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Conexões Urbanas |

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Julho de 2007 - Nº 3

um SOCO NA OCIOSIDADE Projetos como Luta pela Paz e Academia Nobre Arte ajudam jovens de comunidades do Rio de Janeiro a se tornarem vencedores

óLEO DE COZINHA Como reciclar, ganhar dinheiro e proteger o meio ambiente

Querô Filme dá origem a oficinas de áudio visual para jovens em Santos

GRIFE

AFROREGGAE nAS

PASSARELAS

Grupo apresenta sua moda criada pelo estilista Marcelo Sommer

foto: Ierê Ferreira

FAZ SUA ESTRÉIA


DO

editorial

CANTAGALO

A grife AfroReggae PARA O mundo

A

história da nossa garota da capa é quase um conto de fadas. Nascida e criada na comunidade do Cantagalo, no Rio de Janeiro, Lays Silva, de 19 anos, faz parte do cast da poderosa agência Ford Models. E tudo graças ao acaso. Um fotógrafo alemão tirava fotos no Cantagalo. Viu Lays e se encantou. Tirou fotos dela e a incentivou a participar do concurso da Ford. Ela venceu a etapa carioca e ficou em segundo lugar na finalíssima, em São Paulo. Desbancou 300 mil concorrentes. Isso foi em 2001. De lá para cá, fez várias campanhas publicitárias e já desfilou para Christian Dior em Nova York, cidade onde passa pelo menos três meses por ano. No Brasil, é presença certa nos desfiles de moda praia. No último São Paulo Fashion Week, integrou o time de modelos da grife AfroReggae.

“Eu até cheguei a sonhar em ser modelo, mas pensei que, por morar em favela, isso seria muito difícil. Também não me achava bonita. Eu era muito magrela. Meu apelido no colégio era saco de ossos”,

Com uma grande festa no espaço mais valorizado do São Paulo Fashion Week – o Auditório Ibirapuera, da Tim, foi

Apesar de passar a maior parte do ano fora do país, em viagens de trabalho, Lays nem pensa na hipótese de sair do Cantagalo, onde ainda mora com os pais e a irmã. Jeito sapeca, piercing na língua e no umbigo, tatuagem nos pés e no pescoço, o que ela gosta mesmo de fazer é ir à praia em Ipanema, em frente de casa. Às vezes, ajuda o pai na barraca de bebidas que ele tem na areia. Dieta? Nem pensar. Lays adora comer empadão, bolo e lasanha. Para fazer as fotos da capa da revista, chegou ao estúdio do fotógrafo Ierê Ferreira, no Centro do Rio, acompanhada do namorado, o vendedor Hugo Daveira, de 19 anos, seu vizinho no Cantagalo. Crianças, foram colegas de turma, no colégio. Naquela época, ele a chamava de girafa. Ela o chamava de bolota. A girafa virou modelo internacional e o bolota, um típico menino do Rio que pega surfe e joga futivolei para manter a forma. E ele acompanha embevecido cada pose feita pela namorada - ora mulher fatal ora brejeira, quando encara a câmera.

foi inspirado no trabalho da Academia Nobre Arte, que fica no Cantagalo, Zona Sul carioca.

estilista Marcelo Sommer, sem dúvida um dos nomes mais importantes da moda no país. Um estilo livre, leve e solto, favela-chique. Com graça, ousadia e criatividade. O que foi o lançamento da grife e a coleção você vai conhecer nesta edição.

E entramos no meio ambiente, por que não? Há um programa de reciclagem de óleo para o qual os moradores das comunidades, a princípio do Rio, podem ajudar bastante e ainda ganhar um dinheirinho extra.

A apresentação de projetos especiais desenvolvidos nas periferias do nosso país continua nesta edição, com destaque para as Oficinas Querô, em Santos, que começaram a partir da escolha do elenco para o filme Querô, sobre a juventude marginalizada da Baixada Santista, que estréia nos cinemas em agosto. Outro destaque é o trabalho desenvolvido pelo inglês Luke Dowdney que, por intermédio do

Estamos em São Paulo, com o Sarau da Cooperifa, no Capão Redondo; em Salvador, mostrando o trabalho da Escola Olodum; em Hannover e Londres, com a Banda AfroReggae; em Belo Horizonte, com o projeto Juventude e Polícia e em vários outros cantos. Boa leitura.

Chico Junior

PATROCINADORES INSTITUCIONAIS DO AFROREGGAE

sumário 3

Perfil | Nelson Britto

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Por Aí

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Escola Olodum

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Sarau da Cooperifa

12

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Oficinas Querô

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Reciclagem de Óleo

Cinco Vezes Favela

Modelo Lays Silva gentilmente cedida pala Ford Models Produção Sônia Apolinário Fotógrafo Ierê Ferreira Look Paulo Nogueira com produtos Natura Agradecimentos Melissa

boxe, tenta diminuir a violência no Complexo da Maré, no Rio. O projeto

lançada oficialmente em junho a grife AfroReggae, desenvolvida pelo

conta ela, que veste manequim 38 e tem 1,82 m de altura.

capa

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Espaço Afroreggae

Quadrilha na Maré

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Boxe na Favela

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Favela em Foco

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Enfim

Jornalista responsável e editor Chico Junior | Produção, reportagens e textos Cristiana Rosado e Sônia Apolinário | Assistente de produção e textos Thaisa Araújo Projeto gráfico e diagramação Conectime Comunicação - www.conectime.com.br | Direção de Arte Zilene Bernardino | Designer Kamila Gonzalez | Colaboraram nesta edição Bruno Morais - Daniela Rotti - Debora Pill - Écio de Salles - Eliana de Castro - Otávio Jr - Rosilene Milliotti - Veridomar da Glória | Conexões Urbanas é produzido em parceria com o Grupo Cultural AfroReggae e a CJD Edições. Redação e endereço para correspondência Rua Ataulfo de Paiva 1175 / 603 - Rio de Janeiro - RJ CEP: 22440-034 Tel: (21) 2512.2826 - 3904.1386 | E-mail: cjd.edicoes@globo.com e chico.junior@afroreggae.org.br

expediente


Toda cidade tem suas belezas, sua história e suas histórias. Cada uma delas tem sua cultura e sua mistura de culturas. Tem seus problemas e soluções, seus governos e desgovernos, mas também tem um punhado de pessoas que criam, incrementam, mobilizam e movimentam – enfim, que agitam a cidade. Em São Luís do Maranhão, uma dessas pessoas é Nelson Britto.

Nelson Nelson Britto das artes

Mestre de brincar, interagir, criar por Écio de Salles / /

Em 1969, começou a fazer teatro com o professor Reynaldo Faray, com quem trabalhou por seis anos, integrando um grupo chamado Tema. Num espetáculo desse grupo conheceu o pessoal do Bumba Boi de Pindaré – boi do sotaque de pindaré, pandeirões ou de baixada, caracterizado pelo toque mais cadenciado do pandeiro e da matraca. “Foi mestre João Cancio, o dono do boi, o primeiro a me mostrar a riqueza da cultura popular do Maranhão”. Depois disso foi para o Laborarte, onde encontrou o seu caminho e decidiu o que queria fazer da vida. Chegou na instituição como ator, que era seu ofício no grupo Tema. Aos poucos, desenvolveu outros técnicas: dança, coreografia, direção. Enquanto isso, ainda encontrou espaço para atuar como solista no movimento cultural e participar da administração. “Mas a verdade é que me

sinto mesmo é ator, o que gosto mesmo é de estar em cena. Outra coisa que me dá muito prazer é pensar na minha cidade culturalmente, na sua política cultural”.

frente da Fundação a produção do CD Brincando no Arraial, reunindo diversos grupos e manifestações de cultura popular do estado, algumas delas pouco conhecidas na capital; o Festival Internacional de Música de São Luís; a recuperação das quadrilhas de festa junina e o projeto Matraca na Fonte, “que acontecia na Fonte do Ribeirão, um patrimônio histórico da cidade, e representava uma oportunidade para que os

Uma figura fundamental nesse processo foi Tácito Borralho (teatrólogo, fundador do Laborarte e atualmente professor do Departamento de Artes da Universidade Federal do Maranhão), que lhe fez perceber a importância e o valor da cultura popular, além de lhe proporcionar o encontro entre esta e o teatro. No Laborarte, Nelson aprofundou o seu conhecimento sobre a cultura popular e encontrou referências decisivas para a sua formação cultural, como Mestre Felipe (tambor de crioula), Dona Teté (cacuriá e Divino Espírito Santo) e Mestre patinho (capoeira). “Tem ainda quatro mestres que contribuíram fortemente na minha formação: Apolônio Melônio, Leonardo, Bico de Brasa e Tabaco. Como cultura é uma coisa que você está “a verdade é que me sinto mesmo é ator, o sempre aprendendo, que gosto mesmo é de estar em cena. Outra eu cito também coisa que me dá muito prazer é pensar Mestre Gonçalinho, na minha cidade culturalmente, na sua do tambor de crioula, política cultural”. e o Mestre Zé Carlos, nELSON bRITTO do Pela Porco”. Quando trabalhou na Fundação Municipal de Cultura – primeiro como coordenador cultural e depois como presidente – Nelson aprofundou essa relação, promovendo e valorizando as manifestações populares e tradicionais. Rosa Reis, cantora e coordenadora do Laborarte, destaca do período em que Nelson esteve à

fotos: Johayne Hildefonso

N

ascido em São Luís, filho de um funcionário público federal e uma poeta, estudou sempre em escolas públicas da capital. Ali já participava das danças e encenações teatrais promovidas pelos professores daquelas instituições. O primeiro estímulo em direção ao mundo da cultura veio de sua mãe, Dona Lucinda. Foi ela quem o incentivou a ler e a discutir os assuntos que julgava importantes e a entrar para um curso de teatro, que foi por onde começou a sua trajetória artística. “E também foi ela quem me revelou a forma velada do preconceito de cor, quando, por exemplo, numa revista vinha dito que a artista tal era a atriz negra mais bonita, ela me chamava a atenção: não existe atriz negra mais bonita, existe atriz mais bonita – negra, branca ou de qualquer que seja a cor”, diz Nelson.

