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VITÓRIA, SÁBADO, 11 DE FEVEREIRO DE 2012

www.agazeta.com.br

Entrelinhas

A JORNALISTA AMERICANA SUSAN CASEY DESVENDA O MISTÉRIO DOS TUBARÕESBRANCOS. Página 3

Música

NOVO DISCO É O MAIS HOMOGÊNEO DE MARISA MONTE, AFIRMA ESPECIALISTA. Página 5

Resenha

CONTOS DO JOVEM GUIMARÃES ROSA TRAZEM SUSPENSE E FANTASIA. Página 8

Cinema

UM ENSAIO SOBRE AS PRIMEIRAS DÉCADAS DA SÉTIMA ARTE NO BRASIL. Páginas 10 e 11

Carnaval clássico MAESTRO DESTACA A HARMONIA ENTRE A MÚSICA ERUDITA E A FESTA POPULAR

Páginas 6 e 7


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 11 DE FEVEREIRO DE 2012

quem pensa

Maninho Pacheco é jornalista, designer gráfico e publicitário. maninho.pacheco@uol.com.br

Ronald Mansur é jornalista e foi um dos criadores do Jornal do Campo, da TV Gazeta. ronaldmansur@gmail.com

marque na agenda prateleira Campus Inscrições para pós-graduação à distância

A Faculdade Pitágoras recebe inscrições até 23 de fevereiro para o programa de pós-graduação à distância. São 38 cursos nas áreas de Direito, Educação, Esporte, Gestão e Saúde. Mais informações: http://www.ead.pospitagoras.com.br.

Festival de poesia Renata Bomfim é destaque na Nicarágua

Vitor Lopes é jornalista e autor do livro “Encolhe, Tempo”. vitorlop@yahoo.com.br

Helder Trefzger é o maestro titular da Orquestra Filarmônica do Espírito Santo. heldertrefzger@gmail.com

Carmen Schneider Guimarães é presidente emérita da Academia Feminina Mineira de Letras. guischneidergui@ig.com.br

Caê Guimarães é jornalista, poeta e escritor. Publicou quatro livros e escreve no site www.caeguimaraes.com.br

Sonia Rita Sancio Lóra émembrodaAcademiaFemininaEspírito-Santense deLetras. soniasanciolora@gmail.com

Santiago Montobbio é poeta, escritor e professor universitário em Barcelona, na Espanha. montobbio@telefonica.net

Marcos Veronese é jornalista, diretor de cinema e vídeo. marcosveronese@bol.com.br

Paulo Bonates é mestre psiquiatra e professor universitário. pai.vix@uol.com.br

A escritora da Academia Feminina Espírito-Santense de Letras vai falar sobre a sua obra poética no VIII Festival Internacional de Poesia de Granada, na Nicarágua, no próximo dia 20. Participam do evento mais de 120 poetas de todo o mundo.

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CHICO GUEDES

de março

Museu Vale traz Roberto DaMatta

O antropólogo é um dos 13 participantes da VII Edição dos Seminários Internacionais Museu Vale, que este ano irá abordar a construção da vida urbana, a partir do tema “Se ess a rua fosse minha... – sobre o desejo e as cidades”, de 14 a 18 de março.

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de junho

Ufes terá simpósio ambiental

Estão abertas as inscrições para o IV Simpósio de Biomonitoramento Ambiental e Ecotoxicologia, que será realizado nos dias 16 e 17 de junho, no Centro de Ciências Jurídicas da Ufes. Mais informações em www.ivsbm.com/.

Diário de Oaxaca Oliver Sacks Durante dez dias, Sacks acompanhou uma excursão ao Estado de Oaxaca, no México, com um grupo de botânicos e cientistas interessados em conhecer o habitat das samambaias mais raras do mundo. Mais do que uma descrição de viagem, o livro tenta desvendar o mistério que mantém acesa a curiosidade científica. 128 páginas. Companhia das Letras. R$ 32

Galo Cantou! Paulo Rabello de Castro A experiência de regularização fundiária dos lotes e construções existentes na favela do Cantagalo, no Rio de Janeiro, é debatida sob os diferentes pontos de vista de seus participantes, incluindo a sociedade e o poder público. 304 páginas. Record. R$ 42,90

Zhou Enlai: O Último Revolucionário Perfeito Gao Wenqian A biografia do líder comunista que ocupou o cargo de primeiro-ministro da República Popular da China, de 1949 até sua morte, em 1976, traz um retrato rico de um homem que viveu no centro da política chinesa por 50 anos. 400 páginas. Record. R$ 59,90

A Educação de uma Criança sob o Protetorado Britânico Chinua Achebe Nesta coletânea de ensaios, o premiado autor nigeriano passa em revista momentos decisivos de sua relação com a criação ficcional, a política e a cultura. 184 páginas. Companhia das Letras. R$ 35

A MÚSICA É UNIVERSAL

José Roberto Santos Neves

Durante muito tempo, perdurou a ideia – equivocada – de que a música clássica e a música popular não se misturavam. A primeira estaria encapsulada em um rótulo de aristocracia que não permitiria o diálogo com outras artes, e a segunda, mutante por natureza, seria considerada uma vertente “menor”, voltada apenas para o entretenimento. Felizmente, hoje esses (pré)-conceitos estão superados. É claro que existem características próprias dessas duas escolas musicais quanto a arranjo, execução e forma composicional. Mas a história comprova que ambas sempre se alimentaram uma da outra, como descreve Helder Trefzger no artigo de

Pensar na web

capa desta edição. Nas páginas 6 e 7, o maestro da Orquestra Filarmônica do Espírito Santo faz uma viagem no tempo para mostrar como o carnaval, a música popular e as danças inspiraram diversos compositores eruditos, de Schumann ao brasileiro Ernani Aguiar, passando por Berlioz e Leonard Bernstein. Como explica o maestro em sua exposição, “a música clássica (ou erudita) é uma arte aberta, que dialoga com as outras artes, sem preconceitos, se renovando a cada dia, recebendo e transmitindo influências e informações, sem ficar estagnada”. Portanto, saudações musicais e até o próximo sábado!

