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Junho de 2008 - Nº 14

Mestre Salustiano Ícone da cultura pernambucana, Mestre Salu fez da rabeca o símbolo do seu admirável trabalho

O ator Jonathan Haagensen e a modelo Mariana Santana

Futebol feminino contra a violência Em Codó, no Maranhão, meninas usam o futebol para combater a violência, o preconceito e fortalecer a auto-estima

Bancos comunitários Cresce a Rede Brasileira de Bancos Comunitários com a inauguração de 10 agências no interior do Ceará

BELEZA QUE VEM DO MORRO O perfil e a graça de oito belos jovens de comunidades populares do Rio. Eles mostram, acima de tudo, competência no que fazem


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Quando a gente cuida do nosso todo mês, fica mais fácil ter dinheiro sempre. Para saber como andam os seus gastos, utilize a tabela ao lado e acompanhe o seu orçamento todos os meses.

Controlar o orçamento mês a mês é a maneira ideal da gente administrar a nossa vida financeira. Por exemplo: se neste mês você entrar no vermelho, já sabe que deve economizar um pouco mais no próximo. E assim por diante. www.bancoreal.com.br


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editorial

O crescimento dos

bancos comunitários

Este mês estamos mais interestaduais do que normalmente costumamos ser. E isso é bom. Como o nosso principal objetivo é dar visibilidade ao que acontece de importante, segundo nossa ótica, nas periferias e comunidades populares do país, quanto mais andarmos por aí, melhor. Por exemplo, a convite do Instituto Palmas, participei, no final de maio, da Caravana Bancos Comunitários do Ceará. Um grupo de pessoas de várias partes do Brasil e do exterior (Estados Unidos, Nicarágua e Chile) viajou durante quatro dias pelo interior do Ceará para participar da inauguração de 10 novos bancos comunitários de desenvolvimento, uma experiência crescente de economia solidária e que, aos poucos, vai se espalhando pelo país.

Ícone da cultura pernambucana e, por que não, brasileira, Manoel Salustiano Soares, o Mestre Salu, transformou a rabeca, instrumento que se assemelha ao violino, no símbolo da sua resistência artística. 62 anos, dez casamentos e 15 filhos (a caçula com seis anos), Salustiano é pura energia. Energia que carrega para todos os rincões do país e para o exterior. De Pernambuco vamos ao interior do Maranhão, na cidade de Codó, onde o projeto Apoio ao Futebol Feminino reúne meninas de 10 aos 18 anos para jogar bola. O futebol, aliado a ações sócioeducativas, é o instrumento para que essas meninas entendam seus direitos, possam lutar contra o preconceito e a violência e, assim, exercer cidadania.

Não é a primeira e nem será a última vez que abordamos este assunto. Trata-se de uma pequena revolução na economia de comunidades pobres e que se inspira no projeto iniciado em 1976 pelo indiano Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2006. No Brasil, o Banco Palmas, do Conjunto Palmeiras, periferia de Fortaleza (CE) foi o pioneiro. Hoje, a Rede Brasileira de Bancos Comunitários já soma 30 agências em seis estados, a maioria no Ceará. Até o final do ano outros 10 bancos serão inaugurados.

Continuando o nosso périplo aportamos em São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano, para conhecer o trabalho da Casa da Mulher, que promove o conhecimento a crianças e jovens de famílias de baixa renda. Um desses jovens, Emerson, de 11 anos, foi escolhido pelo Balé Bolshoi no Brasil para estudar dança clássica em Joinvile (SC), sede do Bolshoi. Com tudo pago. E, por fim, chegamos ao Rio de Janeiro. Bela cidade, belas pessoas. Dentre milhões, escolhemos oito, todas de comunidades populares, para mostrar a beleza negra e carioca. Beleza e competência. Boa leitura.

Chico Junior

06

Mestre Salustiano

10

18 Casa da Mulher Bancos

20 Comunitários

Por Aí

Feminino 12 Futebol em Codó

PATROCINADORES INSTITUCIONAIS DO AFROREGGAE

24 Espaço AfroReggae

14 Beleza que vem do morro

27 Enfim

Jornalista responsável e editor Chico Junior | Produção, reportagens e textos Alysson Cardinali Neto | Assistente de produção e textos Thaisa Araújo Projeto gráfico e diagramação Conectime Comunicação - www.conectime.com.br | Direção de Arte Zilene Bernardino | Design Bruno Portela | Ilustração Carlo Filardi | Colaboraram nesta edição Beatriz Coelho Silva - Daniela Rotti – Mônica Herculano – Olívia Vicente – Roger Almeida - Selma Rosa | Conexões Urbanas é produzida em parceria entre o Grupo Cultural AfroReggae e a CJD Edições | Redação e endereço para correspondência Rua Ataulfo de Paiva 1175 / 603 - Rio de Janeiro – RJ CEP: 22440-034 Tel: (21) 2512.2826 - 3904.1386 | E-mail: cjd.edicoes@globo.com e chico.junior@afroreggae.org.br Conselho Editorial: Chico Junior – Daniela Rotti – João Madeira - José Junior – Tekko Rastafari

expediente


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MESTRE SALÚ A arte de cantar, criar, tocar, trocar, reciclar e ensinar por Olivia Vicente / / fotos Cristian Rodrigues

“Aprendi muito sozinho. Por isso hoje gosto tanto de passar conhecimento. Quero passar o que sei para as crianças, para meus filhos, para meus amigos”. Assim Manuel Salustiano Soares, o Mestre Salustiano, tenta definir seu trabalho, sua obra e sua importância para a preservação das raízes brasileiras. Ícone da cultura pernambucana, Mestre Salú – outra de suas assinaturas – é considerado um dos principais divulgadores de folguedos da Zona da Mata e “pai espiritual do Mangue Beat”, com uma lista de admiradores que incluem desde Ariano Suassuna e Antônio Nóbrega até Chico Science e Nação Zumbi. Entre os muitos títulos que recebeu, está o de Patrimônio Vivo de Pernambuco, concedido em 2002.

Mestre Salú e sua rabeca durante o show no Teatro Nelson Rodrigues, onde ele tocou músicas do mais novo disco. “Quem não comprar, está perdendo. Eu caprichei.”


O folclore brasileiro é preservado durante a apresentação Conexões Urbanas |

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Hoje ele é Mestre, mas foi na infância pobre, aos sete anos, na pequena Aliança, que conheceu seu maior amor: o Cavalo-Marinho. A brincadeira, semelhante ao bumba-meu-boi, alia 76 personagens (entre eles a burra, os galantes, a velha e  os palhaços) divididos em 63 partes e tem uma duração média de oito horas. Trazido pelos portugueses, o folguedo “foi temperado em Pernambuco” e alia coreografias e músicas, que são tocadas por uma orquestra composta por rabeca, pandeiro, ganzá e canzá (espécie de reco-reco). A tradição, que no Nordeste é passada de pai para filho, ficou conhecida no país devido ao trabalho de resgate e divulgação de Mestre Salú. Também foi através dele que outros ritmos genuínos como coco, ciranda,  maracatu, caboclinho e mamulengo ecoaram Brasil afora. Músico, compositor, empresário, artesão, Mestre Salú tem inúmeros talentos, mas o principal dos seus ofícios, tocar rabeca, lhe foi passado pelo seu pai, João Salustiano, quando tinha uns 17 anos. Depois, por conta própria, Salú aprendeu outras funções. Foi assim, por exemplo, para fabricar a rabeca. “Como meu pai só sabia tocar e eu queria fazer o instrumento, tive que aprender na marra. Para isso desmontei uma rabeca para poder montá-la novamente”, lembra. Aos 18 anos, Salú partiu em busca de uma vida melhor e seguiu para a capital, Recife. “Era muito sofrimento. Eu trabalhava no engenho de cana de açúcar, não dava nem para me manter direito, que diria uma família inteira”. Decisão sensata,

mesmo que, na época, Salú não tivesse idéia que construiria uma família tão grande. Ele teve 15 filhos e adotou mais quatro. Ao longo de seus 62 anos teve dez esposas e hoje está casado com Jeane Pereira, de 28, com quem tem a caçula, Beatriz, com seis anos. “Quando a gente bota um casamento na vida tem que ter compreensão. A gente tem que somar um ao outro”, ensina. Disciplinado, Mestre Salú aprendeu desde cedo a dividir o tempo. “Vejo vários bons artistas que se perderam na vida porque confundem tudo. Na hora em que se está trabalhando, tem que cuidar de sua obra. Não pode beber, nem namorar”.

