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tando, recitavam versos antigos, que no tempo de Horácio já poucos entendiam e no Quintiliano nem os próprios sacerdotes (677). Igualmente nelas perduraram ritos das festas Megalesianas, celebradas pelos Galos, sacerdotes de Rhea, no dia 5 de Abril, tocando tímpanos e címbalos, correndo agitados, quase enfurecidos, por toda a parte, pronunciando seus vaticínios e castrando-se no auge do furor (678). Baco, Deus do vinho (que também tinha festas especiais Meditrinales a 30 de Setembro, em honra do vinho novo), aparece ornado pelo tirso enramalhado de hedras, porque este arbusto impele à embriaguez, segundo criam os antigos, e de cornos na cabeça, porque o vinho impele a audácia, a qual é simbolizada por aqueles apêndices cornígeros (679). As Bacanais, também chamadas Dionisíacas, de Dionísio, nome de Baco, eram celebradas pelas bacantes, sacerdotisas deste Deus, que desgrenhadas, vestidas de peles de tigres, panteras e outros animais, tochas acesas na mão, cercadas de hedra e parras, empunhando tirso armado, como fica dito, corriam de noite pelas ruas, acompanhadas de tocadores de címbalos e clarins, soltando gritos horríveis. No cortejo ingressavam homens vestidos de sátiros, montados em burros e levando bodes para o sacrifício (680). Passemos agora a resenhar os vestígios destes cultos existentes na região bragançana. A FESTA DOS RAPAZES [152] Em muitas aldeias do concelho de Bragança, como Baçal, Sacoias, Aveleda, Varge, França e outras, os moços solteiros de dezasseis anos para cima, juntam-se no dia 26 de Dezembro, festa de Santo Estêvão (em Baçal a reunião é a 6 de Janeiro, festa dos Reis), chamam gaiteiro para os acompanhar na estúrdia; comem uma vitela comprada com o produto de trabalhos agrícolas, geralmente malhadas (debulha de centeio); percorrem a povoação mascarados e vestidos de fatos felpudos de variadas cores, em algazarra louca de gritaria ensurdecedora, soltando estrídulos hi, gu, gus (681) durante esse dia e seguinte, inclusas as respectivas noites, tendo previamente man-

(677) NIEUPOORT – Rituum..., p. 346. (678) Ibidem, p. 276 e 350. (679) Ibidem, p. 287. (680) MORERI – El Gran Dicionario, onde se apontam vários autores gregos e romanos referentes ao assunto. (681) Não há em português som igual; semelha o da palavra espanhola hijo. Possivelmente relaciona-se com o tal ululantem de Sílio Itálico, atrás citado, pois mesmo de quando em vez dizem u, lu, lu em lugar de hi, gu, gu.

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dado celebrar Missa a que assistem muito sossegados e vão Botar as loas, também ditas Comédias ou Colóquios, num ponto determinado, geralmente o mais central da povoação, na presença do resto do povo, que, guloso, assiste sempre a esta parte do programa (682). O juiz da festa, que é eleito a votos no fim do jantar do último dia da mesma para o ano seguinte, vai já nesse dia assistir às Comédias sem máscara nem vestido felpudo, mas com uma maçã vermelhinha na ponta. O juiz tem como obrigação tratar da compra da vitela e arranjar a casa onde ela se há-de cozinhar e comer. Em Varge é da praxe que essa casa seja desabitada, não se admitindo lá mulheres para tratar dos mantimentos, cuja preparação corre por conta dos festeiros. Nas outras povoações são mulheres as cozinheiras. Só quando vão assistir à Missa é que deixam as máscaras e os fatos felpudos e observam na marcha certa ordem cadenciada de gaiteiro à frente, seguindo logo imediatamente o juiz com as insígnias próprias. No mais metem-se pelas casas, aterrando os rapazes pequenos, aos quais fazem mil diabruras, obrigando-os a ajoelhar, a pedir-lhes perdão, a bênção e a persignar-se, espancando-os com bexigas de porco cheias de ar, que fazem grande ruído e nada magoam; pedem muito teimosamente chouriços às mulheres, que muitas vezes lhos dão; vinho aos homens e, por feição ou partida, como hoje se diz, fogem das casas com mobília, que depois restituem. Semelhantemente, o juiz nas marchas vai estendendo a cana às janelas, pedindo maçãs às raparigas, que lhas espetam na ponta da cana. De passo, arquivemos outra usança arcaica. A Missa, muitas vezes, é cantada e finda com procissão em volta da igreja. Nesta procissão e nas mais que se costumam fazer nestas aldeias, o cabo de polícia leva uma vara própria do cargo, que se guarda nas sacristias e lhe é entregue ao começar da mesma; com ela em punho acompanha a procissão e ao recolher ajoelha

(682) Noutras partes há ainda vestígios destas festas. Assim, em terras do Mogadouro e Freixo de Espada à Cinta (PEREIRA, J. M. Martins – As Terras de Entre-Sabor-e-Douro, p. 329), dia de Natal vai o mordomo do Deus Menino tirar a esmola acompanhado do Chocalheiro [153] «homem mascarado, cujo vestido costuma ser feito de estopa grossa tinta de escuro e com um feitio muito esquisito. A máscara no carocha, como aqui se lhe chama, é feita de madeira pintada de preto e de um feitio horrendo; o homem, depois de mascarado, figura o demónio, no dizer do povo, e para completar o seu aspecto sinistro cinge à cintura um grande chocalho e anda sempre munido de uma grande moca, com a qual, a modo de graça, às vezes vai dando naqueles que dele se aproximam, o que dá lugar a grandes correrias e a todos fugirem da sua frente. E assim se passa o dia de Natal, sempre em folia, até à tarde, que é quando terminam as corridas do Chocalheiro». No dia de Reis repete-se a brincadeira do Chocalheiro (ibidem, p. 330).

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às portas da igreja, baixando a vara, e assim se conserva enquanto entra o Sacramento ou o santo, em honra de quem a mesma se faz. Estão-se a ver as fasces com que os litores acompanhavam os cônsules e outros supremos magistrados romanos, abatendo-as em presença de alguém que queriam honrar. As máscaras de latão estravagantemente pintalgadas algumas, outras de casca de árvore e poucas de papelão, simulam figuras grotescas e de bois e bodes muitas vezes. É também ponto forçado, além do fato arlequinesco, calçarem luvas, trazer na mão pau de ferrão e pendente a tiracolo chocalhos de cabras ou carneiros, campainhas de bois com as respectivas coleiras, que tudo faz barulheira infernal quando pulam ao ar para soltar os tais hi! gu! gus!, além de vários outros artigos macabros que a mente lhes sugere. As Loas, Comédias ou Colóquios, espécie de revista de ano, constam da apreciação irónica, sarcástica e mordente muitas vezes, dos acontecimentos ridículos ou como tais apreciados, feita em verso por bardo local e recitada de um tablado ou ponto elevado por um dos festeiros cercado dos colegas, que aplaudem cada quadra soltando estrídulos hi! gu! gus! por cima da chocalhada ensurdecedora e fazendo cabriolas encostadas aos paus de ferrão. As transes do vizinho para sacar a burra do lamaçal onde se lhe enterrou; a morte desta e respectivo testamento, em que se contemplam os vizinhos com deixas; as aflições da dona de casa a quem o cão ou o gato escapou com o bocado de salsicheira; aquele, porque ao matar o porco o deixou, ainda vivo, fugir do banco; este, porque um cigano lhe enfiou, em troca da cavalgadura boa, chaguenta azémola, são outros tantos motes da versalhada, que vastas vezes pulsa também a nota realista, causticando as leviandades femininas em pontos de castidade. Na Ilustração Trasmontana (Porto, 1910, p. 179) publicámos um espécime desta versalhada. A Festa dos rapazes em Baçal, Sacoias, Aveleda e Varge é semelhante nas suas modalidades e exibições, deixando perceber a mesma comunidade étnica e promanação histórica, denunciando nas suas origens primevas carácter mais antigo e acentuadamente pagão. Nos outros povoados parecem visionar-se apenas os ágapes do primeiro século com Santo Estêvão por distribuidor dos mantimentos; aqui puramente o gentilismo. Em Deilão, no dia de Natal e de Santo Estêvão (25 e 26 de Dezembro) os mancebos preparam uma canastra de sardinhas ou as que sejam necessárias; organizam mesa, a que chamam de Santo Estêvão, no local mais central e próprio da povoação e, congregados nela os chefes de família, dão a cada um uma canima, ou sejam, nove sardinhas; comem-nas em comum MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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e depois dançam rijamente ao ar livre, ao som da clássica gaita-de-fole. Não há máscaras nem versalhada e cada chefe de família entra para o festim com a cota de quarenta centavos recebida pelo mordomo eleito anualmente pelos mancebos para cuidar da festa. No dia seguinte ao de Santo Estêvão (27 de Dezembro), são as Calaças (683) de roda, constantes de castanhas mamotas, pão e vinho deglutido em comum, sendo aquelas fornecidas gratuitamente pelo mordomo, abrindo-se seguidamente a dança. E ainda no dia seguinte, ou seja a 28 de Dezembro, há as Calaças do meirinho, que constam de uma certa quantidade de sardinhas, figos, nozes e vinho, distribuída aos circunstantes, que, depois de a tragar elegem meirinho para o ano seguinte, armando seguidamente a dança, à qual preside o meirinho empunhando uma bandeira própria da sua dignidade. O meirinho, apenas se vê eleito e antes de começar a dança, deita a fugir vertiginosamente, simulando assim não aceitar o cargo; em pós ele, não menos trigosos, abalam os circunstantes que é da praxe trazerem-no às costas ou em uma espécie de liteira improvisada repentinamente do sítio onde o alcançam até ao do baile. São muito para ver as algazarras que acompanham esta diversão, que não é só própria deste dia, mas se usa também nas malhadas com o proprietário, levando-o ao sítio da meda por ocasião de se tirar para o astrar o último molho. Em Grijó, Faílde e Carocedo organizam a já dita mesa de Santo Estêvão no dia deste santo e dão a cada pessoa que assiste quatro sardinhas, pão e tremoços. Em Freixedelo mascaram-se mas não há colóquios, comédias ou loas, bem como em Ousilhão, onde dão de comer a quem se apresentar mascarado. Em Alfaião nomeiam para esta festa quatro mordomos, organizam mesa de Santo Estêvão e dão a cada chefe de família seis sardinhas, três vinténs de trigo e meia-canada de vinho. Em Vila Meã, Labiados, Rio de Onor e Rabal há festas ou tradição de se celebrarem outrora pelo teor dos ágapes, na região ditos mesa de Santo Estêvão. Em São Julião comem chibos em comum dia de Todos-os-Santos (1 de Novembro, fornecendo os mancebos um e as raparigas outro, mas festa propriamente dita é no dia de Reis (6 de Janeiro). O mordomo dela, congregados os chefes de família, dá uma Canima a cada um, ou sejam, dois arráteis menos uma onça (que é para o azeite do molho) de bacalhau e comem-no em comum, se bem que alguns o levam para suas casas, o que é

(683) Vê-se que esta palavra tem maior amplitude do que a apontada por Viterbo no Elucidário, artigos «Calaças» e «Morteiro».

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menos usado, e seguidamente vão todos juntos pelas casas dos vizinhos pedir os chouriços e castanhas que da mesma forma comem em comum. A marcha do peditório é regulada pelo mordomo, que aplica multas aos retardatários e aos mais lampeiros ou a quem transgredir as praxes costumadas em tais actos. Em Parada de Infanções, no dia de Natal (25 de Dezembro) os mordomos de Santo Estêvão dão volta ao povo a convidar os moradores para irem à Mesa da sardinha, assim chamada porque eles distribuem quatro sardinhas com pão e vinho a cada homem e duas a cada mulher. Dia dos Inocentes (28 de Dezembro) vestem-se de máscaras e dão a todos os vizinhos da povoação rosca (684) e vinho. Festejos por este teor se praticam em Argozelo, Carocedo, Coelhoso, Calvelhe, Outeiro, Paredes, Pinela e Vila Boa. Noutras terras, o festejo transferiu-se para diferentes dias. Assim, em Aveleda, concelho de Bragança, fazia-se no dia 6 de Maio uma procissão a um sítio do termo chamado Cabeço, distante do povo coisa de dois quilómetros, onde levavam em andor belamente adornado a imagem de São João. Chegados lá, o mordomo distribuía pelos assistentes vinho, tremoços e pão, tudo ali comido com grande gáudio, e depois do regresso à povoação a mocidade dançava animadamente. Esta festa fez-se sempre, até que no decénio de 1920-30 os bispos proibiram as procissões de longo percurso. Em Vilar de Rei, concelho do Mogadouro, no Domingo do Espírito Santo, depois de rezada a Missa pelo pároco na capela do meio do povo, o mordomo distribui pelos assistentes vinho, pão, queijo e tremoços (685). Noutras partes se faz o mesmo por ocasião das festas de São Martinho (11 de Novembro). Em terra de Vinhais – diz o Padre Firmino – há três mordomos para tratarem das festas religiosas do Natal, que têm como características das suas funções três varas ornadas a primor com fitas e lenços de seda e que empunham nos actos solenes do culto. «À noite realiza-se a galhofa, onde se (684) A rosca é um bolo doce de farinha. A este propósito diz Emanuel Ribeiro: «Na doçaria popular predomina o gosto do nosso povo, e assim aparecem os cestos (doce assim chamado), cobertos de açúcar com flores sanguíneas de papel; os corações pintalgados de missanga, etc. E em alguns podemos verificar influências ancestrais do paganismo, em que os emblemas da fecundidade e da fertilidade se patenteiam a cada passo. Em as nossas romarias do norte abundam estas guloseimas, que merecem a nossa atenção pelo seu valor etnológico, tendo um sabor de ingenuidade que deleita. Assim, a par dos bonecos de doce, existem os doces de romaria. Naqueles arraiais aparecem quase sempre os biscoitos da Teixeira, os doces de Paranhos, os delindres, os velhotes, as fogaças, as passarinhas (bolo de doce assim chamado, que tem a forma do orgão genital feminino), os sardões (idem com a forma masculina) e os cavalinhos». RIBEIRO, E. – O doce nunca amargou... – Alguns motivos ornamentológicos da doçaria portuguesa, 1923, p. 8. Noutra parte nos referimos a uns bolos de forma fálica, exibidos em Parada de lnfanções numa festa de casamento. (685) PEREIRA, José M. Martins – As Terras de Entre-Sabor-e-Douro, 1908, p. 132.

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baila até ao romper da manhaninha, como eles dizem, recitando-se nos intervalos peças satíricas em redondilha maior, a propósito de qualquer facto que mereça franca risota. A galhofa é dirigida pelos mordomos» (686). Em algumas povoações há mais um quarto mordomo, encarregado de tratar dos foguetes ou tiros de pólvora. Não vai longe o tempo em que estes mordomos eram obrigados a sustentar deste o dia 13 de Dezembro os ensaiantes das danças do Natal (687). É que estas danças são especiais; danças de carácter litúrgico, e por isso chamadas danças sagradas. «Em outros lugares – continua o mesmo Padre Firmino – há também a bênção do Pão de Santo Estêvão. Colocada uma mesa, coberta de alva toalha de linho, no largo junto da igreja, os mordomos acarretam para ali pão e vinho em abundância, que, depois da bênção dada pelo sacerdote, distribuem pelo povo». Quando algum mordomo se recusa a exercer o cargo, flagelam-no, simulando-o em mono de palha, celebrando-lhe os funerais com todo o requinte do cómico burlesco, sem esquecer a oração fúnebre, versalhada faceta destinada a compendiar a mesquinhez da vítima, aplaudida a cada passo por retumbantes gargalhadas dos circunstantes, terminando tudo pela leitura do testamento, não menos impante de facécias, e por lhe incinerar o cadáver. Em Algoso, concelho do Vimioso, nomeiam doze mordomos para a festa de Santo Estêvão (26 de Dezembro), tendo cada um o título de um personagem de relevo social – bispo, imperador, rei, etc., que aparecem na festa seguidos dos respectivos secretários e ministros, tudo vestido de indumentária adequada ao cargo, com acompanhamento de moços carregados de chocalhos em barulheira ensurdecedora. Estes festejos começam no dia de Santa Luzia e no dia do santo, depois de cantada a Missa, comem com muita galhofada os restos da esmola já dada com mais abundância, a fim de chegar para o folguedo, largamente puxado a libações vináceas. Em Soutelo, concelho do Mogadouro, o festejo popular é no terceiro domingo de Janeiro, adjunto à festa do Santo Nome de Jesus. Mete também chocalhada dos moços, como em Algoso; grande pagodeira de todo o povo, que solenemente vai dar o vitórró ao senhor mordomo, gritando todos entusiasticamente e chocalhando vitórró, vitórró, senhor mordomo! Merece registo esta palavra, que não vemos empregada noutra parte e parece corresponder a viva, viva o nosso mordomo [154]! É escusado dizer que estas festas perpetuam o culto báquico e a liturgia das bacanais à sombra do hagiológio cristão. (686) MARTINS, Firmino A. – Folclore do concelho de Vinhais, p. 10 e 11. (687) Ibidem.

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Luís Chaves (688) refere-se ao ciclo de festas populares de doze dias existente em França (689), celebradas desde dia de Natal a dia de Reis, que entre nós não existe, mas as antigas festas da terra de Vinhais, celebradas desde dia de Santa Luzia (13 de Dezembro) a dia de Natal e as de Algoso, atrás indicadas, que metiam doze mordomos, parecem relacionar-se com o tal ciclo de doze dias, embora não coincida precisamente com o francês. Como vemos, a dança faz parte integrante destas festas, que em todas as modalidades representam, não a rudeza selvagem desta gente, mas sim o documento vivo de uma civilização prestes a extinguir-se, afirmação social de uma raça em suas manifestações étnicas. É sabido que entre os antigos ibéricos e povos do oriente asiático, uma das formas do culto externo era constituída pela dança; não qualquer dança, mas sim uma especial consagrada pelas fórmulas liturgicas, que tinha passes, trejeitos, ritmos e cadências próprias – dança sagrada. Os cantos do poeta – dizia um que o era – são mais eloquentes que as simples palavras, a música exprime mais que os poemas e a dança mais que a música; pela música, a essência dos deuses é visível e se comunica aos seres mortais, e os sentimentos dos homens tomam a forma de objectos animados. – Todas las cousicas boas ban acabadas – dizia-nos há anos uma velha respeitável pela dignidade de seus sentimentos. Dantes, no meu tempo – continuou ela – havia três dias de dança seguidos, para festejar o Nascimento de Deus e agora apenas um bocadico!!! Antes de os bispos de Bragança prescreverem tão severamente as pastoradas da noite de Natal, havia por estas aldeias nessas festas uma dança tradicional, hoje de poucos velhos conhecida, que a ela se referem com o respeito venerável de uma coisa sagrada. Estas danças, de carácter litúrgico e ao mesmo tempo marcial, desaparecerão de entre nós sem que infelizmente alguém tenha fixado as suas modalidades, restando apenas na dos Paulitos, ainda hoje executada em terras mirandesas, o fragmento de um ciclo coreográfico outrora dominante em toda a região. É de advertir que a dança na Festa dos rapazes nada tem de comum com a dança litúrgica, cultual, de que vamos falando; no entanto, o facto de ela constituir uma parte do programa, aliado ao de serem excluídas as mulheres na de Varge, o que seria ridículo se não tivesse por si a tradição das cultuais danças ibéricas, que também as não admitiam, leva-nos a estabelecer-lhe comunidade de origem ou pelo menos certas afinidades étnicas muito para notar, podendo facilmente supor-se que a dança primitiva, devi(688) CHAVES, Luís – Portugal Além, 1932, p. 21. (689) GENNEP, A. Van – Le cycle de douze jours dans les coutumes et croyances populaires de la Savoie.

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do a circunstâncias locais ou de temperamento, desapareceu, ficando apenas aquele vestígio a testificar a sua existência. De resto, os costumes ancestrais ibéricos vêem-se ainda largamente representados nestas aldeias, principalmente em funerais, casamentos e outros actos da vida. CANTIGAS DOS REIS O uso de cantar os Reis uns a outros os vizinhos é geral por toda a região bragançana (distrito de Bragança) e pratica-se de noite, começando a 25 de Dezembro e terminando a 21 de Janeiro. Em algumas povoações, como Rabal, por exemplo, formam-se dois grupos, cada um de seu bairro, e ao terminar, no dia 21, cantam toda a noite, juntando-se depois frente a frente na fonte, raia divisória dos bairros, a cantar ao desafio, pois aquele grupo que se rende deixa ficar os Reis para o seu lado, o que tomam como deprimente. Dividem-se em três períodos: Festas do Natal (25 a 31 de Dezembro); Festas do Ano Novo (1 a 5 de Janeiro) e Festas dos Reis (6 a 21 de Janeiro). Para cada período destes há três ou quatro quadras próprias para iniciar o canto, seguindo depois outras comuns aos três ciclos. Também de terra para terra variam as canções um pouco, mas a ideia é sempre a mesma. Assim, nas Festas do Natal dizem: Vimos dar-vos boas festas, Festas de grande alegria; Nasceu o Rei da Glória, Filho da Virgem Maria (690). Nas do Ano Novo: Ano novo, ano novo, Ano novo melhorado; Melhorado na saúde, Minguado no pecado (691). Nas dos Reis: Já os três Reis são chegados Das partes do Oriente; (690) Colhida em Vinhais. (691) Idem em Baçal.

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Visitar o Deus Menino Alto Rei Omnipotente. Os três reis como eram santos Uma estrela os guiou; Em cima de uma cabana A estrela se pousou. A cabana era pequena, Não cabiam todos três: Adoraram o Menino Cada um por sua vez (692). As quadras comuns aos três ciclos são orientadas em alusão a cada uma das pessoas da casa. Assim, ao chefe dizem: Esta casa é bonita, Bonita por dentro e por fora; Muitos anos viva nela O senhor que nela mora. À esposa: Viva o senhor F... Os anos que Deus quizer; Também viva essa rosa Que Deus lhe deu por mulher. Aos filhos: Esta casa é bonita E os meninos muito mais: Nosso Senhor os ponha No estado que desejais. A uma viúva: Viva a senhora F... Nas asas de uma pomba, Que é a viúva mais honrada Que há nesta redonda. A um rapaz ou rapariga: Quero dar a despedida, Por cima do meu chapéu; (692) Colhidas em Macedo de Cavaleiros.

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Viva o senhor F... Que é um serafim do céu. Um raminho, dois raminhos, Três raminhos em seu peito; Viva o senhor F... Esta vai a seu respeito. Viva a senhora F..., O seu brio não descaia: Traz meia de seda E sapato à talagaia. Esta vai por despedida, Por cima do meu capote; Viva lá a senhora F... Que é uma estrela do norte. Terminadas as referências a cada uma das pessoas da casa, se não vêm abrir a porta a dar algo aos reiseiros, começam estes a descantá-los dizendo: Quem vos vem cantar os Reis Da forma que as noites estão, Certo é que vos quer bem Da raiz do coração. Quem vos vem cantar os Reis De noite pelo escuro, Certo é que quer saber Se o vosso vinho está maduro. Quem vos vem cantar os Reis Nesta noite de Janeiro, Certo é que quer provar As chouriças do vosso fumeiro. Viemos de longes terras, Languiça não queremos; Dizem que tem bom vinho C’ uma maçã beberemos. Quero dar a despedida Na folhinha do vai-vem; O vinho da sua cuba Muito tarda, que não vem. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Se nos querem dar os Reis, Comecem-nos a baixar; Somos de longes terras Temos rios que passar. Quero dar a despedida, Agora não cantamos mais; Já me dói o céu da boca E o coração ainda mais. Quero dar a despedida Como faz o pintasilgo Que se despediu cantando E eu cantando me despido. Se, apesar de tantas instâncias, os donos da casa continuam insensíveis, fazendo de mula de médico, então os reiseiros terminam de vez, dizendo: Estes Reis que aqui cantamos, Tornamo-los a descantar: Estes barbas de farelos Não têm nada que nos dar Só têm uma arquinha velha Onde o gato vai mijar (693). Relativamente aos festejos regionalistas de carácter etnográfico encontramos nas disposições canónicas e Pastorais dos bispos de Bragança e Miranda as seguintes disposições de que demos notícia no tomo II destas Memórias, p. 149 a 240: «Tambem nos veio a notícia que em alguns lugares deste nosso bispado se tem introduzido muitos abusos perniciosos, a saber: pelos dias das oitavas do nascimento do Senhor se fazem um modo de festas a que chamam pandorcas, fazendo danças e festejos por muitos dias com muitas ofensas a Deus, comendo e bebendo demasiadamente, descompondo muitas pessoas, de que resultam graves pendencias e outros pecados originados de galhofas entre mancebos e moças» (694). E por isso proíbe tais festejos. Igual proibição impôs o bispo de Miranda, D. Diogo Marques Morato, na sua Pastoral de 5 de Junho de 1744 (695). O sucessor deste bispo, D. Frei João da Cruz, proibiu (693) As quadras comuns antecedentes foram colhidas em Baçal. (694) Pastoral de 4 de Novembro de 1687 do bispo de Miranda, D. António de Santa Maria. Extracto do tomo II, p. 151, destas Memórias. (695) Extracto do tomo lI, p. 157, destas Memórias.

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em 1755 as pandorcadas que de noite se costumavam fazer e outrossim os fiadouros públicos que se fazem de noite, assim nas ruas como nas casas, por serem ajuntamentos de homens e mulheres, bem como as chamadas festas de Santo Estêvão (26 de Dezembro), por se comporem de pandorcas, danças, algazarras e tumultos, ocasionados pela eleição de um rei e outras mais dignidades que nelas elegem, por cuja ocasião tem havido mortes e pendências, pelos excessos de comes e bebes que nos ditos dias se fazem (696). Na Pastoral de 20 de Dezembro de 1890 proibiu o bispo de Bragança, D. José Alves de Mariz, as pastoradas ou ramos do Natal, os autos da Paixão e Morte do Redentor na Semana Santa (697) e vendo que o costume continuava, na de 16 de Dezembro de 1895 cominou pena de interdito às igrejas onde tais pastoradas e autos se representassem e de suspensão ipso facto aos párocos que as consentissem (698). Esta condenação foi o golpe de misericórdia dado em tais festejos. Entrudo. Em geral, os festejos dos três dias em terras bragançanas são pelo teor da Festa dos rapazes, atrás descritas, e correspondem às bacanais de Março. Celebrizam-se por grandes comezainas, mascaradas e bailes. No Entrudo, come-se tudo, diz o rifão popular. A galhofa começa quinze dias antes, na Quinta-feira das comadres, oito dias depois é a Quinta-feira dos compadres, seguem-se o Domingo gordo, Segunda-feira gorda e Terça-feira de Entrudo, tudo dias perfeitamente pantagruélicos. Nos descantes, pelas ruas, silvam os tais hi! gu! gus!, já memorados na Festa dos rapazes, «espécie de relincho de origem celta comum em toda a região norte de Espanha» (699). Morte. Já noutra parte das Memórias (700) aludimos à extravagante figura da Morte, que no dia de Cinza percorre as ruas da cidade de Bragança, vestida de casaco e calças de lona oleada, máscara na cara, carapuço na cabeça, tudo pintalgado grotescamente, empunhando um gadanho e um chicote para vergastar o rapazio que em chusma a moteja, gritando ensurdecedoramente após ela: ó Morte, ó lagão; ão, ão. Este costume – diz Adolfo

(696) Extracto do tomo II, p. 164 destas Memórias. (697) Ibidem, p. 231, onde demos o extracto. (698) Ibidem, p. 234. Nesta nossa aldeia de Baçal, o último acto da Paixão que se representou foi pelos anos de 1860 (ver tomo V, p. LVII, destas Memórias) e a última pastorada do Natal foi pelos anos de 1875. (699) RODRIGUES, Raimundo – Guia Artistico de León, 1925, p. 178. (700) Tomo VII, p. 757, onde publicámos alguns documentos referentes ao assunto.

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Coelho (701) – relaciona-se com a liturgia mítica de expulsar o Inverno representado pela morte. Pelas circunstâncias que o acompanham e pelo tempo, sempre entre Fevereiro e Março, deve filiar-se nas festas Lupercais, celebradas pelos sacerdotes de Pan a 15 de Fevereiro, que despidos, tapando apenas as partes genitais com uma tira de pele caprina, recentemente imolada e tinta de sangue, percorriam as ruas, batendo com um chicote em quantos encontravam, principalmente nas mulheres, que julgavam fecundar com estas pancadas (702). Em Vinhais também se pratica o costume da Morte em quarta-feira de Cinza, mas reveste modalidade diferente, pois veste-se de Morte quem quer (em Bragança só a Ordem Terceira de São Francisco é que tem o fato e o aluga por bom preço aos pretendentes, que nunca faltam), resultando andarem muitos ao mesmo tempo vestidos de Morte em correrias pelas ruas, a quem chamam indistintamente Morte ou Diabo (703). Serradela da Velha [155]. É muito frequente a serradela da velha no meio da Quaresma, ou seja, na noite de quarta-feira da terceira semana da Quaresma. Nessa noite, os moços vão em grande estúrdia às portas das casas das mulheres velhas e, tirando sons estrídulos da lâmina da serra entalada em cortiça ou madeira seca e dura, soltando gemidos, quais fossem da velha dorida e dizendo dichotes cantarolam: Estamos no meio da Quaresma, Já a Páscoa vai chegada; Uns dizem serre-se a velha E outros a velha seja serrada.

Um serrador

Segue-se o bródio animadíssimo pelas ruas do povoado para a casa de outra velha.

(701) COELHO, Adolfo – A Tradição, I, p. 33 e 38. (702) NIEUPOORT – Rituum..., p. 348. MORERI – El Gran Dicionario, artigo «Fiestas». (703) MARTINS, Firmino A. – Folclore do concelho de Vinhais, p. 86.

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Ladainhas. A Igreja celebra as Ladainhas ou Clamores em fins de Abril, indo os párocos acompanhados de povo ao campo, onde aqueles lançam água-benta e abençoam os frutos com orações próprias, segundo se encontram no Rituale Romanum. Tanto na ida como na vinda cantam a Ladainha, em que se destacam, além de outras súplicas dirigidas a Deus, as seguintes: Ut fructus terrae dare et conservare digneris; ao que o povo responde: te rogamus audi nós. A fulgure et tempestate. Libera nós Domine. Senhor, dai-nos e conservai-nos os frutos da terra; livrai-os, e a nós, dos raios e tempestades [156]. Uma velha a fazer meia Os Irmãos Arvais, sacerdotes de Ceres (eram doze, escolhidos entre as mais distintas famílias, e, como os doze Apóstolos de Cristo, não podiam ser mais nem menos), celebravam durante oito dias as suas procissões, ditas Ambarvais (Ambarvatia), começadas a 10 de Abril, percorrendo os campos acompanhados do povo, lançando-lhes com o hissope (aspergilus) água benta, abençoando os frutos e suplicando à divindade: ut avertas morbum, mortem, labem, nebulam impetigem, perestatem, que livrasse a eles, gados e frutos de peste, morte, destruição, trovoadas, ferrugem e sequeiro. Convém notar que a 25 de Abril faziam a procissão das Rubigales, a fim de pedir ao deus que livrasse os frutos de nublados e da ferrugem (rubigo), que chupa os trigos e os impede de frutificar. São interessantíssimas e cheias de piedade suplicante as orações que nestas ocasiões dirigiam aos numes. Eis algumas: «Mars pater te precor, quaesoque, uti fies volens propitius mihi, domo, familiaeque nostrae: quo jus rei ergo, agrum, terram, fundumque meum suove taurilia circumagi jussi, uti tu mosbos visos invisosque, viduertatem, vastitudinemque, calamitates, intemperias que prohibessis, defendas, averruncesque; uti tu fruges, vineta, frumenta, virgultaque grandire, beneque MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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evenire sinas; pastores, pastaque salva servassio, duisque bonam salutem, vatetudinemque mihi, domo, familiaque nostrae. Harunce rerum ergo; fundi, terrae, agrique mei lustrandi, lustrique faciendi ergo, sicut dixi, macte hisce suove taurilibus lactentibus immolactentibus esto. Item cultro facito struem, et perctu uti adsiet» (704). Em tradução livre diz: Marte, pai celestial, peço-te e suplico-te que olhes propício a mim, casa e família, aceitando os sacrifícios que mandei fazer para que protejas os meus campos, terras e propriedades, livrando-as dos males visíveis e invisíveis, dos depauperamentos, destruições, cataclismos e intempéries, afastando-as para longe, a fim de os frutos, vinhas, semeados e matas produzirem e chegarem a bom caminho e ampla maturação. Ampara também, pai celeste, os meus pastores e pastos; dá-lhes saúde e forças, prospera a mim, casa e família. Ouve a minhas preces; aceita as lustrações, purificações com água-benta e sacrifícios em volta de todos os campos, que mandei fazer em tua honra; aumenta-os, segundo a grandeza das minhas intenções; ampara-me a teu lado debaixo da tua protecção. É frequente nas nossas aldeias, ao dar graças a Deus, depois de cear, ouvir-se a seguinte prece: «Pelos frutos do mar e terra, que Deus nosso Senhor os conserve e traga a porto salvo para remédio dos pecadores. Padre-Nosso e Ave-Maria». A força da tradição! Outra destas preces consta de jaculatórias, como as da nossa Ladainha, dirigida aos pais celestiais Jano, Júpiter, Ceres, etc., implorando-lhes graça e protecção para eles, casa, família e haveres (705). Da mesma forma pedimos a Deus nas jaculatórias da Ladainha cristã que nos livre do mal; das tempestades; dos terramotos; da fome, peste e guerra e que nos conceda a paz internacional; a humilhação dos inimigos da Igreja, dirigindo-lhe mesmo preces contra eles nas orações da Missa. O povo tinha tanta fé nestas bênçãos e preces gentílicas, que o cânone 49 do concílio de Elvira, celebrado no século IV, que foi lei geral entre nós, expulsa do grémio da Igreja os que as pedirem a esses sacerdotes (706). A propósito de Ceres, que alguns tomam pela terra, lembra-nos de ter lido talvez em Columela, que agora não temos à mão, uma diatribe formidável e muito interessante contra os mineiros que devassarem as entranhas da

(704) MORERI – El Gran Dicionario, artigo «Ambarvales»; onde se encontram outras orações extraídas do ritual de Catão. (705) lbidem, artigo «Ambarvales», onde vem completa. (706) ALMEIDA, Fortunato de – História da Igreja em Portugal, tomo 1, p. 654, onde vêm os cânones desse concílio.

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terra à procura de riquezas, coisa verdadeiramente sacrílega, no seu entender, pois, não contentes com os frutos que esta bondosa deusa distribui paternal e abundantemente à superfície, ainda a ambição os leva a esquadrilharem-lhe os arcanos. Daqui vem – conclui o piedoso pagão – que a deusa se vinga, sacudindo-se horrorizada em tremores de terra para castigar os sacrílegos profanadores e sepultando nas galerias mineiras os irreverentes ateístas. Como hoje nos causa riso a objurgatória deste moralista beato, que naquele tempo certamente fez vibrar indignadas contra a impiedade dos mineiros as almas de muitos devotos! Quantas almas cristãs vibram e têm vibrado com objurgatórias não mais criteriosamente deduzidas pelos vários Columelas, que, julgando fazer bem, só irrisão sementam! Um de Abril. Está muito espalhado por terras bragançanas o costume de se enganarem as pessoas umas às outras no dia um de Abril, fingindo avisos para irem aqui ou ali, onde as chamam urgentemente por causa de um desastre, moléstia súbita, dano dos gados em fruto alheio ou próprio, etc., etc., e mil outras trapaças por este teor. O rifão diz mesmo: dia um de Abril, vai o parvo onde não deve ir. Em terra de Miranda os enganos praticam-se também no dia de Entrudo, escondendo o pote que está à lareira com cozinhados para a festança; o mesmo fazem com os porcos no dia em que os querem matar e até ao nubente que vai casar-se, escondendo-lhe a noiva quando vão no acompanhamento para a igreja. Pratica-se ainda outro engano de carácter etnográfico em terras bragançanas, mas este não tem época certa: é quando calha, embora de preferência se escolham as frias noites de Inverno. Chama-se a Caça das alpabardas ou alcaparras, como dizem noutras partes [157]. Convencem o simplório, que não sabe do caso, a ir esperar a alpabarda, animal que lhe dizem ser de grande valor culinário, na gateira da parede de um lameiro, com um saco aberto, enquanto eles, fingindo que vão bater o monte, recolhem a casa e o mísero enganado espera ali horas e horas, até que, gelado pelo frio, se vai embora. Quando no povoado ou perto há ribeiro é neste que se faz a espera à alpabarda. Se a vítima do logro é simplesmente crédula, dizem-lhe que durante a espera recite a seguinte oração, muito própria para atrair a presa ao saco: «Biobardo, vem-te ó fardo, que eu fantasma por ti aguardo». De idêntico modo procediam nas suas festas os Faunos, «quae ludibria, sive ephialten immittere credebantur» (707). Virá daqui a costumeira?

(707) NIEUPOORT – Rituum..., p. 303.

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Páscoa. Durante quatro dias na Semana Santa comemora-se dolorosamente a Paixão e morte de Cristo, como fica dito noutra parte; queima-se Judas e faz-se lume novo para manter a lâmpada permanente antes do Santíssimo Sacramento. Esta semana dolorosa é seguida de outra gloriosa, iniciada no dia de Páscoa, em que sobressai a alegria das mulheres, indicadas noutro sítio, pela Ressurreição triunfante de Cristo. Os padrinhos dão o folar aos afilhados; os amos aos criados: as famílias banqueteiam-se, mandam presentes umas às outras e come-se o folar (pão de farinha triga, de primeira, amassado com azeite, manteiga e ovos, recheado de rodelas de salpicão, presunto, galinha, coelho e bifes). Bragança é a terra clássica dos folares, os quais, com as alheiras, também chamadas tabafeias, e as trutas dos seus rios, principalmente Baceiro e Tuela, constituem pitéu que não receia confrontos com os mundiais mais afamados. Foi inspirado na superioridade deles que o laureado artista Henrique Tavares produziu os três geniais quadros agora admirados no Museu Regional de Bragança, tendo cada um deles por assunto o respectivo pitéu. A estes tradicionais acepipes junta ainda a cozinha bragançana o delicioso torradeiro (leitão assado), que para estar em condições deve regular por trinta dias de idade – leitão de mês e cabrito de três – como reza a culinária local. Infelizmente a moda vai abastardando alguns derrancados de gosto, que tentam substituir-lhe o desensabido peru. Que tristeza! Que dor de alma! E não reparam que assim nos desregionalizamos, caindo na chata vulgaridade do anonimato equivalente da não existência, por falta de qualidades típicas características!... Leitão assado é que comiam, para espevitar o intelecto e revigorar as forças, os heróis da Ilíada e da Odisseia, e por isso foram heróis e mereceram ser cantados pelo maior poeta do Mundo. Ulisses, o maior de todos esses heróis, Ulisses, «o herói de mil façanhas e ardis; o inventor famoso de mil habilidades e manhas; o homem das mil astúcias», após vinte anos de ausência, tendo saboreado a ambrósia e o néctar dos deuses, tendo gozado mil acepipes preparados por ninfas e deusas empenhadas em o prender com seus encantos, continua sempre insatisfeito, e mal chega à sua Ítaca, é com um «leitãozinho» assado que satisfaz as aspirações de vinte anos. Lá o diz Homero no último canto da Odisseia. Bragançanos! Não esqueçais o torradeiro, regado com os vinhos regionais, celebrizados na lenda popular pelo «bom vinho dos Alvaredos, Arcas, Nozelos e Vilarinho de Agrochão» (708).

(707) Ver Arcas (p. 260) e Soeira (p. 271), nos «Apodos irritantes», e tomo VII, p. 802, destas Memórias.

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Passem os cafés, cervejas, licores, champanhes, et reliqua ejusdem fusfuris, como tabuleta de nós quoque gens sumus em mesa rica; no mais e sempre, o pingato regional – pois este é que, verdadeiramente, como factor étnico, imprime carácter e excede quanto a moderna musa dos chilros perus canta. Pois quê!? O leitão, que mereceu honras divinais aos nossos antepassados nos cultos totémicos que lhe prestavam, segundo vemos pelas esculturas memoradas adiante (709), de que a nossa Porca da vila de Bragança é exemplar típico; o leitão, que foi adoptado como símbolo místico nas lápides regionais; o leitão, cuja superioridade culinária o nosso povo celebra, afirmando: «das carnes, o carneiro, das aves, a perdiz e, sobretudo, a codorniz; mas se o porco voara, não havia carne que lhe chegara»; o leitão, que é a mais sólida caixa da economia rural, a que dá mais de cento por cento de rendimento, pode lá ver-se relegado da nossa mesa?! Não, nunca, nunca; pois além de sacrílego atentado, desfalca a economia regional e com ela a da nação. Quem se não atém ao seu, valorizando-o o mais possível, subalterniza-se, torna-se dependente do estrangeiro e, se não morre, em pouco tempo definha a olhos vistos e deixa de marcar no tabuleiro internacional. Todavia, «não há formosa sem senão». O porco tem contra si o próprio nome, coisa, aliás, de pouca monta, pois é asseadíssimo na sua cama, que, afinal, é a sua sala de visitas, levando para lá palha nos dentes, quando se esquecem de lha afofar: mas velho esteta – quando o homem nasceu já ele engatava – ri-se dos preciosismos amaneirados dos novos-ricos, que, como recém-chegados, querem dar-se ares de antigos aristocratas, e, espírito superior, por suprema ironia, vai-lhes lá verter águas menores e maiores, na frase de Cervantes. Até há poucos anos, na igreja de São Francisco, de Bragança, alinhavam-se, segundo costume imemorial, em mesa, os bustos dos doze Apóstolos, sob a presidência de Cristo, colocando diante de cada um o respectivo talher com mantimentos e moletes de trigo, que o povo adquiria depois avidamente, por lhe atribuir grandes méritos curativos. Como Ceres é a deusa dos cereais, a protagonista do trigo, bem pode ser que os folares se relacionem ritual e etnicamente com esta particularidade, mas não conhecemos texto justificativo. As comemorações dolorosas e gloriosas do ciclo pascal lembram as de Ceres, de que tratamos noutra parte. Também na mesma semana gloriosa os párocos visitam as casas dos fregueses, lançando-lhes água-benta e suplicando a Deus que prospere bem os moradores, ao mesmo tempo que levantam o folar. Esta bênção das pro(709) Ver neste tomo artigo Porco e p. 41, fig. n° 8; p. 70, fig. n° 36; p. 72, fig. n° 37; p. 77, fig. n° 42, e p. 83, fig. n° 45.

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priedades urbanas lembra, pelo ritualismo, a das rurais, feita pelos sacerdotes pagãos, de que falámos ao tratar das Ladainhas. Ainda a propósito de vinho convém não esquecer, antes muito e muito relembrar, o enorme valor económico que esta cultura representa para nós portugueses, de onde a obrigação patriótica de a fomentarmos por todos os meios e os motivos ornamentológicos que inspirou à arte. Assim, vemos a maior parte das nossas igrejas ornadas com vides, uvas e parras nas colunas dos seus altares; vemos uma cabaça, vaso clássico do vinho, representada num modilhão da igreja românica de Abambres, concelho de Mirandela; outra empunhada por um anjo em atitude de beber, figurada na talha de uma velha coluna de altar, agora arrumada no coro da igreja paroquial de Moncorvo, e vemos o célebre Cabaceiro da igreja românica de Santarém, que apresenta o arco da sineira ornado por cabaças. No termo de Edral, concelho de Vinhais, há uma capela dedicada a São Tiago, dito São Tiago de Ribas, por estar junto ao rio Rabaçal, na ribanceira das suas encostas. O santo tem na mão uma cabacinha, segundo nos informa o distinto folclorista Padre Firmino Augusto Martins, na qual encerra as nuvens, como afirma o povo crente, em tempo de chuvas danosas à agricultura e as solta quando elas fazem falta. Maias. No dia 1 de Maio comem-se castanhas para evitar mordos do burro; enfeitam-se as portas das casas com flores de giesta e, com as mesmas, ainda em muitas das nossas aldeias, as raparigas enfeitam um menino que dizem representar o Maio moço e passeiam-no pelas ruas com grande ruído alegre, cantando e bailando em volta dele [158]. São restos das religiões naturais, adoradoras dos deuses protectores: sol, lua, Flora, deusa da florescência e da fecundidade, Tellis, a terra, Ceres, deusa dos frutos, Palas, protectora dos lameiros, Fauna, a boa deusa festejada no dia 1 de Maio, e Maia, deusa da fecundidade (710). As nossas maias filiam-se nas festas Florales romanas, celebradas durante seis dias, desde 28 de Abril a 4 de Maio, em honra de Flora, deusa das flores (711), por mulheres nuas saltando lascivas e proferindo palavras obscenas, acompanhadas de gestos impúdicos. São João – Culto do fogo. Os romanos iam nos intervalos da comida deitar algum alimento ao lume em honra dos deuses (712). A Colecção de Cânones ordenada por S. Martinho Bracarense (século VI) condena, como (710) CHAVES, Luís – Portugal Além, p. 82. (711) NIEUPOORT – Rituum..., p. 307. (712) VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, 1913, vol. 3, p. 572, em nota, onde se apontam os textos comprovativos dos autores.