é editor do Caderno Pensar, espaço para a discussão e reflexão cultural que circula semanalmente, aos sábados.

jrneves@redegazeta.com.br

Vídeos de composições de Hector Berlioz, Jean Baptiste Arban e Ernani Aguiar inspiradas no carnaval, trecho do filme “Limite”, de Mário Peixoto, músicas de Marisa Monte, conto de Guimarães Rosa e trechos de livros comentados nesta edição, no www.agazeta.com.br

Pensar Editor: José Roberto Santos Neves; Editor de Arte: Paulo Nascimento; Textos: Colaboradores; Diagramação: Dirceu Gilberto Sarcinelli; Fotos: Editoria de Fotografia e Agências; Ilustrações: Editoria de Arte; Correspondência: Jornal A GAZETA, Rua Chafic Murad, 902, Monte Belo, Vitória/ES, Cep: 29.053-315, Tel.: (27) 3321-8493


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entrelinhas

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por MANINHO PACHECO

GIGANTES PELO PRÓPRIO OCEANO

OS DENTES DO DIABO Uma História de Obsessão e Sobrevivência entre os Grandes Tubarões-brancos Susan Casey. Tradução: Diego Alfaro. Jorge Zahar. 332 páginas. Quanto: R$ 49,90

H

umanos, desistam! Os tubarões (nome genérico que engloba mais de 350 espécies diferentes), sobretudo os tubarões-brancos, não estão nem aí para qualquer um de nós. Não, eles não nos querem como lanche. Ainda que o mito diga o contrário. Temos músculos demais e gordura de menos. E eles só pensam nisso: banha. Afinal, crescem na razão de 5% ao ano. E isso precisa de combustível gorduroso. Tubarões não nos comem, simplesmente nos provam, provavelmente confundindo-nos com focas. E nos largam, tão logo reconhecem o erro. Nunca se morre engolido por uma dessas criaturas, mas pela hemorragia ou o choque traumático provocado por suas dentadas. Focas, sim, estão na base de sua dieta alimentar. Focas e leões-marinhos. São ricos em gordura. Ao contrário dos surfistas sarados e de infelizes banhistas que escolheram a pior hora de suas vidas para dar um mergulho. Naturalmente que, quando uma máquina dessas de até três toneladas e com uma das mais potentes mordidas desde o Período Cetáceo resolve delicadamente nos provar, o resultado é um estrago monumental. Nossa reação costuma ser covarde e desproporcional. Investidas de tubarões em seres humanos sequer chegam aos pés dos ataques perpetrados por nós contra essas criaturas magníficas que cruzam os mares há mais de 11 milhões de anos. Em todo o mundo, a média é de cinco a dez mortes por ano causadas por ataques de tubarão. A essa estatística respondemos com um massacre anual de 500 mil tubarões. Apenas na costa dos Estados Unidos. E é de lá que nos reporta a jornalista do “The New York Times”, Susan Casey, em seu segundo mergulho nas coisas do mar, “Os dentes do diabo” (Zahar, 2011, 332 pp). O primeiro foi o “A onda” (Zahar, 2010, 328 pp), que investiga a força destruidora do oceano. “Os dentes do diabo” nos faz seguir 43 quilômetros em linha reta, Pacífico adentro, a partir da ponte Golden Gate, em São Francisco, Califórnia, até o complexo de ilhas erguidas há 89 milhões de anos no meio do nada oceânico e que compõem o Santuário Marinho Nacional do Golfo das Fallarones. Trata-se do local mais inóspito do planeta e único lugar da Terra onde é possível estudar o comportamento natural dos tubarões-brancos no ambiente selvagem. Isso porque, em setembro, levas desses animais se deslocam de alguma parte do oceano e chegam às Fallarones para um banquete anual de três meses. Ao cabo do qual, partem para sabe-se lá

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TRECHO “Assim como o tubarão-branco, as ilhas Farallon são uma perfeita aberração da natureza. Sua ecologia é um castelo de cartas – uma confluência complexa de oceano, mamíferos, aves e tubarões, todos circundando uns aos outros, num equilíbrio sublime. Na natureza, entretanto, complexidade também significa fragilidade. Embora as ilhas façam parte do Santuário Marinho Nacional do Golfo das Farallones, de 3.250km quadrados, a reserva natural se encontra no caminho de algumas das mais movimentadas rotas marítimas da Costa Oeste dos Estados Unidos. Em 1971, 3,2 milhões de litros de petróleo vazaram no golfo das Farallones, matando mais de 20 mil aves marinhas. Treze anos depois, em 1984, um navio-petroleiro explodiu, despejando 5,3 milhões de litros de petróleo. E, neste exato momento, centenas de embarcações estão espalhadas no fundo do mar, ao redor das ilhas, prontas para despejar petróleo feito lâmpadas de lava tóxicas à medida que a água corrói lentamente seus cascos.”

Em “Os dentes do diabo”, Susan Casey tenta desvendar o mistério dos tubarões-brancos

aonde. Tudo o que diz respeito aos tubarões e seus primos brancos encontra-se, ainda, envolto em um manto à parte de mistérios insondáveis. Não sabemos onde vivem e por quanto tempo, como se acasalam, onde e com que frequência, qual a população atual no mundo, que dimensões atingem e vai por aí afora. Pesquisadores como os surfistas-biólogos californianos Scot Anderson e Peter Pyle tentam desvendar um pouco essa caixa-preta pelo menos desde a década de 80. Eles estão à frente do Projeto Tubarão-Branco das Fallarones. E é ao encontro deles, na base do projeto, incrustado nas ilhas, que Casey se dirige para reunir elementos de sua, inicialmente, reportagem para o jornal que a emprega. Não é uma tarefa fácil. O acesso às Fallarones é dificílimo. O local é severamente supervisionado pelos órgãos ambientais do governo norte-americano e não oferece um porto ou

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uma baía seguros para atracar embarcações. Seus penhascos e desfiladeiros começam a vinte, trinta metros de altura e afundam no mar sem maiores explicações. Ainda assim, a jornalista consegue autorização para acompanhar algumas temporadas desse banquete e nos presenteia com um relato apaixonante sobre essas incríveis criaturas marinhas. Impossível fechar a última página sem cair de amores pelos grandes tubarões-brancos. Seu livro contribui para tentar desfazer o desserviço prestado à espécie por Steven Spielberg em seu “Tubarão” (Jaws, 1975) e demais subpro-

dutos cinematográficos. Estigmatizado como o terror dos mares, pescados indiscriminadamente, sobretudo para abastecer a demanda chinesa por barbatanas, os tubarões-brancos são gigantes injustiçados por nossa boçalidade e desconhecimento e correm o risco de extinção. Sua existência depende exclusivamente dos governos atenderem aos apelos da comunidade científica internacional e estabelecerem regras claras e corajosas para protegê-los. Ainda assim, todas essas iniciativas podem ser tarde demais. Como diz Casey, os tubarões-brancos se adaptaram a tudo o que foi jogado em seu caminho nos últimos 11 milhões de anos. “Mas a pergunta é: irão sobreviver a nós mais uma década?”.


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livros por RONALD MANSUR CIDADES IRMÃS POMERANAS – VILA PAVÃO (ES) E ESPIGÃO DO OESTE (RO) Jorge Kuster Jacob. Gráfica Cricaré. 116 páginas. Quanto: R$ 12. À venda na loja Hortifruti, Rua Henrique Moscoso, 333, Praia da Costa, Vila Velha, e com o autor: (27) 9776-9579.