Mulheres: fonte de inspiração Para Salú, as mulheres não atrapalham, mas sim, ajudam. Elas são a principal inspiração para as

“O homem é o rei dos animais e a mulher a rainha da beleza. Já que gosto de criar músicas, tento homenageá-las. Quem canta música dos outros não tem um paladar, um sabor, uma beleza, que é a criação. Quero que minhas músicas retratem minha própria história” Pedro Salustiano ontro no Cantagalo, Alegria durante o enc atu. Ao lado, o rosto movido a muito marac expressivo do mestre

composições do Mestre, que já perdeu as contas de quantas músicas fez. “O homem é o rei dos animais e a mulher a rainha da beleza. Já que gosto de criar músicas, tento homenageá-las. Quem canta música dos outros não tem um paladar, um sabor, uma beleza, que é a criação. Quero que minhas músicas retratem minha própria história”, diz. Vasta história. No legado de Mestre Salú, o Maracatu Rural também tem lugar cativo. Conhecido também como Maracatu de Baque Solto, distingue-se do Maracatu de Baque Virado, em organização, personagens (nele figuram os caboclos de lança) e ritmo. Em 1977, Salú fundou seu próprio maracatu: o Piaba de Ouro, um dos mais importantes e hoje comandado pelo seu filho, Manoelzinho. Artista nato, Salustiano só foi viver da música aos 45 anos de carreira. Antes, teve inúmeras funções, desde gari e motorista de caminhão até assessor especial do então Secretário Estadual de Cultura, Ariano Suassuna. Hoje já soma quatro CD´s: “Sonho de Rabeca”, “As Três Gerações”, “Cavalo-Marinho” e “Mestre Salu e a Rabeca Encantada”. O músico veio ao Rio de Janeiro para apresentar a turnê de seu último trabalho. “É um disco de primeira. Quem não comprar, está perdendo. Eu caprichei”, avisa ele, que pela primeira vez acrescentou forró e Maracatu do Baque Virado no repertório. “Eu sempre toquei forró. Antes de me casar eu pegava a rabeca, a cachaça e saía tocando forró. Mas nunca havia composto. Como eu não gosto de copiar, gosto de criar, resolvi compor”, conta.


A empolgação foi tão grande que, após o show, os meninos do AfroReggae continuaram tocando com os músicos de Mestre Salú, no saguão do teatro

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A turnê foi além das apresentações e incluiu também intercâmbios culturais. No Rio de Janeiro, a troca de experiências foi com o Grupo Cultural AfroReggae, no núcleo do Cantagalo. Mestre Salú, que usa marcapasso desde 1990, não compareceu, pois precisou se resguardar para o show, que seria na mesma noite no Teatro Nelson Rodrigues. Mas toda a sua trupe, formada por oito músicos, a maioria seus filhos, subiu o morro para mostrar aos meninos do AfroReggae diferentes sons e danças. “Foi maravilhosa a troca de experiência. Eles arrebentaram no maracatu”, disse Pedro Salustiano.

Pura emoção A troca foi além da favela e no mesmo dia, 24 de maio, os meninos dividiram o palco com o Mestre. Juntos tocaram o maracatu Leão Coroado. “Foi muito emocionante. Depois do show seguimos pelo saguão do teatro e ficamos tocando na área externa”, recordou o presidente do AfroRegge, Altair Martins. Salú gosta de dividir o palco. Segundo ele, é uma forma de aprender ainda mais. “A arte não pode parar nunca. Tem que ser permanentemente reconstruída. Essa interação é uma forma de manter a arte em movimento”.

Mestre Salú é um homem de fé. Diz que tudo que conseguiu na vida “foi acreditando”. Apesar de evangélico, não gosta de misturar religião e trabalho. “Aí vira fanatismo”, opina. E completa: “Ninguém faz nada se Deus não conceber. Agora Deus não gosta de cabra preguiçoso, Deus gosta de quem trabalha”. E ele trabalha muito, visse. Há seis anos começou a construir um novo sonho, a Casa da Rabeca do Brasil, situada em Olinda. “Comecei com quatro paus enfiados, quatro palhas de coco e hoje lá tem espaço para quatro mil pessoas”, conta. O lugar é usado para apresentações de danças, oficinas, encontros de maracatus rurais e cavalo-marinho, além de shows de música regional. “Lá tem espaço para todos. Artistas que não são conhecidos, que não teriam onde se apresentar, têm lá seu palco”, diz.  Também é lá que Salú vive, com cerca de 10 pessoas. “A propriedade tem várias casas. Os filhos vão casando e se mudando para lá”, explica ele, que não pensa em se aposentar. “Eu já trabalho em casa, então não tenho preocupação com horário. O lugar vive cheio, e, às vezes, eu não tenho tempo nem de almoçar. Toda hora

vem gente. Quem precisar vai lá porque eu estou pronto para servir o povo que chegar”, diz ele, que dá aulas de rabeca regularmente. A cachaça já ficou para trás – há 30 anos ele não bebe –, mas Mestre Salú não abre mão de alguns prazeres, como comer um bom bode ou receber massagem (ambos feitos pela sua mulher). Não gosta de se afastar do aconchego de casa. Viagens, agora, só curtas. “Não deixo meu Pernambuco por terra de ninguém, dá muita saudade”, diz ele, que mostrou um Brasil até então desconhecido em lugares como Estados Unidos, França e Cuba. O artista lamenta que o reconhecimento tenha que vir primeiro de fora. “Quando eu fiz o show do “Sonho de Rabeca” na minha terra, tinham 20 gatos pingados. Precisou eu ir para o exterior e fazer sucesso lá para darem valor. Quando voltei, fiz outra apresentação e a praça ficou lotada”, observa. Mas nada deixa Mestre Salú triste. “Tenho tudo o que preciso: música, uma família linda e um monte de amigos. O que eu ganho me basta”, diz.


www.vale.com

É POSSÍVEL TRANSFORMAR MINÉRIO EM UNIÃO?

SIM, É POSSÍVEL.

A Vale é uma mineradora que está presente nos cinco continentes e que transforma recursos minerais em elementos essenciais para o nosso dia-a-dia. A Vale tem forte compromisso com as comunidades onde atua, respeita a diversidade cultural, cria parcerias e implementa iniciativas sociais que contribuem para o desenvolvimento de todos, pois sabe que compromisso, respeito e boas iniciativas são fundamentais para uniões estáveis e duradouras.


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CULTURA DA PERIFERIA PARA A PERIFERIA

Cinema Nosso mostra aos jovens os segredos da

sétima arte

por Mônica Herculano

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ão 10 mil exemplares espalhados pela região metropolitana de São Paulo todo mês, com média de 70 eventos publicados, exclusivamente de artistas da periferia da cidade. A Agenda Cultural da Periferia, iniciativa da ONG Ação Educativa, acaba de completar um ano de existência e lançar sua versão online (www.acaoeducativa.org.br/agendadaperiferia), com atualização semanal. Para o público é um serviço. “Assim como existem os guias dos grandes jornais com o ‘Circuito dos Incluídos’, a gente tem o ‘Guia dos Excluídos do Circuito Cultural’”, diz o coordenador editorial, Eleílson Leite. Além disso, é visibilidade para os artistas, com possibilidade de criação de parcerias e redes, e fonte para pesquisadores, mercado e imprensa. “Muita gente foi contratada ou procurada por jornais de grande circulação depois de sair na Agenda”, completa. Nas 12 edições, 30 artistas já tiveram seus perfis publicados. Seções fixas são sete: Hip Hop, Samba (incluindo rodas comunitárias e eventos), Cinema e Vídeo, Literatura, Grafite, Outras Cenas (teatro, música, dança, artes plásticas e outras) e A Periferia no Centro (eventos no centro da cidade). Cerca de 70 pontos estão cadastrados para receber o guia, sendo que metade deles repassa para outros, atingindo mais de 100 multiplicadores. Os próximos passos, segundo Eleílson, são ampliar a equipe e a cobertura, o número de páginas e a distribuição. “Pretendemos fazer um sistema com motoboys. Os manos trampam no centro e moram na quebrada. Para eles fazerem a entrega fica fácil e é um ganho a mais.”

I

naugurada há seis anos, no Rio de Janeiro, a escola audiovisual Cinema Nosso contribui, cada vez mais, para que jovens conheçam melhor o mundo do cinema. Que o diga o estudante George Luis Lopes, de 18 anos, que pôde mergulhar fundo na área e participar de um dos projetos do Cinema Nosso. Mas não um projeto qualquer. George integrou a equipe premiada, na categoria melhor filme de novembro, do Festival Permanente Minuto Oi 2007. E pensar que ele descobriu a Cinema Nosso depois que seu pai viu um anúncio da escola e incentivou o filho a se inscrever. A idéia de uma escola audiovisual surgiu a partir das gravações do longa Cidade de Deus, como explica o fundador da instituição, o cineasta Luis Carlos Nascimento: “Participei das filmagens do Cidade de Deus e, logo depois, passamos por um período de oficinas de cinema intensivo. Quando o filme estreou,  comecei a trabalhar com  produção e assistente em cinema.   Nos finais de semana, tudo que aprendíamos no set, ensinávamos aos jovens. Isso cresceu rapidamente, e, quando vi, tínhamos uma escola com um monte de alunos e parceiros.” Inicialmente chamada de Nós do Cinema, a instituição passou por reestruturações e, desde 2007, é conhecida como Cinema Nosso. Ela é voltada para crianças e adolescentes oriundos de comunidades populares e sua sede fica na Lapa (Rua do Rezende, 80), o corredor cultural do Rio, em um casarão cedido pelo cineasta Fernando Meirelles. Há também um pólo da escola audiovisual em São Gonçalo, no Ciep Waldemar Zarro.

