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Ouvi em Vale de Lamas, concelho de Bragança, esta anedota que, na ideia, se liga à fábula da viúva por forma ainda mais concisa e não menos cáustica. O criado, logo que faleceu o amo, entrou a cantarolar: Meu amo, quando morreu, Deixou-me recomendado: Que me metesse de amo E me deixasse de criado. — Ah desavergonhado!, ainda ele aqui está e já cantas assim! O criado, porém, não fez caso e continuou na mesma: Meu amo quando morreu, ............................................ ............................................ e, quando no regresso do enterro, o criado repetiu a quadra, disse-lhe a viúva: Cala-te não digas mais, Não cantes mais isso; Que a mim também mo dixo, Que a mim também mo dixo. O João Balesteiro, de Vale de Lamas, meu informador, dizia que os dois últimos versos da quadra, deviam ser cantados no tom da moda da segada como a viúva havia feito.

Apodos irritantes e epigramáticos (451) Dos moradores de DONAI, concelho de Bragança, diz-se: «Donai, muito prato e nada hai». Alusão irónica ao maneirismo perliquitetes dessa gente. Ver artigo Quintela de Vinhais, tomo IX, pág. 270, destas Memórias. MOFREITA — No tomo IX, pág. 265, falamos do ditério de papalvos, aplicado aos de Mofreita e algo também aos de Palaçoulo, concelho de Miranda do Douro. Na página 268 mostramos como o costume de satirizar a papalvice se encontra em diversos povos antigos, lembrando, a propósito, os beócios alfinetados pelos gregos, apesar de terem produzido pessoas notáveis, como foram: Hesíodo, Píndaro, Plutarco, a famosa Corina, cinco vezes vencedora (451) Ver tomo IX, p. 260, destas Memórias.

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nos jogos públicos da Grécia, e outros dos maiores homens gregos. Além disso, na Beócia ficava a cidade de Tanagra, célebre pelas estatuetas policromas de barro cozido encontradas em quantidade enorme nos túmulos de seus moradores, que fazem ainda hoje o orgulho dos museus ricos. A mesma feição de parvos atribuíam os gregos aos habitantes de Abdera, na antiga Trácia, «entre os quais Abderitana gens era provérbio para significar Nação de papalvice», como dizem os escritores antigos e, entre nós, Francisco Manuel do Nascimento, Fábulas escolhidas de La Fontaine, 1815, tomo II, pág. 138, em nota. Todavia, Abdera produziu homens como Demócrito, Protágoras e Anexarco, de renome mundial imorredouro. M ÚRIAS — Nos apodos populares, os desta povoação são chamados borralhos, talvez em alusão a estar situada em terreno muito quente. VILA NOVA — Freguesia de Donai, concelho de Bragança. Dos deste povo, diz o ditério que são capazes de limpar o cu com um vidro sem se cortar.

ADITAMENTO ETNOGRÁFICO Na página 251 saíram estropiados os versos de Marcial e, por isso, os repetimos: Crine ruber, niger ore, brevis pede, lumine luscus Rem magnan praestas, Zoile, si bonus es. Marcial. Andorinha Ver pág. 250, onde nos esqueceu apontar outra tragédia ligada à andorinha. Segundo Ovídio, Metamorfoses, VI, XVI, Progne, mulher de Tereu, rei da Trácia, foi transformada em andorinha e sua irmã Filomena em rouxinol, porque, de comum acordo, deram a comer a Tereu seu próprio filho, pelo motivo de ter violentado a cunhada. As plumas avermelhadas da andorinha inculcando estão esta tragédia, diz Ovídio. Ver tomo IX, pág. 345, destas Memórias.

Bêbedos (452) No tomo IX, pág. 336, demos o «Sinal-da-Cruz do bêbedo». Ao benzer-se, ajunta mais esta jaculatória: «Deus nos ajude com uma bota de almude. Ámen». (452) Ver tomo IX, p. 336, e tomo X, p. 661, destas Memórias.

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Burros (lavrar com) (453) Deus te ajude — disse Deus a um homem que lavrava com burros. — Não ando com gado disso — respondeu o lavrador. Esta alegoria corrente em terras bragançanas, apesar de tanto ou quanto envolta em septicismo, não destoante da facies prisciliana, já assinalada nas páginas 20 e 63; é muito empregada para indicar um bom trabalhador, mas sem família, criados, obreiros capazes de o auxiliar.

Casamento (454) Não se pode casar mais de três vezes, segundo se diz em Baçal e noutras terras bragançanas; acrescentando: o primeiro casamento faze-o Deus; o segundo mandou-o fazer, e do terceiro não quis saber.

Doutrina cristã parafraseada (455) MANDAMENTOS

DOS PADRES.

São dez:

Primeiro — Amar a Deus por dinheiro. Segundo — A melhor igreja de todo o mundo. Terceiro — Guardar a vaca e não deixar o carneiro. Quarto — Jejuar enquanto se está farto. Quinto — Beber o vinho branco e não deixar o tinto. Sexto — Guardar o preceito enquanto se está satisfeito. Sétimo — Não furtar, mas sim arrebanhar quanto se puder apanhar. Oitavo — Não levantar cedo, antes gozar a cama e a sesta devagar. Nono — Não cobiçar somente uma mulher; o lagarto de uma só lorga não entra quando quer. Décimo — Não cobiçar as coisas alheias, mas sim usar delas como nada tendo e de tudo comendo (456).

(453) Ver tomo IX, p. 346, destas Memórias. (454) Ibidem, tomo IX, p. 316, e tomo X, p. 639 e 640. (455) Ver p. 258; tomo IX, p. 335, e tomo X, p. 660, onde demos outras variantes; depois encontramos mais esta. (456) Na revista O Instituto, de Coimbra, 1943, vol. 102, p. 167, publicou João Jardim de Vilhena paráfrases da «Doutrina Cristã», contendo o Credo Constitucional, Credo Realista, Padre-Nosso Liberal e Salve-Rainha Constitucional.

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Escrivães Diz o povo que os escrivães, de manhã, quando se levantam da cama, pronunciam a seguinte oração, ao benzer-se: «Deus desavenha quem a nós mantenha». Estrada de São Tiago (457) O povo chama «Estrada de São Tiago» à Via-Láctea, e diz que ninguém entra no céu sem ter ido em peregrinação a São Tiago de Compostela. Ovídio, Metamorfoses, liv. I-VI, descreve «um caminho que se vê no céu, quando está sereno e sem nuvens, chamado Via-de-Leite por causa da sua brancura». Segundo ele, é esta a estrada que conduz ao palácio de Júpiter, maioral dos deuses. Lendas e tradições Na pág. 246 emitimos a conjectura de as lendas, tradições, alegorias, apólogos e contos serem criações do povo, aproveitadas depois pelos literatos para tema dos mais belos episódios de suas obras. As Metamorfoses de Ovídio, liv. VI, fábulas I, III, IV, VII, IX e X; liv. VI, fábulas XIII, XIV e XV são contos populares, como ele mesmo diz, belamente aproveitados. Mocho (ver n.° 19, página 23) Ovídio, Metamorfoses, liv. V, IX, aponta o mocho como «ave fúnebre e de mau agouro, sempre anúncio de desgraças».

Mulher enterrada viva (pág. 277) Fundar-se-á esta lenda em facto histórico, ou haverá apenas nela a reminiscência clássica de Leucotea, filha de Orchamo, sétimo rei da Pérsia, que a mandou enterrar viva por se deixar iludir pelo Sol? — como diz Ovídio, Metamorfoses, IV-V. Influirá também no caso o castigo das Vestais punidas da mesma forma quando transgrediam?

(457) Ver tomo X, p. 649, destas Memórias.

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Números 3, 7, 9 e 13 (458) Estes números são cabalísticos, mágicos, abacadábricos e gozam de grande prestígio tanto no conceito popular como nas litúrgias e teogonias. Ovídio, Metamorfoses, VII-III, descrevendo os feitiços de Medea para tornar à juventude o velho Eson, diz que ela demarcou um espaço de terreno e deu três voltas em redor dele; que espargiu por três vezes sobre seus cabelos desgrenhados água colhida no rio, soltando gritos horríveis de joelhos em terra, suplicando aos deuses das trevas, dos montes e vales que a favorecessem em seus encantamentos mágicos. Para juntar ervas, que queimou no fogo do altar, andou nove dias e nove noites por montanhas, rios e vales de regiões léguas e léguas distantes. No tomo IX, págs. 370 e 375, apontamos textos de Virgílio, Horácio e Tácito, que, com estes de Ovídio, formam tratado completo dos ritos mágicos da feitiçaria, e no mesmo tomo, no seguinte e neste se encontram práticas ainda hoje usadas, idênticas às mencionadas por esses autores. Estas ervas e águas trazidas de pontos tão distantes, irão filiar-se nos bruxedos dos presentes tempos, mencionados na página 98, realizados com plantas de sete montes, água de sete fontes, ossos de mortos e terra dos cemitérios? Hoje, como há dois mil anos, a superstição repete com pasmosa conformidade as mesmas fórmulas mágicas, já então vindas de remota antiguidade. Acabei agora de ler em A Voz de 13 de Abril de 1944 a notícia de uma «Senhora», ergo não era qualquer mulher do povo, que andava em Lisboa recolhendo água benta de «sete igrejas machas» para uma benzedura antimaléfica. Da mesma forma se filiará o agouro com capicuas, garfos cruzados, pão virado, chapéu sobre as camas, azeite entornado, espelhos quebrados, sal arramado, cadeia da boa sorte, oração do Justo Juízo, tão vigente não só no povo ignaro, mas até na gente culta? Ovídio, Metamorfoses, liv. III-V, menciona Tiresio convertido em mulher por ter batido em duas serpentes e reconduzido ao primitivo estado após sete anos. E no livro X fala em Orfeu que, querendo passar aos infernos, esteve sete dias na praia do rio infernal sem que suas lágrimas e prantos comovessem Caron a transportá-lo na barca. Cada nove anos os atenienses eram obrigados a fornecer sete mancebos e sete raparigas para sustento do Minotauro (459).

(458) Ver tomo IX, p. 315, 356, 359, 360, 361, 367 e 370; e neste tomo p. 59, 60, 61, 78, 90, 92 e 98. (459) OVÍDIO — Metamorfoses, VIII-III.

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Segundo a crença popular, o raio está sete anos enterrado na terra, como dizemos na pág. 22. Rouxinol Segundo diz a lenda corrente aqui em Baçal, o motivo de o rouxinol cantar toda a noite procede de, em tempos antigos, um seu patriarca morrer preso pelas gavinhas da parreira enroscadas a seus pés enquanto dormia, tal a rapidez de seu crescimento. Por isso, no seu cantar, reflectindo o aviso, diz: Nossa Senhora disse, disse: Que enquanto o anel da vide subisse Que não dormisse, que não dormisse.

Tributo das donzelas (460) Na lenda ou história do «Tributo das donzelas» haverá qualquer influência do Minotauro encerrado no labirinto por ordem de Minos, rei de Creta, ao qual os atenienses eram obrigados a fornecer, cada nove anos, sete mancebos e sete raparigas para o monstro devorar? Teseu livrou Atenas desta infame pensão. Ver Ovídio, Metamorfoses, VIII-III.

EXCURSÕES BRAGANÇANAS Devia entrar aqui a parte respeitante ao distrito de Bragança contida na monografia Excursões Trasmontanas, que abrange trinta e sete fólios de papel dactilografado, mas pertence ao Secretariado da Propaganda Nacional, a quem a mandei em 1941. Nessa monografia, o excursionista entra em Trás-os-Montes pela linha férrea do Porto, na estação da Régua, seguindo depois por Vila Real, Vila Pouca de Aguiar, Pedras Salgadas, Vidago, Chaves (estação terminus) de onde, em automóvel ou no carro do correio, transita por Vinhais para Bragança ou por Valpaços para Mirandela e desta vila, de comboio ou automóvel para Bragança (estação terminus). De Bragança por Outeiro, Vimioso e Miranda do Douro a ligar com Duas Igrejas (estação terminus da linha de ferro), há carro do correio e desta estação por Mogadouro e Moncorvo regressa-se à estação do Pocinho, na mesma linha do Douro.

(460) Ver tomo IX, p. 105, e tomo X, p. 9, destas Memórias.

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De todas estas terras disse algo acerca da sua arqueologia, história, etnografia, monumentos, vistas panorâmicas, diversões cinegéticas, estações hidrológicas e culinária, destacando os pitéus típicos regionais salientando o vinho fino do Douro, o de mesa, odorífero, cor de rubi ou cereja madura, palhete, clarete — como exigia a Maria Parda de Gil Vicente —, das Arcas, Nozelos, Vilarinho de Agrochão, Bragança e o mirandês de bica aberta. Para lhe armar, como puxavante, não esqueci os sáveis e lampreias do Corgo, as trutas de Vila Real, Tuela e Baceiro, os pasteis de Chaves, o cabrito de cesto, de Vilarinho de Cota, povoação galega confinante de Mairos, concelho de Chaves, os salpicões, tabafeias, o folar e o torradeiro (leitãozinho de mês, assado), de Bragança, já celebrizados no estrangeiro (461), a carne branca de certos chibos criados na serra de Montesinho e charrela (perdiz cinzenta) da mesma serra. As trutas dos rios acima referidos constituem especialidade, porque o peixe é tanto melhor quanto mais batida é a água, e a cançoneta popular diz: Rio Tua, rio Tua, Rio de tanto penedo; Se não fosse o rio Tua Não tomava amores tão cedo, Para sobremesa não esqueci as laranjas de São Mamede de Riba-Tua; os moscatéis da região duriense; «os selectos melões da Vilariça» (462), que já desde tempo antigo contam abundante literatura (463); as «Até aqui pêras de Moncorvo» (464); «a pêra, a maçã e a castanha rebordã» de Gebelim, memorada na lenda popular, que também diz: «por cima de pêras, vinho bebas, a ponto que nadem as pêras; mas não tanto, que andem de canto em canto». Não esqueci a Boa raba de Soeira, Bom pão-trigo de Paçó, Bom vinho dos Alvaredos E boa castanha de Sobreiró.

(461) «Um folar ou uma tabafeia, de Bragança, nutrem por uma semana; um leitão ou cabrito daqui, assados ao espeto, são gloriosos», diz PEIXOTO, Afrânio — Viagens na minha terra, 1938, p. 163. (462) CASTRO, João Baptista de — Mapa de Portugal, 1764, parte I. (463) FIGUEIREDO, Manuel de — Descrição de Portugal, 1788, p. 200; HENRIQUES, Fonseca — Aquilégio, 1726, p. 249. (464) COSTA, António Carvalho da — Corografia Portuguesa, 1706, p. 374.

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Nem a cançoneta Não há vinho como o de Bragança, Quem o bebe logo dança; A uns faz-lhe esquecer as portas, E a outros andar com as pernas tortas. Para ponto estratégico de excursões, Bragança é de primeiríssima ordem. Entre outras, indicam-se como aperitivo e digressão tonificante: uma pescaria às trutas ao Tuela, ao Baceiro, ou ainda aos barbos, bogas, escalos e enguias do Pereira, Contense, Igrejas, Pepim, Fervença e Penacal, todos afluentes do Sabor, a serpentear ali em volta de Bragança, pois são extremamente piscosos. A uma borralhada de bogas assadas, logo ali ao sair do rio, escorrendo-lhe em cima os pingos de um naco de presunto, não há inapetência que resista. A serra de Montesinho está naturalmente indicada para outra excursão cinegética aos lobos, raposas, javalis, corças, texugos, águia-real, mocho-real (bufo), perdizes e charrelas. De caminho, visitar a imponente mata de Teixedelo, já em terreno espanhol, para lição de regime florestal obtido quase de graça, sem dispêndio de luxos. Se na volta calhar ter morto o carniceiro de Montesinho algum chibo dos da carne branca, é atestar-lhe sem dó nem piedade, que é pitéu de se irem os dentes atrás dele. Noutro dia, uma digressão à serra de Nogueira, onde abunda a caça grossa pelo teor da de Montesinho. Para estas duas digressões há estradas e pode ir-se de automóvel. No pináculo da serra de Nogueira fica o Santuário de Nossa Senhora da Serra, no termo da povoação de Rebordãos, visitado por centenas e centenas de romeiros, que nela fixam residência permanente desde 1 a 8 de Setembro, ascendendo a milhares neste último dia, onde vão revigorar-se na fé pela assistência às novenas e muitos outros actos de culto, que ali se praticam, tonificar o organismo na pureza daqueles ares; desvanecer, esquecer, procurar lenitivo às agruras da vida na convivência dos sócios da mesma dor e veraneação sanatória, económica, reconstituinte, moralizadora, alegre, pela amenidade do convívio e do sítio: veraneação, enfim, sadia, como melhor não oferecem as praias, dado o aperitivo da serra onde não faltam mantimentos nem alojamentos. Este Santuário da Senhora da Serra tem condições para ser um dos melhores de Trás-os-Montes, e até ponto de veraneação turístico-sanatória, se lhe fizerem um pavilhão um pouco melhor, que os existentes, com retretes, água e outras comodidades. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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Os santuários para se tornarem populares precisam: 1.° — Situação longe de povoados, no medianedo, segundo a frase medieval indicadora dos lugares onde se administrava a justiça, para darem a impressão de que estão no campo de ninguém, onde, portanto, todos têm direitos iguais. 2.° — Ficar no fundo de vales profundos, onde já a antiga crença pagã prestava culto aos deuses infernais, ou no alto de montanhas, onde veneravam os celículas. 3.° — Estar cercados de florestas ou junto delas. Eis como Lucano as descreve: Lucus erat longo nunquam violatus ab aevo Obscurum cingens connexis aere ramis Et gelidas alte submotis solibus umbras. No centro de bosques espessos e vales profundos é que os celtas e os germanos, como dizem Lucano e Tácito, adoravam seus deuses. O respeito sagrado que ainda hoje o nosso povo tem pela árvore mantida junto às capelas dos montes, é evidente vestígio do bosque de que fala Lucano nunca utilizado para fins diversos dos cultuais (465). 4.° — Fé para se manterem. Mas esta surge sempre, mais cedo ou mais tarde, e, do mesmo modo, se transfere de uns para outros. Quem lê o Santuário Mariano a cada passo encontra mencionados no bispado de Bragança — e nos outros sucede o mesmo — santuários muito concorridos de romeiros, hoje quase desertos, a par de outros, então sem nome e agora extraordinariamente concorridos. Fátima reina hoje, e há 557 anos o Condestável D. Nuno Álvares Pereira e el-rei D. João I vieram em peregrinação dessas terras ao Santuário do Azinhoso em terras bragançanas cumprir seus votos (466), porque Fátima, então, nem sonhada era.

––––––––– O Santuário de Nossa Senhora da Serra, no termo de Rebordãos, realiza amplamente todas estas condições.

(465) Em muitas partes destas Memórias damos notícias destas árvores e lugares sagrados, nomeadamente no tomo IX, p. 34, 96, 101 (em dois sítios), 144 e 276. (466) VITERBO — Elucidário, artigo «Azinhoso», e tomo IX, p. 120, destas Memórias.

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O seu conspecto panorâmico é soberbamente imponente pelo relevo orográfico, revestido de surpreendente beleza, espalhada naquele vasto tapete axadrezado, listrado, golpeado, salpicado de variedade infinita de tonalidades arrebatantes pela magia das cores. Um pôr-de-sol visto destes sítios é deslumbrante (467)! A estes encantos junta horizontes incomensuráveis cheios de recordações históricas. Dali, a vista espalha-se por terras de onze bispados, e são: Bragança, Vila Real, Guarda, Lamego, Viseu, Porto, Orense, Astorga, Leão, Zamora e Salamanca (estes cinco últimos em Espanha). Alguns dizem quinze, adindo mais: Ciudad Rodrigo, Cória, Tui e Placência, também na Espanha. No sopé da montanha, fica Castro de Avelãs, sede do famoso mosteiro beneditino, conhecido pelo nome desta povoação, onde se hospedou uma filha de el-rei de Arménia quando ia em peregrinação a Santiago de Compostela (468). Neste mesmo mosteiro se hospedou em meados de Março de 1387 João de Gandi, duque de Lencastre, filho de Duarte III, rei da Inglaterra, quando ia à conquista de Castela, bem como seu genro D. João I, rei de Portugal, casado com D. Filipa de Lencastre, filha daquele (469). Em frente do Santuário fica a povoação de Babe, onde o referido duque de Lencastre e D. João I, seu genro, rei de Portugal, celebraram, a 26 de Março de 1387, o tratado de Babe, assim conhecido na história pelo nome da povoação onde se efectuou. Se do Santuário, como ponto central, lançarmos a vista em circuito encontramos a poente o castelo de Monforte de Rio Livre, guarda avançada da cidade de Chaves, onde foi sepultado na igreja do convento de São Francisco, D. Afonso, primeiro duque de Bragança, falecido em 1461, fundador da Casa de Bragança, uma das casas nobres mais importantes da Europa, que deu a Portugal treze reis e muitas princesas aos tronos europeus (470). Fica também em Chaves uma ponte, grandioso monumento de engenharia romana, que vai em quase dois mil anos zomba dos ataques do tempo e das investidas do Tâmega. Rodando no mesmo arco da circunferência, vemos a nordeste a espanhola vila de Puebla de Sanabria, onde os nossos trasmontanos, comandados pelo general Silveira, derrotaram os franceses, tomando-lhe a primeira bandeira, que perderam nas guerras napoleónicas, a 10 de Agosto de

(467) Ver p. 112-113, onde tentamos descrevê-lo, e, embora o não conseguíssemos, sempre se dá ideia da sua imponência majestosa. (468) Ver tomo VI, p. 35; tomo IX, p. 159, e tomo X, p. 604, destas Memórias. (469) Ibidem, tomo I, p. 70. (470) Ibidem, p. 316.

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1810 (471). Perto de Puebla de Sanabria ficava o mosteiro de São Martinho da Castanheda, ou Castanheira, que teve muitas propriedades em terras bragançanas (472). Prosseguindo no mesmo arco-de-círculo, vemos a vila espanhola de Benavente, dada em 1398, com o título de condado, a João Afonso Pimentel, alcaide-mor de Bragança (473). Um pouco mais abaixo, ainda no mesmo arco-de-círculo, vemos a vila espanhola de Alcanices, que tão íntimas relações manteve com a nossa região bragançana, como largamente fica indicado nos diversos volumes destas Memórias, especialmente no IV (474). Acresce ainda a circunstância de se ter celebrado nesta vila, a 12 de Agosto de 1297, o tratado de Alcanices entre D. Dinis, rei de Portugal, e D. Fernando, rei de Castela, sobre contendas territoriais havidas entre os dois reinos (475). Alargando mais um pouco o raio da circunferência, vemos lá ao longe Astorga, a célebre chancelaria romana, que nos recorda o conde D. Henrique, fundador da nacionalidade portuguesa, pai de D. Afonso Henriques, primeiro rei de Portugal, falecido a 1 de Novembro de 1112 no cerco de Astorga. Rodando sobre o arco deste círculo, vemos mais abaixo terras de Leão, panteão dos reis astur-leoneses, que, descendo por aqui abaixo, foram escorraçando os mouros no século VIII-IX da nossa região bragançana e das mais aquém-Douro, repovoando-as. Continuando na rotação visual sobre o arco referido, encontramos Tordesilhas, que nos recorda uma conterrânea trasmontana, D. Leonor Teles de Meneses, rainha de Portugal, mulher de el-rei D. Fernando, falecida num convento desta cidade a 27 de Abril de 1386. Tordesilhas também recorda um feito assombrosamente epopeico das glórias portuguesas, pelo tratado aqui celebrado, a 7 de Julho de 1494, entre D. João II, rei de Portugal, e os Reis Católicos de Espanha, que dividiam entre si o Novo Mundo! Mais abaixo fica Toro, a recordar-nos a batalha deste nome, em Maio de 1476, onde os nossos, comandados por el-rei D. Afonso V e seu filho D. João, depois rei de Portugal, obraram feitos gloriosos.

(471) Ver tomo I, p. 158, destas Memórias. (472) Ibidem, tomo II, p. 273. (473) Ibidem, p. 305 e seguintes. (474) Ver também o nosso volume A Restauração de 1640 no distrito de Bragança. (475) Pode ver-se o texto quase completo deste tratado em O Arqueólogo Português, 1906, vol. XI, p. 57. Acerca da boa harmonia entre os moradores de Puebla de Sanabria e Alcanices com os confinantes bragançanos, ver A Restauração de 1640 acima citada, p. 87, 93, 97 e 103.

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Adiante, no mesmo arco visual, fica Zamora, a Zamora das infindáveis recordações bragançanas. Na Sé de Zamora foi em 1125 D. Afonso Henriques, depois primeiro rei de Portugal, armado cavaleiro. A 4 e 5 de Outubro de 1143 celebrou o nosso rei D. Afonso Henriques com o rei de Leão o tratado de Zamora, em que este reconhecia a independência de Portugal (476). Por Zamora passaram muitas princesas portuguesas, que iam casar a Espanha, fazendo valiosas doações à Sé Catedral, como consta de documentos em pergaminho, guardados no rico arquivo da mesma. De Zamora fugiram para Constantim, concelho de Miranda do Douro, os plebeus em número de sete mil, transportando consigo haveres, mulheres, filhos e família, resolvidos a fixar residência em Portugal, porque, revoltados contra os privilégios dos fidalgos, lançaram fogo à igreja onde estavam reunidos para tratar do modo mais eficaz de realizar esses privilégios, queimando-os a todos dentro do templo. Esta revolta, executada em 1158, é conhecida na história pelo nome de Motim da Truta, por ser provocada pela compra de uma truta realizada no mercado por um plebeu durante as horas reservadas aos nobres (477). Fernão Lopes, na Crónica de D. Fernando, descreve o feito heróico — outros chamam-lhe bárbaro — do assassínio dos filhos do ilustre português Afonso Lopes Texeda em frente dos muros de Zamora (478). Também a história nos fala da Traição da ponte de Zamora, evitada pelo príncipe D. João, mais tarde rei de Portugal, quando da batalha de Toro (479). Os zamoranos envolvidos nas lutas políticas acolhiam-se a Bragança, como a casa amiga e segura, pelos anos de 1277 (480). Perto de Zamora ficava o mosteiro de Santa Maria de Moreirola, que teve muitas propriedades na região bragançana (481). Continuando visualmente no mesmo arco-de-círculo, vemos mais abaixo terras de Salamanca, que nos trazem à memória as barulheiras da estudan-

(476) p. 467. (477) (478) (479) (480) (481)

Pode ver-se o texto completo em HERCULANO — História de Portugal, nota X, ao vol. I, CALVO MADRONO, Ismael — Descripcion de la Provincia de Zamora, 1914, p. 149. CHAGAS, Pinheiro — História de Portugal (Ilustrada), 1899, vol. I, p. 308 e 368. Ibidem, p. 447. Ver o nosso estudo A Restauração de 1640 no Distrito de Bragança, 1940, p. 65. Ver tomo II, p. 276, destas Memórias.

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tina portuguesa, principalmente a trasmontana (482), em que se celebrizou um tal António Dias, natural de Bragança, terror dos condiscípulos castelhanos, imortalizado por António Veloso de Lira (483) e Camilo Castelo Branco (484). Prosseguindo no mesmo arco-de-círculo, vemos lá em baixo o Marão a gritar ufano ao brio trasmontano: Para cá do Marão, governam os que cá estão. Além destas diversões, Bragança tem o Pelourinho, a Domus Municipalis, o Castelo — dois monumentos de arte verdadeiramente grandes — e o Museu, que é um dos mais ricos da província pelas suas raridades epigráficas e etnográficas (485). Mas é tempo de deixar Bragança e prosseguir na excursão para Miranda do Douro, oitenta e cinco quilómetros distante de estrada, podendo seguir-se de automóvel ou no carro do correio. Ao passar em Outeiro, uma vista de olhos à igreja do Santo Cristo, de portão lobolado na fachada; ao Pelourinho, que, como os de Chacim, Frechas, Freixo de Espada à Cinta e Vale de Prados junto a Macedo de Cavaleiros, é dos mais belos do distrito de Bragança, e às muralhas em ruínas, que, no cume do outeiro, demonstram a importância desta antiga vila (486). Foi no foral dado a Outeiro em 1270 por Frei Frutuoso, abade do mosteiro beneditino de Castro de Avelãs, que encontramos o nome Ouro e Oura como nome próprio de pessoas, descoberta de grande importância léxica para explicar a proveniência dos geográficos Ouro, Oura, Ribeira de Ouro e Vilar de Ouro (487). Ao passar em Cacarelhos descer às Minas do Vimioso para admirar a beleza destes produtos e das cavernas pré-históricas de onde se extraem. Miranda do Douro é uma cidade muito interessante, pelo seu aspecto manuelino; pelas janelas de esquina duplas; pela rua da Costanilha; pelas ruínas do Castelo, devidas à trágica explosão da pólvora na Guerra dos Sete Anos, que sepultaram mais de trezentas pessoas; pela Dança dos Pauliteiros, que deu brado em Londres; pelo suavíssimo pingato rosete, aromático,

(482) Os estudos de Salamanca valiam em Portugal como os de Coimbra. (483) LIRA, António Veloso de — Espelho de Lusitanos. (484) CASTELO BRANCO, Camilo — Cousas leves e cousas pesadas. Ver também sobre o assunto o tomo VIII, p. 11, 41 e 134, destas Memórias. (485) Todos os tomos destas Memórias se referem largamente a Bragança, mas sobre o ponto em questão ver o tomo IX, p. 125. (486) Ver tomo IV, p. 642, destas Memórias. (487) Ver A Restauração de 1640 no Distrito de Bragança, p. 63, onde o publicamos.

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chamado de Bica Aberta; pela indumentária típica denominada Capa de Honras; pelo dialecto mirandês; pela visão dantesca do belo-horrível sobre o Douro e pela Sé renascentista. Os pastores mirandeses fabricam rocas para fiar, canhões para fazer meia e outros artefactos notáveis pelos ornatos incisos a canivete, de belo efeito estético, reproduzindo alguns deles motivos antiquíssimos, relacionados com o culto fálico e com outras modalidades pré-históricas. Por terras mirandesas encontra-se serralharia artística praticada por curiosos, sem mais instrução que a tradicional, provinda, talvez, da tão falada metalurgia do ferro em terras bragançanas. Esta serralharia aplica-se principalmente a fechaduras, pica-portas e outras miudezas de uso vulgar (488). De Miranda vai-se entrar em Duas Igrejas (489) na via férrea, que, por Mogadouro (490), Moncorvo (491) e estação do Pocinho, liga à linha do Douro, de onde partiu esta excursão. Na estação de Picote (492) convém descer à povoação, porque é empolgante a sua visão panorâmica sobre o Douro, que lá em baixo, no extremo da ravina talhada quase a prumo, a centenas e centenas de metros de profundidade, buznegro de cólera, escachoa fremente, abrindo caminho através da penedia, que lhe barra a passagem. Fragueiros enormes, enquadrados por montanhas e montanhas cavalgadas umas sobre as outras eriçadas de pedregulhos e mato bravo, avançam sobre o rio no propósito de o esmagar ou estrangular por asfixia. Entretanto, o Douro, colossal jibóia, ronca ofegante, serpenteando em largos torcicolos, mina incessantemente os flancos das montanhas e, procurando os pontos vulneráveis dos fragueiros, ataca-os com jactos sibilantes de água, que, auxiliada pelas influências meteorológicas, os vai aluindo pouco a pouco incessantemente em labuta de séculos. A encosta de uma montanha coberta de vinhas, amendoeiras, oliveiras e outras árvores frutíferas, cuidadosamente granjeadas, atraída pelo fragor da contenda, veio de longe, sumida pelos desfiladeiros, espreitar e ver do que se tratava, mas ficou-se extática, a meia ladeira, na contemplação dolente do titânico prélio e, pacifista como era, envolveu os contendores no encanto de suas amendoeiras em flor, na paz de seus olivais carregados de fruta e na alegria de seus vinhos finos, porém conseguiu apenas embelezar o quadro com a antítese de seu bucolismo aliado ao belo-horrível.

(488) Em todos os tomos destas Memórias se encontram longas notícias referentes a Miranda do Douro, mas sobre o assunto ver torno IX, p. 467. (489) Ver tomo X, p. 813, destas Memórias. (490) Ibidem, p. 737. (491) Ibidem, p. 143. (492) Ibidem, tomo IX, pág. 65, e tomo X, p. 815.

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Além desta grandiosidade panorâmica, admira-se na capela românica do Santo Cristo, sita à beira da povoação de Picote, o naturalismo fálico que ornamenta seus modilhões, possível tradição de antigos cultos pagãos, e as antigualhas da terra, que é um verdadeiro tesouro arqueológico da época pré-histórica e luso-romana (493). Mais abaixo, na estação de Freixo de Espada à Cinta, é preciso descer à vila, que nos atrai pelo pelourinho, pela igreja matriz em estilo manuelino, pelo castelo com suas pedras sigladas, e pelas suas especialidades culinárias: queijos frescos de ovelha, pão-quente, bilhós e melctões. Pão-quente, é um bolo de trigo circular, apalastrado, de um palmo de largura por dois dedos de grossura, ornado com figurações lineares, incisas na massa antes de ir ao forno, amassado em azeite e ovos. As famílias freixenenses presenteiam-se umas a outras com pão-quente nos primeiros quinze dias de Novembro, por ocasião dos Fiéis-de-Deus, e distribuem muitos pelos pobres e necessitados (494). Um pedaço de pão-quente com meia dúzia de figos secos, dose igual de carões de amêndoa e cascas secas de pêssegos com dois cálices de bagaceira (aguardente feita de bagaço de uvas), constitui mata-bicho apreciável nas frias manhãs de inverno, quando a geada alveja nos campos, pondo reflexos metálicos nas plantas; quando as farripas da neve redemoinham doudejando pelas abrigadas, como as moscas sem saber onde hão-de pousar; quando nos beirais dos telhados o caroujo forma pingões a modo de estalactites. Bilhós — São doces artisticamente feitos, imitando castanhas assadas (bilhós) no formato e cor tostada, levemente torrada em parte. Melctões (em Baçal chamam-lhe melacatões) — São doces artisticamente confeccionados, imitando pêssegos no formato e cor rubeácea. De Moncorvo — onde se admira a igreja matriz e nela o tríptico da vida de Santa Ana, «precioso exemplar de talha gótica»; o púlpito da igreja da Misericórdia, pelo teor do de Santa Cruz de Coimbra, com figurações esculpidas em granito, e as amêndoas cobertas, sua especialidade em doçaria —, é melhor, em vez de descer à estação do Pocinho, ir de automóvel visitar o fertilíssimo Vale da Vilariça, que já conta abundante literatura, como fica dito, memorando ao mesmo tempo o formoso alardo, como diz o cronista Fernão Lopes, aí realizado em 1386 pelo condestável D. Nuno Álvares Pereira (495). Do Vale da Vilariça seguir depois por Vila Flor, vila progressiva assaz justificativa do nome que tem, até às ruínas da antiga Ansiães, onde as muralhas, o castelo, o sarcófago gótico dos Sampaios, a igreja românica de São Salvador, cheia de inscrições e pedras sigladas, falam como se vivas fossem pelo (493) Ver tomo X, p. 815, destas Memórias. (494) Ibidem, tomo IX, p. 311 e 432. (495) Ibidem, tomo I, p. 70, e tomo X, p. 478.

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FARIA

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ineditismo das figurações históricas insculpidas no tímpano e pela riqueza ornamentológica, tanto deste portal como dos laterais e janelas. Todavia, tão grandioso monumento de arte jaz ao abandono, como se a mentalidade local não lhe conhecesse o valor, exposto às injúrias do tempo e às maiores ainda dos sonhadores de tesouros, que de ano para ano o vão estilhaçando a poder de dinamite (496). Da beleza panorâmica destes sítios sobre a região duriense, dissemos na pág. 282.

F FARIA (Dr. Eduardo Ernesto de) — Tomo VII, pág. 174, destas Memórias. Morreu em Bragança, professor reformado do Liceu, a 15 de Agosto de 1943. FELGUEIRAS JÚNIOR (Dr. Francisco do Patrocínio) — Tomo VII, págs. 178 e 654; tomo VIII, pág. 106, e tomo X, pág. 666. Publicou mais: Cartas para o lavrador (distribuição gratuita) — Algumas doenças dos animais transmissíveis ao homem. I — O carbúnculo. Bragança, Tip. Académica, 1937. 8.° de 24 págs., com três gravuras. Algumas doenças transmissíveis dos animais no homem — 1940. Bragança, Tip. Académica, 8.° do 47 págs. Este repete o título anterior, mas diverge algo no assunto, sendo apenas aquele título o nome genérico da colecção de que fazem parte estes opúsculos. Agenda Pecuária do Distrito de Bragança (distribuição gratuita). Bragança, Tip. Académica, 1943. Cem páginas, texto 10,5x7 cent. De colaboração com o Dr. António Pereira Laje, intendente de pecuária em Mirandela. Este pequeno livrinho, cheio de ensinamentos zootécnicos, é mais uma prova do incansável zelo com que Francisco Felgueiras olha pelos interesses da pecuária bragançana e, indirectamente, pela do País. FERNANDES (António Félix) — De Vale de Pena, concelho de Vimioso, deu à Misericórdia desta vila quarenta contos em Abril de 1940. Tão nobre gesto em prol da humanidade sofredora é digno de todos os aplausos. Ver Mensageiro de Bragança, de 15 de Abril de 1940, onde se menciona a dádiva e vem o seu retrato. FERNANDES (Henrique João de BARAHONA ) — Doutor em medicina pela Universidade de Lisboa, nasceu em Vinhais a 29 de Julho de 1907, Filho do (496) Ver tomo IX, p. 113 e seg., destas Memórias.

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FERREIRA

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Dr. António Augusto Fernandes, de Vinhais, e de D. Branca de Barahona Fernandes, de Lisboa. Fez os estudos liceais e os de medicina em Lisboa, doutorando-se em 1930, entrando como assistente contratado da mesma após concurso de provas públicas em 1932. Como bolseiro da Junta de Educação Nacional, estudou nos principais centros culturais médicos de França e da Alemanha, tendo dado larga conta dos seus trabalhos psiquiátricos em conferências públicas e artigos de revistas da especialidade, como tudo consta do Curriculum Vitæ títulos e trabalhos científicos de Henrique João Barahona Fernandes, Lisboa, 1938, 8.° de 39 págs. Além deste, tem publicado: Análise clínica dos Síndromas Hipercinéticos patopsicologia, Fisiopatologia. Lisboa, 1938, 8.° de 266 págs. Comemorações portuguesas de 1941 — Hereditariedade e Profilaxia Eugénica das doenças mentais. Comunicação apresentada a 2.a secção do Congresso Nacional de Ciências da População. Porto, 1940, 8.° de 26 págs. Serviço Social. Comunicação apresentada ao 2.° Congresso Transmontano. Lisboa, 8.° de 19 págs. Professor Sobral Cid. Lisboa, 1941, 8.° de 10 págs. (Separata das páginas 269 a 273 do n.° 5, ano de 1941, da Lisboa Médica.) FERREIRA (José Maria) — Cónego da Sé de Bragança (tomo VII, pág. 183). Faleceu em Alvites, onde fixara residência, a 22 de Março de 1940. No Mensageiro de Bragança, de 15 de Abril do mesmo ano, vem o seu necrológio acompanhado do retrato. FERREIRAS, de Bragança, mais conhecidos ainda por CALAÍNHOS — Tomo VI, págs. 63 e 700. D. ADELAIDE F ERREIRA SARMENTO DE LOUSADA PIMENTEL CALAÍNHO (tomo VI, pág. 701) faleceu no Vimioso em Setembro de 1939 e no dia 21 desse mês veio a sepultar a Bragança no jazigo de sua família. Seu filho ANTÓNIO CARLOS SARMENTO CALAÍNHO DE AZEVEDO (tomo VI, pág. 701), engenheiro, morreu em Lisboa a 1 de Abril de 1930. Deixou dois filhos. D. GUILHERMINA AMÁLIA FERREIRA SARMENTO LOUSADA PIMENTEL CALAÍNHO (tomo VI, pág. 701), religiosa Doroteia, morreu no Colégio Doroteio de Nossa Senhora da Paz, no Porto, a 7 de Janeiro de 1944, havendo nascido em Bragança a 18 de Março de 1861. Em reconhecimento dos serviços que prestou à instrução, o Governo agraciou-a com as insígnias da Ordem de Instrução Pública. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


FIGUEIREDO

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F IGUEIREDO (D. Miquelina Adelaide Ferreira de Castro) — Tomo VI, págs. 110 e 540; tomo VII, pág. 188, e tomo VIII, pág. 107. Processo-crime de D. Miquelina Adelaide Ferreira de Figueiredo, e discurso proferido em seu favor perante a Relação do Porto, 1842, pelo seu advogado Sebastião de Almeida e Brito (497). FIGUEIREDO (José de) — Doutor em direito pela Universidade de Coimbra, erudito crítico de arte, director do Museu Nacional de Arte Antiga, presidente da Academia Nacional de Belas-Artes, nasceu no Porto em 1871 e faleceu em Lisboa em 1937. A memória do dr. José de Figueiredo torna-se digna de reconhecimento pela distribuição que soube fazer do valioso recheio artístico, que chegou a reunir, pelos estabelecimentos de Lisboa destinados a assuntos de arte, contemplando também na província os museus de Bragança, Guimarães e Viseu. Esta lembrança ao Museu de Bragança honra-o e honra-nos. FREIXO DE ESPADA À CINTA Ver tomo V, págs. 106 e 165; tomo VI, págs. 232 e 758; tomo VII, Passim; tomo VIII, págs. 5, 17 e 59; tomo IX, pág. 432, e tomo X, págs. 98, 113, 681 e 711. Capítulos especiais de cortes existentes na Torre do Tombo em Lisboa. Capítulos especiais apresentados por Freixo de Espada à Cinta nas cortes de 1440. Estão na Torre do Tombo, Chancelaria do Rei D. Afonso V, livro 2.°, fólio 27. Cortes de 1459. Os capítulos especiais apresentados por Freixo de Espada à Cinta estão no livro 36, fólio 189, da Chancelaria do Rei D. Afonso V, e também no livro 2.° Além-Douro, fólio 25 v. Cortes de 1482. Os capítulos especiais apresentados por Freixo estão no livro 2.°, fólio 18 v., da Chancelaria do Rei D. João II, e também no livro 3.° de Além-Douro, fólio 77. Cortes de 1439. Os capítulos especiais apresentados por Freixo estão no livro 3.° de Além-Douro, fólio 281 v. Cortes de 1447. Os capítulos especiais apresentados por Freixo estão no mesmo livro, fólio 76. Cortes de 1641. Os capítulos especiais apresentados por Freixo estão no «Maço 10 de Cortes», n.° 16. Cortes de 1653. Os capítulos especiais apresentados por Freixo estão no «Maço 10 de Cortes», n.° 16, e no mesmo estão os capítulos e respostas das cortes de 1641 e 1646. (497) SILVA, Inocêncio Francisco da — Dicionário Bibliográfico Português, tomo VII, p. 201.

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FREIXO DE ESPADA À CINTA

TOMO XI

No livro de Além-Douro, fólio 221, estão os capítulos especiais apresentados em cortes por Freixo de Espada à Cinta, mas não têm data (498). CASTILHO (João de) — Célebre arquitecto, natural das Astúrias, que veio para Portugal em 1517, no tempo de el-rei D. Manuel, distinguindo-se nas obras que realizou na Sé de Viseu, mosteiro de Belém, convento de Cristo em Tomar e mosteiro de Alcobaça, «casou com D. Maria de Quintanilha, ou D. Maria Fernandes de Quintanilha, filha de Garcia Fernandes de Quintanilha, também asturiano e foragido por questões políticas, que vivia em Freixo de Espada à Cinta, e casara com uma senhora portuguesa daquela vila, de apelido Varejão» (499). Haverá alguma relação entre o casamento do famoso arquitecto João de Castilho em Freixo de Espada à Cinta e a construção da igreja matriz desta vila, nitidamente manuelina? O génio de Castilho influiria no labor daqueles ornatos admirados nas portas e fachada da elegante igreja? É possível que sim (500). 1 — F RANCISCO X AVIER R OBALO DA G AMA P INHATEL B ELERMA , natural de Freixo de Espada à Cinta, filho de Manuel Robalo da Gama Pinhatel, natural da referida vila, e de D. Isabel Maria Xavier Taborda, natural de Penamacor, bispado da Guarda, casado com D. Maria Teresa Machado de Sá Macedo, da mencionada vila de Freixo, filha de João Machado de Madureira e de D. Maria de Sá Sotomaior, ambos de Freixo de Espada à Cinta, e tiveram: LUÍS BERNARDO, nascido em Freixo de Espada à Cinta em 8 de Março de 1772. JOSÉ JOAQUIM, nascido em Freixo a 4 de Julho de 1779. LUÍSA JOAQUINA, nascida em Freixo a 17 de Fevereiro de 1782. ISABEL MARIA, nascida em Freixo a 2 de Abril de 1792. LUÍSA B ERNARDA, nascida em Freixo a 6 de Outubro de 1794. 2 — M IGUEL A NTÓNIO R OBALO, filho do doutor Miguel António Pinto de Meireles e de D. Maria Josefa Pereira de Mesquita, ambos de Freixo de

(498) Tiramos a notícia destes capítulos especiais do livro Cortes do Reino de Portugal por Joaquim Leitão, Lisboa, 1940. Praza aos céus que algum continuador da nossa obra em prol do distrito de Bragança explore na Torre do Tombo estes capítulos de cortes, onde há notícias mui interessantes referentes à vida económica e social de nossos antepassados bragançanos. (499) Portugal: Dicionário histórico ilustrado, artigo Castilho (João de), vol. II, p. 908. No tomo VIII, p. 15, destas Memórias falamos de outro casamento de espanhóis realizado em Freixo de Espada à Cinta. Quanto ao apelido Varejão encontrámo-lo no escritor Simão Varejão, de quem tratamos no tomo VII, p. 568, destas Memórias. (500) Sobre a igreja de Freixo, ver tomo IX, p. 432, e tomo X, p. 684, destas Memórias.

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FREIXO DE ESPADA À CINTA

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Espada à Cinta, casou com D. Maria Micaela Taborda Robalo, filha de Manuel Robalo Pinhatel e de D. Isabel Maria Xavier Pinhatel, ambos naturais de Penamacor. Tiveram: MIGUEL ANTÓNIO, nascido em Freixo a 5 de Abril de 1795 (501). NICOLAU ANTÓNIO MACHADO DE SÁ, natural de Freixo de Espada à Cinta, filho de João Machado de Madureira e de D. Maria de Sá Sotomaior, ambos de Freixo, casou com D. Teresa Josefa Taborda Robalo Pinhatel Belerma, também natural de Freixo de Espada à Cinta, filha de Manuel Robalo Pinhatel Belerma da Gama e de D. Isabel Maria Xavier Taborda Pinhatel, natural de Penamacor. Tiveram: I SABEL M ARIA , nascida em Freixo de Espada à Cinta em Abril (não declara o dia) de 1782 (502). Na página 309 falamos do Pão-quente, Bilhós e Melctões, três pitéus culinários freixenenses, descritos segundo informações dadas pelo nosso amigo António Alberto Jorge Lopes. Ao mesmo amigo devemos mais as seguintes Loas, de carácter etnográfico, cantadas pelos pastores a Santo António no dia da sua festa, ao oferecer-lhe suas dádivas para que lhes proteja os rebanhos: I — Pare o sol, pare a lua, Pare o estandarte real. Parai oh divino António Que sois o rei de PORTUGAL. II — Oh divino Santo António Aqui tendes o borrego: Olhai que ele não é meu, António bem o sabeis. É do ti Manuel Melão, O pago Vós lho dareis.

(501) Livro dos baptizados de Freixo de Espada à Cinta, de 1792 a 1795, existente no Arquivo da Câmara Eclesiástica de Bragança. (502) Ibidem, anos de 1778 a 1786.

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FREIXO DE ESPADA À CINTA

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Foi nascido no Milagre, Criado no Rodriguinho O que está é muito gordo, Porque o dono é manhosinho. III Oh divino Santo António Santo do meu coração, Quebrai os dentes aos ratos Que me ratam o Sarrão. IV — Oh divino Santo António Casai-me que bem podeis, Todas casais aos dez anos E eu já tenho dezasseis. Oh divino Santo António Peço-vos do coração Que me deis a melhor moça Que levais na procissão. Não a quero de mantéu Nem de mantilha preta Só a quero de lenço vermelho Que se enfeita muito na festa, Oh divino Santo António Lábios de cravo rajado Peço-Vos divino António Que me livreis de soldado. Oh divino Santo António Lábios de ginja madura Já hoje faz um ano Que não saíste à rua. Oh divino Santo António A nossa vila esta muito aumentada Reparai para a ponte do Carril Que está toda arrombada. No tomo X, pág. 812, destas Memórias publicámos a inscrição mandada gravar por el-rei D. João IV em todas as cidades e vilas de Portugal, comprometendo-se a tomar por padroeira do reino Nossa Senhora da Conceição, segundo MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


FREIXO DE ESPADA À CINTA

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voto apresentado e jurado nas cortes de 1646. Aí declarámos que desta inscrição apenas se conservava no distrito de Bragança a de Miranda do Douro. Errámos. Há outra idêntica no texto em Freixo de Espada à Cinta, segundo nos informou o amigo Jorge Lopes, remetendo-nos uma cópia do letreiro, vendo-se nitidamente no fim dela a data de 1654, que certamente indica o ano da sua erecção, coisa que na de Miranda se não percebe por apagada. No tomo X, pág. 73, demos algumas siglas dos canteiros existentes no castelo de Freixo de Espada à Cinta; o amigo Jorge Lopes manda-nos mais as seguintes:

Figura 1

Também no castelo de Freixo de Espada à Cinta, no chamado «Lado do Cão», há os seguinte letreiros, segundo informações do amigo Jorge Lopes, que não sei ler:

Figura 2

Noutra parte há mais o seguinte:

Figura 3

que dirá: Johão Fernandes scrivão desta (obra).

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FRUTUOSO

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Ainda o caro amigo António Alberto Jorge Lopes nos mandou mais os seguintes letreiros existentes na sua terra natal: Figura 4

Figura 5

Se em todas as vilas bragançanas houvesse um António Alberto Jorge Lopes, como seria completa a história do nosso rincão trasmontano! Caros Lopes! — um grande abraço de reconhecimento do velho amigo Abade de Baçal. FRUTUOSO (Gaspar) — Doutor em teologia pela Universidade de Salamanca; nasceu em Ponta Delgada, ilha de São Miguel, em 1522 e faleceu paroquiando a vila de Ribeira Grande (São Miguel) a 24 de Agosto de 1591. Dom Julião de Alva, bispo de Miranda (1560-1566), tendo notícia da virtude e letras de Frutuoso, conseguiu que viesse para Bragança ensinar os aspirantes ao sacerdócio no Colégio de São Pedro, por ele fundado (503), e no Colégio dos Jesuítas da mesma cidade, «onde leu alternativamente casos com os padres» da Companhia de Jesus. Diz Ferreira (504) que continuou ensinando ainda em Bragança durante o episcopado de D. António Pinheiro, mas pouco tempo seria, regressando à sua ilha, onde faleceu. Deixou manuscrita as Saudades da terra ou História das ilhas dos Açores, que foi publicada com ilustrações em 1925.

(503) Tomo II, p. 315 e 330, destas Memórias. (504) FERREIRA, Francisco Leitão — Notícias Cronológicas da Universidade de Coimbra, 1940, segunda parte, vol. I, p. 115, onde se relatam algumas críticas feitas a Frutuoso. Ver também p. 567 e seg.

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FUNERAIS

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FUNERAIS Ver, no Apêndice deste tomo, o artigo Acção Católica.

G GALVÃO (Joaquim de Santo Agostinho de Brito França) — Vigário Apostólico da Diocese de Bragança, abade de Lustosa (tomo VI, pág. 596, e tomo VII, pág. 201). Fez parte da «Comissão Académica organizada em 1790 para proceder ao Inquérito dos Arquivos», da qual eram membros: João Pedro Ribeiro, Frei Joaquim de Santa Rosa de Viterbo e José Ferreira Gordo, todos bem conhecidos pelos trabalhos eruditos de investigação histórica que deixaram. Galvão escreveu: Reflexões sobre o Correio Brasileiro. Lisboa, 1809, 8.° de 84-11 págs. GONÇALVES (Horácio de Assis) — Tomo VII, pág. 213, e tomo X, pág. 686. Publicou mais: Mais um passo — A Assistência no Distrito de Vila Real. VII Relatório. 1938. 8.° de 74 págs., com um mapa desdobrável do distrito de Vila Real e sete gravuras de monumentos do mesmo. Sem parar — Acção Administrativa no distrito de Vila Real. X Relatório. 1940. 8.° de 179 págs., com um mapa desdobrável e várias gravuras do distrito de Vila Real. Os outros Relatórios, referentes à gerência de Assis Gonçalves como Governador Civil de Vila Real, que não consegui ver, intitulam-se: Dez anos de Estado Novo no Distrito de Vila Real (1926-1936). Plano integral de Assistência e sua unificação no Distrito de Vila Real (1936). A Ordem Nova no Distrito de Vila Real (1935-1936). Uma Revolução que triunfa (1935-1936). A Revolução em marcha no Distrito de Vila Real (1937). Anseio que se realiza (1937). Caminhando (1939). GOVERNADORES CIVIS (505) PEDRO VICENTE DE MORAIS SARMENTO CAMPILHO, natural de Vinhais, nascido a 22 de Fevereiro de 1904, filho do Dr. Alfredo Aníbal de Morais (505) Ver tomo X, p. 686, destas Memórias.

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GROTESCO

TOMO XI

Campilho, natural de Vidago, juiz da Relação de Lisboa, e de D. Olinda da Glória de Morais Sarmento Campilho, natural de Vinhais (506). Fez os estudos liceais em Bragança e concluiu a formatura em direito na Universidade de Coimbra em 1928. Foi nomeado Governador Civil do Distrito de Bragança por portaria publicada no Diário do Governo de 12 de Março de 1941, tomando posse em 13 do mesmo mês e entrando no distrito no dia 23 seguinte, onde teve imponente recepção. Exerceu as funções de Delegado do Instituto Nacional do Trabalho em Vila Real, Delegado do Procurador da República em Santa Maria (Açores) e de Agente do Ministério Público do Tribunal do Trabalho do Porto, 1.a vara. Desempenhou as funções de presidente da Comissão Distrital da União Nacional do distrito de Vila Real e de presidente da Acção Católica do mesmo distrito. Durante o seu governo foi recebido oficialmente em Bragança o primeiro Chefe de Estado, general António Óscar de Fragoso Carmona, cuja recepção foi uma magnífica apoteose ao venerando português, que tão sensibilizado ficou com os carinhos da gente trasmontana. Reorganizou a Santa Casa da Misericórdia de Bragança, para a qual conseguiu do Estado um magnífico edifício, que permitiu nela iniciar-se, com eficiência, protecção às parturientes e à primeira infância. Conseguiu do Governo o importante melhoramento da ligação do distrito de Bragança ao da Guarda, pela ponte, em construção, sobre o Douro, entre Freixo de Espada à Cinta e Barca de Alva. Iniciaram-se auspiciosamente os trabalhos preliminares do estudo do aproveitamento hidroeléctrico do Tuela. Ampliou-se notavelmente a instalação da «Casa de Trabalho Doutor Oliveira Salazar», em Bragança, graças à sua actuação. Foi condecorado pelo Chefe de Estado na sua visita a Bragança com a Comenda da Ordem Militar de Cristo. Também foi condecorado pelo Governo espanhol com a Comenda da Ordem do Mérito Civil. Casou no Porto, em 1937, com D. Maria Lísia Tasso de Sousa Lima, de quem tem dois filhos — Pedro José e Nuno Maria. Bragança deve ainda ao ilustre Governador Civil Campilho outros serviços pequenos, ao parecer hoje, mas que podem vir a ser grandes no futuro. GROTESCO No tomo II, págs. 260 e seguintes; tomo VIII págs. IX e XVI, e tomo X, pág. 816, ligando-se-lhe de alguma forma o que dizemos no tomo IX, pág. 95, e tomo X; págs. 75 e 297, descrevemos, tanto a obscenidade do assunto o per(506) Ver tomo VI, p. 619, destas Memórias.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


GUERRA JUNQUEIRO

323 TOMO XI

mita, várias esculturas em pedra e madeira, principalmente em igrejas bragançanas. Agora descobriu outra o ilustrado pároco de Duas Igrejas, Padre António Maria Mourinho, segundo nos comunicou em carta, que está dentro da igreja da Senhora do Monte, em Duas Igrejas, posta sobre um arco a segurar uma trave. Perto desta, há vestígios de outras, mas despedaçaram-nas. Esta representa umas nádegas, orifício rectal bem nítido, adstritas a nojenta cena lúbrica, algo semelhante à do modilhão da rua da Costanilha em Miranda do Douro, posta a meio da fachada de uma casa, junto à janela. GUERRA JUNQUEIRO (Abílio Manuel) — Tomo VII, pág. 255. Ultimamente, publicou-se mais: Padre Moreira das Neves, Guerra Junqueiro — O homem e a morte. Porto, 1942. 8.° de 258 págs., mais uma inumerada de licenças e outra de índice. Este livro, premiado no concurso de 1942, aberto anualmente pelo Secretariado da Propaganda Nacional, é uma das melhores fontes de consulta bibliográfica sobre Guerra Junqueiro. Na página 239, referindo-se à sua origem judaica, diz que uns discordam de tal origem e outros a dão como certa. Entre estes cita: António Sardinha (507), Mário Saa (508), Teófilo Braga e Raul Brandão (509). Este afirma ter-lhe dito Junqueiro, num momento de revolta contra si próprio, que era «judeu, neto de troquilhas e contrabandistas, no meu sangue arde a cobiça». Mas também noutra ocasião lhe afirmou: «com respeito à origem judaica que me atribuem, quer saber que não há um único judeu na minha família? Meu pai educou-me no ódio aos judeus. No distrito de Bragança sabe-se perfeitamente quais são as famílias judaicas, que, de resto, não têm nada o meu tipo, nem o nariz adunco. Qualquer labrego de lá pode ignorar quem é o presidente da República e mesmo se há República em Portugal, mas aponta-lhe uma a uma, sem se enganar, as famílias suspeitas do distrito». Em qual das afirmações está a verdade? Teria Junqueiro, indignado contra o seu fácies psicológico, contra «a cobiça que lhe ardia no sangue», desabafado na confissão da sua origem semita, negando-a depois, em momento de acalmia, por conveniência social e política, desde que vira o zabumbar da crítica sarcástica? Falando eu sobre o caso com uma pessoa categorizada e em bela posição social, casada em Freixo de Espada à Cinta, onde viveu algum tempo, disse-me que Guerra Junqueiro era tido como judeu pela gente da vila. Padre Moreira das Neves publica seguidamente a carta que lhe dirigimos, respondendo à pergunta que nos fez acerca da origem judaica de Guerra Junqueiro, (507) SARDINHA, António — Purgatório das ideias, 1929, p. 183. (508) SÁ, Mário — A Invasão dos Judeus, 1924, p. 153. (509) BRANDÃO, Raúl — Memórias, 4.a edição, vol. 2.°, 1924, p. 267.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


324

GUERRA JUNQUEIRO

TOMO XI

onde dizemos que seus apelidos não se encontram no V tomo destas Memórias, consagrado exclusivamente aos judeus do distrito de Bragança, apesar de conter milhares de nomes de indivíduos processados na Inquisição por judaísmo, sendo muitos de Freixo de Espada à Cinta, terra natal do poeta, lembrando-lhe, ao mesmo tempo, o projecto de fazer uma investigação genealógica sobre o assunto em melhorando da oftalmia que então me impedia de ler. Eis o que apuramos:

Árvore genealógica do poeta Abílio Manuel Guerra Junqueiro

ABÍLIO MANUEL GUERRA JUNQUEIRO,

nat. de Freixo de Espada à Cinta, n. a 15 de Setembro de 1850.

{

JOSÉ ANTÓNIO JUNQUEIRO

ANA MARIA GUERRA,

natural de Freixo de Espada à Cinta, n. a 1 de Julho de 1827. (Em alguns autores, só está MARIA GUERRA) mas no assento de baptismo do poeta encontra-se ANA MARIA DO SACRAMENTO.)

MARIA ANGÉLICA DA TRINDADE

(irmã), n.

a 29 de Agosto de 1821. ANTÓNIO MARIA DA TRINDADE

(irmã), n.

a 6 de Abril de 1823.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


GUERRA JUNQUEIRO

325 TOMO XI

(Esteves Junqueiro), nat. de Ligares (Freixo de Espada à Cinta), n. a 16 de Janeiro de 1804.

JOSÉ ANTÓNIO

{ {

(irmã), n. a 26 de Janeiro de 1803 (510).

MARIA DA GRAÇA

(de Azevedo), nat. de Ligares (Freixo de Espada à Cinta), n. a 11 de Março de 1791 (510).

MARIA DE SÃO JOSÉ

MANUEL

JOAQUIM

GUERRA,

nat. de Freixo de Espada à Cinta.

FRANCISCA MARIA SANCHES,

nat. de Freixo de Espada à Cinta.

{

MANUEL

ANTÓNIO

{ {

JOSÉ DE AZEVEDO,

{

BENTO JOSÉ MASSA,

JUNQUEIRO,

nat. de

Ligares.

CATARINA MARIA,

nat.

de Linhares.

nat. de Valtorno (Vila Flor).

JOANA MARIA,

nat. de

Ligares.

{

{

JOSÉ ESTEVES JUNQUEIRO MARIA PIRES TRIGO

JOSÉ BORGES,

nat. de

Ligares. C A T A R I N A F E R N A NDES, nat. de Ligares.

{

J O Ã O D E A Z E V E D O,

{

PEDRO ESTEVES DE CARVALHO, nat. de

nat. de Ligares. nat. de Ligares.

JOANA DE ABREU,

Ligares. ISABEL ESTEVES,

nat.

de Ligares.

JOSÉ ANTÓNIO GUERRA,

nat. de Freixo de Espada à Cinta. MARIA TERESA TEIXEIRA,

nat. de Freixo de Espada à Cinta. nat. de Freixo de Espada à Cinta.

F R A N C I S C A S A N C H E S,

nat. de Mazouco (Freixo de Espada à Cinta).

(510) Consta do Livro dos baptizados de Ligares, existente no Arquivo da Câmara Eclesiástica de Bragança. Pomos entre parêntesis os apelidos, que, embora pertençam por seus pais aos baptizados, não lhos escreveram no assento de baptismo, por ser então costume omitirem-se por desnecessários, pois bem se sabia que usariam os dos pais.

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GUERRA JUNQUEIRO

TOMO XI

Certidão de nascimento do poeta Abílio Manuel Guerra Junqueiro: 81 — «ABILIO M ANOEL , filho legitimo de José Antonio Junqueiro e Anna Maria Guerra, nepto paterno de José Antonio Estevez Junqueiro e Maria de S. José de Azevedo, do lugar de Ligares, freguesia de S. João Baptista, e materno de Manoel Joaquim Guerra e Francisca Maria Sanches, desta vila. Nasceo no dia quinze do mez de Setembro de mil oitocentos e cincoenta, foi baptizado por mim solenemente nesta igreja no dia vinte e trez do mesmo; foram padrinhos Manoel Joaquim Guerra e Francisca Marcelina. E para constar fiz este termo, que assinei. Freixo de Espada à Cinta dia O prior, Lopo José de Mesquita» (511).

Mãe de Guerra Junqueiro: 82 — «ANNA MARIA DO SACRAMENTO (512), filha legitima de Manuel Joaquim Guerra e Francisca Sanches, nepta paterna de José Antonio Guerra e Maria Theresa Teixeira, e materna de Bento José Massa, todos naturaes desta villa de Freixo, e Francisca Sanches, natural de Mazouco. Nasceo no primeiro dia do mez de Julho do anno de mil oito sentos vinte sete, e foi baptizada aos sete dias do mesmo mez anno ut supra na pia baptismal desta Igreja, e collegiada de São Miguel solemnemente com bençoins e santos oleos por mim o Padre Francisco Manoel Massa por comição do Reverendo Reitor Miguel Antonio Madeira; forão seos padrinhos José António Guerra e Antonia Maria da Trindade, que todos aqui conmigo assinarão, e eu o Padre Francisco Manoel Massa sancristão, que este fez e assigno: O Reitor, Miguel Antonio Madeira. O Padre, Francisco Manoel Massa. José Antonio Guerra» (513).

(511) A José Jaime da Silva, diligente ajudante da Conservatória do Registo Civil de Freixo de Espada à Cinta, agradecemos a gentileza com que nos facilitou a publicação deste documento, existente no Livro dos baptizados da referida vila. (512) No assento de baptizado do filho (poeta Guerra Junqueiro), só lhe deram o nome de Ana Maria Guerra, e na certidão de idade do mesmo, publicada pelo Padre Moreira Neves, Guerra Junqueiro, o homem e a morte, Porto, 1942, p. 222, a mãe aparece apenas com o nome de Maria Guerra, se bem que no assento de baptismo do filho, único documento que faz fé, está bem claro o nome Ana Maria Guerra. (513) Livro dos baptizados de Freixo de Espada à Cinta de 1818 a 1830, fólio 158, verso, existente no Arquivo da Câmara Eclesiástica em Bragança.

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GUERRA JUNQUEIRO

327 TOMO XI

83 — M ARIA A NGÉLICA DA T RINDADE , irmã da precedente e tia do poeta, nasceu e 29 de Agosto de 1821 (514). 84 — ANTÓNIA MARIA DA TRINDADE, irmã da anterior e tia do poeta, nasceu a 6 de Maio de 1823 e foi baptizada pelo Padre Jerónimo Luís Guerra, com licença do reitor Miguel António Madeira (515). 85 — M ARIA DE SÃO J OAQUIM , filha de Francisco José Guerra e de Isabel Marcelina de Araújo, neta paterna de José António Guerra e de Maria Teresa e materna de Manuel António de Araújo e de Inácia Maria dos Prazeres, todos de Freixo de Espada à Cinta, nasceu a 5 de Março de 1825 (fólio 122, v., do livro citado); prima da mãe do poeta, bem como os dois seguintes: 86 — FRANCISCA MARIA TRINDADE, irmã da precedente, nasceu a 4 de Outubro de 1827. Prima da mãe do poeta (516). 87 — FRANCISCO MANUEL, irmão dos dois anteriores, nasceu a 1 de Novembro de 1829 (517). Dois filhos de José Esteves Junqueiro, bisavô de Guerra Junqueiro: 88 — SALVADOR, filho de José Esteves Junqueiro, natural de Ligares, e de Maria Fernandes Moleira (518), natural do Freixo, neto paterno de José Esteves Junqueiro e de Catarina dos Santos Gadanha, natural de Ligares, e materno de Domingos Álvares Mazouqueira e de Catarina Álvares Mazouqueira, natural de Freixo, nasceu a 18 de Dezembro de 1763 (519). ALBERTO, irmão do precedente, mas os avós maternos aparecem assim designados: Domingos Fernandes Cortisso e Maria Fernandes Mazouqueira. Nos outros nomes não há dúvida. Enganar-se-ia o padre ao lavrar o assento, ou quem lhe forneceu os apontamentos? Casaria em segundas núpcias com a tal Maria Fernandes Mazouqueira? (520).

(514) Livro dos baptizados de Freixo de Espada à Cinta..., fólio 46. (515) Ibidem, fólio 84. (516) Ibidem, fólio 163. (517) Ibidem, fólio 187. (518) Este apelido Moleira não oferece leitura clara e parece Madeira, mas pelo assento do filho Alberto, nascido em 1765, vê-se clara a leitura de Moleira. (519) Livro dos bapt. de Freixo de Espada à Cinta de 1763 a 1772, fólio 8, v. (520) Ibidem, fólio 52, v.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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GUERRA JUNQUEIRO

TOMO XI

Tia da mãe de Guerra Junqueiro: 89 — «L UÍZA M ARCELINA , filha legítima de Francisco António Cardoso, e Maria do Nascimento, ambos desta vila de Freixo de Espada Cinta (sic), neta paterna de António Cardoso, natural de Pojares, «Josefa Madeira, e materna de Bento José Massa, ambos desta vila, e Francisca Sanches, natural de Mazouco, nasceu aos doze dias do mez de Outubro do ano de mil oito centos e vinte e trez e foi baptizada aos dezanove dias do mesmo mez e ano ut supra pelo reverendo reitor Miguel Antonio Madeira solemnemente com bençoins e santos oleos, e foram padrinhos José Marcelino e Luiza Robala, que todos aqui conmigo assinarão, e eu o Padre Francisco Manuel Massa sancristão que este fiz e assignei. O reitor Miguel Antonio Madeira. O padre Francisco Manoel Massa. José Marcelino» (521). Como as famílias Guerra Junqueiro, Massa e Madeira se ligaram por casamentos: 10 — ANTÓNIO MANUEL, filho de Diogo Marcelino Massa e de Francisca Marcelina Teixeira, neto paterno de João José Massa e de Isabel Maria Madeira, ambos de Freixo de Espada à Cinta, onde nasceu a 13 de Fevereiro de 1828 (522). 11 — ISABEL , filha de Manuel Madeira, natural de Urros (Moncorvo), e de Isabel Coelho da Guerra, natural de Freixo, neta paterna de José Luís Madeira e de Maria Rodrigues Sesteira, ambos de Urros, e materna de Luís Esteves e Maria Coelho Guerra, ambos de Freixo de Espada à Cinta, nasceu a 14 de Maio de 1792, fólio 10, v.; JOAQUIM, irmão, fólio 92, v.; JOSÉ ANTÓNIO, irmão, nascido em 1780, fólio 50, v.; JOSÉ JOAQUIM, irmão, nasceu a 4 de Agosto de 1781, mas o avo materno vem com o nome de Luís Curto (o apelido Curto aparece noutras famílias de Freixo). Neste e nos seguintes o fólio e número referem-se ao respectivo numero do Livro dos baptizados de Freixo de Espada à Cinta. 12 — FRUTUOSO, filho de José Bernardo Pires da Guerra e de Maria da Conceição, de Freixo; neto paterno de Bernardo Peres da Guerra e de Maria Madeira e materno de Francisco Cordeiro e de lsabel Teixeira, nasceu a 2 de Março de 1793, fólio 47. 13 — JOÃO JOSÉ, filho de João Madeira, de Urros, e de Maria Rodrigues, de Freixo, neto paterno de José Madeira e de Maria Rodrigues, ambos de (521) Livro dos baptizados de Freixo de 1818 a 1830, fólio 92. (522) Ibidem, fólio 165, v.

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GUERRA JUNQUEIRO

329 TOMO XI

Urros, e materno de Francisco Rodrigues Sapago, de Carviçais, e de Antónia Pereira, de Freixo, nasceu a 8 de Julho de 1792, fólio 58, v. 14 — J OSÉ MANUEL DO NASCIMENTO, filho de António Manuel Massa, neto paterno de José António Massa e de Antónia Fernandes Guerra, todos de Freixo, nasceu a 8 de Agosto de 1819 e foi baptizado pelo Padre Francisco Manuel Maça com licença do pároco de Freixo. Este padre assina muitos baptizados feitos por ele com licença do pároco. 15 — ANA MARIA DA PURIFICAÇÃO, filha de Cristóvão José Massa e de Maria do Carmo Guerra, neta paterna de Maximino António e de Maria José, e materna de Francisco Pires Larinhato e de Isabel Guerra, todos de Freixo, nasceu a 5 de Novembro de 1820. 16 — ISABEL MARIA, filha de Manuel Diogo Marques, de Freixo, e de Maria Cardoso, de Poiares, neta paterna de Miguel António Madeira e de Rita Maria, ambos de Freixo, e materna de José Manuel Cardoso e de Isabel Esteves Martins, nasceu a 14 de Novembro de 1793, fólio 82, v. 17 — FRANCISCO M ANUEL, filho de Rodrigo dos Santos Coelho e de Maria José Teixeira, ambos de Freixo, neto paterno de João Mateus e Bárbara Luís, e materno de Pedro Madeira e Maria Teixeira, todos de Freixo, nasceu a 23 de Novembro de 1778, fólio 8. Outro neto de Pedro Madeira, fólio 49, v., nascido em 23 de Abril de 1786. Outro neto de Pedro Madeira, nascido em 1781, fólio 93, v. Outro neto do mesmo, nascido em 1782, fólio 104. 18 — JOSÉ MARELO, filho de Manuel Madeira Marelo e de Maria José Paula, neto paterno de Jerónimo Madeiro Pizaquedo, nascido a 8 de Abril de 1780, fólio 46; FRANCISCO ANTÓNIO, irmão do precedente, nascido em 1782, fólio 101; MARIA, irmã do precedente, nascida em 1764, fólio 14, v.; ANTÓNIO, irmão do anterior, nascido em 3 de Janeiro de 1769, fólio 121, e JERÓNIMO (idem), nascido em 2 de Maio de 1771, fólio 173. 19 — ALEXANDRE MANUEL, filho de João Baptista Feijó e de Isabel Madeira, ambos de Freixo, neto paterno de Mateus Aires Feijó e de Maria Sancha, ambos de Freixo, e materno de Bernardo Peres da Guerra e de Maria Madeira, também de Freixo, nascido a 1 de Setembro de 1781, fólio 74, v. 20 — MANUEL ANTÓNIO, filho de Francisco Madeira e de Isabel Guerra, neto paterno de Pedro Madeira e de Maria Teixeira, ambos de Freixo, e MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


330

GUERRA JUNQUEIRO

TOMO XI

materno de Sebastião Guerra e Maria Guerra, nascido a 6 de Julho de 1781, fólio 86; MARIA, irmã do precedente, nascida a 15 de Junho de 1764, fólio 16, v.; I SABEL M ARIA (idem), nascida a 6 de Setembro de 1768, fólio 113, e JOSÉ ANTÓNIO, irmão dos precedentes, nascido em 14 de Março de 1771, fólio 168, v. 21 — FELICIANO ANTÓNIO, filho natural de Josefa Madeira, neto materno de Caetano Madeira e de Maria da Guerra, ambos de Freixo, nascido em 1781, fólio 94, e J OSEFA, irmã do anterior, nascida a 20 de Julho de 1766, fólio 63, v. 22 — JOSEFA CAETANA, filha de Miguel António Madeira e de Rita Maria de Belém, ambos de Freixo, neta paterna de Pedro Madeira e de Maria Teixeira, e materna de Manuel António Marques e de Águeda Borges de Belém, nascida a 3 de Janeiro de 1765; JOSEFA, irmã da anterior pelo pai, mas já casado com Isabel Maria Esteves Dionísia, de Poiares, nascida em 24 de Março de 1767, fólio 83; VICÊNCIA, irmã desta última, nascida a 18 de Dezembro de 1768, fólio 120, e MARIANA (idem, idem), nascida a 17 de Setembro de 1771, fólio 181, v. 23 — CATARINA, filha de Bernardo Pires da Guerra e de Maria Madeira, neta paterna de Manuel Pires Fagundo e de Maria Guerra, e materna de Francisco Domingues Mocanca e de Catarina Madeira, nascida a 15 de Fevereiro de 1765, fólio 30, v. 24 — ISABEL, filha de José António Luís Coelho e de Isabel Maria Teixeira, neta paterna de João Mateus e de Bárbara Luís, e materna de Pedro Madeira e de Maria Teixeira, nascida a 24 de Agosto de 1770, fólio 152, v.; MIGUEL ANTÓNIO, irmão da anterior, nascido em 17 de Novembro de 1763, fólio 4, v. Como não aparecem mais livros do registo paroquial de Freixo de Espada à Cinta anteriores a 1830, além dos quatro de baptizados existentes no Arquivo da Câmara Eclesiástica de Bragança respeitantes aos anos de 1763-1772, 1778-1786, 1792-1795 e 1818-1830, que apenas abrangem o espaço de sessenta e sete anos, faltando, ainda assim, neste período, os tocantes a quarenta e quatro anos, foi impossível organizar a genealogia de Guerra Junqueiro como desejávamos, no intuito de averiguar se era ou não semita. Pela árvore genealógica adiante junta, tocante a um judeu de Duas Igrejas, mostra-se que Catarina Madeira, natural de Urros (Moncorvo), casou em Freixo (por brevidade omitiremos o resto do nome) com Francisco FerMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


GUERRA JUNQUEIRO

331 TOMO XI

nandes e tiveram António Madeira, que casou com Ana Afonso, de Freixo, filha de Leonardo Afonso, filho de Domingos Afonso, tido como judeu na voz pública. Por causa desta fama não foi seu bisneto Aleixo Madeira, nascido em 1674, admitido a Familiar do Santo Ofício, embora não se apurasse ao certo se provinha da cristã-velha do ascendente de seu bisavô, se da nova (judia); mas isso nada faz ao presente caso, pois, sem dúvida nenhuma, os descendentes de António Madeira e de sua mulher Ana Afonso têm sangue judaico pelo lado desta. Devido a tantas ligações matrimoniais entre Guerras, Madeiras e Massas, segundo fica apontado, realizadas em vinte e sete anos apenas, num meio restrito como é Freixo, que então regulava por 350 fogos (523), contará o poeta Guerra Junqueiro entre os seus ascendentes o tal judeu? Genealogicamente não podemos afirmá-lo, porque o apelido Guerra está muito espalhado por diversas famílias de Freixo, mas... Depois, o próprio Guerra Junqueiro confessou que era judeu. É certo que mais tarde deu o dito por não dito; todavia, parece mais provável a primeira afirmativa, por brotar espontânea, quase inconsciente, como voz do sangue, num grito de revolta contra a cobiça semita que o atormentava. Pelo contrário, a negativa, filha da reflexão, inculcará conveniência social, política e escaparete à mordacidade da crítica a bordar comentários sobre o seu semitismo. Mas entre os Guerras, Madeiras e Massas de Freixo há padres. Na verdade assim é, e tivemos o cuidado de mencionar seus nomes nos assentos e extractos de baptizados que transcrevemos; todavia, esta prova é fraca, pois sempre houve e há-de haver padres cristãos de origem semita, e aos que lhe dá para beatério, são ainda mais fervorosos que os de outras raças, pois o moiseísmo é uma das religiões de maiores e mais longos praxismos devocionários. A voz pública bem os conhece e aponta-os a dedo; porém a típica astúcia semita teve artes de iludir as habilitações de genere (524). Sabemos de presbíteros, párocos, cónegos, professores de seminários, etc., que contam entre os seus ascendentes, aquém da sexta geração, indivíduos justiçados na Inquisição por judaísmo, e, no entanto, na Inquisição de Coimbra guarda-se, a par de outros muitos, o processo n.° 6416 instaurado à bisavó de um cónego que foi nosso professor — e distinto que ele era — condenada por ser judia e judaizar. Pelo mesmo motivo foram condenados na Inquisição de Coimbra e de Lisboa ascendentes de outro cónego colega no mesmo cabido do anterior.

(523) NIZA, Paulo Dias de — Portugal Sacro-Profano. (524) Ver tomo VIII, p. 71, destas Memórias.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


332

GUERRA JUNQUEIRO

TOMO XI

A tradição de família não havia de manter e avivar, nos momentos de íntimo convívio, a lembrança destas tragédias?? A fé que deu a estes perseguidos a coragem do martírio com derramamento do próprio sangue em confirmação do moiseísmo, não dará a seus descendentes o orgulho de os contar como santos; a tenacidade ancestral para os imitar, embora noutra religião, que circunstâncias fortuitas lhe fixaram na mente, ou para os vingar, habilitando-os a escapar a suas perseguições e a escarnecer delas? O doutor António Pinto, «homem de muito merecimento», prestou grandes serviços como adjunto da embaixada de Portugal em Roma; serviu com vários papas, chegando mesmo a camareiro-secreto de alguns e a referendário da assinatura papal; por influência do papa foi nomeado arcediago de Évora e el-rei D. Sebastião, a rainha D. Catarina e o Cardeal D. Henrique recomendaram-no em cartas-autógrafas ao papa para lhe fazer mercês, e, contudo, era judeu (525). Pior que judeu, sob o ponto de vista cristão, é ser maçónico, e, no entanto, Fortunato de Almeida (526) menciona vários bispos portugueses pertencentes à maçonaria, e o Padre José de Castro (527) aponta três bispos maçónicos.

(525) Arquivo Secreto do Vaticano, Nunz. di Port., vol. 2.°, fólio 112. In C ASTRO, José de, padre — D. Sebastião e D. Henrique, 1942, fólio 82. (526) ALMEIDA, Fortunato de — História da Igreja em Portugal, tomo IV, parte II, p. 211, aponta os nomes de nove mações que no século passado foram bispos em Portugal, incluindo na lista D. José Manuel de Lemos, bispo de Bragança. Ver tomo II, p. 125, e tomo X, p. 317, destas Memórias. Ver também: Documentos e reflexões para o processo em primeira e segunda instâncias do sr. Padre João Manuel Cardoso de Nápoles, nas lojas maçónicas ir... «Baylly» e «Lamenais» nomeado para arcebispo coadjutor de Goa, etc., por José de Sousa Amado, presbítero. Lisboa, 1871. Este padre é o autor de outra História da Igreja em Portugal em dez volumes. (527) CASTRO, José de — O Cardeal Nacional, 1943, p. 387 e 433.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

{

UM

Cinta.

ANA AFONSO ,

à Cinta.

DE

MADEIRAS

nat. de Freixo de Espada à

nat. de Freixo de Espada

RAMO

ANTÓNIO MADEIRA ,

DE

{ {

nat. de Freixo de

nat. de Duas Igrejas (Miranda do Douro).

, nat. de Castanhei-

nat. de Urros (Mon-

(529)

FRANCISCA MARTINS ,

ra (Vila Flor).

LEONARDO AFONSO

corvo).

CATARINA MADEIRA ,

Espada à Cinta.

FRANCISCO FERNANDES ,

S E M I T A S (528)

(529) Leonardo Afonso era filho de Domingos Afonso, tido como judeu, na opinião pública. Esta fama «parecia ter a sua origem num seu ascendente que casou duas vezes, a primeira com cristã-velha e a segunda com cristã nova, não se averiguando se o habilitante (Aleixo Madeira) provinha da primeira ou da segunda». Por isso, não foi admitido a Familiar do Santo Ofício. Esta fama torna-se verídica se aplicarmos o critério do próprio Guerra Junqueiro, atrás exposto, que diz apontar o povo «uma a uma, sem se enganar, as famílias suspeitas (de judaicas) do distrito».

(528) Esta genealogia é organizada com elementos colhidos em MIRANDA, Eduardo de; TÁVORA, Artur de — Extractos dos processos para familiares do Santo Ofício, p. 608.

Presbítero do Hábito de São Pedro, natural e morador em Duas Igrejas (Miranda do Douro), n. a 17 de Julho de 1674.

ALEIXO MADEIRA ,

GENEALOGIA

GUERRA JUNQUEIRO TOMO XI

DO DISTRITO DE BRAGANÇA

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334

GUERRA

TOMO XI

GUERRA (Francisco Maria) — Doutor em direito, natural de Sendim, concelho de Miranda do Douro, casado em Vila Flor, onde vive. Escreveu: No Pelourinho (Aspectos morais dum monstro de maldade). 1938. Anuncia esta publicação o Trás-os-Montes de 8 de Agosto de 1938. GUERRA (Ramiro Máximo) — Médico (tomo VII, pág. 266). Faleceu em Moncorvo, onde residia e exercia clínica, em fins de Novembro de 1938. GUERRAS DA RESTAURAÇÃO (530) Em 1636 mandou o conde-duque de Olivares, D. Gaspar Filipe de Gusmão, valido de Filipe IV de Espanha e III de Portugal, levantar quatro terços em Portugal para irem servir na Catalunha, além de muita outra gente também recrutada em Portugal para o mesmo fim. Um desses terços, com sede em Guimarães, comandado por Álvaro de Sousa, devia recrutar 1250 soldados, sendo 200 da comarca de Moncorvo e outros tantos da de Miranda. Não se incluem os de Bragança, porque iam incluídos nos 1000 soldados que o duque de Bragança devia organizar para irem também. No terço comandado por Álvaro de Sousa iam, além de outros: António Guedes Sotomaior, natural de Vila Flor, comarca de Moncorvo, como capitão. Este fugiu na Moita. Francisco Borges, natural de Chacim, como sargento. Marcos Martins, natural de Freixo de Espada à Cinta, como sargento. João Mesquita de Morais, natural de Ansiães, comarca de Moncorvo, como alferes. Este fugiu em Coimbra. A 28 de Setembro de 1639 saiu o terço de Guimarães para Cádis, onde chegou a 20 de Novembro seguinte apenas com 263 homens, entre oficiais e soldados, pois os mais tinham desertado devido à má vontade de irem servir nação estranha. Em Cádis continuaram as deserções, de forma que, quando marcharam para Itália, o terço contava apenas 112 homens (531). Sobre estas Guerras da Restauração (1640-1668) na província de Trás-os-Montes, ver o nosso volume: A Restauração de 1640 no Distrito de Bragança. Lisboa, 1940. Faz parte da colecção Anais, publicados pela Academia Portuguesa de História, constituindo o volume III dessa colecção.

(530) Ver tomo I, p. 75, e tomo X, p. 696. (531) Revista de Guimarães — Volume especial comemorativo dos Centenários da Fundação e Restauração de Portugal, 1940, p. 137, 139, 141, 143 e 145.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


GUERRAS NAPOLEÓNICAS

335 TOMO XI

António Cruz — Derradeiras campanhas de Entre-Douro-Minho e Trás-os-Montes (Maio a Novembro de 1667). Contém várias cartas de Luís Álvares de Távora, Governador das Armas da Província de Trás-os-Montes, e D. Francisco de Sousa, conde de Prado, Governador das Armas da Província do Minho, acerca do modo de dirigirem a campanha. D. António Manuel de Sampaio da C. Pimentel (conde de São Paio) Relaçam dos Varões da Casa de São Payo, que na felice Aclamaçam delrey o Senhor Dom João IV e nas Campanhas da Restauraçam entraram a servir o mesmo invicto soberano. Lisboa, 1940. É um opúsculo de 34 págs., mas contém muitas notícias referentes às Guerras da Restauração, tocantes a Ansiães (Carrazeda de), Bemposta, Bragança, Duas Igrejas, Freixo de Espada à Cinta, Malhadas, Miranda do Douro, Mirandela, Moncorvo, Outeiro e Ribalonga, além das genealogias respeitantes aos Sampaios, inéditas muitas delas. G UERRAS N APOLEÓNICAS No tomo I, pág. 160, destas Memórias falo no recontro de um esquadrão da tropa bragançana com outro francês em Outeiro, concelho de Bragança, em que estes foram derrotados e mortos mais de trinta. Depois soube que esse ataque não fora no lugar citado e dei notícia do erro no tomo IV destas Memórias. Supondo que seria em Outeiro, povoação espanhola, uma légua distante da vila de Puebla de Sanabria, por várias vezes tentei ir lá examinar o livro de óbitos do Registo Paroquial, onde poderia encontrar qualquer notícia referente ao caso, como as encontrei noutras de que dei conta no referido tomo I, págs. 154 e 155, mas nunca tive modo de realizar esta investigação; e já agora, aos oitenta anos, ficarei apenas nos bons desejos. Mas, ainda assim, escrevi ao meu amigo D. Manuel San Roman y San Roman, pároco de Calabor (Espanha), colega do pároco de Outeiro, que me respondeu na seguinte carta: «Calabor, 26 de agosto de 1941. Rdo. Padre Manuel Alves, parroco de Baçal Muy Sr. mio y queridisimo amigo y compañero Son mis primeras palabras saludar a Vd. y al mismo tiempo acusar recibo de su carta que no he contestado porque hasta esta fecha no me habia dado resultado de ella el Sr. Cura de Otero de Sanabria a quien me dirigi, pediendole los datos que usted me pedia. Ayer hablo el mismo conmigo y me dijo que habia registrado excrupulosamente los libros parroquiales desde el año 1804 al 1814 y que no constaba MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


336

GUERRAS NAPOLEÓNICAS

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HOSPITAIS

TOMO XI

en esos libros ningun dato de portugueses muertos por franceses en accion de guerra, ni de otra manera. Lo unico que constaba eran dos vecinos de Otero muertes por los franceses y nada mas. Por lo demas, si en algo puedo serle util, mande incondicionalmente a su afectisimo amigo que le quiere a usted entrañablemente. Reciba mis cordeales recuerdos. Manuel San Roman y San Roman»

H HOSPITAIS E ASSISTÊNCIA PÚBLICA NO DISTRITO DE

BRAGANÇA

Nas Inquirições de el-rei D. Afonso III, que publicamos no tomo III, pág. 336, destas Memórias diz-se que el-rei D. Afonso Henriques fundou a albergaria da Ponte do Mente, na freguesia de Lamas de Orelhão, concelho de Mirandela, para remissão de seus pecados. Depois, no tomo IV, págs. 33 e 58, fazem-se mais referências a esta albergaria, de onde se colhe que Ponte do Mente foi povoação, hoje extinta, reduzida apenas a um moinho e respectivo moleiro. Como D. Afonso Henriques morreu em 1185, já se calcula qual a época da erecção deste hospital ou hospício, que também quer dizer albergaria, como ensina Viterbo (532). É este o documento mais antigo que encontramos referente à assistência pública no distrito de Bragança. Do que dizemos no tomo X, págs. 149-150, destas Memórias, deduz-se a existência de outra albergaria, ou coisa parecida, em Roças, concelho de Bragança. Como as albergarias olhavam à comodidade dos viajantes, por Roças e Ponte do Mente passaria o caminho da região bragançana nortenha para o distrito de Vila Real, em ligação com o resto de Portugal, pois hoje a estrada a macadame toca ou passa perto destes pontos. No tomo III, pág. 238, publicamos um documento sem data, atribuindo-lhe porém a de anterior a 1640. Mais tarde, encontramos outro documento, de onde se conclui que este deve ser anterior a 1562. Nele pede a Câmara de Bragança a el-rei que na cidade haja físico e boticário. (532) VITERBO — Elucidário, artigo «Albergaria».

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


INDÚSTRIAS BRAGANÇANAS

337 TOMO XI

No volume A Restauração de Portugal no Distrito de Bragança, pág. 98, publicamos vários documentos referentes ao médico que a Câmara Municipal de Bragança tinha pelos anos de 1570-1582, «para curar na cidade e termo». No volume IV, págs. 241, 338, 342, 347, 604 e 673, destas Memórias, demos mui interessantes notícias baseadas em documentos referentes à assistência pública. Na monografia Moncorvo, págs. 21 e 22, separata da Ilustração Transmontana, 1908-1910, publicamos interessantes notícias referentes ao hospital de Moncorvo e a um texto epigráfico existente na parede da igreja paroquial de Paradela, concelho de Chaves.

I INDÚSTRIAS

BRAGANÇANAS

Na tese que mandamos em Setembro de 1941, intitulada Excursões Trasmontanas, ao Secretariado da Propaganda Nacional, constante de trinta e sete fólios dactilografados, demos notícia resumida dos principais factores da indústria trasmontana. Sobre o assunto dizíamos: Trás-os-Montes é pobre de indústrias, embora abunde em matérias-primas, porque, longe dos centros consumidores, sem vias de comunicação, durante tantos anos abandonado dos poderes públicos, sem instrução profissional, portanto falho de preparação para lutar com a concorrência estranha, teve de abandonar os velhos processos da sua outrora florescente indústria, agora batidos pelo progresso, e de se limitar ao indispensável, em momentos de apuro, enquanto não se recorria ao mercado, mantendo assim as indústrias caseiras para uso próprio, sem mais instrução do que a transmitida de pais a filhos, devida ao esforço individual e à tradição opifícica. Estas indústrias reduzem-se principalmente a alfaiates, barbeiros, carpinteiros, moleiros, pedreiros, pisoeiros, serradores, sapateiros e tecedeiras. Ainda assim, apesar de todos estes inconvenientes, é tal a força dessa tradição e a intuição estética trasmontana, já vinda de remotíssima antiguidade (533) que aqui se produzem artefactos que surpreendem os mestres da especialidade, sendo, além disso, interessantíssimos como modalidades étnicas. FERRO A 19 de Janeiro de 1453 concedeu el-rei D. Afonso V a seu tio D. Afonso, duque de Bragança, grandes privilégios para montar «hua FERRARIA no termo

(533) Ver tomo IX, p. 16, destas Memórias.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


338

INDÚSTRIAS BRAGANÇANAS

TOMO XI

da sua villa de Bragança» (534). Depois, D. João II concedeu-lhe mais privilégios, por carta de 28 de Agosto de 1486, e D. João III, por outra carta de 22 de Fevereiro de 1525, nomeou fundidor de metais e estanho das feitorias de Trás-os-Montes e Entre-Douro-e-Minho a Manuel Fernandes, em substituição de Gaspar Gomes, que renunciara o cargo (535). Ver nas referidas Memórias, tomo II, pág. 402, onde se mencionam as minas de ferro no concelho de Bragança, nos termos das povoações de Guadramil, França, Montesinho, Soutelo, Campo de Víboras, Moncorvo, Carviçais, Mós, etc., Santulhão, Milhão, Vila Meã, Aveleda, Junqueira, Parada, Quintanilha, Alimonde, Refoios, Argozelo, Paçó, Outeiro, Paradinha, Malhudas e Babe. CARVIÇAIS — Nas Memórias Paroquiais de 1758, tratando-se de Carviçais, concelho de Moncorvo, lê-se: «cousas dignas de Memoria nesta povoação: o fabricar-se ferro por outro nomecatico (sic) sem para isso ser necessário aos fabricantes comprar a pedra de que se faz por se achar no Cabeço da Alva, nem cepa para o carvão e ha duas fabricas delle» (536). Falando em abundância de ferro nesta região, diz Barros nas Antiguidades de entre Douro e Minho: «as mulheres (de Mós, concelho de Moncorvo) estão dobando e fiando e tangem com os pés os folles com que os maridos fazem o ferro» (537). No tomo IV, pág. 114, das referidas Memórias, publica-se o documento de 1508, em que D. Manuel concedera aos mirandeses poderem trazer ferro de Castela para suas lavouras. Nos Capítulos apresentados a D. Afonso V pelo concelho de Moncorvo, dizem os desta vila que em certas aldeias do termo «se faz ferro» e que o traziam a vender à vila, «mas agora que o vendem em suas casas» (538). Sousa Viterbo, nas Artes e Indústrias em Portugal, minas e minérios, diz que as minas de ferro são muito antigas em Moncorvo, e transcreve documentos do tempo de el-rei D. Duarte referentes à sua laboração e privilégios (539). BRAGANÇA — PONTE DAS FERRARIAS — No inventário de António Doutel, de Bragança, falecido em 1593, além de outros bens, descreve o seguinte: «Hua cortinha que está por cima da ponte das ferrarias caminho do Loreto». O nome Ferrarias está bem legível e não oferece dúvida nenhuma (540).

(534) (535) (536) (537) (538) (539) (540)

Ver tomo III, documento 82, p. 175, destas Memórias. Ibidem, p. 176 e 428. Memórias citadas, tomo II, p. 421. Ibidem, p. 428. Memórias citadas, tomo IV, p. 293. Memórias citadas, tomo II, p. 428. Ver tomo VI, p. 57, destas Memórias.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


INDÚSTRIAS BRAGANÇANAS

339 TOMO XI

Depois, por provisão de 31 de Março de 1634, foi mandado ao Juiz de Fora de Miranda que viera fazer o tombo dos bens do morgadio de António Doutel de Almeida, que para isso tinha requerido, e, entre esses bens, menciona-se o seguinte: «Hua horta que parte da parte de cima com o caminho que vai para a Ponte das Ferrarias e da parte de baixo com o rio Fervença» (541). Esta horta deve ser pouco diferente da terra anterior mas ficava ali perto. No tomo das Festas Centenárias publiquei o documento n.° 24-A, que trata da compra pela câmara de Bragança, em 1547, ao Doutor Manuel Gomes Correia e a sua mulher Francisca Lopes de Morais do «campo e moinhos por baixo da segunda ponte do Loreto» (isto no cabeçalho do documento) e no texto diz: «da sua orta e lameiro que tem a fonte do cano da bomda dalem auga, que parte com orta que foi de Gaspar Mendez Dantas e com ribeiro de Fervença e com o campo do concelho pela Ponte de Cima e chega te a Ponte das Ferrarias». VIRGÍLIO CORREIA — O Dr. Virgílio Correia, na Arte e Arqueologia, alude às ferrarias de Bragança. FERREIROS — De um modo geral, pode dizer-se que em cada aldeia do Trás-os-Montes há um ferreiro que faz relhas, enxadas (sachas), sachos, guinchos, guinchicos, pregos, martelos, picos de moleiro, lares e cadeados para as cozinhas, para arados, tenazes, carros de bois e respectivos pregos, pespinheiros, cadeados dos agrades e outros utensílios indispensáveis à agricultura, e conserta muitas vezes, grosso modo, maquinismos, enxadões e picaretas e aguçam picos. De onde a onde, em aldeias de maior movimento há ferreiros mais atilados que fabricam cutelaria — navalhas de bolso, de cozinha, tesouras, machados, machadas, roçadouras, tesouras de tosquiar os gados e outras ferramentas mais apuradas que vão vender às feiras. As navalhas de bolso e cozinha fabricadas em Babe, concelho de Bragança; as mesmas e também as tesouras de tosquiar os gados lanígeros fabricadas em Malhadas, concelho de Miranda do Douro, têm enorme procura e exportam-se mesmo para fora da área concelhia e fechaduras. Os podões fabricados em Vila Real abastecem esse distrito e corriam por todo o de Bragança antes da invenção das tesouras da poda, generalizadas em terras bragançanas pelos anos de 1883. Agora os podões decaíram, mas ainda se vendem bem, porque a limpeza da videira não se faz perfeitamente tão bem com o podão como com a tesoura.

(541) Ibidem, p. 58.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


340

INDÚSTRIAS BRAGANÇANAS

TOMO XI

Todos estes ferreiros aprenderam por ensino tradicional, transmitido de uns a outros sem nenhum ensino científico, sem as aulas profissionais. E sem terem maquinismo nenhum mais que o guia do seu gosto artístico, os martelos, uma ou duas limas ferrugentas, velhas e gastas, rasas pelo uso, sem torno para segurar as peças destinadas à lima e dois malhos um pouco mais pesados para bater o ferro grosso. E, no entanto, causam surpresa pela perfeição dos seus trabalhos aos engenheiros especializados dos cursos científicos [ver Adriano Rodrigues (tenente-coronel e professor da Faculdade de Engenharia do Porto), O Problema Nacional do Ferro, 1941, pág. 45, referindo-se aos ferreiros de Bragança, Babe e Vila Real]. MONCORVO — «No princípio do século passado ainda se produziu bastante ferro em Moncorvo, empregando-se um leito de pisar, constituído pelos minérios menos ácidos e castina de um jazigo próximo, em Ferreira» (542). GUADRAMIL — «Em Guadramil fundiu-se também ferro até aos meados do século passado. Ali se fabricavam ferramentas, especialmente machados, maços, martelos, picachões, ferraduras, pregos e muitos outros artigos. Dizem habitantes antigos do lugarejo, que o metal era uma maravilha, superior a qualquer ferro ou aço estrangeiro» (543). «O minério de ferro de Guadramil foi reputado por HIORTH, especialista da electro-siderurgia, como magnífico para o efeito» (544). O mesmo HIORTH disse que «poucos minérios de ferro da Europa poderão concorrer com o vosso» (de Guadramil) (545). FRANÇA — No tomo II, pág. 403, dei eu notícia desta mina de Guadramil, ou, melhor, desta ferraria e da de França, entre o termo desta povoação e o de Soutelo, que ainda funcionava pelos anos de 1850. Desta de França, não teve notícia o Dr. Adriano Rodrigues. M ONCORVO — «Sampelayo, ilustre geólogo espanhol, avaliou as reservas do jazigo (de ferro) de Moncorvo entre trezentos a quinhentos milhões de toneladas, mas mesmo que achassemos exagerados os seus números, podemos crer que vão bastante além de cem milhões de toneladas tais reservas» (546).

(542) (543) (544) (545) (546)

RODRIGUES, Adriano — O problema nacional do ferro, 1941, p. 40. Ibidem. Ibidem, p. 12. Ibidem, p. 26. Ibidem, p. 12.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


INDÚSTRIAS BRAGANÇANAS

341 TOMO XI

M UA (minério do Cabeço da), concelho de Moncorvo — O minério de ferro deste Cabeço está computado entre setenta e cinco a noventa e cinco milhões de toneladas. (Engenheiro e geólogo espanhol Primitivo Hernandez Sampelayo, in Adriano Rodrigues, O Problema Nacional do Ferro, 1941, pág. 27.) HARBORTH classificou o ferro do Cabeço da Mua como de primeira qualidade (547). C ERÂMICA (548) — Nas fábricas de Felgar e Pinela, além dos alguidares, cântaros, canecos, jarros, bilhas, púcaros e várias outras vasilhas, fabricam artefactos microcerâmicos, interessantes pela variedade de formas de carácter etnográfico, vindas de remota antiguidade. Não sei se em Avinhó, concelho do Vimioso, em São Martinho de Angueira e Constantim, concelho de Miranda do Douro, há ceramistas; mas o apodo popular diz: Os alhos são da Matela, As panelas de Avinhó; Os cucos da Paradinha E os bubelos de Paçó. São Martinho das tigelas, Constantim dos pucarinhos; Cicouro das moças guapas E também dos valentinhos. COURAMA

E PELITARIA (549).

CAL (550) — Explorou-se outrora muita cal em Gebelim, concelho de Alfândega da Fé, onde havia em laboração mais de cinquenta fornos; mas, por falta de combustível, tiveram de parar, se bem que as pedreiras são óptimas e têm enorme abundância de pedra calcária. CORTIÇA (551). ERVAS

(547) (548) (549) (550) (551) (552)

MEDICINAIS (552).

RODRIGUES, Adriano — O problema nacional..., p. 27. Ver tomo II, p. 476, destas Memórias. Ibidem, p. 445. Ibidem, p. 476. Ibidem, p. 478. Ibidem, tomo VII, p. 803.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


342

INDÚSTRIAS BRAGANÇANAS

TOMO XI

LINHO (553). MÁRMORE

E ALABASTRO (554).

MEL (555). M INERAIS (556) — Presentemente estão em grande laboração as minas de estanho e volfrâmio de Paredes, concelho de Bragança, Ifanes e São Martinho de Angueira, concelho de Miranda do Douro, e Ervedosa, concelho de Vinhais. O volfrâmio — aparecido em grande abundância por todo o distrito bragançano, principalmente na região das minas acima indicadas, graças à presente guerra mundial — tem sido uma chuva de ouro para estas terras. SEDA,

SERICICULTURA (557).

E nunca esquecer, antes muito e muito relembrar, que, como diz Jorge Ferreira (558), «um engano de afeiçam he mais brando que veludo de Bragança». TECIDOS,

TECELAGEM DE LÃ E LINHO (559).

VINHO (560). Com o título Vida e arte do povo português, publicou-se em 1940, por intervenção do Secretariado da Propaganda Nacional, um artístico volume planeado por Francisco Laje, Luís Chaves e Paulo Ferreira, em comemoração das Festas Centenárias (1139-1640). Contém estudos monográficos de diversos autores sobre vários assuntos da vida portuguesa, destacando-se os seguintes referentes ao distrito de Bragança: Teares e tecedeiras, por D. Sebastião Pessanha. Trata da manufactura da seda, lã e linho em Freixo de Espada à Cinta, Urros, Rebordelo, Chacim,

(553) Ver tomo II, p. 473, e tomo VII, p. 803, destas Memórias. (554) Ibidem, tomo II, p. 443. (555) Ibidem, tomo VII, p. 803. (556) Ibidem, tomo II, p. 396, e tomo X, p. 730. (557) Ibidem, p. 120-240 deste tomo; p. 452, do tomo II; p. CV, do tomo V, e p. 793, do tomo VII. (558) VASCONCELOS, Jorge Ferreira de — Comédia Eufrosina, edição de 1919 conforme a de 1561, p. 22. (559) Ver tomo II, p. 445 e 472 destas Memórias. (560) Ibidem, p. 121 deste tomo; p. 448 do tomo II; p. 801 e 805 do tomo VII; p. 241, 289, 293 a 295, 298 a 300, 305 e 307 do tomo VIII, e 660 a 662 do tomo X.

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INSTRUÇÃO E ESTUDOS

343 TOMO XI

Lebução e outras terras, apresentando gravuras do maquinismo empregado nesses serviços e de alguns artefactos. Trajes do povo, por Luís Chaves. Diz da indumentária mirandesa. Contém gravuras. O carro rural, pelo Dr. Virgílio Correia. Pastorio e arte pastoril, por Guilherme Felgueiras. Festas do Calendário, pelo Padre Moreira das Neves. Oleiros e olaria, por Armando Matos. Em todos estes estudos há referências a coisas bragançanas.

INSTRUÇÃO E ESTUDOS Em 1562, o duque de Bragança, respondendo à Câmara Municipal desta cidade, que entregara aos jesuítas, para seu colégio, o convento que andava a construir para freiras de Santa Clara, aprovou esta resolução, dizendo-lhe: «Como sabeis eu tenho muito contentamento da fundação deste Colégio e espero em nosso Senhor que redunde delle muito serviço para o bem dessa terra e conforme a isto desejo que se faça hüa coisa muito boa, e tão grande quanto a disposição da terra o sofrer e ouver mister e porem para isto aver milhor efeito me pareceo sempre que cunpria começar com pouco. E asi temos asentado que agora conveem duas clases de latin e hüa lição de casos de conciencia, e ao diante se hira acresentando o que virmos que he mais neceçario. E os mestres para estas lições hirão a tempo que possão começar a ler no principio d’outubro que é o em que ordinariamente se começão as lições dos colegios da companhia, e mais conveniente para os estudantes». Para tudo ficar em ordem, recomenda o duque que se lavre escritura de novo, na qual se devem eliminar «alguns pontos della especialmente hü em que os padres [jesuítas] tem pejo que he quererdelos preferir aos outros Religiosos», isto é, aos frades das outras ordens religiosas na missão do ensino (561). Parece que esta carta deve ser posterior aos Capítulos, sem data, que publicamos no tomo III, pág. 238, destas Memórias; do contrário, não precisava do bom teólogo para «ler e ensinar os clerigos», como se diz na resposta ao Capítulo 7.° (pág. 239 do mesmo tomo).

(561) Manuscritos Antigos 5, fólio 86. Códice existente no Museu de Bragança.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


344

INTERCÂMBIO TRASMONTANO-GALAICO

TOMO XI

INTERCÂMBIO TRASMONTANO-GALAICO Sobre este assunto, fizemos no Porto, a 3 de Junho de 1939, uma conferência a convite da Liga de Profilaxia Social, constante de vinte fólios dactilografados, baseada em elementos colhidos nos tomos destas Memórias Arqueológico-Históricas. IZEDA O nosso amigo Carlos António Leitão Bandeira (ver tomo VI, pág. 728), coronel reformado, grande proprietário, residente em Izeda, concelho de Bragança, encontrou nessa povoação a seguinte lápide de granito, que mandou para o Museu de Bragança, onde agora se conserva. Tem uma inscrição já muito apagada, de que apenas pude copiar as seguintes letras: .... OVI ...° TIMO MA X V M ° .... ANIINV MI.V ..... V X ...... I D O ° final da 1.a linha pode ser a pança de um P a que o tempo apagou a haste. Na 2.a e 3.a linhas Maxumo por Máximo é frequente em epigrafia. Na 4.a linha está o nome do Vovente. Conhecemos em epigrafia muitos nomes que se aproximam deste, mas nenhum que lhe quadre inteiramente. Na 5.a podem estar as iniciais de M(onitus) V(iso), frequente nos textos epigráficos deste género. Na 6.a (votum solvit). Na 7.a (de suo laetus) L(ibens) D(edit). Mas tudo isto são probabilidades, ficando apenas líquido que a lápide foi dedicada a Jovi Optimo Maximo.

J JORNAIS

E PUBLICAÇÕES PERIÓDICAS (562)

Mensageiro de Bragança — Quinzenário católico regionalista. Saiu o primeiro número a 1 de Janeiro de 1940.

(562) Ver tomo VII, p. 688, destas Memórias.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


JORNAIS E PUBLICAÇÕES PERIÓDICAS

345 TOMO XI

P’ra cá do Marão (563) — Saiu o primeiro número a 9 de Abril de 1933 e terminou com o número 7 a 30 de Agosto do mesmo ano. Terras de Bragança (564) — Saiu o primeiro número a 19 de Fevereiro de 1934 e o último na segunda quinzena de 1940. Bragança foi, de todas as cidades portuguesas, incluindo as cabeças de distrito, com excepção de Lisboa, Coimbra e Porto, a que primeiro publicou um jornal, como se vê do seguinte mapa:

Distritos

Primeiro jornal

Data da iniciação

Braga ............... Viana ...............

Boletim Bracarense (564) .................... Aurora do Lima (565) ............................

24-10-1846 15-12-1855

......... { Bragança Vila Rea ..........

Farol Trasmontano (566) .................... Comércio de Vila Real (567) ............

15-8-1845 1864

{

— O Aveirense (568) ...................................... Minerva Lusitana (569) .......................

— 9-7-1854 1808

BEIRA ALTA

— Viseu ...............

Boletim Noticiário e Político (570)

1847

BEIRA BAIXA

............ { Guarda Castelo Branco

Distrito da Guarda (571) .................... Albicastrense (572) ....................................

1865 1846

{

— Boletim Oficial de Santarém (573) O Leiriense (574) ........................................

— 1846 1854

Portalegre ....... Évora ............... Beja ..................

{

Boletim de Portalegre (575) ............. Boletim (576) .................................................. O Bejense (577) ...........................................

1846 1846 1860

— Faro .................

Comércio do Sul (578) ...........................

1876

Províncias

MINHO

TRÁS-OS-MONTES

DOURO

ESTREMADURA

ALENTEJO

ALGARVE

{

Porto ............... Aveiro ............. Coimbra ..........

Lisboa .............. Santarém ......... Leiria ...............

(563) Ver tomo X, p. 715, destas Memórias. (564) Portugal: Dicionário histórico, ilustrado, 1906, volume II, artigo «Braga», p. 445. Em 1837 publica-se o Boletim do Exército, que não era jornal e durou apenas três dias. No mesmo

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


346

JUDEUS

TOMO XI

J UDEUS (579) Vasco Pires, «cristão novo de Vila-Flor, acusado de judaizar. Em 3 de Março de 1543, ante a inquisição do Pôrto, depozeram como testemunhas: Diogo de Torres, capelão da igreja de S. Bartolomeu de Vila-Flor; Francisco Vaz, escudeiro, de Vila-Flor; Baltazar Gonçalves, idem; Diogo Vaz, mamposteiro dos cativos de Vila-Flor; João de Casa, escudeiro, de Vila-Flor; Francisco do Syll, escudeiro, tabalião, em Vila-Flor; Fernão Pires, idem. Foi absolvido por sentença de 13 de Setembro de 1543, sendo-lhe reconhecido o direito de proceder contra o caluniador» (580). No periódico intitulado Ha-Lapid, órgão da Comunidade Israelita do Porto, correspondente a Abril de 1928, começou a publicar-se um manuscrito de orações judaicas existente em Rebordelo, concelho de Vinhais, sob o título Tradições cripto-judaicas; o manuscrito de Rebordelo. Contém orações para começar a rezar pela manhã, quando se jejua, ao meio-dia, à tarde, quando se dá esmola, nos sábados e no kipur. No número correspondente a Outubro de 1928 transcrevem-se mais quatro orações colhidas em Bragança. E no correspondente a Março-Abril de 1925 vem outro caderno de orações pertencente a uma judia residente nos arrabaldes do Porto, que era de sua avó, Perpétua de Castro, natural de Bragança e nesta cidade falecida.

ano publicou-se em Castelo Branco o Boletim do Exército Restaurador, desde 1 de Agosto a 15 de Set. de 1837. (565) Ibidem, volume VII, artigo «Viana do Castelo». (566) Ibidem, vol. II, artigo «Bragança», p. 468. (567) Ibidem, vol. VII, artigo «Vila Real», p. 568. (A propósito, lembramos que o primeiro jornal publicado em Chaves foi O Flaviense que saiu desde 1876 a 1884, reaparecendo depois com este mesmo título, e na Régua O Douro, desde Janeiro a Agosto de 1885.) (568) Ibidem, vol. I, 1903, artigo «Aveiro», p. 880. (569) Ibidem, vol. II, artigo «Coimbra», p. 1079. (570) Ibidem, vol. VII, artigo «Viseu», p. 670. (571) Ibidem, vol. III, artigo «Guarda», p. 854. (572) Ibidem, vol. II, artigo «Castelo Branco», p. 887. (573) Ibidem, vol. VI, artigo «Santarém», p. 613. (574) Ibidem, vol. IV, 1909, artigo «Leiria», p. 123. (575) Ibidem, artigo «Portalegre», p. 903. (576) Ibidem, vol. III, 1907, artigo «Évora», p. 24. (577) Ibidem, vol. II, artigo «Beja», p. 250. (578) Ibidem, vol. II, artigo «Faro», p. 312. (579) Ver tomo V, por todo ele; tomo VII, p. 698 e 724; tomo VIII, p. 71 e 107, e tomo X, p. 647, destas Memórias. (580) Portucale, 1937, p. 163, que diz estar o processo na Torre do Tombo, junto a outros da Inquisição de Coimbra no maço n.° 143.

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JUDEUS

347 TOMO XI

No número 17 do mesmo periódico Ha-Lapid, correspondente a Fevereiro-Março de 1929, vem uma lista de judeus puro-sangue de Bragança, dada por um judeu de oitenta anos, natural desta cidade, mas residente no Porto havia mais de trinta. Nessa lista apontam-se os nomes de cinquenta e um judeus de Bragança, dos quais eu ainda conheci a maior parte e hoje ainda vivem seus filhos e netos. Há muitos mais judeus em Bragança, mas são famílias já misturadas; os que indiquei nunca entram na igreja cristã, disse o velho informador. No número do mencionado periódico Ha-Lapid, correspondente a Junho de 1927, encontra-se o nome de um médico judeu, natural de Vilarinho do Mogadouro (Vilarinho dos Galegos), que se fez circuncidar em Maio desse ano, e ainda o de outro judeu, natural da mesma povoação, que foi ao Porto conferenciar com o rabino sobre a forma de trazer à religião moisaica os cripto-judeus de Vilarinho dos Galegos. No mesmo periódico, correspondente a Agosto de 1927, menciona-se o nome do professor-oficial de Miranda do Douro, cripto-judeu, natural do Vimioso, de vinte e nove anos de idade, que se fez circuncidar pelo Dr. Rodrigues, oficial da Comunidade Israelita do Porto. No mesmo periódico, referente a Outubro de 1927, indicam-se os nomes de um judeu de Miranda do Douro e nove de Bragança, que ingressaram no moiseísmo e se fizeram circuncidar, indicando ao mesmo tempo os nomes dos que exerciam cargos na Comunidade Judaica de Bragança. Entre estes cripto-judeus, há médicos, negociantes, sargentos, industriais e empregados públicos, compreendidos nas idades de vinte e três a cinquenta e dois anos. No Ha-Lapid de Maio de 1928 menciona-se um cripto-judeu de cinquenta e um anos, empregado dos correios, e três de Rebordelo, concelho de Vinhais, mais três de Bragança, um dos quais licenciado em ciências económicas, que ingressaram na religião de Moisés e foram circuncidados. No Ha-Lapid n.° 27, de 1930, e no n.° 35, de 1931, encontram-se os nomes de dezassete cripto-judeus de Bragança, que nesses anos exerceram cargos na Comunidade Israelita da mesma cidade. No mesmo periódico Ha-Lapid, n.° 44, de 1931, se diz que foi organizada a Junta Judaica de Argozelo, concelho do Vimioso, composta de três cripto-judeus, cujos nomes se indicam. No Ha-Lapid de Julho, Agosto e Setembro de 1932 mencionam-se dois judeus de Lagoaça e um de Freixo de Espada à Cinta, que foram circuncidados. A BAFADORES — Corre em terras bragançanas a lenda de que os judeus matam por meio de abafamento os seus doentes, para lhe abreviar os sofrimentos, quando os julgam incapazes de resistir à doença (581), No Ha-Lapid, (581) Ver tomo V, p. LVIII, destas Memórias.

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JUDEUS

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correspondente a Agosto de 1925, vem um artigo assinado por Ben-Rosh, nome judaico do capitão do exército Artur Carlos Barros Bastos, rabino, ou, pelo menos, membro categorizado da Sinagoga do Porto, que muitas vezes veio a Bragança por estes anos em efervoramento, serviço e propagação da doutrina moisaica. Nesse artigo nega a existência de abafadores (assim chamam aos encarregados de matar os doentes), lembrando que a lenda se formaria de os parentes do moribundo só avisarem o padre cristão quando já estava morto, dizendo-lhe que chegara tarde e o padre, vendo em volta do falecido os assistentes judaicos, dizer que estes o sufocaram. [15] SINAGOGA — Por estes anos, a doutrina de Moisés teve em Bragança certa aura de expansão. A 22 de Junho de 1928 inaugurou-se publicamente a Sinagoga numa casa da rua da Estação, que pertencera ao falecido cónego da Sé, Sebastião Luís Martins. Depois veio para Bragança um rabino, mandado pelo alto poder da corporação judaica dirigente, para chamar os cripto-judeus bragançanos à prática dos preceitos moisaicos puros (582). A Sinagoga mudou-se então para uma casa da rua Direita em Bragança e aí esteve sete ou oito anos, até que o rabino se foi embora, porque os cripto-judeus, embora frequentassem a sinagoga e ouvissem as práticas do rabino, não abandonavam de todo as fórmulas doutrinárias que tinham vindo através dos séculos, transmitidas de geração em geração, nas quais havia muitos ensinamentos sacrílegos — dizia o rabino — infiltrados do cristianismo, e, por isso, porque não eram nem cristãos nem judeus, mas sim hereges de uma e outra crença, o rabino abandonou-os como infiéis e gente perdida. Todavia, estes crentes, assim abandonados, nem por isso se julgam infelizes e continuam, como dantes, na prática oculta de suas doutrinas e actos do culto religioso. ESCOLA — Também durante este revigoramento da fé religiosa moisaica se inaugurou em Bragança, no mês de Janeiro de 1923, uma escola judaica, em que alguns rapazes chegaram a apreender hebraico (583). No livro do antigo Registo Paroquial dos baptizados e óbitos da freguesia de Carção, relativos aos anos de 1673 a 1690, existente no arquivo da Câmara Eclesiástica de Bragança, no fim, onde já não se conhece o número das folhas, lavrado e assinado pelo padre-cura Bartolomeu Rodrigues, encontra-se um termo do teor seguinte: «Por comissão que me ficou de Sua Ill.ma o Sr. Dom Manuel de Moura Manuel, Bispo de Miranda, estando em Visita no lugar de Arguselo em os 3 de (582) Ha-Lapid de Maio de 1928. (583) Ibidem, de Junho de 1932.

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JUDEUS

349 TOMO XI

Fevereiro da era de 1698, mandou a mim o P.e Bartolomeu Roiz, cura no lugar de Carção, que loguo fizesse os assentos neste livro das pessoas que morreram queimadas em Coimbra; os assentos fiz eu o P.e Bartolomeu Roiz, cura no dito lugar e natural do lugar de Coelhoso, terra de Bragança, e vão na maneira seguinte: 1 — Antonio Roiz, Cristão Novo; jornaleiro, natural e morador no lugar de Carção, termo da vila de Outeiro, bispado de Miranda, originario do Reino de Castela, convicto, ficto, simulado, confitente, deminuto e impenitente. A mulher sofreu a mesma pena. 2 — Manuel Lopes Lião, Cristão Novo, surrador, natural e morador no lugar de Carção, termo da vila de Outeiro, bispado de Miranda, originario do Reino de Castela, convicto, ficto, falso, simulado, confitente, deminuto, impenitente. 3 — Domingos Luiz, Cristão Novo, curtidor, solteiro, filho de Gaspar Luiz, do mesmo oficio, natural e morador no lugar de Carção, termo da vila de Outeiro, bispado de Miranda, originario do Reino de Castela, convicto, ficto, falso, confitente, deminuto, impenitente. 4 — Athanasio Roiz, Cristão Novo, lavrador, natural e morador no lugar de Caição, termo da vila de Outeiro, bispado de Miranda, originario de Castela, convicto, negativo, pertinaz. 5 — Matias Fernandes, Cristão Novo, solteiro, trabalhador, filho de Belchior Fernandes, natural e morador no lugar de Carção, termo da vila de Outeiro, bispado de Miranda, originario de Castela, convicto, negativo, pertinaz. [O pai foi também condenado, e é o n.° 1089, no tomo V, pág. 94, destas Memórias]. 6 — Domingos de Oliveira, Cristão Novo, que foi barbeiro, e depois tratante, natural do lugar de Izeda, termo da cidade de Bragança, morador no de Carção, termo da vila de Outeiro, bispado de Miranda, originario do Reino de Castela, convicto, negativo, pertinaz, relapso. 7 — Izabel Luiz ou Roiz, Cristã Nova, casada com Gaspar Rodrigues, curtidor, natural e morador no lugar de Carção, termo da vila de Outeiro, bispado de Miranda, originaria do Reino de Castela, convicta, ficta, falsa, simulada, confitente, deminuta, impenitente. 8 — Maria Fernandes, Cristã Nova, casada com Miguel Lopes Lião, çapateiro, natural e morador no lugar de Carção, termo da vila de Outeiro, MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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JUDEUS

TOMO XI

bispado de Miranda, originaria do Reino de Castela, convicta, ficta, falsa, simulada e confitente, deminuta e impenitente. 9 — Izabel Gonçalves, Cristã Nova, casada com Estevão Pires, çapateiro, natural da cidade de Çamora, Reino de Castela-a-Velha, e esta moradora no lugar de Carção, termo da vila de Outeiro, bispado de Miranda, convicta, negativa, pertinaz. 10 — Helena Roiz, Cristã Nova, casada com Antonio Roiz, jornaleiro, natural e moradora no lugar de Carção, originaria de Castela, convicta, negativa, pertinaz. 11 — Maria Lopes Lião, Cristã Nova, casada com Domingos Fernandes, natural e moradora no lugar de Carção, originaria de Castela, convicta, negativa, pertinaz, relapsa. 12 — Francisca Lopes, Cristã Nova, casada com Luiz Lopes, curtidor, natural e morador no lugar de Carção, originaria de Castela, convicta, negativa, pertinaz, relapsa. AUSENTES 13 — Manuel Henriques Carção, o «Sindineiro» de alcunha, Cristão Novo, natural do lugar de Sindim, termo e bispado de Miranda, morador que foi no de Carção, originario do Reino de Castela, convicto, contumaz, revel, relapso (584). 14 — João de Oliveira, Cristão Novo, natural e morador no lugar de Carção, originario do Reino de Castela, negativo, convicto, ausente e revel, e por ferir certa pessoa que o prendia da parte do Santo-Oficio. Obedecendo ao mesmo Ilustrissimo Sr. Manuel de Moura Manuel, bispo de Miranda, fiz estes assentos na forma que por elle me foi ordenado e me assinei hoje Fevereiro 20 de 1698. Cura o P.e Bartolomeu Roiz» (585).

