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Susana Souto Mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP). Doutora em Estudos Literários

pela Universidade Federal de Alagoas (UFAL)

João Silvério Trevisan Escritor, ativista, cineasta, roteirista e jornalista

ISBN 978856401356-8

9 788564 013568

vigilante

À memória das vítimas dessa violência é dedicado este livro, que se fez como grito de protesto e delicada análise, como celebração de conquistas e indicação de impasses. Obra que se fez, ainda e principalmente, como apelo para buscarmos juntos a cura da homofobia/transfobia, que, cotidianamente, oprime, silencia e mata.

in visibilidade

Com exatidão, mas sem perder a leveza jamais, Steven Butterman – pesquisador canadense e americano que é, por paixão e ofício, também brasileiro – devora os pontos de tensão dessa história ligada a um país que, simultaneamente, é palco do maior evento LGBT do mundo e arena de alarmante violência homofóbica, desde as suas formas mais dissimuladas até as mais letais.

Mesmo para quem acompanha a evolução dos direitos civis para os homossexuais no país, o fenômeno das Paradas do Orgulho LGBT no Brasil é surpreendente. Ele aparece no vácuo provocado pelo esvaziamento dos grupos de ativismo, graças às disputas políticas e à eclosão da AIDS na década de 1980. É intrigante buscar as condições que amadureceram o momento histórico da eclosão de um evento de massas na contramão de um movimento homossexual que só militara num exíguo entorno de classe média. A Parada do Orgulho LGBT de São Paulo representa um exemplo emblemático, se olharmos a magnitude que tomou esse evento num prazo de tempo tão curto. Ela vicejou durante uma gestão conservadora da cidade, com míngua de recursos materiais e inexistência de fatores mínimos que sugerissem políticas para a comunidade homossexual. Ao contrário do que vem acontecendo na atualidade, com a cooptação política dos governos e a mentalidade lobista das ONGs, este não se tratava de um movimento vindo de cima. Basta tomar o metrô em direção à Avenida Paulista, antes do início da Parada, para se constatar o oposto. Existe ali um mar de diversidade, no qual se destacam bandos de jovens partindo das periferias para tomar o seu espaço público, ao som de palavras de ordem espontâneas, num clima de franca alegria. Mesmo para quem tenta desmerecer as Paradas como mero carnaval fora de época, perdura a pergunta: como se chegou a uma consciência coletiva que leva multidões a essa festa celebratória, carregando bandeiras ou vestindo as cores do arco íris? Fica claro que o protagonismo de um novo grupo social aconteceu num processo de aprendizado das ruas. E isso se desdobrou socialmente até contaminar os próprios meios de comunicação, que foram despertados para compreenderem um fenômeno novo. É nesse ângulo preciso que a análise de Steven Butterman sobre a Parada do Orgulho LGBT de São Paulo vem iluminar um ciclo evolutivo não previsto nem nas bíblias ideológicas, nem nos manuais de redações.

Steven Butterman

pretensa normalidade visível. Pelo ponto de vista de dentro, Steven colhe e articula todos os slogans que levaram multidões à rua, a partir dos quais discute os modos como a Parada se pensa. Pelo de fora, seleciona representações midiáticas, poderosas operadoras de consenso, ambivalentes difusoras de estereótipos. Os pontos de dentro e de fora misturam-se aqui, assim como se misturam projetos políticos, estéticos e eróticos na avenida lotada.

steven butterman

visibilidade vigilante representações midiáticas da maior parada gay do planeta

Esse não é um texto-gueto. É um texto-convite destinado a um público tão vasto e variado em sua multiplicidade contraditória quanto aquele da maior Parada de Orgulho LGBT do mundo, alegre passeata e sério carnaval. Convite aberto para reflexão a quem deseja compreender(-se) (n)a contemporaneidade. Steven Butterman percorre, em suas páginas, quinze anos de um fenômeno cultural, político e social feito em diálogo com os movimentos civis norte-americanos, fenômeno este também devorado e copiado por várias cidades brasileiras, uma vez que o crescimento da Parada não se limita, hoje em dia, ao número de participantes que ocupa a Avenida Paulista, mudando sua paisagem sonora, visual, olfativa, tátil. Esse crescimento estende-se aos quatro cantos do Brasil, de Norte a Sul, de Leste a Oeste, chegando às grandes, médias e pequenas cidades, mudando a programação do calendário cívico e alterando a agenda de pesquisadores, ativistas, políticos... É a escrita dessa história, sua historiografia, que Steven se propõe a analisar apoiado num vasto repertório teórico. Concentrando-se em São Paulo, sua singular interpretação busca discursos diversos que tecem o grande texto chamado Parada e traça interessantes rotas para entrar nessa narrativa feita com palavras, gestos e corpos que se insurgem contra as normas da


visibilidade vigilante

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steven butterman

visibilidade vigilante representações midiáticas da maior parada gay do planeta

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Traduzido e apresentado por Lúcia Leão