Segundo Luis Carlos, nas oficinas, os alunos não são apenas capacitados à linguagem audiovisual: “Nosso trabalho deve estar associado à educação, porque nosso objetivo não é simplesmente ensinar cinema, animação. É todo um processo de discussão social, voltado para os direitos humanos, para o direito da criança e do adolescente.” No dia 13 de maio, foi inaugurada – na sede da instituição – a sala de projeção Espaço Cinema Nosso, com capacidade para 60 pessoas e que exibirá filmes que não têm vez nas grandes salas de cinema. Documentários experimentais, animações infantis além de curtas-metragem poderão ser assistidos no local. O pioneirismo da sala também se encontra na programação, já que o público escolherá o que quer ver. O projeto contou com o patrocínio da Petrobras e ABC Trust - organização inglesa que tem por missão colaborar com o desenvolvimento cultural de crianças no Brasil. Para informações sobre a instituição ou sobre os cursos oferecidos, basta acessar o site www.cinemanosso.org.br.


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Brincadeira de Roda que aprende a ler e a escrever

PÍLULAS PRA ABSORVER CULTURA NEGRA por Mônica Herculano

por Thaisa Araujo

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ormar novos leitores, através de atividades que estimulem o hábito e o prazer pela leitura. Esse é o objetivo da Associação Educativa Livro em Roda (Aeler), que, graças a uma grande variedade de títulos, busca o desenvolvimento cultural de crianças e adolescentes de Conde, município localizado no litoral sul da Paraíba. A metodologia para incentivar a prática da leitura é fundamentada na realização de um sistema ordenado de atividades, como empréstimo de livros, leitura de histórias e a implantação de práticas que estimulem a produção de pequenos textos pelos alunos e a publicação de um jornalzinho bimestral, que circula por todas as escolas em que o projeto é adotado. Tudo em função de aprimorar o processo de aprendizado e incentivar as crianças a tomar gosto de ler, entender o que se lê e saber usar as palavras. Ao todo, 2.150 crianças e adolescentes são atendidos em três creches e 20 escolas públicas nas comunidades rurais de Conde, que conta com um grupo de 85 professores. Quatro promotoras de leitura, como são chamadas as educadoras, realizam visitas semanais a cada creche e escola, com as “caixas de livros”, as quais são classificadas por cores para diferenciar os níveis de leitura. Uma roda é feita e cada pequeno leitor tem a liberdade em escolher livros de qualquer caixa, o que torna um gosto muito diversificado de cada um. Entre as coleções de leituras, as obras dos escritores Ziraldo e Ruth Rocha são as mais procuradas pela garotada. E muitos jovens que também participam da roda, um dia foram crianças, freqüentaram a escola e agora se tornaram voluntários do projeto Livro em Roda. A Aeler também promove oficinas e seminários para professores das escolas nas quais o projeto atua, visando sensibilizá-los para a importância da leitura no desenvolvimento geral de todos que atendem e também capacitá-los para tomar uso da leitura como recurso pedagógico. “Desde a implantação do projeto, constatamos a diminuição de repetência escolar, a aceleração no processo de alfabetização, o aumento da auto-estima das crianças e a adoção de um hábito de leitura”, comemora Tereza Cristina, realizadora e coordenadora pedagógica do projeto desde o seu início, em 1997.

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esde março, todo mês os paulistanos participam da Pílula de Cultura Feira Preta. Preparação para o grande evento anual que é a Feira Preta (que neste ano deve ser realizada nos dias 13 e 14 de dezembro), a Pílula acontece na Casa das Caldeiras e tem como principal objetivo aprofundar a reflexão sobre o atual espaço da cultura negra. “Durante a Feira, com um público de 7 mil pessoas, é complicado termos qualquer tipo de debate, porque as pessoas estão muito na vibração de celebrar. Já com as Pílulas é possível associar o que foi discutido e entender a dinâmica da Feira”, explica Adriana Barbosa, idealizadora do projeto. Os visitantes acompanham ciclos de palestras, filmes, saraus literários, shows de música e dança, oficinas de arte e exposições fotográficas. Os debates ultrapassam os limites das artes e incluem também temas como educação, comportamento, política e meio ambiente. Outro objetivo é incentivar a qualificação dos expositores e apoiar o empreendedorismo. Gisele Balbino, que desde a primeira edição da Feira Preta comercializa suas bijuterias, conta que o espaço tem sido fundamental. “É importante porque antes não tinha onde a gente mostrar nosso trabalho. Aqui você conhece gente, se diverte e ainda vende. Isso não pode acabar!” O acesso é livre e gratuito, aberto a todas as etnias e idades. A Casa das Caldeiras é uma construção histórica da cidade e fica na Av. Francisco Matarazzo, 2000 – Água Branca (próximo ao metrô Barra Funda). Mais informações pelo telefone (11) 3031-2374.


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Concentradas, as meninas entram em campo para a partida de abertura do torneio criado pelo projeto Apoio ao Futebol Feminino

Goleada na violência e no preconceito

por Selma Rosa / / fotos A. Baêta

Futebol no Maranhão garante os direitos de meninas de 10 a 18 anos Ultrapassar as barreiras do preconceito, combater toda forma de violência e fortalecer a auto-estima feminina. Estes são os objetivos do projeto Apoio ao Futebol Feminino, em Codó, um dos municípios da Região dos Cocais, no interior maranhense. Em uma cidade brasileira de baixos indicadores sociais, com graves problemas nas áreas de educação, saúde, infra-estrutura e saneamento, trabalhar o futebol aliado a atividades sócio-educativas foi uma das formas que a ONG Plan encontrou para melhorar essa realidade. Duzentas meninas, com idades entre 10 e 18 anos, participam, desde 4 de maio, de reuniões e oficinas teóricas e práticas de formação, com o objetivo não só de fornecer ferramentas técnicas para um bom desempenho em campo, mas de muni-las de conhecimento sobre seus direitos, possibilitando-lhes o pleno exercício da cidadania. “O objetivo é que elas passem a ser protagonistas, possam se posicionar, ter voz e vez na sociedade. Através dos conhecimentos que irão adquirir nas oficinas

temáticas, elas terão argumentos para debater em encontros e seminários o papel da mulher, falar sobre sexualidade, respeito, dignidade, participação, direito à comunicação e outros temas ligados à mulher, sem serem constrangidas ou discriminadas por questões de gênero”, observa a assistente de Direitos da Plan Codó, Rozelane Santos.

O projeto O projeto terá duração de dois anos. Trabalhará com oficinas temáticas, duas vezes por semana, e aulas práticas, aos finais de semana. Paralelo ao trabalho de formação das meninas, os técnicos e árbitros da Liga Independente de Futebol Amador de Codó (LIFAC), parceira da Plan no projeto, receberão capacitação quinzenal para aperfeiçoamento técnico profissional e participarão de oficinas temáticas para que possam conhecer e entender o universo feminino, sabendo distinguir e aceitar as características de cada gênero, diferentes por formação, mas iguais na legislação.

Brincando de bola e colecionando medalhas O futebol amador feminino em Codó vem de longa data. Algumas meninas, que hoje têm entre 14 e 18 anos, dizem que começaram a jogar bola com


A treinadora Luzia, uma codoense legítima

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Évila após duas partidas A paixão de Évila pelo futebol está no sangue. Suas cinco irmãs, apoiadas pela mãe, Vanda (E), praticam o esporte

quatro, cinco anos. De uns três ou quatro anos para cá, começaram a se formar os primeiros times femininos, com disputas escolares e entre comunidades. Algumas participantes do Apoio ao Futebol Feminino já colecionam até medalhas de torneios anteriores ao projeto. Pena que o preconceito ainda seja grande. Inclusive entre elas, como revela o líder comunitário Francisco das Chagas, de Nova Jerusalém, uma das comunidades contempladas com o projeto. “Algumas meninas treinam quase todo dia. Mas falta espaço adequado para os treinos. Algumas não jogam porque acham que futebol é coisa para homem... só aí a gente vê como o preconceito é grande”, ressalta Francisco.