JORGE KUSTER JACOB, O POMERANO

Pesquisador relata a trajetória dos descendentes da antiga Pomerânia que migraram de Vila Pavão, no Norte do Estado, para Espigão do Oeste (RO), em busca de uma vida melhor

T

em gente que se preocupa com gente. Tem gente que pensa o futuro, vivendo o presente, mas com o olhar e o conhecimento do passado. Mas o passado não representa um amontoado de informações e de conceitos imprestáveis. Um passado que serve não como um ancoradouro de lamúrias e lamentações, mas como base e trampolim para o futuro. Agir individualmente, em primeiro lugar, e, em seguida, agir no coletivo. É assim a pessoa que é o título deste texto. Jorge Kuster Jacob agora nos brinda com mais um livro: “Cidades Irmãs Pomeranas – Vila Pavão (ES) e Espigão do Oeste (RO)”. São 116 páginas e uma leitura rápida que fornece base para começarmos a entender o que é o povo pomerano. Já na introdução, o autor responde a uma pergunta que a ele é sempre dirigida: por que você escreve tanto sobre os pomeranos? A resposta: “Sou pomerano e temos apenas 30 anos de pesquisa, de existência, de autodefinição cultural, de registros, de busca pela nossa identidade histórica e cultural. É pouco tempo para uma cultura tradicional e tão complexa.” Mas o que contém este livro? A indagação é correta e faz sentido. É preciso saber o conteúdo para decidirmos se vale a pena ler o texto. Jorge vai nos levar a um passeio pela História, rumo à Europa, e, depois, rumo ao Brasil, em “viagens que na maioria das vezes eram muito tristes, uma vez que crianças e idosos não suportavam a desidratação, enjoos e vômitos: os que morriam eram deixados no oceano.’’ Assim aconteceu com milhares de pomeranos rumo ao Espírito Santo, que após grande sofrimento na Europa, segundo o autor, “agora tinham nas mãos seus sonhos: a terra prometida. Longe dos grandes centros, sem igreja, sem escola, sem assistência técnica, iniciavam uma nova vida. A grande conquista estava no fato de não mais serem servos ou escravos como na Pomerânia.” No Espírito Santo, os pomeranos vieram para Santa Leopoldina, subiram para onde é hoje Santa Maria do Jetibá e, com a sina de migrar, foram ocupando o Norte capixaba e também o Leste de Minas Gerais. Um povo que anda, que migra e que trabalha, trabalha e trabalha... Já no início da década de 60, novo êxodo, agora em

GILDO LOYOLA/ARQUIVO AG

TRECHO “O final da II Guerra Mundial significou também o final da Pomerânia. Com a derrota do regime nazista em 1945, através de um tratado internacional a Pomerânia Oriental (70%) foi entregue à Polônia. Nesse período os pomeranos tiveram que deixar suas casas da noite para o dia, e apenas com a roupa do corpo. Muitos morreram na gelada neve ou eram saqueados e mortos antes de chegarem à Alemanha Ocidental.”

REPRODUÇÃO DO LIVRO CIDADES IRMÃS POMERANAS

No alto, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, cartão-postal de Vila Pavão; acima, propriedade pomerana e o tradicional vestido preto de noiva da região

direção ao Paraná. Mais alguns anos adiante, Rondônia foi o destino. É aqui que Jorge nos traz fotografias e relatos marcantes, numa linguagem forte e sofrida, falando de seus amigos e familiares que tomaram a estrada rumo ao novo paraíso. Neste espaço é quase impossível fazer um relato fiel às palavras registradas por Jorge. Melhor mesmo é abrir o livro e ir se deliciando com histórias e fatos. Segundo relato do autor, “os primeiros pomeranos do Espírito Santo chegam a Rondônia em 1967. Foram os irmãos Martim Hollander e Artur Hollander, que vieram de São Gabriel da Palha. Inicialmente, queriam trabalhar numa serraria e assim conhecer Rondônia. No ano seguinte, voltaram para sua terra natal e fizeram propaganda das belas matas, caça e terras que conheceram no então Território Federal de Rondônia.’’ Trata-se de um livro único, feito e lavrado por uma pessoa que é pomerana e que tem a sensibilidade e a maestria para falar de sua gente. É como estar sentado e acomodado, apenas absorvendo a beleza e a força de quem sente na carne e na alma a migração de seu povo. Assim é o relato de Jorge Kuster Jacob. Agora, as Prefeituras de Vila Pavão e de Espigão do Oeste, em Rondônia, estabeleceram que serão cidades irmãs.


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falando de música

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por VITOR LOPES

UMA MARISA MONTE QUE A GENTE NUNCA VIU

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O QUE VOCÊ QUER SABER DE VERDADE Marisa Monte. EMI. 14 faixas. Quanto: R$ 29,90, em média

DORA JOBIM/DIVULGAÇÃO

A LETRA O QUE VOCÊ QUER SABER DE VERDADE

(Marisa Monte/Carlinhos Brown/ Arnaldo Antunes)

Vai sem direção Vai ser livre A tristeza não Não resiste Solte seus cabelos ao vento Não olhe pra trás Ouça o barulhinho que o tempo No seu peito faz Faça sua dor dançar Atenção para escutar Esse movimento que traz paz Cada folha que cair Cada nuvem que passar Ouve a terra respirar Pelas portas e janelas das casas Atenção para escutar O que você quer saber de verdade

“O que você quer saber de verdade” é o único disco que destoa de forma gritante de todos os outros trabalhos da cantora

E

m tempos de fragmentação dos discursos estéticos, é de se admirar que pela primeira vez em sua carreira Marisa Monte tenha criado um Álbum (e o A maiúsculo se faz necessário) com apenas uma de suas diversas facetas. Embora, musicalmente, muitos venham a dizer que a cantora está se repetindo, pode-se afirmar que, conceitualmente, o recém-lançado “O que você quer saber de verdade” é o primeiro disco em que a artista se apresenta com uma unidade sonora plena, algo nunca visto. Assim que foi divulgado o primeiro vídeo promocional deste mais novo trabalho – o clipe da música “Ainda bem” –, tornou-se comum a crença de que a cantora está gravando um eterno mesmo álbum. A má-fé é fruto de análises preguiçosas. Se para uns o “mais do mesmo” de Marisa Monte é visível desde que seus primeiros discos foram lançados, o único que parece destoar de

forma gritante de todos os outros trabalhos é este “O que você quer saber de verdade”. Para tal análise, é preciso voltar aos álbuns anteriores. Se a confusão estética do seminal “MM” (1989) mostrava timidamente quem viria a ser Marisa Monte, o segundo disco, “Mais” (1991), já estava atento aos futuros passos da cantora. Como numa rua esburacada, o que se observa em todos os discos de Marisa lançados a partir de então (“Verde, anil, amarelo, cor de rosa e carvão” e “Barulhinho bom”) é uma compositora e intérprete em busca de uma identidade, mesclando rock, regionais, sambas, pop e uma sofisticação latente em suas criações.

