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Pensar

VITÓRIA, SÁBADO, 26 DE NOVEMBRO DE 2011

www.agazeta.com.br

Entrelinhas

RUY CASTRO E HELOÍSA SEIXAS FAZEM O LEITOR VIAJAR COM O LIVRO TERRAMAREAR Página 3

Biografia

CHANEL, ENTRE A MODA E O ENVOLVIMENTO COM A ESPIONAGEM INTERNACIONAL Página 4

Música

NOVOS DVD E BLU-RAY TRAZEM A SEGUNDA SINFONIA DE MAHLER Página 5

Arte urbana

DO MUNDO PARA A GRANDE VITÓRIA: A TRAJETÓRIA DO GRAFFITI Páginas 10 e 11

Um beatle tranquilo O TALENTO DISCRETO DE GEORGE HARRISON, DEZ ANOS APÓS SUA MORTE Páginas 6 e 7


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 26 DE NOVEMBRO DE 2011

quem pensa

Flávia Dalla Bernardina é advogada, bailarina e escritora. www.tubodeensaios.com.br

Silvana Holzmeister é jornalista e mestre em Moda, Cultura e Arte pelo Senac (SP). silvana.holzmeister@gmail.com

Erico de Almeida Mangaravite é servidor público e frequentador de concertos e óperas. ericoalm@gmail.com

marque na agenda prateleira Lançamento Novos livros

Dia 1º de dezembro, Antonio Carlos Amador Gil, coordenador da pós-graduação em História da Ufes, lança o livro “Espaço, Representação e Luta na América Latina”, junto com Marcos Ramos e seu livro de poemas, “Um corpo que se escreve pedra”, às 18h30, na Adufes.

Exposição Satélite

A mostra apresenta o artista plástico Celso Adolfo, até 20 de janeiro na Galeria de Arte Espaço Universitário, na Ufes. Informações: 4009-2371.

Ricardo Costa Salvalaio é membro da Academia de Letras Humberto de Campos. ricardosalvalaio@hotmail.com

Nômade Ayaan Hirsi Ali Nesta história da transição da vida tribal à cidadania plena em uma democracia ocidental, Ayaan relata as reviravoltas em sua vida após o rompimento com a família, que a renegou quando ela renunciou ao islã depois do Onze de Setembro. É o retrato de uma família dilacerada pelo choque de civilizações 392 páginas. Companhia das Letras. R$ 46

Formação do Brasil contemporâneo Caio Prado Jr. É dos textos mais influentes sobre as relações entre nação e colônia no processo histórico que originou o Brasil. Publicado em 1942, “Formação do Brasil contemporâneo” é um clássico do pensamento social e da historiografia brasileira.

Edu Henning é jornalista, produtor e integrante do Clube Big Beatles edu@henningproduz.com.br

464 páginas. Companhia das Letras. R$ 49,50

Nayara Lima é escritora e graduanda em Psicologia pela Ufes. www.nayaralima-versoeprosa.blogspot.com

Tavares Dias é jornalista, escritor, compositor e mestre em Estudos Literários. tavaresdiasjorn@gmail.com

Bruno Luiz é técnico em informática, escritor e poeta. http://brunluizz.blogspot.com

Luiz Eduardo Neves da Silveira é jornalista, publicitário e diretor de conteúdo do site Panela Audiovisual.www.panela.tv Gilayô é cantor e compositor, residindo na França-Caribe. redacao@rfcomunicacao.com.br

A consciência das palavras Elias Canetti

de dezembro

Popular e erudito

Às 20h, o flautista Edu Rosa faz um passeio mu sical por obras de compositores como Vivaldi, Villa-Lobo se Pixinguinha, no Teatro da Fafi, em Vitória. Ing ressos: R$ 30 (meia). Reservas: (27 ) 3215-0083.

30

328págs. Companhia das Letras. R$ 25

Claraboia José Saramago

de novembro

Estação Capixaba

O lançamento do site será às 19h, na Biblioteca Pública do Espírito Santo. Av. João Baptista Parra, 165, Vitória

Primavera de 1952. Um prédio de seis apartamentos numa rua modesta de Lisboa é o cenário principal das histórias simultâneas que compõem este romance da juventude de José Saramago. 384 páginas. Companhia das Letras. R$ 46

NEM TÃO COADJUVANTES ASSIM Quando se fala em Beatles, o maior fenômeno pop do século XX, involuntariamente pensamos em John Lennon e Paul McCartney, a dupla que se destacava e acabava ditando os rumos musicais e comportamentais do grupo. Nesta edição, o Pensar abre suas portas para a outra metade da banda: o guitarrista George Harrison e o baterista Ringo Starr. Por razões distintas. Enquanto o primeiro é lembrado por sua ausência, o segundo tem destaque pela presença. Há dez anos, o mundo perdia o talento de George Harrison, o beatle “transcendental”, da guitarra que gentilmente chorava

Reúne ensaios sobre Confúcio, Georg Büchner, Tolstói, Kafka, Hermann Broch, Karl Kraus e Hitler, além de uma evocação da tragédia de Hiroshima por intermédio do diário de um de seus sobreviventes ou de reminiscências sobre as origens de seu monumental romance “Auto de fé”.

e até hoje encanta novos e velhos admiradores de sua obra. E também um grande compositor, como veremos no artigo de Ricardo Salvalaio. Já Ringo Starr dá as caras após realizar uma turnê por várias cidades do país, em sua primeira incursão em solo brasileiro. O produtor musical Edu Henning, em sua crítica, diz que sentiu falta de mais Ringo nas apresentações da All Starr Band. E por falar em presença, na próxima semana o editor José Roberto Santos Neves retorna ao comando do Pensar. De partida, nós agradecemos a sua companhia. Boa leitura!

Carol Rodrigues e Vilmara Fernandes

editoras interinas do Pensar, novo espaço para a discussão e reflexão cultural que circula aos sábados. cferreira@redegazeta.com.br vfernandes@redegazeta.com.br

Pensar na web

Veja vídeos de George Harrison e Ringo Starr em suas carreiras solo e com os Beatles. Veja também interpretações de obras de Mahler, e leia trechos de livros.