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PERFIL

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Rosa Reis, cantora e coordenadora do Laborarte

bumba bois pudessem apresentar o Auto do boi (a parte mais teatral das apresentações), uma vez que nas apresentações convencionais isso já não é possível devido às restrições de tempo”, explica Rosa. Um dos mais tradicionais mestres de Bumba Boi do Maranhão, e integrante de uma geração que foi responsável por tornar essa manifestação popular um símbolo da cultura maranhense, Apolônio Melônio considera Nelson Britto um irmão. “É um defensor da nossa cultura e sempre está apoiando as manifestações populares aqui no Maranhão. É uma referência pra gente”.

Nelson conta sobre três momentos particularmente emocionantes na última viagem do Laborarte. O primeiro foi na quadra da Império Serrano, quando a Velha Guarda da Escola e o tambor de crioula tocaram juntos. “Foi uma noite inesquecível e com uma energia muito bonita, pois tinha também o Jongo da Serrinha, o Cacuriá de Dona Teté e o Show de Rosa Reis, foram cinco horas de programação”. O segundo foi a ida ao Quilombo São José, em Valença: “as pessoas trocando informações e brincando o jongo e o tambor de crioula em um local lindo que é a Serra da Beleza, além de toda a energia e história do quilombo”. O terceiro momento foi a alegria do encontro entre os jovens do Laborarte e os do AfroReggae, “tanto na apresentação no Cantagalo como nas oficinas em Vigário Geral. São culturas que parecem diferentes, mas cuja genética ancestral proporciona a comunhão, e transforma tudo num grande brinquedo”, conclui Nelson Britto.

“Tem uma estrutura muito familiar, tem a força da tradição oral e a cultura de proximidade, o que é incrível. E a quantidade de jovens que participam do grupo é impressionante”.

Dyonne Boy

Não é só nos limites do território do Maranhão que Nelson Britto e o Laborarte estendem suas antenas. O grupo tem feito intercâmbios com grupos de outros es tados (e até de outros países), como o grupo cearense de percussão Caravana Cultural; Mestre Salu, de Pernambuco; o grupo Imbuaça, de Sergipe; o Bumba Boi do Sobradinho, de Brasília; os cariocas As Três Marias, AfroReggae, Os Mariocas e Jongo da Serrinha; e ainda o grupo Cupuaçu, de São Paulo e o Mundaréu, do Paraguai. O instrumento fundamental para o desenvolvimento dessas conexões é a Caravana Laborarte, através da qual busca estabelecer trocas criativas e produtivas com outros grupos das mais diversas regiões. Além dos citado, há muitos mais com que o grupo, nas palavras de Nelson, “brinca junto”. Quem também “brincou junto” com a trupe maranhense foram os integrantes do Jongo da Serrinha. Para eles, o trabalho do Laborarte tem um aspecto agregador impressionante. Dyonne Boy, coordenadora do grupo carioca, conta que “se sentiu em casa quando foi visitar o projeto”. Dyonne explica: “Achei muito parecido com o Jongo da Serrinha. Tem uma estrutura muito familiar, tem a força da tradição oral e a cultura de proximidade, o que é incrível. E a quantidade de jovens que participam do grupo é impressionante”.

Roda de tambor

LABORA RTE

A Caravana Laborarte leva a sua roda de tambor para outras cidades do Brasil

O Laborarte – Laboratório de Expressões Artísticas – foi criado em 11 de outubro de 1972, com sede no sobrado número 42 da Rua Jansen Müller, em São Luís, reunindo um grupo de artistas de diversas linguagens (teatro, dança, música, fotografia, artes plásticas e literatura), com o objetivo de agitar o movimento cultural maranhense. Em plena ditadura militar, o grupo trazia uma linguagem inovadora, reunindo diferentes formas das manifestações populares em nome da formação de uma identidade cultural que as unisse em torno de um projeto comum. Hoje o grupo é uma referência da cultura tradicional do Maranhão e do Brasil. Já realizou inúmeros espetáculos em seus mais de 30 anos de história, tendo recebido várias premiações. D. Teté, referência do Cacuriá, recebeu em 2002 o Prêmio Orilaxé – do Grupo Cultural AfroReggae – na categoria Cultura Popular. O Laborarte tem atividades de formação permanente, como capoeira, tambor de crioula e cacuriá. O público é formado, majoritariamente, por pessoas oriundas das comunidades populares. Além da produção de eventos, o grupo desenvolve atividades que entraram para o calendário cultural de São Luís: “Carnaval de 2ª”, “Rompendo Aleluia”, no dia da malhação de Judas, “IÊ! Câmara. Encontro de Capoeira Angola” e “Sexta no Labô”. O grupo desenvolve também projetos sócioeducativos através da arte. Dona Teté do Cacuriá


alomão imão S fotos: S

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O Cecovisa promove atividades educativas com grafite, teatro e música


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Brasileiro disputa final de breaking na África do Sul

Projeto

Quilombinho resgata a raiz do samba

por debora pill / /

Hoje, uma cena vibrante e muito bem conectada de bboys existe em todo planeta. No Brasil, essa cena encontrou terreno fértil para se desenvolver através da musicalidade natural do povo brasileiro. Uma das competições mais importantes da cena atual de bboying é o Red Bull BC One, onde 16 dos melhores bboys do mundo competem em batalhas individuais para definir quem é o número um do mundo. O formato resgatou o modelo original das batalhas no estilo “mata-mata” e trouxe de volta a plasticidade e a beleza dos movimentos individuais no palco. O Red Bull BC One está em sua 4ª edição e já passou por países como Suíça, Alemanha, Brasil e, este ano, acontece na África do Sul. Pela primeira vez, estão sendo organizadas nove eliminatórias pelo mundo: América Latina (realizada no Brasil), América do Norte (Estados Unidos), Rússia, Alemanha, África do Sul, Taiwan, Japão, Suécia e França. Os nove vencedores das eliminatórias se classificam automaticamente para o mundial que acontece em setembro.

Diante de 1.500 pessoas, o brasileiro Daniel Q.D.M., do Distrito Federal, foi o grande vencedor da competição. Daniel ganhou a batalha final contra o também brasileiro Pelezinho, um dos favoritos da competição, e garantiu a vaga para a edição deste ano da disputa mundial em Johannesburgo, na África do Sul, em setembro. “Agora vou treinar o máximo para dançar dez vezes mais do que posso na final”. Daniel Antonio Eliodoro tem 23 anos e mora em Santa Maria, no Distrito Federal, e a sigla Q.D.M., de seu apelido, é uma referência à equipe na qual dança na cidade, a “Quebra de Movimento”.

foto: divulgação

A eliminatória latino-americana aconteceu em junho, em São Paulo. O evento reuniu 11 dançarinos do Brasil de cinco estados diferentes (Rio de Janeiro, Distrito Federal, São Paulo, Pará, Paraná), além de outros cinco competidores da Argentina, Peru, Chile, México e Venezuela. O sistema de competição utilizado foi o mesmo do campeonato mundial, com batalhas individuais entre os 16 b-boys no esquema “mata-mata”, onde permanecem na disputa apenas os vencedores.

A

Praça Onze do Rio de Janeiro, reduto do samba no início do séc. XX, revive suas origens musicais. Uma vez por semana, a lona de circo localizada na Rua Benedito Hipólito recebe uma roda de samba e resgata, com muita música, uma tradição afro-brasileira que se perdeu ao longo da história. Trata-se do Projeto Quilombinho, parceria entre o programa social Crescer e Viver e o grupo musical Terno de Cambraia. Além do show, são exibidos filmes e documentários e realizadas exposições relacionadas à cultura negra no Brasil. “A história do samba começa na Praça Onze. Para se ter uma idéia, no número 170 da Benedito Hipólito morou a Tia Ciata”, conta Ierê Ferreira, músico do Terno de Cambraia, referindo-se a Hilária Batista de Almeira, a baiana que reunia em sua casa compositores e malandros, como Donga, Sinhô e João da Baiana, para saraus musicais regados a muita bebida e tira-gostos. O encontro acontece toda quintafeira, a partir das 19h. Assim como no passado, para participar da festa basta chegar e entrar – somente a comida e a bebida consumidas são pagas.

foto: Ierê Ferreira

D

esde seu nascimento no final dos anos 70, o “b-boying” - ou breaking, como ficou mais conhecido por aqui - foi considerado morto inúmeras vezes. Na realidade, este elemento da cultura hip-hop está mais vivo do que nunca.

Estrelas

dão curso de teatro organizado pela Cufa por Sônia Apolinário / /

A

Central Única das Favelas (CUFA) inicia em agosto seu Curso de Teatro para Formação de Ator, na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. Para dar as aulas, foi escalado um time de estrelas como os atores Lázaro Ramos, Mariana Ximenes e José Wilker. O curso vai mostrar os vários aspectos da arte de encenar. Assim, estrelas que ficam nos bastidores também darão aulas, como a figurinista Biza Vianna e a atriz e diretora Guida Vianna, que também é professora de teatro do Tablado, um centro de referência para formação teatral no Rio de Janeiro. Completam o time do curso o cineasta Walter Lima Jr.; o diretor do Grupo Tá na Rua, Amir Haddad; o diretor da Escola Sated - Retiro dos Artistas, Cico Caseira; o palhaço, ator e diretor de produção do Teatro de Anônimo, João Carlos Artigos; e o ator cômico popular Marcio Libbar, idealizador do Mundo ao Contrário. Ele também foi um dos fundadores do Teatro de Anônimo, onde atuou por 18 anos. O curso vai até dezembro e é voltado para jovens com mais de 15 anos. As aulas serão realizadas aos sábados, das 9h às 12h, no Espaço Cultural Cidade de Deus. Para participar, o candidato terá que fazer uma entrevista com dia e hora marcados. O Espaço Cultural Cidade de Deus fica na Avenida José de Arimatéia, 90, ao lado do campo do lazer (prédio da Associação de Moradores).


por Sônia Apolinário / /

disputa o PAN

Filme carioca

vence festival Visões Periféricas por Rosilene Miliotti / /

A

velocista Rosângela Oliveira, de 16 anos, é a única atleta de um projeto de inclusão social da Prefeitura do Rio de Janeiro a disputar os jogos Pan-Americanos 2007, que acontecem em julho, na cidade. Ela participa da equipe brasileira que vai disputar o revezamento 4x100 m.