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ainda do paganismo, o costume de deitar frutos e vinho no lume (713), de onde se colhe que ainda no seu tempo (século citado) o culto do fogo tinha sequazes. Ainda hoje o nosso povo diz que não se deve cuspir no lume, porque é pecado, pois o lume saiu da boca de um anjo, frase que inculca vestígios do primitivo culto. Outro resto deste culto são os festejos na noite de São João, com fogueiras de arçã, sal puro, rosmaninho, alecrim e outras plantas, por cima das quais saltam rapazes e raparigas para conjurar malefícios e adquirir fortuna, levando depois para casa um tição da mesma fogueira, que tem virtudes mágicas para afugentar o mal e chamar o bem, pois todas as ervas estão bentas nestes dias, como adiante dizemos (714). Também o povo atribui poder para afugentar as trovoadas ao tição que se guardou do lume na noite de Natal. Os folguedos da noite de São João, com mouras encantadas, fogueiras, orvalhadas, banhos matinais, motivados pela crença na virtude das águas antes de lhes dar o sol, sortes de augúrio à meia-noite de carácter amoroso, virtude das ervas, cascatas, descantes com motivos casamenteiros, bailes e danças, são restos de velhas crenças pré-cristãs, destroços de velhos cultos naturalistas, pagãos, como vulgarmente se diz, englobados pelo povo, essencialmente conservador e tradicionalista, sob o emblema cristão de São João, porque: Até os mouros da Mourama E os turcos da Turquia Festejam o São João Como nós cá, no seu dia. segundo expressa a canção popular, que, se não é verdadeira historicamente, traduz pelo menos um profundo conceito místico. Os festejos de São João são gerais tanto em Portugal como no estrangeiro e correspondem às festas solsticiais dos cultos naturalistas que a Igreja cristianizou, impondo-lhe um santo do seu calendário e liturgia respectiva, mas o povo, fundamentalmente tradicionalista, mantém os velhos ritos nos seus folguedos e usanças celebrados a par da festa cristã. «As fogueiras, as luminárias e balões [da noite de São João] evocam o poder simbólico do fogo. Os estouros da pólvora, os foguetes bravos, relembram as ruidosas festas dos fogos primitivos, típicas nas chamadas (713) Ibidem, p. 547, em nota, onde se dá notícia bibliográfica dos Cânones de São Martinho. (714) Ver p. 97 deste tomo.

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“festas da pólvora” dos Berberes; como também as luminárias emparceiram com as manifestações luminosas a que todos os povos, desde os mais recuados até hoje, concederam honras maiores na exteriorização de entusiasmos; como a fogueira foi considerada um dom divino, mantida com respeito pela origem e utilidade na vida, e depois adorada por nela viver o espírito divino que a criou, sendo depois no culto solar do Irão a imagem ardente do sol. As luminárias têm por si origem religiosa; acessa na noite, afasta os génios das sombras e permite ao homem que se divirta de noite ao seu resguardo» (715). «São João é o santo das luminárias por excelência – escreveu D. Carolina Michaëlis de Vasconcelos, ao estudar na Revista Lusitana o vocábulo “Lampo-lampa” (vol. 11, p. 9 a 14)... ...suspeitou aquela ilustre senhora que os figos lampos e as pêras lampas, frutos oferecidos ou festejados em dia de São João como primícias do ano, fossem enfeitados com lampadazinhas, pelo menos primitivamente» (716). A título de esclarecimento lembramos que na região bragançana chamam lampo, lampos, aos rebentos que saem na parte que fica na terra dos castanheiros que se cortam, ou seja, das raízes e adjacências. Nos festejos populares a São João, a Santo António e a São Gonçalo de Amarante, como casamenteiros, andam esparsos restos do sexualismo pagão adscrito ao equinócio de Junho, com ressaibos fesceninos acentuadamente fálicos, que igualmente aparecem nas lendas aplicadas pelo povo ou cuco, mocho e poupa. Além destas reminiscências fálicas, adscritas aos cultos populares do São João, temos as típicas fogueiras de plantas odoríferas a lembrar as festas de Vesta (Vestália), celebradas pelos romanos a 9 de Junho; as Quinquárias, levadas a efeito no dia 13 do mesmo mês pelos tocadores de flauta, e as festas dos pastores em honra de Pales, celebradas a XI das calendas de Maio (21 de Abril), que, embora não caíssem em Junho, se relacionam com o costume de banhar os gados nos rios durante as manhãs de São João e São Pedro, por estar a água benta, pois também naquele dia os pastores romanos pecura sua lustrabant (717). As festas vestais eram celebradas com banquetes nas ruas, cada um em frente da sua casa (718), mandando de presente, ao templo da deusa, o melhor

(715) CHAVES, Luís – Portugal Além – Notas etnográficas, 1932, p. 116. (716) Ibidem, p. 115. (717) NIEUPOORT – Rituum..., p. 306. (718) Durante os anos que paroquiámos a freguesia de Mairos, concelho de Chaves (1889 a 1896), notámos o costume de no dia da festa, em Junho, assarem os cabritos, cordeiros e leitões do jantar nas ruas, em frente das casas de habitação. O mesmo se pratica nas festas de outras aldeias vizinhas, celebradas no Verão.

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prato; pelas praças e ruas giravam burricos carregados de flores e ornados com colares feitos de bolos e panicos; da mesma forma se decoravam os moinhos, e as matronas romanas iam descalças ao templo da deusa e ao Capitólio prestar culto a Júpiter Pistor (719). As fogueiras e luminárias do São João devem relacionar-se com o fogo perpétuo mantido no templo pelas Vestais em lâmpadas, segundo se pratica nas igrejas cristãs ante o Santíssimo Sacramento. É possível que as lâmpadas cristãs derivem do fogo perpétuo imposto na Lei moisaica do holocausto (Levítico, VI-12 e XXIV-2). As Vestais eram obrigadas a manter o fogo sagrado, sob pena de graves castigos se o deixassem apagar, mas renovavam-no todos os anos, no dia 1 de Março por meio de lume novo colhido dos raios do sol (720). O mesmo pratica a igreja católica no ritual do «Lume novo», obtido por meio de pederneira em Sábado Santo, ou seja, pouco mais ou menos, na época das Vestais. Interim excutitur ignis de lapide foris Ecclesiam, et ex eo acceduntur carbones, diz a rubrica do Missale Romanum ao tratar das cerimónias concernentes a fazer lume novo em sábado da Semana Santa. Relativamente à bênção das plantas, diz uma lenda corrente em Sacoias, concelho de Bragança: Nos dias de São João Todas as ervinhas estão bentas. Só o trevo gadanho não. Porque quando a Senhora Fugia para o Egipto Para a deter no caminho Agarrou-se-lhe ao vestido. Nossa Senhora amaldiçou-o Com tamanha maldição Que enquanto durasse o mundo Não teria perdão. Pau das Almas – Festejos de Novembro. No dia 1 de Novembro, os moços de Baçal, concelho de Bragança, vão ao monte buscar um carro de lenha, que trazem para o povo sem auxílio de animais, puxando eles próprios o carro, a qual é arrematada em hasta pública e o importe aplicado em Missas e ofícios no dia seguinte pelas almas do Purgatório. Daqui vem o chamar-lhe Pau das Almas [159].

(719) MORERI – El Gran Dicionario, artigo «Vestalias». (720) NIEUPOORT – Rituum..., p. 241 e 351.

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Nessa noite pedem aos vizinhos da povoação castanhas e outros frutos destinados ao mesmo fim. Este uso é quase geral por todo o distrito de Bragança (721), e em muitas terras também as raparigas vão buscar outro carro de lenha, nas mesmas condições acima. Tanto quando chegam com o Pau das Almas como quando pedem os comestíveis toda a gente lhes dá pão e vinho à farta e os ovaciona festivamente. Depois, em certo dia reunidos, comem por todos um chibo ou mais acompanhado de fortes libações vináceas e galhofada. Estes festejos relacionam-se com os de São Martinho (dia 11 de Novembro), de que falámos noutra parte, e correspondem às bacanais, às Antestérias e Oscofórias pagãs, celebradas pelos Dionisíacos em honra de Semele, deus das almas, no princípio de Novembro, para comemorar o culto naturalista em reconhecimento das uvas novas chegadas ao lagar. Pelo São Martinho prova o teu vinho. Pelo São Martinho todas as velhas têm vinho, lembra o adágio popular. A igreja cristianizou as orgias dionisíacas, aproveitando destas o culto das almas na comemoração dos finados e impondo São Martinho; o povo aceitou, mas não esqueceu as bacanais e as suas grandes borracheiras, que continuam como nos tempos em que Baco imperava. Ver o artigo Carácter e costumes dos nossos antepassados, p. 237. Já dissemos, ao tratar das festas do Natal, que as bacanais, eram celebradas três vezes no ano e lá fizemos a respectiva descrição, sendo uma a 23 de Outubro, ou seja pouco antes das nossas festas do Pau das Almas e São Martinho. Os festejos populares do Pau das Almas no dia 1 de Novembro coincidem no tempo e na intenção com outros celebrados pelo paganismo. Assim, a 6 de Outubro aplacava ele com sacrifícios os deuses manes e almas dos mortos. A 17 de Novembro era, durante quatro dias, a comemoração fúnebre do luto da deusa Ísis por seu irmão Osíris (722). A 27 do mesmo mês de Novembro tinham lugar os sufrágios mortuários pelas almas dos gauleses e gregos enterrados vivos em Roma no mercado dos bois (723). Na verdade, o mês de Novembro era o mês das almas por excelência, como se diz no culto católico. Se tornasse a este mundo um sacerdote pagão e visse os sacerdotes cristãos com trajes iguais aos seus, conservando ainda os mesmos nomes, segundo fica dito a p. 174; (721) MARTINS, Firmino A. – Folclore do concelho de Vinhais, p. 9. (722) O culto de Ísis estava muito espalhado em Portugal e em toda a Península Ibérica, como se vê das várias lápides votivas que têm aparecido. (723) MORERI – El Gran Dicionario, artigo «Fiestas».

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e visse o Papa ainda chamado Pontífice, como o seu Sacerdote Máximo; e visse o nosso celibato eclesiástico, proveniente dos dementados sacerdotes de Rhea, que se castravam devido aos excessos de furor a que se entregavam, da virgindade das Vestais, que ainda assim podiam casar depois de trinta anos de idade e de alguns actos de culto, que exigiam abstenção sexual apenas por algumas horas; e visse a nossa coroa na cabeça à semelhança dos sacerdotes de Ísis e a preferência dada por estes ao linho como vestimenta litúrgica, tal qual os nossos puristas, que o impõem sob pena grave; e visse as lâmpadas ardendo permanentemente ante os altares cristãos, à semelhança do fogo sagrado das Vestais, também mantido em lâmpadas; e visse a veneração aos nossos tabernáculos, onde se guardam as sagradas partículas, igual à tributada por eles ao tabernáculo do Capitólio, onde se guardavam os Livros Sibilinos, que só podiam ser lidos por sacerdotes especiais, tal qual como sucedeu com a nossa Bíblia durante muitos séculos; e visse à frente de cada uma das nossas freguesias um pároco, chamado cura ainda na voz do povo em muitas partes, à semelhança dos sacerdotes curiones, que cuidavam das curias (724); e visse a estranheza que a alguns puristas causa o trabalho mecânico do clero, à semelhança dos Flamines, que nem sequer podiam ver trabalhos, indo, por isso, sempre diante deles, quando andavam pelas ruas, um arauto (praeclamitor) para mandar suspender as obras enquanto eles não passavam; e visse que nos Ofícios de Defuntos, reza do Breviário e outras preces, se recitam salmos como os Sálios, sacerdotes de Marte, cantarolavam versos antigos, que no tempo de Horácio já pouca gente entendia e no de Quintiliano nem os próprios sacerdotes; e visse as alfaias do culto – turíbulo, caldeirinha, castiçais, lâmpadas, hissope, etc. – ainda com o mesmo feitio, nomes e usos das suas (725); e visse um sacerdote a fazer lume novo em Sábado Santo com pederneira, segundo preceitua a liturgia, assim como o faziam os sacerdotes de Vesta dos raios do sol colhidos em vidro, na sua festa de 1 de Março, pouco mais ou menos na época em que nós o fazemos;

(724) As aldeias romanas foram agrupadas por Sérvio Túlio, quarto rei de Roma, em tribos rústicas, compostas de uma ou mais povoações, segundo a população e a situação geográfica. Cada tribo rústica era obrigada a ter um altar (igreja, como nós dizemos) e a pagar certa quantia para o sacerdote e culto, constante de uma festa anual chamada Paganalia. A criação das nossas freguesias, com um pároco, filia-se nestas Paganais. Ver MORERI – El Gran Dicionario, artigo «Paganales». (725) Eles, como nós, incensavam e aspergiam com água benta as vítimas e ofertas dos sacrifícios. Ver NIEUPOORT – Rituum..., p. 372.

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e visse as nossas comemorações dolorosas da Semana Santa pela morte de Cristo, em que especialmente se destaca a dor das três Marias – Madalena, Jacobe e Salomé – a das Filhas de Jerusalém e a da Verónica, que piedosamente limpou o rosto de Cristo, e, sobrepujando a todas, a de Maria Santíssima, Mãe de Cristo, pela perda de seu estremecido Filho, muito semelhante à das matronas romanas, que durante oito dias, começados a 10 de Abril, pouco mais ou menos pela época da nossa Semana Santa, pranteavam nas Festas Cereales a dor de Ceres pela perda de sua filha Proserpina; e visse ainda mais a coincidência de estas Festas de Ceres, após os dias de tristeza, jejum e abstinência, como as da nossa Semana Santa, serem seguidas, como as da nossa Páscoa, de grandes regozijos, em que as famílias se banqueteiam e mandam presentes umas às outras (726); e visse nas nossas Ladainhas de Março e Abril os párocos a abençoar os campos e os frutos novos, tal qual eles faziam nas Ambarvais, também celebradas na mesma época; e visse as nossas comemorações pelos defuntos, celebradas em Novembro, tal qual eles faziam na mesma época para apaziguar os manes dos mortos (727); e visse as nossas figurinhas dos Presépios do Natal, correspondentes às suas Sigilárias, celebradas a 20 de Dezembro, em que as famílias mandavam umas a outras pequenas figurinhas de ídolos feitos de barro, metal e outras matérias; e visse as nossas festas populares do Natal, Reis, Entrudo, Maias, São João (24 de Junho) e São Martinho (11 de Novembro), que correspondem perfeita e respectivamente nas épocas e modalidades étnicas às suas Bacanais (eram celebradas em Janeiro, Março e fins de Outubro), Florais, Vestais e Manes; e visse os nossos cultos à Virgem Maria prestados em Maio, o mês das flores, como já lhe vão chamando os devotos, tão cheios de flores evocadoras do culto de Flora, também ferventemente prestado nesse mês e visse que, terminada a Missa, o celebrante manda os fiéis embora, dizendo-lhes ite, Missa est tal qual eles faziam após o sacrifício, ordenando: ex templo; e visse que os nossos tríduos, novenas e quinzenas de preces já eles os praticavam da mesma forma (Denicalia Novendialia); e visse as nossas capelas no cume dos montes e despovoados a cristianizar as ruínas onde eles tiveram os seus santuários;

(726) MORERI – El Gran Dicionario, artigo «Cereales». (727) Ver o artigo Funerais, onde se desenvolve o assunto.

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e visse os bailes e descantes das nossas festas, como eles praticavam, dançando em honra dos deuses (728); e visse as ofertas de galinhas, leitõezinhos, cabritos, cordeiros, pão, vinho, dinheiro, etc., que nas nossas festas se oferecem aos santos, como eles faziam às suas divindades; e visse os nossos templos, arquitectados pelo cânone das suas basílicas, ornadas por colunas salomónicas, envolvidas por ramos de vides, com folhas e uvas, facilmente confundíveis com a estilização do tirso das bacantes; e visse os milagres (votos) de cera que os fiéis penduram pelas igrejas aos santos, em cumprimento de promessas por lhe curar o aleijão da perna, do braço, o boi, a vaca e outros animais, cujas figuras apresentam esses votos, tal qual se fazia nos seus santuários em reconhecimento de iguais favores às imagens dos seus deuses; e visse que em alguns dos nossos casamentos ainda a noiva é envolvida pelo simbólico cinto correspondente à zona virginali de Juno, que eles usavam; e visse as encruzilhadas dos nossos caminhos ornados por símbolos religiosos, como eles tinham em memória de Mercúrio e dos Lares Compitales; e visse, finalmente, mil outras usanças que o nosso povo repete constantemente e que a liturgia cristã copiou da pagã, aqui omitidas por brevidade mas facilmente colhidas do que dizemos neste artigo da Etnografia e largamente se pode ver nos autores citados, havia de ficar radiante e dar infinitas graças aos seus deuses, que miraculosamente mantinham a sua religião através dos séculos, sem permitir que os homens a destruíssem. Como este sacerdote pagão apostrofaria o imperador Teodósio, o Grande, que extinguiu os Flamines (sacerdotes de Júpiter), as Vestais (sacerdotisas de Vesta) e outros; o imperador Anastácio, que extinguiu os Lupercus (sacerdotes de Pan) e outros imperadores, ferozes tiranos no seu conceito, como para os cristãos são ferozes e tiranos Domiciano, Trajano, Marco Aurélio, Diocleciano e os mais, acusados de perseguir por ódio os cristãos, quando, afinal, nada mais fizeram do que aplicar a lei e cumprir com as obrigações que essa lei, a política e a sua qualidade de zeladores da fé pagã, como pontífices, lhes impunham. Como ele, à semelhança dos cristãos, conclamaria ufano: Monstros de ignomínia, quisestes extinguir o culto dos deuses e, afinal, nada conseguistes, porque a maldade humana não prevalecerá contra eles. Portae Inferi non praevalevunt adversus eos.

(728) O cânone 22 do III concílio de Toledo, celebrado em 589, condena os «bailes torpes» e cantares «maus» que o povo, por costume, pratica nas festividades dos santos. De onde se conclui que o costume vinha de época anterior ou seja do paganismo.

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É evidente a diferença essencial entre as duas religiões, embora ritual e liturgicamente se irmanem em muitos pontos e a superioridade do cristianismo seja incontestável. Esta identidade de rituais muito deve ter influenciado na propagação do cristianismo. A Igreja não só cristianizou os loca sacra com capelazinhas e cruzes, mas também aproveitou habilmente a devoção pagã, canalizando-a no sentido cristão. Para esta parte, referente ao modo de ver do sacerdote pagão atrás exposta, guiamo-nos por MORERI, Luiz – El Gran Dicionario, 1753, tradução espanhola; NIEUPOORT – Rituum...; Dictionnaire Universel françois et latine, vulgairement appelé Dicionnaire de Trevoux, 1771; GLAIRE – Encyclopédie Catholique, 1848, e léxicos modernos de antiguidades gregas e romanas, como Rich e Daremberg. É certo que no Êxodo, cap. XXXIX, encontramos mencionados, como hábitos sacerdotais dos judeus, o cíngulo, a túnica e a mitra, e o linho imposto para matéria da sua confecção. Idêntica menção se faz no Levítico VI e VIII, bem como do incenso nos sacrifícios (Levítico II e VI), turíbulo (thuribulis) (Levítico X-I), da água benta (Números V-17), das lâmpadas perpétuas ante o altar (Levítico VI-12) e da tonsura clerical na consagração dos sacerdotes (Números VIII-7). Estes factores podiam influir nos ritos cristãos, mas são relativamente poucos em comparação dos pagãos, que se lhe aproximam muito mais, como fica dito. Agouros. São muitos os agouros correntes em terras bragançanas, que se filiaram nos dias nefastos (aziagos, de má sorte) dos romanos (729) e nos rituais dos áugures, que do canto das aves, principalmente galinhas, deduziam os sucessos felizes ou infelizes. Entre outros, temos: a terça-feira. À terça-feira, não cases a filha nem urdas a teia, diz o rifão popular (730). Outros estendem também à sexta-feira o mesmo agouro. A criança que se desmama neste dia nunca mais pega a mamar. Treze pessoas à mesa é indício de que uma morre dentro do ano. O mesmo indica o uivar do cão, o piar do mocho ou coruja junto à casa de habitação, o grasnar do corvo por cima do povoado, a galinha que canta como galo: galinha que como galo canta, seu dono aguanta, mas há-de ser a preta e não a branca, diz o povo. Pelo contrário, é bom presságio o besouro branco que passa zumbindo perto de nós (é mau se for preto). A andorinha felicita a casa onde faz o ninho e o grilo branco aquela onde canta, por isso é pecado fazer-lhes mal, e fica excomungado quem mata a cegonha ou lhe maltrata os filhos, dos

(729) NIEUPOORT – Rituum..., p. 327. (730) Ver tomo I, p. 48 e nota respectiva, destas Memórias.

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quais ela própria deita um abaixo do ninho para pagar o dízimo, tal o seu respeito pelas leis religiosas (731). Não se devem assar castanhas antes de nascer o trigo, porque, assando-as, não nasce, dizem em Aveleda. Quem varre a casa para a rua depois do meio-dia varre a fortuna. Ver tomo II, p. 149 a 151, destas Memórias, onde indicámos várias costumeiras supersticiosas condenadas pelos bispos de Bragança. Almas penadas, almas do outro mundo e espíritos malignos. É firme a crença popular que as almas do outro mundo, as almas dos mortos, vêm a este em castigo de certos pecados, a mandar cumprir promessas que deixaram por satisfazer, a mandar pagar dívidas que ficaram em aberto, etc. Cervantes, grande observador da índole popular, aponta em duas partes o modo de falar a estas almas: «Si eres alma en pena dimelo, yo haré por ti todo cuanto mis fuerzas alcanzaren» (732). «Conjurote por todo aquello que puedo conjurarte como catolico cristiano, que me digas quien eres; y si eres alma en pena, dime que quieres que haga por ti, que pues es mi profesion favorecer y acorrer á los menesterosos del otro mundo, que no pueden ayudarse por si proprios» (733). Pelo geral, a alma do outro mundo entra no corpo dos vivos, quase sempre mulheres, pela boca ao bocejar, de onde a conveniência de fazer constantemente cruzes sobre ela enquanto está aberta, ou por outro orifício, e atormenta-a com ataques histéricos violentos enquanto não cumprir quanto ela ordenar. Como remédio eficaz tem o povo os exorcismos feitos por um padre, mas as penas canónicas contra os exorcistas são severíssimas e nenhum se atreve a fazê-los, de onde resultam más-vontades esmagadoras, tal a estupidez de tal crença e o arreigado dela no povo. Os ataques das possessas por almas do outro mundo, quando não resultam de afecções nervosas sujeitas a terapêutica médica, provêm de malícia suma eivada de erotismos luxuriosos. Casamento. O casamento resulta da preparação amorosa entre os noivos ou da combinação de seus pais e parentes, que, sem os consultar, olhando principalmente a interesses temporais de famílias, arreglo de casas e conservação de fazendas indivisas, lhes comunicam a resolução, que os nubentes acatam quase sempre, porque não é bem vista tal desobediência e pressagia infelicidade conjugal. Mas, de uma forma ou de outra, olha-se

(731) Ver tomo II, p. 149 e 151, destas Memórias, e tomo VIII, p. 14. Ver também PEREIRA, J. M. Martins – As Terras de entre-Sabor-e-Douro, p. 342, onde se apontam outros agouros. (732) CERVANTES – D. Quixote, tomo 2, cap. 48. (733) Ibidem, cap. 55. Ver MARTINS, Firmino A. – Folclore do concelho de Vinhais, 1928, p. 83.

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sempre ao interesse económico, sendo raros os casamentos puramente de sentimento ou coração. É que lá diz o cantar: Casei com a bonita, Sem reparar à fazenda: Agora morro de fome E a bonita não me lembra. Fui ao Porto, fui a Braga. Também fui ao Limoeiro; Não achei melhor amigo Do que a bolsa do meu dinheiro. Casei-me e cativei-me, Troquei a prata ao cobre: Troquei a minha liberdade Por moeda que não corre. No dia que eu casei Três mudanças fez o dia: Choveu e anuviou E acabou-se-me a alegria. E o ditado frisa ainda: se muito tens, muito vales; se nada tens, nada vales. Quando a noiva é de povoação diferente da do noivo, tem este de pagar aos moços da aldeia dela a robra (734), o vinho, como hoje geralmente se diz, ou seja certa quantidade de vinho, trigo e cigarros, do contrário não o deixam ir visitá-la, e se recusa pagar e o lá apanham, maltratam-no, espancam-no mesmo, terminando por o lançar a uma poça ou charco de água. Esta praxe é geral e a mocidade está muito ciente de que tem direito a não deixar sair da sua aldeia as raparigas para casar sem receber esta espécie de foro, indemnização ou como deva chamar-se-lhe, que afinal é o preço com que o nubente compra o direito de escolher noiva em povo estranho [160]. A coemptio, uma das formas dos casamentos romanos, algo se relaciona com esta usança. Uma vez paga a robra, pode o moço ir livremente de noite ou de dia visitar a nubente quantas vezes quiser. «Já pagou os direitos dizem eles – pode ir e vir à vontade. Mas se interromperem os prologómenos nupciais

(734) Pagar o piso, dizem nas povoações vizinhas galegas (Espanha).

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durante algum tempo, por forma a entender-se que o casamento se desmanchou e depois os reatarem, ou se o enlace matrimonial demorar mais do que o normal, sem razão justificável, precisa de pagar nova robra. Quando os nubentes são da mesma aldeia, o noivo dá o vinho aos moços e a noiva tremoços, e o mais que entender às raparigas, mas espontaneamente, sem a tal os violentarem, se bem que aos somíticos que, por mesquinhez, deixam de esportular-se, à noite do dia do casamento, tocam-lhe os sinos da igreja a finados em sinal de desprezo. Em terras do Mogadouro chamam a estas comezainas «ir aos cachos e levar os parabéns», e costumam celebrar-se na segundo domingo da leitura de banhos em casa da família dos nubentes, onde se reúnem parentes, amigos e vizinhos a felicitá-los, a comer e a folgar, pois o acto é seguido de longa dança pelo dia e noite fora. Em algumas terras do concelho de Miranda do Douro ainda raptam a nubente quando vai no acompanhamento para a igreja a celebrar o matrimónio. Os romanos simulavam igualmente o rapto ao ir buscar a nubente a casa de sua família (735). No regresso a casa, após o casamento na igreja, são os noivos esperados à saída do adro por duas raparigas com um arco formado por lenços e fitas de seda, flores e cordões de ouro, que não deixam passar ninguém sem primeiro desempenhar a talanqueira. É ao padrinho do casamento que tal compete, dando o que entender, segundo o seu brio e generosidade, para tal desempenho, que se aplica em favor do culto de Nossa Senhora. Mais adiante há outra talanqueira, que compete à madrinha desempenhar. Às vezes ainda aparece terceira talanqueira, mas é contra as praxes litúrgicas populares. As talanqueiras e a robra são prováveis restos de rituais arcaicos, em que vigorava a compra da mulher. Em algumas terras, se a nubente retira no mesmo dia do casamento para a povoação do marido, armam-lhe novo arco e não deixam partir aquela sem a desempenhar, isto é, pagar nova robra. Em várias terras, a par das talanqueiras está uma rapariga que recita uma loa, poesia que celebra as boas qualidades da nubente, as saudades que deixa às outras companheiras solteiras, o desejo de que seja feliz, oferecendo-lhe ao mesmo tempo um ramo de flores. As loas lembram o epithalamium usado pelos romanos como parte integrante dos seus casamentos. À porta dos nubentes dá-se pão e vinho a todas as pessoas do acompanhamento e de jantar aos convidados especiais, pois é destes que reza o ditado: à boda e ao baptizado ninguém vai sem ser convidado; e daqueles: mas ao baptizado e à boda vai a gente toda.

(735) NIEUPOORT, G. H. – Rituum..., 1774, De Nuptiis romanorum, p. 546, § 2.

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Também à porta dos nubentes se atiram ao ar as amêndoas, que são apanhadas com grande reboliço e algazarra pelo rapazio, mulherio e mais assistentes. Aos convidados, no fim do jantar, também se dão amêndoas, mas oferecidas, à cortesia, em pratos. A balbúrdia das amêndoas lembra as nozes que os romanos atiravam em tais circunstâncias para, com a barulheira de quem as apanhava, abafarem os gritos da virgem nubente ao consumar o matrimónio (736). As amêndoas, chamadas amêndoas da boda, que dão aos convidados no fim do jantar ou os nubentes vão depois levar às pessoas amigas, que não assistiram ao banquete, devem relacionar-se com o mestaceum usado pelos romanos em circunstâncias idênticas. A propósito deste e de outros termos latinos, ver Rich ou Saglio, já citados. Em terras de Lomba, extinto concelho, hoje incorporado no de Vinhais, ainda, como nos casamentos romanos, oferecem à nubente roca e fuso, com estrigas de lã e linho (737). Em Parada de Infanções, concelho de Bragança, num casamento a que assistimos pelos anos de 1900, vimos os nubentes, após a saída da igreja, empunharem bolos de pão de configuração fálica, defendidos dos assistentes no meio de grande barulheira, que procuravam tirar-lhos, na persuasão de que, quem primeiro o conseguisse, seria o primeiro a casar. Na confarreatio, a forma mais solene de casar das três usadas pelos romanos, também se usava, como parte litúrgica do ritual matrimonial, um bolo de farinha apresentado à nubente, após o casamento (738). Possivelmente, daqui proveio a usança com adjunção do tic fálico muito vulgarizado em Roma depois que os cultos orientais aí se espalharam durante o império, em que os órgãos da geração foram venerados nos mistérios de Dionísio sob a forma de Hermes itifálico, celebrados nas faloforias e nas festas de Baco e Ceres, de onde passaram a ter o valor de ex-votos e amuletos, ainda vivaz hoje entre nós na figa que as mães penduram ao pescoço dos filhinhos para os livrar de malefícios (739). Poucos anos depois vimos noutro casamento em Rabal, concelho de Bragança, o nubente entrar de joelhos em casa dos sogros, após o casamento, e pedir-lhe perdão, de mãos postas. Não souberam dizer-nos a razão deste pedido, nem se justificava, pois o enlace fora muito a gosto de

(736) Ibidem, p. 549. Aqui se vê também uma usança romana, de onde devem provir as talanqueiras. O Arqueólogo Português, vol. VII, p. 84, onde se mostra que o uso de processos impeditivos como as nossas talanqueiras, vigora em mais províncias portuguesas, assim como na Itália, na Hungria e noutras terras. (737) NIEUPOORT, G. H. – Rituum..., 1774, De Nuptiis romanoram, p. 456, § 11. (738) RICH – Dictionnaire des antiquités romaines, artigo «Confarreatio». (739) SAGLIO e DAREMBERG – Dictionnaire des antiquités romaines, artigo «Bacchus».

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todos. Provavelmente, este caso é deturpação do romano, em que a mulher não transpunha por seus pés o limiar da porta ao entrar na casa do marido, mas sim levada por outrém, em atenção à castíssima deusa Vesta, a quem tal lugar era consagrado (740). Em algumas aldeias do concelho de Vinhais ainda a madrinha do casamento, ao ajudar a vestir a noiva para o mesmo, lhe aperta por cima do cós do saiote um baraço de lã de anho tardego, pronunciando ao mesmo tempo esta oração: Santa Libana, Vou a casar; Eu solteira Non quero quedar. Em honra de Deus E da Virgem Maria Um Padre-Nosso Com uma Ave-Maria (741). Este cordão, baraço ou cinta alude à zona virginali de Juno, deusa que preside aos casamentos, caracterizada na indumentária por este cordão (742). E a sogra, ao entrar em casa no regresso do casamento, entrega-lhe a roca e a chave da despensa, tirando-lhe por sua vez a madrinha o tal baraço ou cordão, lançando-o no lume por «causa dos maus ares». Noutras aldeias do mesmo concelho o baraço ou cordão é de lã branca e posto pela noiva por cima do vestido. Tanto o cordão como a entrega das chaves da casa à nubente faziam parte do ritual matrimonial romano (743), mas aquele era o marido que o despedaçava na noite nupcial. Em Bragança e noutras terras do distrito, o barbeiro do nubente tem especial cuidado de lhe aparecer em casa na manhã seguinte ao dia do casamento, apenas ele se levanta da cama, para lhe fazer a barba, sem para tal receber encargo ou mesmo contra sua vontade, por a ter feito no dia anterior. Entre os romanos fazia parte do ritual nupcial a tonsura capilar (744), e possivelmente dela deriva a usança que os barbeiros praticam com a meticulosidade de um preceito religioso.

(740) NIEUPOORT – Rituum..., p. 551. (741) MARTINS, Firmino A. – Folclore do concelho de Vinhais, 1928, p. 13. (742) NIEUPOORT – Rituum..., p. 238. (743) Ibidem, p. 548. (744) CANTELIO, Petro Josepho – De Romana Republica, 1768, p. 393.

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No casamento das viúvas não se fazem manifestações de regozijo e muitas vezes lhe tocam na noite da boda os sinos a finados ou fazem chocalhada. Esta consiste na barulheira infernal feita pelos moços nas ruas da povoação com chocalhos, gadanhos, latas e o mais que sirva para fazer estrondo em batuque destemperado. À chocalhada chamam em terras de Miranda do Douro ferrunfada e aplicam-na a mulher apanhada em adultério ou em vias disso. O caso aqui toma proporções de alto escândalo: dura às vezes um dia inteiro em frente da casa da delinquente, queimando solas, cornos e tudo quanto produza cheiro nauseabundo em fogueiras, braseiros e incensando com tal fumaça o marido, se ele, por acaso, aparece a tomar a defesa da cônjuge, pois estes, muitas vezes sugestionados por elas, atribuem a inveja tal assoada (745). Em algumas aldeias bragançanas, na noite de Entrudo juntam-se os rapazes em volta de uma grande fogueira, numa eminência do povo ou perto dela, e dois deles, fazendo de juízes, vão dando em casamento as raparigas aos que lhas pedem em segredo. Se algum pede uma já escolhida por outro, dizem-lhe que já está dada e tem de se resignar a escolher outra ou a disputá-la a dinheiro ao colega, revertendo este para gastos da patuscada. Se alguma rapariga não tem pretendente, os juízes distribuem-lhe um moço dos não assistentes ao festanço. Desde que cada mancebo tem a sua desposada, proclamam em vozeirão uníssono de todos, acompanhado de rufo do tambor e de grande algazarra, cada um dos casórios assim distribuídos. Depois de cada proclamação, gritam os juízes: «Que dote se lhe há-de dar?» Ululam eles: Uma terra no Cicrão Que não dá palha nem grão. Uma terra no Lajedo É boa: canta lá cuco cedo. A burra branca e cega dos Bernabés Para que nem ele nem a burra tornem cá a pôr os pés. e o mais por este teor, sempre ajeitando o dote em terrenos infrutíferos ou por formas ridículas e escarninhas. Se alguma das raparigas não gosta do esposado que lhe distribuíram, queima-lhe as barbas no dia seguinte, isto é, deita fogo a uma bola feita com (745) Ver tomo V, p. XXVI, destas Memórias.

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estopa tirada da roca, no meio de grandes risadas das companheiras, que asinha tratam de indagar quais noivos lhes destinaram. As moças interrogam o cuco para saber quando casarão: Cuco que estás na cerdeira Quantos anos me dás de solteira? e quantas cucadas der a ave quantos anos tardará em casar. – E olhe que é verdade – dizia-nos há anos uma senhora de muito relevo social e bastante instruída. Eu da última vez que lhe fiz a pergunta, deu uma cucada muito pequenina e só tardei meio ano a casar. Em algumas terras as raparigas levam raminhos de cravos a Santo António ou fazem-lhe súplicas em cartas fechadas colocadas no seu altar para que as case cedo. Em Bragança atiram elas pedras ao frontão que encima a porta da igreja das Beatas até uma ficar lá, indicando as anteriores os anos que estará solteira. Já dissemos, ao tratar dos festejos de São João, que o cuco é ave fálica. Em terras de Vinhais havia o costume (746) de as raparigas, para obterem bom casamento, irem à igreja recitar a seguinte oração: Cando, Candedo, Canda, Candinha, Sende meu padre E minha madrinha. Em honra de Deus E da Virgem Maria Um Padre-Nosso C’uma Ave-Maria. Culto dos astros. Estrabão (747) diz que os nossos antepassados adoravam um deus desconhecido nos plenilúnios, dançando em frente das casas toda a noite. No Corpus Inscriptionum Latinarum de Hübner, em O Arqueólogo Português e noutras colecções epigráficas encontram-se vários textos votivos ao sol é à lua. Este culto veio até muito adiante, pois um cânone do concílio de Braga, celebrado no século VI, diz: «...non liceat christianis... observare vel colere elementa, ut luna aut stellarum cursum» (748). Nas p. 76, 84, 85 e 89 mencionámos lápides funerárias romanas em que a lua aparece como símbolo talvez religioso.

(746) MARTINS, Firmino A. – Folclore do concelho de Vinhais, p. 13. (747) Cap. III. (748) VASCONCELOS, J. Leite de – Ensaios Etnográficos, 1903, vol. 2, p. 71.

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Culto fálico. Este culto consistia na adoração do membro viril, phallós, em grego, correspondente ao Príapo dos romanos, e constituía também o grande mistério de Baco. Foi instituído por Ísis, egípcia, o mesmo que Ceres romana, para ser prestado ao Phallus de seu marido Osíris, assassinado por Typlon, do qual apenas pôde encontrar esta parte do corpo (749). Em Agosto celebravam as matronas romanas a festa das Phallagoguas ou de Príapo, levando processionalmente um phallus, que colocavam no seio da estátua de Vénus (750). Do culto fálico ainda restam vestígios, como dizemos nos artigos São João e Casamento, a propósito do bolo usado no casamento em Parada de Infanções, das aves cuco, mocho e poupa (751) e dos santos casamenteiros – Santo António, São Gonçalo e São João. A virtude que o povo atribui para curar o aberto (entorse) ao baraço de lã que serviu para capar os carneiros e touros; à parte inter-crura das calças para livrar de malefícios, como dizemos no artigo Feiticeiras, é outro resto do culto fálico, bem como a figa de que falamos no mesmo artigo, e o contacto do phallus para curar a mordedura do alicante. Este culto, que tão extravagante nos parece, resultou naturalissimamente, visto gerar ser quasi um acto divino de criar sem limitações. Crescei e multiplicai-vos, foi o preceito que Deus pôs ao homem (752); as conveniências sociais é que trouxeram depois a regulamentação pelo matrimónio e o paganismo o celibato periódico, tornado perpétuo pela Igreja Católica, que precisamos acatar enquanto não for abolido, como já foi o das ordens religiosas militares e tantas vezes o tem sido em casos especiais, mas nunca esquecendo a obrigação moral de pugnar pela sua supressão, devido a ser fonte de ruínas inevitáveis. Culto das fontes e águas. Já na p. 100 tratámos do culto das águas e fontes, às quais a gentilidade sacrificava espalhando flores e vinho sobre elas (753). Os romanos celebravam a 13 de Outubro, em honra das ninfas dos poços e fontes, a festa das Fontinales, lançando-lhes ramalhetes de flores e pondo coroas das mesmas sobre os poços. O templo onde se fazia a festa estava junto à porta Capenna (754).

(749) MORERI – El Gran Dicionario, artigo «Ceres». (750) Ibidem, artigo «Fiestas». (751) Ver tomo V, p. 26, destas Memórias. (752) Sagrada Escritura, Genesis, cap. 1, vol. 28. (753) VASCONCELOS, J. Leite de – Ensaios Etnográficos, 1903, vol. 2, p. 43. VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, vol. 3, p. 572, onde se trata documentadamente do assunto. (754) MORERI – El Gran Dicionario, artigos «Fiestas» e «Fontinales».

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No artigo Águas, p. 96 e seg., mencionámos várias fontes de virtude curativa contra o angaranho, aranganho, anqueilhado ou caílho. Às fontes aí mencionadas convém acrescentar mais três, apontadas pelo Padre Firmino Augusto Martins (755) no concelho de Vinhais, a saber: uma junto à ponte de Soeira, outra na ribeira de Tuizelo, e outra junto a Santiago de Ribas, freguesia de Edral. Há também fonte do angaranho no sítio de Vilar, termo de Rebordãos, concelho de Bragança. Culto da serpente. Da ofiolatria ou culto da serpente restam ainda documentos gráficos entre nós, como mostraremos adiante no artigo Pré-história. Na lenda popular a cobra é contrária ao homem e o lagarto favorável. Culto totémico. Do totemismo há largos vestígios na região bragançana, como fica dito atrás a propósito de Agouros. Ver o artigo Porco. Festa de aldeia. Como fica dito, os romanos reuniram as aldeias em grupos chamados cúrias, pondo à frente destas os curones (um por cada), com obrigação de erigir um altar para sacrifícios e fazer uma festa anual (paganália).

Corrida da rosca pelos rapazes

(755) MARTINS, Firmino A. – Folclore do concelho de Vinhais, p. 14, onde aponta os rituais a observar ao banhar a criança pelo teor dos que demos no artigo Águas.

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Corrida da rosca pelas raparigas

O mesmo sistema seguiu a Igreja Católica com os párocos, chamados curas pelo povo e pelos documentos oficiais (756). Igualmente cada povoação tem a sua festa ao santo padroeiro, chamado genius loci no paganismo. No dia desta festa, o povo, fiel depositário da liturgia pré-cristã, celebra a solenidade segundo esses ritos, comendo e bebendo à farta, dançando, jogando o ferro, a barra (discus), a corrida da rosca, os paus, o fito, a luta (757), etc., tudo como faziam gregos e romanos nas suas solenidades segundo vemos em Homero e Virgílio [161]. E os troveiros cantam ao som da viola: Ó Bragança, ó Bragança, Ó Bragança roubadora: Roubas-te-me uns olhos De quem eu era senhora.

(756) Tomo I, p. 369 e seg., destas Memórias. LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, passim. (757) Tomo VII, p. 762, destas Memórias. Sobre os jogos, ver tomo II, p. 163, 171, 184 e 187, desta obra. No mesmo, p. 165, se mostra ter o gaiteiro sido proibido de tocar dentro da igreja. Esta disposição, por certo, caiu logo em desuso, porque o gaiteiro é muito do gosto bragançano, que não compreende festa sem ele, dizendo mesmo que Deus subiu ao céu ao som da gaita-de-fole. Mas ultimamente o bispo de Bragança, D. José Lopes Leite de Faria, falecido em 1927, renovou a proibição e tem-se cumprido até hoje.

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Passarinhos que cantais Nos salgueirais do Sabor, Ide levar saudades Às terras do meu amor. Infeliz de quem viveu Sem o amor conhecer Pode dizer-se sem mentir Que existiu sem viver. Grande Basbaqueirão. Corre em terras bragançanas a lenda de um comilão insaciável, que comia, comia, sem nunca se fartar. Andava a servir, e o amo, para ver se lhe embotava o apetite, experimentou sucessivamente com pão brando, em massa, duro e mole, ao que Basbaqueirão, comendo sempre, obtemperava: Pão brando, engole-se cantando, Pão em massa, de seu se passa, Pão duro, enche bandulho, Pão mole de seu se engole. O Gargântua e o Pantagruel de Rabelais eram por este tipo. Será tal personagem uma criação do povo, grande mestre da língua e da literatura, depois desenvolvida pelo génio dos literatos, ou viria ele ao povo por meio da literatura de cordel? A verdade é que várias lendas populares, algumas das quais damos neste volume, constituem trechos brilhantes nas obras de Homero e outros génios imortais, como é, por exemplo, a das duas panelas, uma de ouro e outra de peste, de que falamos no artigo Mouras encantadas e ainda no mesmo a do tesouro escondido no campo, que só pode ser encontrado por ponta de relha ou pé de ovelha, evidente alegoria ao trabalho agrícola, que Lafontaine desenvolveu na conhecida fábula do lavrador moribundo, revelando aos filhos o local onde deviam cavar para o encontrar, como efectivamente acharam, não em dinheiro, mas na abundância de frutos devidos ao profundo granjeio. Lobisomem ou lobo da gente. A crença no lobisomem ou lobo da gente está menos espalhada na região bragançana do que a das mouras encantadas e feiticeiras; no entanto existe. Trata-se de um homem como os outros, mas de cor tipicamente pálida, olhos massados e mãos extraordinariamente calosas, em razão do fadário de todas as sextas-feiras, ao dar da meia-noite, embora chova, neve ou faça o mau tempo que fizer, sair MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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de casa, transformar-se no primeiro animal, cujo rasto pisa na rua, e durante três horas correr à toa por montes e vales atacando tudo, até chegar o momento preciso em que termina o fadário e regressa a casa já em forma humana, extenuado pela fadiga, sem consciência de transformação sofrida. Como ao bruxo das trovoadas, se alguém ferir o lobisomem e lhe fizer sangue, pouco que seja, regressa logo à figura de homem, e alguns acrescentam que perde a sina triste, mas a ferida tem de ser feita com aguilhada de picar os bois, principalmente boi preto. Segundo a crença, nasce com o fadário de lobisomem o filho de casados gerado em Sexta-feira Santa e o de compadre e comadre. Também se converte em lobisomem aquele a quem a madrinha deitar essa praga ao amassar do pão para cozer no forno. Na Cavanca da Trepa, termo de Edral, concelho de Vinhais, dizem que no tempo antigo, quando os de Rebordelo e de sete povoações em volta de Edral vinham à Missa à paroquial desta povoação (758), apareceu um lobo da gente e comeu uma rapariga. Quando paroquiámos a freguesia de Mairos, concelho de Chaves, desde fins de Dezembro de 1889 a meados de Junho de 1896, era ainda muito viva a lembrança de uma fera que, anos antes (759), infestara aquelas terras. Pinho Leal (760) fala de outro animal bravio que em 1861 assolou várias povoações galegas convizinhas de Castro Laboreiro, passando por último a esta, espalhando o pânico por toda a parte, devorando muitas crianças e provocando na imaginação popular o maravilhoso lendário referente ao lobisomem ou lobo da gente. Apareceu duas vezes, com intervalo de dois anos, demorando-se de cada uma alguns meses, e desapareceu sem se saber como, pois foram infrutíferas as montarias que lhe fizeram.