Pensar Editor: José Roberto Santos Neves; Editor de Arte: Paulo Nascimento; Textos: Colaboradores; Diagramação: Dirceu Gilberto Sarcinelli; Fotos: Editoria de Fotografia e Agências; Ilustrações: Editoria de Arte; Correspondência: Jornal A GAZETA, Rua Chafic Murad, 902, Monte Belo, Vitória/ES, Cep: 29.053-315, Tel.: (27) 3321-8323


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entrelinhas

Pensar

por Flávia Dalla Bernardina

MENOS QUE UM GUIA, MAIS QUE UM DIÁRIO

Terramarear Ruy Castro e Heloísa Seixas. Companhia das Letras. 232 páginas. Quanto: R$ 42

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io, Lisboa, Moscou, Búzios, Paris, Fernando de Noronha, Pompeia. Esses são alguns dos destinos que Ruy Castro e Heloísa Seixas deixam marcados na bagagem do leitor de “Terramarear”, da Companhia das Letras. Histórias de três décadas de viagens, sem ordem cronológica, que contam as peculiaridades dos lugares visitados, as coincidências que protegem os bons viajantes, as surpresas que abraçam os inquietos, sem roteiros ou preciosismos. Menos que um guia, mais que um diário. O leitor desatento pode até se precipitar no julgamento do livro – como aqueles que as editoras encomendam para bater metas de vendas. Confesso que num primeiro momento fiquei bastante tentada a rotular “Terramarear”. Mas depois, deixei-me levar sem compromisso por suas páginas, deixei-me levar pelo descompromisso de ter que avaliá-lo para escrever uma resenha. Soltei meus olhos e viajei.

drinks da bebida. Revisitei a Roma dos cinéfilos, Nova York em duas versões, a reconstrução de Berlim, as areias escaldantes do Rio, o paraíso na terra em Fernando de Noronha.

Dinâmica

Voltar à Veneza, que à primeira vista também pareceu-me confusa e incômoda. É preciso de muitos dias, talvez várias viagens para entender a dinâmica daqueles canais, que com certeza devem mudar sua geografia enquanto a vida dorme. E saber que tantos gênios lá viveram, lá produziram obras eternas ou que lá morreram, também instiga o leitor a conhecer essa Veneza, e não a dos milhares de turistas da Piazza San Marco, alimentando pombos e tirando fotos sem perspectiva. Conhecer a Saint Tropez de Brigitte Bardot, e toda a história de como a pequena cidade, de uma pobre vila de pescadores, tornou-se roteiro de glamour das décadas de 60 e 70. A Havana de Hemingway – como o único lugar possível onde a reputação do escritor americano ainda pode permanecer estável. E a desmistificação da lenda: não, Hemingway não inventou o daiquiri. No máximo, quase acabou com todo o estoque de rum, açúcar, suco de limão e gelo picado da ilha – como diz Ruy Castro num sórdido bom humor – por manter um consumo médio diário de quinze a vinte

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Saber viajar

De Fernando de Noronha (no alto) a Veneza, os autores Ruy Castro e Heloísa Seixas carregam o leitor em sua bagagem nas páginas de “Terramarear”

Nem todo mundo sabe viajar. Herman Hesse já sabia disso quando escreveu o livro “A arte dos ociosos”. O viajante deve perder a si mesmo para se (re) encontrar com as inúmeras possibilidades que seu ser comporta. Esse ser mutante que não só se transforma, mas que se deixa transformar em outro alguém, numa nova cidade, num prato novo, num som ou cheiro que marcam a vida daquele dia. O verdadeiro viajante se permite querer outra coisa, vestir outra roupa, ser outra pessoa... talvez aquela que sempre quis ser. E numa viagem, sempre é possível, sempre há tempo de ser possível. Parece ser esse o caso dos autores de “Terramarear”, que mais do que visitar monumentos, passeiam por suas cidades internas, pela diversas camadas de humanidade que constroem seus nomes. Dizem que o melhor de viajar é voltar para casa... mas e se a casa for a viagem?


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 26 DE NOVEMBRO DE 2011

livros Por Silvana Holzmeister

A VIDA SECRETA DE CHANEL

Dormindo com o Inimigo – A Guerra Secreta de Chanel Hal Vaughan Companhia das Letras. R$ 43

A estilista francesa teria sido espiã dos alemães e amante de um agente da Gestapo, a Polícia Secreta Alemã, durante a Segunda Guerra Mundial

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DIVULGAÇÃO

m fevereiro deste ano, John Galliano foi preso por agressão verbal e antissemitismo a um casal em um café do Marais, bairro francês habitado por famílias judias. O assunto deu pano para manga e rodou. Na sequência, o tabloide britânico The Sun divulgou um vídeo em que o estilista, bêbado, bradava “amo Hitler”. O desfecho, todo mundo já sabe, mas não custa repetir aqui. O estilista inglês perdeu não só o cargo que ocupava na Dior desde 1996, como o controle de sua própria grife – ambas pertencem ao grupo Louis Vuitton Möet Henessy (LVMH). Em setembro, foi considerado culpado e sentenciado a pagar a multa de US$ 8.400. É possível que Galliano não seja a única celebridade com tendências racistas, mas seu infortúnio foi tornar público o que pensa. Sob esse ângulo, Gabrielle Chanel, criadora da marca Chanel, foi muito mais longe, como narra Hal Vaughan em Dormindo com o Inimigo – A Guerra Secreta de Coco Chanel.

Os mistérios da vida de Coco Chanel (acima) e seu amante – o espião alemão –, o barão Hans Günther von Dincklage, mais conhecido com Spatz

Amante alemão

Até o fim da Segunda Guerra Mundial, entre o círculo de amigos, não havia dúvidas do quanto a grande dama da moda menosprezava os judeus. Logo após sua morte, em 1971, Paris fervilhou aguardando Les Années Chanel, a biografia escrita por Pierre Galante, editor da revista Paris Match, ligando a estilista ao nazismo e mostrando evidências de seu relacionamento com o superespião germânico, o barão Hans Günther von Dincklage, mais conhecido com Spatz – “pardal” em alemão. Como Chanel era a grande dama da moda francesa, não é difícil imaginar a indignação dos franceses, ainda atormentados pelo fantasma da ocupação de Hitler. Aos poucos, entretanto, essa história virou uma pequena mancha no passado da marca dos dois Cs entrelaçados. Especializado em política europeia, Vaughan é jornalista, já foi diplomata americano, atuou em operações da CIA, interessou-se em pesquisar o período negro de Mademoiselle quando descobriu, por acaso, um documento da polícia francesa indicando que Chanel havia trabalhado para o serviço de inteligência alemão e, depois, outro indicando que Spatz havia sido um agente da Gestapo e não um apenas o amante da estilista.

