez. EIe a leu inteira, colocou-a de volta na pasta, devolveu a pasta e saiu da biblioteca. Tinha rabiscado muitos comentários no caderno sobre as outras histórias, mas depois de ler a minha, na primeira e na segunda vez, não escreveu nenhuma palavra. Talvez estivesse guardando seus comentários para me dizer pessoalmente. Durante todo o fim de semana eu esperei que ele me confrontasse enquanto eu trabalhava na cafeteria ou lia com Summer no parque ou escrevia em meu quarto e o escutava na escada. Mas ele não me confrontou. Eu não o vi. Minha história não o havia afetado como eu esperava. No fim das contas ele riu por último. Foi o que eu pensei, até a aula na segunda-feira.

Tudo é possível por Erin Blackwell

Ela bateu na porta fechada e abriu devagar. Sua filha provavelmente estava com o fone de ouvido e, como sempre, não escutaria a batida na porta, mas ela tentou avisar a filha o máximo possível. A garota se assustava de forma exagerada; os médicos disseram que ter presenciado abusos domésticos poderia ser a causa dessa atitude.

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A jovem, que estava sentada sobre a pilha de travesseiros no guarda-roupa, olhou para ela e sorriu. ― Oi ― ela se sentou em frente à filha. ― O que está lendo? A garota mostrou a capa: Orgulho e Preconceito. ― Você já não leu esse livro antes? ― Umas quatro vezes, mas ele fica melhor cada vez que eu leio. Ela não duvidou da filha. Ela mesma não lia muito, mas tinha visto alguns filmes e versões para a televisão, e as versões mais recentes com certeza eram melhores. ― Vou dormir ― ela mentiu. ―Não fique acordada até tarde, está bem? ― Pode deixar ― a filha prometeu, mas mergulhou no livro de novo antes mesmo que ela fechasse a porta do guarda-roupa. Ela suspeitava que a filha também estivesse mentindo. Livre dessa responsabilidade, ela desceu a escada correndo, tomando cuidado para não parecer apressada. Passou dançando na frente do escritório onde sua mãe ainda estava lendo livros para ajudar a administrar os negócios da família, ansiosa para encontrar uma forma de torná-los mais mesquinhos, mais ágeis, melhores, mais ricos e muito mais tediosos. Se sua mãe saísse de repente do escritório naquele momento, ela poderia dizer que estava indo para a cozinha fazer um lanche. Mas sua mãe, assim como sua filha, ficou detrás das portas fechadas. Enquanto ela escapava em silêncio pela porta lateral, cuidando para não fazer muito barulho, começou a se sentir tola. Ela tinha trinta e dois anos, já estava velha demais para sair escondido da mãe e da

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filha, mas trinta e dois era muito jovem para ter uma filha de doze anos. Aos dezoito anos ela fugiu para Hollywood, tentando escapar da mão de ferro da mãe e querendo mostrar que poderia ser atriz. Aos vinte anos teve um bebê e agora tinha voltado para casa para escapar da mão de ferro do pai de sua filha. Ela não ficaria aqui , ela dizia a si mesma enquanto descia a escada da varanda e passava pelo caminho de pedras, pisando na grama orvalhada, onde ninguém a ouviria. Caminhar pela noite molhada em direção ao celeiro era como se aproximar de seu destino na vida depois de um desvio longo e infrutífero. Seu novo companheiro a fazia sentir que tudo era possível. Eles fugiriam com o filho dele e com a filha dela e construiriam uma nova vida. Ainda não tinham conversado sobre isso, mas ela sabia que daria certo. "Assim como sua carreira como atriz de Hollywood deu certo", disse uma voz em sua cabeça. Mas se ela tivesse ouvido a voz em sua cabeça, nunca teria seguido seus sonhos. É verdade que seus sonhos não se tornaram realidade, mas foi melhor ter tentado realizá-los do que ter ficado aqui quando ela tinha dezoito anos, pois teria destruído seus sonhos em um celeiro escuro, junto com pilhas de tabaco. A enorme casa de sua mãe estava rodeada de grandes colinas verdes, como um navio em um mar agitado. Na base de uma das colinas ela só conseguia ver as estrelas no céu preto. Ao subir, aos poucos ela via mais e mais do longo celeiro dos cavalos. Nenhuma parte da construção antiga ficava visível à noite, era apenas um bloco preto que obstruía a luz das estrelas, uma porta aberta preenchida com uma luz brilhante e com o cheiro de fumaça de cigarro. Ele a estava esperando.

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Ela ficou surpresa com a intensa onda de desejo que passou por seu corpo. Já tinha sentido isso cem vezes na escola e mil vezes durante seu grande ano em Hollywood, e quando ela ainda achava que era a dona do mundo. Ela se sentia assim com tão pouca frequência, talvez um pouco com o pai de sua filha. Cada vez que ele a agredia e se desculpava no dia seguinte, cultivar esse desejo ficava mais difícil. Ela acelerou o passo na grama orvalhada em direção àquele sentimento. O homem aviu se aproximar e apagou o cigarro com a bota de montaria. Depois sorriu e a pegou nos braços fora do celeiro. Ele não cresceu aqui como ela. Foi criado em algum lugar distante, porém parecido, e ela sentia como se já o conhecesse há mais tempo do que um mês. ― Você não mudou de ideia ― ele encostou a testa na dela e sorriu. Era um homem alto e forte, com certa reveza, e sempre ria quando falava. Ele não a julgava por querê-lo. ― Não mudei de ideia ― ela segurou sua mão calejada e o guiou pelo labirinto que ela conhecia tão bem: depois do escritório do celeiro, descendo o corredor principal escuro com estábulos individuais para os cavalos dos dois lados, entrando na sala dos fundos. Ela já tinha recebido homens aqui quando era adolescente. Não se arrependia de suas ações naquela época. Agora, olhando para trás, talvez aquelas transgressões e a reação de sua mãe quando descobriu tudo tenham sido a última gota que a fez fugir dali, a milhares de quilômetros de distância. Ela ainda abominava a reação da mãe, mas com sorte sua mãe não descobriria nada até que seu relacionamento com esse homem, que tinha exatamente sua idade, fosse estável e feliz.

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― Você é uma linda mulher ― ele sorriu para ela, passando os dedos por seus cachos. ― Pensei que aqui eu encontraria um trabalho no paraíso, e do nada apareceu um anjo. ― Não foi do nada ― ela o provocou. Ela mordeu o lábio inferior, desejando não ter feito essa brincadeira boba. Quando adolescente, ela teria feito dezenas de brincadeiras como esta em uma rápida sucessão, desafiando os garotos a seguirem seu ritmo. O pai de sua filha tinha aceitado essas brincadeiras para que ela pensasse que era mais esperta do que ele, e duas vezes por esse motivo ele bateu nela. Exatamente duas vezes. Ela tinha contado. Mas seu novo companheiro sorriu e tocou a ponta do seu nariz com cuidado, inclinou-a para trás sobre o colchão coberto com uma colcha limpa com uma força surpreendente, ele a beijou, fazendo-a sentir o gosto do cigarro e da menta e do conforto. Mais tarde eles se vestiram. ― Vista isso ― ele brincou, e ela se vestia enquanto fingia se mover de trás para frente. Eles saíram do celeiro enquanto ele fumava um cigarro. Ela não fumava e, em qualquer outro momento o cheiro e o hábito do cigarro a incomodariam, mas eles pareciam fazer parte deste homem, uma parte imperfeita, porém honesta. Ele ofereceu um cigarro e ela devia ter aceitado, depois mais um. Eles teriam ficado do lado de fora e teriam tempo para correr quando o pai de sua filha entrasse furioso pela porta da frente da casa de sua mãe e saísse pela porta lateral.

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Mas ela recusou e, nos poucos minutos que ela achou que tinha antes de sua mãe finalmente ir dormir e talvez se certificar de que ela não havia escapado de novo, ela pediu a este gentil cavalheiro para lhe mostrar os cavalos. Ela já os tinha visto quando chegou em casa, os tinha acariciado para conhecê-los e tinha montado alguns deles, mas queria vê-los através dos olhos de seu companheiro. Eles foram até um estábulo onde estava um grande cavalo marrom. Depois foram ao próximo estábulo para ver um potro branco, depois uma égua preta. O homem disse que ouviu dizer que a mãe da égua era exatamente igual a ela e estava na fazenda quando a mulher foi embora quatorze anos antes. A mulher achou que ele estava equivocado. Não queria que ele estivesse equivocado, mas não reconhecia esse cavalo. Ela retirou a mão do pelo da égua e a colocou sobre o peito do homem, com uma velocidade medida, para que a égua não se assustasse. ― Você ouviu alguma coisa? O homem olhou para ela, surpreso, depois olhou na direção da porta do celeiro. Ouviram um barulho, alguém xingava e dizia o nome da mulher, irritado. Era o pai da criança, e mais atrás vinha a mãe da mulher, ao longe. De repente a silhueta do homem tomou conta da entrada do estábulo. Não havia tempo para explicar ao amante que o estranho era o pai de sua fllha, que provavelmente tinha suspeitado que ela tinha voltado para a casa da mãe e finalmente a havia encontrado. Não havia tempo para explicar ao pai de sua filha que nunca, nunca se deve gritar perto de um cavalo.

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A égua levantou as patas. A mulher tentou desviar, mas seu amante estava logo atrás. A ferradura da égua, somada aos quatrocentos e cinquenta quilos do animal, a atingiu na testa. Ela morreu no mesmo instante, foi o que me contaram. Tarvez tenham me contado isso para me reconfortar, e sua morte indolor tenha sido a maior mentira de todas. Nunca saberei com certeza. Eu estava no guarda-roupa com meu fone de ouvido, lendo Orgulho e Preconceito pela quinta vez. Mas se ela tivesse ficado consciente por mais alguns minutos, eu sei o que teria pensado. Quando você está começando de novo e tudo é possível, "tudo" pode incluir uma morte precoce.

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10 ― ESTA É A IRMÃ MAIS VELHA da sua primeira história que usa crack e está na reabilitação ― Manohar disse. Eu estava acostumada a ver a turma cair na gargalhada quando Manohar comentava sobre minhas histórias. Parecia uma explosão, como se todos os meus colegas estivessem prendendo a respiração por duas semanas, esperando a próxima vez que eu escrevesse uma história para que Manohar pudesse des-escrevê-la. ― Acho que essa é melhor do que a primeira ― ele disse, depois que as risadas cessaram ―, mas ainda é bastante inacreditável. Agora eu entendi. Hunter leu minha história na biblioteca, correu para encontrar Manohar e contou o que eu havia escrito. Não seria hilário se eles me provocassem na aula, dizendo que minha história era inverossímil, quando realmente era a coisa mais verdadeira que eu já tinha escrito? No início da aula eu achei que Hunter parecia doente e fiquei pensando se eu o havia afetado com minha história. Agora eu sabia que não, e eu o odiava. ― Por que você sempre fala primeiro? ― eu gritei, antes que Manohar pudesse dizer qualquer coisa. Ele olhou ao redor da sala. ― Porque estou na cadeira correspondente ao primeiro.

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Eu olhei para Gabe. ― Por que Manohar sempre é o primeiro? Não é justo. Gabe colocou a mão sobre a minha e disse, numa voz tão baixa que eu não tinha certeza se ele queria que o resto da turma ouvisse. ― Isso não é um jogo. Mal sabia ele. ― Minha preocupação ― disse, querendo que toda a turma ouvisse ― é Manohar ter dito que minha história é infundada. Ele colocou essa ideia na mente de todos e agora os outros comentários seguirão essa mesma linha. Eu me pergunto se alguém mais realmente achou que minha história não era realista ou se Manohar está apenas sendo Manohar. ― Eu tenho essa mesma opinião ― disse um garoto do outro lado da mesa, levantando a mão. ― Eu também ― disse o garoto-lobo. ― Mas esta história passa no mesmo lugar da minha primeira história ― eu enfatizei. ― Todos acharam a primeira história realista ― ou talvez somente Hunter tenha dito isso. ― Apenas o cenário desta história é realista ― Manohar explicou. ― O que é inverossímil é o drama exagerado. Na sua primeira história um jovem casal ia para detrás dos arbustos para se divertir. Summer jogou a caneta sobre a mesa na direção dele. ― Vulgar. Manohar abaixou a cabeça.

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― Pelo menos a primeira história não era absurda, mas desta vez você criou um triângulo amoroso, um encontro amoroso à meia-noite e uma morte trágica. É como um filme feito para a TV. ― O que há de errado em filmes feitos para a TV? ― eu perguntei, tentando me manter viva na discussão. ― Eles empregam diversas pessoas, vários atores e vários escritores ― estava tão agitada que nem conseguia escrever a palavra estágio no meu caderno. ― Eu só acho que você pode fazer melhor do que isso. ― Como? ― questionei. ― Acho que você pode escrever uma história mais realista do que esta. ― Como você sabe que isso não aconteceu? ― pensei ter ouvido minha voz ecoando no teto, o que significava que ela estava bastante alta, mas o desafio de Manohar havia se tornado pessoal. ― Isso não poderia ter acontecido ― ele disse. ― Como você sabe? Hunter nos interrompeu. ― Manohar, você já pensou que essa história poderia ter sido verdadeira? ― ele colocou as mãos grandes sobre a mesa. ― E como você sabe? ― Manohar perguntou a Hunter, mas desacelerou a voz e eu pude ver em seu rosto que ele estava processando o fato de que Hunter e eu já nos conhecíamos há mais tempo. Hunter conhecia minha história e conhecia esta história. ― Está na cara que ela está chateada ― Hunter apontou para mim e depois olhou para Manohar. ― É só somar dois mais dois. Eu tenho habilidades sociais mais desenvolvidas que as suas. Olhe para ela!

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Os vestígios da voz de Hunter ecoaram pelo teto. O silêncio que seguiu foi pesado e obscuro, como o céu do lado de fora da sala. A tensão se acelerou, como os carros que passavam em alta velocidade na rua lá embaixo. Quem fosse o próximo a falar e a quebrar o silêncio poderia mudar o humor da turma. Eu deveria fazer isso. Deveria interferir na discussão da minha própria história. Isso mostraria a Gabe que eu levava a sério meu ofício. Mas eu não podia. Mantive os meus olhos concentrados nas páginas de "Tudo é possível" na minha frente e senti meu estômago dar um nó. ― Perdoem-me ― Hunter irrompeu ― Manohar, eu não deveria ter dito isso. Gabe, desculpe-me por ter falado quando não era minha vez. E Erin... Ele fez uma pausa, esperando que eu levantasse a cabeça. Ele não continuaria falando e o silêncio prevaleceria novamente até que eu correspondesse. Eu olhei para ele por baixo das minhas franjas. ― Desculpa, Erin ― ele me olhou com um sorriso confiante e os olhos azuis nervosos. ― Sei que você pode defender sua própria história. ― Você está bem? ― Isabelle colocou a mão no pulso dele, confortando-o, como se eles estivessem namorando. ― Não ― ele resmungou ―, estou cansado ― ele olhou por baixo da mesa. ― Agora perdi minha caneta.

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Isabelle e as outras três pessoas próximas a ele abaixaram a cabeça por debaixo da mesa para procurar a caneta. ― Brian? ― Gabe disse de repente. ― Eu? ― Brian olhou para Gabe. ― Ah, é minha vez! Eu adorei a história. É uma mistura de Danielle Steele e aquele filme A Mocidade é Assim Mesmo. A turma riu, um pouco constrangida, ainda não totalmente recuperada da explosão de Hunter. Depois que ele disse que a história era real, todo mundo ficou pisando em ovos para não ferir meus sentimentos e eles acabaram não dizendo muita coisa. A verdade é que eu nem estava prestando atenção. Agarrei a borda da mesa com meus dedos brancos e tentei acalmar a respiração, olhando para minha história, mas sempre atenta à presença de Hunter. 185

DEI UM SALTO QUANDO GABE LIBEROU a turma. ― Erin! ― Summer gritou. ― Não posso ficar aqui, vou ser demitida. Meu chefe disse que depois de sete repreensões eu estou fora. Gabe abriu a boca como se fosse falar comigo, mas eu passei apressada por ele e saí do edifício em direção à calçada. O vento forte e frio com cheiro de gasolina soprava no meu rosto. Parei para segurar a mochila e ajeitar o casaco. Depois me apressei em direção à cafeteria, passando por dois policiais montados no parque. Os cavalos relinchavam um para o outro. Tentei esquecer minha história e a sensação ruim que tive quando pensei em Hunter na ponta


da mesa. Eu estava fazendo mal a nós dois. Nós estávamos em Nova Iorque, começando uma nova vida. Não havia motivo para ficarmos jogando o Kentucky um na cara do outro. Quando cheguei na entrada da cafeteira, prometi sorrir para os clientes durante as próximas horas e não pensar em nada além de servir uma ótima xícara de café. Tudo tem uma primeira vez. Mas quando fiquei atrás do balcão para receber os pedidos, a mesa próxima à janela onde Hunter e eu havíamos sentado estava bem na minha frente. Cada vez que eu atendia um cliente e esperava o próximo, ficava olhando para aquela mesa, para aquelas cadeiras vazias. Finalmente, quando me acalmei, fingi buscar calda de chocolate no depósito e trouxe minhas cópias de "Tudo é possível". Mal conseguia respirar enquanto folheava a pilha de papéis e por fim encontrei a cópia de Hunter. Ele rabiscou seu nome na página do título e não escreveu mais nada. Gabe escreveu a lápis no fim de sua cópia:

Erin, Acho que você está indo na direção errada, você não acha?

De repente Manohar, Brian e Summer apareceram no balcão. ― Um café com leite, por favor ― Summer disse, alto o suficiente para que meu chefe ouvisse na sala dos fundos ―, e desenhe um pequeno coração na espuma. Você é tão boa nisso.

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Depois, sussurrando, ela disse: ― Aquela história não era verdadeira, era? Eu fiz que sim com a cabeça, olhando de relance para Manohar e Brian, que também estavam escutando. ― Mas claro que não era sobre você ― Summer disse ―, pois você está viva. É sobre sua mãe? Eu confirmei com acabeça. Eles arregalaram os olhos. Summer perguntou: ― Ela está... O olhar no meu rosto a interrompeu. Mas não interrompeu Brian. ― Mas... seu pai é o marido dela na história? ― Marido não ― Summer disse baixinho. ― o pai da filha dela. ― Tanto faz ― Brian disse. ― O que aconteceu com ele? Eu abri a boca, mas não consegui responder. Minha mãe estava morta. Por que as perguntas sobre meu pai machucavam ainda mais? ― Onde ele está? ― Brian insistiu. Eu engoli em seco. ― Vancouver, da última vez que eu soube. ― Quando foi isso? ― Há seis anos ― seis anos, três meses, duas semanas e três dias. ― E o amante dela na história... o que aconteceu com ele? ― Manohar perguntou, parecendo realmente curioso sobre este drama da vida real.

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― Ele ainda trabalha na fazenda de cavalos da minha avó ― eu disse. Summer refletiu e eu confirmei. ― sim, é o pai de Hunter. ― Não acredito! ― Brian exclamou. Os três ficaram boquiabertos. Espiei a porta da sala dos fundos, esperando ver meu chefe com as mãos na cintura. Olhei para Brian: ― Senhor, posso anotar o seu pedido? ― Hunter se parece com o pai? ― Summer quis saber, ― Sim. Já que eles não me diziam o que iam querer, decidi servir café preto mesmo. Coloquei uma xícara na cafeteira. ― É para viagem, não é? ― Você se parece com sua mãe? ― Brian perguntou. ― Não ― eu disse. ― Normalmente cabelo ruivo salta uma geração. Eu me pareço com minha avó. ― Mas e se sua mãe e o pai de Hunter tiverem transado ― Brian insistiu ―, você e Hunter podem ser irmãos? ― Não! ― Summer, Manohar e eu gritamos ao mesmo tempo. Olhei em direção à sala dos fundos de novo. ― Vocês vão me trazer problemas. Quando eu escrevi aquela história, pensei que tiraria um peso das minhas costas, para poder encarar Hunter de frente, mas estou me sentindo mil vezes pior e não quero conversar sobre isso, entenderam? ― Que horas é seu intervalo? ― Manohar perguntou.

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― Às nove ― eu disse, com cuidado. ― Vou voltar ― Manohar disse. Estava claro que ele tinha interpretado como quis meu Eu não quero falar sobre isso. Eles pegaram o café para viagem e saíram da cafeteria, me deixando sozinha para servir estranhos e sofrer as consequências dos meus próprios atos. Como um relógio, às nove em ponto Manohar reapareceu sozinho. Acenou para mim e se sentou à mesa perto da janela. Eu me sentei na frente dele e lhe passei um café com leite com um traseiro desenhado na espuma. Ele nem reparou. Estava olhando fixamente para mim. ― Summer não me pediu para vir aqui. ― E Hunter? ― Hunter! ― ele exclamou. ― Hunter passou o fim de semana como um louco. Estava quieto e antissocial. Pensei que ele estivesse doente, mas agora entendo que ele deve ter lido sua história na sextafeira ― ele se inclinou para frente. ― Eu não tinha ideia de que sua história tinha um fundo de verdade, Erin. Eu não teria dito aquelas coisas na aula se soubesse. Eu pisquei para ele, sem acreditar no que estava ouvindo: um pedido de desculpas vindo de Manohar. Depois de toda a ansiedade que ele havia me causado durante as últimas seis semanas, eu não estava pronta para beijá-lo e ficar com ele, mas consegui encolher os ombros e dizer: ― Não se preocupe.

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― Estou preocupado. Tentei pedir desculpas para Hunter depois da aula, mas ele me disse para cair fora! ― ele desmoronou na cadeira, exasperado. ― Decidi tentar com você. Acredite ou não, você parece ser muito mais sensata. Eu suspirei e coloquei a mão no queixo. ― Podemos voltar para a parte em que você estava arrependido? Ele balançou as mãos no ar. ― Não quero ir longe demais. Saber que sua história se baseia em um caso real não a torna melhor, na minha opinião. ― Obrigada. Ele levantou as mãos para me calar. ― Nós achamos que, se basearmos uma história em um caso real, ela será realista, mas isso não é verdade. Por exemplo, meu pai toca banjo, ama música sertaneja, é corretor da bolsa, mas acha que perdeu sua vocação. Em quase toda história que escrevo, penso em colocar um pai indiano que toca banjo. É algo familiar para mim. Eu poderia escrever muito sobre isso. O banjo seria um ótimo símbolo. Para algum propósito. Mas as pessoas diriam que minha história não é realista. Abri boca para dizer que essa era a coisa mais interessante que eu fiquei sabendo sobre ele, e a mais crível. Pela primeira vez ele pareceu uma pessoa real, com uma família desconcertante, e não apenas um garoto indiano elegante com uma atitude atrevida. Eu preferia muito mais ter lido uma história sobre seu pai tocador de banjo do que as tolices anti utópicas que ele levava para a aula. Mas ele continuou.

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― AIém do mais, toda vez que você escreve algo remotamente similar à realidade, envolve Hunter de alguma maneira. Hunter é calmo e indiferente a tudo, exceto a você e suas histórias. Portanto, se você não se importar, para manter a paz, pode persistir com suas fantasias românticas, mas deixe Hunter fora disso.

QUANDO CHEGUEI EM CASA pouco depois das onze da noite, encontrei Summer sentada em sua cama, lendo. Eu esperava que ela estivesse lá em cima no quarto de Manohar e sabia que ela estava indo para lá agora porque ainda estava maquiada, mas ela estava me esperando. Ela deu um tapinha no colchão, me pedindo para sentar. Guardei minha mochila cheia de livros com cuidado, para preservá-la, e sentei do lado dela. Depois deitei no travesseiro e fiquei olhando para o teto rachado. ― Você o ama tanto ― ela disse. ― Não, eu não o amo. ― Só não consigo entender como as coisas deram tão errado para vocês durante todo esse tempo. Eu não queria conversar sobre isso, mas olhar para o teto ajudava. Meu estômago tinha dado um nó e eu respirei fundo por causa da dor.

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― Depois que minha mãe morreu, eu não conseguia olhar para ele, porque o pai dele estava lá quando a tragédia aconteceu. Sempre que eu olhava para Hunter, todo o filme se repetia na minha cabeça. Eu também não conseguia olhar para o pai dele, mas isso não durou muito porque minha avó pediu ao pai dele para dar uma volta a cavalo comigo para que eu não ficasse com medo. Naquela época as aulas na escola já haviam começado e Hunter era o novo aluno. As pessoas começaram a chamá-lo de meu cavalariço e eu não fiz nada para mudar isso. ― Ah ― ela disse, como se estivesse encerrando a conversa e tivesse se arrependido de ter perguntado. Eu continuei falando. ― Depois ele se machucou. Você se lembra da cicatriz? Foi como se minha mãe estivesse morrendo novamente. Eu queria vê-lo. Fui até a casa dele para pedir ao seu pai que me levasse ao hospital para ver Hunter, mas fiquei do lado de fora por alguns minutos e não consegui bater na porta. Quando Hunter voltou para a escola, parecia estar ressentido e nós ficamos nessa situação até terminar o ensino médio. As pessoas o provocavam porque ele era meu empregado e me provocavam para que eu ficasse com o cavalariço, e as garotas diziam que ele era perfeito para mim. Eles não entendiam o quanto ele me odiava ou por quê. No último ano competimos por uma bolsa para a mesma faculdade. ― Ah ― ela repetiu. Desta vez ela se aproximou e acariciou meu cabelo no travesseiro, fazendo meus olhos encherem de lágrimas.