Numa casa de mulheres, a paixão pelo futebol “Meu sonho é jogar na seleção brasileira ao lado da Marta”, fala, com lindo sorriso, a menina Évila Maria da Silva Oliveira, 14 anos, moradora da comunidade Nova Jerusalém, na zona semiurbana de Codó. Depois de pouco mais de 10 anos brincando de bola, Évila tem agora a oportunidade de crescer tecnicamente como jogadora de futebol e, como ela mesma diz, sonhar. Évila conta que ensaiava os primeiros dribles aos três anos. Aos 10 começou a competir nos torneios escolares municipais e, no ano passado, ganhou uma bolsa integral de uma escola particular para estudar e representar a escola nos torneios femininos de futebol. Diz que a participação no projeto Apoio ao Futebol Feminino foi o complemento que faltava em sua vida. “Aqui vou ter mais conhecimento, amizade com meninas de outras comunidades, e, quem sabe, realizar meu sonho”. O projeto, segundo Évila, também poderá dar a oportunidade para outras meninas ganharem bolsa e crescer profissionalmente. Na lista dela estão as irmãs. Em uma família de oito integrantes, a única figura masculina é o pai, o lavrador João da Cruz de Oliveira. A mãe, Vanda Suely da Silva Oliveira, contrariando a opinião de amigos, vizinhos e parentes, dá a maior força para as filhas.

Além de Évila, Joelma (18) e Josilda (12) também estão no Apoio ao Futebol Feminino. As outras, Joilma (16), Valmira (10) e Josária (8), mesmo fora do projeto, também colecionam medalhas e compartilham da mesma paixão pelo futebol. “Todas nós jogamos futebol desde pequenas e participamos de torneios comunitários”, ressalta Joelma da Silva Oliveira, a mais velha da trupe.

Codoense legítima O entusiasmo das meninas é reforçado por sua técnica, Luzia Santos de Sousa. A “codoense legítima”, como ela faz questão de frisar, já rodou pelos estados do Rio de Janeiro, da Bahia e de Pernambuco. Retornou à sua terra natal para terminar os estudos e trabalhar (além de técnica, Luiza é agente de Saúde). Trabalha para o município em um período do dia, e, no outro, treina as meninas de Nova Jerusalém. Acumula outras funções no Universo Feminino Futebol Clube, time onde começou a jogar desde a sua fundação, há cerca de oito anos. Luzia dirige o clube, é treinadora, cuida do condicionamento físico de suas atletas e faz o marketing do clube. Ou seja, joga nas onze. “Tive muitas conquistas em minha vida, e, agora, tenho um novo desafio pela frente, que é ajudar a acabar com o preconceito e a discriminação do futebol feminino em Codó. Acredito que este projeto, também de cunho educativo, tem este propósito.”

Codó Com cerca de 120 mil habitantes, o município de Codó, situado a aproximadamente 300 quilômetros da capital, é hoje o quinto maior colégio eleitoral do Estado, e, mesmo assim, possui um dos índices educacionais mais baixos do Brasil. A cidade apresenta um desempenho particularmente precário no acesso à educação fundamental de qualidade. A situação é pior para as meninas: muitas são forçadas a trabalhar na economia informal da região, onde as condições de trabalho são freqüentemente perigosas e humilhantes.

“Aqui “Aqui vou vou ter ter mais mais conhecimento, conhecimento, amizade amizade com com meninas meninas de de outras outras comunidades, comunidades, e, e, quem quem sabe, sabe, realizar realizar meu meu sonho”. sonho”. Évila Évila Maria Maria da da Silva Silva Oliveira, Oliveira, 14 14 anos anos


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bela e t n Ge

dade i c da s morro s o n e t e (muito) competen por Alysson Cardinali / Fotos: Rogério Resende

Sete jovens criados no Morro do Vidigal, na Rocinha, em Vigário Geral e na Cidade de Deus. Favelas do Rio de Janeiro. Mais uma de São João de Meriti, Baixada Fluminense. Oito jovens que, desde cedo, aprenderam a usar a inteligência, a perspicácia e a força de vontade para vencer na vida e superar os obstáculos que aparecem com freqüência no caminho de quem vem das comunidades chamadas periféricas. Oito jovens que contrariam o ditado de que “beleza e sabedoria fazem rara companhia”, e, sem renegar suas origens, aliam não só a beleza e o charme que Deus lhes deu, mas muito talento para brilhar na

televisão, no teatro, no cinema e nas passarelas mundo afora. É a beleza de Mariana Santana, de Charles Rosa e de Gilberto Santos da Silva, o Laboriô. É a beleza das irmãs Sabrina e Cintia Rosa, de Jonathan Haagensen, de Fabrício Santiago (todos integrantes do Grupo Teatral Nós do Morro, do Vidigal). E de Jaqueline Souto, do grupo Makala, do AfroReggae. É a beleza que vem do morro e da periferia, a beleza que – se não põe mesa – mostra que temos motivos de sobra para nos deliciarmos com o que as comunidades populares do Rio de Janeiro têm de melhor: gente bela e (muito) competente.


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JONATHAN HAAGENSEN

Dona de belo sorriso, a modelo publicitária Mariana Santana, 25 anos, faz da simpatia e do charme outros atributos em sua busca pelo sucesso profissional. Atributos fundamentais, diga-se de passagem, para vencer em uma área na qual beleza, como diria Vinícius de Moraes, é fundamental. Ciente disso, Mariana se esforça e se dedica como poucas na busca pelo estrelato.

Um workaholic no mundo da arte. Aí está uma definição que pode explicar o momento vivido por Jonathan Haagensen, 25 anos. Eclético e multifuncional também são palavras que se encaixam no cotidiano deste integrante do Nós do Morro, nascido e criado no Vidigal, e que, atualmente, concilia trabalhos na televisão, no cinema e no teatro. Tudo ao mesmo tempo. Na televisão, interpreta o policial Miguel, na novela Os Mutantes – Caminhos do Coração, na Rede Record. No cinema, acaba de gravar o longa-metragem Bróder, de Jéferson De, na companhia de Caio Blat, Cássia Kiss e Cíntia Rosa (diga-se de passagem, namorada de Jonathan), e a comédia Embarque Imediato, de Alan Fiterman, na qual contracena com Marília Pêra.

Principalmente pelo fato de que, após participar de campanhas publicitárias para marcas como Eleganzza, South Models e Army, entre outras, ela se vê diante de um novo e inusitado desafio: superar um tipo de deficiência auditiva que pode levá-la à surdez completa futuramente. “Apesar disso, tenho certeza que vou vencer na profissão”, garante esta leonina que faz da confiança uma de suas principais virtudes. Confiança que ficou ainda maior depois de ler o livro A bela do silêncio, sobre a vida da modelo brasileira Brenda Costa, deficiente auditiva que superou as dificuldades e venceu na profissão. “O livro da Brenda me motiva bastante para enfrentar a questão da possível perda completa de audição e para ser uma modelo vitoriosa”, diz Mariana, que enaltece o incentivo dado pela mãe, Widlene. “Ela é tudo para mim”, resume a filha coruja.

No teatro, prepara-se para estrear, dia 12 de junho, no Teatro Ipanema, a peça “Machado a 3 x 4”, baseada no conto “O Alienista”, de Machado de Assis. “A exposição em três veículos ao mesmo tempo é ótima. Posso me aperfeiçoar e aprender mais, o que fortalece meu projeto de vida”, diz o ator, que ainda encontra disposição – e tempo – para dar as caras no Nós do Morro e gerenciar a banda de reggae Peregrinos. Mas por que atuar, ao mesmo tempo, na televisão, no cinema e no teatro? “Porque não tenho preferência por nenhum deles. Amo a arte e o ofício de atuar. No teatro você experimenta mais, na televisão as coisas são mais instantâneas e no cinema você pode criar mais. Tudo isso me fascina”, diz o Cabeleira, primeiro grande personagem interpretado por Jonathan, em Cidade de Deus

MARIANA SANTANA


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JAQUELINE SOUTO DA SILVA

FABRÍCIO SANTIAGO

CINTIA ROSA

Música e dança. Existissem no mundo somente estas duas palavras e a vida de Jaqueline Souto da Silva, de Vigário Geral, seria perfeita. Integrante do Grupo Makala – palavra que vem do quimbundo e significa carvão –, do Grupo Cultural AfroReggae, de Vigário Geral, Jaqueline, apesar da pouca idade (22 anos), é uma das mais experientes no assunto. Afinal, já teve passagens pelo Afro Lata, em 2000, e pelo Grupo Akoni (o nome vem do ioruba e significa pessoa corajosa e forte), formado apenas por meninas que dançam e tocam percussão, em 2002.