Pop e sofisticada

Vamos nos atentar para os seus últimos trabalhos. Embora seja classificado ao lado de “Verde, anil...” como uma de suas melhores obras, o “Memórias, crônicas e declarações de amor” é claramente dois discos dentro

de um só. É algo que ela sempre fez, mas que se revelou ao mundo de forma mais escancarada neste CD de 2000. De um lado está a veia pop da cantora, em músicas como “Amor I Love You”, “Não vá embora”, “O que me importa”. De outro, a linha sofisticada em que apresenta arranjos complexos e sambas estilizados, como em “Abololô”, “Gotas de luar”e “Pra ver as meninas”. Quantas Marisas Montes há dentro de Marisa Monte? Inúmeras. E essa distinção ficou ainda mais clara quando, em 2006, ela optou por lançar de uma só vez dois discos, o “Infinito particular” e o “Universo ao meu redor”, um pop e outro de sambas. Observe que nem em uma mesma “caixa” eles foram lançados. Estão, inclusive, fisicamente separados. As próprias parcerias da cantora parecem exemplificar esse universo, sendo o tripé ao lado de Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes o mais característico. Brown é reflexo da cultura popular e Antunes vai por outro caminho, já que

é filho da vanguarda/concretista paulista. Marisa Monte parece o meio-termo dos dois, o local onde esses universos se encontram. Ciente de que a cantora vem tomando o caminho de distinção criacional, é surpreendente constatar que neste “O que você quer saber de verdade”, Marisa Monte apresenta um disco em que todas as músicas parecem fazer parte de um mesmo universo sonoro/conceitual, algo que até então ela não havia realizado em toda a sua carreira. Nenhuma música desse novo CD destoa entre si, ainda que, sonoramente, haja alguns sobressaltos, como um xote na faixa “O que se quer”, mas que reaparece em “Amar alguém” e “Hoje eu não saio não”. Nesse disco, não há sequer um samba e nenhum rock clássico, por exemplo. O que se ouve é uma Marisa Monte pop-brega-romântica-sofisticada, prestes, agora sim, a começar a respirar em universos sonoros que só ela sabe onde vão levá-la.


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música

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por HELDER TREFZGER

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Autores clássicos escreveram músicas sobre temas populares e usaram ritmos de dança em suas obras, entre eles Brahms, com as danças húngaras, e Manuel de Falla, com as danças espanholas

O CLÁSSICO E O POPULAR EM HARMONIA

DIVULGAÇÃO

DIVULGAÇÃO

Robert Schumann (à esq.) e Hector Berlioz: obras sobre a festa profana

Peças compostas por Ernani Aguiar e Leonard Bernstein farão parte do concerto “A Música Clássica e o Carnaval”, da Ofes, na próxima quinta, no Teatro Carlos Gomes

MAESTRO DA ORQUESTRA FILARMÔNICA DESCREVE COMO O CARNAVAL INSPIROU DIVERSOS COMPOSITORES ERUDITOS

P

ronto – pode pensar o leitor mais desavisado –, só faltava essa! O que tem a ver a música clássica, também chamada de erudita, com o carnaval, uma manifestação tipicamente popular? Bem, em princípio parecem ser coisas completamente distintas, mas, se considerarmos a trajetória da música clássica, verificamos que ela sempre teve alguma relação com a música popular, assim como com a dança. Já a suíte antiga, que vem a ser um conjunto de peças breves, muito comum entre os séculos XVII e XVIII, era composta por danças como a courante, a giga, a boureé e o minueto,

dentre outras tantas. A própria sinfonia, em sua forma mais conhecida, solidificada por Haydn e Mozart, e potencializada por Beethoven, manteve o minueto, substituído posteriormente pelo scherzo (que significa brincadeira, jogo), mais rápido e mais agitado. Inúmeros compositores clássicos escreveram músicas sobre temas populares e utilizaram ritmos de dança em suas obras, como, por exemplo, Brahms, com suas danças húngaras, e Manuel de Falla, com as danças espanholas etc. O carnaval não passou incólume a isso, tendo inspirado alguns compositores, dentre eles o respeitado Robert Schumann, que, com toda a

sua sensibilidade, escreveu seu “Opus 9 para piano”, chamado por ele mesmo de “Carnaval”, um conjunto de 22 peças para piano, com direito a pierrot, arlequim e colombina, isso entre 1833-35. Outros compositores se inspiraram em carnavais específicos e assim nominaram as suas obras. É o caso de duas obras do século XIX, o “Carnaval Romano”, escrito pelo francês Hector Berlioz, e o “Carnaval de Veneza”, um conjunto de variações virtuosísticas, escrito para trompete e orquestra pelo também francês Jean-Baptiste Arban, um admirador de Paganini, que resolveu escrever peças com um alto

nível de exigência técnica para esse instrumento, tal como o mestre genovês fez com o violino.

Brasil

No Brasil, país famoso pelo seu carnaval, um compositor português, radicado no Brasil, José Guerra Vicente, compôs, entre 1964 e 1965, uma obra intitulada “Carnaval Carioca”, ainda pouco executada, após a sua estreia em Brasília, em 1989. Recentemente, em 2002, outro compositor, Ernani Aguiar, escreveu uma Sinfonieta (que é uma sinfonia em dimensões menores), com o subtítulo “Carnevale”. Essa peça estreou na Ale-

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A Orquestra Filarmônica do Espírito Santo quer destacar junto ao público a percepção de que a música clássica é uma arte aberta e que se renova a cada dia

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manha em 2003, com enorme sucesso, sendo depois apresentada no Brasil e em vários países, como Rússia, México, Estados Unidos e Bolívia. A obra é dividida em quatro partes, chamadas movimentos: Samba, Frevo, Marcha Rancho e Escola de Samba. As suas peculiaridades são a participação da plateia em determinado momento, previsto na partitura, e o papel de mestre da bateria, assumido pelo maestro na última parte da obra, que, para isso, utiliza um apito.

Concerto

Para abrir a temporada 2012, a Ofes – Orquestra Filarmônica do Espírito Santo – programou um concerto especial com esse tema, que acontecerá no dia 16/02, entre o carnaval de Vitória e o carnaval do Rio de Janeiro. No repertório, obras citadas neste artigo, como o “Carnaval Romano”, de Berlioz, a “Sinfonieta Seconda: Carnevale”, de Ernani Aguiar (apresentada ape-

Abertura da temporada 2012 da Ofes Série Concertos Especiais: A Música Clássica e o Carnaval Regência: maestro Helder Trefzger Solista: Pedro Mota (trompete) Local: Teatro Carlos Gomes, Praça Costa Pereira, Centro, Vitória Data: 16/02 Horário: 20h Ingressos: R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia). Os ingressos podem ser adquiridos na bilheteria do teatro a partir das 14h do dia 14/02. Mais informações: (027) 3132-8396 Programa: Hector Berlioz (1803-1869) – Abertura “Carnaval Romano, Op. 9” Allegro assai con fuoco Data de composição: 1843 Data de estreia: 03 de fevereiro de 1844, em Paris

Jean Baptiste Arban (1825-1889) – “O Carnaval de Veneza” Allegro Solista: Pedro Mota (trompete) Jose Pablo Moncayo (1912-1958) – “Huapango” Allegro Moderato Data de composição: 1941 Ernani Aguiar (1950) – Sinfonietta Seconda “Carnevale” Samba Frevo Marcha Rancho Escola de Samba Data de composição: 2003 Data de estreia: carnaval de 2003, na cidade alemã de Villing-Schwenning Leonard Bernstein (1918-1990) – “Mambo”, do musical “West Side Story” Meno presto Data de composição: 1957 Data de estreia: 1957, em Nova York

nas uma vez em Vitória, em 2008), e também o “Carnaval de Veneza”, de Arban, que terá como solista o excelente trompetista, músico da Ofes e professor da Fames, Pedro Mota, grande talento que escolheu o Espírito Santo para viver e desenvolver as suas atividades. E, para completar o programa, duas peças breves, todas voltadas para a música popular e para a dança: o “Huapango”, do compositor mexicano Moncayo, e o “Mambo”, de Leonard Bernstein. Esta breve exposição só nos faz ter certeza de que a música clássica (ou erudita) é uma arte aberta, que dialoga com as outras artes, com a música e as danças populares, e também com o carnaval, sem preconceitos, se renovando a cada dia, recebendo e transmitindo influências e informações, sem ficar estagnada. Então? Vai ficar aí parado? Venha ouvir música e se divertir em um concerto que vai dar o maior samba!


