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poemas diversos


valmir jordão

poemas diversos

1ª edição – recife, 2013.

ed. escalafobética


Copyright © 2013. Valmir Jordão Revisão e prefácio: Zé de Lara Diagramação: Fred Caju Foto: Marco Pezão Contatos com o autor: valmirjordao@hotmail.com

Jordão, Valmir Poemas diversos / Valmir Jordão – Recife: Ed. Escalafobética, 2012 ISBN: 978-85-61438-04-3 1. Poesia brasileira I. Título CDU: 869.0 (81) - 1

NOTA: Valmir Jordão autorizou a incorporação da obra no acervo, de acordo com as políticas do projeto CASTANHA MECÂNICA. O exemplar impresso de “poemas diversos” pode ser adquirido em contato com o autor via e-mail.


dedico aos amantes das artes e da vida

agradecimento: SINTTEL-PE


valmir jordão | 9

sumário

9

“Valmir lá do Jordão: quando a ferocidade misturase com as purezas fingidas ao redor” (zé de LARA).

13 18 20 22 24 26 27 28 29 30 31 32 33 34

aos pariceiros dos anos 80 (um uivo recifense) recifencidade desvira-lata felídeo do Jordão reciferido olindanças soneto para Clara a menina que passa ilusão id-ótica dos poetas a Joannes Lima do subúrbio umas & outras descerebração


10 | poemas diversos

35 36 37 38 39 40 41 42 43 44 45 46 47 48 49

história do Brasil aviso estratégia paradigma da história idiossincrasia histórica insurreição pernambucana capiberibando urbe bebemoração questão de fé das porradas na crista da onda das paulistanas máximas

51 o autor


valmir jordão | 11

VALMIR LÁ DO JORDÃO: QUANDO A FEROCIDADE MISTURA-SE COM AS PUREZAS FINGIDAS AO REDOR “Botei a beleza no colo e achei feia” (Rimbaud)

Enchi muito o saco e insisti muito com o meu cumpade Valmir pra que ele escrevesse contos, memorialísticos ou não; e ele, finalmente, com os cunhões já arroxeados pela insistência, começou a escrever vários contos ao mesmo tempo. Lembrei muito de uma frase, das antigas, que é mais ou menos assim: “Quem teoriza demais, escreve de menos”. O bróder “jordaniano” andava meio complexado com excessos de teoria, e eu o alertei quanto a isso (irmão alertando irmão). E agora esses contos, com certeza, não vão demorar a emergir, para delícia selvagem dos leitores “hipócritas”, como dizia o Bodelé e o Xico Sá. Mas enquanto esses medonhos contos não chegam, temos esses poemas ferozes surgidos da “loucura” lúcida deste grande bardo “underground” lá do Jordão.


12 | poemas diversos

Os poemas curtos, e médios, de Valmir, teem um sabor específico e especial que eu não encontro na maioria dos poetas que escrevem prioritariamente micropoemas, em geral (incluindo os de tamanho “médio”); mesmo com as pequenas “derrapagens” estilísticas raras, propositais. No geral, a costura simétrica é boa, e a concatenação é de bom nível. Vamos curtir os poemas do nosso rapsodo das periferias paranambuques, em nome dos sinceros esforços que ele tem feito para gerenciar os abismos “existenciais” da realidade visceral de nós todos. O que reforça, obviamente, a sua grandeza de escritor pop, independente e “autodidata”. Teorizações desnecessárias à parte, seria repetitivo dizer que a poesia do cara é das melhores entre as minhas leituras poéticas, incluindo as eventuais ou raras (posso dizer isso com segurança, mesmo não encontrando tempo, ultimamente, pra ler um pouco mais os diferentes escribas de todo o país, mas com as empatias pessoais em banho-maria). Já não basta o quanto ele tem lutado contra as injustiças várias? O quanto tem escrevinhado uma literatura crítica e corajosa neste nosso tempo


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ultramoderno e “neo-reaça”? Neo-con? Misoneísta? De matutismos limitadores e castradores revisitados? De malajambrados macaqueamentos da herança canônica? Ora, meus caros, sejamos sinceros e honestos, pelo menos até onde for possível. Este nosso “trovador” praieiro manteve sempre o seu compromisso com grandes lutas, literárias ou não, ideológicas ou não. Vamos reconhecer, de uma vez por todas, a sua indiscutível grandeza em muitas áreas artísticas e da resistência em geral (esqueceram que o cara é também compositor?). Definitivamente: não há mais o que duvidar sobre as qualidades musicais e poéticas deste nosso “terrível” vate dos cafundós recifenses, tão agressivos e violentos, e injustos, nesta nossa atualidade endiabrada, nesta nossa realidade diária fudida e arrombada, que esculhamba o nosso cotidiano entre escuridões reais e luminosidades fingidas, entre tantas maracutaias e tramóias diversas, entre imposturas e “simonias”, principalmente no nível sócio-econômicoambiental. Não é mesmo? “zé de LARA” – novembro, 2012.