A

animação “Saci no Morrinho”, da ONG Morrinho, do Rio de Janeiro, recebeu o prêmio de melhor filme do festival Visões Periféricas, realizado em junho, no Rio de Janeiro. O evento é uma realização do Observatório de Favelas e conta com o apoio do Favela a 4 (F4), que reúne, além do Observatório, a CUFA, o grupo Nós do Morro e o AfroReggae.

foto: Alberto Jacob / Prefeitura do Rio de Janeiro

Nascida nos Estados Unidos, onde sua mãe ainda vive, Rosângela veio para o Brasil para morar com a tia em um conjunto habitacional no subúrbio carioca de Padre Miguel. Ela começou a treinar aos 9 anos, no Centro Esportivo Miécimo da Silva (Campo Grande) e, desde 2002, treina na Vila Olímpica Mestre André, no bairro onde mora. O centro esportivo fica localizado ao lado da Vila Vintém, uma das mais violentas favelas de Padre Miguel. Os tiroteios são constantes nas proximidades da vila. “Espero servir de estímulo para todas as comunidades. Quero ser um exemplo positivo aqui e mostrar que todos também podem ter sucesso”, disse Rosângela.

Rosângela na pista do Estádio Olímpico Municipal João Havelange

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Aluna de projeto social

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Os 34 filmes selecionados para a Mostra Competitiva foram exibidos, durante quatro dias, na Caixa Cultural e foram vistos por 1.300 pessoas. Ao todo, a produção recebeu 185 vídeos para seleção. Na categoria Crítica Social, o vencedor foi “Gritos da Alma”, produzido pelos alunos da oficina do Kinoforum, em São Paulo. Conta a história de um alfaiate, ex-presidiário, que escreve um livro de memórias e pensamentos iniciado durante o período em que esteve no Carandiru. O prêmio Retrato da Periferia foi para “Kahehijü Ügühütu, O manejo da câmera”, do Coletivo Kuikuro de Cinema, de Olinda (PE). No documentário, o cacique Afukaká, dos índios Kuikuro no Alto Xingú, fala sobre sua preocupação com as mudanças culturais da sua aldeia e o plano de registrar as tradições do seu povo. O vencedor da categoria Coisas Nossas foi “Campim”, realizado pelo grupo Cinema Nosso, do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. O trabalho foi o resultado do acompanhamento, durante um ano e meio, do cotidiano de moradores do Morro da Grota, que faz parte do Complexo, através do dia a dia do campo de futebol da favela. Receberam Menção Honrosa os filmes “Pare, Olhe e Escute”, do projeto Oficina de Cinema do ponto de Cultura Alice, Prepara o gato!, de Niterói, no Rio de Janeiro, e “A Música da Minha Vida”, do Instituo Marlin Azul, do Espírito Santo, produzido pelos alunos do projeto Ima.Doc

A

equipe masculina da Cufa conquistou o título da edição 2007 da Libbra (Liga Brasileira de Basquete de Rua). A final da terceira edição do evento foi disputada em 23 de junho, em Madureira, no Rio de Janeiro. O time carioca bateu os favoritos e bi-campeões And 1, de São Paulo, por 26 a 22. Como manda o figurino do basquete de rua, a decisão teve show de cravadas, pontes aéreas e belos lances de efeito. Leandro, eleito melhor jogador de toda a competição, estava em tarde inspirada e acertava tudo.

fotos: divulgação

Cufa e Red Nose são os campeões da versão 2007 da Libbra

Antes dos homens, as meninas entraram em quadra para jogar a decisão. Duas equipes paulistas disputaram o título. O Red Nose Negra 7 bateu o time do Assim que as Pretas Gostam por 19 a 15. Comandado pela habilidosa armadora Cristal, o Red Nose se impôs durante toda a partida. Ela foi eleita a melhor jogadora da temporada.

Campeão Cufa - Rio de Janeiro

Masculino

Vice-campeão And 1 - São Paulo

30 lugar Red Nose - São Paulo

Feminino

Ranking Final Libbra 2007 Campeão Red Nose - São Paulo

Vice-campeão Assim que as Pretas Gostam - São Paulo

30 lugar Fahe - Rio Grande do Sul

As paulistas do Red Rose Negra 7 venceram no feminino

O time campeão da Cufa


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Ol dum ensina

afro ra u lt u c a da d história na escola

por Sônia Apolinário / /

N

o Brasil, é obrigatório, por lei, o ensino da cultura e da história afrobrasileira nas escolas. Quem cumpre essa lei? Com certeza, a Escola Olodum, em Salvador (BA). E bem antes da existência da lei nº 10.639, que vigora há quatro anos. Esse trabalho pioneiro é um projeto social do Grupo Cultural Olodum que oferece apoio educacional complementar a crianças e jovens provenientes de famílias de baixa renda moradoras dos bairros vizinhos à instituição, que fica no Pelourinho. Pela Escola Olodum já passaram mais de 5 mil alunos. A grade curricular é formada por aulas de percussão, dança, empreendedorismo cultural, oficinas de produção de texto e leitura, coral afro e inclusão digital. Em paralelo, os jovens trabalham a questão da cidadania étnico-cultural por meio de workshops, seminários, ensaios das oficinas, produção de um jornal e campanhas de mobilização social. Atualmente, a Escola Olodum atende 340 crianças e adolescentes, na faixa etária de 7 aos 21 anos, matriculados em escolas públicas de Salvador. “Estimulamos o aluno a descobrir seus talentos proporcionando embasamento técnico para que possam elevar sua auto-estima, ter consciência de sua raça, ter contato com expressões artísticas de outros povos, despertando-os para sua história e experiências humanas, sociais e culturais. Queremos que eles sintam necessidade e ambicionem dominar conteúdos de outras disciplinas para que possam aprimorar suas expressões artísticas e transformem a realidade em que estão inseridos”, afirma a coordenadora da Escola Olodum, Mara Felipe. Ela conta que, inicialmente, o projeto visava atender a uma solicitação da comunidade dos bairros do Maciel e Pelourinho para que fosse formada uma banda de percussão integrada por crianças e adolescentes da região. Crianças que, segundo Mara, viviam em situação de risco e sem perspectivas de integração social por conta do estigma marginal que na época existia contra os moradores da área. O trabalho cresceu, a ponto de tornarse uma referência nacional e internacional e estimular o surgimento de iniciativas similares, como o AfroReggae. A Escola Olodum trabalha em sintonia com a escola formal em que seus alunos estão matriculados. Por conta desse relacionamento, um trabalho importante é o acompanhamento de seu

rendimento escolar. Mara observa que, apesar de tantas conquistas, a Escola Olodum ainda enfrenta dificuldades, como a falta de espaço e de recursos. Isso, porém, não impede o envolvimento do grupo em vários projetos, como a gravação de um CD com a banda mirim e o coral e a preparação do segundo volume da coleção Olodum Griot, sobre a Revolta da Chibata. Além disso, está em desenvolvimento o projeto de criação do Centro de Documentação e Memória do Olodum, onde funcionarão biblioteca, cinema, laboratório de informática, oficinas de confecção de instrumentos e um espaço para aulas de dança, percussão, canto e teatro. “Durante esses anos de atuação, percebemos que o que de melhor oferecemos é uma educação libertadora, que busca realizar suas atividades pensando em termos da coletividade e fundamentada numa prática afirmadora de princípios norteadores de uma educação cidadã”, diz Mara.

“Estimulamos o aluno a descobrir seus talentos proporcionando embasamento técnico para que possam elevar sua auto-estima, ter consciência de sua raça, ter contato com expressões artísticas de outros povos, despertando-os para sua história e experiências humanas, sociais e culturais”. Mara Fe lipe , coordenadora da Escola Olodum

Alunos desfilam no Olodum Mirim, durante o Carnaval, em Salvador

fotos: Cris Calacio

A história da cultura afro-brasileira é o destaque da Escola Olodum


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da Cooperifa u da Sara é referência cultural em São Paulo é referência cultural em São Paulo por Eliana de castro / /

Para eles, quem lê enxerga melhor, o livro é o melhor amigo do homem e poesia faz mais “estragos” que arma de fogo.

Q

uarta-feira à noite. Numa subida longa, próximo arrumar emprego. Hoje, dizemos: ao largo do Piraporinha, zona sul de São Paulo, moramos onde acontece o Sarau da um número significativo de pessoas procura o Cooperifa”, fala Sérgio Vaz. Bar do Zé Batidão. São rostos novos, às vezes pouco habituados com a periferia ou já conhecedores das O “paizão” dos freqüentadores, Vaz adversidades corriqueiras de uma comunidade. O acredita que os resultados da iniciativa desejo comum de todos? Conhecer “o tal” Sarau só aconteceram por ter conseguido, da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia). através da poesia, trabalhar a autoRealizado há seis anos, por iniciativa do poeta estima da comunidade. Sérgio Vaz, cerca de 300 pessoas se reúnem, toda quarta-feira, como em uma “Os jovens não foram data religiosa, para recitar, “Antigamente, mentíamos preparados para sonhar, “desabafar” e espalhar, através eles não vêem que o que sobre o lugar que das palavras, o desejo de se fazem é arte”, afirma Vaz. moramos para arrumar sentirem participantes de uma transformação positiva no lugar Ele escreve desde os 16 emprego. Hoje, dizemos: onde nasceram e cresceram. anos e tem cinco livros moramos onde acontece publicados. Há uns anos o Sarau da Cooperifa”. Tudo começou numa fábrica vendia seus livros de mão Sérgio Vaz abandonada, em Taboão da em mão. Reconhecimento Serra, sudoeste de São Paulo. bem-vindo, hoje tem O primeiro grupo, formado por 17 pessoas, usava seus títulos em livrarias e exibe com todas as formas de arte: teatro, dança, poesia e orgulho as peças que construiu com cinema, para expor seus sentimentos. A intenção o grupo. Além disso, em parceria era impactar, assim como aconteceu em 1922, com o Instituto Itaú Cultural, com a Semana de Arte Moderna. O que o grupo não lançou o CD Sarau da Cooperifa. esperava é que tudo aquilo se tornaria mais sério e São 53 autores registrados no teria um papel fundamental na formação acadêmica trabalho. Outra realização é o livro de seus participantes. Pessoas voltaram para a “Rastilho da Pólvora – Antologia escola, matricularam-se em faculdades e deram Poética do Sarau da Cooperifa”. início a projetos profissionais diversos. “Antigamente, mentíamos sobre o Para os freqüentadores, o evento lugar que moramos para é sagrado. Sales de Azevedo, 30 anos, motorista, sempre que tem uma viagem marcada para quarta-feira vai apenas depois do Sarau. Márcio Batista, 42 anos, professor de educação física, cofundador, olha para o passado e orgulhase de quantas pessoas cresceram intelectualmente e não abandonaram a comunidade.