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Sumário 7 Dedicatória 9 Agradecimentos 12

Soneto-Epígrafe – Glauco Mattoso

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Prefácio – Fernando Silva Teixeira Filho

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Apresentação – Lúcia Leão

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25 Introdução 29

E a Parada Continua...

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(In)Visibilidade Vigilante

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Desviando-se da Diversidade

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A Parada na Imprensa

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Ano Quinze: Inversões Sociais e Subversões Estratégicas

153 Orgulho Hétero: O Preço de se Revelar Heterossexual 163

Considerações Finais

171 Notas 175

Referências Bibliográficas

185

Lista Seleta de Obras Secundárias

187

Apêndice: Seleção de Artigos

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Sobre o Autor


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Dedico esse livro à memória das vidas e dos amores dos milhares de cidadãos brasileiros lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros cujos assassinatos foram cometidos por pessoas que possuem uma doença horrível, chamada homofobia/transfobia.

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Dedico às 266 vidas perdidas em 2011 e às 108 vítimas nos primeiros três meses de 2012.

Dedico aos incontáveis outros que não foram assassinados e cuja invisibilidade, em si mesma trágica, pode ser o motivo de ainda estarem vivos.


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Agradecimentos Akira Nishimura, por colocar à minha disposição alguns artigos do seu acervo pessoal e por ser meu “muso”, encorajando-me a escrever. Alessandra Santos, pelo primeiro contato com a nVersos Editora.

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Aline Spino, pelo conselho editorial e pela ajuda com o contrato. Bruno de Oliveira Romão, pelo desenho gráfico da capa e por montar o apêndice. Cristina Mehrtens, por ser minha maninha. Eliéser Pedroso de Oliveira, por me ensinar a me amar. Erica Caneto, pelo conselho editorial e apoio gentil. Fernanda Borges, pelo ótimo papo e cafezinho bem brasileiro no escritório da nVersos. Fernando Silva Teixeira Filho, por produzir o prefácio e salvar a vida de inúmeras pessoas. Gema Pérez-Sánchez e Pamela Hammons, por representarem um casal homoafetivo repleto de amor e pela amizade eterna e conselhos acadêmicos.


Glauco Mattoso, pelo soneto-epígrafe e por ser meu herói, em todos os sentidos da palavra. João Silvério Trevisan, grande pioneiro do movimento LGBT em Sampa e generoso autor do texto da contracapa do livro. Leila Da Costa, com quem ensino na Universidade de Miami e cujo companheirismo e amizade valorizo tanto.

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Leila Míccolis, pela amizade e pelo ativismo, amor e apoio. Lilian Fontes, minha Irmã das Almas.

Lúcia Leão, por superar todas as expectativas possíveis na tradução e na apresentação do texto. Luiz Mott, grande pioneiro do movimento LGBT na Bahia. Maureen Seaton, a minha cara-metade, a minha CTS e alma gêmea de outras encarnações, pela pura puta poesia de viver. Meta Loei, minha mãe sino-judaica que me adotou em Sampa desde o outro milênio (1999).

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Mom & Dad, por me aceitarem e amarem incondicionalmente.


Nanny, C. P., pelo amor incondicional e pela sabedoria de quase cem anos de vida. Nelson Villafane, pelo companheirismo e convívio gostoso. Severino João Albuquerque, meu ex-orientador de tese e Mentor eterno. Susan Brody, pelas leituras e pelos comentários interessantes e por ser uma grande amiga, além de irmã.

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Susana Souto, pelas leituras sensíveis desse texto, pelo texto da orelha e pela amizade e confiança. Traci Ardren, pela amizade e pelo apoio incessante. Tracy Devine Guzmán, amiga, colega e conselheira na luta pelos direitos humanos e pela igualdade social.

University of Miami Research Council, pelo apoio financeiro quando me aprofundei nas pesquisas. Valéria Barbosa de Magalhães, pela colaboração acadêmica e pela compaixão pelo brasileiro dentro e fora do Brasil, inclusive dentro de mim. Volnei José Righi, pela amizade, pelos vários artigos enviados e discutidos. Obrigado por ser meu gaúcho preferido.