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aos pariceiros dos anos 80 (um uivo recifense)

eu vi os expoentes da minha geração consumindo muito álcool, na Rua do Hospício em busca da loucura, chapando insistentemente no Beco da Fome para recitar na Sete de Setembro contra o auto-otarismo e o autoritarismo em voga, andando pelas ruas da Boa Vista feito zumbis bêbados, ansiando fumar um nos miseráveis apartamentos sem água e sem luz, flutuando sobre os tetos da cidade contemplando junkies que desnudaram seus cérebros ao céu e viram o CCC com as mãos sujas do sangue do Pe. Henrique, cansados dos acadêmicos sem brilho, dissecando as almas dos poetas malditos, com toda a mediocridade


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e arrogância dos que tentam apropriar-se do alheio, enquanto Gregório de Matos, William Blake e Patativa do Assaré reluzem em outras dimensões, erámos detidos e baculejados pela polícia suspeitos de vagabundagem e subversão, e vi a juventude mergulhada nas drogas alopáticas, uns dependentes do Algafan, outros no éter e no Pambenyl e mais alguns usando Cocaína ou Fiorinal para encontrar o seu próprio paraíso artificial, presenciei o bardo Alberto da Cunha Melo a combater o regime de exceção na estrada do excesso, pois todo gênio que se preza, busca a sua garrafa, enquanto boa parte da sua geração camuflava-se na aura da vaidade literária, Erickson Luna com sua autoflagelação nas drogas, no álcool e na anorexia das noites insones no Cais de Santa Rita ou em Santo Amaro das Salinas, armado de copo na mão com aparência a esganar


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o mundo e todo mundo, a dizer que a felicidade é apenas um golpe publicitário, Espinhara espinhando as relações com o seu jeito espinhoso de ser, Lautreamont, Augusto dos Anjos, Jean Genet e Chico Buarque, foi o seu quarteto mais que fantástico, fora de si, tentou afogar-se na lama mas a Buarque de Macedo rejeitou esta atitude, semeava o Lítero e colhia pessimismo com o seu mau humor e machismo digno de um Bukowisk e, foi o poeta da flor e do espinho, o comportamental França nos seus recitais notívagos e sedutores, a atrair burguesas branquelas com a sua fala e o seu falo de ébano, a repetir: “quem quer querelas?” o deseducador cultural Jomard Muniz de Brito evocando Glauber e o Tropicalismo nordestinado contra a caretice


18 | poemas diversos

nos meios e nas mansardas recifenses, a quebrar tabus sendo eternamente Pagú e Papangu nos canaviais e carnavais da Mauricéia travada pela burrice, mil vivas ao mau velhinho! Fred Caminha nas pensões e manicômios, nos Coelhos e no Bairro do Recife ou na Palma em busca de uma puta, uma carreira ou uma bola pra rolar na Conde da Boa Vista, Príncipe ou Manoel Borba, Jorge Lopes tatuando na própria alma seus desejos de sexo, drogas & rock and roll, da Caxangá pra Riachuelo na sua batalha diária contra a fome de viver, para não torna-se uma garatuja de si próprio, vi Cida Pedrosa, Lara, Samuca, Miró e os Cavaleiros da Epifania a calvagar na Ilusão de Ética e na resenha Interpoética sempre Amarginal, na Praça do Sebo, os aedos em Pedro Américo cantares


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Hector Pellizzi, Manuzé, Fátima Ferreira, Poeta Haroldo, Wilson Veira, Joca de Oliveira, Humberto Felipe, Eduardo Martins, Raimundo de Moraes, Heloísa Bandeira, Celso Mesquita e Juareiz Correya ecoando poemas no Savoy, no Calabouço, e na Livro 7 mostrando o quanto a América estava indignada, e todos se reergueram no passo libertário do Frevo e na síncope do Maracatu e na batida literalmente do Côco, provaram o vinho avinagrado dos tempos difíceis, mas mesmo assim deixando o que houve para ser dito no tempo após a morte...