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― Na noite da corrida de cavalos ele fez algo gentil para mim ― eu engasguei. ― Eu esperava que fosse um recomeço, mas depois ele roubou minha fazenda. Ela ficou calada por alguns minutos. Finalmente disse: ― Você não sabe se comunicar muito bem. Estou surpresa por você querer ser escritora. ou talvezseja por isso mesmo que você quer seguir essa carreira. Eu ajeitei minha postura, tirando o cabelo do rosto molhado. ― Eu te amo ― disse. Ela riu. ― Eu sou uma pessoa fácil de amar. ― Não... Eu me inclinei para frente e a abracei, inesperadamente. Meu estômago deu outro nó, mas a abracei assim mesmo. Foi um abraço bem apertado. Ela acariciou minhas costas e disse: ― Eu também te amo ― depois me abraçou. ― vamos assistir a um filme agora à noite. Você não sai nunca. Eu balancei a cabeça. ― Tenho que estudar história ― depois olhei para o teto de novo. ― É mehor você subir, Manohar está te esperando. Demorei um pouco para convencê-la, mas no fim das contas ela saiu. Eu fui para o meu quarto e tirei os livros da mochila. A solidão do quarto vazio estava devastadora nessa noite e só de pensar em vagar sozinha pelos campos de batalha antigos dos capítulos da minha

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história minha cabeça começou a latejar. Passei pelo corredor e fui até o banheiro para tirar a maquiagem e me livrar do cheiro de café. Eu estava tão cansada por causa das longas noites trabalhando em pé e servindo café que preferia o cheiro de lixo tailandês. Deitei na cama e me estiquei, quase dormindo. Os passos de Hunter ecoaram na escada, atravessando a parede na cabeceira da minha cama. Totalmente acordada, me levantei e fiquei olhando para a parede, pronta para me defender caso Hunter passasse por ela. Inclinei-me para frente com a cabeça abaixada, ouvindo o barulho diminuir. A porta da frente do dormitório abriu com um estrondo e fechou da mesma forma. Saltei para o outro lado da cama e pela janela vi Hunter se afastar, descendo as escadas com o sobretudo aberto. Eu já estava cansada disso, tinha que saber aonde ele ia. Vesti as roupas que tinha usado naquele dia, calcei depressa os sapatos e vesti o casaco. Peguei um cachecol na cabeceira da cama e passei correndo pela porta. Cachecóis estavam na moda e eu ainda não tinha precisado dele para me aquecer, mas esta noite ele foi útil. Enquanto descia as escadas, amarrei o cachecol em volta do meu cabelo vermelho. Quando abri a porta da frente, ainda conseguia vê-lo na outra quadra na calçada quase vazia. Eu fui atrás dele, andando o mais rápido possível sem ter que correr e evitando chamar atenção, caso ele olhasse para trás. Corri um pouco quando ele virou a esquina e pensei que ele podia estar esperando para me assustar quando eu virasse a esquina, mas vi seu cabelo loiro quando ele descia a escada da estação de metrô.

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Eu andei muito de metrô quando cheguei em Nova Iorque. Por que não, já que a carteirinha mensal dava direito a passagens ilimitadas? Fiquei impressionada quando descobri que o metrô podia me levar a qualquer lugar da cidade. Ele quebrou algumas vezes comigo dentro e houve um período em que as sinalizações estavam horríveis e eu pegava a linha errada e sempre acabava em TriBeCa. Ultimamente eu quase não andava de metrô. Quando as aulas começaram em setembro, minha Manhattan se transformou em um círculo estreito que incluía apenas o dormitório, a cafeteria e a biblioteca. Tomei a escada rolante e desci até as profundezas da cidade. Deste ângulo, a escadaria parecia se aplainar em uma esteira rolante. Era nisso em que minha vida havia se transformado e, a julgar pelas olheiras de Hunter ultimamente, talvez a vida dele também, uma máquina implacável que nos mastigava em pedaços. Ele andou em direção à plataforma do metrô e desapareceu da minha vista sob a borda do teto curvo. Ele teria que olhar para trás para conseguir me ver. Caso ele se virasse, me veria. Não tinha como evitar isso. Fui o mais discreta possível, mas ele ainda conseguiria me ver, a menos que eu ficasse escondida atrás de uma pilastra, o que atrairia a suspeita dos outros passageiros e da polícia. Eu não sabia para onde ele estava indo, não sabia o que haveria lá e por que eu poderia querer ir até lá sozinha tarde da noite. Eu seria descoberta e, quando isso acontecesse, eu não teria desculpa, somente a verdade: "Vou ficar louca se não descobrir esse seu romance secreto". Pisei na plataforma quando o trem que ia em direção ao norte chegou. Eu o vi embarcar e entrei no mesmo vagão pela porta de trás. O metrô tinha passageiros suficientes para que eu me misturasse na

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multidão de sobretudos escuros, mas não tantos para que Hunter tivesse que se levantar e dar seu lugar a uma senhora. Ele se sentou e abriu um livro. A meio trem de distância, eu o observei enquanto ele lia. Quando uma parada se aproximou, ele guardou o livro, se levantou e estendeu a mão até a barca acima de sua cabeça. Eu abaixei o queixo, me preparando para ser descoberta, mas ele não olhou em minha direção. Fechou seus olhos, segurando a barra com força para manter o equilíbrio enquanto o trem balançava. As portas abriram, ele se misturou na multidão e eu fiquei a vinte passos de distância. Meu coração batia cada vez mais forte enquanto subíamos a escada em direção à rua. Se a jornada terminasse em um bar, eu saberia que a história mais recente que ele levou para a aula realmente não era ficção. Se ele entrasse na loja de uma cartomante, eu sentiria a nuvem de fumaça de incenso levada para fora pelo vento e saberia que deveria deixá-lo. O que me preocupava era a ambiguidade. Enquanto eu me apressava atrás dele na calçada escura, esperava que ele entrasse furtivamente em uma farmácia para que eu pudesse espiá-lo enquanto ele beijava a loira da festa temática que trabalhava como vendedora atrás do balcão. Pelo menos assim eu teria certeza, mas se ele usasse uma chave para entrar em um prédio e trancasse a porta, eu ficaria na rua, rejeitada e frustrada, sem saber se ele estava participando de um jogo clandestino de pôquer, comprando drogas ou tendo um romance com a professora quarentona de anatomia. Ele parou em um ponto de ônibus. Eu esperei e fui até a esquina somente quando o sinal abriu e ele atravessou. Primeiro achei que seu destino podia ser o prédio na minha frente, mas não era possível. Ele

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mudou de direção e continuou caminhando pela calçada ao lado do prédio, em direção ao seu verdadeiro destino. Um hospital se aproximava no cruzamento. O pronto-socorro brilhante se destacava na esquina. Ambulâncias piscavam de forma preocupante, com luzes azuis e vermelhas na entrada. As luzes dançavam no cabelo de Hunter enquanto ele cruzava a rua, rodeado por ambulâncias, e desaparecia no corredor brilhante. Meus olhos se encheram de lágrimas pela segunda vez esta noite. Meu coração bateu forte no meu peito. Minha mente processava freneticamente as possibilidades, cada uma pior do que a outra. Hunter estava namorando uma cirurgiã loira e inteligente que gosta de homens mais novos. Hunter estava visitando devotamente sua namorada loira do chuveiro, que havia adoecido. Hunter estava doente. Estava morrendo lentamente. Queria que o resto de sua breve vida fosse o mais normal possível. Por isso não queria que eu soubesse para onde ele estava indo. Ele não queria que minha avó o tirasse da faculdade agora que ele não poderia cumprir sua obrigação como herdeiro. Eu tinha que descobrir. Pisei no asfalto. Com o canto do olho vi o táxi se aproximar. Eu sabia o que tinha feito de errado, mas era tarde demais para voltar atrás. Sentir um choque no quadril e caí de costas no asfalto. Tudo parou. Olhei para cima, o brilho laranja do céu noturno nublado entre os prédios, a rua ao meu redor estranhamente quieta, mas na minha cabeça ouvi o eco dos pneus derrapando. Eu tinha que sair da rua. O próximo carro me mataria.

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Coloquei as mãos para trás para me apoiar e me levantar. Minhas costas queimavam como fogo. A dor no quadril tirou meu fôlego. O táxi estava parado na minha frente com o capô um pouco amassado. A porta abriu, revelando um rock do Oriente Médio. O motorista ficou de pé ao lado da porta, apontou para mim e me xingou em árabe. Na outra esquina, em frente ao hospital, quatro pessoas com roupas verdes estavam ao lado de uma maca, esperando o sinal abrir para atravessar a rua. Eu me contorci por causa da dor insuportável no quadril. De bruços, examinei o asfalto e vi pequenas pedras brancas a base azul estava desgastada. As pessoas vestidas de verde finalmente chegaram até mim com a maca. Quando me perguntaram para quem deveriam ligar, eu dei o único número que consegui lembrar.

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11 HUNTER ABRIU AS CORTINAS. Estava vestindo uma roupa verde, igual aos médicos e as enfermeiras que me recolheram da calçada. Por uma fração de segundo eu o confundi com um adorável médico que se parecia bastante com ele, mas tive certeza que era Hunter quando ele olhou assustado para mim, com uma mistura de surpresa e espanto. Com o rosto pálido, ele perguntou: ― O que você fez? ― Atravessei a rua ― eu disse. ― Bem mal ― com uma expressão de dor, me levantei na maca, colocando o peso sobre minha mão e quadril. Apenas alguns minutos passaram desde que eles me trouxeram e me deixaram aqui, depois de confirmar que eu não estava morrendo. Ainda me sinto bastante instável pelo choque de ter sido atropelada, mas eu não queria encarar Hunter deitada. Com dois passos ele se inclinou na minha direção e me abraçou com cuidado para não apertar a camisola hospitalar em minhas costas, onde estava o ferimento que causei quando me arrastei no asfalto, mas seu toque nos meus ombros irradiou a dor para outras partes machucadas. Fiz outra uma expressão de dor.

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― Meu Deus, me desculpe! ― ele me soltou, mas continuou perto de mim, com aquelas suas mãos grandes sobre meus ombros. Ele estava tão perto que o ar ficou quente entre nós. ― O que você machucou? ― Isso foi quando eu derrapei no asfalto ― mostrei as costas e me encolhi de dor quando mexi o braço. ― Até onde vai o ferimento? ― minhas costas congelaram quando ele levantou uma ponta da camisola e olhou. Eu abaixei a cabeça, escondendo as bochechas vermelhas. Ele estava olhando para a parte das minhas costas onde não havia pele. O que poderia ser mais sensual do que isso? Mesmo se as circunstância tivessem sido mais felizes, eu não estaria usando maquiagem e com certeza meu cabelo estaria emaranhado por causa do lenço. Não havia motivos para meu sangue esquentar como se estivéssemos em um encontro romântico. Mas meu corpo não obedece à lógica quando se trata de Hunter. Ele não estava examinando minha ferida, estava encantado com a visão de meu traseiro adorável e imaculado. Eu era uma escritora de romance. Tinha o direito de sonhar, não é? Rapidamente, perguntei: ― Você está perguntando se eu tenho cascalho grudado na minha bunda? Pelo amor de Deus, não. Hunter soltou a camisola e eu me levantei. ― O médico disse que o carro atingiu seu quadril ― ele insistiu ― Quebrou alguma coisa? Eu olhei para ele.

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― Está doendo muito ― disse. ― Se estivesse quebrado, acho que doeria mais. Ele concordou com a cabeça. ― Quando quebrei as costelas, não conseguia respirar. ― Isso aconteceu porque suas costelas perfuraram o pulmão. Ele apontou para mim. ― É verdade ― depois inclinou a cabeça para o lado, deixando o cabelo loiro cair sobre os olhos. ― Estou surpreso por você se lembrar disso. Eu me encolhi de novo, não por causa da dor física, mas porque tinha sido muito doloroso me preocupar com Hunter e ficar sabendo de seu acidente por terceiros. E tinha sido minha culpa. Eu devia ter cultivado nossa amizade no início, antes que de tudo ficar estranho. Eu tinha minhas desculpas, mas fui eu quem se escondeu no armário e fechou a porta. E agora estávamos tão distantes que nenhum de nós fazia ideia do que o outro estava fazendo neste hospital. ― Você trabalha aqui como atendente? ― eu perguntei. Ele balançou a cabeça. ― Eu me voluntariei aqui como servente. ― Então por que eles deixam você visitar os pacientes? ― Eu viria mesmo se eles não permitissem, porque é você ― seus olhos pareceram ficar mais escuros ―, mas a médica do plantão me deixa assistir os exames às vezes. Ela sabe que eu quero estudar medicina.

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Agora algo diferente acontecia nos olhos dele. Ele percebeu que me contou isso sem querer. ― Você quer estudar medicina? ― eu perguntei, surpresa. Ele abriu a boca. Seu peito largo se expandiu com uma respiração profunda. ― Sim ― ele disse, com um suspiro. ― Então é por isso que você está assistindo às aulas de anatomia e cálculo, em vez de matemática financeira. Você é um pré-estudante de medicina. Ele sorriu. ― Sim. Eu sempre tinha visto Hunter como um oportunista polido, não sei por que supus que ele estava fazendo o que minha avó queria. ― Você não tem intenção de se formar em administração e gerenciar a fazenda da minha avó depois de se formar. ― Não. Surpresa, eu disse: ― Você só está aproveitando o dinheiro dela. Agora que ele sabia que tinha sido descoberto, tentou me seduzir com um grande sorriso. ― Basicamente isso. Fiquei feliz por termos tido um confronto direto e por eu ter, finalmente, descoberto a verdade enquanto ainda estava apoiada na maca, mas meu quadril doía mais do que tudo que eu já havia sentido e eu não conseguia me equilibrar nos meus ossos sensíveis.

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― Qualquer pessoa que se aproveita da minha avó é meu amigo ― soltei um gemido enquanto me inclinava para frente. Deitei na maca com a barriga para baixo e com uma mão atrás para evitar que a roupa subisse e revelasse ainda mais do meu corpo acidentado para Hunter. Ele passou o braço pelo meu peito para me apoiar enquanto eu me deitava. Fiquei me perguntando se ele sabia exatamente onde estava tocando por baixo da minha roupa, mas com certeza aquela era a última coisa na qual ele estaria pensando. A maioria das pessoas não tem pensamentos sujos em horas como essa. Só eu. Ele trouxe uma cadeira e se sentou do meu lado. ― Isso explica o que eu estou fazendo aqui ― ele abaixou o queixo e o colocou na ponta da maca, me olhando como um cão amigável. ― Mas o que você está fazendo aqui? Ele estava tão lindo, olhando para mim com preocupação nos olhos, e seu tom de voz foi tão gentil que eu quase respondi. ― Você me seguiu ― ele disse. Eu me mexi na maca, tentando em vão encontrar uma posição mais confortável, mas meu quadril doeu mais ainda. ― Você queria saber onde eu estava indo tão tarde ― ele disse. ― vi você me observando pela janela. Lembrete: quando os garotos olham para trás e você os está observando na escuridão por trás da janela bem iluminada e a expressão no rosto deles não muda, você acaba relaxando e supõe que eles não podem ver que você os está observando, quando na verdade eles te veem sim.

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Eu não podia mais negar. ― Fiquei com medo de que suas histórias da aula de Gabe fossem reais ― murmurei. Hunter levantou as sobrancelhas. ― Você achou que eu estava transando com uma garçonete? E me seguiu para descobrir se era verdade? Para quem me odeia, você está bastante interessada na minha vida sexual. ― Eu não odeio você, Hunter. Senti meus olhos encherem de lágrimas de novo. Eu estava sentindo dores variadas, mas o que me fez chorar foi uma ferida de seis anos atrás e a mil e trezentos quilômetros de distância. Seus dedos tocaram os meus. Primeiro achei que ele ia ajeitar minha roupa de novo, mas depois seus dedos deslizaram pela palma da minha mão e se entrelaçaram nos meus. Eu já sabia que as mãos dele eram calejadas por causa do trabalho na fazenda, uma adaptação a uma vida antiga que demorou um pouco para perder a intensidade. Mesmo assim, fiquei surpresa com a sensação áspera de sua pele na minha. Ele acariciou meu cabelo. Foi tão bom, e o formigamento que passou pelos meus braços foi tão gostoso que eu tive que lutar contra a vontade de fechar os olhos e ronronar. Era estranho, mas agora que eu sabia que ele não estava tendo as aventuras sexuais das quais eu suspeitava, ele parecia mais charmoso. Nós tínhamos chegado a um ponto de maturidade em que as pessoas tinham relacionamentos reais e eles davam certo, se tivéssemos sorte. Em um pensamento repentino, despertei.

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― E aquela loira? ― Que loira? ― ele perguntou, surpreso, ainda passando os dedos ásperos pelo meu cabelo. ― Você age como se eu fosse uma idiota por achar que suas histórias eram reais, mas você estava com a loira no banheiro. ― Ah, é verdade. Esqueci o nome dela. Eu não a vi depois daquele dia, disse a ela que queria deixar você brava e pedi que me deixasse acariciá-la por alguns minutos. Era difícil ficar brava com ele quando seus dedos acariciavam meu cabelo, mas fiz o possível. ― Depois você fingiu estar chocado por eu ter ficado brava. ― Eu estava mesmo chocado por você ter ficado brava. Antes daquele dia, eu achava que você não gostava muito de mim. ― Mesmo depois da história do cavalariço? ― Você disse que era ficção ― ele suspirou e colocou a mão no queixo, encostando o cotovelo na maca perto de mim e acariciando meu cabelo com a outra mão. ― Tudo o que você faz me surpreende. É assim que você atrai minha atenção. Eu olhei para ele, encarando profundamente aqueles olhos azuis que refletiam as luzes florescentes no teto. Consegui manter sua atenção. Lambi meus lábios secos e respirei fundo para perguntar o que ele queria dizer. Antes que eu pudesse falar, ele disse: ― Tenho que levar você para tirar um raio X daqui a alguns minutos.

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― Não ― eu balancei a cabeça, fazendo meu cabelo ondular para frente e para trás no lençol da maca. Ele parou a mão no meu cabelo e disse, ameaçador: ― Você não pode se negar a fazer isso. ― É meu direito e eu me recuso. Minha avó me tirou do plano de saúde dela e agora eu estou no plano de saúde barato para estudantes da universidade, o que significa que tenho direito a cuidado emergencial, mas teria que ir ao escritório de saúde estudantil primeiro, ou eles podem não querer pagar. Não tenho condições de bancar um raio X e pagar pelo dormitório ao mesmo tempo. ― E se seu quadril estiver quebrado? ― Nós concordamos que provavelmente ele não está. De qualquer forma, vou descobrir amanhã quando o escritório de saúde estudantil abrir ― eu não queria passar o resto da noite sentindo toda essa dor e com medo de me levantar, mas não tinha outro jeito. ― Você não vai sair daqui ― ele ordenou. Uma enfermeira apareceu atrás da cortina. Hunter olhou para ela, depois chegou mais perto de mim e abaixou avoz, mas com um tom tão intenso quanto antes. ― Não vou deixar você sair daqui sem antes ver um médico. ― Você não pode me impedir ― eu o encarei e tentei parecer tão determinada quanto ele, o que era difícil, com meu quadril doendo tanto daquele jeito. Alguns dos meus músculos ficaram tão surpresos com o choque que até se esqueceram de doer no início, mas devagar foram se lembrando.

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De repente ele ajeitou a postura, com o rosto amigável. ― Vou dar um jeito nisso. Já volto. Ele se afastou da cama e levou a cadeira de rodinhas até a cortina. Eu me virei para o lado e fechei os olhos por causa da luz branca, tentando me sentir confortável, apesar da maca não ser nada macia. Eu estava com sono. Já passava da meia-noite. Eu não conseguia imaginar Hunter acordado e alerta aqui toda noite. ― Ei ― ele disse baixinho. Eu abri os olhos. Sua mão estava em meu cabelo novamente e ele se inclinou na minha direção. ― Eu vou ajudar você ― ele disse. ― Vamos tirar o raio X, já cuidei disso para você. ― Como assim, você cuidou disso? ― disse, confusa. Eu não queria ir, mas ele já estava com as mãos em baixo de mim, me ajudando a levantar da maca e sentar em uma cadeira de rodas com almofadas. Fiquei com medo que qualquer resistência resultasse em outra exposição do meu corpo por causa daquela camisola aberta. Ele me acomodou com tanto cuidado na cadeira de rodas que meu quadril e minhas costas quase não doeram. Depois me empurrou, passando pela cortina em direção à sala de emergência tumultuada. ― Eu dei um jeito nisso. Todos os registros da sua visita serão removidos para que eles nunca cobrem de você, mas você tem que fingir que é minha namorada. ― Como assim, sua namorada? ― que chantagem maravilhosa era essa? E ainda por cima valia a pena? Talvez eu pudesse aguentar.

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― Tive que fazê-los pensar que tenho um interesse especial em você ― ele sussurrou. ― Eles nunca teriam concordado em remover seus registros se eu tivesse dito que você era minha amiga aos doze anos, não tanto aos dezoito, e que eu tinha me intrometido e roubado a herança da fazenda da sua família. Entende? shhh... ― oi Brody ― ele tocou a mão de outro homem que vestia a roupa hospitalar e estava levando uma maca na direção oposta. O homem me olhou, mexeu as sobrancelhas para Hunter e continuou andando. ― Você não poderia ter dito que nós somos amigos? ― eu tinha que fingir que não gostava nem um pouco dessa ideia. Além do mais estava com um pouco de medo de Hunter desvendar a história. ― Eu tenho muitos amigos ― ele explicou, me levando até uma sala de espera para fazer o raio X. Ele girou a cadeira de rodas e se ajoelhou na minha frente. Atrás dele, vi uma porta entreaberta. Um aparelho que eu supunha ser a máquina de raio X era visível pela fresta. Ele olhou para trás e depois para mim: ― Desculpe por isso ― ele murmurou, enquanto deslizava as mãos pelo meu cabelo e me beijava. Tudo o que eu consegui fazer foi sentir. Seus lábios estavam sobre os meus. Suas mãos me seguravam para que eu não pudesse me esquivar se tentasse, mas eu não tentaria. Um formigamento saiu dos meus lábios e se espalhou pelo meu rosto, pelo meu pescoço e pelo meu peito. Desejei aquela sensação por mais tempo. Lembrei a mim mesma de que nós estávamos fingindo isso por um motivo. Eu não

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queria tornar o beijo mais prolongado do que necessário, pois isso poderia afastá-lo. Hunter foi mais fundo. Sua língua tocava meus dentes e se movia pela minha boca. Uma de suas mãos soltou meu cabelo e acariciou meu ombro, depois começou a descer. Quanto mais longe sua mão ia, mais eufórica eu me sentia. Meu quadril quase nem doía mais e a dor nas costas tinha desaparecido. Eu me perguntava até onde sua mão chegaria Nunca descobri. Uma sombra apareceu na entrada e pigarreou. Eu parei de beijá-lo e esperei que ele se afastasse, o que ele fez, mas bem devagar. Ele ajeitou a postura e olhou furioso para a técnica do raio X, como se ela tivesse sido muito atrevida. As bochechas dele estavam bem vermelhas. ― Então, Hunter ― ela disse, maliciosa ―, esta é sua namorada. ― Olá ― acenei. ― E você foi atropelada por um táxi enquanto atravessava a rua para visitar Hunter? Isso é tão romântico! Você já assistiu Sintonia de Amor? ― Não é romântico ― eu disse, sem rodeios. ― Odeio aquele filme. Eles não se encontram até a última cena e nunca se beijam ― percebi tarde demais que parecia que eu estava implorando a Hunter por mais. ― Mas naquele filme ― a técnica disse ― eles falam sobre Tarde demais para esquecer. Você já assistiu? Deborah Kerr está atravessando a rua para encontrar Cary Grant e é atropelada por um carro. Anos depois ele volta e ela está paralisada da cintura para baixo.