fotos: Simão Salomão

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Sérgio Vaz, criador do sarau, declama poesia do seu livro

Folha de caderno, poesia feita. O importante é recitar

“Fazemos poesia com menos crases e menos vírgulas, mas é poesia da mesma forma”, orgulha-se Márcio, que lançará em julho o livro “Meninos do Brasil”. Até casamento já foi realizado no Sarau da Cooperifa. Um se fez de padre, outro de juiz, a noiva vestiu branco e as juras foram em forma de poesia. As histórias são inúmeras, como os versos criados. E o mais famoso deles é “Até que enfim é quarta-feira!”.

e menos crases com menos ma”. poesia for os a m m es aze m F “ poesia da é Márcio Batista, as m , vírgulas co-fundador da Cooperifa


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ela v fa v ezes Cinco mais uma vez

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por Veridomar da Glória / /

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á 45 anos, favela era um assunto fora do foco do cinema nacional. Isso mudou quando um grupo de cinco jovens universitários de classe média se juntou para transformar em realidade uma idéia que tinham na cabeça: mostrar o cotidiano dessas comunidades. O resultado foi “Cinco vezes favela”, filme que se tornaria um marco do Cinema Novo. Um dos jovens envolvidos no projeto era Cacá Diegues. Agora, ele vai atualizar seu antigo projeto, no papel de supervisor. Atrás da câmera, estarão jovens das próprias comunidades. “Cinco vezes favela, agora por eles mesmos” será escrita, dirigida e realizada por cineastas de favelas do Complexo da Maré, Vidigal, Cidade de Deus, Parada de Lucas e Lapa. Produzido pela Luz Mágica Produções, em co-produção com a Globo Filmes e Colúmbia do Brasil, o filme conta com o apoio doa AfroReggae, Central Única das Favelas (Cufa), Nós do Morro, Observatório de Favelas e Cinemaneiro. Compõem o filme cinco episódios de 20 minutos cada, que contam histórias das favelas do Rio. “Há alguns anos comecei a ter contatos com organizações sociais. Eu dava aulas, participava de palestras. Percebi que se filma cada vez mais nas comunidades de periferia. Com as facilidades tecnológicas, o cinema está cada vez mais ao alcance de todos. Existem muitos cursos e oficinas que geram uma produção grande de filmes e vídeos realizados na periferia pelos próprios moradores. Essa movimentação vai semear a próxima grande novidade do cinema brasileiro”, aposta Cacá Diegues. A produção do filme começou em janeiro, com o funcionamento de cinco oficinas de roteiro, coordenadas por Rafael Dragaud, cada uma delas instalada nas comunidades envolvidas no projeto. As oficinas reuniram 150 jovens. A partir daí, foram escolhidas as histórias que seriam produzidas e seus diretores. Esse grupo participará de uma nova rodada de oficinas, agora instalada no Centro do Rio. Dali sairão as equipes para os sets de filmagem, a partir do segundo semestre.

foto: Francisco Valdean

“Nós não vamos aceitar elogios porque somos pobres. Só podemos aceitar elogios pela qualidade do nosso trabalho”, afirmou Diegues.

Episódios selecionados Acende a Luz | argumento e direção de Luciana Bezerra, 32 anos, morada do Vidigal. Realizou curtas-metragens, entre eles, “Mina de Fé”, prêmio de melhor curta no Festival de Brasília, 2004. “Na véspera do Natal, o morro está sem luz e os técnicos chamados não conseguem resolver o problema. Um dos técnicos se torna refém da comunidade que não quer passar o Natal às escuras.”

Arroz com Feijão | direção de Rodrigo Felha, 27 anos, e Cacau

Amaral, 34 anos, ambos da Cufa. É deles a direção O clipe “Ataque Verbal”, da banda Baixada Brothers. O argumento é do jovem Zezé da Silva. “Wesley tem 12 anos e sonha dar ao pai, que só come diariamente arroz com feijão, um presente de aniversário inusitado: uma refeição de frango.”

Concerto para violino | argumento de Rodrigo Cardoso da Silva (Parada de Lucas). Direção de Luciano Vidigal, de 27 anos (Nós do Morro). Ele dirigiu o curta “Neguinho e Kika”, Prêmio Especial do Júri do Festival Internacional de Curtas do Rio de Janeiro 2005. “Jota, Pedro e Márcia cresceram juntos, numa mesma comunidade. Quando crianças, juraram amizade que, agora adultos com diferentes destinos, não têm mais como cumprir.”

Deixa voar | argumento e direção de Cadu Barcellos, 20 anos (Complexo da Maré). “A pipa de Flávio, de 17 anos, cai na favela de uma facção do tráfico rival à da sua comunidade. Obrigado a ir recuperá-la, ele descobre que as duas comunidades não são em nada diferentes uma da outra.”

Fonte de renda | argumento de Vilson Almeida de Oliveira. Direção de Manaíra Carneiro, 19 anos, e Wavá Novais, 23 anos (Cinemaneiro). “Maicon realiza seu sonho de passar no vestibular de Direito, mas agora precisa arranjar dinheiro para pagar seus estudos, livros e cadernos.”


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grife afroreggae: lançamento com estilo no maior evento de moda do país No encerramento, Afro Lata levanta a platéia do São Paulo Fashion Week m meio às mais famosas marcas do país, o Grupo Cultural AfroReggae (GCAR) lançou a sua grife, dia 14 de junho, no São Paulo Fashion Week. Com apoio da Natura, Banco Real, TIM e São Paulo Fashion Week, o novo projeto da instituição, que irá somar-se aos 72 já existentes, mostrou que pretende levar para o mundo da moda a mesma mensagem transmitida por intermédio das ações socioculturais que desenvolve no Brasil e no exterior, com a qualidade já reconhecida em todas as suas iniciativas. A grife nasce como mais uma alternativa na busca pela auto-sustentabilidade. Os recursos gerados pela venda das roupas de acessórios darão suporte para o incremento das estruturas internas, como os quatro núcleos instalados em comunidades populares do Rio, as diversas ONGs apoiadas pelo GCAR dentro e fora do país, a Banda AfroReggae, entre outras. Para desenvolver os 40 figurinos, o estilista Marcelo Sommer buscou inspiração nas roupas usadas nas comunidades cariocas, com influências do streetwear e do hip-hop. Tudo com muito conforto. Peças bem amplas para eles, como bermudões e camisas, e bem justas para elas, como leggings e tops, em te­cidos como sarja, malha, algodão, lycra e jeans, que estarão à venda em cerca de 30 multimarcas em todo o Brasil. "Criamos uma coleção capaz de despertar desejo em qualquer público, não só no segmento negro ou hip-hop. A linha é abrangente, atende a múltiplos gostos, sem preconceito", afirma Sommer. Para José Junior, coordenador-executivo do AfroReggae, a grife tem o estilo "fa­ vela chique". "É uma favela feliz, bem-vestida, pra cima", diz Júnior. Com direção de arte de Gringo Cardia, o desfile da grife levou para o palco do auditório Ibirapuera uma explosão de cores. No cenário multicolorido, dez bonecos no estilo toy art inspirados nos moldes novaiorquinos, por entre os quais os modelos desfilaram. Com tamanhos que variavam de 0,70m a quatro metros de altura, a arte foi produzida pelo grafiteiro Raffo, responsável pelos moldes e pela pintura dos simpáticos monstrinhos. Ainda sob os aplausos entusiasma­ dos da platéia que lotou o tea­tro, o AfroReggae encerrou o lan­ça­mento da sua grife pro­vocando uma nova surpresa no público. Os integrantes do Afro Lata, que durante todo o desfile permaneceram cobertos por uma capa preta e ocuparam a primeira fila do auditório, livraram-se da indumentária e fizeram ecoar o

foto: Ierê Ferreira

fotos evento: Simão Salomão

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fotos evento: Simão Salomão

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No encerramento do desfile, o AfroLata levantou a platéia

seu batuque contagiante pelo auditório Ibirapuera. Pouco acostumados a presenciar manifestações de arte vindas das favelas, os espectadores se mostraram maravilhados com a explosão de sons tirados de latas, latões e caixas de isopor pelos garotos de Vigário Geral. Difícil foi ficar parado e não se deixar

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ntes mesmo de começar o desfile, a grife AfroReggae já havia entrado para a história da moda ao anunciar um casting 100% negro. Entre os 32 homens e mulheres que vestiram as criações do estilista Marcello Sommer havia modelos profissionais, como Marcello Silva, também vocalista da banda Dughetto, que abriu o show da cantora americana Lauryn Hill no Rio. Outros eram estreantes vindos de comunidades cariocas, selecionados pela diretora de elenco Nêga, da agência Estilo Social Clube. Um dos

levar pela energia contagiante do grupo regido por Altair Martins, coordenador Afro Lata. Além de convidados e jornalistas do mundo todo, o desfile teve na platéia a presença do governador de São Paulo José Serra, que jamais havia comparecido a um evento de moda. "Gostei, achei bonito, uma moda simples

O governador de São Paulo, José Serra - entre Sommer (à esquerda) e José Junior -, só foi a um desfile: o do AfroReggae

e criativa", elogiou Serra para, em seguida, admitir: "Eu já conhecia o projeto deles e tinha uma grande curiosidade para ver como ia sair essa marca". A contar pela reação dos especialistas em moda e pela impressão deixada no lançamento, a grife tem tudo para brilhar no mundo fashion. "Era o momento mais aguardado do

SPFW, todos nós estávamos ansiosos para ver como seriam as criações. O que vimos no palco correspondeu às nossas expectativas, foi um desfile bárbaro", elogiou Cristine Niklas, apresentadora do Jornal do GNT, durante a entrevista com Junior logo após o desfile. Palavra de quem entende do assunto.

mais empolgados era o também debutante Anderson Sá, vocalista da banda AfroReggae. Habituado com o brilho dos holofotes, Anderson estava à vontade, feliz com a nova experiência e também com o atual momento da banda que, no final do mês de junho embarcou para a Europa para fazer a segunda turnê internacional da banda AfroReggae, com apresentações no Festival de Hannover, na Alemanha, e no Barbican Center, em Londres.