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Aval ao carnaval [Glauco Mattoso] Escreve Steven Butterman, e eu leio: dum lado, anno apoz anno, esta parada do orgulho gay, na midia, retractada é como, já, “a maior”. Nisso até creio...

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Por outro lado, sabe-se no meio

que, mesmo estando a conta exaggerada, a visibilidade importa cada

vez mais: visto de cyma, o espaço é cheio.

Quer Butterman propor que alguém reflicta si alguma coisa muda para o gay que brinca um dia, enquanto a imprensa o cita. O auctor como enthusiasta della, eu sei, se mostra, mas conhece o officio: evita achar que só parada altera a lei.


Prefácio Em 1989, em um bar que se chamava Malícia, localizado à Rua da Consolação, travessa daquela que se tornaria a avenida mais popular do planeta em um dia específico do ano, a Avenida Paulista, eu conheci aquele que se tornaria o homem da minha vida e com o qual, até hoje, dividiria e construiria aquilo que, cotidianamente, me tornei. Alguns anos se passaram e, em 1992, por razões que agora não vêm ao caso, meu amor se mudou para Toronto, Canadá. Em julho daquele ano, fui visitá-lo. Na ocasião, nós dois participamos da primeira, mas não da última, Parada do Orgulho LGBT de nossas vidas. Naquele tempo, não éramos assumidos. Poucas pessoas de nosso círculo íntimo de amizades sabiam de nossa relação amorosa, assim como não sabiam também que, antes de nossos destinos se cruzarem, já havíamos sentido atração física e amorosa por pessoas do mesmo sexo e gênero que o nosso. Vivíamos uma vida que se equilibrava entre a linha tênue do visível e do invisível de nossas paixões. Vivíamos, portanto, vidas paralelas. Não que quiséssemos, voluntariamente, afirmar uma identidade ou proclamar nosso desejo. Mas, certamente, não queríamos con-

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viver com a sensação de sermos forçados a nos esconder. Ou seja, queríamos viver como muitas outras pessoas que se sentem atraídas por outras de sexo e gênero diferentes dos seus, que não têm que afirmar seus desejos ou tampouco precisem escondê-los, temendo a estigmatização. E foi exatamente isso que vimos acontecer lá naquela Parada em Toronto. Em plena luz do dia de um céu azul celeste, assistimos, encantados e maravilhados, a um desfile de incontáveis seres humanos felizes abraçando-se, beijando-se, acariciando-se, rindo, cantando, flertando... Alguns estavam fantasiados, muitos estavam sem camisa (homens e mulheres), mostrando seus corpos e sorrisos para quem quisesse vê-los... Muitos corpos eram esculpidos, mas muitos outros eram “naturalmente” fofos, peludos, depilados e, ainda que se pudesse ver diversas etnias, por se tratar do Canadá, a imensa maioria deles era muito branca. Éramos, então, dois estrangeiros experienciando instantes de infinita visibilidade invisível. Eu me explico: apesar de nos beijarmos na frente de todos e de todas, ninguém nos via; ou melhor, ninguém nos lançava olhares judiciosos de desmérito ou de desaprovação. E essa sensação de “banal aceitação”, comum a quem demonstra publicamente seu amor por alguém de sexo oposto

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prefácio

ao seu sem temer a morte, era a primeira vez que experimentávamos. Naquela época, a sensação era a de liberdade. Aos poucos percebemos que sempre há regras arbitrariamente construídas para regular, policiar e normatizar as formas públicas e íntimas de expressão do amor, seja com quem for. Resumindo, foi lindo ver todo aquele mar de gente confraternizando no dia em que podiam sair às ruas para dizerem em alto e bom som: “Eu existo, eu sou diferente, mas quem não é? E daí que sou diferente? Diferente de quem? Quem instituiu qual deveria ser a maioria que deveria ser privilegiada? Minoria? Aos olhos de quem?”. Naquele dia, já no final da Parada, caminhando em direção ao metrô para voltarmos para casa, nos deparamos com um vendedor de bijuterias muito simpático que, em um gesto acolhedor, nos abraçou e perguntou: “O casal já tem aliança?”. Só tiramos aquelas alianças das mãos dez anos depois para a trocarmos por outras, mais compatíveis com os nossos corpos que, delicadamente, foram modificados pelo tempo. Amadurecemos nosso amor, nossas vidas, nossas esperanças e frustrações no ritmo das e graças às Paradas LGBT, especialmente aquelas daqui do Brasil. Por isso, é muito prazeroso acompanhar o tra-