Ele tem 20 anos de idade, mas os gestos pausados, a fala mansa e o jeitão tranqüilo, de quem sabe aonde quer chegar, fazem de Fabrício Santiago – outro integrante do Nós do Morro – um dos mais promissores atores da nova geração. Prova disso é seu currículo: Malhação, onde interpretou o skatista Clayton; Sítio do Picapau Amarelo, como Zeca, amigo de Pedrinho; Carga Pesada, onde interpretou o delinqüente Tonho no episódio Homem não chora; e na novela Começar de Novo (foi o rapper Jeferson).

O amor à arte está no sangue de Cíntia Rosa, esta carioca da gema, de 28 anos, que fez do Nós do Morro o palco ideal para uma carreira de sucesso na telinha e na telona, onde deu o ar de sua graça em 1998, em participação no filme Solteiro no Rio de Janeiro (mais tarde rebatizado de Como ser solteiro), de Rosane Svartman. Ela atuou também em O Maior Amor do Mundo, de Cacá Diegues, fez participação em Tropa de Elite e estará de volta no filme Bróder, de Jéferson De, na qual dará vida à personagem Elaine. “Não vejo a hora de o filme estrear”, admite, ansiosa (o lançamento será no fim de 2008).

“A música e a dança são tudo para mim. São sinônimos de mente e corpo sãos”, resume Jaqueline, que já mostrou seu talento não só pelo Brasil, mas no Velho Mundo. “Fizemos uma apresentação na Holanda que foi inesquecível. Eu estava no Afro Lata. Deixamos a platéia extasiada com o que via e ouvia. Foi fantástico”, revela Jaqueline, que esteve com o Akoni em Belém (PA) e em São Paulo, e com o Makala no Rio Grande do Sul. “A música e a dança são linguagens universais”, avalia Jaqueline, que não escolhe um estilo musical de sua preferência. “Sou eclética. Adoro afro, jazz, samba, balé, reggae, pagode, funk. Amo todos os ritmos”, revela a menina de sorriso fácil, que toca vários instrumentos, mas elege a percussão o seu favorito.

Mas, embora possa parecer, a construção de trajetória tão meteórica não foi fácil. “Nunca tive nada de mão beijada na minha vida e sempre precisei correr atrás da realização de meus sonhos. Só para conseguir um lugar em Malhação, fiz teste durante quatro anos”, exemplifica o ator, que também já coleciona participações no cinema (Irmãos de Fé, de Moacir Góes, e Mais uma vez amor, de Rosane Svartman). Projetos de sucesso, que garantem um belo futuro profissional, certo? “Fiz bons trabalhos, mas ainda tem muita coisa pela frente. O ator tem que estar sempre antenado e estudar muito, se dedicar ao máximo à profissão”.

Na televisão, Cíntia fez bonito como Maria, no programa Sandy e Junior, em 2002, e em Cidade dos Homens, onde, durante três anos, interpretou a bela Zuleide, além da atuação na novela Alta Estação, da Rede Record, na qual interpretou, em 2007, a médica Eloísa. Embora sua paixão seja teatro, curiosamente Cíntia só fará sua primeira peça profissional em junho, em “Machado a 3 x 4”, no teatro Ipanema. “Sempre fiz teatro em peças no Nós do Morro. Acho que, por isso, o teatro sempre me encantou”, avalia Cíntia, que está no quarto período de Artes Cênicas (na Univercidade).


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GILBERTO SANTOS DA SILVA (LABORIÔ)

SABRINA ROSA

CHARLES ROSA

“O teatro e a capoeira mudaram a minha vida”. A revelação é de Gilberto Santos da Silva, 27 anos, mais conhecido como Laboriô, mineiro nascido em Guanhães, que veio para o Rio de Janeiro aos 6 anos de idade, trazido pelos pais, para morar na Rocinha. Uma revelação emocionada, de quem – não fosse a arte e a presença da mãe, Maria Albertina – poderia ter enveredado por outros e tortuosos caminhos. “Perdi meu pai cedo e minha mãe, embora analfabeta, sempre trabalhou (no Jockey Club) e criou a gente com dignidade (são seis filhos no total)”, frisa Laboriô, que aos 15 anos, descobriu a magia da capoeira – durante as aulas do professor Taturana – e o amor pelo teatro – no Oscar Tenório, colégio onde estudava, na Gávea. Dali em diante, não parou mais de brilhar.

De bem com a vida. Pode parecer clichê, mas este é o constante estado de espírito da atriz Sabrina Rosa, 29 anos, 19 deles dedicados ao Nós do Morro. Para quem não se recorda, uma das primeiras aparições de Sabrina aconteceu no cinema, no filme Cidade de Deus, que arrebatou público e crítica, com a personagem Denise, uma das mulheres do traficante Mané Galinha (Seu Jorge). “O filme deu visibilidade não só para mim, mas para o Nós do Morro (havia 58 integrantes do grupo no filme)”, relembra Sabrina, que após o filme, passou a conciliar apresentações no teatro e nas novelas globais (Chocolate com Pimenta, Páginas da Vida, Sete Pecados e Beleza Pura). Mas o teatro, garante Sabrina, é sua maior paixão. “A televisão te dá retorno imediato, mas o teatro é minha base, minha formação. Amo teatro, pois, nele, você explora tudo, corpo, expressão. É mais difícil, mas é mais gostoso”, avalia a atriz, que está na peça “Machado a 3 x 4”, baseada no conto “O Alienista”, de Machado de Assis, no Teatro Ipanema.

Charles acaba de chegar da Rússia. Capoeirista e artista circense, 26 anos, nascido e criado na Cidade de Deus, foi trabalhar em Moscou – em fevereiro de 2008 –, com a Companhia Sacode Brasil. “Fiz um teste de dança, acrobacia e capoeira, fui aprovado e, ao lado de mais 28 artistas, passei três meses lá. Foi uma experiência única e muito enriquecedora”, avalia Charles, que passou todo o tempo em Moscou, onde, garante, fez algumas de suas melhores apresentações e muitas amizades. “Lá é um lugar estranho, mas adaptável. As pessoas inicialmente são frias, mas apreciam novidades e, com o tempo, se tornam grandes amigas”, revela Charles, que já está fazendo as malas, pois voltará para a Rússia em agosto. “O mercado de trabalho lá é bom e financeiramente compensa bastante. Ficarei mais seis meses, e, depois, irei para a França, me aprimorar nas aulas de circo”, revela.

Na Companhia dos Comuns, formada por atores e atrizes negros, fez parte do espetáculo A Roda do Mundo, no qual o jogo da capoeira é o fio condutor de histórias sobre a luta pela sobrevivência a partir das dificuldades da comunidade negra. Em seguida foi dar aulas de capoeira para portadores de necessidades especiais, em um projeto implantado pela prefeitura do Rio. Mas não demorou para voltar aos palcos, com Besouro Cordão-de-Ouro, um dos musicais mais elogiados pela crítica e público em 2006, que faz homenagem a Manuel Henrique Pereira, maior capoeirista de todos os tempos da Bahia. O espetáculo entrará novamente em turnê este ano, passando por cidades como Brasília, Fortaleza, Belo Horizonte, São Paulo e outras. “A arte para mim é tudo e mais um pouco. É minha paixão. Não vivo sem ela”, frisa.

Enquanto não volta para a Rússia, Charles mostra seu talento em Água de Beber, primeiro espetáculo teatral que conta a história da capoeira no Brasil, país que se tornou o maior divulgador e exportador de profissionais desta arte no mundo. O espetáculo, que esteve em cartaz em 2007, volta a ser apresentado este mês, no Sesc Tijuca.

Produção: Thaisa Araújo. Produção de moda: Gabi Cardinali e Anne Maia. Cabelo: Carlos Cabral. Maquiagem: Marco Reblim. Agradecimentos: Espaço Tudo e Moda (Rua Visconde de Pirajá, 487 – loja 101 – Ipanema. Tel. 2274-9395) e Salão La Belle Fashion (Rua Visconde de Pirajá, 487 – Sala 204 – Ipanema. Tel.: 2259-2836).


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Uma todos para todos casa para Uma casa por Alysson Cardinali

Projeto no Recôncavo Baiano ajuda e orienta a juventude Eles vivem em São Francisco do Conde – uma das principais cidades do Recôncavo Baiano, região conhecida e reconhecida como berço da cultura popular brasileira –, mas com poucos motivos para sorrir. Afinal, ao redor de suas casas de taipa, lazer e entretenimento são palavras – e atividades – quase irreconhecíveis. Principalmente para os moradores da comunidade batizada de Baixa Fria. Abandonados pelos governantes, todos são obrigados a usar de muita criatividade para superar as adversidades, já que, além de cultura, lazer e entretenimento, falta, também, saneamento básico, educação, saúde, segurança... Mas não foi à toa que Euclides da Cunha afirmou que o nordestino é antes de tudo um forte. Mesmo diante de tantos problemas, a professora de arte do ensino fundamental Márcia Braga, 37 anos, criou e desenvolveu, em junho de 2007 – ao lado de outros mestres, todos nascidos na região –, o projeto

Márcia (quarta à esquerda) em Joinville, ao lado de coordenadoras do Bolshoi, alunos de Salvador e Emerson (camisa verde)

Casa da Mulher, que, embora não mate a fome de alimento, alivia a sede de conhecimento de crianças e jovens advindos de famílias de baixa renda, com possibilidade de formação cultural e cidadã.

