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VITÓRIA, SÁBADO, 23 DE JUNHO DE 2012

www.agazeta.com.br ALINE VALADARES

Entrelinhas

LIVRO DE RICHARD DAWKINS EXPLICA FENÔMENOS NATURAIS ATRAVÉS DA CIÊNCIA. Página 3

Música

TARCÍSIO FAUSTINI CELEBRA A MILÉSIMA EDIÇÃO DO PROGRAMA DOMINGO BRASIL. Página 5

Letras

ENSAÍSTA DESTACA O ESTILO ORIGINAL DE LUIS FERNANDO VERISSIMO. Página 8

Crise social SOCIÓLOGO BUSCA SOLUÇÕES PARA O COMBATE À VIOLÊNCIA. Páginas 10 e 11

Bravo, maestro!

UM PERFIL DE HELDER TREFZGER, QUE COMPLETA 20 ANOS À FRENTE DA OFES

Páginas 6 e 7


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 23 DE JUNHO DE 2012

quem pensa

Maninho Pacheco é jornalista, designer gráfico e publicitário. maninho.pacheco@uol.com.br

Luiz Guilherme Santos Neves é escritor e historiador. luiz.guilherme.neves@terra.com.br

marque na agenda prateleira Literatura russa Dostoiévski é tema de palestra

O escritor e pintor Gilbert Chaudanne apresenta a palestra “Dostoiévski: matar ou não matar, eis a questão”, na próxima terça-feira, às 19h, na Biblioteca Pública do Espírito Santo (Av. João Batista Parra, 165, Praia do Suá, Vitória).

Música Serra recebe concertos de canto coral

Tarcísio Faustini éprodutoreapresentadordoprograma“Domingo Brasil”,naUniversitáriaFM. tfausti@terra.com.br

O Instituto Todos os Cantos (ITC) inicia neste domingo, às 9h, na Igreja Católica de Boa Vista, uma série de 10 concertos gratuitos de canto coral em diversos bairros da Serra. O Projeto Canto em Todos os Cantos terá a participação do Coral ArcelorMittal Tubarão, Coral Canto na Escola e grupo Algazarra.

Nas Trilhas da Política Ambiental Leonardo Bis

A relação entre sociologia e meio ambiente é o tema deste estudo baseado na dissertação de mestrado do autor na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF). Em foco, os conflitos advindos das diferentes formas de exploração da natureza. 242 páginas. Annablume (www.annablume.com.br). R$ 31,50

João Gilberto Walter Garcia (org.)

Dividido em quatro partes, reúne uma seleção de entrevistas concedidas por João Gilberto, além de ensaios, textos críticos e depoimentos de pessoas próximas do cantor. A seleção aponta os diversos ângulos da arte de João e ignora o anedotário criado em torno do músico.

Erico de Almeida Mangaravite é servidor público e frequentador de concertos e óperas. ericoalm@gmail.com

Mariana Passos Ramalhete é graduanda em Pedagogia pela Ufes e professora. marianaramalhete@yahoo.com.br

512 páginas. Cosac Naify. R$ 215

Nayara Lima é escritora e graduanda em Psicologia pela Ufes. www.nayaralima-versoeprosa.blogspot.com

Sonia Rita Sancio Lóra émembrodaAcademiaFemininaEspírito-Santense deLetras. soniasanciolora@gmail.com

Milson Henriques é cartunista, dramaturgo e ator, não tem e-mail e não usa celular.

Erly dos Anjos é professor aposentado do Dep. de Ciências Sociais da Ufes. erlyanjos@uol.com.br Eduardo Selga da Silva é graduado em Letras-Português pela Ufes, professor e escritor. eduardoselga@gmail.com

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Evolução Brian e Deborah Charlesworth

de junho

Big Bat Blues Band la

nça segundo CD O show de lançamento do álbum “Haze Hot Blu es” será no próximo sábado, a partir das 20h, no Tea tro do Sesi (Rua Tupinambás, 240, Jardim da Penha, Vitóri a). Participação especial do gaitista Jefferson Gonç alves. Ingresso: R$ 20 (inteira) , à venda no local.

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de julho

Arquivologia promove encontro nacional

Estão abertas as inscrições para o XVI Encontro Nacional dos Estudantes de Arquivologia (Enearq), que será realizado de 16 a 21 de julho, no Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas (CCJE) da Ufes. Informações: http://enearq2012.blogspot.com.br/.

Os pesquisadores apresentam os conceitos elementares, os avanços e as descobertas da biologia evolutiva, demonstrando as aplicações práticas da Teoria da Evolução na vida das pessoas e na relação da humanidade com o universo. 176 páginas. L&PM Pocket. R$ 15

Nietzsche X Kant Oswaldo Giacoia Jr.

Professor da Unicamp (SP) e autor de livros referenciais, o autor revela os pontos de oposição entre esses dois mestres da filosofia ocidental e mostra que suas ideias continuam atuais. 296 páginas. Casa da Palavra. R$ 34,90

UMA MISSÃO CLÁSSICA

José Roberto Santos Neves

Quando assumiu a regência da Orquestra Filarmônica do Espírito Santo (Ofes), em 1992, Helder Trefzger encontrou uma situação crítica: o quadro de instrumentistas era limitado, não havia local de ensaios adequado e concertos no interior eram cancelados por falta de estrutura para se receber uma orquestra. Vinte anos depois, ainda há dificuldades a serem vencidas, mas é notório que a estrutura e a imagem da Ofes junto ao público e ao meio musical deram um salto de qualidade. Essa evolução pode ser mensurada por meio de um concorrido calendário de concertos anual, com a

Pensar na web

participação de solistas renomados, e o reconhecimento de diversas publicações especializadas. Atento a essas duas décadas de dedicação do maestro à música clássica, Erico de Almeida Mangaravite apresenta, nas páginas 6 e 7, um perfil de Helder Trefzger, com fotos de Aline Valadares. O relato de Tarcísio Faustini sobre a marca de mil edições do programa “Domingo Brasil” e o artigo de Erly dos Anjos sobre as causas e soluções da violência são outros destaques deste número, que traz ainda resenhas literárias, crônicas, poemas, ensaio, ficção... Porque hoje é sábado, dia de ler e Pensar.