(584) Ver tomo V, p. 96, destas Memórias. (585) L OPES , José Manuel Miranda, prior de Argozelo — Carção, Concelho de Vimioso, 1939, p. 5.

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LABIADOS

351 TOMO XI

Este mesmo bispo, «Nas visitas pastorais que fez à igreja de Argoselo em 3 de Fevereiro do ano de 1698 e à de Carção em 9 de Fevereiro do mesmo ano», deixou um capítulo do teor seguinte: «Para que os penitenciados pelo Santo-Oficio deem sinais de arrependimento que devem ter, com as insignias de sua penitencia se possa passar verdadeira certidão de que a teem cumprido, mandamos que toda a pessoa, que pelo tribunal do Santo-Oficio fôr mandada, que assista às missas com o Sambenito, se execute com efeito, assistindo às missas com o dito Sambenito, os homens sôbre as capas e as mulheres sobre as mantilhas, e que desta maneira venham para a igreja e que com ela vão para suas casas nos domingos e dias santos de guarda; e qualquer que o não fizer pagará de multa um tostão pela 1.a vez, dois pela 2.a e pela 3.a um cruzado e dahi a dobrar até ao compito de dez mil reis. Nesta pena incorreu Luiz Lopes Galo, christão novo, que se acha compreendido em dez faltas e pelo que incorreu na pena de dez mil reis, ou na que na verdade constar, que será obrigado a pagar dentro de seis dias depois de notificado, que o dito Padre Cura o fará cumprir com pena de suspensão de ordens, e não satisfazendo dentro do dito termo o evite da igreja e proceda contra elle até do participante, até que com efeito, e sendo contumaz se me dê noticia para proceder como me parecer de justiça» (586).

L LABIADOS Indo de Varge para Labiados, concelho de Bragança, no sítio da Escalavada, à beira do Caminho, perto do rio e do moinho de Labiados, está gravada numa fraga uma cruz deste feitio: A Nesta parte da cruz ha escavada uma cavidade que abrange todo o espaço da cruz. Toda a cruz regula por palmo e meio de altura. Informações do P.e Palmeiro em 15 de Agosto de 1943.

(586) Ibidem.

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LAGO

TOMO XI

LAGO (Francisco Pessanha Pereira do) — Natural dos Arcos (tomo VI, pág. 695), faleceu naquela povoação em princípios de Fevereiro de 1938. LEMOS (Armando Augusto Chaves de) — Doutor em medicina veterinária (tomo VII, pág. 264), faleceu no Porto a 3 de Junho de 1940. LINGUAGEM POPULAR BRAGANÇANA [16] Os provincianismos ou, melhor, bragançanismos, adiante transcritos, embora, pelo geral, correntes em terras de Bragança, foram colhidos em Baçal, quando se não indica entre parêntesis, logo adiante de cada um, o nome da povoação onde os ouvimos. Pelos onze volumes destas Memórias Arqueológico-Históricas encontram-se sublinhadas muitas palavras de carácter regional, nomeadamente no tomo I, págs. 151, 152, 159, 194, 446 e 447; tomo X, págs. 173 a 264, onde, por ordem alfabética, se registam milhares de palavras que julgamos convir ao assunto, pelo menos para ajuizar da riqueza léxica bragançana, como se mostra pelos topónimos — Bouça, Fonte, Junco, Penedo. No mesmo tomo, págs. 349, 582, 635 a 639, onde se apresentam textos construídos em bragançanismos. No nosso canhenho de bragançanismos encontram-se registados muitos já arquivados no Dicionário Complementar da Língua Portuguesa, 2.a edição, do nosso ilustrado conterrâneo Augusto Moreno, e por isso os omitimos, reproduzindo, contudo, alguns, por os encontrarmos com significação diferente, além da indicada por Moreno. Entre os escritores bragançanos que empregam ou mencionam termos regionais temos, além dos já mencionados nos lugares citados do tomo X destas Memórias, mais os seguintes: CORREIA (João de Araújo), médico — Linguagem médica popular usada no Alto-Douro, 1936. Ilustração Trasmontana, 1908, págs. 73, 96 e 135. M ARTINS (P.e Firmino Augusto), Folclore do Concelho de Vinhais, 1928, pág. 339 e seguintes. Da mesma obra saiu o volume segundo em 1939 e na pág. 563 acrescentam-se muitos bragançanismos. RIBEIRO (Manuel A.), Por entre fraguedos, romance, 1941. No texto desta obra encontram-se muitos bragançanismos, que o autor sublinhou para melhor se conhecerem. TAVARES (José Augusto), o saudoso abade de Carviçais, publicou na Portugália, tomo II, fascículo IV, um artigo de que se tirou separata, onde se encontram arquivadas muitas palavras técnicas das alfaias agrícolas. Abeiras, abeiras do telhado, por beiral do telhado. Abolota por bolota. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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353 TOMO XI

Abéspera por vespa. Abocar, apanhar, levar. Aboca quatro bofetadas que lhe fica a cara a arder. Também se chama abocar ao acto de examinar os bovinos na boca quando se vendem. Perto, prestes. Abocada a parir, prestes ou perto de parir. Abondar, achegar, dar. Abonda-me cá essa navalha, dá-me cá essa navalha. Abuticado por hipotecado. A cada trio, a cada passo. Acipreste por cipreste. Acubrir. Acto de sementar, sementeira de qualquer cereal, tubérculo ou outro fruto. Açucre por açúcar. Adague, valado para plantação de vinha. Adoba, ou sórsa, calda de vinho, alhos, louro e tomilho, em que mergulham a carne de porco destinada a salpicões e chouriças, e também algumas vezes a de certos animais para lhe tirar o sabor ou cheiro montesinho ou marisco que às vezes têm, comunicando-lhe outro muito agradável. Ai por ha. Também se diz: ir num ai, por ir depressa, de repente, ligeiro. Alxada por enxada. Aixeda por enxeda, peça de madeira aberta em ângulo para formar o estrado do carro de bois. Alacraio, escorpião. Alboroque por alborque, certa quantidade de vinho paga pelo comprador depois de feita a compra e concluído o negócio. Aldruvias, intrujão, alanzuador. Alpraragatas por alpercatas. Almandrilhas, arrecadas, pingentes dependurados nas orelhas como adorno. Almorródia por hemorróida. Alvitar por alveitar. Ambigo por umbigo. Ambroso por macio, amoroso. Amarelante, o mesmo que pica-pau, ave trepadeira que vive de insectos. Amarfolhar, ceifar o cereal em marfolho, isto é, quando tenro, antes de secar. Amouchar, agachar, esconder. Angulho por engulho, náusea, nojo. Anté, por até — C’anté gudelo, diz o povo da raposa, quando, depois da vindima, nem godelos encontra. Gudelo, uva de pouca estimação, de pouco préstimo. Anzonice, pequeno enredo, intriga, mexerico; obra sem importância. Apaijar por apagiar, servir de pagem. Adeladouros, cunhas de madeira, para segurar as treitouras nos carros de bois. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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LINGUAGEM POPULAR BRAGANÇANA

TOMO XI

Arado, instrumento agrário para lavrar a terra. Consta das peças seguintes: rabiça, timão, aviácas, ateiró, pespinheiro, relha, trasga cavilhã. Também chamam arado a uma constelação. Arco-da-velha, arco-íris. Arrebolar, atirar fora com força. Assestida, menstruada. Assobalhar, sujar, destruir os frutos. Astrever-se, astrevido, por atrever-se, atrevido. Ataimar, ataimação, partilha provisória de propriedades, enquanto se não faz partilha legal. Atempados, do tempo. Frutos mal atempados, frutos verdes, pouco maduros, colhidos antes de tempo. Auga por água. Augaceiro por aguaceiro. Chuva repentina, que vem e se vai quase sem ser esperada. Augarela, caldo, ou coisa equivalente, de pouca substância. Também dizem angaripela. Aves e passaros. Além de vários outros pássaros de nomes geralmente conhecidos, há os seguintes, que são mais exóticos: amarelante ou pica-pau. É um pouco amarelo, como o figo maduro, porém não tão intenso e alia-se a uma facha de cor verde. Além disso, este é trepador, carnívoro e fura as árvores à cata das larvas e formigas, que devora; e aquele mantém-se de figos, amoras e outros frutos. Carrapitão (atrepador), chincho, figo-maduro (ver amarelante), galinhaceiro, médo ou narceja. Este pássaro só começou a aparecer em Baçal pelos anos de 1892 e hoje é mui frequente. Ao voar faz certo ruído com o bico e voa rápido, em ziguezague, mal se divisando, e de noite esse ruído é mais tristonho; puseram-lhe o nome de médo, dando-o como alma-penada do outro mundo. Melro-cacheiro (aquático), pardica ou pardinha, pedreiro (espécie de andorinha), pernil ou perluiz, patinha da água, rabo-ruco. Avô e avó. O povo não faz diferença na pronúncia destas palavras e diz sempre avó com ó final aberto. Bacatela por bagatela. Baranha, coisa embaranhada, enleada, difícil de deslindar, separar. Barrabotas, borra-botas, zapabotas, homem de fraco préstimo. Batarraba, patarraba por beterraba. Batatas, patatas, patacas, maranhonas, castanholas, em oposição a castanhas do ar (assim alguns chamam às castanhas dos castanheiros). Belancia por melancia. Berbuleta por borboleta. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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355 TOMO XI

Bernarda, facha de palha com grão no cimo da eirada, por onde os malhadores começam para tomar o lombo. Bestigo, cobra grande. Bestruz, mostrengo, pessoa desajeitada, bruto, palerma. Bezerra, facha mal cozida do pão junto à côdea. Biganau, malandro, mariola. Bigote por bigode. Boca do corpo, vulva. Boi. Aos bovinos, enquanto mamam, e ainda depois, durante algum tempo, chamam vitelos, vitelas, vitelos leituços; depois, em tendo dois anos, chamam-lhe vitelos, vitelas soberanas, novelos, novelas. Depois, bois, vacas e touros; se estão por capar, almalhos. Para indicar a idade dizem: primeiro desfecho, meia boca ou segundo desfecho. Cabos ou cabeiros ou terceiro desfecho. Cerrados. Bojarda, mentira, tolice. Bolarda, febre que entumece os lábios, bolha produzida na pele. Boldrego, zabago, emporcalhado, sujo, desmazelado no vestir. Bolêcras, castanhas que não chegaram a tomar carão, ficando apenas em pele. Borracheira, borracho; a variedade de nomes porque é designada, inculcando está o impressionismo do vinho na vida portuguesa (ao contrário do que diz o Dr. Maia). Camoeca, caneca, Pingueiro, fazer três num pé, toda a estrada era sua. Há muitas anedotas sobre o vinho e borrachos. Boadamerda, vai bordar merda. Macedo também disse: Porque eu se em verso aos grandes exclamara Olhai que o dom das Musas não se herda, Logo Eco dos grandes me tornara Vai tu e os versos teus beber da merda (587). E a musa fedorenta popular também canta: Caçador de cana Come mais do que ganha; Se a cana quebra Vai o caçador à merda. Braçó, parte dos varais da aixeda do carro de bois.

(587) P. e José Agostinho de Macedo, numa carta a Castilho, transcrita na Lumen, 1943, p. 411.

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LINGUAGEM POPULAR BRAGANÇANA

TOMO XI

Braigeiro por bregeiro. O Cantar diz: Minha mãe tem um gato, Ó que gato tão braigeiro: Vem a noite, vai-se às gatas, E vem p’ra casa sem dinheiro. Brão por verão, estio. Bregança por Bragança; mas aqui tem razão de ser, porque nos documentos antigos encontra-se Bregança e só mais tarde aparece Bragança. Brezunda, pândega. Bufanda, agasalho de lã em volta do pescoço. Bugiága, tumor, inflamação, ferida, bolarda. Buxiga por bexiga. Buxigas por bexigas. Buxigas e sarampêlo, três vezes ó buteto, diz o povo. Buzara, buzera, barriga, barrigudo, comilão. Buzinas, narizes, ventas. Cá delo, que é dele? Onde está ele? Caborco, córrego, linha-de-água, correndo, pelo geral, só no tempo das chuvas. Dizem aqui os meus baçalenses: Para em Baçal ser bom ano de pão, Não deve correr o Caborco antes do São Romão. São Romão é o padroeiro e festeja-se a 18 de Novembro. Caborco é uma linha-de-água que corre só de inverno pelo povo. Cabritos, filhos das cabras, enquanto são de leite. Os mesmos, contando dois anos, chamam-se gudalhos ou cabuchos, e chibos em tendo três. Cabrita, aparelho usado na serra puxado por dois homens, utilizado por um deles, e a do outro chama-se manióta, Para chamar pelo rebanho das cabras dizem: cabucho, cabucho. Para obrigar as cabras a mudar de direcção, gritam-lhe: tcha p’r’aqui. Cabuchos. Ver a rubrica Cabritos. Cachola, jogo dos rapazes: cabeça. Cagáte, pescoço. Calaças (588). Caloco, diz-se da fruta mal sazonada ou colhida entre-tempo, principalmente dos melões e melancias. Calhabouça, calhagouça, calabouça, foice-roçadoura fabricada mais grosseiramente que a roçadoura. (588) Ver tomo IX, p. 292, destas Memórias.

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357 TOMO XI

Camba, peça de madeira nos carros de bois para as fixar solidamente aos meões. Idem em volta do moinho para não deixar fugir (espalburir) a farinha. Cameras, diarrea. Caminho de Santiago, via-láctea (uma constelação). Campochano, campochaino, sem cerimónia, nem modos senhoris, afidalgados. Cangas, espinha dos peixes. Cangoixada, contratempo, trabalhos que sucedem imprevistamente. Canima, certa quantidade de mantimentos (589). Caninéus, homens que, em Carção e Argozelo, concelho do Vimioso, se empregam no fabrico de curtumes e dão às peles o banho preparado com excremento de cão (canina, como eles dizem), de onde caninéus. Este banho é dado nos humadeiros. Além destes, há também peladores, escarnadores, curtidores e surradores. Canos, ramos, pernadas grossas das árvores. Enquanto são delgados, chamam-lhe galhos. Canileiro por caneleiro, sabugueiro. Caneleiro, caixotins onde as tecedeiras lançam os novelos para urdir as teias. Capões, galos capados, manojos, molhos de ramos de videiras. Carão, polpa, miolo dos frutos — castanhas, nozes, feijões, garvanços, etc. Carabunha, camunha, caroço das frutas. Carabelho. Ver a rubrica Garavelho. Caroijo, gelo, carambelo (caramelo). Carrélo, cibáco, mantimento que as aves levam aos filhos no ninho. Isca com que os caçadores armam aos pássaros para os apanhar. Comeu-te o carrélo e cagou-le no pingarelo, diz-se daquele que come os engodos com que tentam atraí-lo e não se deixa iludir. Similarmente, outro rifão também diz: Comeu-te os olhos e cagou-le nas poças. Carrachas, carrachilas, modo de as mães levarem os filhos escarranchados nos ombros. Carrapitão, pequena ave trepadeira. Carro, ursa maior (constelação). O carro dos bois consta de rodeiro, eixe e aixeda. O carro dos bois compõe-se de duas partes aixeda e rodeiro. O rodeiro consta de duas rodas ligadas pelo eixe, formadas cada uma por duas cambas, um meão e duas rilheiras. O eixe penetra pelo respigão num orifício de forma piramidal quadrangular, chamado bucho, aberto no meão e seguro pelo entrousso.

(589) Ver tomo IX, p. 291, destas Memórias.

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TOMO XI

A aixeda é formada por uma peça de madeira aberta em ângulo agudo, formando assim dois varões ligados no vértice, mantidos em equidistância pelas cadeias e cadeiota, travessas que servem, aquelas para manter o sobrado da aixeda e segurança dos estadulhos, e esta as estadulhelas. O vértice do ângulo pinalha ou cabeçado e é atravessada pela pombela, cavilha onde prende o subeu para ligar o jugo dos bois à pinalha do carro. A aixeda liga-se ao rodeiro pelas treitouras, cunhos e repinas, porém não assenta directamente sobre ele, mas sim sobre os coucilhões. A parte extrema dos varais, oposta à pinalha, que fica fora do sobrado do carro, chama-se braçó. Para certos serviços, o carro leva caniças e angarelas firmadas nas mesas. Carva (as), rebentos produzidos na raiz e tronco dos carvalhos cortados. O topónimo carva é frequente em terras bragançanas. Castinheiro (a) por castanheiro (a). Ver as rubricas Trepolo, Trepoleira, Lampo e Incas. Castrão — chibo, bode. A carne de chibo constituía alimento predilecto dos lusitanos, como diz Estrabão. Ver o artigo Trasmontanos. Haverá alguma relação entre castrão e castro, quando mais não seja ao menos para indicar que a gente dos castros usava principalmente este alimento. Em Maio de 1550 pediu a Câmara de Bragança autorização régia «para cortar a carne de vaqua e crestum [chibo] a quatro reis e o carneiro a cinquo, por os não achar a menos» (A Restauração de 1640 no distrito de Bragança, pág. 90). Cavalete, cumiada do telhado, do lousado. Cavalo. Segundo o ditado popular, as características do gado cavalar e equino pouco dócil são: Estrela e beta, pé calçado e bebe em branco. Isto é: mancha em forma de estrela na testa de cor diferente do resto da pelagem; beta, mancha nas mesmas condições ao longo da testa até ao focinho. Pé calçado, mancha nas mesmas condições em volta do pé. Bebe em branco, mancha branca em volta da boca. Também dizem: Calça num pé bom Nos dois, melhor; Nos três, mau sinal, E nos quatro, pior. Caxondra, calhondra, diz-se das fêmeas durante, ou, melhor, quando andam à cria, como aqui se diz. Ironicamente também se diz às mulheres ou homens licenciosos. Outros dizem espigados: as porcas andam tão espigadas. Calhandra de calhandro, cabaça, abóbora, espigado, tudo vai dar à mesma. Cenisga, vulva, greta, boca do corpo, sofrideira. Cepa, cepas, tronco das urzes que se desenvolve abaixo da superfície da terra e serve para queimar e fazer carvão. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Chabasqueira, cucaina, terra de pouco valor, terra onde canta o cuco. Chabianos, espécie de chouriços, Chabola, casa térrea de pouco valor, em geral nos campos. Chaldroadas, xaldroadas, pancadas dadas com pau (590). Chamiça, garabatos, fronças (franças), ramos de árvores, lenha delgada que faz pouco lume, levantando apenas falmégas e labareda. Chanato, sapato velho, ruim. Checharas, amabilidades, madrigais dos derretidos dirigidos às raparigas. Cheno (a), chenico (a), vitelo, vitela de leite. Chichorre, cucumelo (cogumelo). Chila por gila, doce de gila. Chiscar, bater, dar pancadas. Chisca-lhe: bate-lhe, arruma-lhe. Chouriços. Há de duas espécies: só de carne — salpicões e chouriças, também ditas languiças: de carne e sopa ou massa de pão e carne — tabafeias ou alheiras, chabianos, chouriço de pão, chouriço de verde, murcelas, chouriço de mel. Cibáco, carrelo que as aves levam aos filhos no ninho. Cidouro, cidoiro. Ver a rubrica Malho. Cochechas ou molhelhas, carne muito saborosa da papeira dos porcos ou das vitelas. Colnhal, viveiro de sementes de couve. Concujos, últimos restos, sobejos de qualquer coisa, principalmente do mantimento das festas. Contapé, por pontapé. Conta, modos de contar. No tomo IV destas Memórias citam-se vários documentos, onde se apontam diversos modos de contar arcaicos, tais como: afusais de vinho, pág. 51; almude, pág. 183; almude de cevada, pág. 404; alqueire de vinho, pág. 218; cabadela, pág. 520; casco de cevada, pág. 379; coarteiro de pão, pág. 422; cona de manteiga, pág. 183; jugadas de pão, vinho e linho, págs. 104, 105, 186, 187 e 217; manípulo de linho, pág. 81; mão de linho, pág. 261; móios de vinho, pág. 186; mua de vinho, pág. 338; oitavas, págs. 354, 408 e 446; puzal, puçal de vinho, págs. 183 e 186; quartos de vinho, pág. 192; redel de cera, pág. 81; taleiga, teiga de trigo, págs. 51, 80, 183 e 197. Hoje em terras bragançanas ainda se usam os seguintes: carga, compreende quatro almudes de vinho ou quatro alqueires de centeio ou quatro arrobas de qualquer peso. Este modo de contar por cargas, dizendo, por exemplo: F... colheu dez cargas de vinho, de centeio, de trigo, para significar quarenta almudes de vinho, quarenta alqueires de centeio, de trigo, é ainda muito usado (590) Ver p. 288, onde aparece xardão e xardudo, equivalências de sardão, rija madeira para dar xaldroadas.

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em Babe e povoações limítrofes da Lombada, concelho de Bragança. Nos forais dados por el-rei D. Manuel, também se usa esta contagem. Ver tomo IV destas Memórias, onde publicamos muitos. Gado ovino e caprino — Usam contar este gado por vintadas. Assim, dizem: F.. tem cinco vintadas de gado, cinco vintadas de cabras, para indicar que tem cem cabeças de ovinos, cem cabeças de caprinos. Pousada — O cereal (centeio e trigo) que vão segando (cortando com a foice ou seitoura nas terras) atam-no aos feixes, formados pelo que pode abranger uma vencelha feita de dois mangados de palha do mesmo cereal atados pelas extremidades. A estes feixes chamam molhos e cada quatro constituem uma pousada. Para indicar quanto leva um carro de pão, ou quanto produziu uma leira dizem o carro leva vinte pousadas; a terra produziu cem pousadas. Em Mascarenhas e noutras povoações de Mirandela, em vez de pousadas dizem meias e cada meia consta de cinco molhos. Talha — Em terras de Miranda do Douro também contam por talhas o cereal, equivalendo cada talha a vinte alqueires. Assim, dizem: F... colheu dez talhas de trigo, para indicar duzentos alqueires (591). Dízimo — Em Aveleda, concelho de Bragança, ouvi a alguns velhos dizer que uma tulha, uma cuba levava dez, vinte ou trinta alqueires ou almudes ao dízimo. Como no dízimo se pagava de cada dez um, ou seja 10%, entende-se que esses recipientes levavam cem, duzentos e trezentos alqueires de centeio ou almudes de vinho. Linho — O linho, depois de arrancado e esbangado, atam-no em pequenos feixes a que dão o nome de maçadeiros, e cada dose destes constituem uma mão de linho. Onze arráteis de linho fazem uma pedra de linho. As couves para plantar, as sardinhas, as brochas do calçado, os bacelos, as cepas das vinhas contam-nas por milheiros, centos, meios centos, quarteirões (25), dúzias e meias dúzias. E por este teor várias outras coisas. Contracção de palavras. Em Sacoias é mui frequente e, assim, dizem: Melgo por Gemelgo; Mingo por Domingos; Bina por Felisbina; Tina por Cristina; Zé por José; Bito por Benedito; Quico, Chico, por Francisco. Coucilhões, duas peças de madeira fixas na aixeda do carro dos bois, que assentam directamente sobre o eixe. (591) Ver tomo X, p. 160 e 651, destas Memórias.

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Coucões, joelhos. Coxi-pé, andar com uma perna no ar. Brinquedo de crianças. Crasto por castro. Cria (a), por estas palavras, entende-se só gado bovino. E por gado só o ovino. Cucumelos por cogumelos, as seguintes variedades: rubió, níscaros, rossalgar (venenoso), roquinhas, cardiélas, frades, cor de céu e assetas. Cueira, tripa do recto do porco (Baçal). Em Sacoias chamam-lhe quegadeiro. Ver a rubrica Palaio. Cueiro, pano onde se lança a cinza nas barrelas para que a água quente lançada sobre ele não se espalhe pela roupa. Curgalho, escadea (gaipa), cada um dos esgalhos de que se compõe o cacho de uvas. Emprega-se no sentido que nós damos ao curgalho de uvas. Curgalho de chouriços. Curgidoso, diligente. Curesma por quaresma. Curtidores, quase o mesmo que surradores nas fábricas de curtumes. Curtinha, propriedade tapada em volta, destinada a lavoura. Cuvileiro, que se mete pelas casas dos vizinhos ou casas alheias, com mexericos, a levar e a trazer novidades, a espreitar o que vai por elas para contar e dizer lá fora, ergo pessoa indesejável. Debadouro (Mirandela) espeto. Dedos das mãos. Assim os chamam: este é o dedo mindinho; este o seu sobrinho; este o pai de todos; este o fura bolos e este o mata piolhos. Também, pondo as mãos como para rezar, dizem: este e este são casados; para boda deste e este; disse este para este que não fosse este sem este à boda deste e este. Degranhar, degranhado, aflito, desolado, entristecido, devagar o milho, as pinhas, as romãs, as uvas e outros frutos de baga. Delubina por Ludovina. Desarrabaldada, desarrabaldar, perdida. Desenjuar por desjejuar. Deslambida por delambida, estrelada, lampreta, escupeta, lambisgóia E tu, deslambida, Ós três dias já estás nascida! (592) Despois por depois. Os prenósticos, peliquitreques, dizem: ó dipois, também se diz: ós pois. Dexoba, espancar, insultar por palavras. Dei-lhe uma dexoba que o deixei a tinir, em lençóis de vinho. (592) Ver tomo XI p. 663, destas Memórias.

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Dixo-me por disse-me ................................................ ................................................ Que a mim também mo dixo. (593) Duia (em Rabal), dunha (em Sacoias), peça que cada morador tem no moinho, ordinariamente de um dia de duração. O dia constitui uma peça e a noite outra. Eirada, palha com grão astrada (estendida) na eira para ser debulhada pelos malhadores. Eis por eles. Chamaste os Garridos para vindimar? Não. Já se tinham ido embora quando fui a casa d’eis. Ejo. Os sufixos eja, ejo e ario, pronunciam-nos como se tivessem mais um i. V. gracia: realeijo por realejo; boticairo por boticário. O mesmo nas terminações enho, elha. V. gracia: teinho por tenho; oreilha por orelha. Enaugar, moléstia contraída por ver comer e não lhe darem desse alimento. Diz-se das crianças, dos animais e das fêmeas grávidas, tanto racionais como irracionais, podendo provocar mesmo o aborto. Encobrir, nausear, enjoar, provocar vómito. Não posso tomar leite; encobre-se-me o estômago com ele. Embeleque, estorvo, empecilho. Engarrar, lutar com intuito de ferir, maltratar. Engrimanço, criança impertinente que faz perder muito tempo a quem a atura. Entrouso. Ver a rubrica Retrousso. Ervilhana. Ver a rubrica Hervilhana. Esbacaçar, ter modos vagarosos, sem jeito, sem energia, a modo de não vou que me levam, ou de cagalhão ou trambolho que vai ao Deus dará pela água abaixo. Vem de vaca. Esbimbada (’sbimbada é como pronunciam), pessoa aperaltada, esticada, de corpo franzino. Escaganeirado, escaganeirar-se, diz-se daquela pessoa que tudo lhe mete dificuldade para se fazer ou conseguir. Escaldrijar, ir tirando uma ou outra malga de caldo da panela sem esperar pelos outros comensais. Escarnadores, os que acabam de extrair às peles alguns restos de carne aderida a elas. Ver a rubrica Caninéus. Escarnicóque, escárnio, troça, fazer pouco de uma pessoa. (593) Ver p. 295 deste tomo.

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Escolarão (594). Escupeta (o povo pronuncia ’scupeta) mulher repontona, desagradável. Esferrunchar, espremer as uvas e outros frutos, feridas e outras coisas. Esfurgalhar (de furgalha), esmigalhar, pôr em furfalhas. Esgaravelhar, esgoravatar, arranhar das galinhas. Esgueivar, pequenos ralhos. Esgazear, grito aflitivo das galinhas. Por analogia, indica ironicamente o grito solto sem motivo. Esmichar, esmagar, rachar. Esmichote, desfaço-te, esmago-te. Espalhadoura, forquilha. Espigada. Ver a rubrica Caxondra. Esparavanado, desajeitado, de maus modos. Esperrinhar, esguichar, saltar. Espolvorir. Ver a rubrica Camba. Esqueiro, barda de lenha em casa ou junto dela para manter o lume da cozinha. Não há abrigada como a de esqueiro, nem sombra como a de fragueiro, diz o rifão bragançano. Estadulhetas, dois estadulhos que vão na frente da aixeda do carro na travessa chamada cadeota. Estopa, parte do linho mais grosseira, tirada da estriga pelo sedeiro, com a qual se faz o tecido chamado estopa e também utilizada para urdir o linho. Ver a rubrica Tomentos. Estopinha, parte do linho um pouco mais fina do que a estopa, aproveitada para tapar o tecido de linho. Ver a rubrica Tomentos. Estrelada (o povo pronuncia ’strelada), mulher abelhuda, intrujona, capaz de iludir quem se finte nas suas larachas, mulher que tem letra de mais, como também costuma dizer-se. Estrelouçar, estrelouço, estremecer, estremeção. Fazer. Fai por faz; faile por faz-lhe; fazila (Aveleda) por fiz uma; faga (Aveleda) por faça; fáçamos por façamos. Nos verbos é frequente a troca da segunda pessoa do singular pela segunda do plural. Assim, dizem: tu fustes, fizestes, levastes, etc., por tu foste, fizeste, levaste. Nicolau Tolentino também faz o mesmo na tradução das Fábulas de La Fontaine. Os presumidos em falar à polítega, à cidadona, em vez de fostes dizem: vós fusteis. Fazer de mula de médico, fazer ouvidos de mercador, não prestar atenção. Falmegas por faúlhas. Felestrias, graças dos amorosos derretidos. Fessura por fressura. Feturo por futuro. (594) Ver p. 265 deste tomo.

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Fiéis; chamam em Baçal às duas pedras, que põem espetadas na terra, uma de cada lado das marras do termo ou marcos divisórios das propriedades, para indicar que servem de marcos. Em Vale de Sancha, concelho de Mirandela, chamam-lhe testemunhas, por serem postas pela autoridade administrativa local, segundo me disseram. Figo-maduro, ave algo semelhante ao amarelante, mas mais amarela do que este. O amarelante é trepador e carnívoro; o figo-maduro é vegetariano: alimenta-se de figos, amoras e outros frutos. Fingir, operação na massa da farinha para cozer o pão. Fitoura, instrumento de madeira onde se espada o linho. Flauto por flato. Fluge por fuligem. Foi pedra que se lançou a um poço. Para indicar pessoa capaz de guardar um segredo ou uma coisa que nunca mais se torna a ver. É possível que nesta locução haja qualquer relação com Manalis lapís, porta do Orcus, por onde passavam as almas dos mortos que nunca mais voltavam, segundo ensinava o paganismo. Também a crença pagã tinha uma pedra sagrada chamada Manalem lapidem, conservada religiosamente pelos romanos às portas do templo de Marte na porta Capena, que era levada procissionalmente, com muita veneração, para a cidade, quando a falta das chuvas secava os campos e a fé dos crentes dirigia preces públicas aos deuses a pedir água (595). Nesta prática litúrgica deve filiar-se a crendice de lançar pedras aos poços e rios para obter água ou mesmo até as imagens dos Santos, de que falamos na pág. 16, n.° 9. Fraita por flauta. Fracasso, caso pouco agradável surgido inesperadamente. Friu por frio. Furgalhas por furfalhas. Fustage, pessoa sem merecimento, que vem causar incómodo. Gado. Por esta palavra designam-se apenas rebanhos de ovinos; tratando-se de porcos, dizem bezeira; de bois, boiada, e de cabras, cabrada. Ver a rubrica Tagalho. Galinhas. Para chamar pelas galinhas, dizem: pila, pila, pila; pilinhas, pilinhas. Para as afastar: oche, oche. O lavrador mirandês, Para ser lavrador, Deve ter muito mu e muito mé, Pouco coche e menos oche. (595) Ver Calepinus, artigo Manalis, onde se citam os autores que tratam do assunto.

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Gangareua por gangrena. Garamilhos, nome geral que dão a toda a espécie de peixes quando são pequenos. Garavelho, caravelho, cravelho, fecho de pau nas portas. Gavanceira, espécie de silva que dá frutos vermelhos, não comestíveis. Gomitar, gómito por vomitar, vómito. Gorgo, ovo que ficou por chocar no ninho das aves. Grila, vulva. Grileira, peça das costelas (armadilha aos pássaros), em que se coloca o cibáco (isco), que, pelo geral, é uma formiga de ala, podendo também ser um grilo. Gromos por gomos, rebentos tenros das videiras e das outras árvores. Gresga, confusão causada por muitas pessoas que falam ao mesmo tempo. Gudalho, cabrito de dois anos. Guiceiro, cavidade onde gira a couceira da porta. Hervilhana, diz-se das coisas e negócios complicados, emaranhados. Virá de ervilha e da sua rama sempre emaranhada? Hilária, espécie de gato bravo. Humadeiro, espécie de tanque em que dão às peles o banho preparado com canina. Ver a rubrica Caninéus. Cada humadeiro compreende muitos inoques. O apodo popular diz que os de Carção e de Argozelo correm atrás dos cães dizendo-lhe: caga cão, caga cão para curtir o cordovão. Ico, ica, sufixo diminutivo: fontica, pontica. Ver Orio, sufixo diminutivo depreciativo, irónico: malzório pela sífilis. Inaugua por enagua. Inças. Em Vale Benfeito, concelho de Macedo de Cavaleiros chamam inças aos rebentos que nascem nos toros dos castanheiros cortados para madeira. A esses mesmos rebentos chamam aqui em Baçal e noutras terras trepolos, e aos toros que os produzem rebanceiras, trepoleiras. Virá daqui sainças? Ver tomo X, artigo Toponímia. Inda por ainda, inda que sou morena é do pó da eira...... Também há quem diga: indas quê. Ingrua por íngua. Inoque, espécie de tanque usado em Carção e Argozelo no fabrico dos curtumes. Interpicar, tropeçar. Interquidência, desavença, discórdia. Ir. Dizem: fuste por foste; fumos a por fomos a; fazemos-a por fazemo-la; levamos-a por levamo-la, e assim nos demais verbos. Iba, ibam (Aveleda) por ir, iam. Ir por campo, dejectar, fazer evacuações intestinais, cagar. Jemento, jimento por jumento. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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Jirónimo por Jerónimo. Jogos, divertimentos dos rapazes. Entre outros, usam os seguintes: Abridálhas (é o mesmo que Pares ou Nones, mas quando se jogam pinhões); Às pombas; Bilharda; Cantinhos; Cachola; Chona; Coxi-Pé; Escondedeiro; Fito; Furta-fato; Jogo do home; O lobo; Pares ou Nones; Pedrinhas; Porca (é o mesmo que Chona); Pião; Rapa; Vilão do Cabo. O jogo dos Pares e Nones, que se realiza principalmente com bilhós (castanhas assadas), admite várias formas. Assim, também se diz: Arrebunhana? Sobraldana, responde o outro. Sobre quantos? torna o primeiro. De outra forma dizem: Cunceruncelha, quantos porcos estão na cortelha? e ainda: par ou pernaão? Jolho, jiolho por joelho. Jungidouro. Ver a rubrica Malho. Lacalheira, lorga ninho de coelhos bravos, toca. Lampos, trepoleira, rebentos no toro que ficou na terra, dos castanheiros que se cortaram. Lampreta, mulher ladina, zagucha. Langocheira, mulher intrujona, de muita lábia, palreira, faramalheira. Lampreta. Languiça, chouriço em tripa estreita, feito de carne mais ordinária do lombo do porco, principalmente dos aparos e sobejos da que se não aproveita para salpicões. As chouriças, em bondade culinária, são inferiores aos salpicões, que constituem a melhor peça do fumeiro. A languiça, também é chamada chouriça. Por um e outro nome as celebram os cantares dos Reis, que dizem: Quem vos vem cantar os Reis Nesta noite de Janeiro, Certo é que quere provar As chouriças do vosso fumeiro. Viemos de longes terras, Languiça não queremos; Dizem que tem bom vinho C’uma maçã beberemos. Larapaço, lama em grande abundância e extensão. Le por lhe. Assim: disse-le por disse-lhe. Legumia, abundância de pessoas, animais e coisas, que prejudicam e transtornam os planos de vida de outras pessoas e animais. Linho. Passa pelas seguintes operações, desde que a semente está madura: moreiras; maçadeiros; esbangar; curtimento na água; maçagem; espadelagem e estrigas ou betas. Asseda-se, tirando-lhe estopas e estopinha, a fim de ficar só o linho fino. Fia-se e põe-se em maçarocas. Ensarilha-se no sarilho em meadas. CozemMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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-se as meadas em lixívia de cinza. Doba-se na dobadeira ou dobadoura e põe-se em novelos, que depois passam para a tecedeira. Liorna, algaravia, modo de falar que se não entende (596). Lipoldo por Leopoldo. Litigo, lítico por líquido, puro sem outra mistura. Este anel é de ouro puro; esta farinha é de trigo puro, sem mistura de serôdio, centeio, milho ou qualquer outro cereal. Lontriga por lontra. Maçãs; há estas variedades: camoesas, pêro-de-rei, cunqueiras, verdiais e malapas. Madronheiro, madronho por medronheiro e respectivo fruto. Malho, peça de madeira com que debulham o pão, chamada mangual noutras terras. Consta das seguintes partes: Mãira, peça de madeira de 1,5 m de comprimento, empunhada pelo operário (malhador). Pertigo, peça de madeira com que se bate na palha do pão. Cidoiro, peça de ferro na ponta da mãira, por onde passa uma correia que liga o pertigo à mãira. A esta correia chama-se jungideira. Casula, peça de couro segura na ponta do pertigo. Narireira, peça de ferro colocada na ponta da mãira. Malhada. Ver a rubrica Séstia. Malvarisco por malvaísco. Mandrulho, mal ajeitado, feixe de palha mal atado. Mandrasto por mentrasto. Mão de semear. Calhou à mão de semear; veio a propósito e a talho de foice; veio de molde. Mão de linho, consta de doze maçadeiros. Marra, bloco de pedra, em geral grande, que divide os termos das povoações entre si (597). Marracha, marrana, atarracado. Matachim, homem que faz de carniceiro, principalmente na matança dos porcos cevados e outras rezes para serviços agrícolas. Matabote chamam-lhe em algumas terras. Mata-la-baca, pessoa sem energia, bacoco. Meta matigo, matamática, por matemática. Matraquilhos, utensílios para as crianças brincarem. Meão, grossa peça de madeira, onde entra o eixe dos carros dos bois. Quem quiser o carro perfeito, deite-lhe o meão estreito, diz o ditado. (596) Ver tomo V, p. CVIII, e tomo IX, p. 634, destas Memórias. (597) Ibidem, tomo IX, p. 588, em nota.

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Melgo (Sacoias, ver a rubrica Construção de palavras) por gemelgo. Mescambilha, trapaça. Meses: São João (Junho); Santa Marinha (Julho); Santos (Novembro); Natal (Dezembro). Mesunhices, cortesias inoportunas. De mesuras. Mijacães, cogumelos criados nas estrumeiras, ervas mais crescidas nas encruzilhadas dos caminhos, onde os cães vão urinar. Mijar, urinar. Dizem: meijo, meijas, meija; meijamos, meijais, meijam. E assim na conjugação dos outros tempos. Mija-na-cinza, homem medroso, inerte, amarelado como se mijasse na cinza, e esta, espulvorindo, lhe saltasse à cara. Mijaneira, abundância de urina. Mijo, urina. Misseiro, sacerdote mui pontual em celebrar missa, mais pelo interesse do estipêndio do que pelo zelo da fé. Mixo, a, mixano, a, mixinho, gato, gatinho. Mofineja, diminutivo de mofina. Moinho, consta das seguintes peças: Agulha, espécie de ponto de apoio que permite, pelo sistema de alavancas, ligado à rã ou raina, levantar ou baixar um pouco a pedra andadeira. Segurelha. Tremoia Farneiro. Raina. Tarabélo. Canelha ou cubo. Rodésio. Guilhos, peça de bronze ou seixo, encravada no topo da vara do rodésio para este girar sobre a rã ou raina. Molhelhas, ver a rubrica Cochechas. Molho, feixe de gavetos de palha do pão ceifado, atado com uma vencelha tirada do mesmo molho. Mora por amora. Mornal, espécie de meda formada com molhos de palha do pão, nas terras onde se ceifou, para que os gados o não estrampalhem, enquanto senão acarreija para a meda da eira. Moscariça, pasmada, sorna, palerma, boca-aberta. Mosqueiro, ver a rubrica Séstia. Mouçó, espécie de estômago das galinhas. Mouricego por morcego. Muela, o mesmo que mouçó. Mugir por mungir. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Mulidas, almofadas na cabeça dos bois para assentar o jugo. Murio (Paradinha do Outeiro), cortiço de abelhas (598). Muxa, muchana, modo de chamar pelos gatos: mucho, mucho; muchana, muchana. Muz, ver a rubrica Tuz. Nacho, nariz acachapado. Nam, non, num, por não. Nalgas, por nádegas. Niu por ninho. Novelo, novela, novilho, novilha, almalho, vitelo ou vitela de dois anos. Olhapim, que vê de mais, feiticeiro, bruxo, fantasma, medo que aparece à gente e tem só um olho no meio da testa. Outro galo le cantara Melhor lhe correra a vida. F.., ainda andou meio invencilhado com F..., e, se tem casado com ela, outro galo le cantara. No tomo IX, págs. 364 e 366, destas Memórias assinalamos a superioridade do galo preto no conceito da crendice popular, e no tomo V, pág. LXXV, falamos do galo comido pelos judeus de Bragança na véspera do dia de São João. Também atrás, na pág. 20, n.° 13, dissemos do galo comido na Sexta-feira Santa, talvez por ensinamento da heresia presciliana, pois na doutrina católica é dia de abstinência. Haverá qualquer ligação litúrgica entre esta manducação de galos, visto a vigília de São João ser também dia de abstinência de carnes na comida, e, portanto, sob o ponto de vista católico atingir os fins visados pelo priscialismo, ou seja o desprezo pelas leis da Igreja? Em Garrett encontramos bem nítida a diferença mágica dos galos, quando diz: ................................................... E mais fugir dos orvalhos Da noite de São João! Que se quebra o encantamento Ao pino da meia-noite; Ao cantar do galo preto Se acaba o contentamento (599). ................................................... E o gato preto anunciar a hora Fatal a encantamentos (600). Padamarro, pedamarro, variedade de carvalho. (598) Ver tomo X, p. 635, destas Memórias. (599) GARRETT — Dona Branca, 1874, p. 85. (600) Ibidem, p. 175.

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Pacilaina, andar de pacilaina, andar de um lado para o outro sem fazer nada. Virá de palácio? Onde se ganha mais às barretadas do que às lançadas, como diz Vieira (601). Padrenosseiro, pessoa que liga mais importância à multidão das orações e palavras do que à sinceridade da intenção. Palaio, chouriço em tripa larga do porco; cada porco só tem um palaio e uma cueira. Distingue-se uma da outra, porque, apesar de ambas serem as mais largas do porco, a cueira é lisa, corredia, sem refegos, ao passo que o palaio é conchoso. O chouriço do palaio é preciso comê-lo logo, porque se conserva mal; pelo contrário, o da cueira conserva-se bem. Pampelina, homem sem importância. Panção, maluco. Pandoneza (mantis religiosa), animal semelhante ao saltão, porém mais comprido, muito estimado pelo povo e crianças, que lhe dizem: pandoneza põe a mesa. E o simpático animalzinho, como se compreendesse, põe-se de pé firmado sobre as patas traseiras, levanta e junta as mãos à altura da boca, a modo de querer rezar, e assim se fica tempo infinito imóvel. É que a pandoneza alimenta-se de insectos, e assim apanha quantos ingénua e descuidadamente se lhe abeiram. Pandorca (602). A musa popular diz: Toda a vida desejei Uma mulher mediana; Deu-me Deus uma pandorca Que não me cabe na cama. Pantoja, pasmado, boca-aberta, sem energia nem mentalidade para nada. Papa-la-sorda, bruto, babanca, sem jeito para coisa nenhuma, palerma, bacoco. Pardica, pequena ave de arribação, que aparece em Agosto e retira em fins de Setembro, sendo muito perseguida pelos rapazes que a caçam em esparrelas e costelas (ratoeiras). Ver a rubrica Tralhão. Paracismeiro, paracismos, pessoas de bagatelas, pretensiosas e amaneiradas de minúcias pedantescas, ninharias. Pascóvio, por pacóvio, sorna, boca-aberta, palerma. Pastrana, pessoa vagarosa no andar. Patachim, pássaro. Páxaro, também pronunciam paxáro por pássaro. Peis por peles. Peixes, armadilhas para apanhar peixes: rede, tralho, tezão. Estes de fio torcido. As seguintes de verga: galrito, rabudo, meijoeira, cacifo espécie de (601) Ver tomo X, p. 136 e 634, destas Memórias. (602) Ibidem, tomo II, p. 159 e 164.

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cesto usado pelos peixeiros para transportar os peixes, principalmente os apanhados pelos caçadores de cana, anzol ou cordas. Peladores, os que arrancam o pêlo às peles. Ver a rubrica Caninéus, Pela-gatos, homem sem importância. Peleiro por poleiro, peliqueiro, comprador ou vendedor de peles. Peliquitreques, peralvilho, pessoa de mesunhices. Peligrino por peregrino. Peneriz por panerício. Pestojo, pessoa que não faz nada e obsta com suas mesunhices ao trabalho dos outros. Piléria por pilhéria. Pinalha, vértice do ângulo formado pela aixeda do carro de bois. Pinches, taralhão (tralhão, dizem os bragançanos), ave de arribação. Pinásios de madeira cravados por baixo dos varais da aixeda do carro de bois onde prende a corda. Pingarélo, peça de madeira nas esparrelas com que se apanham os pássaros. Ver a rubrica Cibáco. Em algumas terras dizem pingarelho. Pingões, água congelada pendente dos beirais dos telhados à maneira de estalactites. Pírula por pílula. Polítega por política. Falar à polítega. Falar à cidadona, isto é, à moda da cidade. Pombela, cavilha de madeira que entra no pinalho da aixeda, para, em volta dela e do jugo, enroscar o subeu a fim de os bois arrastarem o carro. Ponta de gado, ponta de cabra, pequeno rebanho destes animais, o mesmo que fato de gado. Porco. Consta, entre outras, das seguintes peças: bandas, butélo ou bucho, cochechas, enguião, fígado, lombélos, passarinha (baço), peituga, suã, xixo (miudezas, restos de toda a carne). Da sua espinha dorsal, conquanto seja apreciável, por saborosa, diz o povo: suã; barba untada e barriga vã. Para chamar pelos porcos, dizem: réco, réco, gurrín, gurrín, in, in; queninos, queninos. Para os afastar, dizem; coche, coche. Porta. Consta das seguintes peças: batentes, cadeias, ou travessas, couçoeiras, fitos, guiceiro, lumiar e soleira. Pousadas. Modo de contar os molhos de pão, Quatro molhos formam uma pousada Normalmente, vinte pousadas fazem um carro de pão, e vinte carros formam uma meda. Prenóstico, paracismeiro, pessoa de mesuras, cerimoniosa, praxismos ridículos ou como tais tomados. O dr. João Correia, no Seu Método, pág. 51, regista pronóstico, colhido na Régua. Prosmeiro, a, paracismeiro, prenóstico. Prexigo, Prexigueiro, por pêssego, pessegueiro. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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TOMO XI

Questume por costume. Quitó, burro ou burra ordinária. Rabudeiro. Ver a rubrica Rilheiro. Rabudo, armadilha de vergas para apanhar peixes. Raposa, caravelho, fecho de pau nas portas. Rastrilho por rastilho. Rebaldaria, desordem bulhenta, motim. Rebouceira, o mesmo que lampo, trepoleira, mas aplica-se especialmente aos rebentos nascidos na raiz dos carvalhos cortados. Carva, lhe chamam em algumas terras bragançanas. Recachar (Mirandela), fazer calor demasiado, sol abrasador. Recachiço, andar à cria, noivar lubricamente. Redenho, enxúndia, carne gordurosa ligada aos intestinos. Relâmpego por relâmpago. Romendo por remendo. Remisga, cibáco para armar o anzol aos peixes, mulher deslambida (delambida). Renúncio, notícia. F... foi-se embora desta povoação e nunca mais houve renúncio dele. Repina, cunha mais pequena que se mete entre as treitouras e os apeladouros. Rés-vés, sem tirar nem pôr, à justa, certo. Resalgar, cogumelo venenoso. Restrolho por restolho. Retrousso, cavilha de madeira que entra no espigo do eixe do carro dos bois para segurar o meão. Retólica por retórica. Retólicas, perlengas de alanzoador. Ril por rim. Rilheira, peça de madeira que entra nos meões dos carros de bois para lhe fixar solidamente as cambas. Rilheiro, espaldar, costas do escano. Em Vale Benfeito chamam rilheiro ao cereal mais ordinário que se reúne das varreduras da mó (montão) a ainda às alimpas do crivo; mas aqui em Baçal chamam rabudeiro ao cereal assim reunido. A pita de Janeiro põe trás do rilheiro, diz o rifão. Na Beira, entendem por «rolheiro enfrascado», uma porção de pão, cujos molhos ficam todos com a tira para o mesmo lado (Altitude, revista da Guarda, 1943, pág. 88). Rinhosar, pequenos ralhos, mas constantes. Rubió, cogumelo muito apreciado pelo seu sabor, de cor alaranjada. Não confundir com ressalgar, que é venenoso. Sama-çuga, por sanguessuga. Sanchas, cogumelos que nascem nas matas, principalmente nos pinheirais. Espécie de carraça que ataca os ovinos e cães. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Sangre por sangue. Sastisfeito por satisfeito. ’Scontra por contra. ’Scravanada, chuvisco de grainço de pequena duração, mas violento, muito frequente em Março, de onde vem dizer-se que: Março pôs a mãe ao sol e a matou com uma ’scravanada. ’Scupir por cuspir. Seitouras, foices para segar (ceifar) cereais. Séjamos por sejamos. Selvage por selvagem. Seluço, seluçar por soluço, soluçar. Senga, pessoa maliciosa sob aparência sorna. Séstia, sestiadouro, mosqueiro, malhada. Lugar à sombra de árvores, onde os pastores arrumam os rebanhos para os livrar do calor no verão. Logo que o calor minga ou vem o fresco da tarde, o rebanho segue à procura dos pastos, e a este acto chamam-lhe abalar. O gado já abalou, diz o povo. Só, buraco, olho da agulha. Solveta, sorna, lorpa. ’Sprem, miséria. Morrer ó ’sprem, morrer à fome. ’Stámago por estômago. ’Stransido por transido. Suberana, vitela de dois anos. Surradores. Ver a rubrica Canineus. Sum, sam, por sou, são. Tagalho. Chamam tagalho a um pequeno rebanho de ovinos ou caprinos. Diz o ditado: Um filho é mimo, Dois, é regalo; Três, tagalho. Ver as rubricas Fato de gado e Ponta de gado. Tamem por também. Tanjasno palerma, sorna. Tapa-olhos, bofetada, lambefe. Tapar. Ver a rubrica Estopinha. Timãosela, timão do trilho. Tiro-liro, leviano, volúvel, salta-palhinhas. Tordigo por tordo. Torgueiro, grosseiro de modos. Tornizelo por tornozelo. Tralha, água ou azeite solidificados pelo frio. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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TOMO XI

Treitouras, peças de madeira que, entrando nos coucilhões e no varal da eixeda, amparam o eixe, a fim de rodar entre elas. Trela, estar de ouvido à trela, escutar com atenção. Trepoleira, lampo. Ver a rubrica Inças. Triz, pouco. Por um triz me não apanhou. Trombicar por trambicar, iludir, codilhar, enganar. Tundía por tunda. Dei-lhe uma tundía que o deixei a parir, a tenir, em lençóis-de-vinho, a pão e laranja. Tuz. Nem tuz, nem muz, sem tugir nem mugir, sem réplica, sem nada objectar. Ucha, oucha. Em Freixo de Espada à Cinta os raparigos, quando vão cagar, têm de ficar distantes uns dos outros, de forma que, estendendo os braços, apenas toquem a ponta dos dedos uns com outros; por isso dizem: dá cá a ucha! para regular a distância. Informação do estudante Jorge Lopes. Uliar, uivar. Urdir. Ver a rubrica Estopa. Uvas. Há as seguintes variedades: verdelho, moscatel e abelhal, mourisca, samarrica, gudelo, merançã, uva-de-rei, malvasia, aceitã, ferral, terrontês (nem o comas nem o dês). Uzipêla por erisipela. Varilhas, estrado de madeira posto sobre a masseira, para sobre ele girarem as peneiras na preparação da farinha para fabrico do pão cozido. Vasélo, espécie de fungo ervácio que nasce nas paredes húmidas das casas. Diz-se que o linho está em vasélo quando, depois de nascer, lança as primeiras folhinhas, unidas ao parecer em forma de escudo côncavo como o vasélo. Vasio, a, ovino ou ovina de dois anos de idade. Veleno por veneno. Vitelo, a, bovino de leite até quatro meses; depois, até dois anos, é novelo, novela (estas também se dizem soberanas). De três anos para cima são bois, vacas. Vias. A expressão — por vias — equivale a por causa. Casei com uma velha Por vias da filharada; O diabo leve a velha Trouxe-me dez duma niada! Vir. Vinheram por vieram. Em Segirei, freguesia de São Vicente da Raia, concelho de Chaves, e no concelho de Freixo de Espada à Cinta, trocam os tempos a este e outros verbos, dizendo, por exemplo: vinheram por vieram. Já jantou, senhor Albino? Já, sim senhor. Fiz bem, q’eu tamen já fez o mesmo. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


LOBO

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Xarda, pequeno peixe muito saboroso, com manchas vermelhas pelo corpo como as trutas. Xota, palerma, bruto, boca-aberta, pacóvio. Zabado, porco, desleixado no vestir. Zapa-botas, o mesmo que borra-botas, pessoa desleixada, sem importância. Zubrada, zervada, bátega de chuva. LOBO (Francisco Miranda da Costa) — Tomo VII, págs. 270 e 711; tomo VIII, pág. 108, e tomo X, pág. 721. Aos títulos honoríficos mencionados no tomo VII, pág. 270, acrescentar mais os seguintes: Membro da Academia Pontifícia de Ciências das Reais Academias de História de Madrid e de Letras de Barcelona; Membro do «Bureau das Longitudes» de Paris; da «Royal Astronomical Society» de Londres; da Sociedade de Síntese e da Sociedade de Economia Política de Paris; da Sociedade de Ciências, Agricultura e Artes do Baixo-Reno; Membro de Honra da R. S. de Geografia de Madrid; Doutor Honoris causa da Universidade de Estrasburgo; Medalha de ouro da Academia das Ciências de Paris e da Associação Francesa para o avanço das Ciências; Professor catedrático e Director de Honra do Observatório Astronómico da Universidade de Coimbra, e Presidente do Instituto de Coimbra. É enorme e valiosa a bibliografia deste ilustre bragançano, de quem tratamos nos volumes acima indicados. Depois publicou vários outros trabalhos, que não indicamos por não podermos saber o número de páginas de cada um, coisa indispensável numa bibliografia, remetendo, contudo, o leitor para o Dicionário Universal de Literatura, 1940, de Henrique Perdigão, pág. 553, ou para o Anuário Académico de 1942 (Academia de Ciências de Lisboa), pág. 227, que ambos a publicam acompanhada do seu retrato. Seguem as de que temos notícia: Quatre Mémoires d’Actualité avec dix gravures: Les voyages de Magellan, son haut signification scientifique et politique — Genèse des taches solaires — Principes de la mécanique et théorie radiante Costa Lobo — Les traités de Tordesilhas et de Windsor, succés remarcables de la dipiomatie portugaise. Coimbra, 1943. Nesta publicação reuniram-se os seguintes trabalhos do autor: III — Voyages de Ferdinand de Magellan, Les voyages de Magellan, leur signification scientifique. 8.° de 21 págs. com o retrato de Fernão de Magalhães e mais uma gravura. III — Genèse des taches solaires. 8.° de 17 págs. com três gravuras. III — Principes de la mécanique et theorie radiante. 8.° de 21 págs. com duas gravuras. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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LOPES

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IV — Les Traités de Tordesilhas et de Windsor, succès remarcables de la diplomatie portuguaise. 8.° de 19 págs. Dolorosa Tragédia dos ínclitos infantes, filhos de D. João I. Coimbra, 1943. 8.° de 100 págs. com oito gravuras. O Conselheiro José Luciano de Castro e o segundo período constitucional monárquico. Coimbra, 1941. 8.° de 267 págs. e uma de índice, inumerada. LOPES (José Manuel Miranda) — Prior de Argozelo (tomo VII, pág. 274, tomo VIII, pág. 108, e tomo X, pág. 721). Publicou mais: Carção, Concelho de Vimioso. I — Apontamentos para uma monografia. II — Normas de instrução paroquial (Separata de S. José. Protector da Santa Igreja). Porto, 1939. 8.° de 18 págs. e uma de índice. O prior Miranda Lopes faleceu no Porto, onde fora sujeitar-se a uma operação cirúrgica, a 27 de Janeiro de 1942. LOPES (Norberto) nome literário, e Adolfo Norberto de Morais Carvalho, nome completo (603). Publicou mais: O Exilado de Bougie — Perfil de Teixeira Gomes, com um estudo de João de Barros. 2.a edição, 1942. Lisboa, 302 págs., com 14x9 cm., profusamente ilustradas com retratos e monumentos referentes à vida do antigo presidente da República, Teixeira Gomes. Valioso para estudo da política portuguesa. Neste volume anunciam-se mais as seguintes obras do autor, que não cheguei a ver: O crime de Augusto Gomes — Reportagem, de colaboração com Artur Portela. Pimpinela — Conto infantil, em três actos, de colaboração com Pereira Coelho.

M MALHADAS Numa sentença dada pelo doutor António Guedes Pinto, juiz-de-fora de Miranda do Douro, com alçada por Sua Majestade El-Rei, diz o juiz: que «Manuel Raposo, capitão das Ordenanças do lugar de Malhadas», pediu à Câmara Municipal de Miranda do Douro licença para tapar «hum valle com alguns pedassos de terra lavrantia no sitio de Traz das Pedras, limite do dito povo com caminho do conselho e com José João, que ao todo serão trez geiras». (603) Ver tomo VII, p. 275, destas Memórias.

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MALHADAS

377 TOMO XI

O Senado, atendendo a que não tapava «agoa nem servidão publica», acordou na tapagem a 4 de Janeiro de 1792, mas mandou informar o «Juiz e Homens do Acordão» de Malhadas, que igualmente concordaram por despacho de 26 do mesmo mês de Janeiro. Os Homens do Acórdão eram dois, e um deles chamava-se Manuel Raposo, que não será o da tapagem. Em face destas resoluções, o juiz-de-fora António Guedes Pinto, por sentença dada em Miranda a 13 de Fevereiro de 1792, autorizou Manuel Raposo a proceder à tapagem do vale constante da petição supra, mandando a todas as justiças que o favorecessem nesse trabalho. É provável que este vale seja o Valhico de Tras de la casa, mencionado no tomo IX, pág. 265, e tomo X, pág. 650, destas Memórias, assentando sobre um fundo verdadeiro a lenda com suas adulterações costumadas, convertendo o juiz-de-fora em rei, sugestão lembrada pelo facto de ser seu representante, e o capitão Raposo seu grande amigo (604). Que a família Raposo, de Malhadas, era numerosa e importante, consta de outros documentos existentes no referido arquivo: A 28 de Dezembro de 1771 comprou Maria José Pires Raposo, de Malhadas, a Manuel Martins Cónego, três terras no termo da mesma povoação, confrontando uma delas com Manuel Raposo. A 17 de Março de 1777 comprou Manuel Raposo, de Malhadas, e sua mulher Mariana Pais uma vinha «no vinhalgo», no sítio chamado Ó Porqueiro, por quarenta e cinco mil réis. Em 1790 foi Manuel Raposo fabriqueiro (da igreja?), segundo consta da carta de quitação, onde se declara ter pago tudo. O seguinte documento, além de confirmar o supradito, liga-se às campanhas napoleónicas. Diz ele: «Recebi do Sr. António José Raposo, procurador do Ilustrissimo Senado da Camara desta cidade, duzentos e setenta alqueires do serodio, de trigo ditos tresentos setenta e oito, que remeti para Bragança para fornecimento das tropas, e este recibo ha-de ser resgatado pelo Fornecedor Geral de Bragança o Illustrissimo Senhor Manuel Paulino Ferreira; foi dado o dito pão por ordem do Excelentisimo Senhor Conde de Amarante, e por ser verdade se passou o presente que assigno. Miranda, 8 de Fevereiro de 1812. Francísco José, encarregado do assento»

(604) Ao nosso amigo tenente Manuel Justino de Miranda Raposo, natural de Malhadas, agradecemos a comunicação deste documento, pertencente ao arquivo da sua família.

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MANUSCRITOS

TOMO XI

No mesmo arquivo vi também uma carta escrita em pergaminho, pela qual a Rainha D. Maria I, por decreto de 1 de Setembro de 1845, nomeou João José da Cruz chefe dos Guardas da Alfândega de Miranda. Ignoro se entre este e os Raposos há algum parentesco. Parece ser Malhadas o gineceu dos Raposos, família importante, que bracelou para outras terras, produzindo homens de valor, como são: José António Simões Raposo, nascido na Lagoaça, escritor, director da Escola Normal de Lisboa; doutor Luís António Martins Raposo, natural de Caçarelhos, lente de medicina na Universidade de Coimbra; padre Manuel Vitorino Raposo, autor de uma tese teológica. Ver tomo VII destas Memórias, onde os biografamos; porém, de todos eles, na lenda popular vive apenas o do Valhico de Tras de la casa.

MANUSCRITOS (605) Continuando, como nos tomos anteriores, a resenhar os manuscritos onde se encontram notícias referentes ao distrito de Bragança, encontramos mais os seguintes: Na Torre do Tombo, em Lisboa, há notícias genealógicas sobre as seguintes famílias bragançanas, segundo diz Carlos Alberto Ferreira, Índice Abreviado das Genealogias Manuscritas do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa, 1937: Ansiães (hoje Carrazeda de Ansiães) Matos, de Ansiães — 21. F. 19 f. 210 v. (606). Mesquitas, de Ansiães — 21 F. 42 f. 204. Mesquitas, do Morgado de Selores — 21. F. 7, página 85. Bragança Caldeirões, de Bragança — 21, E. 2 f. 49; E. 23 f. 22 v. (605) Ver tomo VII, p. 719; tomo VIII, p. 85 e 109; tomo X, p. 728. Ver também neste tomo, além de outros, os artigos Freixo de Espada à Cinta, Miranda e Moncorvo. (606) A parte — 21. F. 19 indica a marcação do códice no arquivo, e a seguinte — f. 210 v. o fólio onde se encontra, significando o v. que está no verso do fólio. Quando às vezes aparecem dois ff entende-se que as notícias se encontram duas vezes no códice. Nos «Maços da Mesa Censória» é sempre preciso percorrer as folhas, por figurarem várias vezes os mesmos apelidos.

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MANUSCRITOS

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Carneiros, de Bragança e Trás-os-Montes — Nobiliário das Famílias ilustres de Portugal, ordenado por António Peixoto de Queiroz e Vasconcelos. Ano de 1775, volume 4, f. 200. Ferreiras, de Bragança — 21. E. 18, pág. 137. Tabordas, de Bragança — 21. F. 6, pág. 349; F. 22 f. 175. Meixedo. Ver o artigo Vimioso (Machados). Mogadouro Camelos, do Mogadouro — 21. D. 31, pág. 72. Moncorvo Borges, de Moncorvo — 21. E. 25 f. 459. Carneiros, de Moncorvo — Nobiliário, de Queiroz, acima citado, vol. 4, f. 205 v. Carneiros Varejões, de Moncorvo — 21. E. 2, pág. 265. Matos, de Moncorvo — 21. F. 19, f. 206 v. Matos Botelhos, de Moncorvo — 21. E. 7, pág. 665. Mesquitas Morais, de Moncorvo — 21. E. 7, pág. 89. Vasconcelos Gouveias, de Moncorvo — 21. F. 7, pág. 263. Ousilhão Aires Soares, de Ousilhão de Bragança — Nobiliário, de Queiroz, atrás citado, vol. 30 f. 162. Ribalonga Sampaios, senhores de Ribalonga e Casa de Espinhosa — 21. E. 25, pág. 296. Tuizelo Morais, de Tuizelo — 21. E. 7, pág. 607; F. 25 f. 937. Vilartão, de Monforte — Nobiliário, de Queiroz (ver a descrição deste códice acima, ao tratar de Bragança), vol. 30, f. 161. Vimioso Herreiras, do Vimioso — 21. E. 3, pág. 121. Machados, do Vimioso e Meixedo — 21. E. 6, pág. 289. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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MANUSCRITOS

TOMO XI

Para o Arquivo Distrital de Bragança, adjunto ao museu, vieram, em 1940, os seguintes livros do «Registo Paroquial do Concelho de Chaves», que, em geral, alcançam desde o século XVII até 1830: Águas Frias. Anelhe. Arcossó. Bustelo. Calvão Chaves (mais de quarenta livros). Cimo de Vila da Castanheira. Curalha. Eiras. Lamadarcos. Loivos. Mairos. Monforte de Rio Livre (607). Moreiras. Nogueira. Oura. Outeiro Seco Póvoa de Agrações. Redondelo. Roriz. Salhariz. Samaiões. Sanfins da Castanheira. Sanjurge. Santa Leocádia. Santo Estêvão. São Julião. São Pedro de Agostem. São Vicente da Raia. Seara Velha. Segirei. Selhariz. Soutelo, Soutelinho.

(607) Desde 1819 a Novembro de 1824 houve em Monforte de Rio Livre, vila hoje desaparecida, oito baptizados de crianças nascidas nesta vila, como consta do respectivo livro existente no Museu de Bragança, mas incluídos no livro de baptizados de Águas Frias, onde se declara que Monforte de Rio Livre era então anexa de Águas Frias.

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MANUSCRITOS

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Travancas. Valdanta. Vila Meão. Vilar de Nantes. Vilarelho da Raia. Vilela do Tâmega, Vilela Seca. Vila Verde da Raia. Vilas Boas. Para o Arquivo Distrital de Bragança, adjunto ao museu, vieram também, em 1943, os seguintes livros do «Registo Paroquial do concelho de Mirandela», que, em geral, alcançam do século XVII a 1830, conservando-se os posteriores na Conservatória do Registo Civil em Mirandela, bem como todos os da vila: Abambres. Abreiro. Aguieiras. Alvites. Avidagos. Barcel. Bouça. Cabanelas. Carvalhais. Chelas. Fradizela. Franco. Freixeda. Guide. Mascarenhas. Navalho. Ribeirinha. Romeu. São Salvador. Torre de Dona Chama. Vale de Asnes. Vale da Sancha. Vila Boa. Vila Nova das Patas. Vila Verde. Vilar de Ledra. Vilares. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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MANUSCRITOS

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MANUSCRITOS DO MUSEU DE BRAGANÇA E ARQUIVO DISTRITAL ADJUNTO EXISTENTES EM 1930 VOLUMES

Volumes em papel, encadernados pelo geral em pergaminho ............. Pergaminhos avulsos, desde 1253 por diante (608) ..................................... Volumes em pergaminho ............................................................................ Registo Paroquial. Preciosa colecção, pois alguns datam de 1536, e os mais antigos existentes em Portugal são precisamente desse ano ..........................................................................................................

138 90 10

86

Mais ainda: no livro dos casamentos de Castelo Branco, concelho do Mogadouro, em que há assentos do ano de 1536, encontra-se no fólio 106 um testamento feito em 1531, e, como os baptizados, casamentos e óbitos reunidos no mesmo volume e no dos baptizados faltam alguns fólios, é possível que ainda houvesse assentos anteriores a 1536. Houvesse porém ou deixasse de haver, este livro é uma preciosidade que honra o arquivo. Cartório Administrativo (registo de testamentos, de escrituras de vendas e doações, em geral desde meados do século XVIII tocantes ao concelho de Bragança) ............................................................. Cartório Notarial (testamentos, escrituras de vendas e doações feitas por notários, em geral desde meados do século XVIII, respeitantes ao concelho de Bragança) ....................................................... Cartório do Governo Civil (assuntos administrativos do distrito de Bragança, interessantíssimos alguns para a história das lutas liberais, pelas muitas notícias que encerram respeitantes a diversas revoluções que houve desde 1820 e não menos para a história da arte, indústria, agricultura, etnografia e letras) ...........................................

239

468

216 MAÇOS

Correspondência Episcopal (cartas dos bispos sobre assuntos religiosos, civis e políticos com as diversas entidades, interessantes algumas para a história tanto civil como eclesiástica e até da arte) desde 1546 até 1910 ............................................................................. Correspondência do Governo Civil (cartas, ordens, mandados) .......... Concursos paroquiais e provimentos de freguesias (desde o século XVII e alguns anteriores) ................................................................... Para a história da Diocese ......................................................................... Para a história da Nação ...........................................................................

15 15 21 1 1

(608) Ver tomo III, p. 109, destas Memórias.

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MANUSCRITOS

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MAÇOS

Processos de habilitação de genere de freiras de São Bento, Santa Clara de Bragança e Santa Clara de Vinhais .............................................. Idem, idem de cónegos e para a história biográfico-genealógica dos mesmos .................................................................................................. Para a história da arte ............................................................................... Devassas (inquirições acerca do comportamento moral dos clérigos e dos civis) ............................................................................................... Bens de mão-morta ..................................................................................... Processos de habilitação de genere de ordinandos para os quatro graus de ordens menores, subdiácono, diácono e presbítero .................

6 6 3 1 6 79

Os processos de habilitações de genere têm alto valor para investigações biográficas e genealógicas, por serem acompanhadas das certidões de idade dos justificantes, pais e avós, bem como dos respectivos casamentos e, às vezes, das de tios e outros parentes. Capelas e vínculos de morgadios desde o século XVII .......................... Palestras, conferências eclesiásticas, consultas e vários outros documentos ................................................................................................... Breves de indulgências e altares privilegiados ........................................ Demandas, sentenças judiciais sobre bens eclesiásticos desde o século XVI, sete grossos maços que comportam centenas e centenas de documentos ........................................................................... Frades e Freiras ...........................................................................................

1 1 1

7 1

Forais manuelinos — Treze forais de el-rei D. Manuel I, respeitantes às vilas e cidades de Alfândega da Fé, Ansiães, Bragança, Ervedosa, Frechas, Freixo de Espada à Cinta, Mirandela, Moncorvo, Outeiro, Torre de Dona Chama, Vila Flor, Vimioso e Vinhais. Estes forais, verdadeiras jóias bibliáceas, vieram para o museu por influência do director Dr. Raul Teixeira e bons ofícios do Governador Civil Salvador Nunes Teixeira. Constam de treze volumes escritos em pergaminho, tendo iluminada a primeira página, as letras capitais das outras e na última os vistos dos corregedores, elemento valioso para organizar a série cronológica destes magistrados. A encadernação em tábua, coberta de couro com ferragens e esfera armilar, é tipicamente manuelina. Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501. Consta de 122 fólios de pergaminho (609). (609) Ver tomo III, p. 53, destas Memórias, onde o descrevemos.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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MANUSCRITOS

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Outro livro de pergaminho que contém a cópia autêntica feita por escrivão, das doações, privilégios e outros documentos pertencentes ao mosteiro de Castro de Avelãs. Consta de 58 fólios todos escritos, sem deixar intervalo nenhum entre os documentos. Começa por «D. João, pela graça de Deus», etc. A primeira letra é iluminada. Doações e Privilégios concedidos pelos reis de Portugal ao mosteiro de Castro de Avelãs (610). Contém, a pública-forma destes documentos, feita por tabelião em 1769 (611). É uma cópia dos documentos insertos no códice em pergaminho mencionado na rubrica anterior, acrescida de outros concedidos posteriormente. Este precioso códíce não chegou a entrar no museu; desapareceu na balbúrdia republicana de 1910, estando nessa época na mão do cónego José Maria Ferreira, falecido em Alvites, concelho de Mirandela, em 1940. Ainda perguntei à família por ele e ao pároco de Alvites, mas disseram-me que nada encontraram. Tombo dos bens do benefício de São Vicente, feito em 1674. Interessante para a história local e geral eclesiástica, bem como civil (612). Tombo dos bens do cabido de Miranda, feito em 1691 (613). Manuscritos antigos. Dois volumes, onde estão encadernadas cartas régias, cartas dos duques de Bragança e outros documentos originais referentes a Bragança e, acidentalmente, a outras terras, desde o século XIV por diante. Só há dois volumes; faltam os outros (614). Registo Maior da Câmara de Bragança. Quatro grossos volumes, fólios de papel imperial, onde se registam dia-a-dia, integralmente, cartas régias, cartas de nobreza e brasões de armas, mercês, doações e outros documentos referentes a Bragança, concelho e outras terras memoradas acidentalmente desde o século XVII por diante. Há mais dois volumes, também fólios, mas mais pequenos, que continuam o registo no século XIX.

(610) Ver tomo III, p. 47, destas Memórias, onde o descrevemos. (611) Ibidem. (612) Ver tomo VII, p. 742, destas Memórias, onde o descrevemos e extractamos em partes essenciais. (613) Ibidem, tomo I, p. 377. (614) Ver o nosso volume A Revolução de 1640 no Distrito de Bragança, p. 114, onde o descrevemos.

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MANUSCRITOS

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MANUSCRITOS EXISTENTES NO ARQUIVO DO PAÇO EPISCOPAL DE BRAGANÇA, TAMBÉM CITADO MUITAS VEZES NESTAS «MEMÓRIAS» SOB O NOME DE «ARQUIVO DA C ÂMARA ECLESIÁSTICA DE B RAGANÇA » Habilitações de genere. Há muitos maços de habilitações de genere de ordinários e de outros que ficaram só em prima tonsura, pertencentes a todas as povoações da diocese e estranhas, tanto portuguesas como espanholas. Destas e daquelas, onde se encontram apelidos que podem ter importância genealógica, dou a seguinte relação: Amendoeira — Cepeda. Azinhoso — Giraldes. Aguieiras — Doutel de Figueiredo Sarmento (ramo dos Doutéis de Bragança). Agrochão — Neto paterno de dois padres Doutéis. Ala — Pinto, Escovar, Colmieiro. Algoso — Morais Sarmento, Macedo e Faria, Macedo Madureira, Figueiredo, Chaves Salgado, Pimentel. Almara (Zamora, Espanha). Alvites — Vicente de Bandos Pegado e Sampaio, capitão-mor de Mirandela, figura num processo de habilitação em 1748. Arcas — Pessanhas, Morais. Argozelo — Granjo, Poças Falcão, Quina, Martins Amado, Cepeda. Babe — Ferreira. Bemposta — Giraldes Mondragão, Manso, que foi bispo da Guarda. Bornes — Costa Sá, Franco Português, Alcoforado. Bragada — Monteiro. Bragança — Aires de Morais Sarmento, Antas, Cameirão. Doutéis, Doutéis de Almeida, Ferreira (de Oleirinhos), Figueiredo, Sarmento, Lima Pereira, Lima Sotomaior, Lobão, Morais Antas, Morais Feijó, Nóbrega, Pires de Castro, Preto, Sá Pereira, Tameirão (em 1709); Vasconcelos, Veiga Sampaio, Vergueiro. Bragança e Babe; Bragança e Faiões; Bragança e Viana; Bragança e Vila Flor. Carrazedo de Montenegro, concelho de Valpaços. Chacim — Sá Sarmento Pimentel, com ramificacôes para Carviçais, Mós, Vinhais e Alfândega da Fé, Arnoud (Turim, Itália), Rocha Cabral, Aragão Cabral. Chaves. Cimo de Vila da Castanheira, concelho de Chaves. Curral de Vacas, concelho de Chaves. Casas, concelho de Chaves. Edral, Morais Silva, Morais Sá Sarmento. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Elvas. Espinhoso — Morais Sarmento, Fontoura e Silva. Felgueiras de Ervedosa. Felgueiras de Mirandela. Felgueiras de Moncorvo (ligação com a família do grande químico Tomé Sobral). Ferreira — Lagos. Fiães, concelho de Valpaços, Pereira Pequeno (pessoa nobre). Formil e também Fermil, aparece com duas grafias. Frades — Morais Sarmento. Ferradosa da Fradizela — Lemos, Sampaios. Formentãos, e outras vezes escrevem Fermentãos. Freixo de Espada à Cinta — Chiote, Meireles, Robalo Taborda. Gralhós — Teiga. Guide — Lobão. Izeda — Alves da Veiga, Choa, Giraldes, Morais Cameirão, Ochoa Valente, Teiga. Junqueira, concelho do Vimioso — Giraldes, Pavão. Lagazelhos — Salgado. Lagoa — Amador, Figueiredo e Sampaio, Sarmento. Lama de Ouriço, concelho de Valpaços. Lamalonga — Sá. Lamas — Vergueiro. Lamas de Orelhão — Guedes, Salgado, Vaz Pereira, Sousa. Lamas de Podence — Vergueiro. Lampaça, concelho de Valpaços. Macedo de Cavaleiros — Sarmentos, Giraldes. Macedo Inficcionado (Brasil). Mairos, concelho de Chaves. Mascarenhas — Vergueiro. Meirinhos — Pinto Salgado (este apelido vem de Carviçais). Meles — Morais Sarmento, Colmieiros. Mirandela — Morais Pimentel, Sampaio (é um filho do corregedor, desembargador e escritor Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio) (615), Sequeira Veiga Baía de Morais Sarmento (é um filho de António da Veiga de Sequeira, capitão-mor de Mirandela) (habilitação em 1778). Mofreita — Monfreita nos documentos do século XVIII. Mogadouro — Camelo de Morais, Magalhãis Pinto, Pegado de Magalhãis. Mogrão (Chaves). Moimenta (Muimenta e Monumenta nos documentos do século XVIII) — Abreu, Abreu Sarmento, Barreira, Gil, Gil Lamadeita (é o escritor Gil Lama(615) Ver tomo VII, p. 476, destas Memórias.

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MANUSCRITOS

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deita) (616), mas não tem a certidão, apenas declara ser filho de Francisco Gil e de Isabel Lamadeita, da Moimenta (habilitação em 1683), Macias, Morais Sarmento, Tiza (este apelido foi de Varge e Sacoias para a Moimenta). Moncorvo — Botelho de Vasconcelos (António José). Monte de Arcas, concelho de Valpaços. Moreiras, concelho de Chaves. Mosteiro, concelho de Chaves. Murços (Muçós, nos documentos do século XVIII) Nogueira, Figueiredo. Nozedo de Baixo — Borges. Nozelos de Monforte, concelho de Chaves. Orjais, concelho de Chaves. Oucidres, concelho de Chaves. Outeiro — Albuquerque, Antas, Cavaleiro (veio de Rio Frio de Outeiro), Madureira, Morais Fragoso, Paio, Paiva. Parada de Monforte, Concelho de Chaves. Paradela de Monforte, concelho de Chaves. Parâmio — Abreu. Pardelinhas de Monforte, concelho de Valpaços. Pereiros — Choa. Prada — Padre José Venceslau Rodrigues da Cruz, nasceu em Prada, Concelho de Vinhais, a 28 de Setembro de 1776, filho de Manuel Rodrigues da Cruz, natural de Santa Cruz, e de Maria Rodrigues, de Prada. Foi padrinho António da Cruz, abade de Candedo, onde mais tarde veio suceder-lhe o afilhado. Quintas de Guide — Leitão e Sousa, Sarmento. Quintela de Lampaças — Borges Rebelo. Quiraz — Veiga. Rebordãos — Madureira, Morais Feijó. Rio de Fornos — Sarmento de Morais. Rio Frio de Outeiro — Cavaleiro, Miranda, Pais. Roriz, concelho de Chaves. Sacoias — José António Ferreira Leal (617). Samil — Aires, Figueiredo, Figueiredo Carvalho, Malhão. Samora (Espanha). Santa Cruz de Monforte, concelho de Chaves. Santalha — Barreira. Santarém — Padre José Augusto César e Silva (habilit. em 1879). Santa Valha, concelho de Valpaços. (616) Ver tomo VII, p. 259, destas Memórias. (617) Ibidem, p. 261.

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Santulhão — Freire, Miranda, Pimentel, Pissarro. São Cornélio, concelho de Chaves. São Fins da Castanheira, concelho de Chaves. São Julião, concelho de Chaves. São Pedro da Silva — Torrão. São Pedro Velho — Morais Falcões, Morais Madureiras. São Vicente, concelho de Chaves. Sernache do Bonjardim. Sobreiró — Faria, Lobão, Morais, Morais Soutelo, Roxas. Soutilha — Colmieiro. Tinhela, concelho de Valpaços. Tortomil, concelho de Valpaços. Travanca de Algoso — Giraldes. Travanca de Macedo — Moura Carvalhais, Silva (D. Maria Joaquina da Silva). Travancas, concelho de Chaves. Torre de Dona Chama — Figueiredo, Lobão Castro Sarmento de Azevedo Sousa, filho de António Manuel de Lobão Morais Castro Sarmento, governador do forte de São Neutel de Chaves. Habilitação em 1811. Loureiro Figueiredo, Morais Sarmento, Sarmento do Lago. Vassal, concelho de Valpaços. Vila Flor — Lobão. Vila Nova de Oucidres, concelho de Valpaços. Vila Real. Vilar de Ossos — Pinto Bacelar. Vilartão, concelho de Valpaços — Ferreira Sarmento, Frias, Morais Soares Sarmento. Vimioso — Figueiredo Mendes Antas Campos, Giraldes de Quina, Janóz, Machado, Morais Antas, Ordaz Mangas, Quina, Sampaio e Melo. Vinhais — Campos, Costa Pessoa, Doutel, Ferreira Sarmento, Figueiredo Sarmento, Gomes de Almendra, Morais Sarmento, Sá Sarmento, Veiga. Zidro, é como escrevem os habilitandos.

––––––––– Registo Paroquial. No Arquivo do Paço Episcopal de Bragança, também conhecido por Arquivo da Câmara Eclesiástica de Bragança, conservam-se mais de quatrocentos livros do «Registo Paroquial da Diocese», e ainda os seguintes das freguesias que passaram para a de Vila Real, e são os de: Barreiros, Cimo de Vila da Castanheira, Lebução, Mairos, Roriz e São Fins da Castanheira. Dos meados do século XVI há neste Arquivo do Paço os seguintes livros do «Registo Paroquial»: MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


MANUSCRITOS

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ANOS RESPECTIVOS

Biduedo (sic) ...................... Bragança (Santa Maria) ... Cicouro ............................... Carragosa ............................ Figueira (Mogadouro) Freixiosa ............................. Gouveia ............................... Ifanes ................................... Junqueira ............................ Mirandela ........................... Mogadouro ......................... Peredo ................................. Rabal ................................... Rio de Onor ....................... Suçães (Sucanis nos assentos) ................................ Travafica (Mogadouro) Valverde .............................. Vila dos Sinos .................... Vilar de Baixo ....................

1560 1558 1574 1582 1560 1582 1575 1568 1560 1567 1560 1590 1560 1580 1559 1560 1575 1560 1582

Do século XVII há os seguintes:

Aguieiras ............................. Aldeia Nova ....................... Algoso ................................. Alvites ................................. Amendoeira ........................ Argozelo .............................. Assoreira ............................. Azinhoso ............................. Atenor ................................. Aveleda ............................... Avidagos ............................. Babe ..................................... Beira Grande ...................... Benlhevai ............................ Bornes ................................. Brunhoso ............................ Caçarelhos .......................... Cardenha ............................ Carrazeda de Ansiães ........

1607 1670 1603 1681 1689 1658 1660 1670 1636 1650 1682 1604 1691 1602 1660 1637 1627 1610 1670

ANOS RESPECTIVOS

Carviçais ............................. Castelo ................................ Castrelos ............................. Cedães ................................. Constantim ........................ Duas Igrejas ....................... Estevais ............................... Espinhosela ........................ Ferradosa ............................ Fonte Ladrão ...................... França ................................. Franco ................................. Frechas ................................ Gimonde ............................. Grijó de Parada ................. Lamas de Orelhão ............. Lombo ................................. Malhadas ............................ Marmelos ............................ Marzagão ............................ Mascarenhas ....................... Meixedo .............................. Mofreita .............................. Moncorvo ........................... Mourão ............................... Nabo .................................... Outeiro ............................... Palaçoulo ............................ Paradela (Miranda) ........... Parambos ............................ Parâmio .............................. Pinhal .................................. Pinelo .................................. Ribalonga ............................ Rio Frio .............................. Roças ................................... Roios ................................... Roriz .................................... Sanhoane ............................ Santa Comba da Vilariça . São Fins da Castanheira ...

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

1650 1694 1630 1696 1657 1633 1672 1649 1663 1686 1659 1669 1615 1603 1683 1630 1694 1633 1672 1637 1692 1612 1682 1668 1683 1663 1665 1650 1614 1650 1669 1690 1666 1681 1676 1650 1643 1688 1650 1600 e fa 1660

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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MANUSCRITOS

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ANOS RESPECTIVOS

São Julião ............................ São Martinho de Angueira Seixas ................................... Sobreiró .............................. Soeira .................................. Soutelo de Gamoeda ........ Tó ........................................ Travanca ............................. Vale das Fontes ................. Vale Frechoso .................... Vale de Torno ....................

1680 1643 1646 1640 1658 1640 1608 1565 1674 1680 1600

ANOS RESPECTIVOS

Vales (Santa Cruz dos) Alfândega da Fé .............. Variz .................................... Veiga ................................... Vila de Ala ......................... Vila Boa (Moncorvo) ....... Vila Nova de Donai .......... Vilar de Ledra .................... Vilarelhos ........................... Vilarinho de Lomba ......... Vimioso ..............................

1680 1688 1654 1681 1641 1606 1613 1661 1648 1634

––––––––– Das Cortes do Reino de Portugal, Lisboa, 1941, por Joaquim Leitão, secretário da Academia de Ciências de Lisboa, onde se dá notícia, em forma de inventário, das cortes celebradas em Portugal, extraímos as seguintes informações, constantes dos códices abaixo citados: Página 145 — Capítulos especiais dados a Bragança nas cortes celebradas em Lisboa no ano de 1440, que diz estarem no fólio 29 verso do livro 2.° da Chancelaria do Rei D. Afonso V. Na pág. 231, diz que também se encontram no livro 4.° Além-Douro, fólio 223. Pág. 167 — Capítulos especiais dados a Bragança nas cortes de Évora, celebradas em 1490, que diz estarem no fólio 131 do livro 16 da Chancelaria do Rei D. João II. Na pág. 239 diz que também se encontram no livro 3.° Além-Douro, fólio 95 verso. Pág. 186 — Capítulos especiais dados a Bragança nas cortes de Santarém, celebradas em 1331, que diz estarem na Colecção de Cortes, vol. I, gaveta 8, maço 1, n.° 12. Pág. 243 — Capítulo especial dado a Bragança nas cortes de Lisboa, celebradas em 1498, que diz estar no livro 1.° de Além-Douro, fólio 214 v. Pág. 313 — Procuração da Câmara de Bragança. Está no códice Cortes, maço 19 (cópias), n.° 14, anos de 1641-1642-1645. Pág. 345 — Procuração da Câmara de Bragança com respostas a Capítulos. Tem junto a resposta do Procurador da vila de Chaves. Ano 1641. Está no códice Cortes, maço 10, n.° 14. Pág. 501 — Agravamentos especiais do concelho de Bragança, apresentados nas cortes de Santarém, celebradas em 1331 (era 1369). Estão na Colecção MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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de Legislação. Trigoso, vol. 1, documento 12, maço 1, gaveta 8, págs. 648 a 653. Na pág. 616 diz que também se encontram no códice 705 da Biblioteca da Universidade de Coimbra, fólio 461.

––––––––– Graças às benéficas informações do meu amigo Dr. Hermilo Branco Ramalhete, ilustrado professor da Universidade de Liverpool (Inglaterra), soube que no rico Arquivo da Casa de Bragança, existente em Lisboa na rua de Vítor Cardoso, n.° 44, havia os seguintes livros manuscritos referentes ao distrito de Bragança: Tombo do Almoxarifado da Cidade e Sereníssima Casa de Bragança — Livro I — 26 de Outubro de 1799, 364 fólios (numeração geral 568). Idem — Livro II — Agosto de 1712, de folhas 364 a 819 (numeração geral 569). Estes dois códices têm encadernação de couro com fechos e cantos de metal. L...... 1 do Tombo do Almoxarifado da Cidade e Sereníssima Casa de Bragança, 410 fólios (numeração geral 79). Idem L...... 2, de 589 fólios (numeração geral 684). Almoxarifado de Bragança — Documentos para a reivindicação dos foros pertencentes a este almoxarifado, 567 fólios (numeração geral 618). Idem, de 181 fólios (numeração geral 619). Registo do Almoxarifado de Bragança — Bragança, 3 de Dezembro de 1760, 231 fólios (numeração geral 570). Almoxarifado de Bragança — Autos de informação e averiguação pelos tombos do dito almoxarifado, mandados fazer por provisões régias em 1766 pelo Corregedor e Intendente dos Almoxarifados da Sereníssima Casa de Bragança, o Doutor Lopes de Azevedo. No mesmo arquivo há mais de vinte livros respeitantes a Chaves, de mais de quinhentos fólios cada, e também os há tocantes a Barroso. Por intervenção do Dr. Hermilo Branco Ramalhete, o falecido administrador geral da Antiga Casa de Bragança (rua Vítor Cardoso, 44 — Lisboa), Dr. Eduardo Fernandes de Oliveira, mandou-nos a cópia dos índices seguintes: «Indice do Tombo n.° geral 79 do Almoxarifado de Bragança CERTIDÃO em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação do lemite da Igreja de Santa Maria da Cidade de Bragança em o lugar de GRIJÓ DE PARADA — 74; MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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MANUSCRITOS

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em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação do lemite da Igreja de Santa Maria da Cidade de Bragança em o lugar de SAMIL e QUINTA DA CABEÇA BOA — 65 N; em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação do lemite da Igreja de Santa Maria da Cidade de Bragança em VAL DE BISCAIO — 70; em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação do lemite da Igreja de S. João da Cidade de Bragança em o lugar de VAL DE LAMAS — 80; CERTIDÃO em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação dos lemites das Igrejas de Santa Maria e São João Batista da Cidade de Bragança — 58; em como foram citados os foreiros para o reconhecimento do foro do casal do lugar de BAGUEIXE — 331 N; em como foram citados os confrontantes e foreiros para a medição e demarcação do casal do lugar de BAGUEIXE — 337; em como foram citados os foreiros para o reconhecimento do foro do casal do lugar de CASTELLÕES — 249. em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação do casal de CASTELLÕES — 255; em como foram citados os foreiros para o reconhecimento do foro do CASAL que foi de Gaspar João — 375; em como foram citados os foreiros e confrontantes para a medição e demarcação do casal do lugar de MORAIS, que se arrematou a Gaspar João — 386; de como foram citados os foreiros e foreiras para o reconhecimento do foro do casal do lugar de MORAIS — 361; em como foram citados os confrontantes e foreiros para a medição e demarcação do casal de MORAIS que se arrematou a Francisco Gonçalves — 397. CERTIDÃO em como foram citados os foreiros e confrontantes para a medição e demarcação do casal do lugar de M ORAIS que se arrematou a Pedro Gomes — 406; em como foram citados os foreiros e confrontantes para a medição e demarcação do casal de MORAIS — 370; em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação das casas sitas na PRAÇA DO COLLEGIO — 107; de como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação do Reguengo do lugar de SANTA COMBINHA — 197; em como foram citados os confrontantes e foreiros para a medição e demarcação do Reguengo do lugar de PENELLA — 301; em como foram citados os foreiros para o reconhecimento do foro do Reguengo da vila e julgado de VAL DE NOGUEIRA — 228; MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


MANUSCRITOS

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de como foram citados os foreiros e confrontantes para a medição e demarcação do Reguengo da VILLA ALVA — 283; em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação do Reguengo de MACEDO DE CAVALLEIROS — 323; de como foram citados os confrontantes e foreiros para a medição e demarcação do Reguengo do lugar de FREIXEDA — 291; de como foram citados os confrontantes para assistirem à medição do Reguengo de VAL DE NOGUEIRA — 230. CERTIDÃO em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação da TERRA DE CAMPELLO — 113. MEDIÇÃO e demarcação do lemite da Igreja de São Bento da vila de VILLA FRANCA DE LAMPAÇAS — 216; e demarcação do lemite da Igreja de SANTA COMBINHA — 181; e demarcação do lemite da Igreja de São Geraldo do lugar de CARRAPATOS — 344 e do termo do mesmo lugar; e demarcação do lemite da Igreja de São João da Cidade de Bragança em o lugar de VAL DE LAMAS, que consta de todo o termo do mesmo logar — 75; e demarcação do lemite da Igreja de Santa Maria da Cidade de Bragança em VAL DE BYSCAIO, no termo do lugar d’ALFAIÃO — 67; e demarcação do lemite da Igreja de Santa Maria da Cidade de Bragança em o lugar de SAMIL e QUINTA DE CABEÇA BOA, que consta de todo o termo do mesmo lugar e quinta, exceto do — Eirollo — fora dos afumados do dito lugar — 61; e demarcação do lemite da Igreja de Santa Maria da Cidade de Bragança no termo do lugar de GRIJÓ DE PARADA — 79; e demarcação do lemite d’Abadia de Santa Maria e Igreja de Nossa Senhora d’Assunção do lugar de VAL BEMFEITO — 235. MEDIÇÃO e demarcação do lemite das Igrejas de Santa Maria e de São João Batista da Cidade de Bragança, que consta de todo o lemite da mesma Cidade, menos o lemite que dentro d’elle tem a Igreja de São Vicente e benefício d’ella — 51; e demarcação do lemite d’Abadia da Igreja de Santa Marinha do lugar de ADROZO — 172; e demarcação do lemite da Igreja de São Miguel do lugar de TALHAS — 354; e demarcação do termo do lugar de V ALDREZ , lemite da Igreja de São Miguel do mesmo lugar — 259; e demarcação do termo do lugar de VAL DE PORCA, lemite da Igreja de São Vicente do mesmo lugar — 202; e demarcação do lemite do benefício da igreja de São Vicente da cidade de Bragança — 83; MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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e demarcação do termo do lugar de MACEDO DO MATTO, lemite da Igreja de Nossa Senhora da Purificação, do mesmo lugar — 267. REQUERIMENTO d’audiencia que se sitam os confrontadores para as medições, e os enphiteutas para o reconhecimento dos foros — 6. TERMO de como o Juiz do Tombo vio a Carta do cargo, e offício do Alcayde Mór da Cidade de Bragança e reconhecimento que fez Lazaro de Figueiredo Sarmento Madureira, proprietario d’elle — 9. TERMO de como o Juiz do Tombo vio a Carta de cargo d’Ouvidor da Cidade e Comarca de Bragança, e reconhecimento que fez o Doutor João Botelho de Lucena, Ouvidor da dita Cidade — 10; de como o Juiz do Tombo achou pertencer ao Estado da Serenissima Casa de Bragança a data do officio de Escrivão da Camara da dita Cidade e estar vago por fallecimento de Sebastião Machado de Figueiredo, ultimo proprietario d’elle — 17; de como o Juiz do Tombo vio o Alvará da mercê dos officios de Contador, Enqueredor e Destribuidor da Cidade de Bragança e reconhecimento que fez D. Serafina Maria, proprietaria d’elles — 26; de como o Juiz do Tombo viu o Alvará do officio de Escrivão do Almoxarifado e direitos reais da cidade de Bragança e reconhecimento que fez Francisco Pegado, proprietario d’elle — 38. PROPRIEDADES BAGUEIXE, que paga em cada anno 6 1/2 alqueires de pão meado trigo e centeio pela medida nova — 329-26; do lugar de CASTELLÕES, de que são possuidores Domingos Gonçalves e sua mulher Anna Fernandes — 247-54; no lugar de MORAES, que foi de Gonçalo Affonso, de que paga em cada ano 400 reis em dinheiro (outro) — 372-1; no lugar de MORAIS, que foi de João Gomes de Figueiredo, de que se ha-de pagar de fôro e pensão em cada um anno 800 reis em dinheiro (outro) — 387-5; no lugar de MORAES, que foi de Manuel da Rocha Madureira, de que se ha-de pagar de fôro e pensão em cada um anno 150 reis em dinheiro (o) — 398-5; no lugar de MORAES, que foi de Rodrigo Annes e de Pedro Giraldes, de que se paga em cada um ano 38 alqueires de trigo pela medida velha e duas galinhas — 358-4; CASAS que foram de Antonio Doutel d’Almeida e uma vinha, sitas na Praça do Collegio da mesma Cidade e paga de foro 8$000 reis em dinheiro — 101; CASAL

DO LUGAR DE

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


MANUSCRITOS

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na rua dos Oleiros da Cidade de Bragança, que serviram da Fabrica da Seda da Sereníssima Casa — 90-41; CASAS, chamadas das VALENÇAS, sitas na Praça do Collegio da mesma Cidade, de que paga de foro 4$000 reis em dinheiro — 98. MEDIÇÃO e demarcação do casal do lugar de BAGUEIXE e das propriedades d’elle — 332; e demarcação do casal do lugar de CASTELLÕES e das propriedades d’elle — 250; e demarcação do casal do lugar de MORAES, que se arrematou a Francisco Gonçalves do mesmo lugar — 390; e demarcação do casal chamado de MORAES, que se arrematou a Gaspar João do mesmo lugar — 375; e demarcação do casal do lugar de M ORAES, que se arrematou a Pedro Gomes do mesmo lugar — 400, e demarcação do casal do lugar de MORAES, que foi de Rodrigo Annes e Pedro Giraldes — 361; e demarcação das CASAS e VINHAS que se arremataram a Antonio Deutel de Almeida da Cidade de Bragança — 104-42; e demarcação das casas da Fabrica da Seda da Cidade de Bragança, que estão na rua dos Oleiros da mesma Cidade — 92; e demarcação das casas chamadas das VALENÇAS, sitas na Praça do Collegio da Cidade de Bragança — 100; e demarcação do lugar do Reguengo da FREIXEDA, que consta de todo o termo do mesmo lugar — 287; e demarcação do lugar do Reguengo de M ACEDO DE CAVALLEIROS , que consta de todo o termo do mesmo lugar — 318. MEDIÇÃO e demarcação do Reguengo do lugar de PINELLA — 297; e demarcação do Reguengo do lugar de SANTA COMBINHA, que está junto a uma capella da invocação de São Simão no sitio da Junqueira ao Prado de Macedo — 193; e demarcação do Reguengo da VILLA ALVA — 279; e demarcação do Reguengo do julgado da Villa de VALLE NOGUEIRA — 228; e demarcação da T ERRA DE CAMPELLO , que foi arrematada a Francisco Gonçalves Gallego da Cidade de Bragança — 111-42. REGUENGO do lugar de FREIXEDA, que consta de todo o termo e lemite do mesmo lugar, de que paga de fôro 12 alqueires de trigo pela medida velha e 129 reis em dinheiro — 284; do lugar de MACEDO DE CAVALLEIROS, que consta de 31 casaes, que pagam de fôro e penção 746 alqueires de pão meado, trigo e centeio pela medida nova — 317; MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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do lugar de P INELLA , que consta de 7 casaes de que pagam os moradores em cada um anno 45 alqueires de centeio e 7 de trigo, tudo pela medida velha, e 435 reis em dinheiro — 293; do lugar de SANTA COMBINHA, termo da Cidade de Bragança, de que paga, de foro 37 1/2 alqueires de trigo e 22 1/2 de centeio pela medida velha e 200 reis de marrãs — 188. REGUENGO DE VILLA ALVA, que consta de 8 casaes no lugar de Macedo, de que paga de fôro e penção 50 alqueires de trigo e 110 alqueires de centeio tudo pela medida velha, 1 carneiro e 10 gallinhas — 274-43 a 46; da VILLA E JULGADO DE VAL DE NOGUEIRA, comarca da Cidade de Bragança, de que paga de fôro ou penção 48 alqueires de trigo pela medida velha e 520 reis em dinheiro — 224. TERRA DE CAMPELLO, que foi arrematada por dividas a Francisco Gonçalves Gallego — 108-42».

«Indice do Tombo n.° geral 568 do Almoxarifado de Bragança APPRESENTAÇÃO da Abbadia de São Pedro do lugar de CARÇÃOSINHO DE SARAPICOS — 313; da Abbadia de Nossa Senhora da Assunção do lugar de Q UINTELLA DE LAMPASSAS — 279; da Abbadia de Santa Maria do lugar de TALHINAS — 362; da Reitoria de São Pedro de MACEDO DE CAVALLEIROS (medição e demarcação do lugar) — f. 285-282. AUTOS do Tombo, medição e demarcação dos bens, foros e pertenças tocantes ao Almoxarifado da Serenissima Casa e Cidade de Bragança, que se manda fazer por Alvará de Sua Magestade, que Deus guarde — 1. CERTIDÃO em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação do lemite da Igreja de São Bento da villa de VILLA FRANCA DE LAMPAÇAS , e termo da mesma villa — 200. em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação do lemite da Igreja de São Geraldo do lugar de CARRAPATOS — 311; em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação do lemite da Igreja de São João da Cidade de Bragança em o lugar de VAL DE LAMAS, que consta de todo o termo do mesmo lugar — 82; em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação da Igreja de São Miguel do lugar de TALHAS — 319; MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação do lemite da lgreja de Santa Comba do lugar de S ANTA COMBINHA — 173; em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação do lemite da lgreja de Santa Maria da Cidade de Bragança em o lugar de GRIJÓ DE PARADA — 77; em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação dos lemites das Igrejas de Santa Maria e São João Batista da Cidade de Bragança — 61; em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação do lemite da igreja de Santa Maria da Cidade de Bragança em o lugar de SAMIL E QUINTA DA CABEÇA BOA — 68; em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação do lemite da Igreja de Santa Maria da Cidade de Bragança em VAL DE BISCAYO — 73; de como foram citados os foreiros para o reconhecimento do fôro do casal do lugar de BAGUEIXE — 296; de como foram citados os confrontantes e foreiros para a medição e demarcação do casal de BAGUEIXE — 301; de como foram citados os foreiros para o reconhecimento do foro do casal do lugar de CASTELLÕES — 225; de como foram citados os possuidores do casal chamado dos MACEDOS, no termo da medição e demarcação — 292; em como foram citados os foreiros para o reconhecimento do foro do casal de M ORAES, no termo do reconhecimento — 323; em como foram citados os foreiros e confrontantes para a medição e demarcação do casal do lugar de MORAES, que foi de Rodrigo Annes e de Pedro Gonçalves — 330; em como foram citados os foreiros e confrontantes para a medição e demarcação do casal do lugar de MORAES, que se arrematou a Gaspar João do mesmo lugar — 344; em como foram citados os confrontantes e foreiros para a medição do casal do lugar de MORAES, que se arrematou a Francisco Gonçalves do mesmo lugar — 353; em como foram citados os foreiros e confrontantes para a medição e demarcação do casal do lugar de M ORAIS, que se arrematou a Pedro Gomes do mesmo lugar — 360; em como foram citados os confrontantes para a medição e demarcação do Reguengo do lugar de M ACEDO DE CAVALLEIROS e os foreiros do mesmo Reguengo — 289; em como foram citados os confrontantes e foreiros para a medição e demarcação do Reguengo do lugar de PENELLA — 269; MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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em como foram citados os confrontadores para a medição e demarcação do Reguengo do lugar de SANTA COMBINHA — 180. MEDIÇÃO e demarcação do lemite da Igreja de Santa Maria da Cidade de Bragança no termo do lugar de GRIJÓ DE PARADA — 75; e demarcação do lemite da Igreja de Santa Maria da Cidade de Bragança em o lugar de SAMIL E QUINTA DA CABEÇA BOA, que consta de todo o termo do mesmo lugar e quinta, exceto o lemite do Eyrolo fora dos asumados do dito lugar — 64; e demarcação do lemite da Igreja de Santa Maria da Cidade de Bragança em VAL DE B ISCAYO, no termo do lugar de ALFAYÃO — 70; e medição do lemite da Igreja de São João da Cidade de Bragança em o lugar VAL DE LAMAS, que consta de todo o termo do mesmo lugar — 78; e medição do lemite do beneficio da Igreja de São Vicente da Cidade de Bragança — 85. RECONHECIMENTO que fez o Reverendo Antonio Rodrigues, confirmado da Igreja de São Geraldo do lugar de CARRAPATOS, da terça do dizimo da dita Igreja e lugar (medição e demarcação a f. 307 N) — 306; que fez o Reverendo Domingos Pires Urbano, Prior da Igreja de Santa Maria, da terça do dizimo da dita Igreja e Cidade — 51; e que fez Francisco Gomes, Procurador do Reverendo José de Mello, Beneficiado da Igreja de São Vicente, da terça dos dizimos dos frutos do lemite do Beneficiado da Igreja de São Vicente da Cidade de Bragança — 83; que fez o Reverendo Francisco Teixeira Delgado, Abbade da Abbadia de Santa Maria e Igreja de Nossa Senhora da Assunção, da terça do dizimo da Abbadia da Igreja de Santa Maria de VAL DE BEMFEITO — m. e d. — a f. 212 N — 211; que fez o Reverendo Francisco Soares Machado, Abbade da Igreja de Santa Comba do lugar de SANTA COMBINHA, da terça do dizimo do dito lugar (medição e demarcação a f. 167 N) — 165; que fez Henrique Vicente de Tavora, Abbade da igreja de São Geraldo da terça do dizimo da dita Igreja do lugar de BAMREZES (medição e demarcação a f. 220) — 219; que fez o Reverendo João Affonso Freire, Abbade da Igreja de Nossa Senhora da Purificação do lugar de M ACEDO DE MATTO, da terça do dominio da Igreja do dito lugar (medição e demarcação do dito lugar a f. 240 N) — 239; de que fez o Reverendo João de Barros Pereira, Abbade da Igreja de Santa Marinha, ao lugar de ADROSO — do terço do dizimo da dita Igreja e lugar (medição e demarcação do dito lugar a f. 160) — 159. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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que fez o Reverendo João Ferreira Sarmento, Abbade da Igreja de São Bento, do terço do dizimo da dita Igreja da villa de VILLA FRANCA (medição e demarcação a f. 196) — 193; que fez o Reverendo João Ferreira Sarmento, Abbade da igreja de São Miguel, do lugar de VALDREZ, da terça do dizimo da dita Igreja e lugar — 233; que fez o Reverendo José da Rocha, Abbade da Igreja de São Miguel, do lugar das TALHAS, da terça do dizimo da dita Igreja e lugar (medição e demarcação a f. 316) — 315. que fez o Reverendo Manuel Camello de Moraes, Abbade da igreja de São João da Cidade de Bragança, da terça do dizimo da dita Igreja (medição e demarcação a f. 53) — 51; que fez o Reverendo Rodrigo de Sá Soares, Abbade da Igreja de São Vicente, da terça do dizimo da dita Igreja, do lugar VAL DA P ORCA (medição e demarcação do dito lugar a f. 184) — 183; TERMO de como o Juiz do Tombo vio o Alvará d’um dos Officios de Tabellião do Judicial e notas da Cidade de Bragança e reconhecimento que fez por seu procurador e serventuario Antonio Gomes da Rocha, proprietario d’elles — 24; de como o Juiz do Tombo vio o Alvará d’um dos Officios de Tabellião do Judicial e notas da Cidade de Bragança e reconhecimento que fez Maria Camelia de Moraes, proprietaria d’elles — 22; de como o Juiz do Tombo vio o Alvará d’um Officio de Tabellião do Judicial e notas da Cidade de Bragança e reconhecimento que fez por sua tutora Jeronimo Sanches de Castro, proprietario d’elles — 23; de como o Juiz do Tombo vio o Alvará dos Officios de Tabellião do Judicial e notas da Cidade de Bragança e reconhecimento que fez André Soares Madureira, proprietario d’elles — 21; de como o Juiz do Tombo vio o Alvará do Officio d’Escrivão do Almoxarifado e direitos da Cidade de Bragança e reconhecimento que fez Francisco Rogado, proprietario d’elles — 38; de como o Juiz do Tombo vio a carta de Officio d’Escrivão da comarca e correcção da Cidade de Bragança e reconhecimento que fez Luiz d’Abreu das Arcas, proprietario d’elle — 13; de como o Juiz do Tombo vio a carta do cargo d’Ovidor da Cidade e comarca de Bragança e reconhecimento que fez o Doutor João Botelho de Lucena, Ouvidor da dita Cidade e comarca — 11; de como o Juiz do Tombo vio a carta do cargo e Officio de Alcayde mór da Cidade de Bragança e reconhecimento que fez Lazaro de Figueiredo Sarmento e Madeira, proprietario d’elle — 10; de como o Juiz do Tombo vio a carta d’Officio de Meirinho da comarca e correcção da Cidade de Bragança e reconhecimento que fez Jacinto Marinho da Costa, proprietario delle — 15; MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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de como o Juiz do Tombo vio a carta d’Escrivão d’Almotaçaria da Cidade de Bragança e reconhecimento que fez Diogo Monteiro, proprietario d’elle — 19. TERMO de como o Juiz do Tombo vio a carta dos Officios do Tabellião do Judicial a notas da Cidade de Bragança e reconhecimento que fez Antonio de Morais Pinto, proprietario d’elle — 10; de como o Juiz do Tombo vio a carta do cargo de Juiz de Fóra da Cidade de Bragança e reconhecimento que fez o Doutor José de Barros, Juiz de Fóra della — 17; de como o Juiz do Tombo vio a carta do Officio de porteiro dos Orfãos do Ramo de Lampaças da Cidade de Bragança e reconhecimento que fez José Rodrigues, proprietario d’elle — 35; de como o Juiz do Tombo vio a carta de collação da Abbadia e reconhecimento do Reverendo Abbade — 210; de como o Juiz do Tombo vio a carta de collação da Abbadia e reconhecimento do Reverendo Abbade — 362; de como o Juiz do Tombo viu a carta dos Officios de Escrivão da Camara, Almutaceria, Judicial, Notas e Orfãos da Villa e Julgado de Val de Nogueira e reconhecimento que fez Balthazar Borges, proprietario d’elles — 202; de como o Juiz do Tombo viu a carta dos Officios d’Escrivão da Camara, Almutaceria, Judicial, Notas e Orfãos da villa de Villa Franca de Lampaças e reconhecimento que fez João de Figueiredo, proprietario d’elles — 192; de como o Juiz do Tombo vio o foral da Cidade de Bragança e Tombo velho, e reconhecimento que fez Henrique Novaes, rendeiro da renda das pastagens e gado do vento e pena d’arma — 44; de como o Juiz do Tombo vio o foral da Cidade de Bragança e Tombo velho, reconhecimento que fez Henrique Novaes, rendeiro da renda da dizima da execução das sentenças — 43; de como o Juiz do Tombo vio o foral da Cidade de Bragança e Tombo velho e reconhecimento que fez Henrique Novaes, rendeiro da renda das sacadas — 42; de como o Juiz do Tombo vio o provimento do Officio d’Escrivão da Ovedoria da Cidade de Bragança, que vagou por fallecimento de Francisco da Silva de Figueiredo, e reconhecimento que fez Caetano da Silva de Figueiredo, serventuario d’elles — 12; de como o Juiz do Tombo vio a Provisão do cargo de Procurador do Estado e Serenissima Casa de Bragança e reconhecimento que fez Bento de Moraes Pereira — 39; de como o Juiz do Tombo vio o Tombo velho e achou estarem vagos dois officios de porteiro dos Orfãos da cidade de Bragança — 36; de como o Juiz do Tombo viu o Tombo velho e reconhecimento que fez do Officio d’Almoxarife e Juiz dos direitos reaes o Doutor João MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Botelho de Lucena, Ouvidor da Cidade de Bragança e serventuario do dito Officio da mesma Cidade — 37; de como o Juiz do Tombo vio o Tombo velho e foral da Cidade de Bragança e reconhecimento que fizeram os Tabelliaens declarados no mesmo termo de pensão de mil e oito reis que paga cada tabellião cada anno — 49; de como o Juiz do Tombo vio o Tombo velho e reconhecimento que fez do Officio de porteiro da Camara da Cidade de Bragança Manuel Rodrigues Diabo, serventuario d’elle — 30; de como o Juiz do Tombo vio o Tombo velho e achou que pertence ao Estado e Serenissima Casa de Bragança a data d’um dos Officios d’Escrivão do Judicial e notas da cidade de Bragança que está vago por fallecimento de Pedro Ferreira, ultimo proprietario que foi do dito Officio — 26; de como o Juiz do Tombo foi ás casas da Camara da Cidade de Bragança e reconhecimento que fizeram os Vereadores e mais Officiais da dita Camara — 9; de como o Juiz do Tombo foi ás casas da Camara da Villa e Julgado de VAL DE NOGUEIRA, e reconhecimento que fizeram os Officiaes da dita Camara e Julgado — 201; de como o Juiz do Tombo foi ás casas da Camara da villa de VAL DE PRADOSO GRANDE, e reconhecimento que fizeram os Officiaes da dita Camara — 181; de como o Juiz do Tombo foi ás casas da Camara da villa de VILLA FRANCA DE L AMPAÇAS , e reconhecimento que fizeram os Oficiaes da dita Camara — 190; como o Juiz do Tombo achou estar vago o Officio de Fiel das Appelações Crimes de toda a Comarca da cidade de Bragança, de que foi proprietario Antonio Dias Moraes — 16; de como o Juiz do Tombo achou estar vago o Officio de Tabellião de judicial e notas da Cidade de Bragança, de que foi proprietario Jeronimo Nunes, da Cidade de Lisboa, e reconhecimento que fez Francisco Corrêa, serventuario do dito Officio — 25; vago o Officio de Escrivão dos Orfãos da Cidade de Bragança, de que foi proprietario Francisco da Silva Figueiredo — 34; de como o Juiz do Tombo achou pertencer ao Estado e Serenissima Casa de Bragança insolidum a data do Officio de porteiro da Ouvedoria e Correcção da Cidade de Bragança — 16; de como o Juiz do Tombo achou pertencer ao Estado e Serenissima Casa de Bragança a data de um Officio d’Escrivão da Ouvedoria e Correcção da Cidade de Bragança, de que é proprietario João de Magalhães Fontaura; de como se juntou a estes auctos uma pensão do procurador do Estado de Bragança com uma provisão de Sua Magestade que Deos guarde, para MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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effeito de serem citados os concelhos que confinam com as terras do Almoxarifado da Cidade e Serenissima Casa de Bragança — 40; de como se juntou a estes auctos a ordem da Junta do Estado da Serenissima Casa de Bragança sob a peça de louça que pretendia levar o Alcayde mór da Cidade de Bragança — 45; de louvação que fez o procurador do Tombo, e Eugénio Gomes, mestre da Fabrica de Seda da Cidade de Bragança — 93; de eleição de medidores para a medição e demarcação do juramento que houveram — 8; de requerimento da audiencia que se sitam os confrontadores para as medições e os emphyteutas, para o reconhecimento dos foros — 7. PROPRIEDADES CASAS que foram d’Antonio Doutel d’Almeida, sitas na Praça do Collegio, e uma vinha que hoje está morta no lemite das CARVAS, de que se paga em cada anno oito mil reis em dinheiro (medição e demarcação das ditas casas a f. 102) — 100; que foram de Francisco Gonçalves Gallego, sitas na rua dos Oleiros, em que está a fabrica de Seda da Cidade de Bragança (medição e demarcação das casas na rua dos Oleiros a f. 92) — 90; chamadas das VALENCAS , sitas na Praça do Collegio da Cidade de Bragança, de que se pagam em cada anno quatro mil reis em dinheiro (medição e demarcação das casas chamadas das Valencas a f. 98) — 97; CASAES DE MALTA — Foreiros á commenda da Villa d’Algozo, que estão dentro do Reguengo do lugar de PENELLA, cujos casaes são sete, a saber: d’Antonio Rodrigues, solteiro, do lugar de PENELLA, é um lameiro que está aonde chamam a Seára — 270; de Miguel Vaz, viuvo, é uma terra sita aonde chamam o Salgueiro — 271; de Manuel Sarmento, solteiro, do lugar de Podence, consta de umas terras — 272; de Pedro Rodrigues, do lugar de PENELLA — 273; de João Lopes e sua mulher Anna Rodrigues, moradores na Villa de SANZERIZ — 275; de Manuel Vaz e sua mulher Anna de Moraes, moradores em VILLA BOA — 276; de Francisco Pires e sua mulher Maria Gonçalves, moradores no lugar do VAL VERDE — 277; chamado dos «Macedos», que hoje (passou) possue Jorge de Moraes e sua mulher D. Micaella, do lugar de MACEDO DE CAVALEIROS, o qual consta de sete propriedades, que São livres (medição e demarcação...) — 290; MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TERRA

DE C AMPELLO, que foi arrematada a Francisco Gonçalves Gallego da Cidade de Bragança para proprios da fazenda do Estado da Serenissima Casa de Bragança, e Almoxarifado da dita Cidade (medição e demarcação...) — 108; que está no sitio de CAMPELLO, a qual terra foi arrematada a Francisco Gonçalves Gallego para os proprios da Fazenda do dito Estado por dividas que devia ao dito Almoxarifado e que da dita terra anda de posse José de Moraes Madureira — 106;

RECONHECIMENTO que fizeram Antonio Esteves e sua mulher Maria Diegues, Antonio Gonçalves e sua mulher Izabel Pires, Maria Martins Talã possuidores do «Casal de BAGUEIXE», de que pagam em cada anno 6 1/2 alqueires de pão meado, trigo e centeio pela medida velha (medição e demarcação do casal a f. 296) — 294; que fizeram Domingos Gonçalves e sua mulher Anna Fernandes e sua mãe Pascoa Gonçalves, moradores no lugar de G RIJÓ e possuidores do CASAL DE C ASTELLÕES , de que pagam em cada anno 800 reis em dinheiro e tres capões (medição e demarcação do dito casal a f. 225) — 223; que fizeram Maria Affonso viuva e seu filho Jorge Affonso, Francisco Pires e sua mulher Agueda Fernandes, possuidores do CASAL DE M ORAES de que pagam em cada anno trinta e oito alqueires de trigo pela medida velha e duas gallinhas, o qual Casal foi de Rodrigo Annes e de Pedro Geraldes (medição e demarcação a f. 323) — 320; que fizeram Gonçalo Affonso e sua melher Catherina Gonçalves possuidores do CASAL DE MORAES, que foi de Gaspar João, do mesmo lugar, a quem se rematou para os proprios da fazenda do Almoxarifado por ser fiador de Francisco Gonçalves do mesmo lugar, rendeiro que foi dos reguengos do mesmo Almoxarifado, de que pagam cada anno 400 reis em dinheiro (medição e demarcação do dito lugar a f. 335) — 332; que fizeram João (Gonçalves) Gomes de Figueiredo e sua mulher Emerenciana, possuidores do CASAL DE MORAES, que foi de Francisco Gonçalves do mesmo lugar, a quem se rematou para os proprios da fazenda do Almoxarifado pelo que ficou devendo da renda dos reguengos do mesmo Almoxarifado, de que se ha-de pagar de fôro e pensão cada anno 800 reis (medição e demarcação a f. 347) — 345; que fez Manuel da Rocha Madureira, possuidor do CASAL DE MORAES, que foi de Pedro Gomes do mesmo lugar, a quem se rematou para proprios da fazenda do Almoxarifado por ser fiador de Francisco Gonçalves, rendeiro que foi da venda dos reguengos do mesmo Almoxarifado, que se ha-de pagar de fôro e pensão cada ano 150 reis em dinheiro (medição e demarcação do dito lugar a f. 356) — 354; MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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que fizeram os moradores do lugar de FREIXEDA, possuidores do reguengo do mesmo lugar, que consta de todo o termo e lemite do mesmo lugar, de que pagam em cada anno doze alqueires de trigo pela medida velha e 129 reis em dinheiro (medição e demarcação do dito lugar a f. 257) — 255; que fizeram os moradores do lugar de PENELLA, possuidores do reguengo do mesmo lugar, que consta de sete casas de que pagam os moradores do dito lugar em cada anno quarentta e cinco alqueires de centeio e sete de trigo pela medida velha e 435 reis em dinheiro (medição e demarcação do dito lugar a f. 266) — 263; que fizeram os moradores do lugar de M OREDO DE S ANTA C OMBA DE ROÇAS , possuidores do reguengo de V ILA A LVA , que consta de oito casas de que pagam em cada anno de fôro e pensão cincoenta alqueires de trigo e centeio e dez alqueires de centeio, tudo pela medida velha, e um carneiro e dez gallinhas (medição e demarcação do dito lugar a f. 250) — 246; que fizeram os moradores do reguengo de S ANTA C OMBINHA , de que pagam em cada um anno 37 1/2 alqueires de trigo, 22 1/2 de centeio pela medida velha e 200 reis de marrãs (medição e demarcação do dito lugar a f. 177) — 174; que fizeram os moradores da villa e julgado de VAL DE NOGUEIRA, possuidores do reguengo da mesma villa e julgado, de que pagam em cada anno de fôro ou pensão quarenta e oito alqueires de trigo pela medida velha e 520 reis em dinheiro (medição e demarcação do dito lugar a f. 206) — 203». Renovando a profundeza do meu reconhecimento, envio ao velho amigo Dr. Hermilo um grato shake-hands, e ao bondoso Dr. Eduardo Fernandes de Oliveira o pie Jesu, dona ei requiem. Como se colhe destes «Índices», no rico Arquivo da Casa de Bragança há valiosas notícias referentes à História da província trasmontana (o mesmo será das outras), tanto do distrito de Bragança como do de Vila Real. Lá se encontram as confrontações dos termos de muitas povoações que permitem resolver as constantes discórdias suscitadas entre os povos: localizar povoados extintos, prestando assim grandes serviços geográficos. Como a localização do Castelo de Alvilia, Alvelia, Alveliã (com todas estas variantes aparece) tinha interesse bragançano máximo, por ser residência do representante do rei, sede distrital, segundo dizemos hoje, antes de existir Bragança, conforme declaram as Inquirições de el-rei D. Afonso III tiradas pelos anos de 1258 (618), obtivemos do Sr. João da Câmara, actual administra(618) Ver tomo III, p. 314, 315, 375 e 399, destas Memórias, onde as publicamos.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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dor da Casa de Bragança em Lisboa, uma cópia das confrontações do termo de Vila Alva, que evidentemente é a Alvília de D. Afonso III. Eis o que dizem na parte respectiva: «Reconhecimento, que fizeram os moradores do lugar de Moredo, e de Santa Comba de Rossas possuidores do Reguengo de Villa Alva, que consta de oyto casais, de que pagam em cada hum anno de fôro e pensam cincoenta alqueyres de trigo, e cento, e dez alqueyres de centeyo, tudo pela medida velha, e hum carneyro, e dez galinhas. Aos dez dias do mes de Junho do anno de mil, e sette centos, e onze, no lugar de Moredo termo da Cidade de Bragança, e pousadas aonde está o Doutor Antonio Pimentel Borges Bottelho, Juiz do Tombo, mediçam, e demarcaçãm, que Sua Magestade, que Deos guarde manda fazer (por seu especial Alvará) de todos os bens, e pertenças tocantes ao Estado, e Serenissima Casa de Bragança, Almoxarifado da mesma Cidade, ahi sendo presente o Procurador do Tombo o Doutor Brizido de Siqueyra appareceram Pedro Affonso Viuvo, Marcos Pirez Viuvo, Domingos Rodriguez da Esquina Viuvo, Domingos Martinz, e sua mulher Damiana da Ponte, Domingos Affonso, e sua mulher Maria Pirez, Sebastiam Fernandez, e sua mulher Maria Martinz, Antonio Rodriguez, e sua mulher Anna Pirez todos do ditto lugar de Moredo, e Joam Affonso, e sua mulher Maria Fernandez do lugar de Santa Comba de Rossas, do ditto termo da Cidade de Bragança por serem todos citados por mandado do ditto Juiz do Tombo, como consta da fé da citaçam junta; e logo pelo mesmo Juiz do Tombo lhe foy perguntado se possuhiam o reguengo de Villa Alva, e suas propriedades do mesmo reguengo de cujo fôro, e reconhecimento delle se trata, e da man de quem o houveram, e sucederam no tal reguengo, e propriedades, e se eram livres, ou afforadas para sempre, ou prazo em vidas, e que fôro pagavam em cada hum anno, ou pensam ao direyto senhorio, e com quem partiam, e confrontavam, e se tinham alguns encargos, e quais eram? E pelos dittos foi respondido, que elles possuhiam o ditto reguengo, por titulo de prazo, que se fez a seus antecessores do ditto reguengo dividido em oyto cazaes, o qual prazo se lhe fez para sempre, e que o ditto reguengo estava, e está dentro do termo de Villa Alvã, e partia do Norte com Santa Comba de Rossas, e do Sul com Moredo, e do Nascente com Pinella, e do Poente com o mesmo lugar de Moredo e pelas mais suas devidas confrontaçoens, e que o ditto reguengo, e propriedades delle eram livres, e dezobrigadas, e que só delle, ou dellas pagavam em cada hum anno ao Estado e Serenissima Casa de Bragança, e Almoxarifado da mesma Cidade direyto senhorio cinquenta alqueyres de trigo, e cento, e dez alqueyres de centeyo tudo pela medida velha, e hum carneyro, e dez galinhas de fôro, ou pensam, para o que tem hum Jurado, que arrecada este fôro por todos, e o leva por inteyro ao rendeyro, ou Almoxarife do ditto Almoxarifado, e lho entrega no mesmo lugar de Moredo, e que no caso, que as tais MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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propriedades do ditto reguengo se vendessem, eram obrigados pedir licença ao direyto Senhorio, e pagar o Laudemio» ................................................................... ....................................................................................................................................... «MEDIÇAM E

DEMARCAÇÃO DO REGUENGO DE VILLA ALVA

Aos onze dias do mez de Junho do anno de mil, e sette centos, e onze, eu escrivam do Tombo fuy com o Doutor Antonio Pimentel Borges Bottelho Juiz delle ao sittio, a que chamam a Cruz do Salgueyral, para effeyto de se medir, e demarcar o Reguengo de Villa Alva, e ahi estavam presentes o Doutor Brizido de Sequeyra Procurador deste Tombo, e os medidores eleytos para elle Domingos Lourenço, e Manoel de Morais, e logo pelo ditto Procurador do Tombo foy requerido a elle Juiz, que para o ditto dia estavam citados o Juiz, e homens do acordom do lugar de Pinella, Filicio Martinz, Sylvestre Rodriguez, e Pedro Rodriguez da Serra; o Juiz e homens do acordam do lugar de Santa Comba Francisco Vaz, Francisco Rodriguez Ferreyro, e Francisco Fernandez, o Juiz, e homens do acordam do lugar de Moredo Manoel Machado da Sylva, Francisco Dias, e Pedro Fernandez Alto, e os foreyros, e foreyras do mesmo reguengo Pedro Affonso Viuvo, Marcos Pirez Viuvo, Domingos Rodriguez da Esquina Viuvo, Domingos Martinz, e sua mulher Damiana da Ponte, Domingos Affonso, e sua mulher Maria Pirez, Sebastiam Fernandez, e sua mulher Maria Martinz, Antonio Rodriguez, e sua mulher Anna Pirez, todos do lugar de Moredo, e Joam Affonso, e sua mulher Maria Martinz do lugar de Santa Comba de Rossas, para assistirem á ditta mediçam, e demarcaçam, por partirem, e confrontarem com o ditto reguengo de que se trata; pelo que pedia a elle Juiz os mandasse apregoar, e nam aparecendo os lançasse de parte, e ás suas revelias, com os que se achassem presentes se procedesse á dita mediçam, e demarcaçam; e visto pelo Juiz do Tombo seu requerimento, informado das citaçoens, mandou apregoar aos confrontantes, e por nam aparecerem, ás suas revelias os houve por citados, e lançados de parte, e mandou se procedesse na ditta mediçam, e demarcaçam com os confrontantes, ou seus procuradores, que se achassem presentes, e logo os dittos medidores eleytos, e nomeados com hüa vara afferida de cinco palmos, e com hüa corda de trinta varas, começaram esta mediçam do ditto reguengo, no ditto sitio a que chamam a Cruz do Salgueyral, aonde está hum marco grande de pedra, na borda da estrada que vay para Pinella da parte do Norte, e dahi continuando em direytura para o Nascente pela mesma estrada, que vay para Pinella, partindo com o mesmo termo de Pinella, até chegar a outro marco novo, e grande de pedra de cantaria, com letras que dizem Bragança, que o ditto Juiz do Tombo mandou pôr junto da mesma estrada da parte do Norte em terra do mesmo reguengo, que hoje possue Francisco Moredo tem trezentas, e vinte, e trez varas e meya, e dahi continuando para o Norte, por MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


MANUSCRITOS

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entre as duas estradas, que vam para Pinella, até chegar o outro marco novo, grande de pedra de cantaria com lettras, que dizem Bragança, que o ditto Juiz do Tombo mandou pôr na borda da estrada de cima, na ponta da terra que hoje hé de Belchior Lopez de Moredo, tem duzentas e noventa, e quatro varas, e dahi continuando em direytura para o Norte, atravessando a mesma estrada, até chegar a outro marco, e marra grande, que está no sitio de Boy Sardam; partindo com termo e coutada de Pinella tem duzentas e vinte e seis varas e meya, e dahi continuando em direytura para o Norte, lombo abaixo, partindo com termo e coutada de Pinella, atravessando a ribeyra de Villa Alva, a fonte da lameyra, ou lama redonda, lombo acima, atravessando a estrada, que vem de Pinella, para Santa Comba de Rossas, á Cruz de Val de torno, que algum dia se chamava o Cabeço de Daam: aonde o ditto Juiz do Tomo mandou pôr outro marco novo, e grande de pedra de cantaria, com letras que dizem Bragança, junto da mesma estrada da parte do Norte, por baixo da ditta cruz tem mil e quarenta e cinco varas, e aqui acaba o termo de Pinella, e começa o de Santa Comba de Rossas, e dahi em direytura para o Poente, partindo com Santa Comba de Rossas, e a vista do mesmo lugar, em pouca distancia da estrada, que vay para o ditto lugar de Santa Comba, até chegar a outro marco novo, e grande de pedra de cantaria, que o ditto Juiz do Tombo mandou pôr com letras, que dizem Bragança, aonde está outro marco no alto de Matta Filhas, á vista do ditto lugar de Santa Comba, tem seis centos e settenta e cinco varas, e dahi continuando em direytura para o Poente, partindo com Santa Comba, lombo abayxo até chegar a outro marco de pedra, que está no sitio da Malhada, na borda da terra, que he hoje de Nossa Senhora do Pereyro do Santa Comba, tem duzentas e dezoyto varas e meia, e dahi continuando para o Sul, atravessando pelo meyo dos valles da malhada lombo acima, atravessando a estrada, que vem de Santa Comba para a Freixeda, até chegar a outro marco de pedra, que está no sitio do Ranhadouro, junto da mesma estrada, aonde o Juiz do Tombo mandou pôr outro marco novo, e grande de pedra de cantaria com letras, que dizem Bragança junto do outro da parte do Sul, tem quatro centas e sessenta e quatro varas, e dahi continuando em direytura para o Sul, a fonte do Canileyro atravessando a Ribeyra de Villa Alva, lombo acima, até chegar a outro marco, ou marra grande de pedra, que está na bouça de Gomez, aonde acaba o termo de Santa Comba e começa o de Moredo, tem quinhentas e vinte e nove varas, e dahi continuando em direytura para o Sul, partindo com Moredo, até chegar á fonte dos Marmourais, que está no fundo de Val de Saco, junto do cima do lameyro, que hoje hé de Maria Ayres de Moredo Viuva, que ficou de André de Sampayo, aonde, o ditto Juiz do Tombo mandou pôr outro marco novo, e grande de pedra de cantaria, com letras que dizem Bragança, tem quinhentas e oytenta e quatro varas, e dahi continuando em direytura para o Nascente atravessando pelo meyo do ditto lameyro a Val de Pedro, atravessando o MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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MANUSCRITOS

TOMO XI

lameyro que hoje hé de Belchior Lopez de Moredo, até chegar ao cimo do monte de Val de Cam aonde o ditto Juiz do Tombo mandou pôr outro marco novo, e grande de pedra de cantaria; com letras que dizem Bragança, tem trezentas e noventa varas, e dahi continuando em direytura para o Nascente partindo com Moredo, por cima do lameyro que algum dia foy de Giraldo Affonso, e hoje hé de seus herdeyros Pedro Affonso, e Antonio Affonso de Moredo, e por bayxo do lameyro, que hoje hé de Joam Affonso de Moredo, junto com a mesma parede, que parte com a cabeceyra do lameyro dos herdeyros de Giraldo Affonso lombo acima, até chegar ao ditto marco da cruz do Salgueyral, aonde começou esta mediçam, tem oyto centas e vinte e trez varas, e tudo o que fica desta mediçam e demarcaçam a dentro he Reguengo livre, e dizimo a Deos, sem mais pensam que a do ditto Reguengo declarada no termo de reconhecimento atraz, e desta sorte foy medido e demarcado o dito Reguengo de Villa Alva, pelos dittos medidores Domingos Lourenço e Manoel de Moraes pela vara ordinaria de cinco palmos, e pela corda de trinta varas em presença do ditto Juiz do Tombo, e de mim escrivam, e Procurador, e dos dittos homens do acordam do lugar de Pinella, e do dito Juiz e homens do acordam do lugar de Santa Comba, e dos homens do mesmo lugar de Santa Comba, Martim Pirez, Pedro Fernandez Alferez, Antonio Fernandes da Edra, e Joam Affonso, foreyro do ditto Reguengo, e do ditto Juiz, e homem do acordam do lugar de Moredo, e dos homens velhos do mesmo lugar, Francisco Rodriguez e Domingos Affonso, que todos assináram, no qual auto da dita mediçam, e demarcaçam, nam assistiram os mais confrontantes, e foreyros do ditto Reguengo, de que o ditto Juiz mandou fazer este termo, que dou fé passar o conteudo nelle na verdade. Mathias Cardoso Pinto, escrivam do Tombo o escrevi e assiney, «Declaro, que tambem assistio Antonio Rodriguez foreyro do mesmo Reguengo, e tambem assinou o sobreditto escrevi «Pimentel», Mathias Cardoso Pinto, «Manoel de Moraes», Domingos Lourenço como Procurador, Brizido de Siqueyra, «Pedro Rodriguez da Serra homem do acordam de Pinella hüa cruz». De Sylvestre Rodriguez homem do acordam de Pinella hüa cruz. Manoel Machado da Sylva Juiz de Moredo. De Sebastiam Fernandez Quadrilheiro hüa cruz. De Francisco Rodriguez homem velho hüa cruz. De Domingos Affonso hüa cruz. De Pedro Ferdandez do acordam hüa cruz. De Francisco Vaz Juiz de Santa Comba hua cruz. De Antonio Rodriguez Juiz do Reguengo hüa cruz. De Francisco Rodriguez do acordam hüa cruz. De Martins Pirez homem velho hüa cruz. De Francisco Fernandez do acordam hüa cruz. De Pedro Fernandes Alferez, de Antonio Fernandes da Edra hüa cruz. De Joam Affonso hüa cruz». Ao Ex. mo Sr. Dr. João da Câmara agradecemos a cópia que nos enviou deste documento, bem como aos empregados José Anes Caro e Silva e João Gonçalves da Costa a colaboração que nela tiveram. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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409 TOMO XI

A demarcação de Alvelia, conforme a mencionam as Inquirições de el-rei D. Afonso III, tiradas pelos anos de 1258 (618-a), dizem: «lstud est regalengum cognitum de Bragancia. In primo ille locus ubi stetit Castellum de Alvelia cum suo termino est domini Regis sicut dividit cum Pelela per locum qili dicitur Ervedeira et vadit ad marcum qui stat in fine de Mayre et vadit ad loqum ubi intrat carreira que vocatur arena in villa de Moura et quomodo vadit ad puteum qui vocatur de Seixedo et quomodo vadit per lombum ad enfestum usque ad marcum de Alvaredo et inde dividit cum villa de Moredo et inde quomodo vadit ad fontem de Lama de rabalvo et quomodo vadit ad marcum qui stat prope Fonte de forcadis que vocatur de Tio Saco et inde quomodo vadit ad marcum qui sedet in fine de capite de Lobeteos et inde quomodo vadit ad marcum qui sed infundo de prado de Susano et incipit dividere in ipso marco cum Sancta Columba et quomodo vadit ad fontem de Susaa de Malada et inde quomodo vadit ad Petram Furatam et incipit dividere cum Palaciolo per ipsam Petram Furatam ad fontaya sub cerzeira lamar et inde ad cavagem et vadit ad lacunam sub Alva et inde vadit ad marcum qui sedet encruzilada, ubi juntat carreira de castello cum carreira de Penela et vadit ad Batocas». Para melhor compreensão, damos o seguinte esquema toponímico dos sítios por onde corria a demarcação antiga de Alvelia e dos nomes actuais que parecem quadrar-lhe melhor:

(618-a) Ver tomo III, p. 315, destas Memórias, onde as publicamos.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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MANUSCRITOS

TOMO XI

CONFRONTAÇÕES DE ALVELIA EM 1258

No termo de P I N E L A

M O R E D O

R O S S A S

P

A

Ç

Ó

EM 1711

{ {

ERVEDEIRA MAYRE MARCO das AREIAS VILA MOURA Paço do SEIXO ALVAREDO

CRUZ do SALGUEIRAL Boi SARDAM RIBEIRA de VILA ALBA FONTE de LAMA REDONDA CRUZ de VALE de TORNO ou CABEÇO de DAAM

Fonte da Lama de RABALVO Fonte de FORCADOS ou de TIO SACO CABEÇO DE LOBOS ou de LOBEZEOS PRADO de SUSANO

FONTE dos MARMOURAIS VALE de SACO VALE de CAN

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MALHADAS de Cima

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PEDRA FURADA

CERZEIRA LA MAR CAVAGES LAGOA de Sub-ALVA ENCRUZILHADA, onde se junta o caminho de Pinela com o do Casteto de Pinela que vai para as BATOCAS.