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― Você acha isso romântico? ― gritei. ― Isso é repulsivo! Hunter se levantou e colocou uma mão pesada sobre meu ombro enquanto puxava a cadeira de rodas, passando pela técnica e pela cortina até a máquina de raio X. ― Erin está sentindo muita dor ― ele sussurrou para a técnica ― e não quer pensar em ficar paralisada da cintura para baixo. Depois disso a técnica foi bem mais gentil, porque Hunter sabia lidar com as pessoas. Hunter me colocou na mesa e deixou a sala para não ficar exposto à radiação e para não ver meu traseiro magro. A técnica me girou na mesa com cuidado. Depois Hunter me levou de volta na cadeira de rodas para trás da cortina. Uma enfermeira finalmente me deu um remédio para dor e foi aí que a noite começou a desvanecer. Lembro que um técnico limpou minhas costas e colocou curativos nos ferimentos. Aquilo foi intenso. Eu tinha brincado com o cascalho grudado em minhas costas, mas ele encontrou mesmo algumas pequenas pedras, como previsto, as jogou em um tacho de metal e me mostrou, e Hunter brigou com ele. Lembro que um médico disse que meu quadril não estava quebrado, mas que eu ficaria com um hematoma do tamanho de uma laranja, mas, como não era época de frutas cítricas, uma abóbora. Achei engraçado, Hunter não. Ele continuou com os braços cruzados e as luzes florescentes sobre sua cabeça formaram sombras profundas sob seus olhos. Começamos a conversar sobre a volta para casa. Eu mencionei o metrô e ele parece ter ficado nervoso, por isso não insisti. Meu casaco foi encontrado, graças a Deus, porque eu não poderia comprar outro,

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mas, como eles tinham cortado minhas roupas quando me trouxeram para cá, Hunter foi se trocar e arrumou uma roupa para mim. Já era quase de manhã e eu estava com tanto sono que nem protestei quando ele ficou entre as ambulâncias na rua, parou um táxi, me tirou da cadeira de rodas e me colocou dentro do carro. Deitei no banco com a cabeça no colo de Hunter e seus dedos calejados acariciaram meu pescoço. Numa explosão de adrenalina eu poderia ter corrido gritando pela rua de novo se estivesse tocando um rock do oriente Médio no rádio, mas este taxista tinha bom gosto para música. Sob a batida pulsante da música, eu perguntei: ― Por que você está voluntariando como servente de madrugada? ― Eu sou um homem branco, portanto preciso de toda ajuda que conseguir para ser aceito na faculdade de medicina. O que se supõe é que, se você é um homem branco, teve todos os privilégios ― ele bocejou. ― Por que você quer estudar medicina? ― eu perguntei. ― Por acaso suas costelas quebradas foram um momento crítico e você foi motivado a se tornar médico e ajudar outras pessoas? ― Não ― acho que ele riu um pouco, mas não pude escutar muito bem por causa da música. Olhei para ele e vi somente as luzes rosa e verdes dos clubes noturnos piscando em seu rosto. Quando olhei para ele tive que mexer o corpo, o que doeu muito, por isso me acomodei e fechei os olhos de novo. Conversar com ele assim era mais fácil, principalmente considerando minha próxima pergunta: ― Você está doente?

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De repente senti o mesmo medo que me fez querer atravessar a rua do hospital sem olhar para os dois lados. Ele seria levado de mim antes mesmo de sabermos que jogo nós estávamos jogando. ― Não ― ele disse. Suspirei aliviada, devagar e com cuidado, para ele não perceber. ― Sua mãe está doente? Ele ficou calado por tanto tempo que eu achei que tinha encontrado a terrível explicação, mas seu dedo não parou de acariciar o meu pescoço. Finalmente, ele disse: ― Não. Ela mora em Nova Jersey e nunca se interessou muito por mim. Meu pai não tem sorte com as mulheres. Por que você perguntou isso? ― Estou tentando entender por que você não está se formando em administração na Universidade de Louisville. Sei que você queria voltar para Nova Iorque, mas você poderia ter tirado seis ou sete anos para trabalhar e pagar sua faculdade em Louisville, enganando minha avó e se voluntariando à noite. Você está tendo muito trabalho. ― É verdade. Esperei uma explicação. Quando ele não continuou, eu adivinhei. ― Você mencionou a faculdade de medicina para uma professora do ensino médio que disse que você não seria capaz? Desta vez seu dedo parou no meu pescoço. ― É isso! ― eu afirmei. ― Eles sabiam que você não era rico e que sua mãe não estava por perto e supuseram que você não era qualificado para estudar medicina. Então você se qualificou. Você é

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como Gatsby, está progredindo e provavelmente tem um diário para acompanhar seu progresso. ― Você precisa aprender a não dizer tudo que passa por sua mente ― o tom frio transcendeu a batida da música. ― Você está certo ― disse. Eu tinha finarmente conquistado uma relação amigável com Hunter, bastante amigável, considerando o namoro falso para burlar o sistema de saúde, e depois arruinei tudo. ― Hunter, me desculpe. ― No escritório do orientador no ensino médio ― ele me interrompeu ―, o que eles dizem para você é: "Nós podemos conseguir uma ótima faculdade onde você poderá aprender a ser uma melhor milionária". O que eles dizem para mim é: "Nós podemos conseguir para você um trabalho de iniciante na UPS. Você pode evoluir lá dentro. Se quiser assistir algumas aulas na faculdade para sentir que poderá melhorar de vida, tudo bem, desde que elas não interfiram no seu trabalho. Algum dia você pode até conseguir dirigir o caminhão”. ― Sinto muito. Eu já tinha visto Hunter nervoso, mas nunca tinha ouvido sua voz tão amarga, e eu precisava desesperadamente consertar o que eu tinha destruído. Eu me levantei sentindo muita dor para poder sentar e olhar para ele no táxi. Ele me abaixou com um braço pesado. ― Não, eu que peço desculpas. Eu só... ― ele olhou para mim e começou

a

acariciar

meu

pescoço

de

novo,

agora

mais

propositadamente, como se ele estivesse se forçando a fazer isso. ― Não é nada estranho eu estar enganando sua avó para que ela pague por meus estudos. O estranho é que você não esteja fazendo isso. Você

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poderia ter mentido para ela e dizer que estudaria e em vez disso assistiria às aulas de inglês. Você ainda pode fazer isso. por que é tão importante que ela não ajude e que vocês duas saibam que ela não está ajudando? ― Porque sim ― eu gritei. O taxista olhou para trás. Eu olhei para ele para garantir que ele voltasse a prestar atenção na direção e não atropelasse nenhuma escritora apaixonada. ― Minha mãe queria ser atriz e minha avó disse que a deserdaria. Minha mãe foi para Los Angeles quando tinha dezoito anos e talvez tivesse feito sucesso, se não tivesse engravidado aos vinte anos. ― Ela ficou grávida de você. Eu balancei a cabeça em seu colo. ― Mesmo depois que eu nasci, ela conseguiu alguns papéis, mas na maioria deles ela trabalhava como secretária, e depois ela se formou como assistente jurídica. Meu pai quase nem trabalhava. Esse era um dos maiores motivos de briga entre eles. Ele sempre tinha algum motivo para não trabalhar. Sempre dizia que era ela quem tinha uma família rica, perguntava por que ela não pedia dinheiro à mãe e ela sempre dizia que não pediria nada àquela imbecil, não depois do que sua mãe disse quando ela foi embora. Mas ela não se casou com meu pai, e agora eu me pergunto se foi porque ela não queria que ele fizesse oficialmente parte da famíIia e tivesse acesso ao dinheiro sobre o qual ele tanto falava e no qual parecia estar tão interessado. ― Então você é uma filha bastarda ― Hunter disse. A pergunta me pegou desprevenida.

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― Você pergunta se eu nasci fora do casamento? Sim. ― Então tenho uma vantagem sobre você, no fim das contas. ― Como assim, você tem uma vantagem sobre mim? É algum tipo de competição? Uma competição de direito de nascença? ― eu olhei para as luzes coloridas das lojas pelas quais passamos que refletiam no banco de vinil. ― Esquece, nem precisa responder. Acho que estamos competindo. Depois de seis anos, nós finalmente admitimos que gostávamos um do outro e uma hora e meia depois já nos odiávamos de novo. Será? Ele passou a mão pelo meu rosto, afastando a franja da minha testa com os dedos calejados. ― Você precisa vencer essa batalha com sua avó, porque isso irá provar que ela esteve errada o tempo todo. Se você vencer, sua mãe também vencerá. Eu ajeitei minha cabeça no colo dele, sem conseguir encontrar uma posição confortável. Ele tinha músculos demais para servir de travesseiro. Eu sussurrei: ― Minha mãe está morta.

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12 DE MADRUGADA ELE ME DEITOU na minha cama. Summer e Jordis sussurravam perguntas. Eu me perdi no sono e nos analgésicos, mas em algum momento do dia seguinte ou do próximo, Summer trouxe uma bengala e um enorme café da manhã e disse que eram presentes de Hunter. Quando pude voltar aos estudos, ele começou a se sentar ao meu lado na aula de cálculo, sem me paquerar, mas sendo gentil e me torturando com a dúvida de se ele realmente quis me beijar naquela noite no hospital. Summer estava nervosa por causa do incidente. Ela concordou com a técnica do raio X que ser atropelada por um táxi ao atravessar a rua para ver Hunter era romântico, até ver o hematoma nos meus quadris e os cortes que cicatrizavam devagar nas minhas costas. Uma semana e meia depois do acidente, quando eu já tinha voltado da cafeteria e entregado uma xícara de café para Hunter por suas longas vigílias no hospital, Summer enfiou a cabeça no meu quarto e perguntou, com os olhos arregalados, se eu já tinha lido a nova história de Hunter. Agora eu não era mais tão tola. Não tinha esperanças. Poderia ter corrido até a biblioteca e lido a história no primeiro dia, mas teria ficado obcecada até o dia da aula.

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Eu já tinha aprendido a lição. Esperei até o ultimo minuto, na quinta-feira, depois de almoçar bolachas com pasta de amendoim, para ir à biblioteca e ler todas as histórias. A de Hunter foi a última. Assim eu ficaria furiosa por apenas dez minutos, o tempo da caminhada entre a biblioteca e o prédio da sala de aula, antes de ter que encará-lo.

O espaço entre nós por Hunter Allen

O professor de ciências da oitava série tentou explicar como o espaço era grande. O espaço era tão grande que parecia não haver quase nada nele, daí seu nome. Espaço. O garoto não entendia, mas queria entender. Odiava os raros momentos em que não entendia alguma coisa na sala de aula, portanto, naquela noite, depois de ter alimentado os cavalos e comido o jantar aquecido no micro-ondas, enquanto seu pai hibernava na frente da televisão com um maço de cigarros e um isopor com cervejas para não ter que ir até a geladeira, ele se sentou na mesa da cozinha com uma calculadora e trabalhou na relação entre a escala dos planetas e a escala do espaço entre eles. Começou fazendo Mercúrio do tamanho de uma bola de beisebol, mas isso faria o sol ter dois metros de largura. Ele encolheu tudo de novo. Mercúrio agora era do tamanho de uma borracha e o sol tinha duzentos centímetros de largura. Mercúrio estava a setenta e sete metros de distância do sol. Ele ainda não entendia. Poderia o espaço ser tão grande? Decidiu mover o modelo. Assim entenderia. Atravessou a sala e abriu a porta

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da

frente. De pé na varanda ele podia ver a bola laranja do sol

desaparecer atrás da colina verde onde ficava a casa do patrão. As silhuetas negras das árvores cortavam o céu rosado. Ele apareceu na porta e disse ao pai: ― Vou dar uma caminhada. ― Fique longe daquela garota ― o pai disse. Ele não respondeu. Nem precisou, porque o pai estava vendo televisão, não estava prestando atenção nele. Simplesmente fechou a porta e saiu no crepúsculo, com o rosto queimando e o peito apertado de vergonha e raiva e medo e saudade. Saiu da varanda de madeira e entrou no caminho de pedras que já tinha uns cem anos. O caminho levava a uma trilha de capim até a estrada de cascalho que serpenteava pela enorme fazenda. Em Nova Iorque, onde ele morava antes, no início da primavera o capim ainda era marrom. Aqui no Kentucky ele já estava alto e verde e suculento para os cavalos. Ele pegou uma fita métrica no caminhão. Parado na estrada de cascalho na frente da pequena casa, olhou para a direita. A estrada desaparecia na colina, mas ele sabia que ela passava por várias colinas verdes até encontrar a estrada de duas pistas a dois quilômetros de distância. Essa era a direção que seu pai queria que ele seguisse. Ele olhou para a esquerda. A estrada desaparecia naquela colina também, mas ele sabia que ela subia cada vez mais em mais e mais colinas até atingir o ponto mais alto da fazenda, onde ficava a casa do patrão. Essa era a direção que seu pai proibiu que ele seguisse. Ele afrouxou uma grande rocha calcária da muralha de um século de idade perto de sua casa (dane-se esta fazenda) e a colocou sobre a

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ponta da fita métrica para mantê-la firme no meio da estrada. Depois começou a subir a colina. A fita métrica tinha apenas trinta metros de comprimento, o que o obrigava a marcar seu lugar na estrada e começar de novo para continuar progredindo. Após setenta e sete metros, ele parou e olhou ao re dor. Estava parado ao lado de um enorme carvalho antigo. Se o sol tinha duzentos centímetros de largura e ficava bem na frente de sua casa, este era o lugar onde Mercúrio estaria, uma borracha quase invisível. Ele não tinha certeza se seus colegas entenderiam a analogia, mas ele entendeu e pela primeira vez admirou a vastidão do espaço, do vazio, do vácuo. Caminhou mais cinquenta e oito metros subindo a estrada e sentindo o cascalho sob suas botas de trabalho. O céu estava totalmente rosa e ele poderia ter se preocupado em ser atropelado por um carro que não o veria na escuridão, mas não havia ninguém aqui, apenas o patrão e as pessoas que trabalhavam na fazenda, a maioria das quais já tinha ido para casa ou vivia aqui, como seu pai, em uma antiga casa construída na época em que era aceitável que os trabalhadores morassem na terra de seus empregadores. Ele parou e olhou em volta. Estava parado ao lado de uma grande pedra coberta de musgo que se projetava no capim, talvez um símbolo de algo que desapareceu há muito tempo, talvez fosse uma lápide, talvez apenas uma pedra. Ele se perguntava isso desde que chegou na fazenda. Colocou a fita métrica na estrada e caminhou até a pedra. O musgo era macio, com flores brancas de aparência estranha que brilhavam como uma espécie alienígena sob a luz que já começava a desaparecer. Ele olhou de novo para sua casa. Agora estava a uma distância de um campo de futebol e meio, e se o sol tinha duzentos

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centímetros de largura na frente da porta, Vênus estaria aqui e seria do tamanho de sua unha. Ele tirou um pedaço de papel do bolso da calça e consultou seus cálculos. Puxou a fita métrica para que a ponta escapasse da última pedra que ele tinha colocado na estrada. A fita métrica se recolheu. Ele lembrou que deveria retirar todas as pedras quando terminasse. Se um caminhão da fazenda fosse danificado por passar sobre uma delas, seu pai o mataria. Colocou a ponta da fita métrica na estrada de novo e fixou com mais um pedaço do muro. De Vênus, ele caminhou mais cinquenta e oito metros até o outro lado da colina e até a metade da próxima e parou. Se o sol tinha duzentos centímetros de largura na frente da porta da casa, que ele não conseguia mais ver porque a colina estava no meio do caminho, mas ele sabia a distância, a Terra estaria aqui, também do tamanho de sua unha. Ele olhou em volta. Agora podia ver a casa do patrão no topo da colina mais alta de todas, os tijolos pintados de branco sobre as selvagens colinas verdejantes, como uma senhora vitoriana em uma festa chique. Ele pensou nos cálculos de novo. O experimento estava funcionando bem. Claro que se ele realizasse esta demonstração na escola, começaria na sala de ciências. Depois levaria toda a turma em uma caminhada para fora da sala de aula (Mercúrio), pelo corredor (Vênus) e fora do prédio (Terra). Eles teriam que andar quinhentos metros para chegar a Netuno. Esse era o único inconveniente, mas Netuno tinha que estar a quinhentos metros de distância, ou ele teria de reduzir tanto os planetas que ninguém conseguiria vê-los, o que não era bom para a demonstração. Sua professora poderia se opor a esse

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passeio de quinze minutos e um quilômetro de caminhada apenas para ver onde Plutão estaria na maior escuridão de sua órbita, pois ela poderia pensar eles estavam se divertindo e não realizando a tarefa, o que não seria verdade. Enquanto tremia no crepúsculo, ele percebeu que ela poderia ter razão. Nem ele tinha vontade de andar um quilômetro até Plutão passando por mais oito colinas até chegar aos estábulos. Três planetas foi o suficiente para que ele entendesse a essência da questão. Além do mais, Plutão tinha sido rebaixado a planeta anão. Satisfeito, apesar de querer terminar o que tinha começado e andar o resto do sistema solar, mas com frio e satisfeito o suficiente, ele colocou os cálculos no bolso, guardou a fita métrica e começou a voltar para casa, lembrando mais uma vez que precisava pegar as pedras e colocá-las de volta no muro. Com o canto do olho percebeu um movimento no vale verde abaixo da mansão branca. Era a garota, cavalgando com os cabelos ao vento. Ele pensou em correr até ela, mas imaginou que, se fizesse isso, teria que olhar para cima ao falar com ela. Agora ela estava lá embaixo e ele estava no topo de uma colina, olhando de cima.

EU MAL CONSEGUI FALAR QUANDO GABE me perguntou o que eu achei da história de Hunter. Eu não conseguia pensar. Disse alguma coisa sobre essa sua mania de usar jargões científicos que

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desviava o leitor da emoção da história e me perguntei, junto com Summer, se ele escrevia assim de propósito. Não perguntei em voz alta se ele tinha mudado o cenário de sua história para o Kentucky a fim de mostrar a Gabe que nós nos conhecíamos e estávamos brincando um com o outro em nossas histórias. Eu não disse o que pensava de sua história. Depois de viver a vida de uma garota independente nos últimos cinco meses e ouvir Hunter analisar minha experiência, percebi que talvez houvesse alguma vantagem em crescer com dinheiro. Talvez eu me achasse mesmo melhor porque minha avó tinha uma fazenda de cavalos no Kentucky. Não me preocupei tanto quanto outra pessoa faria quando peguei minha última embalagem de macarrão ou quando fui atropelada por um táxi. Eu sabia que se alguma vez precisasse de ajuda, ela me mandaria dinheiro. Mas se eu tinha mesmo esse sentimento de superioridade, eles não sobreviveram ao fato de Hunter ter escrito uma história bonita em que ele olhava de cima para mim como se eu fosse digna de pena. Eu me vi exatamente como ele me via. Isso me deixou com raiva. A aula interminável finalmente acabou. Gabe olhou para mim, se levantou da cadeira e saiu. O resto da turma se levantou rindo, como de costume. A conversa sobre Hunter ter se transformando de repente em um nerd do espaço já havia mudado para uma conversa sobre ir à sala de jantar juntos quando passaram para o corredor. Hunter ficou de costas para a porta aberta, com a cabeça loira virada para mim, inquisitiva. ― Você vem? ― Summer me perguntou.

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Eu balancei a cabeça, sem tirar os olhos de Hunter. Ela ficou do meu lado um pouco mais, com a mão sobre a mesa. Vi que ela estava olhando para mim e para ele, sentindo a faísca, sabendo que tínhamos comunicado algo terrível um ao outro por meio de uma história. De novo. ―Vou esperar você ― ela saiu. Tentei ouvir sua voz e a de Manohar e Brian no corredor, mas não ouvi nada. ― Está tudo bem? ― Hunter me perguntou. Ele parecia um amigo evasivo querendo saber sobre minha saúde. Eu parecia uma louca sentada à mesa depois que todos já tinham ido embora, olhando para "O espaço entre nós". Eu pareceria uma pessoa louca, independente do que dissesse. Mas tinha que ser dito. Eu me levantei, peguei a mochila, agarrei "O espaço entre nós" sem uma única marca no texto e amassei. Dei a volta na mesa e joguei a história no peito dele. Ele pegou o maço de papel. ― Qual o problema? ― ele perguntou, inocente. Pensei em Summer, Manohar e Brian ouvindo do lado de fora da sala. Não queria que eles ouvissem isso, mas se eu pedisse a Hunter para se afastar da porta e fechá-la para que pudéssemos ter uma conversa particular, estaria mostrando a ele o quanto eu me importava. Eu já estava cheia dessa situação. Me aproximei ainda mais dele e o encarei. ― Eu estou abaixo de você?

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― Não sei do que você está falando - ele disse, olhando dentro dos meus olhos, obviamente esperando essa briga, o que provou que de fato ele sabia do que eu estava falando, e eu não aguentava mais. ― Vou dizer sobre o que eu estou falando ― toquei o polegar da outra mão. ― Eu escrevi uma história sobre o quanto eu gostava de você. Nunca quis que você a lesse ― toquei meu dedo indicador. ― Você escreveu uma história sobre o quanto me odiava. O sorriso dele desapareceu. Ele suspirou e quis dizer alguma coisa. ― Não, você tem razão ― eu o interrompi. ― Não só uma história. Você escreveu três histórias como essa ― toquei meu dedo médio. ― Eu escrevi uma história sobre minha mãe, na esperança de que pudéssemos conversar sobre isso ― toquei meu dedo anular. ― Em resposta, você escreveu uma história sobre olhar para mim de cima ― toquei meu dedo mindinho, dobrando-o para trás até sentir dor. ― Não escreva mais histórias sobre mim, Hunter. E eu não vou mais escrever nenhuma história sobre você. Combinado? Comecei a caminhar até a porta. ― Espere ― ele disse. Dane-se. Eu já tinha chegado ao batente da porta. A luz era mais forte no corredor. Summer, que conversava com Manohar e Brian, olhou para mim, preocupada. ― Erin ― senti a mão quente de Hunter no meu ombro. Ele me puxou de volta para a sala e me colocou contra a porta, longe dos olhos dos três.

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Ele se inclinou. Deve ter sido porque não queria que os outros ouvissem, mas eu poderia quase ter fingido que ele queria estar perto de mim quando sussurrou no meu ouvido: ― Se isso é tudo que você entendeu da minha história, que eu te odeio, você não é uma leitora atenta. Mesmo sentindo meu coração disparar por estar tão perto dele, inclinei a cabeça e olhei para ele fixamente: ― Não sei do que você está falando. Se ele queria fazer esse joguinho, por mim tudo bem. Me afastei um pouco e pisei no batente da porta. Ele me segurou e me puxou de volta. E me pressionou contra a porta. E beijou meus lábios. Deixei-o brincar com sua língua dentro da minha boca e tomar conta do meu corpo naquela sala pomposa por um minuto longo e tenso. Depois percebi o que eu estava fazendo e o que ele estava fazendo e empurrei seus ombros. Hunter não desistia facilmente. Empurrei-o com força e quase tropecei, arremessando meu quadril dolorido contra a porta e escorregando. Ele segurou meu braço antes de eu cair. ― Qual o problema? ― ele perguntou, confuso. Eu comecei a falar e percebi que estava com os dedos nos meus lábios. Abaixei a mão. ― Qual sempre é o problema? Você vai ser bonzinho pelas próximas duas semanas e eu vou ficar agonizando sem entender o que estamos tentando dizer um ao outro. Depois vai escrever outra história

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para a turma. Você está me testando, como faz com as mulheres das suas histórias. Todas as minhas histórias são sobre você. Não consigo mais fazer isso. Soltei meu braço e saí da sala, passando pelos olhos arregalados dos meus amigos. Enquanto descia as escadas, segurando o corrimão para evitar forçar meu quadril, ouvi Summer sussurrar para Hunter: ― O que você fez com ela agora? A cafeteria estava lotada e foi ficando ainda mais movimentada com o passar das horas. Uma nova peça no teatro ao lado tinha recebido ótimas críticas e eu queria muito assistir, mas não tinha nenhum tempo livre. Todas as noites quando apeça terminava a cafeteria enchia de clientes sedentos de café com leite. Ainda assim eu consegui escrever minha história para a aula da próxima segunda-feira. Rabisquei frases em recibos descartados e em centenas de guardanapos quando meu chefe não estava olhando e os enfiei nos bolsos do avental. Quando cheguei do trabalho tarde da noite, me perguntei se Hunter esperava que eu trouxesse café de novo para sua caminhada até o hospital. Caminhei na outra direção, para a biblioteca, onde digitei tudo o que estava nos recibos e nos guardanapos, imprimi o arquivo no laboratório de informática e entreguei minha história na recepção antes de perder a coragem. Minhas frases eram feitas do mais forte aço, aperfeiçoadas e preparadas para atingir em cheio o coração de Hunter.

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13 BEM CEDO NA MANHÃ SEGUINTE ele se ajoelhou no pequeno espaço entre a minha cama e a porta e arrumou minha mala. Eu me apoiei sobre um cotovelo e olhei para ele, para ter certeza de que estava vendo o que pensei que estava vendo, seus ombros musculosos trabalhando sob um suéter fino de cashmere, enquanto ele ordenadamente dobrava minhas roupas. A luz do sol da manhã passava pelas cortinas e reluzia em seu cabelo loiro. Eu murmurei: ― Hunter, que inferno. ― Mal educada. Você está mal-humorada porque não está dormindo o suficiente. Ele me olhou. Eu vislumbrei olheiras sob seus olhos antes que ele voltasse a atenção para a mala. ― Não há nada de errado com este vestido, mas quero que você o use com estes sapatos, tudo bem? Prometa que não vai usá-lo com um boá de penas, ou com um cisne em volta do pescoço, prometa. Você estava ótima quando fomos para Belmont, mas seu estilo é eclético de vez em quando. ― Para onde vou? ― perguntei.