(758) Ver artigo Angueira, onde falamos destas igrejas com tão distanciados fregueses, e no tomo VII, p. 800, a propósito da de São Facundo, de Vinhais. A mesma lenda aplicam à igreja de Santo André, de Tuizelo, e à de São João de Fontes, concelho de Bragança, da qual só há ruínas, causadas pela onda de fogo que a destruiu, enterrando o seu campanário sete braças na terra, acrescentando que os fiéis das povoações distantes ouviam a Missa do cume dos cabeços, de onde avistavam a igreja, sem precisar de ir lá, servindo-lhe de aviso inicial uma bandeira posta no campanário (Cf. MARTINS, Firmino A. – Folclore do concelho de Vinhais, p. 93). (759) Não tomamos nota do ano certo, mas calculamos que fosse por meados do século; contudo, pode determinar-se a época, porque no livro de óbitos do registo paroquial encontra-se o assento de uma moça de dezoito anos devorada pela fera junto à povoação. Em Casas comeu outra e em Travanca um rapaz de onze anos. (760) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Fiaes», freguesia do Minho.

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A notícia de outra calamidade idêntica consta de um folheto extremamente raro, intitulado: Nova e Verdadeira Relaçam da morte do Feroz Bicho que ha muitos tempos infesta as visinhanças de Chaves. Astucías, ardiloso modo, e engano, que hum resoluto, e valoroso habitante daquela terra uzou para o conquistar, levando consigo um menino, e somente dose homens de escolta bem armados. Na Officina de Joseph Felippe. Ano 1760. 8° de 8 páginas, com uma gravura grosseira em madeira representando a fera. Como se vê por este folheto, já pelos anos de 1760 andou pelas imediações de Chaves outro animal bravio, que devorou mais de cem crianças e mulheres. Diz o opúsculo que lhe fizeram várias montarias, mas sem efeito, chegando a ir nessas batidas uma companhia do regimento de cavalaria de Chaves. Por último, um homem do povo lembrou o seguinte estratagema que deu resultado: Subiu a uma árvore perto da mata ocupada pela fera; pendurou dela para baixo, por uma corda, uma criança que içou quando o animal ia lançar-se a ela, matando-a ao mesmo tempo os caçadores escondidos no bosque. Eis como o folheto a descreve. Tinha de peso dez arrobas e de «comprimento, o bicho, sete palmos, he bastantemente alto, de altura de hum cavalo, pernas e braços delgados, unhas grandes, o cabello todo erriçado, por modo de porco montez, pela barriga he branco, pelo do corpo he arrayado, a cabeça he por modo de gato grande bravo com muita barba, os olhos mui grandes, e ovados, os peitos mui largos, o rabo mui comprido, e delgado, a pelle mui grossa, era mui forçoso, ligeiro, bravo, e voraz principalmente de meninos, e a tudo mais assaltava, quanto topava, excepto em vendo multidão de gente que gritasse». Medicina popular. Referente à medicina popular bragançana há as publicações dos seguintes senhores: Doutor Francisco Gonçalves (761), Doutor Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior (762), Padre Firmino Augusto Martins (763), abade José Augusto Tavares (764), Doutor José Leite de Vas-

(761) GONÇALVES, Francisco – Breves considerações sobre medicina popular, 1917. (762) SANTOS JÚNIOR, Joaquim Rodrigues dos – Notas de medicina popular trasmontana, 1929. (763) MARTINS, Firmino A. – Folclore do concelho de Vinhais. (764) Em diversas publicações esparsas, principalmente na Ilustração Trasmontana e na Revista Lusitana. A propósito dos trabalhos deste fervente regionalista bragançano diz Luís Chaves (Portugal Além, 1932, p. 137), transcrevendo alguns versos recolhidos pelo abade Tavares em Vinhais: «Todos estes romances reuniu com outros em número de cento e dois, no “Romanceiro Trasmontano” (saiu na Revista Lusitana, IX-308 e 313) o rev. abade José Augusto Tavares, um dos sacerdotes que devotam os seus descansos da oração e do pastoreio, ao estudo da alma portuguesa pelo folclore».

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concelos (765) e Rocha Peixoto. Ver também neste tomo os artigos Águas e Feiticeiras. Apesar de os três primeiros autores citados terem apresentado fórmulas de benzedura curativa para as moléstias de que tratámos, colhidas no distrito de Bragança, não omitimos as nossas, porque apresentam lições variantes. Quando se não indica outra coisa, deve entender-se que a fórmula foi colhida nesta nossa aldeia de Baçal, concelho de Bragança [162]. Para o anqueilhado ou angaranho – Anquilhado vai-te daqui q’a água do Sabor vai trás de ti. Em louvor de Deus e da Virgem Maria, um Padre-Nosso c’uma Ave-Maria. Ao mesmo tempo mergulhar a criança três ou nove vezes na água. A roupa que a criança leva vestida deve lançar-se pelo rio abaixo e vestir-lhe outra de novo, sem mais saber daquela; as pessoas que levam a criança têm de voltar pelo caminho inverso do que trouxeram à vinda e sem falar tanto na ida como na vinda. Contra a figueira – Figueira que estás neste boi (vaca, burra, etc., conforme o animal), por dentro fazes mal, por fora mal pareces, seca sejas tu, figueira, como a bosta na parede. Em honra de Deus e da Virgem Maria, um Padre-Nosso com Ave-Maria. Para os bois enrilhados – Nicodemus era ferreiro; fez pregos para encravar o Senhor no madeiro; assim c’mo o Senhor sarou das suas encravaduras que me sare este boi (ou vaca, conforme o animal) das suas enrilhaduras. Em louvor de Deus e da Virgem Maria, um Padre-Nosso com uma Ave-Maria. Deve dizer-se nove vezes, ajoelhando a cada uma, levantando-se em seguida para ajoelhar novamente até completar a novena. Depois tiram-se algumas sedas do rabo do animal e atam-se no ateiró do arado (colhida em Montesinho). Também curam atando simplesmente uns pêlos do rabo do animal à rabiça do arado. Para a erisipela – Pedro e Paulo feram a Roma, lá no meio do caminho Jesus Cristo encontraram. Pedro e Paulo de onde vindes? Vimos de Roma, Senhor. Cá de novo lá por Roma? Muita usipla e usiplão. Usipla vai p’ro monte, usiplão p’ro carqueijão, c’um ramo de oliveira te benzerão. Este mal desapareça, esta criatura enviveça. Em louvor de Deus e da Virgem Maria, etc. Durante a recitação deve benzer-se o doente nove vezes com um ramo de oliveira, que no fim se atira para trás das costas. O operante ajoelhará

(765) Vasconcelos, J. Leite de – Ensaios Etnográficos, 1903-1906. Esta obra é de carácter geral, mas refere-se ao folclore bragançano no tomo 2, p. 35, 40, 41, 48, 65 e 190, e no tomo 3, p. 288.

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nove vezes, isto é, tantas quantas recita a fórmula, conforme se indica na dos Bois enrilhados (Colhida em Montesinho) [163]. Outra bênção para a erisipela – De onde vens Pedro e Paulo? Eu, Senhor, venho de Roma. Que há por lá de novo? Senhor, morre muita gente. De quê? De usipla e de usiplão bravo. Torna lá Pedro e Paulo. A quê, Senhor? A curar essa gente. Com quê, Senhor. Com água da fonte, oliva do monte e três pinguinhas de azeite bento com que se alumia o Sacramento. São Pedro e São Paulo permitam que este corpo de F... seja são e salvo como na hora que foi baptizado. Em louvor de Deus e da Virgem Maria, um Padre-Nosso com uma Ave-Maria. Opera-se com um ramo de oliveira molhado em água benta e azeite da lâmpada, girando em volta da parte doente enquanto se recita a oração, isto durante três dias e três vezes em cada um, repetindo nove vezes a fórmula em cada sessão. Bênção para a ciática – Eu F... benzo-te † se és ciática ou reumatismo † tu te seques, mais não lavres † em louvor de São Pedro † e São Paulo, São Tiago † e São Bartolomeu †. Em louvor de Deus † e da Virgem Maria † um Padre-Nosso e uma Ave-Maria †. Faz-se a bênção durante nove dias e três vezes em cada um (colhida em Meixedo). Outra bênção para a ciática – Eu te corto língua de ciática † eu te talho maiores humores † aqui não haja mal de dores † pelo poder do apóstolo São Tiago e do Apóstolo Salvador este mal humor que aqui dar este corpo não pode aturar nem sustentar pelo poder de Deus e da Virgem Maria este mal daqui sairia. Em louvor de Deus e da Virgem Maria, um Padre-Nosso com uma Ave-Maria. Bênção para o aberto – Deus e São Mateus † ambos iam por um caminho † disse Deus a São Mateus: porque não caminhas Mateus †? Porque não posso, meu Deus †. É aberto ou desnucado †? É aberto, Senhor. Reza um Padre-Nosso e uma Ave-Maria † que ela to sararia †. São Pedro e São Paulo † e o apóstolo São Tiago Maior † te tire daí essa dor †. Em louvor de Deus e da Virgem Maria, um Padre-Nosso e Ave-Maria. Repete-se nove vezes, dando em cada uma um nó num baraço de lã, previamente preparado, e depois liga o queixoso a parte dorida com esse baraço (colhida em Meixedo). Bênção contra o olhado – Cristo te fez † e Cristo te olhou † Cristo te desolhe † a quem mal te olhou †. Olharam-te duas vezes † desolhem-te três † São Pedro † São Paulo † e Santo André †. Em louvor de Deus e da Virgem Maria, um Padre-Nosso e uma Ave-Maria. A forma da aplicação é a mesma MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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das anteriores (colhida em Meixedo). Deve afumar-se a criatura olhada com o vassouro de varrer o forno para cozer o pão. As maçãiras, para que não criem pulgão e mesmo para que não sejam aneiras (isto é, que dão fruto ano sim, ano não), devem apedrejar-se ao dar da meia-noite de Natal (24 para 25 de Dezembro) ou na de São Sebastião (20 de Janeiro). Bichos nos porcos – Para curar os porcos que criam bichos nas feridas, pendura-se um ramo de amoreira no cadeado do lume da cozinha e os bichos caem e desaparecem logo. De duas crianças baptizadas na mesma água morre uma e o mesmo se dá se se baptizarem duas ao mesmo tempo. Para as crianças não serem choronas (que choram muito), devem, em seguida ao baptismo, ser deitadas na cama ao contrário do que costumavam estar, isto é, com os pés para a cabeceira anterior ao baptismo, e, embora chorem, dar-lhe mesmo deitadas de mamar até que fiquem a dormir; do contrário, ficam sempre choronas. Responso de Santo António para as coisas perdidas – Ó beato Santo António que subiste ao monte Tabor, três vezes ouvistes a Virgem Maria – António, António, António, voltai atrás que achareis vosso Santo Breviário. O esquecido seja lembrado e o ouvido seja guardado. Em louvor de Deus e da Virgem Maria, um Padre-Nosso com uma Ave-Maria. Ó Santo António. O anjo da guarda de um lado e Santo António do outro que apareça (aqui menciona-se a coisa perdida e esta invocação repete-se três vezes; reza-se depois o Credo). É eficacíssimo sempre que se reza com verdadeira fé e sem se enganar nele ou distrair; caso contrário, é sinal de que a coisa perdida não aparece; o responso não voga, diz a arresponsadeira. Fumaça para os animais doentes, e sobretudo para as fêmeas que não se deixam cobrir pelos machos ou vice-versa – Tista com tista, três vezes tista ó redor São João Baptista. Em louvor de Deus e da Virgem Maria, um Padre-Nosso e uma Ave-Maria. Enquanto se pronuncia a fórmula afumam-se os animais, andando em volta deles com um caco de brasas, onde se queimam ervas odoríferas. Para nos livrar de uma pessoa que nos queira ofender – Aquela pessoa que além vem, não a temo. O sangue de Jesus Cristo nem o dou nem o vendo. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Assim como não tenho poder de o dar nem de o vender, não tenha ele poder de me ofender. (É das poucas que não tem Padre-Nosso e Ave-Maria). Para a dor de dentes – Com três pedrinhas de ernendão Nosso Senhor São Clemente encontrou. Que tens, Clemente? Dói-me o meu dente. Pois se é dor que se vá, se é humor que cesse, se é enfista que se seque. Em louvor de Deus e da Virgem Maria que te tire daqui esta porcaria. Benze-se nove vezes o dente com um crucifixo, serve mesmo o de um rosário, repetindo a fórmula outras tantas vezes. Ernendão não nos souberam dizer o que era. Enfista, disseram-nos que significava mal que outra criatura pode fazer, mas é mais provável que signifique fístula. Para as névoas dos olhos – Corre, corre, cavalão, tira este argão. Corre, corre, Santa Ana, tira esta argana. Corre, Corre, Santa Maria, tira esta arguia. Santa Ana três filhas tinha: uma ordia, outra tapava, outra belidas desfazia. Desfazei Santa Ana, desfazei Santa Maria. Em honra de Deus, etc. Repete-se nove vezes, tendo sempre o benzedor um dedo sobre o olho doente. Ainda outra para a ciática – Dor ciática, dor reumática, dor que aqui houver, por aquele santo maioral que tire este mal p’ro monte de bicharia. Em louvor de Deus e da Virgem Maria, etc. Repete-se nove vezes, fazendo cruzes com um crucifixo sobre a parte doente. Bênção dos herpes – Faz-se o sinal da cruz, depois diz-se a seguinte oração, distribuindo as palavras em cruz sobre o padecente, ou seja fazendo uma cruz sobre ele, ao mesmo tempo que pronunciam as palavras: Herpes coxoso, vai-te daqui †, que o lírio e a rosa vão atrás de ti †. Com favor de Deus e da Santa Madre Igreja tu (F... de tal, pronuncia-se o nome da pessoa doente) curado te vejas †. Em louvor de Deus e da Virgem Maria † PadreNosso e Ave-Maria. Esta prece é em novena, isto é, durante nove dias, recitando em cada um deles nove vezes a oração indicada. (Colhida em Varge). As que vão seguir-se, foram colhidas em Aveleda e Sacoias, concelho de Bragança: Bênção da erisipela – É feita com um crucifixo ou com um ramo bento, distribuindo ao mesmo tempo a seguinte fórmula, ou seja as palavras dela, em cruz: Deus te dê bons dias, rosa formosa. Não sou rosa formosa, sou velenosa. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Por onde quer que eu andar a carne comerei e os ossos deixarei. Atrás tornarei e adiante não passarei. Em louvor de Deus e da Virgem Maria, um Padre-Nosso com uma Ave-Maria. Bênção do erisipelão – Também se faz com um ramo ou qualquer coisa benta, e distribuem-se as palavras em cruz. Pedro e Paulo para Roma vão. Que há lá por Roma? Muita erisipela e muito erisipelão. Erisipelão bravo vai para o carqueijal e tu Ana põe-te a andar, Que a Virgem Maria te há-de acompanhar. Em louvor de Deus e da Virgem Maria, um Padre-Nosso e uma Ave-Maria. Esta prece é feita durante catorze dias e catorze vezes por dia. Bênção das belidas nos olhos, tanto de gente como de animais – Pega-se num grão de trigo (serôdio ou centeio não tem merecimento), ou então numa pedra de sal e depois faz-se uma cruz sobre o órgão visual afectado, dizendo ao mesmo tempo: Santa Luzia três filhas tinha: uma lia, outra escrevia, outra belidas dos olhos desfazia. Em louvor de Deus e da Virgem Maria, um Padre-Nosso e uma Ave-Maria. Depois lança-se o grão de trigo ou a areia de sal num vaso com água. Diz-se a fórmula durante nove dias e nove vezes cada dia. Benzedela da ciática e de outras dores – Deus e São Mateus vão por um caminho. Disse Deus a São Mateus: caminha Mateus. É que não posso. Então que tens? Estou manco de um pé. Reza um Padre-Nosso e uma Ave-Maria que ela te sararia. Dá-se em seguida um nó num baraço de lã e assim nove vezes, e depois com este baraço liga-se a parte dorida. Benzedela do coxo – Com uma navalha de meia-lua [164] faz-se um círculo sem retalhar a carne sobre a parte afectada, pronunciando ao mesmo tempo esta fórmula: corto e recorto cabra e cabrão; lagarto lagartão; sapo e sapão; rato e ratão; aranha e aranhão e outro bicho de qualquer nação, que atrás torne e adiante não (ao dizer as palavras vão-se fazendo cruzes). Em honra de Deus e da Virgem Maria, um Padre-Nosso e uma Ave-Maria. Isto em nove dias ou então em três, fazendo-a três vezes por dia. É de notar que estas benzedelas durante nove dias se podem fazer em três, contanto que se pratiquem três vezes em cada um desses dias. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Benzedela para o mau olhado – A vítima do mau olhado despe o seu fato, bate nele, em forma de cruz, com uma vara de avelã e diz ao mesmo tempo: Olhando, vai-te daqui, que não como nem bebo sem saíres de mim. Em honra de Deus e da Virgem Maria, um Padre-Nosso e uma Ave-Maria. Isto nove dias e nove vezes cada dia. Para livrar do mau olhado fazem-se figas às bruxas. (Colhidas pelo Padre Manuel Domingos Afonso Tiza que no-las comunicou). Medo. Vigora também geralmente a crença no Medo, espécie de alma do outro mundo, que aparece sob a forma de homem ou mulher, de vulto agigantado, em determinados sítios ou casas. É oco, sem corpo, como uma sombra ou fantasma; não fala nem pede nada; todavia, ninguém se atreve a passar pelos locais onde o medo aparece (766). Paráfrases Populares à Doutrina Cristã. Mandamentos do vinho – Os «Mandamentos do vinho» são dez, por este caminho: 1° Amarás o vinho de Portugal, auga le num botarás p’ra que te num faça mal. 2° Não jurarás pela folha da laranjeira, qu’é ofensas que fazes à sua prima parreira. 3° Guardarás pão e vinho na algibeira e com ele beberás quando te der na goteira. 4° Honrarás o odre de vinho, o chapéu lhe tirarás se o encontrares no caminho. 5° Não matarás, só se for cabra ou bode, a carne lhe comerás e da pele lhe farás um odre. 6° Não fornicarás, só se for bilha grossa, a boca le apararás p’ra que verter-se não possa; 7° Não furtarás, só se for p’ra beber, porque se te fores confessar sempre te hão-de absolver. 8° Não levantarás odre que esteja deitado, antes te deitarás do outro lado. 9° Não desejarás beber por vasilha pequena, desde que bota a escuma fora logo le fica a cor morena. 10° Não cobiçarás a salada do pepino; é mui fresca no verão e mui contrária ao vinho. Estes «Mandamentos» se encerram em dois, convém saber: comer bem e depois beber [165].

(766) Ver MARTINS, Firmino Augusto – Folclore do concelho de Vinhais, p. 8.

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Mandamentos do pobre – Os «Mandamentos do pobre» são nove: 1° Dormir em palheiro. 2° Andar p’lo mundo. 3° Não comer galinha nem carneiro. 4° Poucas vezes farto. 5° Nem vinho branco nem tinto. 6° Olho lesto. 7° Nem fiado nem de empréstimo. 8° Piolho de rabo. 9° Vê-se-le o cu ó pobre. Oração matutina do cão – O cão quando se levanta sua oração faz. ’Stende-te meu corpo, alegra-te meu rabo, p’ra que Deus te livre de mulher de mau recado; de tranca de porta, calço de panela, homem que leva boa vida, vai por uma rua abaixo e vem por outra arriba, porque nunca falta um mandrião c’um lapada na mão p’ra ’scurriçar um cão. Mandamentos dos Padres – Os «Mandamentos dos Padres» são cinco: 1° Amar a Deus por dinheiro. 2° Tomar a melhor igreja e a melhor rapariga de todo o mundo. 3° Guardar a vitela e não deixar o carneiro. 4° Honrar o jejum depois de farto. 5° Beber vinho branco e não deixar o tinto. Estes cinco «Mandamentos» se encerram num, convém saber: padres honrados poucos há-de haver. Novíssimos da mulher – Os «Novíssimos da mulher» são quatro, a saber: 1° Janeleiras. 2° Espreitadeiras. 3° Gulosas (outra variante diz: lambisqueiras). 4° Mentirosas (outras variantes dizem: alcoviteiras e preguiçosas). Novíssimos dos velhos – Os «Novíssimos dos velhos» são quatro: 1° Muita tosse. 2° Pouca posse. 3° Não sabe o que diz. 4° Pinga-lhe o nariz. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Novíssimos dos casados – São quatro, a saber: 1° ano – Cara a cara. 2° ano – Cu com cu. 3° ano – Que trouxeste tu. 4° ano – Bordoada. Novíssimos do homem – São quatro, como seguem: Guincha e podão, Patarra e enxadão. Mandamentos do ladrão de colmeias: 1° Tirar a colmeia do assento. 2° Voltá-la c’o cimo p’ro fundo (767). 3° Afogar as abelhas num ribeiro. 4° Mel e cera no saco. 5° Escolher o favo mais limpo. 6° Quem assim não fizer tem pouco jeito. 7° Quem assim não fizer tem pouco préstimo. 8° Andar com muito cuidado. 9° Olhar que não venha o dono. 10° Manda mais isto: levar o mel e não deixar o cortiço (768). Sinal da cruz do bêbado – Per signum crucis, vinho de infuses. Vinagres fortes; libera nos de corporis nostris. In nomine panis et salpicanis. Amen.

(767) Outra variante diz: crestá-la do cimo ao fundo. (768) Desde o 6° mandamento por diante são copiados do Padre Firmino A. Martins, Folclore do concelho de Vinhais, p. 171, pois as versões que conhecíamos apenas mencionavam cinco. Em O Recreio, revista literária, Lisboa, n° 5 (1893), p. 74, vêm publicadas as Bemaventuranças, e os Mandamentos da mulher, tudo redundando em alusões picantes a esta. Nas Directivas para a educação moral dos mancebos dos cursos da I. M. P. (Instrução Militar Preparatória) 1914, publicou o coronel Sarsfield os Mandamentos Nacionais ou Decálogo Nacional. Cláudio de Chaby nos Excertos históricos, relativos à Guerra denominada da Península, 1863, vol. 3°, p. 46 e 49, publicou um interessante catecismo político parafraseando a Doutrina Cristã. Alfredo Moreira da Silva (arboricultor), Porto, 1926, publicou no Catálogo n° 46, correspondente a Outubro desse ano, os Mandamentos das plantações. Em A Voz, diário de Lisboa, de 19 de Agosto de 1927, encontram-se os Dez mandamentos do matrimónio, organizados por José Sabat, juiz do Tribunal Superior de Chicago, e no mesmo

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Oração do cão – Ao levantar da cama, o cão diz esta oração: Abre-te minha boca, Estende-te meu rabo; Deus me depare portas abertas E mulheres de longo recado. Deus me defenda De calço de panela, Tranco de janela Homem de boa vida Que vai pela rua abaixo E me faz fugir para a viela; Porque nunca falta um brejeiro Com uma pedra na mão Para atirar ao cão. Oração do moleiro: Venhas embora meu saco, Três maquias t’eu rapo; Uma por te trazer, outra por te moer E outra para o meu burro comer.

jornal de 30 de Setembro de 1931 vêm publicados os Dez mandamentos do vinho. Todas estas publicações parafrasearam mais ou menos a Doutrina Cristã; mas como revestem forma literária e não popular, alheiam-se do nosso propósito. No entanto, julgamos conveniente reproduzir os seguintes, recortados da A Voz, pelas vantagens económicas que podem trazer ao nosso Portugal se se observarem: «Para os portugueses meditarem e adaptarem – Na Alemanha correm, pela Imprensa e sem ser pela Imprensa, os seguintes Mandamentos do comprador alemão: 1° Nas menores coisas, nunca perderás de vista o interesse dos teus compatriotas e da tua Pátria. 2° Quando compras um produto estrangeiro diminuis a fortuna da tua Pátria. 3° O teu dinheiro só o darás a operários alemães. 4° Nunca desonres as casas ou as oficinas alemães com ferramentas estrangeiras. 5° Nunca comerás carnes estrangeiras, que comprometem a tua saúde. 6° Escreverás em papel alemão e secarás a tua escrita com papel de chupar alemão. 7° Só terás chapéus e vestidos alemães. 8° Restaurarás exclusivamente as tuas forças com cerveja alemã e frutos alemães. 9° Só tomarás café chocolate e cacaus alemães. 10° Nunca acreditarás o que dizem os estrangeiros».

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Depois vem a minha mulher E tira o que ela quer; Vem a minha Maria E tira a sua maquia; Vem o meu criado: Este pão ainda não está maquiado, E, se não fora por me envergonhar, Até o baraço te havia de maquiar [166]. Oração para depois de meter o pão no forno: Cresça o pão no forno E a graça de Deus no mundo todo: Rezemos a São Vicente que o acrescente; A São Caetano que nos dê pão para o ano todo, E à Virgem Maria primeiramente. Em louvor de Deus e da Virgem Maria, Um Padre-Nosso com uma Ave-Maria. Patente – Grelo da meda. Em todo o distrito de Bragança vigora o costume de obrigarem a pagar a patente ao que pela primeira vez entra numa fábrica, mina, oficina, etc., em laboração; ao escolar que ficou aprovado no exame ou que pela primeira vez se matriculou no estabelecimento, ao noivo que vai casar a povoação estranha à sua, etc., etc. Este costume filia-se nos ritos de passagem e nos sacrifícios propiciatórios aos genii locorum (769). Diz-se geralmente em toda a região bragançana que quem vai pela primeira vez a uma povoação tem de levar uma pedrinha na boca para se não enganar no caminho no regresso a casa. Na debulha do centeio, quando os malhadores chegam ao grelo da meda (770), vão buscar o amo, trazem-no em cadeirinha e quando esta falta improvisam-na com os próprios braços; assentam-no no grelo da meda e perguntam-lhe se está disposto a dar-lhes vinho doce e o mais que lhes vem à cabeca. Se promete, fingem que tomam nota num livro e deixam-no em paz. Se recusa, batem-lhe levemente com um molho até que prometa. O

(769) GENNEP, A. Van – Rites de passage. Paris, 1909, cap. 2 e 3. FRAZER – Le Rameau d’Or, p. 231. (770) A meda começa por seis ou sete molhos postos de pé com a espiga ao alto, encostando-lhe depois os outros em volta, de forma a não tocarem com a espiga na terra, para evitar a germinação. Aos molhos postos de pé chamam grelo da meda.

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caso reveste sempre forma galhofeira, porque muitos fogem para não ir ao grelo, e é de ver tudo em correrias e risotas para os apanhar. Outros, mais sensatos, vão espontaneamente ou deixam-se levar à boa; prometem tudo e dão o que entendem, pois, passada a brincadeira, ninguém exige os compromissos. Em Aveleda e outras terras, o amo que não quer ir ao grelo descalça um sapato, entrega-o aos malhadores e tudo fica liquidado. Parece que o peditório é coisa de há quarenta anos a esta parte, talvez influência da patente, pois antigamente apenas se usava a capturação do amo para o assentar no grelo da meda, onde lhe davam leves pancadas com um molho. O Doutor José L. de Vasconcelos (771) refere costume algo semelhante a este usado noutras terras. Procissões. Na circular do bispo de Bragança, D. José da Silva Ferrão de Carvalho Martens, de 23 de Fevereiro de 1876, diz-se que nas procissões «se tem introduzido o costume de irem pessoas representando santos e personagens da Sagrada Escritura, ou símbolos de alguns pontos sagrados, como o do Juízo universal, ou mesmo o da morte; e outrossim que, por motivo de promessas, costumam ir nessas procissões pessoas em forma de penitentes, umas desnudas da cinta para cima e flagelando-se publicamente com disciplinas, outras com invenções extravagantes, levando na boca espadas e nas mãos espingardas, que continuamente vão brandindo, no que gravissimamente arruinam a sua saúde pelas excessivas forças que têm de empregar em tão violento jogo; outras levando nas mãos levantadas a toda a altura um copo cheio de água e outro de vinho, caminhando de costas diante do préstito, no que igualmente deterioram a saúde pela violentada posição forçada; outras pessoas indo de joelhos com eles desnudados em todo o trânsito das procissões, contraindo assim chagas e enfraquecimento», pelo que proíbe tais costumes (772). Parece que o abuso vinha de longe. Em 1674, já o bispo de Miranda, D. André Furtado de Mendonça, proibiu, sob pena de excomunhão ipso facto incorrenda, que nas procissões se lançasse trigo sobre os andores dos santos (ainda hoje é frequente este uso em terras bragançanas) e da mesma forma o costume de levarem um cesto de mantimentos para os adros das igrejas, onde os comiam com algazarra a título de caridade (773). E em 1689 proíbe-se «que na igreja entrem mulheres decotadas, nem estejam de meio-olho». Mais se proíbe que nas igrejas se recitem comédias ou outras repre-

(771) VASCONCELOS, J. Leite de – Ensaios Etnográficos, vol. 3, p. 377. (772) Tomo II, p. 223, destas Memórias, onde damos o extracto desta Circular. (773) Ibidem, p. 149.

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sentações, ainda que sejam de coisas espirituais, e que se coma ou beba nelas ou lugares a elas juntos (774). Ainda hoje se usa esta costumeira, como dizemos no artigo Funerais, e também em algumas procissões. No tomo VII, p. 762, destas Memórias publicámos uma provisão do bispo de Bragança, D. Frei José Maria de Santana e Noronha, datada de 21 de Setembro de 1825, da qual consta que em terras de Miranda ainda se usava a luta nas procissões, como penitência e meio propiciatório para agradar à divindade. No mesmo tomo, p. 275, demos conhecimento de um vate regional, cultor do teatro popular em comédias ao divino. Antero de Figueiredo (775) comenta um auto da Paixão do Senhor, de Francisco Vaz, representado em Duas Igrejas, concelho de Miranda do Douro. De uma notícia dada pelo correspondente de A Voz em Freixo de Espada à Cinta, inserta no número deste diário de Lisboa de 22 de Junho de 1929, extraímos o seguinte, indicativo da tenacidade da costumeira: «Junho 18 – Conforme noticiámos, efectuou-se antes de ontem nesta vila fronteiriça, com enorme concorrência e desusado brilhantismo, a festividade em honra do milagroso Santo António, havendo, como em todas as festas realizadas neste belo recanto do país, missa cantada e procissão, que percorreu as ruas do costume. A festividade foi abrilhantada pela filarmónica freixenista. No momento em que o popular santo português ia dar entrada na respectiva capela, os poetas das loas de Santo António, que se dizem respeitadores das velhas tradições de Portugal, ainda tentaram lançar ao vento os seus versos de pé-quebrado e impróprios de um acto tão solene, por serem ridículos e imorais. Não conseguiram satisfazer o seu tolo intento, porque o nosso amigo rev. Padre José Guerra, digno pároco de Freixo, cujo procedimento foi louvado por toda a gente sensata desta terra, não consentiu, mandando cerrar, logo após a procissão, as portas da capela e seguindo depois com as Irmandades para a igreja matriz, apesar da irritação e desapontamento dos tais poetas, que, em sinal de protesto, se recusaram a oferecer ao grande santo, como nos anos anteriores, meia dúzia de cordeiros, em virtude de não lhes ser permitido que deitassem ao vento em versos coxos uma dezena de baboseiras. Andou muito bem o rev. Padre Guerra. Tem todo o nosso apoio. Não se admite que cinco ou seis indivíduos, sem categoria, venham para público e

(774) Tomo II, p. 151, destas Memórias. (775) FIGUEIREDO, Antero de – Jornadas em Portugal, 1921, p. 147.

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para um lugar onde se deve estar com todo o respeito, fazer ridículas declarações de amor, dirigir graçolas de mau gosto, e mesmo até insultos, a certas raparigas e (o que é mais grave) fazer alusões à vida íntima de determinadas famílias, abusando assim das verdadeiras e tradicionais loas de Santo António, bem como dos bons católicos, que não estão para aturar as suas imbecilidades e a sua pouca educação. Respeitem-se as tradições quando são boas. As más devem pôr-se de parte. Por isso felicitamos o nosso amigo rev. Padre José Guerra pela sua digna atitude, que meteu na ordem meia-dúzia de sujeitos sem cultura nem compostura». Em Bruçó, concelho do Mogadouro, usavam nas procissões um andor ornado de chocalhos, a que chamavam o «Andor das Campainhas». Foi condenado há cerca de quarenta anos, mas continuou a usar-se ou, pelo menos, ressuscitou, pois voltou a proibi-lo o bispo de Bragança, D. António Bento Martins Júnior, por ordem de 29 de Maio de 1929 (776) [167]. A 31 de Março de 1744 despachou favoravelmente o bispo de Miranda, D. Diogo, com data da mesma cidade, o requerimento em que a Câmara Municipal de Bragança pede autorização para fazer a procissão da Páscoa pelas ruas da cidade, com sermão no convento de São Francisco e exposição do Santíssimo Sacramento. Alegavam no requerimento que esta procissão e a do Corpo de Deus eram muito antigas na cidade e sempre usadas já desde o tempo dos duques de Bragança. Pelo que diz o bispo, vê-se que estivera há pouco tempo em Bragança (777). A procissão do Corpus Christi era nos tempos antigos verdadeiramente carnavalesca e, por isso, popular, de onde a sua imprescindibilidade, como diversão, e o interesse do seu estudo sob o ponto de vista etnográfico. João Pedro Ribeiro transcreve a carta régia de 1560, dirigida ao juiz, vereadores e procurador da cidade do Porto, onde se censura o costume de na procissão do Corpus Christi «se tomarem em cada um ano para a dita porcissam cinquo ou seis moças as mais fermosas que se acham, huma que vay por sancta Maria, outra que vay por Santa Caterina com sua donzela, outra que vay por Madalena, e outra que vay por dama do Draguo, e outra que vay por sancta Clara com duas freiras, e muitos mouros com ellas, que lhes vam falando muitas desonestidades... que na porcissam, que á vespora de Corpus Christi se faz por dentro da See, a que os oficiaes da governança sam presentes, vam muitos emperadores pélas e danças, de que se segue grande perturbaçam» (778).

(776) Boletim da Diocese de Bragança, 1929, p. 211. (777) Livro do Registo da Câmara Municipal de Bragança, fol. 135. (778) Apêndice de Documentos à 2a parte do tomo 4. Documento n° 13, p. 184.

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Pelo Documento n° XV, publicado pelo mesmo Ribeiro e correspondente ao ano de 1607, vê-se que os da procissão pousavam o Sacramento para se dançar às portas de algumas pessoas particulares, coisa que el-rei censura a pedido do bispo do Porto D. Frei Gonçalo de Morais, natural do distrito de Bragança. Afinal, depois de várias trocas de correspondência entre el-rei e a Câmara do Porto, assentou-se em que a procissão fosse organizada como preceitua o Documento n° XVIII, que Pedro Ribeiro transcreve: «... irem nela organizados com rey, emperador, ussus, carros, montarias, danças, folias, ... os hortelões, taverneiros, carpinteiros, tanoeiros, barbeiros, padeiros, sapateiros, pedreiros, caboqueiros e trabalhadores, alfaiates, merceeiros, tendeiros, pastores, sombreireiros e tozadores, seleiros e cutileiros, bainheiros, espadeiros, caiadores, asteireiros e cereeiros, pecheleiros, latoeiros, caldeireiros, agulheiros, anzoleiros, ataqueiros, tabeliães, escrivães, enqueredores» – levando uma multidão enorme de santos e santas, que os diversos mesteres ornamentavam, segundo lhes pertencia, por serem seus protectores e advogados ou terem os ditos santos em vida desempenhado idênticos ofícios (779). Este regulamento da procissão, datado de 1621, é interessante para se julgar o desenvolvimento das diversas indústrias. Muitos dos elementos dramáticos dos costumes populares foram incorporados na grande procissão do Corpus Christi. D. João II, para celebrar a vitória da batalha de Toro, mandou organizar a procissão, onde figuravam os ofícios com os jogos que lhes eram próprios e emblemáticos (780). Na sessão da Câmara Municipal de Bragança de 25 de Maio de 1602 «acordarão que todos os mesteres saiam com as suas bandeiras e folias e invençoins e com as rodas dos anjos e que saiam os mercadores com suas folias e cavalheiros justes (?) e todas as invensoins acostumadas que costumão a sair no dia de corpos cristi e que fosse apregoado que nhuma pesoa de qualquer mester que fose deixe de sair com o que costumava de sair sob pena de des cruzados pera o acusador e continos e trinta dias de cadea e os mordomos levem per sua pesoa as bandeiras e cada hü acompanhe seu mister e os coadrilheiros vão com suas varas sob a dita pena» (781) [168].

(779) Idem, p. 201. O Documento n° 29, p. 226, é ainda mais explícito. Sobre o assunto, ver BELINO, Albano – Arqueologia Cristã, p. 166. (780) BRAGA, Teófilo – Introdução à História da Literatura Portuguesa, 1896, p. 108. (781) Livro das actas das sessões da Câmara Municipal de Bragança. No tomo II, p. 308, destas Memórias indicamos as extravagantes folias que no princípio do século XVII costu-

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O erudito Padre José Manuel Miranda Lopes, prior de Argozelo, publicou na Agenda Brigantina, 1928, um interessante documento extraído do livro dos Acórdãos da Câmara do Vimioso relativo aos anos de 1724 e 1746, fólio 32, tocante às procissões em que o município dessa vila superintendia. Entre outras, aquela Câmara presidia nas procissões do Corpo de Deus, Santa Isabel (2 de Julho) e domingo do Anjo (3° domingo de Julho), «são obrigados a concorrer para estas funssoins os capateiros com quatro tochas de cera preta e os tratantes de pardo outras quatro tochas, que entre si repartem a despeza, nomeando elles mordomos.... Os ferreyros são obrigados a dar a Figura do Diabo, que o juiz do oficio lança alternativamente ó que lhe cabe... Os alfayates são obrigados á figura de Sam Jorge montado de cavalo... Os tecedores de pardo são obrigados a dar a figura de Santa Catarina... Os moleiros são obrigados a dar a figura do Rey... As tecedeiras de lenço e padeiras tem obrigação de dar cada uma sua dançadeira... Os taberneyros tem obrigação de estar na escada da Casa da Camara com um ramo verde lançando vinho por meudo, e quando o não fazem dá cada hum dous coartilhos ó porteiro que o faça. Nesta obrigação entra esta vila e os logares de cima (782) e não o do Campo. ... Pertence a este Senado dar posse ó sacristão, dando este primeiro fiança idonea, e o sacristão deve por bizarria regalar o dia da posse á camera com meia caixa de doces». Sinos de Bragança. Quando os sinos da freguesia de Santa Maria, de Bragança, dão sinais fúnebres, perguntam os da igreja de São Vicente: – Quem morreu, quem morreu? Respondem os da Misericórdia: – Morreu uma velha, morreu uma velha. – E que nos deixou, e que nos deixou, perguntam os de São Francisco (783)? – Uma manta velha, uma manta velha, dizem os de Santa Clara (784). – Tem lêndeas, tem lêndeas, repontam irónicos

mavam ir nas procissões de Bragança. Nesse mesmo tomo, bem com nos outros e no VIII, nos referimos às de São Jorge e São Tiago e a outras feitas no distrito de Bragança. A propósito destas duas últimas, ver O Nordeste, semanário de Bragança, de 15 de Junho, 6 de e 13 de Julho de 1895. (782) Esses lugares, como se vê no mesmo documento, são: Serapicos, Vale de Frades e São Joanico, que tinham obrigação de concorrer pecuniariamente para as procissões. (783) Antiga igreja de franciscanos (ordem pobre). (784) Antiga ordem de franciscanas (ordem pobre).

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os de São Bento (785). – Se as têm tirá-las, se as têm tirá-las, obtemperam os da Sé Catedral [169]. Trasgos. Como as bruxas, feiticeiras e mouras encantadas, os trasgos têm existência real na mente do povo [170]. Aparecem sob a forma de rapazes de dez a doze anos, travessos, irrequietos, bolidiços; vivem nas casas habitadas, mas não fazem mal, apenas causam sustos. Por altos pregos da noite sente-se uma barulheira infernal nas prateleiras das cozinhas, malgas, vasilhame escacado, etc.; são os trasgos nas suas proezas. De manhã, porém, tudo está em ordem. Na estrebaria, a égua, o cavalo escorre suor em bica; anda em rodopio vertiginoso, resfolga estrepitosamente: são os trasgos em evoluções hipodrómicas; todavia, o equídeo, como seria natural, não enfraquece, antes engorda a olhos vistos; apenas as crinas aparecem entrelaçadas por forma característica em nós mais complicados que o górdio. De vez em quando tornam-se insuportáveis as travessuras, como sucedia com os que apareciam no moinho das Rachas, termo de Varge, concelho de Bragança, de onde resultou terem de o abandonar e jazer agora em ruínas. Consta dos anais da história lendária de Deilão, no concelho de Bragança, o seguinte facto sucedido a um homem do povo, que teve de pernoitar no moinho, a fim de moer alguns alqueires de pão. Uma noite, quando o homem assava uma talhada, veio um trasgo com uma grande espetada de lagartixas, que ia assando também, lançando os pingos no pão em que o homem aparava a gordura escorrida da talhada. – ’Sta-te quieto, trasgo – dizia o homem. – Pinga no meu, q’eu pingo no teu – volvia o trasgo. Por último, o homem, vendo que o trasgo não desistia da travessura, esbarrou com a talhada nas ventas dele, que fugiu apavorado a chorar; porém, quando os outros trasgos, acorridos céleres para o vingar, lhe perguntaram quem o maltratara, respondeu conciliador: foi mi mesmo. O homem ficou incólume, mas não mais os de Deilão voltaram a utilizar-se do moinho, que anos volvidos, estava em ruínas, ainda hoje recognoscíveis. Em Rabal, concelho de Bragança, diz-se que os trasgos vagueavam antigamente em muito maior quantidade, trazendo tudo num reboliço inquietante, uma verdadeira praga, e que para a humanidade se ver livre deles se fizeram os votos das ladainhas, clamores, procissões e rogações da Igreja, ainda hoje praticados. É para notar esta origem lendária das Ladainhas ou (785) Antiga ordem de monjas bentas ricas.

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círios, que, como manifestações externas do culto, encontram similares nas ambarvais e outras praxes das liturgias mitológicas, às quais se ligam pela supervivência tenacíssima de uma forte tradição atávica. Os Cercopes eram uns bandidos que tinham prazer em mortificar os homens. Atacaram Hércules adormecido, que, acordando, os atou a uma trave e os levou às costas com intuito de os castigar; porém, compadecido das suas lamúrias e esgares, soltou-os. Zeus converteu-os em macacos. Daqui talvez a lenda dos trasgos, no conceito popular. Nos Forninhos de Alvagueira, sítio do termo de Ventozelo, concelho do Mogadouro, na encosta das margens do Douro, dizem que viveu uma «gente brava» em cavernas e palas de rochedos, aí muito abundantes [171]. Perto, na ribeira de Ventozelo, havia uns moinhos, e certo dia, quando o moleiro assava um pedaço de carne aparando a pingada no pão, apareceu um membro dos da tal «gentinha brava» com grande espetada de lagartos e outros répteis para os assar também, pingando no pão do moleiro e dizendo: «Pinga tu e pingo eu e comeremos ambos de mistura». «Assar, sim, mas pingar não», respondia o moleiro; porém, como não desistia da teima, deu-lhe com o espeto e fugiu para Ventozelo, não mais voltando ao moinho, que, por isso, foi abandonado (786). EXPLICAÇÕES POPULARES DE BOTÂNICA E ZOOLOGIA (787) Amieiro. O amieiro dá cachos em Maio, mas não chegam à maturação, porque, descansando Nossa Senhora à sua sombra na fuga para o Egipto, lhe manchou o manto. Em castigo, disse-lhe: Tinge, tinge, tintureiro sem lisura, Que do teu fruto nunca terás ventura. Andorinha. A andorinha foi tirando de mansinho com o bico os espinhos da coroa ao Senhor na cruz, ao mesmo tempo que, adejando, lhe refrescava a fronte com o movimento das asas. Em recompensa, o Senhor abençoou-a, dizendo-lhe que seria estimada por toda a gente e nunca encontraria pessoas cruéis que fizessem mal ao seu ninho. No tomo V, p. 60, destas Memórias referimos outra lenda tocante ao luto das andorinhas pela morte de Cristo.

(786) PEREIRA, José Manuel Martins – As Terras de Entre-Sabor-e-Douro, p. 111. Na página 342 refere-se às traquinices dos Trasgos pela forma mais ou menos que deixamos apontada, sinal de que esta crença é geral pelo distrito de Bragança. (787) VASCONCELOS, J. Leite de – Ensaios Etnográficos, 1903, tomo 2, p. 239, refere «Lendas» por este teor, mas nenhuma igual às bragançanas aqui apontadas.

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Aranhão. Alfaiates não são homens, Sapateiros também não; Juntaram-se catorze P’ra matar um aranhão. Árvores e plantas. As árvores e plantas não aceitam de boa vontade o destino final de serem queimadas; porém o freixo declarou que, se não fosse por se envergonhar, arderia mesmo debaixo de água. Burros. Os burros conformaram-se com o seu triste destino e chacota correspondente, simplesmente pediram a Deus que não permitisse terem por guia outros mais burros do que eles. Cabra. Quando Nossa Senhora fugia para o Egipto à perseguição dos judeus, recomendou a uma cabra encontrada no caminho que lhes dissesse ter seguido para Jerusalém. A cabra, porém, não fez caso e berrou: «p’ro Egipto; p’ro Egipto». Em castigo lançou-lhe a maldição: Anda, anda e não pares de te esberracar; Que para te saciar, hás-de fartar-te de saltar (788). Morte. A morte era um anjo e ao encarregar-lhe Deus o ofício escusou-se, alegando que todos a abominariam. «Vai, tornou-lhe Deus, que ninguém te há-de atribuir a culpa, mas sim à falta de médico, de alimentação ou excesso dela, à epidemia, ao desastre», etc., etc., e assim sucede: a morte tem sempre uma desculpa. Mula. Diz a lenda que a mula no Presépio de Belém roía as palhinhas onde o Menino Jesus estava deitado, ao passo que a vaca procurava acalentá-lo com o seu hálito. Em castigo, lançou sobre aquela a seguinte malaija: Eu te maldigo múa Que não paras vez ningüa: E, quando a parir venhas, Ventura não tenhas. Mulas, cavalos e burros. O povo caracteriza assim as qualidades destes três animais: ao chegarem às estrebarias dizem as mulas: comamos e vamos;

(788) VASCONCELOS, J. Leite de – Ensaios Etnográficos, tomo 3, p. 104, diz que a praga foi a ovelha, que não parava de gritar: Belém, Belém.