é editor do Caderno Pensar, espaço para a discussão e reflexão cultural que circula semanalmente, aos sábados.

jrneves@redegazeta.com.br

Galeria de fotos do maestro Helder Trefzger e vídeos da Orquestra Filarmônica do Espírito Santo, áudio do programa “Domingo Brasil” e trechos de livros comentados nesta edição, no www.agazeta.com.br

Pensar Editor: José Roberto Santos Neves; Editor de Arte: Paulo Nascimento; Textos: Colaboradores; Diagramação: Dirceu Gilberto Sarcinelli; Fotos: Editoria de Fotografia e Agências; Ilustrações: Editoria de Arte; Correspondência: Jornal A GAZETA, Rua Chafic Murad, 902, Monte Belo, Vitória/ES, Cep: 29.053-315, Tel.: (27) 3321-8493


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entrelinhas

Pensar

por MANINHO PACHECO

RESPOSTAS PARA OS SEGREDOS DO MUNDO

A

ciência não consiste apenas nas coisas que já conhecemos, mas sobretudo no que existe mas ainda ignoramos. Se possível fosse sintetizar as belíssimas 274 páginas de “A magia da realidade”, de Richard Dawkins (Cia. das Letras, 2012), seriam as palavras acima que utilizaria. A adjetivação extremada não é gratuita. Tudo é mágico ali: texto, contexto, ilustração. Essa última, aliás, tão precisa e sensivelmente assinada por Dave Mckean que a faz um coautor não-intencional dessa mais recente obra de Dawkins na difícil tarefa de provar que nada há de sobrenatural – mas excepcional – naquilo que nos ronda. E tudo é provado com facílima simplicidade por Dawkins, através de pura poesia. E magia. Magia poética. Eis aí o mistério da excepcionalidade. A natureza – incluindo aí a humana – e tudo o que nos cerca é pura magia do acaso, de um processo incansável e imemorial de tentativa e erro evolucionário da ciência e da paradoxal linearidade do caos. Disso deriva a realidade. A realidade de existirmos, de estarmos onde estamos neste mundo. De habitarmos um planeta que, aparentemente, vaga solitário na vastidão do Cosmo, esse enigmático espetáculo. Em “A dança do universo”, o físico Marcelo Gleiser diz que há apenas duas soluções para a questão da origem do Cosmo: “Ou ele surgiu em um momento do passado ou é eterno”. Não há espaço para digressões acerca da criação disso ou daquilo. Notadamente do universo. É exatamente isso a que Dawkins se propõe: derrubar o mito da criação para a explicação fácil do cotidiano. A criação nos remete à ideia do sobrenatural para explicar as coisas. O sobrenatural nunca explica coisa alguma. Mas nos aprisiona na ignorância do saber e no obscurantismo do passado e no presente e exclui qualquer possibilidade de se explicar o que quer que seja no futuro. Isso porque, por definição, o sobrenatural está fora do alcance de uma explicação natural. “Tem de estar fora do alcance da ciência e do método muito bem estabelecido, testado e aprovado, que tem sido responsável pelos imensos avanços no conhecimento que nos beneficiam há cerca de quatro séculos”, diz Dawkins. Ainda recorrendo a Gleiser (um crítico, a propósito, do ateísmo radical dawkiniano), mitos da criação pressupõem entidades transcendentes, deuses além do espaço, do tempo e das leis da natureza. “Se você se satisfizer com uma explicação sobrenatural do mundo, o problema acaba”, diz Gleiser. A ciência se opõe ao sobrenatural,

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 23 DE JUNHO DE 2012

A MAGIA DA REALIDADE COMO SABEMOS O QUE É VERDADE Richard Dawkins. Tradução: Laura Teixeira Motta. Companhia das Letras. 274 páginas. Quanto: R$ 54

DIVULGAÇÃO

Em “A Magia da Realidade”, Richard Dawkins usa a ciência para explicar uma grande variedade de fenômenos naturais

TRECHO “Realidade é tudo o que existe. Parece claro, não? Só que não é. Há vários problemas. O que dizer dos dinossauros, que não existem mais? E das estrelas, tão distantes que quando sua luz finalmente chega até nós e conseguimos vê-las podem já ter se extinguido? Trataremos dos dinossauros e das estrelas daqui a pouco. Mas, afinal, como sabemos que as coisas existem, mesmo no presente?

Para começar, nossos cinco sentidos — visão, olfato, tato, audição e paladar — fazem um trabalho razoável para nos convencer de que muitas coisas são reais: pedras e camelos, grama recém-cortada e café moído na hora, lixa e veludo, cachoeiras e campainhas, açúcar e sal. Mas dizemos que algo é “real” só quando podemos detectá-lo diretamente com nossos cinco sentidos?”

constata Dawkins, posto que a realidade é inteligível, explicável e pode ser testada. E é a partir dessa pegada que o autor nos convida a uma irrecusável viagem rumo às coisas deste mundo. E do outro mundo também, se é que, por acaso, exista esse além. ETs existem? Por que ocorrem terremotos? Como se forma o sol? O que é um arco-íris? E os milagres? E as coisas ruins? Sorte e azar: o que é isso? Dawkins não se furta a explicar nenhuma dessas

questões, das mais complexas às mais pueris e comezinhas. E tudo com a graça de um texto envolvente que nos faz encher o peito de alegria e ficarmos orgulhosos de nossa condição de seres humanos inteligentes, livres do obscurantismo das crenças e dos demônios culturais e interiores. Faz-nos até rir e nos perguntar como não pensamos nisso antes ao traçar um paralelo entre a criação do homem a partir do barro e a trans-

formação da carruagem da Cinderela em abóbora. São duas situações que subvertem e afrontam as mais elementares leis físicas. E, no entanto, somos culturalmente condicionados a, por fábula, desprezar como realidade a segunda transformação, mas, por bíblica, tomarmos a primeira como uma leitura literal da criação do ser humano. Tendo em seu currículo bíblias do ateísmo como “O Gene Egoísta” (1976), “A Escalada do Monte Improvável” (1997) e “Deus, um delírio” (2006), Richard Dawkins é o papa do evolucionismo, um darwiniano apaixonado e genial. Se Charles Darwin criou o homem (ou, pelo menos, inventou o que hoje nós conhecemos como homem, após aposentarmos nossa presunçosa imagem de obra sublime da criação e centro do universo), Dawkins recriou Darwin, sobretudo em “O Maior Espetáculo da Terra - As Evidências da Evolução” (2009). E o prazer de lê-los Dawkins e Darwin. Ou, o que é melhor, Dawkins explicando Darwin - é o de nos convencer com a força irrefutável de seus argumentos e nos contentar não passiva, mas mágica e poeticamente, com nossa monumental insignificância de apenas mais uma entre milhões e milhões de espécies que já habitaram e habitam este tão frágil planeta.


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 23 DE JUNHO DE 2012

história por LUIZ GUILHERME SANTOS NEVES DIÁRIOS DAS VISITAS PASTORAIS DE 1880 E 1886 À PROVÍNCIA DO ESPÍRITO SANTO D. Pedro Maria de Lacerda. Org. e coordenação editorial: Maria Clara Medeiros Santos Neves. Phoenix Cultura. 648 págs. R$ 35. Disponível no site www.estacaocapixaba.com.br

O RELÓGIO DE ESTIMAÇÃO DO SENHOR BISPO

Escritor chama a atenção para a obsessão de D. Pedro Maria de Lacerda em cronometrar o tempo durante suas andanças pelos rincões do Espírito Santo, nos anos de 1880 e 1886