Anderson Sá, da Banda AfroReggae, estréia nas passarelas

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a véspera do lançamento da grife no São Paulo Fashion Week, a Banda AfroReggae apresentou o show “Nenhum Motivo Explica a Guerra” no mesmo auditório Ibirapuera onde foi realizado o desfile. Em uma parceria com a TIM e com o patrocínio de Natura, Banco Real e São Paulo Fashion Week, o evento reuniu patrocinadores e convidados. O grupo abriu o espetáculo com “A Mosca”, de Raul Seixas. Também fizeram parte do repertório músicas do CD, como “Quero só você” e “Tô

bolado”, e versões dos hits “Haiti” e “Vamos fugir”. A banda recebeu no palco o rapper paulista Rapin´ Hood e o guitarrista colombiano César López, com sua escopetarra. No encerramento, a Banda 190, formada por policiais militares do estado do Rio de Janeiro, e a Banda AfroReggae emocionaram os espectadores com a versão de “Imagine”, de Jonh Lennon, que faz parte do projeto “Make Some Noise”, da Anistia Internacional, cujo CD está para ser lançado.

Rappin’Hood, Dinho, Anderson e LG: um grande show no São Paulo Fashion Week


completa quatro anos de sucesso em Belo Horizonte

fotos: Omar Freire

por bruno morais / /

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uando você pensa num policial militar, qual imagem lhe vem à cabeça? Quem respondeu homens fardados sisudos e com pouca (ou nenhuma) afinidade com os moradores de periferia precisa conhecer algumas comunidades de Belo Horizonte. Desde 2004, com a implementação do projeto Juventude e Polícia na capital mineira, a resposta tem sido “um instrutor de oficinas culturais e amigo da comunidade”. O projeto que busca estabelecer um diálogo de aproximação entre os policiais e os jovens foi uma idéia do Grupo Cultural AfroReggae, que tem como parceiros o CESeC (Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, do Rio de Janeiro), o Governo do Estado de Minas Gerais e a Polícia Militar de Minas Gerais. Na implantação contou também com o apoio da Fundação Ford. Este ano, estão envolvidos no projeto 30 policiais e 320 jovens das comunidades de Morro das Pedras, Ventosa, Alto da Vera Cruz e Taquaril. O J&P foi inicialmente pensado para o Rio de Janeiro. O governo do estado, na época, não se interessou. Quem aceitou a idéia foi o Secretário Adjunto de Defesa Social do Governo do Estado de Minas Gerais, Luiz Flávio Sapori. O processo de instalação do programa, no 22º BPM-MG, não foi simples. O presidente do AfroReggae e instrutor de percussão, Altair Martins, admite que o início foi difícil para

os dois lados e só funcionou porque ambos se esforçaram para superar preconceitos. “No primeiro dia, em meia hora de oficina, pude perceber que a gente podia trabalhar com qualquer público em qualquer lugar do mundo. Para mim, aquele público seria o mais complicado porque os policiais eram pais de família, pessoas com conflito com jovens da minha idade, e eu temia que eles não respeitassem nem a mim nem às orientações dadas por mim dentro do projeto”, conta Altair. Ele lembra que os policiais tocavam armados, fardados e dentro do batalhão. Com o tempo, o mesmo espaço onde aconteciam as ações policiais se transformou num lugar diferente pra os policiais, “que chegavam com alegria, felicidade e vontade de aprender”. Logo uma banda foi formada. “Eu fiquei assombrada como a relação cara a cara entre os jovens e a polícia podia operar verdadeiros milagres. Uma única tarde de oficinas valia por 10 aulas intensivas de direitos humanos”, resume a coordenadora do CESeC, Sílvia Ramos. Em maio de 2007, o projeto completou quatro anos mantendo as oficinas de percussão, circo, teatro, grafite e basquete para os jovens. Além disso, os policiais recebem um reforço pedagógico, por meio de uma habilitação teórica em temas como psicopedagogia, prevenção de drogas e sexualidade. A credibilidade do projeto junto à Polícia Militar só vem aumentando, como comprovam as pesquisas feitas pelo CESeC. Em 2005, apenas 58% dos policiais entrevistados O prefeito de BH, Fernando Pimentel (à esquerda), e os governadores de Minas, Aécio Neves, e do Rio, Sérgio Cabral, em visita ao projeto

Comunidade e polícia: integração possível

achavam que o projeto contribuía para aproximar jovens e polícia. No último levantamento, feito em 2007, esse índice passou para 73%. Para o coordenador do projeto, Betho Pacheco, a capacitação teve um saldo positivo nas atividades. “Sempre buscamos as melhorias na relação do jovem também com suas famílias, o que dá amplitude, mudando suas vidas em diversos contextos”, diz Betho.

“Eu fiquei assombrada como a relação cara a cara entre os jovens e a polícia podia operar verdadeiros milagres. Uma única tarde de oficinas valia por 10 aulas intensivas de direitos humanos”. Sílvia Ramos, coordenadora do CESeC

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Juventude e Polícia Belo Horizonte

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Transferência de tecnologia social para ninguém precisar inventar a roda por Sônia Apolinário / /

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uitas ONGs promovem projetos sociais sérios e relevantes para suas comunidades, mas não conseguem apoio logístico ou financeiro. Várias fecham as portas e deixam para trás anos de experiências – e esperanças. Para tentar evitar que processos desse tipo continuem, o Grupo Cultural AfroReggae passou a apoiar projetos em diferentes estados do país. Em julho, o GCAR começa sua primeira experiência internacional de transferência de “tecnologia social” para o grupo colombiano Son Bathá. No Brasil, contam com o apoio do AfroReggae os projetos Canta Brasil (RS), NUC (MG), Fábrica da Criatividade (SP) e Majê Mole (PE). “Levamos metodologia administrativa e gerencial para os grupos para que ninguém precise ficar o tempo todo inventando a roda”, explica o coordenador de Parcerias Institucionais do AfroReggae João Madeira.

João sabe muito bem sobre o que está falando. Durante muitos anos, ele foi o responsável pela liberação de patrocínios de multinacionais como Shell e Coca-Cola. Daquele “lado do balcão”, como gosta de falar, ele percebia a “fragilidade dos projetos”. Mas percebia, também, o potencial de muitos deles. Daí para ser voluntário do Nós no Morro e se transferir para o AfroReggae foi “um pulo”. Há dez anos, João trabalha do outro lado do balcão. Além de ajudar a implantar modelos de gestão, o GCAR pode apoiar outros grupos levando suas oficinas de teatro, dança, grafite, percussão e circo. Dentro desse trabalho, também faz parte a articulação de apoios provenientes de pessoas ou empresas, de todo o país. A maioria das pessoas quer ensinar o que sabe, não necessariamente doar dinheiro. Conhecimento é algo muito precioso também”, afirma João.

Canta Brasil e NUC recebem apoio há três anos. Fábrica da Criatividade há dois anos e Majê Mole há um ano. Apoiá-los foi idéia do coordenadorexecutivo do GCAR, José Junior que percebeu naqueles grupos um processo semelhante ao vivido pelo AfroReggae, no seu começo. “ONGs geralmente são formadas por malucos do bem que querem doar o que sabem e podem para a sociedade. Geralmente, falta à maioria desses projetos uma retaguarda, fornecida por uma estrutura administrativa e de gestão. Isso também aconteceu conosco. Mas conseguimos detectar isso e, há cinco anos, montamos essa estrutura para poder crescer. Agora, que nos encontramos em um momento melhor, estamos doando conhecimento e dando um pouco de apoio financeiro para quem está precisando”, explica João. Mas, quando essa novidade “veio dar na praia”, muita gente passou a bater na porta do GCAR. Somente no mês de junho, foram 16 pedidos. A maioria, segundo João, quer que o grupo se instale nas suas comunidades. Isso, avisa ele, o AfroReggae não faz e nem fará porque “não se trata de uma franquia”. Na sua avaliação, se o grupo se afastar do Rio “abre o foco, dispersa e enfraquece” o trabalho.

Além de ajudar a implantar modelos de gestão, o GCAR pode apoiar outros grupos levando suas oficinas de teatro, dança, grafite, percussão e circo. Dentro desse trabalho, também faz parte a articulação de apoios provenientes de pessoas ou empresas, de todo o país.

foto: Ierê Ferreira

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Os que não querem a “franquia” podem receber apoio desde que o projeto seja voltado para crianças e adolescentes de famílias de baixa renda moradores de comunidades violentas. João conta que a fragilidade administrativa das ONGs sociais faz com que seus responsáveis tenham dificuldade em captar recursos por não saberem desenvolver e apresentar projetos, nem fazer prestações de contas. É isso que o GCAR ensina, capacitando pessoas das próprias ONGs. Integrantes do NUC: Negro F, DJ Francis, Renegado e Dani Crizz


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foto: Chico Junior

Sobre os projetos apoiados pelo AfroReggae

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Canta Brasil | Oficinas de canto e balé clássico nos colégios do bairro de Mathias Velho, em Canoas, Rio Grande do Sul. Atende 350 crianças.

Fábrica de Criatividade | Projeto que visa a estimular, por meio da arte e da cultura, o potencial artístico de crianças, adolescentes e jovens de Capão Redondo, em São Paulo. Majê Molê | Balé afro formado apenas por meninas. Além da dança, tem escola O grupo de Medellín tem como influência musical a chirimia, estilo que mescla vários ritmos da costa do Pacífico colombiano

No exterior Em abril, o GCAR foi à Colômbia. A viagem, patrocinada pela fundação Avina, tinha como objetivo a troca de conhecimento entre as realidades dos dois países. Lá, foram apresentados aos músicos que integram o Son Bathá (que significa “o som do tambor”). Originado há cinco anos na Comuna 13, uma das favelas mais violentas de Medellín, o grupo é formado por jovens da comunidade e tem como principal influência musical a chirimia – estilo que mescla vários ritmos musicais na costa do Pacífico. Composto por oito integrantes, o grupo nasceu da necessidade de protestar contra a violência gerada pelo enfrentamento armado entre as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), o Exército e os paramilitares.

de percussão que atende 100 crianças e jovens do Bairro de Peixinhos, em Olinda, Pernambuco.

NUC - Negros da Unidade Consciente | Começou como uma banda de rap. Agora é a ONG Grupo Cultural NUC, que atua para criar oportunidades de desenvolvimento para jovens do bairro de Alto Vera Cruz, em Belo Horizonte. Son Bathá | Grupo musical da Comuna 13, uma das maiores favelas de Medelín,

na Colômbia.