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balho empreendido por Steven Butterman relativo à análise crítica desse evento crucial para a democracia brasileira. Seu livro está dividido no que ele chamou de quatro fases da Parada, as quais ele batizou a partir das cronologias. Evidentemente que se pode fazer isso de várias maneiras, chamando-as, por exemplo, de “movimentos”, “períodos”, “desdobramentos”, “pulsações”, enfim, mas não foram estas as escolhas. Isso porque, como quem observa um jardim, Steven acompanhou, a partir das “palavras de guerra” de cada Parada, o giro ético estético e político que atrai para a Avenida Paulista uma progressão geométrica de pessoas invisibilizadas nos 364 dias do ano para, pelo menos em um dia, poderem dizer a si mesmas e aos outros que eles existem e que não precisam se esconder. Essa é, portanto, a primeira e fundamental reivindicação da Parada LGBT. Uma reivindicação que incomoda, que perturba a arbitrária “ordem natural” da vida heterossexual, procriadora e cristã, para a qual a multiplicidade é sinônimo de multiplicação procriadora de raiz binária, esquecendo-se de que a multiplicidade pode, também, indicar coletivos singulares advindos de muitas outras formas de procriação. Quanta ironia para quem se julga mestre em milagres de multiplicações, mas que de nada quer saber

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(e não quer permitir que outros saibam) sobre outras formas, éticas e políticas de diversidade existencial! Assim, Steven, nas páginas que seguem, irá, com primor e rigor acadêmico, analisar a interpretação dos discursos midiáticos em reação ao crescente número de adesão de pessoas às Paradas LGBT. E não só isso: ele irá também empreender uma genealogia das discussões em torno das organizações das Paradas. Mais precisamente, irá tocar em um ponto crítico quando torna visível o risco de descaracterização das bases fundantes da razão de ser das Paradas, a saber: a produção de “possíveis” para a existência daqueles e daquelas que são cotidianamente forçados e forçadas a fingir que sentem algo que não sentem ou, em outros termos, a se “trancar em seus armários” em nome da ditadura heteronormativa. Nesse sentido, como quem estivesse sobrevoando a Avenida Paulista nos momentos que antecedem o evento e naqueles em que ali está acontecendo a Parada, o autor do livro nos conduz a pousos, rasantes e mergulhos no desfile deste que é o maior movimento ético, estético e político em prol da democracia sexual do planeta para nos fazer ver que a construção de um espírito ativista é um árduo processo, que a construção do que chamamos de liberdade é uma conquista

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e que isso longe está de ser um destino, uma dádiva transcendente. Ao contrário, a liberdade que se quer será alcançada pela caminhada, pela marcha, no caso, dançante, alegre, quase carnavalesca, como é característica das políticas afirmativas desse país chamado Brasil. A Parada, portanto, não tem necessariamente que se fazer valer de academicismos, erudições, horas e horas e horas de construções conceituais, de aconchaves políticos partidários, de pactuações infames. Não! A política das Paradas, grosso modo, se faz prioritariamente com aquilo que o Movimento Feminista já nos fez ver: o sexo é político. Assim, nenhum ato (sexual ou não) é inocente, natural, espontâneo, pois que é fruto de lutas e relações de poder/saber. Logo, as Paradas se fazem com os corpos que, ao desfilarem, afirmam seus direitos à vida, sustentados, prioritariamente, pelo desejo de minimamente escolherem a vida que querem viver. Porém, ao autor não passa despercebido o fato de que, para se garantir a durabilidade desse desejo, é necessária uma articulação coesa e contundente visando à produção de políticas públicas que garantam o direito ao desejo. Cito, como exemplo, a discussão empreendida quanto ao que Steven chamou de 4ª fase das Paradas (de 2006 a 2011), as quais, sucessivamente,