A pista e a curiosidade lhe consumiram anos de pesquisas nos arquivos secretos da Inglaterra e da França, além de uma verdadeira imersão na vida da estilista. Mesmo sendo ácido às vezes, o texto deixa ao leitor a tarefa de concluir se Chanel foi vítima da educação que recebeu ou vilã capitalista. Apesar de ser sinônimo de luxo, Gabrielle Chanel nasceu num abrigo para pobres em Saumur, no Pays de la Loire, em 1883. Seus pais, que eram camponeses, viraram vendedores ambulantes depois que a praga da ferrugem devastou as plantações. Quando sua mãe, Jeanne Devolle, morreu aos 33 anos, o pai, Albert, deixou Chanel e as duas irmãs mais novas no orfanato do convento Aubazine, em Corrèze, uma região inóspita na França central. Uma instituição que seguia a rígida disciplina

católica: trabalho duro e vida frugal. Quando Chanel fez 18 anos e teve de abandonar o convento, suas regras a acompanharam junto com seus pouquíssimos pertences. Para sobreviver, trabalhou como costureira e corista. Dona de olhos ardentes, bela e de uma magreza quase infantil, despertou a paixão de um rico ex-oficial, Étienne Balsan e tornou-se uma de suas amantes. Durante os três anos seguinte, ela morou em seu castelo, onde teve acesso ao universo da aristocracia e começou a inspirar-se no vestuário masculino para criar suas próprias roupas. Foi ali, também, que conheceu Boy Capel, seu grande amor, e quem a ajudou a abrir sua primeira loja. Ao longo da vida, Chanel teve vários amantes poderosos, fez fama e criou o mítico perfume N.5, cujas vendas a fizeram milionária. Foi em parte por causa da fragrância lançada em 5 de maio de 1921

que ela virou espiã nazista. Sócia de um judeu – Pierre Wertheimer – na Les Parfums Chanel, ela se sentia injustiçada com sua participação de apenas 10% na empresa. Quando veio a Segunda Guerra Mundial e Wertheimer fugiu para os Estados Unidos, ela enxergou a oportunidade de tornar-se dona da empresa respaldada pelas leis de arianização dos bens judaicos. A prisão de seu sobrinho, André Palasse, foi o outro motivo que a levou a cooperar com os alemães sob o codinome Westminster. A ponte foi feita por Dincklage, por quem Chanel apaixonou-se em 1940, aos 57 anos. Quando a guerra terminou, foi processada por apoiar o inimigo. Seu envolvimento, entretanto, nunca foi investigado a fundo. E foi na Suíça, onde viveu até 1950, com Dincklage. Em 1953, quando seu envolvimento com os alemães havia se tornado uma história sem fundamento, a estilista retornou a Paris e às atividades da maison, fechada desde o início do conflito. Apesar da coleção apresentada em 1954 ter sido recebida friamente pela imprensa, aos poucos ela recobrou o sucesso. A marca ainda brilha sob a direção criativa de Karl Lagerfeld. Ao longo deste ano, a marca realizou exposições, como The Culture Chanel, sobre o legado de sua criadora, em cartaz até 5 de dezembro em Pequim e lançou um livro histórico, contrabalanceando o peso de Dormindo com o Inimigo, que talvez tenha o mesmo destino da biografia de Pierre Galante. Fica o registro.


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falando de música

Pensar

por Erico de Almeida Mangaravite

O TEMPO DE MAHLER É AGORA

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m 1891, o experiente diretor musical de Hamburgo, Hans von Bülow (que regeu a orquestra na estreia da complexa ópera wagneriana Tristão e Isolda e foi o solista ao piano na primeira execução do Concerto n° 1 de Tchaikovsky), declarou que a cidade contava com um regente operístico de alto nível: Gustav Mahler. Encorajado, Gustav decidiu apresentar uma de suas composições a Bülow: era a peça orquestral denominada Totenfeier (Rituais Fúnebres). Segundo Mahler, durante a execução ao piano Bülow mostrou-se tenso. Ao fim, exclamou: “Comparada com a sua obra, Tristão e Isolda soa tão simples como uma sinfonia de Haydn! Se isso que você executou é música, então eu não entendo absolutamente nada a respeito de música!”. Reagindo estoicamente, Mahler concluiu que Bülow o considerava um regente habilidoso, mas um compositor sem futuro. Dado o teor desse encontro, é surpreendente que a amizade de ambos tenha perdurado pelos anos seguintes. De fato, ainda que magoado com a veemente crítica, Mahler nutria grande admiração pelo diretor musical. Tanto é que, em 1894, no funeral de Bülow, Gustav Mahler sentiu-se profundamente impactado ao escutar um coro entoar a ode intitulada Aufersteh’n (Ressurreição), de Friedrich Klopstock. A experiência foi tão significativa que Mahler imediatamente pôs-se a compor uma obra baseada nesse poema. E, apenas três meses depois, finalizou aquela que seria a sua Segunda Sinfonia, denominada Ressurreição, agrupando a recém-concluída partitura a outros quatro movimentos compostos anteriormente. O primeiro desses movimentos era, ainda que com algumas pequenas modificações, Totenfeier.

Mahler - Sinfonia n° 2 Regência de Riccardo Chailly Selo Accentus Preço médio: R$ 130 (Blu-ray), R$ 90 (DVD). Importado.

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sagens escritas por Mahler. O texto baseia-se na ode de Klopstock, com acréscimos e modificações da lavra do compositor. Trata-se de uma mensagem de esperança para a humanidade: morreremos para viver, não obstante nossa fragilidade e nossos temores. Acerca desse movimento, afirma o jornalista Peter Korfmacher que Mahler não se preocupou em fazer qualquer distinção entre o bem e o mal ou entre os justos e os pecadores – para o compositor, todos os indivíduos são possíveis beneficiários do milagre da ressurreição e da imortalidade da alma.

Gravação

Em 2011, completaram-se cem anos da morte do compositor Gustav Mahler

Visionário

Mahler, o compositor, foi um visionário: não criava suas obras visando se enquadrar nas preferências musicais vigentes. Seu objetivo era transmitir ao público sentimentos e ideais que julgava relevantes. Assim, a Segunda Sinfonia deve ser ouvida e analisada com atenção, uma vez que seu significado transcende a literalidade das notas musicais. Foi escrita para uma enorme massa de músicos, incluindo em sua orquestração toda uma gama de instrumentos de percussão, órgão, coro misto e duas vozes solistas (soprano e meio-soprano). O primeiro movimento (Allegro maes-

toso) representa o desconforto, o estarrecimento perante a inexorável morte. Qual seria o significado desta vida, se é que há algum? Após uma pausa para reflexão silenciosa, seguem-se três movimentos centrais: a lembrança dos bons momentos em vida (Andante moderato); a incessante correria sem sentido do cotidiano (Scherzo); e, na voz do meio-soprano, um clamor aos céus: trata-se do célebre Urlicht (Luz Primordial),

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porta de entrada de muitos ouvintes para o universo mahleriano. Aqui, temos um forte indicativo dos sentimentos de Mahler – a frase “Ich bin von Gott und will wieder zu Gott” (“Eu venho de Deus e hei de regressar a Deus”). Seria essa a resposta à pergunta colocada no primeiro movimento ? O último movimento (Im Tempo des Scherzo), que dura cerca de 40 minutos, é uma das mais grandiosas pas-