20 | poemas diversos

recifencidade

estamos nessa cidade em busca da felicidade até a noite se embriaga em meio aos blogs e as bagas do pé de tantros sexos explícitos saindo do precipício a maré manga dos mangues feridos e os desejos contidos na fé e a maré se levanta causando o medo das quantas que venha o que tiver que vier... somos velhos soldados correndo da ignorância fugindo dessa ganância a pé e a lua volta luzindo com tanta gente fugindo


valmir jordĂŁo | 21

enquanto estamos sorrindo do gato e o sorriso de alice nĂŁo deixa a gente mais triste e a vida volta a ser o que ĂŠ...


22 | poemas diversos

desvira-lata felĂ­deo

sou o bicho gato, gosto de miar mas nessa minha vida tenho que mancar cego na Boa Vista pra atravessar cansado de maus tratos procuro um bom prato na busca de um afago e de me alongar tem que ser gente boa para me adotar setenta vezes sete vou me espreguiçar depois de tanto esforço quero descansar


valmir jord達o | 23

e a noite vem chegando para ronronar eu sou o bicho gato miaauuu!!!


24 | poemas diversos

do Jordão (a Tolstoi)

partícipe da planície aluviônica ao sul, são limites os Guararapes. daí nascendo o aglomerado subnormal. ficando a base do extrato social na condição de lumpezinato. Jordão, na Palestina originou-se do Recife, bairro popular tornou-se com vilas, vales, operários, biscateiros, feirantes e camelôs. ergueu-se tomando identidade dos proscritos virou realidade, alimentando a justiça, igrejas e o estado. afora o noticiário policial simbiótico cancro social.


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Jordão, onde o Cristo aspergiu Jordão, da Palestina ao Brasil. combates, indigências, homicídios, tráficos, latrocínios e corrupção. Jordão, ave rara que das cinzas ressurge. Jordão-Fênix esperança de fartura e plenitude. por incrível que pereça e mais paradoxal que seja. do lacrimar das viúvas, brotará a primavera. do sangue de tuas vítimas, a nova ordem mundial. Jordão, renascido da lama e do caos. Jordão, holística nomenclatura de um bairro afamado. pois o mestre bem disse: — “bem aventurados os que têm sede e fome de justiça, porque serão saciados...”


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reciferido

oh! minha bela, inefável e inescrupulosa veneza. dos mercados e mascates, hoje perseguidos porque pobres enfeiam a cidade. e, a especulação imobiliária projeta-se sobre a ambição dos farisaicos governantes. teu podre hálito, reflete-se nos fétidos discursos dos infectos poderes, e na sua gênese reacionária. cidade invadida, cidadãos excluídos de suas benesses e riquezas. das bacanais nos carnavais regadas no erário, bancada pelos otários e, dadivadas


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aos condes joões, aos barões sebosos e aos séquitos famintos. salve, Recife! cidade madrasta prostituta dos vampiros de todas as dicções e origens. meu Capibaribe, Capiberibe! descapibaribado pela indiferença dos gestores e do perjúrio oficial...


28 | poemas diversos

olindanças

oh! linda e bela paisagem: domínio dos invasores, dormitório medieval onde os gringos são senhores, frevereiro reina Momo nos passos do frevo e do maracatu, e no sobe e desce ladeiras fantasias , corpos, almas e haja pés, oh! linda cidade bonita: maruim dos Caetés.


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soneto para Clara

só o teu amor me deu alento para deszubinzar nesta existência, teus afagos serviram de unguento fez migrar a minha incoerência. um sereno e belo sentimento fez morada com ígnea ardência, transcendemos o inútil sentimento com o amor, nos unindo na essência. quando a noite ao parir a claridade traz o sol, iniciando um novo dia, em teus braços refugio-me de verdade. neste amplexo encontro a alegria e o caminho da real felicidade, ao beijar-te, conflui a harmonia.


30 | poemas diversos

a menina que passa

que deus abençoe a menina que passa com toda graça, beleza e plenitude colírio pros olhos, fita que laça o prazer de esquecer a solitude. em seus rastros desejos evocados a povoar paraísos instantâneos eva-maçã e generoso pecado vendaval interno no afã idôneo. que deus ilumine a menina que passa e seus trejeitos singelos nos faça viajar além do abissal, em sua catarse derramar poesia que distraída e paradoxal eterniza o transitório dia a dia.


valmir jordão | 31

ilusão id-ótica

por vezes, admiramos e não vemos nada a idealização é tanta, mas tanta que só enxergamos a pessoa amada envolta em véus, numa espécie de dança. assim, por desventura torna-se o amor mera transmutação do sincronismo ótico, que ao passar do tempo acumula dor emergindo no masoquista, o neurótico. a prazo, prisioneiro da primeira vista a persona real vai se delineando na quotidiana mesquinhez da relação. em fera, a bela vai se transformando parece mandinga e assombração que a tudo desencanta e modifica.