Emerson na frente do Bolshoi, em Joinville: bolsa de estudos para aprender balé clássico e uma vida nova pela frente

Graças ao projeto, os participantes têm acesso não só ao lazer, mas a oficinas (de arte, de artesanato, de música e de teatro), cursos profissionalizantes e de idiomas (inglês/espanhol), atendimento jurídico (nas áreas cível, família e trabalhista) e palestras (saúde e educação, por exemplo). “Queremos propiciar aos jovens oportunidades de vida com maiores perspectivas, além de garantir formações e informações que os ajudem na construção de um caminho com menores obstáculos”, diz Márcia.

Justiça e igualdade O projeto oferece, também, uma brinquedoteca (espaço que visa resgatar o ato de brincar e a participação dos pais com as crianças para que seja estimulado o convívio e a interação familiar), aulas de dança de salão e de flauta. Recentemente, foram criados cursos para eletricista e manicure. “O projeto é importante, também, para a busca por uma sociedade mais justa e igualitária, unindo homens e mulheres, ricos e pobres, promovendo a diminuição do paradigma ‘cidade rica x povo pobre’. Queremos instrumentalizar cidadãos e cidadãs para uma vida melhor”, frisa a professora.

São Francisco no Bolshoi Vida melhor que o pequeno Emerson Xavier, de 11 anos, já alcança. Filho de uma voluntária da Casa

da Mulher, ele fez um teste e foi selecionado entre 20 meninos para integrar a Escola do Teatro Bolshoi no Brasil, em Joinville (SC). Ganhou bolsa total do balé e mora, desde março, em Joinville, com os custos de moradia e alimentação pagos pela Casa da Mulher e seus colaboradores. Emerson estuda a quinta série do Primeiro Grau e está no primeiro ano do curso profissionalizante de balé clássico. Dentro de oito anos, estará na Companhia do Teatro Bolshoi, com carteira assinada, salário digno e um futuro promissor. “Ele começou uma nova história de vida, com muito mais qualidade. Estudar na escola do Bolshoi é uma oportunidade única”, vibra Márcia, na esperança de, em breve, revelar novos “Emersons” e ajudar a comunidade Baixa Fria a prosperar. “Estamos devolvendo esperança a muita gente”, comemora.


ara p o t ído t n a A busca pelo a i c n ê ol i v o veneno chamado

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Ceará bancos comunitários amplia rede de

Com 20 bancos, estado é o que mais tem agências no Brasil por Chico Junior (texto e fotos)

Ao som de “Tente outra vez”, de Raul Seixas, a Banda Bate Palmas, do Banco Palmas, puxou a festa de instalação do Banco Artepalha, o primeiro da caravana de inauguração de 10 bancos comunitários no interior do Ceará, no fim de maio. Assim, o município de Palhano, com 8,7 mil habitantes, a 160 quilômetros de Fortaleza, na região de Russas, passa a fazer parte da Rede de Bancos Comunitários do Ceará e, por conseqüência, da Rede Brasileira de Bancos Comunitários de Desenvolvimento.

O fundador do Banco Palmas, Joaquim Neto, e as moedas sociais dos bancos comunitários


Durante quatro dias, de quarta a sábado, um ônibus com 45 pessoas percorreu várias cidades cearenses para levar um pouco do conceito e da prática da economia solidária, instalando serviços financeiros, incluindo microcrédito, também nos municípios de Tamboril, Monsenhor Tabosa, Madalena, Ibaretama, Ocara, Choró, Caridade, Irauçaba e Itarema. Em vários desses lugares, o banco comunitário passou a ser a única instituição bancária (ver quadro) e um deles, o Tremembé, de Itarema, é o primeiro banco comunitário indígena do país.

R$ 60 mil para começar Cada banco inaugurado começa com um capital de R$ 60 mil, sendo R$ 50 mil para crédito produtivo e R$ 10 mil para crédito de consumo, com juros, no caso desses novos bancos, que variam de 0,5 a 2% ao mês, dependendo do valor a ser emprestado. Maior o valor, maior o juro, pois parte-se do princípio de quem pede mais tem condições de pagar juros maiores. Esse dinheiro veio de duas fontes: Governo do Estado do Ceará e Banco Popular do Brasil, cada um entrando com R$ 300 mil (R$ 30 mil para cada banco). Além disso, o governo do estado entrou com mais R$ 500 mil para a implantação dos bancos, projeto desenvolvido pelo Instituto Palmas, dirigido por Joaquim de Melo Neto, criador do Banco Palmas, o primeiro banco comunitário do Brasil. “A criação de dez novos bancos comunitários no Ceará é importante para o estado e muito mais importante para o Brasil. Para o Ceará porque o estado se mantém na vanguarda neste tipo de empreendimento com 20 dos 36 bancos existente no país. Para o Brasil porque a rede vai crescendo e provando que é possível levar serviços financeiros e cidadania para municípios e comunidades pobres com base nos conceitos da economia solidária.” E o conceito é simples: como cada banco tem a sua própria moeda, chamada de moeda social, e que só pode circular na comunidade onde o banco está instalado, a riqueza gerada permanece no local, tendo como conseqüência direta a geração de emprego e renda. Quando uma pessoa pede um empréstimo para abrir um negócio, esse negócio tem que ser aberto na comunidade. E quando alguém pede dinheiro para consumir, esse consumo também só pode ser feito na comunidade.

Mais bancos Até o final do ano, segundo Joaquim, dez novos bancos serão inaugurados: oito no Ceará, sendo cinco em Fortaleza, dois no Piauí, um no Maranhão e um no Rio Grande do Sul (Porto Alegre).

Mais que um banco Com o projeto de criação dos bancos comunitários, pode-se dizer que o ex-seminarista Joaquim Neto, 45 anos, está fazendo uma pequena (por enquanto) revolução na economia do país. Isso porque, como explica, o banco comunitário “é mais que um banco”. “Como não há, no meu conceito, município pobre, e sim município que se empobrece porque não sabe ou não tem como segurar sua riqueza, a função principal do banco comunitário é reorganizar as economias locais. Além disso, levamos cidadania, pois chegamos com serviços financeiros aonde os bancos tradicionais não chegam, por falta de interesse econômico”.

Joaquim parte do principio de que praticamente tudo que as pessoas precisam para viver pode ser feito na comunidade. E cita como exemplo alguns dos empreendimentos criados a partir do microcrédito oferecido pelo Banco Palmas: Palmafashion (produção de roupas), Palmart (peças de artesanato), Palmalimpe (produtos de limpeza), Palmacouros (produtos de couro) e PalmaNatus (produção de sabonetes e fitoterápicos). Ele chama a atenção para um dado importante no gerenciamento dos bancos comunitários: “O Instituto Palmas é o facilitador e responsável pelo projeto de instalação dos bancos e capacitação do pessoal, mas a partir do dia em que começa a operar a gestão passa a ser da comunidade. Esse tipo de banco, é bom que se diga, é da comunidade. Se uma pessoa pede dinheiro emprestado e não paga, ele não está prejudicando o banco; está prejudicando um outro morador. Por isso, a taxa de inadimplência é de menos de 0,5%.’

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Roteiro da Caravana dos Bancos Comunitários no estado do Ceará


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Gerando riqueza O banco comunitário empresta dinheiro para a produção e para o consumo local. Produzindo e consumindo no local, a riqueza gerada fica no lugar, melhorando a qualidade de vida das pessoas. Além do empréstimo, a entrada da moeda social em circulação se faz também a partir da simples troca do Real pela moeda (para cada uma unidade de moeda social tem que haver o correspondente em Real). Isso acontece porque usar a moeda social para comprar é um bom negócio, já que o comércio local e empresas de ônibus dão desconto a quem pagar com o palmas (moeda do Banco Palmas), por exemplo. Uma outra forma é o pagamento de parte dos salários e de serviços com a moeda social. “Hoje”, explica Joaquim, “o Banco Palmas paga em palmas 25% dos salários dos funcionários. Além disso, todo serviço prestado ao banco é pago nessa moeda.”

senhor A jovem moradora de Mon da do moe Tabosa mostra o serra, as Mat Banco Serra das

Os novos bancos comunitários do Ceará Município

Nome do Banco

Palhano

Artepalha

Castanha

Localizado na região de Russas, tem sua sustentabilidade na produção da castanha de caju, produto suscetível a oscilações mercadológicas e do clima. Com 8.700 habitantes é a menor cidade do projeto em termos populacionais.