O coordenador-geral do Canta Brasil Rubielson Medeiros com integrantes do projeto

Pelo acordo firmado entre os dois grupos, o AfroReggae vai oferecer, durante um ano, uma bolsa-auxílio aos 21 jovens integrados no projeto. Eles também receberão aulas de português e oficinas de música e expressão corporal, levadas para lá por integrantes do AfroReggae. O auxílio financeiro começou em julho, mês em que estava previsto a vinda para o Brasil dos dois líderes do Son Bathá, John Jaime e John Fredy, além de Ivan Ramírez, coordenador do projeto. Aqui, visitam os núcleos do AfroReggae para conhecer melhor o trabalho e as atividades desenvolvidas. Em setembro, três integrantes do GCAR irão para a Colômbia para ver como o trabalho está sendo implantado. “O mais importante que vamos fazer é dar consultorias, idéias. As aulas de música serão feitas com professores dos bairros deles. Nós não queremos implantar um AfroReggae lá, mas ajudá-los a crescer, ajudá-los a encontrar o caminho deles. No futuro, vamos tentar encaminhá-los para patrocinadores. Tudo isso é novo para nós. Vamos aprender muito com esse processo. Quem sabe, no futuro, eles se tornam nosso parceiro musical. Podemos até vir a gravar um CD juntos”, informa Damian.

foto: Mila Petrillo

“Dar apoio a eles foi uma decisão quase que intuitiva do José Junior. A Comuna 13 lembra o Complexo do Alemão e a Rocinha, no Rio. O grupo trabalha com música tradicional colombiana com percussão, metais e sopros. Percebemos que tinham uma atitude e um perfil semelhante ao nosso. Nós aprendemos muito, até agora, e vamos facilitar o caminho deles”, conta o Coordenador de Parcerias Internacionais Damian Platt.

Majê Molê na língua africana yorubá significa “crianças que brilham”


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Banda Banda

gira pelo m mundo. undo. AfroReggae eggae R Afro E faz sucesso!

foto: Steff Langley

por Sônia Apolinário / /

Em dois dias, 2.600 pessoas assistiram ao show da Banda AfroReggae no Barbican Center, Londres

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uropa, América do Norte e Ásia. Nesses três “cantos” do mundo, a banda AfroReggae cumpre uma agenda de shows iniciada em junho e que só termina no final do ano. A passagem por Londres rendeu ao grupo uma crítica no jornal The Independent com a cotação máxima de cinco estrelas dada ao espetáculo. Já o jornal The Guardian disse que o AfroReggae “apresentou um show profissional e multimídia, digno de uma banda de rock cara”.

a diante a experiência do grupo em mediação de conflitos e ações culturais em zonas de conflito. Os integrantes da banda se dividiram entre várias escolas onde deram oficinas de percussão e palestras, sendo que Anderson, LG e Paul fizeram palestra na London Scholl of Economics. Johayne Hildefonso ainda deu aula de teatro na Swanlea School e participou de um seminário com educadores, apresentado pelo pesquisador inglês Paul Heritage.

Em alguns lugares por onde passou, o grupo também participou de projetos sociais, como em Hannover, na Alemanha, primeira escala da banda. Lá, três dos seus integrantes (Betho, Luciano e Juninho) deram, durante uma semana, oficina de percussão para jovens e policiais. A atividade reuniu 30 pessoas. O resultado foi tão bom que a atividade acontecerá novamente no próximo ano.

Em agosto, o grupo segue para os Estados Unidos e Canadá. No dia 5, se apresenta no Central Park, em Nova York, na abertura do 5º Festival de Cinema Brasileiro. É o início de uma turnê de nove shows do espetáculo “Nenhum Motivo Explica a Guerra” que passará pelas cidades de Boston, Canvas, San Diego, Los Angeles e Toronto, no Canadá. A temporada norteamericana vai até o dia 20 de agosto.

“Eles quiseram repetir nosso projeto Juventude e Polícia. São realidades diferentes e, portanto, a origem dos problemas relacionados com a violência é diferente, mas a dificuldade de integração entre jovens e a polícia é a mesma”, explica Paula D’Arienzo, produtora da banda AfroReggae.

Em outubro, o grupo viaja para a Índia para implantar oficinas em favelas de Nova Delhi. Uma parte deixará o trabalho para dar um “pulinho” em fotos: Bettina e Frank Boyer Macau, cidade chinesa de colonização portuguesa. Lá, no dia 27, a banda se apresenta no Festival de Música local a convite do Ministério da Cultura da região. Depois, de volta à Índia. O retorno ao Brasil será em novembro.

Integrantes da orquestra de policiais de Hannover não apenas participaram da oficina de percussão como tocaram “Imagine” junto com o AfroReggae, no encerramento dos shows. As apresentações aconteceram nos dias 19 e 20 de junho, no teatro Schauspielhause, dentro da programação do Festival de Hannover.

“Aqui os professores não tocam nos alunos e os alunos são malcriados. Fui logo tocando e chamando atenção também. Aos poucos, a oficina foi um sucesso”, conta Johayne Hildefonso, coordenador da trupe de teatro AfroReggae.

Da Alemanha, o grupo seguiu para a Inglaterra. Nos dias 28 e 29, ocuparam, pelo segundo ano consecutivo, o palco do Barbican Center, em Londres, onde se apresentaram, a cada dia, para uma platéia de 1.300 pessoas. “O Barbican é um dos teatros mais famosos do mundo e se apresentar ali dá um friozinho na barriga. Foi maravilhoso ver aquele teatro lotado, com todas as pessoas em pé, dançando”, conta. A temporada inglesa serviu, também, para o grupo dar continuidade às ações desenvolvidas no ano passado no bairro de Hackeney. Dessa vez, o AfroReggae formou 20 multiplicadores que passarão

Oficina de percussão em Hannover


fotos: Chico Olliveira

por Sônia Apolinário / /

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rmas poderosas estão chegando às mãos de mulheres em várias comunidades do Rio de Janeiro por intermédio do AfroReggae. São “carregamentos” de batons, blushes, rímel, sombras, lápis e corretivos que abastecem as oficinas de automaquiagem realizadas pela Natura. Cerca de 100 mulheres de Vigário Geral e do Complexo do Alemão participaram da oficina. As próximas comunidades a experimentar a novidade serão Paradas de Lucas e Cantagalo. “O objetivo é proporcionar um novo olhar sobre si mesmo”, conta a gerente de sustentabilidade da Natura Susy Yosimura. Antes mesmo da parceria firmada com o AfroReggae, as promotoras de vendas da Natura já realizavam,

voluntariamente, oficinas de automaquiagem em nove regiões do Brasil. Essa é uma forma de, a partir de um conhecimento utilizado na sua atividade profissional, contribuir para o autoconhecimento e valorização de cada um. “A proposta da oficina de maquiagem não é distorcer ou mudar as características das participantes. Ao contrário, é para mostrar como cada um tem sua própria beleza, que precisa ser observada e ressaltada, tanto a externa como a beleza interna”, diz Susy.

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Maquiagem leva alto astral a mulheres de comunidades

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Às vezes, as mulheres não se dão conta do que são capazes. Quem não acredita que tanta coisa possa mudar por causa de uma maquiagem, recomendo que façam uma oficina. Só vendo para acreditar a diferença que faz”, diz Roberta.

“O objetivo é proporcionar um novo olhar sobre si mesmo”.

Segundo ela, é comum, no início da oficina, as pessoas Susy Yosimura se sentirem acanhadas. No final, porém, “o bem-estar é contagiante”. Quem confirma isso é Roberta Lopes, de 25 anos. Promotora da Natura, ela mora Moradoras do Complexo do Alemão na oficina da Natura no Complexo do Alemão. Participou da oficina de automaquiagem e já deu dois cursos de maquiagem para mulheres da região. “A mulherada adorou a oficina. A maquiagem dá uma levantada e muitas já estão usando no dia-a-dia.


por Sônia Apolinário / /

filme premiado projeto social dá origem origem a projeto “O filme precisava da verdade de meninos que tivessem contato com esse tipo de realidade. Por isso, fui em busca deles, mas precisei prepará-los para as filmagens”. Carlos Cortez - diretor

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Maxwell Nascimento como Querô

o começo, era apenas a produção de um filme com locações em Santos, litoral de São Paulo. Quatro anos depois, essa história termina com a implantação de um projeto social que rende frutos, mesmo depois de encerradas as filmagens. No meio disso, “Querô”, filme que chega aos cinemas no dia 10 de agosto colecionando prêmios em festivais, principalmente para seu protagonista, Maxwell Nascimento, de 16 anos, que nunca tinha trabalhado como ator. Encontrar Querô e a grande maioria dos jovens que iriam fazer parte do elenco foi a origem de tudo.

A história é baseada no livro de Plínio Marcos, “Uma reportagem maldita (Querô)”, escrito em 1976 e ganhador do prêmio de melhor romance de 1976 pela Associação dos Críticos de Arte de São Paulo. Na trama, Querô é filho de uma prostituta , interpretada por Maria Luisa Mendonça. Órfão, passa a viver com uma mulher que o maltrata (Ângela Leal), por isso, decide viver sozinho na zona

portuária de Santos. Ele tenta fugir da marginalidade, mas acaba interno na Febem e, mesmo depois de uma fuga, não consegue evitar um destino trágico.

foto: Leonardo Farreira

Em Santos,

Oficinas Querô Assim, em 2005, surgiram as Oficinas Querô – Empreendedorismo e Cidadania através do Cinema, um programa de capacitação em produção audiovisual. A cada semestre, o grupo de 40 jovens realiza filmes de curta-metragem orientados por grandes profissionais do audiovisual brasileiro. Eles se dedicam a todas as fases que uma produção profissional exige, desde sua idealização, desenvolvimento de roteiro, planejamento, elaboração de projeto executivo até sua viabilização financeira, produção, finalização e lançamento público. Complementam as atividades, oficinas de informática, de expressão verbal, de gestão e administração, de cidadania, além de passeios culturais.

