Memorial Profissional de Lene

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MEMORIAL PROFISSIONAL DE LENIR MARIA ROSSAROLA Lenir Maria Rossarola1 Fui iniciada no letramento pelos irmãos, com incentivo dos meus pais. Para os estudos, em casa, ganhei caderno, lápis e borracha. Caneta não! Eu ainda era muito criança, nem sabia ler, não podia utilizar caneta para escrever. Desenhei muito. Pintava os desenhos com lápis de cor. Aprendi as vogais, algumas consoantes e alguns números. Lia algumas palavras para alegria da família. Queria muito ir à escola junto com meus irmãos, mas ainda não tinha idade para ser aceita como aluna na escola. Aguardava ansiosamente o dia de poder frequentar a “escolinha”. Os primeiros passos escolares foram de liberdade. Eu poderia frequentar a escola no dia em que eu estivesse afim, assim a professora combinou com meus pais. Estranhei o tratamento diferenciado dos meus irmãos, os quais tinham de frequentar a escola diariamente. Mas, eu era especial! Aos 5 anos, fui aceita pela professora na Escola Municipal José Alberti, uma “brizoleta” (Figura 1), com liberdade, como descrevi acima. Se eu quisesse sair para brincar no pátio, não importava a hora, podia ir à vontade. Era uma beleza! O primeiro ano passou rápido demais. No final, recebi um boletim que dizia “Parabéns, aprovada plenamente”. Ganhei presentinho da professora por ser considerada inteligente. Maravilha! No ano seguinte, eu acreditava estar no 2º ano. Como era escola multisseriada, eu copiava do quadro as atividades do 2º ano. Não entendia por que a professora me passava “bolinha e risquinho” no caderno. Mais um final de ano, mais um boletim com “Parabéns, aprovada plenamente”. Assim fui à escola, no ano seguinte, acreditando estar no 3º ano. Claro, obviamente, copiava do quadro as atividades e lições do 3º ano. E a professora insistia em me passar “bolinha e risquinho”, mandava desenhar objetos, animais. Eu já sabia somar, dividir, subtrair e multiplicar; já lia, talvez gaguejando, mas lia tudinho. No final do ano, a decepção! Recebi o boletim que mostrava “APROVADA”. Foi então que entendi! Nunca haviam me esclarecido que eu era somente ouvinte. Eu estava aprovada para o 2º ano, quando eu acreditava estar chegando ao último ano de escolinha, o quarto. A tristeza tomou conta, nem queria mais ir à escola. Eu havia sido enganada por todos. Muito triste! 1

E-mail: lenir.rossarola@ufsc.br. Professora de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, atuando em Laboratório de Informática de Escola, e mestranda no Mestrado Profissional em Letras – PROFLETRAS/UFSC.


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