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― Nós vamos ― ele disse. Eu resmunguei, impaciente: ― Para onde vamos? ― Para casa. Sua avó quer que você esteja presente na Copa Breeders. A história que eu tinha acabado de terminar para a aula de Gabe se passava em Louisville. Por um momento pensei que Hunter tinha lido e estivesse sendo sarcástico, desafiando-me a voltar lá e provar que a história não era ficção, mas ele não poderia ter lido. A menos que tivesse ido à biblioteca entre duas e oito horas da manhã. Não, isso era mais pesado, sério como a realidade. Se ele tivesse me dito há dois meses que minha avó queria minha presença, eu teria pedido a ele para dizer à ela que eu não iria de jeito nenhum. Oito semanas era muito mais do que eu podia aguentar. Hunter tinha que ser muito cuidadoso em cumprir os desejos dela, tinha receio de que ela fizesse muitas perguntas sobre a graduação em administração que ele não estava fazendo. Eu queria ajudá-lo a enganá-la. Não queria causar-lhe problemas me recusando a ir com ele. Ou... talvez eu o fizesse, agora que eu sabia que ele me desprezava. Ele estava me desprezando. Ouvi seus passos rápidos sobre o piso de madeira e senti o calor de seu corpo no quarto frio enquanto ele se ajoelhava ao lado da minha cama. Ele colocou a mão no meu braço. ― Erin. Ele não ia me deixar em paz. Nem me deixava esconder minhas lágrimas. Vencida, rolei sobre minhas costas, arqueando-as para não

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pressionar os arranhões recém-curados contra a camiseta de Nova Iorque com a qual eu estava dormindo, e funguei: ― Não quero ir a lugar algum com você, especialmente Louisville. Não era verdade, e eu soube disso assim que terminei de falar. Ele tinha roubado meu patrimônio, enganado minha avó, me desprezado, e eu ainda queria estar onde quer que ele estivesse, na possibilidade remota de que pudéssemos ter a ligação que eu queria ter com ele há tanto tempo. Ele sentiu isso. Seu polegar moveu-se no meu braço, sedutor como sempre, mas ele me olhou sombrio, como se me levasse a sério pela primeira vez. ― Tenho que trabalhar o fim de semana todo ― eu disse. ― Não tem, não. Você não está escalada nos fins de semana para fazer cafés ruins com espuma cheia de ressentimento. Você só substitui as pessoas nos fins de semana, e eles não te chamaram ainda. Eu verifiquei com Summer antes de ela sair para a aula. ― Mas eles ainda poderiam chamar ― eu murmurei. E depois de três dias fora do trabalho na semana passada com o quadril machucado, eu precisava desesperadamente de dinheiro. O que me lembrou: ― Não tenho dinheiro para comprar a passagem de avião. Ele soltou meu braço, enfiou a mão no bolso do casaco e mostrou meu cartão de embarque: Erin Elizabeth Blackwell. ― Vou perder minha aula de dança do ventre esta tarde. Ele ficou impaciente. ― Quantas vezes você faltou antes?

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― Nenhuma ― com certeza não ia sabotar minhas chances no estágio na editora tirando uma nota ruim em dança do ventre Ele ficou me olhando, esperando eu admitir quão esfarrapadas minhas desculpas estavam ficando. ― Tenho um trabalho de História para entregar na segunda-feira ― protestei ― e um teste de cálculo enorme. Você sabe disso. Você tem o mesmo teste. Sair da cidade este fim de semana seria um suicídio acadêmico. ― Eu tenho um teste de anatomia também. Podemos estudar no avião a caminho de lá ― ele disse, com calma. ― Vamos estudar no caminho de volta e, de qualquer forma, voltaremos no domingo de manhã. É apenas um sábado de estudos que você vai perder. Ele ergueu as sobrancelhas loiras para mim. De repente notei que ele estava muito perto de mim e eu estava na cama, vestindo camiseta e calcinha, sem sutiã. Ele poderia não saber disso porque eu estava meio coberta com um lençol, mas eu sabia. E me perguntei como a vida sexual de Hunter Allen se encaixava nesse quebra cabeça complicado. Ele tinha tomado o dinheiro para a faculdade que minha avó tinha guardado para mim. Em troca, ele era obrigado a obedecê-la e trazer-me para vê-la. Não havia espaço nesta equação para um relacionamento entre mim e ele, embora ele estivesse muito perto de mim e meu corpo formigasse. ― Seu pai vai estar lá ― ele disse. Fiquei paralisada por alguns instantes, olhando para seus olhos azuis claros. Hunter me tocou e me convenceu, e eu refleti sobre minhas reações uma a uma, mas minha reação à ideia de ver meu pai não fazia sentido. Dei um salto, esquecendo a vergonha por Hunter me

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ver usando camiseta e calcinha, e peguei meu cartão de embarque da mão dele para examiná-lo mais de perto. ― Meu Deus, vamos mesmo conseguir pegar este voo? Por que você não me acordou mais cedo? ― entreguei-o de volta para ele e fiquei observando para ter certeza de que ele tinha guardado. Enfiei os dedos nos chinelos e agarrei minha bolsa de itens de higiene pessoal. Roçando nas costas dele ao sair pela porta, porque o quarto era muito pequeno, gritei para ele: ― Vou tomar um banho. Não se esqueça de levar meu chapéu. Ficamos em silêncio no táxi a caminho do aeroporto, e também no portão de embarque. Hunter alternou entre a leitura de um livro, cuja capa mostrava um dorso sem pele e com o fígado, pulmões e coração expostos, e franzindo a testa para uma pilha de cartões de anotação cheios de sua letra ilegível. Eu fingi estudar História. Pelo menos tentei, mas minha mente estava em outro tipo de história. Meu cérebro rodopiava pelos meus primeiros 12 anos na Califórnia, meu pai gritando com minha mãe porque não tínhamos dinheiro, minha mãe gritando que poderíamos ter um pouco mais se ele mexesse o traseiro, culminando no confronto no estábulo da minha avó, que eu nem tinha presenciado. Tinha que haver alguma explicação para o comportamento do meu pai na ocasião e, mais tarde, para seu desaparecimento. Havia uma boa razão para que ele tivesse me deixado com minha avó depois que minha mãe morreu, e para que ele nunca tivesse me contatado novamente. Ele estava chegando ao Kentucky para me ver e esclareceria tudo. Hunter tinha comprado as passagens muito em cima da hora para conseguirmos sentar juntos, o que piorou ainda mais as coisas para

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mim. Ninguém que eu conhecia estava me vendo, então fingir estudar História era discutível. Olhei pela janela, pensando no meu pai, e quis que o avião voasse mais rápido. Eu queria muito vê-lo. Eu perdoaria seis anos de abandono só para sentar-me aos seus pés e olhar para ele, sonhando acordada, como um dálmata em um cercado. No momento em que pousamos em Louisville, comecei a ficar nervosa e a pensar em muitas perguntas. ― Como meu pai soube que eu estaria aqui? ― perguntei, correndo atrás de Hunter pelo terminal. Ele continuou olhando os sinais que apontavam para a esteira de bagagem. Descobrimos que nenhum de nós era muito bom em aeroportos. Quando ele e seu pai se mudaram para Louisville e quando minha mãe e eu escapamos para lá, fomos todos de ônibus. ― Não sei ― Hunter disse. ― Talvez ele ache que minha avó e eu ainda nos falamos ― refleti, correndo atrás de Hunter quando ele virou uma esquina ―, e é claro que eu iria para casa para vê-la na Copa Breeders. ― Talvez ― disse Hunter, parando em frente à esteira de onde sairiam nossas malas. ― Não faz sentido ― eu disse. ― Duvido que ele pensaria na Copa Breeders. Ele não sabe nada sobre os cavalos. Ficamos em silêncio até que a esteira começou a girar. Hunter agarrou sua mala, depois colocou uma mão no meu braço para me deter quando eu reconheci minha mala e levantou-a da esteira para mim. Ele atravessou a ampla sala em direção ao desembarque de passageiros com as duas malas a tiracolo, mas peguei a minha de volta e disse:

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― Talvez a Copa Breeders seja uma coincidência. Ele achou que eu estaria vivendo na casa da minha avó, ainda no colégio, porque esqueceu quantos anos eu tenho. ― Não sei ― Hunter repetiu. Desconfiada, olhei nos olhos dele enquanto caminhávamos. Quando ele encontrou meu olhar, olhou para a alça da mala de novo e eu soube que ele não estava me dizendo toda a verdade. ― O que foi? ― eu insisti. ― Meu pai ― ele disse, apontando para as portas de vidro deslizantes e colocando os óculos escuros. Tommy tinha estacionado a caminhonete das Fazendas Blackwell no meio-fio. Quando as portas do aeroporto se abriram para nós, eu deixei o peso da minha mala de rodinhas me desacelerar como uma âncora. Hunter chegou ao carro primeiro. Tommy lhe deu um abraço de urso e eles deram tapinhas nas costas um do outro. Ambos eram loiros e tinham características semelhantes, mas o rosto de Tommy era curtido pelo sol, e ele usava um boné de beisebol e um casaco das Fazendas Blackwell que o fazia parecer estranho abraçando Hunter com seu suéter de cashmere e óculos escuros caros, obviamente o herdeiro de uma fortuna proveniente dos cavalos. Tommy segurou o braço de Hunter e sorriu para ele. Ele tinha toda a simpatia de Hunter, sem a frieza e o interesse do filho. Era difícil imaginá-lo como o pai distante da história que Hunter tinha escrito para a aula de Gabe, mas certos elementos soavam verdadeiros. Tommy era um beberrão, eu sabia. Também fumava, mas Hunter o tinha convencido a parar. Tommy reclamou disso no estábulo todos os

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dias durante um ano. Agora ele rolava um palito de dente no canto da boca, rindo de alguma coisa que Hunter tinha dito. Tommy virou-se para mim, com os braços bem abertos. ― Erin! Como você está, princesa? ― Oi, Tommy ― eu disse, abraçando-o. Minha avó sempre me desencorajou a abraçar os empregados. Ela me envergonhava. Abracei Tommy e deixei que ele me levantasse e me pusesse de volta no chão. ― Hunter disse que você tinha perdido peso ― Tommy deu uns tapinhas na minha barriga por baixo das minhas roupas ― ainda bem que você está vestindo casaco, ou poderia sair voando. Neste exato momento, um vento gelado soprou pela entrada do terminal. Eu não sabia muito sobre o Kentucky quando me mudei da California e fui surpreendida pelo inverno tênue que começou em novembro: um céu nublado que cospe pequenas partículas de gelo em vez de neve. Limpei a umidade do meu rosto. ― Meu pai já chegou? ― Seu pai? ― repetiu Tommy, rolando o palito para o outro lado da boca. ― Ou vocês dois têm que ficar longe um do outro? Eu não deveria ter perguntado. Lágrimas arderam nos meus olhos. Eu mal podia enxergar. Foi por isso que demorei a entender o olhar interrogativo que Tommy lançou a Hunter e a expressão petrificada do filho. Acho que sussurrei "Não!" e levei as duas mãos à boca. Eu não estava realmente ciente do que eu estava fazendo além de encarar a

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placa ao lado das portas de vidro deslizantes, visitantes não familiarizados com a área falando várias pronúncias diferentes do nome da cidade: LOOAVULL.

LUHVUL.

LEWISVILLE.

LOOAVILLE.

LOOEYVILLE. ― Filho ―Tommy começou. ― Não quero ouvir isso ― Hunter o interrompeu. ― A Sra. Blackwell queria vê-la e eu não sabia de que outra forma colocá-la no avião. Aqui eu poderia tê-la pendurado no meu ombro, mas eles desaprovam isso em Nova Iorque. Erin, volte aqui. Enquanto eu caminhava pela calçada do terminal, levantei um dedo para que eles soubessem, ou pelo menos para que Tommy soubesse, que eu precisava de um minuto. Hunter não poderia se importar menos com o que eu precisava. As lágrimas se misturavam ao vento gelado no meu rosto. Eu deixaria o vento frio secá-las e depois voltaria, só que mais lágrimas brotavam quando eu pensava no meu pai. Ele não tinha feito nada. Nada que fosse novo. Hunter tinha apenas arranhado a casca da ferida. Hunter, em quem eu continuava acreditando, por algum motivo. Por que eu pensava que ele estava do meu lado? Ele estava traindo minha avó. Poderia me prejudicar também. Uma sombra ao meu lado me fez virar a cabeça. A caminhonete das Fazendas Blackwell vinha devagar atrás de mim, ao longo da calçada, mantendo o mesmo ritmo que eu. O vidro da janela deslizou para baixo e Tommy gritou: ― Erin, entre na caminhonete antes que o segurança chute o meu traseiro.

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Eu dei mais uns dois passos, mas estava saindo da calçada. Louisville era um dos aeroportos mais movimentados do mundo, mas o terminal de passageiros do aeroporto era pequeno para o tamanho da cidade e chegou ao fim logo adiante. Eu não tinha a intenção de vagar pelo deserto industrial da fábrica da Ford. Me aproximei da caminhonete, puxei a porta e me joguei no banco de trás, gritando: ― Por que você me disso isso, Hunter? Qual é o seu problema? Hunter inclinou-se entre os bancos dianteiros para me encarar, os óculos escuros ainda encobrindo os olhos azuis em uma tarde nublada. ― Era o único jeito que eu tinha de trazer você até aqui. Nem mesmo a ameaça de contar a Gabe sobre a história do cavalariço faria você voltar ao Kentucky para ver sua avó, e ela queria muito ver você. Ela ficou histérica quando eu contei que você tinha sido atropelada por um carro. Eu não tive muita escolha. Ele não disse que estava arrependido. Nem mesmo pareceu particularmente arrependido por detrás dos óculos escuros. Admitiu sua transgressão sem nenhum pedido de desculpas. Muito parecido com meu pai. ― Você quer dizer que não tinha escolha se quisesse continuar na faculdade com minha herança ― eu corrigi Hunter. ― Espero que nada tão importante assim surja novamente, porque a história do cavalariço é tudo que você tem para me coagir agora. Atrair-me usando meu pai só funciona uma vez na vida. ― Cavalariço... ― murmurou Tommy, sacudindo a cabeça.

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Por sorte, a fazenda não estava distante e eu não teria que ficar na caminhonete com Hunter por muito tempo. Naturalmente, eu passaria a tarde, todo o sábado e a manhã de domingo presa na casa da minha avó. Eu tinha jurado que ela nunca mais iria me ver e lá estava eu, apenas cinco meses depois. Falida também, ou teria dito a Tommy para me deixar em um hotel. Em lugar disso, ele dirigiu a caminhonete pela rodovia interestadual, virou no asfalto estreito em direção às colinas da fazenda e estacionou no acostamento gramado, sob um enorme carvalho de folhas vermelhas. ― Saiam, vocês dois ― ele rosnou. Tommy não rosnava com frequência. A chuva de gelo tinha parado e eu não pude usar o tempo como desculpa. Deslizei do assento para o chão, sem emoção e tremendo dentro do casaco, olhando para os pés de Tommy e Hunter parados diante de mim. Eu não tinha do que me envergonhar, Hunter era quem deveria se envergonhar, mas eu estava com receio de parecer horrível depois de chorar e eu não queria que ele me visse assim. Eu era uma idiota e tive vontade de chorar de novo. ― Não vou passar o fim de semana inteiro com vocês dois brigando um com o outro ― Tommy disse. ― Erin, vamos resolver isso da forma como acertamos as coisas no estábulo, quando sua avó não está olhando ― ele acenou com a cabeça para Hunter. ― Acerte-o. ― Não a obrigue a fazer isso ― Hunter disse a Tommy ―, ela vai quebrar a mão. ― Você ficaria muito bem com o queixo quebrado ― eu disse, mas Tommy encobriu minha voz, gritando:

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― Deixe-a bater em você, ou eu mesmo vou fazer isso. ― Isto é que é um excelente pai ― Hunter enfatizou as palavras com um sinal de positivo com os dedos. Seu Rolex piscou na luz do sol antes que ele abaixasse a mão. ― Aqui, Erin ― ele fechou os olhos e ergueu o queixo. Eu me movi na direção dele, fechando o punho, já me sentindo melhor. ― Abra os olhos ― disse ―, quero que você veja isso. ― Se eu abrir os olhos, vou me esquivar de você ― ele disse, com naturalidade, como se estivesse acostumado a resolver suas diferenças desta forma com os outros rapazes do estábulo. Ele fechou os olhos de novo. Eu golpeei quando tive a oportunidade. Não parei para pensar na técnica ou na posição adequada para o meu punho, polegar para dentro ou para fora, apenas puxei a mão para trás e o acertei. Mas na fração de segundo antes que minha mão batesse em seu rosto, vi um lampejo de um dos apartamentos da minha família em Los Angeles, um dos primeiros, porque vislumbrei o mar pela janela do outro lado da sala, e com o passar dos anos tínhamos cada vez menos dinheiro, e nos mudávamos cada vez mais para longe do mar, vi meu pai bater em minha mãe. Redirecionei meu punho, apenas raspando no queixo de Hunter, e tropecei na lateral do caminhão. Um braço forte se enganchou no meu e me impediu de cair. Hunter me puxou para perto dele, rindo. ― Você está bem?

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Empurrei-o para longe de mim, entrei na caminhonete e bati a porta. Ele nem estava arrependido e eu nem conseguia me vingar. Não havia nada de bom nisso. Com uma última fungada, abri meu livro de História, desejando não ter vindo. Não sei qual argumento Hunter usou do lado de fora da caminhonete, mas, como era de se esperar, ele pulou para o banco do motorista e Tommy sentou no banco do passageiro para a curta viagem de carro até a fazenda. Alguns minutos se passaram. A caminhonete fazia barulho, música country ressoava no rádio e eu lia o mesmo parágrafo no livro de História quatro vezes. Tommy perguntou: ― Vocês dois já dormiram juntos? ― Tommy! ― eu gritei. ― Que pergunta! ― O que foi? ― ele girou o corpo na minha direção ― só estou perguntando. ― Se não tivéssemos dormido juntos ― disse ― esta pergunta seria estranha e embaraçosa. E se tivéssemos dormido juntos, seria... ― Estranha e embaraçosa ― disse Hunter. Tommy observou Hunter dirigir. A expressão de Tommy era impenetrável e eu podia ver pelo espelho retrovisor que a de Hunter também era. ― Então vocês dormiram juntos ― Tommy concluiu. ― Claro que não ― eu disse. ― Hunter conheceu sua namorada no banheiro. Ele tem uma cartomante e uma garçonete ainda por cima.

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― Parece que o criei bem ― Tommy virou o corpo para me encarar. ― E como você sabe disso? ― Nós moramos no mesmo dormitório. Tommy sorriu. ― Claro. Vocês são da mesma cidade, da mesma fazenda inclusive, vivem no mesmo dormitório, sabem tudo sobre a vida um do outro, mas não dormiram juntos. Quando ele falou daquele jeito, fiquei me perguntando por que não tínhamos dormido juntos. Ele fez parecer que os pré-requisitos para dormir juntos eram familiaridade, proximidade... e desejo, que ele deve ter percebido, pelo menos da minha parte. Ele não entendia as complicações, as humilhações, as centenas de razões pelas quais havia sempre aquele zumbido sob nós, como o barulho sem fim do trânsito de Nova Iorque, ou o zumbido da interestadual do Kentucky atrás das árvores de outono. ― Não é da sua conta, pai. Talvez tenha sido porque eu mal podia ouvir Hunter, por causa do barulho do motor e do rádio, mas fiquei surpresa pela forma como ele parecia envergonhado e melancólico. Fizemos a última curva. As árvores se separaram e revelaram a mansão imponente da minha avó. Estava sobre a colina mais alta de todas as pastagens que formavam a fazenda. Como muitos dos edifícios históricos em Louisville, foi construída no estilo italiano da década de 1870. Se uma foto de uma clássica mansão do sul fosse colocada em um computador até que o teto e as janelas ficassem ridiculamente altos, este era o estilo exagerado da arquitetura, tão elegante e imponente quanto ameaçador.

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― Aqui estamos, princesa ― Tommy abriu a porta para pegar minha mala no bagageiro. ― Não vou ficar aqui ― eu disse. ― Hunter pode ficar no meu quarto, que é o lugar dele. Vou ficar com você, Tommy. Tommy e Hunter olharam para mim, surpresos. Tommy disse: ― Isso não é apropriado. Sua avó vai ficar uma fera. ― De jeito nenhum ― disse Hunter. ― Você me deve muito ― eu chamei a atenção de Hunter e deixei bem claro o que eu quis dizer. Eu não tinha intenção de dizer a minha avó que ele a estava enganando, mas Hunter não sabia disso. Pelo menos eu esperava que ele não soubesse. Os olhos azuis de Hunter me penetraram apenas o tempo suficiente para provocar palpitações no meu coração. Depois ele falou um palavrão e saiu da caminhonete, arrastando sua mala pelas portas gigantes da casa da minha avó. ― Sua avó vai marchar até a minha casa paravtrazer você ― disse Tommy, enquanto dirigia de volta pela pista. ― Ela sabe que não pode me obrigar ― eu disse. ― A maçã não cai longe da árvore, infelizmente ― ele estacionou ao lado de sua pequena casa e eu pulei para fora da caminhonete antes que ele mudasse de ideia. Esta casa poderia estar em um bairro de Louisville com outros bangalôs parecidos e não chamaria a atenção, mas aqui na fazenda chamou minha atenção. Era feita de madeira branca na parte de cima e calcário embaixo, com telhado de ardósia, como em todas as outras

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dependências. Combinava com a guarita, com a cozinha histórica e o enorme forno de tijolos e com o celeiro. Eu não teria escolhido viver em uma casa de empregados que combinava com o celeiro. Soube pelas últimas histórias de Hunter para a aula de Gabe que ele sentia a mesma coisa. Cruzei o pórtico de madeira e esperei Tommy destrancar a porta da frente. Hunter tinha estado muitas vezes na casa da minha avó, tinha estado até no meu quarto, durante nossa infância tanto tempo atrás, quando éramos amigos, mas eu nunca tinha estado em sua casa: Segui Tommy pelos corredores estreitos, passando pela cozinha remodelada em 1970 atrá um pequeno quarto com uma janela enorme que dava para a pista da frente. ― Aqui estamos, filho. Eu mantive tudo exatamente como você deixou ― brincou Tommy, colocando minha mala no chão. ― Vou lhe dar alguns minutos para descansar, mas preciso voltar para Churchill Downs. Depois sua avó quer que eu me certifique que você e Hunter vão à festa dos Farrells esta noite. Uma festa na casa de Whitfield Farrell que ele ainda divide com os pais? Nesta viagem, estava parecendo cada vez mais que todos da minha antiga vida tinham se debruçado sobre a minha nova história para a aula de Gabe (a que Hunter não tinha lido ainda) e a recriado. ― Eu não vou ― disse. Eu não tinha o desejo de viver aquela antifantasia. ― Faça como quiser ― Tommy disse ―, mas terá dificuldade de evitar a festa de amanhã à noite. Vai ser aqui. Ele recuou pelo corredor. Ouvi a porta se fechar e vi a caminhonete passar pela frente da casa em direção à mansão. Poucos

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minutos depois, a caminhonete passou de novo, dirigindo-se para a interestadual. Tommy estava no banco do passageiro e Hunter estava dirigindo. Agora que eles tinham ido embora, olhei ao redor. Eu estava sentada na cama de Hunter Allen. Engulam essa, meninas da aula de Gabe! E vi por que Hunter parecia tão horrorizado com a ideia de eu ficar em sua casa. As paredes estavam cobertas com pôsteres de carros velozes e atrizes jovens usando fio dental. Isso não deveria ter me surpreendido. Ele provavelmente colou-os na parede quando tinha quatorze anos. O que me surpreendeu foi descobrir que Hunter era um adolescente normal, e que ele era... Qual foi a palavra que ele usou em seu comentário na minha primeira história? ...Desajeitado. Eu rastejei até a cabeceira da cama, tendo mais prazer do que deveria com a sensação de sua colcha áspera esfregando minha pele, e olhei com mais atenção para as paredes. Colocados entre os cartazes estavam os certificados de seus prêmios acadêmicos. Primeiro lugar no Torneio de Matemática da Sétima Série. Primeiro lugar na Feira de Ciências da Décima Série. Melhor Aluno da Turma de Veteranos. Ele ganhou tudo, menos os concursos de redação. Estes eu ganhei. Sentei-me contra a cabeceira, como ele deve ter se sentado para ler todas as noites, e examinei a parede cheia de retângulos de diplomas sobrepostos às imagens maiores de cultura pop inútil. Foi quando eu vi um sol de papelão, alguns passos à frente, atrás da cômoda, onde um espelho deveria ter estado, com os planetas minúsculos flutuando na frente dele, e aTerra do tamanho de um polegar.