“O filme precisava da verdade de meninos que tivessem contato com esse tipo de realidade. Por isso, fui em busca deles, mas precisei prepará-los para as filmagens”, explica o diretor Carlos Cortez. Ele reuniu 1200 jovens de famílias de baixa renda, entre 13 e 20 anos, moradores de Santos, São Vicente, Cubatão e Guarujá. Desses, escolheu 200 para fazer oficinas. Dalí, selecionou 40 para o filme. Antes de entrarem no set, foram 18 semanas de preparação. No último dia de filmagem, a choradeira tomou conta de todos. Carlos conta que havia, por parte da produtora Gullane, a vontade de continuar a fazer algo com aquele grupo. Os parceiros do projeto (Sesc, Prefeitura de Santos, Universidade Católica, Associação Mãos Dadas e Unicef) foram decisivos para que as oficinas continuassem.

foto: divulgação

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Este ano, a novidade fica por conta da iniciativa de dez integrantes das oficinas de criar uma produtoracooperativa para reproduzir as oficinas para internos da Febem de Guarujá e São Vicente. O projeto conta com o apoio da Unisantos e do Sebrae. “Durante muito tempo, houve uma grande dependência da nossa produtora. Agora, os parceiros estão assumindo ainda mais o projeto e os jovens estão mais seguros. Se a gente sair, o projeto tem todas as condições para continuar. Essa autonomia é muito importante”, afirma Carlos.

Último dia das oficinas, reunidos na frente da cadeia velha de Santos, transformada em Oficina Cultural Pagu


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Não jogue

. ralo no sado u óleo de cozinha por Rosilene Miliotti / /

Jogue no

bolso

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foto: A.F. Rodrigues

maioria das pessoas despeja o óleo de cozinha usado na pia ou no lixo. Quando isso acontece, está indo pelo ralo matéria-prima para produção de energia. De quebra, rios e lagoas recebem uma grande quantidade de poluição. Agora, porém, é possível transformar esse lixo doméstico e comercial em renda. Em abril foi lançado, no Rio de Janeiro, o Prove (Programa de Reaproveitamento de Óleo Vegetal), uma iniciativa da Secretaria Estadual de Ambiente que visa reaproveitar esse material para a produção de biodiesel. O produto é levado para a Refinaria de Maguinhos para ser transformado em biocombustível e também aproveitado como matéria-prima para fabricação do sabão. A Refinaria de Manguinhos paga aos catadores de R$ 0,50 à R$ 0,60 por litro de óleo. Atualmente, 25 cooperativas de catadores já participam do projeto, coletando óleo de cozinha usado em vários pontos da cidade.

foto: Andrea Andion

“Ao invés de jogar o óleo usado fora, as pessoas podem armazená-lo em garrafas pet com tampa e, depois, entregar para as cooperativas de catadores de material reciclável. Não é necessário coar o óleo. Assim, você transforma poluição em energia limpa e gera emprego e renda”, explica o secretário estadual de Ambiente, Carlos Minc.

O coordenador da Escola de Artes do Circo Voador, Jorge Teixeira, e o secretário Carlos Minc

O diretor industrial da Refinaria de Manguinhos, Fernando César Barbosa, informa que cada litro de óleo de cozinha usado despejado em pias pode poluir um milhão de litros de água de rios e lagoas. Com o Prove, Minc espera que 4,5 milhões de litros de óleo deixem de ir para os ralos.

O biodiesel produzido com esse material vai permitir, segundo o secretário, que o Rio de Janeiro seja o primeiro estado a elevar de 2% para 5% a quantidade de biodiesel a ser misturada ao combustível de ônibus e caminhões. Com isso, o Rio de Janeiro também vai diminuir sua poluição atmosférica e ajudar no combate ao efeito estufa. Estabelecimentos comerciais que participam do programa recebem um certificado de apoiador do Prove. Recentemente, o Circo Voador recebeu seu certificado. Nesse pólo cultural localizado na Lapa, bairro boêmio do Rio, serão coletados cerca de 30 litros de óleo usados por semana - essa quantidade inclui a contribuição dos funcionários que estão trazendo o produto de casa.

foto: Andrea Andion

Para ampliar os pontos de recebimento de óleo usado, o Prove está montando pontos de coleta na orla da capital e em redes de supermercados. “Estamos estudando a possibilidade de oferecer para o consumidor um litro de óleo de cozinha cru para cada cinco litros do produto usado que for entregue. É uma forma de estimular a população a colaborar com a preservação do meio ambiente”, disse Minc.

“Ao invés de jogar o óleo usado fora, as pessoas e, podem armazená-lo em garrafas pet com tampa depois, entregar para as cooperativas de catadores coar o de material reciclável. Não é necessário óleo. Assim, você transforma poluição em energia limpa e gera emprego e renda”. Carlos Minc Para levar o projeto para interior do estado, será inaugurada uma segunda usina de reaproveitamento de óleo vegetal em Resende, na Região do Médio Paraíba.

É só ligar Para ter o óleo de cozinha usado recolhido é só ligar para o Disque-Prove, no telefone (21) 2598-9240. O endereço para a coleta será encaminhado para a cooperativa mais próxima. A coleta é feita a partir de um litro de óleo usado armazenado. Algumas sedes de cooperativas de catadores de óleo ficam no Complexo da Maré, em Olaria, na Ilha do Fundão (Ilha do Governador), em Niterói e em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Pelo

Disque-Prove também é possível obter informações para a criação de cooperativas de catadores de óleo. Coleta de óleo. Cada litro pode render até 60 centavos


Anarriê! Anarriê!

Festas da Maré garantem a tradição da dança de quadrilha

Uma das festas mais típicas do Brasil mantém sua tradição na Maré, complexo de favelas do Rio de Janeiro. Para celebrar São Pedro, Santo Antonio e São João, moradores da comunidade se arrumam com enfeitados vestidos de chita e camisas quadriculadas para dançar quadrilha. As apresentações, em junho e julho, atraem um público de cerca de 400 pessoas a cada final de semana. Junto com a dança, barraquinhas de comida e bebida formam uma das quermesses mais animadas e esperadas da região. Grande parte dessa animação é garantida pelo grupo Mocidade Show. Criado há três anos na comunidade da Baixa do Sapateiro, é formado por 14 casais com idades entre 9 e 14 anos. Eles se apresentam para a comunidade e também participam de competições de quadrilhas na categoria mirim. Para isso, começam a ensaiar em março. Um dos responsáveis pelo grupo é Alexandre Pichetti, de 29 anos. Ele conta que a estrutura das quadrilhas de salão, como são chamados os grupos que participam de competições, funciona como uma escola de samba, com muitas pessoas envolvidas na confecção de cenários e alegorias. Na competição, quesitos como evolução e concentração também valem ponto. “A partir de junho, nos apresentamos em até três festas diferentes por final de semana.”, conta Pichetti que, este ano, desenvolveu para o grupo o enredo “Países uma maravilha, um encontro, uma riqueza”.

Quem só quer saber de diversão é a quadrilha do Arraiá da Paz, no Parque União. O grupo foi criado em 1998 por Ernani Viveiros, com pessoas de mais de 30 anos. É formado por 30 casais. “Nas primeiras apresentações, a empolgação foi nota dez. Pessoas da comunidade passavam por mim e parabenizavam o grupo e isso rendeu convites para dançar em outros lugares. Enquanto tiver festa e as pernas obedecerem, vamos dançar onde nos chamarem”, diz Ernani.

por rosilene miliotti / /

fotos: A.F. Rodrigues

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Grupo de Dança Mocidade Show do Morro do Timbau

Seu irmão Emerson, pesquisador da influência da cultura nordestina na Maré e catequista há cinco anos na Paróquia Nossa Senhora da Paz, no Parque União, avisa que caso alguém não consiga entrar na quadrilha por falta de tempo para ensaiar, pode participar do “Cata-Cata”. “É uma quadrilha onde a ordem é brincar usando roupas extravagantes”, explica Emerson.

Anarriê As quadrilhas são o espetáculo por excelência das festas que celebram os santos do mês de junho: Antônio, João e Pedro. Foram trazidas para o Brasil pelos portugueses que chamavam a festa de São João de “joanina”. O formato das festas como conhecemos atualmente é formada por influências culturais de vários países. Da França, veio a dança marcada, a quadrilha, que tem raízes nas contradanças inglesas e só era executada pela nobreza. Já a tradição de soltar fogos de artifício veio da China. De Portugal e Espanha, veio a dança de fitas. Todos estes elementos culturais foram, com o passar do tempo, misturando-se aos aspectos culturais do Brasil. Os índios contribuíram com as comidas à base do milho como pamonha, canjica e bolo de fubá. Já os povos afros acrescentaram os ritmos do forró, boi-bumbá e o tambor-decrioula. A população rural criou coreografias em agradecimento aos santos juninos pelas boas colheitas da roça.

No Cata-cata entra qualquer um e a diversão corre solta

Mais informações sobre a competição das quadrilhas do Rio de Janeiro no Site:

www.ueraquerj.blig.ig.com.br


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fotos: Thaisa Araujo

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Boxe na favela Violência vai a nocaute em projeto no Complexo da Maré por Sônia Apolinário / /

B

oxe, luta livre e capoeira muitas academias ensinam para jovens. Poucas oferecem, também, aulas sobre cidadania e resolução pacífica de conflitos. Somente uma se tornou um projeto social reconhecido internacionalmente a ponto de ganhar um prêmio tido como o Oscar do esporte. É nessa categoria que se encontra o Centro Esportivo e Educacional Luta Pela Paz, que funciona, há sete anos, no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro. O projeto foi criado pelo inglês Luke Dowdney, vencedor do Laureus Sport 2007. Aos 34 anos, ele está prestes a levar a experiência brasileira para a Inglaterra, África do Sul e Colômbia. São realidades diferentes, mas o objetivo é comum: oferecer opções a jovens moradores de comunidades violentas. “Nós não mudamos a vida de ninguém. Quem muda a vida é o indivíduo. O que nós fazemos é oferecer oportunidades”, diz Luke. O interesse desse inglês pelo Brasil começou na década de

80, quando sua madrasta se mudou para São Paulo, por conta do trabalho para a Anistia Internacional. Naquela época, ele fazia mestrado em Antropologia Social na Universidade de Edimburgo, na Escócia, onde já era um boxeador amador respeitado. Para fazer sua tese, resolveu trabalhar como voluntário em algum projeto social que tivesse como foco crianças de rua. Foi aceito pela ONG Grupo Ruas e Praças, de Recife, para onde se mudou em 1995. Oito meses depois, tese concluída, Luke partiu para o Japão, onde participaria de torneios de boxe. Um problema de saúde o afastou dos ringues. O que fazer? Voltar para o Brasil, mas, agora, para o Rio de Janeiro, cidade que tinha curiosidade de conhecer. Na Cidade Maravilhosa, descobriu “as pessoas mais carinhosas do planeta”,