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resenha por CARMEN SCHNEIDER GUIMARÃES

QUATRO CONTOS E UM ENIGMA

ANTES DAS PRIMEIRAS ESTÓRIAS João Guimarães Rosa. Nova Fronteira. 96 páginas. Quanto: R$ 23,90

Narrativas curtas de Guimarães Rosa, reunidas em “Antes das primeiras estórias”, revelam a afeição do então jovem escritor pelo suspense e pela literatura fantástica

É

preciso ter coragem para tentar esboçar um juízo correto que avalie aquele primeiro voo. O rapaz ainda se achava nos confins mineiros. Ele sentia eclodir um sentimento novo dentro do peito: a vontade de falar. Guimarães Rosa procurava um caminho diferente, mas anda não estava acordado para o sertão. Ao leitor menos atento, pode parecer que os contos do jovem João Guimarães Rosa (1908-1967), contidos no livro “Antes das primeiras estórias”, com apresentação de Mia Couto, editado pela Nova Fronteira Participações S.A, não iam além de passatempo, em busca de alguma ajuda financeira e, quem sabe, de um jeito de avaliar sua arte incipiente de escritor. Na verdade, o conto inicial, que traz a denominação “mistério”, não é o que contém expressiva dose do escondido em sua trama. “O Mistério de highmore hall” transita com naturalidade pela Escócia, trata de costumes remotos nos velhos castelos da região, com sucintas referências a excursões pelos lagos, caçadas às raposas, como o autor deixa escapar na tagarelice de Tragywyddol, guardião do castelo de Duw-Rhoddoddag. Esse homem, até a metade do texto, é o narrador da estória, mas que passa a voz a uma terceira pessoa, contador onisciente. Desse cadinho de magias literárias emergia o “fabulista”, o “fabuloso” Rosa, coisa que nem mesmo ele sabia. O escritor precisou navegar por outros mundos para encontrar o seu chão. Acreditamos que no segundo conto, o mestre da fábula tenha ido buscar notícias de grandes falanges viandantes conquistadoras, de diferentes origens e seus associados e escravos. Encontrou, justamente, a Fenícia, que lhe veio saciar o intento pesquisador. Rosa buscou notícias sobre as arrojadas navegações conquistadoras, os homens de Salomão e do rei Hiram; de posse delas, assenhoreou-se da multidão dos convocados mercenários e dos escravos, além dos colonos cários, pelasgos, basanitas e filisteus. Estavam eles naquele arraial fenício e, além desses, os aborígenes da terra, “na orilha do bosque, na taba dos tupinambás amigos”. O contista buscava as raízes da palavra Maquiné, cuja gruta que leva este nome, em Cordisburgo, figurava como um de seus amores. Em suas pesquisas, talvez as

AG. ESTADO

te, Guimarães Rosa faz referência explícita à “caverna de Mag-Kinnér, a que os vermelhos chamam Makiné”. Também no terceiro trabalho, Guimarães Rosa não fugiu do escondido e já faz uso do fascinante mundo da escrita fantástica. O título de seu conto terceiro da série figura mesmo em grego, sem tradução: chromos kai anagke, que pode ser transliterado em “tempo e destino”. No conto, o mais novo enxadrista, Zviazline, chegara a uma cidade do Sul da Alemanha, K..., para um torneio de xadrez, no Club Andersen. Sobre o tabuleiro, no seu delírio, diante do qual, duas figuras se assentavam, ali se desenvolviam conflitos e todo o desenrolar da história mundial. Dentro do pesadelo, aqueles dois jogadores emblemáticos sobressaíam, e com certeza, eram os que davam nome ao conto. Um deles tinha ao lado uma ampulheta, e sua imagem “parecia acima das idades”, enquanto o outro, “envolvido em ampla capa preta, delineava ao bruxulear baço das tochas, como a silhueta fantástica de um morcego”; algo eterno e inexorável estava ali: o Tempo e a Fatalidade, Ormazd e Ahriman. A quarta tarefa literária de João Guimarães Rosa afigura-se mais com uma fábula do que com um conto propriamente dito. Possui descrições perfeitas de uma ambiência alterosa, com os caçadores e fauna própria, e especiais cuidados para com as camurças, nas encostas alpinas de Engadine, na Suíça. A estória apresenta Autor navegou por outros estilos, antes de se consagrar com “Grande Sertão: Veredas” um começo usado nas primitivas redações, até mesmo nas parábolas romanceadas ou bíblicas, com relatos de exigências de moças casadoiras, tanto por parte delas ou dos seus pais. O final é que lembra mais uma fábula, podendo mesmo ter como fecho uma legenda moralista ou tenha encontrado: lá estava a beleza da e filisteus, pobremente enroupados – ba- de cunho religioso, enaltecendo a feliz “mil maravilhas”, grafada com o k em sua ralhava-se, balburdiando, por entre pra- conduta do caçador Ulrich. escrita. E daí para a configuração da gas e imprecações”. A jovem Lisel, filha de mestre Hellau, a Referências muito suspeitas à Grande mais bela jovem da aldeia, era a escolhida incrível estória, lastreada com laivos de outras civilizações, e que vale, aqui, uma Terra Firme, “onde há ouro e prata, dia- de dois caçadores, o Ulrich e o Rudolf, que ligeira incursão no texto, pela beleza mantes e madeiras raras, e onde habitam para conseguir as graças da pretendida, descritiva dos homens de Kartpheq, o as raças de tez imberbes vermelha.” Vemos teriam que caçar, nada menos do que astrólogo: “A multidão-formigueiro–egíp- uma forte semelhança com nossas terras e Blitz, a mais cobiçada camurça fêmea de cios, de cabeleiras frisadas, vestindo cur- gente, ainda quando o escritor cita, pela Engadine. Que a trouxessem, apesar dos tos calasiris com mangas guarnecidas de boca de Qualmph, o encarregado da terríveis riscos que haveriam de enfrenfranjas; negros hercúleos da Etiópia, lus- escrita da viagem, que lia em um largo tar! E depois de grandes atropelos, Ulrich trosos e semi-nus; cananeus, sidônios e papiro as peripécias das jornadas: “O rio torna-se o vencedor, mas abdica do pritírios; habitantes de Arad, com os cabelos de Salomão” (seria o Solimões?), “em vilégio, e homenageando o amigo morto, enrodilhados por colares de ouro; he- cujas margens vivem as mulheres guer- entrega a caça a Klaus Tschober, o breus, colonos cários, pelasgos, basamitas reiras” (seriam as amazonas?). Finalmen- zelador da floresta, seu inimigo.


poesias

crônicas

O POEMA É EROSÃO PERDIDA.