MATA FILHAS (618-b) MALHADA RANHADOURO RIBEIRA de VILA ALVA FONTE do CANILEIRO Este Tombo de 1711 não menciona as confrontações com Paçó, ou porque os termos de Rossas e Pinela se alargaram, ou porque deixaram de existir por qualquer motivo, se é que Lagoa de Sub-Alva não corresponde a Ribeira de Vila Alva, e Encruzilhada, a Cruz do Salgueiral, como suponho que deve ser, visto as cruzes costumarem levantar-se nas encruzilhadas dos caminhos. Muitas das marras divisórias do termo de Vila Alva, mandadas pôr pelo juiz demarcante em 1711, ainda se lá conservam hoje.

(618-b) Ver tomo X, p. 222, destas Memórias.

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MANUSCRITOS

411 TOMO XI

Muitas, senão todas as marras divisórias do termo do Castelo de Vila Alva, mencionadas no documento anterior, ainda se conservam hoje, segundo nos informou o Padre Manuel dos Santos Pires, natural de Moredo, mandando-nos a cópia dos letreiros das cinco existentes no termo da sua povoação e os nomes dos actuais sítios do termo onde se encontram, e são: uma em Vale de Saco, outra em Vale de Pedro, a terceira em Vale de Cão, a quarta no sítio das Cruzes e a quinta em Marnotes. Os letreiros são pelo mesmo teor dos apontados no tomo IX, págs. 127 e 596 destas Memórias, e, sem dúvida nenhuma, à vista do que diz o juiz demarcante do termo de Vila Alva, significam CA (sa de) BAR (gança), como no referido tomo escrevemos. Ao nosso colega Padre Manuel dos Santos Pires agradecemos as notícias referentes às marras de Vila Alva no termo da sua povoação, que realmente são completas e salvam nobremente a incúria de outros que, por bairrismo, tinham obrigação de atender ao apelo que em carta e na imprensa lhes fizemos. Bragança, minha Bragança! terras bragançanas, terras bragançanas! trago-vos aqui abraçadas ao peito, bem sobre o coração, vai em sessenta e tal anos, e, ainda agora, aos oitenta, é para vós que vão meus desvelos, vida, alma, sentimentos, forças físicas, mentais e económicas; sacrifiquei-vos o descanso de toda uma vida, que podia ser relativamente tranquila, e, quando acabo de descobrir mais um canto talhado para o pedestal da vossa glória — e que canto! como ele é basilar, capaz de suster a esquina de uma casa! —, e quando radiante dou conta na imprensa do achado e peço a alguns de teus filhos pequenas informações, que sem custo nenhum podiam dar-me, e por todas as razões e mais uma, deviam fornecer-me, nem sequer respondem às minhas cartas! Que tristeza! nem ao menos sentir a necessidade de conhecer o passado da sua terra ou daquela à custa da qual vivem a pretexto de serviços mentais! Devo lembrar que o Sr. César Augusto Alves, de Rossas, me mandou notícia de seis marras e respectivos letreiros demarcantes de Vila Alva, existentes no termo da sua povoação. No tomo IX, pág. 127, mencionamos uma marra pelo mesmo teor destas de Vila Alva, existente no termo de Carragosa, e agora o nosso amigo Padre João António Martins deu-nos notícia de outra, sita entre o termo desta povoação e a de Terroso (619).

(619) O termo da próxima povoação de Refoios também é demarcado com quatro marras assim inscricionadas.

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MANUSCRITOS

TOMO XI

Nas Inquirições de el-rei D. Afonso III, tratando da freguesia de Santa Maria de Serapicos (620), dizem que os habitantes das Paradinhas iam levar «ao representante do rei, que residia em ALVELIÃ , antes de Bragança estar povoada, a contribuição que pagavam». Depois, as mesmas Inquirições demarcam o termo «onde esteve (dizem elas, portanto já a este tempo estava em ruínas, abandonado) o Castelo de Alvelia e o território que lhe pertencia», como se vê pelo texto atrás transcrito. Segundo dizem as referidas Inquirições ao tratar da freguesia de Santo Estêvão de Fresulfe, o Castelo de Alvelia foi feito por D. Galego, de ordem de el-rei D. Sancho I, que depois lhe deu por ele a povoação de Parada, ficando o rei com o Castelo e terrenos respectivos (621), compreendidos entre os termos das povoações de Pinela, Moredo, Rossas e Paçó, como fica dito. No tomo IX, pág. 541, destas Memórias, apresentamos a opinião do diligente investigador bragançano, coronel Albino Lopo, que, falando das ruínas arqueológicas de Castro de Avelãs, diz: «tudo leva a crer que foi neste castro ou fortaleza a Alvelina dos forais» (622). Então, embora já fossem conhecidas dos investigadores as Inquirições de el-rei D. Afonso III, onde o caso se resolve, não estavam divulgadas pela imprensa, e só mais tarde, em 1910 e 1911, publicamos a parte respeitante ao distrito de Bragança nos tomos III e IV, nas páginas, respectivamente, 304 a 416 e 7 a 80 das Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança. Em face desses documentos, atrás transcritos, na parte tocante ao assunto, é evidente que essa Alvelina não pode localizar-se em Castro de Avelãs, mas sim entre as povoações de Pinela, Moredo e Rossas, distantes coisa de vinte quilómetros. Por eles vemos que o reguengo de Vila Alva, que é a Alvelia, Alveliã ou Alvilia da documentação medieval, abrange enorme extensão de terreno, entre os termos das três mencionadas povoações, constante de terras cobertas de mato — queirugas, giestas, urzes, carvalhos — e de outras entregues a cultura cerealífera. Corre pelo meio deste terreno a ribeira de Alva, que tinha suas margens convertidas em lameiros (prados permanentes), mas foram rompidos em 1943 para cultura de batatas. Esta propriedade, ou, melhor, quinta de Vila Alva, como lhe chama o povo, foi comprada pelo lavrador João Alves, de Rossas, a uma D. Adelaide,

(620) Ver tomo III, p. 314, destas Memórias, onde as publicamos. (621) Esta povoação Parada, não é a actual Parada de Infanções, como podia supor-se por ficar perto, mas sim Prada, no concelho de Vinhais, segundo se colhe das mesmas Inquirições, ao tratar da freguesia de Carragosa, p. 399. (622) O Arqueólogo Português, volume II, 1896, p. 285.

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MANUSCRITOS

413 TOMO XI

de Mós, concelho de Bragança, filha de um capitão (nada mais me souberam dizer), pelos anos de 1864. Falecido João Alves, a quinta de Vila Alva passou para: 1 — José Bernardino Alves, seu filho, marido de Albina Ricardina, falecido em Rossas, a 25 de Setembro de 1944, agora representado por seus filhos: Padre José António Alves (actual pároco de Serapicos), César Augusto Alves, José Alves e Maria Alves. 2 — Família Sá Morais, de Serapicos, sobrinha de João Alves. 3 — José Gonçalves, de Vale de Nogueira, concelho de Bragança, geralmente conhecido por Zezinho de Vale de Nogueira, falecido com setenta e três anos, a 4 de Setembro de 1944, sobrinho de João Alves, agora representado pela viúva, Antónia Gonçalves e filhos: Dr. João Gonçalves, Dr. António Gonçalves, Clotilde Gonçalves, Maria Gonçalves e Antónia Gonçalves. A maior parte da quinta de Vila Alva pertenceu a José Gonçalves. Em 1943 arrendou ele a uma sociedade para cultura de batatas a sua parte de lameiro, uns oito hectares (trinta e duas jeiras, quando os outros co-herdeiros terão apenas um cada) e produziram em 1944 vinte vagões, que, a dez mil quilos cada e a mil quilos por carro, dão uns duzentos carros de batata. A nordeste da quinta, mas incluído nela, fica o castelo de Pinela, no cume de alto cabeço de forma piramidal, que, a julgar pelos vestígios, foi castro luso-romano. Dista coisa de três quilómetros da estação de Rossas, na via férrea, destacando-se, soberano, da restante campina, por forma bem visível, a nascente da mesma. O povo, fiel depositário das tradições históricas, chama-lhe Castelo de Alvelina, Arvelina, Avelina, Avelino, Alfenim e ainda Castelo de Pinela, por estar no termo desta povoação (623). Neste castelo residia o representante do rei, antes de Bragança ser povoada pelo foral que D. Sancho lhe deu em 1187 (624), servindo, portanto, até esse tempo, de centro concelhio ou distrital, como hoje dizemos, da região bragançana. E esplêndido que ele era! Belo ponto estratégico, horizontes de centenas e centenas de quilómetros sobre o irrequieto vizinho leonês-castelhano, que a incipiente nacionalidade portuguesa sempre devia ter á la mira.

(623) Ver tomo IX, p. 149 e 540, destas Memórias, onde tratamos dele. (624) Ibidem, tomo III, p. 107, onde o publicamos.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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MANUSCRITOS

TOMO XI

Região circunjacente, abundante em cereais, castanhas e bolotas; montes para pascigo de gado bovino, ovino e caprino, prestando-se, além disso, a surpresas de ataques, retiradas e esconderijos, ou seja, aos tais estratagemas das ciladas em que os lusitanos eram peritos, no dizer de Estrabão, Sítio naturalmente defensável, como era próprio dos castros, e verdadeiramente forte, com os flancos escudados no Sabor e no Tuela, sulcado de regatos, à menor chuva convertidos em rios invadiáveis, tendo apenas na frente a depressão do Sabor, por onde o inimigo podia tentar-se a entrar, se não olhasse aos desfiladeiros das serras de Nogueira e Montesinho, aos planaltos de Grijó e Lombada, à testa de ponte do serro de Deilão, que, realizando o tipo clássico da táctica grega, podiam volver-se-lhe em Termopilas fatais. A estas vantagens acrescia a circunstância de ser tangente a uma estrada de ligação entre o alto distrito de Bragança e o resto do País, por Vila Real, que tinha mansões, albergarias, como se diz na documentação medieva, espécie de pensões, hospitais, para comodidade dos passageiros famintos, cansados, estropiados, doentes. Poucas notícias restam desta estrada; todavia, bastam para confirmar a sua existência. No tomo X, pág. 149, transcrevemos um texto de Viterbo (625) que fala na existência de uma albergaria em Rossas, na estrada de Braga para Bragança. Esta estrada passaria na Ponte do Mente, extinta povoação, agora reduzida a um moinho, na freguesia de Lamas de Orelhão, onde havia outra albergaria, mandada fazer por el-rei D. Henrique «pro sua anima» (era assim então a acção católica), como dizem as Inquirições de el-rei D. Afonso III (626). A estrada a macadame, de Bragança para Vila Real, passa perto deste sítio. No chamado foral dado a Bragança por el-rei D. Afonso III em 1253 (627) há o seguinte período que se refere a esta estrada: «Et Ricuomo non debet accipre vitam im istis aldeis... et quando fecerit transis tum pera Constantim debet comedere de suis denariis». O rico-homem, tenens, povoador ou governador da região bragançana, não receberá alimentos das povoações, e quando for para Constantim coma à sua custa. Por este Constantim deve entender-se Panóias ou Constantim de Panóias, junto a Vila Real, famosa estação luso-romana, célula-mãe da actual cidade de Vila Real (628).

(625) VITERBO — Elucidário, artigo «Roças». (626) Tomo III, p. 336, e tomo IV, p. 33, 58 e 80, destas Memórias. (627) Ibidem, p. 109, onde o publicamos. (628) É enorme a bibliografia referente a Panoias, também dita Constantim de Panóias. Ver O Arqueólogo Português, vol. I, p. 38, 39 e 271; vol. III, p. 58 e 177, e vol. XI,

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MARIA DA FONTE

415 TOMO XI

Como todas estas ideias referentes às grandezas de Alvelia, objectivadas na sua tangência com Rossas, me perpassaram em catadupa pela mente na tarde de 4 de Outubro de 1944, quando na explanada adjunta à estação na via férrea, depois de haver visitado a medieva Alvelia, admirava o fervet opus do agrónomo Dr. João Lourenço em moto-contínuo a dar ordens, ensinar, acomodar, dispor em longas filas de secção triangular as centenas e centenas de carros de batata seleccionada para semente, que incessantemente estavam chegando da região circunvizinha, para ser ensilada no campo ao ar livre, até vir o tempo da sementeira na Primavera! Rossas, Rossas, quem viu as tuas grandezas medievais, quem viu a tua decadência nos fins do século passado, que até perdeste a autonomia administrativa, sendo anexada a Mós, e quem vê a tua vida rica, movimentada de hoje, não pode deslembrar o refrão: depois de anos mil, volve o carro ao seu carril e o rego por onde costuma ir. M ARIA

DA

F ONTE — P ATULEIA

As notícias seguintes interessam a este movimento revolucionário em Trás-os-Montes: «Tomaz Carlos Leopoldino Cardoso e Sá era o Tesoureiro-pagador da cidade de Bragança e seu distrito quando as tropas revoltosas, às ordens da Junta do Pôrto, ocuparam a cidade. Negou-se por muito tempo a pagar as despesas dessas fôrças aquarteladas, ao que parece, na cidade, e por isso em 5 de Maio de 1847 a Junta do Pôrto nomeou para o lugar um tesoureiro-pagador da sua confiança, Jacinto José de Sá Lima, a quem o titular do cargo se negou a entregar os saldos. Jacinto José não se atrapalhou, ordenou ás recebedorias dos concelhos um envio de fundos, no que foi obedecido pelos recebedores de Izeda, Miranda, Vimioso, Vilarinho da Castanheira, Vila Flor e Outeiro, a cargo respectivamente de José Manuel da Rocha Sarmento, Marçal José de S. Pedro Marques, José António Dias, Francisco António Barbosa, António Aires Sobral e Rafael Tiago. Era então Governador Civil de Bragança, em interinidade, Quintino Teixeira de Carvalho, cujo lugar efectivo era de secretário geral do Governo Civil.

p. 63, onde se lhe faz referência, e o Boletim da Associação dos Arqueólogos Portugueses, 3.a série, p. 51. Por esta estrada, que devia ser internacional e, em parte ligada à militar romana de Braga a Astórga, seguiu o arcebispo D. Bartolomeu dos Mártires quando foi ao Concílio de Trento, pernoitando em Sortes, junto a Rossas, a 27 de Março de 1561, como diz o seu biógrafo Frei Luís de Sousa.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


416

MARIA DA FONTE

TOMO XI

Quintino Teixeira de Carvalho requisitou imediatamente ao Jacinto José de Sá Lima os fundos necessários para acudir às necessidades do momento, pagando imediatamente os prés, os ordenados e aos crédores pelos fornecimentos às tropas, bem como forragens e outros artigos. — O General-Comandante da 5.a Divisão Militar de Bragança era António Joaquim Guedes de Oliveira e Silva, que recebeu 800$000 reis para prés aos soldados e 200$000 para despesas militares. — O Comandante do Batalhão de Caçadores 3, major José Maria Delorme Colaço, recebeu 40$000 para rancho, 103$000 para prés e 53$400 para pagar 267 jaquetas que custaram 200 cada uma. — Cirurgião-mor Manuel da Cunha Coelho recebeu 30$000 para prés dos soldados hospitalizados. — António Caetano de Mesquita Antas, António José Lopes, José Pires, Domingos Lopes da Silva e António Rodrigues Praça receberam cada um, respectivamente, as quantias de 126$600, 10$560, 53$820, 157$603 e 104$030, pelos fornecimentos dos seguintes pares de calçado para a tropa: 202 pares, o 1.°; 22 pares, o 2.°; 112 pares, o 3.°, e 185 o último. — Manuel Gonçalves Rodrigues, ajudante, servindo de professor para a Escola Normal da cidade de Bragança, recebeu 4$166 para despesas de costeamento da referida Escola (629). — José António Fernandes Braga recebeu 113$280 por 192 côvados de saragôça que forneceu. — João António Nunes recebeu 159$300 de 270 côvados de saragôça. Das fôlhas de vencimentos ao pessoal das repartições extractei os seguintes nomes e cargos: — Director da Alfândega — António Carlos Barroso. — Sub-director — Visconde de Ervedosa. — Porteiro da Alfândega — António Claudino Pissarro. — Chefe da Repartição de Fazenda e Delegado do Tesouro — Manuel Nunes de Matos. — Amanuenses da Repartição de Fazenda — Claudino Augusto César, António Joaquim de Moura e José Bernardo dos Santos. — Governador Civil (secretário geral, servindo de) — Quintino Teixeira de Carvalho, 40$000 por mês. PESSOAL DO GOVERNO CIVIL

1.° oficial

— Henrique José Ferreira Lima (630), 23$225 por mês.

(629) Ver tomo VII, p. 456, destas Memórias, artigo «Rodrigues». (630) Irmão do 1.° Visconde de Ferreira Lima. Veio a ser figura de grande destaque na política do seu tempo. Pertenceu ao Conselho de Sua Majestade e foi chefe do partido regenerador em Bragança.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


MARTINS

417 TOMO XI

2.° oficial — João Maximiano Ferreira Lima (631), 15$483, idem. 3.° oficial — Teotónio de Almeida Menezes Guerra (632), 15$483. Amanuenses — Manuel Joaquim de Loureiro, 10$322 por mês. — João António Lopes Pinto, 10$322, idem — João Bernardino Franco, 10$322, idem. Porteiro — António José Franco, 8$710 por mês. Foram ainda pagas as importâncias seguintes para prés dos soldados: 1.° — 12$970 ao Capitão-comandante do Depósito de Cavalaria 7, António Manuel da Afonseca e Sousa 2.° — 70$000 ao Tenente-coronel António do Carvalhal Silveira de Bettencourt. 3.° — 12$000 ao capitão Francisco de Melo Baracho. Uma vez derrubada a Junta do Pôrto, caiu tôda a organização burocrática e militar. O secretário do Govêrno Civil foi substituído pelo Diogo Albino de Sá Vargas, que tirou a pagadoria ao Jacinto José de Sá Lima. Êste foi julgado em 1850 pela sua responsabilidade de tesoureiro-pagador ilegal e dado por quite» (633). MARTINS (António Júlio Pimentel) — Doutor em direito pela Universidade de Coimbra, onde terminou o curso em 1877; nasceu em Bragança a 8 de Fevereiro de 1855, e não 1854 como algures se escreveu, filho de José António Martins (farmacêutico) e de D. Luísa Augusta de Sá Martins, neto paterno de José Caetano Martins e de Teresa de Jesus e materno de José de Sá Pimentel e de D. Angélica Cândida Pimentel, todos de Bragança. Foi baptizado na freguesia da Sé por seu tio, o cónego João José Martins. Casou em Macedo de Cavaleiros com sua prima D. Hermínia Fortunata Mendes Pereira e aí faleceu a 15 de Fevereiro de 1910.

(631) Irmão também do 1.° Visconde de Ferreira de Lima. Veio a casar-se com a sua parente D. Águeda Júlia Garcia de Lima, filha de Jacinto José de Sá Lima, atrás tratado. (632) Pai do Dr. Constâncio de Almada Menezes Guerra. (633) Estas notícias e notas respectivas foram-nos enviadas pelo nosso amigo Luís de Bivar Pimentel Guerra, residente em Lisboa, mas com ascendentes trasmontanos, que diz havê-las colhido no processo 153, maço n.° 2 da caixa 16 do Arquivo do Conselho Fiscal (Arquivo do Tribunal de Contas — sala do 1.° andar). Para melhor compreensão do período revolucionário a que se referem, ver CHAGAS, Pinheiro; C OLEN, José Barbosa — História de Portugal, 1906, volume XI, p. 115.

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MARTINS

TOMO XI

Fez os estudos liceais no Porto e em Coimbra, onde terminou o curso na Faculdade de Direito em 1877 com distinção ou accessit em todos os anos e teve por condiscípulos Gonçalves Crespo, Conde de Sabugosa, Pereira e Cunha, Roberto Alves, José de Castro e Ferreira Augusto, que vieram a notabilizar-se nas letras, na política, no foro e no magistério primário. Ainda fez, e com distinção, em Coimbra o primeiro ano de filosofia, mas depois seguiu o curso de direito. Gozou de notável fama como advogado distinto e foi muito discutida na imprensa uma sentença que publicou, como juiz substituto, a propósito do decreto do ministro João Franco sobre liquidação das pequenas dívidas. Colaborou em vários jornais, nomeadamente na Pátria Nova, onde os seus artigos marcaram pela forma e elevação crítica. As seguintes verbas, deixadas em testamento, dão ao Dr. António Júlio Pimentel Martins destaque especial de benemerência: 400$000 réis ao hospital da Misericórdia de Bragança; 200$000 ao hospital de Macedo de Cavaleiros; 200$000 para as obras da igreja do mesmo concelho; 100$000 aos pobres de Macedo de Cavaleiros; 50$000 aos pobres de cada uma das povoações: Bornes, Val Benfeito e Freixeda, onde tinha propriedades, 12$000 a cada um dos seus criados e perdoou a décima parte de dinheiros que lhe devessem. Em o Trasmontano, suplemento ao n.° 26 da Ilustração Trasmontana (Fevereiro de 1910), encontra-se o retrato e necrológio de Pimentel Martins, acompanhado de dados biográficos. M ARTINS (Padre Firmino Augusto) (634). Foi eleito sócio do Instituto de Arqueologia, História e Etnografia de Lisboa, em Agosto de 1939. Publicou mais: Obra das Mães pela Educação Nacional — Discurso proferido em Vinhais, no dia 8 de Dezembro de 1940, em sessão realizada pela O. das M. P. E. N. para a distribuição dos prémios às famílias numerosas. Braga, 1942, 18 páginas. M ARTINS (José Bernardo Pereira) — Doutor em ciências agronómicas; nasceu em Bornes, concelho de Macedo de Cavaleiros, a 8 de Setembro de 1883, filho legítimo do Dr. António Júlio Pimentel Martins (ver este nome na página anterior) e de D. Hermínia Fortunata Pereira Martins. Fez os estudos liceais em Bragança, Porto e Viana do Castelo e o da especialidade no Instituto de Agronomia, concluindo-o em 1906. Ainda fez o de Agricultura Colonial, com intuito de servir no Ultramar, mas a doença de seu pai desviou-o desta carreira.

(634) Ver tomo VII, p. 294 e 764, destas Memórias.

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MATOS

419 TOMO XI

Em 1911 ingressou no serviço do Estado, em que tem desempenhado vários cargos profissionais no Ministério das Finanças, na Junta de Hidráulica Agrícola, na Junta de Colonização Interna e, sobretudo, no Instituto Geográfico e Cadastral, onde vem dirigindo os serviços da parte económica do Cadastro da Propriedade Rústica. No decurso da sua vida oficial tem elaborado numerosos diplomas legislativos publicados por vários governos. É autor de um trabalho científico sobre avaliação da propriedade rústica, editado pelo Ministério da Agricultura, muito citado no Curso de Economia Rural do Instituto Superior de Agronomia, intitulado Considerações sobre a avaliação da propriedade rústica, 1939, 8.° de 36 págs. É separata da Revista Agronómica, vol. XXVII. Foi administrador do concelho de Macedo de Cavaleiros, presidente da câmara municipal desta vila e colaborou em A Pátria Nova, semanário de Bragança. MATOS (Doutor António Alexandre de) (635). Publicou mais: Coimbra tu eras dantes... Lisboa, 1940. 8.° de 247 págs. Prosa e verso, onde se descrevem episódios da vida coimbrã, patuscadas, guitarradas, et retiqua da boémia académica. Trás-os-Montes, terra nostra — A minha tese por ocasião do II Congresso Trasmontano, em Setembro de 1941. Lisboa, 1941. 8.° pequeno de 180 págs. e mais 3 inumeradas de índice. MILHÃO — Num livro de contas das mordomias dos Santos da freguesias de Milhão, concelho de Bragança, encontra-se lavrado pelo pároco da freguesia, ao tempo Domingos Ferreira da Veiga, por ordem do cónego Simão dos Santos Graces Coelho, o termo de apresentação de Maria da Costa, desterrada por três anos para Milhão, pela Inquisição de Coimbra. O cónego Graces Coelho tomou posse do canonicato em 1761 (636). Era natural do Funchal e foi depois vigário geral do bispado e comissário do Santo Ofício. Ao colega e amigo Jaime Constantino dos Santos, actual pároco de Milhão, agradeço a comunicação desta notícia. MIRANDA (Manuel da Trindade Gonçalves) — Doutor, professor do Liceu de Bragança, vice-presidente da Junta Provincial. Nasceu em Bragança a 10 de Maio de 1890, filho legítimo de José Inácio Gonçalves de Miranda e de D.

(635) Ver tomo VII, p. 297, destas Memórias. (636) Ver tomo VI, p. 645, destas Memórias.

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MIRANDA

TOMO XI

Arminda Adelaide Rodrigues. Fez os estudos liceais em Bragança e o de habilitação ao Magistério Secundário no Curso Superior de Letras. Foi nomeado professor do Liceu de Bragança em 2 de Janeiro de 1911 (637). Apesar das muitas diligências empregadas para obter notas biográficas deste ilustre bragançano, parente próximo do célebre abade de Medrões (638), nada conseguimos, além do que fica exposto, constante do registo oficial na secretaria do Liceu de Bragança, tal a sua modéstia; e, no entanto, as suas benemerências em prol da publicação destas Memórias dão-lhe jus a entrar na relação dos Mecenas exarada em lugar de honra na primeira página.

MIRANDA DO DOURO Pensão sobre as rendas do bispado de Miranda do Douro. Em carta de 18 de Fevereiro de 1645 participou el-rei D. João IV ao seu embaixador em França que concedera a Luzarch, mestre de câmara dos embaixadores franceses em Roma, quarenta mil réis de pensão sobre os frutos do bispado de Miranda, pelo auxílio prestado a D. Miguel de Portugal, bispo de Lamego, no conflito que teve nas ruas de Roma com o embaixador de Espanha (639). Capítulos especiais de cortes, existentes na Torre do Tombo: Cortes de 1459 — Os capítulos especiais apresentados nestas cortes por Miranda do Douro, estão no livro 36, fólio 162, da Chancelaria do Rei D. Afonso V. Cortes de 1490 — Os capítulos especiais apresentados por Miranda nestas cortes, estão no livro 16 da Chancelaria do Rei D. João II, fólio 123. Também estão no livro 3.° de Além-Douro, fólio 96 v. Cortes de 1497 — Os capítulos especiais apresentados nestas cortes por Miranda do Douro, estão no livro 2.° de Além-Douro, fólio 11 v. No livro 36.° da Chancelaria de D. Afonso V, fólio 162, há um capítulo, sem data, apresentado em cortes por Miranda do Douro. Cortes de 1498 — No livro 1.° de Além-Douro, fólio 214, há um capítulo apresentado por Miranda do Douro nestas cortes (640).

(637) Ver tomo VII, p. 428, destas Memórias. (638) Ibidem, p. 312 e 315. (639) COELHO, Laranjo — Cartas de el-rei D. João IV ao Conde da Vidigueira (Marquês de Niza), embaixador em França, 1940, p. 204. (640) Tiramos a notícia destes capítulos especiais de cortes do livro Cortes do Reino de Portugal, Joaquim Leitão. Lisboa, 1940. Merece a pena explorar estes «Capítulos de Cortes» pelas notícias que encerram referentes à vida económica e social das terras a que dizem respeito.

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MIRANDELA

421 TOMO XI

M IRANDELA A 15 de Janeiro de 1939 inaugurou-se em Mirandela a rede telefónica entre esta vila e as demais terras do País. MOEDAS ROMANAS (641) O Trás-os-Montes, de 16 de Abril de 1938, publicou o seguinte: Do Diário de Coimbra, de 7 de Janeiro último, transcrevemos, com a devia vénia, o seguinte: «Completamos a noticia que há dias demos do aparecimento de alguns milhares de moedas antigas em Ligares, perto de Freixo-de-Espada à Cinta: trata-se de um achado de 3:000 moedas romanas, pequenos e médios bronzes, do tempo dos imperadores Constantino e Constâncío. Êsse achado, embora intrìnsecamente não tenha valor numismático quanto às peças encontradas, tem-no contudo no seu conjunto, além de ser muito apreciável como documento histórico, porque confirma a tradição de ter existido naquele local uma antiga povoação. Junto das moedas encontraram-se também ossadas humanas e os conhecidos tejolos romanos, ditos tegulas, além de vários alicerces de casas, o que tudo certifica plenamente a existência naquele sitio de uma antiga povoação romana no IV século da nossa era». M ONCORVO Das Cortes do Reino de Portugal (Lisboa, 1941), por Joaquim Leitão, secretário da Academia das Ciências de Lisboa, onde se dá notícia, em forma de inventário, das cortes celebradas em Portugal, extraímos as seguintes informações constantes dos códices abaixo citados: Na página 29, transcrevendo um texto de Alfredo Pimenta, Subsídios para a História de Portugal, 1937, diz que João Pedro Ribeiro, para organizar o catálogo das Memórias sobre as fontes do Código Filipino, aproveitou do cartório da câmara de Moncorvo um pergaminho. Pág. 145. Capítulos especiais de Moncorvo às cortes de Lisboa, celebradas em 1440, que diz estarem no fólio 27 do livro 2.° da Chancelaria do Rei D. Afonso V e livro 4.° de Além-Douro, fólio 222. Pág. 148. Capítulos especiais de Moncorvo nas cortes de Lisboa em 1456, que diz estarem no fólio 109 verso do livro 13.° da Chancelaria do Rei D. Afonso V. Na pág. 209, diz que também se encontra no fólio 131 v. do livro 4.° de Além-Douro. (641) Ver tomo IX, p. 473, e tomo X, p. 736, destas Memórias.

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MONCORVO

TOMO XI

Pág. 162. Capítulos especiais de Moncorvo nas cortes de Lisboa, celebradas em 1459, que diz estarem no fólio 176 do livro 35.° da Chancelaria do Rei D. Afonso V. Na pág. 215 diz que também se encontram no fólio 21 do livro 3.° de Além-Douro e na Biblioteca da Academia de Ciências, códice 406; pergaminho 14, págs. 629-630, e no códice 703 da Biblioteca da Universidade de Coimbra. Pág. 165. Capítulos especiais de Moncorvo nas cortes de Santarém, celebradas em 1482, que diz estarem no fólio 87 v. do livro 2.° da Chancelaria do Rei D. João II. Pág. 180. Alvará referente a Moncorvo, datado de 1643, que diz estar no fólio 201 do livro 25.° da Chancelaria do Rei D. João IV. Pág. 182. Alvará referente a Moncorvo, datado de 1674, que diz estar no fólio 56 do livro 31.° da Chancelaria do Rei D. Afonso VI. Pág. 245. Capítulos especiais de Moncorvo nas cortes de Lisboa, celebradas em 1498, que diz estarem no livro 1.° de Além-Douro, fólio 11, e no Corpo Cronológico, parte 2.a, maço 2, documento n.° 92. Pág. 248. Capítulos especiais de Moncorvo, sem indicação de lugar nem data, que diz estarem no Corpo Cronológico, parte 2.a, maço 2, documento n.° 92. Pág. 263. Capítulos especiais de Moncorvo nas cortes de Lisboa, celebradas em 1641, que diz estarem no vol. XII de Cortes, 1641, maço 10 de Cortes, n.° 17. Pág. 269. Capítulos especiais de Moncorvo nas cortes de Lisboa, celebradas em 1642, que diz estarem no vol. XIII, de Cortes, maço 10 de Cortes, n.° 17. Pág. 275. Capítulos especiais de Moncorvo dados nas cortes de 1653, que diz estarem no vol. XV de Cortes, maço 10 de Cortes, n.° 17. Pág. 285. Alvará passado em resulta do capítulo 15.° da vila da Torre de Moncorvo, sobre haver alcaide na vila de Ansiães nomeado pela câmara. Está no livro 25.° da Chancelaria de D. João IV, fólio 201. Alvará datado de 1674, porque o senhor D. Pedro II, em consequência do que lhe representou em cortes a vila de Moncorvo, ordenou que se pagasse a 300 réis cada pedra de linho de dez arráteis, que recebesse a Feitoria dos Linhos-Cânhamos da mesma vila. Está no livro 31.° da Chancelaria de D. Afonso VI, fólio 56. Pág. 313. Capítulos e respostas da vila de Moncorvo, anos de 1461-1642. Estão no maço 10 de Cortes, n.° 17. Pág. 612. Capítulos especiais do concelho de Moncorvo às cortes de Lisboa, celebradas em 1562, que diz estarem no códice n.° 703 da Biblioteca da Universidade de Coimbra, fólio 167. Pág. 612. Artigo especial do concelho de Moncorvo às cortes de Braga, celebradas em 1387. Está no códice n.° 703 da Biblioteca da Universidade de Coimbra. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


MONCORVO

423 TOMO XI

––––––––– No ano de 1791 pareceu ao Provedor da comarca de Moncorvo, e como tal das capelas da Coroa da mesma comarca, Doutor Manuel António Pinto de Escovar, que algumas capelas não estavam sendo administradas com a segurança e legalidade devidas para boa defesa e conservação das capelas da Coroa na sua comarca. Mandou por isso ao escrivão das ditas capelas que o informasse quais as do termo e comarca de Moncorvo que se achavam providas, com indicação dos nomes dos seus administradores e se estes haviam feito tombo e tinham carta de administração e ainda quais as que estavam vagas, indicando os nomes dos seus últimos administradores. Respondeu o escrivão com a relação que transcrevo, e que, junta ao despacho acima, constitui um pequeno processo incluído no maço 13 das «Capelas da Coroa», existente no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, «Secção dos Feitos Findos». PRIMEIRA CAPELA

Conhecida pela «Capela da Porretica». Instituída na Vila da Torre de Moncorvo com o encargo de trinta missas anuais. Foi seu administrador Manuel Pinto de Carvalho, de Vila Real. Tem os bens que a constituem, situados na Ribeira de Vilariça, no lugar de Açoreira e no lugar de Larinho. Tem actualmente (1791) a sua administração Martinho Carlos de Miranda (642), capitão-mor da Vila de Outeiro, por mercê da Rainha Nossa Senhora de 26-6-1787, em remuneração dos serviços de seu tio Manuel Gonçalves de Miranda, que registou a carta de administração em 30-8-1787 no juízo da Comarca e Provedoria de Moncorvo, tendo tomado posse da referida administração em 5-11-1787. Não fez o tombo a bens (643). [Mencionam-se depois circunstanciadamente os referidos bens, que são muitos.] SEGUNDA CAPELA

Instituída na Igreja da Vila de Chacim pela Comba Madre (sic), com a obrigação de trinta missas anuais, e foi primeiro administrador Pedro Ferreira de Sá Sarmento, de Vinhais. Por mercê de Sua Majestade a Rainha, de Novembro de 1788, é seu donatário e administrador (em 1791) João Crisóstomo de Faria e Sousa de Vasconcelos e Sá, que tem carta de administração passada em 30-7-1788 e que não fez tombo. [Descrevem-se depois os bens, que são muitos.] (642) Ver tomo VI, p. 373 e 723, destas Memórias. (643) Esta capela de Porretica é a da Açoreira, de que tratamos no tomo VI, p. 326, e no tomo X, p. 752, destas Memórias.

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424

MONCORVO

TOMO XI

TERCEIRA CAPELA

Instituída no lugar de Paradela, termo de Monforte do Rio Livre. Foram os bens desta capela aforados em três vidas a João José Barreto, de Águas Frias, em 5$000 por ano, livres de encargos, por escritura de 20-7-1754, do que fez tombo em 26-4-1770, e por nova escritura de 24-7-1773 se fez o novo aforamento por três vidas em 6$000 réis sem encargos, por se verificar serem estes de 1$000 réis (644). [Descrevem-se a seguir os muitos bens desta capela.] QUARTA CAPELA

Chamava-se e hoje (1791) se chama Hospital do Espírito Santo. Instituída na Vila da Torre de Moncorvo, sob a invocação do Espírito Santo, consta da capela e casas pegadas, que serve de Hospital e hospedeiro para recolha de pobres e com camas e trastes para o seu tratamento. Consta que a donatária, D. Brites Severina da Silveira, tem carta de administradora tirada em 25-2-1750 e não consta que tivesse feito tombo (645). [Descrevem-se os inúmeros bens que possui.]

CAPELAS VAGAS PRIMEIRA CAPELA

No lugar de Valverde, termo de Alfândega da Fé. Instituída por Álvaro Gonçalves, com obrigação de oito missas. Tem muitos bens e foi seu último administrador Gonçalo de Sá Machado. SEGUNDA CAPELA

No lugar de Valbom, termo de Vila Flor.

(644) Na nossa monografia Moncorvo, separata da Ilustração Trasmontana, 1908-1910, publicamos uma inscrição gravada em lápide de granito, embutida na parede da igreja paroquial de Paradela, concelho de Monforte de Rio Livre, hoje de Chaves, referente a esta capela, que diz, desborando os breves, letras conjuntas e inclusas: «Nesta igreja se dizem tres / Missas rezadas e huma cantada / cada anno com uma perna de va / ca pera os pobres preze / ntes pela alma dos institu / idores de que se não sabe / os nomes he da Coroa (1) 625 /». (645) Ver tomo VI, p. 327, destas Memórias, onde publicamos uma lápide referente a esta capela.

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MONCORVO

425 TOMO XI

Instituída por Martins Anes, com obrigação de trinta missas. Foi seu último administrador João Barbosa Pinto. Os bens que a constituem são em Alfândega da Fé e Castro Vicente (646).

AUTO DA CÂMARA, DE 25 JUNHO DE 1808, CONTRA OS FRANCESES (647) «Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de 1808 anos, aos 25 de Junho do dito ano, nesta vila de Tôrre-de-Moncorvo e Casas da Câmara dela, onde se juntaram o Vereador mais velho e Juiz pela Ordenação, António Luiz de Carvalho e Castro, com os mais oficiais da Câmara — o Reverendo Desembargador Vigário Geral desta Comarca com o mais Clero desta vila — a Nobreza dela, pessoal da governação e os do Povo que puderam achar-se por todos eles, primeiramente foi dito que tendo, com a Graça de Deus e segundo a ordem do General da Província, proclamado a legitima autoridade do Príncipe Regente — Nosso Senhor —, tendo além disso tomado as medidas oportunas para vedar o ingresso dos inimigos neste Distrito, convinha estabelecer uma Junta permanente, composta das pessoas de maior inteligência e das quais o carácter político não fôsse equívoco, principalmente pela distância em que se achava o General da Província e voluntário exercício dos Magistrados da Comarca: Que nesta Junta residiria todo o poder e alçada e a ela ficariam sujeitas tôdas as autoridades constituídas; — que igualmente ficaria na mesma Junta tôda a administração da Fazenda Real, assim como a necessária autoridade para lançar quaisquer colectas e impostos tendentes à defesa dêste Distrito e a sua jurisdição se estenderia a tôda a Comarca, a cujas diversas autoridades se enviariam as cópias necessárias, e que a sua duração persistiria até ser restabelecida a Regência determinada por Sua Altesa Real, restabelecida a harmonia política nas províncias do Reino. Que êste alvitre parece o único que nestas ordinárias circunstâncias do tempo sugeria para evitar os males da anarquia, o desafôgo das inimizades e algolomania dos franceses — digo — golomania que tem principiado a descobrir-se nesta Comarca. Que por isso todos debaixo da sua honra se obrigavam a obedecer e respeitar a dita Junta, a cujo arbítrio ficaria regular as conferências e correspondência com o Distrito e Províncias que entrarem no mesmo projecto. O seu

(646) As notícias referentes a este capítulo das capelas foram-nos fornecidas pelo Sr. Luís de Bivar Pimentel Guerra, a quem agradecemos mais este favor. (647) Ver tomo I, p. 136, destas Memórias.

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MONTANHA

TOMO XI

número será de quatro indivíduos com um Presidente, vencendo-se tôdas as decisões pela pluralidade e desempate do Presidente. A mesma Junta nomeará os oficiais que lhe parecerem necessários e será denominada JUNTA DE SEGURANÇA E ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA DA COMARCA DE M ONCORVO. Aos seus papéis autênticos devem munir-se com as armas da vila. Os membros que forem eleitos prestarão o juramento do estilo na Casa da Câmara desta vila, o qual lhes será conferido em Câmara e logo tomadas as vozes de todos os que se achavam presentes, ficou eleito para Presidente o Desembargador Tomaz Inácio de Morais Sarmento; para deputados o Desembargador Vigário-Geral João José Dias Galas de Mesquita, António Xavier Carneiro de Magalhães, João de Gouveia Sá e Vasconcelos e Leopoldo Henrique Botelho de Magalhães, os quais estavam presentes e lhes foi pelo Presidente da Câmara delerido o Juramento dos Santos Evangelhos, para, debaixo do mesmo, tomarem os cargos para que foram eleitos, segundo a confidência que dêle se fizer o mais conveniente e útil fôsse ao povo desta vila e seu Distrito, o que êles assim prometeram e assinaram com o Presidente, Vereadores e mais pessoas que se achavam presentes. E eu, Luiz Caetano e Tôrres Portocarrero, escrivão nomeado para êste acto, o escrevi. (Assinados): António Luiz de Carvalho e Castro Lourenço Carneiro de Vasconcelos Francisco José Nunes da Fonseca Moniz Inácio Joaquim da Costa Pimentel Tomaz Inácio de Morais Sarmento João José Dias Galas de Mesquita Leopoldo Henrique Botelho de Magalhães João de Gouvela Sá de Vasconcelos António Xavier Carneiro de Magalhães» (648). M ONTANHA (D. Felismina da Assunção Furtado), mãe de José António Furtado Montanha, um dos Mecenas desta obra, faleceu em Bragança, freguesia de Santa Maria, a 28 de Novembro de 1938 (649). MORAIS (Francisco de), natural de Bragança (650). Cervantes, no D. Quixote, tomo I, cap. VI, pág. 90 (mihi), diz a propósito da Crónica de Palmeirim de

(648) Ao velho amigo Manuel António Monteiro agradecemos a cópia desta acta existente no livro respectivo na Câmara Municipal de Moncorvo. (649) Ver tomo VII, p. 329, destas Memórias. (650) Ibidem, p. 335.

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MORAIS

427 TOMO XI

Inglaterra, escrita por Morais: este livro «se conserve como a cosa unica, y se haja para ele otra caja como la que halló Alejandro en los despojos de Dario, que la disputó para guardar en ella las obras del poeta Homero». É este o maior elogio de um livro feito por um dos melhores críticos literários. MORAIS (Inácio de), natural de Bragança, professor da Universidade de Coimbra (651). A obra deste célebre latinista intitulada Conimbricæ Encomium foi reeditada e prefaciada em 1887 (Coimbra, Imprensa da Universidade) pelo Dr. Augusto Mendes Simões de Castro, e em 1890 (Coimbra, tipografia das Instituições Cristãs) por A(lves de) S(ousa) na revista Instituições Cristãs; traduzida pelo professor Dr. A. da Rocha Brito, em 1935, na revista O Instituto, vol. 88 e em separata (Tipografia Popular, Figueira da Foz). Teve outra edição em 1938 pelo Dr. Mário Brandão, acompanhada de muitas notas biográficas deste ilustre bragançano. Inácio de Morais era filho de Pedro Álvares de Morais e irmão de Nuno Álvares Pereira. Casou com Ana Mendes, de quem teve um filho e duas filhas. Estudou em Paris e morreu em Alcobaça pouco depois da conquista de Portugal por Filipe II de Espanha e I de Portugal. MOREIRA (Manuel de Sousa), abade de Sambade, natural do Mogadouro, académico supranumerário da Academia Real da História Portuguesa. Ver tomo VII, pág. 334, onde tratamos dele sob o nome de Monteiro (Manuel de Sousa), e tomo VIII, pág. 113, por causa do apelido Monteiro, que, ou não lhe pertence, ou é pouco conhecido, antes o vulgar é Moreira. Manuel de Sousa Moreira tem larga biografia na Biblioteca Lusitana. Francisco Leitão Ferreira, Notícias CronoIógicas da Universidade de Coimbra, 1. a parte, pág. 30, edição de 1937, bem como noutras páginas, tanto deste volume como do segundo, citam-se muitas informações dadas por Sousa Moreira, fazendo grandes elogios ao seu muito saber. Era abade de Sambade quando morreu. Escreveu: Teatro Histórico Genealógico da casa dos Sousas. Ficou manuscrito. Quanto aos seus colegas bragançanos na Academia Real da História Portuguesa, ver tomo VI, págs. 107-108, e tomo VII, pág. 55 (artigo Botelho), págs. 284 e 299. MORENO (Augusto César) — Tomo VIII, pág. 119, e tomo X, pág. 759. Publicou mais: Lições de Linguagem. Dois volumes de 307 e 293 págs. Porto, 1937 e 1938.

(651) Ver tomo VII, p. 342, destas Memórias.

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428

MOURA COUTINHO

TOMO XI

MOURA COUTINHO (Francisco de) — Ver pág. 13. Seu filho Filipe Gastão de Moura Coutinho de Almeida de Eça, já conhecido nas letras pelo Mosaico Moçambicano (Contos e narrativas), 1943, valioso trabalho etnográfico, como preito de veneração filial à memória de seu pai, e contributo aos estudos genealógicos, começou a publicar alguns dos manuscritos deixados por seu pai sob o título: Genealogias do Distrito de Aveiro — I. Pedro Vaz de Eça, prefácio de A. G. da Rocha Madail. Aveiro, 1944. 8.° de 14 págs. Genealogias do Distrito de Aveiro — II. Pachecos e Cardosos da região Aveirense. Aveiro, 1944. 8.° de 25 páginas. Na pág. 16 trata dos Colmieiros, de Vinhais, senhores do morgado de São Vicente na mesma vila, um dos quais, Baltasar de Sousa Colmieiro de Teles Távora, capitão do regimento de dragões da Beira Baixa, casou com D. Angélica de Moura Coutinho de Almeida de Eça. MOURINHO (António Maria) — Presbítero, natural de Sendim, concelho de Miranda do Douro, antigo professor do Seminário Diocesano de Bragança, actual pároco de Duas Igrejas, sócio do Instituto de Arqueologia, Etnografia e História. Nasceu em Sendim, de Miranda do Douro, a 13 de Fevereiro de 1917, filho de João da Cruz Mourinho e de Ermelinda Rosa Pires. Estudou instrução primária em Sendim e fez o curso do seminário, parte em Vinhais e parte em Bragança, desde 1930 a 1941, sempre com distinção. De 1941-1942 foi prefeito e professor de História no Seminário Maior. Em Julho do mesmo ano foi nomeado pároco de Duas Igrejas. Dedicou-se sempre aos estudos literários, arqueológicos e etnográficos, principalmente da região mirandesa e sua língua. Em Novembro do mesmo ano conduziu o grupo folclórico de Duas Igrejas e os Pauliteiros de Cércio à Sociedade de Geografia de Lisboa, onde se celebrou o «Dia de Miranda do Douro». Na mesma sessão fez uma exposição em verso mirandês, da terra de Miranda, intitulada La nossa Tierra, com tão grande sucesso que lhe mereceu ser agraciado pelo Chefe do Estado, que estava presente, com o Oficialato da Ordem Militar de Cristo, cujo diploma lhe foi passado por decreto de 18 de Janeiro de 1943, publicado no Diário do Governo n.° 75, 2.a série, de 3 de Março de 1943. Este discurso foi gravado pelos serviços de gravação da Emissora Nacional e transmitido várias vezes. Foi a primeira vez que o falar mirandês foi transmitido pela rádio. Publicou em mirandês Las Siete Armanas e Nós somos de Pertual, e mais algumas poesias em mirandês, nas Novidades, na Voz, no Mensageiro de Bragança, no Século, etc., e foi colaborador no Livro do Segundo Congresso Trasmontano. Em sessão da direcção, realizada em 30 de Março de 1944, foi apresentada a sua candidatura a sócio correspondente do Instituto de Arqueologia, Etnografia e História e aprovada unanimemente. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


NEVES

429 TOMO XI

Tem quase pronto um volume de poemas em mirandês e colabora nas Novidades, na Voz, no Mensageiro de Bragança e na Revista de Portugal em assuntos atinentes ao falar mirandês. Prepara mais trabalhos sobre outros assuntos.

N NEVES (Luís Gonzaga de Morais Teixeira) — Doutor. Tomo VII, pág. 357. Morreu em Bragança a 9 de Outubro de 1938.

O O LIVEIRA (Artur Águedo de) — Doutor. Tomo VII, págs. 365 e 770. Publicou mais: Finanças de ontem e de hoje. Lisboa, 1934. Estado Novo. 1935. Finanças verdadeiramente Nacionais. 1935. Projecto de Reforma Bancária. Lisboa, 1935. Filosofia e Moral Política do Estado Novo. 1937. A União Nacional como direcção Política Única. Lisboa, 1938. Portugal Maior. 1939. Estudo das condições económicas do Vinho do Porto nos tempos clássicos. Lisboa, 1941. 8.° de 229 págs. O LIVEIRA (Dr. José de) — Cónego da Sé de Bragança. Tomo VII, pág. 367. Faleceu em Niza, sua terra natal, a 20 de Maio de 1940. OUTEIRO «Snr. — Miguel Fragozo de Figueredo, fes petição a V. A. neste conselho, em que dis que seu Pay Agostinho Fragoso, tinha feito muitos servisos a esta coroa e servira de moço da guarda roupa de S. Magestade que esta em gloria, e de sargento mor da Comarca de Bragança e governador do Castello da Villa de Outeiro, e porque he pessoa nobre e das primeiras familias da Cidade de Bragança, e quer hir servir aos Rios de Sofalla na prezente monção. Pede a V. A. lhe faça merce do habito de Cristo com oitenta mil reis de tença e do foro de moço fidalgo, e hua ajuda de custo para seu apresto. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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430

PALAÇOULO

TOMO XI

Ao Cons.° parece que V. A. deve fazer merce ao supp.te de vinte mil rs. de ajuda de custo embarcandosse nesta ocazião, e que servindo nos Rios se tera respeito para o despacho do habito, e no tocante ao foro, o deve requerer por via do marquez mordomo mor, em Lisboa a 8 Outubro de 677, Conde de Valle de Reis Ruy Telles de Menezes. Salvador Correa de Sá J. Benauides Feliciano Dourado Carlos Cardoso G.do» (652).

P PALAÇOULO Graças aos bons ofícios dos amigos Padre Manuel Delgado, pároco de Palaçoulo, e Dr. Casimiro Henriques de Morais Machado, do Mogadouro, veio, em fins de 1940, para o Museu de Bragança a lápide funerária do Siloni, encontrada em Palaçoulo, já publicada no tomo IX, pág. 501, destas Memórias. Damos agora o seu desenho, feito pelo nosso colaborador artístico Domingos Vinhas, para frisar uma particularidade que nos parece de interesse arqueológico. É de mármore branco, vinda possivelmente das minas de mármore e alabastro do Vimioso (653) e no tipo discóide. As suas dimenFigura 6 sões diferem ligeiramente das indicadas no tomo IX, pág. 502, e por isso as mantemos, acrescentando apenas a grossura da lápide, que é de 0,06 metros, por não estar mencionada.

(652) Ao distinto investigador Dr. Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior, da Universidade do Porto, agradecemos esta cópia do documento original por ele encontrado no Arquivo Histórico Colonial, em Lisboa, no maço 11 dos «Manuscritos avulsos de Moçambique», 1648 a 1700. (653) Ver tomo X, p. 502, destas Memórias.

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PALAÇOULO

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As três barras por baixo da inscrição, terminadas na parte superior por um arco em forma de ferradura, têm sido interpretadas pelos arqueólogos de diversas maneiras. Uns «viram nestas figuras representações de uma ponte, indicação geográfica, outros as portas por onde se passa para o outro mundo baseando esta hipótese na existência de portas sobre os monumentos funerários romanos... comparando entre si todas as figuras desta classe, ocorre-nos que representam figuras antropomórficas degeneradas, que nos seus contornos se aproximam muito da forma das próprias estelas discóides. Uma das lápides tumbais de Picote (654) mostra-nos, no mesmo lugar, duas figuras humanas, que, na sua tosca execução lembram outras, consideradas por arcos de ferradura ou portas, e, entre elas, uma espécie de urna ou cesto grande, que as citadas figuras transportam. A significação desta cena não pode ser mais clara: São as pessoas destinadas a servir o morto, a levar-lhe o alimento necessário à sua vida de além-túmulo. Talvez que, nos outros casos, vejamos estilizadas as pessoas que vão acompanhar o finado, como as mulheres, os criados, etc.» (655). D. Manuel Gomez Moreno (656) diz que o arco de ferradura das estelas discóides não deriva do estilo arquitectónico árabe, pois aparece muitos séculos antes nas referidas estelas. Estas barras aparecem em número de duas, três e mais (657), com arco de ferradura algumas vezes e outras sem ele, mas nada têm que ver com o arco árabe, nem parece que representem portas, ou pontes, nem estilização da figura humana ou símbolos antropomórficos. É evidente a sua analogia com as sepulturas cavadas na rocha, com nicho para a cabeça do morto ou sem ele, segundo se veio praticando desde os tempos romanos, devendo, portanto, tomar-se como sepulcros em miniatura, usados como motivo ornamentológico, tirado da própria natureza da lápide funerária, ligado intimamente ao seu destino sepulcral. São um símbolo mortuário, uma característica fúnebre do monumento, de onde facilmente puderam transitar para símbolo religioso. A tradição ornamentológica por este teor está muito nas tradições da arte. Se os símbolos falantes, tão usados na heráldica, são de todos os tempos e vêm já dos hieroglíficos egípcios; se na numismática romana vemos a uva, o

(654) Ver tomo IX, p. 66, destas Memórias, onde damos o seu desenho. (655) FRANKOWSKC, Eugeniuz; CORREIA, Virgílio — As cabeceiras de sepultura e as suas transformações, 1918. (656) GOMEZ MORENO, Manuel — Excursion a traves del arco de herradura. «O Arqueólogo Português», vol. XII, p. 251. (657) Ver tomo IX, p. 40, 42, 43, 68, 70, 74, 83, 111 e 460, destas Memórias.

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PALAÇOULO

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boi e o cavalo para indicar a especialidade cultural da terra onde se cunhou a moeda; se em muitas lápides funerárias vemos esculpida a espada (658), o arado, machado, martelo, tesoura, fuso, roca e outras ferramentas do ofício, para indicar a profissão do morto (659), porque não diremos que estas barras se ligam ao tradicional sistema inumatório? Em muitas arulas votivas encontra-se como ornato, ou estampilha característica do seu destino, o foculus (660), que não podendo servir para receber o sangue das vítimas, em razão da sua minúscula capacidade, temos de o considerar como motivo ornamentológico, característico das lápides dessa especialidade, deduzido logicamente do fim a que tais monumentos eram destinados. Se nas inscrições votivas aparece o foculus como símbolo ornamentológico, porque não será nas funerárias símbolo ornamentológico também a miniatura do sepulcro? Em muitas sepulturas abertas na rocha vê-se um sulco para escoamento das fezes cadavéricas, acompanhado do orifício por onde escorriam para fora da cavidade sepulcral (661). Confirmando quanto fica dito, temos esta lápide de Palaçoulo, que apresenta bem nitidamente no fundo de cada uma das três barras o canalzito correspondente ao furo por onde escorriam as podridões sepulcrais. Da mesma forma se encontram esses canais na lápide de Picote (662). E na lápide de Sacoias (663) vemos em lugar do sepulcro pela forma dos abertos na rocha, figurado outro pelo sistema dos chamados em forma de casa, que se liga ao da Pedra Formosa da Citânia. Do exposto, parece concluir-se que estamos em frente de um motivo ornamentológico derivado dos fins a que as lápides eram destinadas. O nosso amigo Padre António Mourinho mandou-nos, em 14 de Março de 1945, o croquis de uma lápide funerária de mármore branco, encimada por suástica de seis raios, por ele encontrada em Palaçoulo, concelho de Miranda do Douro (664). É de tipo discóide, tendo no alto a cercadura envolvente do

(658) Tomo IX, p. 40, destas Memórias. (659) SOUSA, J. M. Cordeiro de — Revista de Arqueologia, vol. III, p. 160. O Arqueólogo Português, vol. XXII, p. 19, 108 e 109. (660) Ibidem, p. 34, 50, 51, 62 e 63. O Arqueólogo Português, vol. XXII, p. 19, 108 e 109, onde se apontam vários documentos do tempo romano e outros vindos já dos tempos pré-históricos. (661) Tomo IX, p. 36, 38, 46, 47 e 208, destas Memórias. (662) Ibidem, p. 70 (663) Ibidem, p. 76. (664) Tomo IX, destas Memórias, p. 64, onde apontamos outra.

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PEGADO DE SOUSA BARROSO

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suástica ornada por óvulos e semicírculos e no fundo uma figura antropomórfica. Ao meio da lápide, em superfície de forma poligonal cruciada escavada na pedra tem a seguinte legenda: D. M ATTE LVCI A/ X X X que diz: (Aos) deuses manes (e a) Atte (filha de) Luci(o) (falecida aos) trinta (anos). Dimensões do monumento: 0,55x0,25 metros. Atte ou Atta, é o nome de uma deusa maléfica, que se comprazia em embaraçar os homens nas desgraças, perturbando-lhes o entendimento, como referem Homero e Hesíodo, e se lê em Moreri, El Gran Dicionariio, em qualquer dicionário de Fábulas. Atta (Titus Quinctius) é o nome de um poeta latino que viveu no ano 80 antes de Cristo. PEGADO DE SOUSA BARROSO (António Alexandre) — Tomo VI, pág. 255, onde se deve emendar o apelido Mendes para Meneses. Nasceu em Calvelhe, concelho de Bragança, a 26 de Abril de 1897. Filho de Álvaro Pegado de Sousa Barroso e de D. Ana Augusta da Silva e Meneses Barroso. Fez os estudos liceais em Bragança e diplomou-se em agronomia em 1922. Defendeu tese em 1923, sobre o concelho de Macedo de Cavaleiros, sob o ponto de vista agrícola («Monografia»). Foi colocado em Mirandela, na extinta Escola Agrícola Móvel «Menezes Pimentel», em 21 de Julho de 1927, transitando depois para a Estação Sericícola «Menezes Pimentel» e Brigada Técnica da 3.a Região. Prestou serviço nas extintas Campanhas do Trigo e de Produção Agrícola e exerce o cargo de Inspector Fitopetológico. Pela portaria de 23 de Junho de 1937 foi nomeado chefe de delegação da lnspecção-Geral das Indústrias e Comércio Agrícola, com sede em Mirandela, jurisdição nos distritos de Bragança e Vila Real. Ver o artigo Trigo de Abreu (Álvaro). PENAS RÓIAS Do castelo de Penas Róias e da sua erecção em 1166 por Gualdim Pais, grã-mestre dos Templários, como consta da lápide inscricionada MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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PEREDO

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existente por cima da porta de entrada do castelo, publicando a fotogravura respectiva, dissemos no volume A Restauração de 1640 no Distrito de Bragança, pág. 55, que é o volume III da colecção Anais, publicada pela Academia Portuguesa da História. PEREDO (MOGADOURO) L OURENÇO LUÍS (doutor), natural de Peredo de Castro Vicente (Mogadouro), filho de Sebastião Gonçalves, natural do mesmo, e de Maria Luís, natural dos Olmos (Macedo de Cavaleiros); neto paterno de Sebastião Gonçalves, natural de Castro Vicente, e de Maria Martins, natural de Lagoa (Macedo de Cavaleiros); neto materno de Lourenço Luís e de Leonor Luís, dos Olmos, foi nomeado cónego prebasdado do Penitenciário da Sé de Braga em 1695 (665). PEREIRA (Joaquim Mendes) — Director de Pecuária do distrito de Bragança (tomo VII, pág. 381). Morreu em Lisboa, onde residia como reformado, em Julho de 1944. PEREIRA (José Manuel Martins) — Tomo VII, pág. 384. Viemos a descobrir que foi chefe fiscal de 1.a classe dos impostos do Estado, tendo falecido na Moita, concelho de Setúbal, a 18 de Fevereiro de 1930, e que nascera na Vila dos Sinos, concelho do Mogadouro, a 4 de Setembro de 1863, sendo filho de Tomás Martins, da Vila dos Sinos, e de Ana Maria, natural da Bemposta, concelho do Mogadouro. Não deixou filhos. PESSANHA P EREIRA DO LAGO (Francisco), dos Pessanhas das Arcas (tomo VI, pág. 695). Faleceu nas Arcas, onde residia, concelho de Macedo de Cavaleiros, em princípios de Fevereiro de 1938. De suas três filhas, mencionadas na página 696 do referido tomo, a primeira casou com o professor primário Domingos Montanha, de Bragança, e a segunda com o tenente Manuel Cisneiros. PICOTE No sítio das Batocas, termo de Picote, a marginar com o de Sendim, concelho de Miranda do Douro, há uma pala, cabana ou abrigo natural, chamado

(665) TÁVORA, Artur Mendes de Almeida Pacheco de Andrade — Dignatários da Sé de Braga, Primaz dos séculos XVII e XVIII, 1938, p. 29.

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PICOTE

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Lapo, pelo povo, formada por duas fragas cobertas por uma outra, onde podem abrigar-se muitas pessoas das chuvas. O Lapo também é conhecido por Santos das Barrocas, em razão das pinturas que encerra. As faces internas dos rochedos são perfeitamente lisas, como se fossem aparelhadas ao cinzel e estão pintadas a tinta vermelho-escura, resistente aos vendavais, maus tratos e pedradas do rapazio, diversos quadros representando: as Pessoas da Santíssima Trindade e no meio Nossa Senhora, São Paulo e dois frades. O quadro dos frades é interessante pela simbologia iconográfica. Um tem na mão direita uma campainha e um cajado em forma de cruz e na esquerda uma espécie de rosário ou coisa parecida; o outro tem na mão pousado um corvo negro sustentando no bico um disco. Ambos os frades vestem túnicas e capas brancas e escapulários castanhos tarjados de branco. O Padre António Mourinha, pároco de Duas Igrejas, concelho de Miranda do Douro, a quem devemos as informações para este artigo, vê nestes frades o encontro de Santo Antão com São Pedro Eremita, sustentados por um corvo, que todos os dias lhes trazia um pão, representado na pintura pelo disco. Esta interpretação, harmónica com as lições do Breviário na festa de São Paulo Eremita, ao dia 17 de Janeiro, ligada à de Santo Antão (10 do mesmo mês) e ainda melhor ao que diz Rosário (666) e, sobretudo, Bergier (667). Se pudéssemos dizer que a estilização do artista, as pedras da garotada, as destruições do tempo, deram ao Padre Mourinha, apesar dos seus olhos de lince, aparências de corvo à cigarra, que também é negra e volátil, e chamada por São Francisco de Assis, dado pelo próprio Deus por companheiro a São Domingos, segundo referem os hagiológios (668) se lhe veio pousar nas mãos, bem queriam ser estes os dois frades do quadro, pois nas mais particularidades iconográficas concordam absolutamente com circunstâncias de suas vidas, referidas por Frei Diogo do Rosário nos lugares abaixo citados. Deixemos porém estas coincidências a cargo do Padre Mourinha, que tenciona encarregar-se do assunto, e vamos à inscrição que está no fundo do quadro de Nossa Senhora, por ser muito interessante pela variedade de letras do século XV-XVI que apresenta. Ei-la, segundo uma cópia que o Padre Mourinha nos enviou:

(666) ROSÁRIO, Diogo do — Flos Sanctorum, 1756, tomo I, p. 139 e 173. (667) BERGIER — Dictionaire de Theologie, 1863, artigo «Rosaire». (668) ROSÁRIO, Diogo do — Flos Sanctorum, alusivo ao dia 4 de Agosto.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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PIMENTEL DA COSTA

TOMO XI

Comentários: Primeira carreira de letras: A segunda letra, pelo contexto, deve ser S e paleograficamente concorda com o s minúsculo apresentado por Merino (669). Nesta carreira, a décima letra, que lemos por N, apesar de na última perna ter um traço ao meio, que pode dar a indicação de E, mas N com traço na última perna também aparece no mesmo autor, pág. 426. Adiante desta letra lemos Nos (s a) (S e) n (h o), mas dando entre parêntesis as letras suprimidas pelo lapicida, como indica o traço insculpido por cima, segundo geralmente se usava então. Segunda carreira de letras. Lemos: Mandou propor A(ntónio), ou outro nome começado por A, E(steves), ou outro nome começado por E, Juão, era em Jesus mil quinhentos 5 3, Pinilo. A fórmula Jesus aparece assim: + Jesus, em documentos da época da inscrição, nomeadamente nessa de 1510 transcrita por Merino (670). Na era, a mistura de algarismos com palavras por extenso é frequente em documentos da mesma época. Os nomes próprios, usados como apelido, são de todos os tempos e ainda hoje se encontram. O nome próprio Pignolus, Piniolo, Piniolus, que deu Pinelo, aparece na documentação medieval (671). Temos pois: Esta obra de Nossa Senhora da / Glória mandou propor A(ntónio?) E(steves?) Juão Era em Jesus de 1553. Pinilo (nome do pintor?). PIMENTEL DA COSTA (António) — Lente de Medicina da Universidade de Coimbra desde 1665 a 1694, ano em que se jubilou. Era natural de Moncorvo e filho de Domingos da Fonseca (672). PINHATEL B ELERMA (Francisco Xavier Robalo da Gama) — Ver Freixo de Espada à Cinta, pág. 316.

(669) (670) (671) (672)

MERINO — Arte de ler letras cursivas, p. 426. Ibidem, p. 312. Ver Documentos Medievais Portugueses, 1941, vol. III, p. 2, 58, 225, 243 e 467. O Instituto, de Coimbra, 1937, vol. 92, primeira parte, p. 305.

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PINHEIRO

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PINHEIRO (António Esteves) — Ver adiante o artigo Rabal. POÇAS FALCÃO (Eusébio Luís Dias) — Tomo I, pág. 216; tomo VII, págs. 149 e 422; tomo X, pág. 585. Casou em Ponta Delgada, onde era Governador Civil, com D. Maria da Luz Fisher Berquó e tiveram o Dr. Luís Fisher Berquó Poças Falcão, presidente do Supremo Tribunal de Justiça, que nasceu em Ponta Delgada a 19-X-1852 e faleceu em Lisboa a 17-V-1913. Não deixou filhos. É seu irmão o Dr. Guilherme Fisher Berquó Poças Falcão, cavaleiro da Legião de Honra, residente em Ponta Delgada (673). POVOAÇÕES

CRIADAS DE NOVO

Duas no Vale de Paçó, concelho de Vinhais (674). Não indica o nome, mas provavelmente serão Salgueiros e Travanca, únicas que faltam nas Inquirições tiradas nessa região. No tomo IX, pág. 426 destas Memórias, aponta-se a fundação de outras. Das Inquirições tiradas por el-rei D. Afonso III consta que os Vilares antigos foram dados aos concelhos para que os povoassem, mas os poderosos apropriavam-se deles e obstavam à repovoação (675). Travanca e Vale de Casas, no termo de Babe, são dois Vilares nestas condições (676). Labiados, também no termo de Babe, sofria pela mesma altura igual impedimento, mas depois veio a povoar-se e assim se conserva hoje (677). Ver tomo X, págs. 168 e 291 destas Memórias. POVOAÇÕES

MORTAS

Tenho encontrado notícias de muitas povoações no distrito de Bragança, que morreram, por não poder suportar os ataques das formigas, diz a lenda popular, no seu conceito simplista, que deve abranger causas económicas, financeiras, tributárias, fiscais, agrícolas, itinerárias, meteorológicas, hidro-orográficas, étnicas, mesológicas, climatológicas, higiénicas, epidémicas, tácticas, estratégicas, bélicas, etc. O homem primitivo atendeu primeiro à defesa contra as feras, principalmente o homem, que é a pior de todas e, por isso, fixou-se nos altos, natural-

(673) SOARES, Eduardo de Campos de Castro de Azevedo — Supremo Tribunal de Justiça, 1933, p. 69. (674) Ver tomo IV, p. 52, destas Memórias. (675) Ibidem, tomo III, p. 306, 307, 312; tomo IV, p. 83, 437 e 439. (676) Ibidem, tomo III, p. 306, 310, 345, 387 e 407. (677) Ibidem, p. 310, 345, 387 e 407.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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POVOAÇÕES MORTAS

TOMO XI

mente defensáveis. Depois a ciência avançou na arte de matar tornando vulneráveis essas localizações e as necessidades agrícolas, as intempéries, levaram-no às planícies e abrigadas, onde depois a higiene impôs deslocações para sítios arejados, impantanosos. Segue a lista das povoações mortas no distrito de Bragança: Aldeia Nova, concelho de Carrazeda de Ansiães (678). Alva, concelho de Freixo (679). Ansiães (680). Banrezes. Está reduzida a um moinho com dois moleiros, mas ainda em 1706 tinha vinte fogos (681). Britelo (682). Bronceda. Hoje está erma, mas ainda em 1706 tinha dezasseis fogos (683). Cabanelas (684). Capelinhas (685). Carvalhão (686). Carrapata. Anexa de Lamas de Orelhão. Ainda em 1706 tinha dezanove fogos, hoje está deserta (687). Carvas junto a Bragança. Hoje está reduzida a uma quinta habitada por um só morador (688). Também me parece que a quinta chamada Carvas, anexa de Sesulfe, mencionada pelo Padre Carvalho da Costa (689) com quatro vizinhos, está erma mas não sei ao certo.

(678) (679) (680) (681) edição. (682) (683) (684) (685) (686) (687) (688) (689)

Ver tomo X, p. 7, destas Memórias. Ibidem, tomo I, p. 61; tomo IV, p. 56 e 443; tomo IX, p. 716; tomo X, p. 681. Ibidem, tomo II, p. 113, C OSTA, António Carvalho da — Corografia Portuguesa, tomo I, p. 504 da primeira Ver tomo I, p. 374, destas Memórias. C OSTA — Corografia Portuguesa, tomo I, p. 445. Tomo I, p. 371; tomo IV, p. 414; tomo X, p. 101, destas Memórias. Ibidem, tomo I, p. 368. Ibidem, p. 374. C OSTA — Corografia Portuguesa, p. 444. Ver tomo III, p. 318 e 415; tomo V, p. 178. C OSTA — Corografia Portuguesa, 1076, tomo I, p. 445.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


POVOAÇÕES MORTAS

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Carvas, anexa de Sezulfe. Ver a anterior. Casarões (690). Casas Queimadas (691). Cepadela (692). Escovais (693). Fonte do Mente (694). Facia (695). Freixedinha. Ainda em 1706 tinha quatro fogos, hoje está deserta (696). Izei (697). Leiras (698). Mayre (699). Meal, anexa de Meirinhos. Mourel, anexa de Mirandela. Ainda tinha três vizinhos em 1706, hoje está erma (700). Mourel, no termo de Vale Benfeito (701). Osseira (702). Palhares (703).

(690) (691) (692) (693) (694) (695) (696) (697) (698) (699) (700) (701) (702) (703)

Ver tomo IX, p. 605, destas Memórias. Ibidem, tomo III, p. 357, 359 e 364. Ibidem, tomo III, p. 374, 375, 395, 396, 398, 409 e 410. Ibidem, tomo IX, p. 708, destas Memórias. Ver Ponte do Mente. Ver tomo III, p. 380, destas Memórias. COSTA — Corografia Portuguesa, tomo I, p. 452. Ver tomo I, p. 372; tomo III, p. 414; tomo X, p. 123, destas Memórias. Ibidem, tomo III, p. 61, 340 e 343. Ver p. 407. COSTA — Corografia Portuguesa, tomo I, p. 452. Ver tomo X, p. 276, destas Memórias. Ibidem, p. 770. Ver tomo III, p. 308 e 316, destas Memórias.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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POVOAÇÕES MORTAS

TOMO XI

Pena Chaque (704). Ponte do Mente, noutras partes aparece Fonte do Mente (705). Prado Redondo (706). Santa Cruz da Vilariça (707). São Silvestre (708). Seixo de Carvas, concelho de Carrazeda de Ansiães (709). Silhade, anexa de Felgar, concelho de Moncorvo. Toural, concelho de Carrazeda de Ansiães (710). Teixedo, freguesia de Pombares (711). Tourões (712). Vale de Espinho (713). Vale de Pedro, concelho de Carrazeda de Ansiães (714). Vale de Ratis (715). Vila Alva, pág. 407. Zarrozino, Zorrozinhos, Zorrozinos, ficava entre Calvelhe e Serapicos (716). Hoje não é povoada e possivelmente corresponde a alguma das ruínas mencionadas no tomo IX, págs. 142, 149 e 180, destas Memórias. Provavelmente S. Pedro dos Sarracenos (Sancti Petri de Zorozynos), como vem mencionado nas Inquirições (717), dele deriva o nome. Zevres (718).

(704) (705) (706) (707) (708) (709) (710) (711) (712) (713) (714) (715) (716) (717) (718)

Ver tomo III, p. 364, destas Memórias. Ibidem, tomo IV, p. 38, 58, 59, 61 e 65. Ibidem, tomo III, p. 332. Ibidem, tomo IV, p. 71 e 73; tomo X, p. 743. Ibidem, tomo IX, p. 708. FERREIRA, Cândida Florinda — Carrazeda de Ansiães, 1933, p. 31 e 57. Ibidem. Ver tomo III, p. 331 e 369; tomo X, p. 810, destas Memórias. Ibidem, p. 386 e 387. Ibidem, p. 369, 370, 388 e 404. FERREIRA, Cândida Florinda — Carrazeda de Ansiães, p. 31 e 57. Ver tomo I, p. 313 e 316, destas Memórias. Ibidem, tomo III, p. 313, 314, 315 e 318. Ver tomo III, p. 372 e 408, onde as publicamos. Ver tomo IV, p. 23, destas Memórias.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


PRADO

441 TOMO XI

PRADO (Gil do), primeiro deão da Sé de Miranda, tomo VI, pág. 665. Foi lente da Universidade de Coimbra, onde regeu uma catedrilha de cânones desde 1541, passando em 1545 para a cadeira do Sexto (719). PRÉ-HISTÓRIA (720) Castedo. No termo de Castedo, concelho de Moncorvo, na raia divisória do termo, entre esta povoação e a de Vilarinho da Castanheira, há uma fraga com vários sinais insculpidos deste formato:

Parece que em cima havia uma cruz de que só resta o braço vertical, tendo-se gasto o horizontal, que substituímos por pontos. Noutra fraga, entre os mesmos termos, há sinais por este tipo e posição:

Colhi estas notícias do Relatório sobre os limites dos concelhos de Torre de Moncorvo e Carrazeda de Ansiães, organizado em 1938 pelo major Fernando Vítor Valente Valadas Vieira, delegado do Instituto Geográfico Cadastral, de que há uma cópia no Governo Civil de Bragança. O Relatório é datado de Lisboa, a 25 de Agosto de 1938. Noutros pontos da raia divisória entre as duas mencionadas povoações há fragas com cruzes insculpidas. segundo aponta o Relatório. PUBLICAÇÕES ANÓNIMAS (721) As Duas Amazonas, mencionadas como anónimas no tomo VII, pág. 778, destas Memórias, tiveram segunda edição com este título: «Mariana Cândida da Fonseca Dine — As Duas Amazonas, ou o assalto de Marselha por Mery — traduzido do francês por uma senhora bragantina, 2. a edição 1849-1899, Porto. Tip. Comércio Portuense, 1899». (719) vol. II, p. (720) (721)

FERREIRA, Francisco Leitão — Notícias Cronológicas da Universidade de Coimbra, 1940, 11, 21, 98 e 503. Ver tomo IX, p. 619; tomo X, p. 823. Ver tomo VII, p. 778.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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PUBLICAÇÕES ANÓNIMAS

TOMO XI

No prólogo — Duas Palavras — descreve a autora a Bragança do seu tempo, que conheceu muito, pois ali viveu e casou com Agostinho José Lopes Dine, de quem falamos na pág. 118 e no tomo VII, pág. 158. Ao Sr. Jorge Ghira Dine, bisneto da tradutora, agradecemos a notícia desta edição das Duas Amazonas, que não conhecíamos. Instituto de Zamora — excursion a Braganza. Zamora, 1933. Oito páginas, com ilustrações dos monumentos artísticos de Bragança. As notícias referentes aos edifícios artísticos de Bragança foram dadas pelo Dr. Raul Manuel Teixeira. Justiça! ao tenente Morais Sarmento, assassinado em Luanda, 1931. Coimbra, 1931, t. de 10 páginas. O tenente Morais Sarmento, natural da Torre de Dona Chama ou das imediações, foi assassinado em Luanda, capital de Angola, onde exercia o cargo de Inspector da Administração Pública e chefe do Gabinete, interino, do Alto Comissariado de Angola, a 20 de Março de 1930. Era um oficial valente e notável como exímio picador, ganhando muitas vezes o prémio em corridas de cavalos. Parece que foi mandado assassinar por oficiais brancos, irritados pelos óbices que opunha aos seus desmandos administrativos, segundo diz o opúsculo acima, onde se apontam seus nomes. No jornal A Voz, de 21 de Setembro de 1930 e 25 de Setembro de 1935, vem o seu retrato, acompanhado de notícias referentes ao seu assassinato, com indicação dos réus. Seminário de S. José de Vinhais, número comemorativo da festa em honra do Santo Padroeiro. Porto, 1937. Vinte páginas, com oito fotogravuras insertas no texto e duas vinhetas. A festa foi celebrada desde 17 a 20 de Junho de 1937. Idem. Porto, 1939. Vinte e sete páginas, com oito fotogravuras, incluindo a da capa. O Seminário de Vinhais e o seu Padroeiro, 1938. Oitavo de vinte e três páginas, com cinco fotogravuras, incluindo a da capa. Colaboração de alunos e de alguns párocos. Esta publicação, fomentada pelo reitor do seminário, cónego Manuel Joaquim Cardoso, corresponde à outra do mesmo teor saída em 1937 e obedece ao alto plano pedagógico de dar conta da administração dos seminários e de habituar os alunos a trabalhos gráficos. Sumário das indulgências concedidas aos irmãos e irmãs da Santa Casa da Misericórdia da vila de Mogadouro concedidas pelo pontífice Pio IV, mandada imprimir para utilidade e conhecimento dos fiéis pelo provedor e mesários da mesma Santa Casa, no ano de 1858. Tipografia de Bragança, 1858, oitavo pequeno, de quinze páginas. O provedor Francisco António Guedes de Morais Leite Velha. Vi um exemplar no Mogadouro, em poder do Dr. Casimiro Henriques de Morais Machado. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


QUINA

443 TOMO XI

Q Q UINA (Eduardo Augusto Vaz de), natural de Argozelo. Ver tomo VI, págs. 18 e 696, destas Memórias. Faleceu em Argozelo a 18 de Dezembro de 1940. Q UINTELA (D. Abília do Carmo Vaz Granjo), mãe do Dr. António Augusto Pires Quintela (ver tomo VII, pág. 427), um dos Mecenas desta obra, faleceu em Bragança, freguesia da Sé, a 23 de Novembro de 1938. Q UINTELA (Paulo Manuel Pires), doutor em letras pela Universidade de Coimbra, professor auxiliar de filologia germânica na mesma, nasceu em Bragança, freguesia da Sé, a 24 de Dezembro de 1905, e é irmão do Dr. António Augusto Pires Quintela (722), filho de Agostinho Paulino Pires Quintela e de D. Abília do Carmo Vaz Granjo. Fez os estudos liceais em Bragança e os da especialidade em Coimbra, onde terminou o curso em 1929. De Maio de 1927 a Maio de 1929, frequentou a Universidade de Frederico Guilherme, de Berlim, como estipendiado da Fundação de Alexandre de Humboldt. Voltou depois a Berlim, como bolseiro da Junta de Educação Nacional, onde permaneceu até Julho de 1933, continuando os seus estudos de germanista, tendo exercido, desde 1931 a 1933, as funções de leitor de português, na referida Universidade alemã. É, desde 1938, o director artístico do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, onde se tem representado, sob a sua orientação, autos de Gil Vicente, Camões e Calderon de la Barca. Tem colaborado nas revistas: Manifesto — Revista de Portugal, Litoral, Seara Nova, Biblos, sobre assuntos de crítica literária inglesa e alemã. Tem publicado: A Barca da Glória, de Gil Vicente. (Versão portuguesa e notas). (Coimbra, 1941, 8.° de cinquenta e quatro páginas). Rainer Maria Rilke. Cinco canções (Agosto de 1914), traduzidas do alemão e comentadas. (Coimbra, 1940, 8.° de vinte páginas). As «Barcas» de Gil Vicente. (Conferência lida a 14 de Maio de 1942, no Curso de Extensão Universitário, promovido pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. (Lisboa, 1943, 8.° de trinta e uma páginas).

(722) Ver tomo VII, p. 427, destas Memórias.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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QUINTELA DE LAMPAÇAS

TOMO XI

R. M. RILKE — Poemas (I). (Prefácio, selecção e tradução). — A Balada do amor e da morte do alferes Cristóvão Rilke. (Tradução). G. KELLES — Pequena lenda da dança. (Tradução). [Publicações do Instituto Alemão da Universidade de Coimbra]. G. H AUPTMANN — A Ascensão de Joaninha. (Prefácio, tradução e notas). [Colecção Bilingue. Papelaria Fernandes, Lisboa, 1944]. Antologia de Poesia Alemã. (Em colaboração com Wolfgang Kayser e Albin Eduard Beau). [Publicação do Instituto de Cultura Alemã de Lisboa, 1945]. Poemas de Rilke. Carta a Vitorino Nemésio, para servir de Credencial a algumas Traduções. [Revista de Portugal, N.° 2, Coimbra, Janeiro, 1938]. R. M. RILKE — A Primeira Elegia de Duíno. (Tradução). Comentário: Este «Erro de Distinguir». [Revista de Portugal, N.° 8, Coimbra, Julho, 1939]. Rainer Maria Rilke e a Guerra. [Revista de Portugal, N.° 10, Lisboa, Novembro, 1940]. A Lição Histórica do «Fausto». [Manifesto, N.° 1, Coimbra, Janeiro, 1936]. Um Poeta de Trás-os-Montes (Miguel Torga). Conferência. [Coimbra, 1941]. Motivgeschichtliche Betrachtungen Zu Den «Barcas» Des Gil Vicente. [Romanische Forschungen, 56. Band, 3. Heft. Erlangem, 1942]. William Beckford e o Príncipe do Brasil. [Litoral, N.° 2, Julho, 1944]. O Caçador do Céu, de Francis Thompson. (Nota e Tradução). [Revista de Portugal, N.° 5, Coimbra, Outubro, 1938]. HOLDERLIN — Poemas. (Prefácio, Selecção, Tradução, Notas e Comentários). [Publicação do Instituto de Cultura Alemã, Lisboa, 1945]. CALDERÓN DE LA BARCA — O Grande Teatro do Mundo. (Tradução, em colaboração com M. D. Jacinto e A. da S. Santos; Prefácio, Revisão e Notas). [Ed. do Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra, 1945]. A entrar no prelo: Rainer Maria Rilke (Estudo biográfico e crítico). Em preparação: Edição crítica do Auto da Barca do Inferno, de GIL VICENTE. William Blake (Estudo crítico, antologia de poemas, tradução). QUINTELA DE LAMPAÇAS E ALVITES. A propósito do foral desta povoação, que publicamos no tomo III, pág. 298, diz-nos, em carta de 7-3-1919, o erudito amigo Padre Ernesto Augusto Pereira Sales: «Este foral de Quintela, que figura como sendo Quintela de Lampaças, suponho ser antes Quintela, concelho de Vila Real, pelo seguinte: O texto do documento não deixa perceber que se refira a Quintela de Lampaças, em todos os seus termos sujeita a Bragança, como explicitamente MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


QUIRÁS

445 TOMO XI

o declara o foral de D. Sancho I de 1187 (723), não parece verosímil que viesse o Judex de Panoyas, aforar uma propriedade estranha ao distrito da sua jurisdição. A meu ver, dá-se com o foral de Quintela, o mesmo equívoco que se dá com o de Alvites, concelho de Vila Real: alguns dicionários corográficos atribuem também à povoação homónima do concelho de Mirandela, o foral que não lhe diz respeito. Alvites (do concelho de Vila Real), é uma povoação formada de várias casas ou quintas, separadas entre si, tendo as seguintes denominações: Prado, Calçada, Castando (talvez o Castanedo do texto), Quinta e Outeiro (724). Nem as Inquirições de D. Afonso III, sempre tão faladoras, fazem referência alguma ao tratar-se de Lampaças, a Martinho Gonçalves, foreiro de tal propriedade regalenga sita em Quintela; referem-se sim a Nuno Martins de Chacim. O senhor da terra de Panoyas, que figura no foral de Quintela (e no de Alvites) é Menendus Garcia, que aparece em documentos desde 1249 a 1255, pelo menos; o Judex da mesma terra é Julião Gonçalves, que figura em documentos (que eu saiba, já se vê) desde 1247 a 1253. Ora o teneus de Bragança, cuja jurisdição nesta época se estendia por toda a terra de Ledra até à margem esquerda do Tua, era naquele ano de 1252, muito provavelmente, Fernando Lopes, e não é ele que no dito foral figura como senhor da terra. A meu ver é aquele foral de Quintela urna das muitas cartas de aforamento que por aqueles anos se fizeram em terra de Panoyas, como o de Alvites em 1249, os de Arroteas e Asudos em 1253, etc., nos quais sempre figura o Judex Julião Gonçalves». «No anno de 1807 cuçedeo neste lugar de Quintela [de Lampaças] em dia de Corpos de Deos a disgracia de se arazar este termo e ficou muito pouco pam e em dia 24 de Junho dia de São João veio tam grande tromenta que acabou de arazar tudo levando ortas lameiros paredes tudo ficou mistico na ribeira levou 16 muinhos prezas arvores que arancou que tudo ficou pedindo a Deos clemencia em the as pontes se não sabe donde herão Deos tenha piedade das nossas almas. Em dia 10 de Abril de 1834 poserão de novo o S. S. Sacramento em Santa Combinha no primeiro domingo depois da pascoa. Francisco José Centeno» (725). Q UIRÁS. Ver tomo VI, pág. 398. Ver adiante o artigo Rodrigues (D. Júlia Sofia Borges da Veiga Barreira). (723) Ver p. 107 onde o publicamos. (724) Ver tomo IV, p. 107, destas Memórias. (725) Livro 104 — Cartório notarial — Do Museu Regional de Bragança, fl. 1. (Centeno era escrivão judicial do ramo de Lampaças).

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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RABAL

TOMO XI

R R ABAL . António José Pinheiro de Figueiredo Sarmento. Ver tomo IV, pág. 662; tomo VI, págs. 28 e 403; tomo VII, págs. 185 e 494, destas Memórias. «Dona Ana Pinto mulher que foi do Dr. António José Pinheiro de Figueiredo moradores neste lugar de Vila Nova freguesia de Santo António morreu no dia dez do mês de Março de mil setecentos noventa e quatro anos com todos os Sacramentos necessários, Confissão, Comunhão e Extrema Unção para o último trânsito de sua vida, e foi sepultada nesta igreja matriz e morreu ab intestado. E para que conste este termo, hoje dia, mes e ano ut supra. O Confirmado Luís António da Costa». Livro dos Defuntos de Vila Nova (das Patas) existente no Museu de Bragança, secção Arquivo Distrital, fólio 60. «Aos doze de Março de mil oitocentos e trinta e seis se receberam por marido e mulher na presença do Padre Francisco José Baptista, da Bouça, com minha licença e na presença das testemunhas e obtida licença do Juiz respectivo Sebastião Manuel de Sampaio, filho legítimo de Manuel António de Sampaio e de sua mulher Teresa, do lugar da Bouça, com D. Ana Emília de Figueiredo Pinheiro, filha de António José Pinheiro e de D. Ana de Sousa, de Contins, sendo testemunhas João Silvério e João Matias, de Golfeiras». Encontrei no Arquivo Distrital de Bragança, no maço em que estão atados os livros do Registo Paroquial de Carvalhais e Vila Nova, duas folhas soltas de um livro dos Casamentos de Vila Nova, que não se encontra nesse maço, e numa dessas folhas está o assento que transcrevo, incompleto, por não aparecer o resto. Meti essas folhas no livro dos óbitos acima referido junto ao assento de óbito de D. Ana Pinto, mãe da nubente. — Francisco Manuel Alves, abade de Baçal. RABAL E VILA NOVA DAS PATAS. Tomo VI, pág. 403; tomo VII, pág. 185. Habilitação de genere em 1810 de Ezequiel Lourenço Pinheiro de Sousa. No requerimento junto diz: Que foi baptizado em Vila Nova das Patas, filho do Bacharel António José Pinheiro de Figueiredo, e de D. Ana Maria de Sousa, neto paterno do capitão Miguel Pires Pinheiro e de Luzia Esteves de Figueiredo, de Rabal e materno do capitão Domingos Pires Roxo e de Maria Rosa de Sousa, de Golfeiras, freguesia de Mirandela. Mais diz que seus pais e ele requerente residem em Contins. Faltam as certidões porque o processo está muito dilacerado (726).

(726) Processo existente no Arquivo da Câmara Eclesiástica em Bragança.

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RAIA DIVISÓRIA ENTRE PORTUGAL E ESPANHA

447 TOMO XI

A propósito do morgadio fundado em Rabal pelo Padre João de Varge, mencionado no tomo VI, pág. 402, no artigo Rabal aditamos mais o seguinte: No Arquivo Distrital de Bragança, adjunto ao museu guarda-se o processo de habilitação de genere de João de Varge, que foi depois o padre acima mencionado, e dele consta ser filho de João de Varge e de Filipa Rodrigues, neto paterno de João de Varge e de Aldonza Cazares, naturais de São Tiago, bispado de Orense e materno de Afonso Rodrigues e de Francisca Pires, de Rabal. O processo foi organizado em 1623. São Tiago fica a uma légua da Moimenta, concelho de Vinhais. O avô era sapateiro e «fazia çapatos de corrêa». Os pais do ordinando viviam em Bragança.

RAIA DIVISÓRIA ENTRE PORTUGAL E ESPANHA, SUAS ALTERAÇÕES. MAHIDE, CALABOR E OUTRAS POVOAÇÕES ESPANHOLAS PERTENCENDO A PORTUGAL Ver tomo I, págs. 39 e 57; tomo III, pág. 409; tomo IV, págs. 7, 8, 11, 14, 41, 43, 46, 49 e 51, destas Memórias. «In dei nomine amen. Ego domnus Alfonsus ex portugalensium propter amorem dey et timendum dien iudicii facio kartam donacionis et firmitudinis de villa que vocitant Mayde do deo et monasterio Sancti Martini de Castanaria et tibi abbati Martino et omnibus successoribus tuis nunc et in perpetuum do illam et concedo cum suis pertinentiis et cum suis terminis scilicet per Val de Carvallo deinde a la Modorra deinde ad aqua de edradas sicut intrat in fluvium de Alist et deinde sicut escendet pradicta aqua usque ad serrum aquas vertentes et inde vadit per serrum vertentes aquas usque ad cabeza de zima de Val de Messes et deinde descendit ad portum novum et deinde ad portum de columbria nes quidicitur Font Ferrada et inde a las Canpazas et inde per el canpo sicut dividit et determinat cum gallegis et inde ad val de Carvalo do eam vobis predictam villam cum suos jam nominatos terminos et ecclesiis et cum omnibus pertinenciis suis usque ad minimam ren. Siquis meum factum irrumpere vel temptare voluerit sit maledictus et excommernicatus et cum juda proditore in inferno dampnatus. Et insuper pectet qui vocem regis pulsaverit M. morabitinos et ad predictum monasterium iam nominata villa duplata in tali loco vel meliorj. Facta karlã donacionis et firmitatis XV kalendas octubri Era M.a C. a L.a XXXX. a II. a Ego domnus Alffonsus rex portugalensis hanc kartam donacionis et firmitatis propria manu roboro et confirmo. Testes qui uiderunt et audierunt. Dompnus Pelagins cf. Komes Roderici cf. Karsias Melendi cf. dompnus Melendus cf. Fernandus Melendi cf. Egas Moniz cf. RodeMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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RAIA DIVISÓRIA ENTRE PORTUGAL E ESPANHA

TOMO XI

neus Gomes cf. Ermigius Moniz cf. Karsias Fernand cf. Dompnus Fernandus signifero regis cf. Petrus Fernandi cf. Comes melendus cf. Egas qui notavit» (727). «A este documento seguem-se mais os seguintes: uma carta de doação da mesma aldeia de Mayde ao referido mosteiro de São Martinho, passada por D. Fernando II, rei de Leão, em 27 de Novembro de 1167; e a outra de Pedro Rodrigues, e sua mulher, Maior Fernandes, com seus filhos e filhas Estevam Pedro, Niora Pedro e Vellasquida Pedro a doar ao mesmo mosteiro a quinta de Calabor, e outros bens nos termos de Bragança, passada em Agosto de 1211» (728). A carta de D. Fernando diz: «Ea propter ego dominus Fernandus domini gratia hispaniarum Rex do deo et monasterio Sancti Martiny de Castinaria et vobis abbaty domino Martino atque successoribus vestris illam villam qui iacet in Alist quy vocitant Mayde quam dederat vobis dominus Alffonsus Rex portugallensis...». Conclusão: a raia de Portugal sofreu alterações na região bragançana, ao contrário do que pensa Herculano (729), pois Maide pertencia a Portugal pelos anos de 1154, como se colhe da doação de D. Afonso feita na era de 1191, que corresponde ao ano de Cristo de 1194 e, entre este ano e o de 1167 (doação de D. Fernando II), passou para Espanha. Também pelo documento acima se vê que a quinta de Calabor, que deve ser a povoação espanhola deste nome, fronteira à povoação de Aveleda, concelho de Bragança, pertencia em 1211 a Portugal. A tradição de Calabor ser antigamente portuguesa ainda corre vagamente por terras bragançanas. Maide (os espanhóis escrevem Mahide) fica a uns vinte quilómetros de S. Julião, povoação raiana do concelho de Bragança, e Calabor a uns cinco da de Aveleda, confrontando porém seus termos. Conjugando os dados acima com o foral de Castrelos, em Espanha, dado por el-rei D. Afonso IV, de Portugal, em 1325 (730), somos levados a concluir que a raia na região bragançana se estendia então por longa faixa em volta da região bragançana. No tomo VIII, destas Memórias, mencionamos várias povoações espanholas desta área fronteiriça ao distrito de Bragança que estiveram sujeitas a Portugal pelos anos de 1712 a 1715, devido às Guerras da Sucessão.

(727) Este documento existente na Torre do Tombo, Gaveta 1, maço 1, doc. n.° 12, foi publicado pelo Dr. Alfredo Pimenta em O Instituto, vol. 95 (1939), p. 233. No tomo IV, p. 368, destas Memórias, já tínhamos dado notícia dele. (728) PIMENTA, Alfredo — O Instituto, vol. 95 (1939), p. 237. (729) Ver tomo I, p. 39, onde a refutamos. (730) Ibidem, p. 39, onde tratamos do caso.

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REGISTO PAROQUIAL

449 TOMO XI

REGISTO PAROQUIAL — Nas constituições diocesanas de Lisboa, de 1536, ordenadas pelo arcebispo D. Afonso, determina-se que em cada igreja paroquial haja um livro para registo de baptizados e óbitos. «Do próprio texto da disposição e de outros lugares das mesmas Constituições se depreende que não havia registo de matrimónio; foi determinado em Portugal no século XIV» (731). «Depois do Concílio de Trento só lentamente se foi introduzindo o registo paroquial ou pelo menos a sua regulamentação nas Constituições diocesanas» (732). Segundo diz o cronista Damião de Góis, foi o arcebispo de Lisboa D. Afonso o primeiro que em Portugal ordenou o registo paroquial em 1536, como se diz acima, mas isto quanto a baptizados e óbitos, pois «o registo dos casamentos já fora criado no século XIV por uma lei de D. Afonso IV; mas não sabemos até que ponto ele se observou» (733). O livro do registo paroquial de Lisboa, mais antigo, é de 1536, e parece que no mundo não os há anteriores (734). No Museu de Bragança há livros do Registo Paroquial de baptizados desde 1539, faltando a alguns folhas anteriores, por terem sido rasgadas, sinal de que alcançam à primitiva criação de 1536. Entre outros, cito os de Castelo Branco, concelho do Mogadouro. REGO (António Balbino), médico, tomo VII, pág. 434. Faleceu em Lisboa, onde vivia, a 8 de Maio de 1938. REGUENGOS. Nas povoações reguengueiras impunha-se aos moradores a obrigação de povoar e cultivar como mostram as Ordenações, livro 2.°, título 17. A casa de Bragança tinha muitos reguengos e eram, no nosso distrito: Bouzende, Edrosa, Moimentinha e Rio de Onor. Moimenta, concelho de Vinhais, Vila Alva, entre Pinela, Moredo e Rossas. Ver pág. 395. Os seus reguengueiros gozavam o privilégio de não pagar peitas, fintas, talhas, pedidos, ou outros quaisquer tributos reais; de não ser obrigados a acompanhar presos ou dinheiros públicos, nem a tutelar órfãos, senão das reguengueiras; de servir cargos públicos; de hospedar em suas casas pessoa alguma de qualquer condição que fosse e ninguém lhes podia tirar de suas casas vinho, bestas, pão, roupas, galinhas, palha, lenha ou outra qualquer cousa contra sua vontade.

(731) A LMEIDA, Fortunato de — História da Igreja em Portugal, 1915, tomo 3, parte 2.a, p. 665. (732) Ibidem. (733) Idem, p. 845. (734) PRESTAGE, Edgar; AZEVEDO, Pedro de — Registos Paroquiais de Lisboa.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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RIBEIRO

TOMO XI

R IBEIRO (Joaquim Pedro Vitorino), tomo VII, pág. 445. Morreu em Francelos, esmagado pelo combóio, a 10 de Novembro de 1944. RIBEIRO (José M. Gomes). Sei apenas que é natural de Vinhais e que foi para o Brasil. Tem publicado várias obras, entre elas: Dois Centenários — Palestra recitada pelo autor, na sessão comemorativa dos Centenários de Portugal, realizada na cidade de Petrópolis, a 2 de Junho de 1940 — Petrópolis, sem data, 15 págs. 0,18x0,11 metros. RIBEIRO (Manuel António), artisticamente Manuel Ribeiro — Maestro, capitão, chefe de banda militar, nascido em Mirandela a 1 de Maio de 1883, filho de Frederico José Ribeiro e de Alexandrina Rosa Ribeiro. Iniciou os seus estudos em Chaves, onde assentou praça, concluindo-os em Lisboa, em Janeiro de 1914. Hoje (1943) pertence ao quadro de oficiais de reserva. Foi professor de música do Colégio Militar desde 1922 a 1939. A 5 de Agosto de 1938, Mirandela prestou solene homenagem a este seu distinto filho, indo esperá-lo à estação do caminho-de-ferro luzido cortejo, representado pelo comércio (que encerrou as suas portas), bombeiros voluntários, câmara municipal, povo da vila e das aldeias, acompanhando-o em seguida para os Paços do Concelho, onde o Dr. José Bacelar focou os brilhantes méritos de Ribeiro como musicógrafo e escritor, a propósito da homenagem em pergaminho que lhe foi oferecida. Tem publicado: Manual Teórico e Prático do Músico Amador. 1935. Vila Nova de Famalicão, 264 págs. Quadros Históricos da Vida Musical Portuguesa. 1939. Idem, 286 págs. Por entre fraguedos. Romance de costumes trasmontanos, dedicado ao povo de Trás-os-Montes. 1941. Idem, 327 págs. Contém cinco fotogravuras de Mirandela, Vila Real, Chaves, Bragança e Miranda do Douro e muitas canções populares regionais, acompanhadas da respectiva música. Este livro é muito interessante, sob o ponto de vista etnográfico e léxico, pelas palavras regionais que emprega. As suas principais obras em música são: Alcipe, ópera cantada em Lisboa, a 3 de Junho de 1929, no Coliseu dos Recreios. Para grande orquestra duas sinfonias, sete poemas sinfónicos, dezoito rapsódias de canções regionais, vários Suites, aberturas, fantasias, operetas, revistas, etc.; muita música ligeira. O número total de composições deve atingir seiscentas, aproximadamente. Ribeiro dirigiu as melhores orquestras portuguesas nos teatros de Lisboa e ultimamente na Emissora Nacional. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


RIBEIRO SEIXAS

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RIBEIRO SEIXAS (D. Bernardo Pinto), bispo de Miranda. Ver tomo VII, destas Memórias, pág. 446. No Museu de Bragança há um caderno de 13 fólios, que paginamos a lápis vermelho, por não ter paginação, de papel imperial, não pautado com capas de papel pintado, que tem por título: DEMONSTRAÇÃO CANONICO-CIVEL THEORICO-PRATICO DO DIREITO, QUE COMSERENISSIMA MITRA PRIMAZ DAS HESPANHAS, PARA NÃO PAGAR A CONGRUA EX. MO BISPO DE MAURICASTRO COADJUTOR SUFFRAGANEO DA MESMA .

PETE Á AO

No verso do fólio 13 termina assim: «Este meu voto conforme ao de egregios Mestres e Theologos que com a maior reverência em tudo sujeito à censura da Sancta Sé Apostolica, e do Serenissimo Senhor D. Gaspar Arcebispo Primaz das Hespanhas, como ao parecer dos mais doutos. Braga 24 de Novembro de 1763. Bernardo Pinto Ribeiro Seixas». Esta erudita demonstração, inculcadora dos profundos conhecimentos jurídico-canónicos do autor e toda escrita pela mão de D. Bernardo, em letra muito bem feita, está literalmente cheia de textos de autores, postos à margem, em coluna separada do texto por uma linha vertical feita a tinta.

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Ver tomo X destas Memórias, págs. 12 e segs. Da enorme importância dos rifões, já dissemos no tomo X, pág. 12, destas Memórias, lembrando agora que os sábios vêem neles «um remoto pressentimento intuitivo de verdades científicas modernamente reconhecidas» (735). Na pág. 249 notamos como o povo vai aperfeiçoando os provérbios, até chegar à assonância, sua fórmula predilecta, partindo muitas vezes da aliteração e das locuções proverbiais. A contradição que parece haver entre alguns rifões é apenas aparente, devida à região, tempo em que se criaram e outras circunstâncias de aspecto antagónico, mal conhecidas. Confirmando, temos: Chovendo na Ascensão até as pedras dão pão. Mas no tomo X, pág. 27, destas Memórias, registamos outro que diz: Chuva na Ascensão fura as nozes e

(735) CORREIA, Mendes — Conferências da Liga Portuguesa de Profilaxia Social, 1933, p. 269.

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tira o sustento ao pão. Ora a Ascensão pode calhar em Abril, Maio ou Junho. Se vier em Abril, bem está — Abril águas mil, peneiradas por um mandil. Se em Maio, e for pouca, passe — Uma água em Maio e três em Abril, valem por mil; Maio hortelão, muita palha e pouco grão; mas se chove em Junho, Deus nos acuda — Água em São João (Junho) tira vinho e azeite e não dá pão. Vezes há que dependem da quantidade. Assim: Janeiro molhado, se não é bom para o pão, não é mau para o gado; todavia, se a água for muita, os ovinos, principalmente a criação, enchem-se de bexigas e morrem, justificando então o ditado: Janeiro molhado, não é bom para o pão, nem para o gado. Outras derivam do clima e situação geográfica. Assim: Pela Senhora da Ribeira (25 de Março) poda verdadeira. Está tão certo para as terras frias, como para as quentes o que adverte: Podar em Março é ser madraço. Em Montesinho e noutras serras há muitas colmeais e produzem bastante mel, apesar de a época dos enxames ser em meados de Junho, quando já nada valem nas altitudes inferiores a seiscentos metros. Segundo reza o ditado O (enxame) de Abril não o deixeis ir, o de Maio, arrecadai-o e o de São João (Junho), quer se vá, quer não. Outras vezes a aparência contraditória está no significado das palavras. Assim: A ovelha que mais corre, não é a que mais come; harmoniza-se, sem colidir, com o que diz: Quem diante anda, diante apanha, porquanto, num subentende-se, Quem muito abarca, pouco abraça e no outro o que, embora caminhe mais devagar, apreende solidamente as coisas. Por este teor se explicam as antinomias de todas e, se alguns ainda ficam irredutíveis é porque não alcançamos as circunstâncias do seu significado. Os rifões são ainda interessantes e dignos de estudo etnográfico, por caracterizarem a idiossincrasia das regiões onde predominam, devendo, por isso notar-se, nestes bragançanos, a fácies agrícola tirada dos gados bovinos, suínos, ovinos, caprinos, equinos e galináceos, bem como das culturas: vinho, centeio, trigo, linho, mel, cevada; da bateria agrícola e das operações culturais, bem como do sentimento religioso. Pelos rifões pode julgar-se com relativa segurança do meio onde foi criado quem os usa. Nos meus tempos escolares tive por contemporâneo um rapaz, filho de centro industrial mecânico, que, quando se referia a alguém menos ajuizado, classificado por nós de falho de aduelas, ele dizia-o falto de sebo na mola real. Note-se: nós, filhos de região vinícola, empregávamos aduela, peça das pipas, como corre na terra, e ele, as unturas aplicadas às máquinas. Na terra dele predominavam as guitarradas, e quando nós dizíamos que já preparáramos as lições, ele aditava: pois eu já levo a rabeca menos mal temperada. Assim, por este teor, é no mais. Este ditado já deve ser antigo pois o emprega Cervantes (século XVI), dizendo, com triste realidade cáustica: «En este tiempo solicitó Don Quijote a un labrador vecino suyo, hombre de bien (si es MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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que este titulo se puede dar al que es pobre), pero de muy poca sal en la mollera» (736). O mesmo, falando de outro nas mesmas condições diz, com não menos graça: «este gentil-hombre debe de tener vacios los aposentos de la cabeza» (737). A cabra puxa sempre para o monte. A casa de teu irmão não vás a cada serão. Ainda agora a procissão vai na praça. Ainda agora estamos a Santos. A ovelha procura a parelha. A pobreza não é vileza, nem a riqueza nobreza. A preguiça é a mãe de todos os vícios. A razão inclina-se para o lado do coração. À moda da vila: grande saquita e pouca comida. À noite janta o rico e deita-se o pobre. Agora é que vai ser o bom e o bonito! Amigos, amigos, mas negócios à parte. Amor de rameira e convite de estalajadeiro, custam sempre dinheiro. Andar com cães mortos à caça. Refere-se ao que utiliza criados ou operários que não prestam. Antes pobre honrado, que rico difamado. Anda a atirar aos cães. Equivale a vadio, não fazer nada. Ao clérigo sandeu, parece-lhe que todo o mundo é seu. Ao longe tudo pesa. Armas, letras ou tretas. Arrenega do moço que não muda de índole ao rebentar o boço. As aparências iludem. Assim, assim, a meio da moda. Assim, assim, tem-te, não caias. Assim, assim, vamos andando. Resposta dos convalescentes a quem lhe pergunta como vão de saúde. Atrás de tempo, tempo vem. Às vezes debaixo da ruim capa está um bom bebedor. Em certo modo relaciona-se com o ditado mirandês: Às vezes, onde parece que não há estacas, há toucinhos, e onde parece haver toucinhos nem estacas há. Este rifão é antigo e já o emprega Cervantes: que muchas veces donde hay estacas no hay tocinos (738). Bem é saber calar até ser tempo de falar. Bem prega Frei Tomás, mas uma coisa diz e outra faz.