Uma nova gravação da sinfonia chegou recentemente ao mercado, em DVD e Blu-ray. No palco, a Gewandhausorchester Leipzig sob a regência de Riccardo Chailly. De se destacar a qualidade da imagem e do som, tecnicamente primorosos. No aspecto musical, Chailly opta por uma regência equilibrada, não empregando escolhas interpretativas tão idiossincráticas como as de Leonard Bernstein e Klaus Tennstedt. Isso não significa que a emoção esteja ausente: em Urlicht, são palpáveis a ternura e a esperança, retratadas de forma contida, mas suficientemente tocante. E mais: do Scherzo final, é pertinente destacar o trecho que se inicia com o dueto das vozes solistas, às quais se agregará o coro (“O Glaube, mein Herz” – texto escrito por Mahler). O regente desenvolve com competência o trajeto que se inicia em meio a sentimentos de fragilidade e incerteza, mas que culmina em um final apoteótico, no qual a vida triunfará sobre a morte: solistas, coro e orquestra (com destaque para o órgão, os gongos e os sinos) ressoam em um fortissimo, quando a sinfonia chega ao fim. Em 2011, completaram-se cem anos da morte de Gustav Mahler. Compositor cujo reconhecimento em vida se deu à custa de intenso trabalho e superação de duras críticas, Mahler dizia que seu tempo haveria de chegar. Parafraseando Leonard Bernstein, em tempos marcados por holocaustos e massacres, pela persistente contradição entre o avanço das democracias e a manutenção das guerras e dos regimes ditatoriais e pela intensa resistência ao estabelecimento de uma sociedade igualitária, finalmente é possível ouvir a música de Mahler e entender que ele já antecipara tudo isso. O seu tempo chegou.


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capa

Pensar

por Ricardo Salvalaio

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NOTORIAMENTE TÍMIDO E AVESSO À FAMA, O GUITARRISTA DOS BEATLES ERA UM MÚSICO DISCRETO QUE, COM MUITA DELICADEZA, TOCAVA O INSTRUMENTO A SERVIÇO DO GRUPO

A PAIXÃO SEGUNDO GEORGE HARRISON HÁ DEZ ANOS MORRIA O GUITARRISTA QUE AJUDOU A CONSTRUIR A HISTÓRIA DO POP

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á dez anos a música perdia um dos seus melhores representantes. Em 29 de novembro de 2001, morria George Harrison, o beatle “mais tranquilo”, que detestava a fama. O músico, que nasceu em Liverpool, Inglaterra, no dia 25 de fevereiro de 1943, deixou saudades e um repertório riquíssimo que influencia e emociona milhões de seres humanos ao redor do mundo. Harrison era, ao mesmo tempo, transcendental, místico, rebelde, tímido, amoroso e dono de um humor muito peculiar. Este artigo versará sobre a vida e a importância do guitarrista que nos fez conhecer o Oriente e que, mesmo sendo um “rockstar”, manteve a serenidade, lucidez e altivez até seus últimos dias. Um guitarrista discreto que tocava a

Era impossível sobrepujar o cerco formado por John Lennon e Paul McCartney”

serviço do grupo. Assim era George Harrison. Ao contrário de seus contemporâneos ingleses – Jimmy Page, Eric Clapton e Jeff Beck –, não gostava de se exibir, não fazia cara feia nem grandes solos. Harrison era preocupado com a melodia. Com a harmonia de sons, com sons harmônicos. Harmonia com as músicas que a dupla genial Lennon – McCartney produzia. Seus sons harmônicos nos marcaram. Frases redondas, delicadas, lógicas. Parecem simples, mas não são. Sua guitarra chorava suavemente. Harrison ocupa a 21ª posição da lista "Os 100 Maiores Guitarristas de Todos os Tempos", da revista “Rolling Stone”, mas em outras eleições já figurou entre os dez melhores. Ao conhecer e se encantar pelo trabalho do músico indiano Ravi Shankar, Harrison

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trouxe um pouco do encantamento oriental para os Beatles. Na música “Norwegian Wood”, do álbum “Rubber Soul” (1965), George introduziu a cítara, dando um toque todo especial à canção. Foi a primeira vez que um músico do ocidente usou a cítara.

Something

Frank Sinatra, um dos maiores cantores do século XX, gostava particularmente de uma música dos Beatles: “Something”. Ele acreditava que essa era umas das mais belas canções de amor já compostas. Gostava tanto, aliás, que chegou a cantá-la inúmeras vezes e pensou, por um bom tempo, que ela havia sido composta pela dupla dinâmica Lennon e McCartney. “Something” foi composta por George, o mais espiritual entre os Beatles. Talvez por esse motivo, Sinatra possa ser perdoado em seu erro grotesco. “Something” é, depois de "Yesterday" (também dos Beatles), a música mais gravada de todos os tempos. Elvis Presley, James Brown e muitos outros grandes artistas já a gravaram. Muitos a consideram a melhor composição de Harrison. “Something”, ao lado de “Here comes the Sun”, se encontra no álbum “Abbey Road” (1969). São as melhores músicas do disco mais vendido dos Beatles. George Harrison também compôs outros temas clássicos do grupo, tais como “While my guitar gently weeps” (a qual ele convidou seu amigo Eric Clapton para fazer a guitarra solo), “I need you”, “Piggies”, “Taxman”, “For you blue”, entre outros. Ao longo da carreira dos Beatles, Harrison sempre quis gravar seu material. Entretanto, era impossível sobrepujar o cerco formado por John Lennon e Paul McCartney. Assim, George conseguia duas ou três músicas nos álbuns. O guitarrista seria o compositor principal em qualquer banda do mundo. No entanto, para sua sorte (ou azar), tinha ao seu lado, simplesmente, os dois maiores compositores do século XX. O resultado de anos e mais anos de recusa foi reunido em “All things must pass” (1970), logo após o final dos Beatles. O álbum triplo, um dos melhores álbuns do ex-beatle, reúne as canções recusadas pela banda de maior sucesso do século passado. O álbum possui grandes hits, tais como “My sweet lord”, “What is life”, “All things must pass”, entre outros. O single “My sweet Lord”, um mantra de melodia irresistível, foi alçado ao Olimpo do pop, atingindo o primeiro lugar nas paradas de vários países do mundo, incluindo os EUA. Apesar de não gravar um disco por ano e não ligar para fama, George teve uma carreira solo muita bem sucedida. Lançou mais um disco de enorme sucesso, “Living in the Material World” (1973), com outro número um nas paradas, “Give Me Love (Give Me Peace on Earth)”, e a partir daí, sua

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guitarrista, membro da maior banda de rock do mundo. Harrison, assim como Ringo Starr, nunca desfrutou da idolatria gerada por Paul McCartney e John Lennon. Ao reconstituir seus passos, o cineasta renova o fascínio por alguém que ignorou a posteridade. "Não me importo se eu não for lembrado", disse certa vez, conforme relatou Olivia Harrison ao New York Times. Ela foi casada com o britânico entre 1978 e 2001, ano da morte dele. Olivia, também produtora do filme, foi quem procurou Scorsese para assumir a empreitada. O principal argumento para sensibilizá-lo foi uma afetuosa carta escrita por George para a mãe dele quando tinha um pouco mais de 20 anos. "Ele expressava a ideia de que sabia que a vida não se limitava à riqueza e à fama". “Living in the Material World” tem depoimentos dos amigos do guitarrista, incluindo Eric Clapton, Terry Gilliam, Eric Idle, George Martin, Paul McCartney, Yoko Ono, Tom Petty, Phil Spector, Ringo Starr e Jackie Stewart. O filme, que pode ser encontrado na internet, ainda não tem data de lançamento no Brasil.