Tamboril

Feiticeiro

Acaraú

O município, que não tinha nenhuma agência bancária, passa por uma revitalização de sua economia. A integração entre entidades comunitárias e o poder público local é uma das principais características.

Monsenhor Tabosa

Serra das Matas

Serra

Madalena

Bansol – Banco Solidário

Sol

Caracterizada pela pobreza e a seca, tem boa parte de seu território ocupado por assentamentos ligados ao MST. A atual gestão está revitalizando a economia com base na economia solidária e participação da comunidade. O banco foi instalado na localidade de Macaoca.ais.

Ibaretama

Serra Azul

Castanha

Por estar muito próximo de Quixadá, boa parte de sua renda vai para aquele município, gerando, assim, ainda mais pobreza. A cidade não tinha nenhuma agência bancária

Ocara

Ocardes

Castanha

A juventude de Ocara terá um papel decisivo na condução do banco, sendo inclusive a gestora. Trata-se de um município muito pobre, que tem na produção agrícola seu principal ativo econômico.

Choró

Sertanejo

Castanha

Com economia baseada na pesca, tem no açude Pompeu Sobrinho sua principal sustentabilidade. Está a menos de 30 km de Quixadá, o que provoca uma grande evasão da renda da cidade. Não tinha nenhuma agência bancária. O distrito de Campos Belo, onde foi instalado o banco, tem 8 mil habitantes, sendo mais populoso que a sede do município. Fica a 25 km da sede e não tinha nenhum banco e nem outro correspondente bancário, obrigando seus moradores a gastarem, no mínimo, R$ 5 de transporte para realizar um único pagamento bancário.

Nome da Moeda

Caridade

Padre Quiliano

Castanha

Ibaretama

Juazeiro e Amizade

Cactos

Itarema

Tremembé

Ita

Algumas Características

Instalado em Almofala, a 12 km da sede, o banco Tremembé é o primeiro banco comunitário indígena do Brasil. Almofala é a terra dos índios Tremembés. Na localidade não existia nenhuma agência bancária.


Município/Estado

Comunidade de Atuação

Fortaleza (CE)

Conjunto Palmeira

Palmas

Palmas

Maranguape (CE)

Sapupara

Banco dos Empreendedores de Maranguape

Prata

Santana do Acaraú (CE)

Todo o município

Bassa

Santana

Palmácia (CE)

Todo o município

Serrano

Palmeira

Maracanaú (CE)

Pajuçara

Paju

Maracanã

Irauçuba (CE)

Missi

Bancart

Ta

Beberibe (CE)

Todo município

Bandesp

Ab

Paracuru (CE)

Boa Esperança e Riacho Doce

PAR

PAR

Tauá (CE)

Bairros Colibri, Bezerra e Souza

Quinamuiu

Quinamuiu

Parmoti (CE)

Todo o município

Frei Diogo

Paz

Vitória (ES)

Bairro da Penha, São Benedito e Itararé

BEM

BEM

Vila Velha (ES)

Barro Vermelho

Terra

Terra

Simões Filho (BA)

Santa Luzia

Eco-Luzia

Eco-Luzia

Dourados (MS)

Todo o município

Pirapirê

Pirapirê

Alcântara (MA)

Todo o município

Quilombola

Guará

São João do Arraial (PI)

Todo o município

Cocais

Cocais

Nome do Banco

Moeda

com Joaquim paga ustível palmas o comb do em um posto eiras Conjunto Palm

Economia solidária O projeto de criação e instalação dos bancos comunitários é conduzido pelo Instituto Palmas, criado em 2004 a partir da experiência exitosa do Banco Palmas, instalado há 10 anos no Conjunto Palmeiras, antiga favela da periferia de Fortaleza que, aos poucos, foi se transformando em bairro popular, hoje com 32 mil habitantes. Começou com um capital de R$ 2 mil reais emprestados a 10 clientes e hoje tem um capital de R$ 700 mil e 25 mil palmas. É um projeto semelhante ao banco Grameen criado na Índia em 1976 por Muhammad Yunus, ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2006, e baseado no conceito da economia solidária, que privilegia o trabalho coletivo, a autogestão, a justiça social e o desenvolvimento local, sustentável e solidário.

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Os outros bancos da Rede Brasileira de Bancos Comunitários


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Deborah, Marcello e Vivi Reis: conectados

O Grupo Cultural AfroReggae (GCAR) comemora seus 15 anos, mas quem ganha o presente é o público. Depois de Rio de janeiro e Porto Alegre, chegou a vez de São Paulo ter o programa de rádio Conexões Urbanas. No ar às quintas-feiras, às 22 horas, na Rádio Eldorado FM (www.radioeldoradofm.com.br), a versão paulista segue a mesma proposta da carioca, no ar na MPB FM (www.mpbfm.com.br), às quartas, às 22h; e da gaúcho, na Ipanema FM (www.ipanema.com.br), às segundas, às 22h: dar voz a artistas e músicas que nem sempre têm espaço na programação das rádios. Produzido em parceria entre o AfroReggae e a Eldorado, o projeto tem patrocínio do Banco Real, Natura, Petrobras e Vale. O programa estreou em São Paulo no dia 29 de maio, mês em que o do Rio completou um ano no ar. Com apresentação de Marcello Silva, que acumula a função no Rio, além de ser vocalista da Banda Dughettu, e Deborah Pill e programação musical da DJ Vivi Reis, apresentadora em Porto Alegre, o Conexões alia música e conteúdo, entrevistas, dicas culturais e promoções.

Vontade antiga Para o coordenador-executivo do AfroReggae, José Junior, ter um programa em São Paulo era uma vontade antiga. “Embora a Eldorado seja cinqüentenária, a rádio é uma das mais conectadas que eu conheço. Esse perfil vai ao encontro do Conexões Urbanas, leque de eventos e veículos de comunicação do AfroReggae que engloba, ainda,  shows, revista e, em breve, um

programa no canal Multishow. Nossa proposta é criar uma via de mão dupla, eliminar barreiras, conectar pessoas e abrir espaço para novas tendências culturais. No ano em que o AfroReggae comemora seu 15º aniversário - completos em janeiro, por sinal, mesmo mês em que a Eldorado fez 50 anos - a estréia em São Paulo é um presente e tanto”, comemora Junior. Nossa proposta é criar uma via de mão dupla, eliminar barreiras, conectar pessoas e abrir espaço para novas tendências culturais. No ano em que o AfroReggae comemora seu 15º aniversário completos em janeiro, por sinal, mesmo mês em que a Eldorado fez 50 anos - a estréia em São Paulo é um presente e tanto”, comemora Junior. Ele acredita que a ampliação das atividades do AfroReggae no estado, como o lançamento da grife no São Paulo Fashion Week e o Seminário Antídoto, no Itaú Cultural, foi preponderante para aumentar a percepção de Brasil sob os aspectos social, econômico e cultural. “Essa influência foi fundamental para o amadurecimento do grupo e contribuiu para a projeção do nosso trabalho no Brasil e no exterior, em países como Índia, China, Colômbia, Inglaterra e Alemanha”, ressalta.

Cidadania Miriam Chaves, diretora-executiva da Eldorado, diz que a rádio tem como característica estar envolvida nas questões que falem de cidadania. “Desde sua fundação, em 1958, a emissora participa ou capitaneia campanhas desse teor. Além disso, tem uma programação que valoriza a movimentação cultural da cidade em todas as suas formas. Essa parceria com o AfroReggae retrata o que os ouvintes esperam daquela que eles reconhecem como a rádio cidadã.” “Receberemos importantes nomes da nossa cultura para entrevistas eapresentaremos cantores, compositores, artistas e figuras do cotidiano. Pessoas que no dia a dia fazem, principalmente através da arte, um caminho diferente e alternativo para divulgar o seu trabalho”, completa Rogério Chiocchetti, gerente artístico da emissora.


DE VIGÁRIO GERAL

É TEMA DE LIVRO No ano em que o Grupo Cultural AfroReggae (GCAR) comemora seus 15 anos, a favela de Vigário Geral, onde a instituição criou o seu primeiro núcleo, oferecendo atividades culturais como alternativa à violência e ao narcotráfico para os jovens, será retratada em livro. História e memória de Vigário Geral, escrito a quatro mãos pela professora Maria Paula Araujo, do Departamento de História da UFRJ, e o ex-coordenador cultural do AfroReggae, Écio Salles, é uma parceria da instituição com aquela universidade. A obra será lançada pela Editora Aeroplano e é o sexto título da coleção Tramas Urbanas, que tem como proposta dar voz às diversas manifestações artísticas e intelectuais das periferias brasileiras e de grupos tradicionalmente marginalizados.