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prefácio

empreenderam uma forte campanha anti-homofobia. Nesse momento da discussão, tem-se a impressão de que as Paradas independem de representantes políticos para acontecer e de financiamento privado para se sustentar, pois, com ou sem isso, elas irão ocorrer, já que ainda fazem sentido para milhões de pessoas que necessitam desse espaço para dizerem ao mundo que, apesar de tantos senões, de tanta homofobia, de tudo, ainda assim, elas estão vivas, que querem continuar vivendo, que lutarão por isso e que, para isso se efetivar, é necessária a consolidação de políticas públicas justas e igualitárias que atentem para o fato de que, no final das contas, o ato sexual entre adultos livres em nada interfere na dignidade, honestidade e solidariedade dos seres humanos e entre eles. Busca-se, e isso se faz ver na pena de Steven, a partir das Paradas, dinamitar o dispositivo da sexualidade que há séculos impõe regimes fascistas e despóticos de controle dos corpos, além, claro, de impor tipos específicos de satisfação sexual, ceifando vidas, singularidades, alegrias, ternuras, encantamentos, amores... A Parada LGBT não é apenas símbolo do grito de liberdade de uma população específica, mas é também o grito de uma humanidade cansada da opressão de éticas, estéticas e políticas seculares que

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ditam às pessoas como, quando e onde se deve ser sexual. Como disse Gayle Rubin1, nada ainda sabemos sobre o sexo, o prazer, o amor, a não ser aquilo que querem que saibamos sobre isso. Assim, considero esse livro uma fonte de inspiração para que, independentemente do nome que as ditas ciências lideradas e produzidas pelo “macho adulto branco sempre no comando”2 inventem para classificar nossas atrações sexuais, possamos perceber o caráter revolucionário que as Paradas LGBT nos proporcionam como uma possibilidade de abertura para novas éticas, estéticas e políticas de existência de vidas mais singulares e diversas. A história crítica das Paradas é, portanto, uma tarefa inacabada, a qual Steven apenas sugeriu como possibilidade, como alguém que, contemplando uma paisagem, emite opiniões e dá início a novas e inesperadas narrativas... Em outras palavras, como quem constrói o amor, Steven constrói a paisagem, se implica nela, a inventa e permite que bem ela viva enquanto puder durar.

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Fernando Silva Teixeira Filho

Doutor Professor-assistente junto ao Departamento de Psicologia Clínica da Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Assis e Coordenador do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UNESP de Assis

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Apresentação Para Steven Butterman, o Brasil não é simplesmente um objeto de estudo. O Brasil é um lugar de dimensão tão vigorosa quanto sua própria postura intelectual, profundamente orgânica. Professor de Português e de Literatura Brasileira da Universidade de Miami, na Flórida, na qual é também Diretor do Programa de Estudos de Gênero e da Mulher, Steven foi o primeiro membro do corpo docente da UM a ministrar aulas de Estudos Queer (LGBTQ). Steven organizou mensalmente, durante alguns anos, um grupo de discussões sobre literatura brasileira no sul da Flórida. Sua seleção do material para debate revelava uma forma especial de identificar, em contos e poesias, as possibilidades de perambular pelos vários registros da linguagem que classificamos como brasileira. Foi nesse contexto que o conheci, e foi a forma como ele deixava os textos à vontade para que se expressassem que o definiu para mim desde então. Não se pode dizer que o Português, o ensino da literatura brasileira ou mesmo o campo dos estudos de gênero em geral e, especificamente, no Brasil,

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sejam paixões para Steven. Trata-se de algo mais próximo ao que chamamos de curiosidade perene ou de uma alegria sólida em espírito altamente poroso – ou melhor, trata-se dos dois juntos e de ainda algo mais. (In)Visibilidade vigilante é seu livro de estreia no Brasil e em português, mas não é sua primeira incursão sobre tópicos culturais brasileiros. Em 2005, Steven publicou, em inglês, pela San Diego State University Press, o livro Perversions on parade: Brazilian Literature of transgression and postmodern anti-aesthetics in Glauco Mattoso, no qual analisa a produção do poeta paulistano e a cultura “marginal” brasileira e examina a questão da homossexualidade e de sua repressão durante a ditadura militar. Trabalhar com Steven durante a tradução e a preparação dos originais de (In)Visibilidade vigilante me permitiu entender que seu estilo enxuto de escrever não só foi ditado pelo próprio tema – a cobertura da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo pela mídia –, mas que a economia pretendia criar espaços de questionamento e iluminar ambiguidades, que ele tanto valoriza. Se a Parada do Orgulho LGBT segue fisicamente uma linha reta na Avenida Paulista, pelo olhar ritmado, intelectualmente maroto e extremamente compenetrado de Steven entramos em ruelas e bi-