My sweet lord

Místico e tímido, George Harrison não era afeito a exibicionismos com sua guitarra como alguns contemporâneos

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carreira teve várias atividades: aprimorou-se na jardinagem zen que praticava, passou a frequentar corridas de Fórmula 1 e tornou-se produtor cinematográfico, envolvendo-se com o pessoal do Monty Python, grupo humorístico inglês, para quem produziu “A Vida de Brian” (1979). Seus outros hits em carreira solo são: “Crackerbox Palace”, “Poor Little Girl”, “Blow Away”, “That's The Way It Goes”, “Cockamamie Business”, “Dark Horse”, “Wake Up My Love”, “You”, “Life Itself”, “Cheer Down”, “What Is Life”, “Got My

Mind Set On You”, “Cloud 9”, “Here Comes The Moon”, “Gone Troppo” e “Love Comes To Everyone”. Nos fins dos anos 80, George formou, por pouco tempo, outra banda, os Traveling Wilburys, junto com alguns músicos famosos: Bob Dylan, Roy Orbison, Tom Petty e Jeff Lynne.

“Vivendo no mundo material”

Lançado em 2011, “George Harrison: Living in the Material World", docu-

mentário dirigido por Martin Scorsese, tem entrevistas com muitos músicos, além de filmagens e fotos caseiras fornecidas pelo arquivo particular da família de Harrison. O filme mostra a carreira do guitarrista nos Beatles, sua bem-sucedida empreitada solo e também sua passagem pelo cinema. A espiritualidade oriental, elemento chave tanto em suas composições como em seu cotidiano, também é central no filme, que é conduzido por narrações do guitarrista. A obra traz o rigor jornalístico de Martin Scorsese para desvendar o personagem,

Epifania é uma súbita sensação de realização ou compreensão da essência ou do afeto de alguém. O termo é usado nos sentidos filosófico e literal para indicar que alguém encontrou finalmente a última peça do quebra-cabeças e agora consegue ver a imagem completa. No romance “A Paixão Segundo G.H.”, de Clarice Lispector, ocorre na personagem G.H. o fenômeno epifânico quando ela come uma barata e começa enxergar o mundo de uma forma diferente. Como G.H., ocorreu em George Harrison o mesmo fenômeno quando ele se envolveu com a cultura indiana e o hinduísmo no meio dos anos 60. O ex-beatle ajudou a expandir e disseminar, pelo Ocidente, instrumentos como a cítara e o movimento Hare Krishna. A partir desse momento, Harrison passou a ser um compositor mais filosófico, com músicas cada vez mais inspiradas. Harrison também se engajou em campanhas para chamar a atenção mundial para a Índia, como o “Concerto para Bangladesh” (1971). Nesse tipo de evento, George foi pioneiro. Aí está uma das virtudes mais memoráveis do músico. Harrison sempre foi uma pessoa comprometida com o amor, a harmonia, alguém que desejava e lutava para viver num mundo mais digno e igualitário. Ele não foi tão-somente um músico brilhante, mas também um ser humano extraordinário, de ações admiráveis.


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+ beatles por Edu Henning

RINGO STARR NO BRASIL: SETE HOMENS E UM SUCESSO Produtor musical avalia que formato dos shows da All Starr Band – onde cada músico apresenta duas canções – precisa ser revisto, com aumento da participação do ex-beatle

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apesar de toda a competência e respeito que realmente merecem, não conseguiram emplacar dois hits no Brasil. Garry Wright, por exemplo, tem uma música que fez sucesso no país. Richard Page também. E são belas baladas românticas que até hoje tocam nas rádios FMs. Baladas que, inclusive, destoam completamente da linha musical que norteia a carreira de Ringo (tanto no período dos Beatles quanto em seus trabalhos posteriores). Mas não peçam dois sucessos de Richard Page e Garry Wright para emoldurar o show de Ringo Starr, pois na realidade eles não têm. A segunda canção apresentada pelos músicos é algo que a esmagadora parte da plateia desconhece completamente. O mesmo acontece com Edgar Winter e Wally Palmar. Esse quadro mostra a quebra do andamento do espetáculo. O público não canta junto, não explode em emoção, não vibra com os momentos solos dessa All Starr Band que acompanhou Ringo em sua primeira passagem pelo Brasil. Para Edu Henning, plateia iria se desmanchar ao ouvir Ringo cantando alguma coisa de Paul, John e George

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odos que conhecem um pouco da história dos Beatles sabem que Ringo Starr sempre foi um boa praça, um sujeito do bem, amigo dos amigos, super simpático e carinhoso. Todos que conhecem um pouco da história de Ringo sabem que ele, desde que formou a primeira All Starr Band, se preocupa em abrir espaço para que os músicos que o acompanham possam brilhar, cantar seus sucesso e assim receberem aplausos após momentos solos. É uma ideia simples, genialmente simples. Ringo apresenta algumas canções de sua carreira solo e sucessos que cantou quando ainda era um beatle, e os músicos da All Starr Band, entre uma performance e outra do astro, mostram dois de seus sucessos. Até hoje foram onze versões da All Starr Band e sempre com os shows seguindo o conceito criado pelo produtor David Fishof e abraçado por Ringo Starr. Alguns músicos que formaram e formam a atual All Starr Band, apesar de serem consagrados, respeitados e com carreiras consolidadas, estavam quase que esque-

cidos por parte da grande mídia. Vários, inclusive, não saíam em excursão mundo afora há muitos anos. Mas, ao serem convidados para fazer parte da banda de Ringo, ganharam muito mais do que dinheiro. Ganharam palco, luzes e aplausos.