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os cavalos: comamos mas não vamos; e os burros: nem comamos nem vamos. E ainda: burro, p’ró pó; cavalo, p’ro lodo e macho ou mula p’ra todo. Pedreiro. O pedreiro, soberbo do ganho na obra que fazia, soltou a burrinha que Nossa Senhora na fuga prendera a uma trave dos materiais a empregar na construção. Como castigo, Nossa Senhora disse-lhe: Vai cantarolando e vai assobiando, patife, Por cima de paredes, que vida passageira hás-de ter; Nunca passarás de pobre e pobre hás-de morrer. Maldição idêntica lançou ao ferreiro, porque forjou os pregos com que cravaram Cristo na cruz. Pitinha-de-água. Quando Nossa Senhora fugiu para o Egipto, a pitinha-de-água ia no seu encalço, desfazendo as pegadas para despistar os judeus. Em recompensa lançou-lhe a bênção: Apaga pitinha, apaga; há-de fartar-se de buscar Quem o teu ninho quiser achar. Quando a Senhora fugiu para o Egipto, perguntou a um lavrador que sementava. «Trigo», respondeu ele. «Pois trigo te nasça». E quando, passados oito dias, ele tornou a ver a propriedade, achou o trigo formosíssimo e capaz de segar. À mesma pergunta, feita a outro lavrador, respondeu este que semeava cornos. «Pois cornos te nascerão», volveu a Senhora. E, na verdade, surdiram em breve cornos tão grandes e abundantes que tomavam o campo todo. Vida de alguns animais. Cão: três anos de criação; três de bom cão e três de mandrião. Uma sebe (tapume com silvas ou outros arbustos), três anos; um cão três sebes; um cavalo três cães e um corvo três cavalos. O vinho e os cereais. O vinho

– Eu sou o verde licor Criado entre a matas: Os homens são valentes, Mas eu faço-os andar de gatas. Sou rijo e valente, Derrubo seja a quem for; Faço do néscio discreto Um rigoroso doutor.

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A aguardente – E eu sou a sua filha, Gerada nos finos vapores; Derrubo para três dias Quem se finta nos meus amores. O trigo

– E eu ando nos palácios dos reis, Nas festas e nos jantares; Encho os celeiros dos ricos: Sou a hóstia dos altares.

O centeio

– Tu pelas festas e pelas bodas, E eu sou o que apago as faltas todas.

A cevada

– Pois eu não me gabo, nem me desgabo; Mas quem me comer, aos três dias inreguicha o rabo

Exploração em comum dos baldios paroquiais, usanças arcaicas (789). Em várias povoações do concelho de Bragança os baldios paroquiais são explorados em comum, e noutras, onde tal uso já desapareceu, ficou o toponímico a testificar o seu antigo vigor; por exemplo: Roçada, sítio do termo de Baçal. Ainda vigora em Sacoias, Labiados, São Julião, Deilão e outros povoados, mas em Rio de Onor é que tem interesse especial. Há na povoação de Rio de Onor campinas assaz grandes, cobertas de mato – esteva, urze, giesta, etc. – que não pertencem individualmente a ninguém, mas sim a todo o povo, que em comum as explora para pascigo de gados e aproveitamento de lenhas, e no fim de alguns anos – cinco, dez ou mais – por tantos reclamar a sua fraca produtividade, para a cultura de centeio. Reúne então todo o povo e resolve fazer a Roçada, assim chamada porque o mato é cortado com fouce roçadoura durante o inverno, ficando a esmo in loco e queimado depois de seco no fim do Verão. Sucede nem todos quererem tomar parte na roçada, por não terem facilidade no seu granjeio, não impedindo contudo isso a que os seus vizinhos a façam, perdendo aqueles o seu quinhão nos produtos [172]. Mordomo da roçada. – Resolvida a feitura da roçada, elegem por maioria de votos o mordomo ou mordomos, que têm como obrigação: indicar os dias em que se há-de trabalhar; tomar nota das faltas e aplicar-lhe a multa competente; vigiar o bom andamento do serviço; determinar, por acordo comum, o quantum das geiras, o que é muito essencial para saber o que se deve levar aos faltos por razões atendíveis e, enfim, olhar por tudo quanto respeite à roçada – corte e queima do mato, laboramento do terreno, sementeira de cereal, acarreijo, debulha e divisão do mesmo. As determinações do mor(789) Devo notar que este artigo é, com pequena variante, o que publiquei na Ilustração Trasmontana, 1910, p. 130.

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domo são acatadas religiosamente; aos transgressores ou àqueles que não cumprem o serviço respectivo, como os demais vizinhos, aplica multas, geralmente em vinho ou dinheiro, que revertem em proveito dos que têm parte na roçada, sendo aquele bebido em comum por todos e este aplicado a qualquer guisamento atinente à dita ou em missas pelas almas. Sanção das multas. – O multado pode entrar logo com o vinho ou com o dinheiro em que foi condenado ou esperar que lhe seja descontado o seu equivalente no cereal a receber na colheita; porém, se é díscolo, repontam, se faltou com palavras ou acções a respeito do mordomo, que para todos os efeitos fica revestido de autoridade superior, se é preciso enfim abater-lhe um pouco as filáucias altaneiras, então a coisa toma carácter mais solene. Na igreja, ao fim da Missa Paroquial, em dia santificado, o regedor ou o seu substituto diz em voz alta: os homens do povo esperem lá no lugar do costume – e reunidos todos os cabeças de casal, e só estes, propõe o mordomo a necessidade de: Lançar pedras a fulano (o tal díscolo), que consiste em o convocante entregar a cada homem do concelho uma pedra (placa xistosa de que há abundância na região) que nela ocultamente traça uma ou mais cruzes, um ou mais riscos (traço a todo o comprimento ou largura da placa), um ou mais meios riscos (quando o traço não chega à extremidade). Recolhe seguidamente o convocante as pedras no chapéu, à laia de urna, recebendo-as com a face dos traços voltada para baixo, sem poder, no acto, verificar a natureza destes, agita-as, lança-as depois no chão e procede acto contínuo à sua separação, colocando as do meio risco num grupo, noutro as do risco inteiro e ainda noutro as de cruz, verifica depois quais são as do maior grupo e assim fica indicada a quantidade da multa, que será de meia-canada (um litro), canada ou cântaro (doze e meio litros) de vinho, segundo respectivamente predominarem os meios riscos, riscos ou cruzes. Semelhantemente o regedor ou o seu substituto podem dar pedras a quem desacatar as suas ordens em quaisquer outros serviços públicos das suas atribuições. Os prejuízos causados pelos gados na roçada são avaliados por peritos nomeados pelo mordomo e pagos por seus donos voluntariamente ou pelos meios coercivos já indicados ou a indicar. Caça de coelhos por um processo curioso. – Desde que a roçada está concluída, e muitas vezes antes disso, suspendem-se os trabalhos para fazer uma caçada aos coelhos, que há em abundância na região. Determinado o dia pelo mordomo, preparados com paus, e nunca com armas de fogo, vão todos bater o mato confinante à roçada, impelindo os coelhos para esta, a qual de antemão foi dirigida no corte do mato debaixo de um plano cinegético adequado ao caso; mal nela têm penetrado três ou quatro metros os coelhos cansam, sendo por isso fácil apanhá-los à mão ou à cacheirada, porque, acossados pelos podengos e homens, se lhes enterram as patas no mato cortado e, não se podendo desembaraçar, se deixam, como nas MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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grandes nevadas, ficar atolados. Roçadas há onde apanham, por este interessante processo, trinta e quarenta coelhos. Esta diversão além do proveito, pondo no caso a nota alegre, aligeira o trabalho e torna o seu peso menos sensível. Mordomo das lameiras ou dos coutos. – Seu usufruto. – Ao contrário dos terrenos mais sáfaros, adequados à cultura do centeio, que são os que geralmente permanecem em comum nestas freguesias e são explorados pelo já dito processo, há outros baixos e bons ocupados por prados naturais aqui chamados lameiras. As lameiras ou coutos de Rio de Onor, de logradouro comum, constituem, no género, o rim do termo em fertilidade e grandeza. Tanto vive nos riodenorenses a ideia de usufruto comum, que, longe de procurarem a desamortização dos baldios, os donos de uma dessas lameiras antigamente a cederam ao povo com obrigação de reparar os açudes que a regam, ficando alternadamente um ano da comunidade e no outro dos antigos proprietários, mas só nos meses da criação do feno – Março a Junho – pois nos restantes são da comunidade os pastos. Em chegando Março, são preparadas as lameiras – feitura de agueiras, limpeza de paus, pedras, arbustos, repairo de açudes – por todo o povo (um vizinho de cada fogo), debaixo da direcção do respectivo mordomo. Incumbe ao mordomo das lameiras, desde que a erva está crescida: determinar o dia em que se há-de começar a deitar-lhe a boiada (gado vacum dos moradores); marcar, por intermédio de dois homens, as soltas (faixas de terreno destinado ao pascigo de cada dia); tomar nota nas talas das transgressões e multas a aplicar, bem como do vizinho onde começa a roda e estipular o valor de cada geira, para assim se exigir o seu importe aos vizinhos, que por razões atendíveis não puderem ir trabalhar no granjeio das lameiras. Cada vizinho guarda a boiada um dia, menos durante a segada (ceifa do centeio), que então é guardada por dois, três ou mais. Ao guarda que deixar comer ao gado mais do que as soltas marcadas para esse dia, ou que o deixe ir a dano, é aplicada uma multa estipulada simplesmente pelo mordomo, quando o caso não requeira a solenidade de dar pedras. Nos meses de Julho e Agosto dorme a boiada nas lameiras, e se alguma vaca tem cria de mama, que ainda não sai do curro, o seu dono é obrigado a ir buscá-la ao pôr do Sol para a trazer a dar de mamar ao filho e a conduzi-la na manhã seguinte à boiada, sob pena, em regra, de meio cântaro de vinho. Esta disposição tem por fim acautelar quaisquer danos que a vaca escapada para ir amamentar o filho possa causar, pelos quais o guarda da boiada não é responsável, mas só neste e no seguinte caso. De noite, a boiada retira para um local vizinho das lameiras, chamado dormideiro, assim dito por ela aí pernoitar; aparecem porém de quando em vez bois mais matreiros, que de noite se escapam para as lameiras. A esses tais, seus donos, ao deitá-los à boiada, são obrigados, sob aquela pena, a pendurarMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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-lhe ao pescoço um chocalho ou campainha, para que os boieiros dêem pela sua evasão. Nenhum vizinho pode deitar mais de três cabeças de gado vacum para a boiada, embora tenha quatro, cinco ou mais; pode contudo fazê-lo, pagando ao vizinho ou vizinhos que tenham menos daquele número o direito ao compáscuo das cabeças que faltam para chegar a três. Em Guadramil, anexa de Rio de Onor, e Petisqueira, anexa de Deilão, vigora o mesmo costume relativamente às roçadas e usufruto das lameiras comuns. Dá-se o nome de talas a uns paus pouco mais ou menos de metro de comprimento, divididos por traços transversais de espaço a espaço, correspondendo o número destes ao dos vizinhos do povo. E nestes espaços que tomam as notas por sinais incisos a ponta de navalha. Para o efeito, servem os galhos das árvores de dois centímetros de diâmetro pouco mais ou menos, segundo a quantidade de notas a tomar, sem mais preparo do que limpos de algum rebento que possam ter. É muito para notar a sua leitura, que se faz sempre da direita para a esquerda, como nas línguas orientais, começando do lado mais grosso para o mais delgado, o que lhe dá uma génese arcaica, que convém não esquecer. Há talas para o gado, para a roçada, para o foro, para as esmolas das mordomias dos santos, etc. Como as povoações são pequenas e as casas dispostas sem complicações de ruas, é fácil, começando sempre, como eles costumam, a contagem pelo extremo da mesma rua, encontrar o vizinho a quem o espaço corresponde; de resto, quando há duas ruas, dividem a tala por uma incisão que quase circuita o pau. Os espaços são divididos a todo o comprimento da tala por uma estreita linha incisa. Assim, na tala do gado, o símbolo ovino é representado por um pequeno traço que corta a linha incisa e representa cada traço dez cabeças, ou só a toca pelo lado debaixo e equivale a cinco das mesmas, ou fica isolado no campo inferior e indica uma; se porém estiver no campo superior indica as cabeças lanígeras que andam à guarda no rebanho e pertencem a dono estranho. TALA DO GADO

Lendo, achamos: o primeiro ganadeiro tem quarenta cabeças, o segundo, trinta e cinco; o terceiro, vinte e uma e mais uma à guarda. A tala da roçada é pelo mesmo teor; mas como todas as multas se reduzem a vinho e está assente entre eles que almude vale dez tostões, a canada quatro vinténs e o quartilho um vintém, o simbolismo hieroglífico é o do vinho, representado por ligeiros filetes transversais, que apanham o semicilíndrico do pau para indicar as canadas. Os quartilhos representam-se pelo meio risco (traço mais pequeno). Um traço maior, mas oblíquo, indica os meios cântaros e uma cruz os cântaros. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Nem só Rio de Onor, Guadramil e Petisqueira usam deste sistema hieroglífico; em várias outras povoações restam dele vestígios. Em Labiados vimos uma velha em 1901 dar conta da mordomia que servia por uma tala. O desenvolvimento da instrução pela multiplicação das escolas vai fazendo esquecer tal processo, que em breve desaparecerá de todo, sendo porém lícito supor que a sua influência, hoje limitada a estas sertanejas aldeolas, dominou outrora geralmente. Em Calabor, aldeia vizinha de Rio Onor, mas já em Espanha, há uma interessante tala do foro. Como este permanece invariável, ou só em condições especiais que levam muito tempo se altera, e para evitar dúvidas, conserva-se numa casa do povo, sob custódia das autoridades locais, um tronco de árvore de quatro metros de comprimento por quarenta centímetros de diâmetro, pouco mais ou menos, onde estão fundamente entalhados, de modo a não poderem ser raspados facilmente, os símbolos dos foros que cada morador paga. Esta enorme tala é como que o padrão, o tombo, o documento original, arquivado cuidadosamente, onde os moradores vão constatar a veracidade das quantidades que lhes pertence pagar. Quase todos têm, numa pequena tala, de pouco mais de metro de comprimento por quatro centímetros de diâmetro, pouco mais ou menos, uma cópia desse padrão. Como aqui as notas são muitas, chanfraram a tala a todo o comprimento. À semelhança das anteriores, os espaços destinados a tomar as notas respeitantes a cada morador, são divididas por traços transversais e pela tal linha ao meio de todos eles. O foro consta de pão, dinheiro e galinhas. O símbolo do pão é dado por pontos circulares para as minas (alqueires), insculpidos no espaço superior, ou por pontos triangulares no espaço inferior à linha para indicar os quartilhos (a mina regula por trinta quartilhos). A aspa x equivale a dez quartilhos, a meia V a cinco e o traço oblíquo a meio quartilho. Quanto ao dinheiro, os quartos (cinco réis, pouco mais ou menos) são indicados por entalhes na quina superior da tala e os reais (cinquenta réis, pouco mais ou menos) por outros perpendiculares no lado convexo da mesma. O símbolo das galinhas é um ângulo obtuso voltado para baixo, indicando o número delas os traços horizontais ao lado. TALA DE FORO DE CALABOR

Lendo, achamos: o primeiro morador paga três minas e dois quartilhos; o segundo quinze quartilhos e meio; o terceiro quatro quartos e três reais, e o quarto quatro galinhas. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


FACHO | FACHAL | MIRANDA | MIRANDELA | MIRANDINA | MIRA . . .

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FACHO, FACHAL, MIRANDA, MIRANDELA, MIRANDINA, MIRA, MIRADOURO, MIRAGAIA, MIRAGO, MIRÃO, MIRÕES, ESCULCA, ESCULQUEIRA, VELA, FRAGA DA VELA, VELADA, VISO, AVISO, ASSUMADOIRO, ATALAIA E CHAMA DA TALANQUEIRA

Todos estes toponímicos designam postos militares em sítios elevados, destinados a vigiar, mirar e escutar o inimigo, de cujos movimentos se dava notícia por meio de sinais luminosos (790). Havia companhias com oficiais, sargentos e soldados (chamadas Companhias do Facho), destinados a guardar os Fachos e a procurar combustível para fazer os sinais (791). No tomo IV, p. 157 e 676, destas Memórias transcrevemos diversos documentos, que encerram várias providências interessantes tomadas pelos mirandeses, em ordem à organização dos seus Fachos, para resistir à invasão francesa de 1809. No Arquivo Distrital de Bragança há um processo organizado em 1667, com inquirição de testemunhas, por uma comissão de cónegos do cabido de Miranda do Douro, referente ao toque espontâneo dos sinos da igreja de Nossa Senhora da Assunção, de Sacoias, concelho de Bragança, por ser voz pública que assim miraculosamente quisera a padroeira manifestar o êxito das armas portuguesas contra as espanholas (792). No seu depoimento, diz o Padre Domingos Pires, cura de Sacoias, entre outras coisas, que «vindo elle testemunha com os homens Balthezar Gonçalves e João Pires, ambos do lugar de Gemonde, antes do meio-dia e estando fazendo oração elle testemunha ha porta travessa da dita Igreja e os sobreditos homes ha fresta da dita Igreja, ouvira tocar o sino e se levantara logo e fôra fallar com os ditos homes e lhe perguntara para que tangião, elles disserão que não tangerão e forão todos tres a perguntar ao home que estava de sentinela que hera Simão Rodrigues do dito lugar de Sacoias se sabia

(790) Ver tomo I, p. 395, destas Memórias, onde tratamos destes precedentes do moderno telégrafo. VITERBO – Elucidário, artigos «Arricaveiro», «Atalaia II», «Sculca» e «Viso». (791) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Facho». (792) Ver tomo I, p. 76, destas Memórias. No tomo VII, p. 5, referimos outro facto miraculoso passado em Milhão, concelho de Bragança, referente às mesmas guerras da Aclamação, que embora não passe de lenda, confirma o espírito nacional bragançano e a psicologia do seu povo.

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quem tangera o dito signo e elle dissera que não sabia quem; mas antes que mais vezes o ouvira tanger e não sabia quem» (793). Como se está nas Guerras da Aclamação (1640-1668), as povoações tinham vedetas nos pontos tácticos, muitos dos quais ainda permanecem com os nomes de Fachos, Viso, Aviso, Esculca, Esculqueira, Mira, Miradouro, etc. A igreja de que fala o documento já não existe; mas, depois de derrubada, passados coisa de duzentos anos, ergueu-se outra nas suas ruínas por iniciativa nossa (794), no mesmo sítio onde estava a antiga, de que nem vestígios havia, pois o terreno andava de lavradio, como se viu pelos restos das paredes caiadas que apareceram ao abrirem-se os alicerces. Aqui o local não tem nenhum dos nomes indicados, mas sim outro equivalente materialmente, pois se chama Castro (795). Como estes nomes, quanto ao significado de carácter militar, correspondem a pontos elevados, onde se colocavam sentinelas a fim de vigiar o inimigo, damos uma lista dos existentes no distrito de Bragança acusados pelo toponímico, por ser interessante para determinar as concepções tácticas dos nossos antepassados. É como segue:

Atalaia (796). Sítio dos termos de Agrobom, concelho de Alfândega da Fé; Baçal, concelho de Bragança; Freixo de Espada à Cinta; Lagoaça (é uma pequena torre com sua porta), Lombo, Murçós e Peredo, tudo no concelho de Macedo de Cavaleiros; Urrós (há restos de fortificações), Peredo dos Castelhanos, Santa Comba da Vilariça e Vimioso, perto da vila [173]. Ainda há uma torre de dez ou doze metros de altura e um fosso em volta do recinto.

Facho. Com este nome há sítios nos termos de Parada, concelho de Alfândega da Fé; Baçal, Cova de Lua, Gimonde, Montesinho, Oleiros, Paradinha Nova, Parâmio, Pinela (é comum a esta povoação e à de Parada de Infanções), Rabal (Ladeira do Facho; consta do Tombo dos Bens do Cabido de Miranda feito em 1691), São Julião (há no termo desta povoação Cabeça da Sentinela e Facho), Terroso, Veigas (freguesia de Quintanilha; vem mencionado no Tombo que fica citado), Vila Meão (Casa do Facho), Vilar (freguesia de Milhão), tudo no concelho de Bragança.

(793) Arquivo Distrital de Bragança, adjunto ao Museu Regional de Bragança. (794) O Arqueólogo Português, vol. 12, p. 1. (795) Ver adiante o artigo Sacoias. (796) Quando, em seguida ao nome da povoação, se não indica entre parêntesis outro nome, entende-se que o sítio tem o nome que primeiro se aponta na verba correspondente.

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Freixo de Espada à Cinta. Ala, Bagueixe (Fachal), Corujas, Gradíssimo, Lamalonga, Pinhovelo, Vinhais (Fachal), Lamas (freguesia de Morais, Fachinha), Olmos (Chama da Talanqueira), tudo no concelho de Macedo de Cavaleiros. Malhadas (Mirandina; há restos de fortificações). Paradela, Póvoa, São Martinho de Angueira (Fachal), tudo no concelho de Miranda do Douro. Avantos, Bouça, Cedães, Lamas de Cavalos, Mascarenhas e Passos, tudo no concelho de Mirandela. Urrós e Vilarinho dos Galegos (Fachal), tudo no concelho do Mogadouro. Mora (Fraga do Lume), Pinelo, São Joanico e Serapicos, tudo no concelho de Vimioso. Edroso, Ferreiros, Mofreita, Vilar de Ossos e Vale de Armeiro, tudo no concelho de Vinhais [174].

Miranda. Com este nome há sítios nos termos de Areias e Paradela, concelho de Carrazeda de Ansiães. O nome da cidade de Miranda do Douro e o da Vila de Mirandela devem relacionar-se com a ideia de Fachos.

Miradouro, Mira, Miragaia, Mirago, Mirão e Mirões. Com estes nomes há sítios nos termos de Rio Frio de Outeiro (Cabeço de Mira), Salsas (Miragaia), Sendas (Miragaia) e Vila Boa de Carçãozinho (Porto Mirão), tudo no concelho de Bragança. Beira Grande, Carrazeda de Ansiães (Mirago), Linhares (Mirago), Seixo de Ansiães (Mira), tudo no concelho de Carrazeda de Ansiães. Bornes e Morais, no concelho de Macedo de Cavaleiros. Seixo, freguesia de Guide, concelho de Mirandela; Estevais e Peredo dos Castelhanos, concelho de Moncorvo; Paçó de Vinhais (Mirões), São Jomil (Vale de Miro), Soeira (Vale de Miro). Aqui pode também ser o nome próprio Miro. Tudo no concelho de Vinhais.

Esculca, Esculqueira. Sítio do termo das povoações de Formil (consta do Tombo dos Bens do Cabido de Miranda feito em 1691), Grijó de Parada, Izeda (Fraga da Esculqueira) e Nogueira, tudo no concelho de Bragança. Picote, concelho de Miranda do Douro. Ervedosa (consta do Tombo atrás citado), Paçó de Vinhais, Penhas Juntas (Pedra da Esculca), Santa Cruz (Esculqueira). Tudo no concelho de Vinhais. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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FACHO | FACHAL | MIRANDA | MIRANDELA | MIRANDINA | MIRA . . . | FEITICEIRAS

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Também na raia do mesmo concelho, mas já no termo do de Chaves, fica o Cabeço de Esculca em frente às Pontes de Vale de Armeiro. Talanqueira, Talanqueiro, Talancairos. Sítios dos termos das povoações de Cabanas, Santa Combinha, Mós de Celas e Peredo da Bemposta. Trincheira. Sítio dos termos das povoações de Parada de Infanções, Varge, Peredo da Bemposta, Casares e Gestosa. Vela, Velado. Sítio do termo das povoações de Paredes (Velado), concelho de Bragança; Vale da Porca (Cabeço da Vela), Vilar de Ouro (Pedra da Vela) e Murçós, tudo no concelho de Macedo de Cavaleiros. Angueira (Penha da Vela), Pena Branca (Pena da Vela), e Vila Chã de Braciosa (Velage e Sentinela), tudo no concelho de Miranda do Douro. Marmelos (Fraga da Vela) e Vale de Martinho (Pedra da Vela), tudo no concelho de Mirandela. Figueira (Vela Grande), Linhares (Fraga da Vela) e Urrós (Cabeço da Vela), tudo no concelho do Mogadouro. Candoso (Cabeço da Vela) e Ribeirinha (Lameira da Vela), tudo no concelho de Vila Flor. Candedo (Pedra da Vela), Edroso (Cabeço da Vela), Nuzedo de Cima (Pedra da Vela), Ousilhão (Fraga da Vela), Tuizelo (Velã) e termo da Ribeirinha, freguesia de Vinhais (Fraga da Vela), tudo no concelho de Vinhais. Viso, Aviso. Sítio do termo das povoações de Serapicos (Senhora do Aviso, no cume de um planalto), concelho de Bragança. Corujas, Espadanedo (Vale de Viso), Concelho de Macedo de Cavaleiros. Genísio (Davisos), concelho de Miranda do Douro. Santalha, concelho de Vinhais. Nos termos de muitas povoações há o toponímico Assomadouro. Ligarse-á no significado militar a Facho e equivalentes? Estes Assomadouros estão sempre em pontos elevados e de largo horizonte.

FEITICEIRAS As feiticeiras, compreendidas na área de sete léguas, reúnem-se em certos e determinados locais a prestar culto ao Diabo, beijando-o na válvula de segurança adjacente à estação términus da parte inferior da coluna vertebral, no meio de grandes descantes e bailes. Em vez de sete léguas, dizem alguns que são as de sete povoações circunvizinhas [175]. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


FEITICEIRAS

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Os números 3, 7 e 9 são simbólicos, cabalísticos, abracadábricos e desempenham um papel importante em todas as teogonias – Numero impare Deus gaudet, diz Virgílio (797) a propósito de sortilégios usados no seu tempo, revestidos de trinta formalidades. Os números acima ainda hoje têm grande significado na liturgia cristã. A filosofia de Pitágoras, que tanta influência teve na Grécia, se não baseia tudo nos números, pelo menos dá-lhes importância máxima. Não há tirar o nosso povo da crendice das feitiçarias, que, afinal, não é tão destituída como parece, pois, pelo menos, milita a seu favor a prescrição de milhares de séculos. Na marcha para o sabat, as feiticeiras tornam-se invisíveis e voam pelo ar, untando-se com uma pomada feita de sebo de sapo e de salamandra, guardada debaixo da pedra do lar, pronunciando ao mesmo tempo a fórmula: por cima de silveiras e por baixo de carvalhais vamos para os areais, para as encruzilhadas, variando esta última parte segundo a natureza do local da reunião. É indispensável esta fórmula, para não serem embaraçadas no voo por silvas ou matos. Às vezes vão às adegas beber vinho por cima dos pipões, e então a fórmula varia, segundo apontam em Rabal concelho de Bragança, e dizem: Com este remédio nos untaremos E à adega de F... iremos, Por cima de silveirais E por baixo de carrascais; Todas sete nos ajuntaremos Pela fechadura da porta entraremos E ali beberemos. As fórmulas, variam, sendo apenas essencial a parte: por cima de silveirais e por baixo de carrascais. Algumas declaram mesmo o tempo em que hão-de voltar, para que a família não dê pela sua ausência. Na Carreira do Cavalo, sítio do termo de Aveleda, concelho de Bragança, aparecem muitos vassouros de varrer o forno e diz o povo que são deixados pelas feiticeiras quando vão para as suas reuniões, pois andam montadas neles. É interessante a seguinte fórmula colhida em Vila Meão: Por cima de silveirais e por baixo de olivais, convenietemente untadas, caminhemos para os areais. «Que fazeis, que tanto dançais?» pergunta-lhes o demónio. «Vimos receber o poder da bruxaria». «Ide, torna-lhes ele, embruxai, persegui, matai e, em paga, no cabo, um beijo me dai debaixo do rabo».

(797) VIRGÍLIO – Écloga VIII. Usamos indistintamente dos nomes feiticeiras e bruxas, pois adiante apontamos a pequena diferença que o povo faz entre elas.

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FEITICEIRAS

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Aqui, em Vila Meão, não indicam o sítio da reunião; simplesmente dizem que se juntam nas encruzilhadas dos caminhos a dançar e que o ponto de reunião magna de toda a bruxaria é na cidade de Sevilha. Certa bruxa casada, ao partir para o sabat, pronunciava sobre o marido a seguinte fórmula «Eu te abençoo com a fralda do meu c..., para que, enquanto vou e venho, durmas e descanses tu». Uma noite, porém, o homem fingiu estar a dormir; sossegado, presenciou a tal bênção, sem mesmo torcer o nariz aos gases sulfídricos, porventura esparsos, e, desde que no regresso apanhou a mulher em casa, zurziu-a bem zurzida, ao acompanhamento de uma outra fórmula de sua invenção, que dizia: «Eu te abençoo, grande desavergonhada, com o cabo desta enxada». À untura e fórmula anda ligado o seguinte conto, que admite diversas variantes: Um sapateiro viu alta noite a ama e filha da casa onde trabalhava a untar-se com uma pomada que tinham escondida debaixo da pedra do lar, e, gatinhando seguidamente pelo cadeado, desapareceram pela boeira. Curioso de ver o desenlace, fez o mesmo; mas enganando na fórmula disse: por baixo de silverais e por cima de carvalhais, e chegou lá todo arranhado das silvas e ramos do arvoredo. Desesperado, ao vir a sua altura da beijoca, espetou ao demo (bruxo-mor, também chamado zangão-mor) a sovela do ofício no esferóide que guarnece a tal válvula retro, ao que ele observou: «Cuidado!... Para a outra vez traze as barbas mais bem feitas» (798). Em todas as nossas aldeias se apontam anedotas referentes às bruxas e feiticeiras. Há quem as tenha sentido em marcha para os locais das respectivas reuniões, em grandes algazarras, danças, toques de pandeiro, ferrinhos e castanholas; quem as tenha encontrado transfiguradas em parras, galinhas, cabras, gatos, etc. Se lhes fizessem sangue, ferindo-as quando andam assim transmudadas, convertiam-se imediatamente na forma primitiva de mulheres, mas completamente despidas. Afirmam categoricamente em Rabal que assim sucedeu a uma bruxa dessa povoação, ferida por um homem, ao qual ela pediu que a não publicasse e lhe daria em paga um colete de linho bordado, então muito em moda. O homem teve o colete, mas logo que o vestiu começou a mirrar-se, a mirrar-se de tal forma que a breve trecho morreu seco como umas palhas-alhas. Em São Pedro de Serracenos dizem o mesmo de outra, que foi espancada por um ganadeiro por lhe ter derrubado a cancelada, e em Bragança contam do pontapé dado alta noite por um homem numa parra, logo convertida em mulher nua, que teve de levar a casa dela, bem tapada com a capa, pois era mulher muito conhecida e temível pelos feitiços.

(798) VASCONCELOS, J. Leite de – Ensaios Etnográficos, 1903, vol. 2, p. 261, dá outra variante deste conto.

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Segundo a lenda, se o padre deixar o Missal aberto no altar após a celebração da Missa, as feiticeiras não podem sair da igreja enquanto o não fechar. Este é o melhor processo de as conhecer. Igual efeito produz uma moeda de cobre lançada na pia da água benta ou um sarilho de dobrar meadas posto a girar às avessas entre o levantar da hóstia e do cálice durante a Missa, pois as feiticeiras pegam logo a dançar sem descanso enquanto o sarilho não parar. No dizer da mesma lenda, elas têm um modo especial de causar dano por meio de uma boneca, símbolo da pessoa que enfeitiçam, à qual vão espetando alfinetes na cabeça e em outras partes do corpo, indo assim o simbolizado sofrendo dores à proporção e no local correspondente ao dos alfinetes espetados. Adiante veremos que já nos tempos paleolíticos se praticava o mesmo na magia da caça para a matar [176]. Segundo outro processo colhido em Aveleda, talham uma lasca de madeira na porta da casa da pessoa a embruxar, queimam-na e amassam a cinza com terra colhida na pegada do pé direito, a primeira ao sair de casa, do mesmo sujeito; fazem com essa massa um mono e, à medida que este se vai secando, assim se mirra o embruxado. Ao passo que vão fazendo o mono pronunciam o Responso do aranganho: Três folhas do cão, Três da cadela, Três do Diabo que te leve. Passa o rio por baixo da ponte, Animal, se estás mal compõe-te, E, se ainda assim não estás bem, Com o bafo do meu c... Te leve berzabu. Para curar os embruxados ou enfeitiçados é necessário levá-los a uma encruzilhada, onde os deitam de bruços e os esfregam com a parte inter-crura das ceroulas de um homem; em cruz, correm-lhe por cima três moedas de prata, lançadas seguidamente para trás das costas. O enfeitiçado fica curado e quem apanha as moedas é que leva o feitiço (799). Quando os embruxados ou enfeitiçados são crianças, é necessário levá-las às fontes ou poços dos aranganhos ou caílhos, das quais há muitas no distrito de Bragança, e levá-las segundo ritos especiais ou passá-las por uma árvore rachada ao meio e depois unida, também segundo formalismos próprios. Enfim, vestígios do culto das águas e das plantas (800).

(799) Colhida em Rio Frio de Outeiro. (800) Ver o artigo Águas.

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Outras feiticeiras preferem ir pela calada da noite chupar o sangue das pessoas a enfeitiçar, até que sucumbem mirradas. É vulgar nas nossas aldeias mostrarem-se equimoses nas pernas e braços atribuídas a tais sugadelas. Os locais onde se reúnem as bruxas e feiticeiras são de preferência areais e encruzilhadas de caminhos. E dai boas fadas Nas encruzilhadas, diz Gil Vicente no Auto das Fadas, em que também entram feiticeiras e a cada passo se estão a relacionar as fadas com ribeiras, águas e mares. A reunião das bruxas e feiticeiras nas encruzilhadas traz à ideia as festas chamadas Compitais, dedicadas aos deuses Lares Compitales, também celebradas nos cruzamentos dos caminhos, onde a crença pagã erigia altares, santuários, pequenos templos, aedicula de que derivaram, quando não indicam morticínio, as cruzes cristãs com que a igreja Católica assimilou o velho culto, canalizando-o para o seu credo religioso (801). Os Lares Compitales eram os protectores das encruzilhadas e os Lares Viales os protectores dos caminhos. Sacrificaram-lhes no princípio cabeças cortadas às crianças, depois acabaram com esta barbaridade e ofereciam cabeças de papoulas e ultimamente efígies de homens e mulheres feitas de palha, a fim de captar a protecção dos Lares e evitar que fizessem mal aos viventes (802); no mesmo intuito ofereciam pelos escravos bolas de lã (803). Também nos cruzamentos de três (triviis) e quatro caminhos (quadriviis) colocavam pedras quadradas em honra de Mercúrio, deus dos ladrões e, em certo tempo, recipientes com mantimentos em honra de Hécate, para serem comidos pelos pobres (804). Como vemos, a caridade não é só do cristianismo. Na Odisseia de Homero encontra-se belamente exemplificada, sendo típico o proceder de Náusica para com Ulisses, proceder aliás aplicado a todos os pobres e necessitados. A crença nas fadas está quase apagada entre o povo bragançano; apenas uma ou outra vaga alusão a elas temos encontrado; é, porém, lícito supor, cotejando com as preciosas notícias etnográficas, fixadas pelo grande observador da alma nacional Gil Vicente, que as lendas das fadas se englobaram

(801) Ver RICH – Dictionnaire de antiquités romaines, artigo «Compitum». (802) MORERI – El Gran Dicionario, artigo «Compitales». (803) NIEUPOORT – Rituum..., p. 259. (804) Ibidem, p. 283.

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nas das mouras encantadas e, em parte, nas das bruxas e feiticeiras, se umas e outras as não sufocaram, suplantando-as. Na crença popular, a bruxa é sempre uma velha e relha mal encarada e a feiticeira uma nova, de aspecto mais agradável, embora uma e outra tenham poder para ferir, de olhar repassado, homens e animais, matá-los repentinamente ou secá-los pouco a pouco, até definharem mirrados, se bem que os poderes maléficos da bruxa são mais latos e podem vencer os das feiticeiras. Há quem ache diferença entre bruxa e feiticeira; porém o povo hoje quase as confunde no mesmo conceito; todavia, um bragançano ilustre afirma que houve sempre distinção entre elas. «Bruxa – diz ele – é a pessoa que, recebendo instruções directamente do Diabo, é a sua delegada e de quem amiudadamente recebe ordens. É pouco mais ou menos a feiticeira dos antigos teólogos. Tem o poder de se transformar em animais, mesmo os mais inferiores, e penetrar nas habitações pelo mais minucioso orifício. Fala com o Diabo à meia-noite. A feiticeira, nada tendo de extraordinário, limita-se ao emprego de certas composições misteriosas. A feiticeira conhece certas práticas supersticiosas, ocultas, com que debela as doenças, e adivinha, intervém em questões amorosas, protege negócios e consegue reaver coisas perdidas» (805). Nós não encontramos mais diferença do que a indicada atrás, e por isso usamos indistintamente dos nomes de bruxa e feiticeira. Segundo a lenda, a mulher que tem sete filhas uma delas é feiticeira, As feiticeiras não podem morrer sem passar o fadário a outra, e por isso, nos últimos momentos pedem a uma mulher que lhe dê a mão, transmitindo-lhe assim o condão. Outro malefício das feiticeiras é fazer estancar os bois ao carro, sem lhe permitir dar mais um passo ou impedir os caçadores no êxito venatório. O remédio é esfregar os bois e as armas com o cós das calças na parte que anda em contacto com os testículos ou fazer com que o gado ovino passe por cima das armas ao sair da quadra. É também remédio trazer no bolso um pedaço da côdea de cima do pão mordida pelo próprio indivíduo; fazer-lhe figas; usar o amuleto da figa, o sino-saimão, etc.; mas o melhor é fugir do seu encontro, evitar a sua vista, porque tais há, dizem os caçadores mais sabedores da matéria, que resistem a todos os ensalmos e nenhuma peça de caça deixam matar, ainda mesmo que lhe descarreguem o tiro com a cabeça da arma pousada no lombo do animal. A esfregação das armas com a parte inter-crura das calças ou pelo menos passá-las por entre as pernas deve repetir-se sempre que atravessarem encruzilhadas de caminhos.

(805) GONÇALVES, Francisco – Breves considerações sobre medicina popular, 1917, p. 93.

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Em várias partes deste trabalho aludimos à eficácia anti-maléfica da parte inter-crura das calças e dos órgãos sexuais empunhados com certos formalismos rituais. Trata-se de vestígios do culto fálico, de que no nosso povo se encontram mais, como dizemos noutra parte. Talvez alguém ache frívolas estas coisas. Achará, achará, infelizmente; mas «deixemos rir – dizia há anos um grande observador desta terra – a ignorância enciclopédica dos numerosos espíritos superiores. Um dia virá em que a justiça dos vindouros abençoará talvez com lágrimas os trabalhos dos arqueólogos, folcloristas e monográficos, que a ciência oficial desconhece e que são os salvadores do espírito da nacionalidade amortecida» (806). É que sem tradições não há indivíduo, família ou nação que vinque a sua personalidade, e por elas explica a História as civilizações passadas, quando os documentos escritos faltam. Mas continuemos. De quando em vez, sem causa cognoscível, apodera-se subitamente do gado bovino de um proprietário um terror pânico, que o leva a fugir espantado por montes e vales sem descanso, sem comer nem beber durante um dia inteiro e mais. Bois feitos, mansos por cinco ou seis anos de canga, meigos, dóceis à voz do dono, que muitas vezes anda no meio deles de noite, na quadra, às escuras, coçando-os, amimando-os numa efusão terna de alter ego, seus melhores amigos, firme ganha-pão da sua subsistência; vacas velhas, cansadas por constantes labores e incessantes gestações, que têm feito a riqueza pecuária de seu dono, pegam a fugir vertiginosamente, sem destino, nem medo de precipícios, a que se lançam em corrida cega, na inconsciência de um salve-se quem puder terrífico; almalhos, novilhos, bezerros, vitelos, seguem-lhes o exemplo, como se os aguilhoasse incessantemente ferrão de palmo e meio! Animais essencialmente domésticos, que, se às vezes abrem carreira, se desviam da gente e até das crianças para as não esmagarem, derrubam agora apavorados quanto encontram diante; atravessam lameiros e pascigos sem lançar dente a nada, nem se deter com o restante gado bovino que lá ande; ofegam, arquejam, sufocam visivelmente esfalfados, mas não cessam de fugir. Proprietários, filhos, criados, vizinhos, tudo corre em pós os animais, tentando cercá-los e trazê-los ao aprisco, baldadamente, porém; fogem sempre mais e mais, até que, extenuados por um dia inteiro de correrias e sem alimentação, param estafados e consentem em vir para casa, onde ficam inutilizados para o trabalho por alguns dias. Factos destes são raros, mas já observámos dois. Os lidos em assuntos zootécnicos dirão as causas desta demência espantadiça, que o povo atribui a enguiço das feiticeiras e que não pode ser

(806) RAPOSO, Hipólito, Diário de Notícias de 17 de Fevereiro de 1913.

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outra coisa, diz o nosso amigo e informador A., adiante memorado, que aponta como prova caso idêntico, sucedido por não emprestar a sua bela junta de bois à vizinha R., bruxa por toda a gente tida como tal, para acarretar o pão. «Eu mesmo – diz ele – vi precipitarem-se os bois abaixo de fraguedos enormes, que seria impossível não se esmagarem se a queda se desse em circunstâncias normais, e no entanto nenhuma escoriação apresentaram depois». Seria imperdoável esquecimento não fixar, ao menos de passagem, a existência em Edroso, concelho de Vinhais, da célebre Bruxa de Edroso, ou Sábia de Edroso, como era conhecida, ainda viva em 1896. Espécie de pitonisa bruxa, dava consultas, predizia o futuro, fazia curas, fulminava de olhar repassado e receitava ervas de sete termos, água benta de sete pias e não sabemos que mais ingredientes, tudo em número sete, colhidos e preparados ao dar da meia-noite, misturando-lhes terra de sete cemitérios e cinzas de sete cadáveres. Não vale rir destas coisas, embora sejam burlescas. A literatura das superstições conta legiões de escritores e centenas de periódicos, além dos que as estudam sob o ponto de vista étnico, factor indispensável na apreciação das civilizações. Não vemos todos os dias os jornais e as revistas, ainda as mais sérias, pejadas de anúncios mirabolantes, em que madames Browillards, Burton Vances e outras predizem o futuro, tirando horóscopos, dando consultas?!! E não lhes minga clientela em todas as camadas sociais, desde as mais inferiores às mais elevadas. Contam em Passos de Lomba, como coisa sucedida há poucos anos, que um tal Redondo prometeu de ir segar feno para os vizinhos Ferreiras em determinado dia; nisto veio o vizinho Coto e como o chamasse para igual serviço no mesmo dia, disse-lhe que já prometera aos Ferreiras. «Pois se não vais para mim, também não vais para eles», retorquiu o Coto. Na noite véspera da segada do feno dos Ferreiras, quando o Redondo estava para se deitar, foi montado, sem saber por quem, num cavalo muito bem aparelhado, que corria à desfilada, sem poder observar para onde, notando apenas que passou nas areias brancas de Rebordelo. Encontrou-se depois num palácio lindamente mobilado, entre grande número de assistentes, num dos quais reconheceu o Coto, chefiados por um personagem barbado, a quem todos faziam cortesanias. Terminada a festa, o Redondo voltou a casa na mesma noite e pelo mesmo processo locomotor, encontrando-se deitado na sua cama, sem saber como, onde se conservou doente durante alguns dias. No dia seguinte contou o sucedido aos vizinhos e o Coto moveu-lhe processo judicial por difamação, de que resultou ser condenado o Redondo MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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em Vinhais, por não poder apresentar provas, se bem que convicta e sinceramente garantia a veracidade da sua narrativa. As feiticeiras só têm poder para exercitar seus malefícios até à cantada do galo pela meia-noite, perdendo-o desde essa hora por diante. Um homem de Palácios, vindo de noite da aldeia de Babe para a sua, insultou as feiticeiras que encontrou no caminho em marcha espalhafatosa para o sabat. Para escapar à perseguição, foi esconder-se num palheiro, e quando elas já haviam tirado de sobre ele todos os molhos de palha, restando apenas um, cantaram os galos: imediatamente estacaram as feiticeiras e, fugindo, rugiram sinistramente: à cão! que se não cantam tão depressa os galos haviamos de matar-te aqui. É que o canto do galo anuncia o dia, o triunfo da luz sobre as trevas e os espíritos infernais, sempre dispostos a guerrear os vivos. Enfim, a eterna luta entre o bem e o mal; o Diabo e os anjos bons. É bem sabido o papel de destaque que o galo representa nas antigas teogonias, tradições e lendas populares, não esquecendo as literaturas onde em nossos dias se viu apoteosado por Rostand. Segundo a lenda, a ponte de Vale de Telhas, concelho de Mirandela, foi construída uma noite pelo Diabo, que, aproveitando-se do desespero de um almocreve, por não poder atravessar o rio, lhe fez a proposta da sua erecção em troca da alma. Aceite o contrato, lavrada a escritura com o sangue tirado do braço do almocreve, surdem legiões de espíritos infernais em fervet opus diabólico. Desmontam, escarcham, carream, esquadram, acepilham, assentam, aprumam, rajam, camboteam: a obra cresce a olhos vistos. Entretanto, o símbolo da vigilância, aquele que espanta as trevas saudando o novo dia, que começa a esboçar-se, bate as asas e... có, cró, có. – Galo canta! observou o lugar tenente de Satanás. Que galo é? perguntou este. – Galo pinto. – Ande o pico, contestou aquele. Instantes volvidos, torna o mesmo: – Galo canta! – Que galo é? – Galo branco. – Ande o canto. Ainda não tinham terminado e novamente diz o lugar-tenente. – Galo canta! – Que galo é? – Galo preto. – Pico quedo, rouquejou o Diabo. Tudo parou; a ponte ficou incompleta por falta de uma pedra nas guardas, que um diabrilho já trazia às costas e deixou cair ao chão mal soou a ordem, e assim se conserva, pois, conquanto muitas vezes a tenham lá MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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colocado, logo cai de noite arrojada por Satanás. O almocreve ficou com a alma e com a ponte [177]. Outras pontes como a da Misarela e a de Aliviada têm lendas idênticas, e similares se encontram referentes a pontes da Suíça, da França e da Bélgica. Facto idêntico se dá com os outros monumentos arquitectónicos atribuídos pela lenda ao demónio, sempre que o arrojo das suas flechas e arcos, o subtil e bem acabado da parte ornamentológica assombra pela fulgurância genial (807). Confirmando o já dito do canto dos galos e cessante influência das feiticeiras após a meia-noite, contou-nos o nosso amigo A., o seguinte chasco: Andando em procura de uma égua que se lhe perdera, teve de pernoitar na povoação de Castro de Avelãs. Casa pequena, a sua cama apenas ficava separada da dos hospedeiros (marido e mulher) por delgado tabuado e não pôde conciliar o sono preocupado com a falta da égua. Alta noite, quando o marido principiava de ressonar estrepitosamente, quiçá narcotizado pela bênção da fralda já referida, e que o nosso amigo diz ser autêntica, sentiu ele deslizar do leito conjugal a mulher, que, lesta, atravessou o sobrado, num pequeno fru-fu, como pegadas de gato, e abriu a porta quase sem ruído, mas ainda assim bastante para os seus ouvidos, vibrantes de hiper-excitação, darem tento do caso. A. não pregou olho atassalhado por mil contingências em que macabras exibições o torturavam, voltejando-lhe no espírito, por onde passava, aureolada de malignidade, a dona da casa, que, talvez naquela triste noite, em que o seu mau sestro o levara a cair-lhe em casa, o buscasse de preferência para vítima. Lançou mão das armas de ocasião e próprias para tais eventualidades, visto a cena ser muito diversa daquela em que Maritornes, no Cervantes, aparece a D. Quixote. Muniu-se da navalha do bolso, não para matar, nem mesmo para ferir gravemente, mas apenas para fazer à feiticeira leve arranhadura, bastante a borbulhar sangue, pois bem sabia que, mal ele assomasse, logo ficaria reduzida ao estado de mulher, sem malignidade de feiticeira; empunhou as calças pelas costuras por entre as pernas, pois mais de uma vez tinha visto casos estupendos, tais como os bois pararem de repente na condução dos carretos e, por mais aguilhoados que fossem, não andarem nem para trás nem para diante, devido ao mau olhado da bruxa, sem os esfregar com a parte interna das calças de um homem, precisamente com as costuras inter-crura; num supremo esforço, como pode, agarrou fortemente o esferóide esquerdo (o direito não tem virtude para estes casos)

(807) Nos artigos Abreiro e Estrada (de Alpajares), referimos lendas idênticas aplicadas a outros monumentos. O Dr. J. L. de Vasconcelos, nos Ensaios Etnográficos, 1903, vol. 3, p. 65, refere-se à lenda da ponte de Vale de Telhas.