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apresentação

furcações, como se fosse com esse movimento esparramado que se pudesse cercar uma percepção mais abrangente dos movimentos de outros corpos ao nosso redor na experiência da luta pelos direitos humanos. É essa atitude diante do que o atrai que caracteriza, a meu ver, os trabalhos de Steven Butterman. É sua atitude de abertura e franca generosidade com o que apreende e, ao mesmo tempo, a contenção que aprofunda a reflexão que tornam Steven uma companhia de qualidade ímpar para esse percurso sobre a história e os possíveis significados e desdobramentos da maior Parada do Orgulho LGBT do mundo.

proibida reprodução Lúcia Leão Tradutora e escritora

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Introdução Este livro examina os primeiros quinze anos (1997 a 2011) da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, e é a primeira análise de discurso detalhada sobre a dinâmica e as características daquela que é, sem dúvida, a maior Parada do Orgulho LGBT no mundo. Para fins de discussão, dividirei a história da Parada em quatro fases cronológicas. A primeira fase, de 1997 a 1999, abrange o surgimento do evento e inclui a criação da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo (APOGLBT). A APOGLBT é uma organização sem fins lucrativos e sem qualquer afiliação política ou religiosa. Foi fundada em 1999 graças à colaboração de vários parceiros, entre eles a InterPride (Associação Internacional de Organizadores de Eventos do Orgulho de Gays, Lésbicas, Bissexuais e Transgêneros) e a ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais). A ABGLT foi criada em 1995, durante o VIII Encontro Brasileiro de Gays e Lésbicas, por 31 grupos fundadores, entre eles o Grupo de Gays e Lésbicas do PT, o Grupo Arco-Íris, do Rio de Janeiro, e o Grupo Gay da Bahia. Considero

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a primeira fase um momento de construção rápida que, como vemos agora, sedimentou o terreno para que a Parada pudesse florescer nos anos seguintes. Os primeiros três anos foram também dedicados a ganhar visibilidade. O discurso usado para conseguir essa presença era bastante semelhante ao discurso acadêmico dos estudos de gays e lésbicas nos Estados Unidos nas décadas de 1970 e 1980. Tratava-se de uma plataforma política nacional que afirmava não só que a sociedade em geral deveria reconhecer a existência de gays e lésbicas no Brasil, mas também que estes são cidadãos produtivos, que pagam impostos e contribuem com todos os setores da sociedade. Não há dúvida de que o objetivo foi atingido, já que só nos primeiros três anos de realização da Parada (apenas três edições) o número de participantes passou de 2 mil para 35 mil. A segunda fase que se estende, a meu ver, de 2000 a 2002, consolidou a Parada do Orgulho LGBT como parte da agenda anual de eventos para um número cada vez maior de paulistanos. Houve também uma importante mudança do discurso, passando do tema da liberação para a articulação da meta de concretizar e conquistar direitos específicos para cidadãos homossexuais. A expressão “respeito pela di-

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introdução

versidade” foi evocada inúmeras vezes durante esse período de intenso crescimento, e os brasileiros viram aumentar o número de participantes da Parada, de 100 mil para 500 mil, em apenas três anos. A terceira fase abrange as Paradas realizadas de 2003 a 2006 e se concentra principalmente na luta pelos direitos humanos, mais especificamente para todos os cidadãos gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros3 e travestis. O movimento expandiu-se, assim, para além da plataforma de orientação sexual, entrando, com mais determinação, no campo da identidade de gênero. Durante quase meia década, São Paulo viu, mais uma vez, um aumento impressionante do número de participantes da Parada, que passaram de, aproximadamente, 1 milhão (em 2003) para 3,5 milhões (em 2007). A quarta fase, (de 2006 até 2011), tem como foco uma campanha anti-homofobia, evidenciada pelo uso repetitivo do termo nos diversos slogans utilizados em cada um dos seis anos sucessivos4. Porém, a Parada ampliou também seu discurso sobre direitos humanos para incluir, de forma consciente, outras causas e movimentos sociopolíticos, como a proteção do meio ambiente, a luta constante contra o racismo e até mesmo a promoção de determinados grupos

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religiosos e sindicatos trabalhistas, aspecto que será discutido mais adiante. Como veremos ao longo deste estudo cronológico, há quatro tropos específicos que surgem como parte da retórica política e da maciça campanha de marketing dessas celebrações gigantescas, praticamente carnavalescas, todos eles invocados de maneira repetida e cíclica em cada edição do evento, mas desenvolvidos de formas distintas: o discurso da família, o tropo da cidadania, o paradigma dos direitos e a meta de abraçar a diversidade. Esses conceitos, que frequentemente se interconectam em diversos pontos em alguns casos recentes e bastante interessantes, podem, na verdade, entrar em contradição.

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