FRAGMENTOS DE FEVEREIRO

SANTIAGO MONTOBBIO

Sobre o quanto somos iguais. E diferentes. “Aqui é lugar de rico e milionário. Essa mesinha é apenas 2.500.... moleza... aqui a gente pega notas de 20 e rasga”. A cena estarrecedora chegou aos olhos do país no ano passado nas redes sociais. Um idiota completo rasga uma nota de vinte reais em meio a baldes de prosecco em Jurerê, badalada praia em Santa Catarina. Peito de chester anabolizado, correntes grossas no pescoço e nas patas dianteiras, cabeça raspada. Ao redor, mulheres gostosas expostas como carnes nobres de um açougue nobre em um bairro nobre. Outro idiota, incompleto, comenta sobre “fazer aviõezinhos com notas de 50 e jogar no ar”. Ambos, como eu e você, têm a vida orgânica iniciada em uma molécula de carbono 14 e se tornam únicos por uma complexa cadeia de DNA. Em contraponto, a edição do vídeo mostra o flagelo da miséria. A

O poema é testemunho. O poema é testamento. O poema é de todos e é de ninguém. O poema é sempre teu. O poema é coração cheio de feridas muito abertas. O poema é o retrato escuro do esquecimento. O poema é lodo. O poema é tudo. O poema É lírio e rio. O poema é ar livre. O poema É uma criança e um respiro. O poema estremece como aranha que a solidão desterra. O poema é aurora é rio (já disse) e é latejo. O sol do poema também sabe do frio. O poema está sempre desperto, sempre ferido. No poema está o coração secreto do estio. O poema te vive e te persegue. O poema te escreve. O poema é um destino. O poema é uma paisagem que nunca é a mesma. O poema é luz jamais ouvida. O poema estala novo sobre o dia. O poema é sussurro, é tremor, alento estremecido. O poema é tigre e é pomba. O poema é triste, é livre. O poema é misterioso e não se perde nem se esgota seu sentido. O poema é sombra. O poema é feixe E soma dos possíveis caminhos. O poema é revelação e abismo, brilho único. O poema também é montanha e água e aurora sempre aludida. O poema, adaga e última muralha. O poema está escondido. Nas palavras o descubro. No poema sempre sou eu mesmo. No poema ardo, ilumino. Navego noite adentro. Náufrago, me consumo. No poema vivo. Para ti no poema me construo.

NO CAFÉ DOS ABRAÇOS PERDIDOS. No café em que por última vez nos vimos. Em algum café em que escrevi tantos poemas antigos e que ainda está intacto ou ao menos no mesmo lugar. nesse café quero estar e voltar a encontrar-me, ter-te e também perder-me. Em qualquer café de bairro e entre a tarde solitária podes buscar-me. Publicados originalmente no livro “La poesía es un fondo de agua marina” (2011)

por CAÊ GUIMARÃES lavadeira Maria Rita, do interior de Minas Gerais, fala com dificuldade. Raciocina pouco. Lentamente morre de fome. Como você e eu, sua vida orgânica se inicia em uma molécula de carbono 14 e se torna única por uma complexa cadeia de DNA. Os turistas provavelmente estão em Jurerê neste verão 2012, rasgando dinheiro e tratando mulheres como lixo. Maria Rita morreu. De fome. Sobre o quanto somos diferentes. E iguais. Não satisfeitos com o baixo nível da nossa TV aberta, gênios do marketing inventam o “Mulheres ricas”. Em um país onde Marias Ritas ainda vivem na absoluta ignorância e morrem de fome, o enriquecedor cotidiano de cinco senhoras do high society é exposto para deleite de telespectadores com o perfil da dupla de Jurerê. E também o perfil da miserável morta. As cinco desfilam um festival

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bizarro de futilidade. E irmanam os meninos deslumbrados que rasgam dinheiro com a famélica. Tivesse em mãos as notas rasgadas na praia, Maria Rita teria comprado comida e provavelmente estaria aí, com sua TV, ou a da vizinha, sintonizada em “Mulheres ricas”, colaborando para a audiência do nobre programa. Sobre o Wando O Brasil perdeu nesta semana o príncipe da sedução no cancioneiro popular. Não conheço a obra do Wando, a não ser o iaiá ioiô de “Fogo e paixão”, que virou cult entre modernos de todas as gerações e procedências, e “Moça”, que é linda, lírica e cortante. Ao contrário dos inacreditáveis meninos de Jurerê, nas letras de Wando a mulher nunca é tratada como objeto. Ele sempre defendeu o cavalheirismo, lá à sua moda, como bem lembrou o colega Xico Sá em seu blog. E jamais rasgaria dinheiro, pois foi feirante e caminhoneiro. Só não daria para cantar “eu quero me enrolar nos seus cabelos” para as cinco inacreditáveis do “Mulheres ricas”. Elas fazem escovas e passam tinturas que custam fortunas. Apenas uma aplicação daria para alimentar por um ano a Maria Rita, conterrânea do falecido cantor e morta pela fome.

A ARTE DE DESNUDAR-SE por SONIA RITA SANCIO LÓRA

As asas do albatroz são longas e finas e necessitam de um espaço amplo para alcançar velocidade e decolar contra o vento. São desajeitados e lerdos no chão, mas nos céus esbanjam graça e imensa beleza. Há poucos dias alguém me perguntou se poderia ser capaz de despir-se nas letras, como eu faço. Penso que antes de ser um estilo de escrever, torna-se difícil a confecção, tal objeto de arte, de um texto ou poema sem um modo muito especial de amar. Mais difícil ainda é colocar a inspiração para descansar – porque ela também necessita reciclar. Meu pensamento é sempre muito vívido e até das fantasias que ainda experimento, faço com que alguma realidade seja inserida. Apagar de minha mente experiências vívidas é tarefa impossível, pois são elas que guiam as minhas mãos para as letras. Ao contrário de muitos escritores da atualidade, que fazem suas publicações através de pro-

gramas de computador e, mesmo alguns do passado recente, que usavam a velha e boa máquina de escrever, eu sou adepta de lápis com borracha na ponta e apontador. Depois, quando repasso o texto, vejo como a minha mente divaga em alguns trechos – e em outros alço um voo que nem jato supersônico. Alternando-me como planador leve e colorido ou um pássaro voando livre, aterrisso esborrachando-me, aos trancos, não sem antes passar por turbulências que quase me colocam a nocaute. Na maioria das vezes realizo o voo do albatroz, uma descoberta que Charles Baudelaire (1821-1867) já havia sentido há muitos anos. Quando não consigo escrever o que eu realmente sinto e não gosto do resultado, vai pro lixo e não insisto no assunto, pois bem sei das minhas limitações. Muitos anos se passaram para que eu assumisse que sou a pessoa mais importante para mim. Mas o passado... Este ainda me persegue com a força de um vento forte. A vida foi fada boa, mas

também bruxa feia. Nada existe que me faça esquecer o que me marcou muito, em algum momento de minha vida. Hoje demoro mais para adormecer porque me ofereço a oportunidade de pensar em possibilidades! Acordo com vontade de virar planador! O meu coração continua adolescente e o tempo, esse bruxo ingrato, fez com que eu criasse um outro, obedecesse ao comando da sensibilidade e fosse percorrendo o caminho do albatroz, desengonçado, até encontrar um equilíbrio para a minha eterna busca de sorrisos verdadeiros. Todos os caminhos, sem exceção, têm um começo e um fim. Eu quero descobrir segredos, ficar abraçada bem quietinha e sentir as batidas daquele outro coração que eu tanto espero. É o passado trazendo-me para um futuro que bem sei que não será realizado, pelo menos agora. As pessoas preferem sofrer, abrir mão de seus sentimentos, a viver as emoções do albatroz que, apesar de cuidar de seus filhotes, sai em busca de si mesmo no seu céu.