Sucessos

Por outro lado, quem acabou ganhando também foi o público. Fãs saem de casa para ver e ouvir o ex-beatle e ainda recebem de presente apresentações de grandes nomes da música pop mundial cantando grandes sucessos. Pelo menos, isso aconteceu com as formações anteriores da All Starr Band, que já foi formada por nomes lendários. Joe Walsh (Eagles), Dr. John, Billy Preston, Randy Bachman (Bachman-Tuner Overdrive), Mark Farner (Grand Funk Railroad), John Entwistle (The Who), Peter Frampton (Humble Pie e dono de uma carreira solo de sucesso mundial), Gary Brooker (Procol Harum), Jack Bruce (Cream), Simon Kirk (Bad Company), Roger Hodgson (Supertramp), Greg Lake (Emerson, Lake & Palmer e King Crimson), Sheila E. (percussionista im-

pecável) e Colin Hay (Men At Work), entre outros. Isso sem falar das formações (92 e 95) com Zak Starkey na bateria. Já pensou ver, lado a lado, o ex-baterista dos Beatles tocando com o filho? Para muitos, só isso, esse encontro de família, valeu cada centavo investido no caro ingresso. E a turnê atual? Bem, a formação atual da All Starr Band, que rodou o Brasil com Ringo, não produz a mesma química com o público. E olha que todos são, sem exceção, excelentes músicos. Posso até arriscar em dizer que são extraordinários. Impressionam pela técnica e pela habilidade. Dominam seus instrumentos como poucos no mundo. Mas a plateia – que educadamente aplaudia ao final de cada solo apresentado pelos músicos da banda – parecia desconhecer os sucessos de Wally Palmar (The Romantics), Rick Derringer (The McCoys), Richard Page (Mr.Mister), Garry Wright (Spooky Tooth) e Edgar Winter. Plateia despreparada? Público que caiu de paraquedas no show de Ringo Starr? Pessoas que desconhecem os grandes sucessos individuais dos músicos da All Starr Band? Não, nada disso. É que alguns,

Mudanças

Muito diferente de outras edições quando, por exemplo, Ringo ficava em segundo plano para Peter Frampton cantar “Baby, I Love Your Way” e “Show Me The Way”. Ou quando todos cantavam “The Logical Song” com Roger Hodgson ou “Hey You” com Randy Bachman. O que nós brasileiros vimos, em termos de qualidade técnica , é uma das mais consistentes formações da All Starr Band. Mas é uma das mais fracas em termos de sucesso individual. Ringo, ao insistir com o formato, ou seja, ao dar para cada músico da banda a chance de mostrar duas canções, nos permite uma conclusão: está na hora dele rever o modelo e, quem sabe, aumentar o seu espaço nas apresentações. Se existe um artista no planeta que tem o direito de cantar as músicas dos Beatles é justamente Ringo Starr. A plateia iria se desmanchar ao ouvir Ringo cantando alguma coisa de Paul, John e George, por exemplo. O show também poderia apresentar mais da carreira solo do Sr. Richard Starkey (nosso querido Ringo) e menos músicas “conhecidas” de seus talentosos amigos de palco e estrada. Afinal, o seu público conhece tudo que envolve a vida e obra do ex-baterista dos Beatles. Cantaria junto qualquer música dele. Mesmo aquela que jamais fez sucesso.


poesias

crônicas

MUNDO HÁ QUE SE TER PERTURBADO SAUDADE BRUNO LUIZ Há algumas palavras que não querem sair Momentos apenas idealizados Faces apenas pintadas na imaginação Abraços idealizados Compaixão apena negada. Vamos brincar de acreditar no destino Sentir o vento e as correntes marítimas E seguir seu fluxo sem relutar. Os beijos vistos Trazem os nossos Que não estão existindo. E esse descompasse na dança maluca Causa uma pequena dor sem importância Que um dia vai crescer até se tornar Um motivo mortal De uma partida sem ida. Mundo perturbado que absorve uma energia Que não lhe pertence. Mundo perturbado que não conta suas regras Apenas ensina por rasteiras e enganos. Mundo perturbado que passou a existir Quando amar passou ser meu objetivo de acordar. Mundo perturbado que acerta mesmo errando Ou é apenas uma forma de tornar tudo justo?

Por Nayara Lima “Aos jovens de uma turma do Curso Técnico em Rádio e TV do Vasco Coutinho, retribuo ao convite feito, com esta crônica sobre o nosso tempo.” Tenho tentado fazer jus a minha juventude. Não sei se consigo. Fico confusa ao buscar descobrir o que se deve ou o que não se deve fazer para que a juventude, esta chuva rápida no tempo quente, torne a fotografia que vou olhar com saudade quando o tempo me pedir inverno em primavera. Há quem dê o mergulho mais puro que o meu porque não precisa pensar sobre o profundo ou a superfície do que vê. Mas a vida me trouxe ao difícil e também bonito caminho de precisar dizer sobre as coisas de modo a pensar sobre elas. Tento dizer agora e você, leitor, se já não é mais jovem, sabe disto mais que eu: há que se ter saudade da juventude. Porque não ter saudade dela significa que o co-

ração pode não ter acelerado o suficiente, as mãos podem ter tremido menos que deveriam, o sorriso pode não ter sido “a pluma que o vento vai levando pelo ar”, como diria o poeta Vinicius de Moraes. Aqui eu não digo da juventude que permanece pra além do tempo cronológico. Aqui eu me refiro à cronologia dos olhos pro espelho, ao dia que o telefone tocou e você não conseguiu atender porque tudo que você mais queria era ouvir a voz de quem chamava, mas você era jovem e não atendeu. “Há tantas perguntas para as quais a única resposta é a juventude”, disse-me um dia a poeta Rúbia Bourguignon, que muito antes de eu ser jovem me apresentou à poesia. As pessoas tem me ensinado a ver o tempo. Uma pessoa que conheço desde o sempre, usa relógios de todo tipo, de várias cores, de vários tamanhos, mas todos com a condição de que não estejam

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funcionando. Então se alguém pergunta a ela que horas são, ela olha o relógio parado e diz que o relógio está parado. Há muitas razões possíveis que justifiquem Carolina parar o relógio. O Chico Buarque escreveu que “o tempo passou na janela e só Carolina não viu”. Um senhor esguio, que vi por poucos minutos, de nome Benjamim, de profissão a Matemática, veio me dizer que a vida pode ser calculada dentro da lógica das coisas e que se dissermos que foi uma surpresa ter visto fulano naquele dia, na verdade não foi. A lei das probabilidades explica. Discordei do senhor matemático, disse a ele que a vida escapa às lógicas do mundo. E mesmo se erro em dizer isso, estou certa daqui deste tempo. E aqui, seu Benjamim, de onde estou, há que se ter o improvável, o insondável, o que a gente não calcula com nada. A surpresa. Seu Benjamim, o senhor tem saudade de sua juventude? Diz que sim...? Diz que um dia o senhor torceu pra não ter como calcular o que sentia, pra não ter como definir os números de batimentos cardíacos, a pressão sanguínea, a hora do sol amanhecendo no Arpoador. Diz que sim, seu Benjamim.