(736) CERVANTES — Don Quijote, tomo I, cap. VII, p. 97 (mihi). (737) Ibidem, cap. LII, p. 411 (mihi). (738) Idem, tomo II, cap. LXXIII, p. 375 (mihi).

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Boa terra, má gente; má terra, boa gente. Boa vai ela... Boa fama grangeia quem não diz mal da vida alheia. Boi solto, do seu se lambe. Bom audiente, bom respondente. Bom conselho desprezado, pode ser muito lembrado. Bom é o comer de sardinha, se traz comer de galinha. Ao contrário o comer de galinha traz muitas vezes o de sardinha, porque o bem passar em todo o tempo não traz bom testamento. Bom serás, se morto estás. Também dizem: Quem quer deve morrer. Brás, bem o diz e mal o faz. Cá e lá, baralha há. Cada doçura custa uma amargura. Cada qual com seu igual. A ovelha busca a sua parelha. Mas é mais frequente: Cada pardal com seu igual. Cada qual no seu ofício. Cada um sabe de si e Deus do de todos. Cada um vê o mal e o bem, conforme os olhos que tem. Cães grandes não se mordem. Caiu na esparrela. Caro se compra o que se pede. Casa roubada, trancas nas portas. Casados e doentes, vivem descontentes. Castanhas idas, velhas pelos soutos. Alude ao fraco serviço dos velhos já satirizado no cantar corrente, tanto em galego como em português, que diz: Una vieja y un candil No se escusan nuna casa: La vieja para reñir Y el candil para gastar graxa. Chovera e nevara, mas não ventenejara, dizem os ovinos. Chove e choverá, Quem estiver na casa alheia, Se vergonha tiver Logo dela se irá. Chuva de verão e lágrimas de putas, quando caem no chão ficam logo enxutas. Com arte e engenho se passa meio ano; com engenho e arte se passa a outra parte. Com tolos nem para o Céu. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Consultar a quem sabe é já saber metade. Contas de perto e amigos de longe. Criados e bois, um ano até dois. Cruz nos peitos e o diabo nos feitos. Cuida o ladrão que todos assim são. Cunhados ou cunhadas, sempre às unhadas. Cutelo mau, corta o dedo e não corta o pau. Dá Deus o frio conforme a roupa, mas dá mais se for pouca. De Burgos não vem cousa boa. Dizem os de Rabal que o vento de Burgos gera os bichos nas cerejas. De Castela nem bom vento, nem bom casamento. De contente lhe dói um dente. De mau corvo, mau ovo. De ruim árvore nunca bom fruto. Deu em águas de bacalhau; deu em pantana. Deus castiga sem pau, nem pedra. Dinheiro tinha o menino quando andava o moinho. Do lobo um pelo e esse do lombo. E agora?! gemê-lo na cama, que é lugar quente. É letra de Miranda, tanto se entende por um lado como pela outra banda. É roupa de franceses. Aplica-se às coisas que se levam roubadas. Dizem alguns que esta locução proverbial data das guerras napoleónicas, quando os soldados entrouxaram com a sua roupa a dos donos das casas onde eram aboletados, todavia já no século XVI a vemos empregada por Cervantes. Porque estos sín duda son corsarios franceses que hacen a toda ropa (739). Em casa de Gonçalo, manda mais a galinha do que o galo. Em tempo de guerra, não se limpam armas. Enterro de rico, demora mais um bocadico. (Mirandês). Entre mortos e casamentos, não há arrendamentos Faz o que não deves e encontrarás o que não queres. Ficou a chupar pelo dedo. Ficou a ver navios no alto de Santa Catarina. Galinha a pedreiro! ou está choca ou apareceu morta no poleiro. Gastar cera com ruins defuntos. Gaba-te cesto que hás-de ir à vindima. Graças a Deus muitas; graças com Deus poucas.

(739) CERVANTES — Don Quijote, tomo I, cap. XLI, p. 348 (mihi).

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Grande amor, grande labor. Guarda-te de cão preso e de moço galego. Guarda o que não presta e acharás o que precisas. Há muitas maneiras de matar pulgas. Ervas cruas, mulheres nuas e dormir em cama dura, levam o homem à sepultura. Homem de sete ofícios, em todos é remendão. Homem honrado, antes morto que injuriado. Homem pobre, nem calado, nem parado. Inimigo reconciliado, caldo esturrado. Izeda. A expressão proverbial — Sois mais que os de Izeda — já mencionada no tomo XI, pág. 263, é corrente nas terras bragançanas para indicar parasitas que se agregam a pessoas que vão levar qualquer recado ou desempenhar certa missão, com o fim de comer ou explorar a casa para interesse próprio. O mesmo se diz dos cordeleiros galegos que, terminando a sementeira dos cereais e colheita dos castanhos e bolotas em Novembro, se metem por Portugal abaixo, granjeando a vida na prática de mesteres diversos, principalmente fazendo cordas. A propósito contam a seguinte anedota: Um cordeleiro pedindo pousada em certa casa, disseram-lhe: não temos casa para vos alojar sois muitos. Nó, volveu-lhe, somos poquitos, no mas que tres da corda, tres da roda, tres da cacharola, tres da viola, mi Marica, mi Juan, mi Andres e los otros todos tres; el viejo el rapace e otra poquita jente que viene atraz. Já aqui não está quem falou. Jogo e bebida, casa perdida. Lágrimas nos olhos: risos no coração. Leve o diabo paixões, venha a Maria para junto dos nossos tições. Lombo cozido, lombo perdido. Refere-se ao lombo de porco. Má vizinha à porta é como o pulgão na horta. Mais sabe o tolo no seu, do que o avisado no alheu. Mais vale cair em graça do que ser engraçado. Mais vale deixar a maus do que pedir a bons. Mais vale má avença do que boa sentença. Mais vale manha que força. Mais vale ser aguilhão do que boi. Mais vale ser invejado que lastimado. Mais vêem quatro olhos do que dois. Mãos que não dais, que esperais? Mãos quentes, coração frio, amor vadio. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Mal por mal, antes cadeia que hospital. Mal vai ao velho quando dorme e ao menino quando não dorme. Melhor são as feridas feitas pelo amor do que os abraços do enganador. Meu Santo Antoninho, onde te porei?! Minha casa, meu lar; meu ferrolho, meu trambolho. Minha casa, meu lar; meu caquinho de mijar. Muito come o tolo, mas mais tolo é quem lho dá. Muito riso, pouco siso. Muito tens, muito vales; nada tens, nada vales. Não dá quem tem; dá quem quer bem. Não deixes para amanhã o que hoje puderes fazer. Não ha mal que cem anos dure, nem corpo que o ature. Não se afoga em pouca água. Aplica-se aos bazófias. Não se lembra a sogra, que foi nora. Não sou forma p’ró seu sapato. Outros dizem: Não sou pé para o seu sapato. Nem boa ulha sem toucinho, nem bom sermão sem Santo Agostinho. Nem depois, nem antes, te fintes em estudante. Nem sempre galinha, nem sempre rainha. Ninguém diga desta água não beberei. No dia da boda só a noiva é boa. No tempo dos cravos é que se conhecem os asnos. No tempo dos figos não há amigos; no dos nabos mais que os diabos. O bom modo e o bom falar a todos agradam sem nada custar. O espinho já nasce com o seu biquinho. O homem grande não olha a bagatelas. O meu moço tem um moço, O meu moço, moço tem. E o moço do meu moço Já quer moço também. O que arde, cura, e o que aperta segura. O que faz bem ao fígado, faz mal ao baço. O que faz bem à vaca, faz mal à saca. O que faz o parvo à derradeira, faz o sisudo à primeira. O que há-de ser pr’ó rato é melhor dá-lo ao gato. O que não tem remédio, remediado está. O que o berço dá a tumba o leva. O Senhor castiga, sem pau nem pedra. O travesseiro é bom conselheiro. Obra de feira. Diz-se de coisa que não presta ou tem pouco valor. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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Obra do comum, obra de nenhum. Onde fores ter, faz como vires fazer. Onde há galo, não canta a galinha. Onde não há, el-rei o perde. Ou hei-de estar no sino, ou na procissão. Palavras de santo, unhas de gato. Pancadinhas d’amor não ferem. Para grandes males, grandes remédios. Para próspera vida, ordem, arte e medida. Para quem é, bacalhau basta. Para quem tem saúde, três dias de mau passadio, abrem o apetite e tiram o fastio. Para traz mija a burra. Para vilão, vilão e meio. Passarinho que com água se cria, sempre por ela pia. Paz em casa e guerra em todo o mundo. Pedras ó fundo e mulheres à romaria, o diabo as guia. Pe-à-pá Santa Justa. O mesmo que Pão, pão, queijo, queijo, ou Pôr os pontos nos ii. Pedir ao Santo até passar o barranco. Pela aragem se conhece quem vai na carruagem. Pelo dedo se conhece o gigante. Perdoo-lhe o bem que me sabe pelo mal que me faz. Perto da missa, longe da justiça. Pobrete, mas alegrete. Diz-se do lavrador, pois a agricultura é a arte de empobrecer alegremente. Por agora ainda a procissão vai na praça. Por agora ainda estamos a Santos. (Refere-se ao Sanctus da Missa). Por agora ainda dura o pão da boda. Pesar alheio, não se assenta senão meio. Por o burro dar um coice, não se lhe há-de cortar a pata. Por cima de queda, coice. Por fora cordas de viola; por dentro pão bolorento. Pôr os pontos nos ii. Dizer as verdades, seja a quem for. Pose-o como o bordão dum gaiteiro. Prega frade, que pregas debalde. Qual é a Maria, tal filha cria. Que boa doutrina para a minha vizinha; tudo lhe cai em cima. Quando a raposa anda aos grilos, mal por ela e pior pelos filhos. Quando mal, maleitas. Quanto mais afastado, mais desejado. Quem ao mais alto quer subir, ao mais baixo vai cair. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Quem bom nos há-de ser, ou se vai embora, ou há-de morrer. Quem cabritos vende e cabras não tem, de algures lhe vem. Quem detrás vier, comerá do que trouxer. Quem de novo baila bem, de velho seu jeito tem. Quem de sandice adoece, tarde ou nunca guarece. Quem ladeira acima corre, por sua vontade morre. Quem leva e traz, não deixa paz. Quem más manhas há, tarde ou nunca as perderá. Quem morde e arrebanha, não tem força nenhuma. Quem muito pede, muito fede. Quem muito tem, muito gasta; quem pouco tem, pouco lhe basta e quem nada tem, Deus o mantém. Quem nasceu para burro nunca chega a cavalo. Quem nasceu para pobre não chega a rico. Quem não tem que fazer, faz colheres. Outros dizem: Quem não tem que fazer, veste-se e despe-se. Quem não tem vergonha, todo o mundo é seu. Quem não vai à palavra, não vai à pancada. Quem o inimigo poupa, nas mãos lhe morre. Quem o seu não zela, o diabo lho leva. Quem quebra velho em casa do capitão, paga novo na arrecadação. Quem quer bolota, trepa. Quem se deita sem ceia, toda a noite rabeia. Quem se quer bem, sempre se encontra. Outros dizem: Quem bem se quer, no caminho se encontra. Quem se não sente, não é filho de boa gente. Quem sempre fala dos grandes, é pequeno. Quem teima sempre vence. Quem tem mazela tudo lhe dá nela. Quem tem tenda que a atenda, senão que a venda. Quem traz calça branca em Janeiro, ou é tolo, ou não tem dinheiro. Quem tudo come sozinho, pouco pode esperar do vizinho. Quem tudo quer vingar, cedo quer acabar. Quem vai à festa, três dias não presta. Quem vai à guerra, dá e leva. Ralham as comadres, sabem-se as verdades. Raparigas e fruta, são más de guardar. Se este mundo queres gozar, é ver, ouvir e calar. Segredo de três, o diabo o fez. Sem papas na língua. O mesmo que: Pão, pão, queijo, queijo; Pe-à-pá, Santa Justa; Os pontos nos ii. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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Si, si, comadrica... pero se a corda no quebra e el nudo no desata, eu iba, mas é, parar a casa do dono da vaca. Esta expressão é corrente em terras mirandesas, para atalhar a um aranzel intrujão e explicam-na assim: a raposa, vendo uma vaca com uma corda amarrada ao pescoço, aconselhou o lobo a prender a outra ponta bem segura no peito, a fim de arrastar a vaca para as margens do ribeiro próximo, onde fariam lauto entrudinho à sombra dos carrascos. O lobo caiu na arara, mas, dado o primeiro esticão, a vaca largou a fugir vertiginosamente até que, partida a corda, o lobo regressou ao covil, mais morto que vivo, todo esmurrado e esgadanhado pelas pedras e silvados. A vulpina, supondo que lhe pediriam contas severas da tramóia, engendrou largo aranzel explicativo, acerca da ineficácia do estratagema. Porém o lobo, pachorrento e boçal, cheio de tardio bom senso, saiu-se com o ditado acima. O povo tem a raposa por símbolo da manha astuciosa e o lobo por boçal, todavia parece o contrário, pois os caçadores apanham sempre mais raposas do que lobos e, quando os pastores envenenam alguma rês a fim de os exterminar, se andam piegos, morrem sempre mais raposas do que lobos, percebendo-se contudo, pelo rasto, que estes chegam à rês e retiram sem comer, dando pela conta do veneno, facto de que a raposa se não apercebe. Sim, sim, pergunta a são Bartolomeu, que mente tanto como eu. Sobre azeitonas, quem quer bebe. Sois mais que os de Izeda. Ver Izeda. Suã, barba untada e barriga vã. Tanta lida, para tão pouca vida. Tantas cabeças, tantas sentenças. Tanto que fazer, para tão pouco que comer. Tão ladrão é o que deixa o seu, como o que leva o alheu. Tão ladrão é o que vai à horta, como o que fica à porta. Tira-o das gatunhas, que eu to tirarei das unhas. Refere-se ao cereal alborcado ao agrícola, pelas manigâncias do fisco, onzeneiros e quejandos. Todos vão, todos vão, mas nenhum como o dono do furão. Um no garfo, outro no papo e mirando ao que está no prato. Usa, serás mestre. Vale mais um amigo que cem parentes. Vale mais vender e arrepender, do que querer vender e não poder. Valem mais onças que arrobas. Valha-te Deus ao carro, já que o arado não pode. Vêem-se caras, mas não se vêem corações. Velha que seja a panela, aparece sempre um testo para ela. Velha que se não enfeita, ela mesmo se enjeita. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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No Cancioneiro Alegre, do Abade de Jazente, também se lê: Visita de três dias, Hospedada em casa alheia, Pagando com cortesias, Almoço, jantar e ceia, Fora o quarto que habita, Má visita. AGRICULTURA E ECONOMIA DOMÉSTICA Ver tomo X, pág. 27 Barro, sempre barro, mas pouco barro. Bezerro de bezerreira; vitela de vacarela (vaca velha de pouco valor). Chovendo na Ascensão até as pedras dão pão. Ver tomo X, pág. 27. Apresentamos outro contrário que diz: Chuva na Ascensão fura as nozes e tira o sustento ao pão. É que há chuva que seca e sol que rega. Chovera e nevara, mas não ventenejara. Dizem as ovelhas. Criados e bois, um ano dois. Dá-o Deus bom na eira, mas estraga-o a Maria na masseira. Refere-se ao pão mal cozido. Em chegando o São Pedro (29 de Junho), tarde que cedo. Refere-se à ceifa do centeio. Folga o trigo debaixo da neve, como a ovelha debaixo da pele. Galinha pedrês não a comas, nem a dês. Gado de bico, não põe o dono rico. Guarda o que não presta, acharás o que precisas. Guarda prado, criarás gado. Horta e nabal, na melhor terra do casal. Lavrador, antes sem orelhas, do que sem ovelhas. Nem erva no trigo, nem suspeita no amigo. O mau ano em Portugal entra nadando. Outros dizem: Para ver vingança de Portugal, basta que venham três enxeas antes do Natal. Aqui os meu vizinhos MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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afirmam: Para em Baçal ser ano de pão, não deve correr o Caborço antes do São Romão. O Caborço é uma linha de água corrente apenas de inverno, que entra no povo. São Romão, padroeiro da freguesia, é comemorado a 9 de Agosto, mas aqui em Baçal fazem-lhe a festa no dia 18 de Novembro. Pedra sem rebo, puxa galego. Rebo é uma pequena pedra sobre a qual os pedreiros tombam outra grande, levada aos volcos para a obra. Se não leva o tal rebo custa mais a voltar. Quando dão o bacorinho, acudir logo com o baracinho. Já vem mencionado no Don Quijote, de Cervantes. Quem apanha a azeitona antes do São Nicolau (6 de Dezembro), deixa o azeite no pau; quem a apanha antes do Natal, deixa o azeite no olival e quem a apanha antes de Janeiro, deixa o azeite no madeiro. Quem mal decrua, na vima o sua. Quem mal trata um animal, não é de bom natural. Quem planta no Outono, leva um ano de abono. Quem semeia em restrolho, chora com um olho e eu, que não semeei, com dois chorarei. Semeia temporão, colherás palha ou grão. Outros dizem: Sansão cem anos semeou pão e só um perdeu por temporão. E ainda: Lá vai serôdio com temporão, mas não na palha, nem no grão. Semeia-me no pó, de mim não tenhas dó; semeia-me no molhado e de mim não tirarás resultado. Se não queres beijar a tu suegro nel culo, lavra no brando e nel duro. (Mirandês). Sejas pedreiro que não, põe as pedras de tição. Tapa massa, tapa massa, enquanto o caldeireiro passa. Três luzes a arder, deitam uma casa a perder. Vinte galinhas e um galo, comem tanto como um cavalo.

ALIMENTAÇÃO Ver tomo X, pág. 31 Ovo de uma hora, pão de um dia, vinho de um ano, peixe de dez, mulher de quinze e amigo de trinta. Pão de hoje, carne de ontem e vinho de outro verão, fazem o homem são. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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CASAMENTO Ver tomo X, pág. 31 Casar, casar, que Deus dará pão; depois de casado, ou dará ou não. À terça-feira, não casar a filho nem urdir a teia. Outros dizem à quarta-feira. Ver no artigo Crendices os n.os 18, 26, 28 a 32, 34, 37, 38, 50 e na pág. 47 no tomo I, destas Memórias. Boda molhada, boda melhorada. Ver tomo IX, pág. 317, destas Memórias. Ninguém pode casar mais de três vezes, diz o povo e explica: O primeiro casamento, faze-o Deus; o segundo mandou-o fazer e o terceiro, não quis saber.

DINHEIRO Com dinheiro à vista toda a gente é benquista. Com dinheiro na mão, em toda a parte há função. Dinheiro emprestado, inimigo ganhado. O amor e o dinheiro é chocalheiro. Obra feita, dinheiro espreita. Onde o ouro fala, tudo cala. Quem não tem dinheiro, não tem vícios.

FILHOS Ver tomo X, pág. 32 Os filhos da minha filha, meus netos são; os do meu filho, ou serão ou não. Se o filho do mau é bô, lá vem o neto que se sai ao avô.

FISIONOMlA A gordura é formosura. Deus que o marcou, motivo lhe achou. Homem barbado, homem honrado. Homem calado e mulher barbada, de longe os saúda. Mulher magra mas não de fome, foge dela, que te come. Mulher sardenta, mulher rabugenta. Mulher sem cabelo e panela sem asa, com ela fora de casa. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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HOMEM E MULHER Ver tomo X, pág. 32 A mula e a mulher, com afagos fazem os mandados. A minha mulher tudo quanto vê, quer. Comer, dormir, trabalhar, mas em mulheres não fiar. Dor de mulher morta, só dura até à porta. Entre marido e mulher, não metas a colher. Ervas cruas, mulheres nuas e dormir em cama dura, levam o homem à sepultura. Faça o mal quem o fizer, quem o paga é a minha mulher. Manqueira de mulher e de cão, aos três dias são. Mulher de jogador não te alegres, onde o ganhas ali o perdes. Mulher, mula e muleta, tudo se escreve com a mesma letra. O homem é fogo, e a mulher estopa, vem o diabo e assopra. O que o diabo não puder, faze-o a mulher. Quando a mulher serviços alegar, é porque o marido quer enganar. Quando a mulher muito atabalhoar, é porque o marido quer enganar. Se a mulher queres conhecer, pede-lhe segredo e entrega-lhe o poder. Segredo em boca de mulher, é manteiga em focinho de cão. LINHO São relativamente poucos os rifões que encontramos em terras bragançanas, referentes ao linho e correlativos, apesar de a cultura do linho ter sido importante nesta região, como mostra a História e se colhe dos toponímios (740) existentes em quase todas as aldeias. No tomo IX, mencionamos apenas três e agora adimos quatro, já velhos e mencionados no Vocabulário de Bluteau, artigo Linho, com pequena variante. Ao borracho nunca lhe falta vinho, nem à fiandeira linho. Do linho arestoso, faz camisas a teu esposo. O linho bem fiado, rende dobrado. Por um pelinho, se pega fogo ao linho. MEDICINA E HIGIENE Ver tomo X, pág. 34 A laranja de manhã é ouro, ao meio-dia prata e à noite mata. Quando se não morre da doença, morre-se da cura. (740) Ver tomo X, p. 219, destas Memórias.

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MEL E ABELHAS O topónimo colmeia e correlativos, tão abundante em terras bragançanas (741), que até deu o apelido de Colmieiros a famílias nobres (742), abunda entre nós como país agrícola, impulsionado naturalmente para a exploração da agricultura. No tomo X, destas Memórias, registamos onze adágios ligados a esta modalidade cultural e agora recolhemos mais os seguintes: Agora dá pão e mel, depois dará pão e fel. Água sobre mel, não é peitoral e sabe mal. Azeite de riba, mel do fundo e vinho do meio. Caro é o mel para o guloso. Com açúcar e mel, até as pedras sobem bem Comprar, ou vender, por dez reis de mel coado... Dar com mel pelos beiços. Homem sem proveito e o mel no dedo. Mel novo e vinho velho. Não é o mel para a boca do asno. O mel bailando se quer. O mel é mimo, o vinho nobreza e o azeite riqueza. Quem com mel trata, sempre se apega. Vender mel ao colmieiro. Transcrevo os seguintes, tirados do Vocabulário de Bluteau (743), pela muita aplicação que têm, e porque, amante das abelhas e do bem social, julgo assim despertar em meus conterrâneos, principalmente no clero, o amor à apicultura, grande fonte de receita e de encantadora labuta pacífica. Dizem eles: Abelha e ovelha e a pena detrás da orelha e parte na igreja desejava para seu filho a velha. Abelhas e ovelhas, têm suas defesas. De Deus vem o bem, e das abelhas o mel. Diz a abelha: Traze-me cavaleira, darei mel e cera. Morta é a abelha, que dava mel e cera. Não morde a abelha, senão a quem trata com ela. O rei das abelhas não tem aguilhão. Quanto chupa a abelha mel torna, e a aranha peçonha. Vai-se o bem para o bem, e a abelha para o mel. (741) Ver tomo X, p. 198, destas Memórias. (742) Ver tomo VI, artigo «Vinhais». (743) De Bluteau os copiara também o Dicionário de Frei Domingos Vieira, intitulado Tesouro da Língua Portuguesa.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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RIFÕES POPULARES

TOMO XI

MESES E SUAS CARACTERÍSTICAS Ver tomo X, pág. 34 Fevereiro.

Ao Fevereiro e ao rapaz Perdoa-se-lhe quanto faz; Não sendo aquele secalhão Nem este ladrão. Pelo São Matias (24 de Fevereiro), farás enxertias.

Março.

Neve de Março, enche o celeiro e dá bagaço.

Abril.

A rês em Abril perdida, cobra vida. Em São Marcos (25 de Abril), bogas a sacos. No princípio ou no fim, Abril ruim.

Maio.

Maio couveiro, não é vinhateiro.

Junho.

Dia de S. Barnabé (18 de Junho), seca-se a palha pelo pé. Até S. Pedro (29 de Junho), há o vinho medo.

Setembro. Dia de S. Mateus (21 de Setembro), vindimam os sisudos e semeiam os sandeus. Por S. Mateus, pega nos bois e lavra com Deus. Outubro.

Pelo São Simão (28 de Outubro), quem não faz um magusto não é bom cristão.

Novembro. Por todos os Santos (1 de Novembro), semeia trigo e colherás cardos por todos os cantos. Por São Clemente (23 de Novembro), alça a mão da semente. Dezembro. Do Natal a São Sebastião (20 de Janeiro), do inverno um rinhão. Natal em sexta-feira, por onde poderes, semeia; em domingo, vende os bois e compra trigo. METEOROLÓGICOS Ver tomo X, pág. 42 Água de sábado, se passa a domingo e chega a segunda-feira, dura a semana inteira. Céu cavado, aos três dias, chão molhado. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


RIFÕES POPULARES

467 TOMO XI

Quando vem o vento de Montouto, não chega o pão dum ano a outro. Assim falam em Babe, região da Lombada, a respeito do vento do poente, onde fica a serra da Coroa e povoação de Montouto, no concelho de Vinhais. Na verdade, este vento aqui ao norte, no concelho de Bragança, pelo menos, não é tão frio, como o do norte, vindo da serra da Sanábria (Espanha), nem tão seco como o do nascente, chamado aqui vento de Burgos, por vir do lado desta cidade em Espanha, mas traz sempre chuviscos, frieira, e chega a ser violentíssimo, produzindo os ciclones, que arrancam árvores e derrubam casas. O vento sul é o da água, por isso diz outro adágio: Correm as nuvens a Portugal, aparelha o burro e vai ao sal; correm a Castela, aparelha o burro e vai p’ra terra. Se o mocho e a coruja cantam ao serão, temos verão; se cantam de madrugada, temos invernada. Por isso dizem os dois adágios atrás citados: De Burgos não vem cousa boa; de Castela nem bom vento, nem bom casamento; vermelho ao nascente, chuva de repente.

VINHO Em terras bragançanas como, de resto, por todo o Portugal, país vinícola por excelência, onde se colhe o vinho do Douro, o melhor do mundo, abundam os anexins e locuções proverbiais a confirmar esta modalidade cultural. No tomo X, mencionamos trinta e oito rifões alusivos ao vinho e agora adimos mais os seguintes: Amores e vinho tiram o tino. Foi chão que deu uvas... (Para indicar uma coisa que acabou). Não que este, é vinho doutra cuba... (Para indicar coisa melhor). Nem Nem Nem Nem

com com com com

toda toda toda toda

a a a a

dúvida ao letrado, dor à botica; fome à arca. sede à pipa.

O vinho e a mulher faz quanto quer. O vinho é bom com tudo, mas para os figos, figas. Quem por cima do caldo não bebe, mal sabe quanto perde. Terrontês (Tamarés), não o comas nem o dês; desfaze-o em vinho e bebe-o sozinho. Parte deste ditado já o publicamos no tomo X, pág. 30, destas Memórias, mas depois ouvimos esta versão mais completa. Ver no artigo Meses o respeitante a Março. No princípio deste artigo dissemos que o povo vai aperfeiçoando os provérbios até chegar à assonância, sua fórmula predilecta, todavia, algumas MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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RIO DE FORNOS

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vezes, talvez por influência espanhola, fica-se na aliteração, sendo-lhe fácil chegar àquela, como se vê dos dois seguintes, correntes em terras mirandesas: Quem come las obradas que repique las campanas. Quem bebeu el vino que lhebe el buto. Quanto mais fino é o pano, mais nele penetra a mancha. Este rifão, mencionado no tomo X, pág. 23, em forma tão concisa, encontra-se em Juvenal (744), expresso por forma muito mais difusa. Nas mesmas condições esta: Quem pouco sabe, azinha o reza. Tão ladrão é o que vai à horta, como o que fica à porta, equivalente ao axioma jurídico latino: agentes et consentientes pari poena puniuntur. RIO DE FORNOS. Saiu tão cheio de inexactidões o artigo consagrado a Rio de Fornos no tomo VI, pág. 724, destas Memórias, que resolvemos suprimi-lo completamente por este. 1.° — ANTÓNIO HENRIQUE DE FIGUEIREDO Sarmento — (ver tomo VI, pág. 406). Concluiu já a sua formatura em direito e é agora, Julho de 1936, Delegado do Procurador da República na Comarca do Mogadouro. Ultimamente deixou a magistratura, ordenou-se de presbítero, sendo notável orador sagrado, cheio de zelo apostólico. Seu pai, Manuel Carlos de Figueiredo Sarmento (ver tomo VI, pág. 406), faleceu em Agosto de 1925 e o nome completo de sua mãe é D. Maria do Nascimento Afonso. 2.° — JOSÉ MANUEL DE FIGUEIREDO SARMENTO, irmão do antecedente, nasceu em Vilar do Monte, concelho de Macedo de Cavaleiros, a 29 de Outubro de 1897 e casou com D. Antónia Emília de Sá Miranda, de Grijó de Vale Benfeito, filha de José Manuel de Sá Miranda, ainda parente dos Mirandas da Paradinha do Outeiro (ver tomo VI, pág. 370, e tomo VIII, pág. 88) e sobrinho-neto do célebre escritor Inocêncio António de Miranda (ver tomo VI, págs. 313 e 319) e de D. Joana de Sá, filha de José António de Miranda (ver tomo VI, pág. 377, n.° II) e de D. Maria Eugénia de Novais Sá Cardoso, da família Sá, de Bragança (ver tomo VI, pág. 183; tomo VII, págs. 459 e 460). Ver artigo Sá, adiante apontado. A dita D. Antónia Emília de Sá Miranda, é sobrinha, por afinidade, de D. Beatriz de Morais Madureira Lobo, por ter casado com seu tio, António de Sá Miranda, filho de Justiniano de Morais Madureira Lobo, morgado de Freixiel (745) e de D. Maria Leopoldina, filha de

(744) JUVENAL — Sátira 8. (745) Ver tomo VI, p. 712, destas Memórias.

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RIO DE FORNOS

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Francisco António Teixeira de Morais Castro Sotomaior, morgado da Praça de Vila Flor; neto paterno de Tomás Amaral Teixeira de Morais e Castro, monteiro-mor, senhor do vínculo de Linhares, no concelho de Carrazeda de Ansiães, e do morgadio da Praça de Vila Flor, e de D. Mariana de Macedo Sotomaior e Castro e Muito Nobre, com quem casou pelo ano de 1750 (746). Os títulos de Dom e Muito Nobre foram concedidos aos ascendentes desta família por el-rei D. João IV, devido ao heroísmo de um deles nas Guerras da Restauração (1640-1668) (747). António Henriques e José Manuel de Figueiredo Sarmento (1.° e 2.° acima citados), são bisnetos de Pedro José de Figueiredo Sarmento (748) e de D. Maria Inácia de Miranda Cavaleiro, netos de António Henriques de Figueiredo Sarmento e de D. Ana Maria Zamora. 3.° — JOSÉ JOAQUIM DE FIGUEIREDO DE MORAIS PIMENTEL, morgado do Rio de Fornos, concelho de Vinhais (749), nasceu em Vale de Pereiro, freguesia de Mascarenhas, concelho de Mirandela, onde tinha um importante casal legado por uma sua tia, a 15 de Março de 1852, dia em que se inaugurou a dispensa de comer carne na Quaresma, e faleceu em Rio de Fornos, concelho de Vinhais, onde residia, a 14 de Agosto de 1940, legando os bens de Rio de Fornos ao seminário diocesano. Era filho de Francisco Bernardo de Morais Teixeira Pimentel, de Rio Torto, concelho de Valpaços, e de D. Emília Leopoldina de Figueiredo Sarmento, filha dos morgados de Rio de Fornos; neta paterna de Manuel Caetano de Morais Teixeira Pimentel, fidalgo da Casa Real, administrador do morgadio de Rio Torto e de D. Joaquina Rosa Teixeira de Melo. José Joaquim de Figueiredo de Morais Pimentel, morgado de Rio de Fornos, acima mencionado, não era solteiro, como por equívoco escrevemos no tomo VI, pág. 724, mas sim viúvo de D. Benedita de Jesus Mazeda Pimentel, natural de Valongo, de quem não lhe ficaram filhos. Já tínhamos feito estas emendas no tomo VII, pág. 789, destas Memórias, mas resolvemos inseri-las aqui, devendo também declarar que o morgado mudou ultimamente de resolução, deixando a maior parte dos bens, não para o hospital de Vinhais, mas sim ao seminário.

(746) FALCÃO, Antero — Breves Apontamentos para a história genealógica de algumas famílias da província. In «Enciclopédia das Famílias», 18.° ano, n.° 21, p. 535. (747) Ibidem, p. 533. (748) Ver tomo X, p. 672, e tomo VI, p. 406, destas Memórias. (749) Ver tomo VI, p. 407 e 409, destas Memórias.

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ROCAS TRASMONTANAS

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ROCAS

TRASMONTANAS

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No Museu de Bragança guarda-se uma colecção de flautas, canhões e rocas, insculpidas pelos pastores regionais, para oferecer a suas namoradas e namoráveis. Entre os variadíssimos motivos ornamentológicos, que constituem o tema inscultural destes artefactos, destacam-se os de carácter amorico e mágico, assunto forçado desde que a vida surgiu neste mundo, ladeados por losangos, xadrezados, grecas, meandros e outras figurações geométricas, ligadas à bestiaria, inculcadoras de uma tradição milenária, já vinda das insculturas rupestres. Emolduram estes ornatos, os símbolos iconográficos da magia, traduzidos por pentalfas, exalfas, vulgarmente ditos signos-saimões, estrelas de cinco pontas, corações, chaves para os abrir e fechar aos maus espíritos (750), pululando, no meio de tudo isto, o naturalismo realista tipificado no falo, vulva, figa e figurações congéneres. Esta modalidade pornográfica parecerá talvez desconcertante no meio de um povo essencialmente cristão, mas não se atenta nisso, como se não atentou na das arcaturas, capitéis, modilhões, gárgulas, mísulas e cadeirados, do coro das igrejas românico-góticas, nem se atentou na linguagem similar do cronista Fernão Lopes e outros, nem na do grande dramaturgo Gil Vicente. Antes, pelo contrário, se toma como tema moralizador para censurar vícios, corrigir maus costumes e criticar deslizes menos honestos. De resto, esta modalidade profana de um fundo religioso pagão ainda bem vivo na tradição popular, que nos festejos do entrudo, São João e São Martinho, reproduz a liturgia dos bacanais e dos cultos fálicos, como se os templos de Gnide e Pafos, as falagoguas, os mistérios de Ísis, Príapo e o mais, estivessem em plena vigência. As virtudes atribuídas à figa contra malefícios e feitiçarias, à parte intercrural das calças do homem, o baraço empregado na castração dos ovinos, claro testemunho são do que temos dito e por aqui nos ficamos, porque o assunto, apesar de interessante, veda mais largas explanações (751). R OCHA (Filipe Trajano Vieira da), comandante da Armada, tomo VII, pág. 450, faleceu em Lisboa a 30 de Março de 1944. ROCHA (Manuel da Costa) — Tomo VII, pág. 451. Faleceu em Mirandela, onde exercia clínica e era muitíssimo estimado pelo seu porte bom e caridoso, a 14 de Outubro de 1932.

(750) Ver tomo IX, p. 373, destas Memórias. (751) Ver tomo IX, p. 356 e seg.

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RODRIGUES

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RODRIGUES (António José), capitão, tomo VII, pág. 452. Emendar para António José Adriano Rodrigues, seu nome exacto. É hoje professor da Universidade do Porto, da qual foi também reitor. Publicou mais: O Problema da cultura popular — aspectos e soluções de actualidade, conferência realizada por iniciativa da Liga Portuguesa de Profilaxia Social, no Porto, em 1935. Porto, 1939, 8.° de 37 págs. O Problema Nacional do Ferro. Porto, 1941, 8.° de 55 págs., com muitas fotogravuras. Traz interessantes notícias referentes aos minérios bragançanos de Guadramil, Moncorvo e Cabeço da Mua (Moncorvo). Neste estudo mencionam-se mais os seguintes trabalhos respeitantes à bibliografia bragançana: T ABAR (Maurício), engenheiro, escreveu: Relatório elaborado por incumbência de Álvaro Augusto Dias, quando este industrial tentou implantar a electro-siderurgia na região de Bragança. Vem citado, em nota, na pág. 25. SAMPELAYO (Primitivo Hernandez), engenheiro espanhol, escreveu: Criadero de mineral de hiero de Moncorvo (Portugal), extracto de notas y comunicaciones del Instituto Geologico y Minero de España. Vem citado na pág. 26, do livro de Adriano Rodrigues O Problema Nacional do Ferro. R ODRIGUES (Alfredo José), padre, doutor-advogado, conservador do Registo Predial em Bragança, tomo VI, pág. 202. Faleceu em Bragança (Sé), a 16 de Março de 1939. RODRIGUES (António Augusto Gonçalves), doutor em filologia românica, nasceu em Bragança (Santa Maria), a 22 de Janeiro de 1906, filho de Adriano de Jesus Rodrigues e de D. Maria dos Prazeres Gonçalves. Fez os estudos liceais em Bragança e os da especialidade, na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde tomou o grau de licenciado em filologia germânica, com dezoito valores, em Outubro de 1929. Ainda como estudante, a fundação alemã de «Alexandre de Humboldt» concedeu-lhe uma bolsa de estudo para frequentar a Universidade de Berlim no ano de 1927-1928. Em Abril de 1930, foi de novo enviado à Alemanha como bolseiro da Junta de Educação Nacional, onde estudou durante cinco meses, seguindo depois para a Inglaterra, a fim de se especializar em literatura inglesa e relações anglo-portuguesas, regressando a Portugal em Março de 1933, sendo contratado como professor auxiliar da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, e, pouco depois escolhido pela Junta de Educação Nacional para inaugurar, como primeiro leitor, a cadeira de Estudos Portugueses da Universidade de Oxford. Aí foi recebido como membro do Lincoln College, que lhe conferiu o grau de MesMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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RODRIGUES

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tre de Artes e preleccionou desde Fevereiro de 1934 a Julho de 1937. Tem escrito: Sobre a autoria das «Lettres Portugaises». Saiu na revista Biblos, da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra. 1932. O Cavalheiro da Oliveira. Subsídios para a sua biografia. Saiu na Biblos, 1933. Mariana Alcoforado — história e crítica de uma fraude literária. Coimbra, 1935, 8.° de 64 págs., com três documentos zincogravados. (Separata da Biblos, 1935). Sobre este trabalho saíram apreciações em vários jornais portugueses e estrangeiros: The Times literary Supplement, Londres, 22 de Março de 1936. New Philologus, Haia, Março de 1936. Modern Language Rew. Cambridge, Julho de 1936. Boletim da Filologia, Lisboa, 1937. D. Francisco Manuel de Melo e o descobrimento da Madeira. (A lenda da Machim). Saiu na Biblos. Lisboa, 1935. Portuguese Studies, in Year’s Work in Modern Language. Cambridge, 1935 e 1936. Cartas inéditas do Cavalheiro de Oliveira. Saíram na Biblos, 1935 e seg. Traduziu: SIR E. DENISON ROSS — Do valor dos historiadores Portugueses do Oriente. In Biblos, 1933. António de Gouveia, viajante português na Pérsia, saiu no Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra. 1936. EDGAR PRESTAGE — A Aliança Anglo-Portuguesa. Coimbra, 1936. P. E. RUSSELL — O Conde de Andeiro em Inglaterra. Saiu na Revista da Universidade de Coimbra, vol. XIII. Tem em preparação vários outros estudos. RODRIGUES (António Evangelista), tenente, natural de Rio Frio de Outeiro, morto em Bragança, na revolta de 27 de Outubro de 1933. Ver tomo X, pág. 336, destas Memórias. RODRIGUES (Daniel José) — Tomo VII, pág. 453. Publicou mais: Romanzas pastorales e cantigas de Amor. Aveiro, 1933, 8.° de 23 págs. RODRIGUES (Francisco). Há dele na capela de Santa Rita, termo de Bragança, uma tese defendida no seu quarto ano de direito canónico. É impressa em três planos, de seda vermelha. Não indica o ano da impressão, nem o lugar onde, algo porém se poderá averiguar, pois era presidente do júri D. Manuel Nobre Pereira, lente de direito canónico no Colégio de S. Paulo, de Coimbra, e cónego da Sé da mesma cidade. Ao amigo Padre Manuel de MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


RODRIGUES

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Morais, agradecemos a notícia que nos deu da existência desta espécie bibliográfica. Na mesma capela há outro véu de cálix, seda amarela, com larga tarja floreada, onde está impressa uma imagem de Nossa Senhora, venerada em Salamanca, acompanhada de texto descritivo, referente ao seu encontro miraculoso, mas como não faz ao propósito desta obra, abstemo-nos de maiores esclarecimentos. RODRIGUES (José Manuel) — Ver tomo VI, pág. 398, casou a 22 de Junho de 1942, com D. Maria Sofia de Lurdes da Cunha Lima Teixeira (tomo VII, pág. 553). RODRIGUES (D. Júlia Sofia Borges da Veiga Barreira) — Ver tomo VI, pág. 399. Faleceu nos Salgueiros, concelho de Vinhais, a 18 de Outubro de 1944. Era filha legítima de João António Borges e de D. Ermelinda da Veiga Barreira, de Quiraz, e aquele de Vale de Janeiro, concelho de Vinhais. Era sobrinha materna do dr. António Joaquim da Veiga Barreira (ver tomo VI, pág. 397, destas Memórias), e de Francisco António Ferreira, da casa dos Salgueiros, grande trunfo político, esposa do dr. Daniel José Rodrigues, professor reformado de inglês e alemão no Liceu de Bragança (ver tomo VII, pág. 453, destas Memórias), e mãe de José Manuel Rodrigues, acima mencionado. R ODRIGUES (Manuel Maria Sarmento), capitão-tenente de Marinha, comandante do contratorpedeiro «Lima», nasceu em Freixo de Espada à Cinta, a 15 de Junho de 1899, filho de António Manuel Rodrigues e de D. Isabel Maria de Jesus Pereira de Morais Sarmento. Fez os estudos liceais em Bragança, concluindo-os em 1917. Em 1921, terminou o curso da Escola Naval e em 1938, concluiu o curso elementar naval de guerra no Estado Maior Naval. Tem desempenhado os seguintes cargos e comissões: Oficial do cruzador «República», na viagem aérea de Gago Coutinho e Sacadura, ao Brasil, em 1922. Comandante do torpedeiro «Lis», em 1924. Ajudante de Campo do Governador Geral da Índia, em 1925. Oficial às ordens da Rainha de Baroda, em visita à Índia Portuguesa, em 1925. Encarregado da navegação na célebre viagem do «Pêro de Alenquer» às colónias do Extremo Oriente, em 1927. Comandante da canhoneira «Faro», de 1929 a 1931. Secretário do Ministro dos Negócios Estrangeiros. Capitão do Porto do Chinde, de 1931 a 1934. Capitão dos portos de Quelimane, em 1935. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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RODRIGUES

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Oficial da Missão Hidrográfica das Ilhas Adjacentes, em 1938. Oficial do Estado Maior Naval, em 1939 e 1940. Chefe do Estado Maior da Esquadrilha de Contratorpedeiros, em Março de 1940. Chefe do Estado Maior da Força Naval da Metrópole, em Junho de 1940. Comandante do contratorpedeiro «Lima», de Junho de 1941, até que, em Fevereiro de 1945, foi nomeado Governador da Colónia da Guiné, tendo durante esse tempo feito a escolta do navio presidencial aos Açores, procedido à busca e salvamento de cento e dez náufragos do paquete inglês «Avila Star», em Junho de 1942, e ao salvamento de cento e dezoito náufragos dos navios americanos «City of Flint» e «Julia Ward Howe», no fim de Janeiro de 1943, sofrendo nessa altura, violentos temporais e grossas avarias, que os jornais de 23, 24 e 25 de Março desse ano, de Lisboa, relataram. O navio deu o maior balanço até hoje registado, em navios de guerra. O navio, sob o seu comando, tem o máximo dos salvamentos. O contratorpedeiro «Lima», do comando de Sarmento Rodrigues, é de todos os navios da armada portuguesa, o que maior número de náufragos tem salvado, sendo cento e nove a 8 de Julho de 1942, e cento e dezoito em fins de Janeiro de 1943, merecendo que muitos dos seus oficiais, sargentos e praças, fossem louvados «pela forma abnegada e carinhosa, como receberam e trataram os náufragos». A maior parte da imprensa jornalística portuguesa, se referiu elogiosamente aos assinalados feitos do contratorpedeiro «Lima», pondo em destaque a competência do ilustre bragançano Sarmento Rodrigues (752). Porém, o louvor mais expressivo, está na circunstância de Mildred Lee, esposa de Jack Lee, inglesa, residente com seu marido na ilha da Madeira, descendente do almirante Nelson, vencedor de Trafalgar, lhe oferecer «não só em razão do seu interesse pelos estudos sobre Nelson, mas principalmente como prova de reconhecimento pelas vidas de marinheiros britânicos que tinha salvo» a 18 de Abril de 1944, uma raridade bibliácea, conservada como relíquia na sua família, constante de um exemplar do Times, de 7 de Novembro de 1805, primeiro jornal inglês que publicou a notícia da batalha naval de Trafalgar, dada a 21 de Outubro de 1805. Na Revista da Marinha, de 10 de Julho de 1944, págs. 5 a 8, vem a zincogravura desse exemplar, em que se descreve a famosa batalha. O seguinte documento confirma o que temos dito: «CÓPIA — Office of H. M. Naval Attaché, British Embassy — Lisbon, 17 de Julho de 1942.

(752) Ver Revista da Marinha, de 10 de Abril de 1943.

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RODRIGUES

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Ex.mo Senhor Comandante N. R. P. «Lima» a/c Ministério da Marinha. Ex.mo Senhor Comandante — Conforme informou-me o Ministro da Marinha, foram salvos pelo navio sob o ilustre comando de V. Ex.a, cento e nove náufragos do navio inglês «Avilla Star». Além de recolher estes náufragos e de prestar-lhes todas as atenções mais desinteressadas e carinhosas, V. Ex.a fez pesquizas infatigáveis para encontrar as embarcações restantes — infelizmente sem êxito. Estas acções — mais um exemplo dos socorros feitos pela Marinha Portuguesa a favor de marinheiros ingleses — me sensibilizaram muito, e venho agradecer a V. Ex.a em nome do Almirantado Britânico e da Marinha Mercante Inglesa, todos os valiosos esforços feitos pelo seu navio. Peço a V. Ex.a, o favor de exprimir aos Ex.mos Senhores Oficiais e aos Sargentos e Praças, sob o seu comando, o meu mais vivo apreço por todos os serviços humanitários prestados. Com as expressões da minha mais alta consideração e estima, subscrevo-me de V. Ex.a, M.to a.to e obg.do, H. Dowen — Captain Naval Attaché. Está conforme. Bordo do contra-torpedeiro «Lima», 28 de Junho de 1943. O Oficial imediato, Boaventura Pereira Gonçalves, 1.° tenente». O comandante Sarmento Rodrigues tem publicado: A Batalha do Atlântico. Lisboa 1942, 8.° de 88 págs., mais duas de índice inumeradas, com 24 gravuras. Ancoradouro das ilhas dos Açores. 1943, 8.° de 271 págs., com vários desenhos de página e outros intercalados no texto. Rio Lima, o seu navio e os seus heróis. 1944, 8.° de 113 págs., mais 3 inumeradas com 9 fotogravuras. É escrito de colaboração com outros escritores. Tem colaborado na Revista Militar, Anais do Clube Militar Naval, Defesa Nacional, Diário de Lisboa, Diário de Notícias do Funchal, Reconhecimento Hidrográfico dos portos de Chinde, Quelimane, Moebaze e Delta do Zambeze, Cartas Hidrográficas da ilha da Madeira. Tem também feito várias conferências sobre assuntos navais, no Porto, Coimbra e no Estado Maior Naval. Possui a comenda de Cristo, a de Avis e as medalhas de socorros a náufragos. RODRIGUES (Miguel José), presbítero. Ver tomo VII, pág. 457. Faleceu em Varge, sua terra natal, concelho de Bragança, onde fixara residência, após a sua reforma como professor de inglês e alemão do Liceu do Porto, a 18 de Março de 1933. Publicou mais: O Espectro Solar. Lei da criação dos vegetais e animais. Porto, 1931, 8.° pequeno de 101+1, inumerada, págs. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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Filosofia das Ciências Naturais. Bragança, Tip. Académica, 8.° pequeno, de 45 págs. Sem indicar ano de impressão, mas é de 1932. Estes dois trabalhos foram escritos durante os últimos anos da vida do autor, quando perturbado das faculdades mentais, todavia aparecem neles, de quando em quando, ideias muito apreciáveis, acusadoras dos intervalos lúcidos em que o seu antigo espírito regressava à normalidade. São interessantes como documentação patológica, por explicarem toda a filosofia da ciência, pelo número sete. Além de muitas outras coisas afirma que a filosofia, anatomia, geologia, antropologia histórica, arqueologia, história das artes, não são ciências. Quanto aos números, lemos no Dicionário, de Pinheiro Chagas, artigo Pitágoras: este filósofo «foi autor da teoria mística dos números, segundo a qual os números, além de serem a expressão das leis do mundo, física e moral, são ainda o princípio dessas leis, sendo Deus a unidade suprema». RODRIGUES (Tomás José). É possível que seja natural de Azinhoso, concelho do Mogadouro, porque na igreja paroquial daquela freguesia vimos, em 5 de Maio de 1933, um véu de cálix de seda vermelha, tendo impressa em três planos a tese defendida no seu quarto ano de direito canónico, dedicada a Maria Santíssima, sob o título da Natividade, venerada no Azinhoso, impressa em Coimbra. Tipografia Académica. Ano 1770.

S S Á (Joaquim Guilherme Cardoso de), doutor, natural de Bragança. Ver tomo VII, pág. 459, e quanto a seu avô, tomo VI, pág. 183, e tomo VII, pág. 460. O doutor Joaquim Guilherme Cardoso de Sá, teve de Delfina Rosa Fernandes, solteira, a D. Maria Eugénia Cardoso de Sá, que foi herdeira de toda a sua importante fortuna, nascida em Bragança, freguesia da Sé, a 17 de Novembro de 1902, que casou em primeiras núpcias na mesma cidade, a 11 de Fevereiro de 1919, com Manuel Luís da Fonseca, natural do Mogadouro, onde nasceu pelo ano de 1901, filho de Acácio Augusto da Fonseca e de D. Elisa Augusta de Morais Pimentel (dos Pimentéis de Castelo Branco, tomo VI, pág. 216-III e 217-c). Tiveram: II — D. M ARIA E LISA DE S Á F ONSECA , nascida na freguesia de Cedofeita (Porto), a 7 de Janeiro de 1920. II — D. M ARIA DE LURDES DE S Á F ONSECA , nascida no Mogadouro, a 1 de Março de 1922. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Morrendo-lhe seu marido de um desastre na caça, passou D. Maria Eugénia Cardoso de Sá a segundas núpcias, no Mogadouro, a 10 de Setembro de 1932, com o Dr. Casimiro Henriques de Morais Machado (tomo VI, pág. 722, destas Memórias). Filhos deste segundo matrimónio: a) — AFONSO HENRIQUES DE S Á MACHADO , nascido no Mogadouro, a 9 de Março de 1933. b) — ANTÓNIO GUILHERME DE SÁ MORAIS MACHADO, nascido no Mogadouro, a 2 de Janeiro de 1936. c) — MARIA ALBERTINA DE SÁ MORAIS MACHADO, nascida no Mogadouro, a 1 de Julho de 1937. d) — MARIA C ARLOTA DE SÁ M ORAIS MACHADO, nascida no Mogadouro, a 3 de Fevereiro de 1939. SÁ (José António de). Ver tomo VI, pág. 183, tomo VII, pág. 460 e segs. (Ver adiante o artigo Seda). Era filho de Luís Francisco de Sá e de Catarina Rosa de Castro, de Bragança, neto paterno de Francisco de Sá e de Ana da Paz, naturais de Rebordelo e materno de Manuel de Passos Furtado e de Isabel de Castro, naturais de Bragança. O requerente, morador na rua dos Oleiros, em Bragança. Dá esta filiação no requerimento para habilitação de genere em 1777, existente no Museu de Bragança. No processo há as seguintes certidões: J OSÉ (só este nome), filho de Luís Francisco, mercador, e de Catarina Rosa, ambos de Bragança, neto paterno de Francisco de Sá, de Rebordelo, e de Ana da Pax, natural de Madrid, e materno de Manuel de Passos e Isabel de Castro, ambos de Bragança, nasceu em Bragança (Santa Maria), a 20 de Março de 1756. LUÍS FRANCISCO DE SÁ e CATARINA ROSA (Santa Maria), a 10 de Setembro de 1737.

DE

CASTRO, casaram em Bragança

LUÍS (só este nome), filho de Francisco de Sá Marques e de Ana da Pax, nasceu em Bragança (Santa Maria), a 18 de Novembro de 1717. M ANUEL DE PASSOS FURTADO e ISABEL DE CASTRO, casaram em Bragança (Santa Maria), a 17 de Janeiro de 1715. O nubente, filho de Francisco Furtado, já defunto, e de Catarina da Pax e a nubente, filha de António Rodrigues Ledesma e de Maria de Castro, já defuntos, todos de Bragança. M ANUEL (só este nome), filho de Francisco Furtado e de Catarina da Pax, nasceu a 23 de Fevereiro de 1687, em Bragança (Santa Maria). MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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ISABEL, filha de António Rodrigues Ledesma e de Maria de Castro, nasceu em Bragança (Santa Maria), a 7 de Novembro de 1701. CATARINA, filha de Manuel de Passos Furtado e de Isabel de Castro, nasceu em Bragança (Santa Maria), a 1 de Março de 1718. FRANCISCO DE SÁ MARQUES, solteiro, e Ana da Pax, viúva, casaram em Bragança (Santa Maria), a 9 de Setembro de 1714, ambos de Rebordelo, moradores em Bragança. FRANCISCO (só este nome), filho de Luís Alves e de Maria Marques, de Rebordelo, nasceu em Rebordelo, a 5 de Agosto de 1674. No seu parecer, o juiz da habilitação diz: «e ainda que se não possa individualmente mostrar a naturalidade da avó Anna da Pax dizendo uns hé de Rebordello outros viera menina de dous ou tres annos de Madrid, verificando-se ser chrystam Católica baptizada» (753). SÁ (Manuel de). Ver tomo VII, pág. 471. Segundo se lê no seu elogio fúnebre (754) recitado por D. Manuel Caetano de Sousa, autor da monumental História Genealógica da Casa Real Portuguesa, o Padre Manuel de Sá era natural, não de Peredo, concelho de Macedo de Cavaleiros, mas sim de São Julião de Peredo, concelho de Moncorvo. S Á (Nicolau António Machado de). Ver Freixo de Espada à Cinta, pág. 317. SAAVEDRA (Padre José Pinto da Cunha), nasceu em Provesende, concelho de Sabrosa, a 22 de Maio de 1863. Filho de José Augusto Pinto da Cunha Saavedra, natural de Provesende, autor da monografia Provezende — o templo romano de Santa Marinha, 1935 (publicação póstuma), e de D. Joana Pinheiro de Azevedo Leite Pereira. Estudou no Colégio de Campolide, em Lisboa e em Coimbra, entrou para a Companhia de Jesus em 1885 e ordenou-se de presbítero em Oña, província de Burgos (Espanha). Missionou na Índia inglesa (Belgão), durante sete anos e não nove, nem em Goa, como alguém diz, nem nasceu a 23 de Maio, mas sim a 22. Retirou-

(753) Este processo guarda-se no Museu de Bragança. (754) Colecção dos Documentos e Memórias da Academia Real da História Portuguesa que neste ano de 1728 se compuseram e se imprimiram. Lisboa, 1728, p. 203. O mesmo confirma a Biblioteca Lusitana, de Diogo Barbosa Machado.

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SÁ MACHADO

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-se depois, devido às convulsões políticas, para Provesende, onde agora (23 de Abril de 1940) reside, na sua bela Quinta do Vale. Goza créditos de bom orador sagrado e de grande cultura científica, sendo para lamentar que não se resolva a publicar, ao menos, o manuscrito adiante citado, pois é muito digno disso. Passa a vida no isolamento da quinta, fazendo bem, ensinando Humanidades a quantos desejem estudar e entregue a favores manuais, pois tem especial gosto artístico. Escreveu: O Castro de Provezende. Informações sobre os descobrimentos de 1938-1939. Manuscrito com muitas fotografias de monumentos arqueológicos, encontrados no castro referido. Tem 94 páginas em formato de 8.° O Padre Saavedra deu-me este manuscrito como elucidação à cerâmica, estatuajacente e outras antigualhas que já me oferecera para o Museu de Bragança, onde o depositei para servir de comentário às mesmas e ao meu escrito As Cistas de Provezende, separata da Revista de Arqueologia. SÁ MACHADO (António de), «fes petição a V. A. neste Conçelho em que diz, que elle he homem nobre, e da prinçipal familia da Villa de Alfandega Provincia de Tras os Montes, e que servio e seu Pay, no tempo das guerras, em todos os rebates que se offereçerão nas Praças de Miranda, e Bargança, e nas invasões que se fizerão pello Reyno de Galiza, e Castella, e em outras occasiões, em que despendeo muyto de sua fazenda, alem das muytas perdas que o inimigo lhes fes, assistindo também ao dito seu Pay nos lansamentos das decimas, e das sizas, em que fes particular serviço a V. A. e se quer embarcar neste socorro para os Rios de Sofalla a continuar o serviço de V. A. Pede a V. A. que tendo a tudo consideração, lhe faça merce do foro de fidalgo, e do habito de Christo com cem mil reis effectivos, e de hûa ajuda de custo conforme sua necessidade. Ao Conçelho Parece que V. A. deve ser servido fazer merce a Antonio de Saa Machado de vinte mil rs. de ajuda de custo, e que servindo nos Rios de Soffala se terá respeito aos serviços que declara fes no Reyno, para por tudo lhe fazer V. A. a merce que houver por bem. Lisboa 7 de Outubro de 677. Conde de Val de Reis — Salvador Correia de Saa e Benavides — Ruy Telles de Menezes — Carlos Cardoso Godinho». Tem à margem: «Como parece. Lisboa 8 de Outubro de 677». Tem a rúbrica do Principe Regente D. Pedro (755).

(755) Arquivo Histórico Colonial, Moçambique, caixa 2. Ao Doutor Santos Júnior agradecemos a comunicaçao deste documento.

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SACOIAS

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SACOIAS Apareceram mais os seguintes objectos, que mandei para o museu, encontrados no Castro de Sacoias: CLAVES LACONICA de ferro — tem dois dentes e jeito de se lhe ter partido outro. Tem de comprimento 8 1/2 centímetros. Rich., Dictionnaire des Antiquités. PONDUS de barro avermelhado, cozido, de forma piramidal quadrangular com orifício. Peanha de bronze de um ex-voto, ornada por dentículos no rebordo maior. É circular, campanulada em forma de vaso e tem a seguinte inscrição: EX VISO (por inspiração divina). Tem de altura 3 centímetros e 15 de circunferência no rebordo maior e 14 centímetros na menor, também ornado por ângulos agudos bipartidos (756). VERTICILLUS de barro cozido, ornado por covinhas. A parte superior de uma lápide granítica, de tipo discóide, ornada por suástica de seis raios. A inscrição foi no outro pedaço, levado pela quebradura, percebendo-se apenas que estava em superfície rebaixada na pedra. Foi encontrada por Alberto Gurgueira, que prontamente a cedeu para o museu. SALES (P.e Ernesto Augusto Pereira), tomo VII, págs. 472 e 792. Publicou mais: O Conde de Lippe em Portugal. Vila Nova de Famalicão. 1937, 8.° gr., de 238 págs., com várias estampas. SALGADO DE ANDRADE (Carlos Alberto), doutor em medicina pela Escola Médica do Porto, onde terminou o curso em 1901. Nasceu em Carviçais, concelho de Moncorvo, em 1877 e morreu em Vila Nova de Foz Côa, onde casara e residia, a 9 de Dezembro de 1913. Era filho do dr. Eduardo de Almeida Andrade, de Vila Nova de Foz Côa, e de D. Angélica Camila Salgado Valente, de Carviçais: neto de Agostinho Luís Salgado, abastado proprietário em Carviçais, Felgar, Fornos e Cardanha, senhor da casa brasonada da rua da igreja de Carviçais (757), bisneto do capitão João Baptista Salgado, que muito se distinguiu na guerra contra os franceses.

(756) VASCONCELOS, J. L. de — Religiões da Lusitânia, II, p. 169; III, p. 497. (757) Ver tomo VI, p. 764, onde deve emendar-se o equívoco de dar Agostinho Luís Salgado, como natural de Espanha, quando é de Portugal e nasceu em Carviçais, bem como seu pai, o capitão João Baptista Salgado e o do informador D. Júlio Dube Salgado para D. Júlia Dulce Salgado de Andrade, neta do Agostinho, irmã do dr. Carlos Alberto Salgado de Andrade, que hoje está de posse da casa brasonada de Carviçais.

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SALGADO DE ANDRADE

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O dr. Carlos Alberto Salgado de Andrade, casou em Vila Nova de Foz Côa com D. Adelaide Ermelinda Castro Pereira de Campos Henriques (758), filha única dos viscondes de Vila Nova de Foz Côa, senhores da capela e grande casal de Mascarenhas (759), de quem teve: 1 — D. E LISA A NGÉLICA DE C AMPOS H ENRIQUES S ALGADO DE A NDRADE , nasceu em Vila Nova de Foz Côa, a 21 de Dezembro de 1910. Casou com o oficial de artilharia, António Saraiva. 2 — JOSÉ SILVÉRIO DE CAMPOS HENRIQUES SALGADO DE ANDRADE, doutor em medicina, delegado de Saúde em Vila Nova de Foz Côa, nosso informador para este artigo. Nasceu em Vila Nova de Foz Côa, a 9 de Outubro de 1903. O dr. Carlos Alberto Salgado de Andrade escreveu: Ligeira Contribuição para o estudo de raiva em Portugal, dissertação inaugural apresentada à Escola Médico-Cirúrgica do Porto. Porto, 1901, 8.° de 144 págs. (mais 5 inumeradas). É interessante este estudo, por apreciar o valor de vários remédios populares contra a raiva e, entre eles, particularmente, o célebre remédio da Cardenha, concelho de Moncorvo, que ao tempo gozava de grande fama, concluindo pela nulidade de seu valor. Em poder de Acúrsio Vasco Salgado de Andrade, grande proprietário de Vila Nova de Foz Côa, irmão do dr. Carlos Alberto, encontram-se os seguintes documentos: 1 — Pergaminho-carta de mercê ao padre José Salgado, natural de Carviçais, regular da Companhia de Jesus, da pensão de cem réis por dia. Lisboa, 14 de Janeiro de 1763. 2 — Patente de nomeação de Manuel António Rodrigues Salgado, capitão de ordenanças de Fornos e Mazouco, concelho de Freixo de Espada à Cinta. Lisboa, 13 de Janeiro de 1770.

(758) Ver tomo VI, p. 49, 243 e 776; tomo VII, p. 375 e 770. FREITAS, Eugénio de Andreia da Cunha, e SOUSA, José de Campos e — Navarros de Andrade, subsídios para a genealogia da família Campos, 1935, p. 19, 32 e 33 onde, além dos Campos Henriques (viscondes e barões de Vila Nova de Foz Côa) se diz de Gamboas, naturais de Santulhão, e de Navarros, naturais de Lagoaça, Miranda do Douro e Vimioso, ligados à família Campos Henriques. (759) Ver tomo VI, p. 762 e tomo IX, p. 464, destas Memórias. D. Adelaide Ermelinda, morreu a 25 de Dezembro de 1937.

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SAMPAIO

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3 — Pergaminho-carta de formatura em matemática na Universidade de Coimbra do dr. João Baptista Salgado, de Carviçais, filho legítimo de José Luís Salgado Valente. Simpliciter. Coimbra, 12 de Julho de 1803. 4 — Carta de promoção do tenente João Baptista Salgado, a capitão do Regimento de Milícias de Moncorvo. Rio de Janeiro, 7 de Junho de 1810. 5 — Pergaminho-carta de doação a D. Angélica Maria Salgado, de Freixo de Espada à Cinta, de dois mil cruzados e a terça parte de seus bens, feita por seu tio padre Manuel José Rodrigues. Lisboa, 22 de Dezembro de 1815. 6 — Carta de nomeação de José Joaquim Salgado, para capitão de ordenanças do Felgar, distrito da capitania de Moncorvo. Lisboa, 22 de Dezembro de 1824. S AMPAIO (Francisco Xavier Ribeiro de), desembargador da Relação do Porto. Ver tomo VII, pág. 476. Da cópia de um requerimento que devemos ao ilustre amigo, Dr. Santos Júnior, professor da Universidade do Porto, extraímos mais as seguintes notícias referentes a Francisco Xavier Ribeiro de Sampaio. Leu no Desembargo do Paço, no ano de 1764, e por decreto de 18 de Março de 1767, foi despachado Juiz de Fora e Provedor do Pará, governado então pelo Capitão General do Estado, Fernando da Costa de Ataíde. Por decreto de 19 de Setembro de 1772, foi transferido para a Ouvidoria, Provedoria e Intendência do Comércio da Capitania do Rio Negro, cargo então perigoso, pela atrocidade do gentio Mura, entregue principalmente ao corso. Aproveitou a oportunidade para escrever um Diário da viagem, respeitante à História Natural e Civil desta capitania. Mais tarde juntou a este Diário um Appendix, em que relata os seus serviços na capitania, e escreveu também uma «Relação Histórica do Rio Branco; rio famoso que rega huma dilatada parte daquelle continente, cuja população se fez no tempo que (ele) serviu ali... — Esta obra se acha na Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha... Como (ele) se houve no processo da conjuração que havião fabricado alguns soldados da Guarnição da capitania do Rio Negro, e que não sendo providenciada poria em ruína última aquella capitania, será patente dos Documentos relativos a êstes objectos, que se acham na Secretaria de Estado da Repartição da Marinha». Protegeu o fomento agrário nesta capitania, fazendo plantar trinta e dois mil pés de café; fez com que, abandonando as matas, viessem povoar na região mil quatrocentas e vinte duas pessoas e fundou uma olaria na vila de Tomar «daquella comarca», segundo tudo consta dos atestados passados por João Pereira Caldas, governador e capitão-general do Rio Negro. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


SAMPAIO

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Regressando à pátria, arribou a Setúbal, a 25 de Janeiro de 1780, depois de ter servido no Brasil durante doze anos e dez meses e foi nomeado «desembargador da Relação do Pôrto, com exercício em Provedor da Comarca de Miranda» do Douro. Como «a importante manufactura da Sêda da cidade de Bragança, se achava entregue ao capricho dos Fabricantes, que sem ley, nem regra, que os conduzi-se, deixava aos mal intencionados lugar de falsificarem as obras com notavel prejuizo do Publico, e descredito das Fabricas Nacionais, quiz V. Magestade remediar estes males e crear a conservatoria daquella Fabrica nomeando o supplicante com as Providencias dadas por Alvará de 13 de Outubro de 1782». «O supplicante pôz em forma a referida Fabrica reduzido a huma administração regular. Quanto o supplicante obrou nesta parte hé constante na Junta da Administração das Fabricas do Reino pelos documentos à mesma remetidos pelo supplicante e circunstanciadamente o faz certo a certidam n.° 21 extrahida do Livro das Providencias da mesma Fabrica que hoje utilmente prospera». «O que o supplicante obrou em outras deligencias importantes de que foi incumbido sirvase V. Magestade fazer-se informar das diferentes Secretarias de Estado, aonde existem as informações que lhe são respectivas, e igualmente de todos os tribunais especialmente a Meza da Consciencia, e a Junta dos Tres Estados. Por este Tribunal foi o supplicante incumbido de Inspecção do reparo e concerto dos Petrechos, e Muniçoens de Guerra dos Armazens da Praça de Chaves, que tinham chegado à ultima ruína, a qual (por motivo de outra deligencia dos insolentes furtos, que se tinham cometido nos referidos Armazens) fez presente o supplicante ao mesmo Tribunal: como tudo se declara na Provisão copiada N.° 20. Durou esta deligencia dos concertos quasi dous annos». «Depois do supplicante ter, neste nesmo lugar de Provedor de Miranda servido sete annos, e havendo oito para nove, que estava despachado, foi V. Magestade servida reconduzilo no mesmo lugar, fazendo-o da Rellação do Porto em Fevereiro de 1789, de que tomou posse; e há quatro annos nesta qualidade e exercício serve: o que V. Magestade assim determinou, não obstante pedir o supplicante o exercício na Rellação; signal de que assim era do seu Real serviço». «Já V. Magestade tinha incumbido o supplicante da importante deligencia da Administração das Muniçoens de boca das tropas da Provincia de Tras-os-Montes, que principiou no primeiro dia de Septembro de 1788». «Foi a Administração deste anno laboriosa porque era hum anno esteril, cheya de duvidas, e contençoens, por causa dos ajustes das sóbras, e verdes com a cavallaria; não obstante isso, lucrou a Fazenda de V. Magestade». «No seguinte anno arremata-se o Assento: porem no ano de 90 para 91, foi novamente o supplicante incumbido daquella Administração na qual pella MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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mayor instrucção que o supplicante tinha adquirido, se houve de sorte que lucrou a Fazenda de V. Magestade para cima de sessenta e tres mil cruzados, sendo sempre a tropa bem fornecida, e atendidos os interesses dos Povos». «Continuou o supplicante a mesma Administração no anno seguinte, que principiava no primeiro de Septembro de 1791, e acabou no de 92: não foram menores os interesses da Fazenda de V. Magestade... basta observar, que todo o fornecimento do corrente anno foi feito no antecedente, em que os preços dos generos foram excessivamente diminutos aos do corrente, porque aonde o supplicante comprou o anno passado, centeyo a 280, agora se vende a 400; porque foi esterelíssima a colheita do anno de 1792. O grande bem desta antecipada providencia do supplicante foi o não comprar o supplicante o pão das tulhas dos Rendeiros e dos particulares; porque se o comprasse certamente o não havia para o Povo, mas o preço subiria em excesso: o que assim não tem sucedido com publica satisfação dos Povos...». «São pois quatro annos, que o supplicante se tem empregado na administração das tropas de Tras-os-Montes, a mais laboriosa, e complicada de todo o Reino pela sua forma e circunstancias locais: Deligencia sem premio; antes, na qual tem sido o supplicante obrigado a multiplicadas despesas proprias, incomodos, desgostos, riscos da propria Fazenda para dar conta da de V. Magestade, cujo recebimento annual tem sido de cem contos de reis: tendo sido preciso ao supplicante assistir a mayor parte do Anno na Praça de Chaves, aonde se acha a principal guarnição... motivos, porque pertende, que V. Magestade o promova a hum lugar ordinario de Desembargador da Rellação, e Casa da Supplicação; que parece merecer-lhe o tempo de 25 para 26 annos no serviço de V. Magestade: contado de 18 de Março de 1767, até os presentes; os serviços do supplicante, que ficam narrados; que se persuade o supplicante serem taes, que lhe dão direito para preferir a outros, que posto que mais antigos, os não tenham tão assinalados; nem talves o prestimo, estudos, instrucção, e experiencia do supplicante. Pede a V. Magestade se sirva deferir ao Supplicante como submissadamente implora E. R. M.ce» (760). Junto a este há mais o seguinte «Documento anexo á sua carta aliás requerimento de Chaves, de 26 de Fevereiro de 1798, para Martinho Melo e Castro», que diz: «...Tendo chegado a este Reino em 25 de Janeiro de 1780 com demora na América no serviço de V. Magestade de doze annos e des meses, V. Mages-

(760) Arquivo Histórico Colonial, Reino, Papéis avulsos. 1798.

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tade houve por bem despachalo para Provedor de Miranda que actualmente serve». «Neste lugar tem sido o supplicante incumbido das mais importantes deligencias que se offereceram naquella Comarca, e Provincia e especialmente a do conhecimento do insulto perpetrado no Reino de Galiza por muitos portugueses, que foram tomultuariamente ao mesmo unidos com algun Gallegos; do qual pedindo seria satisfação a Corte de Hespanha, se commeteo esta diligencia, para o devido castigo ao General da Província, que a elle mandou o supplicante para concorrer com o super-Intendente das Alfandegas do Norte, a quem se tinha commetido o principal conhecimento. Nella se houve o supplicante de sorte que chegou a prender os inimigos autores de tão atrocissimas desordens, ou dous cabeças, dellas, hum portugues, outro gallego: O que faz indubitavel das duas Attestaçoens N.os 17 e 18» (761). No Arquivo Histórico Colonial há mais a seguinte carta: «Illm.° e Exm.° Snr. meu amigo, e meu Senhor. Participo a V. Ex.ça que no dia 28 do corrente mes se baptizou nesta Villa hum filho meu, do qual V. Ex.ça quis honrar-me sendo Padrinho pela Procuração, que me remetteo; por cuja singularissima merce beijo humildemente a mão de V. Ex.ça. Mirandela 30 de Novembro de 1789. Illm.° e Exm.° Snr. Martinho de Melo e Castro — De V. Ex.ça mais reverente e obsequioso creado — Francisco Ribeiro Xavier de Sampaio» (762).

SAMPAIOS «Francisco José de São Payo e Castro do Conselho de Sua Magestade, senhor da Casa de Villa Flor e das Villas de Frechas, Villas Boas, Bemposta, Parada de Pinhão, Mos, Chacim, São Payo, Villa Flor, Alcaide Mor da Torre de Moncorvo e Fronteiro Mor de Freicho de Espada na Sinta, Senhor dos direitos reaes de todas as ditas villas e lugares, seus concelhos e dos de terra de Bargança, Sargento Mor de Batalhas dos exércitos de Sua Magestade, V. Rey e capitão general dos estados da India, etc.».

(761) É possível que esta pendência seja o barulho da Mofreita referido na página 215. Ao velho amigo Santos Júnior, ilustre professor da Universidade do Porto, agradecemos a cópia que nos mandou destes documentos por ele descobertos no Arquivo Histórico Colonial em Lisboa. (762) Arquivo Histórico Colonial, Documentos do Reino, Ano de 1789. Cópia obtida por interferência do Doutor Santos Júnior.

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SAMPELAYO

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Todos estes títulos constam de uma certidão mandada passar por ele e datada de Goa, a 26 de Dezembro de 1722, existente no Arquivo Histórico Colonial, Papéis avulsos — Moçambique — caixa 3, de que o Doutor Santos Júnior nos mandou cópia. Sobre os Sampaios, ver a Relação dos Varões da Casa de São Paio, por D. António Manuel de Sampaio da C. Pimentel, conde de São Paio. Lisboa, 1940, de que demos muitas notícias em A Restauração de 1640 no Distrito de Bragança. 1940. Ver pág. 335. SAMPELAYO (Primitivo Hernandez), geólogo e engenheiro espanhol. Escreveu: Criadero do mineral de hierro de Moncorvo (Portugal) extracto de notas y comunicaciones del Instituto Geologico y Minero de España. 1929. Vem citado em nota na pág. 26 do livro do dr. Adriano Rodrigues (ver este nome), intitulado O Problema Nacional do Ferro. SANTIAGO (António Manuel), doutor em direito, professor do seminário, cónego da Sé de Bragança. Ver tomo VI, pág. 670. Faleceu no Felgar, concelho de Moncorvo, terra de sua naturalidade, a 8 de Janeiro de 1935. A sua biografia encontra-se no Boletim da Diocese de Bragança, 1935, pág. 290.

SÃO M ARTINHO DO PESO Graças aos bons ofícios do tenente Manuel Justino de Miranda Raposo, vi um códice de pergaminho, constante de três fólios cosidos em forma de livro, manuscritos pelo anverso e reverso, menos o último, que só está no anverso, existente numa casa particular de São Martinho. O texto abrange 0,36x0,42. Tem partes ilegíveis por gastas nas dobras do pergaminho, por manchas, por roturas, principalmente no último fólio, com falta de palavras e por roçadas e gastas. Contém este pergaminho uma sentença dada por el-rei D. Manuel I, em Guimarães, a 24 de Julho de 1510, pelo doutor Estêvão (?) Correia e pelo licenciado Rui da Graça, do seu conselho. Nesta sentença faz el-rei saber aos «juizes da villa de Pena Royas» como autores, que «os moradores de Sam Martinho do termo da mesma, Reos da outra parte» apresentaram em juízo contra eles «seu libello alegando que era verdade que o lemite da dita vila (de Pena Roias) partia e confrontam com o lemite e comarqua dos Reos (isto é, com o de São Martinho) pelos logares seguintes convem saber pella Portella de Gimpaio ao castello dos Figueiros e dally a Portella do meo que estaa nas coraças do sam martinho e por estes MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


SARMENTO

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logares e devysons foram sempre nomiados e abidos e decarados os limites da mencionada villa e o dito logar de Sam Martinho e que das ditas confrontações e divisões a dentro no termo da dita villa autora jazia hum prado que se chamava de saldanhos o quall confrontava e partia por estes lugares seguintes. S. da Portelinha dos Navalhos da Figueira e dhi pelo meyo da cadeya da serra da Castanheira a portella de Dom Payo onde partia com a herdade d’Estevão Martins da Figueira e dhi a pena meeira por meyo da Cadeya e dhi a de Pena Royas a portella de Cimo da Villa porem que fica a faceira da dita villa hum gram tiro de besta e mais e dhi se torna a dita Portelinha dos Navalhos da Figueira onde se começara». Seguem depois as alegações de São Martinho, dizendo que estavam na posse imemorial de se utilizar deste prado e campo para pastoreio de seus gados e crias, de que os de Pena Roias os queriam esbulhar, baseados na sentença que um juiz desta vila dera ultimamente contra eles. Os de Pena Roias alegaram que o prado estava no seu termo, mas, por último, a sentença reconhece o direito de compáscuo aos de São Martinho. Estas alegações, contestações e formulários tabeliónicos exarados no pergaminho, encheriam dez ou doze folhas de papel de 35 linhas e porque nada têm de interessante resumem-se no que fica dito (763). S ARMENTO (Alfredo de Morais), tenente, assassinado em Luanda. Ver o artigo Publicações anónimas, pág. 442. SANTOS (Frei Francisco dos), Frei Manuel de S. Bernardo, Frei Domingos de Jesus Maria, Frei Benedito de São José, Frei Plácido da Piedade, Frei João da Encarnação, Frei António de São Caetano e José Manuel (este sem o título de Frei), defenderam, no convento de São Francisco de Bragança (Caliobrigae, como escreve o documento), uma tese sobre a estátua de Nabuchodonosor, dedicada a D. João de Sousa Carvalho, bispo de Miranda. Foi impressa em três planos num pedaço quadrangular de seda branca, Hespero — Lisipone, tipis Petri Ferrerii. Anno 1734. Está no Museu de Bragança e veio de Milhão. SANTOS JÚNIOR (Dr. Joaquim Rodrigues dos) — Ver tomo VII, págs. 492 e 792; tomo VIII, pág. 116.

(763) Ao meu colega Luís José Afonso Ruivo, ilustrado pároco do Mogadouro, agradecemos a lista dos nomes dos sítios dos termos em litígio, que em 17-7-1942 nos enviou, para confrontarmos com as mencionadas na sentença. Também agradecemos ao velho amigo, tenente Manuel Justino de Miranda Raposo a consecução deste pergaminho para o Museu de Bragança, onde agora se encontra.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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SANCERIZ

TOMO XI

Publicou mais: Gravuras Rupestres de Linhares (a Fraga das Ferraduras), Porto, 1933, 8.° de 8 páginas, com 3 fotogravuras. As pinturas pré-históricas do Cachão do Rapa. Porto, 1933, 8.° de 42+1 páginas, seguidas de 9 estampas, policromadas algumas; 11 figuras intercaladas no texto e 1 página desdobrável, a cores, com o desenho dos sinais do Cachão do Rapa. Nota de Coreografia popular trasmontana. A dança dos Pretos (Moncorvo). Porto, 1935, 8.° de 16 páginas, com 4 fotogravuras referentes às atitudes da dança. Esta dança é muito interessante e tem carácter sagrado como a dos Paulitos. As telhas do teu telhado. (Nota etnográfica). 1933, 8.° de 20 páginas. Este trabalho, conquanto se não refira propriamente ao distrito de Bragança, encerra muitas crenças e práticas medicinais colhidas no mesmo, principalmente em Moncorvo. Nota de Coreografia popular trasmontana. II. A dança dos Pretos (Carviçais), 1936, 8.° de 8 páginas. Povoações mistas da raia trasmontana — Galaica, segundo o inquérito de 1879 (comunicação apresentada à 7.a secção do Congresso Luso-Espanhol do Porto — 1942). 1943, fólio de 26 páginas, com uma gravura intercalada no texto. Episódio bulhento entre povos fronteiriços no fim do século XVIII. (Comunicação apresentada à 7. a secção do Congresso Luso-Espanhol do Porto). 1943, fólio de 22 páginas. SANCERIZ. Ver tomo X, pág. 616. SARMENTO (Jacob de Castro), notável médico judeu, natural de Bragança. Ver tomo V, pág. 95; tomo VII, págs. 792 e 820. O erudito professor da Universidade de Coimbra, Dr. Joaquim de Carvalho, publicou: Jacob de Castro Sarmento et l’introdution des conceptions de Newton en Portugal. Extrait du vol. Actes, Conferences et Communications du III.ème Congrés International d’Histoire des Sciences, tenu au Portugal en 1934. Lisboa, 1935, fólio pequeno, de 6 páginas. Neste trabalho diz o ilustre catedrático que Castro Sarmento traduziu e fez imprimir, em Junho de 1730, as Propositions de Pierre Shaw en vue de l’impression des œvres de François Bacon. Mais acrescenta que na Biblioteca Nacional de Lisboa se guarda o manuscrito da tradução, feita por Jacob de Castro Sarmento, da Chronologie, de Newton. Na obra intitulada Teoria verdadeira do incomparável Newton, por Jacob de Castro Sarmento, Londres, 1737, vem um belo retrato deste ilustre bragançano. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


SARMENTO

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O nosso amigo Dr. Eugénio da Cunha e Freitas, douto genealogista, residente em Lisboa, mandou-nos os seguintes apontamentos referentes à família de Jacob de Castro Sarmento, extraídos dos processos N.os 1582, 7877 e 7301 da Inquisição de Coimbra: I — João Vaz, mercador, e sua mulher, Páscoa de São Tiago, cristãos-novos, viveram no século XVII e já eram falecidos em 1711 (764). Tiveram: A 1.°— António de Almeida, que segue no N.° 11. Mas este era filho do primeiro matrimónio, com uma mulher cujo nome se ignora. A 2.°— Henrique de Castro, falecido solteiro, em Bragança, antes de 1711, sem geração. A 3.°— Pascoal de Castro, casado, com geração em Valladolid. Também filho do primeiro matrimónio. A 4.°— Francisco de Castro que em 1711 vivia em Grândola (Alentejo), viúvo de Violanta de Mesquita, de quem teve: B 1.°— João de Castro, casado com Leonor de Mesquita. B 2.°— Manuel, solteiro em 1711. B 3.°— Henrique. Foi este o célebre médico que, depois no estrangeiro, já livre dos terrores inquisitoriais, adoptou, se é que não tinha já na sinagoga, o nome de Jacob de Castro Sarmento. Ver tomo V, pág. XCVI, destas Memórias. A 5.°— Manuel de Almeida, mercador, falecido em Bragança antes de 1711, viúvo de Violante Henriques, de quem teve: B 1.°— João de Castro, soldado de cavalaria, preso pelo inimigo. B 2.°— Joana. B 3.°— Helena, ambas solteiras em 1711.

(764) João Vaz tinha um irmão chamado Francisco Henriques e uma irmã. Páscoa de São Tiago, mulher de João Vaz, era filha de António de São Tiago e tinha a seguinte irmã: Sousa. Luísa Lanes, casada com o escrivão Manuel Dias. Tiveram: a — António de São Tiago. b — Mariana de Castro. c — Filipe de São Tiago. d — Serafina Lanes. Como tudo consta do processo N.° 7031, instaurado no ano de 1705.

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SARMENTO

TOMO XI

Manuel de Almeida fora casado em primeiras núpcias com Catarina Nunes, de quem teve: B 4.°— Francisco de Almeida. B 5.°— António de Almeida, que morreu solteiro antes de 1711. A 6.°— Mariana de São Tiago, que foi relaxada pela Inquisição, sendo já viúva de Alexandre Pereira (765). Ver tomo V, págs. 110 e 265, destas Memórias. A 7.°— Luísa de Castro, falecida em Bragança antes de 1711, viúva de António Fernandes de Lucena, de quem teve: B 1.°— Henrique, falecido solteiro. B 2.°— João Vaz, «soldado infante de pé» do Castelo de Bragança. II — António de Almeida, lavrador (A 1.° atrás mencionado), nasceu em Agrochão, onde viveu casado com Mariana de Almeida. Tiveram: B B B B B B

1.°— 2.°— 3.°— 4.°— 5.°— 6.°—

João de Castro, que segue sobre o N.° III. António de Almeida, torcedor de sedas, viveu na Galiza. Manuel de Almeida. Luísa Antónia, solteira. Viveram em Agrochão. Ana, solteira. Maria de Castro. Faleceu em Bragança antes de 1711, viúva de Francisco de Almeida, / medeiro (de puir lã ou seda). Tiveram Filipa. B 7.°— Páscoa de São Tiago. Faleceu solteira, antes de 1711.

}

III— João de Castro, meirinho do asentista de Bragança. Nasceu em Agrochão, cerca de 1665; foi preso pela lnquisição em 1711 (Processo

(765) Alexandre Pereira e sua mulher Mariana de São Tiago tiveram: 1 — João de Castro, casado em Lisboa com Maria... 2 — Violante Pereira, casada com António de Novais e Sá. Tiveram: a b c d

— — — —

Joana. Luís. Alexandre. Roque.

3 — Manuel de São Tiago. 4 — Henrique de Castro.

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SARMENTO

491 TOMO XI

N.° 1582). Ver tomo V, N.° 2, pág. 3, destas Memórias. Foi casado com Josefa Henriques. Tiveram: C 1.° — Manuel, que segue sob o número IV. C 2.° — Filipa. Nasceu em Bragança, cerca de 1704 e já era defunta em 1750, tendo casado com António da Costa Mendes, tecelão. Tiveram:

}

D 1.° — Rafael da Costa solteiros, ausenD 2.° — Manuel António de Castro tes em 1750. D 3.° — Henrique D 4.° — Mariana, que casou em Bragança com Francisco da Silva Cardoso, tecelão. Sem geração. C 3.° — Brites de Castro, que nasceu em Bragança, cerca de 1706 e já era falecida em 1750, tendo casado com António Lopes Pereira, tecelão. Tiveram: D 1.°— João Gabriel. D 2.°— Isabel Maria solteiras, moradoras em BraD 3.°— Luísa Maria gança em 1750.

}

IV — Manuel de São Tiago, que nasceu em Bragança cerca de 1701 e foi casado com Luísa Maria, irmã de António Lopes Pereira, acima mencionado. Tiveram: D 1.°— João de Castro, que segue sob o N.° V. D 2.°— António de São Tiago. Era avô de José António de Castro Pereira. Ver tomo VII, pág. 382 e seguintes, destas Memórias. D 3.°— José de Castro solteiros, moradores em BraD 4.°— Josefa Maria gança em 1750.

}

V — João de Castro, tecelão, que nasceu em Bragança, cerca de 1728 e foi apresentado na Inquisição de Coimbra em 22 de Setembro de 1750 (Processo N.° 7877). Foi casado com Mariana Rosa, filha de André Lopes e de Luísa Maria (766). S ARMENTO (João Ferreira), barão, visconde e conde (tomo VI, pág. 613). No Museu Regional de Bragança, encontra-se o seu processo de

(766) Renovo os meus agradecimentos ao Dr. Eugénio da Cunha e Freitas por todas estas informações.

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492 TOMO XI

SARMENTO

habilitação de genere, feito em 1807. No requerimento que apresentou lê-se: «Diz João Ferreira Sarmento Pimentel, filho ilegítimo de Baltasar Ferreira Sarmento e de Caetana Josefa Gomes, naturais de Vinhais, neto paterno de António Sarmento Pimentel, da dita vila de Vinhais e de D. Joana Baptista de Sá Ferreira, natural de Chacim, e materno de António Gomes e de Maria de Morais, naturais de Vinhais...». Junto ao processo vem a sua certidão de idade, passada pelo pároco de Tuizelo, onde ele foi baptizado e diz: «João José Ferreira, natural da vila de Vinhais, filho natural de Baltasar Ferreira Sarmento e de Caetana Josefa, ambos naturais e moradores na mesma vila, neto, pela parte paterna, de António Pimentel Sarmento, natural da mesma vila e de sua mulher Dona Joana Baptista de Sá Ferreira, natural da vila de Chacim e pela materna neto de António Gomes e de sua mulher Maria de Morais, naturais e moradores na mesma vila de Vinhais; nasceu em dia vinte e quatro de Junho da era de mil setecentos, e oitenta e sete...». Como é que sendo de Vinhais foi baptizar a Tuizelo? Melindres de família por ser ilegítimo? No mesmo processo há as certidões passadas pelos párocos referentes a seus pais e avós, que extracto: JOANA BAPTISTA (avó paterna), filha do coronel André de Sá Morais e de D. Bernarda, fregueses de Chacim, nasceu a 2 de Maio de 1717. Foram padrinhos o mestre de campo João de Sá e sua mulher D. Paula Ferreira, moradores em Chacim. A NTÓNIO S ARMENTO P IMENTEL , solteiro, filho de Baltasar Ferreira Sarmento, ambos de Vinhais, e de D. Doroteia Maria de Morais Vale Certo, natural de Vale de Telhas, moradores em Chacim, e D. Joana Baptista Ferreira de Morais Sarmento, solteira, filha de André de Sá Morais, já defunto, naturais e moradores em Chacim e de D. Bernarda Ferreira de Sá Sarmento, moradora em Chacim, natural de Vinhais, sendo dispensados em segundo grau de consanguinidade, casaram em Chacim a 2 de Dezembro de 1742, por procuração, sendo procurador pelo contraente seu tio Amaro Ferreira Sarmento, morador em Macedo de Cavaleiros e da contraente seu irmão Gaspar António de Sá Sarmento, de Chacim. BALTASAR, filho de António Sarmento Pimentel, de Vinhais e de D. Joana Baptista, de Chacim, nasceu a 23 de Abril de 1746; neto paterno de Baltasar Ferreira Sarmento, de Vinhais, e de D. Doroteia Sarmento, de Vale de Telhas, moradores em Vinhais, e materno de D. Bernarda Sarmento, de Vinhais, e de André de Sá, de Chacim. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


SARMENTO

493 TOMO XI

A NTÓNIO, filho de Baltasar Ferreira Sarmento e de D. Doroteia de Morais Sarmento, nasceu a 16 de Setembro de 1713. Pelo lado de Caetana Josefa Gomes, mãe do habilitando, é família humilde (767). SARMENTO (José de Morais), fidalgo da Casa Real, mestre de campo, cavaleiro professo na Ordem de Cristo, fundador do convento e Ordem Terceira de S. Francisco de Vinhais, mencionado no texto epigráfico transcrito no tomo VI, pág. 615, destas Memórias. Na sacristia da igreja da Ordem Terceira de S. Francisco de Vinhais, que fica contígua à igreja de S. Francisco, onde está a lápide acima mencionada, há, em tela, pintado a óleo, um retrato com legenda que diz ser de José de Morais Sarmento, feito a «2 de Dezembro de 1762 da idade de 69 annos, 8 mêses e 18 dias». Daqui se conclui que nasceu a 15 de Março de 1693. S ANTOS DE C ARVALHO (Lopo), de Bragança, filho de Lopo Rodrigues de Carvalho. Serviu na Índia desde 1607 e foi cinco vezes capitão-mor e embaixador no Japão. Casou em Macau, onde foi capitão-mor. Tornou-se notável pela derrota que infligiu aos holandeses em Macau no ano de 1622 (768). SARZEDA, tomo VI, pág. 453. FRANCISCO NOGUEIRA CÂNDIDO , estudante na Universidade de Coimbra, natural da Sarzeda, concelho de Bragança, requereu habilitação de genere e declara que seu pai é irmão de Mateus Nogueira Cândido, cónego, ao tempo, na Sé de Coimbra, com quem o requerente vive. Processo 1736 no qual há as seguintes certidões: FRANCISCO, o requerente, filho de Afonso Pires e de Maria Rodrigues, da Sarzeda, nasceu a 3 de Outubro de 1708, na Sarzeda. O pároco da Sarzeda declara que não achou mais assentos de baptismo referentes aos ascendentes do habilitando, além da referida, e acrescenta que dos livros antigos apenas encontrou um muito roto, que finda em 1547,

(767) Parece-me que este João Ferreira Sarmento, é o conde de Sarmento de que tratamos no tomo VI, p. 613, apesar da pequena divergência no ano do seu nascimento. Este ilustre bragançano tem larga biografia no Portugal, dicionário histórico, artigo «Sarmento». (768) Boletim Eclesiástico da Diocese de Macau, 1938, p. 112. Ver o mesmo Boletim do ano anterior, p. 728, onde se apontam seus brilhantes feitos no Oriente.

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SÁ VARGAS

TOMO XI

mas que pelo depoimento das testemunhas se mostra ser filho de Afonso Pires e de Maria Rodrigues; neto paterno de Pedro Pires (este pai do cónego), natural de Mós de Rebordãos e de Isabel Domingues, da Sarzeda, e materno de António Rodrigues, de Nogueira, e de Margarida Fernandes, de Rebordãos (769). S Á V ARGAS (Dr. António Júlio de) — Excertos de cartas escritas do Lombo, pelo Dr. António Júlio de Sá Vargas, para Lisboa a seu irmão, o Conselheiro José Marcelino de Sá Vargas, Par do Reino, Ministro de Estado honorário, do Supremo Tribunal de Justiça, etc.: «Lombo, 27 Abril 1875... Mandou-me neste correio (o Governador Civil) o seu Relatório à Junta Geral, com o oferecimento no alto da página, com todos os matadores. Pouco pude ainda ler. Insiste em que se continue na criação dos sirgos, já se vê que não lhe constou ainda de tal molestia das amoreiras, que estão excelentes por toda a parte, as pretas como as brancas. Lá toca na opinião do Pasteur, de que te falei o ano passado. Hoje francezes e italianos que tratão da causa, trazem todos o pequeno microscópio no bôlso, para observar se o lixo (sic), casulo, e sementes, são corpusculosas. Se tem corpusculos tem molestia... Saberás que já ha por ahi as sementes do Japão. Veremos o que sae». «Lombo, 1.° de Dezembro 1875... De novo nada sei. Vamos à história dos sirgos. Sabes que por estes sitios vinham todos os anos francezes e italianos que compravão cazulo, extrahião sementes às arrobas, e levavão para as suas terras, aonde as não tinhão por cauza da molestia. Vinhão todos os anos, por que a semente de cá só servia para o 1.° ano, no seguinte estava já infécionada, como a de lá. Ha 4 ou 5 anos, vierão segundo o costume para Chacim, conduzindo imensa semente da sua terra, que distribuirão de graça por Chacim, Vila Flor, etc., para experimentar se em Portugal produzia bem e sem molestia!!! Logo que ouvi isto, disse aqui que ninguem aceitasse tal semente, que em Chacim estarião os sirgos perdidos sem remedio, e que aqui no Lombo não tardaria tambem pelo contagio. Aqui fizerão o que eu disse, não aceitarão a peste, em Chacim já era tarde, tinhão aceitado o favor, da semente, que nasceu bem, mas passados poucos dias estavão os bichos podres, apestavão as cazas, deitavão tudo à rua (em vez de queimar ou enterrar), e já se vê os sirgos da terra que estavão proximos dos pestilentos, ficarão logo infecionados, de modo que quando já estava formado o casulo destes, andavão os italianos com o seu microscopio a observa-lo, e a dizer aos de

(769) Este processo de habilitação de genere está no Museu de Bragança.

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SEABRA

495 TOMO XI

Chacim «oh fulano, que já tens a molestia na terra»! Ninguem fez reparo, que a causa disto foram eles com a tal semente, mas não me escapou a mim, que corno vês estava de observação, e tinha lido o que se escreveu lá por fora, que em Italia uma pitada de pó, do que se espreme das paredes dos edificios aonde acaba de se criar o sirgo, é bastante para infecionar os sirgos de todo o orbe! O ano passado e este ano, morrerão já quasi todos os bichos, este ano nem vierão já os estrangeiros ou italianos, que melhor seria não terem aparecido. Algum bicho que escapa, produz um fio muito delgado, porque não tem forças, e não está de todo são e livre da molestia. Nas amoreiras não ha defeito, nem vicio visivel, a folha estava excelente, e excelentes as amoras que eu comi em quanto as houve. Na França e Itália, debatem-se muito, se a origem da molestia residia na amoreira (talvez por isto mandarão as folhas para Lisboa, para macaquiar, e inculcar sabence), ou se estava no proprio bicho? Mas se estivesse na amoreira a molestia ou seu principio, a semente que ia de Portugal para as Itálias, não deveria produzir lá, mesmo no 1.° ano em que vai, o bicho, não poderia viver com alimento viciado! Em suma isto acabou para os leoninos. Hoje serião precisas sementes de fora, e todos os anos. Das Indias? E porque preço? O lavrador não pode adiantar 2 ou 3 libras para sementes, com o risco de perder o feitio, e de lhe meterem gato por lebre em sementes. Hoje só para estabelecimentos em ponto grande. Perdõe S. Ex. a a estopada porem não era possivel informar de outro modo. E’ o mundo físico, e o moral, que estão podres. Aqui em casa seguia o mesmo sistema do teu tempo, com as amoreiras que havia, que são as que há — dava-se o sirgo de meias a umas mulheres e regulava a cousa por 5 ou 6 libras — metade das quais para nós, e a outra metade para as mulheres que punhão o seu trabalho, e tratavão o sirgo em sua casa. Mas deves saber, que não há muitos anos que um sujeito de Grijó de Valbemfeito, realizou só para si em um ano mais de um conto de reis! Em Castelões em casa do Visconde, no tempo das Madames tambem se apurou bom dinheiro...» (770). SEABRA (António Luís de), famoso jurisconsulto, autor do Código Civil e de vários outros trabalhos científicos e literários em prosa e verso. Ver tomo VI, pág. 516, N.° II, e tomo VII, pág. 147. Tem larga biografia, acompanhada do retrato, no Portugal, dicionário histórico, vol. VI, artigo Seabra. Seu pai, António de Seabra da Mota e Silva era corregedor de Moncorvo, quando faleceu e foi sepultado na capela de Nossa Senhora do Rosário, entre Roios e Vila Flor, tinha casa em Vila Flor e nesta vila casaram duas filhas suas,

(770) Ao amigo dr. Raul Teixeira, agradecemos este extracto das cartas do Dr. Sá Vargas, agora existentes no Museu de Bragança.

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SEABRA

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SEDA

TOMO XI

irmãs do jurisconsulto, nas casas dos Pegados e Leites Pereiras de Almeida, famílias fidalgas. Para esta casa de seus pais, em Vila Flor, se retirou o jurisconsulto António Luís de Seabra, quando em 1823 rebentou a revolução absolutista, que revogou a constituição de 1820, sendo ao tempo juiz de fora em Alfândega da Fé, cargo de que foi demitido por constitucional. Em Vila Flor permaneceu três meses e traduziu as Sátiras e Epístolas, de Horácio, como declara na respectiva Advertência, dois tomos, publicados em 1846. SEDA. Ver tomo I, págs. 286 e 344; tomo II, págs. 152, 452 a 470; tomo III, pág. 252; tomo IV, págs. 125, 171, 259 e 534; tomo V, pág. CV; tomo VII, págs. 466 a 470, 498, 621 e 792. Como a sericicultura teve tanta importância na região bragançana, aditamos mais estas achegas por estarem publicadas em livro raro (771). «Provimento extrahido do livro das amoreiras que se acha na comarca de Moncorvo. Tendo considerado ser esta provincia muito propria para a cultura da seda, e florescimento da agricultura das amoreiras, e querendo pelas obrigações do meu cargo, promover, quanto puder, tão importante ramo de industria, e comercio, que locupletará não só os patrimonios de cada um, mas decidirá mesmo da riqueza desta provincia; e considerando, por outra parte, que sobre este interessantissimo objecto se não tinha ainda dado passo algum publico; não obstante as recomendações de Sua Magestade, bem claras na Extravagante de 20 de fevereiro de 1752, e já muito antes annunciadas no tempo do senhor rei D. Pedro II pondo em um dos artigos da Residencia dos Ministros a omissão, que tivessem em fazer plantar amoreiras, como é expresso no Decreto de 22 de Janeiro de 1678. E sendo as amoreiras arvores as mais uteis que podem plantar-se... determinei, apoiado com as mencionadas leis e Decretos, por em acção um plano, pelo qual se dirigisse este importantissimo objecto; e se promovesse o adiantamento, industria e riqueza dos povos da minha jurisdicção, a quem tão sinceramente desejo bem, formando d’este plano o systema da abnegação publica, de que ninguêm pode eximir-se, o qual é o seguinte. Primeiramente farei publicar, e fixar nesta villa um edital, em que se annuncie o novo projecto, mandando a todos os moradores que hajam de ir manifestar as suas amoreiras a casa do escrivão da camara, pena de ir o mesmo escrivão com o alcaide tomallas em rol às suas fazendas; o que

(771) Ver o artigo «Sá Vargas».

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SEDA

497 TOMO XI

tambem se annunciará por publicos pregaes, para que ninguem allegue ignorancia. Logo depois farei ajuntar os officiaes da camara, nobreza e povo d’esta villa, na presença dos quaes intimarei e lerei mesmo as leis de Sua Magestade com os privilegios respectivos aos agricultores das amoreiras e criadores da seda; e igualmente os persuadirei a este tão nobre e lucroso trabalho... depois com os mesmos officiaes da camara se fará um calculo das amoreiras que poderão plantar-se para o anno de 1789 nesta villa, attendendo aos seus habitantes, as amoreiras já plantadas, e ás terras de cada um e do concelho aonde também se permitte similhante plantação, e depois se devem destribuir pelos moradores da villa, em proporção das suas riquezas e fazendas... E para que mais seguramente se dirija um negocio de tanta importancia que faz a publica e particular utilidade, os officiaes da camara elegerão um homem de conhecido zelo e industria para inspector d’agricultura das amoreiras, o qual tera a seu cargo fazer plantar a cada um as que lhe forem destribuidas, como também vigiar sobre a conservação das plantadas acusando logo todo aquele que conspirar direta ou indiretamente para a sua destruição o qual será obrigado com toda a severidade como publico perturbador e mau vassalo que conspira contra as santas e saudaveis leis de Sua Magestade. Afim de promover o adiantamento de tão importante ramo de agricultura, não só nesta villa mas em todos os lugares da minha jurisdição, passarei a decorrelos com um escrivão eleito para esta diligencia, e na presença de todo o povo persuadirei os lavradores, quanto me for possivel tão importante trabalho por meio de argumentos tirados de tão interessante objecto e pelos honrosos previlegios comque Sua Magestade o condecora. Depois do manifesto de todas as amoreiras, se destribuirão outras de novo pelo juiz, e regimento na minha presença, as quaes serão notificadas a cada um pelo escrivão do povo e também elegerão um inspector da mesma agricultura, assim como na villa. Para isto haverá em cada lugar um livro numerado e rubricado por mim, ou por minha comissão, que terá em seu poder o respectivo escrivão, no qual deixarei um provimento do que se deve obrar a este respeito, e em que estenderão os autos e termos de tudo o mencionado. E para que jamais o descuido e negligencia não frustem um projecto de tão conhecida utilidade, em auto de Vereações serão obrigados os escrivães, em cujo poder ficarem os mencionados livros a apresentalos ao doutor Juiz de Fora, e mais officiaes da Camara pena de que não o fazendo serem suspensos de seus oficios por um mes e pagarão dez cruzados para as despezas da Relação. Neste acto será obrigado o Inspector das amoreiras a dar conta do que souber, noticiando os que forem diligentes, ou omissos, na plantação que se lhe destribuir; e fazendo-se nos livros todas as declarações necessarias, acrescentando ou diminuindo a destribuíção que se tinha feito, ou porque plantaram mais do que as que foram destribuidas, ou porque plantaram menos de MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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498

SEDA

TOMO XI

forma que sempre em um golpe de vista, se saiba quantas amoreiras houve desde o tempo do primeiro manifesto e quantas vae havendo pela destribuição daquele ano; e aqueles que forem rebeldes e omissos, não dando legitima escusa, serão condenados proporcionalmente à sua riqueza, omissão e quantidade que deixaram de plantar; não sendo em caso algum a condenação menos de 2000 reis... e se perguntará tambem na devassa do costume com muita particularidade, tudo quanto pertence a este respeito, e principalmente dos que destruiram as pequenas arvores afim de se castigarem com todas as penas civis e crimes das nossas leis. No mesmo acto se deve proceder a nova destribuição, e eleição do Inspector; tudo attendendo às circustancias ocorrentes, diminuindo-se a destribuição de cada anno à proporção das que se tiverem plantado, até que chegue tempo que não seja preciso mais cuidado a este respeito por haver já quantidade sufficiente, para uma grande creação de seda e augmento do comercio nestes paizes; visto que todas estas providencias e plano proposto é interino e que só hade durar, até que se consiga o desejado effeito das leis de Sua Magestade... E como sem sementeira não pode haver amoreiras em quantidade notavel, me tenho proposto mandar vir as melhores sementes d’esta planta e tornando a mim o cuidado de as semear as destribuirei por todas as pessoas, a quem incumbir agricultallas... Igualmente neste livro se descreverão todos os privilegios, que Sua Magestade concede aos plantadores das amoreiras, e creadores de seda, extrahidas da Extravagante de 20 de fevereiro de 1752; pois é evidente que nada ha mais priviligiado nestes reinos, do que as sedas e suas fabricas; o que se vê não só da mencionada lei de 20 de fevereiro, mas de muitas outras, como da lei de 7 de março de 1761, decreto de 2 de abril de 1757 ampliado pelo outro de 24 de outubro do mesmo anno ambos recommendados pelo alvará de 30 de abril de 1760 revogandose para isso o de 24 de março de 1695 como tambem pelo decreto de 7 de Abril de 1763 e pelo alvará de 10 de dezembro de 1770. Sendo a minha intenção que nesta villa e termo se dirija pelo methodo mais seguro o progresso da agricultura das amoreiras, tenho formado uma collecção das melhores regras para crear as amoreiras e bichos da seda com os methodos de a fiar... notando os erros da provincia. Cujo Opusculo se hade propor a Sua Magestade para o confirmar, merecendo o seu real beneplacito; e então o farei imprimir à minha custa, e repartirei gratuitamente por todas as pessoas das terras da minha jurisdição; e o seu prospecto apresentarei à Camara, nobreza e povo no acto de serem convocados. Outro sim declaro, que rubricando todos os livros mencionados, conforme as leis de Sua Magestade, não levo aos concelhos emolumentos alguns das suas rubricas; e eu e os meu officiaes, que me acompanharem na mencionada diligencia, não levaremos nenhuns diarios, nem outros salarios MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


SEGIREI

499 TOMO XI

similhantes; porque a minha unica intenção é só o patriotismo e utilidade publica... Moncorvo, etc. (Não traz data). Segue o seguinte: — Depois de ter formado este plano o pus na presença do senhor Intendente Geral da Policia da Corte e Reino, o qual me fez a honra de o approvar com elogio, instando-me a continuar em tão util objecto. Os povos acceitaram com tanta satisfação o que lhes persuadi; quanto se faz patente da seguinte LISTA das amoreiras, que se deram ao manifesto e se destribuiram para se plantarem para o anno de 1787 segundo as Ordens do Provimento, na villa e termo de Moncorvo.

Povos

Manifesto

Distribuição

Moncorvo .................................................. Urros .......................................................... Peredo ........................................................ Açoreira ..................................................... Massores .................................................... Souto .......................................................... Felgar ......................................................... Larinho ...................................................... Felgueiras ................................................... Cabeça Boa ................................................ Cabeça de Mouro ..................................... Orta (sic) ................................................... Estevaes ...................................................... Povoa .........................................................

5:505 5.415 5.595 5.174 5.451 5.227 1:515 5.584 5.376 5.240 5.335 5.162 5.161 5.587

5:612 5:444 5:292 5:131 5:509 5:255 1:421 5:427 5:253 5:401 5:327 5:132 5:294 5:103

5:333

» (19)5:601 (772)

SEGIREI Na povoação de Segirei, freguesia de São Vicente da Raia, concelho de Chaves, mas confinante com a freguesia de Edral, concelho de Vinhais, apa(772) Dissertações Filosófico-Políticas sobre o tratado das sedas, na comarca de Moncorvo, dedicadas à soberana majestade de muito alta rainha de Portugal nossa senhora, pelo doutor José António de Sá. Lisboa 1787. Prefacção. Ver tomo VII, p. 460, destas Memórias, onde descrevi este livro.

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500

SEPÚLVEDA

TOMO XI

receu, em Março de 1935, à profundidade de dois metros, quando abriam um valado para encanamento de águas, a seguinte lápide funerária romana: DMS SENECIANI AXXV Pedra de xisto local, já quebrada em parte, mas sem prejuízo do texto. Altura 0,60 metros, largura 0,30 metros. As letras são escritas sobre linhas e a pedra é interessante por apresentar o formato de palmatória. Diz que o monumento foi posto à memória de Seneciano falecido de 25 anos. D (iis) M (anibus) S (acrum) Seneciani A (nnorum) XXV. Os nomes Seneciani e Senecio já são conhecidos na epigrafia romana (773). A forma Seneciani dá a entender que se trata de um escravo de Senecio. Ao amigo Ernesto dos Santos Vaz Pereira agradecemos a notícia que nos comunicou deste monumento epigráfico, que agora se encontra em Chaves, na posse do Dr. Júlio Gomes, para ser guardado no museu desta cidade, em vias de criação. SEPÚLVEDA — BUSTAMANTE. BUSTAMANTE (João Rodrigues), pintor, do lugar de Vale da Porca, concelho de Macedo de Cavaleiros, filho de Damião Rodrigues Bustamante. Tomo VI, págs. 200 e 363; tomo VII, pág. 54, onde deve emendar-se para Bustamante e não Bustamonte. No artigo Sepúlveda, que segue, falamos de Domingos Bustamante, pai de Rafael Narciso de Sepúlveda, morador em Rebordãos, sobrinho de Francisco Xavier Gomes de Sepúlveda, abade da mesma freguesia. Pela coincidência do tempo e invulgaridade do apelido é possível que entre este e o pintor acima citado haja qualquer parentesco. Todavia está bem claro nos documentos citados o nome de Damião Rodrigues Bustamante, pai do pintor e o de Domingos Bustamante, pai de Rafael Narciso de Sepúlveda. Como as noticias referentes ao pintor Bustamante se encontram no Museu de Bragança, maço Obras, segundo indicamos no tomo VII, pág. 54, devo notar que neste maço existem alguns documentos em papel selado, logo desde o princípio do seu uso em Portugal, que data do ano de 1660 (774).

(773) C AGNAT — Cours D’Epigraphie Latine, 1898, p. 55 e 281. (774) O Instituto, Coimbra, 1932, p. 144, em nota.

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SEPÚLVEDA

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SEPÚLVEDA (Francisco Xavier Gomes de), abade de Rebordãos, tomo VII, pág. 516. Do seu processo de habilitação de genere, feito em 1784, consta, da certidão de idade junto a ele, que nasceu na cidade de Logronho (Espanha), freguesia de São Tiago Real, arcebispado de Burgos; que era filho de José Gomes de Sepúlveda, natural de Mirandela, distrito de Bragança, sargento do Regimento de Dragões da Lusitânia, aquartelado em Borja e de D. Josefa Joaquina de Murillo, natural da cidade de Borja, freguesia da Colegiada de Santa Maria, bispado de Tarrazona, casados em Borja, a 4 de Abril de 1754; neto paterno de Domingos Gomes, natural de S. Pedro Velho, concelho de Mirandela e de D. Joana de Sepúlveda, natural de Mirandela e materno de D. Diogo de Murillo e de D. Ana Maria Navarro, naturais da cidade de Borja, lavradores «infanzones, hijos dalgo». Tem muita importância este processo pelas notícias biográficas inéditas que fornece, referentes a este escritor Sepúlveda e às suas relações de parentesco com o célebre general Manuel Jorge Gomes de Sepúlveda, de quem era parente próximo e não irmão, como se tem dito (775). No processo, como testemunha, depõe António da Veiga de Sequeira, capitão-mor de Mirandela, natural desta vila. Faltam no processo as certidões de José Gomes de Sepúlveda, pai do habilitando, e as dos avós paternos, Domingos Gomes e D. Joana de Sepúlveda, por não apareceram os livros respectivos de Mirandela e S. Pedro Velho. Também no processo falta a certidão de idade do habilitando Francisco Xavier Gomes de Sepúlveda. No mesmo processo se diz que Francisco Xavier Gomes de Sepúlveda, nascido em Logronho, veio para a diocese de Bragança «de tenra idade para a companhia de seu thio o Reverendo Doutor João António Gomes de Sepulveda, morador na Amendoeira» (776). No mesmo Museu de Bragança há o processo de habilitação de genere de Rafael Narciso de Sepúlveda, natural de Zamora, morador em Rebordãos, na companhia de seu tio Francisco Xavier Gomes de Sepúlveda, abade de Rebordãos, filho de Domingos Bustamante, natural do lugar de Moscador, bispado da Callahorra e de D. Josefa Gomes de Sepúlveda, natural de Borja, bispado de Tarrazona; neto paterno de Domingos Bustamante, natural de Moscador e de D. Jacinta Abarasturi, natural de Axarte, bispado de Callahorra e materno de José Gomes de Sepúlveda, de Mirandela e de Josefa de Murillo, natural de Borja.

(775) Ver tomo VII, p. 516, destas Memórias, em nota. (776) Está o processo no Museu de Bragança.

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SEPÚLVEDA

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Diz que o habilitando veio para Rebordãos de três anos e meio, para a companhia do abade (as habilitações foram feitas em 1804). O habilitando nascera em Zamora, freguesia de S. Torquato, em 1787. Domingos Bustamante e D. Josefa Gomes de Sepúlveda, casara em Zamora em 1784, sendo aquele já viúvo. S EPÚLVEDA (Manuel Jorge Gomes de), tenente-general. Tomo VII, pág. 522, onde se apontam as muitas notícias que lhe dizem respeito, espalhadas por esta obra. No processo de habilitação de genere de João António Correia de Castro Sepúlveda e seus irmãos: D. Maria Correia de Sá Sepúlveda. Ver tomo VI, pág. 191, destas Memórias. D. Guiomar Correia de Sá Sepúlveda. Ibidem. D. Teresa Correia de Sá Sepúlveda. António Correia de Castro Sepúlveda. Ver tomo VI, pág. 18, destas Memórias. Bernardo Correia de Castro Sepúlveda. Ver tomo VI, pág. 192, e tomo VII, pág. 502. João António Correia de Castro Sepúlveda (777), existente no Museu de Bragança, filhos do tenente-general Manuel Jorge Gomes de Sepúlveda e de D. Joana Correia Sá Vasques e Benevides, vem transcrita a ordem do Aviso régio existente no Livro primeiro de Registo de Ordens, que serviu na Tesouraria Geral das Tropas, fol. 175, que se conserva no Rio de Janeiro e diz: «Ao Brigadeiro de cavalaria que servio nesse estado com o nome de José Marcelino de Figueiredo, foi sua Magestade servida nomealo por decreto de vinte e dous do corrente, governador da cidade de Bragança restituindo-o ao seu nome, de Manoel Jorge Gomes de Sepulveda... Palácio de Nossa Senhora da Ajuda, em vinte e oito de Novembro de mil setecentos oitenta tres». Em harmonia com esta restituição ao seu verdadeiro nome foram rectificados os assentos de baptismo dos filhos nascidos no Brasil, com o nome do pai — José Marcelino de Figueiredo e o do seu casamento com D. Joana Correia de Sá Vasques e Benevides — que vêm transcritos no processo de habilitação. No dito processo de habilitação vem transcrita a certidão de idade do tenente-general Manuel Jorge de Sepúlveda e diz que nasceu a 12 de Abril de 1735, em Bragança, freguesia de S. João, hoje Sé (778); que é neto paterno de António Gomes de Abreu e de D. Serafina de Sepúlveda, ambos de Braga e materno de Mateus Rodrigues do Eiró, de Santo Estêvão, e de D. Maria Álvares, natural de Vila Meão, termo de Chaves (779).

(777) Ver tomo VII, p. 521, destas Memórias. (778) Outros dizem que o nascimento foi no dia 15. (779) Está o processo no Museu de Bragança.

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SERPA PINTO

503 TOMO XI

Disse-nos Manuel Jorge Correia de Castro Sepúlveda (ver tomo VI, pág. 189, destas Memórias), que o tenente-general Manuel Jorge Gomes de Sepúlveda, sem ascendente, conforme constava por tradição de família, se retirara para o Brasil, adoptando o nome de José Marcelino de Figueiredo, por insinuação do Marquês de Pombal, para despistar e evitar complicações, por ter morto em duelo um oficial inglês muito considerado, que ofendera de palavras, na sua presença, o brio da milícia portuguesa (780). SERPA PINTO (Rui Correia de), doutor. Tomo VIII, pág. 115. Morreu no Porto, a 23 de Março de 1933. SILVA (José Álvares da), natural de Bragança, filho de Pascoal Ramos Álvares, de Vinhais, e de Isabel Maria da Silva, de Mirandela; neto paterno de Jerónimo Álvares, de Rebordelo, e de Francisca Rodrigues, de Vinhais, e materno de Francisco Rodrigues de Lima, de Mirandela, e de Branca da Silva, de Quintela de Lampaças, tornou-se notável como médico, e por alvará de 9 de Junho de 1793 foi nomeado Médico Honorário da Real Comarca (781). S ILVA (Luís Álvares Nunes da), natural de Bragança, filho de Pedro Álvares da Silva e de D. Catarina Pereira Lobo; neto paterno de Luís Álvares Nunes da Silva e de D. Maria Lopes da Costa e materno de José Rodrigues Lobo e de D. Maria Fernandes Pereira, teve Carta de Brasão de Armas a 6 de Dezembro de 1806 — esquartelado de Álvares, Nunes, Silvas e Lobos (782). S OARES (Álvaro Augusto Pinto). Tomo VII, pág. 535. Estimadíssimo médico de Mirandela, onde faleceu em Abril de 1931. Era natural de Abreiro. Numa praça de Mirandela, sita em frente da ponte, erigiram-lhe o seu busto, em bronze, com este letreiro: AO GRANDE BENEMÉRITO

DR. ÁLVARO SOARES S OUSA (José Luís de), engenheiro-agrónomo de 3. a classe, nasceu no Souto, freguesia de Telões, concelho de Vila Pouca de Aguiar, a 19 de Setembro de 1900, filho de José Afonso de Sousa e de D. Olímpia Augusta (780) Ver artigo «Cortiços — Alcoforados», tomo X, p. 615, destas Memórias. (781) Ver a sua biografia em CARVALHO, Silva — Médicos e Curandeiros. (782) Cartório da Nobreza, livro 6.°, fol. 153. Arquivo Heráldico, n.° 1745, fol. 447.