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14 AGASALHADA CONTRA O VENTO FRIO, andei pela estrada, passando pela mansão da minha avó e subindo a colina até os estábulos, construídos há cem anos com madeira maciça e pedra calcária coberta de hera, pitorescos para um turista inexperiente. A maior parte dos empregados tinha ido para Churchill Downs. Apenas alguns ficaram para cuidar dos cavalos que não participavam das corridas. Entrei com facilidade no escritório e coloquei a roupa de montaria que eu tinha deixado no armário e meu capacete. Muito importante: sempre use um capacete. Eu podia sentir que minhas roupas estavam mais folgadas do que quando eu fui embora, mas felizmente não havia espelho ali. Tirei a maçã que eu tinha pego na geladeira de Tommy do bolso do meu sobretudo e coloquei no bolso do casaco de equitação. Atravessei o estábulo da frente, onde deixávamos os cavalos lucrativos que gostávamos de mostrar aos visitantes, os vencedores de corridas e seus pais e filhos. Passei pelo grande pátio de cascalho até o estábulo de trás virando a esquina. Pisquei para o cavalo branco no estábulo que ficava na esquina. Ou eu tinha esquecido a localização do celeiro depois de cinco meses fora ou Boo-boo não estava aqui.

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Peguei a maçã no bolso e entrei rápido no celeiro frio, olhando para os cavalos que espiavam para fora das baias em busca de um cavalariço. Quando encontrei um funcionário novo cuidando de um cavalo marrom castrado, tentei manter a voz calma, mas saiu horrível. ― Onde está Boo-boo? Ele olhou para mim, surpreso. Observei a ficha cair na expressão no rosto dele: esta era uma estranha, esta estranha tinha o cabelo vermelho como a Sra. Blackwell, esta era a neta pródiga de quem todos falavam, a neta que foi arrastada de volta da faculdade pelo filho de Tommy Allen. Depois pensou por um instante que o estábulo tinha vendido o cavalo favorito da garota e que ela teria um ataque. Este homem parecia já ter sido esbofeteado por uma criança mimada antes. ― Boo-boo ― disse, impaciente. ― Aquela égua presunçosa. ― Ah! ― quando ele percebeu que não estava em apuros, relaxou os ombros e apontou com a escova de limpeza para a outra extremidade do estábulo. ― Rock Star gostou dela. Nós a mudamos para perto dele porque ela o acalma. Você quer que eu coloque a sela? ― Não, obrigada ― disse, correndo para o meu cavalo. O novato não tinha recebido as ordens de que ninguém colocava sela em cavalos para a neta da velha senhora. Tommy já sabia disso. Ele me ensinou que, se eu quisesse algo bem feito, tinha que fazer eu mesma. Fiquei aliviada ao ver Boo-boo com a cabeça para fora da baia, querendo saber quem estava chegando, com as orelhas em pé. Quando ela me viu, colocou as orelhas para frente. Se eu tivess e doze anos, teria jurado a quem quisesse ouvir que Boo-boo me reconheceu e ainda

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me amava. No entanto, eu tinha dezoito anos. Já estava crescida. Segurei a maçã na minha frente. O tempo que eu passava nas baias sempre era o mais difícil para mim. Meu corpo ficava tenso, esperando o cavalo atacar, e meu cérebro continuava repetindo o acidente que eu não tinha visto. Boo-boo era puro-sangue, nervosa como todos eles, mas era relativamente doce. Tommy a escolheu para mim quando minha avó insistiu que ele me colocasse em cima de um cavalo uma semana depois

que

minha

mãe

morreu.

Os

lábios

macios

e

surpreendentemente ágeis de Boo-boo pegaram a maçã na minha mão. Enquanto ela mastigava, acariciei sua cabeça com firmeza, como Tommy tinha me ensinado. Ao dizer "Boo-boo-boo-boo-boo" para ela, eu me livrava do terror no meu cérebro. A maneira de permanecer segura era nunca deixar o cavalo saber que eu estava com medo. Limpei o suco de maçã na minha calça e levantei a mão para me certificar de que eu estava usando o capacete antes de me aventurar mais para dentro da baia escura. Montar um cavalo era perigoso, sempre havia a ameaça de ser jogado no chão e pisoteado, mas, ironicamente, quando eu estava na sela, longe de patas de Boo-boo, eu me sentia segura. Guiei-a parafora do estábulo. Ela estava de ótimo humor hoje, levantava os calcanhares e balançava a cabeça como se quisesse se gabar para os outros cavalos que ela estava indo para uma corrida e eles não. Trotei com ela pelo campo em direção ao pasto. Depois soltei as rédeas e a deixei correr. Ela adorava correr. Normalmente eu também adorava. Ver o pasto verde passando, as árvores de outono, o vento frio no meu rosto, a sensação de um enorme

animal galopando debaixo de mim. Mas hoje eu estava

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dolorida. Cada passo do cavalo abalava meu quadril e repuxava minhas costas. Até meu punho segurando as rédeas estava dolorido depois de quase golpear o maxilar duro de Hunter. Depois de alguns minutos cavalgando, eu me acostumei com a dor e me preparei para um longo passeio. Normalmente Boo-boo e eu corríamos depois da escola e depois eu tinha amigos ou deveres de casa ou leituras para ocupar meu tempo. Hoje eu decidi que iria explorar todos os cantos da fazenda. Não tinha mais nada para fazer, além de estudar história e cálculo, e eu poderia não voltar nunca mais. Alguma coisa dentro de mim morreu naquela tarde longa, enquanto Hunter estava na corrida. Finalmente perdi toda a esperança em meu pai. Ele não viria. Ele não tinha um desejo secreto de se reconciliar comigo. Não estava morrendo de vontade de reconstruir nossa família ou impedido de fazê-lo por espiões estrangeiros. Ele tinha me deixado aqui para enterrar minha mãe e para ser criada por minha avó e seguiu em frente. Se ele tivesse alguma coisa a ver com isso, eu nunca mais teria notícias dele. Mas o mais provável é que ele morresse antes de mim e eu receberia a notícia quando estivesse prestes a me casar ou dar à luz ou embarcar em minha turnê nacional para lançar meu romance bestseller. Eu tinha esperado tanto o retorno do meu pai como o clímax da minha história. Agora eu sabia que ele estragaria o dia mais feliz para mim com uma inesperada reviravolta na história. Boo-boo mordeu as rédeas quando eu a puxei parafazer um meio galope. Tínhamos chegado a um pasto distante, a muitas colinas de distância da casa e do celeiro. Em uma rocha calcária sob o dossel de ouro de um carvalho estava o cavalo que tinha matado minha mãe.

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A égua tinha dois anos na época e dizem que havia planos de levá-la à corrida de cavalos na primavera seguinte. Depois do acidente, minha avó nunca a colocou para correr, embora tenha perdido potencialmente milhões de dólares por isso. Ela colocava o potro apenas para pastar. Se a decisão tivesse sido minha, eu mesma teria atirado nela, mas, como Tommy tinha explicado, os cavalos não tinham malícia. Eram animais de rebanho ariscos que escapavam do perigo. Não eram cabras da montanha. Boo-boo dançava impaciente enquanto eu observava o cavalo negro na rocha cinzenta debaixo da árvore amarela. Como ela conseguiu chegar lá em cima? A parte de trás da pedra inclinava com mais suavidade, eu lembrei. Estava explicado. Mas meu coração não desacelerou. Na história mais recente de Hunter, a garota que ele olhou de cima montava um potro negro. Fiquei me perguntando o que aquela história significava.

ACORDEI COM O BARULHO DE PRATOS na cozinha e o cheiro de bacon. Me desvencilhei da roupa de cama de Hunter, tirei o livro de história de cima do meu rosto e olhei pela janela escura. Ainda não tinha amanhecido. Sob a luz fraca que brilhava sob a porta do quarto, consegui apenas vislumbrar os planetas ligados ao sol acima da cômoda de Hunter.

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―Tommy! ― eu exclamei na mesa da cozinha. ― Você não precisava ter cozinhado tudo isso. Eu quase não como nada de manhã. Vou só tomar um pouco de café. ― Café ― ele repetiu com o sotaque de Long Island que Hunter usava quando dizia café. Com uma frigideira de ovos na mão, Tommy apontou a espátula para uma cadeira vazia. ― Coma. Hunter me contou que você está vivendo de bolachas e pasta de amendoim. Coma ou você vai caminhar até Churchill Downs ― ele jogou os ovos no meu prato. ― Ou você vai se esconder aqui o dia todo? Ele se sentou e me entregou um prato de biscoitos. Esconder parecia uma ideia excelente, mas não era o que eu tinha em mente. ― Preciso de dinheiro ― disse. Ele parou de comer e me olhou do outro lado da mesa. A forma como ele me olhou... eu nunca tinha visto esse olhar nele antes. Imaginei se pela primeira vez ele estava vendo aquele pai da história de Hunter. Eu pensava que Tommy€era uma pessoa tranquila que me daria qualquer coisa que eu precisasse, mas talvez eu tivesse essa impressão porque nunca lhe pedi nada. Rapidamente esclareci: ― Quero trabalhar para você hoje. Você precisa de ajuda nos estábulos? Pode me pagar o que você costumava pagar a Hunter. Ele levantou as sobrancelhas, mastigou e engoliu antes de responder.

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― Você sabe que é o dinheiro da sua avó. ― Pelo menos eu vou trabalhar por ele. Ele grunhiu, consentindo, mas também impaciente com a pobre menina rica. Eu poderia ter dito a ele para esquecer essa história, que ele não precisava satisfazer meu capricho, mas eu queria passar o dia em Churchill Downs. E não queria passá-lo com Hunter e minha avó. Na escuridão, ajudei Tommy a colocar um garanhão marrom e um potro no trailer. Seguimos a interestadual vazia, passando pelo bairro de casas do século XIX, como a da minha avó. Na mancha alaranjada do nascer do sol que cortava o céu cinzento, passamos devagar pelo portão de Churchill Downs, todo feito de madeira pintada de branco, com torres que se elevavam sobre as arquibancadas. Começamos a trabalhar. Eu alimentei os cavalos, coloquei água para eles e os preparei. Não pratiquei com eles porque a esta altura, tão perto das corridas, o treinador queria pessoas experientes para montálos. O que eu fiz foi levar os cavalos para lá e para cá e, quando um garanhão levantava as patas e chutava em protesto para não voltar ao trailer das Fazendas Blackwell, era eu que agarrava as rédeas e o acalmava. Agi automaticamente. Apenas quinze minutos mais tarde, quando o caminhão que levava o trailer se afastou e Tommy apertou meu ombro, meu coração acelerou por causa do perigo que eu estava correndo. Uma hora depois eu percebi que não estava usando capacete. Grupos de agentes e compradores e assistentes da minha avó apareceram na seção de estábulos da nossa fazenda e foram embora, falando sobre negócios enquanto tomavam uísque em copos de plástico e acendiam charutos depois de se afastarem do feno. Eu costumava fazer parte desses grupos. Eu ficava na periferia com outros herdeiros adolescentes, normalmente com Whitfleld Farrell. Eu

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esperava ver minha avó em um desses grupos. Olhei várias vezes por baixo da barriga de um cavalo para não parecer que eu a estava procurando. Não a encontrei. Por volta do meio-dia, vi Hunter. Ele estava com um agente de meia-idade e o velho advogado da minha avó, dois homens poderosos, bastante úteis se você estava fingindo assumir um negócio respeitável que tinha sido da família de outra pessoa por cinco gerações. Eles estavam sob a luz do sol quente que finalmente tinha aparecido entre as nuvens. Ele tomou um gole de uísque e ficou me olhando por cima da borda do copo. Ele riu de algo que o advogado tinha dito. Hunter tinha se juntado ao clube do Bolinha com uma grande personalidade e sem nenhum esforço. Eu não tinha mais certeza de que ele estava me observando através do copo, afinal, ele estava na luz do sol e eu estava na escuridão. Ele não podia me ver. Ficar de pé e cuidar dos cavalos durante todo o dia já machucaria o suficiente, mas meu quadril machucado começou a doer e meus ombros também doíam de ficar segurando o cavalo assustado. Notei outro cavalariço tomando refrigerante e fumando perto do grande estacionamento, mas eu nunca pedi uma pausa e Tommy nunca sugeriu que eu fizesse uma. Eu suspeitava que ele estava dando à princesa exatamente o que ele pensou que ela queria. Pouco antes da última corrida do dia, depois que enviamos nosso melhor cavalo ao campo para ser mostrado, Tommy balançou a cabeça em direção à pista, me dizendo para segui-lo. Sob o sol eu tirei minha jaqueta das Fazendas Blackwell e a amarrei em volta da cintura. Encontramos um espaço na cerca branca onde é possível ver a pista, não era perto da linha de chegada, que estava de frente para as arquibancadas, mas tinha uma excelente vista do quarto turno. Ele

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comprou um cachorro-quente para nós dois. Eu mordi o meu no mesmo instante, agradecendo com a boca cheia. Eu não tinha comido desde o café da manhã. Enquanto eu comia, o observei dar mordidas enormes. Ele comeu o cachorro-quente inteiro em quatro mordidas. Hunter não comia assim. Hunter podia comer um cachorro quente com garfo e faca e fazer você pensar que todo mundo comia assim em Long Island. ― O que foi? ― Tommy me perguntou, com um pouco de mostarda no canto da boca. Entreguei-lhe meu guardanapo como uma dica. ― Você estava apaixonado pela minha mãe? Ele sorriu. Ele e Hunter eram bons em sorrir por qualquer coisa, mas eu vi a reação em seus olhos. Ele estremeceu um pouco, mostrando os pés de galinha e relaxando em uma fração de segundo. ― Não tive tempo ― ele disse, limpando a boca. ― Então era só luxúria ― eu disse. Ele sorriu para mim. ― Talvez. Ela era linda. Também era engraçada. Como você. E seu pai não a tratava bem. Da mesma forma que não trata você bem. Foi minha vez de estremecer. Eu não tinha perdoado Hunter por ter me arrastado até aqui. ― Foi isso ― Tommy disse. ― Ela precisava de mim. Ela disse que precisava de mim. A vontade de salvar a donzela do dragão é muito forte e é difícil para um homem resistir. Essa história nunca acaba bem, e eu sabia disso quando entrei nela.

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Eu olhei para a pista. Estávamos de frente para a parte de trás do portão de partida. Os cavalariços estavam conduzindo os cavalos um a um. O cavalo na nossa fazenda não queria ir. Com o nariz para dentro, ele apoiou as patas traseiras do lado de fora do portão para que eles não pudessem fechá-lo. Dois dos nossos cavalariços colocaram os ombros em seu traseiro e empurraram. Eu perguntei a Tommy: ― Por que minha avó não demitiu você? Ele também estava observando o espetáculo no portão, ou pelo menos era o que parecia. ― Por que ela não matou aquele potro? ― Porque o cavalo não fez por maldade ― eu repeti o que Tommy tinha me explicado quando fiquei mais velha. Os cavalariços conseguiram empurrar nosso cavalo para dentro do portão e encaixar as portas atrás dele antes que ele pudesse chutar a cabeça deles. Saíram esfregando a testa com a manga da camisa enquanto os outros cavalariços se aproximavam do portão com o próximo cavalo na fila. ― Sinceramente ― Tommy disse ―, acho que ela não me demitiu por causa de Hunter. Ela sabia que esse era um bom lugar para ele. Ela sempre gostou de Hunter. ― Ela se vê nele ― eu disse. ― Os dois são manipuladores e loucos como uma raposa. ― Tem isso também ― ele disse, olhando para a pista, como se minha avó e Hunter não o incomodassem. Ou como se o incomodassem muito. Ambas as emoções parecia iguais em Tommy.

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― Quando Hunter e eu morávamos aqui, você pediu a ele para ficar longe de mim? ― eu perguntei. Tommy olhou para mim. Quando olhei para ele, a surpresa já tinha desaparecido de seu rosto, mas eu consegui perceber o movimento repentino. Ele disse com cuidado: ― Sim. Sua avó não teria gostado de ver vocês dois juntos. ― Mas você disse que ela gosta de Hunter ― eu lembrei. ― Ela está dando a ele sua fazenda ― pelo menos era o que ela pensava. Tommy concordou. ― Hunter tem um cérebro impressionante. Ele é inteligente como a mãe. Vai cuidar desta fazenda, já que você não quer fazer isso. Mas uma coisa é ele conseguir administrar os negócios da sua avó. Outra coisa bem diferente é ele conseguir ficar com você. Ele não é... Bom o suficiente foi o que Tommy não disse. As palavras não ditas pairavam no ar entre nós. Me perguntei se ele achava que isso era o que minha avó acreditava, ou se ele mesmo pensava assim. ― Então por que você está tentando aproximar Hunter e eu? ― eu perguntei, irritada. ― Você se sentou na caminhonete ontem e perguntou se nós estávamos juntos. ― Eu não estava tentando aproximar vocês ― Tommy disse, calmo. ― Estava apenas comentando algo que percebi. Dava para ver na cara de vocês. ― Tommy pegou um palito de dente no bolso e colocou na boca. ― É mesmo? ― eu perguntei, desejando que fosse verdade, esperando, contra toda a lógica e bom senso, que Hunter tivesse se

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apaixonado por mim e seu pai tivesse percebido. ― Eu sempre achei a expressão no rosto de Hunter difícil de entender. Tommy rolou o palito para um dos lados da boca e disse: ― Ele tem a minha expressão. ― Certo ― eu disse, quando o sino de partida soou e o portão abriu.

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15 ALGUMAS HORAS DEPOIS, Tommy e eu descarregamos alguns cavalos na fazenda, desatrelamos o trailer e dirigimos pela colina até sua casa. Ele foi comemorar com os outros trabalhadores do estábulo. O cavalo da minha avó ganhou a última corrida na Copa Breeders. Sempre que ela recebia uma bolsa de cinco milhões de dólares, era costume enviar para os trabalhadores do estábulo uma caixa de uísque caro. Eles agradeciam. Eu estava cansada de tanto trabalhar no estábulo e não queria nenhum uísque. Meus músculos doíam a ponto de poder sentir as fibras individuais raspando umas contra as outras cada vez que eu me mexia. Tudo o que eu queria era que essa viagem horrível terminasse. Entrei no quarto de Hunter e joguei as notas que Tommy tinha me dado por meu trabalho em cima da cama. Elas pousaram ao lado das anotações de Hunter sobre anatomia, empilhadas ordenadamente e protegidas com um elástico. Peguei as anotações e revirei curiosamente, como se nunca tivesse visto um prêmio tão exótico. Ele definitivamente não as tinha deixado aqui para que eu encontrasse por alguma razão. Ele poderia fazer isso com a chave do dormitório ou com a carteira, mas não se descuidaria

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do seu dever de casa. Ele deve ter entrado para procurar algo, com certeza tinha deixado para trás algo que pretendia levar para a faculdade com ele, e tinha se esquecido delas. Ele precisava delas. Guardando a pilha de anotações no bolso da minha jaqueta, fechei a porta da casa deTommy e marchei pela pista em direção à casa da minha avó, tendo o cuidado de ficar na longa faixa de grama verde, bem longe da estrada. Todos que chegavam e saíam da festa dela estavam dirigindo bêbados. Diminuí o ritmo quando me aproximei da mansão que se erguia com três andares apontando diretamente para uma lua cheia no céu estrelado. A garagem estava cheia de carros caros. Eu seria reconhecida mesmo em minhas roupas de cavalariço se entrasse pela porta da frente e me arrastasse por todos os grupos de idosos em êxtase, até ser forçada a encarar minha avó. Caminhei pela grama fria ao redor da casa, do outro lado do pátio e, na ponta dos pés, entrei pela porta lateral. Hunter estava no corredor, com as duas mãos sobre uma mesa com tampo de mármore do século XVIII, olhando duramente para si mesmo no enorme espelho. Eu parei. Sabia que ele não tinha me ouvido entrar, porque não tinha se movido. Eu poderia entregar as anotações a ele e depois... eu não tinha certeza do que fazer. Não ousei. Ele olhou para sua imagem no espelho, inclinando-se para frente como se estivesse excessivamente preocupado com os círculos escuros sob seus olhos. Ficou assim durante tanto tempo que eu finalmente dei alguns passos em direção a ele. Passei pela entrada da cozinha, de onde pude

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escutar a música da banda ao vivo no salão de baile, e continuei andando até vê-lo sob um novo ângulo. Seus olhos estavam fechados. Ele não estava olhando para sua imagem. Ele estava se concentrando e, enquanto eu o observava, ele deu um último suspiro profundo e afastou-se da mesa. Eu me escondi na cozinha antes que ele me visse. Andei para trás até esbarrar na bancada de granito, perfurando minha pele mal curada, e virei-me ao ouvir um tilintar atrás de mim. Uma figura de cabelos escuros endireitou-se, segurando uma tigela de salada de batata. Whitfield Farrell estava abrindo a geladeira da minha avó, como se morasse aqui. ― Erin! ― ele exclamou. ― Adivinha o que fiquei sabendo. Whitfield e eu não nos despedimos numa boa. A última vez que o vi foi na festa de Derby, quando Hunter tinha dito a ele para tirar as mãos do meu traseiro (a minha inspiração para a infeliz história do cavalariço), mas se Whitfield estivesse sóbrio, nós fingiríamos ter esquecido tudo isso. Para que nossas famílias continuassem se dando bem e fazendo negócios, teríamos nos abraçado, nos afastado e conversado educadamente, como tinham nos ensinado. Só que Whitfield não estava sóbrio. ― Ouvi dizer que você disse à sua avó que não queria essa porcaria de fazenda ― ele disse com a voz arrastada ―, fugiu para Nova Iorque ― ele disse fugiu balançando a tigela de salada de batata com tanta força que fez a tampa de plástico voar e cair em cima do tampo de granito da bancada ― e ela deu a fazenda para Hunter Allen. ― Você está brincando ― eu disse.

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― E... ― ele levantou o dedo, me pedindo para ficar calada, e quase derrubou a tigela. Corri ao redor da bancada e peguei a tigela antes que ela caísse e coloquei-a sobre o balcão, o que foi um erro, porque agora eu estava a apenas um passo de distância de Whitfield. Ele tirou meu boné e jogou para cima, atingindo uma enorme panela pendurada na prateleira sobre a bancada. ― Soube que você estava brincando de trabalhar no estábulo hoje. Não consigo entender você. ― Você não tem que me entender. A gente se vê por aí, está bem? Eu achava que preferia morrer a pôr os pés na festa da minha avó, mas agora a música dançante e o salão lotado eram o menor dos males. Dei um passo naquela direção. Ele me parou, colando a mão no meu quadril machucado. ― Por que você está diflcultando tanto as coisas? Olhe para mim. Eu deveria ter me afastado dele. Ele teria vindo atrás de mim quando eu entrasse no salão, mas pelo menos eu poderia escapar no meio da multidão de jovens bêbados. Seu tom e suas palavras me paralisaram. ― Olhe para mim ― ele falou com ternura, da maneira que eu desejava ser abordada por um herói com uma mensagem importante para mim. Eu olhei em seus olhos, verdes como a grama de inverno. Eu tinha conversado com ele de perto uma centena de vezes antes, mas nunca tinha notado a cor dos seus olhos. E como minha vida se tornava cada vez mais a história que eu tinha acabado de escrever para a aula de

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Gabe, fiz uma anotação mental deste detalhe para acrescentar à minha história quando eu a revisasse para meu portfólio no fim do semestre. ― Você não tem que dificultar as coisas para si mesma ― Whitfield dizia ―, não é um crime herdar milhões de dólares. ― Eu não acho que seja um crime ― protestei ―, eu só... Ele acenou com a cabeça. ― Quer viver sua vida sem que digam a você o que fazer ― seu rosto aproximou-se mais do meu, e meu desejo de me afastar dissolveu-se quando observei seus lábios. Ele entendia exatamente o que eu queria dizer. Hunter não. ― Basta fazer o que eles dizem, Erin ― Whitfleld sussurrou. ― Você vai rir por último no final, porque estará milionária e eles estarão mortos. ― Whitfield ― Hunter disse rispidamente na entrada do corredor ―, tire suas mãos de cima dela. Tentei me afastar de Whitfield, mas seus dedos apertaram meus arranhões. Whitfield balançou a cabeça para Hunter. ― Só porque você diz algo não significa que as pessoas vãofazer o que você quer, Allen. Você pode ter o apoio da vadia velha, mas ninguém nunca vai esquecer de onde você veio. ― Quer saber? ― interrompi, tentando me afastar enquanto Whitfield me segurava onde doía ― Eu só vou... ― Nós conversamos sobre isso em maio passado ― Hunter disse. ― Tire as mãos dela ou eu arrebento sua boca. Whitfield ficou boquiaberto com Hunter.