DEBAIXO DAS COBERTAS DE FULANA Por Tavares Dias

Mundo perturbado que daria de tudo um pouco Para descobrir um pouquinho e sair do meu normal. Vou fugir um pouco Acreditar na dor E nas poucas regras que conheço Partir sem voltar Espalhar minhas palavras Até que o vento leve aos seus ouvidos E nos leve naquele local Que sussurrei que gostaria de lhe levar Um dos poucos lugares Que posso me esconder sem me preocupar. Estou seguindo a maré, mas estou contra sua corrente Alguém me disse que seria diferente Mas é uma diferença tão igual. Mundo perturbado Vamos brincar de acreditar no destino E viver aqueles momentos idealizados?

Uma incerta estação se esvaía, malandramente. Foi quando, então, o tempo. Tem razão. Era debaixo das cobertas de Fulana, cinturinha de pilão, vizinha da ampulheta. E eram noites daquelas que todo ano alugam casas que ficam por uns tempos entre a esquina do solstício de junho e o equinócio de setembro. Ali, então, estão, no lesco-lesco, no vamuvê, valendo três pontos. Naquele calor febrão em que parece que os odores são fumaças e os movimentos descobrem novas linhas senoidais, e tangentes, e secantes e, já ia dizendo exteriores, mas não, isso só quase de manhã, a reposição das energias por conta de um sono da profundidade do mar grande das Três Ilhas e das cobertas de Fulana e dos sorrisos que demoravam a se esquecer do enquantamento. E gemidos e sussurros imitavam urros debaixo das cobertas, agora importante explicar, grossas feito

as coxas de Fulana. Desesperadamente, quer dizer, sem serem esperadas, deram-se passagens memoráveis, então, que melhor dariam uma balada, nesse referido período de Khronos, pela graça de Kairós. E de Dionísio, também, que os romanos, tendo vencido aos gregos pelas armas, foram felizmente derrotados em sua barbárie pela cultura de Helena, de Homero, de Hércules e das sereias e Aquiles e os ouvidos de seus bravos cobertos com algodão. E acabaram esquentando um tanto a sacanagem, Evoé, Baco. Delícia, mesmo, era o sorrir no escuro, tudo ali, o baile de amor, gafieira pura, a banda tocando longe, feito aquele pega-pega lá detrás do muro do baile, as promessas só pensadas ecoando quase que pra fora das cobertas grossas feito as coxas de Fulana. Quase que um trespassava o outro, o nariz quase saído na nuca da uma,

peitos seios como que assomando nas costas, joelhos dum eram panturrilhas doutra, casais habitués daquele sexozinho casamentício arrozinho de geladeira, ah, se os vissem assim feito curupiras, os pés revirados no surto da paixão, quanto haveriam de invejar. Ou de com Spring e Fulana aprender. Então veio de longe, muito longe, um triiiiimmmm triiimmmm triiimmmm. E pedaço de corpo demorou demais a achar lugar seu, pensando que pra sempre se outrofizera. E triiimmm. E é Fulana, a dona da casa, quem se arrasta, as coxas grossas, até a porta, parte gente, parte pegnoir, parte edredon, parte uma leseira, e que bom que era, mas putz, que hora de tocar campainha. Porta não. Só vai deixar mais esvoaçante o calibre da roupa, de corpo e de cama. É primo Summer quem chegou. Não demora tem folgança outra vez.


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arte urbana

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por Luiz Eduardo Neves

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NAS RUAS, TUDO É GRAFFITI Os primeiros grafiteiros do Estado surgiram no final dos anos 80. Mas essa arte só atingiu sua maturidade por aqui na virada do século

A Nos estilos “personagem” e “tag”, os traços dos artistas Somall e Iran preenchem um dos muros de Jardim da Penha, em Vitória

Na Ilha de Santa Maria, em Vitória, quem passa pela rua pode ver a obra de Alecs Power e Fredone Fone no estilo “letras”

expressão pichação é utilizada apenas no Brasil. Em qualquer outra parte do mundo, tudo é graffiti. Tal afirmação tem mais sentido quando pensada numa linha histórica, que é permeada de fatos que retornam em diferentes períodos. Claro que esse intervalo do tempo pode ter ondas cíclicas maiores, como é o caso das pinturas em paredes. Arte rupestre é o nome que se dá às mais antigas representações pictóricas conhecidas. Datadas a partir do período Paleolítico Superior (40.000 a.C.), as primeiras impressões de registro artístico foram gravadas em cavernas ou também em superfícies rochosas ao ar livre. As pinturas rupestres são vibrantes descrições do cotidiano pré-histórico realizadas em policromia que, determinada a imitar a natureza com o máximo de realismo, gravaram para sempre as observações feitas durante as caçadas ancestrais. Milhares de anos mais tarde, a partir dos anos 60, a arte nas paredes ressurgiu por meio do braço das artes plásticas da cultura hip-hop. No Bronx, subúrbio de Nova York, para dividir o território dominado pelas gangues, pintavam nos muros palavras quase ilegíveis, denominadas tags, facilmente reconhecíveis como símbolos de um grupo. Não apenas paredes e monumentos recebiam tintas. Toda a cidade, os metrôs, viraram alvos das gangues que buscavam divulgar sua existência. O conceito continuou o mesmo durante alguns anos, até que as tags não comportaram mais a ansiedade dos artistas. As pichações ganharam estilo e assumiram o status de graffiti, com a inclusão de personagens e cenários. Na terra brasilis, o hip-hop começou a surgir em meados de 80, por meio das equipes de black music, como Chic Show, Black Mad, Zimbabwe, além de algumas revistas e dos discos que apareciam na galeria da rua 24 de Maio, em São Paulo. Os pioneiros praticavam quase todos os elementos desse novo movimento cultural – o break, o graffiti e o rap.