Conexões Funk, novo circuito de shows Depois do Conexões Urbanas, considerado hoje o maior circuito de shows gratuitos em favelas do Rio de Janeiro, o AfroReggae realiza, em parceria com a Furacão 2000 e patrocínio da TIM, o Conexões Funk. O evento levará artistas da Furacão 2000 e os MCs mais badalados do cenário do funk para favelas da capital e do interior fluminense. A primeira edição foi realizada no último dia 14, no Jardim Gláucia, no município de Belford Roxo, e contou com a presença de Rômulo Costa, fundador e diretor da Furacão 2000, apresentação de Priscila Nocetti e participação de Cia. de Dança, Menor da Chapa, Priscila e as Preparadas, Os Hawaianos, Gorila e Preto, Juliana e as Fogosas, Marcio G e MC Bruninha. As próximas edições já estão agendadas e vão ser, respectivamente, em Vigário Geral, dia 5 de julho; no Cantagalo, 19 de julho; e no Borel, 9 de agosto. Assim como o Conexões Urbanas, o Conexões Funk também busca romper fronteiras invisíveis com entretenimento e cultura. O projeto teve uma edição há dois anos, mas só agora, com patrocínio da TIM, passará a fazer parte do calendário de grandes eventos do estado.

A idéia do livro surgiu a partir de uma entrevista de Maria Paula e seu grupo de pesquisa, formado por alunos da UFRJ, feita com José Junior, coordenador-executivo do AfroReggae. O encontro acabou dando origem a um documento histórico sobre Vigário Geral, desde os seus primórdios, na década de 50, até os dias atuais, passando pelos mais diversos eventos históricos, das reformas urbanas do prefeito Pereira Passos ao triste episódio da chacina de 1993. Através de uma análise crítica associada à afetividade prosaica das ruas da comunidade, a obra esmiúça não apenas o surgimento e o crescimento daquela favela, com a relevante e rica contribuição de memórias de seus moradores mais antigos, como também a história da formação urbana e espacial do Rio de Janeiro e suas repercussões numa estrutura sócio-econômica em que exclusão social e concentração de renda se mesclam.

AfroReggae “A História de Vigário é o dado que faltava para se fechar a compreensão da importância do AfroReggae para as favelas cariocas e para o Brasil. Para a Aeroplano, é uma alegria, mas principalmente a sensação de dever cumprido por ter viabilizado essa publicação”, avalia a escritora, editora e crítica literária Heloisa Buarque de Hollanda, diretora da Aeroplano e idealizadora da série Tramas Urbanas. Foi ela quem convidou para a curadoria Écio Salles, também pesquisador de hip-hop e de diversos movimentos da periferia. “A proposta é abrir o foco dos lugares comuns criados pela produção intelectual tradicional. Em termos de conteúdo, os livros refletem um Brasil que não fecha os olhos para questões relevantes, como as desigualdades raciais e sociais”, ressalta Écio.

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FAVELA

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Vista do Morro da Providência, primeira favela carioca

Lugar de esquecimento Roger Almeida *

A. F. Rodrigues

radicais e dos teóricos do embranquecimento – incluindo-se aí os membros de várias oligarquias regionais – para torná-la uma cidade européia”, como afirmam Alba Zaular e Marcos Alvito na introdução do livro “Um século de Favela”.

“A poesia existe nos fatos. Os casebres de açafrão e de ocre nos verdes da Favela, sob o azul cabralino, são fatos estéticos”. Oswald de Andrade, Manifesto da Poesia Pau-Brasil, 1924. Numa dessas aulas da faculdade de História que relatavam o período da República Velha no Rio de Janeiro me deparei com o conceito “Lugares de Memória”, originalmente pensado pelo historiador francês Pierre Nora. A proposta de reflexão na aula era encontrar nos dias atuais monumentos, lugares e lembranças que remetessem ao período republicano a partir de 1889. Na classe surgiram muitas sugestões, como o desmonte do Morro do Castelo, a Avenida Central (hoje Rio Branco), a Rua do Ouvidor, a marchinha Ô Abre-Alas, de Chiquinha Gonzaga, a Lapa, as obras de Lima Barreto e Olavo Bilac, a Tia Ciata, o samba, o futebol entre muitas outras opções. Todas essas memórias citadas, se não são queridas pela população carioca, são lugares de memórias oficiais do período da Primeira República brasileira. Com todas essas boas lembranças me ocorreu refletir sobre um espao, que teve origem nessa época, e é muito recorrente em meu cotidiano. São as favelas da cidade do Rio de Janeiro. Posso afirmar que uma lembrança sepulcral do período republicano, no despertar do século XX, foi o início do processo de favelização da cidade do Rio de Janeiro? A resposta seria positiva se procurássemos em toda a cidade as marcas que nos deixaram os republicanos daquela época. O que saltarão aos nossos olhos serão as pequenas e amontoadas casas de tijolo e teto de zinco no alto dos morros da cidade. As avenidas Rio Branco e Beira-mar são construções desse período e estão inseridas no projeto de lembranças da República Velha, porém essas imagens não são tão freqüentes como das favelas cariocas, que seguem a dinâmica geográfica de uma cidade montanhosa como o Rio de Janeiro. Até mesmo um passeio pelas principais rotas, onde a cidade é vendida para visitantes estrangeiros, é observada a “incômoda” presença das pobres comunidades. A onipresença das favelas cariocas é a marca mais concreta do Brasil-República. A imponência de favelas como Rocinha, Cantagalo e Vidigal transpõe os cartões-postais da Zona Sul carioca e há pouco mais de um século são entraves aos projetos urbanísticos excludente da cidade. “Pode-se dizer que as favelas tornaram-se uma marca da capital federal [no período da República Velha], em decorrência (não intencional) das tentativas dos republicanos

* rgralmeida@superig.com.br

O prefeito Candido Barata Ribeiro, em 26 de janeiro de 1893, botou abaixo o cortiço Cabeça de Porco, considerado o maior da cidade. Francisco Pereira Passos, em março de 1904, com a demolição de 641 casas, desalojou quase 3.900 pessoas. Esses projetos de reforma urbana, especialmente segregacionista, deram início a um processo de ocupação e povoamento dos morros da cidade. A primeira favela do Brasil surgiu em 1897, no centro da cidade do Rio de Janeiro, para abrigar homens, mulheres e crianças que não faziam parte do projeto progressista dos homens da República. As reformas urbanas na capital federal marcaram a gestão do prefeito Pereira Passos entre os anos de 1902 e 1906. A construção da Avenida Central foi um dos eventos que marcam o período republicano. Nesses anos, em que a cidade se transformou num canteiro de obras, foram erguidas dezenas de monumentos que permaneceriam na memória dos habitantes da cidade como uma construção dos homens do Brasil republicano. Contudo, junto da edificação do boulevard que ligava a região portuária à Zona Sul carioca surgiam os casebres de açafrão e de ocre. O Rio de Janeiro estava sendo construído como uma nova cidade, moderna, europeizada, capaz de ser o cartão-postal da recém-criada República. Contrariando esse ideal, as favelas passaram a ser vistas como outras cidades, corpos estranhos dentro da urbe formal. Esses corpos estranhos não poderiam estar inseridos no projeto republicano que estava sendo construído na cidade do Rio de Janeiro. O Morro da Favela, considerada a primeira favela do Brasil, a partir do ano de 1897 abrigou remanescente dos cortiços do centro do Rio, ex-escravos do Vale do Paraíba e os soldados desamparados da Guerra de Canudos e todos aqueles que jamais seriam retratados na poesia de Olavo Bilac. A favela erigia-se como monumento na região da Central do Brasil em frente a praça da Aclamação (hoje Praça da República), lugar onde os célebres militares marcharam para proclamar a República brasileira em novembro de 1889. Hoje, conhecemos o antigo Morro da Favela como Favela da Providência, que ainda pode ser vista atrás da Central do Brasil, entre os bairros do Santo Cristo e Gamboa. O Morro da Favela é a representação do que deveria ser esquecido para os republicanos da época. Nas lembranças da República Velha estão catalogadas, não oficialmente, as favelas do Rio de Janeiro e do Brasil porque foi a partir desse momento que iniciaram as desastrosas políticas urbanísticas para as cidades. Se hoje nós olharmos o Morro da Providência lembraremos do prefeito Pereira Passos, do presidente Rodrigues Alves, da República Velha, pois ali se construiu o avesso de um lugar de memória, um lugar de esquecimento.



#14 Conexões Urbanas