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oderia ser um Patek-Philippe, talvez sem uma correntinha de ouro para não incorrer no pecado da ostentação. Mas se fosse um Savonnette ou um Rosskopf também seria de boa prestança o relógio que o bispo D. Pedro Maria de Lacerda usou em suas andanças pelos rincões do Espírito Santo, nos anos de 1880 e 1886. A cronometragem do tempo, a que obcecadamente se devotou o prelado nas consultas ao seu “belo e delicado relógio de ouro, o mesmo que trago agora comigo”, como informou na visita de 1880, revela duplamente sua preocupação com a urgência em atender a um maior número de pessoas e localidades em sua missão de pastoreio, como seu propósito de medir o tempo gasto no percurso entre os lugares que visitava. Foi o recurso prático e até novidadeiro, ao alcance de sua mão, para mensurar as distâncias percorridas. A todo instante, atravessando matas, vilarejos e fazendas, o bispo sacava o relógio da algibeira no interior da batina, e anotava horas e minutos que o mostrador lhe indicava. Não chegava a descer aos segundos, o que seria esperar muito de sua reverendíssima ou talvez do seu relógio de época, desprovido, quem sabe, do ponteiro apropriado. Mas horas e minutos registrou-as religiosamente em seus apontamentos. Às vezes as consultas ocorriam num espaço tão curto de tempo que fica evidente que o bispo nem sequer se dava ao trabalho de guardar o relógio porque a ele recorreria em seguida. Mantinha-o ao alcance da vista enquanto viajava a cavalo ou em lombo de burro, ou navegando em embarcações pelos rios. Na caminhada realizada em 10 de dezembro de 1886 da atual Iúna ao Arraial do Espírito Santo (Muniz Freire), consultou o relógio 17 vezes, o que dá a média de quase três consultas por hora. Leia-se a cronografia que transcreveu em seus manuscritos recém-editados (1): “Às 9h 20’ parti e uns 10 ou 12 cavaleiros me acompanharam, e às 9h 27’ passamos defronte das poucas casinhas do Quilombo, afastadas da estrada, [...] tomamos para a nossa esquerda para ver-

REPRODUÇÃO

mos a tão falada Água Santa, onde chegamos às 9h 45’ [...] e às 9h 55’ saímos e às 10h 4’ estávamos já na nossa estrada, a mesma para onde viemos para o Rio Pardo [...] Às 10h 11’ passamos defronte do sítio do Barbosa [...] Às 10h 25’ passamos a pequena ponte da Laje [...] Às 10h 30’ passamos defronte do sítio da Laje [...] Às 11h 15’ passamos a ponte do Jatobá [...] Às 12h 47’ estávamos no alto da serra do Valentim [...] À 1h 10’ da tarde passamos um córrego grande [...] e à 1h 15’ passamos a boa ponte sobre o importante Rio Norte Direito [...] era 1h 25’ e o sítio chama-se Barro Branco [...] montamos a cavalo às 2h 55’, e daí a pouco cessaram os mesmos chuviscos [...] Às 3h e 10’ passamos a ponte do ribeirão ou córrego Vargem Grande que passa no Arraial Espírito Santo [...] Às 3h 30’ passamos defronte da cascata [...] Apeamo-nos à porta do Sr Marcílio [...] e meu relógio marcava 3h 45’.”

Tique-taque

As anotações cuidadosas revelam o espírito meticuloso do ilustre prelado

Inúmeras outras anotações de horas e minutos permeiam os apontamentos de viagem de D. Pedro de Lacerda, quase permitindo aos leitores, numa figuração de imagem, ouvir o tique-taque do seu “delicado” relógio, sempre que era acionado. Tais anotações cuidadosas têm o dom de revelar o espírito meticuloso do ilustre prelado, sendo de se notar que eram feitas num rascunho provisório antes de serem incluídas nos textos definitivos das suas visitas pastorais. Creio que não se deva ir ao extremo de se ver nesse comportamento episcopal uma tendência à “cronometromania”, mas é bem sintomático que ao iniciar o diário de 1880, quando vem pela primeira vez ao Espírito Santo, D. Pedro comece escrevendo: “Quarta-feira, 14 de julho de 1880: À 1 hora da tarde deste dia chegávamos à Cidade da Serra...” Idêntica obsessão repete-se na abertura das notas do terceiro caderno, em 24 de julho de 1886: “Eram pois 11h 15’ da manhã quando chegamos à barra do Rio Itapemirim, ao som de foguetes e de tiros...” Imagino o quanto estariam muito mais fartamente recheados de horários os diários do senhor bispo se usasse ele um relógio de pulso.


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falando de música

Pensar

por TARCÍSIO FAUSTINI

A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 23 DE JUNHO DE 2012

MIL DOMINGOS DE MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

“V

ocê não aguentará mais de um ano fazendo programa de rádio sobre música popular brasileira, logo ficará sem assunto” – me disse um amigo em 1993. Rebobinando: naquele ano fui convidado para produzir um programa dominical na Rádio Universitária e o nome estava escolhido: “Domingo Brasil”. Nome aprovado, convite aceito, mas o que devo fazer? Ora, a produção de um programa de duas horas significa fazer uma seleção musical e, se quiser, falar ou escrever sobre as gravações. Como não sou locutor, preferi fazer a seleção no meu acervo de discos e escrever os textos. Então, assim foi feito nos primeiros tempos e muitos foram os apresentadores do programa, que me ensinaram os recursos do estúdio. Optei por fazer blocos musicais temáticos e dar informações sobre a música popular. Com os profissionais, aprendi a operar os equipamentos do estúdio e um dia a falta de um deles me levou a assumir o microfone, como venho fazendo desde então. Mas fazer a operação junto com a locução não era fácil devido à predominância dos discos de vinil, cuja mixagem requer habilidade, sobre a pequena quantidade inicial de CDs brasileiros. Quando os CDs passaram a predominar, a operação dos equipamentos ficou muito mais fácil e, hoje, com os modernos recursos computacionais, a facilidade operacional é ainda maior. Além dos temas, os quadros iniciais foram “As preferidas dos músicos” e “Momento instrumental brasileiro”, esse destacando o trabalho atual ou histórico de um grande músico. O “Preferidas” me

dava a oportunidade de falar sobre um artista que ainda não tinha feito gravação; eu gravava a voz dele escolhendo quatro músicas de outros artistas e executava as gravações em seguida. Isso passou a ser feito também com artistas de fora quando vinham a Vitória e me permitiu formar um acervo com preciosidades assim: “Meu nome é Cauby Peixoto e vou escolher quatro músicas, não acredita?, é o Cauby mesmo, Conceiçããããããão!”. Com o tempo, a escolha passou a ser feita também por colecionadores de discos ou produtores musicais, de dez músicas brasileiras marcantes, em vez de apenas quatro. Desse modo, o acervo pessoal dedicado à música brasileira foi crescendo e, além dos livros e discos, passou a ter também gravações de entrevistas e de shows ao vivo em casas como Bordel, Picadeiro e Zanzibar.