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desse apêndice humano, que é um dos emblemas característicos do culto fálico; a tal pequena diferença que distingue o homem da mulher, de que fala Blasco Ibañez No país da Arte, que tanto abunda nas pinturas e esculturas de casas patuscas da cidade ressuscitada de Pompeia; enfim, no tal par de q..., que António da Silveira no cerco de Diu dizia a Soleiman-pachá serem mais fortes do que os pelouros dos seus basiliscos, segundo referem as Lendas da Índia de Gaspar Correia. Estando assim apetrechado o nosso amigo e mais vigilante que Argos, tate! canta o galo da casa. «Estou livre», congemina ele, em desoprimido suspiro: a mulherzinha deve recolher já de repente. Correm instantes que foram séculos e... nada. «Era o galo pinto», interbalbucia ele, resignado. Segue breve na casa vizinha novo có, cró, có. O mesmo silêncio expectativo, seguido de torturante ansiedade. Nada ainda desta vez. O nosso amigo quase não respirava, feito ouvidos à cata do canto do outro galo, que a breve trecho, lá ao longe, mal o ouvia saudar também os prologómenos da marcha ovante do astro rei sobre o nosso horizonte. Enfim, chegara a vez do galo preto; rápida a porta gira nos quícios e, subtil como serpente na húmida relva, a heroína atravessa, em pés de lã, o sobrado e mais rápida ainda escorrega na cama ao lado do marido, que não cessara um instante no seu sornar letárgico. Mal despontou a manhã, A., a quem o espírito ainda não sossegara, ergueu-se e saiu para a rua formalmente resolvido a não mais penetrar em tal casa. Em breve surgiu também o marido, e a mulher, que ficara na cama, coitada!, por estar fatigada da jornada, gritou para este: Ó F., o homem da égua inda ’stá i? Inda, respondeu ele. Pois mata-le o bicho e dile q’a égua ’stá nas lameiras, por baixo da ponte do Castro. Efectivamente, no sítio indicado estava uma égua, perdida também, de sinais idênticos à do nosso amigo, que os decrevera aos seus hospedeiros, e tão parecida que só uma vista de dono os podia distinguir, mas não era a sua. Em todo o caso, a saída da feiticeira naquela noite não foi para as encruzilhadas, mas sim por montes e vales à cata do animal. Como centros de reuniões de feiticeiras, vivem na tradição bragançana a Eirixa, no termo de Rabal; a Cruz de Santa Engrácia, no da Mofreita; o João Garrido, no de Parada de Infanções; a Gândara, no de Rebordãos; as Fragas do Sívio, no de Selores; a povoação de Vale das Fontes; a Fradosinha, no da Bouça; o Alto de Edral, no termo do povo deste nome; as Lamas de Malhadas e o Prado de Limões. Dizem que uma feiticeira de Pinela, indo à adega buscar vinho para a família, enquanto este corria para o caneco, foi ao Prado de Limões, vinte e cinco quilómetros distante, dar uma volta e fazer sua apresentação, e quando voltou ainda o pichorro não estava cheio! tal a facilidade de transporte das feiticeiras. Maior é ainda a ida a Sevilha durante uma noite MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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– todas as reuniões são de noite – e o regresso sem a família dar pela conta. Além destes centros para as reuniões septenárias, quer de sete freguesias, quer de sete léguas em circuito, há outros secundários para as de cada povoação e o central em Sevilha para toda a bruxaria. No Prado das Lamas, termo de São Pedro de Serracenos, há uns círculos que não criam erva, devido à dança de roda que as feiticeiras lá fazem. Em terra de Miranda aparecem nos prados grupos de juncos mais altos, e dizem ser à volta deles que as feiticeiras realizam os seus bailados. Tanto os centros septenários como os individuais de cada povoação, têm certa analogia com os locais dados pelo povo como habitação de uma moura encantada, devendo, porém, notar-se que nestes há sempre ruínas de civilização extintas, quer históricas, quer pré-históricas, sendo até este um guia seguro para nos orientar nas suas pesquisas, ao passo que nos das feiticeiras nem sempre, conquanto, na maioria dos casos, algo haja de carácter arqueológico. Há várias anedotas referentes aos centros de reuniões das feiticeiras, das quais, por brevidade, narraremos apenas uma. Alta noite passou pelas Lamas de Malhadas um soldado da Guarda Fiscal transferido para Miranda do Douro. De repente, sentiu um redemoinho de vento (o povo atribui sempre este fenómeno meteorológico às feiticeiras, e para o conjurar grita-lhe: – esquerda p. –), e, aterrado subiu a um carvalho, de onde viu legiões de feiticeiras chegadas de toda a parte para o sabat. O zangão-mor fazia a chamada pelos respectivos nomes e elas iam respondendo: presente. Na devida altura disse: Justina de Sortes? Ninguém respondeu; mas decorridos, minutos chegou a Justina. «Porque se demorou V. tanto?» «É verdade, respondeu a increpada, foi muita demora, guiar os porcos, fazer a ceia para o pastor e para a família e esperar que esta se deitasse?». O soldado nem respirava; duas ou três vezes alguém da trupe, farejando, observou: «Parece que cheira a cristianilhos». Mas ninguém deu tento do homem, que só de manhã desceu da árvore e viu o largo pateadeiro feito pela dança das feiticeiras. Tempo depois, passando em Sortes destacado e ouvindo falar na tia Justina lembrou-lhe a cena; a feiticeira negou, mas feriu o homem de olhar tão repassado, que só regressou a Miranda em carro, morrendo pouco depois seco como palhas. O Diabo é o bruxo-mor, superintendente de toda a feitiçaria, mas há bruxos menores, que presidem a grupos de sete bruxas ou feiticeiras, e há bruxos mais graduados, espécie de lugar-tenentes, com poderes especiais pouco inferiores aos do Diabo e muito superiores aos bruxos das septenências. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Estes tais bruxos, os lugar-tenentes, são, como os outros imediatamente inferiores, homens transformados em bruxos, e, além de outros poderes, são os autores das violentas tempestades, pavorosos trovões e relâmpagos, que nelas redopiam vertiginosamente invisíveis, a não ser que, por qualquer forma, se firam e façam sangue, embaraçados seja no que for, pois então caem das nuvens abaixo no estado de homens (808). Segundo a lenda, um destes bruxos, ferido por leve arranhadura na ponta de alto choupo, caiu nesta nossa aldeia de Baçal e foi carinhosamente recolhido, vestido e tratado por um homem da família dos Meneses, de quem ainda hoje restam descendentes. Desde que se restabeleceu e sarou da perna quebrada na queda, foi-se embora, agradecendo muito as atenções recebidas e declinando seu nome, casa e valimento em Roma. Anos volvidos, o Meneses foi à capital italiana, facto vulgar antigamente buscar uma dispensa para se casar, e, perdido no labirinto da cidade eterna, sem atremar nas vias a seguir, já desesperava de obter despacho quando se lembrou dos oferecimentos do ferido. Fácil lhe foi dar com a casa, um verdadeiro palacete, pois toda a gente o conhecia como grande senhor, e ainda mais facilmente ele lhe aviou a desejada dispensa num abrir e fechar de olhos, ou, melhor, enquanto o diabo esfrega o olho. Era véspera do Natal e o Meneses, disposto a sair no dia seguinte, não fazia senão dar ais, porque, segundo a crença, ainda hoje vivaz, o primeiro a repicar os sinos naquela noite, toda passada em toque festival, tinha segura uma bênção especial de felicidade durante o ano (809). Se é só isso que obsta à tua alegria — disse-lhe o bruxo – se não queres consoar comigo, como eu tanto desejava, eu te apresento em Baçal a horas de seres o primeiro a repicar os sinos. Vai lá abaixo à estrebaria e das três mulas que lá estão aparelha a mais magra, monta-a e... lá estás. O homem foi, mas como a mula magra o era tanto que parecia não poder suster-se nas pernas, quanto mais aguentar tão longa jornada; ajaezou outra um pouco mais gorda. – Fizeste mal – disse-lhe o bruxo, quando o viu montado – essa só corre como o vento, ao passo que a outra é veloz como o pensamento; mas não tem dúvida: ainda chegas a tempo. – E, depois, como há-de voltar a mula? – inquiriu o Meneses. – Em chegando deixa-a, que ela se governará.

(808) O cânone VIII do concílio I de Braga, celebrado em 561 (ALMEIDA, Fortunato de – História da Igreja em Portugal, vol. 1, p. 667) anatematiza quantos crêem que o diabo é autor das trovoadas. Esta condenação mostra que tal crença vinha da gentilidade. (809) A bênção para o que os repica na noite de Páscoa da Ressureição, também toda passada em toques festivos de sinos, consiste em ser muito feliz no encontro de ninhos de aves com pássaros.

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Ainda saltitava na grimpa do campanário um raio de sol poente e já o cavalgante se apeava à porta do adro da igreja matriz de Baçal. Ajeitada sobre o pescoço da mula a rédea do freio, partiu esta por onde veio, enquanto o Meneses vibrava nos sinos a toada mais melodiosa e artística de quantas soltou em toda a sua vida de Quasímodo. O sino não repicava, falava, poetava maravilhas grandiosas do Deus Menino e os baçalenses, à lareira, comentavam: se não soubéssemos que o Meneses está em Roma, diziamos que era ele o repicador; assim, só pode ser um anjo dos céus. Em terras do Mogadouro e outras dizem que estas tais trovoadas pavorosas são feitas pelo Secular, homem de estudos diabólicos, que consegue armá-las a poder de ler nos seus livros e de bater na água de um rio ou laguna com uma vara até se formar nuvem, que o arrasta pelo ar e tudo arrasa de água, principalmente onde o Secular for cair (810). Dizem também que os pulverinhos, remoinhos de vento que se formam no Verão, em forma de espiral, arrastando palhas, folhas e pó, são devidos a estes tais bruxos. Perdem a força, gritando-lhe: esquerdo, esquerdo, ou apunhando o testículo esquerdo. As crendices populares referentes às feiticeiras são de que mais abundantes traços fornecem do culto fálico. Para afugentar as trovoadas, dizem em Aveleda, concelho de Bragança, que se deve pôr a pá do forno à porta da rua. Também para o mesmo fim tocam os sinos, e logo que se ouvem fogem as nuvens, dizendo: – não vamos para ali, que já ladram as cadelas da Cibrana. Como o orago da igreja é São Cipriano, possivelmente Cibrana relaciona-se com o santo. O costume de tocar os sinos contra as trovoadas é quase geral por todo o distrito de Bragança, se bem que ainda há algumas povoações onde se não pratica, porque os seus sinos não têm eficácia. Não se deve tocar o sino desde que a trovoada entre no termo da povoação, porque então, em vez de a repelir, atrai-a. Também em terras de Miranda e do Mogadouro o povo recita contra as trovoadas ou repica nos sinos o Retente anubrado (811), que noutras terras se reduz a pedirem que a trovoada vá descarregar para serras e descampados onde não faça mal. Ainda em Aveleda apontam como eficaz contra as trovoadas o tição que ficou por acabar de consumir na noite de Natal posto novamente ao lume [178]. No concelho de Vila Flor e noutras terras do sul do distrito de Bragança dão o nome de amêndoa do trovão [179] a uma que às vezes aparece com

(810) PEREIRA, José M. Martins – As Terras de Entre-Sabor-e-Douro, p. 336. (811) Ibidem, p. 346, onde vem a fórmula.

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dois grãos na mesma concha, e dizem que afasta as trovoadas bastando atirar com ela para cima do telhado para a casa ficar livre de perigo. O aparecimento de uma amêndoa destas é motivo de grande alegria entre as apanhadeiras: a que a encontra come um grão e oferece o outro a qualquer pessoa e é o bastante para ficarem compadres por algum tempo. No norte do distrito de Bragança também quando aparecem dois bagos de uvas duplos ou duas castanhas agregadas numa só, lhe atribuem virtude especial, mas é para gerar dois filhos de um parto aquele ou aquela que os come. Como remédio preventivo contra as feiticeiras, além dos já indicados, aconselha-se: beber vinho por cabaça; comer sopas de alho cru; fumaça de erva santa e penas de perdiz; nove areias de sal deitadas no lume; uma ferradura do pé esquerdo de animal cavalar, asinino ou muar, encontrada por acaso e cravada no lado interno da porta de casa; amuletos, ensalmos e sino-saimão; e tratando-se de animais, uma saquinha com três pedrinhas de sal e erva da inveja pendurada ao pescoço dos mesmos e varrer a casa com ramos de trovisco. As feiticeiras assim como fazem dano também podem sarar malefícios, causados por outras, por meio de benzedelas. Em Junho de 1545 foi presa Marta Pires, de Bragança, por se dizer «que era feiticeira e allcouvyteira, e que curava não tendo carta de cura në licença para yso do çurygião moor» (812). De longe vem a Bragança a tradição das benzedeiras, ainda hoje representadas por uma mulher de virtude chamada sábia. Pelas mesmas culpas foi em 1574 Beatriz Gonçalves, viúva, moradora em Verride, termo de Montemor-o-Velho, condenada em dois anos de degredo para Castro Marim com baraço e pregão pela vila (813). Os nossos reis D. Manuel, D. João III e D. Sebastião concederam várias cartas permitindo a homens e mulheres marcados por sinais invulgares como ser gémeo, ter falado no ventre da mãe, ter qualquer defeito relacionado com acidente raro e sobretudo ter dado provas de voga na cura de certas moléstias, que pudessem benzê-las com aprazimento do físico-mor, que informava acerca da sua idoneidade. Eram chamados benzedores ou saludadores; gozavam de grande consideração entre o povo e de capacidade legal. É natural que as supostas feiticeiras se aproveitassem de tais concessões para ir governando a vida, impingindo aos ingénuos suas mistelas e valimentos.

(812) Livro 4 de Perdões de D. João III, fol. 237. (813) Livro 16 de Leg. de D. Sebastião e D. Henrique, fol. 239.

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Na legislação do tempo encontramos benzedores com eficácia curativa para mordeduras de cães, raiva, loucura e vários outros padecimentos. Nos autores citados no princípio deste trabalho, que tratam de medicina popular trasmontana, encontram-se várias mezinhas e ensalmos contra feitiçarias; nós mesmo temos colhido vários outros já inéditos, já fórmulas variantes dos mesmos, que damos noutra parte. Porém, um dos remédios mais eficazes contra os malefícios e bruxarias é o dos Escritos (Nomina) e o dos Exorcismos. Neste particular, é célebre o livro intitulado Manajíto (814), já bastante raro, pois estas práticas, outrora frequentes, caíram em desuso pela chacota com que o clero moderno, a contar dos princípios do século XIX, vem farpeando os colegas exorcistas e passadores de Escritos. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra, in medio sistit virtus, e lá diz Horácio: stulti dum vitia vitant in contraria currunt. A cura das moléstias pela fé, e sobretudo pela fé religiosa, é de ordem científica, como constatam abalizadas mentalidades, bastando citar modernamente o célebre fisiologista Charcot – La Guérison des maladies par la foi et par la foi réligieuse en particulier. Histerismos, epilepsias, coreias, nevroses, paralisias e várias outras afecções do sistema nervoso, e ainda a medicina não alcança todos os elementos mórbidos nele radicados, encontram na fé valiosa terapêutica, senão a mais completa. É necessário crer em alguma coisa, para ser grande ou para fazer coisas grandes, dizia algures o nosso Almeida Garrett. De resto, a sugestão é factor de incomensurável preponderância em todos os assuntos da vida. Querer é poder; nada resiste a um quero firme e consciente. A voga dos Escritos foi e é ainda grande, e jamais desaparecerá, porque se filia numa tradição milenária vivaz através de todos os séculos, comum a todos os povos. Em O Descobrimento do Tibete, pelo Padre António de Andrade, da Companhia de Jesus, em 1621, edição de Francisco Maria Esteves Pereira, Coimbra, 1921, p. 66, por duas vezes o famoso e erudito jesuíta menciona os Escritos (Nomina), que levava como relíquia de grande virtude para operar a conversão dos infiéis tibetanos. O mais engraçado é que ele nas p. 103 e 104 faz troça da fórmula mágica Om máni patmesúri, usada pelos padres gentios do Tibete (Lamas), sem se lembrar de que a sua Nomina se filia no mesmo culto mágico. (814) Temos presente a edição feita em Salamanca em 1721, cujo título é: Nuevo Manojito de Florez... su autor el P. F. Buenaventura Tellado, religioso menor da Província de Santiago... ex-letor de Artes, y de Theologia en el Rial de Salamanca y al presente Maestro de estudiantes en el de Santiago de Galicia.

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O Escrito (Nomina) reduz-se a uma cruz potêntia, como se diz em heráldica, isto é, uma cruz formada por traços duplos, de modo a deixar certo espaço entre eles, onde se escrevem vinte e quatro letras – catorze no braço maior e dez no transversal – iniciais de outras tantas palavras latinas, que dizem: V(ade) R(etro) S(atana) N(unquam) S(uadeas) M(ihi) V(ana) S(unt) M(ala) Q(uae) L(bas) I(spe) V(enenum) B(ibas) G(rux) S(ancta) S(it) M(ihi) L(ux) N(on) D(raco) S(it) M(ihi) D(ux). Nas mesmas condições está outra Nomina ou Escrito, chamada cruz de São Zacarias, que gozou de grande voga contra a peste (Dr. José Leite de Vasconcelos, Ensaios de Etnografia, vol. 3°, p. 171 e 398). Consta de grupos de letras intermeados de cruzes, da forma que segue: † Z † DIA † BIZ † SAB † Z † HGF † BRF JESUS MARIA y JOSE F. A cruz significa crux e corresponde à primeira palavra de um versículo bíblico, que comece por Crux. Cada uma das letras corresponde igualmente a um versículo bíblico que começa por essa letra. Assim: † – Crux Christi, salva me. Z – Zelus domus tuae liberet me. D – Deus meus expelle pestem a me. No fundo, o Escrito é a cristianização dos amuletos muito usados pelos egípcios, gregos e romanos, em que estavam escritas palavras mágicas, abracadábricas e ininteligíveis, de origem antiquíssima, com as chamadas Letras Efésias (Ephesiae littere), para o que deram às palavras um significado cristão. Aproveitaram a cruz, cristianizando-a em emblema da Redenção, pois o seu culto simbólico é muito anterior ao cristianismo e aparece na tradição dos povos de todo o mundo, fixada graficamente no pentalfa e hexalfa, vulgarmente chamado sino-saimão, selo ou anel de Salomão, cuja invenção se atribui a este rei, que passa entre judeus e cristãos por autor máximo de amuletos e escritor da Clavicula Salomonis, editada pelos cabalistas, que nela reuniram todos os preceitos da magia atribuídos ao sábio rei. Possivelmente do título do livro é que a chave entrou a figurar nos amuletos. O sino-saimão aparece por toda a parte: na Europa, África, Ásia e América em moedas gregas, romanas, judaicas, árabes e mouriscas; em símbolos de bandeiras, selos, anéis e campas sepulcrais; em muitas paredes de igrejas, mosteiros e catedrais espalhadas pela Inglaterra, Espanha e outros países da Europa. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Segundo dizem os arqueólogos (815), já vem dos tempos neolíticos (Idade do Ferro). Em Portugal também se encontra no Convento da Graça, em Loulé; na igreja de Santa Maria dos Olivais, em Tomar, e em várias pedras da sua torre, e no claustro de Alcobaça, onde figura associado a cruzes. No nosso distrito de Bragança vê-se na fachada românica da Igreja de Algosinho um pentalfa [180] a dividir a janela circular colocada por cima da porta principal e pintado na parede interior da matriz de Duas Igrejas um hexalfa associado à cruz. No Museu Regional de Bragança há um amuleto vindo de Vila Flor, por oferta do Doutor Guilherme do Carmo Pacheco, para trazer pendurado ao pescoço ou, melhor, talvez à cinta, dado o comprimento das fitas (0,94m cada uma), que consta de uma faixa de seda vermelha bordada com flores, da qual pendem, seguros por lacinhos de seda formando estrelas de quatro, seis e oito raios, dois pentalfas de metal metidos em círculo, servindo um deles de empunhadouro a uma chavinha (816); uma meia-lua, também de metal, com carantonha pelo teor das representadas nos reportórios; um coração de madrepérola onde se lê: Só/a ti/amo; dois escapulários da Senhora do Carmo, com o Menino nos braços, e um grande coração de seda almofadado. Dos extremos desta faixa saem duas fitas, também de seda vermelha-alaranjada, de 0,94m cada uma de comprimento, que serviriam para a segurar à cinta ou ao peito. Ainda no mesmo Museu há um amuleto de prata, com aselha no reverso para andar preso no fato ao peito, por oferta do Padre Cabral, sobrinho do fidalgo Sebastião Corte Real, que consta de uma imagem ao parecer de Nossa Senhora, com barrete cónico na cabeça (caraminhola), semelhante aos que se vêem nos personagens dos Painéis de São Vicente, envolta em largo manto, com qualquer coisa nas mãos, que já se não percebe ou desapareceu, provavelmente o Menino Jesus, o qual assenta os pés sobre uma meia-lua. Por baixo desta fica um coração entre uma chave e uma mão em gesto de figa, na qual se crava o vértice angular de um sino-saimão. Esta particularidade faz lembrar os versos que Gil Vicente põe na boca de Genebra Pereira, adiante citados. O Doutor J. Leite de Vasconcelos (817) cita um códice do século XV, existente na Biblioteca Nacional de Lisboa, que contém uma Nomina contra os endemoninhados, onde aparecem cruzes a par de pentalfas, que o sacerdote

(815) VASCONCELOS, J. Leite de, O Arqueólogo Português, vol. 23, p. 213 e 230. (816) Âncoras, estrelas, chaves e mãos gozam de grande virtude como símbolos e amuletos. VASCONCELOS, J. Leite de – Ensaios Etnográficos, vol. 3, p. 360. CHAVES, Luís – Portugal Além, p. 104. (817) Em O Arqueólogo Português, vol. 23, p. 221.

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exorcizante traça sobre o possesso, ao mesmo tempo que vai recitando as fórmulas dos Escritos: Vade retro Satana, etc. No tecto da igreja de São Bento de Bragança estão pintadas em belas cartelas as letras dos Escritos atrás mencionados. No Museu Etnológico do Doutor J. Leite de Vasconcelos, Lisboa, há uma grande colecção de amuletos, em que figura o sino-saimão só ou associado a outros emblemas, entre os quais a cruz. Do exposto conclui-se que o sino-saimão goza ou gozou foros litúrgicos na crença católica muito semelhantes aos da cruz. É que «o pentalfa, na origem – diz Vasconcelos – deve ser uma estrela. O povo considera-o instintivamente estrela de cinco pontas, os autores de livros mágicos chamam-lhe étoile de Mercure, os matemáticos pentágono regular estrelado. Esta estrela, nascida de antigas concepções cosmogónicas – animismo dos astros, influência deles no curso da vida dos homens – recebeu na arte forma estilizada, como o sol girante a recebeu, ao que parece na suástica, e a lua no semi-círculo chanfrado, a que se dá o nome de crescente, ou na cara com que a costumam representar os amuletos do nosso povo e os reportórios» (818). «À semelhança de outros povos antigos – continua o mesmo – os Lusitanos esmaltavam de símbolos o quadro das suas crenças sobrenaturais, segundo mostrei nas Religiões da Lusitânia, símbolos que datam de remotas eras. Entre eles contava-se a suástica de muitas formas (flamejante, etc.) e a par estrelas de certo número de raios, geralmente seis... Ora, a suástica simples está muito próxima de uma cruz, de onde lhe veio também o nome de cruz gamada, isto é, feita de gamas; por outro lado, o pentalfa é uma estrela, e parece-se igualmente com uma cruz, a qual, por vezes, ele acompanha» (819). Daqui resultou a facilidade com que a crença cristã o aceitou como símbolo associado à cruz no valor anti-maléfico. Entre as cinquenta e uma lápides luso-romanas do Museu Regional de Bragança há treze com suástica de seis raios; quatro de sete; quatro de doze; quatro com semi-círculo lunar e uma com três estrelas de seis raios cada. A epigrafia romana mostra-nos que já então se praticavam Escritos, de onde a sua remota filiação, que afinal, como se vê pelas esculturas rupestres e pinturas megalíticas, já se encontram no período paleolítico, uns cinco mil anos antes de haver romanos. As fórmulas mágicas, para obter bom êxito na caça, descritas em face da documentação da arte rupestre, de que nos falam os pré-historiadores, são,

(818) VASCONCELOS, J. Leite de, O Arqueólogo Português, vol. 23, p. 258. (819) VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, vol. 3, p. 586.

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em parte, praticadas ainda hoje pelos nossos caçadores e, sem nenhuma divergência, também hoje pelas feiticeiras no símbolo do mono, a que vão espetando os alfinetes, como fica dito (820). Entre os romanos havia exorcismos execratórios e amatórios. Na prática eclesiástica católica apenas se praticam os primeiros, mas nos sortilégios das feiticeiras persistem ainda fórmulas dos segundos. Cagnat (821) transcreve alguns engraçadíssimos, tirados da monumental obra Corpus Inscriptionum Latinarum, de Hübner, de que, para amostra, traduzimos o seguinte: «Deuses infernais! Recomendo-vos Júlia Faustilha, filha de Mário, para que a levem mil diabos para as profundas do inferno». Não menos curiosos são os dirigidos contra os cavalos dos jogos, para os impedir de ganharem o prémio nas corridas do Circo. Nestes Escritos, ainda hoje conservados como foram lançados em lâminas de chumbo, havia fórmulas mágicas, letras em breve, símbolos cabalísticos, enfim mutatis, mutandis o que ainda hoje se observa, pois a Igreja, apesar da luta de séculos, tendente a suprimir as práticas pagãs, achou prudente, visto não conseguir extirpá-las, cristianizar as que de todo não se opunham aos seus princípios. A Écloga VIII de Virgílio encerra amplo curso de crendices supersticiosas, que merece a pena ver-se. Lá estão as fórmulas mágicas, as ervas de virtude, a boneca a simbolizar a pessoa que se quer enfeitiçar, etc., isto há mil anos, tal qual se faz hoje ainda. Salve pujança tradicionalista popular, como nos ligas aos mistérios pré-históricos e forneces aos investigadores elementos para sua solução?! Horácio descreve assim os sortilégios da feiticeira Canídia: «Vi-a vestida de negro, saia a meio da perna, cabelos ao vento, uivando juntamente com Sagana sénior, horrendamente pálidas, a cavar com as unhas a terra do cemitério, colhendo ossos e ervas venenosas e a despedaçar com os dentes uma cordeira negra, lançando na cova sepulcral o sangue da vítima a fim de evocar a sombra dos mortos para os consultar. Tinham também dois monos: um de lã e outro de cera, sendo aquele muito maior e em atitude de castigar o outro, que, encolhido e suplicante, apresentava o ar de um escravo que espera a morte.

(820) OBERMAIER – El Hombre Fósil, 1925, p. 251, 252 e 273, dá a gravura de um bisonte ferido por flechas, com intuitos mágicos de caça e conjuros, esculpido na caverna do Niaux. Idênticas têm aparecido nas cavernas de Castilho, la Pasciega, e mais se conhecem. J. Carballo, na Prehistória, 1924, p. 252, 267, 272 e 304, aponta outros aparecidos nas Astúrias, região espanhola confinante com a bragançana. (821) CAGNAT – Cours d’Epigraphie Latine, 1898, p. 344.

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Uma delas invoca Hécate e a outra a cruel Tisífone (822), enquanto as serpentes e os cães infernais corriam por todos os lados e a lua, horrorizada para não presenciar tão vergonhoso espectáculo, se escondia por trás dos grandes sepulcros» (823). No Livro dos Épodos (824) apresenta a mesma Canídia «a queimar em fogo mágico a figueira brava arrancada nas sepulturas, ramos de cipreste funerário, plumas e ovos de coruja pintados com sangue de sapo, ervas venenosas trazidas de Iolcos e da Ibéria e ossos arrebatados às goelas de um cão esfaimado, enquanto Sagana, de saia levantada, cabelos erriçados como cerdas de javali ou de ouriço-cacheiro, borrifava toda a casa com água infernal», a fim de prepararem unguentos maléficos. Ainda no Épodo XV, v. 47, diz que a mesma Canídia ia aos sepulcros dispersar as cinzas dos mortos ao nono dia do seu falecimento, no intuito de preparar filtros mágicos com que se jactava de «dar vida a figuras de cera, arrancar a lua do Céu e ressuscitar os mortos». Virgílio (825) descreve um filtro mágico com que Alfezibei pretende felicitar seu amigo Damon nos amores da ingrata Dafnim, o qual constava de «água lustral espargida em volta do altar consagrado ao amor, ornado de bandeirinhas, enquanto nele se queimava incenso macho e verbena, proferindo ao mesmo tempo fórmulas mágicas, que têm o poder de fazer descer a lua dos céus; foi por meio delas que Circe transformou em feras os companheiros de Ulisses. Depois davam-se três voltas ao redor do altar com o busto do inditoso pretendente, ornado com três bandeirinhas tricolor (o número ímpar é agradável aos deuses), apertando ao mesmo tempo com três nós as bandeirinhas, recitando a fórmula: eu aperto os nós de Vénus, para que assim como esta argila se endurece no fogo e esta cera se derrete [lançava-se no lume um pouco de barro e um pouco de cera], assim o coração de Dafnim se endureça para os outros e se amoleça para mim. Ao mesmo tempo untava-se um pau de loureiro seco com farinha sagrada amassada em betume e, lançando-a ao fogo, dizia-se: assim como a cruel Dafnim me abrasa com amor, assim eu abraso este loureiro para seu flagício enquanto não corresponder ao meu amor. Estes objectos, penhores de ternura do prejuro, que há pouco me deixou, eu os deponho no seio da terra, debaixo da soleira desta porta a fim de obrigarem Dafnim a voltar para mim. Foi Meris que me deu estas plantas colhidas no Ponto, terra fecunda em venenos subtis, e pela sua vir-

(822) Uma das três Fúrias. Virgílio, na Eneida, lib. 7, v. 323 e seg., descreve as horrorosas barbaridades de que estes monstros eram capazes. (823) HORÁCIO – Sátiras, lib. 1, Sátira, VIII, v. 23 e seg. (824) Epodo, V, 5; 15 e seg. (825) VIRGÍLIO – Bucólicas, Écloga VIII.

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tude muitas vezes eu a vi transformar-se em lobo, evocar os mortos do fundo dos túmulos e até transferir as searas de um campo para outro. Por último, e era esta a parte mais eficaz do sortilégio, lançavam-se as cinzas por cima da cabeça junto à corrente de um ribeiro e marchava-se sem olhar para trás». Este ritual ainda hoje se pratica na cura do enqueilhado ou angaranho. Tácito (826), descrevendo os sortilégios empregados pelos inimigos de Germanicus para lhe causar a morte, diz: «apareciam frequentemente espalhados pela terra em volta da sua casa pedaços de cadáveres desenterrados, cinzas sanguinolentas a meio queimar, de envolta com o nome de Germanicus gravado em tabuletas de chumbo, talismãs, caracteres mágicos e outros encantamentos, pelos quais se acreditava que as almas eram entregues às divindades infernais». Este texto é precioso, bem como os anteriores, para julgarmos a crença mágica neste tempo. O que, porém, causa assombro é como no período áureo da cultura latina se prestava crédito a tais charlatanices, não sendo menos de admirar que Germanicus, hábil general, distinto orador, homem perfeitamente senhor dos conhecimentos científicos da época, prestasse assenso e se deixasse levar por tais parlapatices a ponto de se afligir e de concorrerem precipuamente para a sua morte. É bem conhecido na Odisseia de Homero o episódio da feiticeira Circe, que transforma os homens em animais irracionais e as suas dançarinas cantam e saltitam por toda a parte. Hoje porém sucede o mesmo, apesar de tanto nos vangloriarmos de estar no século das luzes. Há anos encontrámos na estrada para Bragança um homem desta cidade, que nos foi contando o mal, sem remédio, que padecia e brevemente o levaria à sepultura por resultar de um olhar repassado e sortilégios com que uma bruxa o ferira. – Imagine – dizia ele – como poderei escapar. A coisa mais terrível e sem remédio que as bruxas preparam, é um bolo feito de certas ervas, terra do cemitério, ossos meio queimados, cinzas dos mortos e sal de cozinha, amassado tudo com sangue de sapo à meia noite na encruzilhada dos caminhos, sobre uma pedra, ao mesmo tempo que dizem a Praga da encruzilhada desta forma: «Eu te amasso, eu te repasso (aqui trespassam o bolo com um punhal, que matou algum homem, e melhor é se tiver morto três), ou te asso (aqui metem o bolo no lume) em nome de Berzabu, para que, amassado em lágrimas, repassado com dores, assado em vida, comido pela podridão, sem paz, sem descanso vivas e morras em tudo mal e por fim te

(826) TÁCITO – Annales, lib. 2, cap. 69.

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leve o poder infernal». Depois espalham no pátio das casas de habitação do indivíduo a quem querem fazer mal este bolo em diagonais tiradas dos respectivos cantos, por forma imperceptível, e desde que pisa qualquer fragmento dele, fica perdido sem remédio: definha a olhos vistos, até que morre seco como umas palhas, repassado constantemente por dores e queimado em vida, porque nunca mais há paz na sua família. Nem tive coragem de me rir, tal a desolação do homem, nem de lhe mostrar a estupidez inculcada por tanta crendice, pois se tratava de um empregado superior dos correios e telégrafos, que possuía o curso liceal, além dos estudos da sua especialidade. De resto, era malhar em ferro frio, tal a sinceridade da sua convicção, convicção alias inabalável em muitíssimas criaturas. Julgamos oportuno transcrever das Ordenações do Reino (827) a parte respeitante a feitiçarias, porque mostra como esta crendice se tem mantido intacta através dos séculos e como ainda hoje se conserva em pleno vigor. Dizem elas: «Estabelecemos que toda a pessoa de qualquer qualidade, e condição que seja, que de lugar sagrado, ou não sagrado tomar Pedra de Ara, ou Corporaes, ou parte de cada uma destas cousas, ou qualquer outra cousa sagrada para fazer com ela alguma feitiçaria, morra morte natural (829). 1° – E assi mesmo, qualquer pessoa que em circulo, ou fora dele, ou em encruzilhada invocar espiritos diabolicos, ou der a alguma pessoa a comer ou a beber qualquer cousa, para querer bem, ou mal a outrem, ou outrem a ele morra por isso morte natural. 2° – Outrosi, não seja algüa pessoa ousada, que para advinhar lance sortes, nem varas para achar tezouro, nem veja em agua, cristal, espelho, espada, ou em outra qualquer cousa luzente, nem em espadoa de carneiro, nem faça para advinhar figuras, ou imagens algumas de metal, nem de qualquer outra cousa, nem trabalhe de advinhar em cabeça de homem morto ou de qualquer alimaria, nem traga comsigo dente, nem baraço de enforcado, nem membro de homem morto, nem faça com cada uma das ditas cousas, nem com outra (posto que aqui não seja nomeada) especie alguma de feitiçaria, ou para advinhar, ou para fazer dano a alguma pessoa, ou fazenda, nem faça cousa porque uma pessoa queira bem, ou mal a outra, nem para ligar homem nem mulher para não poderem haver ajuntamento carnal. E qualquer que as ditas cousas, ou cada uma delas fizer, seja publicamente açoutado com baraço, e pregão pela vila, ou lugar onde tal crime

(827) Esta disposição das Ordenações do Reino, data das Ordenações Filipinas. (828) A expressão: morra morte natural, quer dizer: seja morto, condenado à morte.

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acontecer, e mais seja degradado para sempre para o Brazil, e pagará tres mil reis para quem o acusar. 3° – E porque entre a gente rustica se usão muitas abusões, assi como passarem doentes por silvão ou machieiro, ou lameira virgem, e assim uzão benzer com espada, que matou homem, ou que passasse Douro e Minho tres vezes, cortam solas em figueira baforeira, outros cortam cobro em lumiar de porta, outros tem cabeças de saudadores encastoadas em ouro, ou em prata, ou em outras cousas: outros apregoam os demoninhados, outros levam as imagens de santos junto da agua, e ali fingem que os querem lançar em ela, e tomam fiadores, que se até certo tempo o dito santo lhes não der agua, ou outra cousa que pedem, lançarão a dita imagem na agua [181], outros revolvem penedos e os lançam na agua para haver chuva, outros lançam jueira, outros dão a comer bolo para saberem parte de algum furto, outros tem mandragoras em suas casas, com tenção, que por elas haverão graças com senhores, ou ganho em cousas que tratarem, outros passão agua por cabeça de cão, para conseguir algum proveito». Os delinquentes destas culpas são condenados a ser publicamente açoutados com baraço e pregão pelo lugar onde cometerem o crime. «E nestas mesmas penas haverá qualquer pessoa que disser alguma cousa do que está por vir, dando a entender que lhe foi revelado por Deus, ou por algum Santo, ou em visão, ou em sonho, ou por qualquer outra maneira» (829). No Auto das Fadas descreve Gil Vicente usanças daquela época (1516), ainda hoje vigentes na crença popular. Diz uma delas: ................................................. Eu sam Genebra Pereira, Que moro ali à Pedreira Vizinha de João de Tara, Solteira, já velha amara, .................................................

(829) Ordenações do Reino, liv. 5, tít. 3. Ver tomo II, p. 149 e 151, destas Memórias. Parece que a legislação mais antiga sobre feiticeiras data de 1385. Sobre o mesmo assunto há a lei de D. João I de 19 de Março de 1403. Por lei de 22 de Março de 1499 determinou El Rei D. Manuel que as feiticeiras fossem marcadas em ambas as faces com um ferro em braza, que tinha a letra F, para serem conhecidas. El Rei D. Sebastião também legislou sobre feiticeiras. Sobre o assunto ver ALMEIDA, Fortunato de – História da Igreja em Portugal, 1910, tomo 2, p. 309 e 310; tomo 3, p. 141, 159 e 290, e tomo 4, parte 3, p. 60, onde se mencionam várias fórmulas de bruxarias antigas ainda hoje correntes.