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Eu prendi a respiração. Hunter deu um passo adiante. ― Tudo bem! ― Whitfield exclamou, erguendo as mãos. ― Não quero causar um escândalo na sua casa, Hunter ― ele virou-se para mim: ― Lembre-se do que eu disse. Hunter deu mais um passo na direção dele. De olho em Hunter, Whitfleld pegou a tigela de salada de batata e escapou pela porta de entrada para o salão. ― Nossa ― eu exclamei com tensão. Hunter ficou me olhando com as sobrancelhas para baixo e os olhos azuis escuros. ― Eu nasci para isso. Ele contornou a bancada, passou ao meu lado e seguiu Whitfield no salão. No começo, pensei que ele ia tentar pegar Whitfield, mas vi a porta maciça da frente abrir e fechar e percebi que Hunter tinha saído. Eu fui atrás dele. As pessoas mais velhas me piraram e me abraçaram, disseram aos garçons para me trazerem bebidas e me perguntaram se era verdade que minha avó estava preparando o filho de Tommy Allen para tomar conta dafazenda no meu lugar. Essas eram exatamente as conversas que eu temia ao voltar aqui para ver meu pai. Meu coração disparou com a ideia de que Hunter estava se afastando de mim. Se minha avó me descobrisse aqui, insistiria em ter uma longa discussão comigo e, quando eu conseguisse sair, Hunter teria ido embora. Eu não podia deixá-lo ir, não depois de ele ter

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bancado o herói para a donzela em perigo pela segunda vez. De novo não! Por fim saí da festa e arrastei a porta da frente para abri-la. Do lado de fora, sob o luar frio, a grama verde brilhava em ondas longas, mas nenhum garoto alto e loiro caminhava sobre ela ou ao longo da pista. Ele tinha mesmo ido embora. De repente, ouvi gritos e risadas de homens vindos do caminho para o estábulo. Minha avó tinha mandado uísque para os trabalhadores do estábulo. Eles deviam estar jogando basquete. Certa disso, dobrei a esquina de pedra do estábulo, sem fôlego e preocupada, e vi Hunter, despido da cintura para cima, vestindo apenas calças e sapatos de cadarço de seu roupa de herdeiro, voar pelo ar

em

uma

enterrada

perfeita.

Sua

pele

branca

brilhava

fantasmagoricamente. Ele já estava suando no ar frio, e a cicatriz na lateral do corpo se destacou como uma marca de algum tipo de magia antiga. Ele mergulhou a bola no aro sem rede e pisou no chão do estacionamento de asfalto. Metade dos homens gemeu um "Oooooh!" triunfante e a outra metade um derrotado "Aaaaaw". Outro homem sem camisa apontou na minha direção. ― Erin! O jogo parou quando eu me sentei em um banco de madeira branca contra a parede de pedra. Vários trabalhadores do estábuIo gritaram para mim. ― Você fez um bom trabalho hoje, Erin! ― Tommy gritou.

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Bêbado, ele estava muito mais feliz com o trabalho que eu tinha feito do que quando estava sóbrio. ― Tão bom quanto Hunter jamais fez, e ela não reclama como ele. Vários dos homens empurraram Hunter em diferentes direções. Ele não pareceu se importar, sorriu para mim, parecendo orgulhoso, eu ousaria dizer. ― Você quer jogar, Erin? ― outro homem perguntou. Acho que ele não quis dizer nada com isso, mas os outros sentiram insinuações e começaram a gritar. ― Eu não tomei uísque suficiente para isso ― respondi ―, vou sentar aqui e assistir e ligar para a emergência quando alguém romper um ligamento. A maioria deles se afastou, retomando suas posições para o jogo. Apenas Hunter continuou olhando para mim com a cabeça loira inclinada para um lado, os músculos do peito nu brilhando, a bola de basquete no quadril. Ele parecia genuinamente intrigado quando disse: ― Você não tem telefone. Eu abri as mãos e encolhi os ombros. Reconheci seu jeito lento por causa da nossa conversa na cafeteria, dois meses antes. Ele estava bêbado. ― Bola! ― os outros homens gritaram. Hunter virou-se e jogou a bola no meio deles. O jogo recomeçou. Os homens se desviavam uns dos outros, se jogavam uns sobre os outros, perdiam o equilíbrio e tropeçavam bêbados para fora da área e depois corriam de novo. Os músculos de Hunter trabalhavam sob sua pele, mostrando seu corpo com uma

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graça surpreendente, embora o uísque tivesse deixado seu cérebro mais lento. O suor escurecia o cabelo loiro em suas têmporas. Ele ficava mais quente enquanto eu ficava mais fria, tremendo em minha jaqueta das Fazendas Blackwell no banco duro de madeira. Quando dois homens saltaram ao mesmo tempo para agarrar a bola e caíram no asfalto, Tommy gritou: ― Temos que cuidar disso. Vamos entrar. A próxima rodada é por minha conta. Os homens sem camisa bateram nas mãos uns dos outros e entraram no escritório do estábulo. Só Hunter ficou para trás. Ele puxou a camisa de uma árvore e, enquanto abotoava, disse: ― 0lá, senhorita O'Carey ― ele brincou, com sotaque britânico. ― 0lá, David ― tentei manter a voz firme e livre do frio e da ansiedade. Ele vestiu o suéter. ― Você lembrou de trazer as anotações de anatomia que eu não tinha esquecido? Então ele tinha deixado as anotações em seu quarto de propósito mesmo, como uma desculpa para que eu fosse encontrá-lo na festa. Com os dedos formigando, peguei os papéis no meu casaco e entreguei a ele. Ele colocou os papéis no bolso, com um sorriso malicioso no canto da boca. ― Por que o sotaque britânico? ― perguntei. ― Eles não falariam assim na América em 1875. Poderiam ter tido uma persistente

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influência irlandesa ou escocesa, pois muitos deles eram imigrantes recentes e não tinham televisão para nutrir o sotaque. Ele olhou para mim. Com meu jeito vacilante de sempre, acabei dando muita informação. Ele tinha começado a conversa de "Quase uma dama". Eu não tinha certeza do que ele quis dizer com isso, mas estava animada para descobrir. ― 0lá, David, você gostaria de dar um passeio atrás dos estábulos? ― Sujaria meus chinelos ― disse ele ― e a criada notaria pela manhã. Ele estava recitando a minha história, mas também estava me rejeitando. Levantei-me e coloquei um sorriso no rosto para mostrar que era tudo brincadeira. ― Tudo bem. Tommy disse que não pode nos levar ao aeroporto amanhã porque irá cedo para Churchill Downs, mas um dos outros rapazes vai nos levar. Vejo você na... Antes que eu pudesse dar um passo para trás, ele estendeu a mão e agarrou meu cotovelo. ― Eu estava fazendo uma piada. ― Sobre as nossas posições trocadas, você sendo o proprietário da fazenda e eu trabalhando como cavalariço? Você é hilário. Sabe o que deveria fazer com este tipo de talento? Deveria ir para a faculdade em Nova Iorque e estudar escrita criativa. Ele riu, puxando meu cotovelo. ― Vamos. Tentei desacelerar a respiração, que estava formando nuvens brancas no ar gelado, e Hunter podia ver o quanto eu estava nervosa.

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― Para onde vamos? ― eu perguntei. ― Passear atrás do estábulo ― ele disse, exasperado. Ele me puxou e me fez andar com ele ao longo da parede de pedra até a última curva. Chutando o cascalho na parede de trás, ele afirmou o óbvio. ― Nunca fiquei tão bêbado na minha vida. Eu ri. ― Faz parte do trabalho. Seus olhos arregalaram. ― O pior é que faz mesmo! E não é tanto o volume, mas o tempo. Acho que bebi meu primeiro coquetel às dez horas da manhã. Ele deslizou sobre o único banco na parede de trás do estábulo, onde potenciais compradores assistiam o trote dos cavalos. Eu me sentei ao lado dele, mas não muito perto, pois ainda não tinha certeza do que estávamos fazendo ali. Além da cerca, as colinas verdes se estendiam sob as estrelas, suavemente descendo até a linha das árvores. Ficamos lá sentados no silêncio e no frio por alguns instantes. Tentei gravar essa imagem na minha memória: a vasta fazenda lá embaixo, o céu infinito lá em cima e Hunter ao meu lado, sem tocar em mim. Simplesmente ao meu lado. Ele quebrou o silêncio com um suspiro. ― Isso é tão louco. Você deveria estar abrindo seu caminho pelo sangue azul do Kentucky, não eu. Eu encolhi os ombros.

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― Não vou mentir, estou dolorida, mas me diverti muito bancando o cavalariço hoje. Em Nova Iorque eu nunca sinto falta das festas ou das pessoas, mas sinto falta dos cavalos. ― É. Meu pai disse que você levou Boo-boo para uma longa cavalgada ontem. Fiquei feliz em ouvir isso. Aposto que ela ficou feliz quando viu você. ― Por quê? Tenho certezade que ela não me reconheceu. ― O que você está falando? ― Hunter disse. ― Boo-boo ama você. Sempre amou. ― Ela amaria qualquer pessoa que tivesse uma maçã. Seus lábios entreabertos e as sobrancelhas loiras tomaram uma expressão preocupada. De repente ele virou a cabeça para longe de mim e espirrou. Eu não me lembro de vê-lo espirrar antes, mesmo com todo o feno e poeira que constantemente pairavam no ar nos celeiros. Mas Hunter espirrou mesmo, e o que eu pensava que era sua preocupação por mim tinha sido uma expressão de pré-espirro. ― Erin ― ele disse, sério ―, essa é a coisa mais triste que eu já ouvi. Essa história que você escreveu para a aula de Gabe, sobre a menina sozinha na mansão, sem ninguém para conversar. Eu balancei a cabeça. ― Eu não estava lá na casa com você, portanto não sei ― ele disse ―, mas ao ver você com sua avó nos estábulos logo após a morte da sua mãe, parecia que vocês duas realmente não conversavam. Você se lembra que sua avó fez meu pai colocar você em um cavalo na semana seguinte? Eu ri.

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― Nunca vou esquecer isso. ― Ele me disse que você não parecia bem. Pensava que sua avó não conversava com você sobre o que aconteceu e que você não tinha nenhuma maneira de lidar com isso. Depois de algumas semanas, ele me pediu para falar com você. Eu pisquei para ele na escuridão. ― Você não obedeceu. ― Nós já estávamos na escola naquela época. Seus amigos riam de mim. Eu tinha doze anos e minhas funções cerebrais superiores não estavam totalmente desenvolvidas. Além do mais, eu estava apaixonado por você. O frio havia penetrado o tecido da minha calça jeans e se estabelecido nas dobras do meu casaco. As palavras de Hunter me deixaram tão intrigada que eu me aqueci de novo. Não sabia se devia levá-lo a sério. ― Seu amor por mim era um sintoma de que seu cérebro não tinha se desenvolvido ou... ― Cale a boca ― ele olhou para mim. ― Estou bêbado e estou tentando confessar, se você deixar. Eu tinha me apaixonado por você durante o verão. Depois aconteceu essa tragédia e você parou de falar comigo. Eu achava que você me culpava, ou ao meu pai. E ele merecia. ― Não ― protestei ― foi um aci... ― Tomei isso como uma rejeição ― ele pôs a mão no meu joelho e olhou dentro dos meus olhos. ― Eu levei todo esse tempo para descobrir isso, mas me arrependi todos os dias. E realmente sinto

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muito. Ele olhou para as estrelas. O lugar onde ele tinha colocado a mão no meu joelho estava mais frio do que nunca. ― Também sinto muito ― disse. ― Parece que estamos quites. Eu não visitei você no hospital quando você foi esmagado por um cavalo. Pelas mesmas razões, o amor, a rejeição e a fase da maturidade. ― E por ter nascido e ter sido criada como uma garota mimada, eu pensei para mim mesma, porque ele estava tentando se conectar comigo e eu não podia sequer encontrá-lo no meio do caminho. ― Essa situação se prolongou por seis anos ― ele continuou. ― Você não falava comigo. Eu não falava com você. Você não falava com sua avó. E agora ela deserdou você. Durante todo esse tempo você nunca disse a ela como se sente? ― Como eu me sinto? ― me inclinei para frente, curiosa. ― Você ama cavalos. Ama a fazenda. Mas tudo aqui lembra a morte de sua mãe e seu pai indo embora. Você nunca lidou com isso na época, está tentando agora. Você foi para longe, para um lugar sem cavalos e com pouca grama e está estudando para aprender a escrever uma história com final feliz. Se você puder escrever esse fim para si mesma, talvez possa voltar. Ouvir isso foi como ver uma caixa de origami colorida se desdobrar. Só que era Hunter que me mostrava o conteúdo, o que me deixou muito desconfortável. Sentei-me e cruzei os braços sobre o peito, abraçando meu corpo contra o frio. ― Quando eu trouxe você aqui ― ele disse ―, pensei que sua avó chamaria você, mas ela deve estar esperando que você vá até ela. Agora eu percebo que eu e você voltaremos para Nova Iorque amanhã sem que nenhuma de vocês dê o braço a torcer.

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― Isso mesmo ― eu concordei. ― Mas se vocês se encontrarem por acaso e conversarem ― ele olhou para mim e pegou minha mão, aquecendo-a entre as suas ―, será que você poderia, por favor, dizer a ela como se sente? Eu balancei a cabeça. ― Não. Ele largou minha mão. ― Eu gostaria que você fizesse um esforço, porque não sei por quanto tempo conseguirei lidar com isso. ― Aposto que você pode aguentar um pouco mais ― eu disse, desesperada para mudar de assunto. ― Você gosta da faculdade em Nova Iorque? Ele sorriu. ― Eu amo a faculdade em Nova Iorque. Adoro o fato de estar naquela cidade. Amo minhas aulas. Amo o hospital. Queria não ter que estar lá às duas horas da manhã, porque também adoro dormir, mas eu amo o hospital. Amo Manohar e Brian, um amor viril, é claro. ― É claro ― disse, tentando não rir. ― Você se dá muito bem com todos, é uma característica sua. ― É verdade ― ele concordou. ― E você, ama a faculdade em Nova Iorque? Eu suspirei. ― Eu realmente amo a faculdade em Nova Iorque. Ultimamente tenho estado tão ocupada com o trabalho e o dever de casa que eu poderia até estar em outra cidade, mas me lembro que amava a faculdade há um mês. Temo que possa estar chegando ao fim.

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Ele se aproximou de mim. ― Sério? ― Se eu pegar aquele estágio ― disse ―, eu poderia continuar lá. Caso contrário, estou em apuros. Eu queria tanto começar minha carreira trabalhando na meca do mercado editorial, mas talvez isso não seja possível para mim agora. Sou capaz de escrever em qualquer lugar, eu acho. Dei um sorriso. Mas ele não riu. ― O que você vai fazer? ― Eu poderia tentar a Califórnia, apesar de ser quase tão cara quanto Nova Iorque e estar contaminada na minha mente, porque minha mãe não teve muita sorte lá. O movimento de Hunter na minha direção foi tão repentino que eu instintivamente recuei. Depois percebi que ele estava procurando minha mão. Ele tocou-a novamente com sua mão quente, esfregando a palma da minha mão com o polegar calejado. Sua voz era suave como uma canção quando ele disse: ― Eu não amaria a faculdade em Nova lorque se você não estivesse lá. De repente eu fiquei ruborizada na noite gelada. ― Não amaria? ― eu sussurrei. ― Não. Quando eu disse o que eu amava, listei todas essas coisas e deixei você de fora ― ele soltou minha mão e tocou meus lábios com os dedos. ― Eu amo você.

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Eu olhava para ele embasbacada. Será que ele estava brincando de novo, citando outra linha da minha história? Não me lembro de ter escrito isso. Ele se inclinou e me beijou. Eu não respondi por alguns segundos. Minha mente não acompanhava o que meu corpo estava sentindo. ― Diga ― ele sussurrou nos meus lábios. ― Sei que é difícil para você, mas diga. ― Eu amo você ― ao ouvir minhas próprias palavras, engasguei de emoção. Ele colocou as mãos em cada lado do meu queixo e levou minha boca à dele. Minha mente ainda achava que havia algo estava errado nessa imagem. Meu corpo parou de se importar. Eu agarrei sua camisa e puxei-o para mais perto. Ele passou os lábios pela minha bochecha, pela minha orelha e de novo pela minha boca. Eu nunca tinha sido beijada assim na minha vida. Cada vez que eu pensava que deveria protestar porque havia tantos assuntos mal resolvidos entre nós, Hunter me beijava mais forte, expulsando essas preocupações da minha mente. O ar frio se aqueceu ao nosso redor. Ele desabotoou a parte de cima da minha jaqueta e enfiou a mão, encaixando a palma de sua mão quente no meu seio debaixo da camisa. Depois ele se endireitou, piscando para mim, e tirou a mão. ― O que foi? ―eu perguntei. ― Já sei que vou querer me matar pela manhã, mas não quero fazer isso enquanto estiver bêbado. E não quero que seja atrás do estábulo. Quero que tudo seja perfeito entre você e eu.

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Ele acariciou meu cabelo, tirando os fios do meu rosto. ― Você está chateada? ― Chateada? ― eu disse ― Não. Excitada? Sim. Frustrada? ― Sim ― ele colocou a testa na minha. ― Sim ― eu concordei. ― Chateada? Não. Ele me olhava sério, depois pousou o olhar sobre meu peito, abotoou os botões que tinha desabotoado alguns minutos antes e colocou as mãos sobre meus ombros. ― Estou tão feliz de finalmente estarmos juntos. ― Eu também ― sussurrei. Eu me senti desconfortável dizendo isso. Queria ter um telefone celular para ligar para Summer e perguntar se eu não estava cometendo um erro terrível, mas ela gritaria comigo e me diria para deixar de ser tonta. Eu não precisava da permissão dela para me apaixonar. Ele me beijou na testa, depois se levantou e estendeu a mão para mim. ― Vou levar você para casa. Eu segurei sua mão e balancei-a enquanto contornávamos o estábulo, voltando pelo caminho de onde tínhamos vindo. ― Eu vou levar você para casa ― eu disse. ― Não ― ele disse, com exagerada paciência. ― Eu vou levar você para casa. Com a outra mão, ele fez um gesto em direção ao topo da mansão da minha avó, visível sobre a colina.

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― Não vou deixar você vagando no meio da noite com todas essas pessoas bêbadas e, minha nossa, Whitfield Farrell e sua porcaria de tigela. Eu ri. Fiquei insanamente feliz porque ele estava com ciúmes de Whitfield Farrell. ― Você está bêbado, pode acabar tropeçando na estrada e sendo atropelado por um carro. ― Eles vão se arrepender ― ele disse ―, porque eu vou amassar o carro. Sou forte como um boi. Eu caí na gargalhada, e ele riu comigo. Ele era tão bonito à luz das estrelas e parecia tão feliz. Eu mesma não conseguia recordar quando me senti tão feliz assim. Ainda estava falida, minha avó me odiava e eu tinha um trabalho de história para segunda-feira que nem tinha começado a escrever, mas poderia lidar com tudo isso se tivesse Hunter sorrindo ao meu lado. Apertei sua mão quente. ― Vou voltar pelo pasto, se você achar melhor. Ele soltou minha mão, colocou o braço no meu pescoço e me puxou para mais perto dele e me deu outro beijo na testa. Depois me acompanhou por todo o caminho até a casa dele, me apoiou na porta da frente e me deu um beijo de boa noite.

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16 ACORDEI COM UM SALTO. A luz do sol entrava pela janela. Eu não tinha a intenção de dormir tão tarde. Precisava começar meu trabalho de história. Queria ver Hunter. Tomei banho e me vesti em tempo recorde. Meu estômago roncou quando vi que Tommy tinha deixado um farto café da manhã para mim na cozinha, mas eu comeria mais tarde. Vesti meu casaco e corri até a pista. Fiquei do lado de fora da mansão da minha avó, perto da nogueira, olhando através das folhas amarelas para minha janela no segundo andar. Quando eu morava aqui, nunca tive a portunidade de fugir do meu quarto. Esta parte da minha história com o cavalariço ficou no desejo, mas eu tinha certeza que poderia fugir se precisasse. Planejei minha fuga durante muito tempo. Agora eu poderia entrar de fininho. Meu quadril doeu quando dei passos muito largos até os ramos da nogueira, cuidando para não deixar os galhos rasparem no meu rosto antes da minha primeira vez com Hunter. Esbarrei meu casaco algumas vezes e entrei em pânico ao pensar que ele poderia rasgar, o que me faria congelar até a morte em Nova Iorque, porque eu não

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poderia comprar outro. Finalmente cheguei à minha janela. A janela antiga, com vidraças enormes, estava destrancada, assim como eu a deixei em junho passado. Levantei-a e caí dentro do meu quarto, que agora parecia enorme. Era quatro vezes maior do que o quarto de Hunter e dezesseis vezes maior do que meu quartinho no dormitório. Olhei para minha cama. Estava bem arrumada e a mala de Hunter estava aberta sobre a colcha. Ele já tinha acordado. Depois de uma decepcionante olhada no banheiro vazio, andei na ponta dos pés pelo corredor. Hunter devia estar em algum lugar por aqui. Se eu pudesse encontrá-lo sem encontrar minha avó primeiro, poderia atraí-lo de volta ao meu quarto e nós poderíamos terminar o que começamos na noite passada. Ele queria a perfeição para nossa primeira vez e isso seria perfeito. Depois de procurar na sala do andar de cima, na sala de vídeo e na biblioteca, desci devagar a escada larga e curva, com os dedos trançados no corrimão. Quando cheguei lá embaixo, parei e me sentei no último degrau. Através da entrada em arco que dava para a cozinha, ouvi Hunter e minha avó falando sobre mim. ― Erin descobriu que estou fazendo o curso preparatório para medicina, e não o curso de administração ― Hunter disse. ― Hunter Allen ― minha avó o repreendeu. Eu podia imaginar a linha de raiva se formando entre as sobrancelhas arqueadas primorosamente. ― Como você pôde deixar isso acontecer? ― Estou no mesmo programa que ela ― Hunter explicou com sua voz mais persuasiva, razoável e controlada, aquela voz que fazia as mulheres se apaixonarem por ele. ― Você me pediu para entrar em

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algumas aulas dela para poder controlá-la, mas é uma via de dois sentidos. Se eu estou perto o suficiente para descobrir coisas sobre ela, ela vai descobrir coisas sobre mim. Minha avó protestou: ― Mas o que vamos... ― Já cuidei disso ― Hunter a interrompeu. Ninguém interrompia minha avó, era o que eu pensava. ― Eu disse a ela que estou enganando você para pagar minha faculdade e que você não tem idéia de que eu estou fazendo o curso preparatório para medicina. Minha avó deu uma gargalhada. ― Muito engenhoso. ― Bom, funcionou ― Hunter disse. ― Pelo menos por enquanto, mas não sei por quanto tempo... ― Dê um jeito nisso, Hunter ― minha avó disse. ― Você pode consertar qualquer coisa com seu charme. Tudo o que você tem que fazer é convencê-la a estudar administração para cuidar da fazenda e se certificar de que ela não está me enganando como você a está enganando! Certamente isso não tomará tanto tempo, não é? Você disse que ela está morrendo de fome. Vamos ver se ela consegue passar um Natal sem meus doces de amêndoa! ― Vou intervir antes que ela morra de fome ― Hunter disse, e eu pensei ter detectado um tom de desaprovação na minha avó. Era impressionante como este garoto conseguia se safar de qualquer coisa. ― Mas você está certa, estou mais perto de convencê-la. Trazê-la aqui foi uma boa ideia, pois ela se lembrou do quanto ama este lugar. Um dos rapazes do estábulo disse ao meu pai que ela esteve fora por horas com Boo-boo ontem à tarde.

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― Com quem? ― Boo-boo. O cavalo dela. Você sabe, aquele presunçoso. Ouvi o barulho dos pratos do café da manhã. ― A propósito, parabéns pela vitória de ontem. ― Aquele cavalo certamente me devolveu o custo da viagem para Dubai para comprá-lo ― disse minha avó, e com bastante facilidade a conversa mudou de foco. Fiquei sentada na escada por mais alguns minutos. Eu poderia ficar aqui até que eles terminassem o café da manhã, saíssem da cozinha e me descobrissem, e eu poderia confrontá-los. Ou eu poderia entrar furiosa na cozinha agora mesmo. Ou poderia subir a escadaria e ir embora, porque não importava que eles soubessem que eu sabia. Tudo o que importava era que ambos tinham me traído ainda mais profunda e ostensivamente do que eu imaginava e que o amor que eu pensava ter crescido entre Hunter e eu era uma grande mentira. Cada passo que ele tinha dado na minha direção, agindo como se o cavalariço da minha história o tivesse afetado, escrevendo sua própria história sensual, me levando para Belmont, me beijando no hospital, me arrastando para casa, foi com o propósito de me fazer apaixonar por ele para que ele pudesse me aconselhar a seguir os passos da minha avó. Se eu fizesse o que ele dissesse, ela lhe daria o que ele precisava. Passei pelo meu quarto, subi na árvore e fechei a janela, me esforçando para esconder meus sentimentos por Hunter em uma pequena caixa, como fiz quando minha mãe morreu. Eu disse a mim mesma: Hunter nunca gostou de mim. Eu não deveria querer ficar com ele

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porque ele está mancomunado com minha auó. Ele não tem nenhum interesse romântico em mim. Eu estou bem, estou bem, estou bem. Mas não estava funcionando. Quanto mais longe tínhamos ido, mais

eu

percebia

que

queria

e

precisava

dele,

precisava

desesperadamente me conectar com ele, ainda que fosse apenas fisicamente. Eu precisava do seu toque, estava louca por ele. Eu estava tão concentrada que perdi meu último ponto de apoio na árvore e caí no chão em cima do meu quadril dolorido. A dor tomou conta de mim e meus olhos encheram de lágrimas. Voltei mancando para a pista. Quando estava chegando no caminho para a casa de Tommy, ouvi um carro no topo da colina. Minha avó estava no banco de trás da limusine que ela levava para as corridas. Ela me olhou através da janela quando passou, com os olhos escondidos por enormes óculos escuros de grife e a boca repuxada em uma careta de desaprovação. Uma hora depois, ouvi uma batida na porta da frente de Tommy. Hunter fez um gesto para a caminhonete da fazenda que esperava na pista. ― Sua carruagem está esperando ― ele disse, me empurrando para dentro da casa, onde o motorista não podia nos ver, e beijando minha boca com vontade. ― Bom dia.