Novos quadros vieram. A série de livros “Então, foi assim” foi escrita por Ruy Godinho, produtor musical de Brasília, que faz um programa de mesmo nome na Rádio Nacional FM de Brasília. O programa e a série de livros mostram entrevistas nas quais compositores contam sobre seu processo criativo. Esse programa se transformou em quadro do mesmo nome em “Domingo Brasil”, graças à generosidade do Godinho, que envia as gravações. Outro quadro é “Tirando de letra”, com

Jace Theodoro interpretando como poesias letras marcantes da música popular brasileira. O quadro mais recente é “Cinetemas Brasil”, no qual Haifa Sawaya faz um breve resumo sobre um filme, nacional ou não, e destaca uma música brasileira da trilha sonora do filme. A interação com o ouvinte é feita por telefone, redes sociais ou e-mail, pelos quais recebo sugestões para os programas seguintes, já que a programação é temática. Há ouvintes assíduos desde os primeiros programas e também aqueles que comentam lembranças pessoais que as músicas lhes despertam ou contribuem com gravações, enriquecendo o acervo existente. Há mais de cinco anos, a produção do programa ganhou um reforço inestimável mediante a parceria pessoal e profissional com a cantora e locutora Eliane Gonzaga. Amanhã se completarão mil domingos do programa, o que significa duas mil horas e cerca de 60 mil músicas, e isso é motivo de festa.

Ao vivo

Para comemorar, com a ajuda de várias pessoas, haverá um show hoje, às oito e meia da noite, no Teatro da Ufes, que apresentará ao vivo os quadros do “Domingo Brasil” e será gravado para audição posterior no próprio programa. Na primeira parte, com direção musical de Eliane Gonzaga, músicos e cantores convidados apresentarão músicas com o tema “Brasil”. No quadro “Então, foi assim”, Ruy Godinho entrevistará ao vivo o cantor e compositor Sérgio Souto. Para fechar a programação, haverá um “pocket show” do cantor, compositor e instrumentista Zé Renato, escolhido em vista de suas afinidades com a cidade de Vitória, onde nasceu, pelas suas qualidades artísticas e por ser um dos artistas, assim como os demais convidados, cujo trabalho musical vem sendo acompanhado durante toda a existência do programa “Domingo Brasil”. Felizmente o amigo estava enganado. Um programa de rádio sobre música popular brasileira ainda tem muito assunto, sim, depois de quase mil domingos e mais de 19 anos. DANIELA DACORSO

Zé Renato participa do show que comemora a milésima edição do programa “Domingo Brasil”, no ar há mais de 19 anos, na Universitária FM


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música clássica

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por ERICO DE ALMEIDA MANGARAVITE

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O reconhecimento nacional da orquestra em publicações especializadas se deve a fatores como a divulgação antecipada de temporadas e a presença de artistas renomados na programação

GILDO LOYOLA/ARQUIVO AG

ALINE VALADARES

ALINE VALADARES

Trefzger em 1992, ano em que assumiu a Ofes, e em ensaio recente: no início, concertos no interior foram cancelados por falta de estrutura para se receber uma orquestra

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OS SONHOS E AS VITÓRIAS DO MAESTRO

Diante da estrutura modesta, regente é obrigado a acumular uma série de funções administrativas, fazendo as vezes de produtor e de relações públicas

HELDER TREFZGER RELATA A ESPECIALISTA AS PASSAGENS MAIS MARCANTES DOS SEUS 20 ANOS NA DIREÇÃO DA OFES

ão espere encontrar cem toalhas brancas ou outras esquisitices no camarim do regente Helder Trefzger: esse tipo de atitude não combina com ele. Até porque a estrutura da Ofes (Orquestra Filarmônica do Espírito Santo) não lhe permitiria grandes estrelismos: a equipe é pequena, obrigando o próprio Helder a se envolver com uma série de detalhes administrativos. Ele faz as vezes de produtor e de relações públicas – confere a arrumação do palco, verifica se o camarim do solista convidado está em ordem, recebe o público na antessala do teatro. E, apesar das modestas condições de trabalho, da defasagem de músicos no quadro fixo da Ofes e dos salários não muito atraentes, a orquestra hoje é reconhecida por veículos especializados como as revistas “VivaMúsica!” e “Concerto” como um importante conjunto no cenário nacional. Tal reconhecimento se deve a múltiplos fatores: a divulgação antecipada de temporadas traz credibilidade à orquestra. A presença de artistas renomados na programação, como o violinista alemão Nicolas Koeckert e a violonista croata Ana Vidovic, é um inegável atrativo. Também há a escolha de um repertório ousado, que em 2012 inclui compositores como Richard Strauss, Prokofiev, Shostakovich e Wagner, além da primeira audição na América Latina da Sinfonia Cotswolds, do inglês Gustav Holst. Outro importante ingrediente para o sucesso é a constante interação entre músicos convidados e os instrumentistas dos quadros fixos da orquestra. Um desses convidados, o trompista da Osesp (Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, reconhecida internacionalmente como um conjunto de primeira linha) Luciano Amaral, tocou com a Ofes pela primeira vez em 2008. Após o primeiro ensaio, surpreendeu-se com aquilo que encontrou: gostou da orquestra e do Estado, do qual até então pouco conhecia. Ouvia

falar de violência, mas não de cultura. Desde então, para o trompista, o Espírito Santo passou a ter outra cara: já se foram cerca de 10 participações em concertos da Ofes. Amaral destaca o crescimento contínuo da orquestra, em decorrência do repertório cada vez mais elaborado, que exige maior empenho dos músicos locais. E ressalta ainda a presença do público: capixabas de todas as idades lotam os concertos – o Theatro Carlos Gomes tem se mostrado pequeno para tanta gente.

Gestor

Obviamente, ao longo de duas décadas de trabalho é compreensível a existência de alguns conflitos e desgastes pessoais. Hoje, Trefzger define sua relação com os músicos da Ofes como profissional, balizada por um certo distanciamento característico das interações entre regentes e instrumentistas, mas sem deixar de lado a cordialidade e o companheirismo. Por sua vez, os montadores (funcionários responsáveis pela arrumação do palco) Izaias e José Matias, ambos com mais de 25 anos de serviços prestados à cultura capixaba, consideram Helder um gestor exigente, preocupado com a qualidade dos serviços. Sul-mato-grossense, torcedor do Cruzeiro, fã da culinária italiana e adepto das caminhadas, se não tivesse seguido a carreira de músico Helder Trefzger teria sido engenheiro ou arquiteto. Admirador declarado das obras de Johannes Brahms (1833-1897), caso fosse possível Trefzger gostaria de convidá-lo para assistir a um concerto da Ofes em que seriam executadas a “Quarta Sinfonia” e o “Concerto para Violino” do compositor alemão. Reconhecido por onde passa pela população, o regente teve algumas dificuldades iniciais com esse tipo de contato; hoje, não dispensa a aproximação com o público, e se diz emocionado e motivado com o carinho que recebe. O início dos trabalhos de Helder com a Ofes não foi fácil: concertos no interior chegaram a ser cancelados por absoluta

As dificuldades não podem nos impedir de sonhar, de dar o nosso melhor, de sermos verdadeiramente artistas” —