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................................................. E por feitiços qu’eu faço, Dizem que sou feiticeira, Porém Genebra Pereira Nunca fez mal a ninguém; Mas antes por querer bem Ando nas encruzilhadas Às horas que as bem-fadadas Dormem sono repousado; E eu estou com um enforcado Papeando-lhe à orelha: Isto provará esta velha Muito melhor do que o diz. Ora agora Estêvão Dis Diz que defendedes isto: Hui! dou-vos a Jesu Cristo; Para que era ora tirado Quando tenho experimentado E usado quarenta anos. Estorvando muitos danos Per esconjuros provados, Fazendo vir dez finados Por saber hüa verdade? E havendo piedade De mulheres mal-casadas, Para as ver bem maridadas, Ando pelos adros nua, Sem companhia nehüa. Senão um sino-samão Metido num coração De gato preto e não al. Isto, senhor, não é mal, Pois é pera fazer bem. ................................................. ................................................. Em conclusão: mostra-se de tudo quanto fica exposto que permanece ainda hoje um fundo de paganismo, maior do que se pensa, em muitas práticas dadas como religiosas a despeito da guerra de extermínio que por todas as formas se lhes tem movido durante séculos. É que a alma do povo, assim como a chamada fábula mitológica, concretiza profundos ensinamentos sob a forma de lendas e tradições, que uma MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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observação superficial pode julgar absurdos, porque os não compreende, mas que é necessário estudar se queremos ajuizar das civilizações passadas, quando os documentos escritos faltam, e avaliar as modalidades psíquicas do presente. É que as lendas e tradições expostas encerram os farrapos de uma teologia historiada em rico tapete que se perdeu, ficando apenas esses vestígios. Essas lendas e tradições são as cumeadas de uma Atlântida que se submergiu, conservando-nos apenas o povo a memória dos seus picos ou fachos culminantes. Para as suas danças e sabats, as feiticeiras juntam-se nos seguintes sítios dos termos: As de Agrobom e Felgueiras, na Encruzilhada; as de Covelas, na Fraga do Souto. Na Eucísia não se pode levar trovisco na mão ou em qualquer parte visível sem correr perigo de espancamento, insulto ou apedrejamento pelas mulheres. As de Vila Nova juntam-se na Fonte Fria. Diz a lenda que apanharam um homem e o obrigaram a dançar toda a noite ao som de castanholas, que elas tocavam, e pandeiro, tangido pelo zangão; quando veio o dia, colocaram-no extenuado em cima de um castanheiro, de onde não podia baixar, e só no fim de três dias a família, aflita, acompanhada pela mais gente do povo e pela de Soeima, encontrou o mísero quase moribundo. As dos Vales da Vilariça e Vilar Chão reunem-se nas encruzilhadas dos caminhos; as de Vilar de Baixo e Vilar de Cima, entre as duas povoações, distantes entre si coisa de um quilómetro; as de Valverde, no Polo. Em Gebelim e Valverde dizem que para conhecer as feiticeiras basta deitar uma moeda de cobre na pia da água benta da igreja, pois não sairão desta enquanto não retirarem a moeda da pia. O mesmo dizem em várias outras povoações do distrito de Bragança, acrescentando outros que também não sairão se o padre, ao findar a Missa, deixar o missal aberto, ou se alguém fizer andar às avessas um sarilho de dobar fiado ou meadas. Todas as povoações acima referidas ficam no concelho de Alfândega da Fé. As feiticeiras de Alfaião reunem-se na Veiga, onde muitas vezes se lá ouvem em grande algazarra e gritos de parras, em que costumam transformar-se. Também dizem em Alfaião que costumam reunir-se nas encruzilhadas dos caminhos e contam o seguinte caso: um homem encontrou de noite um cabrito a berrar pela mãe; pegou nele ao colo e levou-o para a sua cabrada onde o pousou no chão, e imediatamente desapareceu, soltando umas berradelas terminadas em risadas escarninhas. Era uma feiticeira MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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transformada em cabrito, e ainda hoje o homem está tolheito do braço que transportou o animal, por ser ferido de olhar repassado pela bruxa. Ainda vive também em Alfaião um homem que, saindo de noite às gatas (raparigas. É curioso este termo de calão muito usado pelo povo bragançano, por de algum modo se relacionar com o chat francês), viu-se repentinamente cercado de cães, galgos, perdigueiros, podengos, etc., que brincavam em volta dele sem fazer dano. De repente, foi arrebatado pelo ar, sem saber por quem, transportado a mais de quinhentos metros de distância e colocado à beira de um precipício, de onde a custo pôde sair ileso. As feiticeiras porém nenhum outro dano lhe fizeram. As de Alimonde reúnem-se em Vale de Sartas e na Ribeira. Na Carreira do Cavalo, termo de Aveleda, aparecem muitas vassouras de varrer e os fornos trazidos pelas feiticeiras, que, montadas nelas vêm aqui realizar seus bailes. As de Cabeça Boa congregam-se em Valde Grande; as de Carrazedo, na Seara: as de Castrelos e sete povoações circunvizinhas, no Arranhadouro; as de Espinhosela na Lama do Ferro; as de Formil, na Cruz do Salgueiro; as de Aveleda, Baçal, Cova de Lua, França e Meixedo, na Lastra, termo de Rabal; as de Mós de Rebordãos, nos areais dos rios e também no Calabeiro, onde só há fragueiros (parece que, no conceito do povo, as feiticeiras se reúnem de preferência nos sítios escabrosos, do trânsito difícil). Em Nogueira, apesar de haver muitas e de terem aparecido a várias pessoas, não lhe assinalam local certo de reunião; as de Zeive e de mais sete povoações limítrofes reúnem-se na Santa Engrácia, também chamada Cruz de Santa Engrácia. As de Paçó de Sortes juntam-se no Cortelho, sítio do termo da povoação; as de Parada de Infanções e de mais sete povoações em volta, no sítio chamado João Garrido, limite da povoação; as de Parâmio, do Burzangal e no Maricovo; as de Quintela de Lampaças, na Eira do Prado: as de Rabal e de mais sete povoações vizinhas, na Eirixa, sita no cume do Cabeço da Lastra. O povo refere muitas lendas a propósito das danças que lá fazem, bem como das algazarras, gritos e risadas que soltam quando vão para a Eirixa. É de notar que nestes pontos onde se reúnem as de várias povoações, sempre dizem que são as de sete povos circunvizinhos. (Sete é número cabalístico.) As de Freixeda, no sítio chamado Terroso; as de Frieira, na Lameira; as de Gostei e Castanheira, no Lombiveiro, onde também se diz que há uma moura encantada; as de Izeda, em Santa Olaia, onde, segundo a lenda, se ouve tocar um sino na manhã de S. João; as de Maçãs, Outeiro e Vale de Nogueira, reúnem-se nas encruzilhadas dos caminhos. As de Rebordainhos reúnem-se na Corredoura e na Cruzinha: as de Rebordãos, nas Rajadas, Vilar e Gândara, e deste último local as das povoaMEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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ções circunvizinhas, incluindo as do Zoio, «onde há muitas»; as da Refega, no Poço das Bruxas (é um cabeço cheio de mato, à excepção da coroa, que está rapada devido ao pateadeiro das feiticeiras em seus bailados. Em igualdade de circunstâncias, quanto ao mato do cabeço, menos no cume, está a Eirixa, de Rabal, também escalvada, devido à dança das feiticeiras). Também dizem na Refega que as feiticeiras se costumam reunir nas verelas (caminhos desabridos, esse nome é muito frequente no distrito de Bragança, parece só aplicado a vias cortadas de ventos, pela lombada de planaltos e cabeços); as de Refoios, nos Carriçais (conta-se que passando ali um homem, acompanhado de um cão, lho apanharam, só aparecendo três dias depois, cheio de queimaduras); as de Sacoias, no Cibelo; as de São Pedro de Serracenos, no Prado das Lamas; as de Serapicos, no Sandemiro e no Santo; as de Vila Boa de Carçãozinho, nos Currais; as de Vila Franca, na Eirinha (é um cabeço onde se cruzam diversos caminhos). Em Vila Meão e Petisqueira dizem que as feiticeiras vão fazer as suas reuniões e bailados para os areais de Sevilha. Disse-nos um sapateiro de Vila Meão que uma noite lhe fora uma ter à cama, colocando-se-lhe sobre os cobertores, que logo sacudiu, desaparecendo a feiticeira, que voltou em breve sorrateiramente, não, porém, sem ele a sentir subir para a cama e colocar-se-lhe sobre o peito. Deu um safanão na roupa, obrigando-a a cair no chão; mas não desistiu da tentativa; meteu-se debaixo da cama e fez tanto barulho com as formas e mais aprestes do ofício, tocando como se fossem pratos metálicos de música, que o sapateiro, não podendo dormir, fugiu para casa de um seu irmão. Todas as povoações acima ficam no concelho de Bragança. As de Campelo reúnem-se no sítio chamado Capela; as dos Codeçais, nas encruzilhadas dos caminhos; as de Fonte Longa, Coleja e Selores, no sítio da Forneira, termo da Fonte Longa, e nas Fragas do Sívio (830); as de Vilarinho da Castanheira, na Fraga da Ola. No Mogo de Malta dizem que as feiticeiras mijam nas casas e chegam luzes aos olhos das pessoas que estão a dormir. Tudo no concelho de Carrazeda de Ansiães. (830) O Sívio é um ribeiro que passa em Selores. Até um pouco abaixo desta povoação tem o nome de Rigango e seca no Verão, mas depois recebe outros e toma o de Sívio. Em alguns pontos deste, a água despenha-se de grande altura e tem, cavados na rocha, fundos buracos, lisos e largos, onde redemoinha, escachoando (virá deste escachoar, sibilar, o nome ao rigueiro?). Segundo a lenda, nestas caldeiras, como o povo lhe chama, é que as feiticeiras se reúnem a bailar, de onde a expressão: essa é das que bailam nas Fragas do Sívio: nas olas ou caldeiras do Sívio. Que grande energia para a indústria se perde nestas quedas de água! Parece, à vista do que fica dito, que a lenda aqui coloca os sabates das feiticeiras nos pontos de difícil acesso e escorregadios.

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As de Freixo de Espada à Cinta juntam-se na Passage e na Peladança; as de Fornos nas encruzilhadas dos caminhos e as de Ligares na Cruz da Lameira. Tudo no concelho de Freixo de Espada à Cinta. As de Ala, Arrifana, Grijó de Vale Benfeito (831), Macedo de Cavaleiros, Sesulfe e Travanca reúnem-se nas encruzilhadas dos caminhos, onde se vêem muitos pateadeiros delas; as dos Cortiços, na Portela; as de Limões e as de sete léguas em volta, no Prado; as de Murçós, no Abessedo, sítio do seu termo, mas a reunião magna, onde todas concorrem é na povoação de Vale das Fontes. As dos Olmos, no Fontilheiro; as de Pinhovelo, nas Cruzinhas e também nos Cortiços; as de Podence, nos tanques a batuxar na água; as de Salselas, no Prado de Pereiras; as de Talhinhas, no Prado e as de Vale da Porca no Zebral. Em Vilarinho do Monte dizem que as feiticeiras se juntam nos silveirais e as bruxas nos fiadouros, e que aquelas se vão espojar aos linhos na manhã de São João. Tudo no concelho de Macedo de Cavaleiros. As da Bouça reúnem-se, bem como as de sete povoações circunvizinhas na Fradozinha; as de Guide, no Seixagal. Em Guribanes e Mascarenhas dizem que se reúnem nas igrejas e que para as conhecer é preciso levar um sarilho para lá e impulsioná-lo entre o levantar da hóstia e do cálice, em sentido contrário ao que costumava andar, pois, apenas ele começa a mover-se, as feiticeiras pegam a dançar sem descanso enquanto o sarilho volteia. Já um homem fez a experiência, infrutiferamente porém, porque se enganou ao impulsionar o sarilho, dando-lhe para diante em vez de ser para trás. Também dizem que se descobrem lançando agulhas de aço na pia da água benta ou deixando o padre o missal aberto, pois não podem sair da igreja enquanto da pia se não tirarem as agulhas ou o missal se não fechar. A crendice das agulhas e do aço vigora em muitas terras. As de Lamas de Orelhão reúnem-se no Chão do Neto; as de Mosteiró, nos Insotes; as das Múrias, na Cruzinha; as da Torre de Dona Chama, no Carril e na Abelheira, termo da mesma vila da Torre de Dona Chama, onde aparece o demónio a dançar com uma mulher. Também há poucos anos, segundo nos disseram, as feiticeiras saíram a um homem no sítio do Espinheiro, termo das Múrias, levaram-no entre duas numa espécie de cadeirinha improvisada com os

(831) Dizem de Grijó de Vale Benfeito que as feiticeiras levaram às costas um pastor para uma reunião, gritando depois zombeteiramente: «Ai! que te enganei; ai! que te enganei». «Mais te enganei eu a ti – volveu-lhe o pastor – que andei a cavalo de ti». Mas, passado pouco tempo, o homem começou a definhar, a definhar, até que morreu seco como umas palhas-alhas.

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braços delas e trouxeram-no toda a noite em danças no sítio da Cruzinha, limite do mesmo povo. Tudo no concelho de Mirandela. As de Meirinhos e Valverde reúnem-se na Ponte; as do Mogadouro, na Serra da Zava; as de Tó, no Lameiro da Franga; as de Urrós, na Frágua, a dançar jogos de roda ao som de tamboril em volta de uma grande queda de água de vinte e cinco metros de altura que aqui há. Algumas pessoas, atraídas pela musicata, têm-se aproximado, mas quanto mais perto se julgam do festejo mais se afastam e assim andam toda a noite (as reuniões são sempre de noite). Também dizem que certas noites vão para Sevilha (832) e, que depois de dançarem lá um grande baile e de beberem vinho por um alqueire, regressam a casa sem a família dar pela ausência (são tão subtis que saem mesmo pelas fechaduras das portas). As de Vale de Madre reúnem-se na encruzilhada do caminho de Milhares. Tudo no concelho do Mogadouro. As da Cardanha reúnem-se no caminho das Chouzas; as do Larinho, no Polo, para onde levaram um homem a fim de o lançar das fragas abaixo; as de Peredo dos Castelhanos, na Senhora da Glória, todas as sextas-feiras, e as de Urros, no Poço do Malhão. Tudo no concelho de Moncorvo. As de Assares, Freixiel, Meireles, Nabo e Vila Flor reúnem-se nas encruzilhadas dos caminhos; as de Candoso, na Costeira, sítio onde há largos vestígios de minas antigas. Certa noite, um homem que por ali passava viu muitas mulheres a dançar, soltando grandes risadas e encaminhando-se para ele. Assustou-se; começou a rezar e tudo desapareceu. Diz a lenda que as feiticeiras de Candoso mataram um menino no sítio chamado Temporão, a fim de extraírem do cadáver óleo com que se untam para se tornarem invisíveis ou transformarem-se em animais insuspeitos, quando vão fazer mal às criaturas. Um pastor, que observou tudo, envenenou-lhes o óleo logo que elas se retiraram, e quando na noite seguinte voltaram e se untaram, morreram todas. Tudo no concelho de Vila Flor. As de Santulhão reúnem-se no Penascal; as do Vimioso, no sítio chamado casa dos Mouriscos. É uma casa em ruínas, na encruzilhada de uns

(832) Como, pelo geral, os pontos assinalados para reunião de feiticeiras são em sítios agrestes ou de acesso difícil, talvez a lenda da reunião em Sevilha, vigente em muitas terras, se relacione com as célebres torres mouriscas desta cidade.

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FEITICEIRAS | FELGAR

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caminhos, à qual ligam várias lendas e, entre outras a de uma feiticeira que saiu a um homem na forma de parra, para lhe fazer malefício; porém este fez-lhe sangue com uma pancada e ela ficou logo convertida na pessoa que era, mas nua completamente. Tudo no concelho do Vimioso. As de Agrochão reúnem-se no Lajedo (medonho despenhadeiro de quase trezentos metros de altura, talhado a prumo) e também na Escrita; as de Candedo, no Rigueiro, e as da Cisterna em Travaçós. Diz a lenda que um homem da Cisterna encontrou três mulheres de noite, no sítio do Mouro, limite do seu povo as quais lhe fizeram desaparecer o chapéu da cabeça, sem saber como, indo depois, passados três dias encontrá-lo na Eira, junto à sua casa de habitação, sítio muito distante daquele onde lhe desaparecera. As de Edral e mais sete povoações vizinhas reúnem-se no Alto de Edral; as de Frades, em Vale de Lousa; as da Maçaira, no Sambroso e na Ribeira; as de Melhe, na Escarvada; as da Mofreita e mais sete povoações vizinhas, na Cruz de Santa Engrácia (é uma encruzilhada de caminhos, célebre pelas lendas de feiticeiras que lhe adscrevem); as de Mós de Celas, no Cabanco; as do Pinheiro Novo, na Xorda, onde há um moinho afamado, como ponto de reunião de bruxedos e por isso lhe chamam o Moinho das Bruxas; as da Quadra, na Seara Velha; as de Revelhe, na Poula da Lança; as de Sobreiró de Baixo, em Felgueiras, e as de Vinhais nas encruzilhadas de Vale da Castanheira. Tudo no concelho de Vinhais.

FELGAR REBVRRVS ARI.SEV RV S.CNARELI A.AN LXI I

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Está na povoação de Felgar, concelho de Moncorvo, na capela de Santa Cruz [182]. Foi publicada no Corpus Inscriptionum Latinarum, em O Arqueólogo Português, vol. 2, p. 134, acompanhada da respectiva fotografia, na Gazeta de Bragança de 25 de Junho de 1899 e originariamente por José Henriques Pinheiro no seu Estudo sobre a estrada militar romana, p. 72, onde diz que apareceu no sítio chamado a Carvalhosa, por detrás do Cabeço da Mua, no prolongamento da serra de Roboredo [183]. A sua leitura oferece grandes dificuldades, podendo com segurança concluir-se que MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


FELGAR | FELGUEIRAS

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fol levantada a um indivíduo falecido com sessenta e dois anos de idade. Pinheiro traduziu: «Reburros Seviro da centúria Narelia faleceu tendo 62 anos de idade». E continua o mesmo: «não sei o que queira dizer ARI, nem se existiu uma centúria Narelia; sei que o C invertido quer dizer centúria». O Doutor José Leite de Vasconcelos diz que Ari é genitivo do nome Arius; que SEVRV será Severus ou Servus com falta ou transposição de letras e que Cnarelia será «um nome bárbaro, que indicava pátria ou residência. Mas será uma palavra só, ou serão duas, sendo a primeira D, que indicasse domo?» (833). Hübner também propôs a leitura de Severus Cnareli (834). Depois, J. L. de Vasconcelos, no vol. 12, de O Arqueólogo..., p. 283, em nota, diz: «A transcrição desta inscrição é: Reburrus Ari (filius) Seurus C(Narelia), an LXII. A palavra Seurus não está por Severus, como aventei ibidem, mas corresponde a Seurrus: vid. Religiões, II, 370», e entende que o C invertido significa: «gens ou centúria não militar». O mesmo voltou a dar esta lápide, acompanhada da respectiva gravura, no vol. 3, p. 412, das Regiões da Lusitânia.

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C

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CORACIA VXOR ANLII Está junta da antecedente e ambas vieram do mesmo sítio da Carvalhosa. Fol publicada por J. H. Pinheiro no seu livro, p. 72, onde lê: Corácia mulher casada falecida de 52 anos de idade.

FELGUEIRAS TRIDIAE MODESTIAE... E... ORDAE. E. TRANTES. MEXSTI. SEBANTEAN. XX... VALERALI.. CC. Está no adro da igreja matriz de Felgueiras, concelho de Moncorvo, e veio, segundo a tradição, do monte de Reboredo, termo do referido concelho, do mesmo local onde foram encontradas as que damos no artigo Felgar [185]. Fol publicada na Gazeta de Bragança de 25 de Junho de 1899 pelo abade de Carviçais, reverendo José Augusto Tavares.

(833) O Arqueólogo Português, vol. 2, p. 135. (834) Ibidem.

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FORAIS

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FORAIS EVOLUÇÃO DO MUNICIPALISMO E DOS TRIBUTOS «As concessões e regalias sob o ponto de vista do direito, feitas aos peninsulares [Península Ibérica] vinham estabelecer contraste às acções do fisco e ao peso exorbitante dos tributos. Otão começou por conceder direitos de cidadãos a um grande número de peninsulares. Vespasiano estendeu a todas as cidades de Espanha o direito latino e finalmente Antonino Caracala a todos considerava súbditos de Roma e lhes concedia na sua plenitude os direitos que pertenciam aos cidadãos romanos. Desaparecia assim a distinção entre colónias propriamente romanas e as cidades federadas, compostas de gente peninsular, como a pouco e pouco tinham ido desaparecendo todas as outras distinções. Ia-se consolidando e radicando o princípio municipal, com o qual se havia de desenvolver o sentimento da independência. Desenlaçando-se os outros vínculos materiais que a prendiam à mãe-pátria, ficava subsistindo apenas o laço do tributo para o qual o magistrado romano era implacável, a começar pelo tributo de sangue. Numa população para mais do dobro da actual era grande a leva de soldados que iam formar as legiões que militavam na Ásia, na África, nos pontos mais afastados do império. Só da Lusitânia se conhecem pelo menos sete coortes que militavam no Oriente. A isto se juntava a pesada contribuição dos cereais, fruta, azeite, vinho e outros géneros com que a Espanha, a África e o Egipto nutriam Roma. Com esses produtos, como também com a púrpura, com os tecidos de lã e linho que fabricavam satisfazia as suas contribuições. A arrecadação dos tributos, confiada a magistrados sem consciência nem escrúpulos e que enxameavam com diversos nomes (inspectores, censitores, arcarii, exactores), tornava-os insuportáveis. Segundo Lactâncio, esses magistrados – mais pareciam invasores inimigos – eram uma verdadeira calamidade pública. Além do especial imposto de alimentos, Roma comia a vigésima parte da sua colheita pelo preço arbitrário inferior ao do mercado, estabelecido pelo senado (leges frumentariae, desde os Gracos), havia o imposto estabelecido pelo imperador Augusto da vigésima parte sobre as sucessões. E também o tributo, sobre todos talvez o mais pesado, de alojar e manter as tropas que acompanhavam o governador da província» (835).

(835) AIRES, Cristóvão – História do Exército Português, vol. II, p. 291.

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FORAIS

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Os forais, magnas cartas fundadoras dos municípios, representam uma conquista emancipadora, um certo bem-estar com garantias e privilégios invejáveis, superiores aos que gozavam os cavaleiros-vilãos foreiros ou simples reguengueiros, jugadeiros reais ou particulares. Têm grande importância como documentação para reconstituir a vida social nos séculos XII e XIII, a feição etnográfica dessa época. Deles promanaram as conquistas liberais de que tanto nos orgulhamos. Foi pelos forais que o povo, a arraia miúda (836), veio a constituir a classe do seu nome na sociedade, emparelhando assim com as outras duas clero e nobreza. Pelo foral, o plebeu, o pária, o hilota, o escravo e o servo da gleba conquistaram os seus direitos civis, os títulos que o guindaram na escala social de besta de carga a homem livre. São pequenos – uma a quatro páginas de papel in 8° e no entanto encerram o direito civil, criminal, fiscal, tributário e aduaneiro; as posturas rurais e as providências agrícolas da época (837). Sente-se neles palpitar a vida, as paixões dos homens, o seu modo de ser étnico e psíquico. A porcaria ascosa, a bruteza, a ferocidade cruel, a flagelação, a amputação do ente humano, a barbaridade do Juízo de Deus sob a forma de duelo, o assassinato legal acrescido do insulto escarninho exsudam desses documentos [186]. Realmente, uma sociedade onde se atirava com merda à cara dos indivíduos ou se lhes metia na boca, onde se aplicavam vergastadas e cortavam as orelhas, onde a adúltera e cúmplice eram entregues ao marido ludibriado para se vingar como entendesse, onde o juiz negligente podia ser assassinado sem responsabilidade, com as revoltantes circunstâncias que neles se declaram, onde a mulher violada tinha de ir assoalhando pela rua a sua desonra, parece estar bem perto do homem das cavernas, mas é assim o

(836) Fernão Lopes (Crónica de D. João I, parte 1a, cap. 44°) dá a entender que a expressão arraia miúda se deu ao povo galhofeiramente no tempo de D. João I, de quem era partidário em antítese aos nobres pelo geral, fautores de Castela, mas é mais antiga, pois num documento de 1305 (Chancelaria de D. Dinis, Livro 3° das Doações, fol. 42 v.) se diz que outorgavam certas coisas os cavaleiros, juízes e concelho de Bragança e toda a arraia miúda. (837) Fossada, anúduva, jugada, multas sobre a criminalidade, colheita, mortádego e despojos da guerra eram os principais tributos directos que os municípios pagavam ao governo. Como contribuições indirectas havia: portagem, açougagem, pesagem, alcavalas, alcaidaria, relego, fangas, ochavas, núncio, maninhádego, fumádego, vida, parada e várias outras trapaças, que os avaros olhos de lince do fisco então como hoje escogitavam rapidamente. Tratando dos forais, é necessário advertir que durante os tempos dos nossos primeiros reis e algum tempo antes da fundação da monarquia se dava o nome de rainha a todas as princesas (HERCULANO, A. – História de Portugal, «Introdução», III, SOUSA, Luís de, Frei – História de S. Domingos).

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andar da civilização de cada povo. Da montureira e decomposição cadavérica de outros seres é que viceja a rosa. Diz Herculano a propósito da evolução do municipalismo: «em Portugal os concelhos perfeitos e completos na plenitude dos gosos de maior numero de liberdades encontram-se para o sul do reino, emquanto que para o norte são mais imperfeitos. Ao sul do Douro a falta de instituições municipaes vae-se gradualmente sentindo cada vez mais. As aldeias, as povoações reguengueiras desaparecem nos districtos meridionaes, embora por toda a parte continuem a subsistir os predios reguengos. Estes predios ficam geralmente encravados, bem como as honras e coutos de nobres e ecclesiasticos, dentro do perimetro dos termos dos grandes municipios. Não ha entre elles esses tratos de terra onde a garantia da connexão municipal falta absolutamente ou se acha, digamos assim, apenas esboçada e onde o capricho dos ministros e officiaes publicos não encontra obstaculos senão na vigilancia e na força do poder supremo. Isto mostra que nas provincias do norte a organização do povo se operou em tempos mais remotos no maximo grau de acção de uma aristocracia militar violenta e opressora, deante da qual não só as classes inferiores, mas tambem a auctoridade real eram mais debeis do que nos seculos XII e XIII. É verdade que no norte se fundaram municipalidades perfeitas mas só mais tarde, na segunda metade do seculo XIII. Os municipios de Bragança e Freixo de Espada-á-Cinta, aos quaes se deu o foral de Samora, Monforte de Rio Livre, ao qual se deu o de Selamanca e outros, só vieram a surgir no ultimo periodo d’aquella epocha, a maior parte por esforço do poder central e porventura mais com o intuito de simplificar a administração do que para desenvolver o elemento popular pela força e energia que lhe davam as liberdades locaes. Alguns concelhos do norte existiram por mais de um seculo depois de estabelecida a independencia nacional, mas sem nexo entre os seus habitantes ou apenas como concelhos rudimentares, o que pouco diferia» (838) [187]. Até D. Dinis, os forais do distrito de Bragança surgiram nos anos a seguir apontados: Ansiães ................................................................. Freixo de Espada à Cinta ................................... Mós ...................................................................... Urros .................................................................... Bragança ..............................................................

1055 1122 (839) 1162 1182 1187

(838) HERCULANO, A. – História de Portugal, livro 8, parte 1a, p. 130. (839) Aliás 1152.

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Freixiel ................................................................. Vilarinho da Castanheira ................................... Abreiro ................................................................ Santa Cruz da Vilariça ....................................... Vinhais ................................................................ Mogadouro ......................................................... Penas Roias ......................................................... Gostei e Castanheira ........................................... Torre de Dona Chama ....................................... Vila Franca .......................................................... Sanceriz ............................................................... Frieira .................................................................. Rebordãos ........................................................... Milhão (840) ........................................................... Vale de Prados de Milhão .................................. Rio Frio de Monte (Outeiro) ............................ Paçó de Outeiro ..................................................

1195 1218 1225 1225 1253 1272-1273 1273 1289 1287-1299 1286 1286 1282 1208-1285 1227 1227 1299 1370

Quando uma ou mais aldeias tinham importância para se elevar a municípios, sucedia que muitas vezes pediam um foral pelo tipo de outros povoados, cujos foros e costumes mais se coadunavam com as suas conveniências, aspirações e hábitos, introduzindo-lhes, é claro, alterações determinadas pelas circunstâncias locais. Assim, o foral de Bragança, que era modelado pelo de Zamora, serviu de tipo para os de Gostei e Castanheira, Mirandela, Torre de Dona Chama, Vila Franca, Vale de Nogueira, Sanceriz, Frieira e mais os quatro dados pelo D. Abade de Castro de Avelãs. Freixo de Espada à Cinta, Mogadouro e Penas Roias pelo de Zamora. Mós pelo de Salamanca e Vilarinho da Castanheira pelo de Langrobia. As principais disposições dos forais são: Parada (841), que constava: em Ansiães de dois pães meados, um almude de vinho, outro de cevada (no de D. Manuel declara-se que os almudes de cevada são alqueires e os pães de forma que de cada alqueire se façam quinze pães) pagos por cada morador. Em Freixo de Espada à Cinta, Mós,

(840) Este e os seguintes foram dados pelo Dom Abade de Castro de Avelãs. (841) O foro de Parada consistia em terem os vassalos pronta certa quantidade de mantimentos ou dinheiro para mantença a aposentadoria dos senhorios da terra e comitiva. Este foro era também conhecido pelos nomes de Jantar, Comedoria, Comedura, Colecta, Colheita, Vida e também Visitação, quando o senhorio era o bispo ou outra autoridade eclesiástica. VITERBO – Elucidário, artigo «Parada».

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Urros e Santa Cruz regulava por Ansiães o foro que cada morador pagava anualmente, a não ser o vinho, mas dava (em compensação?) cada fogo um dinheiro. Em Freixiel (foral dado pelo prior de Malta) cada fogo um quarteiro de pão e cada ano de colheita ao prior, quando viesse à vila, carne de uma marrã, trinta pães meados, dois quarteiros de cevada, um poçal de vinho, três galinhas, vinte ovos e manteiga para os adubar. Em Vilarinho da Castanheira, um quartão de pão, um poça de vinho, caso colhessem quantidade superior a cinco módios, e cinquenta módios quando morressem. Em Abreiro, vinte morabitinos cada fogo, seiscentos em Vinhais por todo o concelho (842), vinte e quatro soldos cada morador no Mogadouro e vinte os povoadores dos vilares novos e a mesma coisa Penas Roias. Em Bragança, de colheita ao rei três dinheiros. Milhão, cinco soldos, uma oitava de trigo, uma de centeio, metade dos dízimos, primícias e mortórios (a outra metade pertencia ao pároco da freguesia). Rio Frio de Outeiro, Paçó de Outeiro e Vale de Prados regulam pelo mesmo, a não ser que alguns ainda arrebanham mais, algo para colheita do abade de Castro de Avelãs e para fumadego. Além destes foros, pagos por cada morador (fogo) anualmente, ainda o fisco ou o senhor da terra recebia as multas correspondentes a um certo número de crimes. Todos os outros regulavam por estes, a não ser Rebordãos, que dava um almude de cevada, outro de trigo, uma inimia de vinho, uma galinha, de colheita um porco e de parada quatro soldos. Isentos de pagar foro – Ficavam isentos de pagar foro, por um ano, em Freixo de Espada à Cinta, o cavaleiro a quem morria a mulher ou o cavalo ou casava; a mulher órfã enquanto não casava e a viúva enquanto não tivesse um filho de quinze anos. O mesmo em Urros, Santa Cruz da Vilariça. Em Freixiel, só o homem ou mulher solteiros. Em Vilarinho da Castanheira, os cavaleiros (milites) que tinham cavalo ou égua e armas; porém, se lhe morresse a besta, ficavam escusos por cinco anos. Em Mogadouro, o juiz durante a vigência da sua magistratura; o mesmo em Penas Roias, e num e noutro os jugueiros e mancebos (criados de servir), que não tinham um certo fundo em propriedade (843). Na Torre de Dona Chama, o que tivesse armas e cavalo. Em Sanceriz, o que não pudesse pagar o foro inteiro daria metade.

(842) Em 1253 obtiveram os munícipes de Vinhais o direito de escolher alcaide para o castelo por uma conversão de seiscentas libras. HERCULANO, A. – História de Portugal, nota 8a ao vol. 3. (843) Jugueiros, são caseiros de casal (HERCULANO, Alexandre – História de Portugal, livro 8, parte 3a, p. 341).

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Montádego (direitos de caça). Em Ansiães, um dia anualmente de caça para o rei, que nesse dia lhe daria de comer uma vez e recolheria todas as peles e cabeças que se matassem. Além disso, pelo ano adiante, do cervo apanhado com cães ou em madeiro, dariam um lombo, do porco nada e do urso duas mãos. Em Freixiel, do cervo o lombo, porém, sendo apanhado em corda, nada, e do porco apanhado em madeiro o lombo, com a circunstância de que quem matasse veado teria honras de militem (cavaleiro). Osas (844). Em Ansiães pagava-as a viúva que passava a segundas núpcias, o marido que expulsava a mulher, repartindo com ela a fazenda e depois a tornava a receber; porém, não lhe tendo dado nada, ficava escuso, embora a voltasse a receber. Em Freixo, a viúva que passava a segundas núpcias dentro do ano do falecimento do marido. Em Freixiel, a viúva que casava dava um maravedi para valugas ou uma libra de cera, se fosse pobre. Também pagavam osas em Rebordãos. Manária, maneria, maninho, maneiro, maninhado, maninhádego, núncio, lutuosa. Era uma abominável extorsão frequente em todo o distrito de Bragança e fora dele, não só em Portugal como em terras de Leão, de que entre nós o convento de Castro de Avelãs abusou grandemente, levando a terça dos bens dos casados falecidos sem filhos, embora em algum tempo os tivessem, mas fossem mortos ao tempo do falecimento dos pais. Todos os forais do distrito de Bragança se referem à manária e declaram que os munícipes estão isentos dela; no entanto, pela sua leitura, vê-se que em alguns subsiste, sob formas mais ou menos disfarçadas. «Um dos concelhos perfeitos de quarta classe (Herculano dividiu os concelhos em classes, agrupando seus forais, segundo as analogias que tinham) que nos oferecem espécies mais curiosas é o de Bragança, não tanto pela multiplicidade das isenções do seu foral, como pela natureza delas. Este diploma, expedido por Sancho I, em 1187, parece pressupor, como era natural, uma organização anterior, o estabelecimento de certas imunidades e a abolição de certos gravames que, pela especificação com que se proibiam, estão mostrando que eram gerais, arreigados naquele distrito. A isenção da maneria ou maninhádego e do núncio é aí repetida por diversas fórmulas, nas quais se revela por quantos modos poderiam aliás ser exigidas; eis o que se, lê no seu foral. = Se o habitante da vossa vila morrer e não tiver aí filhos ou parentes, tendo-os noutra parte, venham esses parentes e recebam a sua herança; mas senão os tiver, a metade de todos os seus

(844) Pensão que se pagava pelo casamento. Ver VITERBO – Elucidário, artigo «Osas».

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bens dê-a o concelho por sua alma, e seja para o senhor da terra a outra metade. Os clérigos de Bragança não sejam sujeitos ao maninhádego. Os cavaleiros que não tiverem préstamo não paguem núncio e os prestimoníados que tenham filhos não o paguem também, nem se privem os filhos do préstamo e os que não forem casados nem por isso fiquem considerados como maninhos. Os cavaleiros que tiverem recebido dos seus senhores (patronos, chefes) mulo ou cavalo ou armas, se morrerem, nada dêm por isso (seus herdeiros) ao senhor. Em 1261 suscitaram-se dúvidas sobre a interpretação do foral nesta parte. Um dos magistrados municipais e um vizinho da classe dos cavaleiros vieram queixar-se a Afonso III de exigirem os oficiais do fisco lutuosa dos cavaleiros vilãos de Bragança, como exigiam geralmente no reino, contra os privilégios do foral. Examinando o negócio, resolveu-se que a execução do núncio para os cavaleiros sem préstamo, e para os prestameiros que tinham filhos se devia entender com exclusão dos que, disfrutando préstamo ou soldada (soldo) do rei, não tinham filhos na conjuntura em que morriam, dos bens dos quais cumpria que se pagasse lutuosa... ...O facto de em Bragança não pagarem núncio, ainda quando tivessem prestimónio da coroa, o qual ficava a seus filhos, que também herdavam integralmente as armas e cavalos ou muar do falecido, embora tudo isto lhe houvesse sido dado pelo rei ou pelo senhor, indica uma população guerreira, mas pobre, onde a força militar organizada não podia estribar-se exclusivamente na propriedade... A mais singular prerrogativa era, porém, a de nada pagar o morador da vila que matava um indivíduo estranho a ela, enquanto o matador do habitante de Bragança era multado em trezentos soldos» (845). Pousada, hospedagem, aboletamento (por mandado da autoridade, como hoje se diz). Eram isentos em Freixo os cavaleiros, alcaides, abades (presbíteros) e viúvas, e somente a davam os peões por mandado do juiz. Da mesma forma em Mós, Urros e Santa Cruz da Vilariça. Em Mogadouro e Pena Roias estavam isentos o juiz e a viúva. Em Bragança todos escusos. Em Frieira o rico-homem não podia demorar-se mais que um dia e pagaria o que comia. O mesmo em Sanceriz e Rebordãos. «A lei de Afonso III, que proíbe aos nobres o pousarem nos herdamentos do termo de Cernancelhe e de outras casas de Laedra, de Montenegro e Vilariça ou em outros quaisquer herdamentos reais, quer reguengueiros, quer foreiros, acha-se incluída no título 27 do Livro 2°, da Ordenação

(845) HERCULANO, Alexandre – História de Portugal, livro 8, parte 3a, p. 303 e 325.

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Afonsina, com era 1345, data impossível numa lei de Afonso III [o autor inclina-se a que é posterior ou anterior a 1261]. Este decreto, que parece uma providência local, é uma lei geral, e o modo de só se encontrar referente às comarcas mencionadas, é que se registava uma das circulares dirigidas a qualquer distrito, e por faltar nos registos a moderna prevenção, que se costuma juntar em semelhantes = idênticas se expediram, etc. = elas nos aparecem hoje como singulares e locais» (846). Devia ser muito apreciado o privilégio de não conceder pousada, pois quase todos os forais aludem a ele e muitos declaram que o nobre não demorará no município mais de um dia. Realmente a suprema filosofia consignada na fórmula sintética dos provérbios diz: em tua casa, nem fidalgo, nem galgo; e ainda: abris (mês de Abril) e cavalheros, pocos e buenos, muito corrente em terras de Bragança. A casa de hóspedes é considerada por alguns psiquiatras como uma das fórmulas mais deletérias da tuberculose social. As Inquirições falam-nos de muitos casais e terras filhadas (roubadas) no tempo de Sancho II pelos conventos leoneses de Moreruela, São Martinho da Castanheira e Castro de Avelãs em Bragança, pelos freires de Alcanices e por vários outros fidalgos leoneses e portugueses, que até chegavam a diminuir as raias do reino de Portugal (847). No julgado da Vilariça, os freires do Hospital só por ouvirem dizer a um velho que certos terrenos reguengos foram da ordem, logo se apossaram deles (848). No julgado de Mirandela apossaram-se violentamente os frades de Castro de Avelãs da vila de Sesulfe. No mesmo julgado, Afonso Mendes de Bornes (fidalgo do ramo dos Bragançãos) possuía sem título as vilas de Cortiços e Cernadela, e, sendo julgadas como pertencentes à coroa por Mendo Miguel qui tunc stabat in loco superjudicis, não se deu pelo julgamento e ficou impune (849). «A vila de Lamas de Orelhão despovoou-se no tempo de D. Sancho II propter malfeitoriam quam tunc faciebant. Recorreram os habitantes ao rei, que mandavit ibi facera fortalezam e deu-lhes maiores termos em terras da coroa, pagando dali avante cem morabitinos em lugar das rendas da vila. Desavieram-se os moradores uns com outros, e com raiva (cum furore de concilio) alguns foram morar na vila de Mirandela, que era de ordens e de

(846) Ibidem, nota 10a ao vol. 3. (847) Ver o artigo Frades, onde se mencionam essas terras. (848) Ibidem (849) lnquirições de D. Afonso lll, feitas em 1258. In tomo III, p. 349, e tomo IV, p. 33, destas Memórias.

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cavaleiros. Quando morria aí algum dos expatriados, vinham os cavaleiros tomar conta das herdades deles em Lamas de Orelhão» (850) desfalcando assim o património real e os moradores da terra. O já citado Afonso Mendes de Bornes expulsou das povoações chamadas Casas Queimadas e Vale de Prados os povoadores reais vindos de Bragança e meteu lá os seus, que, como colonos de fidalgo, não pagavam foro ao rei (851). O concelho de Bragança andou em demandas com vários cavaleiros por causa do senhorio da povoação de Lamas (852). Os moradores de Panóias da Ponte, mandada povoar por D. Sancho II, tiveram de dar um quinhão no terreno da coroa que se lhes distribuíra a D. Vasco Mendes tenens Braganciam, em 1235, para se livrar das suas malfeitorias (853). «Os nobres e ordens militares convencionavam com os vilãos e a troco de certa soma ou de um cânone anual tornavam extensivos às propriedades tributárias os próprios privilégios, diminuindo assim as rendas públicas. Uma cruz erguida sobre a terra não privilegiada, um sinal que indicasse a qualidade de imune, bastavam para a defender dos exactores do fisco. Porque, segundo as formas das cruzes, ou pelos marcos e padrões, se entendia ter nela domínio directo um instituto de caridade, uma das ordens de cavalaria ou algum fidalgo» (854). Quem quiser avaliar das extorsões dos fidalgos nesta época, leia as Inquirições que publicámos nos tomos III e IV destas Memórias Arqueológico-Históricas. Dos excessos que os nobres, tanto eclesiásticos como seculares, cometiam contra o povo fala o Documento n° 66 (855). Por ele vemos: que João

(850) Inquirições de D. Afonso III... HERCULANO, Alexandre – História de Portugal, vol. 2, nota 24. (851) Ibidem, no tomo III, p. 357, destas Memórias. (852) Ibidem, p. 358. (853) Inquirições de D. Afonso III, livro 2, fol. 53. Ver os tomos III e IV destas Memórias, onde as publicámos e a cada passo se apontam casos destes. (854) HERCULANO, Alexandre – História de Portugal, livro 4, p. 187. (855) Tomo III, p. 141, destas Memórias. Ver, sobre o assunto, tomo I, p. 243, 257, 285, 312, 313 e 368; tomo III, p. 84, 108, 141, 164, 291 e 293; tomo IV, p. 378; tomo VII, p. 817; tomo VIII, p. 112. Adiante, no artigo Pelourinho, referimos o caso de um poderoso que trazia pelo gasganete um pobre colono, só porque malhou fora da sua eira! É que eles, na ânsia de tudo açambarcar, coutavam eiras, moinhos, para que nada escapasse a seu rapace fisco. Porque o caso é típico do que nas hospedagens sucedia, lembramos o referido nos Livros de Linhagens, p. 190, edição dos Portugaliae M. Historica, onde D. Afonso Henriques doneia a mulher dos hospedeiros enquanto lhe adubam de comer, e o da p. 249 de el rei D. Fruella a «quem mataram sas gentes que a muitos jouuera com as mulheres».

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Afonso Pimentel, senhor de Bragança, extorquia três ou quatro vezes mais do que aquilo a que tinha direito pelo foral da terra; que se apossara das principais rendas do concelho (oitavas), que por forma nenhuma lhe pertenciam; que constrangia os lavradores com grave dano a virem prestar serviço de vigias; a pagarem-lhe cada um três almudes de vinho, embora o não colhessem; a cultivarem-lhe as terras, absorvendo assim a cada morador sete e oito geiras. As coisas não corriam melhor nas outras terras; mas, pondo de parte tão triste sudário, continuemos a examinar as outras disposições dos forais. Fossado, fossadeira (serviço militar de guerra) [188]. Eram isentos em Freixo de Espada à Cinta, Urros, Freixiel, Santa Cruz da Vilariça, Vila Franca e em Mós os peões e clérigos. Estavam sujeitos a ele em Ansiães e Rebordãos. Couto (lugar onde os criminosos se podiam acolher, sem que a acção da justiça os perseguisse). Em Freixo de Espada à Cinta para todos os crimes, excepto para a adúltera e seu cúmplice. O mouro converso que lá se acolhesse e o escravo ficavam livres. O mesmo se praticava em Mós e Santa Cruz da Vilariça. Em Vilarinho da Castanheira valia o couto para todos os crimes, e da mesma forma em Bragança para todos: homicidas, adúlteros, ladrões, etc., com a circunstância que dava liberdade ao escravo que a ele se abrigava; igualava no foro o judeu aos outros munícipes, isto é, quem ferisse um judeu de Bragança pagava de multa tanto como se ferisse outro qualquer cidadão. Era justo. E sobretudo com a circunstância, talvez única na legislação foralenga, que nenhuma multa impunha ao cidadão de Bragança que matava um estranho ao município e pelo contrário o estranho que assassinava um do concelho de Bragança pagava de multa trezentos soldos!!! Portagem (imposto sobre as mercadorias em trânsito ou vendidas no concelho). Pagava-as em Freixo de Espada à Cinta, Mós, Urros, Freixiel, Santa Cruz da Vilariça, Penas Roias, Rebordãos e Bragança, onde a não pagavam os de Sanceriz. Os de Bragança eram escusos de a pagar em todo o reino, privilégio de que não conhecemos similar em município algum. Senhorio. Em Freixo, o senhorio da terra só podia pertencer ao rei, a seu filho ou a quem o concelho quisesse. O mesmo em Urros. Apresentaçao de igreja. O direito de nomear pároco para a igreja pertencia, em Freixiel, ao senhorio da terra e concelho, ao rei em Rebordãos, MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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ao concelho na Torre de Dona Chama e em Freixo de Espada à Cinta era apresentado anualmente de Páscoa a Páscoa, mas se «antes fezer per que, ponelo for a» pelo concelho e alcalde. Mulher. A adúltera que aparecia em Freixo de Espada à Cinta com o cúmplice era presa, bem como ele, e entregues ambos ao marido, para se vingar como entendesse. O mesmo sucedia em Urros e Santa Cruz da Vilariça. Mas em Freixo, quando apanhada em flagrante delito de adultério, era queimada e o cúmplice condenado a pagar dez morabitinos. Não podia ser testemunha contra outra em Freixiel senão em moinho, forno ou lavadeiro. A mulher violada em Freixo de Espada à Cinta tinha de vir em cabelo ou em touca a gritar: – FuIano fodeu-me, de contrário não lhe era admitida a queixa em juízo. O mesmo se dava em Urros e Santa Cruz da Vilariça. O foral de Urros dava-lhe o prazo de três dias. Nos outros parece que devia ser logo em seguida ao acto. Ladrões. Em Urros, ao que roubasse pela primeira vez cortavam-lhe as orelhas; se reincidisse, era enforcado. O mesmo se fazia em Santa Cruz da Vilariça. Flagelação. No foral de Vilarinho da Castanheira ainda se aplicam açoutes, também chamados varadas ou chicotadas (fragelas, flagelas), que variam entre noventa e trinta (856). Este aviltante e deprimente castigo, só próprio de condenados à morte, era aplicado com um chicote formado de pequenas correias ou cordas retorcidas, cheias de nós com botões de metal nas extremidades, ou com varas flexíveis, cheias de nós aguçados, a vítimas despidas nas costas e peito. Dilacerava as carnes, e muitas vezes os infelizes flagelados morriam no tormento (RICH, Dictionnaire des antiquités romaines, artigo «Flagellum»). Os castigos corporais, só próprios dos preceptores imbecis e incompetentes, bestializavam e aniquilavam o carácter humano. Duelo. A propósito do duelo como meio de prova, lembramos, por interessantíssimo, o de Velido, que matou D. Sancho II quando sitiava Zamora em 1072, referido por D. Ismael Calvo Madroño na Descripcion de la provincia de Zamora, 1914, p. 136. Os forais de Ansiães, Freixo de Espada à Cinta, Urros e Santa Cruz da Vilariça impõem o duelo como meio judicial de investigar a verdade,

(856) A Lei Moisaica só permitia trinta e nove açoutes (Deuteronómio, 25-3) e a romana sessenta.

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quando a prova testemunhal não é bastante. «No foral de Urros e outros havia o uso do ferro candente como meio de investigar a verdade; aplicava-se em várias hipóteses, mas sobretudo nos processos de roubo. Eis o modo como se costumava fazer. O juiz e um sacerdote punham a aquecer o ferro, e enquanto não estava em brasa a ninguém era permitido chegar-se ao pé dele, para não haver algum dolo. A pessoa que tinha de passar pela prova era primeiro examinada e obrigada depois a lavar e enxugar a mão diante de todos. Pegava então no ferro, sustentando-o pela parte inferior, andava com ele o espaço de nove pés e punha-o devagar no chão, ao passo que o sacerdote a abençoava. Imediatamente o juiz cobria a mão com cera, punha-lhe por cima linho ou estopa e enfaixava tudo com um pano. Três dias depois examinava-se o estado da mão, e se nesta aparecia queimadura o réu era imediatamente condenado. Esta prova bárbara onde pareceu predominar por mais tempo é pela Beira, na parte oriental, pela orla meridional de Trás-os-Montes» (857) [189]. Pena de sangue. Em todos, ou quase todos os forais se encontra esta pena. Era a condenação, multa ou coima que se impunha aos que espancavam, feriam ou assassinavam alguém, ainda que não corresse sangue da ferida ou contusão. Este castigo estendia-se também aos que proferiam palavras torpes, obscenas, desonestas ou injuriosas e caluniosas contra qualquer pessoa, com as quais lhe faziam vir o sangue às fáces. No foral que el rei D. Manuel deu à vila do Mogadouro em 1512, se diz que a esta pena se deu primeiro o nome de vozes e coimas, e depois de indízeas e indícias (então já se dizia pena de sangue ou pena de arma). Em 1451 foram escusos de pagar indícias os escudeiros de Bragança, que tivessem armas e cavalo e morassem dentro da vila ou no seu arrabalde, salvo se fizerem as tais indícias acintosamente e naqueles casos, nos quais a igreja lhes não valeria. No foral de Bragança de 1514 se dá às indícias o nome de maçaduras e sangue e declara que se não devem levar dali por diante naquela terra. No foral de Freixo de Espada à Cinta, dado em 1512, se diz: «A pena de sangue que constava do Foral antigo (o de D. Afonso Henriques) se prohibe n’este; excepto nos seguintes casos: – O que ferir ou matar o seu vizinho, correndo atraz d’elle e matando-o em sua casa, pagará quinhentos reis, e outro tanto o que ferir a mulher sua ou alheia. – E quem matar homem ou

(857) HERCULANO, Alexandre — História de Portugal, livro 8°, parte 3a, p. 377, descreve as curiosas cerimónias do duelo.