Coloridas angústias

Os grafiteiros Iran e Cain dividem o espaço com placas e publicidade numa parede da Ilha do Príncipe, no Centro de Vitória. A dupla usa tag e personagem para estabelecer um contato com quem passa pela rua

Os primeiros grafiteiros da Grande Vitória também dançavam, cantavam e pintavam pelas ruas e paredes da cidade. Há mais de vinte anos, começavam a aparecer os primeiros grafiteiros capixabas. Entre eles, Edson Sagaz, que, em 1989, comprou duas latas de spray – uma vermelha e outra azul – para dar início às primeiras intervenções coloridas no cinza das edificações urbanas. Ao longo da década de 90, personagens como Cyborg, Chicão, Alecs Power, Sandrinho, Aloyr e Fredone Fone surgiram, acrescentando técnicas que, na virada do século, formaram a identidade estética da arte urbana local. Os graffitis que vemos por aí podem ser classificados por seus estilos e praticantes. Por exemplo, artistas como Fagundes e AQI desenvolvem o Realismo, enquanto Moska, Kika e Giu dominam os Personagens. Smoke e Maik trabalham mais com o Freestyle. As Letras são especialidade de Alecs Power e Japão. No entanto, o estilo clássico da Tag todos dominam. Porém, para essa arte ser decodificada, é preciso conhecer os códigos da cultura hip-hop. As mensagens descritas nas obras dos grafiteiros são uma verdadeira “queda-de-braço” com o poder constituído, tendo em vista a sociedade descrita pelo filósofo francês Michel Foucault, pois os integrantes de tal cultura não compram ideias prontas. Há a necessidade de produzir algo para o seu próprio consumo. É necessário colocar a cara a tapa sem a necessidade de obter sucesso. Entretanto, a aceitação faz parte do objetivo de qualquer tipo de arte, mesmo que isso não seja declarado. O artista quer aplausos, quer reconhecimento. Entre esses artistas estão os grafiteiros. Marginais, os seus quadros são os muros - a sua janela para o reconhecimento a partir dos transeuntes das ruas das cidades. Se o poder constituído não lhes cedeu espaço, eles retomaram um modo de exprimir suas angústias e sentimentos. Da mesma forma que as pinturas rupestres, o graffiti é um reflexo estético dos anseios do homem, se fazendo notar por seu caráter primordial: encher de desenhos coloridos os espaços da vivência humana.


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artigo por Gilayô

NA MÚSICA, O BRASIL É SEMPRE A ATRAÇÃO A música brasileira é reconhecida internacionalmente, mas os artistas que querem conquistar o mercado externo precisam mostrar que ela vai além do samba e da bossa nova

N

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o mercado musical internacional é o nome Brasil que sempre se sobrepõe ao nome do artista. Quando a mídia anuncia a realização de algum espetáculo, em geral a chamada vem: “O brasileiro fulano de tal”. Isso se deve ao fato de que, até a década de 60, os ritmos que foram destaque lá fora foram o samba e a bossa nova, que deixou o rótulo de que “Brasil é só samba e bossa nova”. A nossa música e os nossos músicos são muito bem conceituados não só pelos europeus, mas por outros povos, como os americanos. A classe social mais elitizada de outros países, que conhecem a variedade dos ritmos brasileiros, valoriza muito a riqueza harmônica e melódica do país, conhecendo a variedade dos ritmos brasileiros. Mas a maioria dos estrangeiros conhecem vagamente a nossa música, pois o rótulo “Brasil: Samba e Bossa Nova” ainda impera. O samba, por ser muito sincopado e de difícil assimilação rítmica para os estrangeiros, sobretudo para dançar, fazia sucesso de uma forma restrita e até um pouco folclórica.

Mudanças

Unanimidade

Já a bossa nova, ritmo que é associado a um estilo sofisticado, lá fora corresponde quase que por unanimidade ao nome de Tom Jobim. Mesmo assim, as músicas mais conhecidas são: “Garota de Ipanema”, “Corcovado”, “Wave”, “Desafinado”, “Samba de uma nota só” e outras. Claro que nosso maestro é de se reverenciar mesmo, mas sabemos que a bossa nova é bem ampla e envolve muito mais artistas. Muitos dos nossos artistas brasileiros nacionalmente conhecidos são convidados para grandes manifestações, shows e festivais internacionais. Mas o que atrai os espectadores, em primeiro lugar, é o nome Brasil, pois o próprio evento para o qual ele foi convidado é a atração principal. Obviamente que a notoriedade do artista aqui no Brasil acaba por despertar a curiosidade da mídia internacional. Baseado em minha própria experiência, posso afirmar que todo artista brasileiro que desejar alcançar outros mercados além do nacional e se instalar no estrangeiro deverá levar em sua bagagem três fatores essenciais: procurar dominar o idioma do país, adquirir o direito legal

Muitos saíram do Brasil para buscar outros mercados. Com algumas exceções, na maioria das vezes perdem o contato com o mundo artístico brasileiro, pois criam raízes lá fora, e poucos conseguem fazer a ponte Brasil – exterior por diversas razões. Por isso, é comum encontrarmos artistas brasileiros fazendo sucesso no exterior e raramente conhecidos em seu próprio país. Os artistas que não possuem gravadoras e produtores como suporte comercial e promocional sofrem uma dificuldade ainda maior para se projetar internacionalmente.

O Sepultura, com o guitarrista Andreas Kisser, é exemplo de sucesso no exterior

para trabalhar, e enfrentar a dificuldade de mostrar que o Brasil não é apenas samba e bossa nova. Quando estou no universo musical fora do país, percebo uma lacuna das gravadoras e produtores de shows, que deveriam difundir com mais frequência os nossos artistas, principalmente aqueles com outros estilos. Engana-se aquele que pensa: “Vou tra-

balhar fora do Brasil porque tenho amigos morando lá”. Em primeiro lugar, temos que nos integrar socialmente, conquistando relacionamentos com o povo e a cultura daquele país, e não formando guetos com os brasileiros também imigrados sem, obviamente, denegrir o nosso povo e a nossa cultura, que são muito bem conceituados internacionalmente, especialmente quando falamos da música.

Todas as vivências e experiências com o mundo musical internacional fazem compreender que, para alcançar uma posição, é necessário driblar o estigma de uma música “típica brasileira”, compondo uma linha melódica mais interativa, sem a barreira das adversidades culturais. E assim foi feito: em 1985, em primeira visita ao Caribe, simpatizei-me com o estilo local – o Zuck, um estilo próximo ao meu. O casamento não foi difícil, nascendo o Samba Zuck, que me levou ao apogeu no mercado internacional. Daí a razão de eu afirmar que “o Brasil é sempre atração”, para todos. É claro que isso não é válido para quem faz um show ou uma turnê de curta duração, mas para quem vai adotar outros países e outras culturas para viver musicalmente é inevitável que aconteça essa fusão de musicalidades. Um bom exemplo dessa integração cultural é a banda Sepultura, que fez sucesso internacionalmente, fazendo um som pesado, levando a identidade brasileira e usando um ritmo amplamente conhecido que é o heavy metal. Há alguns anos radicados no Brasil e com um vocalista americano, a banda é hoje uma das mais conhecidas internacionalmente. A integração musical é um caminho que pode abrir as fronteiras do Brasil para além do samba e da bossa nova. Hoje a música brasileira é globalizada e ampla. É um mito, em pleno século XXI, pontuar a musicalidade brasileira resumida a dois ritmos. Isso não corresponde à atual música contemporânea do Brasil. De qualquer forma, todo artista brasileiro levará suas referências aonde quer que vá.

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