Helder Trefzger Regente da Orquestra Filarmônica do Espírito Santo

falta de estrutura para se receber uma orquestra. Havia ainda a dificuldade em se obter um local adequado para ensaios, hoje realizados no Parque Botânico da Vale (de modo semelhante, na década de 1980 a Osesp chegou a ocupar o Cine Copan, onde não havia camarins nem ar-condicionado). A primeira apresentação ocorreu em 16 de maio de 1992, em um campo de futebol no Bairro São Pedro. Por ser ao ar livre, havia muito ruído externo, problema compensado com a grande presença de palco do solista da noite, o celebrado flautista Altamiro Carrilho. No dia 17 de junho Helder estreou no Teatro do Carmélia: desta vez, estava presente o saudoso pianista Manolo Cabral. Ambos os eventos tiveram boa repercussão. O regente lembra, com algum saudosismo, dos concertos da temporada de 1993, a primeira que idealizou para a orquestra, e do concerto de Natal do ano seguinte, na Praia de Camburi, que contou com excelente acolhida pelo público. O momento mais emocionante, na opinião de Trefzger, talvez tenha sido a apresentação do “Réquiem” de Mozart ocorrida em 11 de setembro de 2003: o evento, organizado como parte

das comemorações pelos 75 anos do jornal A GAZETA, ocorreu em um shopping. A orquestra foi posicionada sobre um tablado que cobria um chafariz; o coro ficou distribuído pelas escadarias. Com o público fazendo compras ou passeando, o regente temeu pelo pior: a magnífica obra de Mozart servindo, tão somente, como música de fundo para compras. Compenetrado na execução da obra, Helder só se deu conta do imenso sucesso da apresentação quando, após os últimos acordes, uma torrente de aplausos inundou o local. Havia gente por todos os lados, quase que se espremendo para assistir à orquestra. O improvável aconteceu: a arte suplantou o consumismo...

Futuro

Trefzger entende que as perspectivas para o futuro são promissoras. Há boa procura pelo ensino da música e contínuo aumento do público. Como o acesso democrático às atividades culturais é fundamental para o estabelecimento de uma sociedade mais igualitária, a Ofes pode contribuir para a consolidação de um Espírito Santo melhor. Aos seus músicos, Trefzger deixa um recado: “As dificuldades não podem nos impedir de sonhar, de dar o nosso melhor, de sermos verdadeiramente artistas e, depois disso tudo, de podermos olhar para trás e sentir orgulho do que construímos”. E como o regente gostaria de ser lembrado daqui a 200 anos? Eis a resposta: “Tento realizar o meu trabalho com muita dedicação, amor e afinco. Acredito nas pessoas e trato-as com respeito, procurando interagir de maneira positiva. Gostaria de ser lembrado assim. Ah, e como uma pessoa que ama a música clássica!”. O leitor mais atento pode ter notado que até agora não foi utilizado o termo italiano “maestro”, que significa mestre e é conferido somente àqueles que se destacam na área musical. Alguém duvida que ele mereça o título? Então... bravo, maestro!


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A GAZETA VITÓRIA, SÁBADO, 23 DE JUNHO DE 2012

ensaio por MARIANA PASSOS RAMALHETE

A CRÔNICA VERÍSSIMA A maneira de Luis Fernando Verissimo tratar a realidade por meio das maquiagens e traquinagens da palavra é uma marca única de sua produção literária, aponta autora

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m linhas gerais, a crônica pode ser compreendida como um gênero narrativo que trata de temas da atualidade e sua casa, inicialmente, é o jornal. Os assuntos, mesmo que variados, são banais e refletem o cotidiano. Algumas delas, após atenta observação e cuidadosa seleção, são editadas em livro, para garantir, dentre outros, sua durabilidade. Retiradas dos jornais, muitas vezes transcendem a ele: oscilam entre a descartabilidade e a permanência, entre a literatura e o jornalismo. No Brasil, Luis Fernando Verissimo é uma notável referência. Com um universo literário vasto, é um dos mais respeitados escritores brasileiros, talentoso, imaginativo e de humor refinado em plena produção. Assim, o título deste ensaio é uma jocosidade que aponta para o que especificamente se anseia retratar. A crônica do autor, Verissimo, e o caráter dela: “Veríssima”, verdadeira. Se alguém começar a leitura das produções veríssimas ficará com a impressão de que o cronista está apresentando um tipo de história que já nos habituamos a vivenciar: os costumes, o dia a dia, à moda bem brasileira, descritos frequentemente com ironia, simplicidade, num tom isento de refino demasiado na linguagem. Quem fala é o povo, o malandro, a esposa furiosa, o político, a criança, o empregado..., o que se expõe são as falcatruas, as gafes, as compulsões, as promessas nunca cumpridas, aquilo que a nação tem de vício, de mácula, de podre. Nesse sentido, Verissimo não se mostra alienado em relação ao que no mundo ocorre; delineia os contornos da vida, faz das mensagens conteúdos artísticos e dá uma pincelada de leveza sobre a dureza das informações: um pouco de riso, abstração e jogo, para tolerar o nó e as duras realidades do país. Ele mexe com nossos vícios, brios, vaidades, ambições, compulsões, nas esferas políticas, familiares, relacionais, profissionais, estudantis. Ele nos arranca o riso, mostrando-nos e obrigando-nos a olhar nos olhos tudo o que de ridículo há em nós.

MARCELLO CASAL JR./ABR

comuns, quando, enfim, se exerce, lança suas marcas e palavras, que não se podem confundir com quaisquer outras sobre o mesmo tema. O segundo aspecto diz respeito à fidelidade ao cotidiano, mas nunca o relatando “sem se meter na história”. A diferença entre dizer “Depois da separação veio o momento da divisão das coisas” e “Depois da separação veio aquele momento difícil da divisão das coisas”, na crônica “Enquanto Dure”, registrada em “O melhor das Comédias da Vida Privada”, ilustra as interferências ortográficas aparentemente pequenas, mas extremamente representativas e alteradoras dos sentidos que caracterizam a estética veríssima. Finalmente, sobre o detalhe, edificam-se não apenas desenhos de mundo, modos de ver esse mundo, mas modos de percebê-lo, de senti-lo, com um olhar metonímico, ou seja, olhar para a situação da família, ou da pobreza da condição humana atual, por exemplo, tomando apenas um núcleo familiar ou um único humano como modelo.