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Clerigo d’Ordens sacras pagará novecentos reis. E o Juiz que os julgar levará a setima parte. – E por todas outras penas de sangue contheudas no dito foral, não pagará mais que duzentos reis de qualquer maneira que sangue tirar. E não se tirando sangue, se não pagará nada (!). As armas serão para o juiz, só no caso que se tomem no arruido, e d’outra sorte não». Já por uma sentença de 1507 havia declarado o rei D. Manuel que D. Mécia de Melo não tinha direito algum para levar a pena de sangue, e outros direitos, em Freixo de Espada à Cinta e seu termo; porquanto as mercês que o rei D. Afonso V e ele mesmo (D. Manuel) fizeram a seu marido – Vasco Fernandes de Sampaio – eram tão somente por sua vida e não se estendiam à viúva. Parece que ela não obedeceu a esta primeira sentença, porque foi preciso outra do mesmo monarca, de 1503, contra a mesma viúva, que, não tendo foral para levar os excessivos tributos, os exigia por sua própria autoridade. Esta senhora exigia – de todo o passageiro que atravessasse a vila de Freixo e seu termo – quarenta e oito réis, dois alqueires de cevada a cada morador e a pena de sangue. Os passageiros revéis em pagar eram privados das suas fazendas por descaminhadas! O rei determina na sua sentença que – «a ré não leve passagem, nem portagem, senão dos que passarem em Portugal para Castela, ou de Castela para Portugal, com algumas mercâncias. Que não leve a pena de sangue, pois não tem título. E que os dois alqueires de cevada se vendam, e ponha o dinheiro em depósito, até que, pela factura de Novos Forais, se veja se as três medidas lhe pertencem ou não» (858). Fomento agrícola – Posturas rurais. O de Freixo de Espada à Cinta, sobre a guarda das vinhas, frutos e árvores. Idem os de Urros, Freixiel e Santa Cruz da Vilariça. O terreno coutado pelo juiz e alcalde, isto é, o terreno demarcado por estes magistrados para ser usufruído segundo certas disposições ou posturas rurais valia, como se estivesse exarado no foral, em Freixo de Espada à Cinta, Urros e Santa Cruz da Vilariça. Todo o termo do concelho a ele pertencia em Mós, sem que fidalgos, frades, clérigos ou ordens militares tivessem qualquer parcela. Casa movida. Em Ansiães podia, depois de um certo tempo, ir-se embora o munícipe e levar ou vender o que lhe pertencia, sem ter que largar a quarta parte ou outra qualquer. Idem em Freixo, Mós e Urros. (858) VITERBO, artigos «Indícias», «Pena de sangue» e «Zegonia». LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Pena de sangue».

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FORAIS

401 TOMO IX

Igreja – Sua apresentação. Em Ansiães, o bispo e o concelho é que julgavam acerca das coisas da igreja e apresentavam o pároco. A apresentação do pároco pertencia ao concelho em Freixo e em Abreiro e ao rei em Mogadouro, Penas Roias, Torre de Dona Chama, Vila Franca, Sanceriz, Rebordãos e Frieira. Clérigos. Em Freixo gozavam de protecção especial, pois quem os espancava pagava quinhentos soldos e uma mealha de ouro. Idem em Urros e Santa Cruz da Vilariça. Não estavam sujeitos ao maninhádego em Freixo, seus bens herdavam-nos seus filhos (sic) e, na falta destes, seus parentes mais próximos. As mesmas disposições, inclusive na questão dos filhos, em Urros e Santa Cruz da Vilariça. O de Bragança só declara que não são maninhos, mas omite a questão dos filhos (porque era inusitada? por decoro? porque no sul do distrito, clima mais quente, já não havia pejo de falar em tais coisas, por serem moeda corrente?). Já então o celibato eclesiástico era a mentira que foi em todos os tempos e que há muito devia ter sido abolido de direito, pois de costume e de facto quase já está, no que a ordem social e moral só teria a lucrar. Merda na boca. Os forais de Ansiães, Freixiel e Vale de Prados de Milhão cominam certa pena a quem der com merda na cara a outra ou lha meter na boca. Parece que este nojento costume vogava então muito, e ainda hoje se ouve a frase: «Fiquei como me dessem com trampa na cara». «Era só dar-lhe com trampa na cara» – para indicar o desapontamento de quem recebe uma desconsideração imprevista ou de quem merece uma correcção –. Traduzirá reminiscências de tal porcaria? Peões. Em Freixo, nas questões de feridas, morte e rouso (violação de mulher) e respectivo juízo e julgamento, eram igualados aos cavaleiros vilãos de outras terras. O mesmo em Urros, Santa Cruz da Vilariça e Bragança. Cavaleiros. Os cavaleiros de Freixo, em juízo e julgamento, nos casos de ferimentos, morte e rouso, eram iguais aos infanções de outras terras. O mesmo se praticava em Mós, Urros e Santa Cruz da Vilariça. Barões. Parece que só o foral de Bragança menciona, no distrito deste nome, esta classe de nobreza municipal, contra a qual não tinham alçada o juiz nem os sagiones (algoz, verdugo e executor de justiça). Além desta nobreza municipal, em Bragança como nas demais vilas do distrito, havia os cavaleiros (miles). MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


402

FORAIS

TOMO IX

Juiz, mordomo, meirinho e alcalde. Em Gostei e Castanheira, o concelho gozava do privilégio de eleger juiz. Idem na Torre de Dona Chama (onde o rei meteria pobrador que povoasse a terra), Vila Franca, Sanceriz e Frieira (o qual parece que acumulava funções fiscais de recebedor de impostos), Rebordãos, Vilarinho da Castanheira (alcalde), Santa Cruz da Vilariça. No Mogadouro era eleito pelo concelho a beneplácito do rei. Idem em Penas Roias. Em Mós, todo o poder de julgar estava concentrado no alcalde, sem intervenção do magistrado real. O mesmo em Urros, e era anual, assim como em quase todos os municípios do distrito. Falando do foral do Mogadouro, diz Herculano: «Quanto mais importantes eram os indivíduos que compunham os municípios, maiores eram os privilégios de que este gozava, consignados nos forais, no que ainda assim há excepções. Mogadouro cai na regra. Povoação toda composta de tributários (não tinha a aristocracia municipal), elege dois juízes, mas a eleição precisa de ser confirmada pelo rei. Quanto porém ao mordomo nada se estatui no seu foral, o que indica ser ele de nomeação real, ou não o haver particular para o concelho. Os privilégios do Mogadouro são assaz limitados» (859). Num inquérito no tempo de D. Dinis no concelho de Mirandela, inquérito feito no termo da vila pelos juízes e pelo tabelião desta, diz-se: «que os inquiridores acharam ser reguenga certa herdade, pelas declarações dos jurados que dantes foram, e acerca de outros prédios afirmam não terem podido saber a verdade, nem dos jurados, nem das testemunhas» (860). Por documentos relativos a Bragança, concelho cujos direitos reais andavam avençados no fim do século XIII, era um oficial com o título de andador que fazia entrar aqueles direitos no cofre municipal (861). O mordomo de Freixiel era eleito pelo concelho, de acordo com o senhor da terra, que acumula funções cíveis e fiscais. As prisões, multas, cartas de seguro, etc., são ordenadas pelo mordomo, assistido por três homens bons; porém, quanto às funções fiscais (recebedor de impostos) exerce-as só por si, sem dependência de ninguém. O juiz e mordomo em Vale de Prados de Milhão eram dados pelo senhor da terra (convento de Castro de Avelãs) a contento dos moradores.

(859) HERCULANO, Alexandre — História de Portugal, livro 8°, parte 1a, p. 117. (860) Gaveta 8, maço 4, n° 3. In HERCULANO, Alexandre — História de Portugal, livro 8°, parte 2a, p. 182 (861) Gaveta 8, maço 1, n° 2, e Inquirições da Beira e Além Douro, fol. 122 v.

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FORAIS | FIGUEIRA

403 TOMO IX

Juiz negligente. Em Freixo, se o juiz for negligente matem-no, sem mais responsabilidade do que cada morador pagar de multa uma pele de coelho, menos o assassino, que ficará isento de toda a multa e os parentes do juiz serão obrigados a saudá-lo, ou seja, como que a agradecer-lhe o acto. O mesmo dispõem os forais de Mós, Urros e Santa Cruz da Vilariça. O cúmulo do sarcasmo na multa das peles de coelho, sem valor então, pela assombrosa abundância, junto à ironia zombeteira dos cumprimentos dos parentes da vítima ao seu carrasco. O foral de Bragança é mais moderado; também impõe a multa ridícula das peles de coelho, caso o juiz seja assassinado, mas não manda que o matem. Julgamento. Não teria andamento, sem se proceder à inquirição de testemunhas em Ansiães. Quase todos os forais consignam a garantia de que o juiz não podia proceder sem participação em juízo do queixoso. Já então a barbaridade dos castigos ex-informata consciencia era considerada como iniquidade, e as penas sem marcação de tempo como uma monstruosidade afrontosa dos direitos inerentes à natureza humana. E no entanto, tão revoltantes disposições acham-se consignadas num código há poucos anos publicado, que nos querem meter como modelo e cúmulo de sabedoria, sabedoria que a nosso ver só reside na arteirice com que empurra tudo para o despotismo medieval. As justiças populares que os forais deixam ver são antiquíssimas. «Um decreto de Kludowig, o Pio (rei de França), expedido em 815 a favor dos moçárabes, que, retirando-se dos domínios muçulmanos, tinham repovoado os territórios das fronteiras francas, deixa à assembleia pública dos vizinhos (que já figura nos últimos tempos da monarquia gótica, ou aos magistrados eleitos por ela) a jurisdição necessária para julgarem aquelas coisas cíveis e crimes que pela sua menor importância não pertenciam à categoria das que aí expressamente ficaram reservadas para o tribunal (mallum) do conde (franco), sendo sabido que até aquele tempo era o costume dos hispanos» (862).

FIGUEIRA Perto da povoação da Figueira, concelho do Mogadouro, há vestígios de muros e fortificações, que dizem ser dos mouros.

(862) HERCULANO, Alexandre — História de Portugal, livro 8°, parte 1a, p. 33.

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FORMIL | FRADES

TOMO IX

FORMIL O Castro de Formil, também chamado Fragas do Castro e ainda Feira dos Mouros, fica num cabeço a cavaleiro do povo, e como tem sido muito remexido a fim de lhe tirarem a pedra para vedação de propriedades, nada apresenta elucidativo da civilização a que pertenceu, além de grandes pedras e terra solta, semelhando parapeitos de muros e fossos» (863).

FRADES Além das igrejas paroquiais e particulares, tinham muita propriedade rural no distrito de Bragança os Mosteiros de Bouro, Castro de Avelãs, Moreirola, Refóios de Basto e São Martinho da Castanheira; as ordens militares do Hospital e Templários, que também aparecem com as designações de Freires de Alcanices e ordem de Uclés, assim ditos dos locais onde residiam; os Arcebispos de Braga e cónegos da Sé de Miranda e Bragança, bem como a igreja de São Vicente desta cidade; os jesuítas; as freiras (Oblatas) da Mofreita e Fornos de Ledra e ainda Santa Maria de Rosavales ou Rosas Vales (864). O Mosteiro do Bouro em Portugal era da ordem de Cister (865) [190]; o de Castro de Avelãs, a uma légua de Bragança, pertencia à ordem de São Bento (866) [191]; o de Moreirola de Távara (867), situado na margem do Esla, província de Zamora (Espanha), era da ordem de Cister; o de São Martinho da Castanheira, vulgarmente chamado do Lago ou de São Martinho do Lago, por haver um nas suas imediações, estava situado em terra de Sanábria, perto da vila deste nome na referida província de Zamora (868).

(863) PINHEIRO, José Henriques – Estudo da estrada militar romana de Braga a Astorga, p. 99 e 105. AIRES, Cristóvão – História do Exército Português, vol. 1, p. 405, também aponta o nome deste Castro, situado a oito quilómetros de Bragança, mas não precisa a sua localização. (864) Tomo III, p. 309, e tomo IV, p. 40, destas Memórias. Era de Cónegos Regrantes e ficava na Navarra (Espanha). (865) ALMEIDA, Fortunato de – História da Igreja em Portugal, vol. 2, p. 120. (866) Ver a nossa monografia Castro de Avelãs – Mosteiro beneditino. (867) GOMEZ MORENO – Zamora, 1927, tomo 1, p. 193, e tomo II, p. 276, destas Memórias. (868) Ver tomo II, p. 273, destas Memórias. GOMEZ MORENO – Zamora, 1927, tomo 1, p. 190. FLOREZ – España Sagrada, tomo 16, p. 45. CALVO MADROÑO, Ismael – Descripcion Geografica, Historica e Estadistica da Provincia de Zamora, 1914, p. 159. A maior parte dos bens deste Mosteiro em Portugal foi comprada pelos Figueiredos de Bragança, como aponta Viterbo no Elucidário, artigo «Probamento». No volume que publicámos, intitulado Catálogo dos manuscritos de Simancas, pertencentes à história portuguesa, mencionamos muitos documentos tocantes à restituição dos bens das ordens religiosas e particulares espanhóis sitos em Portugal, de que foram desempossados durante os vinte e oito anos da Guerra da Restauração.

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FRADES

405 TOMO IX

Os Freires de Alcanices, assim ditos da vila espanhola deste nome na província de Zamora, onde residiam, pertenciam à ordem dos Templários (869) e os de Uclés à ordem militar de São Tiago, em Castela (870). Segue a lista das povoações do distrito de Bragança em que as ordens religiosas tinham propriedades: Abreiro. Tinha aqui propriedades a ordem do Hospital (871). Alfaião. Há um sítio do termo chamado Couto e naquele tinham propriedades os cónegos de Miranda (872) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (873). Algoso. Toda a terra de Algoso, Mogadouro e Penas Roias era da ordem dos Templários, de Malta [192] e do Mosteiro de Moreirola, dizem as Inquirições de D. Afonso III (874). Também tinha bens em Algoso o benefício de São Vicente de Bragança (875). Alimonde. Tinham propriedades no seu termo os cónegos de Miranda (876) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (877). Angueira. No seu termo tinha bens o Mosteiro de Moreirola (878). Argozelo. Tinham propriedades no seu termo os cónegos de Miranda (879) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (880). Arufe. Tinham fazendas no seu termo os cónegos de Miranda (881) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (882). Atenor. Tinham aqui fazendas a ordem do Hospital (883) e os Templários (884). Avelanoso. No seu termo possuíam bens: a ordem do Hospital (885), os Freires de Alcanices (Templários) (886) e o Mosteiro de Moreirola (887).

(869) GOMEZ MORENO – Zamora, tomo 1, p. 329. (870) ALMEIDA, Fortunato de – História da Igreja em Portugal, vol. 2, p. 181. (871) Ver tomo IV, p. 80, destas Memórias. (872) Ibidem, tomo I, p. 371 (873) Ibidem, tomo III, p. 58 e 84. (874) Ibidem, tomo IV, p. 8. Sobre o particular de Algoso, ver no mesmo tomo as p. 7, 20, 53, 54, 55 e 447. (875) Ibidem, tomo VII, p. 740. (876) Ibidem, tomo I, p. 369. (877) lbidem, tomo III, p. 84. (878) Ibidem, tomo III, p. 12, 15, 16 e 17. (879) Ibidem, tomo I, p. 376. (880) Ibidem, tomo III, p. 49 e 58. (881) Ibidem, tomo I, p. 370. (882) Ibidem, tomo III p. 68 e 84. (883) Ibidem, tomo IV, p. 11. (884) Ibidem, p. 9 e 11. (885) Ibidem, tomo IV, p. 7. (886) Ibidem, p. 16 e 19. (887) Ibidem, p. 14.

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FRADES

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Aveleda. Há um sítio do termo chamado Couto e naquele tinha propriedades o Mosteiro de Moreirola (888). Azibeiro. Tinha aqui propriedades a ordem do Hospital (889). Babe. Idem (890). Baçal. Tinha aqui propriedades o benefício de São Vicente de Bragança (891). Há no termo de Baçal um sítio chamado Vale de Frades e outro dito Lameiro de São Tiago. Estes toponímicos provirão de bens monásticos? Bagueixe. Tinha aqui prédios a ordem dos Templários (892). Baldres. Tinha aqui fazendas a ordem do Hospital (893). Banrezes. No seu termo havia bens pertencentes à ordem do Hospital (894). Barcel. Há um sítio do termo chamado Coutada e naquele tinha propriedades a ordem do Hospital (895). Bornes. Tinham aqui bens os arcebispos de Braga (896) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (897). Bragada. Tinha aqui propriedades a ordem do Hospital (898). Bragança. Há couto e no termo tinham propriedades: os cónegos de Miranda (899), a ordem do Hospital (900), o Mosteiro de Moreirola (possuía casas e vinhas) (901), o Mosteiro de São Martinho da Castanheira (casas na Rua da Moreirola em 1351) (902); o Mosteiro de Santa Maria de Rosavales (casas na Rua da Corredoura, depois chamada Rua de Trás e hoje Rua Abílio Beça) adquiridas no tempo de D. Sancho I (903). (888) Ibidem, tomo III, p. 413, e tomo VII, p. 737 e 738. Sobre os bens que em Aveleda tinha o Mosteiro de Moreirola, ver VITERBO – Elucidário, artigo «Padeliças». (889) Ibidem, tomo III, p. 385, destas Memórias. (890) Ibidem, p. 373. (891) Ibidem, tomo VII, p. 744. (892) Ibidem, tomo III, p. 352. (893) Ibidem, p. 310, 357, 369, 371, 373 e 385. (894) Ibidem, tomo I, p. 366 e 367. (895) Ibidem, tomo III, p. 338, e tomo IV, p. 22. (896) Ibidem, p. 60. (897) Ibidem, p. 84. (898) Ibidem, p. 362 e 365. (899) Ibidem, tomo I, p. 374. (900) Ibidem, tomo III , p. 308. (901) Ibidem, tomo III, p. 307 e 310. (902) Ibidem, p. 272 e 305, e tomo VII, p. 735 e seg. (903) Ibidem, p. 309. A propósito da Rua da Corredoura ou Carreira, ver tomo I, p. 338, artigo Rua da Carreira e nota respectiva. Ver também tomo VII, p. 743.

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Das propriedades que este Mosteiro de Rosavales tinha em Bragança deve ter vindo o nome à rua assim chamada, mencionada no tomo I, p. 344, destas Memórias. É possível que a igreja de São Vicente em Bragança seja obra de Rosavales, porque fica no terreno pertencente ao Mosteiro e num altar dela estava uma imagem de Nossa Senhora de Rosavales, como lhe chama o povo, em estilo gótico, agora no Museu Regional de Bragança. Entre as propriedades do Mosteiro de São Martinho da Castanheira em Bragança destaca-se a Quinta da Granja, para os lados de Meixedo, pertencente à família Calaínhos (Ferreiras Sarmentos), onde há uma importante mata de castanheiros bravos de muito valor (904). Também tinha muitas propriedades em Bragança o benefício de São Vicente da mesma cidade (905) e o Colégio dos Jesuítas (906). Britelo, povoação morta no termo de Vila Nova, concelho de Bragança. Possuíam aqui fazendas os cónegos da Sé de Miranda (907) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (908). Cabanelas, povoação morta no termo de São Pedro de Serracenos. Tinham aqui bens os cónegos da Sé de Miranda (909) Mosteiro de Castro de Avelãs (910). Cabeça Boa, concelho de Bragança. Tinha aqui bens o benefício de São Vicente de Bragança (911). Calvelhe. Possuíam aqui propriedades os cónegos de Miranda (912), a ordem do Hospital (913), o Mosteiro de Moreirola (914) e os Templários (915). Carção. Tinham aqui fazendas a ordem do Hospital (916) e os cónegos de Miranda (917). Carragosa. Possuía aqui bens o Mosteiro de Moreirola (918). (904) Ibidem, tomo VII, p. 735 e seg. (905) Ibidem, p. 742 e seg. São interessantes para a topografia da cidade as confrontações de algumas destas propriedades, que damos no lugar citado. (906) Ibidem, tomo VII, p. 741. (907) Ibidem, tomo I, p. 374. (908) Ibidem, tomo III, p. 58. (909) Ibidem, tomo I, p. 371. (910) Ibidem, tomo III, p. 58. (911) Ibidem, tomo VII, p. 744. (912) Ibidem, tomo l, p. 369. (913) Ibidem, tomo III, p. 350. (914) Ibidem, p. 327. (915) Ibidem, p. 330 e 350. (916) Ibidem, tomo IV, p. 15. (917) Ibidem, tomo, p. 376. (918) Ibidem, tomo III, p. 321 e 398.

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Carrapatas. Tinham aqui bens os Arcebispos de Braga (919), o Mosteiro de Castro de Avelãs (920) e o Mosteiro de Refóios (921). Carrazeda de Ansiães. Em várias terras deste concelho tinham propriedades os jesuítas (922). Carrazedo. Há um sítio chamado Couto e tinham propriedades no termo os cónegos de Miranda (923) e o Colégio dos Jesuítas de Bragança (924). Carvas, povoação morta, junto à ponte do Sabor, em Bragança, chamada Ponte das Carvas. Hoje a povoação está reduzida a uma quinta particular (925). Nesta povoação tinham propriedades o Mosteiro de Moreirola (926) e o benefício de S. Vicente de Bragança (927). Pertenceriam também a esta povoação as quintas a jusante de São Lázaro e a da D. Guilhermina Teixeira, perto da Ponte Nova, sobre o Sabor, na estrada a macadame? Castanheira, concelho de Bragança. Tinha aqui bens o Mosteiro de Castro de Avelãs (928). Castelãos. Possuíam aqui terras os cónegos de Miranda (929). Castrelos. Tinha aqui propriedades o Mosteiro de Castro de Avelãs (930). Castro de Avelãs. Tinham aqui propriedades os cónegos da Sé de Miranda (931). Castro Roupal. Tinha fazendas aqui a ordem do Hospital (932). Cernadela. Tinha aqui terras o Mosteiro de Moreirola (933). Chacim. Tinha aqui bens a ordem dos Templários (934). Cobro. Tinha aqui propriedades a ordem do Hospital (935). (919) Ibidem, p. 353. (920) Ibidem, p. 84. (921) Ibidem, p. 358. (922) Ibidem, tomo VII, p. 741. (923) Ibidem, tomo I, p. 369. (924) Ibidem, tomo VII, p. 741. (925) Ibidem, tomo VI, p. 50, 222, 684 a 686, 709 e 791; tomo VII, p. 774. (926) Ibidem, tomo III, p. 415. (927) Ibidem, tomo VII, p. 744. (928) Ibidem, tomo III, p. 54 e 79. (929) Ibidem, tomo I, p. 370. (930) Ibidem, tomo III, p. 84. (931) Ibidem, tomo I, p. 372. (932) Ibidem, tomo III, p. 347 e 352. (933) Ibidem, tomo IV, p. 26, 34, 35 e 36. (934) Ibidem, tomo III, p. 366 e 367. (935) Ibidem, p. 337.

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Coelhoso. Possuíam aqui terras o Mosteiro de Castro de Avelãs (936) e os Templários (937). Conlelas. Tinham bens aqui os cónegos de Miranda (938). Cortiços. Tinha propriedades o Mosteiro de Moreirola (939). Constantim. Idem, idem (940). Cova de Lua. Há um sítio do termo chamado Couto e naquele tinham propriedades os cónegos de Miranda (941) e o Colégio dos Jesuítas de Bragança (942). Dine. Tinha fazendas nesta povoação o Colégio dos Jesuítas de Bragança (943). Donai. Sítio do termo chamado Couto e naquele tinham propriedades os cónegos de Miranda (944), o Mosteiro de Castro de Avelãs (945) e o Colégio dos Jesuítas de Bragança (946). Edrosa. Possuíam aqui bens os cónegos de Miranda (947) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (948). Ervedosa. Possuíam aqui fazendas os cónegos de Miranda (949) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (950). Espadanedo. Possuíam aqui propriedades os cónegos de Miranda (951), o Mosteirio de Castro de Avelãs (952) e a ordem do Hospital (953). Especiosa. Havia aqui fazendas dos cónegos de Miranda (954).

(936) Ibidem, p. 84. (937) Ibidem, p. 314. (938) Ibidem, tomo I, p. 376. (939) Ibidem, tomo IV, p. 34, 35 e 36. (940) Ibidem, p. 9, 11, 14 e 16. (941) Ibidem, tomo I, p. 377. (942) Ibidem, tomo VII, p. 740. (943) Ibidem. (944) Ibidem, tomo I, p. 376. (945) Ibidem, tomo III, p. 84. (946) Ibidem, tomo VII, p. 741. (947) Ibidem, tomo I, p. 377. (948) Ibidem, tomo III, p. 84. (949) Ibidem, tomo I, p. 376. (950) Ibidem, tomo III, p. 68, 73, 79 e 84. (951) Ibidem, tomo I, p. 376. (952) Ibidem, tomo III, p. 84. (953) Ibidem, p. 329. (954) Ibidem, tomo I, p. 369.

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Espinhosela. Há sítio do termo chamado Couto e naquele tinha propriedades o Colégio dos Jesuítas de Bragança (955). Faílde. Tinha aqui terras o Mosteiro de Castro de Avelãs (956). Formil. Sítio do termo chamado Couto e naquele tinham bens os cónegos de Miranda (957). Fontes Barrosas. Sítio do termo chamado Coutada e naquele tinham propriedades os cónegos de Miranda (958) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (959). Fontes Transbaceiro. Há sítio do termo chamado Coutada e naquele tinha bens o Colégio dos Jesuítas de Bragança (960). Fermentãos. Tinha aqui terras o Mosteiro de Castro Avelãs (961) e a ordem do Hospital (962). Fradeição (963). Tinha aqui bens o Mosteiro de Castro de Avelãs (964). Fradizela. Há sítio do termo chamado Coutada e naquele tinha bens a ordem do Hospital (965). França. Há no termo um sítio chamado Couto e naquele tinha propriedades o Mosteiro de São Martinho da Castanheira (966). Freixedelo. Tinha aqui propriedades o Mosteiro de São Martinho da Castanheira (967). Freixo de Espada à Cinta. Tinha aqui propriedades a ordem do Hospital (968). Freixiel. Idem, idem (969). Fresulfe. Tinha aqui propriedades o Colégio dos Jesuítas de Bragança (970). Frieira. Tinham aqui fazendas os cónegos de Miranda (971) e os monges de Castro de Avelãs (972). (955) lbidem, tomo VII, p. 739. (956) Ibidem, tomo III, p. 58 e 84. (957) Ibidem, tomo I, p. 372. (958) Ibidem, p. 374. (959) Ibidem, tomo III, p. 84. (960) Ibidem, tomo VII, p. 740. (961) Ibidem, tomo III, p. 55 e 66. (962) Ibidem, p. 361. (963) Deve corresponder a Faílde. Ver tomo III, p. 332, destas Memórias. (964) Ibidem, tomo III, p. 58, destas Memórias. (965) Ibidem, tomo IV, p. 31. (966) Ibidem, tomo III, p. 271. VITERBO, Elucidário, artigo «Padeliças». (967) Ibidem, pág. 275, e tomo VII, p. 737. (968) Ibidem, tomo IV, p. 56. (969) Ibidem, tomo IV, p. 29 e 448. (970) Ibidem, p. 741. (971) Ibidem, tomo I, p. 369. (972) Ibidem, tomo III, p. 58, 63 e 79.

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Gimonde. Tinha bens aqui o Mosteiro de Moreirola (973). Gondesende. Sítio do termo chamado Couto e naquele tinham bens a ordem do Hospital (974) e o Colégio dos Jesuítas de Bragança (975). Gradíssimo. Tinham aqui bens os cónegos da Sé de Miranda (976). Gralhós. Tinha aqui fazendas a ordem do Hospital (977) e os Templários (978). Grandais. Possuíam aqui fazendas os cónegos da Sé de Miranda (979) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (980). Grijó de Parada. Possuíam aqui terras os cónegos da Sé de Miranda (981) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (982). Grijó de Vale Benfeito. Possuía aqui fazendas o Colégio dos Jesuítas de Bragança (983). Guadramil. Possuía aqui fazendas a ordem dos Templários (984). Guide. Possuíam aqui bens as corporações religiosas: cónegos de Miranda (985), Mosteiro de Castro de Avelãs (986) e ordem do Hospital (987). Gostei. Tinham aqui bens os cónegos da Sé de Miranda (988) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (989). Ifanes. Tinha aqui bens o Mosteiro de Moreirola (990). Izei, povoação morta no termo de Bragança correspondente hoje à Quinta de São Lourenço (991). Tinham ali propriedades: os cónegos da Sé de Miranda do Douro (992) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (993). (973) lbidem, p. 345. (974) Ibidem, p. 396. (975) Ibidem, tomo VII, p. 741. (976) Ibidem, tomo I, p. 370. (977) Ibidem, tomo III, p. 334. (978) Ibidem. (979) Ibidem, tomo I, p. 377. (980) Ibidem, tomo III, p. 58, 74 e 84. (981) Ibidem, tomo I, p. 370. (982) Ibidem, tomo III, p. 84. (983) Ibidem, tomo VII, p. 741. (984) Ibidem, tomo III, p. 314. (985) Ibidem, tomo I, p. 376. (986) Ibidem, tomo III, p. 84. (987) Ibidem, tomo IV, p. 30. (988) Ibidem, tomo I, p. 372. (989) Ibidem, tomo III, p. 54 e 79. (990) Ibidem, tomo IV, p. 8, 10, 13, 16, 17, 18 e 19. (991) Ibidem, tomo III, p. 58 e 414. (992) Ibidem, tomo I, p. 372. (993) Ibidem, tomo III, p. 58.

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Junqueira da Vilariça. Tinha aqui bens o Mosteiro do Bouro (994), a ordem do Hospital (995) e os Templários (996). Labiados. Há sítio do termo chamado Couto e naquele tinham bens os cónegos da Sé de Miranda (997). Lagarelhos. Tinha aqui fazendas o Colégio dos Jesuítas de Bragança (998). Lagoa. Tinha aqui bens o benefício de São Vicente de Bragança (999). Lagomar. Há sítio do termo chamado Coutada e naquele tinham propriedades os cónegos da Sé de Miranda (1000) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (1001). Lamas de Podence. Tinham aqui bens os cónegos da Sé de Miranda (1002) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (1003). Lanção. Havia aqui bens dos cónegos da Sé de Miranda (1004). Leiras (1005), povoação morta entre o termo de Parada de Infanções e o de Paredes. Tinha aqui bens o Mosteiro de Castro de Avelãs (1006). Linhares. Povoação morta no concelho de Bragança. Tinha lá propriedades o Mosteiro de Moreirola (1007) e o de São Martinho da Castanheira (1008). Lodões. Tinha aqui fazendas a ordem do Hospital (1009). Maçãs. Há sítio do termo chamado Coutada e naquele tinham propriedades o Colégio dos Jesuítas de Bragança (1010) e as Oblatas do Menino Jesus da Mofreita, dissolvidas em 1910 pelo governo da República. Macedo do Mato. Tinha aqui fazendas o Mosteiro do Bouro (1011). (994) Ibidem, tomo IV, p. 78. (995) Ibidem. (996) Ibidem. (997) Ibidem, tomo I, p. 374. (998) Ibidem, tomo VII, p. 741. (999) Ibidem, p. 744. (1000) Ibidem, tomo I, p. 377. (1001) Ibidem, tomo III, p. 84. (1002) Ibidem, tomo I, p. 369. (1003) Ibidem, tomo III, p. 84. (1004) Ibidem, tomo I, p. 370. (1005) Ibidem, tomo III, p. 61, 340 e 343. (1006) Ibidem, p. 61. (1007) Ibidem, tomo III, p. 309 e 310. (1008) Ibidem, p. 306, 307 e 309. (1009) Ibidem, tomo IV, p. 75 e 76. (1010) Ibidem, tomo VII, p. 740. (1011) Ibidem, tomo III, p. 349, e tomo IV, p. 28, 36 e 74.

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Malhadas. Tinham bens aqui as corporações religiosas seguintes: cónegos da Sé de Miranda (1012), Mosteiro de Moreirola (1013) e Freires de Alcanices (Templários) (1014). Malta (1015). Tinham aqui bens a ordem do Hospital (1016) e os Templários (1017). Marmelos. Possuía aqui terras a ordem do Hospital (1018). Martim. Tinha aqui bens o Mosteiro de Monte de Rama (1019). Este Mosteiro aparece nas Inquirições de D. Afonso III com o nome de Ledães «qui est cedones suus locus» (1020). Mascarenhas. Há sítio do termo chamado Coutada e naquele tinha bens o Mosteiro de São Pedro de Águias (1022). Meixede. Tinham aqui bens as corporações religiosas seguintes: cónegos da Sé de Miranda (1022), Mosteiro de São Martinho da Castanheira (1023) e benefício de São Vicenté de Bragança (1024). Milhão. Havia aqui fazendas dos cónegos da Sé de Miranda (1025) e do Mosteiro de Castro de Avelãs (1026). Miranda do Douro. Possuíam aqui bens os cónegos da Sé (1027). Mofreita. Possuíam aqui fazendas o Colégio dos Jesuítas de Bragança (1028) e as Oblatas do Menino Jesus, dissolvidas em 1910 pelo Governo da República. Mogadouro. Toda a terra do Mogadouro, Penas Roias e Algoso era dos Templários, Malta e Mosteiro de Moreirola (1029). (1012) Ibidem, tomo I, p. 368. (1013) Ibidem, tomo IV, p. 13. (1014) Ibidem, p. 15 e 19. (1015) Esta povoação era antigamente, no tempo das Inquirições de D. Afonso III, chamada São Cristóvão, nome depois mudado em Malta, devido aos bens que esta ordem ali tinha. (1016) Ibidem, tomo III, p. 367 e 446. (1017) Ibidem, p. 367. (1018) Ibidem, tomo III, p. 337. (1019) Ibidem, p. 391. (1020) Ibidem, tomo IV, p. 48. (1021) Ibidem, p. 33. (1022) Ibidem, tomo I, p. 377. (1023) Ibidem, tomo VII, p. 737. (1024) Ibidem, p. 744. (1025) Ibidem, tomo I, p. 374. (1026) Ibidem, tomo II, p. 54 e 84. (1027) Ibidem, tomo I, p. 367. (1028) Ibidem, tomo VII, p. 740. (1029) Ibidem, tomo IV, p. 8. Sobre o particular dos Templários, ver tomo IV, p. 53, destas Memórias.

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Moimenta. Tinham aqui fazendas os Freires de Uclés (1030). Montesinhos. Freguesia de Coelhoso. Tinha aqui propriedades o Mosteiro de Moreirola (1031). Morais. Tinham aqui bens a ordem do Hospital (1032) e os Templários (1033). Mós de Rebordãos. Tinham aqui fazendas os Arcebispos de Braga (1034). Mós de Celas. Possuíam aqui bens os seguintes: Arcebispos de Braga (1035), cónegos da Sé de Miranda (1036) e Mosteiro de Castro de Avelãs (1037). Negreda. Havia fazendas aqui dos cónegos da Sé de Miranda (1038) e do Mosteiro de Castro de Avelãs (1039). Nogueira (São Pelágio). Havia aqui bens dos seguintes: Arcebispos de Braga (1040), cónegos de Miranda (1041), Mosteiro de Castro de Avelãs (1042), ordem do Hospital (1043) e benefício de São Vicente de Bragança (1044). Nunes. Tinham aqui bens os cónegos da Sé de Miranda (1045) e Mosteiro de Monte de Rama, que também aparece nas Inquirições com o nome de Mosteiro de Cedães «quia est cedones suus locus» (1046). Nuzedo. Havia aqui bens dos seguintes: Arcebispos de Braga (1047), ordem do Hospital (Nuzedo de Baixo) (1048), Mosteiro do Monte de Rama (Nuzedo de Baixo) (1049), Mosteiro de São João da Junqueira (Nuzedo Trespassante) (1050). Nuzedo Trespassante é hoje chamado Nuzedo de Cima e pertence à freguesia de Tuizelo; Nuzedo de Sub-Castelo chama-se hoje Nuzedo de Baixo e pertence à freguesia de Vale das Fontes. A julgar pelo (1030) Ibidem, tomo III, p. 409, e tomo IV, p. 41. (1031) lbidem, tomo III, p. 125, 396 e 402. (1032) Ibidem, p. 333 e 363. (1033) Ibidem. (1034) Ibidem, p. 377. (1035) Ibidem, p. 385. (1036) Ibidem, tomo I, p. 377. (1037) Ibidem, tomo III, p. 84. (1038) Ibidem, tomo I, p. 376. (1039) Ibidem, tomo III, p. 58 e 84. (1040) Ibidem, p. 61. (1041) Ibidem, tomo I, p. 372. (1042) Ibidem, tomo III, p. 58. (1043) Ibidem, p. 388. (1044) Ibidem, tomo VII, p. 744. (1045) Ibidem, tomo III, p. 353. (1046) Ibidem, tomo IV, p. 50. (1047) Ibidem, p. 47, 48 e 52. (1048) Ibidem, p. 50 e 52. (1049) Ibidem, tomo I, p. 367. (1050) Ibidem, tomo III, p. 381.

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que se diz no tomo IV, p. 48, destas Memórias, parece que a expressão Sub-Castelo se refere ao de Vinhais. Oleirinhos do Sabor. Possuíam aqui bens os cónegos da Sé de Miranda (1051). Oleiros. Sítio chamado Coutada e naquele tinham bens: o Mosteiro de Castro de Avelãs (1052), a ordem do Hospital (1053) e o Colégio dos Jesuítas de Bragança (1054). Ousilhão. Possuíam aqui bens os cónegos da Sé de Miranda (1055). Outeiro. Havia aqui bens dos cónegos da Sé de Miranda (1056) e do Mosteiro de Castro de Avelãs (1057). Ozeive [Zeive]. Sítio do termo chamado Couto e naquele tinha bens o Colégio dos Jesuítas de Bragança (1058). Paçó (de Outeiro?). Tinham aqui fazendas: Arcebispos de Braga (1059), cónegos de Miranda (1060) e Mosteiro de Castro de Avelãs (1061). Paçó de Sortes. Tinha aqui fazendas o benefício de São Vicente de Bragança (1062). Paçó de Vinhais. Tinha aqui fazendas o Colégio dos Jesuítas de Bragança (1063). Palácios. Havia aqui propriedades dos cónegos de Miranda (1064). Palaçoulo. Havia aqui bens do Mosteiro de Moreirola (1065). Parada de Infanções. Havia aqui fazendas dos Arcebispos de Braga (1066), do Mosteiro de Moreirola (1067), dos Templários (1068) e da ordem do Hospital (1069). (1051) Ibidem, tomo I, p. 377. (1052) Ibidem, tomo III, p. 94. (1053) Ibidem, p. 399. (1054) Ibidem, tomo III, p. 741. (1055) Ibidem, tomo I, p. 367. (1056) Ibidem, p. 376. (1057) Ibidem, tomo III, p. 84. (1058) Ibidem, tomo VII, p. 741. (1059) Ibidem, tomo III, p. 355. (1960) Ibidem, tomo I, p. 376. (1061) Ibidem, tomo III, p. 58,72 e 84. (1062) Ibidem, tomo VII, p. 744. (1063) Ibidem, p. 741. (1064) Ibidem, tomo I, p. 375. (10659 Ibidem, tomo IV, p. 9, 11, 14 e 16. (1066) Ibidem, tomo III, p. 61. (1067) Ibidem, p. 314. (1068) Ibidem, p. 327 e 339. (1069) Ibidem, p. 343.

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Paradela (concelho de Miranda). Havia aqui fazendas dos Arcebispos de Braga (1070). Paradinha Nova. Possuíam aqui fazendas os cónegos da Sé de Miranda (1071) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (1072). Paradinha de Outeiro. Tinham aqui propriedades os cónegos da Sé de Miranda (1073) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (1074). Paradinha Velha. Tinham aqui fazendas os cónegos da Sé de Miranda (1075) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (1076). Parâmio. Tinha propriedades no termo deste povo o Colégio dos Jesuítas de Bragança (1077). Paredes. Possuía propriedades no termo desta povoação a ordem dos Templários (1078). Penas Roias. Toda a Terra de Penas Roias, Algoso e Mogadouro era dos Templários, Malta e Mosteiro de Moreirola (1079). Pereira. Perto de Rebordãos. Tinham aqui bens os Arcebispos de Braga (1080). Pinela. Há um sítio do termo chamado Couto e naquele tinham propriedades a ordem do Hospital (1081) e o Mosteiro de Moreirola (1082). Pinelo (concelho do Vimioso). Possuíam no seu termo propriedades os cónegos da Sé de Miranda (1083) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (1084). Pinhovelo. Havia no seu termo fazendas dos Arcebispos de Braga (1085). Póvoa (concelho de Miranda). Havia no seu termo fazendas dos cónegos da Sé de Miranda (1086). (1070) Ibidem, tomo IV, p. 10 e 17. (1071) Ibidem, tomo I, p. 370. (1072) Ibidem, tomo III, p. 84. (1073) Ibidem, tomo I, p. 376. (1074) Ibidem, tomo III, p. 58 e 84. (1075) Ibidem, tomo I, p. 370. (1076) Ibidem, tomo III, p. 84. (1077) Ibidem, tomo VII, p. 739. (1078) Ibidem, tomo III, p. 342. (1079) Ibidem, tomo IV, p. 8. Sobre o particular dos Templários, ver p. 21, 54 e 55 do mesmo tomo. (1080) Ibidem, tomo III, p. 387. (1081) Ibidem, p. 314, 344 e 346. (1882) Ibidem, p. 314, 323, 340, 344, 346 e 369. (1083) Ibidem, tomo I, p. 376. (1084) Ibidem, tomo III, p. 49, 58 e 66. (1085) Ibidem, tomo III, p. 353. (1086) Ibidem, tomo I, p. 369.

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Quintanilha. Havia no seu termo propriedades dos cónegos da Sé de Miranda (1087) e do Mosteiro de Moreirola (1088). Quintas (concelho de Mirandela). Tinham no seu termo bens os Arcebispos de Braga (1089). Quintela de Lampaças. Sítio do termo chamado Coutada e naquele possuía propriedades o Colégio dos Jesuítas de Bragança (1090). Rabal. No seu termo possuíam fazendas as seguintes corporações religiosas: cónegos da Sé de Miranda (1091), Mosteiro de Castro de Avelãs (1092), Mosteiro de São Martinho da Castanheira (1093) e benefício de São Vicente de Bragança (1094). Rebordaínhos. Possuíam fazendas no seu termo: Arcebispos de Braga (1095), Mosteiro de Castro de Avelãs (1096) e ordem do Hospital (1097). Rebordãos. Tinham no seu termo bens o Mosteiro de Castro de Avelãs (1098) e a ordem do Hospital (1099). Ver o artigo Pereira. Rebordelo. Tinha no seu termo propriedades a ordem do Hospital (1100). Refega. Tinham terras no seu termo os cónegos da Sé de Miranda (1101) e os Templários (1102). Rica Fé. Importante quinta no termo da cidade de Bragança. Pertenceu aos jesuítas do Colégio da mesma cidade, bem como o moinho no rio Sabor, junto a ela, ainda hoje conhecido por Moinho dos Padres. Foram os jesuítas que mandaram construir a ponte contígua a este moinho, de grande utilidade pública (1103). Rio de Fornos. Tinha fazendas no seu termo o Colégio dos Jesuítas de Bragança (1104). (1087) Ibidem, p. 375. (1088) Ibidem, tomo III, p. 125, 305, 309, 310, 339 e 403, e tomo IV, p. 21. (1089) Ibidem, tomo IV, p. 31. (1090) Ibidem, tomo VII, p. 741. (1091) Ibidem, tomo I, p. 377. (1092) Ibidem, tomo III, p. 84. (1093) Ibidem, p. 275, e tomo VII, p. 737. (1094) Ibidem, tomo VII, p. 744. (1095) Ibidem, tomo III, p. 61 e 360. (1096) Ibidem, p. 84. (1097) Ibidem, p. 330 e 360. (1098) Ibidem, tomo III, p. 55 e 66. (1099) Ibidem, p. 386. (1100) Ibidem, tomo IV, p. 15. (1101) Ibidem, tomo I, p. 375. (1102) Ibidem, tomo IV, p. 10, 11 e 16. (1103) Ibidem, tomo II, p. 330. (1104) Ibidem, tomo VII, p. 741.