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SOUSA

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SUÇÃES

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Borges. Concluiu o curso de engenheiro-agrónomo no Instituto Superior de Agronomia, em 16 de Julho de 1925. Exerceu as funções de agrónomo adjunto da IV Brigada Técnica da Campanha da Produção Agrícola, de Mirandela, e é chefe da Brigada Técnica da V Região, com sede provisória na Régua — Ver o artigo Trigo de Abreu (Álvaro). SUÇÃES No importante arquivo da casa de Alberto de Sousa Ataíde Rebelo Pavão (783), em Suçães, concelho de Mirandela, conserva-se a pública forma feita por Vicente Rebelo Leite, escrivão na vila de Lamas de Orelhão, a 5 de Abril de 1712, de uma escritura existente no seu cartório, lavrada a 2 de Setembro de 1708, pela qual os moradores de Suçães dão a Miguel Machado Pereira Pinto, do mesmo povo, «o prado do muro velho do Ribeiro que vem do poulallam pera o simo e o prado do amieiral de oje pera sempre pera elle e seus erdeiros fazendo o dito Miguel Machado neste povo as obras dos seguintes dois retabollos de madeira e folhage llevantada a sela moniqua com arcos redondos por sima das cullunas da mesma obra das collunas e levantar o arquo dellas pella maior coatro palmos e por vidrasas nas frestas quadros nos sinos arguollas e gilhos e manquais nas portas e caliar a igreja toda por dentro e por fora e porlhe tudo que for nesesario e branquiar tudo o mais e que fara tudo dentro de hum anno e non o fazendo dentro delle e avendo alguua condenasam (784) a este respeito a paguara a sua custa com comdisam que o baldio do amieiral lhe mandara abrir ballados e fonte que tiver pera o ribeiro e fara presa no quilhilhom e outra no reguo que nase pera o bairo em forma que resebam quantidade de aguoas pera se deter de noite e reguvar de dia he dado quoaso que tape a propriedade deixara serventia nos ditos reguos pera as ballones ou possos em forma que fiquem os ditos reguos livres pera que toda a pesoa que quiser ir busquoar a agua o posa fazer sem impedimento algum com condisam que non fazendo as ditas obras ou impedindo em algum tempo a dita agua non vallera cousa alguua esta escretura e se poderam tornar a preguar aos ditos prados de sua potencia sem mais autoridade de justiça poderam entrar na dita propriedade a limpar os reguos e trazer a aguoa pera onde quizerem e lhes pareser e estas clausulas e condisoins teram a força he viguor em todo o tempo do mundo sem que nellas posa aver prescrisam alguua».

(783) Ver tomo VI, p. 369, destas Memórias. (784) As igrejas eram visitadas anualmente pelos bispos ou delegados seus, que preceituavam, sob pena de multas, as obras necessárias à sua conservação. É a estas multas que se refere o texto.

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SUPERSTIÇÕES

505 TOMO XI

O dito Miguel Machado Pereira Pinto, aceitou estas condições e prometeu fazer as obras indicadas, que certamente realizou, pois os prados foram transaccionados e pertencem hoje à família de Alberto Pavão. Miguel Machado Pereira Pinto, seria artista ou simples arrematante da obra que mandaria fazer por outrém? Em todo o caso é importante este documento por precisar a época em que se fez o retábulo do altar-mor da igreja matriz de Suçães no estilo salomónico.

SUPERSTIÇÕES Quando na página 14 e seguintes tratamos das Crendices, julgamos dispensáveis as referências às apontadas por Apuleio no Burro de Ouro, por nos parecer que nada acrescentavam às colhidas em Cícero, Virgílio, Horácio, Ovídio e nos mais citados, mas, verdadeiramente, além de confirmarem a vigência das crendices no século segundo em que ele viveu, apresentam particularidades ainda hoje existentes em terras bragançanas; por isso damos um apanhado delas, bem como das do seu contemporâneo Luciano de Samosata que, embora diga menos, é muito interessante, adindo-lhe as de outros autores. Á RVORES — Do culto das árvores encontram-se ainda largos vestígios entre nós, como dissemos na pág. 67 e tomo IX, págs. 34, 96, 101, 103, 144, 276, 312, 326, 359 e 427. A mesma crendice conservam ainda hoje os indígenas de Moçambique (J. Gonçalves Cota, Mitologia, etc., págs. 24, 29, 44, 45, 65 e 73). Junto ao templo de Júpiter, em Dodona, cidade da Grécia, estava uma azinheira venerada como sagrada, pois, abanada por certas mulheres adivinhas, produzia sons que elas entendiam e apresentavam como respostas do oráculo aos consultantes (Baltasar de Vitória, Teatro de los dioses de la gentilidad, 1737, 1.a parte, pág. 80). Esta azinheira fazia parte de um extenso bosque sagrado, no meio do qual estava o templo de Dodona célebre, durante muito tempo, pelos oráculos que dava, que por fim acabaram como tudo acaba neste mundo, passando a fama miraculosa para os santuários de Delfos e de Júpiter Amon, na Líbia. Em Dodona a estátua de Júpiter tinha uma varinha na mão, inclinada sobre uma bacia metálica, por tal forma equilibrada, que ao mais leve sopro do vento ou de outro impulso, roçava pela bacia, produzindo certo som, interpretado pelas mulheres adivinhas como resposta às consultas dirigidas ao oráculo pelos crentes. Alguns dizem que eram campainhas em vez de bacia; como tudo aponta o Teatro dos Deuses, no lugar citado. É notável no homem a tendência para conhecer o futuro, por intermédio das forças misteriosas da natureza, ou como tais supostas, recorrendo muitas MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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SUPERSTIÇÕES

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vezes à charlatanice para explorar os ingénuos. No tomo V, pág. XXVI; tomo IX, pág. 343, e neste tomo XI, págs. 282, 283, 289 e 303, apontamos a interpretação dada pelo povo aos gorjeios de diversas aves e até ao toque dos sinos. E, já que vem a talho de foice, lembramos a anedota da velha que foi consultar o pároco sobre o casamento. Na sua idade acho imprudente esse passo, disse-lhe o padre. — Mas sinto-me cansada, preciso amparar-me. — Pois então, case-se, volveu-lhe o sacerdote. — E se o João (era o noivo) não me estima? — Olhe, sabe que mais, tornou-lhe o cura, já farto de a ouvir, o melhor é consultar o sino, e depois resolverá conforme o sino disser. Presto se ouviu o dlão, dlão das campanas, que a velha traduziu logo por: casa com o João, casa com o João... e casou. Acabado o pão da boda, apareceu, lacrimejando, a velha no presbitério a dizer que o sino a enganara. — Não pode ser, retorquiu-lhe o cura. É que vocemecê não entendeu bem. Vão badalar novamente os sinos e verá como se enganou. — É verdade, é verdade, exclamou chorosa a velha, ao ouvir o dlão, dlão, não cases com o João; não cases com o João, aconselhava ele. Por este teor falariam os oráculos, sublimados ainda pela arteirice manhosa das pitonisas, pelas informações da sua polícia secreta e pela habilidade com que liam nas palavras, gestos e psicologia dos consulentes a resposta ambígua mas acertada a dar (785). É que, quem porcos lhe faltam, touças lhe roncam. Nas suas aflições o indígena de Moçambique vai «sozinho, de noite, à beira duma lagoa, chamar pelo grande Deus, que lhe responde sempre, anunciando a sua presença com um grito em que se percebe o seu nome», diz Gonçalves Cota, Mitologia, etc., 1944, pág. 24. Aqui a maravilha das águas equivale ao badalar dos sinos da velha. Quando Moisés e Josué voltavam do monte Sinai com as Tábuas da Lei, ouvindo os gritos do povo, que se divertia, Josué, que era homem de armas, tomou os gritos como «alarido de peleja» e Moisés, que era poeta e místico, atribuiu-os a «vozes de quem canta» (Êxodo, XXXII — 17 e 18). CABELOS — Na pág. 36, falamos das mulheres que ofereciam as cabeleiras aos santos, com o fim de recuperar o amor de seus maridos. Homero, Ilíada, conto XXIII, descreve Aquiles a cortar sua cabeleira para ser queimada na fogueira fúnebre de Pátroclo.

(785) Da arteirice dos sacerdotes pagãos conta casos engraçados VITÓRIA, Baltasar de, Frei — Teatro de los dioses de la gentilidad, 1737, tomo I, p. 313 e 535.

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CASAMENTO — Segundo adverte Festus (786), era costume entre os romanos dar às recém-casadas, uma chave, como símbolo significativo de facilidade nos partos, e também entregar-lhe a chave da casa do marido, onde entravam após o casamento. Ainda hoje, em algumas terras bragançanas, quando uma mulher vai a casa de outra com demora de alguns dias, é sinal de grande estima a ama da casa entregar à recém-vinda a chave da despensa, onde se guarda a provisão dos mantimentos para consumo e encarregá-la da sua administração. Os poetas descrevem Cupido, deus do amor, com chaves na mão, para indicar seu domínio absoluto na terra, mar e céu. Tu maris et terrae claves, tu que aetheris alti sceptra tenes, disse o celebérrimo Orféu, o mais antigo poeta nos Hymnos. Segundo ensina a fábula, o deus Anteros (amor finamente correspondido), é irmão do deus Amor, e pintam-nos como crianças em luta, tentando aquele tirar a este a palma do triunfo nas suas conquistas, que glorioso empunha nas mãos (787). No tomo IX, pág. 310, destas Memórias, falamos do afã com que em Parada, logo à saída da igreja, após o casamento, os moços e moças procuravam tirar aos nubentes o bolo de pão que, erguido ao alto, defendiam com denodo não menor. Na usança de Parada haverá quaisquer vestígios da luta entre os dois deuses do Amor, advertindo, como notou o saudoso mestre, que o povo «perdida a significação primitiva das coisas, interpreta-as a seu modo, segundo as ideias modernas» (788). Segundo diz Plínio (789), era da praxe entregar à nubente, no dia do casamento, roca e fuso, para indicar os seus deveres laboriosos no granjeio doméstico, em comemoração da Tanaquil, mulher do rei Sérvio Túlio, venerada pelo labor da sua roca, que mereceu ser guardada como relíquia no templo de Marco Âncio, para exemplo das mulheres (790). O cadeado e a grilheta, bem como o jugo, são outros símbolos com que, já do tempo dos romanos, se indicava aos recém-casados a sujeição e encargos matrimoniais, puxando ambos certos ao jugo, para tudo seguir bem, como diz Horácio. Os romanos esfregavam a porta da rua com certos preparados, a fim de preservar os recém-casados de todos os malefícios (791).

(786) CALEPINUS — Lexicon, artigo Clavis. (787) CHOMPRÉ — Dicionário abreviado da fábula..., artigo «Anteros». C OMES , Natalis — Mythologie. Teatro de los dioses, terceira parte, 1702, p. 212. (788) VASCONCELOS, José Leite de — Ensaios Etnográficos, 1906, vol. 3, p. 360. (789) Livro 8, cap. 43. (790) TITO LÍVIO, liv. I. (791) C ANTU, César — História Universal, 1875, vol. 2, p. 258, onde se mencionam várias superstições.

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COBRA (culto da) — Ver Serpente. CORUJA — Ver Mocho. D IAS FASTOS E NEFASTOS — Apuleio (792) fala num homem de Caldeia, que andava em Coríntio «com suas admiráveis predições, descobrindo ao povo por módica paga, os segredos dos fados: que dia é próprio para o casamento, qual tornará perpétuos os fundamentos da cidade, qual é vantajoso ao negociante, qual é fausto para fazer viagem, qual conveniente para a navegação». ESPIRROS — Ver págs. 14, n.° 2; 21, n.os 14 e 15; 25, n.° 24; 28, n.° 47; 30, n.° 64, e 32, n.° 84. Os romanos já tinham uma saudação dirigida aos que espirravam equivalente ao nosso — Dominus tecum — Para o céu, segundo muitos dizem, como se vê em Apuleio (793). O nosso povo diz que a saudação — Dominus tecum — Deus seja contigo, proveio de uma epidemia que matava repentinamente. Em face dos agouros nefastos atribuídos ao espirro, como vimos nas páginas indicadas acima, é de supor que a lenda da epidemia derive da crendice. FEITICEIRAS, págs. 75 e 98 a 115, onde se mencionam as barbaridades criminosas da sábia, ainda hoje semelhantes às do feiticeiro africano (794). Ver também tomo IX, págs. 356 e seguintes; tomo X, pág. 645. Apuleio falando da feiticeira Meroe, diz que no conceito popular ela «pode abaixar o céu, levantar a terra, secar as fontes, aplanar as montanhas, chamar à vida a alma dos mortos, precipitar os deuses no abismo, extinguir os astros e alumiar o tártaro» (795). Em seguida transcreve vários prodígios

(792) A PULEIO — O Burro de Ouro, livro II, p. 44. GARRETT, Almeida — Viagens na minha terra, 1846, tomo 2.°, p. 169, aponta a sexta-feira como dia aziago e diz não crer nessa superstição, todavia procede como se acreditasse. (793) APULEIO — O Burro de Ouro, livro IX, p. 308. Neste ponto e nos mais, quando indicamos a paginação, entende-se da tradução portuguesa, publicada em Lisboa em 1847. (794) Sobre os crimes cometidos pelos feiticeiros africanos ver COTA, J. Gonçalves — Mitologia e Direito Consuetudinário dos indígenas de Moçambique, p. 79, onde lhe chama mágicos, em vez de feiticeiros. MOURA, Filipe Gastão de; EÇA, Coutinho de Almeida de — Mosaico Moçambicano (contos e narrativas), 1943, p. 9 e segs. DUARTE, Teófilo — Timor (antecâmara do inferno!?), 1930, p. 135. CORREIA, Armando Pinto — Gentio de Timor, 1935, p. 71. (795) A PULEIO — O Burro de Ouro, livro I, tradução portuguesa, 1847, p. 9.

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realizadas por esta feiticeira. Os pretos de Moçambique atribuem poderes idênticos aos feiticeiros e crêem que estes malefícios só podem ser curados pelo mesmo feiticeiro ou por outro de poderes maiores (796). Mais adiante, referindo-se a Pânfila, escreve: «Ela é a mágica de maior fama, e mestra de todos os encantamentos sepulcrais; a qual com ramos e pedras, e outras coisas frívolas deste género, depois de bafejadas, pode submergir toda esta luz do mundo sideral nas profundezas do Tártaro e no antigo cahos... transformar os homens em pedras, em gado, em qualquer outro animal» (797). Ainda no mesmo livro II, põe na boca de Birrena estas palavras: «temo muito os ocultos e inevitáveis esconderijos da arte mágica. Porque me dizem que nem os sepulcros dos mortos estão seguros, mas que das sepulturas e das fogueiras são tirados fragmentos e postas dos cadáveres, para miserável infortúnio dos vivos. E velhas encantadoras, no mesmo momento de se preparar o funeral, com rápida celeridade se antecipam a ocupar a sepultura alheia para a roubarem... (798) na Thessalia, onde mulheres feiticeiras frequentemente esmordaçam o rosto dos mortos, e isto lhes serve como de ingrediente para a arte mágica» (799). Daqui vinha que mandavam guardar os mortos, enquanto os não sepultavam ou queimavam, com homens à vista, pagando-lhes por tal serviço. No livro III, a criada da feiticeira Pânfila, descrevendo os processos mágicos desta, diz: «que lhe obedecem as almas dos mortos; que pode apagar os astros, sujeitar à sua obediência os deuses e todos os elementos da natureza... prepara sua mágica oficina desta forma: todo o género de armas, lâminas com letras desconhecidas, cravos que se salvaram dos navios naufragados, e muitos membros espalhados de cadáveres ainda não sepultados e dos já enterrados. Aqui se vêem narizes e dedos, ali cravos ainda com carne dos crucificados, em outra parte o sangue dos assassinados, para isto guardado, e caveiras roídas, arrancadas aos dentes das feras. Então, consagradas por encantamentos as fibras palpitantes, sacrifica-as com vários licores: umas vezes com água da fonte, outras com leite de vaca e outras com mel do monte. Esparge-as também com água e mel» (800). Depois deste preparo, queimava sobre carvões o cabelo da pessoa que queria enfeitiçar e «então, por efeito invencível da arte mágica e oculta vio-

(796) C OTA, J. Gonçalves — Mitologia e Direito Consuetudinário dos indígenas de Moçambique, 1944, p. 58 e 133. (797) APULEIO — O Burro de Ouro, livro, II, p. 37. (798) Ibidem, p. 51. (799) Idem, p. 53. (800) Idem, livro III, p. 85.

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lência dos deuses constrangidos, aqueles corpos, cujos cabelos crepitantes fumegavam, recebem alma humana e sentem, ouvem, andam e vêm aonde o cheiro de seus despojos os conduz» (801). Em confirmação, refere o seguinte caso: A criada de Pânfila, encarregada de lhe arranjar alguns cabelos de um homem que queria atrair a sua casa, aproveitou a ocasião de ele se tosquiar para os apanhar, mas o barbeiro não lho consentiu e ela, vendo um homem a tosquiar uns odres de vinho, levou os dos odres. A ama operou magicamente sobre estes e na noite seguinte, os odres tacteavam a sua porta, a fim de entrar; porém, um hóspede da casa, que deu pelo caso, atacou à espada os odres, supondo que eram ladrões; rasgou-os às cutiladas, o vinho arramou-se e, ufano pela proeza, vendo correr o vinho, que supunha sangue, foi relatar o caso aos hospedeiros. Este engraçadíssimo conto e suas peripécias com a justiça, têm tal analogia com o de D. Quixote, atacando também odres de vinho, na suposição de serem gigantes daninhos à gente da casa onde estava, que parece ser a fonte inspiradora de Cervantes (802). Já agora, que estamos com as mãos na massa, vá de mencionar mais outra e esta toca ao nosso épico. No livro X, descreve Apuleio um espectáculo, à maneira das nossas teatrosas populares, realizado no Circo em que se representa Páris, a dar o pomo de ouro à mais formosa. Depois de descrever Juno e Minerva diz: Em seguida a esta «entrou outra de mais superior beleza, que representava Vénus e vencia a todas na graça da divina cor; mas Vénus, qual ela era quando ainda virgem, mostrando perfeita beleza no corpo nu e descoberto; salvo que um raro seudal de seda lhe assombrava o lindo púbis. O qual véu o vento curioso, de uma maneira assaz amorosa, muitas vezes brincando lhe alevantava com sopros, para que, removido, ficasse patente a flor da sua mocidade; outras vezes recreava-se em lhe assoprar por cima, a fim de que, aderindo ao corpo, desenhasse com perfeição a voluptuosidade dos membros» (803). Parece que está a gente a ler o C’um delgado sendal as partes cobre, De quem vergonha é natural reparo; Porém nem tudo esconde, nem descobre, O véu dos roxos lírios pouco avaro (804).

(801) (802) (803) (804)

Ibidem, p. 86. C ERVANTES — D. Quixote, tomo I, cap. XXXV. A PULEIO — O Burro de Ouro, p. 371. CAMÕES — Lusíadas, II, XXXVII.

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No livro III, Apuleio, descrevendo o terror de Lúcio, acusado de ter assassinado três pessoas, ao ver-se obrigado pelos juízes a levantar o pano que cobria os cadáveres, põe-lhe na boca estas palavras: «porém eu, desde que peguei na ponta do pano fiquei fixo e gelado, como uma pedra» (805). Este mesmo pensamento parece ter inspirado Durão quando diz: ... mudo e quedo Qual junto de um penedo outro penedo (806). O susto pregado a Lúcio pela acusação do tríplice assassinato, como depois lhe explicaram os magistrados, dando-lhe satisfação do sucedido, visto ser estrangeiro e desconhecedor dos costumes da terra, era apenas o gracejo que solenemente celebravam todos os anos em público (os moradores da Tessália) em honra do Deus Riso» (807), aproveitando para isso quaisquer actos risíveis praticados por indivíduos (808). No tomo IX, pág. 304, destas Memórias, referimos os enganos jocosos das alpabardas que, de algum modo, podem relacionar-se com estes cultos prestados ao Deus Riso. Na fábula menciona-se a ninfa Egla que se entretinha a «armar peças e enganos aos pastores» (809). Jasão, o famoso conquistador do Velocino de Ouro, devido, em parte, aos estratagemas e feitiços da não menos famosa Medeia, em reconhecimento casou com ela, enchendo-a, porém, de desgostos com suas infidelidades conjugais. Medeia, ardendo em zelos, lançou fogo ao palácio, no intuito de matar o marido, bem como seus familiares, gados e pertenças, tudo mais ou menos coniventes nos adultérios do marido que, afinal, conseguiu escapar, perecendo o resto (810). Em Os Livros de Linhagens, encontra-se este texto que parece visionar o clássico: «Este dom Rodriguez Gonçalluez foy casado com dona Enes Samchez. Estando no castello de Lanhoso fez maldade com huum frade de Bayro, e dom Rodriguez Gonçalluez foy desto certo e chegou lá e cercou as portas do

(805) APULEIO — O Burro de Ouro, p. 78. (806) DURÃO, José de Santa Rita, Frei — Caramuru, canto 2.°, estância 81. (807) APULEIO — O Burro de Ouro, livro III, pág. 78. (808) C HOMPRÉ — Dicionário abreviado da fábula..., antiga Egla. Ver tomo IX, p. 304; tomo X, p. 645, destas Memórias. (809) Ibidem. (810) OVÍDIO — Epístolas, XII.

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castello e queymou ella e o frade e homeens e molheres e bestas e cães e gatos e gallinhas e todas cousas vivas, e queimar a camara e panos de vestir e camas e nom leixou cousa movill. E alguns lhe preguntaram porque queimara os homeens e molheres, e el respondeu que aquella maldade avia XVII dias que se fazia a que nom podia seer que tanto durasse que elles nom entendessem alguuma cousa em que posessem suspeita; a quall suspeita elles deveram descubrir» (811). No tomo IX, pág. 357, destas Memórias, dissemos da fórmula e untura usada pelas feiticeiras para se tornarem invisíveis, marcharem para onde querem ou se transformarem noutros animais. Ver pág. 96, artigo Sapo. Esta usança já vem dos tempos romanos e pré-romanos, como se colhe de Apuleio, que viveu no século segundo da era cristã. Eis, segundo ele, como procedia a feiticeira Pânfila: «primeiramente despe-se de todo o seu fato e de uma arca fechada, tira muitas bocetas, de uma das quais, saca um unguento com que se unta toda desde os pés até ao alto da cabeça, depois de o esfregar durante muito tempo nas palmas das mãos, falando entretanto muito com a candeia em segredo e sacudindo os membros com agitação trémula, terminando estes por se transformar no animal que deseja» (812). Para mais completa observância do formulário arcaico, ainda seguido pelo bruxedo do nosso tempo, relata Apuleio o caso de Lúcio que, querendo transformar-se em bufo, se untou com o óleo próprio da conversão em burro e assim teve de se aguentar, apesar dos muitos tormentos que sofreu (813). Este caso, no fundo, vai de acordo como os percalços do sapateiro que se enganou ao untar-se, como referimos no tomo IX, pág. 358. Para regressar de burro a gente, tinha de mastigar rosas (814), mas sendo a transformação noutros animais, é preciso lavar-se e beber um pouco de endro, misturado com folhas de louro e água da fonte (815). No tomo IX, págs. 323, 359, 361 e 370, indicamos vários remédios aconselhados pelo povo contra feitiços, entre os quais se conta a figa ou seja o phallus (membro viril entre os gregos), correspondente ao deus Príapo entre os romanos, representado e adorado sob a forma de falo.

(811) Os Livros de Linhagens, título XXI, edição da Academia das Ciências, p. 284. (812) APULEIO — O Burro de Ouro, livro III, p. 90. Já noutra parte dissemos que nas fórmulas destes sortilégios e encantamentos realizados pelas feiticeiras entravam versos tirados de Homero, Virgílio e Luciano (Excerpta, etc., adiante citado, p. 189, 193, 195, 221 e 223, confirma o mesmo, quanto aos de Homero, Carmina coelo possunt deducere lunam, diz Virgílio na Bucólica VIII, que é um verdadeiro receptáculo de magia. (813) Ibidem. (814) Idem. (815) Idem, p. 92.

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Também os que celebravam as festas de Baco traziam nas mãos ou no peito a figura do falo, como diz Santo Agostinho (816). Antigo era este culto e vem mencionado na Bíblia (817). O paganismo atribuía ao deus Príapo grandes virtudes, antes as maléficas; os agrícolas penduravam a figura do falo, símbolo daquele deus, nas árvores de suas propriedades ou o traziam processionalmente em volta delas, por o julgarem eficaz contra danos causados por feitiçarias e, tanto homens como mulheres, empunhavam-no ou colocavam-no ao peito, para se livrar de feitiços, olhar repassado e outros malefícios de feitiçarias (818). Em obediência a esta tradição fálica, é que as mães colocam ao peito dos filhinhos a figa. Tanto Virgílio (819) como Ovídio (820) aludem ao olhar repassado, como chama o povo bragançano ao feitiço máximo das feiticeiras. Nescio quis teneros oculus mihi fascinat agnos, diz aquele. Plínio, como dissemos noutra parte, aconselha contra o olhar repassado, a cabeça do lobo pregada nas portas das casas. O culto sexual vigorava em todas as nações pré-cristãs. Na religião dos babilónios toda a mulher era obrigada a prostituir-se, uma vez, no templo de Milita (821). Nas religiões da Índia «ainda hoje a solenidade de Holi é celebrada no princípio do ano, por meio de orgias, as mais obscenas, de pinturas e de figuras, as mais indecentes arremessam lama a todos quantos passam ao seu alcance» (822). Nestas longínquas costumeiras filia-se a Festa dos Rapazes, mencionada na pág. 80. «A Astarte dos fenícios, a grande deusa dos sírios em Hierapolis, a Anaiti dos arménios, tinham prostitutas por sacerdotisas e ordenavam o sacrifício do pudor» (823). A veneração pelos órgãos sexuais era tal e considerava-os tão sagrados, que os príncipes gregos se comprometeram, debaixo de juramento prestado no templo de Minerva, sobre os testículos de um cavalo, como referem Pausânias, Higino, Apolodoro, Eurípides e Sófocles, citados por Frei Baltasar da Vitória (824), a defender Menelau, marido de Helena, se alguém o ofendesse em sua honra (825).

(816) (817) (818) (819) (820) (821) (822) (823) (824) (825)

AGOSTINHO, Santo — Cidade de Deus, livro 8, cap. 21. Livro III dos Reis, 11-12; Paralipómenos, 2.° 15-16. Ver CALEPINO — Lexicon, artigo Fascinantio. VIRGÍLIO — Eccloga, 3. OVÍDIO — Arte mandi, livro I. CANTU, César — História Universal, vol. I, p. 106. Ibidem, p. 149. Idem, p. 279 VITÓRIA, Baltasar da — Teatro de los dioses..., tomo I, p. 133. Ver tomo IX, p. 323, destas Memórias.

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Segundo diz a lenda popular bragançana, já referida no tomo IX, pág. 327, destas Memórias, nascem com o fadário de lobisomens os filhos gerados em sexta-feira santa e os de compadre e comadre. A crendice no lobisomem já o paganismo a mantinha, atribuindo-a, porém, só aos membros de uma família (826) , que andavam durante nove anos transformados em lobos, readquirindo no fim deste tempo a personalidade humana. O povo, perdido o conhecimento das coisas, explica-as a seu modo por ideias correntes no seu tempo e muitas vezes juntando-lhe elementos de outras lendas, como se vê em algumas, já apontadas nestas Memórias. Nestes termos, olhando ao incesto compadrio, ao tal qual sacrilégio do coito em sexta-feira santa e à tormentosa vida do lobisomem, é possível que na crendice neo-pagã haja superposição do trágico caso da incestuosa Myrra, gerada durante certas festas celebradas em honra da deusa Vénus pelas matronas romanas, por espaço de nove dias, nos quais a liturgia lhes proibia a comunicação carnal com seus maridos (827). Em Aveleda e noutras aldeias do concelho de Bragança, ouvimos dizer que algumas casadas puerperas, a fim de evitar ocasiões, iam assistir às Endoenças e a outras festas religiosas celebradas durante a Semana Santa em Bragança, só regressando a casa depois da Procissão do Senhor, ou melhor, depois da Aleluia. Também nestas terras se diz que os casados, para serem felizes, não devem coabitar durante os três primeiros dias do casamento, ou melhor, durante os primeiros nove. Esta crendice provirá do filho de Tobias, que passou as três primeiras noites nupciais em oração com sua esposa (828). FOGUEIRAS — Ver artigos Fogueiras, Feiticeiras e Fumaças; tomo IX, págs. 83, 97 e 308; tomo X, pág. 659, destas Memórias. Sobre o assunto, diz-nos o diligente investigador P. e António Maria Mourinho, em carta de Fevereiro de 1945: «Na quadra do Natal faz-se a fogueira (829) que dura quatro dias, no meio do povo, em todas as nossas aldeias (do concelho de Miranda do Douro). Em algumas, na noite de Natal, fazem-se comentários em verso às cenas mais ridículas que durante o último mês se passaram na aldeia.

(826) RICH — Dictionnaire..., artigo «Versopellis». (827) VITÓRIA, Baltasar da — Teatro de los dioses..., 1656, tomo 2, p. 423. OVÍDIO — Metamorfoses, livro X, onde se descrevem os trabalhos de Myrra. (828) Bíblia, Tobias, 8-1-4. (829) Ver p. 30, n.° 59, onde descrevemos uma típica.

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Vestem-se as personagens que vão representar e ironizar os factos à maneira das pessoas ridicularizadas e, em formatura, uns vestidos de mulheres a fingir de bêbedas, outros de asnos a fingir escaparem, outros que tais... se apresentam com tambor e Zé Pereira e gaita de foles, à volta da grande fogueira e começam a dar voltas ao lume, cantando e dançando. Após algumas voltas, principia um a recitar as trovas em quadras rústicas, com grande algazarra da multidão que rodeia a fogueira. Na primavera faz-se em Duas Igrejas (concelho de Miranda do Douro) a festa das flores, em honra de Santa Bárbara. Na véspera, à noite, em vez de arraial, dá-se volta ao povo com gaita de foles, tambor e bombo, e o rapazio junta-se-lhe com grandes rosários de chocalhos, pandeiros, latas velhas, num barulho infernal. A todas as portas onde mora gente, tem de haver uma fogueira acesa a que a pandorga tem de dar volta, tocando e dançando. Enquanto este baile se está operando em volta das fogueiras, nas ruas disputam-se motes a Santa Bárbara. Na noite seguinte repete-se a mesma cerimónia à volta do povo. Se alguma família não acende a fogueira à porta, os mordomos da festa e o rapazio trazem já lenha de prevenção para que nenhuma casa deixe de ter a sua fogueira à porta. Nas noites de São João e São Pedro queima-se marrolho, rosmaninho, uma erva que se cria na primavera no secadal dos lameiros, chamada aqui São João (830), e dança-se à roda da fogueira, cantando loas aos ditos santos. Cada pessoa tem de defumar-se ao fumo das sagradas ervas, saltando por cima do lume e dizendo: sarna em ti, saúde em mim. Muito mais existe acerca do fogo, em nossas terras, que seria longo enumerar aqui» (831). No Mogadouro fazem a fogueira na noite de Natal (24 para 25 de Dezembro) e vendem o resto das lenhas que queimaram e ficaram por consumir, mas parece que não ligam ideia nenhuma supersticiosa a esses tições. Entre o gentio de Moçambique também se encontram largos vestígios do culto do fogo (832). Tanto na religião moisaica (833) como na pagã, o fogo sagrado conservava-se permanentemente nos templos e altares (834). Não era só no templo de Vesta que se conservava o fogo sagrado, mas também nos dos outros deuses e

(830) Em Baçal dão este nome à digitale. (831) Ao amigo P.e Mourinho, o nosso reconhecimento pelas valiosas informações que nos tem fornecido. (832) COTA, J. G. — Mitologia..., p. 28. (833) Bíblia, Levítico, cap. VI, versículo 12. Na tradição deste jogo filiam-se as lâmpadas nas nossas igrejas cristãs. (834) VIRGÍLIO — Eneida, 4-200. OVÍDIO —Fastos, livro 6. SÍLVIO ITÁLICO, livro 6.

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deusas. Em alguns, o fogo mantinha-se como elemento indispensável para os sacrifícios, noutros, o fogo representava o mesmo deus, como dizem os escritores abaixo citados. Já no tomo IX, pág. 309, aludimos às Palilia, festas celebradas pelos pastores em honra da deusa Palas, sua padroeira, com fogueiras de palha ou feno, a saltar sobre elas, por crerem que por estes actos litúrgicos ficavam purificados e absolvidos de suas culpas. Também faziam andar seus rebanhos em volta do altar da deusa, para lhe pedir que os multiplicasse, preservando-os das doenças e dos lobos (835). Estas fogueiras, celebradas em terras mirandesas, relacionam-se com as Festas dos Rapazes (836), e com as Bacanais pagãs, magistralmente descritas por Santo Agostinho (837). Ajustando-se ao fim moralizador do santo, lembra a cançoneta: Fogueiras do São João! Cuidado, podem queimar: Com o fogo do coração É perigoso brincar. No princípio de Fevereiro celebrava o paganismo, durante dias, as festas Februália ou Februa (Purificação), como lhe chamava Ovídio, andando de procissão, com archotes, luminárias e fogueiras (838) em volta da cidade e dos sepulcros, para os purificar com sacrifícios expiatórios, a aplicar aos deuses manes, a fim de não atormentarem as almas de seus mortos e de as olharem benignamente. A igreja, não podendo extirpar este culto funerário, promovido em honra de Plutão, cristianizou-o, criando em 555, o papa Sérgio, a festa da Purificação de Nossa Senhora, celebrada a 2 de Fevereiro, com procissão e muitas luzes de tochas e velas de cera, levadas pelos fiéis e clero, chamada por isso, pelo povo, Candelária ou Senhora das Candeias (839).

(835) MARCO — De re rustica, livro 3, cap. I. O VÍDIO — Fastos, livro 4. C HOMPRÉ — Dicionário abreviado da fábula, artigo «Palilias», sobre a divergência acerca do dia em que se celebravam estas festas. Ver V ITÓRIA, Baltasar da, Frei — Teatro de los Dioses..., 2, p. 198. (836) Ver tomo IX, p. 288, 289 e seg.; tomo X, p. 645; tomo XI, p. 80, destas Memórias. (837) AGOSTINHO , Santo — De Civitate Dei, liv. VI, cap. 9. VITÓRIA , Baltasar de, Frei — Teatro de los dioses..., 1, p. 184. (838) Ver p. 83, artigo «Fogueiras», 271 e tomo IX, p. 435 e 438. (839) V ITÓRIA , Baltasar de, Frei — Teatro de los dioses de la gentilidad, primeira parte, p. 320, onde se transcrevem muitos textos dos escritores romanos referentes a estas festas. Ver também neste volume XI, p. 79, destas Memórias.

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Agora, como foi suprimido o dia Santo da Senhora da Purificação, em que, segundo costume antigo, se benzia a cera destinada ao culto de todo o ano, vai acabando este uso. A cristianização desta festa pagã, traz-nos à lembrança várias outras modalidades litúrgicas, relacionadas com o mesmo tema. No tomo IX, págs. 174 e 312, apontamos algumas; agora adimos as seguintes, referentes às chamadas vestes sacerdotais, vestes sagradas e matérias culturais, não de todo despidas de recordações supersticiosas: ÁGUA BENTA — Nos templos pagãos havia, à entrada, uma pia com água lustral, para os fiéis purificarem nela as mãos, antes de oferecerem sacrifícios. A água natural era chamada lustral, depois que o sacerdote procedia sobre ela a certas cerimónias religiosas (840). No tomo V, pág. LXII, falamos da Mezura, prática religiosa judaica baseada no preceito que manda aos judeus colocarem detrás da porta de entrada da casa, certo texto tirado do Deuterónomio (841), que tocam com o dedo, beijando depois esse dedo, todas as vezes que entram ou saem de casa. Sobre o culto das águas, ver págs. 66, 67 e tomo IX, págs. 96, 312, nota 2, 323 e 559. Era tal a veneração que os persas tinham pela água dos rios, que consideravam pecado grave, cuspir ou lavar as mãos nela segundo dizem Herodoto e Estrabão. Entre os romanos o juramento pelas águas da Lagoa Estígia era o mais reverenciado e era sacrilégio máximo quebrá-lo. No tomo IX, pág. 308, apontamos a crendice, corrente em terras bragançanas, que dá como sacrilégio cuspir-se no lume, por ser sagrado e ter saído da boca de um anjo, convindo portanto, notar a circunstância de aqui atribuírem ao fogo a veneração prestada à água pelos persas. Quer se trate da Água Benta, ou da Baptismal no Cristianismo, quer de outra, a água gozou sempre de grande prestígio em todas as religiões, como fica dito. O celebrante nos actos religiosos dos pretos de Moçambique, também borrifa com água os assistentes no final das funções cultuais (842), e o culto da água está bem radicado na liturgia dos pretos de Moçambique (843). AMITO, vestimenta litúrgica, colocada pelo sacerdote por cima da batina, quando se reveste para celebrar missa e para outros actos religiosos. Pelo símile e pelo uso, liga-se ao Amictus dos romanos (844).

(840) (841) (842) (843) (844)

RICH — Dictionnaire..., artigo «Labrum». Deuteronómio, 4-4 a 9. COTA, J. Gonçalves — Mitologia..., p. 37 e 42. Ibidem, p. 10, 24, 25, 65, 70, 71 e 132. RICH — Dictionnaire..., artigo «Amictus».

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A NEL — A safira é uma pedra preciosa, de cor acastanhada, resplandecente, mui apreciada. Foi chamada Divina e consagrada a Apolo, pela antiguidade clássica. Santo Isidoro (845), São Gregório e Beda, celebram as suas virtudes, porque «inclina os homens a ser castos, mansos, humildes e chama-se Pedra Santa, porque dispõe o homem à santidade e devoção». O anel dos bispos ostenta esta pedra e faz parte da sua indumentária sagrada. Ver pág. 33, N. os 95 e 38, onde falamos das virtudes supersticiosas ligadas ao anel. ASILO — O paganismo tinha templos destinados a lugares de asilo dos criminosos, onde se acolhiam, sem a justiça os poder aí perseguir (846). Este exemplo foi depois seguido pelo cristianismo. No tomo IX, pág. 360, falamos já da caridade pagã, lembrando agora que Júpiter foi venerado sob o título de Hospitaleiro, para indicar que os hospitais para socorro dos necessitados estavam debaixo da sua protecção (847). Platão mandou que junto aos templos houvessem hospícios para acolhimento de passageiros e necessitados (848) e Luciano (849) diz que na Síria havia casas para fins idênticos. B ÁCULO — Espécie de cajado ou bastão empunhado pelos bispos no exercício das funções sacerdotais. Um bastão por este teor chamado Littuus, porém mais curto, era o distintivo dos augures, sacerdotes pagãos que interpretavam a vontade dos deuses e prognosticavam o futuro (850). Ver Solídeo. BARBA — Os sacerdotes de Hércules barbeavam-se cada três dias — Tertio quoque die totum corpus eradunt — diz Heródoto. Pierius Valerianus, falecido em 1558, aos 81 anos de idade, escreveu uma apologia da barba dos padres, obra muito interessante. Haverá alguma relação entre a tonsura barbácea dos sacerdotes de Hércules e a capacidade procriativa deste deus, dada a circunstância de duma só noitada haver fecundado cinquenta mulheres (851)? Se a há, não atentam na antítese entre ela e o celibato os dos praxismos litúrgicos hodiernos tão enlevados sempre em recomendar exterioridades compostinhas.

(845) (846) (847) (848) (849) (850) p. 18. (851)

ISIDORO, Santo — Etimologias, livro 16. TITO LÍVIO — livro IV, Década 3. O VÍDIO — Metamorfoses, livro X. Macabeus, livro 2, cap. 6. Leis, Livro 12. LUCIANO — Dea Syria. RICH — Dictionnaire..., artigos Auguz e Littuus. FLORES — España Sagrada, tomo VII, VITÓRIA, Baltasar de — Teatro de los dioses..., tomo II, p. 136.

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B ATINA — Vestimenta sacerdotal, derivada da indumentária gaulesa trazida das gáleas por Caracala, que passou a usar-se em lugar da túnica, conhecida pelo nome de caracala, devido ao imperador que generalizou o seu uso (852). CASULA — Espécie de casaco usado pelo povo por cima dos outros vestidos (853), donde passou a veste sagrada na liturgia cristã. Na liturgia judaica os sacerdotes usam um manto quadrangular, lançado por cima dos ombros, muito semelhante à vestimenta das sacerdotisas romanas, chamada Rica. DALMÁTICA — Vestimenta sagrada derivada de uma capa luxuosa originária da dalmácia e generalizada em Roma, onde foi sempre considerada como hábito dos afeminados (854). F ÁLICO — No tomo IX, págs. 319, 323 e 361, apontamos vários vestígios do culto fálico, vigentes ainda em terras bragançanas. Este culto estava tão arreigado no paganismo que os agrícolas penduravam nas propriedades a escultura do phallus, ou a traziam procissionalmente pelos campos para os desenfeitiçar ou evitar malefícios causados por artes mágicas. Por esta crendice se explicam vários casos mencionados nas páginas do tomo IX, acima citado. IGREJAS — As igrejas cristãs seguiram o tipo arquitectónico das basílicas romanas, conservando ainda muitas este nome, que eram edifícios destinados a casas de mercado e tribunais onde se administrava justiça (855). A orientação nascente-poente dada às igrejas cristãs, já se encontra na tradição pagã, segundo se colhe de Virgílio na Eneida, onde aponta fiéis a orar voltadas para o oriente. Os três degraus que vemos nas igrejas relacionam-se possivelmente com as pessoas da Santíssima Trindade, mas a tradição pagã já aconselhava a construção das escadas com número impar de degraus, a fim de entrar sempre em casa com o pé direito, evitando assim os malefícios provocados pelo ingresso com o pé esquerdo (856). I NCENSO — O uso litúrgico de queimar incenso nos altares e sacrifícios vem da mais alta antiguidade pagã como referem Pitágoras, Filos-

(852) (853) (854) (855) (856)

RICH — Dictionnaire..., artigo «Caracala». Ibidem, artigos «Casula» e «Rica». Idem, artigo «Dalmaticatus». Idem, artigo «Basílica». Ver p. 32, n.° 88; p. 110, n.° 29.

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trato (857), Macróbio (858), Tíbulo, e Virgílio na Écloga 8, verso 64, menciona o incenso macho como mais digno para usos litúrgicos. Ainda hoje em terras bragançanas o povo dá o nome de incenso macho ao mais completo e de maior volume. MIRRA é o nome duma mulher incestuosa que usou de falsos estratagemas para coabitar com seu próprio pai. Arrependida da sua criminosa maldade, pediu aos deuses que a convertessem numa coisa nem viva nem morta e, ouvindo-a, transformaram-na na planta de seu nome chamada Mirra, sendo suas lágrimas convertidas nas gotas aromáticas que destila (859). M ITRA — Este apêndice indumentário foi introduzido em Roma, onde caracterizava os efeminados e as prostitutas. É originária dos costumes pervertidos da Ásia (860). S OLIDEU — Espécie de coifa com que os bispos cobrem a coroa nos pontificais e outros actos litúrgicos. Os flâmines (sacerdotes pagãos chamados flâmines) usavam o apex, coisa idêntica, posta também no alto da cabeça; mas só os sumos sacerdotes podiam usar o apex, a laena e o báculo (861). A laena é a toga pretexta (862) correspondente à capa de arminhos usada pelos nossos bispos em certas funções religiosas, bem como o báculo ao cajado que do lituus recebeu a elegante forma curvilínea do remate. Ver Báculo. FUNERAIS (Culto dos Mortos) — Nas usanças funerárias dos nossos antepassados praticaram-se muitas costumeiras ainda hoje em vigor na liturgia moçambiquense. Sobre o assunto, quanto aos mantimentos postos nos sepulcros, ver págs. 17, 18, 21 e 26 e tomo IX, págs. 437 e 440, destas Memórias. Os vasos encontrados nos sepulcros apontados nos artigos Provezende e Viana do Castelo, mostram como já então se praticava tal uso e, quanto à sua vigência actual entre os pretos de Moçambique, ver o já citado Dr. J. Gonçalves Cota, Mitologia, etc., págs. 36 e 39, que nas págs. 45 e 46 menciona as bebidas e objectos predilectos do defunto, lançados sobre o seu sepúlcro ou colocados dentro dele em vasos.

(857) FILOSTRATO — Vita Apolinii, livro 1, cap. 1. (858) MACRÓBIO — Saturnales, cap. 7. (859) O VÍDIO — Metamorfoses, livro 10. (860) RICH — Dictionnaire..., artigos «Mitella» e «Mitra». Judith enfeitou-se com mitra para melhor seduzir Holofernes. «Judithe», X, 3. (861) Ibidem, artigo «Flamen». (862) BRANCO , Manuel Bernardes — Usos e Costumes dos Romanos, tradução de Nieeport, 1865, p. 215.

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Alguns citadinos pelicritéques, cheios de mórbidos pruridos sentimentalistas, afectando elevação de ideias, ares de ricos, que vivem à lei da nobreza, quando, afinal, só documentam prosápias tolas e ignorância supina das condições mesológicas e das milenárias tradições etnográficas, como se colhe do que escrevemos no tomo IX, págs. 436 a 438, destas Memórias, torcem o focinho em ar compassivo às comezainas funerárias, mas bem que se aproveitam delas quando vão às aldeias e as autoridades eclesiásticas que, sugestionadas por eles, se metem a legislar sobre o assunto, não conhecem melhor a vida rural, nem os ensinamentos da História e tiram aos pobres os bodos funerários dos tempos áureos da crença, cristianizados sob o título da caridade. As jantaradas nos enterros e funerais não são banquetes de festa, em declínio para orgias báquicas, embora às vezes lá chegassem por abuso, mas sim modalidades rituais do culto dos mortos, em harmonia com a liturgia de todos os povos, desde a mais remota antiguidade, alcançando até aos tempos pré-históricos. Por outro lado, estes jantares correspondem a autênticas necessidades, pelo menos nas aldeias, pois sendo costume e dever moral assistirem os parentes do falecido aos funerais, tendo, portanto, alguns de vir de longe e carecendo as aldeias de hospedarias, não podendo estar tanto tempo sem comer, foi-se vincando o uso das comedorias funerárias com todos os povos. É interessante o modo como ainda hoje as realizam os africanos, acompanhando-as de cânticos e danças, segundo descrevem os escritores coloniais (863). Quanto aos vasos, devo lembrar que Luciano fala no vinho e mantimentos que costumavam pôr-se nos sepulcros (864). Os jogos e danças dos pagãos e dos antigos não tinham a lascívia característica que depois atingiram, principalmente nos tempos presentes; são modalidades litúrgicas do culto religioso, praticadas, tanto nos dias festivos dos regozijos públicos, como nos tristes dos funerais, procurando ao mesmo tempo desenvolver as forças físicas em exercícios de agilidade, destreza e outros predicados bélicos. Os cânticos dos sacerdotes cristãos nos ofícios fúnebres e missas de Requiem participam ainda das modalidades litúrgicas primitivas. Por outro lado, esses jogos, danças e mantimentos representavam trabalho, mortificação, persistência e obras de caridade, pela comida distribuída aos assistentes. (863) DUARTE, Teófilo — Timor (Canto do Inferno) 1930, p. 129. CORREIA , Armando Pinto — Gentio de Timor, 1935, p. 167, nota 1, 186 e 188. C OTA, — Mitologia e direito consuetudinário dos indígenas de Moçambique, 1944, p. 37 a 39. (864) LUCIANO — Excerta ex Luciano Samusatensi, Catinæ, 1770, Contemplantes, p. 219 e 221.

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Ao paganismo não faltava caridade, nem sentimentos humanitários. Tinha hospícios e casas públicas para abrigo de necessitados e passageiros (865) . Júpiter, o deus supremo, era venerado sob o título de Hospitalis, presidente dos hospitais (866). Da mesma forma que nós, os cristãos, na idade média, tinha o paganismo templos onde os criminosos perseguidos pela justiça podiam acolher-se. Entre estes lugares de asilo era célebre o templo de Neptuno, na Calábria. Os jogos foram no princípio de cinco maneiras: correr, saltar, lutar, pugilato e atirar a barra. Depois acrescentaram-se outros: correr a cavalo, em carro; inventando-se também, para crianças, os jogos pueris, tudo com o fim de fomentar a cultura física, estimulando-a com prémios, muito apreciados, aos vencedores (867). As esmolas aos pobres, as obras sociais benéficas a estes, eram quase equiparadas, no conceito dos fiéis antigos, às missas, ofícios e mais sufrágios aplicados pelas almas dos defuntos. Em 1110, doa Ximena Forjaz à Sé de Coimbra e respectivos clérigos, várias propriedades, com encargo de missas e «in die anniversarit mei obitus de mea hereditate detur pauperibus panem et urinum XV modios et clericis supranominate sedis refectione eodem die totidem modios et hoc fiat omni tempore». No aniversário da sua morte 15 decalitros de pão e vinho aos pobres e outro tanto aos clérigos perpetuamente (868). No mesmo ano, João Gondizindiz fez doação de seus bens à referida Sé de Coimbra, divididos em partes iguais, entre clérigos, pobres e cativos (869). Sobre o assunto encontram-se elementos interessantíssimos em Alberto Vieira Braga (870) de que vamos reproduzir alguns por documentarem costumes gerais por todo o Portugal: Num testamento de 1263, depois de enumerar as missas por alma do testador, este deixa legados: «à ponte de Cavês; à ponte de Orense; aos emparedados; ao hospital de Roncisvalis; a quem for por ela a S. Tiago de Galiza» (871). As deixas às pontes de Cavês e Orense, bem como aos leprosos de Guimarães e de Bouças encontram-se noutro testamento de 1267 (872).

(865) Ibidem, in Dea Syria. (866) OVÍDIO — Metamorfoses, livro XI. Bíblia, livro Segundo dos Macabeus. cap. 6. Sobre a caridade pagã, ver tomo IX, p. 360, destas Memórias, (867) VITÓRIA, Baltasar da — Teatro de los dioses..., tomo I, p. 65. (868) Documentos Medievais Portugueses, 1940, vol. III, p. 320. (869) Ibidem, p. 323. (870) BRAGA, Alberto Vieira — Curiosidades de Guimarães, VIII, Mortórios, 1942. (871) Ibidem, p. 16. (872) Idem, p. 17.

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Noutro de 1292, encontra-se uma deixa à ponte e aos leprosos de Bouças (873). Noutro de 1325, encontram-se deixas aos «leprosos e leprosas de Guimarães e de Braga; à ponte de Barcelos e às albergarias de Guimarães» (874). Noutro de 1340, há estas disposições: atinentes ao assunto, omitindo, por lhe não dizerem respeito, as missas, ofícios, responsos e mais actos litúrgicos: «Item o primeiro sabado em pão e em pescado para pobres coatro libras e aos trinta dias outras coatro libras, e assima do anno outras coatro libras em pão e em pescado outro sy a pobres... Item mando que vendão os meus pannos e os dinheiros que hy fizerem mando que os dem a pobres vergonhosos por minha alma» (875). Noutro de 1356, declara-se: «mando que aqueles que vierem de longe à minha sepultura que lhis dem que comam e que bebam aquel dia» (876). Noutro de 1371, consignam-se dois casais para manter dez pobres diariamente, dando-lhe, além disso «cada anno senhos sayos de valentina por Pascoa, e senhos pellotes» para «manter este ospital pella alma» dele testador e de várias outras pessoas que nomeia (877). No testamento de um abade de Amarante, feito em 1376, encontram-se, além das missas e mais sufrágios por sua alma estas deixas: «mando ao primeiro dia aly en me enterrarem que dem hy dez libras em pão e em pescado e a pobres sinco libras» (878). Noutro testamento de 1386, mandam-se dar, no fim do ano da morte do testador, «coatro libras em pão e em carne e a pobres» (sic) (879). Noutro de 1388, diz o testador: «Item mando que dem a cada hüa das ditas albergarias (de Guimarães) e hospitais dez soldos para ajuda de roupa em que durmão os pobres. Item mando aos gafos de Santo André de Guimarães hum maravidi; item as gafas de Santa Luzia hum maravidi; item aos gafos de Boussas vinte soldos; item aos gafos de Rua de Gatos vinte soldos. Item mando que dem a pobres por minha alma ao primeiro sabbado em pao e em pescado dez libras, e aos trinta dias em pão e em carne outras dez libras, e assima do anno outras dez libras por essa mesma guisa» (880).

(873) BRAGA, Alberto Vieira — Curiosidades de Guimarães, p. 17. (874) Ibidem, p. 19. No tomo XI, p. 255, mencionamos o chantre da Sé do Porto, que deixou em seu testamento, feito em 1300, verbas para várias pontes. (875) Idem, p. 20. Disposições quase idênticas se encontram noutro testamento de 1376 e noutro de 1386, transcritos pelo autor nas p. 22 e 23. (876) Idem, p. 21. (877) Idem, p. 22. (878) Idem, p. 22. (879) Idem, p. 23. (880) Idem, p. 23.

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Noutro de 1467, deixam-se várias obradas (esmolas) a diferentes igrejas e uma «aos presos da correição» (881). No testamento de um cónego da Colegiada de Guimarães, mencionam-se diversas missas celebradas em dias fixos e, diz o testador «mando que em todos estes dias (das missas) dem a todos os pobres que vierem a minha casa mando que dem a cada hun hüa meya de vinho, e dois reis de pao e dois para carne, ou para o pescado» (882). Noutro de 1540, deixam-se bens para vestir «doze pobres, digo de pessoas envergonhadas silicet de pelotes e capas, e carapuças e sapatos... e mais cem mil reis para dez mossas pobres» (883). Noutro de 1630, depois de indicar as missas e ofícios a celebrar pela alma do testador, manda que «agasalhem a freguesia com quatro razas de pão cozido e dois almudes de vinho verde e a cada (um) sua sardinha» (884). Noutro de 1740, diz o testador: «E acompanharão meu corpo à sepultura vinte padres que irão sempre psalmeando e quero que me acompanhem à sepultura doze pobres a quem darão de esmola uma vela de cinquenta reis a cada um» (885). Noutro testamento de 1756, além de várias missas estabelece-se «um dote de cinquenta mil reis cada anno, para casar uma orfã pobre da freguesia de S. Martinho de Leitões, donde ele testador era natural» (886). Na parede da igreja matriz de Paradela, concelho de Chaves, está metida uma lápide de granito, referente a três missas rezadas e uma cantada «com uma perna de vaca para os pobres» anualmente. Parece que a lápide foi inscricionada em 1675, mas a disposição é anterior pois diz que não se sabe o nome dos instituidores (887). Dentro da capela do Espírito Santo, em Moncorvo, numa lápide de granito embutida na parede, está uma inscrição que diz: Capella do Espírito Santo com Hospital / para passageiros pobres. Dos seus rendimentos / ... Tera / tres camas limpas de colchois e tres / de enxergons e dose mantas e o que / sobeja se mande dizer de Missas... (888). No tomo IV, destas Memórias, apresentamos extractos de testamentos, vínculos de morgadios, com encargo de mandar celebrar certo número de

(881) BRAGA, Alberto Vieira — Curiosidades de Guimarães, p. 25. (882) Ibidem, p. 26. (883) Idem, p. 28. (884) Idem, p. 14. (885) Idem, p. 31. (886) Idem, p. 32. (887) Ver a nossa monografia Moncorvo, p. 23, separata da Ilustração Trasmontana, 1908-1910, onde a publicamos na íntegra. (888) Ibidem, p. 21, onde a publicamos integralmente.

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missas e dar aos pobres uns tantos alqueires de pão cozido. Esses encargos são nas povoações seguintes, do bispado de Bragança: Fresulfe, Gondesende (889), Bragança (890), onde se transcreve a disposição testamentária de Filipe Delgado de Albuquerque, que deixou, em 1800, todos os seus bens ao Hospital da Misericórdia da mesma cidade; Vinhais (891), onde se transcreve uma cláusula testamentária, feita em 1714, que, além das missas, manda vestir dez pobres «anualmente de pano de pardo com casaca calçoens meyas e çapatos, carapuça ou chapeu»; Palaçoulo (892), «cinco alqueires de pão cozido na Pascoa de coresma repartidos por cem pobres, a arrátel de pão cada um». Ao mesmo fim obedecia a Ponte do Mente e a albergaria ali construída pelo rei para conservarem «ponteur et ipsam albergariam pro anima de ipso Rege» (893). No tomo IX, págs. 343 e 512, destas Memórias, falamos das procissões em que as câmaras municipais do Vimioso e Miranda do Douro, davam, aos que cooperavam nelas, beberetes de comes e bebes, terminados por danças e folias. No tomo X, pág. 651, mencionamos a resolução da Câmara de Freixo de Espada à Cinta, de aplicar nas despesas da igreja do Ó (beberete de pão e vinho), que se dava ao povo. A piedade dos antigos deixou largas esmolas em seus testamentos, para bodos aos pobres realizados nos adros, alpendres e até nas igrejas, por influência tradicional dos ágapes dos primórdios cristãos, já em certo ponto relacionados com os banquetes pagãos, nos templos dos deuses. Muitas igrejas, nos aniversários da sua fundação, nas suas festas principais, «o juiz e irmãos de muitas confrarias e irmandades, se ajuntavam em certos dias do ano e, à custa dos rendimentos destas sociedades, davam aos pobres um abundante jantar de carnes, e outras muitas cousas de comestíveis, de que eles mesmos, e outros seus amigos participavam» (894). Em Aveleda, concelho de Bragança, onde fui pároco desde 1896 a 1910, por estar então esta freguesia anexa à de Baçal, por uso antigo ia-se de ladainha dia 6 de Maio ao Cabeço, sítio do termo assim chamado; o mordomo

(889) -1910. (890) (891) (892) (893) (894)

Ver a nossa monografia Moncorvo, p. 335, separata da Ilustração Trasmontana, 1908Ibidem, p. 338. Ver tomo IV, p. 342, destas Memórias. Ibidem, p. 347. Idem, p. 33, 58, 80, e tomo X, p. 150, ao tratar de Roças. VITERBO — Elucidário, artigo «Bodivo».

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dava tremoços e vinho aos romeiros. Este costume vigorava noutras terras. Carvalho diz que em Cardielos, concelho de Viana do Castelo, nas ladainhas de Maio iam à capela de S. Silvestre, davam muitas esmolas e «comiam juntos homens e mulheres» (895). Com o tempo, surgiram abusos e os concílios, as constituições diocesanas, as pastorais e capítulos de visita dos bispos e seus delegados, levantaram contra tais usanças campanha de extermínio (896). À força de querer espiritualizar tudo, suprimiram os bodos e jantares, sob pretexto de pagãos; porém, a fé não aumentou e a caridade mingou. É que nas cousas do mundo deve contar-se sempre com o factor do sapateiro de Braga — comemos todos ou haja moralidade. No Arquivo Distrital de Bragança, encontram-se 239 livros (Cartório Administrativo) e 468 (Cartório Notarial), que serviram, aqueles para registar os testamentos na Administração do Concelho e estes para os escrivães e notários da Comarca de Bragança, os fazerem, que abrangem pelo geral desde meados do século XVIII até meados do século XIX, e por eles se vê como os bodos aos pobres vão definhando, até se reduziram a um carolo de pão, dado no adro da igreja, em seguida ao enterro do defunto. Num ou noutro, porém raramente, ainda aparece a deixa de vinho e, mais rara ainda, a de sardinhas, para juntar ao pão. A estas deixas chama o povo caridade e ainda hoje se pratica em terras bragançanas, substituindo-lhe, na maioria dos casos, dinheiro em lugar dos géneros alimentícios (897). O poder civil veio em auxílio do eclesiástico, proibindo, sob graves penas, nas Ordenações manuelinas que se «fação vodos de comer, e de beber nas igrejas, nem fora dellas... porem nos lugares onde costumão comer, quando levão os defuntos, o poderão faser sem pena algüa, não comendo dentro no corpo das igrejas» (898). Depois, os sucessores de el-rei D. Manuel I, converteram, com aprazimento do poder eclesiástico, os rendimentos destinados a estes bodos, em capelas com vínculos de morgadio, que deram a palacianos, sob encargo de

(895) C OSTA, António Carvalho da — Corografia Portuguesa, 1706, tomo I, p. 192. (896) Ver tomo II, p. 149, 151, 164, 202 e 207, destas Memórias. Viterbo no Elucidário, artigo O, diz que D. João de Chaves, bispo de Lamego, comutou em 1445, o costume de se darem na Sé, Sete Os de «vinhos brancos e vermelhos, e frutas, e espécies, e confeitos, e tâmaras, e passas, em obras pias», devido ao abuso das gentes que se juntavam nestes beberetes. E mais diz que no ano de 1518, a Câmara de Freixo de Espada-à-Cinta, de acordo com os padres a colegiada da vila, resolveu aplicar à fábrica da igreja o O de vinho e fruta que se dava ao povo. (897) Ver tomo IX, p. 29, 49, 51, 56, 57 e 58; os artigos «Funerais», no tomo IX, p. 308, 437 a 440, e tomo X, p. 646. (898) Ordenações e Leis do Reino de Portugal, livro quinto, título V.

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mandar dizer certo número de missas pelos instituidores. Conclusão: os réditos até ali comidos pelos pobres, passaram a ser comidos pelos padres e pelos ricos, sob pretextos orgíacos, em que estes não eram menos fecundos, levando-lhe porém a vantagem de os poder realizar um pouco veladamente nas salas de seus palácios. Os reis, ou o fisco por eles, também entrou largamente na comezaina, que converteu os bodos em bródios. Uma ou outra autoridade eclesiástica ainda reconhecia ao povo o costume de aproveitar alguns sobejos dos rendimentos da igreja, para comes e bebes, em atenção aos serviços que prestava para realizar esses proventos, mas eram raras essas autoridades; venha a nós tudo, era o sumo desiderato. Alberto Vieira Braga (899), transcreve do livro das Visitações à igreja de Vermil, que serviu de 1615 a 1656, o capítulo de um visitador por ordem da autoridade eclesiástica, que proibiu o povo de comer algo desses sobejos, quando prestava outros serviços atinentes e actos cultuais. E seguidamente transcreve o capítulo do visitador seguinte, que reconheceu a justiça do povo em se aproveitar desses sobejos Mas os deste pensar eram raros. Em algumas dioceses até já houve quem mandasse recolher à Caixa Geral de Depósitos os sobejos das confrarias, embora insignificantes, sem ao menos os mordomos poderem utilizá-los, no ano que servem, como é costume, em atenção ao grande trabalho que levam na cobrança das anatas, de aldeia em aldeia, e na condução delas para a tulha da confraria, tudo realizado gratuitamente. Dantes a piedade cristã desbravou maninhos, viu a tempo e praticou sem dispêndio para o Estado, nem vexame para as povoações o regime florestal (900), introduziu novas culturas, melhorou as existentes, construiu pontes, barcos de passagem nos rios (é comovente a «Barca de Por Deus» no Douro), abriu caminhos (ainda permanece em Malhadas, concelho de Miranda do Douro o toponímico «Rodeiro dos Frades»), calçadas (901), povoou aldeias (902), dotou viúvas, órfãos e pobres para casamento (903), fundou orfanotrópios e maternidades, criou bodos de comes e bebes e indumentária para pobres, estabeleceu hospícios, albergarias (904), gafarias, hospitais, para viajantes e

(899) BRAGA, Alberto Vieira — Curiosidades de Guimarães, IX, «Cercos e Clamores», p. 123. (900) Ver tomo IX, p. 425 e 427, destas Memórias. (901) No tomo II, p. 6, destas Memórias, indicamos a «famosa calçada da cidade de Miranda, até à barca do Douro», mandada fazer pelo bispo de Miranda, D. Toríbio Lopes. (902) Ibidem, tomo IX, p. 426. (903) No tomo VII, p. 770, destas Memórias, mencionamos o P.e Francisco Nogueira, de Izeda, que deixou em testamento à confraria das almas da sua terra 800$000, a fim de com o juro deles se irem dotando para «casamentos de moças pobres e donzelas» do referido povo. (904) Atrás dissemos da Albergaria e ponte do Monte.

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doentes, instituiu montes de piedade, confrarias, irmandades, ligando aos sufrágios pelos mortos o empréstimo de cereais e dinheiro sem juro, ou quase, aos confrades (905). Depois este critério mudou: o trabalho manual foi julgado ignóbil e os serviços sociais, verdadeira acção católica, converteram-nos em missas, ofícios, responsos, sufrágios, etc., redundando tudo em favor do clero e dos fidalgos e o povo ficou-se a monologar à surdina, como o sapateiro da anedota: ou comemos todos ou haja moralidade, como quem diz: ou como também, algo, como é justo, em atenção aos serviços que presto, ou lá se avenham e façam-nos vossas mercês, pois quem leva ofertas, carnes e lanas, que toque as campanas. E quanto ao resto, fez ponto final nas deixas em prol das obras, a não ser um ou outro retardatário, sempre os há, a favor de alguma misericórdia; cerceou logo os ofícios de defuntos e as missas, de maneira que aqueles acabaram nas cidades, vilas e aldeias de importância, ficando apenas nas regiões sertanejas, desligadas do convívio social e estas têm vindo em decadência rápida da casa dos mil, em que outrora figuravam, para duas ou três dúzias em famílias abastadas, pois as outras limitam-se à do dia do enterro. E no mais, tudo por este teor. É que quem tudo quer, tudo perde e o aviso bíblico zelus domus tuæ comedit me e a censura do padre Viterbo no Elucidário, atrás transcrito, consignam verdades fundamentais que não se devem esquecer. Mesmo os grandes propugnadores da acção católica reconhecem a necessidade de mudar de rumo. Eis como escreve um deles: «Uma das causas do fraco êxito do nosso apostolado, ao menos nos meios descristianizados, está em nos dirigirmos apenas às almas, esquecendo os corpos, à miséria moral, desconhecendo a física; está em recorrermos apenas a meios espirituais, como a pregação, as devoções, os sacramentos, parecendo ignorar que o homem também é corpo, e tanto mais corpo quanto mais privado de bens corporais, tanto mais agarrado à matéria quanto mais destituído dos bens materiais indispensáveis à vida. Tanto pode materializar o homem e afastá-lo de Deus a demasiada abundância como a absoluta carência de bens terrenos. Os pobres só se converterão na medida em que os auxiliarmos a libertar-se da miséria, e os ricos, quando os levarmos a respeitar a justiça e a praticar a caridade para com os pobres» (906).

(905) Ver tomo VII, p. 768, destas Memórias, aonde mencionamos os de Algoso, Bagueixe, Castelões, Chacim, Fermentãos, Freixo de Espada-à-Cinta, Frieira, Izeda, Talhas e Vimioso. Mais haveria, mas não encontramos notícia deles. Em Sacoias ainda hoje funciona uma espécie do Monte da Piedade. (906) Dr. Avelino Gonçalves, director da Lumen, 1944, p. 470. O mesmo é também director da Acção Católica.

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J UDEUS — No tomo V, pág. LXIII destas Memórias, falamos da acusação feita aos judeus de abafarem (matarem) seus doentes, sem esperança de cura, para lhe abreviarem os sofrimentos. Entre alguns cristãos primitivos, convertidos do paganismo ao cristianismo, sem abandonarem de todo as superstições, propagou-se «a opinião de que a alma dos que morriam de morte violenta, escapava ao demónio, alguns chegavam no seu fanatismo ao ponto de matarem seus filhos» (907). LUA — Nas págs. 23, N.os 20 a 23, 26, 28, 44, 47 e 54, mencionamos várias crendices relativas à lua e aos autores que as referem; todavia, no assunto parece-nos mais completo Apuleio e, por isso, transcrevemos dele a seguinte súplica que lhe dirige um devoto «certo de que esta suprema deusa possuía transcendente majestade, e que todas as coisas humanas se seguiam por sua providência; que não somente o gado e as bestas feras, mas também os inanimados vegetam pelo divino inflexo da sua luz e divindade; que igualmente os mesmos corpos na terra, céu e mar já cresciam conforme o seu crescimento, e já diminuíam, obedecendo ao seu decrescimento». Dirige-se-lhe nestes termos: «depois de se ter purificado mergulhando a cabeça nas ondas sete vezes, número agradável dos deuses segundo ensinou o divino Pitágoras... rainha do céu, ou tu sejas Ceres criadora, primeira mãe dos frutos, que alegre com a achada da filha removeste o alimento da antiga bolota, própria das feras e ensinaste uma comida mais suave; ou tu sejas a celeste Vénus, que na primeira origem das coisas ajuntaste os diferentes sexos gerando o amor e propagaste a espécie humana de eterna descendência; ou sejas a irmã de Febo, que favorecendo o parto das mulheres com brandos remédios, tens dado à luz tantos povos; ou tu sejas Proserpina, horrível pelos uivos nocturnos que reprimes com a triforme face os ímpetos dos espectros, e encerras os arcanos da terra, e vagueando por diversos bosques, és aplacada com diferentes modos de culto; tu que alumias os muros de todas as cidades com tua feminina luz, que crias as alegres sementes com teu húmido fogo...» (908), protege-me, etc. A lua atende as súplicas deste devoto e diz-lhe: «eu que sou a natureza, mãe das coisas, a senhora de todos os elementos, a primordial progenia dos séculos, a suprema das divindades, a rainha dos mortos, a primeira dos celestiais e a uniforme representante das deusas e dos deuses; eu que governo com o meu acesso as alturas luminosas do céu, as saudáveis brisas do mar, e os deploráveis silêncios dos infernos, e cuja única divindade todo o orbe

(907) CANTU, César — História Universal, tomo IV, p. 160. (908) APULEIO — O Burro de Ouro, livro XI, p. 380. A propósito do número sete, ver neste tomo das Memórias, p. 98 e 289.

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venera debaixo de multiformes figuras, por vários sítios e debaixo de muitos nomes» (909). Enumerando seguidamente esses nomes diz: que os Frígios lhe chamam Minerva Cecrópia; os Cíprios, Vénus Páfia; os Cretenses, Diana Ditina; os Sículos, Proserpina Estígia; os Eleusinos, deusa Céres; outros Juno, alguns Belona, Hecate, Rânsia e «os Etíopes, os Ários e os Egípcios, abalisados na antiga ciência, adorando-me com cerimónias próprias, me chamam por meu verdadeiro nome, rainha Ísis» (910). No tomo IX, págs. 618 e depois na tabela de erratas no fim do volume, referimo-nos a várias lápides votivas, consagradas a esta deusa, existentes em Portugal, nomeadamente em Chaves. Luciano de Samosato (911), na Neciomantia, pág. 155, descreve as práticas mágicas a que um nigromante caldeu sujeitou Menipo para descer aos infernos em vida, iniciadas aos vinte e nove dias da lua, nas margens do Eufrates, por uma vida primitiva, comendo apenas bolota, bebendo leite, mel, água e dormindo sobre a terra nua. Muitas das práticas usadas pelo mágico ainda hoje vigoram nos sortilégios das feiticeiras. A circunstância de o mágico ser caldeu, mostra que desta terra passaram as crendices ao Egipto, como dissemos na pág. 21. A descrição feita por Luciano dos tormentos aplicados aos vícios dos réprobos, por muito deveu entrar no Inferno, de Dante, e na Malaca Conquistada, de Sá de Meneses. Na pág. 76, falamos da má vontade de Pitágoras contra as favas, motivada pelas razões apresentadas por Cícero, mas Luciano (912), parece não concordar, pois põe na boca do próprio Pitágoras estas palavras: Non odi: sed sacrae sunt et ipsarum natura mirabilis... Elixam... si certis noctibus lunæ exposueritis, sanguinem facies. Et quod mayus est, consuetum est ettheniensibus, fabis magistratus eligere. De maneira que, no sentir de Luciano, Pitágoras não odiava as favas, pelo contrário, tinha-as por veneráveis, sendo profanação expo-las em certas noites, depois de cozidas, aos raios da lua, porquanto, de mais a mais, por favas se fazia a contagem dos votos na eleição dos magistrados. M ALMEQUER — Na pág. 82, falamos no desfolhar do malmequer pelos namorados para saber se um deles tem ou não amor ao outro, mas este nome aplica-se a várias plantas, e tal usança já vem do paganismo que, para isso

(909) (910) (911) (912)

A PULEIO — O Burro de Ouro, livro XI, p. 383. Ibidem. SAMOSATO, Luciano de — Excerpta ex Luciano Samosatensi, Catinae, 1770. Ibidem, Vitarum Auctio, p. 415.

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utilizava a flor da papoila, colocando na mão fechada e batendo com a outra em cima. Conforme o estalo da flor, era grande, pequeno ou nulo, assim indicava o grau do amor. Nec sub percusso crepuere papavera pugno, nem sequer a papoila estoirada entre as mãos, produzia som, diz Teócrito (913), poeta grego, que viveu 285 anos antes de Cristo. Hoje, como à 2230 anos, o povo ainda aplica o mesmo processo da percussão à flor tubiforme da Bandeira do São João (digitalis) em certos casos de investigações restritas, mas, no geral, o desfolhar do malmequer está mais generalizado. Salve encantador idílio das coisas etnográficas! Salve sublime vitalidade tradicionalista da idiossincrasia popular, como eu te admiro e saúdo reverente!!! M ANDRÁGORA — Nas págs. 16, N.os 9 e 87, referimos feitiços em que entra a mandrágora. Apuleio também a menciona, dizendo que «o soporífero da mandrágora é famoso pela modorra que causa e eficaz para produzir um sono semelhante à morte» (914). As mesmas qualidades soporíferas lhe atribui Luciano de Samosata (915). M OCHO, ave agourenta, nocturna, núncia de infortúnios, que os romanos procuravam apanhar quando entrava em alguma casa, pregando-a nas portas, «para expiarem por seu tormento as desgraças de que ameaçavam as famílias com seus nefastos voos» (916). Ovídio (917), também menciona o Cubo, como agourento, mas os dicionários dão a esta palavra o significado de bufo ou mocho; porém, nesta minha região de Baçal, chamam bufo a uma ave nocturna, de rapina semelhante ao mocho, mas muito maior, que vive nas serras e não desce aos povoados, caracterizada por ressonar alto (bufar, como diz o povo) de noite, quando dorme, ao passo que o mocho vive e nidifica nas povoações. Os pretos de Moçambique crêem que o feiticeiro vai de noite, disfarçado em coruja ou mocho, fazer mal às pessoas, animais, frutos, provocar incêndios, tempestades, mortes (918). Frei Baltasar de Vitória, tratando do buho (919), que é o bubo (bufo, de Apuleio e Ovídio) «ave triste e de mau agouro, dedicada à deusa Jano» (920);

(913) TEÓCRITO — Idílios. (914) APULEIO — O Burro de Ouro, livro X, p. 346. (915) SAMOSATO, Luciano de — Excerpta ex Luciano Samosatensi, Catinae, 1770, Timon, p. 257. (916) APULEIO — O Burro de Ouro, livro 3, p. 92, mas chama-lhe bubo (bufo). (917) OVÍDIO — Metamorfoses, livro 5. (918) COTA, J. G. — Mitologia..., 1944, p. 133. (919) VITÓRIA, Baltasar de — Teatro de los dioses..., tomo 2, p. 225, e tomo I, p. 34. (920) OVÍDIO — Metamorfoses, livro 5.

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descrevendo-o como de voar incerto, aos torcicolos, por ser frouxo, cobarde e pouco alentado. Vive nos desertos e ermos, nas partes mais ásperas, onde não habitam os homens, saindo só de noite, e se aparece de dia nos povoados é tomado por mau agouro. Como tem os olhos muito bonitos, as outras aves picam-lhos para lhos arrancar; foge delas, vendo-se, por isso, forçado à vida noctívaga. Esta descrição quadra ainda melhor à coruja do que ao mocho, mas de forma nenhuma ao bufo, no conceito da gente destas terras bragançanas, que é chamado mocho-real, pelos serranos de Montesinho. A lenda de as outras aves perseguirem o tal buho, aplicam-na em Baçal à coruja, não para lhe arrancar os olhos, mas sim as plumas, pois, segundo dizem, roubou a cada ave, uma pluma das mais belas com que se enfeita. O bufo é grande como um corvo, ou mais; a coruja pouco excede a grandeza de uma pomba, ficando-se intermédia entre a desta e a de uma galinha pequena. O bufo é ave de rapina valente, sustenta os filhos com lebres, perdizes, coelhos e outra caça grande, como as águias, donde vem a expressão: «encontrou ninho de bufo», para indicar a prosperidade das pessoas, pois os caçadores vão de manhã ao ninho do bufo tirar a caça que este leva de noite aos filhos. Não me consta que haja superstições referentes ao bufo, abundando porém as da coruja, que se limita a chupar o azeite das lâmpadas das igrejas, segundo dizem, e a comer ratos e pequenos pássaros (921). Frei Baltasar de Vitória (922), diz que a crendice supersticiosa atribui ao coração do bufo (que nós entendemos ser a coruja) posto sobre o peito esquerdo de uma mulher a dormir, a obriga a descobrir todos os seus segredos e que dá forças a quem o trouxer consigo nas lutas e pelejas. A lenda baçalense de as aves arrancarem as plumas à coruja, talvez se filie melhor no caso do morcego que, segundo diz Esopo (923), foi depenado pelas aves, porque na guerra, destas com os animais terrestres, alinhou ao lado destes, quando viu a vitória inclinar-se para eles, alegando as suas características de mamífero, e depois ao das aves, triunfantes em última instância, apresentando-se como ave; porém estas, dando pelo embuste, depenaram-no para que não andasse com trapaças, e ele, com receio de novos maus tratos, evita-as, andando só de noite. Mas, quer se trate da coruja, quer do morcego, é muito para notar a circunstância de o povo conservar fielmente uma lenda corrente há mais de dois mil anos, noutro povo diferente; ajudando assim a corroborar o modo de ver

(921) Sobre o bufo, corujão, mocho-real ou martaranho, ver REIS JÚNIOR, J. A. — Catálogo sistemático e analítico das aves de Portugal, 1931, p. 75. MATOS , António de Oliveira — Animais migradores, 1944, p. 78. (922) VITÓRIA, Baltasar de — Teatro de los dioses..., tomo 2, p. 225. ALEMANY Y B OLUFES — Dic. Ilustrado espanhol, artigo «Lechuza», que é o nome da coruja, em espanhol. (923) ESOPO — Fábula 215.

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que apresentamos na pág. 249, referente às lendas e crendices. Ver adiante o artigo Varinha do Condão. Sobre a coruja e o corvo, ver pág. 23, n.os 19 e 68. M OURAS ENCANTADAS — A lenda das Mouras Encantadas, tão vivaz ainda em terras bragançanas (ver tomo IX, pág. 487, destas Memórias), deve relacionar-se com a crendice dos naturais de Moçambique, que consideram «certas montanhas, lagoas e florestas, povoadas por espíritos demoníacos» e também pelo demónio (Zerike), que aparece em forma da mulher, primorosa na indumentária (924). OLHAR PARA TRÁS — Nas crendices populares, encontra-se a de não olhar para trás ao marchar, depois de praticados certos actos de terapêutica medicinal. A mesma ideia vigora entre os pretos de Moçambique, após a realização de certos ritos litúrgicos (925). OLHAR

REPASSADO

— Ver o artigo Feiticeiras, pág. 508.

PÉ ESQUERDO — Entrar em casa com o pé esquerdo, é mau agouro (926) (ver págs. 19 e 32, N.° 88). Nos templos gregos, a escadaria para subir ao altar, constava, pelo menos, de três degraus, porém os romanos nem sempre observaram este cânone, limitando-se a construí-las com número ímpar de escalões, em obediência à crendice de entrar em casa com o pé direito, visto naturalmente iniciar-se a subida com este pé, dando em resultado ser ele o do ingresso na casa. Nas igrejas cristãs ficou vigorando o tríplice escadório. Ver pág. 92. PREGOS NAS PORTAS — Os romanos cravavam nas portas pregos arrancados dos sepulcros, ou colocavam nelas o phalus, para afugentar de seus jardins malefícios e ladrões (927). Ver pág. 78. PEDRA (culto da) — Na tomo IX, págs. 556 e 557, aludimos a este culto (litolatria), constatado já nos tempos neolíticos, perpetuando-se depois por factos mais ou menos relacionados com ele. A Bíblia (928) diz-nos que sobre o túmulo de Absalão lançaram grande quantidade de pedras: conportaverunt saper eum acervorum lapidum magnum.

(924) COTA — Mitologia..., p. 10 e 72. (925) Ibidem, p. 26, 28 e 96. (926) APULEIO — O Burro de Ouro, livro XI, p. 200. RICH — Dictionnaire..., artigo Gradus. (927) CANTU — História Universal, tomo 2, p. 258, onde se encontram mencionadas várias superstições pagãs. (928) Reis, livro 2, cap. 18-17.

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No livro de Jesué (929), fala-se no sepulcro de um justiçado, sobre o qual fizeram alto montão de pedras. No termo de Meixedo, concelho de Montalegre, há um penedo, esteio de dólmen, em que estão gravados a pico vários sinais em forma de cruz, para indicar limites de termo de povoações (930). Os dólmens, também chamados arcas ou arcão pelo nosso povo, serviram igualmente de marcos divisórios de termos (931). Nas insculturas rupestres encontram-se covinhas (fossetes), relacionadas com a simbologia religiosa (932) por caracterizarem o marco divisório das propriedades, adorado pelos antigos como deus, segundo diz Pausânias, e veio a ser o deus Termino, dos escritores romanos (933). PROCISSÕES — No tomo IX, págs. 174, 311 a 339; tomo X, pág. 654, indicamos várias concordâncias rituais entre o paganismo e o cristianismo, guiados por autores modernos, aos quais agora acrescentamos Apuleio, por viver no meio daquelas práticas religiosas e tratar delas no livro XI, de que vamos dar notícia sumária. Lá aponta o celibato eclesiástico, imposto aos sacerdotes da deusa Rea (lua) (págs. 386 e 401), que, excitando-se até ao furor, se castravam por fanatismo; a coroa no alto da cabeça; a indumentária litúrgica de linho; a comida de magro em certos dias; a abstenção de certos mantimentos «profanos e proibidos». Falando da visão da deusa Ísis, que era também chamada Rea, como ele declara noutra parte e já fica indicado, a um seu devoto, diz que ela trazia na mão um sistro «que dava um som agudo pelo triple sacudimento das lâminas» e descrevendo a solene procissão que em honra dela se fazia todos os anos, a propósito da bênção de um navio novo, que lhe era consagrado, diz que no acompanhamento iam diversas personagens «segundo o votivo zelo de cada um» representando artes e ofícios, como militares, caçadores de monte e até de pássaros, pescadores, mulheres, gladiadores, magistrados judiciais, filósofos, pastores, bobos e figuras grotescas, animais, ursos, macacos, burro, cavalo representando Pégaso e Belerofonte. «Mulheres espalhavam flores pelas ruas» e «com espelhos de trás das costas, voltados, mostravam à deusa o acompanhamento, como vindo ao seu encontro» outras aromatizavam as ruas espargindo gotas de bálsamo e o povo, vagueando por toda a parte, entregava-se a «jocosos divertimentos».

(929) Josué, cap. 7-26. (930) O Arqueólogo Português, vol. 24, p. 76. (931) Ibidem, tomo XXIII, p. 74. Ver tomo IX, p. 556, 557 e 595 destas Memórias. (932) Ver tomo IX, p. 590, onde indicamos esta interpretação. (933) Ver V ITÓRIA , Frei Baltasar da — Teatro de los dioses..., tomo I, p. 8, e tomo II, p. 526, onde largamente se trata do deus Termo.

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«Muitos homens e mulheres com lanternas, fachos, velas de cera e outros géneros de tochas, propiciavam com lumes a celeste estirpe dos astros». Músicos, tocando gaitas e flautas, acompanhavam o coro dos mancebos, que cantavam hinos em honra da deusa. Na frente marchavam batedores, clamando que se desse livre passagem à procissão, constante de enorme multidão de gente, entre a qual se destacavam os devotos, e iniciados nos sagrados mistérios pela indumentária de linho, tendo os homens «o cabelo totalmente rapado e o alto da cabeça sumamente luzidio: astros terrestres da sublime religião, que produziam um som agudo com sistros de bronze, prata e até de ouro». Os sacerdotes, vestidos de toga de linho apertada no peito e pendente até aos pés, levavam símbolos ou emblemas da deusa (934) e alfaias ligadas ao culto, como eram: a lucerna de ouro em forma de naveta; o ramo de palmeira com folhas de ouro e juntamente o caduceu de Mercúrio; o símbolo da equidade, representada pela mão esquerda aberta e um vaso de ouro em forma de mama, do qual ia vertendo leite; o crivo de ouro com ramos do mesmo metal; a talha; a vaca; os órgãos sexuais; a efígie de Mercúrio e finalmente a vaca, representando Jo transformada neste animal. A cada sacerdote tocava levar ou guiar algum destes emblemas. Assim constituída a procissão, marchando solenemente, chegou à praia, onde o sacerdote purificou e benzeu o navio «com uma tocha acesa, um ovo e enxofre», sendo depois impelido mar fora, carregado de presentes oferecidos pelos devotos. E regressando com a mesma solenidade a procissão ao Santuário, o sacerdote terminou a função religiosa pela fórmula litúrgica final — ex templo — equivalente do nosso — ite missa est — ide-vos embora. E o povo marchou, seguindo cada um para sua casa, depois de ter beijado os pés da deusa «levando ramos de oliveira e verbena». Para maior complemento de similitude, até o sacerdote, antes de despedir os fiéis, botou sermão, aproveitando habilmente um milagre realizado na procissão, para pôr nos cornos da lua as grandezas maravilhosas da deusa, como tudo pode ver-se no citado livro. Descreve depois o autor o cerimoniário com que o sumo sacerdote procedia na ordenação dos novos sacerdotes, do «sacrifício divino» que todas as manhãs fazia sobre as aras do templo, bem como das «saudações» que todas as manhãs os fiéis dirigiam à deusa. Está-se a ver nestas duas usanças o fundo ritual da nossa missa cristã e da Saudação Angélica, ao toque das Ave-Marias ou Trindades, que todas as manhãs, ao meio dia e ao lusco-fusco, dirigimos a Maria Santíssima.

(934) São muitos os emblemas que representam Ísis ou Jo, equivalente da deusa Lua, como pode ver-se em Chompré ou noutro tratado da Fábula.

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Entre as cerimónias da ordenação sacerdotal destacam-se, em conformidade com as cristãs: habilitação de genere acerca da moralidade e idoneidade do ordinando e ascendentes; exercícios espirituais durante dez dias; dádivas e presentes do povo ao novo iniciado; paramentação deste com doze vestidos litúrgicos, artisticamente bordados, levando na mão uma tocha «ardendo em chamas» e sua introdução no templo, pela mão do sumo sacerdote; grande assistência de povo; «celebração do dia da ordenação com banquetes e joviais festins». Da mesma forma se celebrava o dia terceiro. Também a ordenação ou iniciação se não fazia toda de uma vez, mas em três, com intervalo de um ano, para interstícios, como nós hoje dizemos, da mesma forma as despesas eram avultadas. Quanto aos doze vestidos do nóvel ordinando, ainda hoje os paramentos eclesiásticos são doze: barreta, cabeção, amito, alba, síngulo, estola, manípulo, casula, cobre-nuca, meias, sapatos ou pantufos e fivelas. O cobre-nucas, as meias, os sapatos e as fivelas estão em declínio, mas os tratadistas da liturgia ainda falam neles, e no início da minha vida sacerdotal, em 1889, ainda estavam em uso. Quanto à analogia desta procissão com as nossas cristãs, ver tomo II, págs. 159 e 223, destas Memórias, e o nosso volume A Restauração de 1640 no distrito de Bragança, págs. 88, 109, 117, 118, 119 e 123. Da mesma forma nada há que estranhar no milagre, pois todas as religiões contam muitos, como a cada passo refere a História, até mesmo as rudimentares religiões dos pretos (935). O padre frei Baltasar de Vitória (936), aponta muitos milagres do paganismo, referidos até por Santo Agostinho e outros santos padres dos primeiros séculos, que melhor os podiam conhecer. Da natureza dos milagres são os castigos sobrenaturais dos sacrilégios, e o referido autor menciona muitos (937). Do rápido apanhado na citada obra de Apuleio, colhe-se que entre esta procissão e as nossas cristãs há muitos pontos análogos: III — A imagem ou escultura do nume é levada no cortejo, assim como nós transportamos as dos santos em andores.

(935) C OTA , J. Gonçalves — Mitologia e Direito Consuetudinário dos Indígenas de Moçambique, 1944, p. 24, 25 e 74, refere alguns interessantíssimos. Este autor deve merecer inteiro crédito, já pela sua competência, já porque foi mandado pelo Governo português, como chefe da Missão Etognósica da Colónia de Moçambique, a estudar os costumes dos indígenas. (936) VITÓRIA, Baltasar de — Teatro de los dioses de la gentilidad, primeira parte, p. 30, 31, 35, 83, 129, 186, 212, 222, 223, 224 e 543; parte segunda, p. 249, 258, 337 e 475. (937) Ibidem, tomo I, p. 36, 131, 211, 246, 247, 284, 420, 463 a 466 e 633.

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III — Os militares, caçadores, pescadores, gladiadores, pastores, magistrados judiciais e filósofos que iam naquelas, representando certamente organismos sociais, correspondem aos representantes de artes e ofícios que seguiam nas nossas. Eis como fala um documento atinente ao assunto, já por nós publicado. Diz ele: «Treslado dos mesteres com hão-de ir nas procissões da cidade. A’ bandeira da cidade, irão as charamellas e trombetas de ante. Logo Nossa Senhora das Vinhas, mester dos carpinteiros. Logo a bandeira dos mercadores com suas tochas. Logo a bandeira dos carpinteiros com os emperadores. Logo a bandeira dos alfaiates. Logo a bandeira dos tecelões com S. Bartholomeu. Logo a bandeira dos almacreves com a folia. Logo a bandeira dos pedreiros e molleiros com seu mester que é Santa Catharina. Logo adiante S. Jorge. Em seu dia irá diante da bandeira da cidade. Logo irá a serpe mester dos alfaiates e diante irá o carro mester dos ourollos» (938), isto é dos lavradores. III — Nas pagãs, iam lobos, figuras grotescas, danças, folguedos «jocosos divertimentos», músicos tocando gaitas, flautas, sistros de bronze, prata e até de ouro, cantores entoando hinos em honra do nume, homens e mulheres com lanternas, tochas, velas de cera e outros géneros de archotes. Eis disposições idênticas das nossas: Na sessão de 15 de Junho de 1588, acordou a Câmara Municipal de Bragança, que na procissão do Corpo de Deus, o mesmo se fazia nas outras mandadas realizar pela câmara, «que todos os misteres e mordomos que sam obriguados a fazer damsas saião na procisam» sob pena de dez cruzados de multa (939).

(938) Ver tomo II, p. 308, destas Memórias, onde o publicamos, sem data, por faltar no documento, mas deve referir-se ao ano de 1529, como se conclui de outro documento que inserimos a p. 88 do volume A Restauração de 1640 no Distrito de Bragança. Herculano, no Monge de Cister, vol. 2.°, cap. XVII, descreve brilhantemente a procissão do Corpus Christi na Idade Média. Ver também C ONCEIÇÃO, Cláudio da, Frei — Gabinete Histórico, tomo XI, p. 212, e C HAGAS, Pinheiro — História de Portugal ilustrada, vol. 2.°, p. 610 e 612. (939) A LVES , Francisco Manuel — A Restauração de 1640 no Distrito de Bragança, p. 109.

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No Código de Posturas Municipais da Câmara de Bragança, aprovado na sessão de 20 de Fevereiro de 1682, dispõe-se que «os barbeiros, estalajadeiros, seleiros, feradores irão acompanhando São Jorge com suas espadas e rudelas em corpo» sob pena de dois mil réis (940). Aqui temos, além de mais, a equivalência dos militares romanos mencionadas atrás no n.° II. Noutro Código de Posturas Municipais, organizado em 1619 pela Câmara de Bragança, se manda «que todos os mesteres saião nas porcisõis que a cidade costuma fazer com suas bandeiras, folias, pellas he as mais ensinias que costumam levar» sob pena de quatro mil réis (941). «Todo o mercador que for notifiquado pera levar tocha nas porciçõis da camara e a não levar emcorre na pena de mil Reis» (942). Quanto aos símbolos e folias temos «o costume de irem pessoas representando santos e personagens da Sagrada Escritura, com symbolos de alguns pontos sagrados, como o do juizo universal, ou mesmo o da morte; e outro sim, que por motivo de promessas, costumam ir nessas procissões pessoas em forma de penitentes, umas desnudadas da cinta para cima e flagellando-se publicamente com disciplinas, outras com invenções extravagantes levando na bôca espadas e nas mãos espingardas, que continuamente vão brandindo» (943). No tomo VII, pág. 762, destas Memórias, publicamos outro documento do ano de 1825, onde se menciona o costume de os homens lutarem nas procissões, com espírito de piedade e devoção. Não estará aqui a supervivência dos gladiadores que vimos na procissão romana? Pelas outras terras era o mesmo. Assim lemos nas Constituições Diocesanas de Braga: «Que se não coma, nem beba, nem baile, nem dance, nem tanja, nem cante cantigas profanas dentro das igrejas. Outro sim, que se não façam autos, nem representações nas igrejas, nem ermidas, nem nas procissões, posto que sejam mistérios de santos e de matérias devotas, sem licença do Provisor ou Vigários. Que se não corram touros no adro das igrejas, nem nelas se joguem canas, nem se corra argolinha, nem jogos semelhantes» (944).

(940) Ibidem, p. 118, n.° 15. (941) Idem, p. 124, n.° 58. (942) Idem, p. 119, n.° 19. (943) Idem, p. 119, n.° 19; tomo II, p. 223, destas Memórias. E no tomo VII, p. 780, referimo-nos às missas cantadas, procissões, danças e comédias, que se fizeram na vila de Moncorvo em 1668, em acção de graças a Deus pela paz celebrada entre Portugal e Espanha, como remate da guerra dos 28 anos. (944) Constituições Sinodais do Arcebispado de Braga, 1639, p. 329 a 331.

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Do mesmo modo falam as Constituições dos bispados de Coimbra, Évora, Lamego, Lisboa, Porto, Miranda do Douro, etc. Na visita à Colegiada de Guimarães, feita por D. João de Sousa em 1729, proibia-se «que em nenhum tempo entrassem pessoas mascaradas em qualquer traje e fizessem danças e bailes dentro da igreja, pela irreverência que se fazia assim na casa da oração, e templo sagrado dedicado a Deus nosso P» (945). «Fui informado que nesta freguesia se fazem algumas comedias profanas e desonestas de que pode resultar dano às conciencias pelo que mando que daqui em diante nenhuns oficiais de confrarias chamem comedias, nem comediantes as representem, sem primeiro serem aprovados pelo Senhor Ordinario» (946). Pelo mesmo teor transcrevem as Curiosidades de Guimarães, outros capítulos de visita com determinações idênticas, exaradas em várias freguesias da diocese de Braga (947). IV — Aos animais que iam na procissão pagã — urso, macaco, burro, cavalo — correspondem nas nossas cristãs os bovinos, ovinos e caprinos, sobretudo os primeiros, que nas romarias aos santuários e capelas dos montes acompanham a procissão ainda hoje. IV — Os emblemas e instrumentos de glória e do martírio que levavam os sacerdotes pagãos, lembram os que ainda hoje saem nas procissões cristãs, principalmente na do Enterro do Senhor, em sexta-feira santa, em que vão os cravos, coroa de espinhos e os mais objectos da crucificação, transportados por sacerdotes ou acólitos seus. Tanto nas procissões religiosas, como nos cortejos cívicos, o paganismo tirou grandes efeitos cénicos dos diversos colégios sacerdotais, pela variada indumentária policroma e simbologia iconográfica com que se apresentavam em grande número, alinhados com suas bandeiras e distintivos dos deuses que serviam e representavam. De todos os cortejos porém, o triunfo era um verdadeiro assombro de ostentação (948).

(945) BRAGA, Alberto Vieira — Curiosidades de Guimarães, 1937, p. 9. (946) Ibidem, p. 9, que diz haver copiado esta disposição do livro de Visitas da freguesia de Rendufe, que vai de 1615 a 1656. (947) Ver tomo IX, p. 339 e seg., 512; tomo X, p. 654, destas Memórias. (948) Ver RICH — Dict. des Antiquités Romaines et Grecques, artigo Triumphus. NIEPOORT — Rituum quiolim apud Romanos obtinuerunt, p. 418, onde vem uma gravura do triunfo.

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O cristianismo, que muito copiou dos formalismos e modalidades litúrgicas pré-cristãs, substituiu nas suas procissões os colégios sacerdotais pagãos pelos seus sacerdotes, irmandades, confrarias, irmãos terceiros e respectivas bandeiras, guiões, estandartes, pendões, insígnias, distintivos e agora, indo mais além, acrescentou aos Anjinhos as Crianças da Doutrina Cristã, as Crianças da Primeira Comunhão, as Crianças da Cruzada Eucarística, os Escuteiros, os Cadetes, as Benjaminas, as Filhas de Maria, etc., etc. Lá me parece muito mulherio e muito rapazio, pois, como diz a canção: Quem se finta em mulheres E delas faz cabedal Vai parar à sepultura E morrer ao hospital. E ainda o rifão: Quem com rapazes se deita, cagado se levanta. Mas... con su pan se lo coman. Todavia, é preciso ter cuidado, pois na decadência é que as festas religiosas dos romanos atingiram a maior pompa (949). P ROGNÓSTICOS — Apuleio fala no prognóstico tirado da luz da candeia, para saber se choverá no dia seguinte (950). Ver pág. 95. Em Baçal, quando a luz da candeia cria grande morrão com frequência, dizem que é sinal de chuva. Os romanos consideravam a águia como ave de bom agouro, prognosticando grandezas, prosperidades (951). RÃ, RAIO — É notável o espírito de observação científica do povo. Na pág. 96, artigo Rã, mencionamos a crendice de escarrar na boca de uma arraiela (rã verde), para curar da tosse. Os cientistas diziam que o sapo (pertence à família da arraiela) não tinha veneno, todavia vejo agora nos jornais (952), que Behringer, professor de Munique, descobriu esse veneno e suas propriedades tóxicas eficientes «na paralisia dos centros motores do cérebro e da espinal medula, sendo também empregado nas dores de dentes e contra o cancro». O Dr. Behringer termina por reconhecer que o povo tem razão, atribuindo veneno ao sapo. Temos pois aqui mais outra confirmação do que escrevemos na pág. 43.

(949) (950) (951) a 112. (952)

C ANTU, César — História Universal, tomo 3, p. 129. APULEIO — O Burro de Ouro, livro XI, p. 43. VITÓRIA , Baltasar de — Teatro de los dioses de la gentilidad, primeira parte, p. 103 A Voz, de 4-7-1944.

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RAIO — O mesmo espírito de observação popular se nota no raio. Na pág. 22, n.° 19, apontamos a crença popular no raio que após sete anos de jazida na terra, regressa às nuvens. Cantu (953), diz que os sacerdotes etruscos, segundo alguns historiadores afirmam, descobriram que o raio umas vezes caía das nuvens e outras partia da terra para as nuvens. SERPENTE (Culto da) — Ver pág. 102; tomo IX, págs. 324, 623, 624, 649, 712 e 717; tomo X, pág. 657. Também o culto da serpente vigora entre os pretos de Moçambique (954). S ONHOS — Sonhar que se é açoitado, degolado ou com tristezas que fazem chorar, anuncia sorte, fortuna; pelo contrário, sonhar com risos, comidas deliciosas, comezainas, amores, é indício de contrariedades e desgostos (955). O mesmo Apuleio, no livro XI, págs. 381, 401, 402, 405, 412 e 417, fala dos conselhos, avisos e mandados que a deusa Ísis lhe fazia em sonhos. T ABUS — São preceitos considerados religiosos ou supersticiosos que envolvem conceito de imoralidade para quem os transgride, atraindo, além disso, infortúnio sobre os transgressores (Cota, Mitologia, etc., págs. 96 e 208). A lista dos tabus observados pelos indígenas de Moçambique é grande e pode ver-se na obra citada, págs. 28, 44, 46, 73, 96, 185 e 208. Eis alguns: Assim entre eles é tabu: olhar para trás a mãe e a avó materna no regresso a casa, depois de terem ido praticar a cerimónia religiosa de mostrar à lua uma criança recém-nascida (obra citada, pág. 28); retirar dos sepulcros os vasos e utensílios do defunto, postos lá com mantimentos e serviços para a vida de além-campa (idem, pág. 46); cortar certas árvores (idem, pág. 73); uma mulher grávida, olhar para certas coisas e comer banana; o pai dum recém-nascido vê-lo e tomá-lo nos braços antes de se praticarem certos ritos (idem, pág. 96); casamentos ligados por endogamia e exogamia. Por aqui se vê que muitos tabus se relacionam com as nossas crendices e agouros, págs. 14 e segs., 21 e 26; tomo II, págs. 149 a 151; tomo IX, pág. 315; tomo X, pág. 634. Também pelo totemismo, de que ainda tantos vestígios se encontram entre nós, se pode explicar a lenda das famílias de origem cavalar, mencionada na pág. 267.

(953) CANTU — História Universal, tomo 2, p. 20. (954) C OTA, J. Gonçalves — Mitologia e Direito Consuetudinário dos indígenas de Moçambique, p. 70, 84 e seguintes. (955) APULEIO — O Burro de Ouro, livro, IV, p. 129.

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T OTEMISMO — Ver págs. 83 a 85; tomo IX, págs. 306, 324 e segs. e 550; tomo X, pág. 643. No tomo IX, pág. 550, definimos totemismo menos amplamente, segundo o pré-historiador Carvalho. Trabalhos, porém, mais recentes, dão-lhe maior âmbito e assim «totem, segundo G. Frazer, citado por Cota, Mitologia, etc., pág. 184, é uma classe de objectos materiais venerados supersticiosamente e temidos pelo selvagem, que julga existir entre si e cada um dos membros dessa classe de objectos relações íntimas e muito especiais. Esta crença tem levado muitas gerações de indígenas a suporem-se, não só descendentes de certos animais, plantas, seres inanimados e até de forças naturais, mas a julgarem também que, após a morte, cada indivíduo se integrará no animal, planta, coisa ou força, objecto do seu totem». Ver também pág. 193. VARINHA DO CONDÃO — Nas págs. 15, n.os 8 e 38, e 143, falamos na sorte de adivinhar com varas, que vem a ser a varinha do condão (956). Esta adivinhataria supersticiosa antiquíssima, já se refere a Bíblia (957). As varas eram feitas de loureiro ou de taray, árvores consagradas a Apolo, que era o deus da arte de adivinhar (958). Para isso escreviam numa vara o nome da pessoa ou da coisa que queriam saber e na outra o contrário; atiravam-na depois ao ar, e a que ficava por cima indicava se havia ou não tesouro; amor, indiferença ou ódio da pessoa visada na consulta; triunfo ou derrota na guerra, batalha ou luta em perspectiva; e no mais por este teor. O processo adivinhatório da varinha do condão equivale, no fundo, à revoltante ignorância do chamado Juízo de Deus, tão empregado na Idade Média, como meio judicial de descobrir a verdade, recorrendo, para isso, ao duelo, ao ferro candente, como indicam os forais bragançanos de Ansiães, Freixo de Espada à Cinta, Urros, Santa Cruz da Vilariça e outros (959). No mesmo género de estupidez monstruosa, causadora de incomensurável quantidade de crimes, filia-se o processo adivinhatório da sorte, tão falado na Bíblia (960), e ainda hoje vigora em terras africanas (961), onde um juiz boçal (régulo), na impossibilidade de descobrir, entre dois acusados, qual é o verdadeiro criminoso, os manda lançar ao rio, onde o crocodilo devora o primeiro que alcança, sendo, portanto, este o verdadeiro réu. Porém, se os come a ambos, é que a responsabilidade era igual.

(956) (957) (958) (959) (960) (961)

Ver tomo IX, p. 631, destas Memórias, onde tratamos dela. Ezequiel, cap. 21, v. 19 e 21; Oseias, cap. 4, v. 12. VITÓRIA, Baltasar de — Teatro de los dioses..., etc. 1737, p. 601. Ver tomo IX, p. 398, destas Memórias. Ver p. 103, deste volume das Memórias. COTA — Mitologia..., p. 75.

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Da mesma forma procede o feiticeiro, fazendo ingerir aos acusados avultada dose de veneno. Neste género são horrorosos os morticínios perpetrados por Vinho (962). Taray é o nome em espanhol da planta donde se cortam as varinhas do condão. Descrevendo-a, diz Frei Baltasar de Vitória, abaixo citado: «Taray é o mesmo que Tamariz, correspondente a mircea ou mirica em latim. Nasce nas margens dos rios e lugares húmidos, é infrutífera, todavia muito medicinal, com aplicações contra a icterícia e, aplicada em cozimento, mata as pulgas e os piolhos; para cura da icterícia (963) e morte dos piolhos e pulgas, borrifados com água do seu cozimento. Para cura da icterícia, também dá bom resultado beber água por vasos feitos de madeira de Taray» (964). Bolufer (965), publica a gravura do taray e define-a como planta dicotiledónea, de folhas ásperas, flores brancas ou rosáceas e fruto como a bolota do carvalho com muitas sementes dentro. Há duas espécies de taray ou tamariz: uma silvestre, infrutífera, e outra frutífera. A taray produzida no Egipto, atinge grande altura e corpulência; entre nós fica-se em pequeno arbusto, segundo afirma Calepinus (966). A par destas notícias cheias de flagrante actualiTaray dade, descreve Apuleio (967), perversões com requintes de minúcia que diríamos pornográfica, se a Sagrada Escritura (968) não tivesse relatado outros que tais episódios lúbricos de bestialidade, molície e quejandos vícios, antecipando-se-lhe, portanto, até na primazia de fornecer os nomes de Sodoma e Onan para caracterizar esses vícios. Na pág. 249, dissemos que vários autores de fama mundial, tinham ido à lenda popular buscar os mais lindos episódios de suas obras e agora lembramos que Apuleio seguiu o mesmo caminho, intercalando nesta sua obra

(962) COUTINHO, Filipe de Moura — Mosaico Moçambicano, 1943, p. 9 e seg. (963) Em Baçal e noutras terras bragançanas ainda hoje aconselham os hepáticos a irem passear para as margens dos rios, a fim de curarem a icterícia, devido talvez ao taray nelas produzido. (964) VITÓRIA, Baltasar de — Teatro de los dioses..., tomo I, p. 601. (965) Diccionario enciclopédico ilustrado de la lingua española, 1931, artigo «Taray». (966) CALEPINO — Lexicon Latinum, artigo «Tamarix». (967) APULEIO — O Burro de Ouro, p. 89, 357 e 358. (968) Génesis, 19, 4 a 10; 38, 9; Levítico, 18 e 20; Juízes, 19, 22 e seg. Os livros de Isaías e Ezequiel neste particular são um assombro. Ver sobretudo o capítulo 23 de Ezequiel.

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contos populares, como ele próprio confessa (969), estendendo-se alguns por dezenas e dezenas de páginas. Sob este ponto de vista, O Burro de Ouro, é um autêntico tratado de etnografia referente aos costumes romanos do seu tempo. Na pág. 38 e seguintes, dissemos da importância das lendas populares, que, embora «desprezadas pela soberba filosofia dos néscios, (fornecem) aos observadores não vulgares, elementos para estudar os homens, as nações e as idades» (970). Por isso o mesmo autor diz na pág. 132: «é que os filósofos são muito mais loucos do que os poetas; e de mais a mais, tontos». E na pág. 165, completando o sentido do seu conceito, acrescenta: «Nós (os intelectuais), que somos a prosa vil da nação, nós não entendemos a poesia do povo; nós, que só compreendemos o tangível dos sentidos, nós somos estranhos às aspirações sublimes do senso íntimo que despreza as nossas teorias presunçosas, porque todas vêm de uma acanhada análise que procede curta e mesquinha dos dados materiais, insignificantes e imperfeitos; enquanto ele, aquele senso íntimo do povo, vem da razão divina e procede da síntese transcendente, superior, inspirada pelas grandes e eternas verdades que se não demonstram porque se sentem». Sobre o assunto diz Cantu: «O vulgo adorava e não discorria; os que discorriam, teriam querido concordar a razão com a fé; é por isso que desde Ferecides e Heráclito até ao imperador Juliano, os espíritos se aplicaram a procurar nos mitos interpretações filosóficas. Os estóicos explicavam materialmente os símbolos e as religiões: Evehemero não via nos deuses senão grandes homens colocados no Olimpo; os que defendiam o politeísmo, reduzido à extremidade pelo cristianismo, pretendiam achar na mitologia os mistérios de uma sabedoria sublime. Alguns modernos, prosseguindo nesta investigação, consideraram os mitos como factos históricos alterados (971); outros não reconheceram neles mais do que símbolos astronómicos (972); Bacon aí descobriu germes ocultos da doutrina moral e social (973); Vico, as primeiras concessões da razão, os frutos vernais da imaginação, os princípios da ordem social, encobertos debaixo de ficções severas e de formas sensíveis (974). Outros viram neles um conjunto de conhecimentos físicos, representados debaixo da forma de alegorias; alguns, um simples jogo da fantasia.

(969) (970) (971) (972) (973) (974)

G ARRETT, Almeida — Viagens na minha terra, 1846, tomo 2.°, p. 46. Ver páginas 125,129 a 199 e 296. BANIER — La Mythologie et les fables expliquées par l’histoire. DUPUIS — Origine de tous les cultes. BACON — De Sepientia veterum. VICO — Constancia jurisprudentis.

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TABAR

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Todos se enganam, por serem exclusivos. A mitologia é, a nosso ver, uma das formas mais ricas da tradição da humanidade, abrangendo em duas grandes ramificações os sucessos antigos e as antigas crenças. Oferece-nos ela uns restos do mundo primitivo, deixados para continuar as religiões ou para começar a história; mas nós a vimos sair de elementos tão heterogéneos, as nuvens que a envolvem têm por tantas vezes mudado de aspecto, conforme a posição e as paixões dos que as contemplavam, que, em nossa convicção, para nenhum povo poderia ela oferecer uma concordância razoável; é por isso que só por fragmentos procura-mos ajudar-nos dela para traçar a história dos tempos obscuros» (975). Sobre o fim moralizador da fábula pagã, ver Frei Baltasar de Vitória (976).

T TABAR (Maurice), engenheiro. Escreveu: Relatório elaborado por incumbência de Álvaro Augusto Dias, quando este industrial tentou implantar a electro-siderurgia na região de Bragança. Vem citado por Rodrigues (Adriano) — ver este nome — in O Problema Nacional do Ferro, 1941, pág. 25. TABORDA DE MORAIS (Artur Augusto), Doutor, Professor de Botânica da Universidade de Coimbra, nasceu em Avidagos, concelho de Mirandela a 4 de Junho de 1900, filho de Manuel Inácio de Morais e de D. Francisca Rosa Taborda. Fez os estudos liceais e universitários, com distinções. Professor assistente da Universidade de Coimbra em 1935, passou a professor auxiliar contratado em 1938. Nos Anuários da Sociedade Broteriana, desde 1936 por diante, encontram-se estudos publicados pelo Dr. Taborda de Morais, sobre diversos assuntos botânicos, destacando-se os consagrados à flora portuguesa, em que abundam notícias interessantes sobre a trasmontana e Árvores Notáveis de Portugal. Publicou: Curriculum Vitæ de Artur Taborda de Morais. Coimbra, 1940. 16 págs. Notícia sobre a vida e a obra do Prof. Gonçalo Sampaio, 1937. 22 págs. É separata do Boletim da Sociedade Broteriana. Novas áreas da Fitogeografia portuguesa. 1940. 46 págs. Separata do referido Boletim.

(975) CANTU, César — História Universal, tomo I, p. 270. (976) VITÓRIA, Baltasar de — Teatro de los dioses de la gentilidad, primeira parte, p. 309, 371 e 431; tomo 2, p. 89.

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TABORDA

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TABORDA (Dr. Vergílio Guerra). Tomo VII, pág. 795. Publicou: Alto Trás-os-Montes — estudo Geográfico. Coimbra, 1932. 8.° de XI-224+1 pág. com várias fotogravuras, mapas e cartas desdobráveis. É a dissertação de doutoramento na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra (ciências geográficas). O Dr. Vergílio Guerra Taborda, morreu em Coimbra, a 1 de Abril de 1936 e veio enterrar a Freixo de Espada à Cinta. TAVARES (José Augusto), abade de Carviçais, tomo VII, pág. 545. Morreu em Carviçais, tendo passado os últimos anos da sua vida completamente cego, a 10 de Abril de 1935. A propósito deste ilustrado bragançano diz o Dr. Santos Júnior (977): «O padre José Augusto Tavares, abade de Carviçais, possuidor duma colectânea de mais de 2000 quadras populares trasmontanas (é pena não serem publicadas), é autor de várias notas folclóricas». O abade Tavares, foi a Roma na peregrinação do Ano Santo em 1925, juntamente com o agora cónego e reitor do Seminário de Vinhais Manuel Joaquim Cardoso e os párocos de Bruçó, Mogadouro, Duas Igrejas e Miranda do Douro e cantou em poemeto publicado nas Novidades, as suas impressões de viagem. Abrange sete capítulos: 1.° — O Jubileu; 2.° A Partida; 3.° — Em Portugal; 4.° — Em Espanha; 5.° — Em Itália; 6.° — Em Roma; 7.° — Regresso. Também o referido cónego escreveu em prosa as suas impressões de viagem num manuscrito que me ofereceu e depositei no Museu de Bragança. TEIXEIRA (P.e António), tomo VII, pág. 550. Faleceu em Bragança a 28 de Maio de 1943. TEIXEIRA (António José), tenente-coronel, comandante do Regimento de Infantaria N.° 10, da guarnição de Bragança. Tomo VII, págs. 550 e 795; tomo VIII, pág. 116. Publicou mais: A topografia ao alcance de todos. Porto, 8.° pequeno de 164 págs.+5 inumeradas. Não indica o ano da impressão, mas saiu em 1932. É ilustrada com gravuras. O Castelo de Bragança, notas histórico-descritivas. Lisboa, 1933, 4.° de 29 págs. e 1 de registo. Contém 24 gravuras, muito interessantes, de monumentos de Bragança. TEIXEIRA (D. António Maria), bispo de Meliapor. Completando os pequenos dados biográficos que a seu respeito exaramos no tomo VII, pág. 551,

(977) SANTOS JÚNIOR — As telhas do teu telhado, 1933, p. 2, em nota.

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TEIXEIRA

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acrescentamos: Nasceu em Ligares, concelho de Freixo de Espada à Cinta, a 11 de Maio de 1875, e faleceu em Meliapor em meados de Março de 1933. Recebeu a ordem de presbítero na Índia, para onde fora aos dezasseis anos, a 8 de Junho de 1902. Foi nomeado prelado da Sua Santidade, bispo titular de Sinda e coadjutor de Meliapor a 13 de Junho de 1928, sendo sagrado a 7 de Outubro do mesmo ano e sucedeu no governo da diocese a D. Teotónio Vieira de Castro, quando este foi promovido a arcebispo de Goa e patriarca das Índias. Foi importante a sua obra de missionário. Escreveu: Moral Science Hand-Book of Moral Education and formation of character for use in school home and college au Common religions basis the existence of God (Especially adapted for schools in India). Madras, 1917, 8.° de XXII-341 págs. Moral Science for Hic H. Schools a new text-book of moral instruction and development of character on a common basis. Madras, 1920, 8.° de XXV-256 págs. TEIXEIRA (José Eugénio), padre e doutor. Tomo VII, pág. 551. Faleceu em Bragança, a 26 de Abril de 1941. Deixou a sua fortuna, relativamente avultada para o meio bragançano, repartida pela Santa Casa da Misericórdia de Bragança, Conferência de S. Vicente de Paulo, da mesma cidade, e seminário diocesano. TEIXEIRA (Luís António de Sá Macias), doutor em medicina pela Universidade do Porto, tenente-médico, nasceu em Bragança a 7 de Setembro de 1904, filho do coronel António José Teixeira, mencionado no artigo respectivo e de D. Alexandrina Amélia do Carmo Macias Teixeira. Fez os estudos liceais em Bragança e os de medicina no Porto, onde os concluiu, com distinção, em 1927. Médico militar em 1929, tendo antes exercido o cargo de médico da Assistência Nacional aos Tuberculosos, gratuitamente. Fez o curso de Medicina Sanitária em 1928 e é agora médico do Batalhão n.° 3 da Guarda Fiscal, com sede no Porto e director clínico da Casa dos Pobres no Porto, desde a sua fundação, em 1932. Laureado em 1940 com o Prémio Almirante Augusto Osório. Tem colaborado no Porto Académico, Diário de Notícias, Trás-os-Montes e Revista Militar. Escreveu: Novos materiais para o estudo antropológico dos trasmontanos, extracto do Arquivo da Repartição de Antropologia Criminal, Psicologia Experimental e Identificação Civil do Porto. Vol. II, fasc. 1.°-2.° — 1932, 8.° de 6 págs., de colaboração com o Dr. Luís de Pina. A transfusão de sangue e o problema dos dadores no exército. Conferência realizada no Hospital Militar Principal do Porto, no dia 29-V-1935. Porto, 1935, 8.° de 28 págs. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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Os Serviços de Saúde nas tropas de cavalaria. 1934. O Perigo Aero-Químico, conselhos às populações civis. Porto 1940, 8.° de 91 págs., com muitas gravuras. O Serviço de Saúde Divisionário. Lisboa, 1942, 8.° de 49 págs. O Serviço de Saúde (S. S.) na Defesa CiviI do Território (D. C. T.) (contribuição para o estudo da sua organização), separata do Jornal do Médico. Porto, 1943, 8.° de 19 págs. Estudos Demográficos e serviço militar, 1944, 8.° de 6 págs. Separata do Jornal do Médico. TEIXEIRA (D. Maria Guilhermina da Cunha Lima), filha do nosso Mecenas, Dr. Raul Manuel Teixeira. Tomo VII, pág. 553, casou a 21 de Setembro de 1935, na igreja de Santa Clara, em Bragança, com o médico Dr. Francisco Garcia, natural de Rabal. TEIXEIRA (D. Maria Alice da Cunha Lima), irmã da precedente. Tomo VII, pág. 553. Casou em Bragança, na igreja de Santa Clara, a 29 de Setembro de 1934, com o tenente-engenheiro João Guardiola, natural de Bragança. TEIXEIRA (D. Maria Sofia de Lourdes da Cunha Lima). Tomo VII, págs, 553 e 775. Casou em Bragança, a 22 de Janeiro de 1942, com José Manuel Rodrigues, filho do Dr. Daniel José Rodrigues (ver vol. VII, pág. 453) e de D. Júlia Sofia Borges Barreira (ver vol. VI, pág. 398, destas Memórias), sendo o autor destas linhas celebrante do matrimónio. TEIXEIRA (Raul Manuel). Vai adiante no Suplemento. TEIXEIRA (Salvador Nunes), coronel. Ver tomo VII, pág. 683. Nasceu em Sernache do Bom Jardim, a 31 de Agosto de 1892, filho legítimo de Inácio José Teixeira e de D. Maria da Conceição Nunes. Foi Governador Civil do distrito de Bragança, desde 2 de Fevereiro de 1933 até fins de Novembro de 1940. Desde que tomou conta da gerência do cargo até 8 de Agosto de 1937, despendeu o Governo em melhoramentos no distrito de Bragança, 20.307.946$47, devendo ser ainda muito maior a quantia gasta no período seguinte. Segue a lista das povoações beneficiadas: Abreiro: Águas. — Agrabom: Ruas (978), águas, escola feita de novo. — Ala: Ruas, escola (979). — Aldeia Nova: Águas. — Alfândega da Fé: Ruas, lava-

(978) Quando escrevo simplesmente ruas, entende-se calcetamento das mesmas. (979) Quando escrevo simplesmente escola, entende-se reparos nas mesmas.

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douro feito de novo, reparo de estradas, subsídio ao hospital. — Algosinho: Ruas. — AIgoso: Escola. — Alimonde: Escola. — Alvaredos: Escola. — Alvites: Construção de troço de estrada a ligar à de macadame, águas. — Amendoeira: Escola feita de novo. — Angueira: Escola. — Arcas: Escola. — Argozelo: Águas. — Areias (concelho de Carrazeda de Ansiães): Águas, escola. — Arnal (concelho de Carrazeda de Ansiães): Águas (980). — Assares: Escola feita de novo. — Atenor: Águas. — Avelanoso: Águas, escola feita de novo. — Aveleda: Ruas, ramal de estrada. — Azinhoso: Águas, escola, cemitério (981). Babe: Escola. — Baçal: Ramal de estrada. — Beira Grande: Escola, águas. — Benlhevai: Escola, ruas. — Bemposta: Águas, ramal de estrada. — Biduedo: Águas. — Bornes: Estrada para Mirandela. — Bouça: Estrada para Vale Telhas, águas. — Bragada: Pontão de novo, cemitério de novo, escola. — Bragança: Grandes reparos no castelo, museu, liceu, ruas da cidade, matadouro feito de novo. Idem: quatro escolas primárias, um celeiro e vinte e quatro casas económicas. Reconstrução do edifício do Governo Civil, ramal de estrada ao matadouro, águas, dispensário médico. — Brinço: Águas. — Brito de Baixo: Águas. — Bruçó: Ramal de estrada, escola, águas. — Brunheda: Ramal de estrada, escola. — Brunhoso: Ruas, cemitério. — Brunhosinho: Águas escola, estrada. — Cabanelas: Águas. — Cabanas de Baixo e Foz do Sabor: Cemitério feito de novo. — Cabeça de Igreja: Águas, escola. — Caçarelhos: Águas. — Cachão: Celeiro de novo. — Calejo: Trabalhos sobre este ribeiro do concelhos do Vimioso. — Calvelhe: Ramal de estrada, escola. — Campelos: Águas. — Campo de Víboras: Escola, águas. — Candedo: Escola. — Candoso: Ramal de estrada, escola feita de novo, águas, ruas. — Carção: Águas, escola, regularização do Ribeiro. — Cardanha: Águas, ruas. — Carrapatas: Águas, ruas. — Carrapatosa: Águas. — Carrazeda de Ansiães: Posto hospitalar. — Carvalho de Egas: Escola, águas. — Carviçais: Celeiro de novo, cemitério de novo, ruas, casas do povo, minas. — Castanheira (Mogadouro): Ruas. — Castanheiro: Águas, escola. — Castedo: Escola, cemitério feito de novo. — Castelãos: Ruas. — Castelo Branco: Ruas. — Castrelos: Escola. — Castro de Avelãs: Escola, restauro da igreja paroquial. — Castro Vicente: Águas, escola, cemitério. — Celas: Ruas. — Cércio: Águas. — Cerejais: Ruas, escola de novo. — Cidães: Águas. — Coelhoso: Ruas. — Coleja: Escola. — Conlelas: Escola. — Constantim: Escola. — Cortiços: Águas. — Donai: Escola. — Duas Igrejas: Águas. — Edrosa: Ramal de estrada a Vinhais. — Edroso: Águas. — Especiosa: Escola. — Espinhoso: Águas, escola. — Espinhosela: Águas, escola, cemitério feito de novo. — Espadanedo: Escola, águas. — Eucísia: Celeiro de novo (caminho vicinal a ligar à estrada). —

(980) Quando escrevo simplesmente águas, entende-se abastecimento das mesmas. (981) Quando escrevo simplesmente cemitério, entende-se reparação do mesmo.