Humor

Escritor lança olhar impiedoso e bem-humorado sobre a vida pública brasileira

Aspectos

Nesse sentido, é imprescindível reafirmar que a crônica de Luis Fernando é veríssima. Isso pelo menos em três aspectos muito especiais. Primeiro: a crônica de Verissimo é muito dele. Sua maneira de tratar a realidade por meio das maquiagens e traquinagens da e com a palavra dificilmente poderá ser confundida com a de outro cronista deste país: é uma marca, sua e única. Por exemplo, tratar com seriedade ni-

tidamente falsa a permanência de um político corrupto no poder é um gesto que não pode ser visto sem estranheza pelo espectador: e nem deve. Eis, atingido, o objetivo do autor: gerar o estranhamento daquilo que é estranho, mas que, por descuido, já se olha com olhos acostumados. Quando o cronista brinca com as situações conjugais, quando abusa das palavras, em rearranjos aparentemente desinteressados, quando faz comparações das mais in-

O deslindamento de valores sociais, culturais, morais ou de qualquer outra espécie parece fazer parte da natureza significante do humor, entretanto, determinadas manifestações não parecem estar exclusivamente a serviço do riso, embora essa seja uma consequência inevitável. Assim sendo, um texto humorístico tanto pode revelar agressão a instituições vigentes, quanto aspectos encobertos por discursos oficiais, cristalizados ou tido como sérios. A importância da obra está, então, nos artifícios empregados para revestir de traços de arte o corriqueiro, isto é, perceber nos fatos cotidianos algo que faça jus a menção. Nesse sentido, o olhar impiedoso e bem-humorado de Verissimo repousa sobre os absurdos da vida pública e sua sátira dispara o gatilho dum irônico riso do brasileiro: o humor, ao sabor da crônica, sobre a realidade que, na obra, representação, é motivo de riso, mas na vida representada, é motivo da miséria desse povo – que ri.


poesias OUSADIAS MILSON HENRIQUES DECISÃO O bom da velhice é que mandei o espelho à merda e voltei a ser menino. Agora, só me vejo como me imagino. MOTIVO Todo doido, antes, foi muito doído. RELIGIÃO Me desculpem os que acreditam mas o “ou me adora ou de castigo”, não funciona comigo. ILUSÃO Poesia muito hermética É masturbação, apenas o autor sente a emoção. FUTURO Se a internet aproxima quem está longe mas afasta quem está perto, estamos nos aproximando de um deserto.

crônicas AO PÁSSARO por NAYARA LIMA

Agora é madrugada e a maioria de vocês dorme. Seguro o mundo com o corpo. Tento fazer o mundo virar palavra. É inútil. Não vira. O mundo são vocês dormindo e é bonito assim. O travesseiro está quente na noite que é fria. Acontece uma sutil combinação entre a vida que levam e a vida que é. Tento inverter a ordem e minha língua está quente, porque isso de escrever é a mais indelicada paixão. Daqui, escrevo o evento noturno em que vocês sonham: o mar hoje bate forte na areia, como se estivesse em mágoa. Mas o escuro está frio e bonito, talvez haja estrela. Um pássaro voa contido, como se voar não fosse da natureza, mas do luxo. Voa, portanto, como se voar fosse uma asa roubada. Que nunca pertenceu a ele. É assim. Voa com remorso? Não sei por

que voa. A importância de eu observar o pássaro estranho e prendê-lo na palavra em papel faz-me, em vez de pensar no ato da escrita, apenas fazê-lo acontecer. Escrever é minha condição. Condição é assim: diz-se para o menino que para ele ganhar a bola é preciso se comportar bem na escola. Frente ao pedido que o fará abdicar do imenso prazer que lhe causa existir daquele modo, ele pensa com intensidade no desejo de ter a bola. É a condição. É a condição de o pássaro ter de voar. Assim sobrevive. (Sei que vocês sabem o que é a condição, mas me explico com cautela. Acho forte esse significado e o que ele provoca no corpo da vida). Clarice Lispector disse que não conhece nada que dê mais direito a uma pessoa do que o fato de ela estar viva. Concordo,

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aliviada. Mas a história de cada um entrega condições, desde que se nasce. Como se nascer não bastasse. Segue-se, de condição a condição, todo o caminho. Construímos atentos e distraídos tudo o que foi um dia ter vivido. E o que foi? De todo modo, tenho gosto por isso. E sei que o primeiro parto é só o começo. De vários outros. A ideia, por exemplo, de que nascer é mais de uma vez, me convence. Não me refiro às crenças religiosas, mas àquilo que o faz acordar num sábado pensando em comprar uma orquídea para colocar na sala e mudar tudo a partir daí. Nascer de novo. Mas eu falava do pássaro. Ele se confunde com a cor da noite, e escuro invade o caminho do céu. Roubo imagem e ele, asa. Jamais saberá que existo, até que me olhe. E, se concordo com a Clarice, temos, eu e ele, o mesmo direito. Nesse caso, penso no direito de não voar e não escrever. Mas então chega a condição. Fazemos o que é preciso. É tudo silêncio e qualquer criança sabe que é hora de se deitar. Mas estou acordada. Como quem teima amanhecer palavra.

SÍNDROME DE ESTOCOLMO

por SONIA RITA SANCIO LÓRA

PUREZA Uma recatada opinião que é só minha: Paralelepípedo é um palavrão cu é palavrinha. FÉ Acredito: O finito é infinito. DEPENDÊNCIA Sem o Bem o Mal não existe. É aí que minha fé desaba: Deixando de fazer o Bem o Mal acaba? RESPOSTA O silêncio ofende. ................ ................ me entende? CONCLUSÃO “O tempo passa” É uma ilusão que nós criamos. O tempo permanece Nós é que passamos...

“As pessoas que sofrem de síndrome de Estocolmo terminam por se identificar e até mesmo por gostar daqueles que os sequestram, em um gesto desesperado e em geral inconsciente de preservação pessoal.” Falo sobre esta síndrome porque tive lampejos, eu mesma, numa experiência que mudou a minha vida em apenas alguns minutos. Quando o adolescente entrou no carro e gritou que eu saísse, por alguns segundos não estava entendendo o que ele queria. Depois de repetir três vezes que eu fosse embora, é que entendi que eu havia perdido algumas coisas materiais imprescindíveis para que minha vida continuasse normalmente. Documentos. Celular. Óculos de grau. Carro. Livros. Chaves de casa. Cartões. Moedas. Outras bobagens, tais como CDs, som, cadeira de praia, chapéu, brinquedos. Fiquei duas horas e quarenta minutos sentada do lado

de fora do restaurante cheio, no sol, sem que uma única pessoa se aproximasse de mim e me desse um alento. Quando os policiais chegaram, levaram-me para fazer o boletim de ocorrência. Atenciosos, ensinaram-me como fazer. Sem dinheiro, sem telefone e sem carona, com o documento nas mãos (o único que me restou), um jovem policial foi gentil e deixou-me em casa. Primeira providência: chaveiro. Em uma hora eu tinha chaves para entrar e sair de minha casa, meu santuário. Daí em diante foi uma verdadeira maratona para conseguir os outros documentos. As pessoas são gentis, mas extremamente profissionais. Separam as dores dos outros e garantem a sua sobrevivência. Você pode chorar, porque as lágrimas descem naturalmente, mas logo depois precisa se refazer, porque volta à dura realidade. Seus pés começam a formar pequenos calos, pelas longas

caminhadas e o calor escorre do seu rosto dentro do ônibus lotado. Uma vez ao dia, se puder, você se permite pagar um táxi, na hora de ir pra casa e não ter que sair de novo. Mas eu me perguntei tanto e tanto qual foi a razão da atitude do menino. Uma mistura de pena e surpresa me assola até hoje. Será que ele estava fugindo? Será que ele queria o carro para usar em outra bobagem? Será que os pais deles sabem que ele faz isso? Será que ele é drogado? Será que ele vai ter pena de mim e jogar os meus documentos pelas estradas? Será... será... pobre menino. Pobre menino. Pronto! A Síndrome de Estocolmo instalou-se em mim. Enquanto eu fico morrendo de pena do garoto, nada foi encontrado. Nem a medalha azul e prata de Nossa Senhora que me acompanhava por anos.