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DEPOIS QUE O TAXI NOS DEIXOU na frente do dormitório, Hunter me levou até meu quarto e me colocou contra a parede do corredor. ― Só porque estamos aqui em Nova Iorque não significa que as coisas voltarão a ser como antes ― ele disse, colocando o nariz na minha bochecha. ― Temos um árduo dia amanhã e precisamos de tempo para resolver isso, mas as coisas serão diferentes entre nós a partir de agora. Prometa. ― Prometo ― minha voz soou alegre demais, um pouco irônica. Mas Hunter tinha feito bem o papel de namorado novo dedicado durante toda a manhã no aeroporto e não pareceu notar que eu o via com luxúria e total silêncio. Dez horas depois eu estava debruçada sobre meu laptop na minha mesa, me esforçando com o último parágrafo do trabalho de história, quando ouvi um barulho no quarto ao lado. Rolei minha cadeira para trás e dei uma espiada. Summer estava lá com Manohar, Kyle, Isabelle, Brian e o novo namorado de Brian, todos embriagados, uns se apoiando nos outros. Atrás deles, parado na porta que dava para o corredor, estava Hunter. ― Erin! ― Summer gritou quando me viu. ― Viemos buscar você. Já terminou o trabalho? Nós vamos para o clube, amiga! Meu coração acelerou. Summer, Jordis e eu nos divertimos muito no clube na semana anterior ao início das aulas, mas depois eu nunca mais tive tempo. ― Tenho uma prova amanhã ― disse. ― Estou quase terminando o trabalho e depois vou dormir.

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Pelo menos eu ia tentar. Apesar dos meus instintos, isso dependeria do que Hunter estava fazendo. Mesmo estando irritada com ele, eu não podia deixá-lo ir ao clube com Isabelle. ― Você não precisa dormir tanto para passar em uma prova ― Brian disse. ― Você tem que relaxar e tirar a mente dos estudos por um tempo e o clube é o lugar ideal para isso. ― O que é isso? ― o namorado de Brian exclamou, olhando para uma das obras inacabadas de Jordis. Ela tinha começado a colar os rostos em um quadro. Todos ao mesmo tempo começaram a tentar explicar a arte de Jordis, e a própria artista. Hunter se aproximou e se inclinou na minha porta. Sua sombra se misturou com minha sombra na parede atrás dele ao ponto que eu não conseguia distinguir uma da outra. ― Você vem? ― ele me perguntou baixinho. Eu estava prestes a explodir de raiva. Eu deveria dizer que sabia tudo sobre seu acordo com minha avó, mas nosso relacionamento, e mesmo nossa amizade, chegaria ao fim. Eu queria resolver essa situação, não queria? Caso contrário, ficaria imaginando pelo resto da vida como teria sido. Ficaria sonhando com ele. ― Eu vou se você for ― disse, olhando bem nos olhos dele. Ele desapareceu no quarto maior e eu o ouvi dizer: ― Ela vai. ― Eba! ― Summer enfrou a cabeça no meu quarto e sussurrou com a voz rouca: ―Você quer beber alguma coisa antes de irmos? Ou

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várias coisas? Manohar tem um frasco de... sinceramente, não sei o que é. ― Minha nossa, não ― eu disse. Era a última coisa que minha prova de cálculo precisava. ― Você é quem sabe ― ela desapareceu no outro quarto e gritou: ― Hunter, Manohar tem um frasco misterioso! ― Minha nossa, não ― Hunter disse. Meus dedos pararam sobre o teclado do laptop. Ele não poderia ter ouvido minha conversa sussurrada com Summer. No entanto, estávamos dizendo a mesma coisa, sentindo a mesma coisa no mesmo momento, preocupados com os estudos e, francamente, um pouco irritados com nossos amigos, além de cansados, mas ainda assim desesperados para estar juntos. Eu sempre tinha visto Hunter tão diferente de mim, na verdade o oposto de mim, e agora eu o odiava profundamente, mas esta noite ele era a pessoa mais parecida comigo em todo o universo. ― Vamos, Erin! ― Summer gritou. Eu rolei para trás na cadeira e coloquei a cabeça para fora. ― Podem ir, eu encontro vocês lá. Já me desconcentrei, não consigo terminar o trabalho com vocês aqui. ― Vamos ― Hunter os repreendeu. ― Deixem Erin em paz. Ela vai aparecer logo por lá. Eles resmungaram e foram embora. Hunter foi o último a sair. Olhou para trás e me perguntou: ― Não é?

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Eu confirmei com a cabeça, mas na verdade não via como. Eu tinha que terminar este trabalho, mas também não podia perder esta noite com Hunter. Felizmente, trinta minutos depois eu terminei o trabalho, vesti roupas apropriadas para o clube e fiquei me observando no espelho. Eu definitivamente não tinha uma beleza loira clássica, mas sempre fiz o melhor que pude com o que eu tinha. Nesta noite em especial, mesmo cansada por causa da preocupação, do trabalho duro e do pouco sono, acho que poderia ter sido uma modelo em uma revista de moda. Sim, eu faria isso por Hunter. Ouvi a música do clube a um quarteirão de distância. Eu não conseguia ver as luzes porque as janelas estavam escuras, como se algo delicioso e secreto estivesse acontecendo lá dentro. Na penumbra perto da porta, Hunter estava encostado na parede de tijolos, me esperando. Ele veio me encontrou na metade do quarteirão e caminhou comigo. ― Eu não devia ter deixado você vir sozinha ― ele murmurou ― mas depois fiquei com medo de voltar para te buscar porque você poderia vir por um caminho diferente. Por que você é uma jovem em Nova Iorque sem um telefone celular? ― Você está brincando? Um telefone celular custa duzentos pacotes de macarrão por mês. Antes que eu pudesse perceber o que ele estava fazendo, ele pagou a minha entrada no clube. Tentei protestar, mas ele não podia me ouvir por causa da música. Passamos pela multidão, Hunter me segurando pela mão. Summer e Manohar estavam dançando (Manohar

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dançando! Cortesia do frasco) e Summer nos mostrou uma cabine vazia com a mesa repleta de copos e uma jarra de refrigerante. Hunter se sentou no banco de veludo vermelho encostado na parede. Eu poderia me sentar no banco do outro lado da mesa. Ou no banco ao lado dele. Eu não tinha que me sentar exatamente ao lado dele. EIe agiu durante todo o dia como se estivéssemos juntos e ele não pudesse esperar para chegar ao objetivo final. Se eu me sentasse perto dele, estaria dando meu primeiro passo para seduzi-lo, embora eu soubesse muito bem que ia dar um fora nele antes que ele tivesse a chance de me dar um fora. Decisão tomada, sentei-me ao lado dele no banco, desviando o olhar. Ele disse alguma coisa que eu não consegui ouvir. ― O quê? ― perguntei, olhando para ele. Ele me olhou intensamente, com as luzes piscando em seu longo nariz e brilhando em seu cabelo loiro. Depois levantou a mão e me pediu para chegar mais perto. Só para que eu pudesse ouvir o que ele estava dizendo, certo? Eu me inclinei sobre ele. Ao mesmo tempo, ele abaixou a mão. Eu inclinei a cabeça em direção a sua boca e ele colocou o braço em volta do meu pescoço. ― Você está tão cansada quanto eu? ― ele perguntou. Eu ainda mal podia ouvi-lo, mas sabia que ele estava falando alto, pois sua respiração no meu ouvido me fez arrepiar. ― Estou totalmente sóbrio ― ele disse ―, mas me sinto mais bêbado do que na noite passada.

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O que ele disse soou tão verdadeiro, tão inesperada e absolutamente parecido com minha vida naquele momento, que eu ri e sorri para ele como se ele fosse meu amigo, e eu não conseguia parar de rir. Ele também riu, me observando, ainda um pouco inseguro. Depois começamos a dar gargalhadas, o que nos fez inclinar para frente, mais perto um do outro. Finalmente a vontade de rir passou, mesmo porque minha boca doía de tanto rir. Também porque algumas meninas passaram pela mesa e olharam na nossa direção e eu fiquei com medo de sermos expulsos por parecer que estávamos usando alguma droga. Mas aquela sensação adorável permaneceu, o calor de rir, de estar tão perto de Hunter, de vê-lo sorrindo para mim. O sorriso continuou em seus lábios, mas seus olhos pareciam preocupados quando ele se aproximou de mim de novo e disse no meu ouvido: ― Não sei se vou conseguir acompanhar o curso preparatório para medicina. Eu me afastei o suficiente pata poder olhar em seus olhos. Ele estava falando sério e mais uma vez o que ele disse soou verdadeiro. Eu balancei a cabeça. ― Sei exatamente o que você quer dizer, mas você se sentirá melhor amanhã. Você nem se lembrará de ter se sentido assim esta noite. Ele ficou me olhando, sério. ― Por que eu vou me sentir melhor amanhã?

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Eu encolhi os ombros. ― Porque suas provas vão acabar e você terá descansado um pouco esta noite. O que eu quis dizer era óbvio. O estranho é que eu o entendia perfeitamente, e ele não me entendia nem um pouco. - É mesmo? Ele se inclinou para falar no meu ouvido de novo, mas desta vez sua bochecha tocou a minha, me arranhando com a barba por fazer e me dando uma sensação de formigamento. Se nossos amigos na pista de dança olhassem na nossa direção, não teriam como saber que estávamos nos tocando. Pensariam que ainda estávamos nos inclinando para ouvir um ao outro, como antes. Não teriam ideia de que cada nervo do meu corpo acordou e começou a arder quando ele 286

sussurrou no meu ouvido: ― Você gostaria de dançar? Eu balancei a cabeça. Ele se levantou e estendeu a mão para mim. Eu aceitei. Ele me levou para a pista de dança, até um espaço livre em um canto escuro que a luz não alcançava e o holofote rosa nunca iluminava. Puxando-me para perto, ele colocou um braço em volta da minha cintura e a palma da outra mão na minha bochecha. ― Eu fiz tudo errado ― ele sussurrou no meu ouvido. ― Vou tentar de novo. Sentindo

sua

respiração

na

minha

orelha,

meu

coração

estremeceu, fazendo meu peito formigar. Abri os lábios e movi minha bochecha em sua mão para que ele me acariciasse suavemente.


― Esta é uma música lenta ― ele sussurrou, mas eu consegui ouvir sua voz apesar da música porque seus lábios se moviam bem perto da minha orelha. ― E nós estamos sozinhos. Ele me beijou. Seus lábios tocaram os meus com intensidade e desejo. Suas mãos estavam na minha nuca, seus dedos passeavam pelo meu cabelo, me posicionando enquanto ele abria minha boca com sua língua. Suas mãos passaram do meu pescoço para as minhas costas e voltaram para a parte da frente do meu corpo, não o suficiente para tocar meus seios, mas perto o suficiente para me dizer o que ele queria. Eu não conseguia ver se alguém estava nos observando. Ele não estava olhando. Seus olhos estavam fechados, os punhos agarrando minha blusa, os lábios colados nos meus, como se ele nunca mais fosse me soltar. Meu coração estava quase saindo do peito. Eu não queria fazer isso com Hunter sabendo que ele estava apenas brincando comigo. Não queria fazer isso na frente dos meus amigos, pois eles acabariam descobrindo que ele estava me enganando e que eu sabia disso e tinha permitido, mas de jeito nenhum eu interromperia este beijo. Sua língua quente estava na minha boca, tocando minha língua, tocando meus dentes, tomando conta de mim. Meu sangue corria pelas veias e parecia pulsar em direção a ele como a maré do oceano apontando para a lua. Era uma daquelas coisas que um escritor precisava experimentar: sentir uma excitação, entregar-se, ser dominado. ― Temos que voltar para o dormitório ― ele murmurou. Eu balancei a cabeça com cuidado para que não separar minha boca da sua.

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Desta vez fui eu quem o guiei através da multidão. Fiquei surpresa por ele ter aceitado ser conduzido através de toda a pista de dança. Ele deve ter pensado que, se pudesse me manter feliz o tempo suficiente para me levar para a cama, eu refletiria sobre a minha escolha de carreira, ele poderia me convencer a voltar correndo para a minha avó e conseguiria uma formação universitária. Por isso se deixou conduzir. Summer, que estava dançando grudada com Manohar, olhou para nós e arregalou os olhos. Eu tinha dito a ela à tarde que contaria tudo sobre meu fim de semana com Hunter depois que eu terminasse o trabatho de História, mas eu não tinha deixado implícito (nem imaginei) que mais tarde eu o estaria conduzindo para fora de um clube. Ela falou com Manohar. Ele levantou a cabeça e fez a mesma expressão de espanto. Hunter também não tinha contado a Manohar sobre nós dois. Não que houvesse qualquer "nós" para contar. Corremos em silêncio e de mãos pela noite fria e perfumada com o cheiro de lixo italiano. O dormitório estava quieto nesta noite de domingo. Ele me apoiou na porta do meu quarto e me beijou com vontade. Suas mãos agarraram minha cintura, subiram até os meus seios e os tocaram por cima da minha blusa e do sutiã. Eu coloquei minhas mãos atrás da cabeça dele para chegar mais perto, mas ele já tinha colocado a mão na minha bolsa e enfiado a chave na fechadura. A porta se abriu atrás de mim. Atravessamos o quarto maior rápido e nos trancamos no meu quarto minúsculo. Quando nos abraçamos de novo, comecei a entender o erro que eu estava cometendo. Ele estava na minha cama e

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eu nunca mais conseguiria dormir sem pensar nele. Ele me beijou e, se eu abrisse um pouco meus olhos, poderia ver minha mesa de cabeceira improvisada com o Ă­mĂŁ da cidade de Nova Iorque. Ele se deitou sobre mim e acima de seus ombros eu podia ver meu laptop brilhando. Senti seu cheiro e seu gosto e, quando eu viesse aqui toda noite, pensaria nele, exatamente o que eu nunca quis que acontecesse.

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17 AINDA SONOLENTA, ABRI OS OLHOS e fiquei perplexa com o que vi. Hunter Allen deitado ao meu lado. Ele estendeu o braço musculoso desnudo sobre mim, alcançou a mesa de cabeceira e tocou o ímã da cidade de Nova Iorque.

SOB O BRILHO AZUL DOS postes de luz na rua, ele se levantou da cama. Eu o observei vestir a calça jeans e caminhar até a porta. Ele não apertou o cinto. Talvez nem tenha abotoado a calça, porque ela estava tão baixa em seus quadris que eu teria me virado para observálo se o tivesse encontrado assim no corredor. Com a mão na maçaneta, ele olhou para mim e viu que eu o estava observando, voltou e se ajoelhou ao lado da cama, inclinando-se para frente e beijando a ponta do meu nariz. ― Volte a dormir ― ele sussurrou. A porta que dava para o corredor fechou suavemente. Senti mais do que ouvi um pequeno solavanco no prédio. Seus passos ecoaram cada vez mais alto na escada. Depois silêncio total.

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Eu respirei fundo, aproveitando o último resquício de seu calor humano nos lençóis. Os lençóis quentes deslizaram pela minha pele, como se ele ainda estivesse aqui, mas ele já tinha ido embora. Comecei a suspirar, chorar e tossir. Virei para o lado e tossi no meu travesseiro, para não acordar Summer e Jordis. A fronha do travesseiro tinha o cheiro dele. Por sorte descobri no Kentucky que estava sendo enganada todo esse tempo. Eu dormi com ele para colocar um ponto final nessa história, mas o tiro saiu pela culatra. Ele pulou da cama e foi para seu dormitório assim que se deu conta de onde estava. Se eu esperava uma reação diferente, estava agindo como aquela tola que eu tinha me esforçado tanto para não ser. Passos ecoaram na escada mais uma vez. Passos que desciam a escada. Não era Hunter. Não poderia ser ele voltando para mim. Ou, se fosse, ele devia ter percebido que deixou o casaco no meu quarto, e a camisa... e a cueca. A porta do corredor bateu com força. Eu prendi a respiração. Minha porta se abriu. Ele ia pegar suas coisas e sair rápido. Hunter fechou a porta com cuidado, tirou a calça e deitou na cama ao meu lado. Como eu tinha rolado para chorar no travesseiro, agora havia menos espaço para ele. Ele encostou em mim, me fazendo ir para o lado, de costas para ele. Tique-taques suaves soaram no quarto, depois um pequeno bipe. Ele deve ter ido pegar o Rolex em seu quarto. Estava configurando o alarme.

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― Você nunca tira isso ― sussurrei, esperando que minha voz não soasse tremida por eu ter chorado. ― Por que não usou o relógio esta noite? ― Eu não queria saber que horas eram ― ele sussurrou. ― Ainda não quero, mas estou com medo de perder a prova de anatomia. Preferia ficar aqui com você para sempre. Ele disse isso de um jeito tão casual... Seu relógio tocou mais algumas vezes. Um calor se espalhou pelo meu peito, adrenalina, excitação, espanto. Será que ele estava mesmo dizendo o que eu pensava? Para confirmar, eu sussurrei: ― Achei que este quarto deixasse você sufocado. ― Não com você nele. Ele colocou o Rolex na mesa de cabeceira e demonstrou seus sentimentos por mim colocando o braço na minha cintura e beijando meu cabelo. Minha cama era um ninho macio, rodeado de janelas nesta cidade fria, mas senti meus braços arrepiarem quando ele me beijou. Ele não estava agindo como se tivesse me seduzido por dinheiro, mas sim como se estivesse feliz por estar comigo e como se não quisesse ir embora. Se eu estivesse certa desta vez, ele não ia gostar da história que eu tinha escrito com raiva na quinta-feira à noite, a história que discutiríamos na aula de Gabe amanhã.

ELE ME ACORDOU COM UM BEIJO na boca sob a luz cinzenta da manhã.

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― Minha prova de anatomia é às oito ― ele sussurrou entre os beijos. ― Meus livros estão lá em cima. Ele me beijou mais devagar e suspirou como se eu o tivesse seduzido e ele finalmente tivesse se rendido, depois desmoronou sobre meu corpo desnudo. ― Não quero ir, mas tenho que ir. Ele saiu de cima de mim e procurou as roupas no chão. Eu olhei desconfiada para ele, mas acho que ainda era cedo para ele perceber minha apreensão. ― Vejo você na aula de cálculo, está bem? E na aula de escrita criativa. Meu corpo arrepiou quando ele se aproximou para me dar um último e demorado beijo. Ele abriu a porta e sussurrou algo no outro quarto. Summer riu. A porta se fechou. Eu vesti um moletom e dei uma olhada no outro quarto. Jordis, de pijama e com seus óculos de aros grossos, fazia comentários insatisfeitos em dinamarquês enquanto arrancava os rostos da colagem, jogando os papéis amassados no lixo. Summer estava se olhando no espelho e alisando o cabelo. ― Sinto muito, meninas ― eu disse, entrando no quarto. ― Eu deveria ter pedido permissão para que Hunter passasse a noite aqui. Foi inesperado. ― Que absurdo ― Summer riu. Jordis concordou. ― Por que você acha que ele corta cabeças para mim? Eu não acho que ele goste de cortar cabeças.

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Tentei digerir o fato de que ela se referia à sua arte como "cortar cabeças", o que era desconcertante. Ela continuou: ― Eu não me importo com o que você faz com ele, desde que não seja eu quem tenha que dormir no cubículo. ― Não precisa se preocupar ― eu disse. ― Isso não vai acontecer de novo. ― Não vai? ― Summer gritou, abaixando a prancha. ― O que você quer dizer? ― Você já leu minha história para a aula de Gabe? ― eu perguntei. Ela confirmou com a cabeça. ― É diferente. Brutal. Parece que você estava deprimida quando a escreveu, ou cansada. ― Nervosa ― corrigi. ― É sobre o garoto que Hunter afastou de mim em maio. Ela arregalou os olhos. ― Hunter já leu? ― Claro que não ― disse. ― Qual é o problema com essa história? ― Jordis perguntou. ― É extremamente obscena ― Summer disse. Ela e Jordis olharam para mim, indignadas, pensando em como eu podia tratar um cavalheiro como Hunter dessa forma. ― Honestamente, meninas disse ―, muita coisa aconteceu entre Hunter e eu e entre nossas famílias ao longo dos anos. Mais do que

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vocês sabem. Eu achei que ele estivesse me usando na noite passada. Estava com raiva e o usei também, mas agora que isso aconteceu, eu acho que pode haver mais entre nós do que apenas interesses obscuros. Se ele se sente assim também, eu estraguei tudo com essa história. ― Por que você continua fazendo isso? ― Summer gritou de novo. ― Eu estou escrevendo sobre o que eu sei ― murmurei. ― Você não sabe de nada ― Jordis disse. ― É óbvio que ele te ama. Ele vem aqui cortar fotos na esperança de que você se aproxime. ― O que eu faço agora? ― eu sussurrei. ― Ligue para ele! ― Summer colocou o celular na minha mão. Sentindo-me fraca, afundei na cama de Jordis e digitei os números que eu já sabia de memória. ― Ocupado. Para quem ele estaria ligando a essa hora da manhã? ― Envie uma mensagem ― Jordis disse. Eu soltei o celular no meu colo. ― Não posso incomodá-lo com isso agora. Ele vai fazer uma prova importante de anatomia ― balançando a cabeça, devolvi o celular para Summer. ― Vou tentar conversar com ele na aula de cálculo. Mas ele entrou na sala de cálculo justamente quando o professor estava entregando a prova, provavelmente porque tinha ficado mais tempo fazendo a prova de anatomia. Ele se sentou ao meu lado e sorriu para mim, mas não pudemos conversar. Enquanto eu ainda lutava com os números imaginários, ele entregou a prova e saiu. Deve ter ido para

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a biblioteca ler minha história. Eu não podia segui-lo porque tinha que ir para a aula de história entregar meu trabalho. Quando cheguei à aula de escrita criativa à tarde, me sentei e analisei minha história com atenção, lendo-a como Hunter a leria. Os outros estudantes olharam para mim e sussurraram quando entraram na sala e se sentaram em suas cadeiras acolchoadas. Eu coloquei a mão na boca, esperando o pior.

Obediência por Erin Blackwell

― Você fará o que eu mandar ― sua avó disse. ― Sua faculdade é um presente e eu não sou obrigada a pagá-la para você. Se você resolver não seguir meus passos, estudar administração e gerenciar a fazenda da família, eu escolherei não ajudar você. A garota percorreu o escritório da avó com os olhos, observando o candelabro de cristal, o tapete persa de seda, os livros com capa de couro nas prateleiras, e pensou no que sua avó disse. Se ela aceitasse a oferta da avó, desistiria do seu sonho de se tornar escritora. Mas como ela poderia se sustentar? Ela flcaria pobre e tão... deprimida. A garota tomou sua decisão. ― Você está certa ― ela disse ―, eu tenho certeza de que agradecerei este amor frio quando eu estiver mais velha. ― É isso mesmo ― a avó sorriu, mostrando um arco perfeito de batom vermelho.

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Ela estendeu a mão com unhas perfeitamente pintadas e afastou o cabelo dos olhos da garota pela primeira vez desde que essa discussão tinha começado, semanas antes. ― Agora que já resolvemos isso, sabe o que me deixaria ainda mais feliz? A festa começou pouco depois dessa conversa. BMWs e Mercedes e carros raros de colecionadores pararam na garagem de sua avó, no lugar das carruagens finas e dos cavalos vigorosos do ano anterior. A garota estava na janela da frente, puxou para trás a cortina de seda e observou seu alvo. A família dele era dona da fazenda vizinha e sua avó sempre dizia que eles formariam um lindo casal. E por que não? A garota chamou um garçom que passava ao seu lado e pegou sua terceira taça de vinho na bandeja. Ele torceu o nariz, em desaprovação. Ela não ligou. Ela era rica e ele era pobre. Certo? ― Certo ― disse o garoto, pegando sua própria taça e segurando a mão da garota. Ele a levou para um lugar escuro na festa e sussurrou: ― Adoro ver você assim. ― Assim como? ― ela perguntou. ― Bêbada? ― Herdeiros de fortunas não ficam bêbados ― ele corrigiu. ― Nós simplesmente socializamos. Você quer socializar comigo? Ele colocou a mão por dentro do casaco de lã da garota, desabotoou a blusa de seda que estava por baixo e passou os dedos pelo sutiã até o seio dela, apertando o mamilo com cuidado e disparando uma faísca em sua virilha.