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Felgar: Escola. — Felgares (Vila Flor): Águas, cemitério feito de novo. — Felgueiras (Moncorvo): Escola, ruas, águas. — Ferradosa (Alfândega): Escola, águas, ruas. — Ferradosa (Mirandela): Escola, ruas. — Ferreira (Macedo): Águas. — Figueira (Mogadouro): Escola, ramal de estrada. — Fiolhal: Águas. — Fonte de Aldeia: Águas. — Fonte Ladrão: Cemitério — Fonte Longa: Águas, ruas. — Fontes Transbaceiro: Escola, ramal de estrada utilizável também para Zeive, águas. — Fontes Barrosas: Escola. — Fornos de Ledra: Escola, águas. — Formil: Águas. — Franco: Escola. — Frechas: Escola feita de novo. — Freixiosa: Águas. — Freixo de Espada à Cinta: Escola, águas, hospital, ramal de estrada à estação do caminho-de-ferro, restauro da igreja paroquial, cais de embarcadouro no Douro para Barca de Alva, construção dos Paços do concelho. — Freixeda (Mirandela): Águas, escola feita de novo. — Freixeda (Bragança): Cemitério, fonte de novo. — Freixiel: Escola feita de novo, ruas, ramal de estrada. — Fresulfe: Fonte. — Frieira: Ponte, águas. — Gebelim: Escola, ruas. — Genísio: Escola feita de novo, águas. — Gimonde: Escola, ponte sobre o rio de Igrejas, águas. — Golfeiras (Mirandela): Águas. — Granja: Águas. — Grijó de Parada: Igreja. — Grijó de Vale Benfeito: Águas. — Guadramil: Ponte feita de novo. — Guide: Águas. — Horta: Escola, obras no seu termo. — Ifanes: Águas, cemitério, estradas. — Intendências de Pecuária de Bragança, Miranda e Mirandela. Dotações. — Izeda: Escola, estrada à ponte de Remondes, águas, ponte sobre o Sabor entre Izeda e Santulhão. — Lagoinha (Alfândega da Fé): Águas. — Lagoa: Ramal de estrada que aproveita também a Morais, águas. — Lagoaça: Águas. — Lagomar: Escola. — Lamas de Podence: Ramal de estrada, águas. — Lavandeira: Escola. — Ligares: Escola feita de novo, águas. — Limãos: Águas. — Linhares: Escola, ruas, pontão de novo, ramal de estrada. — Lodões: Águas. — Lombo: Escola, águas. — Lousa: Escola, ramal de estrada, ruas. — Macedo de Cavaleiros: Escola, quatro celeiros feitos de novo, cobertura do ribeiro que passa na vila, águas. — Macedo da Mato: Ponte sobre o ribeiro de Sanceriz, águas. — Macedo do Peso: Escola. — Malhadas: Escola, águas. — Marzagão: Águas. — Mascarenhas: Escola, águas, ramal de estrada aos Avantos. — Matela: Escola. — Mazouco: Escola, águas. — Meireles: Escola feita de novo. — Meirinhos: Escola feita de novo, ruas. — Meixedo: Escola. — Meles: Águas. — Miranda do Douro: Escola, ramal de estrada, reparos na Sé, nos Paços do Concelho, celeiro feito de novo, rede de esgotos e aqueduto. — Mirandela: Escola, águas, edifício dos correios feito de novo, bem como três celeiros. — Misericórdias do distrito de Bragança, todas com boas dotações. — Misquel: Águas, caminhos. — Mofreita: Escola. — Mogadouro: Águas, celeiro feito de novo, central eléctrica, obras na igreja. — Mogo de Malta: Águas. — Moimenta: Águas, reparos na ponte. — Moncorvo: Reparos na igreja matriz, celeiro feito de novo, ruas, ramal de estrada, biblioteca, edifício para tribunal, registo civil, conservatório feito de novo, escola, arborização da serra do Reboredo, cultura e caminhos na MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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mesma, águas, electrificação, edifício para secção de turismo. — Montouto: Águas. — Montesinho: Arboricultura da serra entregue ao regime florestal. — Morais: Águas (Ver Lagoa). — Mós de Rebordãos: Escola. — Murçós: Águas. — Muredó: Cemitério feito de novo. — Nabo: Escola, cemitério. — Navalho: Águas. — Nogueira: Serra entregue ao regime florestal, reparo de estradas e caminhos, águas. — Nozedo de Cima: Águas, escola. — Nozedo de Baixo: Águas. — Ousilhão: Escola feita de novo, águas. — Outeiro: Escola feita de novo, reparos na igreja, celeiro feito de novo, águas. — Paçó (Mogadouro): Águas. — Paçó de Outeiro: Águas, ruas. — Paçó de Sortes: Escola. — Paçó de Vinhais: Águas. — Palaçoulo: Águas, estrada. — Palancar: Águas. — Parada de Infanções: Escola, ruas. — Parada (Alfândega da Fé): Águas, ruas. — Paradela (Carrazeda de Ansiães): Ramal de estrada: — Paradela (Miranda): Escola, águas, igreja erguida de novo por ter caído devido a um incêndio. — Paradinha Nova: Águas. — Parambos: Estrada. — Parâmio: Escola, águas. — Paredes: Escola. — Penacal: Reparos na ponte. — Penas Roias: Escola, águas. — Penhas Juntas: Escola. — Pereira (Mirandela): Águas. — Pereiros (Carrazeda): Trabalhos sobre a ribeira do Fojo. — Pereiros (Bragança): Ponte feita de novo. — Peredo (Macedo): Águas. — Peredo da Bemposta ou dos Cavaleiros: Águas, cemitério. — Peso: Águas. — Picões: Águas. — Picote: Ramal de estrada. — Pinela: Ramal de estrada. — Pinelo: Águas. — Pinhovelo: Ramal de estrada, ruas. — Pombal (Carrazeda de Ansiães): Escola, água, ruas. — Poiares: Águas. — Póvoa: Cemitério. — Póvoa e Genísio: Caminho de serventia para estas duas povoações. — Prado Gatão: Águas. — Quebradas (Quinta das, Mogadouro): Cemitério. — Quintanilha: Ramal de estrada, casa da alfândega feita de novo na ponte internacional, cemitério feito de novo, ponte sobre o ribeiro. — Quintas (Milhão): Águas. — Quintela (Bragança): Cemitério feito de novo. — Quintela (Vinhais): Águas. — Rebordelo: Escola, águas. — Remondes: Escola, ruas. — Ribalonga: Escola. — Ribeirinha: Cemitério. — Rio Frio de Outeiro: Escola, águas. — Rio de Onor: Ramal de estrada. — Roças: Celeiro feito de novo. — Romeu: Ramal de estrada, celeiro feito de novo, águas. — Sacoias: Ponte feita de novo sobre o ribeiro de Igrejas. — Saldonha (Alfândega): Ramal de estrada, águas. — Saldanha (Mogadouro): Cemitério. — Salgueiros: Ramal de estrada para Gestosa e Seixas. — Salsas: Águas. — Salselas: Escola. — Sambade: Águas, reparos na igreja paroquial, ruas, cemitério feito de novo. — Samões: Ruas, obras na igreja paroquial. — Samorinha: Águas, ruas. — Sanhoane: Águas, ruas. — Santa Comba da Vilariça: Águas, ruas, ramal de estrada ao Cachão. — Santa Combinha (Macedo): Escola feita de novo. — Santa Cruz: Águas. — Santa Justa: Ruas. — Santalha: Escola. — Santulhão: Escola, águas. — Sanceriz: Reconstrução de uma ponte. — São Tiago (Mogadouro): Águas. — São Jomil: Escola, águas. — São Martinho de Angueira: Ramal de estrada, águas. — São Martinho do Peso: Águas, ruas, cemitério, pontão feito de novo. — São Pedro dos Sarracenos: Escola. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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— São Pedro do Vale do Conde: Escola. — Sardão (Alfândega): Águas. — Selores: Águas, ramal de estrada ao Seixo. — Seixas: Águas, ramal de estrada. — Seixo: Águas (Ver Selores). — Sendas: Ramal de estrada. — Sendim (Miranda): Águas. — Sendim da Ribeira: Águas, ruas. — Sendim da Serra: Águas. — Sesulfe: Escola, águas. — Silhade (Moncorvo): Trabalhos sobre a ponte. — Sobreiro de Baixo: Águas. — Sobreiro de Cima: Águas. — Soeima: Águas. — Soeira: Águas. — Sortes: Águas. — Soutelo da Gamoeda: Escola, ramal de estrada. — Soutelo (Mogadouro): Escola, ruas, cemitério. — Talhas: Águas. — Talhinhas: Águas, cemitério. — Tó: Escola, ruas, águas, ramal de estrada. — Torre de Dona Chama: Trabalhos na estrada, águas. — Travanca (Mogadouro): Escola, águas. — Travanca (Macedo): Águas. — Travanca (Vinhais): Escola. — Trindade: Águas. — Tua: Trabalhos na estrada. — Tuizelo: Águas. — Urros: Ramal de estrada, águas. — Urrós: Escola, águas, cemitério. — Uva: Escola. — Vale Benfeito: Escola feita de novo. — Vale de Águia: Águas. — Vale Certo: Águas. — Vale de Couço: Águas. — Vale das Fontes: Escola. — Vale de Lamas: Águas. — Vale Frechoso: Escola, águas, ruas, construção da casa do povo. — Vale da Madre: Águas. — Vale de Miro: Águas. — Valpaços (Vinhais): Águas. — Vale Pereiro (Alfândega): Escola, ruas, águas, canalização da ribeira de Vale Pereiro, ponte de novo sobre esta ribeira. — Vale da Porca (Macedo): Escola feita de novo, águas. — Vale de Porca (Mogadouro): Águas, ruas, cemitério; — Vale de Prados: Águas. — Vale de Pradinhos: Águas. — Valtorno: Águas, ruas. — Valverde (Alfândega): Escola feita de novo, águas. — Varge: Ramal de estrada. — Ventozelo: Águas, cemitério, ramal de estrada, escola. — Vila de Ala: Águas, ruas, ramal de estrada, cemitério. — Vila Boa (Bragança): Ponte sobre o ribeiro deste povo. — Vila Boa (Mirandela): Escola. — Vila Chã de Braciosa: Escola, águas. — Vila Franca: Escola, cemitério feito de novo. — Vila Flor: Paços do concelho feito de novo, ruas, águas, lavadouro, celeiro feito de novo, capela e ossário no cemitério, casa do povo, hospital, novo bairro. — Vila dos Sinos: Ruas. — Vila Nova (Bragança): Escola feita de novo, ponte. — Vila Nova das Patas: Ramal de estrada a Vale de Salgueiro, águas. — Vila Verde (Vinhais): Águas. — Vilar Chão (Alfândega): Ruas, águas. — Vilar de Lomba: Escola, águas. — Vilar de Peregrinos: Escola. — Vilar de Rei: Ramal de estrada. — Vilar Seco de Lomba: Águas. — Vilarelhos: Escola, ruas. — Vilariça: Ponte sobre esta ribeira. — Vilares da Vilariça: Ruas. — Vilarinho das Azenhas: Escola feita de novo, ruas. — Vilarinho de Agrochão: Águas. — Vilarinho da Castanheira: Escola, ramal de estrada, ruas. — Vilarinho dos Galegos: Ruas, águas. — Vilas Boas (Vila Flor): Ruas. — Vimieiro: Águas. — Vimioso: Escola, águas, cobertura do ribeiro do Calejo.— Vinhas: Lavadouro feito de novo, ruas. — Vinhais: Dotação para obras do hospital, água, lavadouro, ruas, calcetamento do Bairro de Eiró. — Zava: Ruas. — Zedes: Ruas, ramal de estrada, águas. — Zoio: Águas, ramal de estrada. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Para alguns destes melhoramentos contribuíram também as corporações administrativas e as populações interessadas, sendo o Estado comparticipante nas despesas (982). Em 1934, criaram-se os seguintes postos de ensino: Macedo do Mato, Paradinha do Outeiro, Paçó de Outeiro, Paradinha Nova, Refega, Picões, Colmeais, Pombal, Sendim da Serra, Campelos, Samorinha, Brunheda, Especiosa, Aldeia Nova, Freixiosa, Cicouro, Águas Vivas, Fonte de Aldeia, Prado Gatão, Bronceda, Variz, Santiago, Zava, Cabeça de Mouro, Macieirinha, Nozelos, Arco, Lodões, Alagoa, Vale de Serapicos (freguesia de Vale de Frades), Cerdedo, Seixas, Rio de Fornos, Sendim (freg. de Edral), Montesinho (freg. de França). E criaram-se cursos nocturnos para adultos em Sambade, Bragança (Santa Maria e Sé), Alfaião, Outeiro, Parada (concelho de Bragança), Peredo (Macedo), Mirandela, Mogadouro, Peredo (Mogadouro), Peredo (Moncorvo), Caropos e Quirás. Em 1935 criaram-se as escolas de Carviçais (masculina e feminina), Zava (mista), Saldonha (mista) e Vilar de Lomba, os postos de ensino de Felgueiras (Alfândega da Fé), Saldonha, Sardão, Petisqueira, Vila Nova (Bragança), Freixedelo, Penafria, Luzelos, Gradíssimo, Valdrez, Teixeira, Granja, Vila Verdinho, Vale de Madeiro, Sampaio (Azinhoso), Lamoso, Castanheira (Mogadouro), Quinta das Quebradas, Algosinho, Vila dos Sinos, Cabanas de Cima, Junqueira (Vimioso), Vila Chã, Negreda, Melhe, Pinheiro Velho, Edroso, Penso, Vilar de Lomba, Cidões, Ermida e Moar. Também no ano de 1935 se iniciaram as obras de restauro na Sé de Miranda do Douro e no ano seguinte as do Museu de Bragança, Castro de Avelãs, Santo Cristo de Outeiro e Freixo de Espada à Cinta. Em 1936, criaram-se postos de ensino em Fermentãos, Vale de Juncal, Ribeirinha (Mirandela), Cisterna e Sarzeda. Em 1937, criaram-se os postos de ensino de Eivados, Vila Nova (Sambade), Labiados, Alvaredos, Póvoa (Adeganha), Brito (Penhas Juntas) e ensinos nocturnos nas escolas de Vilarelhos, Failde, Quintanilha, Bornes, Avidagos, Freixeda (Mirandela), S. Pedro de Vale de Conde, Vilarinho dos Galegos, Urrós, Lousa, Argozelo, Agrochão, Ervedosa, Moimenta, Ousilhão, Rebordelo, Nuzedo de Cima, Vinhais, Fontes, Barrosas e Quintela (Vinhais).

(982) Ver Terras de Bragança, de 19 de Fevereiro de 1934; 7 de Março de 1935; 20 de Fevereiro de 1936 e 20 de Fevereiro de 1937; 1, 10 e 20 de Fevereiro, 10 de Março e 1 de Outubro de 1938; 20 de Fevereiro, 10 de Abril, 20 de Junho, 20 de Julho e 1 de Novembro de 1939 e 10 de Novembro de 1940, onde se explanam completamente as obras realizadas, bem como no Diário do Governo desta época.

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Também no ano de 1937 se entregaram 24 casas do Bairro Económico, construído em Bragança, a outros tantos moradores. Tão longa folha de serviços não resultou somente da influência directa de Salvador Nunes Teixeira, embora muito se lhe deva por influência directa e em tudo cooperasse valiosamente, todavia sempre fica margem para lhe dar posto de destaque, entre os governadores civis do nosso distrito, de relevo máximo, e, porque os factos falam por si, abstemo-nos de comentários. TEIXEIRA (Vítor Maria). — Doutor em medicina e um dos Mecenas desta obra. Tomo VII, pág. 556. Casou em Setúbal, sendo celebrante do matrimónio o autor destas linhas, a 10 de Junho de 1933, com D. Maria Fernanda Mendes de Almeida Cabral Sacadura, nascida em Lisboa, freguesia de São Sebastião da Pedreira, a 10 de Julho de 1906, filha de José Alves Cabral Sacadura e de D. Maria Amélia Mendes de Almeida. São filhos do matrimónio: F RANCISCO JOSÉ SACADURA C ABRAL TEIXEIRA, nasceu em Lisboa, a 21 de Agosto de 1934. Foi baptizado na Basílica da Estrela, em Lisboa. RAUL MANUEL CABRAL SACADURA TEIXEIRA, nasceu em Lisboa, a 8 de Julho de 1936. Foi baptizado na Basílica da Estrela, em Lisboa. Faleceu a 20 de Fevereiro de 1937. Está sepultado no cemitério da Ajuda, em Lisboa. V ÍTOR M ANUEL C ABRAL SACADURA T EIXEIRA, nasceu em Lisboa, a 24 de Agosto de 1938. Foi baptizado na Basílica da Estrela, em Lisboa. MARIA FERNANDA CABRAL SACADURA TEIXEIRA, nasceu em Lisboa, a 26 de Fevereiro de 1941. Foi baptizada na igreja paroquial de S. Domingos de Rana, concelho de Cascais. MARIA DO CARMO CABRAL SACADURA TEIXEIRA, nasceu em Lisboa, a 21 de Novembro de 1943. Foi baptizada na igreja paroquial de S. Domingos de Rana, concelho de Cascais. JOSÉ MARIA CABRAL SACADURA TEIXEIRA, nasceu em Lisboa, a 19 de Setembro de 1945. Foi baptizado na igreja paroquial de Carcavelos, concelho de Cascais. TEIXEIRA DE SOUSA (Francisco) — Capitão-mor de Lamas de Orelhão. Ver tomo VI, págs. 713 e 714. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TEIXEIRA DE SOUSA

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O documento adiante publicado consta de seis fólios de pergaminho, sendo o 1.° e 6.° em branco, servindo de guardas. Na 1.a página do fólio II, dentro de tarja ornamentada e a cores, lê-se: «Brazão / Darmas / De Francisco Teixeira de Sousa. / Capitão mor de Villa de La / mas de Orilhão, & nelIa mo / rador. / Passado no Anno de 1727». Na página do verso há uns motivos ornamentais coloridos. Todas as páginas são decoradas com tarjas de desenhos coloridos. No fólio III, começa o texto: «Dom Joam...»; na primeira página do fólio IV, vê-se desenhado o escudo com as respectivas cores e rodeado de emblemas guerreiros. É das mais perfeitas e completas que tenho visto esta carta de brasão. Pertence ao P. e João Teixeira Guedes, actual Reitor de Suçães, concelho de Mirandela (983). « BRAZÃO /

DARMAS .

DA VILLA DE LA DE

/

/

DE FRANCISCO TEIXEIRA DE SOUSA .

MAS DE ORILHÃO ,

&

NELLA MO

/

RADOR .

/

/

CAPITÃO MOR

PASSADO NO ANNO

1727.

Dom Joam Por graça de Deos Rey de Portugal, & dos Algarves, daquem & dalem mar em Africa, senhor de Guine, & da conquista, navegação, do comercio da Ethiopia, Arabia, Percia, & India, &c. A quantos esta nossa carta virem fazemos saber que Francisco Teixeira de Sousa da villa de Lamas de Orilhão, & nella morador nos fes petição em como elle descendia, & vinha da geração e linhagem dos Teixeiras, Gu[e]des, Gamas, & Souzas que são fidalgos, de cota darmas, e suas armas lhe pertençião de direito, pedindonos por merce que para a memoria de seus antecessores senão perder, e elle poder uzar da honra das armas que pellos merecimentos de seus serviços ganharão, e lhe forão dadas, & assim dos previllegios, honras, graças e merces, que por direito, & por bem dellas lhe pertencem, lhe mandacemos dar nossa carta das ditas armas, que estavão registadas em os livros dos registos das armas dos nobres & fidalgos de nosos Reynos que tem Portugal, noso principal, Rey Darmas. A qual petição vista por nos mandamos sobre ella tirar inquerição de testemunhas pello doutor Antonio de Macedo Velho do meu dezembargo, e meu Dezembargador em esta minha Corte & casa da supplicação, Corregedor do Civel em ella, & por Simão da Silva Lamberto escrivão do juizo da Correição do Civel da Corte & casa da supplicação, pellas [quaes] fomos

(983) Ver tomo VI, p. 713 e 714, destas Memórias. Há divergências entre os dizeres e o brasão, conforme o que digo no tomo VI, p. 713 e 714, por informação de Fulgêncio Lopes da Silva, da Biblioteca Municipal do Porto, mas o leitor facilmente corrigirá.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TEIXEIRA DE SOUSA

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sertos que elle procede & vem da geração, & linhagem dos Teixeiras, Guedes, Gamas, & Souzas, como filho legitimo de Gaspar Vas Teixeira Capitão mor que foi da dita Villa, & de sua mulher D. Marianna Guedes da Gama. Neto pella parte paterna de Hyeronimo de Souza, & de Angella Teixeira; Bisneto de Gaspar Vas Teixeira, e de D. Maria Correa de Souza, & pella materna, neto de Manoel Guedes Pinto & de D. Catherina Correa da Gama, bisneto de António Guedes, & de Isabel Rodrigues, todos descendentes das ditas famílias & forão limpos de sangue infeto reprovado pella Igreja & se tratarão com suma nobreza, com cavalos & criados, & servirão & servem os cargos honrozos da Republica Justiça, & governança, da terra, & que de direito suas armas lhe pertencem. As quaes armas lhe mãdamos dar em esta nosa carta com seu brazão, elmo, & timbre como aqui são devizadas, & assim como fiel & verdadeiramente se acharão devizadas, & registadas nos livros dos registos do dito Portugal noso Rey Darmas. — A saber — Hum escudo esquartellado, no primeiro quartel as armas dos Souzas do Prado, no segundo as dos Teixeiras, no terceiro as dos Guedes, no quarto as dos Gamas; Timbre o dos Teixeiras, & por diferença huma brica vermelha com hum trifolio de ouro. O qual escudo [d]armas, & sinaes posa trazer & traga o dito Capitão mor Francisco Teixeira de Souza asim como as trouceram & dellas uzarão seus antecessores & os nobres, & antigos fidalgos sempre as custumarão trazer em tempo dos muy esclarecidos Reys nosos antecessores, & com ellas posa entrar em batalhas, campos, escaramuças, & exercitar com ellas todos os outros actos licitos da guerra & da paz, e asim as posa trazer em suas cazas, & edifficios & em seus firmaes, aneis & senetes, & devisas, & deixalas sobre sua propria sepultura, & finalmente se servir & honrar, gozar, & aproveitar dellas em todo & por todo como a sua nobreza cõvem; Com o que queremos & nos pras que haja elle & todo seus descendentes todas as honras, previlegios, liberdades, graças, merces, & inzenções & franquezas, que hão & devem haver os fidalgos nobres & de antiga linhagem, & como sempre de todo uzarão, & gozarão seus antecessores. Porem mandamos a todos nosos Corregedores & Dezembargadores, Juizes, Justiças, Alcaides, & em especial aos nosos Reys Darmas Arautos & Pasavantes, & a quaes quer outros officiaes & pesoas a que esta nosa carta for mostrado, & o conhecimento della pertencer que em todo lho comprão & guardem, & fação cumprir & guardar como nella he contheudo, sem duvida nem embargo algum que em ella lhe seja posto, porque asim he nosa merce. El Rey noso senhor o mandou por Manoel Leal seu Rey Darmas Portugal; Frey Joseph da Cruz da Ordem de São Paulo Refformador do Cartorio da Nobreza do Reyno por especial Provisão do dito senhor a fes; Anno do nascimento de noso Senhor Jezu Christo de mil & setecentos & vinte sete aos trinta dias do mes de Novembro, & vai sobscrita por Antonio Francisco escrivão da Nobreza nestes Reynos & senhorios de Portugal, e suas Conquistas. e eu Antonio Fran.co o subscrevy. — P Pey de armas pp.al». MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TEIXEIRA DE SOUSA

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TERROSO

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TINOCO DE MAGALHÃES

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TOPONÍMIA

557 TOMO XI

No verso do fólio V lê-se: «Fica registado este Brazão no L.° 8.° do Registo dos Brazões da Nobreza de Portugal a fl. 36. LX. a Occidental em 22 de Dezembro do anno de 1727. Ant.o Fran.co» (984). T ERROSO — Ver tomo IV, pág. 336; tomo VI, pág. 217; tomo VII, pág. 739. GUIOMAR LUÍSA, filha de José António Pinto de Morais Botelho, de Freixo de Espada à Cinta e de D. Joana Luísa de Figueiredo de Morais Antas, de Bragança, neta paterna de José Pinto de Meireles, de Freixo de Espada à Cinta e de D. Luísa de Morais Ferreira de São Martinho do Peso e materna de Caetano Luís de Morais, de Terroso, concelho de Bragança e de D. Josefa Maria Luísa de Figueiredo Antas, do Vimioso, nasceu em Freixo de Espada à Cinta a 2 de Abril de 1768 (985). TINOCO DE MAGALHÃES (Manuel). Nasceu em Bragança a 1 de Janeiro de 1672, filho de João Tinoco da Rocha e de Joana de Magalhães Machado. Formou-se em Cânones na Universidade de Coimbra em 29 de Julho de 1694. Distinguiu-se na advocacia forense e escreveu: Relação dos legítimos debates, e notícia do seu progresso que as Madres Religiosas do Mosteiro de N. S.a dos Remédios, Piedade, e Madre de Deus da Terceira Ordem do Seráfico Padre S. Francisco tiveram com o Reverendíssimo Cabido sede vacante, que se seguiu por falecimento do Ilustríssimo e Reverendíssimo Senhor D. Rodrigo de Moura Teles, Arcebispo Primaz, sendo abadessa a Reverenda Madre D. Jerónima de Belém. Lisboa, 1733. 4.°

TOPONÍMIA Depois de impresso o capítulo do nosso livro sobre Toponímia, tomo X, págs. 77 e segs., saiu em fins de 1936, o vol. II da Etnografia Portuguesa do Dr. J. L. Vasconcelos, onde trata do mesmo assunto e embora, no geral, o nosso estudo vá de acordo com o do mestre, damos dele o seguinte extracto para melhor confirmação: Açoreira, pág. 83. Deriva de açor, ave de rapina criada em Portugal (986).

(984) Ao grande amigo P.e Ernesto Augusto Pereira Sales, agradeço a cópia que me permitiu publicar este documento. (985) Livro dos Baptizados de Freixo de Espada-à-Cinta, 1752 a 1762, fólio 103, existentes no Arquivo da Câmara Eclesiástica em Bragança. (986) VASCONCELOS, Leite de — Etnografia Portuguesa, 1936, vol. II, p. 161.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TOPONÍMIA

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Aguieiras, pág. 84. Vem de águia, ave abundante nas serras de Portugal (987). Avidagos, pág. 93. O mesmo que Vidago. Vem do latim vulgar Vitaticum, derivado de vitis, como vinhago de vinea (988). Avinhó, pág. 94. Diminutivo de vinha (989). Azibo, rio, pág. 94. Azibo é o sobrenome de Marte (990).

Bragança, pág. 100. Confirma a etimologia que demos já, baseada em elementos pelo mesmo autor fornecidos, referentes a derivar Bragança de Bragantia, nome antigo pré-romano, composto de «briga», que significa «arx», isto é, situada em local elevado, à semelhança dos primitivos castros lusitanos (991). Brunheda, pág. 101. Vem de abrunheiro, abrunheira, espécie de ameixieira (992).

Cabreira. Deriva de cabra brava, espécie existente e importante outrora em Portugal e hoje extinta (992). Também inculcará terreno bravio próprio de cabras pelos seus montes. Ver neste volume das Memórias, pág. 187, onde abunda o topónimo Cabreira em terrenos pouco elevados, longe de serras, mas de monte bravio, pouco férteis, donde a suposição de o nome inculcar tais predicados. Candedo, pág. 103. Confirmando uma das etimologias que propusemos, derivada do espanhol candeIa (donde candelado), flor do castanheiro, lembra que na Beiras Alta e Baixa, Barroso e Nisa chamam candeia à flor do castanheiro; candeio, à flor da oliveira, no Alto Alentejo (993). Carriça, pág. 106. Deriva da avezinha chamada Carriça (994). Castedo, pág. 106. Inculca bosque de castanheiros (995). Cerdedo, pág. 106. Diz possivelmente pertencer ao grupo cerdeira, cendeiral, cerdal e cerejal (996).

(987) (988) (989) (990) (991) (992) (993) (994) (995) (996)

Ibidem, p. 84. Ibidem, p. 77 Idem, p. 77 C HOMPRÉ — Dicionário da fábula..., artigo «Azibo». VASCONCELOS, J. Leite de — Etnografia Portuguesa, vol. II, p. 77, 356 e 358. Ibidem, p. 106. Idem, p. 62 e 71. Idem, p. 167. Idem, p. 64 e 364. Idem, p. 65 e 106.

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TOPONÍMIA

559 TOMO XI

Cernadela, pág. 108. É diminutivo de cernada, palavra portuguesa derivada de cernar «cortar além da casca das árvores até descobrir-lhes o cerne, do latim circinare, por dissimilação, isto é, por síncope do segundo ci, é natural referir a ela o nosso topónimo» (997). Chacim, pág. 108. Significa porco (998). Chousa «... e que o dito preso lhe furtara huüa taça de prata e a fora enconder em huü conchouso» (999). Couços, pág. 111. «É forma divergente de calço (de terreno). Do latim calceus» (1000). Colmeias. Indica abundância de abelhas, cortiços e colmeais (1001). Cortiços. Provém da abundância de abelhas, cortiços e colmeais (1002).

Ervedosa, pág. 113. Diz vir de medronho, medronheiro chamado em algumas terras ervedo, donde veio Ervedal, Ervededo, Ervedosa, Ervedeira (1003). Ervideiro ou Ervedeira. Ver Ervedosa (1004).

Felgar, Felgueiras, pág. 114. De feto (1005). Fermil, pág. 115. Nos citados Documentos Medievais Portugueses, pág. 230, vem um do ano de 1107 em que figura como vendedeira uma mulher de nome Fromeita.

Granja, pág. 121. Confirma a etimologia que demos (1006). Gulpilheiras, Gulpinha, pág. 216. Deriva de raposa, que é chamada gulpina nas Leges, século XIII, pág. 192, e golpelha em documentos dos séculos XV e XVI. Mais acrescenta: «a forma anterior de golpelha deve ter

(997) VASCONCELOS, J. Leite de, em O Instituto, revista de Coimbra, 1934, p. 488. (998) VASCONCELOS, J. Leite de — Etnografia Portuguesa, 1936, vol. II, p. 149. (999) Num documento de 1444, pertencente à Chancelaria de D. Afonso V, livro 25, fol. 14 v., publicado a p. 264 dos Documentos das Chancelarias Reais relativos a Manocos, tomo I, por Pedro de Azevedo, em 1919. (1000) VASCONCELOS, J. Leite de, em O Instituto, 1934, p. 488. (1001) VASCONCELOS, J. Leite de — Etnografia Portuguesa, vol. II, p. 192. (1002) Ibidem, p. 192. (1003) Idem, p. 60. (1004) VASCONCELOS, J. Leite de, em O Instituto, 1934, p. 490. (1005) Ibidem, p. 55. (1006) Idem, p. 495, em nota.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TOPONÍMIA

TOMO XI

sido volpelha, representada directa ou indirectamente por Vulpeliares (= volpelhares) no século XI e vulpeleiras (= volpelheiras) a par com Golpeleiras (= golpelheiras) Golpeleira (= golpelheira) em 1258» (1007).

Izeda, pág. 123. Do latim iliceta (ilicetum, i) azinhas (1008).

Lagoa. Ver adiante Lagoaça. Lagoaça, pág. 32. Esclarecendo o que aí escrevemos diz que além «das lagoas existentes em montanhas, e das formadas pelo mar, ou junto dele, e por certos rios, acrescente-se que Fonseca Henriques no Aquilégio Medicinal, indica outras e prossegue assim: a maior parte das lagoas são de águas encharcadas, que ficam das tempestades da chuva, ou dos rios, que nas grandes cheias inundam os campos» (1009). Efectivamente, na linguagem comum, a palavra lagoa tem essa acepção (1010). Daqui vem, no entender de Vasconcelos, os toponímicos Lagoa, Lagoinha, Alagoa, Alagoinha, Lagoela, Lagoaça, Lagoeiro e Lagoiços (1011). Landedo, pág. 125. Deriva de lande, bolota, fruto da sobreira (1012). Ligares, pág. 126. Vem do latim ilicares (1013).

Macedo. Derivado de macieira que deu: Macenedo, Maçaedo, Mazedo, Macedo, Macido, Maçal (1014). A forma maçãira por macieira é muito usada em terras bragançanas e no concelho de Vinhais há a povoação chamada Maçãira. Marmelos. De marmelo, marmeleiro (1015). Meixedo. De ameixieira que deu Meixedo, Meixende, Meixide (1016) , Ameixial e Maxial (1017).

(1007) (1008) (1009) (1010) (1011) (1012) (1013) (1014) (1015) (1016) (1017)

VASCONCELOS, J. Leite de, em O Instituto, p. 132. Ibidem, p. 315 e 364. HENRIQUES, Fonseca — Aquilégio, p. 274 VASCONCELOS, J. Leite de — Etnografia Portuguesa, vol. II, p. 32. Ibidem, p. 77. Idem, p. 61. Idem, p. 164. Idem, p. 107. Idem, p. 107. Com o nome de Meixide há um sítio do termo de Urrós. VASCONCELOS, J. Leite de — Etnografia Portuguesa, vol. II, p. 105 e 364.

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TOPONÍMIA

561 TOMO XI

Moncorvo, pág. 134. Inteiramente connosco (1018). Múrias. Virá de abelhas, cortiço de abelhas? Ver págs. 136 e 635. Osseira. Ver este artigo na pág. 231 e Vilar de Ossos pág. 169 do tomo X. Paçó, pág. 138. Estuda desenvolvidamente este topónimo não se afastando porém do que em síntese dissemos na referida pág. 138 (1019). Pombares, pág. 144. De pomba, pombal (1020). Salgueiros. Vem da planta chamada Salgueiro ou Salgueira. Em algumas terras «chamam saiceiro ou seiceiro ao salgueiro novo. Diz-se, porém, falando da madeira: cesto de saiço, feitio de saiço. O étimo remoto está no latim salex» (1021). Daqui o étimo de sainça e saiça, sítio de termo de várias povoações, como indicamos na pág. 245 deste tomo das Memórias. Soutelo, pág. 159. Dá-lhe a mesma etimologia que propusemos, mas entende que se aplica a bosques de castanheiros (1022). Seixa, Seixas, pág. 155. Diz que seixa significa turtur, rola e neste sentido aparece-nos Portugaliæ Monumenta Historica, Leges pág. 195 (1023). É frequente este topónimo, como indicamos na pág. 251. Selas. Quando fazia este extracto do profundo estudo de Leite de Vasconcelos, lembrei-me que Selas, de que tratei na pág. 155, podia vir do latim Selas, atis, onde significa resplendor do céu, meteoro. Haverá qualquer relação entre este étimo e o fenómeno luminoso mencionado na pág. 66, que não sei se aparece ou apareceu em Selas, mas Edrosa e Penhas Juntas, onde dão notícia dele, são confinantes do seu termo? Selores, pág. 155. «Sellores por Celores ou Cellores pode vir do baixo latim celarioius, i, is, pequeno celeiro, tirado do latim cellarium, celeiro» (1024). Torre de D. Chama. Concorda com a que indicamos a pág. 161 (1025).

(1018) (1019) (1020) (1021) (1022) (1023) (1024) (1025)

Ibidem, p. 607. Idem, p. 627. Idem, p. 157. Idem, p. 108. Idem, p. 64. Idem, p. 156. FERREIRA , Pedro Augusto, Abade — Dicionário de Apelidos Portugueses. VASCONCELOS, J. Leite de — Etnografia Portuguesa, vol. II, p. 606.

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TOPONÍMIA

TOMO XI

Viduedo. Deriva-lhe o étimo da planta chamada vidoeiro (1026). Ver o que escrevemos na pág. 97, ao tratar deste caso. Vila, Vilar. Trata largamente destes topónimos (1027), desenvolvendo o que dissemos em síntese nas págs. 167 e 168, pois se baseia nos mesmos autores que seguimos. Vilar de Ossos. Ver o artigo Osseira. Vilariça. O Dr. L. de Vasconcelos, partindo do princípio de que a grafia primitiva foi Valariça, entende que a etimologia vem do latim «Vallaris com o sufixo itia (icia) > ica, ou de vallis, ou vale, com a sufixo composto - ar - itia (- icia) ar - ica ... Em suma: de Valariço, forma arcaica, passava-se facilmente para Velariça, por dissimilação, e daqui para Vilariça, por etimologia popular, sob influência de vila» (1028). Vinhais. Deriva este étimo de vinha (1029). Xagata. Dão este nome em terras mirandesas a um sítio abrigado, solheiro. Xara, pág. 263. É palavra árabe e significa mata, brenho, lugar cheio de silvados, estevas. Ver tomo III, pág. 167, destas Memórias.

––––––––– Angueira, tomo X, pág. 88. Aos autores aí citados acrescentar o Dr. Manuel Paulo Merea, que tratou do assunto no Biblos 1940. Boa, Boas, tomo X, pág. 98. Os nomes geográficos Cabeça Boa e Vilas Boas, podem vir do nome próprio feminino (1030). Em 1102, trocou Boa Ariastriz com a Sé de Braga certos bens que possuía no termo da cidade. Em 1138, Sandemiro e sua mulher Boa doaram à Sé de Viseu a quarta parte de dois moinhos (1031). Bona, nome próprio de mulher e Bonus, nome próprio de homem, aparecem no Onomástico Medieval Português, de A. A. Cortesão, em documentos dos séculos X e XIII.

(1026) Ibidem, p. 59 e 60. (1027) Idem, p. 379 e 629. (1028) Idem. (1029) Idem, p. 77 (1030) Documentos Medievais Portugueses, publicados pela Academia Portuguesa da História, na Comemoração dos Centenários da Fundação e Restauração de Portugal, 1940, tomo III, p. 77. (1031) Ibidem, p. 313. Nas p. 77, 200, 224, 232, 254, 307, 313, 326, 336 e 380, transcreve documentos em que figuram mulheres com o nome de Boa.

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TOPONÍMIA

563 TOMO XI

Bruçó, tomo X, pág. 83. Segundo a etimologia popular o nome de Bruçó resultou desta maneira: passando el-rei D. Dinis, nesta povoação do concelho do Mogadouro, um fidalgo da comitiva quis beber água na fonte e el-rei disse a um pagem: debruç’ó = debruça-o para que pudesse beber a água de bruços. D. Dinis passou em Trás-os-Montes e esteve em Alcanices, vila raiana espanhola, a 27 de Janeiro de 1297, onde celebrou com el-rei de Castela o tratado de Alcanices (1032); mas antes disso já Bruçó existia e se chamava Bruçoo e ainda Braçoo, como se vê no foral dado pelo mesmo rei à Lagoaça em 1286 (1033). Daqui resulta, que se Braçoo não é erro de copista, então Bruçó vem de braço, nome de sítio de termo assim chamado e significa pequeno braço, equivalente de pequena veiga, vale, olga, ramificada para outros lados, por entre montes, encostas, terrenos mais elevados. No termo de Rabal, concelho de Bragança, há um sítio do termo chamado Braço e no de Montesinho outro dito Braçós. Se não é erro do escrevente, Bruçó virá de B ORUSSO , que significa bagaço, restos da destilação de uvas, maçãs, figos, medronhos, ou outros quaisquer frutos e, por analogia, montões de palha, ervas, feno, folhatos, gravatos, guiços, etc. Teríamos então: B URUSSO = B RUSSO = B ROSSO ou Bruçó, pequeno montículo de bagaço ou das coisas equivalentes acima mencionadas. Cércio, tomo X. pág. 108. No Catálogo da Companhia Hortícola n.° 78 — 1940, do Porto, pág. 39, vem mencionadas quatro variedades de uma planta chamada CERCIS, da família das olaias. Virá daqui Cércio? Chelas. A respeito do geográfico Chelas dissemos no tomo X, pág. 107: «Na sessão da Academia das Ciências de Lisboa, de 12 de Junho de 1913 e seguintes, levantou-se grande discussão a propósito da palavra Chela, em que entraram os mais distintos filólogos portugueses. Nos documentos medievais aparece chela significando novelo de seda (1034) e depois, até nossos dias, na linguagem comercial indo-portuguesa, tecido de seda ou algodão de tecitura e tintura especial ou mesmo qualquer roupa, como se vê de Diogo do Couto (1035). O académico José Joaquim Nunes lembrou que chelas viria do latim planela, e o mesmo fez depois Leite Vasconcelos (1036).

(1032) (1033) (1034) (1035) (1036)

Ver tomo I, p. 277, destas Memórias. Ver tomo IV, p. 185, destas Memórias, onde o publicamos. DU CANGE — Glosarium..., tomo I, p. 802. COUTO, Diogo do — Diálogo do soldado prático, edição da Academia, p. 122. VASCONCELOS, J. L. de — O Arqueólogo Português, vol. XXII, p. 36, em nota.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TOPONÍMIA

TOMO XI

«Embora exista na linguagem indo-europeia a palavra chela, significando tecido ou qualquer roupa, é mais natural que o geográfico chelas provenha dos toponímicos chã, chana, chanela, chaela, etc., frequentemente usados». Ultimamente encontrei os seguintes elementos, que me parece resolverem a questão: Chã e chãs é frequentíssimo em Portugal como nome de povoação, segundo se pode verificar em qualquer Corografia. A de Cardoso de Azevedo menciona 52 e são inúmeros os sítios do termo designados por estes nomes. Chãira aparece como nome de sítio do termo da povoação de Águas Vivas, concelho de Miranda do Douro e podíamos apontar várias outras. Chanas encontra-se também como sítio do termo de Travanca, concelho de Macedo de Cavaleiros, assim como em várias outras, que por brevidade omitimos. Chanelas, pequenas Chãs, ou Chãiras, também topónimo frequente para designar terrenos planos, abunda igualmente como sítio de termo. No Tombo dos Bens do Cabido de Miranda do Douro, feito em 1691, tratando da demarcação do termo de Paçó de Outeiro lê-se: «Começa a demarcação do termo deste lugar no Lombo de bicudo a onde parte com Paradinha, e de hi vai ao Carril de Chanellas e de hi a Penha Furada e de hi ao campo de Igrejas e de hi...» (1037). O mesmo Tombo, fólio 390, tratando da demarcação do termo da Paradinha de Outeiro diz: «Começa a demarcação no Cabeço de São Frusto no rio Maçãs no poço de Cabeço concelho, e de hi rio asima the o poço de pelago negro junto de São Martinho e de hi sobe direito a Somieira e da hi direito ao Marco que está no caminho que vai para a Senhora da Ribeira e da hi aos furmigueiros e da hi a pedra alta do bicudo e da hi Lombo asima pella rodeira de Chaellas athé a Penha Furada que esta no fundo do Lameiro de Domingos Gonçalves...» Este Chaellas, é o mesmo sítio chamado Chanellas no documento anterior. Temos pois: Chã, Chãs, Chanas, Chanellas, Chaellas. Ora, de Chaellas para Chelas é ainda menos que o salto de uma pulga, como dizem os de Deilão a propósito do seu caminho para Guadramil e qualquer filólogo o percorre facilmente (1038). Vilar de Ouro. No foral dado a Outeiro, concelho de Bragança em 1270 por D. Martinho Geraldes, arcebispo de Braga (1039), menciona-se entre os

(1037) Tombo citado, fólio 382. (1038) Tomo IX, p. 263, destas Memórias. (1039) Ver A Restauração de 1640 no distrito de Bragança, 1940, p. 63, onde a publicamos.

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TORRE DE D. CHAMA

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indivíduos a quem Outeiro era aforado, Eleno Fernandes, «et uxari tue Ouro Petri». Donde se conclui, que as povoações Vilar de Ouro (uma no concelho de Mirandela e outra no de Macedo de Cavaleiros), bem como Oura, povo e ribeira no concelho de Chaves, representam o nome próprio de uma pessoa. Parece que é este foral de Outeiro o único documento até hoje conhecido em que aparece este nome. Zevro e Zevra. «Nomes que se encontram em inumeros textos medievais de Portugal e Hespanha, aparecem também representados na toponímia das duas nações. Referem-se ao macho e a fêmea de um mamífero, que se comia, mas cuja determinação foi muito discutida, até que ultimamente (1928) o professor hespanhol D. Américo Castro, in R F E, XV, 173 segs., citando e reforçando os dizeres de antigos autores, mostrou que o mamífero de que se trata era o ónagro ou burro selvagem, espécie que existiu abundantemente na Península hispano-portuguesa, na Idade Média, e se extinguiu depois... Já o Dr. Paulo Merea, em 1925, in R L, XXV, 284, identificara pela primeira vez em Portugal o Zevro e Zevra com o ónagro, mas desconhecia então o que os antigos autores hespanhóis, a que acima se faz referência — entre eles Fray Martin Sarmiento, Galego (século XVIII) haviam escrito, sobre o assunto. O artigo de D. Américo Castro, tira todas as dúvidas que se ligavam com esta» (1040). Ver o que nós escrevemos no artigo Azibeiro, pág. 94.

T ORRE

DE

D. C HAMA

Foral de D. Manuel, dado em 1512. Nota bibliográfica. O foral de D. Chama, dado a esta vila trasmontana em 1512, é um códice composto actualmente de doze fólios de pergaminho com o texto do foral, numerados de I a XII e antecedidos de um, não numerado, também de pergaminho, em cujo anverso se acha a tabuada ou índice do foral; o fólio XII, é seguido de mais dois, não numerados, no primeiro dos quais, ao alto, se lê que foi «Reg. do no tombo Fernã de Pyna», estando todo o mais em branco. O códice mede nas folhas 0,263x0,18 metros. Está encadernado com encadernação da época (mil quinhentos e tal), tendo as pastas de madeira reco-

(1040) VASCONCELOS, J. Leite de — Etnografia Portuguesa, 1936, vol. II, p. 155.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TORRE DE D. CHAMA

TOMO XI

bertas de couro e guarnecidas exteriormente cada uma por cinco pregos de latão de cabeça hexagonal. Está bastante maltratado; falta-lhe um fólio (o primeiro), que foi cortado à tesoura, como se verifica pela tira deixada. As folhas estão a descoser-se. Este códice, que pertencera à câmara da extinta vila e concelho da Torre de D. Chama, ficou, depois de 1834, em casa da família dos Morgados da Torre, onde existia à morte do último. Em seguida foi vendido, talvez no Porto, donde transitou para a Livraria do Conde de Sucena, razão porque figura no catálogo de venda feito pelo livreiro Arnaldo de Oliveira (Lisboa, Largo do Calhariz, n.° 14), que permitiu que se fizesse uma cópia do dito foral. Nesta cópia, a parte abrangida por colchete indica que é a parte do texto que se acha na Torre do Tombo no Livro de forais novos de Trás-os-Montes, fls. X v. e XI. As letras e palavras em tipo negro itálico , estão no original a tinta encarnada. Os sinais || e || marcam, respectivamente, o final da primeira e segunda páginas de cada fólio. Este foral da Torre de D. Chama, foi leiloado em Lisboa, no dia 17 de Junho de 1936, com outros livros da Livraria do Conde de Sucena, onde obteve o lanço de 600$00, oferecido pelo livreiro Coelho, da Rua do Mundo, mas graças aos bons ofícios do distinto bragançano, Dr. Vítor Teixeira, veio para o Museu de Bragança, onde agora se encontra. No tomo X, pág. 268, já publicamos a parte deste foral respeitante à Comenda de Algoso transcrita por tabelião público, que não prima pelo rigor gráfico, nem mesmo pela leitura, mas nesse tempo a filologia, embrionária como estava, não ligava importância a tais minúcias e o notário ajeitou as palavras como lhe pareceu e conforme o uso do seu tempo. Agora damos o texto integral, segundo a cópia que nos mandou, antes de o códice vir para Bragança, o bom amigo P. e Ernesto Augusto Pereira Sales, exacta até à minúcia que este erudito escritor usa em todos os seus trabalhos.

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TORRE DE D. CHAMA

567 TOMO XI

Começa assim o texto do códice: TABUADA

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foros de xxxbj Rs/. gaado do vento/. . . pensooes/. montados/. maninhos/. com®da d’Alguosso/. caseiros/. Reg®guen. . . pena darma/. determinacõões da portag®/. . . . . . . . . pam/. vinho/. sal/. cal/. linhaça/. . . cousas de que se nã pagã portag®/. casa movida/. pasaj®/. novidades/. . . dos bêes perafora/. panos finos cargas ® arrovas/. linho/. lãa/. panos . . grossos/. gaados/. carne/. caça/. coirama/. calçadura/. pellitaria/. . . azeite/. mel/. e semelhãtes/. marcarya/. e semelhãtes/. metaaes/. ferro lavrado. ferro grosso/. pescado/. marisco/. fruita seca/. casca/. sumagre/. . . fruita verde/. ortaliça/. bestas/. escravos. barro/. louça/. mallega/. moos/. pedra/. . . cousas de pao/. palma/. esparto/. e semelhãtes/. entrada por terra/. descaminhado/. saida por terra/. . . privilligiados. pena do foral . . . . . . . . . . . .

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I

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IX

. . .

. . .

X

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IX

D om Manuel por graça de deus Rey de Portugal e dos Algarves daquê e dalem mar en Africa, Senhor de Guynee e da conquista e navegaçam e comercio de Ethyopia, Arabia, Persia e da India etc. A quantos esta nossa carta de foral virem dado a nossa villa de Dona Chamoa, fazemos saber que por bem das diligencias, usames e inquiricões que em nossos Reynos e senhorios mandamos geralmente fazer pera iustificaçam e decraraçã dos foraes delles, e por algüas sentenças e determinações que co os do nosso conselho e leterados passamos e fezemos. Acordamos visto o foral da dicta villa dado por elRey Dom Denis que as rendas e direitos reaaes se devem na dicta villa pagar e recadar na maneyra e forma seguinte. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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TORRE DE D. CHAMA

TOMO XI

foro de xxxbl

~ gado do veto.

pemsões. mõtados.

maninhos.

comenda d’Algoso (1041).

Avemos daver de cada morador na dicta villa e termo en cada hüü anno trinta e seis rrs pagos en duas pagas. S- pellos primeyros dias doytubro e de março. E os moradores que assy ouver ë de pagaar o dicto foro se en || tendam aqquelas pessoas q por sy mantever ë casa, nõ avendo respeyto a ser prove nem rico. CE por este respeito nõ pagarã o dicto foro os orfãos que esteverem co seu pay ou may ou com seu titor, enquanto por sy nõ teverem casa, porque o pay ou may ou titor pagara por todos. C Nem pagaram o dicto direito as pessoas que teverem cavallo e armas recebõdas. O gado do vento he tambem nosso e se recadara por nosa ordenaçã, com decraraça que apessoa a cuja mãao for ter o dicto gado ho vaa screpver a dez dias primeyros seguytes, sob pena de lhe ser demandado de furto. C E assi he nossa a penssam de dous tabaliães paga cada hüu dozentos e cinquoenta rrs. O s montados seram do concelho quando alg üu gado de fora vier a montar sem licemça ou vizillhança; do qual levara o concelho se nõ tever privilegio ou vizinhança, ou vier sem licença, da cabeça do gado mayor dez rrs. E do pequeno hüu real des que todo o gaado andar de dentro dos marcos, e doutra maneyra nã, e for o malham todo descuberto. O s maninhos se tomaram e usaram como até quy fezeram sem se delles pagar || outro foro senam ho sobredicto dos dictos trinta e seis rrs, como dicto he por cada morador. O quall foro pagaram os caseyros da comenda d’Algoso e da ordem de Sam Joham, das terras que teverem tomadas ou tomarë na terra e termo deste dicto lugar de Dona Chamoa que forë fora dos proprios marcos e limites dos casaes e terras da dita ordem, pera cuja decraraçam mandamos ao corregedor da comarqua que por sy vaa aos lugares, e por bem de seus foraaes, tombos ou escrituras e testimunhas antigas e dinas de fe presente as partes a

)

)

(1041) À margem lê-se: tem tomado tantas terras que tem feito grandes lugares neste mesmo termo de Dona Chamoa.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TORRE DE D. CHAMA

569 TOMO XI

caseiros ~ Regeg. do

pena darma.

que pertencer, faça demarcaçam e ponham marcos a cada h üa das dictas terras pera ao diante nõ poder aver hy mais duvida antre a nossa terra o da dicta ordem sobre a paga dos nossos direitos. E assy da jurdiçam e servintia dos caseyros da dicta ordem, os quaes ham de servir com o dicto concelho en todallas cousas que comprirem a nosso serviço ou aproll da dicta villa como seus vizinhos della, segundo vimos per h üa sentença dada por elRey Dom Affomso o quarto, a quall mandamos que assy sempre se cumpra como aquy por nos he decrarado C E na dicta maneyra seram obrigados a servir no || dicto concelho os moradores e caseyros do nosso Reguengo, que esta na dicta villa e terra de Dona Chamoa segundo pella dicta sentença ysto mesmo he decrarado. C No qual reguengo se pagaram nossos direitos e foros segundo se conthem nos foraes e inquirições do dicto reguëgo e segundo se ate ora usou e custumou conforme ao direito dos dictos reguengos, e doutra maneira nam. P olla pena darma e do sangue se levara soomente duzentos rrs e arma perdida, e mais nã com esta decraraçam — S — que a dicta pena se nã levara quando algüas pessoas apunharem espada ou qualquer outra arma sem atirar. Në pagaram a dicta pena aquellas pessoas que sem proposito e em reyxa nova tomarë paao ou pedra posto que cõ elle façam mal. E posto que de proposito tomë o dicto paao ou pedra senam fezerem mal cõ elle não pagarã a dicta pena. N ë a pagara moço de quinze anos pera baixo, në molher de qualquer qualydade, n ë pagaram a dicta pena aquellas pessoas que castigando sua molher e filhos e escravos tirarem sangue. Në pagaram a dicta pena quem jugando punhadas sem armas tirar sangue com bofetadas ou || punhada. E as ditas penas në cada hüa dellas nam pagaram isso mesmo quaesquer pessoas que en defendimento de seu corpo ou por apartar e estremar outras pessoas em arroydo tirarem armas, posto que com ellas tirem sangue. Nem escravo de qualquer ydade que com paao ou pedra tirar sangue. E a portagë se recordara nesta maneyra . S .

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TORRE DE D. CHAMA

TOMO XI

C Determinações jeraaes para a portagem. P rimeiramente decraramos e poemos por ley jerall en todollos foraes de nossos Reynos que aquellas pessoas ham soomëte de pagar portagem em algüa villa ou lugar que nõ forem moradores e vizinhos delle. E de fora de tal lugar e termo delle ajam de trazer as cousas pera aly vender de que a dicta portagë ouverem de pagar. Ou se os dictos homës de fora comprarë cousas nos lugares onde assy nom sam vizinhos e moradores e as levarem pera fora do dicto termo. E porque as dictas condições se nam ponham tantas vezes en cada hü capitulo do dicto foral mandamos que todollos capitulos e cousas seguytes da portagem deste foral se entendam e cüpram cõ as dictas condições || e decrarações . S . que a pessoa que ouver de pagar a dicta portagem seia de fora da villa e do termo e tragahy de fora do dicto termo cousas pera vender ou as compre no tall lugar donde assy nõ for vizinho e morador e as tire pera fora do dicto termo. C E assy decraramos que todallas cargas que adiante vãa postas e nomeadas em carga mayor se entendam que sam de besta muar ou cavallar. E por carga menor se enteda carga dasno. E por costall ametade da dicta carga menor que he o quarto da carga de besta mayor. E assy acordamos por escusar prolixidade que todallas cargas e cousas neste foral postas e decraradas se entendam e decrarem e julgue na repartiçam e conta dellas assy como nos titulos seguintes eo pam e dos panos he limitado sem mais se fazer nos outros capitulos a dicta repartiçam de carga mayor nem menor, në costall në arrovas, soomente pello titulo de carga mayor de cada cousa se entendera o que por esse respeyto e preço se deve de pagar das outras cargas e peso — S. — pello preço de carga mayor se entenda || logo sem mais se decrarar que a carga menor sera da metade do preço della. E o costall seraa a metade da menor. E assy dos outros pesos e cantidade, segundo nos dictos capitulos seguytes he decrarado. E assy queremos que das outras cousas que adiante no fim de cada hü capitulo mandamos que se nã pague portagë, decraramos q das taes cousas se nã MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TORRE DE D. CHAMA

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pam. vinho. saal caal li nhaça.

cousas de q se nõ paga porta gem.

aja mais de fazer saber na portagem, posto que nos dictos capitulos nam seia mais decrarado. C E assy decraramos e mandamos que quando alg üas mercadorias ou cousas se perderem por descaminhadas següdo as leys e condições deste foral que aquellas soomente seiam perdidas pera a portagem que forem escondidas e sonegado o direito dellas e nam as bestas n ë outras cousas em que as taes se levar ë ou esconderë. C Portagem. E todo o trigo, cevada, centeyo, milho painço, aveya, e de farinha de cada hüu delles ou de lynhaça. E de vinho, vinagre, ou de saal e de caal que aa dicta villa e termo trouxer ë hom ës de fora pera vender, ou os dictos hom ës de fora as cõprarem e tirarem pera fora do termo, pagaram por carga de besta mayor . S . besta cavallar ou muar h üu real. E por carga dasno || que se chama menor meyo real. E por costal, que he ametade de besta menor, dous ceptis, e dy pera baixo em qualquer cantidade quando vier pera vender hüu ceptil. E quem tirar pera fora de quatro alqueyres pera bayxo nã pagara nada nem faram saber a portagem. E se as dictas cousas ou outras quaesquer vierë em carros ou carretas, contarsea cada hüu por duas cargas mayores, se das taes cousas se ouver de pagar portagem. A qual portagem se nõ pagara de todo pã cozido, queijadas, bizcouto, farellos, ovos, leyte, nem de cousa delle que seia sem sal, nem de prata lavrada, në do pam que trouxerem ou levarem ao moyinho, Nem de canas, vides, quarqueija, tojo, palha, vasoiras, në de pedra, n ë de barro, nem de lenha nem erva, n ë de carne vendida a peso ou a olho, Nem se fara saber de nenhüa das ditas cousas. Nem se pagara portagem de quaesquer cousas que se coprarem e tirarem da villa pero termo, në do dicto termo pera a villa, posto que seia pera vender, assy vizinhos como nã vizinhos. Nem se pagara das cousas nossas nem das que quaesquer pessoas trouxerem pera al || güa armada nossa ou feita por nosso mandado ou autoridade. Nem do pano e fiado que se mandar fora a tecer e pisoar, curar ou tengir, në dos mantimentos que os caminhantes na dicta villa e termo cõprarem e levar ë pera seus mantimentos e de suas bestas, në dos

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TORRE DE D. CHAMA

TOMO XI

casa movyda.

pasagem.

novidades dos bees pera fora.

panos finos.

gaados que vierem pastar alg üs lugares passando ou estando, salvo daquelles que hy soomente vendesem, n ë dos panos e joyas que emprestarë pera vodas ou festas. E de casa movida se nã hade levar në pagar nhüu direito de portagem de nhüa condiçam e nome que seia, assy hindo como vindo, salvo se cõ a casa movida trouxerë ou levarem cousas pera vender de que se deva e aja de pagar portagem, porque das taaes se pagara onde soomente as venderem. E doutra maneyra nam. A qual pagaram segundo a calidade de que forë, como em seus capitulos adiante se couthë. E de quaesquer mercadorias que a dicta villa ou termo vierem que forem de passagem pera fora do termo da dicta villa pera quaesquer partes, nã se pagara direito nhüu de portagem, në seram obri || gados de ho fazerem saber, posto que hy descarreguem e pousem a qualquer tempo e ora e lugar. E se hy mais ouverem de estar q todo o outro dia por algüa causa, entam ho faram saber. C E esta liberdade de parajë se nam entendera quando forë ou vierem pera fora do Reyno. Porque entam faram saber de todas, posto que de todas nã pagë, e isto somente no estremo. Nem pagaram portagem os que na dicta villa e termo erdarem algüs b ëes movees ou novydades doutros de raiz que hy erdarem, ou os que hy teverem b ëes de raiz proprios ou arrendados, e levarem as novidades e fruytos delles pera fora, Nem pagaram portagem quaesquer pessoas que ouverem pagamentos de seus casamentos, tenças, merçes ou mantimentos em quaesquer cousas e mercadorias, posto que as lev ë pera fora e seiam pera vender. De todollos panos de seda ou de lãa ou dalgodam ou de linho se pagara por carga mayor nove rrs. E por menor quatro rrs. e meyo. E por costal dous rrs e dous ceptis. E por arrova hüu rreal, e dy pera bayxo soldo aa livra quando vierem pera vender porque || quë levar dos dictos panos ou de cada huum delles Retalhos e pedaços pera seu uso nã pagaram portagem nem o faram saber. Nem das roupas que comprarem feytas dos dictos panos, porem os

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TORRE DE D. CHAMA

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cargas em arrovas.

linho lãa pa. nos grossos.

gaados.

caça.

que as venderë pagaram como dos dictos panos na maneyra acima neste capitulo he decrarado. A carga mayor se entende de dez arrovas, e a menor de cinquo arrovas, e o costal de duas arrovas e meya. E vem assy por esta conta e respeito cada arrova en cinquo ceptis e hüu preto pellos quaes se pagara h üu real. E pella dicta conta e repartiçam se pagaram as cousas deste foral quando forem menos de costal. C E assy como se aquy faz esta decraraçam e repartiçam pera exempro nas cargas de nove rrs., se fara nas outras soldo a livra següdo o preço de q forem. E do linho em cabello, fiado ou por fiar, que nam seia tecido, e assy de lãa e de feltros, burel, mantas da terra e dos outros semelhantes panos bayxos e grossos por carga mayor quatro rrs, E por menor dous rrs. E por costall h üu real, e dy pera bayxo atee hüu ceptil quando vier pera vender, porque || quü das dictas cousas e de cada hüa dellas levar pera seu uso, de costal pera bayxo, que he hüu real, nam pagara portagem në ho fara saber. Nem das roupas feytas, que dos dictos panos bayxos e cousas pera seu uso cõprar. E os que as venderem pagarã como dos mesmos panos bayxos segundo a cantidade que venderem, como acima he decrarado. De todo boy ou vaqua que se vender ou comprar pera hom ëe de fora, por cabeça hüu real. C E do carneyro, cabra, bode ou ovelha, cervo, corço ou gamo, por cabeça dous ceptis. E de cordeyros, borregos, cabritos ou leytões, nã pagaram portagë salvo se cada h üa das dictas cousas se comprarem ou venderem juntamente de quatro cabeças pera cima, das quaes pagaram por cada hüa hüu ceptil. E de cada porco ou porca dous ceptijs por cabeça. E da carne q se comprar de talho ou emxerca nã se pagara nh üu direito. E de toucinho ou marrãa inteyros, por cada hüa h üu ceptil, e dos encetados se nam pagara nada. E de coelhos, lebres, perdizes, patos, aa || dëes, pombos, gallinhas e de todallas outras aves e caça nam se pagara nynhüa portag ë pello comprador n ë vendedor, në o farã saber.

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TORRE DE D. CHAMA

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coyrama.

calçadura.

pelitaria.

azeite, mel e semelhantes.

marçaria e se melhantes

metaaes.

armas. ferramenta. ferro grosso

D e todo o coyro de boy ou vaqua, ou de cada pelle de cervo, corço, gamo, bode, cabras, carneyros ou ovelhas, cortidas ou por cortir, dous ceptis. E se vierem em bestas pagaram por carga mayor nove rrs, e das outras por esse respeito C E na dicta maneyra de nove rrs por carga mayor se pagara de capatos borzeguis. E de toda outra calçadura de coyro da qual nã pagara o que ha cõprar pera seu uso e dos seus. Nem dos pedaços de pelles ou coyros que pera seu uso comprarem, nam sendo pelle inteira në ilhargada në lombeyro, Dos quaes pagaram como no capitulo de cima dos coyros se conthem. C E de cordeyros, raposas, martas, e de toda pelitaria ou forros por carga mayor nove rrs. E de pelicas e roupas feytas de pelles, por peça meyo real. E quë comprar pera seu uso cad hüa das dictas cousas nã pagara. D e cera, mel, azeyte, sevo, unto, queijos secos, pez, manteiga salgada, rezina, breu, sabam, alcatram, por carga mayor nove rrs. E quem cõprar pera seu uso atee hüu real de portagë nam pagara. D e grãa, anil, brasil, e por todallas cousas pera tengir. E por papel e touçados de seda ou algodam. E por pimenta e canella, e por toda especiaria. E por ruybarbo e todallas cousas de butiqua. E por açuquar e por todallas conservas delle ou de mel. E por vidro e cousas delle que nam tenhã barro. E por estoraque e por todollos perfumes ou cheyros ou agoas estilladas, por carga mayor de cada hüa das dictas cousas e de todallas outras suas semelhantes se pagara nove rrs. E quem das dictas cousas cõprar pera seu uso atee meyo real de portagem e dy pera bayxo nam pagara. D o aço, estanho, chumbo, latam, arame, cobre e por todo outro metal. E assy das cousas feytas de cada h üa dellas. E das cousas de ferro que forem moydas, estanhadas, limadas ou envirnizadas, por carga mayor nove rrs, das quaes nõ pagara qu ë as levar pera seu uso. C E outro tanto se pagara das ar || mas e ferramenta das quaees levaram pera seu uso as que quiserem sem pagar. C E do ferro en barra ou em maçuquo. E por todallas cousas lavradas delle

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TORRE DE D. CHAMA

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pescado, marisco.

fruyta seca.

casca sumagre.

fruyta verde.

bestas.

escravos.

que nam seiam das acima conthyudas lymadas, moydas, estanhadas, nem invernizadas, por carga mayor quatro rrs. e meo. E quë das dictas cousas levar pera seu serviço e de suas quyntãas ou vinhas em qualquer cantidade nam pagara nada. E de carga mayor de pescado ou marisco hüu real e cinquo ceptis. E quë levar de meya arrova pera bayxa nam pagara. E do pescado dagoa doce atee meya arrova nam se pagara portagem nem fara saber assy da venda como da compra, sendo soomente bordallos, truytas ou bogas, e dy pera bayxo. D e castanhas verdes e secas, nozes ameixeas, figos passados e uvas, amendoas e pinhões por britar, avellãas, boletas, favas secas, mostarda, lentilhas, e de todollos legumes secos, por carga mayor tres rrs. CE outro tanto se pagara do sumagre e casca pera cortir. E qu ë levar das dictas cousas meya arrova pera seu uso nam pagara. C E de carga mayor de laranjas, || cidras, peras, cerejas, uvas verdes e figos, e por toda outra fruyta verde meyo real por carga mayor. E outro tanto dos alhos secos e cebollas e meloes e ortaliça. E quando das dictas cousas se vender ou levar menos de meya arrova, nam se pagara portagë pello vendedor nem comprador. Do cavallo, rocim ou egoa, e de mu ou mula hüu real e cinquo ceptis. E do asno ou asna hüu real. E se as egoas ou asnas se venderem com crianças, nam pagaram portagem senã pellas mãyes, Nem se pagara direito se troquarë hüas por outras, Porem quando se tornar o direito pagarsea como vendidas. E do dia que se vender ou comprar o faram saber as pessoas a ysso obrigadas, ate dous dias seguintes. C E este direito nam pagaram os vasalos e escudeyros nossos e da Raynha e de nossos filhos. D o escravo ou escrava que se vender hüu real e cinquo ceptis. E se se forrar cõ qualquer concerto que fezer cõ seu senhor pagara a dizima de todo o que por sy der pera a dicta portagem C E sese vender ë || cõ filhos de mama nam pagaram senã pelas mãyes, E se troquarem hüus escravos por outros sem tornar dinheiro nam pagaram e sese

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TORRE DE D. CHAMA

TOMO XI

barro / louça.

malega.

mõos.

pedra.

cousas de paao.

palma, esparto e semelhantes.

Entrada por terra.

tornar dinheiro por cada h üa das partes pagaram a dicta portagem. E a dous dias despois da venda feyta iram arrecadar na portagem as pessoas a isso obrigadas. D e carga mayor de telha ou tigello ou qualquer louça de barro que nam seja vidrada dous rrs. E de menos de duas arrovas e mea nam se pagara portagem pello comprador. C E de malega e de qualquer louça ou obra de barro vidrada do regno ou defora delle, por carga mayor quatro rrs. E de mey real de portagem pera bayxo nam pagaram os q ha cõprarem pera seu uso. E de mõos de barbeyro dous rrs. E das de moynhos ou atafona quatro rrs. E de casca ou azeyte seis rrs. E por moos de mãao pera pam ou mostarda hüu reall. E que trouxer ou levar as dictas cousas pera seu uso nam pagara nhüa cousa de portagem C Nem se pagara ysso mesmo de pedra nem barro que se leve nem traga de cõpra nem venda por nhüa maneyra. D e tonees, arcas, gamellas. E por toda || outra obra e louça de paao por carga mayor cinquo rrs. E do tavoado sarrado ou por sarrar, e por traves, tirantes e por toda outra madeyra semelhante grossa, lavrada ou por lavrar dous rrs por carga mayor. E quem das dictas cousas levar de costal pera bayxo, que sam duas arrovas e meya, nã pagara nada. D e palma, esparto, junça ou junco seco pera fazer empreita delle, por carga mayor dous rrs. E quem levar pera seu uso de meya arrova pera bayxo nam pagara nada. C E por todallas alcofas, esteyras, seyrões, açafates, cordas, e das obras e cousas que se fezerem da dicta palma, esparto, etc, por carga mayor seis rrs. E de meya arrova pera bayxo quem as tirar nam pagara nada. C E as outras cousas conthyudas no dicto foral antygo ouvemos aquy por escusadas por se nam usarë por tanto tempo que nam ha dellas memoria. E algüas dellas tem ja sua provisã por leys geraaes e ordenações destes Reynos. Como se arrecadara aportagem. A s mercadorias que vierem de fora pera vender nam as descarregarã n ë meteram em casa sem pri-

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TORRE DE D. CHAMA

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meyro ho notefiquar ë || aos rendeyros e officiaes da portagem. E nõ os achando em casa tomarã hüu seu vizinho ou hüa testimunha conhecida. A cada hüu dos quaes diram as bestas e mercadorias que trazem e onde ham de pousar. E entam poderam descarregar e pousar onde quiserë de nocte e de dia sem nhüa pena, E assy poderam descarregar na praça ou açougues de lugar descaminhado (1042). sem a dicta manifestaçam. Dos quaes lugares nõ tiraram as mercadorias sem primeyro ho noteficarem aos rendeyros ou officiaes da portage; sopena de as perderem aquellas que soomente tirarem e sonegarem, e nam as bestas nem as outras cousas. C E se no termo do lugar quiserem vender faram outro tanto se hy ouver rendeyros ou officiaes da portagë. E se os nõ ouver notefiqu ë no ao juiz ou vintaneyro, ou quadrilheyro do lugar onde quiserem vender se os hy achar, ou a dous homëes bõos do dicto lugar ou ah üu, se mais nõ achar, cõ os quaes arrecordara ou pagara, sem mais ser obrigado abuscar os oficiaes në rendeyros, nem encorrer por isso em algua pena. sayda por terra. A os que ouuerem de tirar mercadorias pera fora podellasham cõprar livremëte sem nh üa obrigaçam n ë cautela. E seram soomente obrigados aas mostrar aos officiaes ou rendeyros quando as quiserë tirar e nam em outro tempo. Das quaes manifestações de fazer saber a portagem nam seram escusos os privilegiados posto que a nõ ajam de pagar, segundo adiante no capitulo dos privilegiados vay’ decrarado. privilegiados. A s pessoas ecclesiasticas de todallas igrejas e moesteyros assy dhomëes como de molheres. E as provincias e moesteyros em que ha frades e freyras, irmitães que fazem voto de profissam. E os clerigos dordës sacras. E os beneficiados em ordës menores que posto que nam seiam dordës sacras vivem como clerigos, e por taaes sam avidos. Todos os sobredictos sam isentos e privilegiados de todo direito de portagem në usagem në custumagem por qualquer nome que a possam chamar, assy das cousas que vender ë de seus bëes e beneficios como das q comprarë, trouxer ë

(1042) Escrito a tinta preta.

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TOMO XI

ou leuarë pera seus usos e de seus beneficios e casas e familiares || assy por mar como por terra. C E assy o seram os moradores e vizinhos da dicta villa e termo no mesmo lugar, de todo o dicto direito de portagem livremente. E assy sam liberdados da dicta portagë por privilegio que tem as cidades villas e lugares de nossos reynos que se seguem. S. a cidade de Lixboa, e a Gaya do Porto, Povoa de Varzim, Guimarães, Braaga, Barcelos, Praado, Pontedelima, Viana de Lima, Caminha, Villa Nova de Cerveira, Vallença, Monçam, Crasto Leboreyro, Miranda, Bragança, Freyxo, o Azinhoso, Mogadoyro, Ansiães, Chaves, Monforte de Rio Livre, Montalegre, Crastovic ëte, Villa Real, a cidade da Guarda, Fermelho, Pinhel, Castel Rodrigo, Almeyda, Castelmendo, Villar Mayor, Sabugal, Sortelha, Covilhã, Monsanto, Portalegre, Marvã, Arronches, Canpo Mayor, Fronteyra, Monforte, Villaviçosa, Olivença, Elvas, a cidade d’Evora, Montemor o Novo, Lavar, Monsaraz, Beeia, Moura, Noudar, Almodouvar, Odemira, os moradores no castelo de Cezimbra. C E assy sam liberdados da dicta portagë quaesquer pessoas ou lugares que nossos privilegios teverem e mostrarem ou ho trelado || em pubrica forma, aalem dos acyma cõthyudos. E as pessoas dos dictos lugares privilegiados nam tiraram mais ho trelado do seu privilegio nem o trazeram, soomente traram certidam feyta pello escrivam da camara e com o sello do concelho como sam vizinhos daquelle lugar. E posto que aja duvida nas dictas certidões se sam verdadeyras, ou daquelles que as apresentam poderlhes hã sobrisso dar juramento sem os mais deterë, posto que se diga que nam sam verdadeyras. E se despois se provar que eram falsas perdera ho escripvam que a fez o officio e degradado dous anos pera Cepta, e a parte perdera endobro as cousas de que assy enganou e sonegou a portagem, ametade pera a nossa camara e a outra pera a dicta portagem. Dos quaes privilegios usaram as pessoas nelles conthyudas pellas dictas certidões, posto que nã vãa com suas mercadorias në mandem suas procurações contanto que aquellas pessoas que as levarem jurem que ha dicta MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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certidam he verdadeyra, e que as taaes mercadorias sam daquelles cuja he a certidam que apresentaram. || A qualquer pessoa que for contra este nosso forall levando mais direitos dos aquy nomeados, ou levando destes mayores contijas das aqui decraradas o avemos por degradado por huum anno fora da villa e termo. E mais pague da cadea trinta rrs por hüu de todo o que assy mais levar pera a parte que os levou. E se o nõ quiser levar seia ametade pera quë o acusar e a outra pera os cativos. E damos poder a qualquer justiça onde acõteçer, assy juizes como vintaneyros ou quadrilheyros que sem mais processo ne ordem de juizo, sumariamëte sabida a verdade, condene os culpados no dicto caso de degredo e assy do nosso dinheiro atee contia de dous mil rrs sem apellaçã n ë agravo. E nem disso poder conhecer almoxerife nem contador në outro official nosso, n ë de nossa fazenda en caso que o hy aja. C E se ho Senhorio dos dictos direitos o dicto foral quebrãtar por sy ou por outr ë, seia logo sospensso delles e da jurdiçã do dicto lugar, se a tever, enquanto nossa merçe for. E mais as pessoas que em seu nome ou por elle ho fezerem, encorreram nas dictas penas. E os almexerifes, escrivães e officiaes dos dictos direitos que o assy nã comprire perderam logo os dictos officios e nã averam || mais outros. E portanto mandamos que todallas cousas conthyudas neste foral que nos poemos por ley se cüpram pera sempre. Do theor do qual mandamos fazer tres, hüu delles pera a camara da dicta villa, e outro pera o senhorio dos dictos direitos. E o outro pera a nossa Torre do Tombo pera en todo o tëpo se poder tirar qualquer duvida que sobre ysso possa sobre viis. Dada na nossa muy nobre e sempre leal cidade de Lixboa a quatro de mayo anno do nacimëto de noss Senhor ihu xpo de mil e quynhentos e doze. E eu Fernã de Pina o fiz fazer e concertey em doze folhas com esta E LREY foral de Dona Chamoa.

Na página 1.a do fólio imediato, não numerado, de pergaminho também, lê-se: «Foi registado no tombo Fernã de Pyna». E nada mais. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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TORRES VOUGA

TOMO XI

TORRES V OUGA (Constantino), natural de Amiais de Baixo, concelho de Santarém, onde nasceu a 8 de Agosto de 1886, filho de José Torres Vouga e de D. Maria da Conceição Neto e faleceu em Chaves em meados de Agosto de 1937. Era doutor em Ciências Agronómicas pela Real Escola Superior de Agricultura, de Portici, Itália. Foi-lhe dada equivalência de curso, sendo, por isso, engenheiro-agrónomo de 3.a classe do quadro do Ministério da Agricultura. Foi director do Posto Agrário de Mirandela e exercia ao tempo do falecimento o cargo de director da Escola Agrícola Móvel «Alves Teixeira», de Vidago, e o de chefe da delegação em Chaves, da Brigada Técnida da III Região. Também fez parte, como adjunto, da IV Brigada Técnica da Campanha de Produção Agrícola de Mirandela. Ver o artigo Trigo de Abreu (Álvaro).

TRASMONTANOS (OS) E SUA TERRA VISTOS

POR UM INGLÊS.

COLEJA.

Pelas obras e não pelo vestido é o homem conhecido, ensina a sabedoria das Nações, não obstante a vaidosa estultícia humana, que é infinita, continuar pensando o contrário; por isso, grande foi a decepção dos mirones lisboetas, segundo informou a reportagem jornalística, ao verem o célebre escritor inglês John Gibbons, autor dum livro sobre Coleja, concelho da Carrazeda de Ansiães, intitulado I Gathered no moss, que veio a Lisboa, no dia 26 de Março de 1940, receber o prémio de vinte contos, ganho com esta obra, no concurso aberto em 1939 pelo Secretariado de Propaganda Nacional, para a melhor crítica em língua estrangeira acerca do nosso país. É que, em vez do super-homem de gestos largos, atitudes exibicionistas, pose espaventosa, indumentária rica, de talhe impecável, que esperavam, surgiu do navio uma figura simples, modesta nos gestos, no falar, no vestir, que apesar de premiado noutro concurso internacional celebrado na Itália, apesar de ter percorrido vinte e oito nações espalhadas pela Europa, África, Ásia e América, confessava ingenuamente ser pobre, nunca ter viajado senão a pé ou em 3.a classe por não haver 4.a E muito admirado pelas homenagens que lhe prestaram, dizia serem imerecidas, pois, na sua terra, não passava de homem vulgar; nem tinha, nem nunca tivera casaca nem smoking para ir à festa oficial em sua honra, «mas acaso não poderia ir com o seu fato dos domingos, que é preto e lhe fica bem?» Arriscava ele. Quanto a hotel de luxo e bebidas finas, onde queriam levá-lo, preferia restaurante vulgar, com grandes canecas de cerveja. E, no entanto, como disse o Dr. António Ferro, director do Secretariado de Propaganda Nacional, no discurso pronunciado ao distribuir os prémios, I Gathered no moss é «uma das obras mais belas que se têm escrito, em todos os tempos e em todas as línguas, sobre o nosso país e a nossa gente». MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TRASMONTANOS . . .

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Por último, a bonomia sincera, embora laivada de certa rusticidade natural, alheia a maneirismos protocolares, acaba sempre por triunfar, quando bafejada pelo génio, talento ou virtude, não só na lenda popular, que assim modela seus personagens dilectos, mas também nas sociedades, saturadas de fórmulas praxistas, convencionais, que assim protesta contra a pedantocracia enfatuada e nula, e o inglês teve honras de hóspede citadino. Não foi, porém, só esta a lição que veio dar à nossa estrangeirite crónica, que só lá fora, na Suíça e noutras partes, encontra o belo etnográfico e panorâmico, os motivos de admiração, cultura e bem estar social, o progresso, em suma, pois veio mostrar-nos que em Coleja, minúscula aldeola do concelho de Carrazeda de Ansiães, uma das mais obscuras de Portugal, há tanta poesia, tantos atractivos folclóricos, tanta felicidade, embora rústica, que nada tem a invejar à mais gabada do estrangeiro, a ponto de impressionarem o próprio Gibbons. E lá se ficou quatro meses, enlevado no encanto de tanta simplicidade cheia de grandeza, porque em parte nenhuma viu gente mais hospitaleira do que a portuguesa, e a de Coleja «foi a gente mais honesta, mais corajosa e mais mourejadora, que eu jamais encontrei. E também, suponho eu, a mais feliz». Assim se expressa o próprio Gibbons no discurso de agradecimento à homenagem que lhe prestaram em sessão solene em Lisboa no Teatro da Trindade (1043). No mesmo discurso aludiu a Miranda do Douro dizendo: «Andei em muitas estradas, vi muitas coisas belas; mas a mais bela do Mundo, para mim, é Miranda. Gostava dessa terra por causa do seu lindo nome. Tinha-o lido num mapa mas não contava ir lá um dia. É quase inacessível, mas, quando se chega até lá, pode uma pessoa considerar-se paga de todos os esforços que se fizeram». Como é que Gibbons veio desembarcar a Coleja? Muito simplesmente, sem mesmo pensar no concurso. O seu editor em Londres, sugerindo-lhe a ideia de novo livro disse-lhe: pegue na mala, vá para o estrangeiro, meta-se em lugar isolado e escreva a sua biografia, certamente cheia de episódios interessantes, visto ter corrido tantos países. Gibbons falou no caso a um amigo português, empregado em Londres, que lhe sugeriu Coleja, sua terra natal, e ele aceitou. Quando, porém, viu a quintarola entalada entre montanhas prestes a esmagarem-na, falha de estradas, comboios, eléctricos, telefone, teatros,

(1043) Pode ver-se este discurso nos jornais de Lisboa, A Voz, de 27 de Março de 1940; Diário de Notícias, do mesmo dia. Neste havia saído no dia 23 a entrevista onde se descreve física e moralmente John Gibbons.

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TRASMONTANOS . . .

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TRAVANCA

TOMO XI

clubes, cinemas, restaurantes, onde se pudessem ao menos decilitrar alguns golos de cerveja; quando viu aquelas casas, ermas da mais elementar comodidade indispensável, no entender do seu critério citadino, ficou aterrado e, julgando-se nos páramos da fome eterna, antecâmaras terríficas da desolação e morte, não sabia como passar as 24 horas necessárias para encontrar meio de fugir daquele inferno. Durante esta demora forçada notou que a gente era robusta, ágil, alegre, laboriosa, boa, morigerada, pacífica, generosa, afável, hospitaleira, respeitadora, de costumes interessantes, dotada, em suma, de virtudes raras já hoje neste Mundo ensandecido pelo egoísmo e fobia endémica. Mais notou que arrancava do solo meios de subsistência bem mais sadios do que os consumidos por muitos citadinos, superando-os também na pureza de ares, águas, vistas panorâmicas e usanças tradicionais de encantador sabor arcaico. Esta simplicidade, prelúdio de estado social feliz, prendeu-o, e por ali se foi ficando, enlevado neste bucolismo virgiliano, e por ali lhe decorreram quatro meses, como se fossem quatro dias e, esquecido da sua biografia, foi lançando ao papel, dia a dia, quanto observava, sem exagerar, nem romantizar nada, como o próprio título do livro declara, e focou tão nitidamente o modelo, como ele também diz, os costumes, a vida, a paisagem bragançana, que o seu livro é «uma das obras mais belas que se tem escrito, em todos os tempos e em todas as línguas, sobre o nosso país e a nossa gente».

TRAVANCA D. Maria Beatriz Pegado de Meneses Barroso, mencionada no tomo VI, pág. 255, faleceu em Travanca, concelho de Macedo de Cavaleiros, a 30 de Setembro de 1942. No sítio chamado Fonte Sequilha, termo de Travanca, concelho de Macedo de Cavaleiros, a sul e perto da povoação, vimos, em 1910, uma pedra grande de granito aparelhada, espetada de ponta na terra com a legenda: CA BAR Letras muito bem feitas, fundamente gravadas, pelo teor das que damos nas págs. 127 e 596 do tomo IX, destas Memórias, advertindo que em todas elas o traço que corta os A A é um ângulo agudo com o vértice para baixo. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TRIGO DE ABREU

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TRAVANCA, concelho do Mogadouro. . . . C ..: V A L ..: C A T T O ..: . . :.. P ..: Esta lápide foi publicada inicialmente por Gasco (1044), acompanhada dos seguintes esclarecimentos: «Andando ocupado na mesma diligência [organização do Tombo] vi no luguar de Travanca, bispado de Miranda, em hüa alvissima pedra que esta na parede da igreja Matris, da parte de fora, hum epitafio romano e latino, que o pusera Cnaio Valerio Catão, que devia de ser baze de algüa estatua, ou dos deuses, ou dos Emperadores». TRIGO DE ABREU (Álvaro), engenheiro-agrónomo, natural de Barcel, concelho de Mirandela. Nasceu a 2 de Junho de 1889, filho de Joaquim Trigo Negreiros e de D. Cândida da Conceição Trigo. Fez o curso liceal em Bragança e o da especialidade no Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, que concluiu em 1922, defendendo a tese em 1923, sobre Subsídios para o estudo da olivicultura no concelho de Mirandela. Em 17 de Novembro de 1924, foi nomeado adjunto director da Escola Agrícola Móvel das Caldas da Rainha e encarregado de dirigir o posto agrário de Mirandela, lugar que exerceu até que, por despacho de 6 de Junho de 1927, foi nomeado director da Escola Agrícola Móvel «Meneses Pimentel», onde se conservou até que por força do disposto no decreto n.° 18 604, de 12 de Julho de 1930, passou a exercer as funções de director da Estação Sericícola Meneses Pimentel. Nos termos do artigo 196.° do decreto n.° 27 207, de 16 de Novembro de 1936, foi mandado prestar serviço como chefe de Brigada Técnica da III Região. Por decreto de 23 de Novembro de 1932, foi nomeado agrónomo de 3.a classe e ficou pertencendo ao quadro da Direcção-Geral dos Serviços Agrícolas do Ministério da Agricultura. Pela portaria de 13 de Novembro de 1929, foi agregado à comissão encarregada de apresentar as medidas necessárias ao desenvolvimento da sericicultura. Pelo decreto n.° 18 604, de 12 de Julho de 1930, passou a fazer parte da Comissão Central da Sericicultura. Por despacho de 21 de Julho de 1931,

(1044) CRUZ , António — Um inédito de António Coelho Gasco sobre antiguidades de Trás-os-Montes, 1935, p. 18. Sobre o título completo do manuscrito, ver o artigo Gasco (António Coelho). Como no bispado de Miranda há três povoações com o nome de Travanca, não sei a qual se refere, mas, atendendo à circunstância de a lápide ser «alvissima» e na região mirandesa abundarem as de mármore, pelas razões apontadas no artigo «Mármores», é possível que se trate de Travanca, concelho do Mogadouro.

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TRIGO DE NEGREIROS

TOMO XI

foi nomeado para acompanhar os lavradores na excursão, promovida pela Federação dos Sindicatos Agrícolas do Norte, à Holanda, Alemanha, Dinamarca e Suécia. Pela portaria de 21 de Janeiro de 1932, passou a fazer parte da Junta Nacional de Sericicultura e, por despacho da mesma data, foi autorizado a desempenhar as funções de presidente da Junta Cadastral do Concelho de Mogadouro. Por despacho de 31 de Março de 1932, foi nomeado para fazer parte da comissão encarregada de elaborar o projecto do Regulamento da Escola Agrícola Móvel «Alves Teixeira», de Vidago. Exerceu também, durante a Campanha do Trigo e da Produção Agrícola, o lugar de chefe da IV Brigada e o de inspector fitopatológico, desde 21 de Maio de 1932. Álvaro Trigo de Abreu, António Alexandre Pegado de Sousa Barroso (1045), Constantino Torres Vouga, José Luís de Sousa e Francisco João Lourenço, doutores, engenheiros-agrónomos da III Brigada Técnica, com sede na Estação Sericícola Meneses Pimentel, em Mirandela. Publicaram: Forragens. 1936, 8.° de 83 págs., mais 4 mapas desdobráveis e muitas fotogravuras de espécies pecuárias trasmontanas. É um valioso estudo referente ao armentio e forragens trasmontanas e constitui o Folheto n.° 21 da colecção «Estudos Técnicos da Campanha da Produção», publicada pelo Ministério da Agricultura. Este trabalho abrange 127 págs., mas desde a 84 por diante diz respeito à Beira Trasmontana e pertence à autoria do engenheiro-agrónomo Dr. Manuel Teles de Vasconcelos, chefe da X Brigada Técnica. TRIGO DE NEGREIROS (Joaquim), tomo VIII, pág. III. Em Agosto de 1940, houve remodelação ministerial. Entraram vários ministros e subsecretários de Estado. Entre estes foi um deles o Dr. Trigo de Negreiros, como Subsecretário de Estado das Corporações. Os outros tomaram posse no dia 28 de Agosto, mas o Dr. Trigo de Negreiros só a tomou alguns dias depois, por ter sofrido um desastre ao tomar o carro no Porto. Escreveu: Dez Anos de Política Social, 1933-1943, Lisboa, 1943, 4.° de 177 págs., mais 22 e uma de registo, inumeradas. Contém muitas folhas desdobráveis, gráficos e gravuras. É um profundo estudo económico sobre a acção do Instituto Nacional de Trabalho e Previdência. TRINDADE (Francisco Manuel). Tomo VII, pág. 564. Dissemos, por informações, que morrera em 1856 ou 1857. Os seguintes dados precisam mais o

(1045) Ver tomo VI, pág. 255, onde, por descuido na revisão das provas, aparece com o apelido de Mendes em vez de Meneses.

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TUIZELO

585 TOMO XI

caso. No Almanaque de Lembranças Luso-Brasileiro para 1856, pág. 218, vem um artigo seu, com a assinatura F. M. Trindade, e no Panorama, 1857, pág. 57, referindo-se ao mesmo artigo lê-se: «A descripção do antiguissimo mosteiro da aldêa de Castro de Avelãs, feita por um curioso mancebo, já falecido, da cidade de Bragança, no Almanach do Sr. Castilho do anno passado, não é exata, porque houve engano no numero de fogos da aldêa de Castro de Avelãs, que só tem onze, dando-lhe na aludida descripção 56. Os 56 são de toda a paroquia, que consta de mais dois povos — Fontes e Grandaes». TUIZELO. Tomo VI, pág. 481. Sobre o morgadio de Tuizelo e família, ver: P.e Firmino Augusto Martins, Folclore do concelho de Vinhais, 1928, pág. 117, onde se transcrevem os documentos do vínculo; Antero Falcão, Breves apontamentos para a história genealógica de algumas famílias da província, in «Enciclopédia das Famílias», 1903, págs. 198 e 449, em nota. «MEMORIA

GENEALOGICA DOS MORAES DE TIOZELLO

João Rodrigues Calvo, Senhor do grande castello de Pico Sacro, junto a São Thiago de Galiza, e da Villa de Bomboi, e de outra junto a Puebla de Senabria, era descendente por varonia ligitima de Laim Calvo, Governador da Espanha. Este castelo de Pico Sacro lhe muito celebrado em Galiza, por que em reconhecimento daquelle Senhorio, e de certa luctuosa, que he pagavão, costumavão, e parece que ainda costumão os subditos, ou vassalos delle praticar diversos actos de subjeição, e dependencia. Deste João Rodrigues Calvo foi filho João Calvo de Moraes, Senhor do mesmo castello, e villas, e teve por façanha ser valente, e destemido; e por isso comettendo alguns crimes, foi precizado a retirar-se para Portugal com seu unico filho Duarte Rodrigues de Moraes em tempo de ElRey D. Manoel, e viverão algum tempo, no lugar do Pinheiro Velho, termo de Vinhaes. O dito Duarte Rodrigues de Moraes cazou em Portugal com a muito formoza, e honrada senhora Catharina Gonçalves, como naquelle tempo chamavão as senhoras da sua qualidade, a qual era herdeira da illustre, e antiga caza de Tiozello, termo da mesma Villa de Vinhaes: ElRey D. Manoel lhe deu o Foro de Fidalgo da Caza Real, e juntamente varios chãos do conselho nos lugares de Tiozello, Nuzedo, Salgueiros, Quadra, Landedo, Carvalhas, Santa Cruz, Lerdedo, e Villarinho todos do termo de Vinhaes; delles, e de outras fazendas, que juntou, instituiu o Morgado do Tiozello com vários encargos de esmollas, e ordenado para hum capellão da sua antiga capella de Santa Maria Magdalena; e foi padroeiro da Mizericordia de Vinhaes, em cujo cartorio se achão todas as escripturas respectivas do seu tempo, nas quaes os tabelliaens fallando no padroeiro, se explicavão dizendo — Pareceu o MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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TUIZELO

TOMO XI

sr. Duarte Rodrigues de Moraes, e a muita formoza, e honrada senhora Catharina Gonçalves, sua mulher. Deste matrimonio tiverão Rodrigo de Moraes, Fidalgo da Caza Real, que foi capitão de cavallos, e depois serviu na India com grande valor, e honra: cazou em Bragança com D. Maria Sarmento filha de Jacome Luiz Sarmento Alcaide Mór de Bragança, e Pessoa muito illustre, de quem procedem os milhores Sarmentos de Trás os Montes, e tiverão. Ayres de Moraes Sarmento Fidalgo da Caza Real, sargento-mór de Infanteria, que cazou em Chaves com D. Anna de Araujo Vellozo filha de Francisco Alvares Vellozo, Fidalgo da Caza Real, e tiverão Rodrigo de Moraes Sarmento, Fidalgo da Caza Real, capitão-mór de Vinhaes, que cazou com D. Maria de Mariz, irmãa de seu cunhado Rodrigo Dourado de Mariz, Fidalgo da Caza Real, filho de Francisco Dourado de Mariz, filho de Estevão Dourado, e de sua mulher D. Maria de Mariz, filha esta de Lopo de Mariz, fidalgo da Caza Real, e pessoa muito illustre, que tambem teve outra filha D. Izabel de Mariz, cazada com Nuno Álvares Pereira, progenitores dos condes de S. Miguel; e tiverão os ditos Rodrigo de Moraes, e sua mulher. Balthezar de Moraes Sarmento, Fidalgo da Caza Real, capitão-mór de Vinhaes, e depois sargento-mór de Infanteria, e Governador da Praça de Vinhaes, que cazou com D. Francisca Ozoreo de Albuquerque, filha de Antonio Malheiro da Cunha das mais principaes pessoas de Bragança, e tiverão André de Moraes Sarmento, Fidalgo da Caza Real, e cavalheiro professo na Ordem de Christo, que cazou na Torre de Moncorvo com D. Anna Monteiro de Sá Taveira, filha herdeira de Antonio Monteiro Pimentel, das pessoas mais illustres daquella Provincia, e de D. Barbara de Sá, filha de Paulo de Sá Moraes, Fidalgo da Caza Real, e Senhor da antiga caza de Crasto Vicente, e tiverão: Balthezar de Moraes Pimentel de Sá e Sarmento, Fidalgo da Caza de Sua Mag.e commendador na Ordem de Christo, que succedeu na caza de seus pays por morte de seus irmãos mais velhos; e cazou com D. Leonor Liboria Vahia Villasboas, filha herdeira de Luiz Vahia Monteiro de Mesquita, Fidalgo da Caza de Sua Mag.e e do seu Concelho, que serviu na Guerra, foi coronel de Infanteria, Governador da Puebla de Senabria, praça castilhana que tinhamos conquistado, e depois Governador e Capitão General do Rio de Janeiro, e de sua mulher D. Antonia Bazilia Villasboas, filha herdeira de Francisco de Sá Villasboas, mestre de campo das milicias auxiliares da Comarca de Torre de Moncorvo, e de sua mulher D. Anna Jozéfa Pereira de Gouveas dos illustres Gouveas de Fontearcada; e tiverão D. Luiza Maria Antonia de Moraes Pimentel Vahia Villasboas de Sá, e Sarmento, filha herdeira da casa dos ditos seus pays, que cazou com João Antonio de Sá Pereira, Fidalgo da Caza de Sua Mag.e e do seu conselho, que MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TURISMO BRAGANÇANO

587 TOMO XI

foi coronel de Infanteria, e depois Governador e Capitão General da Ilha da Madeira; commendador na Ordem de Christo, &a; e deste matrimonio tiverão Francisco Xavier de Sá Pereira de Moraes Pimentel Vahia Villasboas Sarmento, Moço Fidalgo da Caza de Sua Mag.e unico herdeiro, e sucessor das cazas de seus Pays» (1046). TURISMO BRAGANÇANO. Ver Excursões Bragançanas, pág. 303.

V VALE BENFEITO. A propósito dos punhais descritos na pág. 277, ver adiante o artigo Vimioso. Por provisão régia de 18 de Fevereiro de 1826, fez el-rei saber que António Vicente de Abreu, do lugar de Vale Benfeito, termo da cidade de Bragança, administrador de um morgado instituído por seu bisavô Manuel de Faria Figueiredo, em 1667, composto somente de uma quinta chamada o Vaso de Ouro, junto a Bragança, que não rendia cem mil réis anuais, livres das despesas, por isso, ao abrigo da «Lei Novíssima» declarou abolido o dito vinculo e encargos pios (1047). No tomo IV, pág. 244. publicamos a «Carta d’afforamento da herdade da Serra de Vale Bemfeito», na ideia de se referir à povoação deste nome no concelho de Macedo de Cavaleiros, mas o diligente investigador e escritor P.e Ernesto Augusto Pereira Sales, disse-nos, em carta de 20 de Outubro de 1919, que este aforamento «quase certamente se pode afirmar que se não refere à povoação trasmontana do mesmo nome, mas à que existe nas proximidades de Óbidos, a qual teve uma certa importância e várias referências nas chancelarias reais». Nada posso dizer sobre o assunto, lembrando apenas que Vale Benfeito, está situado na vertente sudoeste de uma serra, hoje chamada Serra de Bornes ou de Monte Mé. Caminho-de-Ferro do Pocinho a Miranda do Douro, tomo IX, pág. 230. A 22 de Maio de 1938, inaugurou-se a construção da via férrea de Mogadouro a Duas Igrejas, ficando pronta para a circulação do comboio.

(1046) Arquivo Histórico Colonial, Reino, Papéis avulsos, 1794. Ao velho amigo Dr. Santos Júnior, da Universidade do Porto, agradecemos a comunicação deste documento. (1047) Provedoria de Miranda, fólio 172 verso. Este códice conserva-se no Museu de Bragança e é datado desta cidade, a 6 de Maio de 1818, o seu termo de abertura.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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VALE DE ASNES

TOMO XI

VALE DE ASNES, tomo VI, pág. 489, destas Memórias. Habilitação de genere em 1768 de José Manuel de Meireles e Albuquerque e João António de Meireles, de Vale de Asnes, filho de José de Meireles Pinto, de Vale de Asnes, e de D. Maria de Albuquerque e Telo, de Alfândega da Fé; netos paternos de João de Meireles e de Isabel Esteves, ambos de Vale de Asnes e maternos de Rodrigo de Sá Machado, de Alfândega da Fé, e de D. Rosa Maria de Ordoñez, do Vimioso. Esta era irmã do cónego da Sé de Miranda, Gaspar de Morais Antas. Será o cónego Gaspar de Morais, mencionado na pág. 654, do tomo VI, destas Memórias? (1048). VALE DE JANEIRO. Tomo VI, pág. 491, destas Memórias. JOÃO ANTÓNIO DE MORAIS SILVA, filho de António Borges de Morais e de D. Maria Josefa de Morais e Silva Meneses, de Vale de Janeiro, requereu habilitação de genere a fim de se ordenar «para poder haver o cavaleirato da pensão de 50$00, que seu tio o Reverendo João Borges de Moraes, abbade de S. Pedro de Britello, arcebispado primaz, lhe impoz no mesmo beneficio». Declara que sua mãe é irmã do P.e Domingos Manuel Silva, de Candedo. Processo em 1780, com as seguintes certidões, que deu em súmula: JOÃO ANTÓNIO, o habilitando, nasceu em Vale de Janeiro, a 12 de Maio de 1772, filho de António Borges de Morais, de Vale de Janeiro, e de D. Maria José de Morais Silva Meneses, de Candedo; neto paterno de António Borges, de Vale de Janeiro, e de Catarina Gonçalves, da Maçãvia, e materno de Tomé da Silva Morais, de Candedo, e de D. Maria Arcângela da Roda Meneses, natural das Vilares da Torre. Foi madrinha D. Luísa de Morais Silva, de Candedo (1049). VALE DAS FONTES. Tomo VI, pág. 539, destas Memórias. Habilitação de genere em 1786, de João Ferreira e seus irmãos António José e José Bernardo, naturais de Vale das Fontes, termo de Vinhais, filhos de Cristóvão José Ferreira de Morais, do Vimioso, e de Catarina da Fontoura, do Vale das Fontes; netos paternos de António Ferreira de Castro, do Vimioso, e de D. Arcângela de Morais Figueiredo, da Ferradosa, anexa da Fradizela, concelho de Mirandela, e maternos de Francisco Gonçalves e de Catarina da Fontoura, ambos do Vale das Fontes (1050).

(1048) Processo existente no Arquivo da Câmara Eclesiástica em Bragança. (1049) Ibidem. (1050) O processo contém várias certidões e guarda-se no Arquivo da Câmara Eclesiástica em Bragança.

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VALE DE LAMAS . . .

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VALE MAIOR

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VALE DE TELHAS

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VALE DE LAMAS, SÃO FINS DA CASTANHEIRA, BRAGANÇA, FREIXO DE ESPADA À CINTA, SARMENTOS, LOUSADAS, FIGUEIREDOS E ANTAS. Ver tomo VI, págs. 77, 491, 564 e 634; tomo VII, págs. 216 e 347. João Ferreira Sarmento de Lousada, natural de São Fins da Castanheira, concelho de Chaves, filho de João Ferreira Sarmento de Lousada, natural de Bragança, e de D. Maria Leonor de Vasconcelos, natural de Sanhoane, bispado do Porto, casou com D. Guiomar Luísa de Figueiredo Antas, natural de Freixo de Espada à Cinta, filha de José António Pinto de Morais Botelho, natural da referida vila de Freixo e de D. Joana Luísa de Figueiredo Morais Antas, natural de Vale de Lamas, concelho de Bragança. Tiveram: Maria Isabel, nascida em Freixo de Espada à Cinta a 30 de Janeiro de 1785 (1051). Da capela do Calvário, mencionada no tomo VI, pág. 491, destas Memórias, segundo a tradição, «ficava ao norte da povoação e contígua a esta na propriedade que fica entre os dois caminhos que, indo de Baçal, se bifurcam a 500 ou 600 metros, antes da povoação», apareceram os alicerces pelos anos de 1930, junto ao caminho, lado poente, quando procuravam arrancar pedra na pequena mata de castanheiros, carvalhos e outras árvores, que a cortinha tem para esse lado, numa pequena eminência. Hoje essa propriedade pertence aos Araújos, herdeiros de Benedito Branco, que a houve, assim como muitos outros bens, dos Figueiredos de Bragança, que tinham um grande casal em Vale de Lamas. VALE M AIOR, freguesia de Vale de Gouvinhas. Habilitação de genere em 1787, de Inácio Xavier e António Joaquim, filhos de António Gonçalves Sespeda (sic), de Vale Maior, freguesia de Vale de Gouvinhas, concelho de Mirandela e de D. Angélica Caetana de Sampaio Taveira, de Vale Benfeito; netos paternos de António Gonçalves, de Vale Maior, e de Leonor Lopes Sespeda, de Vale Benfeito e maternos de Alexandre de Carvalho e de D. Luísa Taveira de Sampaio, da Fonte Longa, concelho de Carrazeda de Ansiães (1052). VALE DE TELHAS. Tomo VI, págs. 69. 495 e 778. Carta régia de 3 de Novembro de 1688, ao Cabido da Sé de Miranda, dizendo: «que o visitador desse bispado obrigara ao rendeiro da Comenda de Santo Ildefonso de Val de Telhas da Ordem de Christo a pagar trinta mil reis para concerto da capella-mór, e sacrario daquella Igreja pondo sequestro nos frutos da dita (1051) Livro dos Baptizados de Freixo de Espada à Cinta, de 1778 a 1786, fol. 176, donde extraímos a ascendência de Maria Isabel. (1052) O processo contém várias certidões e guarda-se no Arquivo da Câmara Eclesiástica de Bragança.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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VALE DE TELHAS

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VARGAS

TOMO XI

Comenda». Manda que se levante o sequestro «porque ao tribunal da Meza da Conciencia pertence — prover semelhantes obras» (1053). VARGAS (Diogo Albino de Sá), doutor em direito, professor liceal. Tomo VII, pág. 569. Das suas benemerências em prol da instrução e da humanidade sofredora, dão testemunho as seguintes notícias extraídas do Trás-os-Montes, de 1 de Abril de 1939. Dizem assim: «No dia 13 do corrente (refere-se a Março), faleceu na sua residência, em Lisboa, (Travessa das Mercês. 9-1.°) o sr. dr. Diogo Albino de Sá Vargas, natural de Bragança, filho do dr. José Marcelino Sá Vargas e de D. Maria Augusta Pereira de Castro Sá Vargas. O ilustre extinto que contava 56 anos de idade, fôra — antes de 28 de Maio — membro da Câmara dos Deputados e chefe de gabinete, aquando o sr. Coronel Vitorino Guimarãis sobraçou a Pasta das Finanças. Actualmente era professor do 6.° grupo do Liceu Passos Manuel e primeiro assistente da Faculdade de Ciências. O seu cadáver ficou depositado no jazigo de sua tia, D. Fortunata de Sá Vargas Vergueiro, no Cemitério do Alto de S. João». O dr. Sã Vargas, que faleceu no estado de solteiro, deixou o seu testamento nos termos seguintes: «Lega à sua governanta, Dona Josefa Ribeiro Cardoso, solteira, doméstica, natural de Sobreira Formoso, distrito de Castelo Branco, o usufruto de todos os bens imobiliários, que possui no concelho de Macedo de Cavaleiros e a propriedade de todos os mobiliários existentes no mesmo concelho, com dispensa de caução e arrolamento, e a propriedade dos referidos imóveis deixa-a ao Hospital de Macedo de Cavaleiros. Deixa ainda à referida senhora D. Josefa todos os móveis que lhe pertençam e se encontrem em Lisboa na casa onde residir e também a pensão a que tem direito do Monte Pio Geral, com sede em Lisboa, de que é sócio número quinze mil quinhentos e dezanove. Os legados desta sua governanta, são isentos de qualquer encargo, mesmo fiscal, o qual será pago pela sua herança. Lega à sua afilhada Maria Normanda Fernandes, residente com seus pais em Coimbra, a sua Quinta de S. Lázaro, situada nos suburbios de Bragança. Deixa todos os objectos de prata e todos os móveis artísticos existentes na sua casa de residência, em Bragança, bem como o retrato de seu tio Conselheiro José Marcelino de Sá Vargas, ao Museu Regional de Bragança, com a obrigação de na sua exposição se declarar que pertenceram à família Sá Vargas. (1053) Museu de Bragança, secção Arquivo Distrital, maço de cartas da correspondência episcopal.

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VARGAS

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Deixa ao Museu Militar, existente no Castelo de Bragança, a espingarda de seu tio Alberto José Vergueiro e o seu retrato que se encontra numa das salas da sua casa de residência, em Bragança. Institue herdeira de todos os seus restantes bens, direitos e acção a Santa Casa da Misericórdia de Bragança, com a obrigação de entregar ao seu feitor Eduardo Pereira, se estiver ao seu serviço, a importância de três mil escudos. Ao Hospital de Macedo de Cavaleiros impõe a obrigação de institituir no Liceu Emidio Garcia, de Bragança, um prémio anual de trezentos escudos, que será dado ao melhor aluno do último ano, em memória do seu pai, que foi Reitor do mesmo Liceu. Deixa todos os seus livros que se encontram em Bragança e em Lisboa, à Biblioteca do Museu Regional de Bragança, com a obrigação de serem colocados nas estantes com indicação de terem pertencido à família Sá Vargas. Dos jazigos de Bragança e de Lisboa, na parte que lhe pertence, deixa a propriedade e conservação, respectivamente, às Misericórdias daquela e desta cidade, devendo aquela pagar a esta o que por isso lhe fôr devido. Testamenteiros: Em primeiro lugar, o doutor José Eugénio Teixeira, solteiro, maior, de Braganca, em segundo lugar o doutor Adrião Martins Amado, casado, professor do Liceu de Bragança, e em terceiro lugar Albano Maria Fernandes, casado, professor do Liceu José Falcão, em Coimbra. Por esta forma tem feito o seu testamento e disposição da sua última vontade, revogando por ele qualquer outro anteriormente feito. Assim o disse e outorgou do que dou fé, não me tendo apresentado documentos para cumprimento do artigo quarenta do Decreto quinze mil e oitenta e nove, por os ter neste momento longe. Foram testemunhas presentes, cuja idoneidade verifiquei, os senhores José Luiz Maria Rodrigues Praça, casado, funcionário público, morador na rua Senhora da Glória cento e quarenta e Joaquim Martins Correia de Castro, viúvo, motorista, morador neste prédio, no quinto andar, que vão assinar este testamento com o testador o qual nele aporá a sua impressão digital, depois de por mim lido e explicado o seu conteudo em voz alta na presença simultânea de todos. Em tempo: Pelo testador foi ainda declarado que se à hora da sua morte, tiver dívidas, estas serão pagas, em partes iguais, pelo Hospital de Macedo de Cavaleiros e pela Misericórdia de Bragança e que para o Museu Regional de Bragança serão também as colchas de sêda e damasco existentes na sua casa de residência da mesma cidade. Lido e explicado em voz alta este «em tempo», por mim, na presença simultânea de todos, vão assinar. O testador, Diogo Albino de Sá Vargas» (1054). (1054) Trás-os-Montes de 1 de Abril de 1939, onde o testamento foi transcrito, acompanhado do retrato do testador.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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VARGE

TOMO XI

VARGE Em Varge, freguesia de Aveleda, concelho de Bragança, encontrou Paulino Fernandes, em Março de 1938, andando a desterrar no seu lameiro de Labusélo ou Lebusélo, como outros pronunciam, cousa de um quilómetro a noroeste da povoação, e à profundidade de um metro, pouco mais ou menos, a documentação arqueológica inédita seguinte:

Figura 7

Estela discóide de granito, ornada por suástica de seis raios inscrita em superfície rebaixada na pedra e quartelas. Do letreiro, também em plano cavado na lápide, somente ficou a primeira carreira de letras, sendo as restantes levadas por quebradura, que não apareceu. Letras muito bem feitas, equidistantes e proporcionadas, inculcando perícia no lapicida em período áureo de cultura. O traço transversal dos A A fica a meio, sem tocar na segunda perna da letra. A segunda letra, um A e um M conjuntos, mas a segunda perna do A não toca no vértice da primeira. O letreiro dirá: C A M A (lus), isto é: que ali jaz Camalo, ou que Camalo mandou erigir o monumento. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


VARGE

593 TOMO XI

Altura máxima da lápide 0,45 m, largura 0,34 m, grossura 0,14 m. Corpo das letras, em sentido vertical, 0,053 m.

Figuras 8 e 9

Cabeceira de estela discóide de granito, encontrada junto da anterior, ornada por suástica, de que só restam três raios, devendo supor-se que os outros foram levados pelo roçar do tempo ou, talvez melhor, por lasca tirada à pedra, pois nela ainda ficou campo onde cabiam. Altura máxima 0,40 m, largura 0,38 m, grossura máxima 0,18 m, pois é de forma abaulada. Parte inferior de outra lápide de granito encontrada junto das antecedentes, vendo-se ainda nitidamente as letras da conhecida fórmula S(it) T(ibi) T(erra) L(evis) e por cima delas o vestígio de um S, todas em plano rebaixado no granito. Altura 0,45 m, largura 0,41 m, grossura máxima 0,18m, pois é de forma abaulada. Corpo das letras, em sentido vertical 0,08 m (figs. 8 e 9); Junto desta apareceu um pedaço de granito aparelhado, mas sem letras, também de forma abaulada pelo lado de trás, com largura e grossura sensivelMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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VARGE

TOMO XI

mente iguais às das figs. n.os 8 e 9, ajustando perfeitamente no todo, donde parece concluir-se que os três faziam parte do mesmo monumento, faltando ainda o resto da inscrição. Junto das anteriores, encontrou-se também esta parte de uma lápide funerária de granito, pertencente ao texto epigráfico, faltando as outras (fig. 10). Os A A não são cortados por traço transversal. Na primeira linha, M e V conjuntos. Na penúltima e última o solecismo de apresentar em genitivo do singular o número de anos. A inscrição diz: Jemuria, filha (ou escrava, ou liberta) de Cenoni, falecida de 60 anos, aqui jaz. Figura 10 O nome Jemuria encontra-se na lápide de Castro de Avelãs (Memórias ArqueológicoHistóricas do Distrito de Bragança, tomo IX, pág. 48). O nome Cenoni aparece em textos epigráficos espanhóis (Boletin de la Academia de la Historia, tomo 50, pág. 437). Altura da lápide 0,42 m, largura 0,41 m, grossura 0,16 m. Corpo das letras, em sentido vertical, 0,041 m. Junto das lápides anteriores apareceu mais esta, de granito, aparelhada pela frente e pelas faces laterais, ficando a de trás em bruto, bem como no fundo, a parte que seria destinada a enterrar-se na terra para a segurar de pé. O todo, ornado por escócias, toros cortados, filetes e mais figurações lineares clássicas, indica ara votiva, mas não tem letras e apenas o espaço onde deviam ir. No cimo, em vez da miniatura do foculus, que muitas apresentam, a figuração representada no gráfico. Largura máxima 0,31 m, mínima 0,25 m. Está partida em dois pedaços, que ajustam perfeitamente, indicando que nada falta. Um desses pedaços tem de altura 0,50 m e o outro 0,36 m, vindo, portanto, o monumento todo a Figura 11 ter de altura 0,86 m (fig. 11). MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


VASSALO

595 TOMO XI

Junto destas lápides apareceram dois blocos de cantaria, nos quais abriram covas circulares maiores e menores, chegando algumas a quase meio litro de capacidade. Um dos blocos tem quatro covas: duas pelo lado de cima e duas pelo de baixo. O outro apresenta três por um lado e uma pelo outro. Provavelmente eram destinadas a formas para laboração de utensílios, pois no local abundam escumalhos de ferro e um dos blocos ainda tem pegada uma escória. Também no local encontrou o mesmo feliz descobridor Paulino Fernandes, fragmentos de ossos, já a desfazerem-se em cinza, cacos de vasos grosseiros de grande capacidade e outros de louça fina, tipo saguntino. V ASSALO (José Caetano de Magalhães). Há dele no Museu Regional de Bragança, por oferta de Soveral Pastor, de Vila Flor, um véu de cálix, seda azul, impresso em três planos em Coimbra, na Imprensa Académico-Régia, ano 1776, com umas conclusões canónico-civis, defendidos no quinto ano da sua formatura, dedicadas a Maria Santíssima, sob o título da Lapa. V ASCONCELOS (Doutor José Leite de Vasconcelos Cardoso Pereira de Melo), tomo VII, pág. 581. Morreu em Lisboa, Rua de D. Carlos Mascarenhas, 4, a 17 de Maio de 1941, este profundíssimo mestre das letras portuguesas. VAZ DAS NEVES (D. Abílio Augusto), bispo de Cochim, nasceu em Ifanes, concelho de Miranda do Douro, a 8 de Junho de 1894, filho de Albino José Vaz das Neves e de D. Isabel Maria Antão, lavradores. Iniciou o estudo de preparatórios, aos 13 anos de idade, no Seminário das Missões em São Tomé de Meliapor, onde os concluiu, e teologia em Mangalor, onde foi ordenado presbítero em 7 de Dezembro de 1919. Foi pároco da Sé de Mangalor, confessor ordinário das freiras, director do orfanato masculino e ultimamente director espiritual do seminário, em cujos cargos mostrou sempre zelo e competência. Foi sagrado bispo de Cochim, diocese vaga desde 1931, pelo falecimento de D. José Bento Martins Ribeiro, a 28 de Janeiro de 1934, na igreja do Bom Jesus de Goa, pelo Patriarca das Índias, D. Teotónio M. Ribeiro Vieira de Castro, tomando posse a 22 de Fevereiro de 1934. A 6 de Dezembro de 1938, foi transferido para a diocese de Bragança, tomando posse, por procuração, a 28 de Março de 1939, fazendo sua entrada solene em Bragança a 30 de Março de 1939 (1055).

(1055) Ver O Comércio do Porto de 31 de Março de 1939, onde se descreve minuciosamente a entrada.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


596

VAZ PEREIRA

TOMO XI

Dizem os jornais que o bispo de Cochim «organizou os arquivos da cúria diocesana, remodelou a administração das paróquias e criou uma vida mais desafogada ao clero paroquial; deu novo incremento às Confrarias da Doutrina Cristã; criou a C. E. das Crianças e 101 pias uniões; levantou 14 novas igrejas; deu grande impulso à instrução, criando novas escolas e melhorando as condições financeiras de outras que não se encontravam em condições de funcionar por falta de meios pecuniários; fundou centros de operários anticomunistas e celebrou um Congresso Diocesano Mariano» (1056). Da sua acção episcopal em Bragança nada diremos; é cedo para se poder apreciar livre e imparcialmente como deve ser. Na parte bibliográfica conta: Carta Pastoral do Bispo de Bragança e Miranda (D. Abílio Augusto Vaz das Neves). Saudação e Exortação a seus diocesanos. Coimbra, 1939, 8.° de 8 páginas. É datada de Bragança, a 30 de Março de 1939. Pastoral Escolar da Liturgia. Lisboa 1943, 8.° de 20 páginas. É datada de Bragança, a 15 de Fevereiro de 1943. A Obra das Vocações Sacerdotais. Braga, 1944, 8.° de 15 páginas. É datada de Bragança, a 26 de Julho de 1943. Pastoral sobre o IV Centenário da Fundação da Diocese de Bragança e Miranda. Braga, 1944, 8.° de 10 páginas. É datada de Bragança, sem indicar o dia, apontando apenas: «Páscoa da Ressurreição de Nosso Senhor de 1944», que nesse ano caiu a 9 de Abril de 1944. Pastoral sobre o Sacerdócio Católico e a União Apostólica do Clero Secular. Jubileu sacerdotal de D. Abílio Augusto Vaz das Neves. Porto, 8.° de 23 páginas. É datada de Bragança, a 11 de Novembro de 1944. Exortação Pastoral sobre a preparação para as festas Centenárias da fundação da diocese de Bragança e Miranda. Braga, 1945, 8.° de 16 páginas. É datada de Bragança, dia da Purificação da Nossa Senhora (2 de Fevereiro), de 1945. V AZ P EREIRA (João José), bispo titular de Canhes, natural do Franco, concelho de Mirandela. Tomo VI, pág. 711. Cópia da sua carta de Brasão de Armas. Nesta cópia, os sinais || e || marcam, respectivamente o final da primeira e segunda páginas de cada fólio. «D. João por Graça de Deos Rey do Reyno Unido, de Portugal, do Brazil, e Algarves, daquem e dallem mar, em Africa Senhor da Guiné, e da Conquista

(1056) Em A Voz de 11 de Março de 1939. Terras de Bragança de 20 de Dezembro de 1938 e 10 de Maio de 1939, faz uma recapitulação dos seus serviços na Índia.