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estudo social

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por ERLY EUZÉBIO DOS ANJOS

POR QUE É TÃO DIFÍCIL REDUZIR A VIOLÊNCIA?

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FOTO E ARTE: CARLOS ALBERTO SILVA

Sociólogo aponta caminhos para solucionar um problema que aflige a sociedade capixaba

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uem acompanha o noticiário sobre a violência no Espírito Santo se depara com elevados índices de homicídios, do tráfico de drogas, acidentes de trânsito, roubos e assaltos. São, também, comuns as justificativas feitas pelas autoridades públicas sobre investimentos feitos – financeiros, em pessoal e equipamentos – e até afirmam que houve redução de alguns desses índices por conta destas iniciativas. Logo, a seguir, nos surpreendemos com outras manchetes de jornal que anunciam a nossa colocação no topo do ranking nacional, de um campeonato que nunca perdemos. Por que é tão difícil reduzir a violência? A pergunta é sempre feita e a resposta difícil, se não impossível, de ser respondida a contento. Pode-se, no entanto, pensar em condicionantes que circundam esta que é uma das mais pertinentes e incômodas questões para os governantes e o público em geral. Pode-se argumentar que o expressivo número de pesquisas, estudos e algumas experiências exitosas sobre a violência nos permite tergiversar sobre o tema, mas falta ainda comprometimento político para elegê-la prioritária, aplicar conhecimentos obtidos com inteligência, criatividade e ousadia, para se colher os frutos desejados. A seguir algumas considerações. Uma concepção simplista e reducionista da violência, ou desconsiderar sua complexidade não leva a lugar nenhum. Sem considerar a inter-relação deste fenômeno com instâncias da sociedade (as relações com a economia, política e a cultura) e a especificidade em que se manifesta, em diferentes contextos, e o que representa para diferentes grupos e classes sociais. Não se pode, ainda, descartar os impactos que a nova ordem mundial tem em estruturas de sociedades dependentes e em desenvolvimento e com enormes déficits a serem cumpridos, nos campos da educação, saúde e da proteção social. Paralelamente ao consumismo e à homogeneização cultural que esta nova ordem econômica promove, grandes contingentes de pessoas se tornam descartáveis ou levam a pior com a degradação (social e ambiental) e não podem ser deixadas sem políticas de proteção e promoção social.

Oposição ao bem

Considerar a violência como algo externo e do mal, maligna e em oposição ao bem, ou pensar que não faz parte da constituição (interna) da própria sociedade, de sua dinâmica de luta da ordem (consenso) contra a desordem (conflito), resulta numa análise superficial desta problemática. Há relação entre a violência existente na sociedade e os conflitos resultantes das contradições sociais não resolvidos, que, abafados no passado, ressurgem no presente com toda a força, para se juntar às novas modalidades da violência social. Pode-se dizer que é por meio da confrontação de conflitos e contradições que a sociedade evolui e se desenvolve socialmente. A visão dicotômica do bem x o mal, do moderno (progresso) x o tradicional (atraso), por exemplo, oculta uma estrutura desigual em que os diferentes são tratados de forma desigual, gerando segregações e discriminações contra as minorias sociais que incluíam os indígenas, as mulheres, os negros e que hoje se somam aos homossexuais e a outros do gênero. Esta estrutura repressora se reflete em políticas públicas e não permite que o desigual e diferente obtenha autonomia e autossuficiência. São passíveis somente de políticas compensatórias de uma integração forçada e ilusória. Por causa desses equívocos a sociedade brasileira é, por definição, autoritária, seletiva e reativa; ela quer resultados de programas de enfrentamento da violência, imediatos e em curto prazo. Um sentido de urgência que não condiz com a lógica de ações preventivas que requerem observações e resultados a médio e em longo prazo, mas que podem ser conjugadas a ações de impacto a curto prazo. A prevenção social da violência que requer ações duradouras precisa de diagnósticos, monitoramento e avaliações permanentes, para corrigir o curso de ação que não coaduna com a especificidade da questão em consideração em determinados locais. A intervenção numa realidade conflituosa não deve ser “de cima para baixo” e não pode descartar a participação ativa das pessoas, diretamente afetadas por certo tipo de violência, para que haja negociações e o esperado pacto pela paz.

Triste retrato do dia a dia das cidades: para especialista, o combate à violência deve passar pela adoção de políticas de prevenção envolvendo questões sociais

Prevenção social

Pensar em uma abordagem (um “pano de fundo”) para desencadear essas iniciativas é pensar em prevenção social, conceito muitas vezes mal compreendido e que necessita de especificação. Prevenção da violência não deve ser confundida com a criação de “programas sociais” e nem mesmo de “políticas públicas”, que são vistos como oferta de serviços públicos (educação, saúde, habitação, lazer e outros serviços). Esses programas essenciais podem redundar em ações que incidem sobre a redução do crime e da violência, mas não podem ser considerados como prevenção, em si, da violência (mas também não podem ser desconsiderados). Ações e programas para diminuir a criminalidade violenta numa determinada região não podem ser pon-

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tuais e nem desarticulados, fazem parte de um processo, com início, meio e fim. As quatro partes deste processo devem ser consideradas nas seguintes dimensões: (1) As estruturas microconjunturais e as macroestruturais devem ser conjugadas na intervenção social. Em termos conjunturais mencionam “o crime organizado, em torno do narcotráfico e de suas variantes (assaltos a bancos, roubos de carros, de cargas, sequestros e outras formas de violência geral e difusa)”. Em nível cultural tipificam “a violência contra a criança e o adolescente, contra a mulher, contra os idosos, a violência contra homossexuais e a discriminação racial”, como aspectos importantes a serem considerados. A “violência e corrupção policial, o alijamento e a morosidade da

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Justiça, assim como incontáveis formas de discriminação e maus-tratos que ocorrem em diferentes setores do Estado, na sua relação com a população” são, também, importantes do ponto de vista institucional. Enfim, o enfoque é pontual e as ações preventivas devem se dirigir às questões locais e específicas, de uma área ou região, mas não devem ignorar a interface destas com as macroviolências. (2) A relevância de equipes inter-e-transdisciplinar e da intersetoriedade das ações institucionais e sociais. Ou melhor, a integração não deve ocorrer somente entre pesquisadores, mas inclui a participação com a administração pública, órgãos e instituições de governos (municipais, estadual e federal), enti-

dades não-governamentais e, principalmente, em parceria com a sociedade civil. (3) A questão do agenciamento de fatores condicionantes da violência versus as “causas” da violência. O agenciamento se refere aos fatores que incidem na dinâmica da sociedade enquanto que as causas são complexas e “remetem a problemas estruturais cuja solução é tarefa para gerações inteiras” (conforme o “Guia para a prevenção do crime e da violência nos municípios”, do SENASP e disponível em http://www.cfappm.ma.gov.br). (4) Articular as redes e os atores da prevenção. As comunidades, em parceria com agentes de mudanças, devem promover o exercício constante de comunicação e de troca de informações,

capacitar profissionais e pessoas que se envolvem em redes sociais, incorporar famílias em ações de proteção e de prevenção e promover a participação numa relação micro e macro da sociedade. Atores de prevenção social são: os governos municipais, estadual ou federal, ou setores governamentais juntamente com sujeitos da sociedade civil, que podem ser as ONGs, as entidades ligadas à área de responsabilidade social de empresas, instituições religiosas, universidades, escolas, associações de moradores, comerciais, profissionais, conselhos (tutelares, da criança e do adolescente, comunitários, de segurança) e movimentos sociais. Não se deve descartar, ainda, os poderes do Legislativo e Judiciário, ou o Ministério Público (estadual ou federal).