32 | poemas diversos

dos poetas

poesia? é questão de fé torna-se um Sidarta ou um São Tomé.


valmir jordĂŁo | 33

a Joannes Lima

no meio do caminho havia uma flor; serĂĄ miragem do meu amor?


34 | poemas diversos

do subúrbio (a Bashô)

nada de massa ou tapioca o que rola mesmo são picadas de muriçoca.


valmir jord達o | 35

umas & outras (a Li Po)

no mercado da Boa Vista embriaguez ao luar e prosa maloqueirista.


36 | poemas diversos

descerebração (a Drummond)

havia uma pedra no meio do caminho. stop! a vida noiou.


valmir jordão | 37

história do Brasil

nosso problema não é democracia. quem sempre nos vampiriza são as oligarquias.


38 | poemas diversos

aviso

esse é para não esquecer: quem combate os radicais livres é a vitamina c.


valmir jordão | 39

estratégia

ambição e engano tácito: tentar convencer os outros sobre o centralismo democrático.


40 | poemas diversos

paradigma

em ĂŠpoca de evasĂŁo escolar, a que classe falar?


valmir jordão | 41

da história

revolução? esqueça chega de afiar guilhotinas e perder a cabeça.


42 | poemas diversos

idiossincrasia hist贸rica

ao Maria Adelaide, com Gaspar de Lemos casar fez o preterido Deodoro da Fonseca a rep煤blica proclamar.


valmir jordão | 43

insurreição pernambucana

um invasor, o outro expulsa onde negros, índios e mestiços aos canhões servem de bucha.


44 | poemas diversos

capiberibando (a Jo達o Cabral de Melo Neto)

rio Capibaribe, que o Recife serpenteia, um c達o sem plumas, Severino onde nos mangues caranguejeia.


valmir jord達o | 45

urbe (a Manuel Bandeira)

aurora, saudade, sol, uni達o ruas substantivas, e belas, arrecifando a nossa emo巽達o.


46 | poemas diversos

bebemoração (a Carlos Pena Filho)

sĂŁo trinta homens sentados: chopp solto, desejos presos e trinta mil sonhos chapados.


valmir jord達o | 47

quest達o de f辿

podes crer, bicho tem muitos pregos nas m達os do Cristo.


48 | poemas diversos

das porradas

amor, juro que não sei a diferença do murro do Tyson para o do Cassius Clay.


valmir jordĂŁo | 49

na crista da onda

era uma vez um barbudo que andava sobre as ĂĄguas. cruzes!


50 | poemas diversos

das paulistanas

em S達o Paulo, do que mais gostas? da garoa, do frio e das gatas de botas.


valmir jordão | 51

máximas (de William Blake)

a estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria. mergulha no rio quem gosta de água. a loucura é o manto da velhacaria.


Valmir Jordão — Poeta, compositor e performer. Nascido no Recife-PE, em 1961. Participou do Movimento dos Escritores Independentes – MEI/PE, no início da década de 80. Foto: Marco Pezão Publicou treze livros, entre eles: Antípoda (1990), Poe Mas (2002) e Hai Kaindo na Real (2008). Produziu junto com Cida Pedrosa, Lara e Miró a coletânea poética Marginal Recife I, II, III, IV e V (2002/2007) FCCR/PCR. Com Jorge Lopes, Erickson Luna, Fred Caminha e Humberto Felipe editou o jornal de poesias O Balaio de Gato (1989/2002). Apresentou-se com a Orquestra Sinfônica do Recife – OSR, com Chile, França, Malungo, Miró, Cida Pedrosa, Silvana Menezes, Susana Morais e outros, algumas vezes no Parque da Jaqueira e no Teatro Santa Isabel – Recife. Tem participado de inúmeros Saraus em Recife, Cabo, Garanhuns, Tracunhaém, Triunfo, São José do Egito, Arcoverde, Pesqueira, Buíque, Fortaleza, João Pessoa, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e várias outras cidades do país. É filiado a UBE/PE e partícipe do site: www.interpoetica.com


Jordão, Valmir / Poemas Diversos  
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