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VAZ PEREIRA

597 TOMO XI

Navegação, e Commercio da Ethiopia, Arabia, Percia e da India etc. Faço saber aos que esta Minha Carta de Brazão de Armas de Nobreza, e Fidalguia virem que João José Vaz Pereira Reytor do Seminario Archiepiscopal de Braga, Chantre da Santa Sé da mesma Cidade, e Dezembargador Provizor daquelle Arcebispado, me fes petição dizendo que pella Sentença de Justificação de sua Nobreza a ella junta, profferida, e assignada pello Meu Dezembargador, Corregedor do Civel da Corte, e Casa da Suplicação o Doutor Joze Guilherme de Miranda, subscripta por Joaquim Rebello de Lima e Aragão Escrivão do mesmo juizo, se mostrava que elle he || filho legitimo do Capitão João Vaz, e de sua mulher Donna Comba Alvares Dias Pereira. Neto por parte paterna de Pedro Vaz, e de sua mulher Donna Maria Vaz; e por parte materna de Pedro Alvares, e de sua mulher Donna Thereza Dias Pereira, e que igualmente he Irmão inteiro do Sargento Mór Pedro Joze Vaz Pereira, a quem se passou Brazão de Armas aos vinte e hum dias do mez de Março de mil oitocentos, e quinze. E que os refferidos seus Pays, e Avós são pessoas Nobres das familias de Vazes, Dias, e Pereiras, e como taes se tratarão sempre á Ley da Nobreza com criados e cavallos, sem que emtempo algum cometecem crime de Leza Magestade Divina ou Humana. Pello que me pedia elle suplicante por Mercê, que para a memoria de seus Progenitores se não perder, e clareza da sua antiga Nobreza lhe manda-se dar Minha Carta de Brazão de Armas das ditas familias para dellas tambem uzar, na forma que as trouxerão, e forâo consedidas aos ditos seus Progenitores. E’ vista por Mim a dita sua petição, sentença, e constar de tudo o referido, e que a elle como descendente das mencionadas familias lhe pertence uzar, e gozar de suas Armas; segundo o Meu Regimento, e Ordenação da Armaria lhe mandei passar esta Minha Carta de Brazão dellas, na forma que a qui vão Brazonadas, Devizadas, e Iluminadas com || cores, e metaes segundo se achão Registadas no Livro do Registo das Armas da Nobreza, e Fidalguia destes Meus Reynos, que tem o Meu Rey de Armas Portugal, a saber. Hum Escudo ouvado, e esquartellado; no primeiro, e quarto quartel as Armas dos Vazes, que são em campo verde huma Torre de prata lavrada de preto, com as portas de vermelho; á porta huma cabeça de Mouro toucada de prata, e cortada em sangue, e junto della huma massa de prata com o cabo de ouro; do segundo as dos Dias, que são em campo azul huma estrella de ouro de dez raios, e no terceiro as dos Pereiras que são em campo vermelho huma cruz de prata florida, e vazia. Timbre hum chapes preto com cordoens entrelaçados, e huma borla pendente por banda, tudo da mesma côr, e por differença huma brica de prata com huma arruella de azul. O qual Escudo, e Armas poderá trazer, e uzar tão-sómente o dito João Joze Vaz Pereira assim como as trouxerão, e uzarão os dittos Nobres, e antigos Fidalgos seus Antepassados em tempo dos Senhores Reys Meus Antecessores. E assim mesmo as poderá trazer em seus Firmais, Aneis, Senetes, e Devizas; pollas em suas Cazas, Capellas e mais Edificios, e deixallas MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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VEIGA CABRAL

TOMO XI

sobre sua propria Sepultura, e finalmente se poderá servir, honrar, gozar, e aproveitar dellas em tudo, e || por tudo como á sua Nobreza convem. Com o que Quero, e me Praz que haja elle todas as Honras, Privilegios, Liberdades, Graças, Mercês, Izençois, e Franquezas que hão, e devem haver os Fidalgos, e Nobres de antiga Linhagem, e como sempre de tudo uzarão, e gozarão os dittos seus Antepassados. Pello que Mando aos Meus Dezembargadores, Corregedores Provedores, Ouvidores, Juizes e mais Justiças de Meus Reynos, e em especial aos Meus Reys de Armas Arautos, e Passavantes, e a quaes quer outros officiais, e pessoas a quem esta Minha Carta for mostrada, e o conhecimento della pertencer que em tudo lha cumprão, e guardem, e fação inteiramente cumprir, e guardar como nella se contem, sem duvida nem embargo algum que a ella seja posto, porque assim he Minha Mercê. El Rey Nosso Senhor o mandou por Joze theodoro de Seixas Cavalheiro de sua Casa Real, e seu Rey de Armas Portugal. Francisco de Paulo Campos Escrivão da Nobreza destes Reynos, e seus Dominios, a fes em Lisboa aos sete dias do mez de Março do anno do Nascimento de Nosso Senhor Jezus Christo de mil oitocentos e dezacete. Eu Francisco de Paula Campos, afis e subscrevy. O Rey d’Armas Portugal Joze theodoro de Seixas. || — Reg.do no L.o 7.° do Reg.to dos Brazoens de Armas da Nobreza, e Fidalguia destes Reynos, e seus Dominios a fls. 370. — Lisboa 22 de Março de 1817. Fran.co de Paula Campos». O códice consta de 4 fólios de pergaminho, e falta-lhe já a capa. Existe em poder do P.e João Maria Teixeira Guedes, actualmente reitor de Suçães, concelho de Mirandela. No tomo VI, pág. 711, já tínhamos extractado as notícias essenciais deste códice em face do original, que nos facultou o seu possuidor e amigo João Maria Teixeira Guedes, reitor de Suçães, mas agora damos o texto integral, não porque acrescenta espécies novas, mas para mostrar a devoção do P.e Ernesto Augusto Pereira Sales, a quem devemos esta cópia, pelo distrito de Bragança, seu «berço natal, e, sobretudo, como incentivo à mocidade estudiosa da nossa terra para que veja como um velho de 72 anos (1057), cheio de sofrimentos, ainda tão generosa e desinteressadamente trabalha em prol da mesma». VEIGA CABRAL. Tomo VI, págs. 195 e 705; tomo VII, pág. 58. António da Ponte Cabral e Sebastião da Veiga Cabral, irmãos, filhos do Mestre-de-Campo-General Sebastião da Veiga Cabral, natural de Lisboa e de D. Maria de Figueiroa, natural de Bragança; netos paternos de Rodrigo Caldeirão e de D. Joana da Veiga Cabral, naturais e moradores em Lisboa e

(1057) Ver tomo VII, p. 472, destas Memórias.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


VEIGA CABRAL

599 TOMO XI

maternos de António da Ponte Galego (1058) e de D. Maria Nogueira, naturais e moradores em Bragança, requereram processo de habilitação de genere. Processo em 1716. Em seguida no processo um outro requerimento do primeiro requerente em que se assina António da Ponte Galego e diz ser sobrinho do bispo de Viseu. No processo foram inquiridas, entre outras, as seguintes testemunhas: Álvaro de Morais Madureira Feijó, solteiro, natural de Parada, concelho de Bragança, capitão de Infantaria da guarnição de Bragança, de 29 anos, que declara ser António da Ponte Galego, natural da Vila de Campo Maior, donde veio menino para Bragança e aqui faleceu, tendo aqui casado com D. Maria Nogueira, o qual era cavaleiro professo na Ordem de Cristo e comendador da Comenda de Baçal. Jerónimo Preto e Lemos, doutor, cónego magistral na Sé de Miranda, de 49 anos, natural de Fornel, concelho de Pena Guia. Esta testemunha confirma o dito pela anterior, referente a António da Ponte Galego, o qual tinha outro irmão chamado Domingos da Ponte Galego, naturais de Campo Maior, donde os trouxe seu pai General de Artilharia para Bragança, onde António da Ponte Galego casou duas vezes. Aires de Morais Soutelo, cónego probendado na Sé de Miranda, natural de Lagarelhos, concelho de Vinhais, de 65 anos. Esta testemunha confirma o supra dito, referente a António da Ponte Galego. Junto ao processo encontra-se a cópia, em pública forma, da escritura do património de António da Ponte Cabral, constante de terras, lameiros e casas, bem como o auto de posse destes bens, que lhe foi conferida pelo escrivão e, como este é interessante juridicamente, transcrevo a parte respectiva feita em 1717. Diz ela: «... [e chegando às terras doadas] ahi ser escrivão com o dito impossado datado em a terra contenda na dita escritura paseando pella dita terra e suas demarquassõis pondo a mão nos marquos que a dividem lhe dei na sua mão terra e pedra e erva da dita terra que elle aseitou peranti as testemunhas abaixo asignadas e por este modo manssa e pasifiquamente e sem contradissão de pessoa alguma o ouve por empossado da dita terra e na mesma forma e no mesmo lemite de Val de Prados entrei com o dito dohado em o prado que nelle esta de ribando algüas pedras da parede delle e paseando pello dito prado a hüa e outra parte pondo a mão pella parede delle e lhe dei terra pedra e erva na sua mão do emposado que elle aseitou mansso e pasifiquamente e por este modo o ouue por metido na posse do dito prado.... [Depois foram às casas doadas] onde eu escrivão vim com o dohado.... por efeito de lhe dar posse das ditas cazas e ahi eu escrivão com as teste-

(1058) Ver adiante a Nota Final.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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VEIGA CABRAL

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VÉUS DE CÁLIX

TOMO XI

munhas abaixo asignadas tomando as chaves das ditas cazas as meti na mão ao dohado e com ellas abrindo as portas emtrando nas ditas cazas paseando por ellas a hüa e outra parte pondo as mãos pellas paredes abrindo e fechando as mais portas das ditas cazas lhe dei dellas os cofres (?) terra pedra e telha e pão que elle aseitou mansso e pasifiquamente sem contradissão de pessoa alguma por esta maneira o ouve por metido e emvestido na posse das ditas cazas que elle asseitou» (1059). NOTA FINAL. No processo a primeira testemunha e as outras confirmam «que conheceu muito bem António da Ponte Galego e conhece a sua viuva Dona Maria, e que sabe que estes heram Pai, e Mai de D. Maria de Figueiroa Mai dos habilitandos, e que a dele Antonio da Ponte Galego nam saba donde hera natural suposto conheceu a seu Pai e Mai que nesta cidade [Bragança] faleceram, aonde os conheceu por mais trinta annos, e seu Pai bisabo dos habilitandos, se chamava Domingos da Ponte Galego, e sua mulher Dona Maria de Figueiroa, que a guerra passada os trouxe a esta Provincia, aonde elle foi general da Artelharia o qual hera cavalleyro do habito de Cristo e Comendador de Buçal, e Dona Maria Avo dos habilitandos, sabe he natural e foi sempre moradora nesta cidade».

VÉUS DE CÁLICE Neste tomo e no sétimo, mencionamos várias teses impressas em seda, destinadas a servir de véu de cálix, se bem que algumas, mas poucas, temos visto, que não inculcam ter servido para este fim. Convém notar que a impressão é só de frente, ou seja, de um lado do pano, dividido por linhas em superfícies quadrangulares — três ou quatro rectângulos — e não encerra toda a tese, mas apenas a parte que podia caber nele. Além dos véus com teses que deixamos indicados, tivemos conhecimento de outro na igreja de Lodões, concelho de Vila Flor, mas já não existe, segundo nos informa o pároco Alípio de Lemos Falcão. Na igreja de Soutelo da Gamoeda, concelho de Bragança, vimos outro, mas lavaram-no e as letras ficaram ilegíveis. No Museu de Bragança, há outro vindo do Pinheiro, concelho de Vinhais, mas as letras estão muito apagadas, podendo apenas ler-se o ano de 1694 em que foi impresso (é este o mais antigo do Museu de Bragança) e o nome do professor arguente — Padre António de Prado, jesuíta, professor de filosofia, no Colégio «... ontis Regü» Montis (?) Regü. Distingue-se dos mais por a tese

(1059) Ver tomo IX, p. 589, destas Memórias.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


VÉUS DE CÁLIX

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VIGÁRIOS CAPITULARES

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VILA NOVA

601 TOMO XI

não estar inscrita em rectângulos, pois ocupa todo o centro do pano, sem divisões de traços quadrangulares. É possível que fosse impresso na Espanha, talvez em Salamanca, a julgar pela larga tarja que envolve o texto, profusamente ornamentada por folhagem e motivos platerescos, idênticos a vários outros que temos visto neste género, em contraste com o nosso barroco mais simples e equilibrado.

VIGÁRIOS CAPITULARES Tomo IV, págs. 589 e 604, destas Memórias. J OSÉ MANUEL DIEGUES, abade da Sé de Bragança, natural desta cidade, onde nasceu, a 9 de Janeiro de 1866 e faleceu a 28 de Janeiro de 1946, e iniciou os seus estudos, depois concluídos em Sernache do Bonjardim. Falecendo repentinamente, no Seminário de Vinhais, o bispo D. José Lopes Leite de Faria, a 23 de Agosto de 1927, foi logo eleito vigário capitular José Manuel Diegues e no cargo se conservou até que o novo bispo, D. António Bento Martins Júnior, fez sua entrada solene em Bragança, a 11 de Outubro de 1928. A 8 de Setembro de 1932, foi este bispo sagrado coadjutor e sucessor do Arcebispo de Braga e José Manuel Diegues voltou a ser eleito vigário capitular da diocese de Bragança, onde se conservou até 26 de Janeiro de 1933, em que fez sua entrada solene em Bragança, o novo Bispo D. Luís António de Almeida. M ANUEL ANTÓNIO DA RESSURREIÇÃO FERNANDES . Ver tomo VII, pág. 645, destas Memórias, onde tem biografia. Havendo resignado a diocese de Bragança o Bispo D. Luís António de Almeida, a 1 de Novembro de 1935, foi no dia 11 do mesmo mês eleito vigário capitular D. Manuel António da Ressurreição Fernandes e no cargo se conservou até 28 de Março de 1939, em que D. Abílio Augusto Vaz das Neves tomou posse como Bispo.

VILA NOVA Na chamada Quinta do Leitão, hoje (1946) pertencente a Manuel Lousada, termo de Vila Nova, concelho de Bragança, no sítio conhecido pelo nome de «Tesouro», apareceram em 1944, enterradas, quando se procedia a plantação da vinha, as seguintes lápides funerárias romanas, inéditas, de que nos deu notícia o colega P.e Manuel Monteiro, pároco de Castro de Avelãs e vieram para o Museu de Bragança, menos a da fig. n.° 14, por influência do benemérito José Montanha. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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VILA NOVA

TOMO XI

Figura 12

Lápide de granito de tipo discóide, ornada por suástica de seis raios já parte deles levados por quebradura, inscrita em superfície quadrangular preenchida por duas figuras geométricas em ângulo recto, limitada por um traço que, prolongando-se, abrange também o texto epigráfico traçado em plano rebaixado na pedra. O nome Pintovio aparece na vizinha província espanhola de Zamora (1060) e Clouti na epigrafia bragançana (1061). Altura da lápide 0,50 m, largura 0,32 m, grossura 0,11 m, corpo das letras, variável, mas em média 0,04 m. Pela suástica e ângulos rectos o traço demarcante relaciona-se com o dos n.os 19, págs. 56, e 22, pág. 59, do tomo IX, destas Memórias. Na primeira linha, a terceira letra, um N e um T conjuntos. O algarismo X em expoente ao L, por falta de espaço. O epitáfio diz: (Monumento dedicado a) Pintovio (filho de) Clouti (falecido com) sessenta anos. O sítio do Tesouro, termo de Vila Nova, já vem assinalado na arqueologia por outros monumentos (1062).

Figura 13

Boutio Matugeni f(ilio) A(nnorum) XX . V. A segunda letra da segunda linha tem um ponto no meio, em lugar de travessão. A primeira letra da quarta linha tem um ^ em expoente, que teriam adicionado para indicar a supressão das letras de annorum.

(1060) GOMEZ MORENO — Catálogo Monumental de España: província de Zamora, p. 30 e 39. (1061) Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, tomo IX, p. 33, 74 e 17. (1062) Ibidem, p. 84 e 87.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


VILA NOVA

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VILA NOVA DAS PATAS

603 TOMO XI

Ao descarregarem a lápide no museu, partiu-se pela palavra MATVGENI, mas não prejudicou a leitura. Na quarta linha, o algarismo V está separado dos anteriores por um ponto. Seria por equívoco ou intencionalmente e então dirá: V(ixit) = viveu 20 anos e não 25. Esta lápide é ornada por suástica de doze raios e no mais concorda em tudo com a do n.° 12. Altura 1 m, grossura 0,20 m, corpo das letras, em média, 0,04 m.

Figura 14

Lápide de granito, como as duas anteriores e encontrada no mesmo sítio. Está partida, faltando no cimo letras da primeira linha que diriam Tri(ticus) Corogeni F(ilius) An(norum). Falta também o número de anos, levado pela quebradura no fundo. Altura 032 m, largura 0,47 m.

VILA NOVA DAS P ATAS

Tomo VI, pág. 519, destas Memórias. A capela de que se fala no tomo VI, pág. 519, fundada pelo P. e Gonçalo Pires Barroso, ainda existe, mas profanada e convertida em loja de gado. Na padieira da porta, aberta em granito aparelhado, há, em três linhas, o seguinte letreiro: Esta obra mandou fazer o P.e Gonçalo Baroso era de 1726. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


604

VILA NOVA DAS PATAS

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VILA VELHA (MONCORVO)

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VILARES DA TORRE E MELES

TOMO XI

Dentro da capela, apareceu enterrada no entulho uma grossa e larga lápide de granito aparelhado, onde está primorosamente gravado este letreiro: Nada te perturbe / a paciencia / tudo acaba /. Quem te / me a Deus n / ada le falta /. Aqui jaz o P.e G.lo Piz Bar / oso do lu / gar de M / Artim Aos O espaço em seguida às palavras Martim e Aos deveu ficar para escrever a data de óbito do fundador, mas sem herdeiros, absorvidos na deglutição da herança, esqueceram-se disso. VILA VELHA (MONCORVO) Ver tomo X, pág. 744. VILARES (João Baptista), professor primário de Sambade, tomo VII, pág. 593. Publicou mais: No Limiar dos Centenários de 1940. Considerações de um leigo acerca de alguns problemas sociais. Porto, 1940, XVIII+189 págs. com 0,14x0,85 metros de texto. É um belo livro, tocante a assuntos sociais de ordem popular, que muito conviria ser lido e meditado pelos dirigentes políticos, pelos dirigidos e pela malcriada falange da empregadagem pública que insulta, escarnece e demora com o seu — torne cá amanhã — o povo que precisa trabalhar para si e para eles. Na escola e na vida. Notas pedagógicas de trinta anos de labor. Porto, 1943, 8.° de 205 págs. mais 3 inumeradas (1063). VILARES DA TORRE E MELES F RANCISCO X AVIER , J OSÉ M ANUEL , A NTÓNIO B ERNARDO e J ERÓNIMO C AE todos irmãos, filhos de Francisco Xavier de Sá Loureiro e de D. Ana de Morais Colmieiro, aquele dos Vilares da Torre e esta de Meles, moradores nos referidos Vilares, requereram habilitação de genere em 1771. Entre as testemunhas que depuseram no processo há: D. Maria José de Sá, viúva de Diogo de Morais Pimentel, moradora nos Vilares, de 72 anos. No processo há as seguintes certidões: TANO ,

FRANCISCO XAVIER , filho de Francisco Xavier de Sá Loureiro, dos Vilares da Torre, e de D. Ana de Morais Colmieiro, natural de Meles, moradores nos

(1063) Quem é Alguém: dicionário biográfico..., 1947, p. 643.

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VILARES DA TORRE E MELES

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VILARINHO DE AGROCHÃO

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VILARINHO DA CASTANHEIRA

605 TOMO XI

Vilares; neto paterno de Marcelino da Fontoura Loureiro, natural dos Vilares, e de D. Maria da Roda Meneses, natural de Rebordelo, e materno de Francisco de Morais Colmieiro, de Meles, e de D. Maria José Faria e Costa, natural de Vila Flor, nasceu em Meles a 5 de Outubro de 1758. Foram padrinhos o Padre João de Morais e sua mãe D. Maria José Faria e Costa, de Meles. JOSÉ MANUEL, irmão do precedente, nasceu a 2 de Abril de 1760. Foi padrinho José Rodrigues Alves de Mendonça, abade de Santa Valha, com procuração de D. Maria Eufrásia de Mendonça, religiosa em S. Bento de Bragança. A NTÓNIO B ERNARDO , irmão dos precedentes, nasceu em Meles a 30 de Janeiro de 1762. J ERÓNIMO CAETANO, irmão dos anteriores, nasceu nos Vilares, a 21 de Julho de 1767. Foram seus padrinhos Jerónimo de Morais Castro e sua mulher D. Francisca de Morais, dos Vilares da Torre. ANA, mãe dos habilitandos, filha de Francisco de Morais Colmieiro, filho de António de Morais Colmieiro, natural das Arcas, e de Ana de Morais, natural de Moimenta, e de D. Maria José, filha de André do Sil Carneiro, de Vila Flor e de D. Clemência Pereira do Lago, natural do Sezulfe, nasceu em Meles a 9 de Junho de 1724. FRANCISCO XAVIER, pai dos habilitandos, filho de Marcelino da Fontoura e de Maria da Roda, nasceu em Meles a 28 de Fevereiro de 1708 (1064). VILARINHO DE AGROCHÃO Tomo VI, pág. 784. O interesse que o palacete brasonado desta povoação nos mereceu, e na verdade é bem digno disso, como na referida página consignamos, levou-nos a pesquisas incessantes donde resultaram os respectivos esclarecimentos indicados no tomo VII, pág. 414, artigo Pinto (António Miguel), e pág. 774, em aditamento ao mesmo artigo. Duas tragédias pesam sobre o elegante palacete: a sua destruição vandálica e o assassinato do dono, cometido pelo genro! VILARINHO DA CASTANHEIRA P EDRO G OMES , filho de Francisco Gomes e de Maria Ferreira, de Braga, neto paterno do Padre Francisco Gomes, abade de Vilarinho da Castanheira, (1064) O processo guarda-se no Museu de Bragança.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


606

VILARINHO DA CASTANHEIRA

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VIMIOSO

TOMO XI

Carrazeda de Ansiães, e de Helena Lopes, de São Pedro de Maximinos, Braga; neto materno de Gonçalo Gonçalves e de Inês Gonçalves, de Atiães, Braga, foi nomeado cónego da Sé de Braga em 1670 (1065).

VIMIOSO Em 1186, trocou D. Sancho I, uma herdade em Ledra, pela vila do Vimioso, no território do Castelo de Algoso, que era parte da fronteira de Trás-os-Montes (1066). No artigo Mogadouro, referimo-nos a outra troca do mesmo rei, pelos dois castros do Mogadouro e Penas Róias. Luz eléctrica. A inauguração da iluminação pública da vila do Vimioso, por meio da luz eléctrica, teve lugar, com grande solenidade, a 24 de Junho de 1933. Mármores e alabastros do Vimioso. Ver artigo Minerais no distrito de Bragança, pág. 730, do volume X, destas Memórias. Neolítico (época do bronze). Tomo IX, pág. 680. Nery Delgado (1067), falando de um objecto de bronze muito perfeito e artisticamente trabalhado, aparecido no alto de Pereiras, próximo do Vimioso, que lhe foi oferecido pelo farmacêutico João José Vaz Pinto, da mesma vila, descreve-o assim: «É uma folha de punhal, de forma triangular, reforçada por um veio longitudinal, com a ponta arredondada, medindo 0m,29 de comprimento e 0m,10 de largura na base. É ornada por três estrias ou linhas paralelas ao gume, e junto da base tem três orifícios, por meio dos quais se ligava ao cabo. Tem-se encontrado alguns punhais deste tipo em França e na Espanha, e em Portugal julgo ser este o primeiro que se tenha descoberto, o que lhe realça o valor». Como vemos, este punhal é idêntico na factura aos descritos no artigo Vale Benfeito, pág. 277, do volume X, destas Memórias. Ainda como ilustração aos machados de cobre e bronze, encontrados aos grupos em esconderijos, de que falamos nas páginas 277 e 278, lembro que na povoação de Bujões, freguesia de Abaças, do vizinho concelho trasmontano de Vila Real, apareceram enterrados próximo da fonte pública, em 1893, sete machados de cobre e bronze (1068).

(1065) TÁVORA , Artur Mendes de Almeida Pacheco de Andrade e — Dignatários da Sé de Braga — Primaz do século XVII e X VIII, 1938, p. 27. (1066) Chancelaria de Afonso III, livro II, fol. 70 v., in HERCULANO, Alexandre — História de Portugal, livro III, p. 13. (1067) DELGADO, Nery — Reconhecimento Científico dos jazigos de mármore e de alabastro de Santo Adrião..., 1888-1892. (1068) O Arqueólogo Português, 1895, tomo I, p. 131.

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VINHAIS

607 TOMO XI

VINHAIS Capelas com vínculo de morgadio. João de Morais Valcácer, licenciado, abade de Negreda (tomo VI, pág. 624), fez, em 1662, doação com vínculo de dois morgadios, a suas sobrinhas, cujos nomes e bens doados se indicam na citada página, segundo colhi no maço Capelas, existente no Museu de Bragança, mas depois vi no arquivo da família Campilho, de Vinhais (tomo VI, pág. 617), uma pública forma passada em 1720, por notário público, da doação e diz que esta se fez em 1762. Caso patológico. A 1 de Dezembro de 1750, pelas 2 horas da tarde, faleceu no convento de Vinhais «depois de muitas e repetidas doenças», na idade de 70 anos «com hºa hidropesia universal, a madre Soror Izabel da Trindade. Passadas 2 horas, certa religiosa lhe rompeu com um alfinete a artéria temporal esquerda e por ela lançou quantidade de sangue. No dia 3 do mesmo mês, com permissão da abadessa D. Tereza Maria de S. José, em presença da maior parte da comunidade, do capelão, do confessor, do médico do partido, o cirurgião Sebastião Pereira, a sangrou numa veia do braço esquerdo e depois de alguma demora lançou muito sangue e também o lançou no quarto dia. Em todo o tempo que esteve exposta até se enterrar, se conservou flexível e com a mesma côr do rosto que tinha no primeiro dia, sem sinal de corrupção». O autor desta exposição, chamado José Ruivo Salgado, que a data de Moncorvo (seria natural desta vila?) estende-se depois largamente sobre questões da circulação do sangue; cita médicos, textos de Virgílio, da Bíblia e termina por considerar miraculoso o facto. O arrazoado abrange oito fólios de papel almaço e conserva-se no Museu de Bragança. Hospital. As obras para a construção do hospital de Vinhais iniciaram-se em 1930, após laboriosas gestações em que trabalharam precipuamente Tomás Augusto Salgueiro Fragoso, Governador Civil do distrito de Bragança, Padre Firmino Augusto Martins, doutor António Manuel Fernandes, administrador do concelho de Vinhais e o presidente da câmara da mesma vila. Das benemerências de José Joaquim de Figueiredo Morais Pimentel, morgado de Rio de Fornos, em prol da fundação deste hospital, já fica dito no artigo Rio de Fornos, pág. 468. Luz eléctrica. A iluminação de Vinhais por meio da luz eléctrica inaugurou-se a 25 de Novembro de 1929, sendo presidente da câmara o Padre Firmino Augusto Martins, incansável propugnador dos melhoramentos vinhaenses. Raia fronteiriça. Na Correspondência do 2.° Visconde de Santarém publicada em 1918, por Rocha Martins, tomo II, pág. 355, vem uma carta do referido Visconde de Santarém, então Ministro de Estado, datada de 16 de Abril

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608

VINHAIS

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WIZINSKI

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ZEDES

TOMO XI

de 1829, em que diz trazer em preparação «os documentos acerca de uma usurpação de território, feita por alguns povos da Galiza nas terras pertencentes à demarcação de Vinhais». A carta é tirada do Arquivo do Ministério dos Negócios Estrangeiros. No tomo III, da mesma obra, pág. 21, encontra-se outra carta, tirada do mesmo arquivo, na qual recomenda ao Conde da Figueira, a quem as cartas, uma e outra, são dirigidas, então nosso representante em Espanha, que inste com o governo desta nação «para se proceder á demarcação do territorio da Comarca de Vinhais, na parte em que confina com a Galiza, nos termos que forão recomendados a V. Ex.a nos despachos que lhe dirigi sobre este objecto, acompanhados dos importantes documentos que comprovavão a justiça desta reclamação». Esta segunda carta é datada de 18 de Novembro de 1829. Sobre a divisória raiana no nosso distrito, ver nestas Memórias tomo I, págs. 39 e 57; tomo III, pág. 409; tomo IV, págs. 7, 8, 11, 14, 41, 45, 46, 49 e 51. Águas. As águas da fonte de Vinhais, que demos por inquinadas devido a infiltrações das casas a montante, foram captadas em condições de salubridade e canalizadas em ferro galvanizado, em 1930, por iniciativa da câmara municipal, presidida pelo P.e Firmino Augusto Martins. W IZYNSKI (Frei Casimiro de São José). Tomo VII, pág. 595. Na Revista de Arqueologia, 1936, págs. 293 e seguintes, publicou o coronel de artilharia Henrique de Campos Ferreira Lima, um estudo muito documentado com algumas notícias inéditas sobre Frei Casimiro de São José. Deste estudo tirou separata com o título Frei Casimiro de São José Wizynski (polaco), introdutor da Ordem dos Marianos em Portugal. Lisboa, 1936, 15 páginas. O Padre José de Castro, Bragança e Miranda, 1947, vol. 2.°, págs. 260 e segs., aponta várias notícias referentes a Frei Casimiro.

Z ZEDES Tomo VI, pág. 627. O doutor Jerónimo Barbosa de Abreu e Lima, faleceu em Zedes, concelho da Carrazeda de Ansiães, em fins de Maio ou princípios de Junho de 1933. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


ZILHÃO

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ZILONIS BARROCTA

609 TOMO XI

ZILHÃO Tomo VII, pág. 595. O apelido Zilhão vem de Ousilhão, quem o diria?, povoação do concelho de Vinhais, como se vê dos seguintes documentos: I SABEL M ARCELINA , filha de José Fernandes Zilhão, natural de Freixo de Espada à Cinta, e de Genoveva Rodrigues, natural de Vila Chã, «neta paterna de José Fernandes Zilhão, natural de Zilhão (sic), bispado de Bragança», e de Joana Pires Fagunda, nasceu em Freixo de Espada à Cinta, a 25 de Dezembro de 1819 (1069). ANTÓNIO DOS SANTOS, irmão da anterior e igualmente «neto paterno de José Fernandes Zilhão, natural de Zilhão, bispado de Bragança», nasceu em Freixo de Espada à Cinta, a 2 de Novembro de 1822. JOANA ROSA, irmã dos anteriores, inclui o tal Zilhão, «natural de Zilhão, bispado de Bragança», nasceu em Freixo de Espada à Cinta, a 16 de Janeiro de 1825. J OANA ROSA , segunda de nome, idem, idem, nasceu a 13 de Setembro de 1826. M ARIA J OAQUINA , filha de José Fernandes e de Maria Isaías, ambos de Freixo de Espada à Cinta, neta paterna de José Fernandes, natural de Zilhão, bispado de Bragança, e de Joana Pires Fagunda, de Freixo de Espada à Cinta, e materna de José Pires Fagunda e de Maria Isaías, nasceu em Freixo de Espada à Cinta, a 1 de Outubro de 1793. ZILONIS BARROCTA (B. D. Franciscus). Na capela do Divino Senhor Jesus, de Cabeça Boa, freguesia de Samil, concelho de Bragança, há impressa em seda, destinada a véu de cálix, uma tese defendida a 28 de Junho de 1724, na Universidade de Salamanca, pelo B. D. Franciscus Zilonis Barrocta, acima apontado, que tem por titulo: Theorema uta Physico Medica et Chyrurgica publice defensando-a... dedicada a D. Josephus de Esquina et Navaro. Ver tomo VII, pág. 596, onde mencionamos um escritor bragançano de apelido Zilhão. Ao colega João António Garcia, antigo pároco de Samil e hoje de Meixedo, agradeço os bons ofícios atinentes à inspecção desta espécie bibliárea.

(1069) Livro dos Baptizados de Freixo de Espada à Cinta, de 1818 a 1830, fólio 10, existente no Arquivo da Câmara Eclesiástica de Bragança. Os seguintes constam do mesmo livro de Baptizados de Freixo de Espada à Cinta e o álbum, de 1792 a 1795, fólio 71.

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SUPLEMENTO


613 TOMO XI

A A LARCÃO (Rui de Figueiredo), governador das armas da província de Trás-os-Montes, tomo VII, pág. 2. Ver A Restauração de 1640 no Distrito de Bragança, 1940, págs. 37 e 319. A carta régia que o nomeia governador das armas da província de Trás-os-Montes é de 14 de Janeiro de 1641 (1070). O decreto que chamou Alarcão a Lisboa, é de 13 de Setembro de 1642 (1071). A LMEIDA (António Caetano de), o Retórico, tomo VII, pág. 16. Ultimamente encontrei no Museu de Bragança o seu processo do património para se ordenar de presbítero em 1860, e no requerimento que apresentou, declara ser bacharel em Cânones e natural de Santa Cruz, comarca de Penafiel. A LMEIDA (Humberto Augusto de), engenheiro-químico, primeiro Assistente da Universidade do Porto, nasceu em Bragança a 28 de Janeiro de 1896, filho de Carlos Alberto de Lima e Almeida e de D. Elisa de Morais. Bolseiro de estudo à Espanha e Inglaterra. Tomou parte na Grande Guerra. Tem publicado: Memórias dum Expedicionário a França. 1919. Tipografia Sequeira. 29x12, com 190 págs. Composição Química de Alguns Vinhos do Porto Relacionada com a Composição Química das Respectivas Terras. 1938. Edição do Instituto do Vinho do Porto. 24x19, com 70 págs. Determinação do pH nas Terras, Xistos e Granitos. 1940. Edição do Instituto do Vinho do Porto. 24x19, com 18 págs. Identificação e doseamento do Boro nos Xistos, Granitos, Terras e Vinhos. 1940. Edição do Instituto do Vinho do Porto. 24x19, com 16 págs. O Manganês do Vinho do Porto. 1941. Edição do Instituto do Vinho do Porto. 24x19, com 16 págs. Doseamento Microquímico do Ácido Fosfórico do Vinho do Porto. Adaptação do Método de Denigés. Uso do Fotómetro de Pulfrich e da Célula Fotoeléctrica. 1942. Edição do Instituto do Vinho do Porto. 24x 19, com 30 págs. Polografia. Subsídios para o seu estudo e aplicação à análise do Vinho do Porto.

(1070) SÃO PAIO, Conde de — Relação dos Varões ilustres da Casa de São Paio, 1940, p. 14. (1071) CHAGAS, Pinheiro — História de Portugal popular ilustrada, vol. V, p. 323, em nota.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


614

ALMENDRA

TOMO XI

1943. Edição do Instituto do Vinho do Porto. 24x19, com 156 págs. Trabalhos de investigação realizados nos Laboratórios do «Instituto Rockefeller de Madrid». Identificação e doseamento do Bromo nos Mostos e Vinho do Porto. 1945. Edição do Instituto do Vinho do Porto. 24x19, com 12 págs. Identificação e doseamento do Flúor no Vinho do Porto, nos Xistos, Granitos e nalgumas castas de Uvas. 1945. Edição do Instituto do Vinho do Porto. 24x19, com 24 págs. Polarografia. Relatórios de vários trabalhos de Investigação realizados nos Laboratórios da Cambridge Instrument Company (Cambridge) e do Imperial College of Science and Technology da Universidade de Londres. (Subsidiado pelo Instituto para a Alta Cultura). Publicados na Revista da Ordem dos Engenheiros, a partir do número do mês de Dezembro de 1946. Acção. O Alumínio no Vinho do Porto sobre as ligas leves. 1946. Em publicação. Identificação e doseamento polarográfico do chumbo no Vinho do Porto e em vinhos licorosos das mais variadas procedências. Comparação dos resultados. 1947. Em publicação (1072). ALMENDRA (António Gomes de), doutor, pela Universidade de Lisboa, com frequência das Universidades de Zurique, Berna e Berlim. Nasceu no Mogadouro a 15 de Abril de 1893. Secretário das Delegações de Portugal, às sessões da Assembleia da Sociedade das Nações junto do Tribunal Arbitral Luso-Alemão; delegado de Portugal às sessões de Conferência Internacional do Trabalho; aprovado em concurso para os quadros diplomáticos. Tem colaborado em diversos jornais e publicado diversos estudos, em alemão alguns deles (1073). A LVAREDOS, de Gostei, José Manuel Gonçalves Alvaredo, de Gostei, concelho de Bragança, requereu certidão de óbito de seu tio, o doutor João Gonçalves Alvaredo, professo na Ordem de Cristo, médico do partido municipal de Bragança, onde residia: falecido a 10 de Abril de 1792 (1074). A LVES (Augusto Luciano), tenente-coronel, nasceu em Mascarenhas, concelho de Mirandela, a 27 de Novembro de 1889. Engenheiro-químico, director da Fábrica de Pólvora de Chelas. Entrou na Grande Guerra (1075). A MADO (Josino), tomo VII, pág. 611. Nasceu em Urros, concelho de (1072) Quem é Alguém..., 1947, p. 50. (1073) Ibidem, p. 57. (1074) Provedoria de Miranda, fólio 14 v. Este códice conserva-se no Museu de Bragança, donde é datado o seu termo de abertura a 6 de Maio de 1818. (1075) Quem é Alguém..., 1947, p. 60.

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AMADO

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ARAÚJO

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APODOS

615 TOMO XI

Moncorvo, a 12 de Outubro de 1894, filho de José do Nascimento Amado e de Ana Joaquina Lopes. É meio irmão de Emílio Augusto Conde Robertine, professor primário em Urros. A RAÚJO (Francisco Sarmento Correia de), engenheiro-civil, professor extraordinário da Universidade do Porto. Nasceu em Bragança a 20 de Agosto de 1909, filho de Guilherme Correia de Araújo e de D. Teresa Delfina das Mercês Sarmento Pimentel. Fez os estudos liceais em Bragança e os da especialidade no Porto, terminando-os em 1933. Bolseiro do Instituto de Alta Cultura na Universidade. Publicou: A flexão desviada no betão armado. 1937, 15 págs. Saiu na Revista da Faculdade de Engenharia. Estudo experimental das linhas de influência das construções hiperstáticas planas. 1940, 52 págs. Saiu na mesma Revista. O estudo dos maciços terrosos e dos seus suportes. Porto, 1942, 329 págs. com 102 figuras, 17,5x23,5. Princípios gerais da teoria matemática da plasticidade e sua aplicação ao cálculo das peças prismáticas (1076). 1943, 202 págs., 17,5x24. É a dissertação para doutoramento em engenharia civil. Curriculum Vitæ de Francisco Jacinto Sarmento Correia de Araújo, engenheiro-civil pela Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto. Porto, 1943, 23 págs. A PODOS, tomo IX, pág. 260. Meixedo, tomo IX, pág. 264. Diz-se que o apodo Cadelos, veio aos desta povoação, por um deles, estando o povo reunido em concelho, ter escarnecido de certo passageiro, aplicando-lhe a alcunha de lobo, desta forma: donde vens lobo, tão cedo? Venho fugindo aos cães de Meixedo. Agora, parafraseando, aos de Bragança retrucam: donde vens, lobo, tão tarde? Venho fugindo aos cães da cidade. E assim por este tique aos das outras povoações, ajeitando-lhe o ditério: Três pessoas eu conheço Das de biquinho amarelo: A Larica de Vale de Pereiro, E a prasóta de Soutelo. E não digo mais (1076) Ibidem, p. 231.

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616

BACELAR

TOMO XI

Porque tenho vergonha E não quero falar Na cagada da Saldonha, E não digo mais, Porque tenho opinião E não quero falar Nos Tarélos de Carção.

B B ACELAR (Gonçalo Vaz Guedes de Sousa Homem), dos viscondes da Bouça, Mirandela, e morgados de Vilar de Ossos, tomo VI, pág. 524, faleceu e foram-lhe celebrados os funerais em Rio de Moinhos, concelho de Lousada, a 26 de Setembro de 1939, com enorme concorrência de assistentes idos de longes terras, devido à nobreza do seu carácter, e a ser membro de uma das mais ilustres famílias fidalgas bragançanas. B ACELAR (José Vaz Guedes Pinto), da mesma família do antecedente, faleceu em Rio de Moinhos, concelho de Lousada, em princípios de Novembro de 1941. Colaborou em diversos jornais e revistas, onde deixou esparsos valiosos estudos, que merecem ser coligidos e publicados. BARAHONA — Ver Fernandes. B ARROS (João Baptista de), contra-almirante, nasceu em Bragança a 15 de Junho de 1875. Publicou: Repertório da Legislação da Armada, 1896-1942 (1077). BISPADO DE BRAGANÇA (governadores do). Em confirmação do que escrevemos no tomo II, pág. 117, relativo às alternativas no governo da diocese, e de acordo com os partidos políticos dominantes aditamos: João José Martins, comendador, cónego da Sé de Bragança, tesoureiro-mor da mesma, foi exonerado do cargo de governador do bispado, por provisão do bispo Aguiar, de 29 de Abril de 1868, e nomeado para o substituir o (1077) Quem é Alguém..., 1947, p. 98, artigo «Baptista de Barros».

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BISPOS

617 TOMO XI

cónego Sebastião Luís Martins (1078). António Joaquim de Oliveira Mós, cónego e mestre de escola, foi nomeado governador do bispado de Bragança, pelo bispo Aguiar, por provisão de 29 de Julho de 1870 (1079).

BISPOS D. F REI J OSÉ DE L ENCASTRE , bispo de Miranda (1677-1681), tomo II, pág. 38. Às divergências cronológicas relativas ao seu nascimento e óbito, que aí apontámos, acrescem mais as seguintes: nasceu em Lisboa em Fevereiro de 1642 e faleceu a 16 de Fevereiro de 1716, segundo diz Silva Lopes (1080). D. F REI A LEIXO DE M IRANDA H ENRIQUES . Na pág. 655, do vol. VI, destas Memórias, atribuímos a este bispo, uma carta formidável contra os jesuítas. Houve confusão; não há carta nenhuma, mas sim um alvará de el-rei D. José ao bispo, mandando certas ordens contra os jesuítas. Na verdade, D. Frei Aleixo era contra os jesuítas, mas desta vez quem se manifestou foi el-rei e não o bispo. D. FREI JOÃO DA CRUZ, tomo IV, pág. 657, destas Memórias. A propósito de se dizer que este bispo foi enterrado vivo, lembramos o caso do Cardeal Francisco de Remolini, falecido pelos anos de 1561, que segundo parece, foi enterrado vivo (1081). D. J OSÉ A NTÓNIO DA S ILVA REBELO , tomo II, pág. 102; tomo IV, pág. 667; tomo X, pág. 317. O decreto que autorizou o regresso deste bispo à diocese de Bragança, tem a data de 2 de Junho de 1841 e vem copiado no fólio 88 verso dos Acórdãos do Cabido de Bragança de 1804 a 1829, códice manuscrito existente no Arquivo Distrital, adjunto ao Museu de Bragança.

(1078) No Arquivo Distrital de Bragança adjunto ao Museu, conserva-se o respectivo ofício. (1079) Ibidem. (1080) LOPES, João Baptista da Silva — Memórias para a História Eclesiástica do Bispado do Algarve, 1848, p. 399. (1081) CASTRO, José de — Portugal no Concílio de Trento, 1945, tomo IV, p. 95.

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618

BOUÇA

TOMO XI

BOUÇA Ver tomo VI, pág. 27. SEBASTIÃO MANUEL DE SAMPAIO E CASTRO, primeiro visconde da Bouça, concelho de Mirandela, faleceu a 16 de Março de 1883 (1082). D. E MÍLIA E UGÉNIA P INHEIRO DE F IGUEIREDO S ARMENTO , mulher do precedente, faleceu em Outubro de 1878 (1083).

BRAGANÇA D. Afonso, filho bastardo do Mestre de Avis, depois rei de Portugal (D. João I), foi sepultado em Chaves, como dissemos no tomo I, pág. 317, destas Memórias, mas a 26 de Setembro de 1942, foram seus restos mortais trasladados solenemente para Vila Viçosa e enterrados na igreja dos Agostinhos, junto ao túmulo de sua esposa (1084). PELOURINHO — O pelourinho de Bragança, tem a figura de um homem que segura nas mãos o capitel, e várias figuras humanas; uma ave, um cão e ornatos flor-de-lisados, como dissemos na pág. 520, do tomo IX, destas Memórias. Na Bragança e Benquerença, 1900, deu Albino Lopo, um desenho destas figuras. A figura humana que segura nas mãos o capitel e escudo com o castelo e as quinas será o Sileno, símbolo das liberdades concelhias, de que falamos atrás na pág. 514, e as outras figuras humanas mais pequenas, que ladeiam o escudo, serão os descendentes ou filhos do velho Sileno, em «cujo culto, ligado geralmente ao de Baco, de quem foi companheiro dedicado e paternal, e em cujas festas e cortejos vários Silenos, tidos como um desdobramento ou mesmo como descendentes daquele, aparecem depois» (1085). Esta interpretação levou-nos a consultar o nosso erudito amigo, dr. Mário Lyster Franco, que nos respondeu desta forma: «As referências ao velho Sileno e aos Silenos, seus filhos e netos, são relativamente frequentes. Assim, Maximo Collignon, no seu livro Mythologie figurée de la Grèce, se refere aos alegres companheiros de Dionísio que eram os Sátiros, acrescen-

(1082) (1083) (1084) (1085)

Portugal: Dicionário Histórico, artigo «Bouça», tomo II, p. 418. Ibidem. A Voz, de 1 de Outubro de 1942. FRANCO, Mário Lyster — Uma estatueta de Sileno, 1944, p. 6.

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BRAGANÇA

619 TOMO XI

tado que ao lado destes, ainda que com origem mitológica diferente, tomaram depois lugar os Silenos que, sendo inicialmente génios das ribeiras e das fontes, perderam o seu carácter primitivo ao entrar na mitologia grega “á la suite de Dionysos”, viram a sua dignidade alterada e se confundiram a pouco e pouco com os Sátiros. A arte helénica deu-lhes traços grotescos: são os Sátiros, mas mais idosos, corpo obeso, membros cobertos de pêlos. No entanto, Sileno foi também o pai adoptivo de Dionísio e aquele aspecto vulgar enobrece-se, quando a estatuária assim o pretende representar. Daqui se conclui que a mitologia admite a existência de um Sileno velho, austero e bondoso, pai adoptivo de Dionísio — e esse será o meu — e vários outros, mais ou menos grotescos, de tal forma alegres e turbulentos que se confundem com os Sátiros. Isto mesmo resulta do que se lê em vários dicionários (v. g.: Larousse, Enciclopédia Portuguesa Ilustrada, de M. Lemos, etc.) em que se diz: Sileno: Deus frígio, benfeitor e companheiro de Dionísio, marido de Nais e pai ou avô dos Silenos, e mais abaixo: “Ao lado do deus Sileno, admite-se, desde a época alexandrina, a existência de numerosos Silenos, seus filhos ou netos, personificação de fontes ou rios”. Chompré, no seu Dictionaire portatif de la fable, confirma esta asserção e ao falar dos Silenos diz-nos que muitos aparecem nas procissões báquicas e que entre eles se distingue sempre um pai. Isto é o que, de momento, encontrei sobre a matéria. Ainda que me pareça suficiente para confirmar o que escrevi, recordo-me de ter lido ainda qualquer coisa de mais concreto sobre o assunto, em que se empregava mesmo, se não estou em erro, a palavra desdobramento, ao referir a relação entre o velho e os jovens Silenos. Como sou cuidadoso, decerto tomei nota, mas a verdade é que não há forma de a encontrar no mare magnum da minha papelada. Ela surgirá, no entanto, muito possivelmente de um momento para o outro e terei muito prazer em remetê-la, se interessar. Se o que a V. Rev.ma preocupa é a parte das festas e cortejos, eu remeterei, na íntegra, a referência de Chompré. No que respeita à escultura a que o cartão de V. Rev.ma concretamente se refere, devo dizer que me inclino para que as figuras humanas que acompanham o Sileno velho, sejam, de facto, os outros Silenos menores seus descendentes. Sobre a ave nada sei dizer. Sobre o cão é que há algo de interessante e talvez de concreto, pois que J. Leite de Vasconcelos, in Religiões da Lusitânia, vol. III, p. 245, ao tratar de uma lucerna aparecida no Algarve, em que figura um cão e que relaciona com o culto báquico, escreve: “O cão é companheiro favorito de Dionísio, e nessa qualidade figura em vasos e moedas” e M. Collignon, a p. 271 daquele seu livro, reproduz um baixo-relevo do Museu de Nápoles, “Dionysos et son cortège”, em que nos aparecem não apenas 5 figuras adultas de ambos os sexos, mas 2 crianças (Silenos?) e — o que para o nosso caso especialmente interessa — também um cão. Esta nota escapou ao MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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nosso Dr. José Leite. Ora, se o cão é companheiro favorito de Dionísio e se os Silenos seus companheiros são, não me parece difícil que possam surgir juntos em qualquer escultura. E pergunta a minha ignorância: Não será a figura que segura as armas, o próprio Dionísio? Os outros, nem por isso deixariam de ser Silenos, mas a presença do cão pode talvez levar para esta hipótese. E é tudo». Sabe-se que os romanos, tinham em grande estima os patos do Capitólio, como referem Tito Lívio (1086) e outros historiadores, sustentando-os à custa do erário público, porque, estando cercados pelos gauleses, nem as sentinelas, nem os cães deram pela conta e só os patos, começando a grasnar, despertaram os dormidos, fazendo assim com que os invasores fossem repelidos. O caso foi de tanta monta, que decretaram uma festa cívica em honra dos gansos, justiçando publicamente um cão na mesma altura. Aludirá a ave do pelourinho de Bragança à vigilância necessária para defesa da cidadela? Luís Chaves, chama cachorros aos braços em cruzeta onde estão insculpidas as figuras acima indicadas. «Dos cachorros românicos do (pelourinho) de Bragança pendiam argolas de suspensão. Nos da vila de Outeiro e Chacim os ferros apoiavam-se nos cachorros, um por um, na mesma disposição orgânica e ortogonal destes. No do Mogadouro, os cachorros formam parte do capitel; nos outros servem propriamente de base ao bloco do remate» (1087). CAMPILHO (Alfredo Aníbal de Morais), juiz da Relação de Lisboa, tomo VI, pág. 619, destas Memórias, faleceu em Lisboa a 8 de Abril de 1946. CAMPILHO (Augusto César de Morais Sarmento) tomo VI, pág. 619, destas Memórias, faleceu em Vinhais, a 16 de Dezembro de 1928. CAMPILHO (Pedro Vicente de Morais Sarmento), tomo VI, pág. 619, destas Memórias, governador civil de Bragança. Ver pág. 321. CORREIO. O novo edifício dos Correios e Telégrafos de Bragança, foi inaugurado solenemente, com grande festa a 17 de Abril de 1945, vindo de propósito presidir ao acto o Ministro das Obras Públicas, engenheiro Cancela de Abreu, subsecretário da mesma parte, director-geral dos Correios e Telégrafos e o Dr. Francisco Vale Guimarães, chefe da Secção de Publicidade e Propaganda.

(1086) TITO LÍVIO — Décado V, livro I. (1087) CHAVES, Luís, em A Voz, de 1 de Julho de 1930.

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DISPENSÁRIO ANTITUBERCULOSO. Foi criado pelo dr. António Olímpio Cagigal (1088), mas só teve casa própria, em condições, em 1930, sendo inaugurada solenemente a 17 de Junho desse ano. LACTÁRIO. Este interessante e útil estabelecimento de Bragança, inaugurou-se em fins de Maio de 1931, graças aos esforços do governador civil, Salvador Nunes Teixeira. No mesmo dia se inauguraram mais dois pavilhões, recentemente construídos no Hospital da Misericórdia.

C CANCIONEIRO POPULAR BRAGANÇANO [19] Ver pág. 12 deste volume e tomo X, pág. 347 destas Memórias. «Trás-os-Montes é a província portuguesa mais rica em romances tradicionais» (1089). «A poesia popular não ultrapassa bem, certos limites; mas atinge momentos de inefável frescura rara, alcançada pela sua irmã culta, sinceridade, nitidez, concisão, comunicação, espontaneidade, humanidade tais nos aparecem os títulos de nobreza da musa do povo e em nenhuma literatura se mostram mais provenientes essas virtudes do que na portuguesa» (1090). A 1.

O — A — é a primeira letra, Que se estuda no Abcê; Quem ama por tu se trata E não por vocemecê.

2.

Anda cá, meu bem perdido, Que bem perdido andais; Já tens perdido muito, Não quero que perdas mais.

(1088) Ver tomo VII, p. 59, e tomo X, p. 346, destas Memórias. (1089) VASCONCELOS, José Leite de — O Arqueólogo Português, vol. XI, p. 336. (1090) C AMPOS, Agostinho de, em O Comércio do Porto, de 14 de Janeiro de 1937, a propósito do livro de Rodney Gallop, inglês que levou os pauliteiros mirandeses a Londres.

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3.

Anda para o meu coração, Toma posse do que é teu; Confiança tem-la tu, Liberdade douta eu.

4.

Aqui tens a minha mão, Nela faço juramento: Eu prometo de ser tua, Agora e em todo o tempo

5.

Aqui tens o meu coração, Chave d’ouro p’ro abrir, Cadeias para o fechar, Se alguma vez te fugir. ACIPRESTE

6.

Acipreste, verde triste, Quando hás-de ser alegre? Esse seu corpinho, menina, Quando me há-de ser entregue? ÁGUA

7.

Eu dei a água pelo vaso Pintadinho do amor; Fiquei muito sastisfeita De dar água a este senhor.

8.

A água é combatida Nasce do centro do chão, Fiquei muito sastisleito De beber pela sua mão. ANEL

9.

Anel d’ouro não é prenda, De prata não é lembrança; Anel de continhas pretas, Esse sim, que é confiança.

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C CABELOS 10. Esses teus lindos cabelos, Soltos, entregues ao vento, A todos dão alívio, Só a mim tanto tormento. CARVALHO 11. O carvalho da Portela, Na ponta tem mil enredos; Quem tem o amor defronte Nunca tem os olhos quedos. CASAMENTO 12. É boa vida ser casado, Matar um bom cebado; Há três anos que casei, Nunca sem matar fiquei, A não ser este ano, O ano passado E no ano que me casei (1091). 13. Há dois dias que me casei, Já não estou nada contente: Casei com mulher bonita, E não tenho que dar ao dente, 14. Se t’eu visse bem casada, Que gosto era o meu! Vejo-te mal empregada, Sinto o meu mal e o teu. CASTANHEIRO 15. Da outra banda do rio, Tem meu pai um castanheiro; Que dá castanhas em Maio E uvas brancas em Janeiro.

(1091) Repete-se agora por ter saído incompleto no tomo X, destas Memórias, p. 387, n.° 275.

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16. Tanta castanha piada, Comia eu algum dia; Coitado de quem mas dava: Era tempo que perdia! CORAÇÃO 17. Coração por coração, Amor não deixes o meu; Olha que o meu coração Sempre foi leal ao teu. 18. O meu coração é d’ouro, Fecha com dois cadeados; D’um lado fecha com amores, Doutro com penas e cuidados. CRAVOS 19. Cravos brancos são beijinhos, Eu já alguns te tenho dado, Do que estou bem arrepeso: Está o meu querer demudado (1092). F 20. Figos do Douro, pés torcidos, É comer e gritar por mais; Depois de amadurecidos, São picados pelos pardais. FEITICEIRAS 21. Quem me dera ser bruxa, Feiticeira nesta hora; Quem me dera adivinhar, Onde o meu amor está agora! FREIXO 22. Subi ao alto Freixo, Como hei-de descer? Difamaram-me contigo, Quem me há-de querer?

(1092) Liga-se ao n.° 359, do tomo X, destas Memórias.

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H 23. Hei-de ir para o deserto, Hei-de escrever na ermida; Quero saber quem te logra, Amor da minha vida. L 24. Lá te mandei um raminho De cravos e cravelinas, Por não te poder mandar Dos meu olhos as meninas. 25. Lá te mandei um raminho De ginjas garrafais; A do meio ia dizendo: Adeus para nunca mais. 26. Lá te mandei um raminho De salsa para cheirar; Já que tens outros amores, Manda-me desenganar. 27. Levante-me esse chapéu, Que lhe quero ver os dentes; Ainda meus olhos não viram Coisinhas tão excelentes. LAMEIRO,

FENO , PRADO , OUTONO , ERVA

28. Passei pelo prado verde, Pus o pé no verde outono; Ninguém se ponha a falar Com amores que já têm dono (1093). LARANJA 29. Toma lá uma laranja, Meu amor, que sabe bem; Olha, se não é teu gosto, Não falarei a ninguém.

(1093) Variante do n.° 732, no tomo X, destas Memórias.

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30. O meu gosto, menina, Já o podes entender: O ver-te falar com outro, Para mim é morrer. 31. Morrer, não quero que morras, Prenda do meu coração; Antes te quero dar a vida, Se estiver na minha mão. LENÇO 32. Lenço branco que já foste Feito por mãos d’amizade, Agora choram prantos Nesta cruel saudade. 33. Ó meu lenço vermelho, Feito detrás das paredes; Quem escuta de si ouve; Assim me sucede às vezes. 34. Lá te mandei um lencinho, Mas ainda não vai acabado; Numa ponta leva o sol, noutra a lua, Noutra os martírios do nosso tempo passado. LOUREIRO 35. O loureiro é brilhante, E eu consigo já brilhei; Numa batalha d’amores, Já consigo batalhei. M 36. Mi mujer e mi cavallo, Ambos muriron num dia; Mujer del diabro Cavallo d’alma mia! (1094)

(1094) É cantada mesmo em galego.

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MAÇÃS 37. Chamaste-me pêra podre E eu a ti, maçã podrida; A pêra podre ainda se come, E a maçã com ela se atira. MAR 38. Fui ó mar de joelhos, De joelhos fui ó fundo; Por vias de si, menina, irei ao cabo do mundo. 39. Corri o mar em roda Com uma vela branca acesa; Em todo o mar achei fundo, Só em ti pouca firmeza. N 40. No tempo que eu te amei Melhor fora estar doente; Tempo tão mal empregado E dado de tão boa mente! (1095). NOMES

PRÓPRIOS

41. António, lindo António! Amor do meu coração! Não me quiseste amar, Deixaste-me sem razão. 42. Ó Rosa, tu estás queixosa, Acho que não tens razão; Já te achei desfolhada, Não te tirei o botão. 43. Senhora Dona Maria, O seu dom não vale nada; Quem tem dom não vai à fonte, Nem à missa sem criada. (1095) Liga-se aos n.os 876, 1190 e 1191 do tomo X, destas Memórias.

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O 44. Ó carta que vais ver, Olha se sabes falar; Os olhos que te notaram Fartos ficam de chorar. 45. O mexilhão d’Aveiro, Que delicioso isco! Mesmo D. Luís primeiro Comeria tal petisco! P PINTASSILGO 46. Atirei com barras douro Ao pintassilgo no ar; Sastisfaço com cantigas, A quem não posso falar (1096). 47. Quem repara em cantigas, Não é tolo, faz muito bem; Em cantigas vou dizendo Aquilo que convém (1096). R ROSA 48. Fui cortar uma rosa, Picou-me c’os espinhos: É bem tolo, é bem parvo, Quem com rosas tem brinquinhos. (1097)

ROSMANINHO (1097)

49. A flor do rosmaninho É a primeira do ano; Também vós, minha menina, Sois a primeira que eu amo.

(1096) Ligam-se ao n.° 240 do tomo X, destas Memórias. (1097) Ver tomo X, p. 411, destas Memórias.

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50. A flor do rosmaninho, É a flor mais delicada; Também vós, minha menina, Nascestes para ser amada. 51. A flor do rosmaninho, Trazei-la vós, ao peito; Nunca vi coração tão duro, Nem amor tão perfeito. 52. A hera e o rosmaninho, Ambos crescem no jardim: O rosmaninho à hera Falou-lhe assim: Bons dias, a natureza Bem madrasta se te mostrou Para andares c’oa terra. 53. Cheira o cravo, cheira a rosa Cheira a flor do rosmaninho; Só tu me cheiras a cravo, Meu delicado amorzinho. 54. Minha mãe mandou-me à fonte, Mandou-me à fonte do Salgueirinho; Mandou-me lavar a jarrinha Com a flor do rosmaninho. 55. Minha mãe mandou-me à fonte, Pela hora do calor; Colhi um ramo de rosmaninho Para dar ao meu amor. 56. O rosmaninho do monte, É o regalo dos pastores; Botam o gado a ele, E vão falar com seus amores. 57. O rosmaninho também se seca, Quando vem o sol revigora; Nunca falta quem se meta Na vida de quem namora.

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58. Todas as ervas cheiram No tempo do calor; Mas o cheiro do rosmaninho É de todos o superior. 59. Trazeis rosmaninho ó peito, É sinal de casamento; Comigo tendes a fama, Com outro passais o tempo. RUA 60. Algum dia nesta rua Tinha eu o meu intento; Agora passo por ela Como o mais ligeiro vento. 61. Algum dia nesta rua Tinha eu com quem falar, Agora passo por ela Como o pardal a voar (1098). S 62. Se eu soubesse na verdade, Que te não tornava a ver, Mandava vir da botica Remédio para morrer. 63. Se eu soubesse o Padre Nosso, Como sei cantar cantigas, Fazia chorar as pedras, Quanto mais as raparigas. 64. Sou um rapaz como um cravo, Toda a gente me cobiça; Sou capitão do sono, General da preguiça. 65. Sou rapaz e sou garoto, Criado na garotice, Pelas terras onde andei, Nunca constou que eu parisse.

(1098) Liga-se ao n.° 31 do tomo X, destas Memórias.

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SALSA 66. A salsa ó pé do rio De verde se está revendo; Também vós, minha menina, De boa vos estais perdendo (1099). 67. A salsa no meu horto, Dá-lhe o vento, revolteia; Tu és a minha prisão, E eu sou a tua cadeia (1100). SAPATO 68. Ó sapato d’uma sola Logo se lhe rompe a biqueira; Acautele-se, ó menina Não caia na ratoeira. SEGREDO 69. Vós chamastes-me segredo, E o segredo está na noz; Chamastes-me doidinha, E eu não endoideci por vós. SERRA 70. No alto daquela serra Ouvi cantar e chorei, Pela minha mocidade, Que tão mal a empreguei (1101). 71. No alto daquela serra, No meio canta a cobra; Quem n’uma coisa faz gosto, É certo que a não logra.

(1099) Relaciona-se com o n.° 1320 do tomo X, destas Memórias. (1100) Idem, n.° 320. (1101) Idem, n.° 251.

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CARDOSO

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72. No alto daquela serra, Está um junquinho grosso; De todo o mundo me aparto, Só de ti amor, não posso. 73. Ó alta serra da neve, Onde a flor da murta assiste; Se nunca gozar teus olhos, Toda a vida andarei triste. SOL 74. Ó quem fora como o sol, Que entra pela janela; Que te fora ver à cama, Meu ramo de primavera. T TRÁS-OS-MONTES 75. Das fragas nascem as águas, Das águas brotam as fontes; As águas curam as mágoas: São águas de Trás-os-Montes. V VINHO 76. Meu amor, vinho, vinho, Que eu a água não a sei beber; A água tem samaçugas E eu tenho medo de morrer. C ARDOSO (Manuel Joaquim), cónego, tomo VIII, pág. 103. Faleceu em Sendim de Miranda, sua terra natal, a 4 de Junho de 1946. CARVALHO (Alberto de Morais Faria de), general, tomo VI, pág. 572; tomo VII, pág. 85 e tomo IX, pág. 588, destas Memórias. Faleceu em Lisboa, onde residia, a 26 de Fevereiro de 1937. C ARVIÇAIS . Ainda não vão agora os brasões de armas de Carviçais e Adeganha, devido à minha doença. Irão no volume seguinte. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


CASTILHO

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CASTILHO (João de), arquitecto. Ver Freixo de Espada à Cinta, pág. 316. CASTRO (Padre José António de). Ver pág. 13; tomo VII, pág. 92. Durante a impressão desta obra publicou mais: Dom Sebastião e Dom Henrique, Lisboa 1942, 8.° pequeno de 357 págs., mais uma inumerada de registo. Contém 22 documentos zincogravados. O Prior do Crato, Lisboa, 1942, 8.° pequeno de 421 págs., mais uma inumerada de registo. Para o assunto, estes dois volumes são preciosos por se basearem em documentos inéditos, existentes nos Arquivos do Vaticano. O Cardeal Nacional, Lisboa, 1943, 8.° pequeno de 459 págs., mais uma de registo, com muitos documentos inéditos, existentes nos Arquivos do Vaticano em Roma, zincogravados. Portugal no Concílio de Trento, Lisboa, 1944, 8.° pequeno de 503 págs.; II vol. 1944, 8.° pequeno de 506 págs., mais uma inumerada de apêndice e outra de registo; III vol., Lisboa, 1945, 8.° pequeno de 505 págs.; IV vol., Lisboa, 1945, 8.° pequeno de 499 págs.; V vol. 1946, 8.° de 495 págs.; VI vol., Lisboa, 1946, 8.° de 494 págs. Bragança e Miranda (Bispado). Vol. I, Porto 1946, 8.° grande de 421 págs., mais uma de erratas e outra de registo, inumeradas; vol. II, Porto, 1947, 8.° grande de 412 págs., mais duas inumeradas. Venerável Bartolomeu dos Mártires. Porto, 1946, 135 págs., in 8.°, com muitas fotogravuras. Associação de Socorros Mútuos dos Artistas de Bragança. Lisboa, 1946, 8.° de 249 págs. e mais uma de erratas, inumerada. No volume VII, pág. 92, destas Memórias, dissemos que o P. e Castro escreveu uma conferência que ele «fez no Brasil, em prol da Santa Casa da Misericórdia de Bragança, e bem sucedido foi, porque os donativos montaram a cinco contos». Rectificando esta notícia, por ser incompleta e menos clara, diz-nos o amigo Dr. Raul Teixeira: «A conferência foi escrita e publicada no Brasil, mas para ser lida em Bragança, como de facto o foi, por ele Dr. Raul Teixeira, na noite de 30 de Junho de 1926, em récita de gala, no Teatro Camões, récita de homenagem aos beneméritos conterrâneos e compatriotas residentes no Brasil, que subscreveram para o subsídio recebido pela Misericórdia, e em especial dos patrícios D. Maria Adelaide Magalhães Quintanilha, Padre José de Castro e Adriano Carneiro. A subscrição rendeu 56 contos. A impressão da conferência, aliás a edição, foi paga integralmente do bolso do Padre Castro, e a venda dos exemplares feita no teatro e enviados para diversos pontos do país a patrícios nossos, é que devia ter rendido os tais cinco contos». MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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CASTRO

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CASTRO DE AVELÃS

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CASTRO (D. Rodrigo de), conde de Mesquitela, governador das armas da província de Trás-os-Montes, tomo I, pág. 97. Faleceu em Lisboa a 18 de Dezembro de 1662 (1102). CASTRO DE AVELÃS. Ampliando as notícias que demos na monografia Castro de Avelãs, mosteiro beneditino, separata de «O Instituto», volume 56, aditamos mais o nome dos seguintes abades do mosteiro de Castro de Avelãs, que tanta influência exerceu em terras bragançanas, durante a Idade Média. D. M ARTINHO . Borges cita uma doação, feita em 1192, por Especiosa Fernandes, de várias propriedades na região bragançana, ao mosteiro de São Martinho da Castanheira, em terra de Sanabria (Espanha), na qual figura como confirmante domnus Martinus ablas in Castro da Avelanas (1103). PEDRO N UNES, era abade de Castro de Avelãs em 1202 (1104). PEDRO S ANCHES, era abade de Castro de Avelãs em 1285 (1105). D. FREI PAIO, era abade de Castro de Avelãs em 1288 (1106). FREI MARTINHO ou FREI MARTINHO PAIS, abade de Castro de Avelãs em 1319 (1107). CAYRES LOURENÇO (AYSOM, AYZEM, AYRAES , AYRES LOURENÇO?). No Museu de Bragança há um pergaminho, vindo no espólio do Dr. Diogo Vargas, referente a um préstamo pago pelo Convento de Castro de Avelãs, pelos anos da era de 1384, a João Rodrigues de Azambuja e sua mulher Teresa Mendes ou Martins, ou outro apelido por este teor, pois não se percebe bem, por estarem gastas as letras. Nela figura um abade, que ficara a dever o préstamo da era de 1381 à dita Teresa e marido. O nome do abade vem assim no pergaminho:

Este nome, encontra-se três vezes como apelido no documento, sempre com idêntica grafia. O apelido Lourenço está bem claro, mas o primeiro nome oferece dúvidas: a rabisca da terceira letra voltada para trás, para formar um C, ou mesmo por elegância, sem formar letra nenhuma, foi

(1102) Portugal, Dicionário Histórico, artigo Mesquitela. (1103) BORGES , José Cardoso — Descrição Topográfica da cidade de Bragança, manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa, Notícia 2.a (1104) Tomo IV, p. 461, destas Memórias. (1105) Ibidem, tomo VII, p. 725. (1106) Idem, tomo IV, p. 463. (1107) Idem, tomo IV, p. 506 e 507.

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CASTRO DE AVELÃS

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CASTRO VICENTE

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muito usada nos séculos XIV e XV, bem como um r pelo tipo da quarta letra (1108), como o traço em cima indica supressão de letra, segundo se costumava naquela época, entendo que o nome será Cayres, ou Ayres, que, como apelido, ainda vigora em Portugal como nome próprio. Seja porém o que for, não há dúvida de que, na era de 1384, o abade de Castro de Avelãs usava o apelido de Lourenço. D. FREI GONÇALO EANES, era abade de Castro de Avelãs na era de 1378 (1109). D. FREI PAIO, era abade em 1403 (1110). D. FREI LUÍS EANES (1452-1454) (1111). D. FREI LUÍS EANES DE MADUREIRA, 1478 (1112). O Infante D. Henrique, depois cardeal-rei, era abade comendatório do mosteiro de Paço de Sousa e trocou em 1538 esta abadia pela do mosteiro de Castro de Avelãs, de que ao tempo era abade comendatório D. Paulo Pereira, filho do Conde da Feira (1113). C ASTRO VICENTE . Em Castro Vicente, concelho do Mogadouro, há uma capela conhecida pelo nome de Capela do Senhor da Fraga, ou do Santo Cristo da Fraga, e nela duas lápides com letras muito apagadas numa delas. As da outra, que parece estar voltada com a parte de cima para baixo, são desta forma, segundo uma cópia que nos mandou o nosso amigo Padre Acácio Alfredo Anselmo, natural de Castro Vicente. N XXXV M J

RVJWI J

ß·NO WI.NOM V·

Esta inscrição inédita será funerária? Mas a novidade de indicar os anos do falecido logo de principio?

(1108) MERINO, Andres — Escuela de leer letras cursivas antiguas, 1780, p. 278 e 283, lâminas 2. (1109) Tomo V, p. 47, destas Memórias. (1110) Ibidem, p. 507 e 508. (1111) Idem, p. 509. (1112) Idem, p. 471, 509 e 510; tomo VI, p. 158. (1113) Idem, tomo III, p. 232; Boletim da Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, n.° 17 (Set. 1939), p. 14.

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CASTROS

TOMO XI

Nesta hipótese, pertencerá a indicação dos anos à outra inscrição das letras apagadas, formando as duas pedras originariamente uma única peça em forma de coluna, e então tomaríamos a primeira letra por um N e um A conjuntos e leríamos A n (norum) X X X V. Neste caso podia ler-se o resto: M(arcus) RUSMIS NOMI(nis) NOM(enclator) V(ir) L(andabilis), frisando os inusitados W W da 3. a e 5. a linha. CASTROS. Segundo me informou o meu colega Padre António Maria Mourinho, pároco de Duas Igrejas, concelho de Miranda do Douro, descobriu ele um castro ainda desconhecido «em Cércio, (anexo da sua freguesia), nas arribas do Douro, à beira de uns fragueiros. Está ainda bastante conservado, conhecem-se perfeitamente os muros e contramuros, alguns ainda de mais de um metro de altura. O castro é oval, os muros são de pedra solta sem barro, de 3 metros em média de largura, atingindo nalguns pontos 5 e 7 metros de largura. Dentro, e entre os muros e contramuros, contei perto de vinte casas quadradas e rectangulares, divididas por muros de pedra de 0,60 m de largura. Estes aposentos não têm mais de 3 a 4 metros de largura». C ÉRCIO. «Na capela de Santa Marinha de Cércio, templo romano-gótico da transição, em ruínas, onde, segundo a tradição local era a primitiva “Cerceno” de “Quaercinus” segundo L. de Vasconcelos, e onde aparecem cacos, utensílios de cozinha, telhas de rebordo “y muchas cosas mas”, encontrei na capela-mor, a servir de soleira a uma buraquita de pôr as galhetas, uma lápide romana de mármore, mal polido, de 6,65 m de comprimento, por 6, 37 m de largura e 0,08 m de grossura. É encimada por suástica de doze raios, tipo discóide, muito bem trabalhados, dos quais metade desapareceram. É do mesmo tipo da lápide publicada no vol. IX das Memórias do sr. Abade de Baçal, a pág. 37, n.° 32, aparecida em Picote. O corpo da inscrição abrange 0,22x0,23 m. Tinha três carreiras de letras, havendo da primeira carreira já só a primeira letra que é um N e parte da segunda que não decifro. O corpo das letras é 0,03 m. As letras da segunda carreira também se percebem mal, só as da terceira estão intactas. Recompondo a inscrição NI... SEVERI F. AN XXII MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


CÉRCIO

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COELHOSO . . .

637 TOMO XI

Diz NI . . . filho ou filha de Severo, de vinte e dois anos. O F é do tipo cursivo de Alburno usado em muitas lápides da região bragançana, inclusivamente na de Picote, supra citada. A lápide está mutilada na parte superior e inferior, e as letras estão gastas, por ter servido certamente de piso durante muitos anos e talvez séculos, nalgum caminho ou à entrada de alguma porta» (1114).

COELHOSO, HERÁLDICA, GENEALOGIA E USOS PAROQUIAIS Ainda a propósito da pedra brasonada de Coelhoso, mencionada no tomo VI, pág. 752, esclarecendo ao mesmo tempo a família Costas, de Bragança (idem, pág. 50) e as dúvidas concernentes aos representados por este brasão e aos administradores do morgadio, fundado pelo Padre João da Rocha Pimentel e seus tios, os padres Costas, aditamos mais os elementos seguintes, colhidos nos livros do registo paroquial de Coelhoso. No último fólio do livro dos baptizados e casamentos de Coelhoso, que serviu de 1667 a 1720, há a seguinte declaração: «Uzos, e costumes que achei nesta igreja que comecei a servir no anno de 1687. São três noturnos, e cada hum do seguinte: De esmolas de tres sacerdotes duzentos e sessenta reis, Mais hum alqueire de pão trigo, Mais meio almude de vinho, Mais huma libra (arratel) de cera, Mais meio carneiro, Mais tres cirios e tres moedas. E sendo os officios de nove liçoins que são seis sacerdotes dobra o referido assima. Em verdade de tudo a assinei, João da Rocha Pimentel» (1115).

(1114) MOURINHO, António, Padre, em Mensageiro de Bragança, de 15 de Agosto de 1943. (1115) Isto, que hoje parece exorbitante, não o era ao tempo, pois o alqueire de centeio regulava então por 140 réis, o almude de vinho por 180 réis e por este teor o mais. Ver tomo VI, p. 632, destas Memórias, onde damos a tabela respectiva.

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DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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COELHOSO . . .

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GONÇALO DA ROCHA PIMENTEL, solteiro, filho que ficou de Manuel da Rocha Pimentel, e de sua mulher Maria da Costa, já defuntos, de Bragança, e ao presente morador em Coelhoso, e D. Mariana Sarmento de Morais, solteira, de Bragança, recolhida no Convento de Santa Clara, filha que ficou de António Fernandes e de sua mulher D. Ana Sarmento, moradores em Bragança, casaram em Coelhoso, a 15 de Julho de 1708, na presença do pároco João da Rocha Pimentel (irmão do nubente) e das testemunhas João Ferreira Sarmento Pimentel, António Doutel de Almeida, padre Luís Doutel e Alexandre Fragoso de Morais, todos de Bragança. Deste casamento, vieram os seguintes filhos, que encontrei nos livros de registo paroquial de Coelhoso: Manuel Caetano, nasceu em Coelhoso, a 2 de Junho de 1709. António José, nasceu em Coelhoso, a 13 de Novembro de 1710. José António, nasceu em Coelhoso, a 26 de Julho de 1712. Ver tomo VI, pág. 684, destas Memórias. João Manuel, nasceu em Coelhoso, a 7 de Outubro de 1713. D. Ana Sebastiana, nasceu em Coelhoso, a 16 de Abril de 1715. D. Antónia Teresa, nasceu em Coelhoso, a 22 de Julho de 1716, mas no assento desta já menciona os pais como residentes em Bragança. Em face destes documentos e do que escrevemos no tomo VI, págs. 50 e 752, parece que o morgadio fundado pelo Padre João da Rocha Pimentel, e por seus tios, em favor do irmão daquele, Gonçalo da Rocha Pimentel, nubente acima mencionado, deve ser o da Quinta das Carvas, junto a Bragança (ver tomo VI, pág. 750, n.° 38, destas Memórias), nada, portanto, tendo esta família com a pedra brasonada de Coelhoso. Sobre este morgadio ver também tomo IV, pág. 339, destas Memórias. Bento Manuel Neves Pavão, nasceu em Coelhoso, a 22 de Março de 1753 e era filho de João Neves Pavão, de Coelhoso, e de D. Maria de Morais, natural da Junqueira (hoje concelho de Vimioso); neto paterno de João Rodrigues Choa, de Coelhoso, e de Maria Pereira, de Frieira, e materno de Manuel Martins, da Junqueira, e de Susana de Morais, da Matela. D. Josefa, nasceu em Coelhoso, a 7 de Março de 1786, filha de Bento Manuel Pavão de Morais, de Coelhoso, e de D. Ana Joaquina, natural da Quinta da Cabreira, do arcebispado de Braga (deve ser Cabreira, anexa de Gouveia, concelho de Alfândega da Fé, então pertencente à diocese de Braga MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


COELHOSO . . .

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e hoje à de Bragança); neta paterna de João Rodrigues Neves Pavão e de D. Maria Martins, da Junqueira, e aquele de Coelhoso, e materna de João António Pereira de Azevedo Lemos, natural de Lagarelhos (concelho de Vinhais), e de D. Maria de Sá Machado, da Quinta da Cabreira. Ver tomo VI, pág. 222, destas Memórias. D. Maria Antónia Benedita, irmã da precedente, nascera a 12 de Março de 1784. Os apelidos desta família Pavão, parecem ser os que mais se ajustam aos símbolos heráldicos gravados no escudo de Coelhoso, no entanto damos também a genealogia do sr. General Ernesto Maria Vieira da Rocha e de seu primo Padre Francisco Manuel da Rocha, pároco de Coelhoso, que têm sido julgados como representantes do escudo de Coelhoso. Ver tomo VI, págs. 221, 709 e 791 e tomo VII, pág. 450, destas Memórias. Ernesto Maria Vieira da Rocha, General, antigo Ministro da Guerra, nasceu acidentalmente em Évora, a 18 de Outubro de 1872, onde seu pai prestava serviço militar, porém este e o ascendente são naturais de Coelhoso. É filho de: António Manuel Martins da Rocha, tenente-coronel de cavalaria, nascido em Coelhoso, a 13 de Dezembro de 1829, e de D. Rita de Cassia Vieira, nascida em Bragança, a 27 de Março de 1832, filha de Francisco José Vieira, natural do Porto, e de D. Amélia Carolina, de Bragança (Sé), filha de Manuel Fernandes Igreja, de Bragança (1116), e de D. Maria Joaquina de Morais Sarmento, de Bragança.

(1116) Este Manuel Fernandes Igreja, apesar de no assento de baptismo do neto vir como sendo natural de Bragança, onde apenas residia como «soldado infante», ao tempo do seu casamento com Maria Joaquina de Morais Sarmento, realizado em Bragança, na freguesia da Sé, a 1 de Dezembro de 1804, é natural de Baçal, concelho de Bragança, onde nasceu a 3 de Novembro de 1774, filho de António Fernandes Igreja e de Antónia Martins; neto paterno de António Fernandes Igreja, de Baçal, e de Ana Afonso, de Sacoias. Em Baçal, são hoje (1942) representantes desta família: III — Adozinda Augusta Fernandes, nascida em 1902, viúva de Manuel António Alves, sobrinho do autor destas linhas, falecido em 1940, e seus filhos: III — João António Alves, nascido em 1925. III — Maria Perpétua Alves, nascida em 1927. IV — Preciosa Iria Alves, nascida em 4929. IV — Albino Manuel Alves, nascido em 1935. VI — José do Patrocínio Alves, nascido em 1938. Adozinda Augusta Fernandes, acima n.° 1, é filha de Maria dos Prazeres Esteves e de Albino Augusto Fernandes; filha de Ana

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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COELHOSO . . .

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Neto paterno, o dito General Ernesto Maria Vieira da Rocha, de José Manuel Martins, natural de Grijó de Parada (filho de António Manuel Martins, de Grijó de Parada, e de Clara Tomé, natural de Carção) e de D. Maria Antónia Dinis da Rocha, nascida em Coelhoso, a 6 de Março de 1794, filha do doutor João Manuel Pires Dinis, médico do partido Municipal de Bragança (ver tomo VI, págs. 709 e 791, destas Memórias), e de D. Rita Martins da Rocha, nascida em Coelhoso, a 23 de Março de 1772, e não a 15 de Outubro de 1775, como por equívoco escrevemos no tomo VI, pág. 709, destas Memórias, filha esta de José António Martins, de Coelhoso, e de Antónia da Rocha, nascida em Coelhoso, a 26 de Fevereiro de 1732; neta de Gonçalo da Rocha, nascido em Coelhoso, a 5 de Janeiro de 1669, e de Águeda Rodrigues, nascida em Coelhoso, em 1704, bisneta de Gonçalo da Rocha e de Feliciana Fernandes, ambos solteiros. No assento do baptismo das netas: Teresa, nascida em Coelhoso, a 10 de Novembro de 1723; Ana Maria, filha de Gonçalo da Rocha Costa e de sua mulher Águeda Rodrigues Neves, neta paterna de Gonçalo da Rocha Pimentel e de Feliciana Fernandes, nascida em Coelhoso, a 26 de Fevereiro de 1729, e no de Antónia Teresa, filha e neta dos mesmos indicados no anterior, nascida em Coelhoso, a 26 de Fevereiro de 1732, diz o respectivo termo: «neta paterna de Gonçalo da Rocha Pimentel, assistente em Bragança e de Feliciana Fernandes, moradora em Coelhoso». Estes apelidos de Costas, Neves e Pimentel, quadram ao escudo de Coelhoso, havendo apenas dúvida na dos Almeidas, representado no chefe, mas estão tão apagados os emblemas, que bem podem tomar-se pelos dos Costas, todavia ficam ainda por explicar a ave do chefe e os machados do último quartel.

da Natividade Fernandes, e de José Sebastião Esteves; filha legitimada do padre José Joaquim Fernandes, nascido em Baçal, a 9 de Novembro de 1815, e aqui falecido a 22 de Abril de 1892, filho de Doroteia Fernandes, nascida em Baçal a 4 de Fevereiro de 1783, e de Inocêncio Fernandes. Esta Doroteia é irmã legítima de Manuel Fernandes Igreja, mencionado no princípio desta nota. O assento de seu casamento, realizado na Sé de Bragança em 1804, é que declara ser natural de Baçal e filho dos pais indicados. É bem sabido que esta declaração, por ser feita em face de documentos, merece crédito, ao passo que a feita no assento de baptismo do neto, pode, e na verdade é menos exacta, por se basear em informações que deram ao pároco, pessoas que não sabiam e se guiavam apenas pela sua residência em Bragança. De resto, eu muitas vezes ouvi falar ao Padre José Joaquim Fernandes, dos seus parentes em Coelhoso e da fazenda que o seu afim Francisco José Vieira, tinha e vinha cultivar a Baçal, e ainda conheci muita gente que com ele conviveu durante essas culturas.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


COELHOSO . . .

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Padre Francisco Manuel da Rocha, pároco de Coelhoso, onde nasceu a 30 de Novembro de 1888 (ver tomo VII, pág. 450, destas Memórias), entra também na genealogia supra, por ser filho de Luciano João da Rocha Sarmento Pimentel, nascido em Coelhoso a 13 de Fevereiro de 1844 e de Rita Regina da Conceição de Morais, irmã do dr. Manuel José Alves de Morais (ver tomo VII, pág. 346, destas Memórias), neto paterno de José Manuel Martins e de D. Maria Antónia da Rocha Pires Dinis (assim está no respectivo assento do registo paroquial), avós paternos do General Vieira da Rocha, como fica indicado. Em 1854, requereu habilitação de genere Albino Manuel Martins da Rocha, de Coelhoso, e seus irmãos António e José Manuel Martins. Na certidão de idade do primeiro, diz-se que Albino Manuel (só este nome), é filho de José Manuel Martins, de Grijó de Parada e de sua mulher D. (tem dom) Maria Antónia Dinis, de Coelhoso; neto paterno de António Martins, de Grijó de Parada, e de Clara Tomé, natural de Carção, termo da vila de Outeiro, e materno de João Manuel Pires Dinis e de sua mulher Rita Martins da Rocha, ambos naturais e moradores em Coelhoso. Nasceu a 28 de Dezembro de 1831. Noutro caderno de processo de habilitação de genere dos mesmos, feito em 1831 (não há dúvida, é feito em 1831 e o de cima em 1854), vem as seguintes certidões: D. MARIA ANTÓNIA, filha do dr. João Manuel Dinis e de sua mulher D. Rita Martins das Neves, ambos de Coelhoso, neta paterna de António Afonso e de Francisca Afonso e materna de José António Martins e de Antónia das Neves, todos de Coelhoso, nasceu a 6 de Março de 1794. Foram padrinhos os avós maternos. J OÃO MANUEL B ENTO DE SANTA RITA , filho de José Manuel Martins Capt.° (assim está; será capitão em breve?), natural de Grijó de Parada, e de sua mulher D. Maria Antónia Dinis da Rocha, natural de Coelhoso; neto paterno de António Manuel Martins e de Clara Tomé, de Carção, terra de Outeiro, e materno do dr. João Manuel Pires das Neves e de Rita Martins da Rocha, ambos de Coelhoso, nasceu a 14 de Julho de 1821. ANTÓNIO MANUEL, irmão do precedente, nasceu a 13 de Dezembro de 1829. Foram padrinhos José Manuel António e sua irmã D. Antónia Maria, irmãos do dito baptizado. RITA MARIA, filha de José António Martins e de Antónia da Rocha, ambos de Coelhoso, nasceu a 23 de Março de 1772, neta paterna de Lázaro Martins, da quinta de Montesinhos e de Mariana Pires, de Viduedo, e materna de Gonçalo da Rocha e de Águeda Rodrigues. J OÃO MANUEL, filho de António Afonso e de Francisca Rodrigues, nasceu a 15 de Outubro de 1735. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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CORDEIRO

TOMO XI

J OÃO M ANUEL e R ITA M ARIA , casaram em Coelhoso, a 17 de Maio de 1790. Foram padrinhos Bento Manuel, capitão-mor de Algoso, marido de D. Joaquina Rosa, e D. Catarina, viúva de Domingos Pires Pavão, de Parada. JOSÉ MANUEL MARTINS , filho do capitão das Ordenanças António Manuel Martins e de Clara Tomé, natural de Grijó de Parada, casou com D. Maria Antónia da Rocha Neves, filha do dr. João Manuel Dinis e de D. Rita Martins das Neves, em Bragança (Santa Maria), em 1812. Ainda há no processo outras certidões. CORDEIRO (Luciano Baptista Cordeiro de Sousa). Ver tomo VII, págs. 124 e 647. «Luciano Baptista, filho legítimo de Luciano José Cordeiro de Sousa e de sua mulher D. Leopoldina Cândida Álvares Ferreira, esta de Montevideu e aquele desta vila de Mirandela e nela moradores, neto paterno de Luís Manuel Cordeiro de Sousa, da vila de Alfândega da Fé, e de sua mulher Maria Josefa, de Mirandela, e materno de Francisco Bernardo Santana, de Frechas, arcebispado de Braga, e de sua mulher D. Maria Benedita Gouveia, do lugar de Santa Comba, do dito arcebispado, nasceu no dia 21 de Julho da era de 1844, e a 21 de Agosto da mesma era, foi solenemente baptizado, havendo os Santos Óleos, na igreja matriz da dita Mirandela, pelo reitor da mesma abaixo assinado. Foram seus padrinhos João Baptista Cordeiro e sua mulher Maria Francisca e testemunhas Alexandre Pereira e seu filho José, desta vila de Mirandela, dia, mês e era como acima. O Reitor Francisco António de Resende Sá e Melo». Tirada esta cópia de outra que me mandou o dr. José Salazar, chefe da Conservatória do Registo Civil de Mirandela, em 3 de Agosto de 1943. «Luciano, filho legítimo de Luís Manoel Cordeiro e de Maria Josefa desta Villa nasceu aos nove dias do mez de Fevereiro de mil oito centos e cinco, e foi baptizado solenemente na pia baptismal desta Igreja aos dezasseis dias do ditto mez, e era pelo Reverendo Antonio Manoel Xavier desta Villa, he neto paterno de Domingos Luis Bertlo, e de Luiza Bernarda Cordeiro da Villa de Alfandega da Fé, e materno de Manoel Botelho, e Maria Cazimira desta Villa. Forâo seus padrinhos o Reverendo Miguel Vicente Teixeira Homem desta Villa e testemunhas Sebastião Joze, corista desta Igreja, e Joze Antonio de Val d’Egoa. E para constar se fez este termo dia mez, e era ut supra. (aa) Sebastião Joze Corista, Joze Antonio — O Padre Antonio Manoel Xavier». (Mirandela, L.o dos Bapt.os fol. 19 v.) MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


CORREIA

643 TOMO XI

Bartolomeu Luís e Maria Luísa, ambos de Alfândega da Fé, casaram a 1 de Fevereiro de 1740. Domingos Luís Bertolo e Luísa Bernarda Cordeiro, nasceu em Alfândega da Fé, a 27 Abril de 1765. Luís Manuel Cordeiro (sem o Sousa) e Maria Josefa. Luciano José Cordeiro de Sousa, de Mirandela, e D. Leopoldina Cândida Álvares Ferreira, de Montevideu, nasceu em Mirandela, a 9 de Fevereiro de 1805. Luciano Baptista Cordeiro de Sousa, nasceu em Mirandela, a 21 de Julho de 1844. O nosso saudoso contemporâneo no Seminário de Bragança, José Luís Cordeiro de Sousa, nascido em Alfândega da Fé, a 15 de Fevereiro de 1864 e falecido em Calabor (Espanha), onde fora tomar banhos, a 12 de Agosto de 1900, mas indo a sepultar à sua terra natal, filho de Francisco Maria de Sousa e de Miquelina Augusta Cordeiro de Sousa, era primo de Luciano Baptista Cordeiro de Sousa. Foi pároco da Sé de Bragança, Alfândega da Fé e Mascarenhas. Ainda fez concurso paroquial, mas não chegou a colocar-se. Também exerceu durante algum tempo o cargo de escrivão do Apostólico em Bragança. Era um bom, e muitíssimo inteligente. Referente à bibliografia de Luciano Cordeiro, há mais: Luciano Cordeiro, por J. M. Cordeiro de Sousa. Lisboa, 1936. C ORREIA (João de Araújo) — Doutor, médico, natural de Canelas, concelho da Régua. Nasceu a 1 de Janeiro de 1899. No Dicionário da Literatura Universal, pág. 909, dá-o como nascido em 1891, mas depois emendou nas erratas. É filho de António da Silva Correia e de D. Maria Emília Augusta de Araújo. Fez os estudos liceais e universitários no Porto. Rigorosamente o dr. João de Araújo Correia, não entra no plano destas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, mas as suas obras abrangem modalidades etnográficas e linguísticas correntes em terras bragançanas e por isso o mencionamos. Escreveu: Sem Método — Notas sertanejas, Régua, 1938. Prefácio do Dr. Vergílio Correia, 8.° de 6, inumeradas+242+1 de registo, inumerada, páginas. Contos Bárbaros, Régua, 1939, 8.° de 227+8, inumeradas, páginas. Contos Durienses, Régua, 1941. C ORREIA (Maximino) — Doutor, lente de Medicina na Universidade de Coimbra, reitor da mesma desde 1943. Ver tomo VII, pág. 135. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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CORREIA

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CORTÊS

TOMO XI

Escreveu mais: Um caso de transposição completa de vísceras. Alguns aspectos psicológicos da nossa colonização em Angola. Contribuition à l’étude de la vascularisation du cardio-necteur. A irrigação arterial dos músculos pepilares do coração humano. Alterações morfológicas do esqueleto em duas doentes portadoras de múltiplas exostoses osteogénicas. A ossificação dos ossos da abóbada craniana, formação das bossas. Vicarious circulation of the myocardium. The role of the extra - cardiac - arteries in the myocardial circulation. Les anatomoses entre les artères coronaires du coeur (1117). Quando este ilustre bragançano, em 1943, foi nomeado reitor da Universidade de Coimbra, entre as muitas cartas de felicitações que recebeu, havia uma escrita por dois estudantes, que dizia, segundo referiu A Voz, de 16 de Junho de 1945: «Brindamos por V. Ex.a, só lamentando que o brinde seja feito “a seco”, pois não temos, neste momento, capital para festejar condignamente o acto». Pouco depois, os escolares Henrique Pires e Augusto Seixo, quartanistas de direito, receberam em resposta uma bandeja com doces, uma garrafa de champanhe, outra de vinho do Porto e uma carta encimada por esta legenda «Deferido por vir em termos». Dizendo mais: P’ra esses dois estudantes Que parecem não ser pecos, — Aí vão os espumantes P’r’os bolos não serem secos. CORTÊS (Alfredo) — Doutor em direito, dramaturgo, nasceu em Estremoz a 18 de Julho de 1880, filho de Alfredo Cortês Machado e de D. Camila Eduarda Cortês Machado e faleceu em Oliveira de Azeméis a 7 de Abril de 1946. Foi administrador do concelho de Espinho, depois advogado em Lisboa, director da Polícia de Investigação Criminal em Luanda e agora (1942), chefe da Secretaria Judicial em Lisboa. Tem escrito várias peças, todas representadas com grande êxito. A sua bibliografia encontra-se na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e no Dicionário Universal de Literatura, de Henrique Perdigão. Das suas peças, interessa apenas ao nosso parecer, por se basear em assuntos bragançanos, a seguinte:

(1117) Quem é Alguém..., 1947, p. 452.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


CORTÊS

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COSTA

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COUTINHO

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CRUZ

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Saias, peça em três actos; Lisboa, 1940, 140 págs., com 0,11x0,085 m de texto. COSTA (Delfim), funcionário público, deputado pelo Círculo de Moçambique. Nasceu em Mirandela, a 17 de Maio de 1887, filho de Simão de Oliveira Costa e de D. Maria Teresa Baptista de Medeiros. Publicou: Moçambique, nossa terra (1118), Lisboa, 1942, 8.° de 259 págs. C OUTINHO (Francisco de Moura) — Ver pág. 13 e tomo VII, pág. 141, destas Memórias. Filipe Gastão de Moura Coutinho (1119), seu filho, vem publicando, com uma dedicação que releva sobremodo a nobreza de seus sentimentos, as obras manuscritas deixadas por Francisco de Moura Coutinho, tendo já saído as seguintes: Pedro Vaz de Eça, prefácio de A. G. da Rocha Madail. Aveiro, 1944. 8.° de 14 págs., com o retrato de Moura Coutinho. É separata do vol. X, do Arquivo do Distrito de Aveiro. Pachecos e Cardosos da Região Aveirense. Aveiro, 1944. 8.° de 25 págs. Separata do vol. XI do Arquivo do Distrito de Aveiro. Os Costas e Almeidas de Aveiro. 1944. 8.° de 8 págs. Separata do vol. X do Arquivo do Distrito de Aveiro. A Minha Ascendência pelos Godinhos. 1944. 8.° de 18 págs. Separata do X vol. do Arquivo do Distrito de Aveiro. Os Getas de Aveiro. Aveiro, 1945. 8.° de 21 págs. Separata do vol. X do Arquivo do Distrito de Aveiro. Picados, Pericões e Migalhas de Aveiro. Aveiro, 1945. 8.° de 21 págs. Separata do vol. X do Arquivo do Distrito de Aveiro. Breves Apontamentos sobre os Mouras Coutinhos de Esgueira (ascendência pela linha dos Gouveias). Aveiro, 1945. 8.° de 33 págs. Três Genealogias da Casa de Esgueira, interessando especialmente à progénie dos Almeidas. Coimbra, 1945. 8.° de 65 págs. Pintos de Águeda. Aveiro, 1945. 8.° de 30 págs. Separata do vol. XI do Arquivo do Distrito de Aveiro. Linhagens dos Pintos de Águeda. 1946. 8.° de 40 págs. Separata do vol. XII do Arquivo do Distrito de Aveiro. Nótulas Genealógicas Aveirenses. 1946. 8.° de 14 págs. C RUZ (João Baptista da), professor primário da Escola Superior de Mirandela, depois da de Aveleda e, ultimamente, da de Bragança, onde faleceu a 7 de Agosto de 1943. Ver tomo VII, pág. 141, destas Memórias. (1118) Quem é Alguém..., 1947, p. 41. (1119) Ver p. 508, em nota.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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DEUSDADO

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DONZELAS

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ESCOLAS PRIMÁRIAS

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ESTRADA MILITAR ROMANA . . .

TOMO XI

D DEUSDADO (Dr. Domingos Augusto de Miranda Ferreira). Ver pág. 117. Publicou mais: Empreitadas de Obras Públicas — Alegações em recurso de revista. 8.° de 30 págs. Lisboa, 1943. O Problema da forma dos arrendamentos de estabelecimentos comerciais ou industriais. Lisboa, 1946. 8.° de 40 págs. DONZELAS. No tomo IX, pág. 105, tratamos da lenda referente ao Tributo das Donzelas, pago em Alfândega da Fé, Chacim (pág. 183), Espadanedo e Simancas (pág. 191), Pinela (pág. 150) e Rebordãos (tomo X, pág. 9), a um potentado mouro de que os povos se livraram, revoltando-se contra ele e matando-o. É flagrante a identidade desta lenda com a do Minotauro monstro que se sustentava de carne humana, morto por Teseu, a fim de livrar Atenas, sua pátria, do infame tributo de sete mancebos e outras tantas donzelas, que tinha de lhe fornecer cada ano (1120).

E ESCOLAS PRIMÁRIAS — Tomo II, pág. 385. Na sessão do Conselho Superior de Instrução Pública, de 16 de Novembro de 1905, foram criadas as escolas mistas para as quatro povoações seguintes: Avantos, Cabanelas, Franco e Marmelos. Lagoaça. A escola masculina foi criada por provisão régia de 11 de Julho de 1825 (1121). Morais. A escola masculina foi criada por portaria da Regência do Reino, de 2 de Janeiro de 1821 (1122). ESTRADA MILITAR ROMANA DE BRAGA A ASTORGA POR CHAVES — Ver tomo IX, pág. 196. Argote (1123), diz que esta estrada passava em Vinhais, donde seguia para Travanca, Moimenta, em Portugal, Armezende, Lubian, Padornelo, Requeixo,

(1120) CHOMPRÉ — Dicionário da Fábula, artigos «Minotauro» e «Teseu»; VITÓRIA, Baltasar da — Teatro de los dioses..., I, p. 434. (1121) Consta do livro intitulado Provedoria de Miranda, fólio 14, verso, existente no Museu de Bragança. (1122) Livro 6, do Registo Maior da Câmara de Bragança, fólio 235, existente no Museu de Bragança. (1123) ARGOTE, Jerónimo Contador de — Memórias para a História Eclesiástica do Arcebispado de Braga, 1734, tomo 2, p. 590.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


ETNOGRAFIA

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Puebla de Sanabria, todos estes quatro lugares já em Espanha. Mais acrescenta que em Lubian, segundo lhe informaram, «existe um Padrão Romano com letras, cuja inscrição até aqui não pude haver». Como alguns dizem que este letreiro de Lubian, é o mesmo que está numa pedra da ponte da povoação de Armezende, vizinha daquela, obtive uma cópia dela, por intermédio do meu amigo Padre Francisco José Afonso, pároco da Moimenta. Diz a que está na pedra da guarda da ponte do lado do norte: HIC PONS TVELAE FACTVS FVITA A D.RE D. GRE GORIO FRANCISCO MONTES RECTORE HVIVS PARROCHIAE S.TA MARIAE VVLGO ARMISENDE PROPIIS SPENSIS SVIS ANNO D. MDCCLXXIIII Ou seja: Esta ponte sobre o rio Tuela, foi feita à custa do Dr. D. Gregório Francisco Montês, reitor de Armezende, no ano de 1774. A que está no lado sul é desta forma: FVIT MAGISTER D. BALTAZAR A GAMAI LO ORATE PRO EIS que diz: foi mestre da obra D. Baltasar de Gamailo. Orai por eles. Como se vê, os letreiros nenhuma relação têm com a estrada militar romana de Braga a Astorga.

ETNOGRAFIA Ver pág. 248. Á GUA , VENTO E VERGONHA — Segundo refere a lenda popular, a água, o vento e a vergonha fizeram um grande banquete e, ao despedirem-se, declinaram suas residências e serviços. Eu, disse a água, se me perder, procurai-me pelos juncais dos lameiros, que por ali hei-de andar. Pois a mim, declarou o vento, procurem-me por entre a folhagem do choupo, sempre em movimento constante, como o povo que do nome latino deriva o seu. Quanto a mim, afirmou a vergonha, se me perder, escusais de me procurar porque não me encontrais. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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EXTENSÃO TERRITORIAL DE ALGUNS ESTADOS — A Rússia parece um soldado; a Áustria uma fortaleza; a Alemanha um filósofo; a Itália um piano; a Inglaterra um mercado; a França um teatro e a Espanha um templo. — Do jornal A Voz, de 9 de Dezembro de 1945. Portugal é um ovo; a Espanha uma peneira e a França uma eira. GALO E SOL — O sol, cansado de andar por cabeços, montes, vales serranias e vendo, por outro lado, a vida folgada do galo, sempre em ranchos galinháceos, encarregou-o de lhe arranjar mulher para casar, diz a lenda popular. Pois sim, aparece lá por casa para tratarmos. Foi, mas já se tinham deitado, e na manhã seguinte, quando o procurou, já haviam marchado ao pascigo: deitam-se com sol e levantam-se antes de nascer o sol. De forma que teve de ficar solteiro. O galo bem o avisa, cantando de madrugada e ao romper da aurora, mas o sol não se avia a tempo. Algo se relaciona esta lenda com a fábula de Alectrion. Na pág. 268, referimos a lenda de um filho a quem o destino dava o signo de matar seu pai. Este abandonou-o na roda dos expostos, mas, alfim o triste fadário cumpriu-se da forma que lá indicamos, relacionando-se esta lenda com o caso do Édipo; todavia, dada a circunstância de ser morto por uma pedra, despedida sem intenção de danificar, talvez se ligue melhor com o de Perseu, filho de Danai, que segundo declarou o Oráculo, mataria seu avô. Acrísio, pai de Danai, encerrou-a numa terra, mas nem assim a livrou de ser mãe de Perseu. Entra pelo fortíssimo edifício Com a filha de Acrísio a chuva d’ouro (1124). Diz o Épico, vindo alfim a cumprir-se os fados quando Perseu, jogando a barra, como era costume nas solenidades religiosas e cívicas, deu com ela, sem querer, no velho Acrísio (1125). LOBISOMEM — Tomo IX, pág. 326, e tomo X, pág. 650. A lenda do lobisomem encontra-se em Pausânias e referem-na Santo Agostinho e Plínio, declarando que o lobisomem, passados dez anos, regressa ao estado humano (1126). M ULHERES (teimosia das) — Corre em terra bragançanas, a lenda de um caçador dizer à mulher, no regresso a casa, em dia de entrudo: pega, só con-

(1124) CAMÕES — Lusíadas, VIII-XCVI. (1125) A POLODORO DE A TENAS — Biblioteca dos Deuses, artigo «Volaterran», onde o caso se descreve minuciosamente. (1126) VITÓRIA, Baltasar de — Teatro de los dioses..., 1737, tomo I, p. 88.

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segui matar este tordo. Entrecozes para a calda da sopa e refuga-o depois, para cearmos. A esposa, vendo a ave, disse-lhe: é tordelo e não tordo. Disso, observou-lhe o marido, sei eu mais com os olhos fechados, do que tu com eles abertos. É tordo, sem dúvida nenhuma. Enganas-te, volveu-lhe ela, é tordelo e tanto teimava no caso, que o cônjuge, perdendo a paciência, tundiu deveras a impertinente. No entrudo do ano seguinte a mulher, aludindo ao caso, disse para o marido: faz hoje um ano, que injustamente me deste uma capilota, por causa do tordelo. A culpa foi tua, por estares a teimar naquilo que não conhecias. Conhecia tal, melhor que tu, regougou-lhe abespinhada; tordelo sem dúvida nenhuma é que ele era. E, de insistência em insistência, voltou a aplicar-lhe o argumento baculino do tira-teimas. Isto não obstante, a mulher todos os anos, reavivava pelo entrudo a memória do funesto aniversário, provocando assim discussões terminadas sempre por nova tareia. Corre ainda mais a seguinte: pega lá a candeia, disse um homem à mulher; pendura-a pelo gancho no cadeado para vermos melhor. É garavito e não gancho, tornou-lhe a consorte, e tanto insistiu na pertinácia, contradizendo-o, que ele, prendendo-a com uma corda, a foi enterrando na água do poço, para ver se mudava de conceito; porém ela mais e mais clamava garavito, garavito, garavito e, quando já debaixo da água não podia falar, levantando as mãos, encurvando e distendendo o dedo indicador vertiginosamente repetia o gesto do garavito, garavito (1127). S INOS DE B RAGANÇA (Vozes dos) — Tomo IX, pág. 343. Alberto Vieira Braga, publicou em 1939 as Vozes dos Sinos na interpretação popular (separata da Revista Lusitana), onde se vê como em várias terras se interpreta pelo teor de Bragança a voz dos sinos. O mesmo fez o Padre Henrique da Silva Louro, na sua Monografia de Cardigos, 1939, pág. 107, porém de todas estas versões a mais completa é a de Bragança. V INHO (Mandamentos do) — Tomo X, pág. 660 e seguintes. No Roteiro do Vinho Português, 1944, publicou António Batalha Reis, na pág. 25, uma variante dos Mandamentos do Vinho que apresentamos no tomo X, pág. 660, que é desta forma: O primeiro bebe-se inteiro O segundo até ao fundo.

(1127) Na Estremadura, Boletim da Junta de Província, 1944, p. 117, publicou o etnólogo M. Cardoso Marta, dois contos sobre este tema da teimosia das mulheres, e lá se faz referência a um estudo sobre o mesmo assunto publicado na Brasília, por Cláudio Basto.

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FACHO, FACHOS

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FERNANDES

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FERREIRA

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O O O O O O

terceiro como o primeiro. quarto como o segundo. quinto bebe-se todo. sexto do mesmo modo. sétimo bebe-se cheio. oitavo duas vezes e meio.

Não apresenta mais, de maneira que faltam o nono e o décimo. Comparando vê-se que as versões trasmontanas excedem com graça as das outras províncias.

F FACHO , FACHOS — Tomo IX, pág. 354. O Padre Agostinho de Azevedo (1128) transcreve um documento régio datado de 1484, que se refere já aos fachos, para fazer sinais bálicos com luzes ou lume. No tomo III, pág. 49, destas Memórias, transcrevemos o documento da troca de el-rei D. Sancho I, feita em 1187, com os monges de Castro de Avelãs, cedendo-lhe o território de Bragança e recebendo deles as aldeias e termos de Santulhão, São Mamede, Argozelo e Pinelo, tudo hoje no concelho de Vimioso. Neste documento menciona-se no termo de Pinelo, um sítio chamado Pena Lumieira. Evidentemente esta Pena Lumieira, corresponde a Facho e, sendo assim, é esta a menção mais antiga que conhecemos no distrito de Bragança referente a estes arcaicos telégrafos. FERNANDES (Henrique João de Baraona) — Doutor em medicina, pág. 313. Publicou mais: II Curricutum vitæ: títulos e trabalhos científicos de... 1930-1944. Lisboa, 1944, 8.° de 23 págs. (1129). F ERREIRA (Manuel Gonçalves Cavaleiro de) — Professor catedrático da Universidade de Lisboa, em 1944; actual ministro da Justiça. Nasceu em Bragança a 19 de Dezembro de 1912. Além da tese para doutoramento em ciências histórico-jurídicas, tem publicado: A Reciprocidade na técnica do direito penal. Colaboração no Boletim da Faculdade de Direito; O Direito; A Justiça Portuguesa.

(1128) AZEVEDO, Agostinho de — A terra da Maia, subsídios para a sua monografia, 1939, volume I, p. 106. (1129) Ver Quem é Alguém..., 1947, p. 98.

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FERREIRA

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FLORESTAL

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Bolseiro do Instituto para a Alta Cultura, no Instituto Jurídico da Universidade de Münehen, na Alemanha (1130). FLORESTAL (Regime) — Tomo IX, pág. 425 [20]. Arborizem-se as serras, mas as serras e não os baldios necessários, para logradouro comum, as propriedades particulares junto às povoações, convertendo-as assim em armadilhas viveiristas da caça à multa. Estude-se a flora espontânea actual das serras e também a antiga, documentada muitas vezes por indícios, escapados ao vandalismo iconoclasta da nossa incúria administrativa, e não se lhe vá impor os bonitinhos do arvoredo exótico, inadaptáveis à região. Olhe-se ao labor florestal estrangeiro, mas não esqueçamos que as nossas condições climáticas e meteorológicas, exigem flora diferente da estadeada nas matas de outros países e até nos parques dos nossos viveiristas. Boas são as florestas para barateamento do papel e outros mesteres, mas cada um vive segundo os factores mesológicos locais e as serras que com sua flora espontânea sustentam cabras (1131), ovinos, bovinos e outro armentio, não concorrem menos para o bem-estar social, barateando carne, pelicaria, calçado, vestuário e combustíveis. De resto, cada um tem de se governar com o seu, de contrário subalterniza-se e morre ou arrasta vida moribunda. Evite-se o arrastamento a reboque do figurino estrangeiro, que nos desfalca em carnes, lãs, linhos e mel, atacando até o vinho com suas beberagens contrafeitas, aceitando-nos com o isco do papel e indústrias, levando assim Portugal, vestido de algozes, falho de gorduras, alimentos azotados, gelado de frio, ao definhamento orgânico e consequente tuberculose. Não se esqueça que o papel, é, e sempre foi matéria de esfolar a humanidade e que se ele não existisse, nem coisa que fizesse as suas vezes, o homem não teria perdido tão cedo a Idade de Ouro, de que falam todos os cosmogónios antigos, precipitando-nos assim no abismo da mentira, que é este tão cacarejado progresso, pai das belezas da Grande Guerra e da ainda mais monstruosa que estamos sofrendo. Olhe-se, para a balbúrdia dos operários florestais dos dois sexos, misturados lá no campo dias e noites, sem superiores que lhe imponham resguardo moral. Olhe-se para os inconvenientes de manter na santa pândega, em trabalho ligeiro que, a bem dizer, comparado com o agrícola não é trabalho, a uma mocidade escapada ao serviço da lavoura.

(1130) Ibidem, p. 310. (1131) É moda embirrar com os caprinos, mas eles foram a base alimentícia carnal dos nossos avós lusitanos e ainda hoje os rurais trasmontanos consomem muita, e consideram-na como alimento muito nutritivo e a cabra é a vaca do pobre.

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FONSECA

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Lembrem-se de que as florestas não são bonitinhos ajardinados, apilarados, das povoações. A sua beleza é máscula e realiza-se nos maninhos incapazes de outra cultura mais remunerada; não olha a alinhamentos geométricos, pois na assimetria ostenta a natureza o encanto dos grandes panoramas florestais e a regra é sempre a tacanhês da mediocridade. Proteja-se o regime florestal, mas criteriosamente, sem prejuízo do tradicional usado na região, ou seja do pecuário-cerealífero aqui no Alto Trás-os-Montes. Não vamos, como os idiotas de que fala Horácio, a emendar um erro, caindo no vicio oposto (stulti dum vicia vitand in contraria currunt); não vamos repetir o círculo vicioso de pedir aos adubos químicos o défice frumentário resultante da falta de estrumes pecuários e vegetais, malbaratados pelo arroteamento à toa, das matas antigas e desamortização dos baldios, preconizada pelos economistas teóricos, desconhecedores das realidades locais e pelo fisco avaro, que agora se vê obrigado a dar ao desemprego e ao estrangeiro, por adubos, o excesso da produção que julgava lucrar com o seu emprego. Nem me digam que do estrangeiro podem vir mais baratos os géneros pecuário-cerealíferos que aqui se produzem, pois, enquanto vêm e não vêm, morre-se à fome, e as florestas, pela feição que levam, nunca hão-de compensar a sua falta. E no dia em que faltarem os transportes? E no dia em que a guerra total estanque os fornecimentos? Quem não atende ao seu, valorizando-o o mais possível, morre ou arrasta vida moribunda e deixa de ser gente. Sei bem que da floresta, como base, é que se pode partir para uma organização social mais perfeita, que não das ideologias preconizadas por quantos têm tratado do assunto, sem excluir os actuais reconstituidores do mundo «após guerra», donde apenas brotará nova panaceia que lhe permita continuar na exploração da crédula humanidade, mas não é pelo caminho que leva o regime florestal que lá chegaremos; a via, embora parta da floresta, é outra. FONSECA (Telmo Rui Vaz da) — Tesoureiro da Fazenda Pública, nasceu no Mogadouro, a 27 de Fevereiro de 1914, filho de Alberto da Fonseca, natural de Alfândega da Fé, e de Francisca do Rosário Vaz, do Mogadouro. Publicou: Adoração, 1935, Tipografia Rego, Mirandela, 8 págs. Poesia. Cinzas, 1935, Régua, 19x12, com 112 págs. Pétalas sem cor, 1941, Régua, 19x12, com 112 págs. Fogo de Vistas, 1925. É uma revista de costumes trasmontanos, que não chegou a ser impressa. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


FONTOURA

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GOMES

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F ONTOURA (Álvaro Eugénio Neves da), oficial do exército, engenheiro, governador de Timor, professor da Escola Superior Colonial. Nasceu em Bragança a 24 de Julho de 1891. Publicou: O Trabalho dos indígenas de Timor. Protecção aos indígenas. Missões religiosas Nacionais e Estrangeiras (1132).

G G OMES (António Carlos). «O grande artista de que o Brasil se orgulha, tinha nas veias sangue português e índio. Daí o ser, também, uma glória de Portugal. Alguns biógrafos, mais lisongeiros do que exactos, pretenderam entroncar a sua estirpe num bandeirante espanhol, D. António Gomez, que tendo-se ligado a uma índia guarani, deixara numerosa descendência. Um escrupuloso biógrafo do maestro, o Dr. Odécio Camargo, assegura ter sido seu bisavô o sargento-mór Manuel José Gomes, português, do termo de Bragança. Pai do artista foi outro, Manuel José Gomes, conhecido por “Maneco Músico”, apodo que define a profissão do progenitor do maestro. Foi em Campinas, no Estado de S. Paulo que, em 1842, nasceu Carlos Gomes, ou melhor uma criança a quem os familiares chamariam por muito tempo “Nhôco Tónico”, até a fama tomar conta do nome glorioso. Essa criança começaria a trabalhar como aprendiz de alfaiate e a tocar ferrinhos na banda de que o pai era regente. Aos 15 anos, porém, já compunha valsas e modinhas e aos 18 abalançou-se a escrever uma “Missa”, para honrar o pai. Sem outros ensinamentos além dos do seu progenitor, foi tomando vulto a sua vocação. Acabou por substitiur “Maneco Músico” na regência da filarmónica local e dar mesmo lições de piano e canto. Campinas, porém, pareceu-lhe estreito âmbito para o seu talento e, fugindo ao pai, foi para o Rio de Janeiro. Recomendações de amigos levaram-no até junto do imperador D. Pedro II, que o acolheu bondosamente, o fez matricular no Conservatório de Música e sempre o protegeu, enquanto governou o Brasil. Admitido na cadeira de composição, regida por Gianini, logo compôs uma “cantata” dedicada à Imperatriz, que foi executada numa festa de fim de curso do Conservatório. Carlos Gomes estava doente, com a febre amarela, e muito se receava pela sua vida. No dia da festa, porém, apresentou-se no Conservatório e suplicou ao Professor Gianini que lhe deixasse reger a sua “cantata”. A

(1132) Quem é Alguém..., 1947, p. 486.

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GOMES

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despeito das objecções que o seu estado de saúde ditava, conseguiu o seu intento e recebeu uma verdadeira apoteose. Desmaiou, porém, ao terminar os últimos compassos da composição. Compôs, a seguir, a “Noite do Castelo”, com “libreto” de António Feliciano de Castilho, que foi executada em 4 de Setembro de 1860 e representou um triunfo para o artista. Outro havia de alcançar, também, com a ópera “Joana de Flandres”, letra de Salvador Mendonça, representada em 15 de Setembro de 1863. Pouco depois, em Outubro desse ano, foi-lhe concedida uma Bolsa para ir estudar para Milão. A sua partida do Rio de Janeiro foi uma verdadeira apoteose. Esteve em Lisboa, onde foi recebido pelo rei D. Fernando, a quem D. Pedro II o apresentara numa carta autógrafa; foi para Paris, onde frequentou as duas Operas e se impregnou daquele ambiente de arte; e, finalmente, matriculou-se no Conservatório de Milão, em 1864, donde saiu, dois anos depois, com o diploma de maestro. Conservou-se Carlos Gomes em Itália, onde compôs várias obras que começaram a tornar o seu nome conhecido no estrangeiro. Uma, porém, lhe daria renome imorredoiro. Encontrara, por acaso, nas mãos dum vendedor ambulante, um exemplar do livro de José de Alencar, “Guarani”, apregoada como a história maravilhosa dos “selvagens do Brasil”. Esse pregão feriu os seus brios patrióticos e estimulou o seu génio. Decidiu, então, pôr em música a obra do seu compatriota e demonstrar ao Mundo quem eram os “selvagens”. Compôs a ópera, que tira o seu título da obra de José de Alencar, a qual foi executada no “Scala” de Milão, a 19 de Março de 1870. Breve foi encorporada no reportório de algumas companhias líricas e escutada em quase todas as capitais europeias. No Rio de Janeiro, foi-o em Dezembro do mesmo ano. O crítico e historiador da música, Renato de Almeida, disse dessa ópera: “Se Carlos Gomes não fez, em sentido exacto, música brasileira, conseguiu, irrecusàvelmente, despertar, com o ‘Guarani’, uma emoção brasileira. Este foi o seu inegável sortilégio”. Carlos Gomes casara em Itália e lá se manteve muitos anos, rodeado do maior prestigio. Compôs outras óperas: “Fôsca”, “Salvador Rosa”, “Maria Tudor”, “Lo Shiavo” e “Condor”, além de óperas-cómicas, cantatas e numerosas peças de música de câmara. Moveram-se contra ele cabalas e despeitos. O seu arcaboiço de lutador começou a fraquejar e resolveu regressar ao Brasil em 1880. For recebido, como um triunfador, na Baía e no Rio de Janeiro. Voltou à Itália. Ao passar em Lisboa, foi alvo de extraordinárias manifestações de apreço por parte do rei D. Luís e do público de S. Carlos. Parecia ter começado a declinar a estrela do grande compositor. Pretendiam os seus amigos que fosse nomeado Director do Conservatório do Rio de Janeiro; mas não o conseguiram. Proclamara-se a República do Brasil e o protegido do imperador, a despeito do seu génio musical, não era “personna grata”. Só conseguiu, já no fim da vida, doente e desgostoso, amizade de MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


GOMES

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GONÇALO

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GONÇALVES

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Lauro Sodré, mais do que a justiça que lhe assistia pelos méritos próprios, o fizesse nomear Director do Conservatório de Belém do Pará. Estava em Itália ao ser feita a nomeação e veio embarcar a Lisboa. Ainda assistiu a uma apoteótica representação do seu “Guarani”, no Teatro de S. Carlos, colocando-lhe ao peito o monarca português as insígnias de Santiago da Espada. Seria a sua última noite triunfal. A 14 de Março de 1895, chegou a Belém do Pará. A 16 de Setembro do ano seguinte, finava-se, torturado pela doença, mas também pelas apreensões sobre a sorte dos filhos, o maior compositor que ainda teve o Brasil. O seu país prestou-lhe na morte as mais significativas homenagens. Bem as merecera; mas melhor seria ter desanuviado, os últimos anos da vida daquele de quem Verdi dissera: “Questo giovanni comincta lá deve finisco io!”, quando da estreia do “Guarani”» (1133). GONÇALO (Horácio de Assis) — Ver pág. 321. Publicou mais: Dar e amar — A moderna organização da assistência social portuguesa. Tema de uma palestra realizada na Sociedade de Geografia de Lisboa, em 21 de Janeiro de 1946. Lisboa, 1946, 8.° de 46 págs. e uma de registo. GONÇALVES (Maximino Augusto) — Nasceu em Rabal, concelho de Bragança, a 28 de Novembro de 1918, filho legítimo de João Francisco Gonçalves e de Santana Afonso, lavradores. Fez os estudos preparatórios nos Colégios das Missões Ultramarinas (Tomar, Sernache do Bonjardim e Cucujães). Em 1931, foi para o Rio de Janeiro, onde leccionou português e latim, matriculando-se, em 1934, na Faculdade de Direito, que concluiu em 1939, depois de haver frequentado e leccionado no Colégio de D. Pedro II. Tem publicado: Topologia dos variantes pronominais, para uso dos candidatos a concursos. Rio, 1936, 8.° de 116 págs. Pontos de gramática histórica, de acordo com o programa da quarta série Ginasial. Rio, 1932, 8.° de 160 págs. Selecta Literária, de acordo com o programa do curso Ginasial e Comercial, contendo notas bibliográficas dos autores escolhidos e notas explicativas do texto. Rio, 1934, 8.° de 330 págs. Tem 2.a edição. Fábulas de Fedro, para uso dos alunos do curso secundário e das Faculdades de Filosofia. Rio, 1935, 8.° de 160 págs. Tem 3.a edição. Os autores do programa de latim. (Entrópio e Fedro). Rio, 1937. 8.° de 176 págs.

(1133) O Primeiro de Janeiro, de 16 de Setembro de 1946.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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GONÇALVES

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GOVERNADORES CIVIS DE BRAGANÇA

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Os autores do programa de latim. (César e Cícero). Rio, 1938, 8.° de 176 págs. Questões de linguagem, trechos a corrigir e corrigidos. Rio, 1939, 8.° de 448 págs. Tem 4.a edição. Tratado de análise léxica e sintáctica. Rio, 1939, 8.° de 240 págs. Selecta Latina. Rio, 1943, 8.° de 256 págs. e várias gravuras. Estudos da língua vernácula. Rio, 1945, 8.° de 128 págs. Noções de Geografia e História do Brasil. Rio, 1947, com muitas gravuras. Noções de gramática portuguesa. Rio, 1947. Noções de Aritmética. Rio, 1947. Estes dois últimos com cerca de 195 págs., cada um. Tem colaborado em diversos jornais e revistas brasileiras e portuguesas, no Globo; Correio da Manhã; Diário Português; Voz de Portugal; Nossa Revista; Vida Doméstica; Académico; Malho; Nação; Vanguarda e Missionário Católico. O dr. Maximino Augusto Gonçalves, é membro de várias associações culturais como: Sociedade de Estudos Filológicos e Associação dos Artistas Brasileiros (secção de letras). G OVERNADORES C IVIS

DE

B RAGANÇA

A NTÓNIO A VELINO J OICE , tomo VII, pág. 220; tomo X, pág. 692. Músico, escritor, diplomado pelo Curso Superior de Letras da Universidade de Coimbra, actual secretário-geral do Governo Civil de Lisboa, Governador Civil do Distrito de Bragança, por decreto de 24 de Maio de 1915 a 13 de Outubro de 1917. Nasceu em Lisboa a 1 de Dezembro de 1886 (1134). RAUL DE MESQUITA LIMA, pág. 321; tomo VII, pág. 219; tomo X, pág. 686. Engenheiro, nasceu no Pombal, concelho de Carrazeda de Ansiães, a 11 de Março de 1904. Serviu como adjunto da 15.a Secção de Construção da Junta Autónoma de Estradas em Bragança, até que foi para Lisboa no exercício do mesmo cargo, regressando a Bragança como director das Obras Públicas, em 21 de Março de 1939, donde passou novamente para Lisboa, em 16 de Junho de 1943, como director na Direcção de Estradas nesse distrito. A 25 de Outubro de 1944 foi nomeado Governador Civil do Distrito de Bragança, tomando posse no dia 30 do mesmo mês e entrando em Bragança no dia 8, deixando o cargo, a seu pedido, em 1946 (1135).