Portanto, há uma pluralidade de sujeitos e a cada sujeito pode corresponder uma multiplicidade de ações que podem corroborar num trabalho de prevenção social contra a violência. Mas tudo isso requer eleger a questão da violência como prioridade número um, conforme dito. Por fim, deve-se ressaltar que a maioria dos programas de segurança implantados com sucesso em cidades violentas atua como programas de “prevenção social e situacional dos crimes”. Isso significa o entendimento de “como” e “onde” ocorre a violência e a adoção de políticas de prevenção envolvendo questões sociais, em vez de políticas de repressão, em geral, conforme se percebe. Será assim possível reduzir a violência?


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ficção por EDUARDO SELGA

MATRIARCA DE NINGUÉM “Se ambos fugiram de minha presença... Será, meu Deus, eu sou tão cansativa assim?”, pergunta-se a personagem deste conto, que vive a angústia do abandono e da espera inútil

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uve o quê? Grunhidos do violão ou a porta da sala rangendo reumatismos, após um calhamaço de tempo tão espesso que se diluiu na memória? Impossível encontrar as fronteiras sem equívocos, apesar de essa mesma cena repetir-se muitas vezes durante sua existência estilhaçada. Sente-se, outra vez mais na vida, nebulosa. Abandona suspenso no ar o gesto, entre dois dedos o orégano. Coração e presente congelam quando supõe ouvir o ex-homem, foragido do matrimônio, desabotoar a porta com o seu sorriso mudo habitando inevitavelmente o ângulo esquerdo de uma boca sem muito préstimo: beijava nada, falava pouco e, quando muito, tolice. Como se a correnteza do mundo estagnasse, não ela. Os dedos não prosseguem no movimento paralisado, parte de sua fábula ancora e aguarda o exato instante para conduzi-la a um seu passado ora longínquo, ora presente... Maré. Um tempo em que o cinismo do então marido doía menos que a amargura dançando nos rostos dos dois filhos. Procuravam encobrir o sentimento por obséquio ou misericórdia, e os folguedos da meninice faziam cortinas de fumaça. Mas era nítido: nunca estavam felizes. As cirandas

tantas que eles criavam eram instrumento por meio do qual se viam livres dos asfixiantes beijos. À época ela também era máscara: em nome de uma “paz familiar”, não queria perceber os movimentos escorregadios dos filhos. Porém, os fragmentos mais sinceros de si tinham certeza: era muito exaustiva. O navio do tempo, caravela sem vento em mar alto, recolhe a âncora e o agora outra vez emerge. Vagamente. Ela meneia a cabeça, sacode resíduos de lembranças que se acumularam nas esquinas da casa, da alma, esfrega o tempero ainda algemado entre o indicador e o polegar. Contrariando em parte a gravidade, o orégano - poeira aromática -, slow motion, boia no espaço e repousa em carnes, panelas de barro, fogão a lenha. Bolhas perfumadas e invisíveis sobem e ela pensa ver seu ex-amante encostado à janela da cozinha, arranhando violão e voz em toscas melodias. Até que era um bom sujeito, ao menos não havia o escárnio metamorfoseado em palavras aparentemente mansas, muito peculiares ao seu marido, para cujo corpo adormecido na cama ou no sofá inúmeras vezes dissera, murmúrio e medo: - Se romper as juras do altar não me levasse ao Inferno, meu amor, teria abandonado sua pessoa às próprias ironias, marido; à sua própria inu-

tilidade, e convidado meu amante a sair debaixo da cama para subir em mim. Logo em seguida se acovardava. É que, embora o outro fosse um espetáculo sem dúvidas sob os lençóis, pecava no tom que usava fora deles, na vida: malsonante, sempre muito agudo quando deveria ser grave; exagero nos gestos, nas palavras. Mesmo durante os galanteios. É provável tenha percebido, súbito, o quanto estava ridículo: assim como o esposo, ele também, num belo dia, resolveu submergir. Violão e voz. Nunca mais nenhuma notícia ou cantarolagem. Exceto as imagens caseiras, algumas vezes sem foco. Se ambos fugiram de minha presença... Será, meu Deus, eu sou tão cansativa assim? Os pratos já arrumados na mesa, na copa, desde quando começara a cozinhar suas carnes. Flores, simetria, talheres há décadas dormindo à espera da circunstância, guardanapos rubricados. A toalha, ponto em cruz, transborda naftalina no ambiente. As cadeiras dormem enquanto os dois convidados não chegam. À medida que repousa sobre a mesa travessas com o almoço, os prazeres antigos retornam na condição de lembrança, e a felicidade é uma criatura líquida a navegar por dentro. Sente suas artérias como rios irritadiços, tão desacorren-

tados quanto o passado. Acha graça na similitude. Cantarola a música que o seu ex-amante ainda insiste em trepidar lá na cozinha, agora tão distante. Quando considera tudo devidamente composto, senta-se à cabeceira, matriarca. E os filhos? Os minutos se acumularam, entulho temporal; gestando meses e anos, as horas se arrastaram como um velho sem pernas junto ao pandemônio urbano. A fadiga pela espera inútil fez a velhice mostrar sua presença naquela mulher que, quando pusera a mesa, estava apenas na meia-idade. Ato contínuo, o reumatismo corroeu, tudo encarquilhou, os cabelos brancos e sem nenhum cuidado (fora tão vaidosa um dia...). Seu último verbo antes de os olhos se fecharem foi, sem pressa, deitar os ouvidos sobre a mesa, suavidades, de modo que pudesse escutar os passos dos filhos chegando antes mesmo de abrirem a porta da sala. Ou a janela da cozinha. Entretanto, nenhum dos convidados cirandou o ar de sua graça no almoço. O mais próximo disso foram os dois intrusos: quando a noite ia alta, aproximaram-se, sentaram-se, jantaram. Velhos amigos, como se ela nem existisse. O ex-marido, vindo na sala; o ex-amante, da cozinha.

Pensar_23_06_2012  

Pensar é um caderno semanal, veiculado aos sábados, no Jornal A Gazeta, do Espírito Santo