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por MARCOS VERONESE

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DIVULGAÇÃO

OS PRIMEIROS ANOS DO CINEMA NO BRASIL A sétima arte chegou ao país pouco tempo depois da invenção dos Irmãos Lumière, traduzindo a identidade nacional na tela grande com linguagem própria

WIKIPÉDIA

“Um dia, quando já não houver império britânico, nem república norte-americana, haverá Shakespeare; quando não se falar inglês, falar-se-á Shakespeare.” ������� �� ����� cinema chega ao Brasil em 1896. Não há registro do empresário pioneiro; o descaso crônico com a história do país explica a tragédia quando se trata de questões que remetem à memória nacional, ou o que dela resta. O país estava mergulhado no subdesenvolvimento, desvencilhando-se da penosa herança do sistema econômico escravocrata e do regime político monárquico, abolido entre 1888 e 1889. O Rio de Janeiro conhece a energia elétrica somente no início do século XX, mais precisamente em 1907, produzida pela usina do Ribeirão das Lajes. A partir de 1897, o cinematógrafo é apresentado no Rio de Janeiro, em São Paulo e em outras importantes cidades do país, passando a fazer parte da programação dos teatros de variedades e dos cafés-concertos.

de filmar comprada em Paris. Neste dia nasceu o cinema brasileiro. Dez dias após o registro das primeiras imagens, Afonso documentava as comemorações do terceiro aniversário de morte do marechal Floriano Peixoto, filmando seis dias depois o desembarque do presidente Prudente de Morais e de sua comitiva no Arsenal da Marinha. Os pontos importantes da cidade do Rio, como o Largo do Machado, a Igreja da Candelária e o Largo de São Francisco de Paula também foram documentados e exibidos por Afonso, que já dominava a técnica da revelação. Em 08 de agosto de 1898, o “Salão” foi totalmente destruído por um incêndio, e só reabriria as portas no ano seguinte. Em 1900, Afonso parte para mais uma viagem e não retorna. Sobre seu desaparecimento, os irmãos mantiveram total segredo. Os Segreto estão sepultados no cemitério São João Batista, e sob o seu jazigo estão as figuras que simbolizam a arte teatral e a imprensa. A respeito de Afonso Segreto, o primeiro nome do cinema brasileiro, nada mais se sabe. Sua biografia perdeu-se no tempo, assim como suas pegadas.

Pioneiros

Primitivismo

O

Pioneiro do cinema no Brasil, o italiano Afonso Segreto registrou imagens da Baía da Guanabara, em junho de 1898

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A primeira sala de exibição cinematográfica fixa foi instalada no número 141 da Rua do Ouvidor, e chamou-se “Salão de Novidades”. Cinema era novidade francesa, invenção dos Lumière, ficando o local conhecido como “Salão Paris no Rio”, espaço cultural que entrou para a história por cumprir seu papel junto ao cinema no Brasil e ao filme brasileiro. A família Segreto era um grupo formado por quatro irmãos emigrados da Itália – Paschoal, Caetano, Luiz e Afonso – que, além de donos do “Salão Paris no Rio”, tinham uma distribuidora de jornais e revistas. Moravam todos no andar superior do salão, na Ouvidor, que era o centro comercial, artístico e jornalístico da então Capital Federal. Era Afonso Segreto o responsável por renovar o “Salão”, e essa função o obrigava a viajar com frequência para Nova York e Paris, em busca de novidades e novos aparelhos. Era domingo, 19 de junho de 1898. Afonso retornava de mais uma de suas viagens a bordo do navio francês “Brèsil” e, do convés, fez algumas imagens da baía da Guanabara, com uma câmera

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Até 1903, os Segreto foram os únicos produtores dos filmes nacionais de atualidades. Os dez anos que se seguem são improdutivos para o cinema no Brasil, com as poucas salas restritas ao eixo Rio/São Paulo. A justificativa para o ritmo extremamente lento do comércio cinematográfico de 1896 a 1906 pode ser creditada ao déficit em matéria de eletricidade. Em 1907, a usina do Ribeirão das Lajes dinamizou o cinema no Rio. Em poucos meses foram instaladas mais de 20 salas, e esse súbito reflorescimento do cinema influi diretamente na produção do filme brasileiro. Seguindo a trilha aberta pelos pioneiros irmãos Segreto, novos empresários investem na importação, exibição e produção cinematográfica. Os italianos José Labanca e Jácomo Rosário Staffa, até então empresários do jogo de bicho; o fotógrafo francês Marc Ferrez e os filhos; o alemão Cristovão Auler, fabricante de móveis; e o espanhol Francisco Serrador investem no comércio de importação, exibição e produção cinematográfica, o que explica a vitalidade do cinema bra-

Um dos mais importantes diretores do país, Humberto Mauro filmou entre 1925 e 1974; abaixo, cena do longa “Limite” (1931), de Mário Peixoto

xonou-se por uma cantora, mas tudo se complica com a chegada súbita da esposa. Em 1907, Antonio Leal é contratado pelo empresário Jácomo Rosário Staffa para filmar a primeira operação de pacientes xifópagas, realizada pelo médico Chapot Prevost, personalidade que dá nome a uma rua da Praia do Canto, em Vitória. No ano seguinte, Leal associa-se a José Labanca para fundar a “Photo Cinematographia Brasileira” e, em seguida, lança duas comédias curtas: “Os capadócios da Cidade Nova” e “O comprador de ratos”. Entre os colaboradores e intérpretes de Leal há vários nomes que estarão sempre presentes nessa fase primitiva do cinema brasileiro: Emilio Silva, Francisco Marzulo, João de Deus, João Barbosa, Eduardo Leite e o diretor de cinema Antônio Serra.