(1134) Quem é Alguém..., 1947, p. 387. (1135) Ibidem, p. 464.

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GUERRAS DE 1640

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LACERDA

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LEAL

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G UERRAS DE 1640 — Tomo I, pág. 81. Duas Igrejas e Malhadas foram incendiadas e saqueadas pelos espanhóis, a 25 de Setembro de 1641. Caçarelhos teria a mesma sorte, mas o documento citado nada diz a tal respeito (1136). A 12 de Agosto de 1641 foi Freixo de Espada à Cinta, atacada pelos castelhanos, que nada conseguiram, devido à resistência de seus moradores (1137). A 6 de Maio do mesmo ano ameaçaram também Ansiães, mas não chegaram a atacar, devido á prevenção de seus moradores (1138).

L L ACERDA (Manuel Bernardo Pinheiro de), advogado, tomo I, págs. 169 e 212. Faleceu em Bragança (Santa Maria), a 25 de Junho em 1858. Em 1856 estava em Bragança como advogado e tinha como companheiros os bacharéis: Albino Augusto Carda de Lima (ainda aparentado com Jacob Rodrigues Pereira), inventor do alfabeto dos surdos-mudos; António José Dias; Francisco Cândido de Mendonça e Melo; Marcelino Augusto César Dias e Miguel Carlos de Novais e Sá. Lacerda, foi corregedor interino da Comarca de Bragança, por decreto de 6 de Março de 1834, e a 16 de Maio desse ano, foi transferido, também interinamente, para a Comarca da Feira. L EAL (José António Ferreira) — Doutor, natural de Sacoias, tomo VII, pág. 261, destas Memórias. Ultimamente encontrei mais os seguintes elementos biográficos: nasceu em Sacoias, concelho de Bragança, a 18 de Novembro de 1771 e era filho legítimo de Manuel Leal e de Maria Ferreira, naturais de Sacoias, neto paterno de Manuel Leal, natural de Sacoias, e de Francisca Gonçalves, natural de Varge, e materno de André Ferreira, natural de Babe, e de Cecília Pires, natural de Sacoias. Por provisão régia de 27 de Outubro de 1823, foi provido na cadeira de Retórica e Poética da cidade de Bragança, com o ordenado de 280$000 réis, vaga pela jubilação do professor Manuel Ferreira de Sá Sarmento (1139).

(1136) SÃO PAIO, Conde de — Relação dos Varões da Casa de São Paio, 1939, p. 29. (1137) Ibidem. (1138) Idem. (1139) Provedoria de Miranda, fólio 125 v. O termo de abertura deste códice, existente no arquivo distrital, adjunto ao Museu de Bragança, é datado desta cidade, aos 6 de Maio de 1818.

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LEAL

TOMO XI

Por outra provisão régia de 10 de Dezembro do mesmo ano, foi transferido da cadeira de Retórica da cidade de Bragança para a de Filosofia e Geometria da mesma cidade, a qual «fôra ùltimamente ocupada por Agostinho José da Fonseca», em razão de José António Ferreira Leal ter regido a cadeira de Filosofia de Castelo Branco e Lamego. O professor desta disciplina vencia de ordenado 320$000 réis (1140). A 30 de Agosto de 1825, foi provido na cadeira de Filosofia de Bragança, vaga por óbito de José António Ferreira Leal, o professor da mesma cadeira no Porto, Agostinho José da Fonseca (1141). Diz a tradição popular sacoiense que quando José António Ferreira Leal, já adoentado, teve notícia da sua melhoria económica, com a transferência para a cadeira de Filosofia, comentara irónico: sim, sim, asno morto, cevada ao rabo. No tomo VII, pág. 262, destas Memórias, falámos da janela da casa de habitação de José António Ferreira Leal, em Sacoias, que tinha gravados nos fitos, peitoril e verga, figuras geométricas, ângulos, triângulos, rectângulos, circunferência com diâmetro, arco, corda, tangente, etc., que muitas vezes vi, quando frequentava a escola primária de Sacoias e eram como que a pedra de armas de um geómetra. Há anos, um estúpido pedreiro, querendo alindar as pedras daquela janela histórica, documento vivo da memória de um homem que nobilitou a terra, picou os sinais geométricos! Mas ainda se conhecem alguns. Até onde chega a ignorância humana e a monomania dos bonitinhos alinhados, simétricos, como se as grandes belezas panorâmicas não fossem assimétricas. José António Ferreira Leal, ainda hoje tem vários descendentes directos em Sacoias, como são: José Leal, viúvo de Ana Maria Pinelo, com descendência; Antónia Maria da Natividade Leal, sua irmã, casada em Bragança, com Artur Mirandela, empregado da agência do Banco de Portugal, com geração. Acaso ou intuição do sangue? Etelvina da Graça, bisneta colateral do geómetra José António Ferreira Leal, ainda hoje (1944), memorado na tradição popular, apesar de falecido há 119 anos, renovou a tendência ancestral, casando com Miguel Augusto Rodrigues, natural de Sacoias, diplomado pelo Curso Superior do Comércio de Lisboa, onde passou em ciências matemáticas com óptima reputação, sobrinho do coronel José Manuel Rodrigues, natural de Varge, distinto como professor e escritor matemático (1142).

(1140) Provedoria de Miranda, fólio 126 v. (1141) Ibidem, fólio 171 v. (1142) Ver tomo VII, p. 455, destas Memórias.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


LEAL

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LEITÃO BANDEIRA

659 TOMO XI

No mesmo encalce foi-lhe a irmã Cremilde, casando em Lisboa com o engenheiro Jorge Coutinho Júnior, e Maria da Conceição Leal, tia de ambos, casada em Bragança com Francisco José Ferreira de Castro, empregado das obras públicas, que muito com coisas geométricas lidou, pai do saudoso António Luís de Castro Moreira, doutor em direito pela Universidade de Coimbra, falecido em Bragança a 8 de Junho de 1922, com 27 anos de idade. Francisco Leal e Águeda Vaz, trisavós de José António Ferreira Leal, são sextos avós maternos do autor destas linhas. Para mostrar como o povo nas suas tradições e lendas mete elementos vindos de remota antiguidade, que religiosamente vai conservando através dos séculos, aditamos o seguinte. No tomo VII, pág. 262, mencionamos a chuva provocada por Ferreira Leal, que, para isso, segundo diz a tradição em Sacoias, foi para a beira do rio a ler um livro e a bater lentamente com uma varinha na água. Pausânias citado por Frei Baltasar de Vitória (1143), diz que na Arcádia havia uma fonte, que agitando-lhe branda e mansamente a água com um ramo de azinheira, logo se formava uma nuvem e chovia. A lenda popular, também diz que o químico Sobral, natural de Felgueiras, também fazia chover (1144). LEITÃO BANDEIRA, tomo X, pág. 716. M ANUEL LEITÃO BANDEIRA, tomo X, pág. 716. Foi marechal no Brasil, tomou parte nas operações contra os Modtocos, da denominada Confederação do Equador (1145). JOÃO BAPTISTA, tomo X, pág. 716. Irmão do anterior, foi capitão de Infantaria 24 e casou com D. Maria Antónia Cândida, natural de Sarzeda, concelho de Bragança. M ANUEL C ARLOS L EITÃO B ANDEIRA , tomo X, pág. 717, casou segunda vez e teve deste matrimónio Félix António Leitão Bandeira e Filipe Leitão Bandeira. João Carlos Leitão Bandeira e seus irmãos António Carlos Leitão Bandeira e Manuel Carlos Leitão Bandeira, mencionados na referida pág. 717, tiveram também uma irmã chamada D. Maria Leopoldina Leitão Bandeira, que casou

(1143) VITÓRIA, Baltasar de — Teatro de los Dioses de la gentilidad, primeira parte, 1732, p. 82. (1144) Ver tomo VII, p. 538, destas Memórias. (1145) GIGNIER, Jaime — Dicionário Prático Ilustrado.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


660

LEITÃO BANDEIRA

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LOBO

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LOPO

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LOUCURAS

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MACHADO

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MARIA DA FONTE

TOMO XI

com José Eugénio Machado, natural de Vilar de Ossos, concelho de Vinhais, de quem teve Eugénio Maria Leitão Bandeira Machado. LOBO (Francisco Miranda da Costa), lente da Universidade de Coimbra, tomo VII, págs. 27 e 711. Faleceu em Coimbra no dia 29 de Abril de 1945. LOPO (José Maria Pereira) — Cónego da Sé de Bragança, tomo VI, pág. 648. Nasceu nos Estevais, concelho de Mogadouro, a 1 de Março de 1824 e faleceu em Bragança, a 2 de Abril de 1893. LOUCURAS «O DIVINO» — Tomo X, pág. 824. Num templo de Atenas havia uma estátua de Vénus, tão perfeita, que um mancebo se namorou dela e diante dela passou o tempo, dirigindo mil requebros amorosos à deusa, como de amante à sua namorada (1146).

M MACHADO (Augusto José) — Major de Infantaria, governador civil do distrito de Bragança, nasceu no Vimioso, a 21 de Julho de 1897, filho de Luciano Augusto Machado e de D. Maria Antónia Martins. Tomou parte na Grande Guerra (1914-1918), embarcando em 1917 com o Corpo Expedicionário Português para França. Assistiu à batalha de 9 de Abril, onde foi feito prisioneiro de guerra e solto em 16 de Janeiro seguinte. Desde 1927 a 1929 fez serviço na colónia de Moçambique e desde 1945 a Julho de 1946, na ilha da Madeira, como oficial das Forças Expedicionárias a este arquipélago. Pela portaria de 15 de Abril de 1946, foi nomeado governador civil do distrito da Bragança. tomando posse no dia 23 desse mês (1147). MARIA DA F ONTE — Tomo I, pág. 209. A julgar pelo que diz o Diário do Governo de 8 de Fevereiro de 1848, a Maria da Fonte nunca existiu; é apenas uma criação lendária em que englobaram as aspirações populares.

(1146) VITÓRIA, Baltasar de — Teatro de los Dioses..., 1656, tomo II, p. 360. (1147) Tomo VII, p. 672 e 675, destas Memórias e o nosso estudo Vimioso — notas monográficas, onde publicamos na íntegra os dezassete louvores dados ao major Machado, pelos seus superiores militares, merecidos pela sua competência militar, presença de espírito, energia e coragem com que se houve na campanha de França e nos serviços de Moçambique, Madeira e instrução militar aos soldados sujeitos à sua direcção.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


MENDONÇA

661 TOMO XI

M ENDONÇA (Francisco Furtado de), médico de Bragança. Tomo VII, pág. 305. Nasceu em Bragança, a 22 de Outubro de 1707. Era filho de Cristóvão da Paz Furtado e de Maria de Castro.

MIRANDA DO DOURO O Menino Jesus da Cartolinha, venerado na Sé de Miranda do Douro [21]. A imagem em corpo inteiro do Menino Jesus da Cartolinha, venerada na Sé de Miranda do Douro, é uma vulgar escultura sem valor artístico, de menos de meio metro de altura. O seu culto goza da popularidade máxima na região e o rapazio muitas vezes se engalfinha, esmurra e soquei-a, nas disputas de conduzir nas procissões o seu andor que, afinal, é sempre o mais apreciado nas festas. A popularidade vem-lhe do contraste entre a seriedade litúrgica das procissões e a hilaridade despertada pela indumentária extravagante do Menino Jesus da Cartolinha, que parece um peralta, esticadinho pelo último figurino da moda, em marcha para exibições mundanas. O arcaz que serve de guarda-roupa às diversas andainas de suas vestimentas, e se guarda na Sé, constitui valiosa documentação para a história do traje em Portugal, pelo menos desde o século XVI por diante. Lá vimos em 1910, quando excursionavamos por terras mirandesas: chapéus bicórnios, tricórnios, quadricórnios (se assim pudermos chamar a barretes de quatro pontas, e monocórnios (idem, idem, aos de uma ponta), com cobre-nuca em leque e pala à frente, levantada ao alto em linha vertical; chapéus à Filipe II, à Mazantine, à Marialva, chapeleirões burgueses, chapéus de palha, cocos, litros (cartola de copa alta e secção horizontal). Lá vimos casacos em forma de pelote, gibão com mangas perdidas, tufadas, encanudadas, golpeadas, casacos, fraques, nizas, rabonas, quinzenas assestoadas. Lá vimos a calça vulgar do nosso tempo, larga, estreita, afunilada; calção de alçapão, tufado, encanudado, golpeado; balonas, meias, sapatos de fivela, barretes, gorros bordados, emplumadas e mil outras bugigangas correspondentes a enorme variedade de modas e figurinos burlescos de casquilho em passeatas galantes, sem lhe faltar o espadim e o capote adequado, provocantes da gargalhada esfuziante a esturgir nos lábios dos assistentes. Sendo incontestável que fruto proibido é fruto apetecido, e que gente junta não se salva, porque corpos e espíritos operam como pilhas eléctricas, originando dichotes burlescos laivados de ironia cáustica, veículo da gargalhada irreverente, imagine-se a explosão de hilaridade reprimidas pela gravidade hierática da procissão, quando os festeiros dão de frente com o seu santico, que, jorrando alegrias das faces rubicundas e olhares faiscantes, avança MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


662

MIRANDA DO DOURO

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MONCORVO

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MANUEL DE MAGALHÃES DA CUNHA

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MORAIS

TOMO XI

galante, de espadim a tiracolo, bicórneo emplumado, casaco rodado, tipo campaniforme com mangas de bota, guarnecido de abotoadura de alto a baixo, calção tufado, meias e sapatos de fivela, ou então de palhinhas à marialva, quinzena assestuada, calça de boca de sino, sapato pontiagudo, a lembrar o mais requintado janota, de envolta com a cançoneta aplicada à ama-seca ou ao primo do mesmo Menino Jesus: Santo António por ver as moças Fez uma fonte de prata; As moças não vão a ela E o Santo todo se mata. Neste volume e nos antecedentes, nomeadamente no IX, págs. 174, 289, 311 e seguintes, ficam esparsas várias notícias referentes a modalidades culturais pagãs, infiltradas na liturgia cristã e mesmo algumas cristianizadas pela Igreja, quando as não pode extirpar do tradicionalismo popular. Em harmonia com este modo de ver, é possível que nestes cultos do Menino Jesus da Cartolinha haja algo, dos festejos dionisíacos representados pelos Silenos, filhos, netos, tocantes à família do velho Sileno.

MONCORVO MANUEL DE MAGALHÃES DA C UNHA, licenciado, natural de Moncorvo, filho de Luís de Lobão de Siqueira e de Luísa de Almeida Botelho; neto paterno de Domingos de Lobão de Siqueira, natural de Moncorvo, e de Beatriz de Almeida, natural da comarca de Lamego; neto materno de Luís Botelho de Siqueira e de Ana Rodrigues de Magalhães, naturais de Mondim da Beira, foi nomeado cónego da Sé de Braga em 1642 (1148). MORAIS (João Pinto de) — Escritor, abade de Ansiães, hoje Carrazeda de Ansiães, tomo VII, pág. 343. Em 1705, era reitor de Marzagão, concelho de Carrazeda de Ansiães, e no termo de abertura do livro dos baptizados dessa freguesia, correspondente ao dito ano de 1705, declara que é «natural de Vale Pereiro, desta comarca de Moncorvo». Deve corresponder hoje a Vale Pereiro, concelho de Alfândega da Fé. M ORAIS C ARMONA (José Hipólito de) — Juiz de direito, proprietário da Quinta da Rica Fé, junto a Bragança, tomo VI, pág. 125. Faleceu em

(1148) TÁVORA , Artur Mendes de Almeida Pacheco de Andrade e — Dignatários da Sé de Braga — Primaz dos séculos XVII e XVIII, 1938, p. 31.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


MORAIS

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MOREIRA

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MÓS

663 TOMO XI

Coimbra, onde residia havia dois anos, por falta de saúde e para acompanhar seu filho, aluno da Faculdade de Direito na Universidade, a 13 de Abril de 1945. Além das ditas filhas mencionadas na citada pág. 128, teve mais de sua esposa, D. Maria da Conceição Barata, natural de Celorico da Beira, da família Barata Freire, também dita Barata de Lima, muito em destaque nas lutas miguelistas, como refere Pinheiro Chagas, a A NTÓNIO J OÃO DE F IGUEIREDO CARMONA, nascido em Bragança a 1 de Novembro de 1924. MORAIS (Tancredo Octávio Faria de) — Capitão de mar e guerra, nasceu em Bragança a 24 de Setembro de 1882. Alguns dizem que nasceu em Vila Flor. Filho de António Maria de Morais Castro Cardoso, capitão-mor de Vila Flor (1149), do ramo do morgado do Nabo, e de D. Maria Emília de Azevedo Faria. Publicou: História da Marinha Portuguesa. 1940, 8.° de XXXI — 234, mais 6 do índice e registo, inumeradas, págs., com muitas estampas. A China e Portugal. 1943, 8.° de 69 págs. (Separata dos Anais de Clube Militar Naval). A Dinastia da Borgonha e os Ingleses. 1940, 8.° de 20 págs. (Separata dos Anais do Clube Militar Naval). Tem colaborado em diversos jornais (1150). MOREIRA (Carlos Alberto Lopes) — Doutor, presidente da Câmara Municipal de Chaves, professor liceal, reitor do Liceu Fernão de Magalhães, director da Instituição Pública da Colónia de Moçambique, deputado, governador civil de Viseu, director do Diário Nacional, nasceu em Mirandela, a 6 de Dezembro de 1898. Filho de Francisco António Lopes Moreira e de D. Arminda da Luz Teixeira. Publicou: Manual de Direito Administrativo, 1924. Compêndio de Organização Política e Administrativa da Nação. O Governo e função legislativa — A fiscalização da acção governativa. Casa portuguesa (1151). M ÓS (Francisco Inácio Teixeira), médico, tomo VII, pág. 353. Já que a ocasião se me depara, aproveito a oportunidade para significar o meu reconhecimento a todas as pessoas que me visitaram e se interessaram pelo meu restabelecimento durante a larga enfermidade que padeci desde Abril a Setembro corrente.

(1149) Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, tomo VI, p. 780. (1150) Quem é Alguém..., 1947, p. 473. (1151) Ibidem, p. 474.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


664

MÓS

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MOURINHO

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NAVARRO

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NEGREIROS

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OLIVEIRA

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ORNATOS

TOMO XI

Quanto ao dr. Francisco Mós, à sua solicitude cuidadosa e inteligente, direi apenas que eu estava na triste situação daquele infeliz memorado nos Portugaliæ Monumenta Historica, a quem um credor inexorável ia arrastando pelo gasganete até o sufocar. Da mesma forma me levava a morte quando o dr. Mós me agarrou gritando-lhe: «Pára aí, que desta vez ainda não vai!». E não fui. Graças à sua incontestável competência médica. MOURINHO (António Maria) — Presbítero. Ver pág. 428. Publicou: Santa Maria e a Nossa Terra — Para a História do culto de Nossa Senhora em Portugal. (Separata do n.° 100 da revista Ocidente). 1946, 8.° de 12 págs.

N NAVARRO (Luís Francisco Lopes) — Juiz de direito, nasceu em Bragança, a 20 de Outubro de 1900, filho de Antero Artur Lopes Navarro e de D. Maria de Ascensão Vaz. Publicou: Direito Penal, 1932, 17,5x24,5, com 376 págs. Funcionários Públicos, 1940, 17x25, com 352 págs. Teve 2.a edição em 1941, com 380 págs. A Nova Concepção do Direito de Propriedade — Dissertação proferida no Supremo Tribunal da Justiça, na sessão solene de 3 de Janeiro de 1942, 17x22, com 32 págs. (1152). NEGREIROS (Joaquim Trigo de) — Tomo VIII, pág. 114. Governador Civil do distrito do Porto (1938 a 1940); Subsecretário de Estado das Corporações de Previdência Social (1940-1944); Subsecretário de Estado de Assistência Social desde 1944.

O O LIVEIRA (Artur Águedo de) — Doutor, pág. 429; tomo VII, págs. 365 e 770; tomo X, pág. 759. Juiz e vice-presidente do Tribunal de Contas; deputado à Assembleia Nacional; Subsecretário de Estado das Finanças (1931-1934) (1153). O RNATOS — (pág. 431). É frequente ver-se estampado nos paramentos de damasco das igrejas, motivos ornamentológicos relacionados com a origem desses tecidos, com os (1152) Quem é Alguém..., 1947, p. 484. (1153) Ibidem, p. 40.

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PAULITEIROS

665 TOMO XI

climas quentes onde se produziram, ou com os fins a que são principalmente destinados. Assim, as cortinas do Sacrário de Sacoias, são ornamentadas por espigas de trigo, matéria-prima da hóstia consagrada, conservada dentro do Sacrário; nas casulas e dalmáticas do mesma igreja de Sacoias, vêem-se romãs, ananases, outros frutos de climas quentes donde é originária a seda. Nas colunas dos altares, ditas salomónicas, figuram ramos de videira com a respectiva folhagem e uvas, que se ligam ao vinho, matéria-prima da consagração, a par do trigo. Nas dalmáticas e casulas de Sacoias, acima referidas, vem o bicho-da-seda, a aranha (símbolo de Aracnide, famosa tecedeira), que simboliza a tecelagem. No pedaço do pendão velho que trouxe de Varge obtido pelo frade dos Martinhos pelos anos de 17... vê-se bem nítida a aranha de oito patas, como diz o Larousse, artigo Aragnée, e o Dicionário de Almani (espanhol) artigo Araña.

P PAULITEIROS (Dança dos) — Tomo IX, pág. 502. O dr. Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior, publicou: Nota de Coreografia popular trasmontana e a Dança dos Pretos (Moncorvo). Porto, 1935, 8.° de 16 págs. Esta dança praticada em Moncorvo tem carácter sagrado e é muito interessante [22]. PAVÃO (Francisco Geraldes) — Doutor, cónego da Sé de Miranda, tomo VI, pág. 661. Era filho legítimo de Inocêncio Geraldes, natural da Paradinha, e de Catarina Rodrigues, natural de Coelhoso; neto paterno de Miguel Geraldes, da Paradinha, e de Isabel Gonçalves, natural dos Veigas, e materno de João Rodrigues Ochoa, natural de Coelhoso, e de Maria Pires, natural de Parada, como tudo consta do processo de habilitação de genere existente no Museu de Bragança. P ENAS R ÓIAS Por escritura de 7 de Janeiro de 1457, celebrado na aldeia da Castanheira, termo então de Penas Róias, vendeu Rui Gonçalves Alcoforado, marido de D. Filipa Vasques, donatária das vilas da Bemposta e Penas Róias, que el-rei D. João I, doara em 1399 a seu avô, também de nome Rui Gonçalves, a dita vila de Penas Róias, a Álvaro Pires de Távora, senhor do Mogadouro, Alfândega de Fé, Castro Vicente, Mirandela e outras terras, por MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


666

PIMENTEL

TOMO XI

«cento e cinquenta mil réis, que foram pagos em várias espécies, a saber: oitenta e cinco dobras e meia de banda, a duzentos e cinco reais por dobra, que montavam a dezassete mil e quinhentos e vinte e cinco reais; dezassete florins, a cento e quarenta reais o florim, que perfaziam dois mil trezentos e oito reais; mais nove leais a quinze reais cada um, que perfaziam cento e trinta e cinco reais; e ainda dois sacos cheios de dinheiro, que o vendedor, à sua própria frente, viu pesar, contendo vinte mil reais brancos... (mais a seguinte baixela de prata) quatro bacias grandes de cozinha, e outro bacio de lavar, dourado, grande, de água às mãos; oito pratos de servir à mesa; quatro escudelas grandes, brancas; três gomis grandes; sete taças grandes, brancas; dois copos grandes, chãos, dourados pelas bordas; três taças grandes, picadas, douradas no fundo e pelas bordas; cinco taças de bastiães douradas de bom lavor, e grandes; uma albarrada com seu sobrecopo, dourada toda; e dois castiçais grandes. Toda esta baixela pesava cento e dez marcos e o marco avaliado em mil reais». Foram testemunhas nesta escritura: «Fernam Martins Juiz da dicta vila (Penas Róias) Martins Annes, moradores na dita aldeia (de Castanheira) e Ruy Fernandes Pimentel alcaide de Miranda e Fernam Afonso escripvam do dito Alvaro Pires e Martim Ferreyo de Sam Martinho do dito termo e Joham Garcia abade do São Cibraão e Peresteveez escudeiro morador em Murça logo teente de meyrinho em esta comarca de Tralhos Montes. E eu Gomez Vilella taballiam geeral por o dito senhor Rey na dita comarca e correyçam de Tralhos Montes que esta escrepvy» (1154). P IMENTEL (Inácio Manuel de Sousa Freire) — Brigadeiro, nasceu em Moncorvo a 7 de Abril de 1881, filho do dr. António Emílio de Sousa Freire Pimentel, Juiz da Relação de Lisboa, e de D. Margarida de Jesus Afonso. Publicou: Missões Tácticas da Engenharia Militar (1155), Porto, 1935, 8.° de 116 págs. P IMENTEL (João Inácio Teixeira de Meneses) — Tomo VII, pág. 402. Agrónomo. Referente a este ilustre bragançano há mais: Panegírico de... Lido em sessão de homenagem da Sociedade de Ciências Agronómicas de Portugal, em 10 de Abril de 1916, pelo sócio Joaquim Rasteiro. Lisboa, 1918, 4.° com o retrato de Meneses Pimentel.

(1154) SÃO PAIO, Conde de — A Baixela dum grande senhor português no século XV, in Anais da Academia Portuguesa da História, vol. IX, p. 200, onde publicou integralmente esta escritura, que diz encontrar-se na Torre de Tombo, livro de Além-Douro, fólio 130. (1155) Quem é Alguém..., 1947, p. 518.

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PIRES

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QUINTELA

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RESPONDENDO

667 TOMO XI

PIRES (Manuel António) — Escritor, cónego da Sé de Bragança. Tomo VII, pág. 419. Foi despachado cónego da Sé de Bragança, por decreto de 22 de Fevereiro de 1860.

Q Q UINTELA (Paulo Manuel Pires) — Doutor em letras pela Universidade de Coimbra, lente catedrático da mesma após brilhante concurso de provas públicas em 1947. Ver pág. 443. Publicou mais: Hölderlin Poemas — prefácio, selecção, tradução, notas e comentários. Lisboa, 1945, 8.° de 225 págs., com três gravuras. A Vida e a Poesia de Hölderlin, Coimbra, 1947, 8.° de 333 págs.

R R ESPONDENDO Era minha intenção, dar aqui umas explicações a certos pataráticas, mais papistas que o Papa, que julgam que o hábito faz o monge, dando o homem como conhecido pelo vestir e não pelas obras. Tonticos, julgam-nos falho em formação sacerdotal, atabalhoado em preciosíssimos protocolares da Católica e desalinhado em palavreado. Pobres loucos, quem tivera saúde para apresentar a obscena rudeza como Bernardes (1156), Frei Viterbo (1157), Bluteau (1158), Frei Domingos Vieira (1159). E não cito Fernão Lopes, Gil Vicente, nem os Livros de Linhagens, onde as há fresquíssimas, rubras como malaguetas. Santo Deus, o que diriam os podendos amaneiradinhos se lessem as Confissões de Santo Agostinho, a Cidade de Deus, as Origens de Santo Isidoro. Mas para que estou a falar em estranhos se temos a Bíblia, a Sagrada Escritura, onde os episódios lúbricos abundam por forma que Bocage, Zola, Galis e quejandos, têm muito que aprender (1160).

(1156) BERNARDES, Manuel — Os últimos fins do homem, 1728, p. 286. Idem na Nova Floresta, na Luz e Calor e na Meditação. (1157) VITERBO — Elucidário. (1158) BLUTEAU — Vocabulário. (1159) VIEIRA, Domingos — Tesouro da língua portuguesa. (1160) Génesis, 12-16; 20-20; 19-4 a 10; 10-31 a 37; 29-18 e seg.; 34-2; 35-22; 38-9. Levítico, 18 a 20. Juízes, 19-22. Isaías, 3-16 ; 23-3. Daniel, 13. Muitíssimo mais poderíamos citar, mas faremos ponto.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


668

RESPONDENDO

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SALGUEIRO

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SALES

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SANTA BÁRBARA

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SEDA

TOMO XI

Quanto às possíveis especulações após a minha morte, visadas no tomo X, pág. 309, destas Memórias, ou na tal entrevista das Novidades, ou na lápide de mármore que os de Viseu mandaram para o Museu de Bragança, em elogio aos meus trabalhos, nas mãos dos Padres Firmino Augusto Martins, pároco de Tuizelo, e Adelino Ramos, professor do Seminário de Bragança, justificação bastante para responderem aos malsins.

S S Á (Adriano Abílio de) — General de engenharia, nasceu em Freixo de Espada à Cinta, a 9 de Fevereiro de 1860. Foi inspector das Obras Públicas de Moçambique, director dos Caminhos-de-Ferro de Lourenço Marques. Publicou: O novo sistema de esgotos do Porto. Sobre os filtros de areia não submersos. Relatório da nossa visita aos distritos da província de Moçambique. Pela Índia. Colaborou em vários jornais e revistas (1161). S ALGUEIRO (Mário) — «Faleceu ontem, cerca da meia noite, o jornalista Mário Salgueiro. Foi um temperamento rudemente combativo, com posição nas hostes da extrema esquerda da política. Muitas vezes travamos com ele enérgica luta na defesa das nossas ideias. Nem por isso deixamos de nos descobrir com respeito diante do seu cadáver, pedindo a Deus pelo eterno descanso daquela alma tão exaltada» (1162). SALES (Ernesto Augusto Pereira) — Faleceu em Lisboa a 30 de Novembro de 1946. Ver A Voz, de 11 de Janeiro de 1947, onde o coronel Henrique de Campos Ferreira Lima, lhe publicou longa e sentida necrologia. S ANTA B ÁRBARA — Bernardo Baptista da Fonseca e Sousa Morais Sá Ferreira de Lage, primeiro Barão de Santa Bárbara, tomo VI, pág. 141. O processo de habilitação de genere deste Barão de Santa Bárbara está no Museu de Bragança, no maço Habilitações de Genere dos Ordinandos. SEDA — Tomo II, pág. 458. Em 1807, foi da Escola Sericícola de Chacim, uma família perita na criação e fiação da seda, para o Algarve, a pedido de um grande proprietário de Loulé, para ensinar esses serviços naquela região (1163).

(1161) Quem é Alguém..., 1947, p. 566. (1162) A Voz, de 10 de Maio de 1945. (1163) Gazeta de Lisboa, n.° 11 (1807, Primeiro Suplemento).

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TÁVORA

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T T ÁVORA (Luís Bernardo Álvares de) — Conde de São João, tomo IV, pág. 502. O conde de São João, a cujas rapaziadas se alude na carta irónica transcrita no tomo IV, pág. 562, era Luís Bernardo Álvares de Távora, que por sua morte, em 1718, ainda em vida de seu pai, o segundo marquês, António Luís, deixou herdeira a filha D. Leonor, mais tarde marquesa, justiçada em Belém. Falecido o segundo marquês, António Luís, em 1721, foi o outro seu filho, Francisco Xavier de Távora (o mesmo que morreu doido em 1737), que lhe sucedeu a ele marquês, apenas na posse das vilas, lugares e bens da coroa «por tudo ser de juro e herdada, e ele ser o varão, pela morte de seu irmão, o conde Luís Bernardo, como lhe foi julgado contra sua sobrinha a marquesa de Távora, D. Leonor acima citada. O título de conde de São João, pertencia ao filho mais velho e passava aos descendentes dele, se os tinha». T EIXEIRA (D. Guilhermina Maria) — Mãe do nosso Mecenas, tomo VII, pág. 553, faleceu em Bragança (Sé), a 15 de Maio de 1947. Nascera na mesma cidade a 28 de Setembro de 1885. TEIXEIRA (Dr. Raul Manuel) — Tomo VII, págs. 552 e 775; tomo IX, págs. 135 e 137; tomo X, págs. 331 e 334. Publicou mais: A Domus Municipalis de Bragança — Notícia Histórica. Porto, 1941, 8.° com 22 págs. e 3 desenhos. Conselheiro José Marcelino de Sá Vargas, notas biográficas. Gráfica Trasmontana. Bragança, 1947, 8.° de 20 págs., mais 1 inumerada, ex-libris do autor e retrato do biografado. Porque é um modelo no género e altamente justifica as benemerências deste insigne bragançófilo, reproduzimos o seguinte documento: «Representação à Câmara Municipal, a favor da Cruz de Pedra, com a data de 22 de Dezembro de 1930, feita pelo Dr. Raúl Manuel Teixeira: Os abaixo assinados vêm respeitosamente pedir a Vossas Excelências, a autorização devida para ser colocado na Praça da Sé, e em ponto desta por Vossas Excelências indicado, o artístico e lindo cruzeiro que no mesmo lugar já esteve apeiado há cerca de 55 anos, em hora de má inspiração, cujas partes se encontram arrumadas no cemitério público desta cidade. As despesas com tal colocação e restauro de que o cruzeiro careça, de modo a ser feita a sua reintegração completa e devidamente, não trarão MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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TEIXEIRA

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encargo algum para a Câmara, pois correrão por conta de uma subscrição pública a que em Bragança há anos se procedeu. Mandam as boas regras de probidade restauracionista, que os monumentos e obras de arte se reergam no local onde se alteavam. Esta é a razão fundamental porque os abaixo assinados entendem dever ser a Praça da Sé o local onde o cruzeiro deve ser reerguido. Mas outras razões há, e de vulto, que determinam este modo de ver. É o cruzeiro uma linda obra de arte que, constituindo um dos mais valiosos elementos do património artístico bragançano, que não é opulento em demasia, não deve por mais tempo ser votado ao criminoso abandono em que tem jazido. A sua traça renascença, de lavores correctíssimos e primorosos, impõe a sua restauração imediata. Construido na mesma época da fronteira igreja da Sé, primitivamente mosteiro de religiosas, num dos lados da sua base mostra a data de 1689, encimando o jarretão do côro da dita igreja a de 1689. E agora, que se vem restaurando o que de artístico há nos aspectos exteriores da tal igreja, sob o influxo e acção dum pensamento de estética citadina, chega a oportunidade do restauro do cruzeiro. Neste empreendimento ninguém poderá ver uma manifestação de reacionarismo religioso, pois alguns dos signatários não professam a religião de que a Cruz é símbolo, e a outros são indiferentes as manifestações de qualquer culto externo. Há, sòmente e apenas, a nortear esta iniciativa, como se vem dizendo e se repete, para que os especuladores e profissionais do intolerantismo, dotados daquela “má fé cinica” de que algures fala Eça de Queirós, não queiram ver neste projecto o assômo da famigerada hydra da reacção... Sabem os abaixo assinados que a Comissão Municipal Administrativa pensa em reduzir a área da Praça da Sé para obedecer às exigências da circulação em ponto tão central e movimentado. Prestes a ser disfrutado pelos bragançanos o Jardim Público, que tão próximo da Praça fica, não faz falta aos passeantes aquilo a que, pejorativamente, pelos bem conhecidos detractores desta terra, é dado o nome de bídet, ao pequeno, irregular e inclinado largo. Ampliados os passeios dos quatro lados da Praça, alargadas as ruas que a circundam, e reduzida a uma pequena elipse a sua area, dentro desta, e no seu centro, realçava o elegante e esbelto monumento seiscentista, de fuste primorosamente lançado, de capitel opulento e rico, tudo assente em escadório harmonioso e proporcionado. Assim, a erecção do cruzeiro na Praça é consequência da redução desta a uma pequena placa central, isto é: coloca-se ali o cruzeiro por se reduzir a praça, e para não ficar nua a elipse resultante de tal redução, de contrário ficaria Bragança com a réplica da antiga «ilha dos galegos» do Largo das Duas Igrejas, em Lisboa, onde há poucos anos a Câmara da capital, para tal placa nao ficar deserta, colocou a estátua do poeta Chiado. Não reduz pois a praça para lá se colocar o cruzeiro. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


TEIXEIRA

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TOPONÍMIA

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De resto, modificações similares, baseadas no mesmo motivo, foram feitas no Rocio, em Lisboa, e na Praça de D. Pedro, no Porto. Enriquecer-se-à, desta maneira, o recheio artístico desta cidade, a que o modernismo e as manifestações evidentes de progresso, que há anos se vêm manifestando entre nós, não tirarão, contudo, pelo menos tão depressa, o carácter que romotos séculos lhe autorgam e que lhe conferem uma pátine sugestiva e evocadora. Ainda com a restauração do cruzeiro (razão esta de natureza sentimental, nem por isso menos digna de consideração) proporcionar-se-à aos conterrâneos, que felizmente muitos são, recordados de o ver em toda a sua airosa imponência, momentos de satisfação e alegria, ao saudosamente evocarem os tempos da sua infância distante. Perante a hipótese de a Câmara, por circunstâncias de natureza financeira, não poder, de momento, proceder às obras de ampliação dos passeios, a redução da Praça à elipse projectada, nem por isso surgirá obstáculo ao levantamento do cruzeiro, porquanto não há óbice a obras (em regra, e o caso sugeito não é excepção) quando elas partem do centro para a periferia sendo que a placa elipsoidal ficaria sempre, por visíveis motivos de natureza topográfica, com o mesmo perfil que hoje apresenta. «Por todas estas razões, e pelas mais que por Vossas Excelências serão supridas, solicitam os signatários o deferimento do que pedem, para, no caso de ser concedido, começarem imediatamente as obras, depois de previamente indicado por essa ilustre Comissão o ponto onde elas devem ser começadas. Junta-se o croquis do cruzeiro, tal qual deve ficar depois de restaurado. Bragança, 22 de Dezembro de 1930». NOTA: — Tem 38 assinaturas que representam todas as classes e todas as ideias religiosas. A câmara municipal deferiu o pedido, e a sua inauguração fez-se nos primeiros dias de Março de 1931. TOPONÍMIA — Tomo X, pág. 172. O professor Sanches Albornoz, citado pelo Dr. Torcato Brochado de Sousa Soares (1164), entende que a toponímia pode vir a resolver, ou pelo menos lançar muita luz sobre a questão tão debatida entre os historiadores, se sim ou não, foi absoluto o despovoamento quando da invasão dos mouros, por terem os reis astures, levado a população para as astúrias, pois esse estudo permitirá «averiguar a permanência das designações [sítio de termos e nomes de povos] que só se poderão razoavelmente explicar pela continuidade da população».

(1164) SOARES, Torcato Brochado de Sousa — Subsídios para o estudo da organização municipal da cidade do Porto durante a Idade Média, 1935, p. 18 e 19 em nota.

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TORRES

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T ORRES (Manuel de Jesus Fernandes) — Médico militar (major). Tomo VII, pág. 561. Faleceu em Bragança, a 12 de Novembro de 1946, deixando viúva D. Laura Domingues Lopes Torres, médica.

U URRÓS, concelho do Mogadouro, tomo IX, págs. 153, 601, 663, 679, 684 e 694; tomo X, págs. 81, 678 e 816, destas Memórias. Em 3 de Fevereiro de 1947, comunicaram-me os amigos Adalberto Rodrigues Pires, seu irmão Artur Rodrigues Pires, filhos do saudoso João do Nascimento Pires, que tão preciosas dádivas arqueológicas fez ao Museu de Bragança, o aparecimento de mais duas lápides funerárias romanas, inéditas, por eles encontradas junto da capela de São Facundo, no termo de Urrós, sítio já assinalado por outras antigualhas. O meu estado de saúde, com febres nestes dois meses de Abril e Maio de 1947, não me permite comentar tão valioso achado, de resto esclarecido já para casos similares nos tomos IX e X, destas Memórias. Lembrarei apenas que na fig. 15, se lê: D(iis) M(anibus) ALLANE FLAVI AN Figura 15

LXV

Aos Deuses Manes (aqui jaz) Alana, filha de Flávio, falecida aos sessenta e cinco anos. Alana é nome inédito na epigrafia bragançana, o que não sucede com Flávio. Na fig. 16, lemos: Silónio, filho de Lúcio, falecido aos cinquenta anos (jaz aqui). Silónio é conhecido na epigrafia bragançana, mas como aqui fala um texto tem de estar em nominativo, resulta o ensinamento de se declinar MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


URRÓS

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VAREJÃO

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Silonis, is, coisa que se desconhecia. Os dois felizes descobridores, continuando as honrosas tradições de seu pai, mandaram as lápides para o Museu de Bragança, juntamente com moedas romanas encontradas no sítio de Meixide, limite do termo de Urrós, notável estação pré-histórica e luso-romana. Como as espécies arqueológicas, quer em si, quer nas suas modalidades artísticas, só podem estudar-se adequadamente pelo conjunto comparativo com as congéneres, donde a necessidade dos museus, e no entanto há pataráticos que julgam nobi-litar certas aldeolas, sepultando lá a espécie arcaica que o acaso lhes deu, como se museusicos fossem possíveis por toda a parte. Louvável é, pois, a mentalidade inculcada pelo gesto dos jovens Rodrigues Pires. Quando viria o dia que Picote, Duas Igrejas e outras terras, sigam tão inteliFigura 16 gente proceder. Ao Dr. António Manuel da Cruz, ilustrado chefe da Secretaria da Câmara de Vimioso, agradecemos também a moeda romana do imperador Constantino, o Grande (306-337), encontrada em Meixide.

V VAREJÃO (António) — Presbítero, jesuíta, natural de Freixo de Espada à Cinta, filho de Francisco Jorge de Varejão e de Maria Álvares de Varejão, naturais desta vila de Freixo de Espada à Cinta, morreu mártir, no ano de 1575, na cidade de Salcete, da nossa Índia Oriental. Faço esta declaração para que se não perca a memória de sugesto digno de eterna lembrança (1165).

(1165) Esta notícia foi-nos enviada pelo nosso amigo, dr. José Silvério de Campos Henriques de Andrade, de Vila Nova de Foz Côa, que diz havê-la «copiada da página dum livro antigo que encontrou em Santa Comba dos Oleiros, sem data nem assinatura».

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VINHO

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VINHO No opúsculo Vinicultura Duriense (subsídios arqueológicos, históricos etnográficos e bibliográficos), que faz parte da colecção Estudos Durienses, mencionámos a bibliografia referente ao vinho da região duriense; agora aditamos mais a seguinte, de que fomos tendo conhecimento: Na página 65, atribuíram-se a Freire (João Paulo) as rimas, vinho e fel que são da autoria de João Penha. Lima (José Joaquim da Costa), engenheiro-agrónomo, O Vinho do Porto, 1937, 4.° de 29 págs. muito ilustradas. Paródia ao primeiro canto dos Lusíadas, de Camões. Porto, 1845, 8.° de XIII-37 págs. Tem depois segundo rosto que diz: «Festas bacanais, conversão do primeiro canto dos Lusíadas do grande Luís de Camões, vertidas de humano em divino por uns caprichosos». Perfeito (J. C. Valente). Arte de beber o Vinho do Porto. Porto, 1935, 8.° de 64 págs., com interessantes ilustrações. Reis (António Batalha), Roteiro do Vinho Português. Lisboa, 1945, 4.° de 75 págs., mais uma de índice, profusamente ilustradas.

––––––––– Dizem que o vinho dá força à gente, Não sei como isso pode ser: Já hoje bebi uns treze copázios E nas pernas não me posso ter. Outros cantarolam, talvez mais expressivamente: Dizem que o vinho dá força à gente, Não posso entender como isso é: Já hoje bebi uns treze copázios E não me posso ter de pé.

Z ZILHÃO (António Manuel) — Doutor, natural de Carviçais, concelho de Moncorvo, colocado em 1938 como conservador do Registo Civil em Alfândega da Fé. Pertencerá à família de António Manuel Zilhão e Augusto Luís Zilhão, de quem trato no tomo VII, pág. 596, destas Memórias, e ao professor primário Augusto Luís Zilhão, de quem falo na pág. 597 do vol. VII, destas Memórias. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Um incompreendido Quem ha hi tam acabado que tudo perfeitamente diga e faça. D. DUARTE, Leal Conselheiro. Muitas vezes uma dor inesperada, uma desgraça injusta, dão ao homem uma energia, uma perseverança, que ele talvez não encontrasse nunca na felicidade; e muitos que se transformam em homens superiores, depois de terem sofrido, se tivessem sido sempre felizes, não teriam passado de homens vulgares. ALEXANDRE DUMAS (FILHO) Não devemos perseguir aqueles que Deus tolera. S.TO A GOSTINHO Francisco Manuel Alves, abade de Cicouro, concelho de Miranda do Douro, nasceu em Baçal a 10 de Setembro de 1870 e faleceu em Ifanes, concelho de Miranda do Douro, para onde se retirara, depois de aposentado como abade de Cicouro, a 4 de Abril de 1942. Era filho legítimo de Manuel do Nascimento Alves, irmão de Francisco João Alves, pai do abade de Baçal, Francisco Manuel Alves, e de Maria José do Nascimento Esteves, irmã de Francisca Rosa Esteves, mãe do referido abade de Baçal, sendo, portanto, o dito Francisco Manuel Alves, abade de Cicouro, primo carnal, em grau duplicado, do seu homónimo Francisco Manuel Alves, abade de Baçal. Foi ordenado presbítero pelo bispo D. José Alves de Mariz, em 1897, e no fim desse ano foi nomeado pároco de Abreiro, concelho de Mirandela, onde esteve um ano, sendo depois transferido para Pinelo, concelho do Vimioso, onde paroquiou apenas alguns meses, sendo mandado a paroquiar Angueira, concelho do Vimioso, e depois para São Martinho de Angueira, concelho de Miranda do Douro, daqui, para Ifanes. Alfim obteve esta igreja, por concurso de provas públicas, colando-se nela. Mais tarde, requereu e foi despachado MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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UM INCOMPREENDIDO

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pároco colado para Cicouro, freguesia vizinha no mesmo concelho de Miranda do Douro, e, desgostoso por lhe tirarem a casa da residência paroquial, quando da implantação da República, em 1910, cansado de lutar, mas em vão, pelos direitos da Igreja, foi residir para Ifanes, onde tinha casa sua, continuando todavia a paroquiar Cicouro, com consentimento dos bispos D. José Lopes Leite de Faria, D. António Bento Martins Júnior e D. Luís António de Almeida, que sucessivamente pontificaram na diocese de Bragança, mas D. Abílio Augusto Vaz das Neves, natural de Ifanes, que tomou posse da diocese de Bragança, como bispo, a 30 de Março de 1939, quis obrigá-lo a residir em Cicouro, sem atender a tal qual indisposição dos fregueses contra o abade, por querer sustentar os interesses da Igreja. Bem me custa dizê-lo, mas a verdade é que nos conflitos entre os párocos e fregueses, os bispos colocam-se sempre ao lado destes, contra aqueles. Caso do Monteiro, abade de Baçal; do José Machado, pároco de Rabal; do Catidónio de Morais Sarmento; depois do seu sucessor Francisco Manuel Pires e tantos outros, que só do nosso tempo podíamos citar. Cherchez la femme, dirão alguns; mas não, em todos os exemplos citados, a não ser nos dois últimos, entrou como causa da indisposição resultante de o pároco querer defender os interesses da Igreja; e era com razão justa, mas foram vítimas da causa, apesar de justa. Teremos aqui mais uma confirmação do prolóquio sustentado por alguns — Sacerdos Sacerdoti lupissimus? paráfrase do homo homini lupus. É certo que o abade de Cicouro não residia na freguesia, mas quantos padres há, e havia ao tempo, que não residiam? [P.es Silva, Palmeiro, Marroncho (pároco de Nogueira), Bartiloti e Cangueiro]. É certo que o abade tinha defeitos, mas quantos há nas suas condições, pois o celibato, foi, é, e há-de ser uma mentira, como toda a gente sabe, e os bispos melhor que ninguém, porque ao cura e ao juiz o diabo lho diz. De mais, a favor do abade de Cicouro, militavam circunstâncias atenuantes, atrás expostas, consignadas no texto de Alexandre Dumas (filho). Além disso, o caso foi mais estranhado em D. Abílio Augusto Vaz das Neves (nasceu a 8 de Junho de 1894, aos treze anos foi para Meliapor, presbítero em 1919 — Chico devia ser pároco de Ifanes em 1902-1904), que era amigo muito íntimo de sua família, especialmente de seu pai, que nas festas de Cicouro, sempre ia jantar à tarde a casa dele, depois de se arrumar a festa, ou pelo menos beber umas pingas e comer uns petiscos na companhia do abade; que era padrinho de baptismo de alguns irmãos do bispo; que influiu na sua ida para Meliapor; que o levou uma vez na sua companhia a Baçal; que lhe publicou num jornal o necrológio da mãe. Era tanta a estima entre o abade e o pai do bispo que mesmo depois que o bispo o suspendeu continuaram passando a maior parte das tardes, em passeios ou conversas à solheira, ao fresco, ou na lareira, em casa do abade. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


UM INCOMPREENDIDO

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O abade de Cicouro, era inteligente, servido por boa memória e grandes faculdades de trabalho, mas não pilhava as coisas a dente, pelo teor da ciência de livreiro, como se diz em calão escolar, não pariu pescanços alardeantes de sabenças exibicionistas, matizadas de espertezas de rato; não papagueava os compêndios nem as prelecções dos Mestres; pelo contrário, assimilava lentamente esses veículos de ensino, formava ideias suas e expunha-as como entendia. Daqui o passar desapercebido nas aulas, quando não escarnecido pela insolência de alguns mestraços mais atilados, que fazem a remonta dos escolares laureados pela referida papagueadela e agudez ratácea. É certo que estes meninos bonitos das aulas, porta-estandartes das distinções, nunca passam de plantinhas de estufa, logo estioladas pelo aspecto das realidades, apenas lhes falta o amparo dos tais mestraços e assim se ficam a remorder-se e a abocanhar os que depois, pela vida fora, brilham nas letras, nas ciências, nas artes, que sempre, com raríssimas excepções, são os que, ou não têm cursos oficiais ou passaram neles desapercebidos dos mestraços, que os julgavam estudantes apagados, de pouco valor, reprovando-os, censurando-os mesmo algumas vezes. Basta citar, em nossos tempos, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, João de Deus, Eça de Queirós, e lembrar que Pasteur foi reprovado num concurso de química e Filinto Elísio num de literatura, e assim foi sempre em todos os tempos. De longe vem o mal, pois já em 1546, o célebre lente da Universidade de Coimbra, Martin Azpilcueta Navarro, tratando da reforma da Universidade, onde as lentências dos mestraços predominavam, no recrutamento mental pelo critério das papagueadelas à primeira vista, contra o pensar dos Mestres autênticos, dizia: «que havia espíritos precoces e espíritos tardos, assim como na natureza, frutos temporãos e tardegos e neles bom e mau, devendo rejeitar-se estes e aproveitarem-se aqueles». No mesmo dia e hora, nasce um cabrito e um cordeiro; este segue logo, fino e lépido, atrás da mãe, e aquele fica-se aparvalhado e morre se não olharem por ele; todavia, passados quinze ou vinte dias, o cabrito progride e o cordeiro estaciona. A lenda popular fala no burrico que enganou o diabo e, depois de crescido, nada via, assombrado pela magnitude das orelhas. E o abade de Cicouro, que tinha aptidões, faculdades mentais e de trabalho, vontade consciente, prevendo uma expulsão da freguesia, como a do ilustre conterrâneo, Dr. Cicouro, da cátedra, rompeu com os convencionalismos burocráticos, com os escândalos farisaicos do dízimo da salsa, não lavagem das mãos antes de comer e quejandas frioleiras. Sem dúvida são necessários os regulamentos disciplinares, mas é necessário que quem os aplica saiba o que anda a fazer, porque scire leges, non est ea verba tenere, set vim et potestate e a natureza humana tem razões, que escapam à razão, donde MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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UM INCOMPREENDIDO

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a necessidade das transigências e abstenção de fanatismos disciplinares, que condenam hoje o que amanhã pode ser indiferente. Rompeu, diremos, com todos estes convencionalismos e foi para diante. Todavia, regressando aos talentos precoces das aulas, aos tais que, como a fruta inútil, segundo diz Azpilcueta, amaduraram antes do tempo, ainda às vezes, a poder de bajulações, curvaturas dorsais, salamaleques e quejandas depressões morais, conseguem anichar-se em pingues sinecuras, porque — fortuna que te de Dios, hijo, qu’el saber poco te basta. O abade de Cicouro não era um génio, nem um talento, mas era alguém, intelectualmente, servido por cultura geral muito sólida; escrevia facilmente em latim e francês e nessas línguas se correspondia com engenheiros polacos. que estiveram nas minas de S. Martinho de Angueira, que muito apreciavam a sua cultura e faculdades de trabalho e sei de um colega que tem algumas cartas dele escritas nas referidas línguas, sobre assuntos pessoais que exigiam certas reservas. Não era pois um génio, mas tinha muitas qualidades de talento, pois sabia o que andava a fazer, assimilando, contudo, dos estranhos, quanto julgava aproveitável. Não era cana agitada pelo vento, nem títere sempre inclinado ao magister dixit prepotente dos tunantes, ou a ser da opinião do último com quem falam. Sabia o que queria e o modo de o obter, lutando com dignidade, confiado apenas na justiça da causa, sem descer à empenhoca, sempre deprimente, que no nosso país, contudo, parece ter foros de instituição nacional. Era um homem na verdadeira acepção da palavra, que sabia manter a dignidade de homem, com respeito da hierarquia sim, mas com independência de homem livre. Muitas vezes a prepotência autoritária, acostumada às obediências passivas, às curvaturas rebaixantes, quis obrigá-lo pela fome, esgotando-lhe a paciência com demora de papéis, despachos, informações, mas ele soube esperar, soube lutar, confiado na justiça da causa, e venceu. É certo, que nestas demoras perdeu interesses e, quando por fim conseguiu o triunfo, já os filhos dilectos da empenhoca e salamaleques arrotavam pançadas de farturas, rindo-se do ingénuo e da inflexibilidade da sua cerviz, porque nem sequer faziam ideia da grandeza moral e cívica que um tal proceder representava. Por estes motivos é que o abade de Cicouro não foi compreendido pelos mestraços testaçudos, quando estudante, nem depois pelos dirigentes eclesiásticos, quando pároco, sendo poucos os que socialmente chegaram a compreender a elevação da sua personalidade, porque na luta contra as arremetidas dos assaltantes foi um pouco além dos praxismos protocolares e proMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


UM INCOMPREENDIDO

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vocou escândalos, reais não, mas sim escândalos farisaicos na curta mentalidade dos da obediência passiva e respectivos mandantes das carneiradas panurgianas, despóticos senhores de baraço e cutelo, ciência certa a pedir absolutíssimo, indiscutibilíssimo, santíssimo, que, nem por isso deixa de ser apaixonadíssimo, sceleratíssimo algumas vezes. Obrigado pelas necessidades da luta, o abade de Cicouro, por associação de ideias, pensou um dia no célebre lente da Universidade de Coimbra, dr. Manuel José Fernandes Cicouro, que da sua freguesia, donde era oriundo, apesar de haver nascido acidentalmente ali perto, em Penas Róias, trazia o apelido, na sua expulsão da cátedra coimbrã e na necessidade de aceitar uma sopa em mesa alheia, embora amiga, para não morrer de fome, tão poucas economias lhe deixara fazer a sua generosidade esmoler. Memorou então a sua vida passada: as arremetidas insolentes dos mestraços malcriados, afeitos a recrutar as distinções na massa anónima do servilismo papagueador, que repete, sem querer entrar no fundamento das coisas; os empurrões dos mentores eclesiásticos, que o arremessaram de Baçal, sua terra nativa, ao extremo nordeste da diocese, para Abreiro, no extremo sul da mesma, arrastando-o seguidamente para o extremo nascente, com estacionamento em Pinelo, Angueira, São Martinho de Angueira, Ifanes e Cicouro, ao passo que os dos salamaleques, das curvaturas dorsais, os meninos dilectos, os palacianos, se repimpavam pelas freguesias vizinhas mais pingues; o desconhecimento da sua acção paroquial em Abreiro, que foi o melhor dos párocos desta freguesia, segundo diz o Dr. Negreiros, com conhecimento da causa, pois é natural dessa povoação. Soube então, por experiência própria, como é verdadeiro aquele axioma do economista Franquelim, que diz equivalerem a um incêndio, duas mudanças numa casa. Soube então, à sua custa, como não é menos verdadeiro aquele conceito de Vieira, quando afirma que «se ganha mais no Paço às barretadas, que no campo as lançadas». No Boletim da Diocese de Bragança, de 1936, pág. 348, apreciou o abade de Cicouro a acção episcopal de D. Abílio Augusto Vaz das Neves, bispo de Cochim, que, de visita à terra natal, nela se demorou algum tempo. Por esta pequena amostra se pode julgar dos recursos mentais que tinha e do seu feitio, que louva, mas louva de pé e não com curvaturas deprimentes. Para melhor compreensão damos a seguinte sátira que fez aos volframistas, várias vezes jugulados na imprensa portuguesa pelos anos de 1941-1942. Ele podia ter remediado alguns aleijões métricos da sátira, mas não quis, porque falava do povo e o cancioneiro popular tem liberdades especiais. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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UM INCOMPREENDIDO

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A vida mineira em Ifanes Esta povoação d’Ifanes, Tão laboriosa e tão ordeira, Descurou o serviço do campo, Tornou-se bulhenta e mineira. É tal a ambição, Pelo negro Volfrâmio, Que a ricos e pobres, Faz sofrer do crânio. Não há quem resista, A esta tentação, Que tudo se sacrifica, À busca dum filão. Acodem ranchos de trabalhadores, De todos os pontos de Portugal, Disputando à porfia, Tão valioso metal. Aparecem do Algarve, De Lisboa, Coimbra e Santarém, Acodem do Minho e Douro, E das duas Beiras também. Um quilo de minério, Que mal enche uma mão, Vale hoje aqui 380 escudos, Quer queiram quer não. Aqui não se respeita a propriedade, Seja ela de quem for, Destroem e revolvem as searas, Que causam pavor. Aqui só a força impera, Como lei suprema, Não temem a guarda ou polícia, A cadeia ou a algema.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


UM INCOMPREENDIDO

681 TOMO XI

Mandam vir a polícia, Armada de metralhadora, Zombam e escarnecem dela, Como se nada fora. Oferecem escasso dinheiro, Pela valiosa propriedade, Mas se lha não vendem, Trabalham à vontade. Não respeitam terras ou searas, Hortas ou lameiros, Não há lei nem consciência, Para estes aventureiros. À semelhança de rebanhos, Espalhados pelos campos, Andam estes comunistas, À busca dos seus encantos. Armados de martelo, Picareta e pá, Tudo é revolvido, Seja a boa ou a má. O desprezado proprietário, Anda todo indignado, Sem saber se liquidá-los, A tiro ou a machado. Há trabalhadores nocturnos, Que buscam com ufania, Roubar de noite, Os filões que viram de dia. Tem vindo a polícia de Bragança, E a guarda de Miranda, Mas poucos tem capturado, Para vencer esta demanda. Já caiu peixe Nas malhas da justiça, Mas ainda há muitos que colher, Para abater esta cobiça. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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UM INCOMPREENDIDO

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O do registo fica desesperado, Por ver o filão revolvido, Que o melhor foi roubado, E em dinheiro convertido. Os gatunos vão para os filões, Armados de revólver e arma caçadeira, E se aparece o dono, Encomenda-se a ser da Esgueira. Parte da colheita está perdida, Não sou eu que o digo, Que está perdida a seara do centeio, E igualmente a do trigo. Há muitos registos, Há também disto concessões, O termo é todo deles, Dos proprietários as contribuições. Devia existir uma lei, Sobre o registo ou concessão, Em que o proprietário. Tivesse a justa proporção. Se o Salazar não acode, Com uma lei que seja justa. Destroem as propriedades, E dinheiro nenhum lhes custa. Outros mais ousados ainda, Como refinados ladrões, Arrombam nas casas, Portas e portões. Arrombaram a casa das Cedras, A do Rego passou igual, Agora irão à do Bilaca, E depois à do Frumadal. Irão depois à dos Sartigalhos, Subirão depois à do Careta, Descerão à do Barreiro, E depois à de Breta. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


UM INCOMPREENDIDO

683 TOMO XI

Também arrombaram A casa do Frutuoso e a do Tino Roubaram-lhe o minério Deram-lhe outro destino. Foram de noite a casa do Francês Três senhores de categoria À força exigiram-lhe 10 contos Que o Silva ali tinha. Não lhe valeram alegações, Nem protestos de sentimento, Teve que entregar os 10 contos, Se quis ficar com alento. Lá escaparam com os 10 contos. Mui alegres e contentes, Enquanto que o Silvano, De frio batia os dentes. Não acabou aqui para o Silva, A tragédia do seu dano, Que lhe roubaram 42 quilos, Da casa de S. Caetano. Nem a câmara de Miranda Escapou a tão grande mal Que ali foram roubar O que era da Guarda Fiscal. Não rouba só o plebeu, Rouba também o letrado, Rouba o que faz a oração, E o empregado do Estado. Não temem o guarda Nem arma que tenha consigo Roubam-lhe o minério E põe-lhe a vida em perigo. Tudo clama, tudo brada, Que apareça a guarda, Que prenda estes ladrões, E como gente ordinária, meta nas prisões. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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UM INCOMPREENDIDO

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Já estão presos em Miranda, E também em Bragança, Muitos andam a monte, Não pode haver confiança. Radiantes de contentamento, Ufanos d’alegria, Vendem o rico minério, Por dinheiro de grande valia. Mas se encontram algum imbecil, Estes Esquimaus, Em vez de minério volfrâmio, Vendem-lhes calhaus. Sempre que podem, Pregam-lhes a partida, Arruinam-lhes a carteira, Para toda a vida. Pelintras que não tinham vintém, São hoje endinheirados, Tem manadas de contos, Ao canto arrumados. Bem desejavam alguns, Comprar propriedade, Não há quem lha venda, Ninguém tem necessidade. Olham para o dinheiro Sem saber que destino lhe dar Com cordões, anéis e roupas Para a família adornar. Os ourives semanalmente Rondam esta povoação Os da «Singer» fazem vendas Que causa admiração. Melhoraram a indumentária, Também melhorou o prato, Tudo ri, tudo canta, Tudo anda farto. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


UM INCOMPREENDIDO

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Já não vem o vinho às cargas, Para esta povoação, Vem em grandes tonéis, Trazidos em camião. Já não estão habituados, A tratar em bagatelas, Tem dias que comem, Três e quatro vitelas. Não se limitam com isto, Estes exigentes mineiros Comem perus e galinhas, Cabritos e cordeiros. Eu conheço uma catita, A quem chamam Anica, Que vestia de chita, Calçava chinela, Aborrecia vitela, Odiava o presunto, Não gostava de salpicão, Dormia no chão. Mas melhorou a situação, Tomou outro destino, Come do bom, Bebe de fino, Veste de crepe, Calça ceilão, Comprou cordão, Come o seu capão, Já não dorme no chão, Quer comprar casa, Onde acenda a sua brasa. Encheu a carteira, Que despertou cobiça, Ao Francisco Nabiça, Que com ela casou. Dois cevados matou E na mina da trampolina, Estão colocados, Em lugares ambicionados. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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UM INCOMPREENDIDO

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Tudo se abandona Eu não falo em vão Descuida-se tudo Para cuidar dum filão. Abandona a banca O Dr. Guerra, de Miranda, O Dr. Pêra, de Mogadouro, O Dr. Fernandes, de Vinhais, E o Dr. Amaral, do Bouro. Abandona o empregado a repartição, A botica o boticário, O professor a escola, A nota o notário. Os médicos abandonam a clínica, Os comerciantes os balcões, Tudo corre para Ifanes, Em busca dos milhões. Abandona o taberneiro a taberna, O cura o altar, Tudo foge para a mina, Na ânsia de ganhar. Abandonou as malas O portador do correio, Vendo que podia ganhar mais, Trabalhando noutro meio. Vendo que só ganhava Seis escudos diários, Passou a ganhar onze Aumentando os salários. Já não se encontram Nesta terra lavadeiras, Levam a roupa para Constantim As de cá são mineiras. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


UM INCOMPREENDIDO

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É tal a febre dos seixos, Sejam duros ou moles, Que muita desta gente Há-de ir parar a Rilhafoles. Não caberão ali todos Os que sofrem desta maqueira, Que muitos por não caber ali Hão-de encher o Conde Ferreira. Digo mais — se isto continua nesta incrível loucura, muitos hão-de ir bater, Às portas duma sepultura. 300 contos já não bastam Para pagar as multas do minério, É assim que pensam Homens de bom critério. Não é fantasia, O que deixo escrito, Afirma-o este povo, E mais do que isto. Este humilde trabalho Não busca lucro nem glória, Apenas que da mina d’Ifanes Se faça a sua história.

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A PLACA DE BRONZE

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«Acta da Inauguração da placa de bronze que um grupo de amigos do sábio arqueólogo Abade de Baçal adquiriu para comemorar os seus 80 anos e a despedida das “excursões arqueológicas”». «Ano de nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e quarenta e cinco, aos oito dias do mês de Novembro pelas doze horas, no alto da “Coroa”, um grupo de amigos e admiradores do eminente Abade de Baçal, procedeu à inauguração duma placa de bronze adquirida por subscrição por intermédio do Ex.mo Sr. Dr. Raul Teixeira, escritor e crítico de arte, na “Ourivesaria Aliança do Porto”, de que é proprietário o Sr. Celestino da Mota Mesquita, pelo preço de 2.700$00 (dois mil e setecentos escudos), como se verifica pela factura entregue àquele ilustre bragançano; a qual placa foi afixada no marco geodésico vulgarmente chamado “Castelo” ali existente como lembrança das visitas que o eminente arqueólogo aqui fez no ano de mil novecentos e trinta e cinco, a fim de despedir-se das suas “excursões arqueológicas”, precisamente aos 70 anos de idade, acompanhado dum grupo de amigos, alguns dos quais felizmente aqui presentes, e em comemoração dos 80 anos que fez, por mercê de Deus, neste ano da graça. A reunião de mil novecentos e trinta e cinco foi descrita pelo mesmo arqueólogo no volume X, das Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, a páginas 617, onde vêm mencionados os nomes de todos os assistentes, lamentando nós tão-somente que a doença, ausência e até a morte não nos tenham deixado gozar hoje a sua excelente camaradagem. Para todos, depois de decorridos dez anos, vão a nossa saudade e lembrança amiga. Parecerá à primeira vista o acto que acaba de realizar-se um facto vulgar, perdido entre a selva confusa de tantos acontecimentos quotidianos, e com a agravante de que este é efectivado cá longe, fora do povoado, nos cimos de uma montanha de mil cento e cinquenta metros de altitude; mas não, daqui, através da bruma outonal, pode observar-se espalhada pelas lombas, pelos outeiros e pelas ourelas, documentação abundante de épocas de variada cultura, que desafiou a inclemência do tempo e dos homens, e que ainda hoje é o enlevo de passeantes estudiosos e o timbre fidalgo de povos que mergulham sua prosápia nos veios fundos da ancestralidade. Ora se este que aqui deixamos, batido pela fúria do vento áspero da serra, resistir à vontade cega, ou consciente de uns e de outros, e se se cobrir da patina que denuncia um passado longínquo, não deixará também de marcar e de definir uma época em toda a sua estrutura moral e cultural; porque além da parte científica e artísMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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tica, dirá da nobreza da alma dos que sabem prestar culto ao trabalho intelectual e honra e eleva o património espiritual dos povos. Quanto a nós, vinhaenses, temos de acrescentar mais um traço ao quadro, aliás esboçado tão imperfeitamente; a deferência para connosco do eminente arqueólogo em escolher um recanto da nossa terra para se despedir dos que foram os seus amores de toda a vida. Devia ter sido lavrada esta acta pelo devotadíssimo companheiro do homenageado Dr. Raul Teixeira, na criação e desenvolvimento do museu que guarda como “Santuário Sacro” o fruto destas Excursões Arqueológicas, do qual alguns elementos foram pertença desta montanha em que nos encontramos, mas como o acto se realiza em terra vinhaense e daqui partiu a iniciativa, dispus-me eu na minha pouquidade a servir de secretário. E, para não lhes roubar por mais tempo o grato prazer de admirar o formoso panorama que daqui se divisa por terras de Espanha e Portugal, de céu baixo, paisagem policroma e pinceladas vivas no horizonte largo, e ainda o prazer de saborear um “magusto” que vai seguir-se, fraterno e amigo, dou por finda esta acta que vou assinar e comigo, se a acharem conforme, todos os presentes: P.e Firmino Augusto Martins; P.e Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal; Mons. José de Castro, Bragança; Dr. Ferreira de Castro, Vinhais; Dr. Raul Teixeira, Bragança; P. e Jerónimo Emiliano Pires; José Furtado Montanha; Dr. Francisco Teixeira Mós (médico); P. e Aurélio Joaquim Vaz, Vilar de Ossos; Vitorino João Neto, Salgueiros; P.e Manuel João de Morais, Santalha; P. e Manuel Luís Lopes, Vila Verde; António Augusto Pires; Diamantino A. Gonçalves; Leandro Augusto Bernardes; Prof. Domingos Rodrigues, Moimenta; P.e Joaquim Leonardo, Ousilhão; P.e José Maria da Costa Leão, Sobreiró; P.e Miguel dos Anjos Fonseca, Lomba; João Francisco Fernandes; Tenente Francisco Inácio Moreira; José Manuel Pires, comerciante; Avelino Pessoa de Sousa; Guilherme Pires, Vilarinho; António Manuel, guarda fiscal; Clemente Pires, cabo da guarda fiscal; António Pires; Francisco Melro; Zeferino da Purificação Ferreira, comerciante; António Manuel Fernandes, capitalista; António Ezequiel de Morais, proprietário; António Cândido Ferreira, secretário da Câmara Municipal de Vinhais; P.e Francisco José Afonso, pároco de Moimenta; José Manuel Rodrigues, proprietário; Francisco Manuel Rodrigues, regente agrícola; P.e Francisco Manuel Diegues, pároco de Paçó; sargento Costa, Moimenta; tenente Alberto Garcia Moreira; Francisco Pimparel; Francisco António Dias, Paçó; Francisco António Ribeiro, guarda fiscal; Augusto dos Santos, Moimenta; Basílio Diegues, Moimenta; Manuel Diegues, Moimenta; Adolfo dos Santos Figueiredo; Abílio José Bragança; António Joaquim Martins; Jaime António de Morais; João Manuel de Figueiredo; Germano de Jesus Pires; Domingo Gil Sampaio, etc., etc.». MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

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A PLACA DE BRONZE

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LISTA DOS SUBSCRITORES Dr. Raul Teixeira ................................................ Mons. Castro ....................................................... José F. Montanha ............................................... P.e Manuel Luís Lopes ....................................... P.e Domingos Reis Afonso ................................ P.e Francisco Manuel Diegues .......................... P.e Aurélio Joaquim Vaz .................................... P.e Francisco José Afonso .................................. P.e Miguel dos Anjos Ferreira ........................... P.e Jerónimo Emiliano Pires ............................. P.e Joaquim Leonardo ........................................ P.e Vladimiro J. Costa ........................................ P.e David A. de Sousa ........................................ Francisco Daniel Rodrigues .............................. José Manuel Rodrigues ...................................... António Cândido Ferreira ................................. Zeferino Ferreira ................................................ Avelino Pessoa de Sousa .................................... Tenente Alberto Garcia Moreira ...................... António Manuel Fernandes .............................. Dr. António Manuel Fernandes ....................... Professor Domingos Rodrigues ........................ Dr. José Clemente Fernandes ........................... Coronel Salvador Teixeira ................................ Capitão António Dias ........................................ Manuel José Rodrigues Morgado ..................... P.e Firmino Augusto Martins ...........................

100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 100$00 50$00 50$00 50$00 250$00 ———— 2.700$00 ————

PLACA: « LEMBRANÇA

DA ÚLTIMA EXCURSÃO

ARQUEOLÓGICA DO ABADE DE BAÇAL REALIZADA EM

1-10-935

AOS

70

ANOS

DE IDADE

✠ UM GRUPO DE AMIGOS FEZ COLOCAR ESTA PLACA COMEMORATIVA NO ANO DO

80.°

ANIVERSÁRIO DO ARQUEÓLOGO

1945» MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


NOTAS DOCUMENTOS DE REVISÃO

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NOTAS DE REVISÃO 2[1] As corografias, dicionários e descrições geográficas de Portugal são bem mais numerosas do que as aqui mencionadas pelo Abade de Baçal, como ele próprio refere, retirando importância para o caso vertente às omitidas. Limitámo-nos apenas, respeitando essa opção, a completar as referências que deixou em aberto por as obras estarem então em publicação: — COSTA, Américo — Dicionário corográfico de Portugal Continental e Insular. Porto: Livraria Civilização, 1929-1949, 12 v. — Portugal económico monumental e artístico. [S.l]: Of. Fernandes, 1935, 1 fasc. Esta obra teve sequência em Portugal económico monumental e artístico. Lisboa: Of. Fernandes, [196-?], 4 v., 56 fasc. — GIRÃO, A. de Amorim — Geografia de Portugal. Porto: Portucalense Editora, 1941, 1v. Tem uma segunda edição acrescentada do estudo das Ilhas Atlânticas, de 1952. — Grande enciclopédia portuguesa e brasileira. Lisboa, Rio de Janeiro: Editorial Enciclopédia Limitada, [19??-1960], 40 volumes. Foi acrescida de 10 volumes de actualização, 1981-1987 e, desde 1988, pelo livro do ano. 2[2] Neste apartado intitulado Crendices, o autor cruza práticas e representações tradicionais da região bragançana, colhidas directamente ou por intermédio de informadores próximos, com informação derivada da sua formação eclesiástica e gosto pelos clássicos. Nem sempre se torna claro se a todas as enumeradas, retiradas da bibliografia e sobretudo do Traité des superstitions de Thiers, se atribui actualidade regional. A temática em causa foi amplamente versada pelos mestres da etnografia portuguesa oitocentista, como Teófilo Braga, Adolfo Coelho e Leite de Vasconcelos, ou Consiglieri Pedroso, que desbravaram caminho e incentivaram recolhas similares, feitas por etnógrafos locais. Francisco Manuel Alves conhecia estes trabalhos e cita-os a p. 114-115. 2[3] Menos comum do que o enumerar de práticas e representações tradicionais recolhidas em meio rural é esta tentativa de Francisco Manuel Alves para as justificar. Saliente-se a sua vontade de sublinhar a paridade entre o pensamento que as suporta e as elucubrações científico-académicas, se não mesmo a superioridade das primeiras, mais sintéticas, criativas e expressas sob forma poética (p. 271). Não estamos, como se poderia esperar na época, perante uma leitura evolucionista, em busca de reminiscências, nem são aceites categorias classificatórias que se

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baseiem na oposição nós/eles, pensamento primitivo, mágico, pré-lógico ou selvagem como oposto à moderna racionalidade científica. Mesmo face às Superstições, o Abade de Baçal manteve uma atitude de relativismo cultural então pouco vulgar, sobretudo num eclesiástico. Questionada a bondade e utilidade das superstições, ela é reafirmada através de diversos exemplos pelos efeitos práticos alcançados. A sua atemporalidade e imutabilidade milenar, comprovada pela resistência ao longo da história, remetem-nos para um elemento estrutural do pensamento da espécie humana, por isso mesmo não passível de ser adulterado ou apagado (p. 106-107). As explicações apontadas pelo Abade, em defesa da psicologia do povo, parecem mesmo, por vezes, procuradas com algum excesso de zelo. A sua exclamação, a p. 531, mostra o quão se encontrava fascinado «Salve sublime vitalidade tradicionalista da idiossincrasia popular, como eu te admiro e saúdo reverente!!!». Sobre o assunto escreveu artigo próprio, intitulado: «Superstições, crendices, medicina popular». Ocidente. Revista Portuguesa. Lisboa. nº 17 (1942), p. 184-188, em que se opina «Segundo o nosso modo de ver ... as chamadas superstições são conhecimentos úteis adquiridos por nossos antepassados, transmitidos aos vindouros sob forma alegórica, encostada ao maravilhoso, para melhor lhos meter na cabeça». 4[4] Francisco Manuel Alves escreveu sobre «A Festa dos Rapazes» na Illustração Transmontana (Porto, nº 3 (1910), p. 178-181), e também no tomo IX das Memórias, p. 289-296, onde o mesmo texto é algo alargado com novos exemplos de festas realizadas em outros pontos do distrito. Estas mesmas festas, ditas dos rapazes, de S. Estevão ou conhecidas sob outras designações, difundidas sobretudo no Nordeste Transmontano, foram estudadas por Benjamim Pereira (Máscaras portuguesas. Lisboa: Junta de Investigações do Ultramar : Museu de Etnologia do Ultramar, 1973), trabalho em que se contextualiza o uso do objecto em causa, a máscara, quase sempre presente nesta região. Mais recentemente Cristina Carvalho, Paula Godinho, Maria M. Morais, Rosa Pereira e Maria Manuela Gomes dos Santos contribuiram para a obra Portugal Moderno: Tradições, coordenada por Joaquim Pais de Brito (Lisboa, 1991), com um subcapítulo intitulado «Do Natal aos Reis» (p. 50-58), em que se actualiza a problemática e a bibliografia que se lhe reporta, com particular relevo para um conjunto de trabalhos realizados no início da década de oitenta por alunos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. 4[5] Sobre a actividade de Prisciliano e dos seus seguidores, que no início do último quartel do século IV dC, tendo por ponto de partida o ocidente peninsular «ensinaram doutrinas embuídas de gnosticismo e de maniqueísmo e levavam uma vida de rigoroso ascetismo», condenadas pela igreja veja-se: MATTOSO, José — «O Priscilianismo». In MATTOSO, José (dir.) — História de Portugal. Lisboa: Círculo dos Leitores, 1992, vol. 1, p. 287-289, e Prisciliano y el Priscilianismo. Oviedo: Caja de Ahorros de Asturias, 1982. (Monografías de los Cuadernos del Norte; 1). 4[6] A festa de S. João foi objecto de várias referências ao longo das Memórias, sendo importante o conjunto de dados reunidos no tomo IX, p. 307 a 310, agora acrescentados. Há uma imensa bibliografia sobre esta festa solsticial, podendo o leitor encontrar uma síntese da temática, para Portugal, compilada na obra de OLIVEIRA, Ernesto Veiga de — Festividades cíclicas em Portugal. Lisboa, 1984, p. 119-177. Também

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VAN GENNEP, Arnold — Manuel de folklore français contemporain. Paris: Picard, 1949, tomo 1, vol. 4, nº 2, p. 1727-2092, recolhe um sem número de práticas e tradições sanjoaninas. Para Espanha veja-se, por exemplo: CARO BAROJA, Julio — La estación de amor (festas populares de Mayo a San Juan). Madrid: Taurus, 1978, p. 119-304. 4[7] Ocupando o espaço temporal entre o Carnaval e a Páscoa, a quaresma é um período de poucas manifestações públicas festivas, que são frequentemente substituídas por práticas que têm por objectivo levar os cristãos à contrição (LEAL, João — «A quaresma». In BRITO, Joaquim Pais de — Portugal Moderno: Tradições. Lisboa, 1991, p. 64-70). A figuração da quaresma, como uma velha escanzelada, oposta ao Carnaval, farto e libidinoso, associa-a frequentemente à morte. Este é o tempo de recolhimento e tristeza, de proibições alimentares, sexuais e de muito outro tipo, da encomendação das almas que nos lembra que a vida é curta e a morte certa (DIAS, Margot; DIAS, Jorge — A encomendação das almas. Porto, 1953; ALMEIDA, Carlos Alberto Ferreira de — «Ementação das almas: Rezas da ceia». Revista de Etnografia. Porto. vol. 3, nº 1 (1964), p. 41-68; REBELO, Joaquim Manuel — «A encomendação das almas nos concelhos de Torre de Moncorvo e Freixo de Espada à Cinta». Vila Real. Cadernos Culturais. nº 3 (1978). Apenas a serração da velha que o Abade de Baçal menciona no Tomo IX destas Memórias, p. 301-302 (VASCONCELLOS, J. Leite de — Etnografia Portuguesa. Lisboa, 1982, vol. 3, p. 191-202; PEREIRA, Benjamim Enes — Bibliografia analítica de Etnografia Portuguesa. Lisboa: Centro de Estudos de Etnologia Peninsular, 1965, p. 294-296) quebra este jejum festivo até ao Domingo de Ramos (OLIVEIRA, Ernesto Veiga de — Festividades cíclicas em Portugal. Lisboa, 1984, p. 69-72) e ao renascimento pascal. 4[8] As corridas de touros, em curros improvisados nas praças das povoações e mesmo das cidades ou nos locais de festa de romaria, são uma tradição por todo o Portugal. Idealmente o touro, depois de jogado de improviso por não especialistas ou de corrido com maiores cautelas como acontecia nas corridas à vara larga, na capeia raiana ou na vaca das cordas em Ponte do Lima, seria morto e a sua carne distribuída e comida pelos festeiros. Estas corridas, documentadas desde a Idade Média, relacionadas com festas de bodo, tiveram ponto alto no Espírito Santo e fizeram parte das festas de Corpo de Deus. Como Francisco Manuel Alves refere relativamente a Bragança, o(s) touro(s) inteiros para o Corpus eram frequentemente da obrigação dos carniceiros, a outra corporação competia o levantar do curro improvisado, e aos participantes com coragem o corrê-lo, para gáudio de todos. 4[9] A questão levantada entre vizinhos de ambos os lados da fronteira poderia ter acontecido entre naturais de um só dos países. Ela prende-se com obrigação de respeitar as decisões do Conselho sobre a utilização de terras em comum, sejam elas de que natureza forem. Os portugueses de Mofreita entraram com gado, indevidamente, num prado coutado, e por isso foram multados, ficando-lhes apreendida uma cabeça. Esta(s) forma(s) de utilizar o território tem uma larga tradição de estudo entre nós, sendo relevantes para o Norte de Portugal os trabalhos pioneiros de Rocha Peixoto e, a seu pedido, de Tude de Sousa e Francisco Manuel Alves («Vestígios do regime agrário comunal». Illustração Transmontana. Porto, nº 3 (1910), p. 137-142, resumido no tomo IX das Memórias, p. 348-352). Na região bragançana, além deste, foi o estudo de DIAS, Jorge — Rio de Onor: Comunitarismo agro-pastoril, editado em 1953, que chamou a atenção da investigação

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científica para as especificidades destas comunidades, devendo ser cotejado com as leituras que mais recentemente delas fizeram Brian Juan O’Neill (Proprietários, lavradores e jornaleiras. Desigualdade social numa aldeia transmontana, 1870-1978. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984) e Joaquim Pais de Brito (Retrato de aldeia com espelho. Ensaio sobre Rio de Onor. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1996). [10] O ataque aos baldios vistos, na perspectiva fisiocrata compartilhada pela Academia das Ciências, como um desperdício que retirava da exploração agrícola cuidada uma área considerável do território nacional, teve eco por todo o país nas últimas décadas do século XVIII, com numerosas tentativas de apropriação, divisão, tapamento e arroteamento por parte de particulares, legitimadas pelo alvará de 23 de Julho de 1766 e de 15 de Julho de 1774, mais ou menos bem sucedidas conforme o peso dos litigantes e o contexto de exploração agro-pastoril em que se inseriam. Em diversas regiões eles desapareceram quase integralmente, sem maiores questões. Noutras os povos opuseram-se tenazmente a esta apropriação por privados, frequentemente pessoas estranhas à terra e que por este meio queriam enraizar fortunas e títulos em propriedades socialmente legitimadoras. As autoridades locais ou determinadas corporações entraram nestes pleitos, posicionando-se em conformidade com os seus interesses. Neste caso os povos defendem o seu direito de compáscuo, as autoridades defendem a utilização de grandes áreas para treino militar. Francisco Manuel Alves narra, no artigo «Pedras baloiçantes. Adágios, castros e lendas» (O Archeologo Português. Lisboa. nº 22 (1917), p. 218) a tradição de como sete povos coligados ao de Soutelo expulsaram da Serra de Montesinho um fidalgo que nela se estabelecera, ficando depois com direito aos pastos. Também a política de florestação de baldios activada pelo Estado Novo não mereceu grande respeito ao Abade, que a criticou abertamente a p. 651 deste volume. Sobre o tema veja-se, por exemplo: NUNES, João; FEIJÓ, Rui Graça — «As transformações dos incultos do Noroeste (1750-1900); uma proposta de apreciação». Cadernos de Ciências Sociais. Porto. nº 8 (1990), p. 45-90; RODRIGUES, Manuel — Os baldios. Lisboa, 1987; SILBERT, Albert — Le problème agraire portugais au temps des premières cortès libérales. 2ª ed. Lisboa, 1978, vol. 1; VELOZO, Francisco José — «Baldios, maninhos e exploração silvo-pastoril em comum». Scientia Iuridica. Braga, nº 3 (1953), p. 123-148. [11] A navegabilidade dos rios, particularmente daqueles que ligavam o litoral ao inacessível interior transmontano, foi, desde a segunda metade de setecentos, uma das necessidades infra-estruturais pela concretização da qual batalharam intelectuais e agentes económicos que viam toda a região definhar por falta de acessos ao mercado urbano e litoral que permitissem o escoamento das produções e livrassem a população das contingências impostas pelo autoconsumo. Só para o rio Tâmega conhecemos várias propostas setecentistas, como a da vila de Canaveses, de 1768, a do cirurgião Manuel Leite de Sousa Mourão, de 1788 e uma terceira, anónima. A partir de 1835 começa a ser patente a preocupação do estado em criar as infra-estruturas viárias necessárias à formação do mercado nacional, tendo para esta rede grande interesse a articulação entre as vias terrestres, então pouco mais do que esboçadas, e as fluviais. Sirva de exemplo para o Tâmega o estudo de 1844, com pormenores técnicos, publicado pelo Visconde de Vilarinho de São Romão. Veja-se SOEIRO, Teresa — «Penafiel. O Tâmega de ontem». Penafiel. Boletim Municipal de Cultura. Penafiel, 3ª série, nº 4/5 (1987/88) e O progresso também chegou a Penafiel. Porto. 1993, p. 588-592.

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[12] Ver nota [10]. [13] Como já acontecera antes em relação às crendices e supertições, também em relação às lendas Francisco Manuel Alves não vai poupar elogios à criatividade do povo. Este colectivo não só encontra formas próprias para se exprimir, como é fonte de inspiração onde bebem os profissionais da produção literária, usando-a e transmitindo-a em versão erudita. A recolha de lendas estava no programa dos mestres da etnografia portuguesa oitocentista, tendo o seu interesse efeito multiplicador junto aos etnógrafos locais, como dissemos em relação aos outros dois temas acima mencionados. Não surpreende por isso que Francisco Manuel Alves figure no índice dos colaboradores e narradores da grande compilação de VASCONCELOS, José Leite de — Contos populares e lendas. Coimbra, 1963/66. Nos outros dois tomos das Memórias também dedicados à Etnografia recolhem-se muitas lendas. [14] Sobre as confrarias de bêbados de S. Martinho, dedicadas a este santo se compostas por homens e a Santa Bebiana se de mulheres, bem como os demais festejos desta data veja-se: OLIVEIRA, Ernesto Veiga de — Festividades cíclicas em Portugal. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1984, p. 193-202. [15] A figura do abafador nas aldeias transmontanas de cripto-judeus serviu de motivo ao conhecido conto de Miguel Torga «O Alma Grande» (Novos contos da montanha. 5ª ed. Coimbra, 1967, p. 15-24). [16] O estudo dos falares regionais era tema em voga no círculo leiteano, como se pode facilmente inferir do número de livros e artigos dedicados a esta temática, não só pelo mestre mas também por colaboradores dispersos, que os remetiam para publicação na Revista Lusitana. Francisco Manuel Alves tratou-o, pelo menos, em dois trabalhos. O primeiro, «uma grande colecção de palavras populares bragançanas» (Memórias X, p. 635), de 1916, foi remetido para a Academia de Ciências de Portugal, a pedido de Oscar de Pratt e dele nunca mais teve notícia. Em 1942 o Abade responderá ao Inquérito Linguístico Boléo, enviado aos párocos e outros agentes culturais de todo o país. É bem possível que haja alguma sobreposição entre estes trabalhos e a Linguagem popular publicada neste tomo XI, como já salientou Hirondino da Paixão Fernandes (O Inquérito Linguístico Boléo (ILB) no Distrito de Bragança. Vila Real. Cadernos Culturais. 2ª série, nº 2 (1987), p. 15 e 39). Francisco Manuel Alves tinha o hábito de republicar textos, por vezes alterando-os em parte ou resumindo-os, como indicamos noutras notas. Sobre os falares desta região, na linha do Inquérito Linguístico Boléo, embora não incluindo Baçal, veja-se: SANTOS, Maria José de Moura — Os falares fronteiriços de Trás-os-Montes. Coimbra, 1967, com muita bibliografia, bem como a citada no trabalho de Hirondino da Paixão Fernandes acima referido. [17] Sobre o rifoneiro ver nota 1 ao tomo X destas Memórias. [18] Para uma perspectiva de conjunto sobre as rocas portuguesas, de entre as quais as do distrito de Bragança se destacam pela profusão decorativa, veja-se: OLIVEIRA, Ernesto Veiga de; GALHANO, Fernando; PEREIRA, Benjamim — Tecnologia tradi-

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NOTAS DE REVISÃO

TOMO XI

cional portuguesa: o linho. Lisboa: INIC — Centro de Estudos de Etnologia, 1978, p. 85-101. [19] Sobre o cancioneiro ver nota 3 ao tomo X destas Memórias. [20] Ver nota [10] deste tomo. [21] O Abade de Baçal, como fonte de informação credível sobre assuntos transmontanos, foi consultado por Castelo Branco e Castro quando este escrevia sobre imagens do Menino. No artigo se transcreve a carta de Francisco Manuel Alves, ao mesmo tempo que se compara o Menino de Miranda com outras imagens milagrosas: CASTRO, J. Castelo Branco — «Variatio delectat IV Menino Jesus, imagens miraculosas célebres». O Lar do Médico. Porto, vol. 3, nº 29 (Dez. 1945), p. 70-72 e 74. Sobre diversas imagens do Menino que usam vestuário veja-se: FORTUNA, Elisa — «Imagens vestidas do Menino Jesus — Séculos XVI, XVII e XVIII». Brigantia. Revista de Cultura. Bragança, vol. 2, nº 2/3 (Abr./Set. 1982), p. 315-332. [22] As danças com paus, de que em Portugal se conhece hoje como exemplo maior a dos Pauliteiros de Miranda, teriam sido em tempos muito mais vulgares, encontrando-se frequentemente presentes nas procissões de Corpo de Deus, onde também tinham lugar as danças com espadas, instrumento que, por perigoso, as autoridades foram mandando substituir por paus. Não queremos porém dizer que tanto danças de espadas como de paus, quase sempre para homens, sejam exclusivas desta festa ou tenham origem nela. Pelo contrário, estas encontram-se bem documentadas em Espanha, danças antigas, ligadas ao ciclo de Verão, como estudou CARO BAROJA, Julio — El estio festivo. Fiestas populares del verano. Madrid: Taurus, 1984. Para vários estudos sobre estas danças em Portugal ver: PEREIRA, Benjamim Enes — Bibliografia analítica de Etnografia Portuguesa. Lisboa: Centro de Estudos de Etnologia Peninsular, 1965, p. 580-588. Francisco Manuel Alves fala desta dança (causa de alguns dissabores) noutras ocasiões, como por exemplo nas Memórias (tomo IX, p. 241 e 502-512), resumido no Guia de Portugal. Trás-os-Montes e Alto-Douro. II — Lamego, Bragança e Miranda. 2ª ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1988, vol. 5, p. 991-993.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


ÍNDICE

697 TOMO XI

Págs.

ÍNDICE do tomo XI das Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança


ÍNDICE

699 TOMO XI

Págs.

Págs.

A Abreu e Lima (Frei Paio de) ..................................................................................... Açoreira ................................................................................................................ 83 e Acta da placa de bronze ............................................................................................ Água .............................................................................................................................. Aguieiras .................................................................................................... 245, 246 e Alarcão (Rui de Figueiredo) ..................................................................................... Alimentos, seu preço no século XVIII ......................................................... 118 e Almeida (Américo de) ............................................................................................... Almeida (António Caetano de) ................................................................................ Almeida (Humberto Augusto de) ............................................................................ Almendra (António Gomes de) ............................................................................... Alva (D. Julião de), bispo de Miranda .................................................................... Alvaredos, de Gostei .................................................................................................. Alves (Francisco Manuel) ......................................................................................... Alvites .......................................................................................................................... Amado (Adrião Martins) .......................................................................................... Ansiães ......................................................................................................................... Angueira ...................................................................................................................... Apodos irritantes e epigramáticos ......................................................................... Arcas ............................................................................................................................. Ardães, concelho de Chaves ..................................................................................... Artilharia ..................................................................................................................... Artilharia, quatro peças para Bragança, uma para Outeiro e uma para Monforte de Rio Livre ................................................................................................. Arnut (D. Beatriz) ...................................................................................................... Avelanoso (António José Pires) ............................................................................... Aveleda ......................................................................................................................... Aves migratórias ........................................................................................................ Avidagos ............................................................................................................. 93 e Avinhó ................................................................................................................. 94 e Azibo ................................................................................................................... 94 e

1 558 688 647 558 613 119 1 613 613 614 4 614 1 244 378 378 562 298 434 238 125 124 2 3 525 3 558 558 558

B Babe .............................................................................................................................. Baldios ......................................................................................................................... Baldios paroquiais ..................................................................................................... Barroso (António Alexandre Pegado de Sousa) .............................................. 4 e Batatas, sua cultura ....................................................................................................

MEMÓRIAS

ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO

DISTRITO

DE

339 232 559 433 239

BRAGANÇA


700

ÍNDICE

TOMO XI

Págs.

Boa, Boas ..................................................................................................................... Bispos de Bragança e Miranda .......................................................................... 4 e Brás (José) ................................................................................................................... Brasil ............................................................................................................................ Bruçó ............................................................................................................................ Brunheda .......................................................................................................... 101 e Bragança: Castelo ................................................................................................................... Confraria de Santiago .......................................................................................... Lepra ...................................................................................................................... Telefone ................................................................................................................. Seu estado económico, tributos, comércio, seda, população. Fome, resultado da má alimentação. Vinho e nabos .................................................... Defesa da cidade em 1642 ................................................................................... Campo baldio junto ao Forte de Cavalaria amordomado por Francisco Ferreira Sarmento .......................................................................................... Ponte das Ferrarias .............................................................................................. Genealogias ........................................................................................................... Manuscritos do museu e arquivo distrital adjunto ........................................ Correspondência episcopal ................................................................................. Correspondência do Governo Civil .................................................................. Concursos paroquiais .......................................................................................... Habilitações de genere para párocos, cónegos, frades e freiras ..................... Para a história da Nação, diocese e arte ........................................................... Devassas acerca do comportamento do clero .................................................. Capelas com vínculos de morgadio ................................................................... Breves de indulgências ........................................................................................ Palestras e conferências ....................................................................................... Demandas .............................................................................................................. Forais ...................................................................................................................... Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs, feito em 1501 em pergaminho ........................................................................................................... Doações e privilégios ........................................................................................... Tombo dos bens do benefício de São Vicente, feito em 1674 ...................... Tombo dos bens do cabido de Miranda, feito em 1691 ................................ Manuscritos antigos, dois volumes ................................................................... Regislo Maior da Câmara Municipal de Bragança, seis grandes in-fólios do século XVII ao XIX .................................................................................. Capítulos especiais dados nas Cortes do reino ................................................ Tombo do almoxarifado da Casa de Bragança, isto é, relação dos bens que possuía a Casa de Bragança .................................................................. Casa de Bragança, Vila Alva, Castelo de Alvelia, onde foi a primitiva cabeça dos povos bragançanos antes de ser Bragança ............................. Bragança, etnologia ........................................................................................ 100 e

562 451 9 120 583 558 6 8 9 9 119 122 232 338 378 382 382 382 382 383 383 383 383 383 383 383 383 383 384 384 384 384 384 390 391 406 558

C Cabar ............................................................................................................................ Cabreira ............................................................................................................ 101 e

MEMÓRIAS

ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO

DISTRITO

DE

582 558

BRAGANÇA


ÍNDICE

701 TOMO XI

Págs.

Calabor, povo espanhol que foi português ............................................................ Calaínhos ..................................................................................................................... Calejo (Alberto Henrique Machado) ...................................................................... Camelo (Alípio Albano) ............................................................................................ Caminho-de-ferro do Pocinho a Miranda ............................................................ Campilho (Alfredo Aníbal de Morais) ................................................................... Campilho (Augusto César de Morais Sarmento) .................................................. Campilho (Pedro Vicente de Morais Sarmento) ....................................... 321 e Cancioneiro bragançano ................................................................................. 12 e Candedo ............................................................................................................ 103 e Caprinos, preço da sua carne ................................................................................... Cardoso (Manuel Joaquim) ...................................................................................... Carção .......................................................................................................................... Carriça ................................................................................................................ 106 e Carro rural .................................................................................................................. Carvalho (D. Rui Lopes de), bispo de Miranda .................................................... Carvalho (Alberto de Morais Faria de) .................................................................. Carviçais ........................................................................................................... 338 e Castedo ..................................................................................................... 106, 441 e Castro (João de), de Linhares .................................................................................. Castro (Padre José António de), Monsenhor de Bragança ........................... 13 e Castro (D. Rodrigo de) ............................................................................................. Castro de Avelãs ......................................................................................................... Castro Vicente ............................................................................................................ Cércio ................................................................................................................. 563 e Cerdedo ............................................................................................................ 106 e Cernadela ......................................................................................................... 108 e Chacim ...................................................................................................... 108, 423 e Chaves. Desamortização dos baldios paroquiais ........................................ 239 e Chelas ........................................................................................................................... Chousa ......................................................................................................................... Coelhoso ...................................................................................................................... Coleja ........................................................................................................................... Colmeias ...................................................................................................................... Confrarias de bêbados de S. Martinho ................................................................... Cordeiro (Luciano) .................................................................................................... Corpo de Deus ............................................................................................................ Correia (Francisco António), ministro de Estado ................................................ Correia (João de Araújo) .......................................................................................... Correia (Maximino) .................................................................................................. Correio, novo edifício ............................................................................................... Corridas de touros ..................................................................................................... Cortiços ....................................................................................................................... Cortês (Alfredo) ......................................................................................................... Costa (Delfim) ............................................................................................................ Cruz (João Baptista da) ............................................................................................. Couços .............................................................................................................. 111 e Cota (António Pimentel da), lente de Coimbra, natural de Moncorvo ............ Couraça (Lourenço), lente de Coimbra, natural de Moncorvo .......................... Coutinho (Francisco de Moura) ..................................................................... 13 e

MEMÓRIAS

ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO

DISTRITO

DE

447 314 9 12 587 620 620 620 621 558 118 632 348 558 343 4 632 632 558 12 633 634 634 635 636 559 559 559 242 563 559 637 580 559 259 642 118 13 643 643 620 119 559 644 645 645 559 13 13 645

BRAGANÇA


702

ÍNDICE

TOMO XI

Págs.

Crendices: Adivinhações, preservativos, encantamentos, escritos, placas, prognósticos, cura de moléstias, feitiços, destruição de frutos por trovões e magia. Origem pagã das crendices ..................................................... 14 e Disposições das Ordenações do Reino sobre crendices ................................... Idem das Constituições dos bispados ................................................................. Agouros, presságios, sua origem, proveniente dos egípcios .......................... Caçadores .............................................................................................................. Pedras de raio ....................................................................................................... Santas pedras .................................................................................. 22, 25, 26 e Fogueiras ............................................................................................................... Lua ........................................................................................................... 22, 28 e Ainda os agouros, dias nefastos ao trabalho .................................................... Árvores rachadas para efeitos curativos. Lua, seus efeitos. Festa dos rapazes .............................................................................................. 28, 80 e Folguedos do S. João ............................................................................ 30, 66 e Procissões às portas e encruzilhadas dos caminhos. Gargantilhas ao pescoço. Tentâmen interpretativo das superstições ....................................... Árvores, aves e outros animais ........................................................................... Descobertas científicas ........................................................................................ Espinhela caída ..................................................................................................... Economia rural ..................................................................................................... Espirros .................................................................................................................. Fomento agrícola e dignificação agrária ........................................................... Frieiras ................................................................................................................... Galinhas a chocar ................................................................................................. Hidroterapia e banhos ......................................................................................... Higiene ................................................................................................................... Humanismo e caridade ....................................................................................... Impressionismo, sugestão, reacção .................................................................... Os casos de Baçal e Aveleda ............................................................................... Raquitismo ............................................................................................................ Sistemas filosófico-teológicos esparsos nas superstições ............................... Ratos ....................................................................................................................... Índice remissivo das crendices ........................................................................... Mencionam-se 260 nomes de acções humanas, árvores, animais, aves, funções religiosas, ligados a crendices, entre os quais se trata de arresponsadeiras, encantamentos, escritos e feiticeiras ........................... 76 e Fogueiras ............................................................................................................... Mono (feitiço do) ................................................................................................ Morte, mortos ....................................................................................................... Natal (festas do) ................................................................................................... Sábia (mulher) ...................................................................................................... Tempestades .......................................................................................................... Varinha do condão e mil outras diabruras que nem ao diabo lembram .... Extinção das crendices ........................................................................................ Crendices predominantes nos bragançanos ..................................................... Lobisomem ............................................................................................................ Feiticeiras ............................................................................................................... Cultura da batata .......................................................................................................

MEMÓRIAS

ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO

DISTRITO

DE

105 15 17 21 21 22 58 20 529 508 112 99 38 46 47 48 51 53 53 55 56 57 58 58 59 63 63 63 65 66

508 83 88 89 90 98 104 104 106 108 115 115 412

BRAGANÇA


ÍNDICE

703 TOMO XI

Págs.

D Deusdado (Domingos Augusto de Miranda), advogado ..................................... Dine (Agostinho José Lopes), escultor .................................................................... Discóides (Estelas) .......................................................................................... 242 e Dispensário Antituberculoso .................................................................................. Documentos. Preço da carne de vaca, chibo, boi, cabra, Corpus Cristi (festa do), Touros (corrida de) ..................................................................................... Doutéis, de Bragança .................................................................................................

117 118 430 621 118 245

E Ensino ................................................................................................................ 553 e Ervedosa ........................................................................................................... 342 e Ervideiro ou Ervedeira ............................................................................................. Etnografia ......................................................................................................... 248 e Excursões bragançanas ............................................................................................. Pitéus, folar, torradeiro, trutas, frutas, vistas panorâmicas, 111, 304, 308 e

646 559 559 647 303 413

F Facho ............................................................................................................................ Faria (Eduardo Ernesto de) ...................................................................................... Faria (D. José Lopes Leite de), bispo de Bragança ............................................... Felgar ................................................................................................................. 114 e Felgueiras .................................................................................................................... Felgueiras Júnior (Francisco do Patrocínio) ......................................................... Fermil ................................................................................................................ 115 e Fernandes (António Félix), de Vale da Pena ......................................................... Fernandes (Henrique João de Barahona), de Vinhais ............................... 313 e Fernandes (Manuel António da Ressurreição), vigário capitular ...................... Ferreira (José Maria), de Pombares, cónego da Sé de Bragança ........................ Ferreira (Manuel Gonçalves Cordeiro de) ............................................................. Ferreiras, de Bragança (Calaínhos) ......................................................................... Ferreiros bragançanos .............................................................................................. Festa dos rapazes ........................................................................................................ Figueiredo (José), crítico de arte ............................................................................. Figueiredo (D. Miquelina Adelaide Ferreira de Castro), assassina por ciúmes Figura da morte em Quarta-feira de Cinzas .......................................................... Florestal (Regime) ..................................................................................................... Fogueiras ..................................................................................................................... Fonseca (Telmo Rui Vaz da) .................................................................................... Fontoura (Álvaro Eugénio Neves da) ..................................................................... Fortificações ................................................................................................................ França, concelho de Bragança .................................................................................. Freixo de Espada à Cinta .............................................................. 315, 525, 557 e Frutuoso (Gaspar), da Ponta Delgada, professor no Colégio de São Pedro em Bragança ..........................................................................................................

MEMÓRIAS

ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO

DISTRITO

DE

650 313 6 341 114 313 559 313 650 601 314 650 314 339 62 315 314 107 651 514 652 123 123 340 589 320

BRAGANÇA


704

ÍNDICE

TOMO XI

Págs.

Funerais ....................................................................................................................... Funerais, deixas testamentárias, caridade antiga e actual ....................................

321 520

G Galo .............................................................................................................................. Galvão (Joaquim de Santo Agostinho de Brito França), Vigário apostólico da Diocese de Bragança ............................................................................................ Gastronomia ..................................................................................................... 304 e Gebelim ........................................................................................................................ Gomes (António Carlos) ........................................................................................... Gonçalves (Horácio de Assis) ....................................................................... 321 e Gonçalves (Maximiano Augusto) ............................................................................ Governadores Civis ................................................................................................... Granja ............................................................................................................... 121 e Grotesco (Arte) ........................................................................................................... Guadramil ................................................................................................................... Guerra (Francisco Maria) ......................................................................................... Guerra (Ramiro Maximiano), médico .................................................................... Guerra Junqueiro (Abílio Manuel) ......................................................................... Guerra Peninsular ..................................................................................................... Guerras da Restauração (1640-1668) ..................................................................... Guerras da Sucessão (1700-1713). Documento do arquivo de Simancas onde se mencionam 51 povoações espanholas conquistadas pelos mouros nas fronteiras espanholas e os desmandos da soldadesca .......................... 125 a Guerras Napoleónicas .................................................................................... 335 e Gulpilheiras ................................................................................................................ Gulpinhas ....................................................................................................................

648 321 312 341 653 655 655 321 559 322 340 334 334 323 425 334

215 425 216 216

H Habilitação de genere de ordinandos, e de outros que ficaram só em ordens menores, pertencentes a todas as povoações da diocese e a muitas estranhas espanholas .................................................................................................... Hermisende, povo galego. Ver Mofreita ................................................................. Hospitais e assistência pública no distrito de Bragança ....................................

385 215 336

I Ifanes ............................................................................................................................ Impostos ...................................................................................................................... Indiferença miserável pela história da nossa terra nos que tinham obrigação de cooperar no seu desenvolvimento. Triste sintoma de educação mental Indústrias bragançanas, ferro, ferreiros ..................................................... 337 e Instrução e estudos ................................................................................................... Intercâmbio trasmontano-galaico .......................................................................... Izeda .......................................................................................................... 123, 260 e

MEMÓRIAS

ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO

DISTRITO

DE

342 120 411 339 343 344 344

BRAGANÇA


ÍNDICE

705 TOMO XI

Págs.

J Jornais e publicações periódicas ............................................................................. Judeus ............................................................................................................... 346 a

344 348

L Labiados ....................................................................................................................... Lactário ........................................................................................................................ Lagoaça ........................................................................................................................ Lago (Francisco Pessanha Pereira do), das Arcas .................................................. Lamas de Orelhão ...................................................................................................... Landedo ............................................................................................................ 125 e Lendas e tradições ..................................................................................................... Amo e criado ........................................................................................................ Andorinha .................................................................................................. 252 e Bom proveito ........................................................................................................ Burros (lavrar com) ............................................................................................. Calino ..................................................................................................................... Casamento ............................................................................................................. Cego e compadre .................................................................................................. Ciganos .................................................................................................................. Compadre da morte ............................................................................................. Credo do borracho .................................................................................... 258 e Doutrina cristã parafraseada .............................................................................. Donzelas (tributo das) ......................................................................................... Estrada de São Tiago ........................................................................................... Famílias de origem cavalar — Perversão da mocidade universitária .......... Fantasias económicas ........................................................................................... Fatalismo ............................................................................................................... Faze bem, não cates a quem ............................................................................... Ferro, sua soldadura ............................................................................................ Filho pródigo ........................................................................................................ Funerais ................................................................................................................. Gato ........................................................................................................................ Graça Divina ......................................................................................................... Guardas fiscais, escrivães e empregados da fazenda ....................................... Guerra do leão e do grilo .................................................................................... Intrujices ................................................................................................................ Justiça (A) ............................................................................................................. Lobo penitente ...................................................................................................... Mau vizinho .......................................................................................................... Médico molieriano ............................................................................................... Medronheiro ......................................................................................................... Mocho .................................................................................................................... Mulher enterrada viva .............................................................................. 280 e Mulheres ................................................................................................................ Ninhos de aves ...................................................................................................... Números 3, 7, 9 e 13 ...........................................................................................

MEMÓRIAS

ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO

DISTRITO

DE

351 621 32 434 551 560 301 252 299 253 300 256 300 259 257 257 299 300 303 301 267 268 268 269 270 270 270 271 271 272 272 276 276 278 278 279 279 501 301 280 281 302

BRAGANÇA


706

ÍNDICE

TOMO XI

Págs.

O mundo censura tudo ....................................................................................... Ovelha .................................................................................................................... Passa tu que tienes lana; passa tu que lana tienes .......................................... Pisco ou porco-pisco ........................................................................................... Porco-montês ....................................................................................................... Prudências e insolências ...................................................................................... Quem mais trabalha nem sempre é quem mais recebe .................................. Rapariga que se disfarça em homem para substituir o pai na guerra .......... Raposa e suas manhas ......................................................................................... Rato caseiro e rato campestre ............................................................................ Remendão .............................................................................................................. Rouxinol ................................................................................................................ Sapo e seus arreganhos ........................................................................................ Sermão de S. Martinho, patrono dos bêbados ................................................ Sete ofícios ............................................................................................................ Trasgo .................................................................................................................... Uns comem os figos e a outros... ...................................................................... Vinho ..................................................................................................................... Viúva inconsolável ............................................................................................... Ligares ............................................................................................................... 126 e Linguagem popular bragançana ............................................................................. Lobisomem ....................................................................................................... 564 e Lobo (Francisco Miranda da Costa) ........................................................................ Lopes (José Manuel Miranda), prior de Argozelo ................................................ Lopes (Norberto) .......................................................................................................

282 279 283 286 278 288 289 290 291 292 293 303 295 261 294 295 295 296 297 560 352 648 375 376 376

M Macedo ......................................................................................................................... Mahide, povo espanhol, que foi português ............................................................ Mairos .......................................................................................................................... Malhadas .......................................................................................................... 339 e Manuscritos ..................................................................................................... 378 e Maria da Fonte — Patuleia ...................................................................................... Marmelos ..................................................................................................................... Martins (António Júlio Pimentel) ........................................................................... Martins (Firmino Augusto) ...................................................................................... Martins (José Bernardo Pereira) .............................................................................. Matos (António Alexandre de) ................................................................................ Meãos, concelho de Montalegre .............................................................................. Meixedo ............................................................................................................ 379 e Meles ............................................................................................................................ Meneses (D. Miguel António Barreto de), bispo de Bragança ............................ Menino Jesus da Cartolinha ..................................................................................... Milhão, concelho de Bragança ................................................................................. Minerais ....................................................................................................................... Miranda (Manuel da Trindade Gonçalves) ............................................................ Miranda do Douro — Capítulos especiais apresentados nas Cortes do reino ...................................................................................................... 420 e Caminhos-de-Ferro ..............................................................................................

MEMÓRIAS

ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO

DISTRITO

DE

560 447 246 376 382 415 560 417 418 418 419 243 560 604 5 661 419 342 419 581 587

BRAGANÇA


ÍNDICE

707 TOMO XI

Págs.

Mirandela — Inauguração da rede telefónica ....................................................... Moedas romanas ........................................................................................................ Mofreita, barulho com os galegos de Hermisende ............................................... Mogadouro, genealogias ........................................................................................... Moncorvo ......................................................................................................... 340 e Genealogias ........................................................................................................... Capítulos especiais dados nas Cortes do reino ................................................ Capelas ....................................................................................... 134, 425, 524 e Monforte de Rio Livre ............................................................................................... Montanha (D. Felismina da Assunção Furtado) ................................................... Morais (Francisco de), autor do Palmeirim .......................................................... Morais (Inácio de), de Bragança .............................................................................. Moreira (Manuel de Sousa), abade de Sambade ................................................... Moreno (Augusto César) .......................................................................................... Moura Coutinho (Francisco de) .............................................................................. Mourinho (António Maria) ...................................................................................... Mulheres (teimosia das) ............................................................................................ Múrias ..........................................................................................................................

421 421 215 379 379 421 421 561 124 426 426 427 427 427 428 428 648 561

N Nabos ........................................................................................................................... Neves (Luís Gonzaga de Morais Teixeira) .............................................................. Nomes luso-romanos: Bovtio ..................................................................................................................... Cænonis .................................................................................................................. Clouti ...................................................................................................................... Jemuria ................................................................................................................... Matugeni ................................................................................................................ Pintovio .................................................................................................................. Seneciani ................................................................................................................

121 429 602 594 602 594 602 602 500

O Obras públicas ............................................................................................................ Oliveira (António Augusto de) ................................................................................ Oliveira (José de), de Niza ....................................................................................... Osseira ......................................................................................................................... Ousilhão — (Genealogias) ....................................................................................... Outeiro .............................................................................................................. 124 e

548 429 429 561 379 429

P Paçó .............................................................................................................................. Paisagem duriense ..................................................................................................... Paisagens ..................................................................................................................... Palaçoulo, lápide funerária, estudo sobre as lápides discóides ........................... Paradela, concelho de Monforte, hoje Chaves ........................................... 424 e Paredes ......................................................................................................................... Pastoreio e arte pastoril ...........................................................................................

MEMÓRIAS

ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO

DISTRITO

DE

561 311 284 430 524 342 343

BRAGANÇA


708

ÍNDICE

TOMO XI

Págs.

Pastos do Concelho .................................................................................................... Patuleia ........................................................................................................................ Pena Fria ...................................................................................................................... Penas Róias ................................................................................................................. Peredo, concelho do Mogadouro ............................................................................ Pereira (D. Francisco), bispo de Miranda .............................................................. Pereira (Joaquim Mendes) ....................................................................................... Pereira (José Manuel Martins) ................................................................................. Picote ............................................................................................................................ Pimentel da Costa (António) ................................................................................... Pinela ........................................................................................................................... Pinhatel Belerma (Francisco Xavier Robalo da Gama), de Freixo de Espada à Cinta .................................................................................................................... Pinheiro (D. António), bispo de Miranda ............................................................. Pinheiro (António Esteves) ...................................................................................... Pombares .......................................................................................................... 144 e Povoações criadas de novo ...................................................................................... Povoações mortas ...................................................................................................... Prado (Gil do), primeiro deão da Sé de Miranda ................................................. Práticas e representações tradicionais ................................................... 14, 505 e Pré-história ................................................................................................................. Priscilianismo ............................................................................................................. Publicações anónimas ...............................................................................................

216 415 279 433 434 5 434 434 435 436 341 436 5 437 561 437 437 441 647 441 63 441

Q Quina (Eduardo Augusto Vaz de) ........................................................................... Quintela (D. Abília Augusta do Carmo Vaz Granjo) ........................................... Quintela (Paulo Manuel Pires), de Bragança, lente da Universidade de Coimbra ................................................................................................................. Quintela de Lampaças ............................................................................................... Quirás ..........................................................................................................................

443 443 443 444 445

R Rabal ............................................................................................................................. Raia divisória entre Portugal e Espanha, suas alterações Mahide, Calabor e outras povoações espanholas pertencentes a Portugal ............................. Raposa, lobo e suas astúcias .................................................................................... Real de Água ............................................................................................................... Registo Paroquial: Diversos livros do concelho de Chaves e Mirandela ...................................... Livros existentes no Arquivo do Paço Episcopal desde meados do século XVI, das povoações da diocese ............................................. 388 e Rego (António Balbino), médico ............................................................................. Reguengos ................................................................................................................... Ribalonga — (Genealogias) ...................................................................................... Ribeiro (Joaquim Pedro Vitorino) ..........................................................................

MEMÓRIAS

ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO

DISTRITO

DE

447 447 460 119 380 449 449 449 379 450

BRAGANÇA


ÍNDICE

709 TOMO XI

Págs.

Ribeiro (José M. Gomes) .......................................................................................... Ribeiro (Manuel António), de Mirandela, maestro .............................................. Rifões populares ......................................................................................................... Rio de Fornos ............................................................................................................. Rios Tâmega, Tua e Sabor — Sua navegação ........................................................ Rocas trasmontanas .................................................................................................. Rocha (Filipe Trajano Vieira da) ............................................................................. Rocha (Manuel da Costa) ......................................................................................... Rodrigues (Alfredo José) .......................................................................................... Rodrigues (António Augusto Gonçalves) .............................................................. Rodrigues (António Evangelista), tenente ............................................................. Rodrigues (António José), lente da Universidade do Porto ................................ Rodrigues (Daniel José) ............................................................................................ Rodrigues (Francisco), véu de cálix ........................................................................ Rodrigues (José Manuel) .......................................................................................... Rodrigues (D. Júlia Sofia Borges da Veiga Barreira), de Quirás ........................ Rodrigues (Manuel Maria Sarmento), de Freixo de Espada à Cinta ................. Rodrigues (Miguel José), da Varge ......................................................................... Rodrigues (Tomás José), véu de cálix ..................................................................... Rubiães, concelho de Montalegre ............................................................................

450 450 451 468 239 470 470 470 471 471 472 471 472 472 473 473 473 475 475 242

S Sá (Joaquim Guilherme Cardoso de), de Bragança .............................................. Sá (José António de), de Bragança .......................................................................... Sá Machado (António de), de Alfândega da Fé ..................................................... Sá (Manuel de), de Peredo, concelho de Moncorvo ............................................. Saavedra (José Pinto da Cunha), presbítero, de Provesende .............................. Sá Vargas (António Júlio de), de Bragança, excerto de cartas escritas .............. Sacoias .......................................................................................................................... Sales (Ernesto Augusto Pereira) .................................................................... 480 e Salgado de Andrade (Carlos Alberto), de Carviçais ............................................. Salgueiros .................................................................................................................... Sambade ...................................................................................................................... Sampaios, senhores de Vila Flor e outras terras no distrito de Bragança ......... Sampaio (Francisco Xavier Ribeiro de) .................................................................. Sampelayo (Primitivo Hernandez de), fidalgo galego .......................................... Sanceriz ........................................................................................................................ Santiago, Montalegre ................................................................................................. Santiago (António Manuel), de Felgar, cónego e professor do seminário ....... Santos (Frei Francisco dos) e mais seis frades defenderam uma tese no Convento de São Francisco de Bragança em 1734 ................................................. Santos de Carvalho (Lopo), de Bragança ............................................................... Santos Júnior (Joaquim Rodrigues dos), lente da Universidade do Porto ....... Santuário mariano ............................................................................................. 67 e Sao Fins da Castanheira ........................................................................................... Sao Martinho da Angueira ....................................................................................... São Martinho do Peso .................................................................................... 486 e Sarmento (Alfredo de Morais), tenente, assassinado em Luanda ......................

MEMÓRIAS

ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS

DO

DISTRITO

DE

476 471 479 478 478 494 480 561 480 561 427 485 482 486 488 242 486 487 493 487 305 589 342 557 487

BRAGANÇA


710

ÍNDICE

TOMO XI

Págs.

Sarmento (António José Pinheiro de Figueiredo) ................................................ Sarmento (Francisco Ferreira) ................................................................................. Sarmento (Jacob de Castro), notável médico judeu, de Bragança ..................... Sarmento (João Ferreira), de Vinhais, barão, visconde e conde ........................ Sarmento (José de Morais), de Vinhais, fundador do Convento de São Francisco ................................................................................................................ Sarzeda ......................................................................................................................... Seabra (António Luís de), jurisconsulto................................................................. Seara Velha, concelho de Chaves ............................................................................ Seda ........................................................................................................... 120, 240 e Segirei .......................................................................................................................... Seixo, Seixas ..................................................................................................... 155 e Selores ............................................................................................................... 155 e Sepúlveda (Francisco Xavier Gomes de), abade de Rebordãos .......................... Sepúlveda (Manuel Jorge Gomes de), tenente-general ........................................ Sepúlveda Bustamante, pintor, de Vale da Porca ................................................ Serpa Pinto (Rui Correia de), do Porto ................................................................. Silva (José Álvares da), de Bragança ....................................................................... Silva (Luís Álvares Nunes da), de Bragança ........................................................... Sinagoga de Bragança ............................................................................................... Soares (Álvaro Augusto Pinto), médico de Mirandela ......................................... Sol ................................................................................................................................ Sousa (José Luís de), engenheiro do Souto, concelho de Vila Pouca de Aguiar .................................................................................................................... Soutelo .............................................................................................................. 159 e Suçães ........................................................................................................................... Superstições: Água benta ............................................................................................................ Cabelos ................................................................................................................... Casamento ............................................................................................................. Cobra ..................................................................................................................... Coruja .................................................................................................................... Dias fastos e nefastos ........................................................................................... Episódios dos literatos ouvidos na lenda popular .......................................... Espirros .................................................................................................................. Feiticeiras ...................................................................................................... 76 e Fogueiras ............................................................................................................... Funerais, deixas testamentárias, caridade antiga e actual .............................. Hábito eclesiástico, templos e alfaias ................................................................ Lobisomem ............................................................................................................ Lua ........................................................................................