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Era isso que sua avó tinha em mente? Ela tinha certezade que sua avó a encheria de elogios por fazer amizade com o herdeiro da fazenda vizinha, mas não tinha tanta certeza de que sua avó aprovaria o garoto apertar seu mamilo em público. ― Você veio no seu próprio carro? ― ela perguntou. ― Com certeza ― ele segurou sua mão de novo. Desta vez ele a conduziu no meio dos convidados que bebiam e riam. A luz foi ficando turva, mas ela pensou ter visto sorrisos brilhando para ela e para o garoto. Eles eram tão meigos e formavam um casal perfeito! Quando passaram entre a parede e uma enorme mesa que os protegia dos olhares alheios, o garoto colocou a mão por baixo da saia dela e dentro de sua calcinha. A pesada porta da frente da mansão de sua avó parecia se abrir para eles como cenários que se movem e mudam na frente dos personagens em uma peça da Broadway ou em uma produção cinematográfica romântica da época da Grande Depressão. Enquanto ela corria atrás do garoto para fora da mansão, chegando ao amplo jardim, percebeu que estava prestes a perder sua virgindade em um Porsche preto reluzente que não era nem um pouco barato. Sorte sua. Eles se jogaram nos assentos pretos de couro macio. O garoto rolou em direção a ela e a seduziu: ― Tire meu cinto, Erin.

― BOA TARDE.

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Gabe sorriu, fechando a porta e se acomodando na cadeira acolchoada na ponta da mesa. Eu estava feliz pela aula estar começando. Fiquei com medo dela o dia todo e estava um pouco feliz por Hunter não estar lá. Fiquei imaginando onde ele estaria. Eu esperava que ele não estivesse encenando uma de suas histórias sensuais para se vingar de mim e queria ter terminado de reler minha história para tentar imaginar o que ele pensaria quando a lesse. Eu estava apenas chegando na parte obscena. Gabe ergueu as sobrancelhas brancas ao ver a cadeira vazia de Hunter na outra ponta da mesa. Depois riu de novo. Passos ecoaram na escada lá embaixo. ― Vamos começar com a história de Erin, está bem? ― Gabe disse. ― Nenhum de nós vai conseguir pensar em mais nada antes de tirarmos isso do caminho. A turma riu. Summer olhou para mim, me apoiando. Os passos se aproximaram. ― Manohar ― Gabe disse ―, por que você não começa? Hunter irrompeu pela porta da sala balançando os papéis na minha cara. Ele devia estar bastante nervoso para ter pego materiais reserva na biblioteca. Isso não era permitido. Provavelmente alarmes tocaram e a polícia do campus devia estar atrás dele, e ele deve ter deixado sua carteirinha de estudante. Foi nisso que eu estava pensando quando ele gritou comigo. ― Você queria que eu assistisse? Queria que todos nós assistíssemos? Você brigou comigo para que parasse de escrever este

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tipo de história, Erin. Você tem muita coragem. Toda história que você escreveu para esta aula tinha como objetivo me apunhalar, desde aquela história em que você me descreveu como seu cavalariço até esta pornografia. Ele jogou "Obediência" na mesa na minha frente. Gabe começou a esbravejar, o mesmo Gabe que nunca levantava a voz e nunca demonstrava nenhum tipo de raiva. Ele ficou de pé em frente a sua cadeira acolchoada elegante, com o rosto vermelho, e começou a gritar que em quarenta anos ensinando escrita criativa, ele nunca tinha visto tanta insolência. Ele usou mesmo a palavra insolência. Eu também me levantei, porque se eu continuasse sentada, ficaria em um nível mais baixo do que Gabe e Hunter. ― Você não pareceu se importar com a pornografia ontem à noite ― eu disse a Hunter. ― Nós estávamos transando, Erin, não escrevendo sobre isso para que todos lessem! ― Dê um jeito nisso, Hunter! Você pode consertar qualquer coisa com seu charme! Hunter respirava rápido, mexendo a camisa e fazendo os botões cintilarem sob o brilho das lâmpadas coloridas. Eu sabia o que ele estava pensando. Eu tinha escutado o que minha vó disse para ele, descobri que ela o estava pagando para me vigiar e ele fingiu seus sentimentos por mim por causa disso. Eu tinha dormido com ele mesmo assim, também fingido meus sentimentos por ele. A única coisa com a qual eu não contava era que em algum momento dos últimos meses, ou da última semana, ou do dia anterior

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seus sentimentos por mim se tornariam reais. E ele achava que os meus ainda eram falsos. Hunter não gostou de ter sido usado. Gabe estava dando um sermão. Todos na sala olhavam para mim, pasmos. Uma garota na outra ponta da mesa sussurrou: ― Hunter é o cavalariço de Erin? Eu comecei a chorar. Summer segurou minha mão. ― Vá ― ela disse. ― Para onde? ― perguntei, com a voz rouca. ― Gabe disse para você esperá-lo na porta de seu escritório ― ela sussurrou. Como previsto, Hunter estava saindo e Gabe estava olhando com raiva para mim, com os braços cruzados. Eu nunca tinha ido ao escritório de Gabe. Segui os passos pesados de Hunter até o terceiro andar do prédio. Ele parou no fim do corredor, com a mochila pendurada num ombro e os braços cruzados, olhando para a rua através da janela. Ao lado dele havia um sofá-cama que parecia confortável. Era o único lugar para sentar no corredor. Eu dei um passo em direção a ele para esperar Gabe lá, mas Hunter me encarou. Eu desci de novo a escada, achei que seria melhor esperar fora da sala, na lanchonete do porão. Quando a aula terminou, eu já tinha rabiscado vinte páginas de uma nova história e parado de chorar. Subi a escada de novo e vi que Hunter não tinha se mexido. Continuava olhando pela janela, agora

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escura, e com a mochila no ombro. Desta vez eu não o deixaria me afastar do sofá-cama. Arrastei-me pelo corredor, me joguei sobre o sofá-cama e abri meu livro de história, como se aquilo fosse enganar alguém. ― Bem ― Hunter disse com a voz rouca. Depois limpou a garganta ―,lá se vai seu estágio. ― Era exatamente isso que você e minha avó queriam ― eu disse, sem tirar os olhos do livro. Depois de alguns segundos, eu disse, mais animada: ―Talvez eu ainda tenha uma chance. Duvido que Gabe esteja no comitê. Ele não vai me dar uma boa recomendação para esta matéria, mas eu posso tentar contornar a situação e apresentar meu portfólio ao comitê. ― Ele está no comitê ― Hunter disse. ― Ele não está no comitê ― insisti. Pelo menos eu esperava que ele não estivesse. Eu tinha suposto que ele não estava, mas se admitisse isso seria como se Hunter soubesse algo que eu não sabia. ― Somente os figurões do departamento de inglês estão ― eu gaguejei. ― Estou dizendo ― Hunter disse ― que ele está no comitê. Ele é o chefe do comitê. Ele ganhou os prêmios o Henry e Pulitzer. ― Gabe? Mesmo boquiaberta com essa revelação, eu me dei conta de que ele devia estar certo. O departamento de inglês de uma universidade com boa reputação não contrataria um calouro fracassado e rejeitado pela universidade para ensinar escrita criativa. Ele não se vestia como

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um relaxado na praia por estar tão baixo no sistema hierárquico. Ele se vestia assim porque era importante. Coloquei as mãos trêmulas na boca, pela primeira vez sem palavras. Hunter sentou do meu lado no sofá-cama. ― Você não é a única que tem algo a perder. Se Gabe nos prejudicar, eu posso dar adeus à faculdade de medicina e arrastarei minha média geral quando estiver no último ano da faculdade. ― Você está sendo um pouco melodramático ― eu disse, sincera. ― Eu? É você quem está escrevendo histórias sobre... ― ele se interrompeu. ― Não importa. Me conte sobre Whitfield ― seu rosto estava pálido. ― Para que você quer saber? ― eu disse, irritada. ― Tudo o que você fez comigo ou para mim desde que está em Nova Iorque foi porque minha avó pagou. Você não é meu namorado, nem é meu amigo de verdade, e isso não é da sua conta. ― Você fez isso ser da minha conta ontem à noite ― ele insistiu. Eu olhei naqueles olhos azuis profundos por um momento. ― Minha história é ficcional. Ele fez cara feia para mim. ― Seu nome aparece na história. ― O que? Não, não está. Eu escrevi a história na terceira pessoa sobre uma garota sem nome. ― Seu nome aparece na história, Erin ― ele insistiu. ― Ato falho. Ops.

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― Bem, é quase não ficcional ― eu voltei atrás ―, mas isso aconteceu há um ano. Não neste fim de semana. Ele fechou os olhos e levantou a mão. ― Não quero mais ouvir isso. Eu estava prestes a lembrar que foi ele quem começou esta conversa, quando ouvi passos rápidos no corredor, rápidos demais para serem de Gabe. Isabelle veio até nós e disse, ofegante: ― Erin, Gabe estará aqui a qualquer momento. Não sei o que vai acontecer ou se eu verei você de novo, por isso achei importante dizer uma coisa. ― Tudo bem ― eu disse, com cuidado para não olhar de maneira acusadora para Hunter. Isso só podia ser sobre ele. ― Eu amo suas histórias ― ela disse, entusiasmada, inclinando-se para tocar meu braço. ― Eu as adoro. Espero ansiosa a cada duas semanas para lê-las. Já contei a toda a minha família sobre elas. ― Obrigada ― eu disse, em vez de dizer o que realmente pensava, que era: Não acredito em você. Eu teria acreditado em você no início do semestre, mas não agora. Isso deve ser uma piada. Onde está a câmera? ― Eu não defendi você na aula porque Manohar parece muito seguro e confiante ― ela disse. ― É difícil argumentar contra ele e eu me sinto péssima por ter falhado com você, mas você me inspira. Eu não sabia que era permitido a um estudante de inglês escrever uma história como aquela. ― Aparentemente não é. Por isso que eu estou com problemas ― eu dei um tapinha na mão dela. ― Muito obrigada, Isabelle.

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A cabeça branca de Gabe apareceu na escada. Eu sussurrei: ― Vou escrever histórias para você na prisão. ― Está bem! ― ela riu, como se eu estivesse brincando, e passou por Gabe ao voltar pelo corredor. Eu fiquei tensa quando ele se aproximou, podia sentir os músculos de Hunter enrijecerem também, apesar de ele não ter encostado em mim. Mas Gabe estava amigável de novo, até sorriu enquanto destrancava a porta do escritório e nos conduzia a duas cadeiras em frente à mesa desordenada. Mas ele ficou assustador de novo quando se ajeitou em sua cadeira e se inclinou com os cotovelos na mesa. Olhando sério para mim e depois para Hunter, ele disse: ― Eu não perco a cabeça. Vocês entenderam? ― Sim, senhor ― Hunter disse. Eu mudei minha expressão e balancei a cabeça, concordando. ― Nós vamos conversar para que isso não se repita na minha aula ― Gabe jogou o peso do corpo para trás na cadeira e juntou as mãos. ― Então, Hunter, você é o cavalariço de Erin? Não queríamos revelar informações sobre nós dois ou sobre os segredos da nossa família para um homem velho que provavelmente iria nos prejudicar, mas quando eu expliquei o ímpeto para a minha história do cavalariço, Hunter discordou. Quando Hunter defendeu sua história do banheiro, eu levantei a voz e disse que ele não estava contando toda a história. Ficamos dando voltas até que Gabe finalmente disse:

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― Eu sou da Califórnia e achei que aquelas pessoas fossem problemáticas, mas Kentucky leva o prêmio, não é? Vocês poderiam escrever uma história sobre isso ― ele riu. Hunter e eu continuamos sérios. Gabe esfregou o olho. ― O que nos leva à última história de Erin e ao que aconteceu no fim de semana que finalmente acabou com Hunter. Hunter franziu as sobrancelhas. Acho que não gostou nem um pouco dessa caracterização. Eu resolvi aproveitar a oportunidade. ― Qual foi exatamente a ordem que minha avó deu a você? Pensei que ele fosse continuar negando, mas Gabe também olhava para ele com expectativa e, depois de olhar para Gabe e voltar a olhar para suas mãos de novo, Hunter começou a falar. ― Eu tinha que entrar em uma de suas aulas ― ele olhou para Gabe e desviou o olhar. ― Tinha que tentar ser seu amigo de novo e me aproximar dos seus amigos para poder flcar de olho em você. Tinha que levar você para comer fora sempre que possível, para que você não morresse de fome, e manter você longe de qualquer vagabundo que tentasse transar com você. ― Fala sério ― eu disse. ― Minha avó disse vagabundo? ― Ela deve ter dito moleque. Agora já parecia mais minha avó. ― Isso é tudo o que você tinha que fazer? Ele negou com a cabeça.

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― E levar você para casa durante a Copa Breeder. ― Mesmo se tivesse que mentir para me levar até lá? ― Nós não discutimos os métodos, eu estava desesperado naquele momento ― ele me olhou pela primeira vez em uma hora. ― Me desculpe. ― Falando sobre métodos ― eu disse ―, você tinha que dormir comigo? Ele arregalou olhos, olhou para Gabe e para mim de novo. ― Não. Ou melhor, eu já sabia que sua vó não achava que eu era bom o suficiente para você, mas no caso isso ainda não estivesse claro, ela me disse claramente. Eu ri, diabólica, o que era apropriado, porque eu me sentia como se estivesse no inferno. ― Então tudo o que eu tenho que fazer é ligar para ela... ― Você não tem telefone. ― ... e contar que nós dormimos juntos e que você está tão envolvido quanto eu. ― Eu já fiz isso ― ele disse. ― Quando? ― eu gritei. ― Esta manhã, antes da prova de anatomia. Suspirando, ele fechou os olhos e colocou o cotovelo no encosto da sua cadeira, apoiando o queixo na mão. Ele parecia cansado nas últimas semanas, mas agora parecia acabado. Eu fiquei observando este lindo e inteligente jovem, cuja vida não deveria ter sido tão difícil.

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Recordei quando ele se olhou no espelho na casa da minha avó. Pelo menos foi o que eu pensei no início, depois me aproximei um pouco mais e percebi que seus olhos estavam fechados e que talvez ele estivesse se examinando por dentro. ― Hunter ― Gabe disse ―, por que você não traz alguns refrigerantes? Hunter concordou imediatamente e se levantou. ― Espere ― Gabe tirou a carteira do bolso de trás da calça e mostrou uma nota de dinheiro. ― Parece que você vai precisar disso. ― Engraçadinho ― Hunter disse, pegando a nota e olhando para mim antes de sair e fechar a porta. ― Erin ― Gabe disse. ― Sim, senhor? ― eu disse, tentando imitar Hunter. ― Você tem um problema com autoridade. ― Sim, senhor. ― Você não aceita críticas. ― Como assim, eu não aceito críticas? ― questionei. Gabe não riu, então eu disse: ― Haha, brincadeira. ― Mas eu estou tentando dar uma chance a você ― ele disse. ― Lloyd Peters me disse que você é uma estudante brilhante e que escreveu um trabalho fenomenal sobre literatura americana. ― É mesmo? ― eu disse, automaticamente. ― Quer dizer, estou muito feliz pelo Dr. Peters ter gostado do meu trabalho. ― Ele disse que você fez um ótimo trabalho sobre o escritor Nathaniel Hawthorne.

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― Não foi difícil ― disse, séria. ― E na minha aula ― Gabe disse ―, apesar de sua conduta ter sido de vez em quando nada profrssional, você tem dado contribuições maravilhosas aos seus colegas escritores. Brian comentou que você fez muitas sugestões que o ajudaram, além de Summer, Isabelle e Hunter ― ele estalou os dedos. ― E aquele outro, esqueci seu nome, vocês o chamam de garoto-lobo. ― Kyle. ― E, mais recentemente, Manohar. Fiquei particularmente impressionado com isso. Se eu fosse você e Manohar tivesse dito aquelas coisas sobre minha primeira história, eu teria batido nele. Ele disse tudo isso com um sorriso jovial em seu rosto angelical. ― E você tem um dom ― ele disse. Aquelas palavras significavam muito mais para mim agora do que quando ele as escreveu na minha história do cavalariço. Eu deixei as palavras pairarem no ar, como o cheiro inesperadamente agradável de uma vela aromática em uma loja da moda no SoHo. Eu tinha um dom. ― Acho que sua história original foi a melhor que você escreveu ― ele disse. ― As críticas da turma enviaram você em uma jornada que você não queria seguir. Às vezes é bom quando nossas estruturas são abaladas. O que não nos mata nos torna mais fortes. ― Pode ser ― eu disse, um pouco amarga. Ainda não entendia por que Manohar sempre comentava primeiro. Gabe continuou.

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― Você estava escrevendo o que achava ser uma boa história, não sabia que Hunter estaria na turma, portanto não estava tentando provar nada para ele. Também não estava exorcizando demônios ou recontando a históriada sua família.Você estava imaginando uma fantasia agradável para si mesma. Todos nós fazemos nosso melhor trabalho quando escrevemos a história que queremos ler. Eu fechei os olhos por um segundo, determinada a não chorar de novo. ― Não sei se essa história vai terminar bem. ― Vai terminar do jeito que você quiser ― Gabe disse, gentil. ― Acho que Hunter deve ter algo a dizer sobre isso. A cadeira de Gabe rangeu quando ele se inclinou para frente. ― Nós não estamos falando da sua vida, Erin. Estamos falando da sua escrita. Da sua imaginação. Da sua criatividade. Está na hora de você aprender que existe uma grande diferença entre sua escrita e sua vida. Para ser boa nisso, sua escrita exige uma quantidade imensa de trabalho. Sua vida, mais ainda. Eu concordei. ― Acredite ou não, eu tenho tentado consertar minha vida. Planejei me inscrever para o estágio na editora. Gabe ergueu as sobrancelhas brancas para mim. ― É mesmo? ― Sim. Pelo seu tom de voz, você parece estar dizendo que eu não tenho a mínima chance e não deveria perder meu tempo. Ele relaxou um pouco a expressão amarga em seu rosto e disse:

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― É isso que eu estou dizendo. Eu prendi a respiração. Não podia chorar na frente dele. Não de novo. Tentei não pensar na minha vida em Nova Iorque, no estágio, em toda a minha carreira de escritora que desaparecia diante dos meus olhos, tudo por causa da minha confusão com Hunter. Hunter, que eu também tinha perdido. Mas eu pensaria sobre isso depois, quando pudesse liberar minhas lágrimas. Não agora. ― Mas, Erin ― Gabe batia o dedo na mesa seguindo o ritmo de suas palavras. ― Se você está tentando seguir uma carreira de escritora, deve saber que será rejeitada repetidas vezes. Você precisa continuar. Precisa aprender a não aceitar um não como resposta. Eu deixei o escritório dele sem saber se me sentia melhor ou pior em relação às minhas chances de conseguir o estágio e publicar minhas histórias, sem falar no enorme trabalho que eu teria para ser amiga de Hunter de novo. Ele se sentou no sofá-cama, com três garrafas de refrigerante do lado e me entregou uma quando eu passei por ele. Eu bebi o refrigerante com goles longos enquanto andava pela rua escura, pensando sem parar. Estava na metade do caminho para a cafeteria quando percebi que já estava noventa minutos atrasada e com certeza seria demitida.

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18 UMA SEMANA E MEIA DEPOIS, lemos a história de Hunter. Eu estava com medo de ser algum tipo de recriminação sobre um homem que se vinga da vadia que arruinou sua vida, mas parecia ser sobre uma reconciliação com seu pai. Eu esperava que fosse verdade e achei a história bonita, mas as outras garotas não esconderam sua decepção porque a história não era sobre a vida sexual de Hunter. O maior tópico de discussão foi a hilária história de Manohar sobre um corretor da bolsa indiano que montou um grupo de música sertaneja e que a turma não achou a história muito realista, eu achei. Depois da aula eu voltei para meu quarto e encontrei na minha cama um novo tubo daquele caro creme para rosto. Summer não sabia de onde tinha vindo e não tinha deixado ninguém entrar no quarto. Jordis disse a mesma coisa, mas parecia culpada. Depois que Hunter saiu para o hospital tarde da noite, eu fui sorrateiramente até seu quarto e coloquei meu ímã de Nova Iorque na maçaneta da porta. O projeto de arte de Jordis foi instalado na galeria da faculdade na semana seguinte. Todo mundo que ela tinha pedido para cortar rostos (que era praticamente todo mundo no dormitório) foi lá para

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admirar nossa obra. Uma das colagens maiores tinha milhares de fotos que ao longe formavam um retrato de Summer e eu. Uma colagem ainda maior, intitulada Guardião, mostrava Hunter dormindo na cama de Jordis com minha roupa de dança do ventre pendurada na porta ao fundo. Hunter foi à inauguração da exposição e em um momento nossos olhares se encontraram. Quando eu voltei ao dormitório, vi um cupom para o restaurante da esquina em cima da minha cama. Summer queria que eu fosse com ela para o Mississippi passar o Dia de Ação de Graças com ela, mas nenhuma de nós duas tinha dinheiro para comprar minha passagem de avião. Até Jordis ia para a casa de uma amiga no Brooklyn. Summer tentou tazer com que Jordis me levasse também, mas eu consegui me esquivar delas. Eu iria ao refeitório para o triste jantar de Ação de Graças para os estudantes estrangeiros que não podiam ir para casa e não tinha amigos aqui. Eu conheceria pessoas novas e fascinantes. Por mim tudo bem. ― Eu conheço você ― Summer disse. ― Com certeza você não vai passar o Dia de Ação de Graças no refeitório. Vai ficar aqui no quarto comendo macarrão. Eu pensei que me sentiria aliviada quando Summer e Jordis fossem embora na terça-feira, não porque elas me incomodavam, mas porque seria bom ter a casa toda só para mim, e eu poderia aproveitar para escrever um pouco. Desde minha conversa com Gabe, eu comecei a trabalhar no meu portfolio para o fim do semestre. Acabei descobrindo uma maneira de salvar minha nota, a nota de Hunter e meu estágio. Juntei minhas histórias e as histórias de Hunter que eu tinha copiado na biblioteca e incluí a verdadeira jornada que Hunter e eu tínhamos vivido. As histórias em si podiam ser exageradas e

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debochadas, mas o portfólio como um todo fazia sentido pela experiência, e eu diria que até continha alguma arte. Tudo o que eu tinha quefazer eravconseguir a autorização de Hunter. No começo eu trabalhei duro, depois fiquei feliz por ter sido despedida e decidi tirar o máximo proveito da situação antes de encontrar um novo emprego, mas as horas e o silêncio pesavam sobre mim. Eu ficava deitada na minha cama, olhando pela janela, desejando que alguém interessante passasse, esperando ouvir qualquer barulho no andar de cima, só para saber que havia alguém no prédio comigo, me fazendo companhia. Eu agarrava as laterais da cama sempre que ouvia passos na escada. Não pareciam os passos de Hunter. Será que ele tinha ido para casa?

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Na quarta-feira de manhã eu acordei com o laptop aberto em cima da minha barriga. Hunter estava bisbilhotando minha cômoda e fazendo minha mala. Eu bocejei e me sentei. Meu laptop caiu fechado sobre os travesseiros. ― Meu pai estará lá? ― De jeito nenhum ― disse Hunter, sem parar de dobrar minhas roupas ―, mas ouvi dizer quevocê está sem trabalho, portanto não tem desculpa para ficar aqui. Você tem muitos motivos para ir a Louisville. ― O fim da temporada de outono ― eu murmurei. Estava com saudade dos cavalos.


― O fim datemporadade outono ― ele concordou. ― E também o Dia de Ação de Graças, que normalmente nós passamos com as pessoas que amamos. E tem eu. Ele parou de dobrar as roupas. Nós trocamos olhares. ― Você já comprou as passagens? ― eu perguntei. ― Pensei que minha avó tinha cortado a ajuda financeira quando você contou que nós tínhamos ficado juntos. ― Esse era o acordo ― ele disse ―, mas ela tem me ligado para saber de você. Acho que por enquanto ainda estou empregado. ― Mesmo depois de ter sido tão atrevido? ― Mesmo depois disso. Ela não admite, mas tudo o que ela queria mesmo era saber se você estava bem e não a odiava. ― Eu não a odeio ― disse, percebendo isso pela primeira vez. ― Venha comigo a Louisville e diga isso a ela. ― Está bem ― eu já não estava relutante. ― Preciso de alguns minutos para terminar de escrever esse texto e me aprontar. Ele balançou a cabeça e apontou para o quarto maior. ― Vou esperar você lá. Jordis precisa de muito mais rostos para seu projeto do próximo semestre. ― Que maravilha. Abri meu laptop. Enquanto eu tomava banho, deixaria imprimindo o projeto no qual estava trabalhando para que Hunter pudesse ler no avião. Eu esperava que ele aprovasse. Estava torcendo para que ele entendesse. Havia uma chance mínima de que ele adoraria o projeto.

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Felizmente já estava quase pronto, mas não tinha título. Pensando em Hunter, cuja opinião importava mais para mim do que a de Gabe naquele momento, digitei HISTÓRIA DE AMOR E ri. No quarto maior, conectei o laptop à impressora de Summer e passei pela porta com minha bolsa de cosméticos, em direção ao chuveiro. Quando olhei para trás, Hunter levantou os olhos da revista e da tesoura e sorriu para mim. E foi um sorriso verdadeiro.

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Fim..


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Jennifer Echols - Love Story  
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