Gêneros

sileiro entre 1908 e 1911. Todos os filmes realizados até 1907 limitavam-se a assuntos naturais. A ficção cinematográfica, o filme de enredo, o filme posado, como era chamado, só aparece em 1908. Há controvérsias e dúvidas sobre qual seria o primeiro filme de ficção realizado no Brasil, mas a tradição indica “Os estranguladores”, baseado em fato real, sendo o roteiro construído a partir do assassinato de dois adolescentes, os irmãos Paulino e Carluccio Fuoco, funcionários e sobrinhos de um rico joalheiro da Rua da Carioca, por uma quadrilha de assaltantes. Calcula-se que a fita foi exibida mais de 800 vezes, constituindo-se em um fenômeno para o cinema bra-

sileiro. Tinha 700 metros, o que corresponde a quase 40 minutos de projeção, sendo dirigida e filmada pelo português Antonio Leal, fundador e criador do cinema brasileiro de ficção. Em 1908, no grande cinematógrafo Pathê, localizou-se uma comédia filmada por Jullio Ferrez e interpretada por José Gonçalves Leonardo, “Nhô Anastácio chegou de Viagem”, que também é forte concorrente ao título de primeiro filme de ficção no Brasil. O filme de 15 minutos narra as peripécias de um matuto que foi passear no Rio, desembarcou na estação da Central do Brasil, andou pelas ruas, viu a caixa registradora, entrou no Palácio Monroe, visitou o passeio público, e apai-

De 1908 a 1911, foram filmados no Rio inúmeros gêneros cinematográficos e melodramas tradicionais, como “A cabana do Pai Tomás” e “O remorso vivo”; dramas históricos (“Dona Inês de Castro”, “A República Portuguesa”), patrióticos (“A vida do Barão do Rio Branco”), temas religiosos (“Milagres de Nossa Senhora da Penha”, “Milagres de Santo Antônio”) e temas carnavalescos. Numerosas foram as comédias baseadas na política, incluindo a famosa “Telegrama número 9”, onde era ridicularizado o chanceler argentino Zeballos, adversário do Barão do Rio Branco, e “Pega na Chaleira”, satirizando os bajuladores de políticos em evidência. Caríssimos leitores, a importância do cinema no mundo pode ser comparada à importância da imprensa, pois, como ela, a sétima arte também marcou o começo de uma nova era. O cinema brasileiro inicia-se pelas mãos de estrangeiros europeus, aos quais seremos sempre gratos. Em um momento seguinte, adapta-se às fases econômicas e políticas, impondo-se com originalidade e talento. Mais à frente, diretores como Humberto Mauro e Mário Peixoto traduziram a importância antropológica de nossa identidade cultural com linguagem própria, desmistificando, desvendando e consolidando as múltiplas diferenças desse caldeirão de raças que forma o povo brasileiro, tornando-nos uma parte essencial da realização e composição imagética no universo mundial.


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saúde pública por PAULO BONATES

QUE DOIDEIRA É ESSA? Para psiquiatra, o controle social exercido nos manicômios serve a um sistema autoritário que permite o aprisionamento do designado louco por quem tiver mais poder do que ele

I

magine, só por imaginar, um padre rezando uma missa dominical, devidamente paramentado para a liturgia, com todos os adereços, pregando a palavra de Deus sob a reverência de católicos em plena Catedral Metropolitana. Imagine, só por imaginar, esse mesmíssimo servo credenciado do Senhor, fazendo a mesmíssima coisa, sem tirar nem pôr, em plena avenida, com o povo sambando com música baiana em uma terça-feira de carnaval. Imaginou? Então... O agente da sua atenta observação, o padre, realizou o mesmo ato, teve o mesmo comportamento em ambas as situações. Ajoelhou-se, bebeu vinho, usou uma vestimenta pouco usual na rua, falou coerentemente. Suponha, apenas suponha, que a senhora estivesse presente – por circunstâncias que fogem à minha imaginação – nas duas situações. Qual das duas situações supostas seria considerada loucura? E o louco, quem seria? O padre que lhe chocou ou a senhora que esperneou? Essas cenas imaginárias tratam de introduzir conceitos e crenças que versam sobre a temida loucura. Pode ser que tenhamos todos a tendência de emprestarmos aos eleitos a loucura de todos nós. Cada grupo fa-

miliar, quase sempre, tem em seus quadros um ou mais representantes possuidores – ou possuídos – deste, por assim dizer, dom. Por uma reação fóbico-obsessiva, acho eu, os hospitais gerais não possuem enfermarias, mesmo para curta permanência, dedicadas a pessoas que transitoriamente são acometidas de uma desorganização mental. Esta, a desorganização, de duração variada, ocorre em alguns momentos com todos nós. Não é mesmo? Parece haver uma precaução contra uma insólita e delirante modalidade de contágio. Não se evita isso em relação a doenças infecciosas, por exemplo, o que é ótimo. Será que a dita loucura, as diferenças visíveis, mexem com as nossas? A sacerdótica medicina, a cujos quadros tenho a honra de pertencer, historicamente contamina-se com tudo o que não compreende ou pode provar. Não há, por exemplo, qualquer exame complementar importante que possa confirmar um diagnóstico psiquiátrico, psicanalítico... “psi”, enfim. Especialmente neste momento crítico, em que muitas vezes os exames complementares são solicitados antes de o paciente ser examinado, o bicho pega. Os sintomas que passam pela área psíquica são imaginados como pertencentes a um lugar que não existe.

Como diz Paulinho da Viola, “um azul que não era do céu, não era do mar”. Foge ao que se concebe como realidade. O pensamento é físico? A memória e as percepções silenciosas são da ordem física? Então, não existem. Descartes dizia que o pensamento determina a existência. Mais cartesiana que o próprio Descartes não é possível. Ou é?

Paranoia

Lá pela década de 80, eu coordenava o setor de psiquiatria do INPS. Então, achei que deveríamos ter uma equipe de psiquiatras no pronto-socorro do Hospital São Lucas, especialmente para trabalhar com o atendimento especializado que não havia – o número excessivo de internações no hospitalão Adauto Botelho. Pra quê? Os prognósticos das equipes beiravam a paranoia. Os pacientes até então sequer saíam dos veículos para serem examinados. Da porta mesmo era fornecido um laudo, direto para o Adauto. Iriam quebrar tudo, gritar, cantar, rebolar, todos reprimidos. Acabamos conseguindo, com dispêndios e manhas, implantar o PSPI – Pronto-Socorro Psiquiátrico Integrado. A modéstia impede-me de dizer que foi o primeiro no Brasil. Funcionou e muito bem até cerca de um ano atrás, mais ou menos, quando foi reativado o Adauto Botelho, e a

velha ideologia do gueto fez a volta dos que não foram. Lugar de pessoas desorganizadas, cuja desorganização pode estar localizada em qualquer parte do corpo, é preferencialmente em casa. Se houver emergência ou urgência, que passe pelo hospital. Institucionalizar a doença não interessa a ninguém, a não ser que interesse. Essa resistência à concepção de que corpo e mente são uma entidade só é espantosa. Espero que tenha vingado a ideia de transformar o hospício Adauto Botelho em hospital de clínica geral. Acho que não aconteceu ainda. E não há mais atendimento psiquiátrico no São Lucas. A senhora entendeu? Assistimos paulatinamente à volta envergonhada para a era pré-Pinel. Deixe-me desenhar. O que constitui uma pessoa? A fala, a capacidade de reconhecimento pelo outro, a mãe inicialmente, a inserção, portanto, dentro do grupo social, a consciência do desejo, o moto-contínuo da vida e outras coisas mais, todas fora do hospício, muitas vezes maquiado disso e daquilo, com sofisticadas acomodações. É a morte do ser humano com vontade própria. Tal controle social serve a um sistema autoritário que permite o aprisionamento do designado louco por quem tiver mais poder do que ele. Na família ou não.

PensarCompleto1102  

Suplemento de Cultura de A Gazeta

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