A academia tem capacidade para cem alunos e vive lotada desde o seu primeiro dia. É aberta para rapazes e moças


“Em vários lugares do mundo por onde passei, percebi que academias de boxe estavam virando projetos sociais. Não que isso fosse o foco das academias, mas era o que acontecia quando elas recebiam jovens pobres. Então resolvi abrir uma academia que teria como propósito oferecer serviços sociais”, conta. Ter se instalado na Maré foi fruto do contato travado com o líder comunitário Amaro Rodrigues, um ex-lutador de boxe amador e o grande articulador da construção da Vila Olímpica da Maré. Primeiro, a academia funcionou em uma pequena sala alugada da Associação de Moradores do Parque União com 15 crianças. Agora, o Luta Pela Paz tem sede própria na Favela Nova Holanda e atende 328 jovens, de ambos os sexos, entre 7 e 23 anos. Para participar, basta chegar. Além da luta, o projeto oferece aulas de reforço escolar e busca a colocação profissional de seus participantes. O prêmio, na opinião de Luke, foi importante para dar mais visibilidade ao projeto. Ele espera que isso o ajude obter mais patrocínios. “Consegui dinheiro para bancar o projeto em Londres, mas não consigo dinheiro para bancar o projeto no Brasil. O que o AfroReggae faz para criar mercado para si mesmo é fantástico. Não canso de ver jovens que saem do crime e, por conta do projeto, passaram a trabalhar e estudar. Cada vez que isso acontece é uma vitória. A situação é complexa e muito difícil. Desistir é muito fácil”.

“Nós não mudamos a vida de ninguém. nós Quem muda a vida é o indivíduo. O que fazemos é oferecer oportunidades”

Luke Dowdney

Projeto do Cantagalo inspirou Luta pela Paz

por Thaisa Araújo / / foto: Bira Carvalho

Foi na comunidade do Cantagalo que Luke Dowdney encontrou inspiração para criar o Luta Pela Paz. Dois anos antes de abrir a sua então modesta academia na Maré, ele era um dos freqüentadores da Academia Nobre Arte, literalmente construída pelos lutadores amadores Ricardo Tinha e Cláudio Coelho. Desde 1998, jovens do Cantagalo encontram no boxe e no vale tudo um caminho para a inclusão social. Moradores da comunidade, Ricardo e Cláudio decidiram aproveitar o fato da principal escola do local, um Ciep, estar praticamente destruída para montar uma academia. A idéia era oferecer para seus jovens vizinhos uma alternativa à ociosidade das ruas e ao uso de drogas. Estava surgindo o primeiro projeto social do Cantagalo. “A violência entre os jovens, fato presente em tantos lugares, surgia de maneira mais acirrada no Cantagalo pela existência de galeras. A falta de oportunidades para usufruir atividades artísticas, esportivas e culturais na própria comunidade provocava brigas, invasões e vandalismos. Por conta dessa situação é que o próprio Ciep estava em ruínas”, conta Cláudio.

Waldyr Junio vibra depois de vencer um torneio na Maré

foto: Thaisa Araujo

mas também, uma “situação barra pesada”. Foi no Rio que viu, pela primeira vez, um fuzil; e nas mãos de jovens, quase crianças.

O projeto foi criado para oferecer a os jovens do Catagalo uma alternativa à ociosidade das ruas

Construída em regime de mutirão, a academia tem capacidade para cem alunos e vive lotada desde o seu primeiro dia. Funciona nos três turnos, todos os dias; de manha e à tarde, os adultos, à noite o espaço é das crianças. Ricardo e Cláudio desenvolveram sua própria proposta pedagógica de ensino, integrando três áreas de aprendizagem: a convivência em grupo, a aprendizagem do esporte e a formação moral dos jovens. “Cabe a academia o papel de agregar; ao esporte, o incentivo a ler e escrever. Muitos já ficaram sem as aulas de boxe por notas baixas. Mas quando voltam percebemos que não estamos ensinando só o boxe, estamos fazendo do menino da favela um campeão da vida”, diz Cláudio. Desde o começo, e até hoje, os recursos necessários à manutenção da academia e à compra de equipamentos chegam por intermédio de rateios feitos entre pessoas “do asfalto”. Como em todo bom projeto social, muitos ex-alunos são, agora, professores. Nessa categoria está Joel Benvindo, que entrou para a academia com 42 anos e se tornou professor depois de dez anos de aulas.

No alto à esquerda, Cláudio Coelho, um dos criadores da academia, ao lado do professor Joel Benvindo e parte dos alunos

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“A atividade esportiva oferecida pelo projeto, conciliado com a educação, proporciona também o conhecimento de valores éticos e de dignidade. Ensinamos sempre na linguagem deles, mas cobramos na disciplina”, explica Joel, depois do treinamento puxado no ringue de boxe na prática da manopra - tipo de luva acolchoada para exercício de resistência e força.


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Uma maravilha cenário! maravilha de cenário Nem mesmo se ganhasse na loteria eu sairia daqui. No Cantagalo, a co­ munidade é solidária. Como artista do AfroCirco, já viajei para vários lugares e não tive vontade de me mudar do lugar onde nasci para nenhum desses lugares. Quero ser enterrado aqui” Jonathan

foto: Jaqueline Félix

Não tem quem não se encante com a vista do morro do Cantagalo. Jonathan Rodrigues que o diga. Morador da comunidade, ele trabalha no núcleo que o AfroReggae mantém no local. Uma de suas atribuições é receber quem chega no Cantagalo para conhecer o trabalho do grupo. Enquanto guia os convidados pelas ruas íngremes, é comum ouvir elogios à vista que se tem do Rio de Janeiro, de várias partes do morro, que fica no bairro de Ipanema. “Morar aqui é maravilhoso porque estou em plena Zona Sul do Rio. Perto tenho praia, shopping, comércio e mais opções de trabalho. Não penso em sair da minha favela por nada nesse mundo. Nem mesmo se ganhasse na loteria eu sairia daqui. No Cantagalo, a comunidade é solidária. Como artista do AfroCirco, já viajei para vários lugares e não tive vontade de me mudar do lugar onde nasci para nenhum desses lugares. Quero ser enterrado aqui”, diz Jonathan, 20 anos, assistente de coordenação do AfroCirco, no Cantagalo.


Relato de

um favelado

T

iros. Nos últimos dias só ouço tiros. Parece que estou no meio de uma guerra, pa rece não, estou no meio da guerra.

Não estou em Cabul, Bagdá ou Faixa de Gaza, estou na favela, Rio de Janeiro, Brasil. Preso dentro de meu próprio barraco, refém de uma guerra sem causa (ou com!), de um lado homens maus, mas com o coração bom (?), alguns amigos de infância; do outro homens representando o estado, a ordem, combatem a violência com violência; no meio nós, os favelados. Não saio de meu cativeiro há dez dias, perdi o emprego, minha mulher está no hospital acompanhando a mãe que levou uma bala perdida, perdida não, achada, minha filha está presa dentro da escola. Via pela televisão essa guerra, é real, aqui pertinho, igualzinha àquelas guerras lá de fora, tem granada, AK 47, tem até carro blindado. Quem tem medo do caveirão? Eu tenho, todo mundo tem, minha filhinha de sete anos diz que ele é o bicho papão, tem pesadelo e tudo. Sai um som lá dentro dizendo que vai roubar a nossa alma. Tiros. Cinco minutos de intervalo, acho que é para recarregar, não sei de onde vem tanta bala. Não ouço mais o canto dos pássaros, do sabiá, de manhã o galo não canta mas, até ele tá com medo! Todos estão com medo, até quem mora longe daqui, estou no meio do front! Fora do mundo, sem telefone, luz, água, no meio do lixo, sem emprego. Meu patrão me despediu, ele não é compreensivo, colocou outra pessoa no meu lugar, para ele guerra é só no Iraque, mas não é, está bem perto do nariz dele. E agora, quem vai pagar as minhas contas? Já era difícil com aquela merda de salário mínimo, e agora José? Este é meu nome, parece que a poesia daquele escritor foi feita especialmente pra mim, a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, estou sem mulher, sem carinho... Aqui não tem paz, é intervalo para a guerra! Ouço fogos, gritaria, tiros, muitos tiros, meu barraco estremece, sinto medo... Medo de não ver mais minha mulher, minha filha, medo de não realizar os meus sonhos; também tenho sonhos. Tiros e chuva. Sinto fome, não fome de comida, tenho fome de paz, não sou muito religioso, do meu barraco vejo a igreja da Penha, espero que ela não seja atingida por nenhuma bala, chove chuva, chove sem parar...

Minha filha pediu para eu levar ela no parque, isso há nove dias, era seu aniversário, que presente de grego. Ela passou o aniversário presa na escola, menos mal, espero que ela lembre sempre deste dia e dê valor aos estudos. Ainda bem que ela ficou lá, tem crianças aqui da favela que está há muitos dias sem aula, mães que não pode levar seus filhos para a creche, homens que não trabalham, pessoas que não vivem. Olho da janela de meu barraco, não vejo nada, parece até uma cidade fantasma. Antes da guerra não era assim. As pessoas eram felizes, de uma forma ou de outra. Tinha baile funk, pagode sexta-feira, a feijoada da tia Jurema no sábado, churrasquinho de gato e os torneios de futebol. Era mó emoção, as crianças brincavam nas vielas, agora, cidade fantasma. Tiros no céu. O céu está iluminado com balas trasante, vermelhas, da cor do pecado, da cor do sangue e do amor; ele não existe aqui, deu lugar ao ódio. Sinto saudades: saudade da paz, saudade de minha família, não sei quanto tempo essa guerra ainda vai durar, não sei se eu irei durar, sou refém da violência, somos reféns, uma guerra que não é nossa. Por que essa guerra? Não tenho essa resposta, não posso buscar essa resposta, a quem irei perguntar? Quem é o bem? Quem é o mal? De que lado estou? Tiros. Só ouço tiros, estão me deixando atormentado.

Otávio Jr. http://www.leredezleiafavela.blogspot.com

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