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Rio Frio de Carragosa. Idem, idem (1105). Rio Frio de Outeiro. Tinham no seu termo bens o Mosteiro de Castro de Avelãs (1106) e os cónegos da Sé de Miranda (1107). Rio Maçanas. Hoje em Espanha, fronteiriça a Deilão, na margem do rio Maçãs, onde tinha propriedades a ordem dos Templários (1108). Rio de Onor. Há um sítio no termo chamado Couto e naquele tinham propriedades os Freires de Uclés (1109). Romeu. Havia no seu termo propriedades da ordem do Hospital (1110). Salselas. Tinham propriedades no seu termo os seguintes: cónegos da Sé de Miranda (1111), Mosteiro de Castro de Avelãs (1112) e ordem do Hospital (1113). Sacoias. Há um sítio no termo chamado Couto e naquele tinha propriedades o benefício de São Vicente de Bragança (1114). Samil. Possuíam propriedades no seu termo: os cónegos da Sé de Miranda (1115), o Mosteiro de Castro de Avelãs (1116) e o beneficiado de São Vicente de Bragança (1117). Samões. Possuía bens no seu termo a ordem do Hospital (1118). Santa Comba de Roças. Tinham bens no termo deste povo: os cónegos da Sé de Miranda (1119), o Mosteiro de Castro de Avelãs (1120) e os Templários (1121). Santa Comba da Vilariça. Tinha bens no termo desta povoação o Mosteiro do Bouro (1122). (1105) Ibidem, p. 740. (1106) Ibidem, tomo III, p. 48, 58, 64 e 48. (1107) Ibidem, tomo I, p. 375. (1108) Ibidem, tomo III, p. 412. (1109) Ibidem. (1110) Ibidem, tomo IV, p. 38. (1111) Ibidem, tomo I, p. 370. (1112) Ibidem, tomo III, p. 84. (1113) Ibidem, p. 323 e 356. (1114) Ibidem, tomo VII, p. 744. (1115) Ibidem, tomo I, p. 371. (1116) Ibidem, tomo III, p. 58 e 84. (1117) Ibidem, tomo VII, p. 744. (1118) Ibidem, tomo IV, p. 72. (1119) Ibidem, tomo I, p. 370. (1120) Ibidem, tomo III, p. 84. (1121) Ibidem, p. 320 e 376. (1122) Ibidem, tomo IV, p. 74.

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Santa Cruz (concelho de Vinhais). Tinha aqui propriedades o Colégio dos Jesuítas de Bragança (1123). Santa Cruz da Vilariça (povoação extinta). Possuía aqui propriedades o Mosteiro do Bouro (1124). A ordem de Santo António tinha propriedades no Vale da Vilariça (1125) e também a do Hospital (1126). Santa Engrácia. Tinha bens o Mosteiro de Castro de Avelãs (1127). Santulhão. Tinham bens no termo deste povo os cónegos da Sé de Miranda (1128) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (1129). São Cipriano. Possuía aqui bens o Mosteiro de Castro de Avelãs (1130). São Julião. Possuíam terras no termo deste povo os cónegos da Sé de Miranda (1131). São Mamede. Povoação morta no termo de Santulhão. Tinha bens o Mosteiro de Castro de Avelãs (1132). São Martinho de Angueira. Tinha fazendas no termo deste povo o Mosteiro de São Martinho da Castanheira (1133). São Martinho da Ribeira (concelho de Miranda). Tinha aqui fazendas o Mosteiro de São Martinho da Castanheira (1134). São Pedro de Serracenos. Tinham aqui bens os cónegos da Sé de Miranda (1135), a ordem do Hospital (1136) e os Templários (1137). São Pedro Velho. Possuía aqui fazendas a ordem do Hospital (1138). São Pelaio (concelho de Miranda). Possuíam aqui fazendas os cónegos da Sé Miranda (1139). (1123) Ibidem, tomo VII, p. 741. (1124) Ibidem, tomo IV, p. 71, 75 e 78. (1125) Ibidem, p. 72 e 77. (1126) Ibidem, p. 72 e 75. (1127) Ibidem, tomo III, p. 58. (1128) Ibidem, tomo I, p. 376. (1129) Ibidem, tomo III, p. 49 e 58. (1130) Ibidem, p. 58. (1131) Ibidem, tomo I, p. 375. (1132) Ibidem, tomo III, p. 49. (1133) Ibidem, p. 270 e 274, e tomo IV, p. 10 e 368. VITERBO – Elucidário, artigo «Padeliças». (1134) Ibidem, tomo IV, p. 13 e 16. (1135) Ibidem, tomo I, p. 371. (1136) lbidem, tomo I, p. 315. (1137) Ibidem. (1138) Ibidem, tomo IV, p. 31. (1139) Ibidem, tomo I, p. 367.

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Sanceriz. Possuíam bens no termo deste povo os cónegos da Sé de Miranda (1140) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (1141). Sarzeda. Tinham aqui fazendas os cónegos da Sé de Miranda (1142) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (1143). Selas [Celas]. Tinham aqui fazendas os cónegos da Sé de Miranda (1144) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (1145). Serapicos (concelho de Miranda). Tinha bens no termo deste povo a ordem dos Templários (1146). Sesulfe. Há sítio no termo chamado Lameira da Coutada e naquele tinham propriedades os Arcebispos de Braga (1147) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (1148). Soeira. Possuía fazendas no termo deste povo o benefício de São Vicente de Bragança (1149). Sortes. Possuíam bens no termo deste povo os cónegos da Sé de Miranda (1150) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (1151). Soutelo (concelho de Vinhais). Possuíam aqui bens os Arcebispos de Braga (1152). Soutelo da Gamoeda. Há sítio chamado Couto e tinham ali propriedades a ordem de Moreirola (1153) e o benefício de São Vicente de Bragança (1154). Ignoramos se é a este Soutelo se ao Soutelo Mourisco que o documento se refere. Também em Soutelo da Gamoeda tinha bens o Colégio dos Jesuítas de Bragança (1155). Soutelo Mourisco (São Miguel). Tinha aqui fazendas o Mosteiro de Castro de Avelãs (1156). Suçães. Tinha aqui fazendas a ordem do Hospital (1157). (1140) Ibidem, tomo I, p. 369. (1141) Ibidem, tomo III, p. 55 e 66. (1142) Ibidem, tomo I, p. 370. (1143) Ibidem, tomo III, p. 58. (1144) Ibidem, tomo I, p. 376. (1145) Ibidem, tomo III, p. 84. (1146) Ibidem, tomo IV, p. 55. (1147) Ibidem, tomo III, p. 60. (1148) Ibidem, p. 84. (1149) Ibidem, tomo VII, p. 744. (1150) Ibidem, tomo I, p. 370. (1151) Ibidem, p. 81. (1152) Ibidem, tomo III, p. 392. (1153) Ibidem, p. 322, 404 e 405. (1154) Ibidem, tomo VII, p. 744. (1155) Ibidem, p. 740. (1156) Ibidem, tomo III, p. 58. (1157) Ibidem, tomo IV, p. 24.

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Teixedo. Povoação morta no termo de Pombares. Tinha aqui fazendas a ordem do Hospital (1158). Torre de Dona Chama. Tinham aqui bens os cónegos de Miranda (1159). Terroso. Tinham fazendas no seu termo os jesuítas do Colégio de Bragança (1160). Travanca (concelho de Macedo de Cavaleiros). Tinham bens no seu termo os Arcebispos de Braga (1161). Vale Benfeito. Tinha bens no seu termo o Mosteiro de Moreirola (1162). Vale de Prados, o Grande (concelho de Macedo). Tinham bens e tinha propriedades o benefício de São Vicente de Bragança (1163). Vale de Pena. Tinham fazendas no seu termo os cónegos da Sé de Miranda (1164). Vale de Prados, o Grande (concelho de Macedo). Tinham bens no seu termo os cónegos da Sé de Miranda (1165), o Mosteiro de Castro de Avelãs (1166) e o Hospital (1167). Vale de Prados e Vilar (freguesia de Milhão, concelho de Bragança). Tinham bens no seu termo os cónegos da Sé de Miranda (1168) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (1169). Valongo (freguesia de Espadanedo). Tinham no seu termo bens os cónegos da Sé de Miranda (1170). Valverde. Tinha fazendas no seu termo o Mosteiro de Castro de Avelãs (1171). Varge. Há sítio no termo chamado Couto e naquele tinha propriedades o Mosteiro de São Martinho da Castanheira (1172). Viduedo. Tinham fazendas no termo deste povo os cónegos da Sé de Miranda (1173) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (1174). (1158) Ibidem, tomo III, p. 331, 364 e 873. (1159) Ibidem, tomo I, p. 376. (1160) Ibidem, tomo VII, p. 739. (1161) Ibidem, tomo III, p. 61 e 353. (1162) Ibidem, p. 324. (1163) Ibidem, tomo VII, p. 744. (1164) Ibidem, tomo I, p. 376. (1165) Ibidem, p. 370. (1166) Ibidem, tomo III, p. 58, 79 e 84. (1167) Ibidem, tomo IV, p. 385. (1168) Ibidem, tomo I, p. 375. (1169) Ibidem, tomo III, p. 52. (1170) Ibidem, tomo I, p. 376. (1171) Ibidem, tomo III, p. 55 e 56. (1172) Ibidem, tomo VII, p. 736. (1173) Ibidem, tomo I, p. 370. (1174) Ibidem, tomo III, p. 84.

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Vila Boa de Ousilhão. Há sítio chamado Couto e tinham nele propriedades os cónegos da Sé de Miranda (1175) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (1176). Vila Chã de Braciosa. Tinham bens no seu termo a ordem do Hospital (1177) , os Templários (1178) e o Mosteiro de Moreirola (1179). Vila Franca de Lampaças. Tinham bens no termo deste povo os cónegos da Sé de Miranda (1180) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (1181). Vila Meão. Tinham propriedades no termo desta povoação o Mosteiro de Moreirola (1182) e o de São Martinho da Castanheira (1183). Vila Nova (concelho de Bragança). Tinha aqui fazendas o Mosteiro de Castro de Avelãs (1184). Vila Nova (concelho de Mirandela). Tinha aqui fazendas o Mosteiro de Refóios (1185). Vila Verde (concelho de Mirandela). Tinha aqui fazendas o Mosteiro do Bouro (1186). Vilar do Monte (concelho de Macedo de Cavaleiros). Tinham aqui os jesuítas do Colégio de Bragança uma importante quinta, hoje pertencente à família Pimentel (1187). Vilar de Ossos. Tinham fazendas no termo deste povo a ordem do Hospital (1188) e o Mosteiro de S. Martinho da Castanheira (1189). Vilarinho (Concelho de Macedo). Tinha aqui propriedades a ordem do Hospital (1190). Vilarinho da Castanheira (concelho de Carrazeda de Ansiães). Há sítio chamado Couto e nele tinha propriedades o Mosteiro do Bouro (1191). (1175) Ibidem, tomo I, p. 367. (1176) Ibidem, tomo III, p. 84. (1177) Ibidem, tomo IV, p. 12. (1178) Ibidem, p. 9, 12 e 15. (1179) Ibidem, p. 15. (1180) Ibidem, tomo I, p. 369. (1181) Ibidem, tomo III, p. 55, 66, 68, 79 e 84. (1182) Ibidem, p. 309. (1183) Ibidem, p. 264, 268, 271, 276, 309, 310, 328 e 407, tomo VII, p. 738. (1184) Ibidem, tomo III, p. 55 e 56. (1185) Ibidem, tomo IV, p. 38. (1186) Ibidem, tomo III, p. 338. (1187) Ibidem, tomo II, p. 331, onde se apontam outras propriedades e rendas pertencentes aos mesmos jesuítas. (1188) Ibidem, tomo IV, p. 42. (1189) Ibidem, tomo III, p. 263. (1190) Ibidem, tomo IV, p. 385. (1191) Ibidem, tomo III, p. 70.

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Vilarinho de Cova de Lua. Tinha aqui fazendas o Colégio dos Jesuítas de Bragança (1192). Vinhas. Há sítio do termo chamado Couto e naquele tinha propriedades a ordem do Hospital (1193). Vinhais. Sítio do termo chamado Coutada e nele tinham fazendas os cónegos da Sé de Miranda (1194), a ordem do Hospital (1195) e o Mosteiro de Rosavales (1196). Veigas (freguesia de Quintanilha). Tinham aqui fazendas os cónegos da Sé de Miranda (1197). Zoio. Há sítio chamado Couto no seu termo e neste tinham propriedades os cónegos da Sé de Miranda (1198) e o Mosteiro de Castro de Avelãs (1199). Além dos sítios de termo denominados Couto ou Coutada (1200), correspondentes às povoações atrás citadas, conhecemos mais nos termos das povoações seguintes, que provavelmente pertenceram a igrejas de que não tomámos nota, mas que devem encontrar-se no texto dos volumes destas Memórias: Abambres (Coutada). Bouça (idem). Candedo (Couto e Coutada). Freixeda, Bragança (Coutada). Gouveia (idem). Montesinho, freguesia de França (idem). Montouto (Couto). Mosteiró (Coutada). Nabo (Couto). Passos, Mirandela (idem). Podence (Coutada). Pousadas (idem).

(1192) Ibidem, tomo VII, p. 740. (1193) Ibidem, tomo III, p. 335. (1194) Ibidem, tomo I, p. 367. (1195) Ibidem, tomo IV, p. 40. (1196) Ibidem. (1197) Ibidem, tomo I, p. 375. (1198) Ibidem, p. 377. (1199) Ibidem, tomo III, p. 84. (1200) O povo diz Coito e Coitada.

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Quadra (Couto). Refoios (idem). Romariz (idem). Sabariz (idem). Salsas (Coutada). Serapicos (idem). Tuizelo (idem). Urrós (idem). Valbom, Mirandela (Couto e Coutada). Vale Pereiro, Alfândega (Coutada). Valverde, Mogadouro (Couto). Vilar Seco de Lomba (Coutada). Vilares da Torre (idem). Zido (Couto). Sou contra a grande propriedade da Igreja, embora lhe julgue indispensável, necessária mesmo, a pequena que, além do mais, pode servir de escola agrícola local pelo exemplo, mas quero-a sujeita aos encargos fiscais como a dos outros cidadãos e de fácil transacção, sem peias de excomunhões para quem a compra, porque assim o exige a equidade e a economia social. Sou contra o frade padrenosseiro e beato, que quer tudo reduzido à igreja, exercícios espirituais, sufrágios e respectiva paga. Mas não posso deixar de admirar a Igreja medieval, o padre medievo, que, num ritmo sublime de equilíbrio, arroteou campos, desbravou maninhos, povoou desertos (1201); construiu pontes (1202), estradas e calçadas; fundou hospitais, asilos, orfanatos pios, maternidades, gafarias (1203), montepios (1204), associações cooperativistas; ergueu soberbos monumentos românicos e góticos, onde deixou o recheio que hoje enche de orgulho os museus

(1201) Adiante se apontam várias aldeias povoadas pelas ordens religiosas no distrito de Bragança, objecto restrito dos nossos estudos. (1202) Entre nós a Ponte dos Padres sobre o Sabor. Ver tomo VII, p. 776, destas Memórias. (1203) Ver tomo III, p. 336; tomo IV, p. 33, 58 e 80, onde se diz da ponte do Rio Mente, e da Albergaria junto à mesma, pertencente ao termo de Lamas de Orelhão, mandadas fazer a um frade, por el rei D. Sancho pro anima de ipso rege. No mesmo tomo, p. 673, trata-se do hospital de Caçarelhos. Na nossa monografia Moncorvo, p. 21, separata da Ilustração Trasmontana (1910), falamos da Capela do Espírito Santo com hospital para passageiros pobres, fundado em Moncorvo. (1204) Ver tomo IV, p. 335, 338, 342, 347; tomo VII, p. 768, artigo Monte da Piedade, p. 770, artigo Nogueira, p. 790, artigo Rocha, destas Memórias, onde se encontram disposições testamentárias e piedosas que conservam a tradição da esmola e da obra social equiparada aos sufrágios religiosos.

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mundiais, fornecendo-lhes as peças de maior valor, embora muitas vezes apareçam cobertas de pó, sendo preciso gastar muito sabão e potassa para as lavar, pois assim é que escaparam à voracidade avara e à estupidez iconoclasta. Salve crença medieva, em que os teus ministros, sensatamente equilibrados, irmanando com o povo no mesmo ideal cívico (1205) e religioso, empunharam numa mão o Breviário e noutra a pena e o alvião civilizadores! Depois, na idade seguinte, ainda se manteve, em parte, o mesmo espírito, mas brevemente surdiu a sizania padrenosseira, misseira, e beata, com seus longos exercícios e longas orações, tipo farisaico, em paga das quais julgava pequenos todos os réditos, eivada, de mais a mais, pelo preconceito fidalgáceo, que considera o trabalho como anti-nobre, e com ela a desinteligência social sempre em progressão crescente, porque nem tudo é alma, nem tudo matéria; nem tudo espírito, nem tudo corpo, nem tudo há-de ser oração, nem tudo buscar pão. Andam para aí a moer-nos a paciência com a entrega de certos maninhos ao regime florestal, com o arroteamento de outros para trigais, com as questões do proletariado, urbanismo, absentismo, emigração, desemprego e o mais dessa enorme falange que há-de estilhaçar a vigente organização social para a reconstruir noutras bases, e não querem ver que o ódio ao frade padrenosseiro e à corrente religiosa resultante, foram mais longe do que deviam ir, cortando a árvore pela raiz em vez de lhe limparem apenas os rebentos podres e os privilégios e abusos de ordem social. Não querem ver que o arroteamento sem critério de certos matos, aparentemente sem valor, a desamortização dos baldios, se aumentou os réditos do fisco, depauperou a própria cultura frumentária pela falta de estrumes e pelo rápido esgotamento das terras fracas; a pecuária, pela carência de pastos; o património do pobre, que, não tendo agora onde trabalhar, deserta e se lança no urbanismo, no radicalismo socialista à cata dos meios de manter a vida. Depauperou a higiene, as condições higrométricas fertilizantes do campo, as belezas naturais que o tornavam atraente e faziam amar. Como o bom senso da Igreja e do padre medievos trouxeram a todos estes problemas uma solução admirável, pela organização dos seus coutos,

(1205) No tomo IV, p. 478 a 505, 530 a 553, 564, 575 a 577 e 604, destas Memórias, publicámos muitos documentos referentes ao patriotismo do clero, quotizando-se, fornecendo dinheiros, pegando mesmo em armas para as despesas de guerra, defesa do país e colónias – Baía, Pernambuco e Rio Grande –, promovendo o levantamento do espírito nacional por meio da ideia religiosa e dando aposentações aos soldados inutilizados. Da mesma forma publicámos vários outros, relativos ao fomento das coisas agrárias, sericícolas, beneficentes e obras sociais.

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mais tarde convertidos em baldios pelo governo constitucional, solução de grande alcance logo estragada pela divisão interesseira destes, em ordem ao acréscimo dos réditos fiscais. Por couto se entende, quase sempre – segundo diz Herculano (1206) – terra de igreja ou de pessoas, ordens monástico-militares, etc. Fica atrás apontada a lista das povoações onde ainda persevera o toponímico couto, devendo supor-se que outros desapareceram substituídos por nomes diferentes ou não tivemos deles conhecimento. Além de outras aldeias do distrito de Bragança, povoadas pelas ordens religiosas, como consta das Inquirições, apontamos as seguintes: Constantim, povoado pelo Mosteiro de Moreirola (1207). Ifanes, idem pelos Freires de Alcanices (Templários) (1208). Palaçoulo, idem pelo Mosteiro de Moreirola (1209). Refega, idem pelos Freires de Alcanices (Templários) (1210). Santa Engrácia (Vinhais), idem pelo Mosteiro de Castro de Avelãs (1211). Santulhão, idem, idem (1212). São João de Riba Douro, idem pelos Freires de Alcanices (Templários) (1213). São Martinho de Angueira, idem pelo Mosteiro de São Martinho da Castanheira (1214). Vale de Frades, idem pelos Freires de Alcanices (Templários) (1215). Sobre os muitos forais dados pelo Mosteiro de Castro de Avelãs a várias aldeias, ver o tomo III destas Memórias, onde os publicámos. É certo que povoar, na documentação foralenga medieval, nem sempre tem o significado que hoje lhe ligamos, isto é, o fundar inicialmente a povoação; mas, quando não corresponde rigorosamente a isto, aproxima-se-lhe pelo incremento e vitalidade que lhe deram.

(1206) HERCULANO, Alexandre – História de Portugal, livro 4, p. 166, e livro 8, parte 3a, p. 404. Ver também VITERBO – Elucidário, artigo «Couto». ROCHA, M. A. Coelho da – Ensaio sobre a história do governo e da legislação de Portugal, § 81. Livro 2° das Ordenações, título 48. Sobre limites dos antigos coutados reais, ver as Ordenações de D. Afonso V, cap. 68, e o Livro Vermelho do mesmo rei, in Livro da Montaria feito por D. João I, rei de Portugal, edição de Francisco Maria Esteves Pereira, Coimbra, 1918, p. 439 e seg. (1207) Ver tomo IV, p. 9, 11 e 15, destas Memórias. (1208) Ibidem, p. 8, 9 e 10. (1209) Ibidem, p. 9 e 11. (1210) Ibidem. (1211) Ibidem, p. 47 e 75. (1212) Ibidem, p. 11. (1213) Ibidem, p. 55. (1214) Ibidem, p. 10. (1215) Ibidem, p. 55.

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Existem ainda no distrito de Bragança abundantes documentos do elevado critério com que o frade (englobo neste nome a Igreja sob as formas de ordens monástico-congregranistas, monástico-militares, como ordem dos Templários, de Malta, Avis, Santiago, Cristo, etc., e igrejas, cabeças de freguesia ou não) compreendeu a cultura agrária, exemplificados principalmente nos restos escapados à estúpida voragem arboricida do povo, à raposice avara do fisco, sequioso da desamortização dos baldios e à estultícia dos cientistas desequilibrados, que não querem ver como a economia agrícola resulta de multíplices factores que devem marchar equilibradamente, pois nem só de pão vive o homem; de onde a necessidade de não arruinar umas culturas em detrimento de outras. Felizmente, hoje vai-se reconhecendo a necessidade de regressarmos ao regime florestal que o frade viu e praticou muito a tempo, sem se dar ares do luxo científico que a palavra inculca presentemente, porque na árvore está o futuro da agricultura; a caixa económica dos terrenos fracos, inúteis como produtores cerealíferos, inesgotáveis porém quando a mata os embeleza e fertiliza (1216). Deixemos Sintra, Buçaco, Santa Cruz de Coimbra e outras matas encantadoras de fradesca memória e olhemos para os imponentes restos dos bragançanos legados pelo frade e vandalizados estupidamente pela nossa demência arboricida. Nos sítios chamados Couto e Coutada de Aveleda, Cova de Lua, Donai, França, Labiados, Lagomar, Rio de Onor, Sacoias, Soutelo da Gamoeda, Vale de Lamas e Varge há restos de belíssimas matas de carvalhos e sardões entremeados de pascigueiros, que o povo ignaro vai destruindo a ferro e fogo, sem ver que o cereal produzido no arroteamente brevemente estancará, arrastando rápida e absoluta esterilidade [193]. Os mesmos restos e consequências esterilizantes se encontram nos termos de Babe, Palácios, São Julião, Baçal, Carvas (Bragança), Rabal, Rica Fé (Bragança) e Vilar do Monte. (Estas duas últimas estão bem conservadas; pertencem a particulares.) Numa larga faixa de terrenos de mais de vinte quilómetros de comprimento e passante de cinco de largura, que do ponto central de Castro de

(1216) Sabemos que a formação e destruição dos baldios obedece a razões de ordem cultural, determinadas pela facilidade do transporte, optando-se, onde estas faltam, pela pecuária, de mais fácil deslocação; à fertilidade, progresso agrícola, acréscimo populativo, processo histórico ou colonizador (em Trás-os-Montes pelo sistema dos forais de índole especial), psicologia típica do camponês, sempre devorado pela sede da terra e pela posse exclusiva desta, bem como a outros factores: mas é necessário, acima de tudo, olhar ao bem geral e este impõe os baldios. Nas mesmas condições está a formação das matas em que influem de modo especial as condições hidrográficas e orográficas do terreno.

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Avelãs, onde existiu o famoso mosteiro beneditino, se estende às povoações de Oleirinhos, Meixedo, Carragosa, Rio Frio de Carragosa, Espinhosela, Terroso, Vilarinho de Cova de Lua, Gondesende, Oleiros, Portela, Lagomar, Sabariz, Donai, Vila Nova, Castrelos, Alimonde, Conlelas, Carrazedo, Grandais, Castro de Avelãs, Gostei, Castanheira, Formil, Fontes Barrosas, Nogueira, Rebordãos, Sarzeda, Mós, Sortes, Lanção, Viduedo, Santa Comba de Roças, Arufe, Rebordaínhos e Pinela, deixou o frade essa famosa mata de castanheiros bravos e enxertos que ainda hoje faz a riqueza da terra, a par de outras de carvalhos, também valiosas. Nas mesmas condições está a mata de castanheiros-enxertos, entremeada de carvalhos, que se estende desde Vinhais por Rio de Fornos, Lagarelhos, Vilar de Ossos e Soutelo, com ramificação em Paçó, Santa Cruz, Dine, Fresulfe e Mofreita, tudo no concelho de Vinhais. Idem, idem a de Parâmio, Fontes Transbaceiro, Maçãs e Zeive, que ainda em 1910 foi confiscada às Oblatas do Menino Jesus da Mofreita; a de Paredes, Parada de Infanções, Coelhoso, Freixedelo, Grijó de Parada, São Pedro de Serracenos, Samil, Cabeça Boa, Bragança (Quinta da Granja), Quintela de Lampaças e Guadramil, tudo no concelho de Bragança; a de Grijó de Vale Benfeito, Vale Benfeito, concelho de Macedo de Cavaleiros. Em Malhadas, Póvoa e outras povoações do concelho de Miranda do Douro e do de Mogadouro há restos de belas matas de carvalho e de outras árvores, devidas à sábia orientação cultural do frade (1217). Nas mesmas condições estão as famosas matas de oliveiras de Mascarenhas, com as adjacências de Guide e Torre de Dona Chama; a de Santa Comba da Vilariça, com ramificações para a Junqueira e extinta povoação de Santa Cruz da Vilariça, vulgarmente chamada Mata de Vilarelhos, e a de Vilarinho da Castanheira, no concelho de Carrazeda de Ansiães. Os notáveis grupos de oliveiras de Argozelo, Carção, Gimonde, Izeda, Milhão, Paradinha Nova e Velha e Santulhão resultam possivelmente da visão fradesca, que soube aproveitar estas zonas de clima quente encravadas na Terra Fria. Verdadeiramente, não temos elementos para mostrar, embora existam muitos, que todas estas matas são obra do frade; no entanto é muito provável a conjectura pelas seguintes razões: 1a – A cultura florestal está na tradição do monge e da ideia religiosa com os bosques sagrados. (1217) Os baldios e matas de Malhadas desapareceram em 1911 com a criação do Posto Zootécnico, que ainda hoje ali se conserva no meio duma grande propriedade, na qual há um sítio chamado Rodeira dos Frades, a documentar a previdência dos mesmos. Os da Póvoa foram desamortizados pelos anos de 1925.

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2a – Predomina nas terras monásticas e falta ou rareia nas vizinhas. 3a – Exige largo empate de capitais, que a mediania popular não suporta nem está em condições de poder explorar convenientemente, dada a carência de relações e facilidades do intercâmbio económico. 4a – Opõe-se-lhe o instinto arboricida do povo cerealífero, que vê na sombra, raízes e tronco da árvore um obstáculo à cultura da sua especialidade e predilecção, principalmente o trasmontano. 5a – Obsta-lhe o regime deambulatório da pecuária ovina e caprina, tão enraizado em Trás-os-Montes. 6a – A própria disposição das matas de castanheiros-enxertos, como claramente se nota no planalto de Carragosa, Espinhosela e noutros pontos, em longas fileiras alinhadas, mostra que a plantação obedeceu a um critério especial inadaptável a pequenas sortes, quinhões ou parcelas de vizinhos particulares. 7a – Opõe-se-lhe o prazer que os frumentários sentem na prática das roçadas (1218), ainda hoje muito usadas em Trás-os-Montes, com corte e incêndio de matas, no meio de folganças especiais, ritualistas, por assim dizer, que bem mostram como a tradição de tal serviço lhe está na massa do sangue, vincada por usança imemorial e pelo engodo das boas colheitas no primeiro e mesmo no segundo ano, sem ver que depois falham completamente durante dez ou doze, e muitas vezes para sempre, além de arrastarem outras falhas meteorológicas e higiénicas [194]. Mas, não há formosa sem senão; o frade (já atrás fica dito do amplo significado que damos a esta palavra) nem sempre adquiriu legalmente a muita propriedade que teve doada por abundante munificência régia e particular. À maneira dos nobres, fidalgos e cavaleiros, eméritos nesta especialidade (1219), também roubou, prepotenciou, subornou, vexou, oprimiu e sofismou os artigos das Concordatas Régias, que lhe limitavam a extensão agrária (1220) e possivelmente armou em captador de heranças, prevalecendo-se dos terrorres da outra vida em moribundos e velhos caquéticos (1221).

(1218) Ver p. 348. (1219) Inquirições de D. Afonso e D. Dinis, que publicámos nos tomos III e IV destas Memórias, passim. (1220) Inquirições..., tomo III, p. 89, 92, 307, 308, 310, 312, 313, 315, 338, 344, 349, 351, 357, 359, 360, 361, 364, 365, 368, 370 a 372, 377 a 379, 381, 392 a 394; tomo IV, p. 27, 28, 30, 32, 33, 50, 71 e 77, destas Memórias. Ver as Concordatas Régias e as lutas que causaram na História da Igreja de Fortunato de Almeida. (1221) Ibidem, tomo III, p. 305, 308, 336, 345, 352, 353, 355, 357, 372, 375, 382, 389, 391 e 403; tomo IV, p. 33, 38, 42, 44, 46, 47, 49, 50, 56, 70, 71, 74, 75, 77 e 79. É certo que nestes

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FRADES

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Roubou, mas foi à formiga, pouco a pouco, a retalho; depois, a ele, roubaram-no por atacado, facto iníquo, de calamitosas sequências económico-sociais, e malbarataram tudo, desde o labor intelectual ao agrícola. Não foi só o constitucionalismo em 1834 e sucessivos confiscos até findar com o da República em 1910, que tal praticou. Já no século anterior se fizera o mesmo aos jesuítas e muito antes aos Templários (1222), bem como as mais ordens religiosas, quer sob o eufemismo de abades comendatários, quer sob o de mestrado encabeçado na coroa ou nos príncipes da casa real. A expoliação fradesca produziu uma fauna conselheiral de autênticos pés descalços, audaciosos açambarcadores daqueles bens, à sombra do sofismado direito de represália, de problemáticos serviços à revolução triunfante, e muitas vezes de puro roubo, que os premiou, guindando-os a ricos burgueses e nobres fidalgos, com largos morgadios constituídos nas próprias aldeias e locais onde o frade tinha as fazendas, a fim de substituir os servidores do regime ou situação anterior, que recusavam evolucionar, acamaradar com os novos colegas, ironicamente apodados de fidalgos de fresca data, sem se lembrar que eles deviam o seu ascendente a processos similares. Como é ridícula esta fauna conselheiral de antigos proletários revolucionários a pregar conservantismo, desde que se viu farta, para que lhe não perturbem as laboriosas digestões, sem se lembrarem da miséria passada e da fome do seu próximo!! Há sublimes e heróicas excepções a esta génese fidalgácea, que não invalidam a regra. Conclusão? O povo, a eterna vítima, que trabalha a terra, continuou, despojado dela, a ser sacrificado como sempre, mudando apenas de dono, e, porque não tem onde trabalhar, emigra, deserta, chorando, da terra, para não morrer de fome ou se lançar na revolução. Se o livro é para o letrado, a espada para o militar, o navio para o marinheiro, etc., etc., porque não há-de ser a terra para o cultivador, ou, pelo menos se não põe restrição à faculdade acumuladora dos que a não trabalham?! Os roubos dos frades e dos fidalgos chegaram muitas vezes a alterar a raia entre Portugal e Espanha, como se vê por alguns textos atrás citados. De resto, a raia sofreu diversas alterações, ao contrário do que pensa Herculano e outros historiadores (1223).

lugares citados apenas se fala em bens de alma, mas tanta coisa deixa antever a suposição formulada acima. (1222) Os bens dos Templários passaram à Ordem de Cristo, mas nem todos lá chegaram, como se conclui dos que lhe adscrevem as Inquirições e dos que a dita Ordem tinha. (1223) Ver tomo I, p. 39; tomo IV, p. 7, 41 e 44; e tomo VIII, p. 13 e 73, destas Memórias.

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FREIO

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FREIO DAS MULHERES E HOMENS MALDIZENTES Guarda-se agora no Museu Regional de Bragança o antigo freio das mulheres e homens maldizentes e caluniadoras, que pertencia à jurisdição da antiga Câmara Municipal de Sanceriz, concelho extinto e hoje incorporado no de Bragança, descrito por Viterbo (1224). É todo de ferro como o das bestas, tendo a mais a cavidade para ajustar ao nariz e papo. Tem cabeçada de couro, com fivelas para segurar na cabeça, e rédeas, também de cabedal, com passador, para se lançarem sobre o pescoço e ombros. Igualmente no mesmo Museu se guarda outro freio dos maldizentes, por oferta do Sr. Visconde das Arcas, que pertenceu à Câmara desta vila, agora incorporada no concelho de Macedo de Cavaleiros. É todo de ferro como o dos arcos das pipas. Consta de um aro circular, do qual arranca outro prolongado em forma cónica, dando ao conjunto um aspecto de gorra ou, melhor, das caraminholas medievais. Usava-se enfiando-o pela cabeça dos réus, de forma a meter-lhe na boca uma lingueta de ferro fixa no arco que serve de base ao aparelho. Na parte oposta à lingueta os aros apresentam solução de continuidade e terminam em orifício, onde entrava uma correia para lhe dar maior ou menor âmbito, Freio dos maldizentes segundo a capacidade craniana do delinquente. Estes dois freios são, como documentação etnográfica, peças interessantíssimas e raras. No Museu de Salisbury (Inglaterra) há dois freios dos maldizentes, segundo nos informou o saudoso Doutor Rui Correia de Serpa Pinto (1225), tão cedo roubado à ciência [195], dos quais nos mandou os desenhos em Dezembro de 1932. Dizia a legenda adjunta aos mesmos, segundo informações do aludido amigo: «que a primeira menção destes instrumentos de punição em Inglaterra é de 1023. O castigado levava o capacete na cabeça, com a lingueta (por vezes com espetos) na boca, e era conduzido preso para uma cadeia pelas ruas ou amarrado ao pelourinho» [196].

(1224) VITERBO – Elucidário, artigo «Zegoniar». (1225) Ver tomo VIII, p. 115, destas Memórias.

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FREIXEDA | FREIXO DE ESPADA À CINTA

TOMO IX

FREIXEDA Perto do lugar da Freixeda, concelho de Mirandela, «se vê um monte, que chamam Cabeço Figueiro, que tem certos buracos e concavidades, que dizem os naturais foram nos tempos antigos minas de prata e ainda perto de um ribeiro se vêem as ruínas de um casarão onde dizem que se apurava e fundia este metal. Também junto a este lugar estão vestígios de muralhas de duas povoações, que foram dos mouros, uma delas chamada Vale de Mouro e outra o Murado» (1226). FREIXO DE ESPADA À CINTA Argote (1227) diz que os Narbassos, povo ibérico, pré-romano, mencionado por Ptolomeu, ficavam nas imediações de Freixo de Espada na Cinta (sic); mas depois, no tomo VI da mesma obra, p. 123 e 128, acha difícil a sua localização. Os Narbassos eram vizinhos dos Vaceos (horum interiora tenent vaccaei), diz o mesmo, e estes habitavam em terras de Miranda do Douro. Resende (1228) coloca os Vetões em Freixo de Espada à Cinta [197]. Noutro tomo destas Memórias trataremos da geografia bragançana antiga. Armando Vítor da Silva Estácio mandou-nos a seguinte cópia de uma lápide que serve de parapeito de janela numa casa de campo junto à vila: S... M P T... B.... S I... . S... P I A G V.. R R. D...... R I G... T.. F. R I .:. . 1724

Igreja matriz de Freixo (porta principal)

(1226) COSTA, António Carvalho da – Corografia Portuguesa, 1706, tomo 1, p. 452. (1227) ARGOTE – Memórias para a história eclesiástica..., 1732, tomo 1, p. 160. (1228) RESENDE, André de – De Autiquitatibus Lusitaniae, artigo «Vetonibus».

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FREIXO DE ESPADA À CINTA

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se bem que as molduras são posteriores (estilo D. João V) [198]. A porta principal em arco sarapanel é um mimo de graça, destacando-se o friso em volta ornado por florões, as pilastras, que a ladeiam, a janela trifoliada, tudo elegantemente ornamentado e a ferragem das portas. Esta veneranda relíquia arquitectónica está reclamando mão carinhosa que a desafronte dos maciços da parede que lhe apensaram com prejuízo visual [199]. Não menos interessantes são as portas laterais norte e Igreja matriz de Freixo (porta lateral sul)

Não alcançamos o seu significado por faltarem muitas letras gastas pelo tempo. A igreja matriz de Freixo é imponente pela sua traça arquitectónica em estilo Manuelino e, neste molde, a melhor da região bragançana [200]. Consta de três naves separadas por colunas cilíndricas, com ornatos típicos da época – cadeado, corda, florões, abóbadas artesoadas sustentando nos fechos o escudo de el-rei. No interior destaca-se o púlpito em ferro forjado; o sarcófago da capela-mor e os dezasseis quadros do tecto na mesma pintados em madeira, contemporâneos do templo,

Igreja matriz de Freixo (porta lateral sul)

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FREIXO DE ESPADA À CINTA | FUNERAIS

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sul em arcos renascença, entre colunas retorcidas encimadas por coruchéus, destacando-se no tímpano os característicos florões e nos frisos o ornato em forma de corda estilizada. Muitas casas freixenenses apresentam típica fácies manuelina nas portas e janelas, ladeadas por mísulas para vasos de flores, em que os tão nossos craveiros reinam odoriferamente. A este conjunto acresce o de algumas ruas acentuadamente medievais; a torre heptagonal, única restante das duas mais que tinha [201], agora convertida em sineira. É muito elegante: parapeito sobre cachorros salientes e na frente as armas da vila. Do pelourinho falamos no artigo próprio [202].

FUNERAIS Falando dos funerais pagãos, diz Santo Agostinho (1229), escritor do século IV, que colocavam sobre as sepulturas dos mortos alimentos e vinho – miror cur apud quosdam infideles hodie tam perniciosus error increverit, ut super tumulos defunctorum cibos et vina conferant. Que este costume vigorava na nossa Península Ibérica ainda nos séculos V-VI, vê-se dos cânones que vedam aos fiéis prandia ad defunctorum sepulchra deferre et sacrificare de re mortuorum (1230). Que este costume vinha já dos tempos pré-romanos e pré-históricos ou neolíticos, mostra-se nos monumentos sepulcrais, onde junto dos cadáveres, aparecem vasos com alimentos e objectos usados pelo defunto. Neste particular, a Igreja Católica, como dizemos nos artigos Castros e Insculturas rupestres, vendo a impossibilidade de arrancar da alma popular um costume de tão longa tradição, cristianizou-o sob a forma de caridade (1231) e usos paroquiais. Ainda hoje, nos saímentos fúnebres rurais bragançanos, da casa do defunto para a igreja, acompanham o cadáver muitos coleiros cheios de carolos de pão cozido destinados à caridade distribuída aos assistentes e um alqueire de pão em grão para dar ao pároco. Os coleiros ficam à porta da igreja, mas o alqueire de pão vai sempre à cabeceira do caixão funerário e junto a ela fica durante os ofícios fúnebres; segue no fim para o cemitério até que o defunto é lançado no sepulcro, onde o pároco o santifica, a bem dizer, dando a estola a beijar à condutora, geralmente uma

(1229) AGOSTINHO, Santo – Sermo 15 de Sanctis. (1230) SAENZ DE AGUIRRE, José – Collectio max. Conciliorum omn. Hispaniae, vol. 3, p. 218. Cânones de São Martinho, bispo de Dume (Braga) no século VI. (1231) Ver tomo II, p. 140 e 151, destas Memórias, onde se apontam várias outras usanças gentílicas. VITERBO – Elucidário, artigo «Bodivo».

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mulher, e só depois o recebe. Em algumas aldeias, como Meixedo e outras, junto ao alqueire de pão vai também um molete de trigo cozido e uma garrafa de vinho, que igualmente é dado ao pároco. Aqui temos pois em pleno catolicismo a supervivência de um rito pré-cristão (1232). O mesmo se pratica no concelho de Vinhais e mais ou menos em todo o distrito de Bragança. É frequentíssimo nos testamentos do século XIX e anteriores vir exarada a disposição de se dar caridade de pão, vinho e sardinhas no dia do enterro do testador (hoje vigora o mesmo costume, mas muitas vezes, em lugar daqueles géneros, dão dinheiro) à porta da igreja, depois de ser lançado na sepultura o cadáver), onde comem e bebem com algazarras e bebedeiras muitas vezes [203]. Ainda a 19 de Agosto de 1930, ao celebrarem-se os funerais do reverendo João António da Natividade Lopes, abade de Quintela de Lampaças, vimos às portas da igreja distribuir caridade de pão e vinho a quem o quisesse. Pelo que toca aos párocos, a usança pagã continua sob a forma de direitos paroquiais, pois, tanto na litúrgica judaica (1233) como na das outras religiões (1234), sempre uma parte das ofertas dadas nos sacrifícios e actos cultuais pertenceu ao sacerdote. Entre muitos documentos confirmativos desta supervivência entre nós damos os seguintes: «Primeiramente, cada pessoa que morre se lhe farão tres noturnos e de cada hum delles tem o Parocho mil e duzentos reis, e delles pagará a dois sacerdotes que devem assistir a eles. Se a pessoa que morre deixar em seu testamento que lhe fação officio de corpo presente, ou seus herdeiros voluntariamente lho quizerem fazer, tem o Parocho por lhos deixar fazer mil reis além da sua assistencia, e lhe offerecerão com pam, vinho e cera na forma costumada que vem a ser, todos os domingos do anno dando em cada hum dois arrates de pão trigo, ou tres de senteio, huma onça de cera e hum quartilho de vinho, e no dia do enterro tem o Parocho offerta dobrada e hum carneiro tendo dez cabeças de gado e não as tendo tem hum cruzado em dinheiro pelo carneiro» (1235).

(1232) MARTINS, Firmino Augusto – Folclore do concelho de Vinhais, p. 81. Os povos Bascos (Espanha) ainda hoje celebram os funerais pelo mesmo teor, bem como os egípcios observantes da sua religião primitiva. (LIMA, J. M. Pereira de – Iberos e Bascos, 1902, p. 160, 162 e 167). (1233) Êxodo, 29-28. Levítico, 10-12 a 15. Números, 15-18. Deuteronómio, 18-1 a 4. (1234) NIEUPOORT – Rituum qui olim apud romanos obtinuerunt succincta explicatio, p. 373, 374. (1235) Copiado de um livro antigo, com capas de pergaminho, existente no Museu Regional de Bragança, em que se acham muitas notícias referentes à igreja de Vilar Seco de Miranda

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FUNERAIS

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Na freguesia de Serapicos, concelho de Bragança, encontra-se o seguinte: «§ 1 – Tem de uzo toda a pessoa cazada que falecer tres oficios de nove liçoens de coatro clerigos e cada clerigo cem reis, e o parocho cento e vinte reis. Os tais oficios sam ofertados cada hum com oito arrateis de trigo cozido comum bem feito capaz de se comer com seis arrateis de carneiro com huma meia de vinho, e coatro honças de sera, hü coartilho de vinho» (1236). Nem se entende que tais usanças compensavam a falta de outros rendimentos paroquiais, porque dos mesmos documentos consta que os párocos recebiam os dízimos de «centeio, trigo, serodio, cevada, cordeiros, cabritos, bezerros, jumentos, leitoens, frangos, queijos, leite de cabras e ovelhas, se o venderem, mosto (vinho), aboberas, feijoens, graus de bico ou garvanços, alhos, cebollas, linho, castanhollas, maçans, peras e de toda a qualidade de frutos como he costume e tambem do sirgo que se criar ou seda». «Não há muito ainda era costume geral fazer jantar para os clérigos que concorriam [aos funerais], e para outras pessoas mais ou menos qualificadas, que se banqueteavam, as mais das vezes em casa dos lutuosos, na própria casa do extinto, enquanto a família chorava a sua falta. E se este costume tende a desaparecer por esforço dos próprios párocos no dia do funeral, mantém-se ainda nos dias dos ofícios de cabo de mês e de cabo do ano. No dia do funeral e dos ofícios é distribuída a caridade, que consiste em dinheiro ou, mais geralmente, em pedaços de pão centeio, que se dão à saída da Igreja, às pessoas que concorrem ao acto» (1237). Referindo o mesmo costume no concelho de Vinhais, diz o Padre Firmino Martins (1238): «Terminado o funeral, vão os convidados para casa

tais como: inventários das suas alfaias feitos em diversos anos; relação dos irmãos da confraria de São Brás e contas da mesma, que alcançam até ao ano de 1585; relação das propriedades deixadas por diversos indivíduos aos párocos de Vilar Seco para passal da freguesia: com a obrigação de certas missas anuais, etc., fol. 275 v. Este códice tem notícias desde o ano de 1585 até 1909, mas não se sabe quando se escreveram os usos acima mencionados; devem porém ser anteriores ao século XVI. (1236) Assentos dos usos e costumes desta igreja da Senhora da Assunção do lugar de Serapicos. In «Livro dos baptizados, casamentos e óbitos de Serapicos de 1676 a 1707», onde vêm estes usos transcritos no final do livro agora existente no Museu Regional de Bragança. (1237) ALVES, Carlos – O culto dos mortos entre os mirandeses. «Ilustração Trasmontana» (1910), p. 108. (1238) MARTINS, Firmino Augusto – Folclore do concelho de Vinhais, p. 1.

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dos doridos e para outras para esse fim preparadas, onde lhes é servido e ao clero assistente, um lauto jantar em muitos lugares igual ao do dia da festa do padroeiro». Virgílio no V livro da Eneida descreve os funerais celebrados por Eneias em honra de seu pai Anquises, e a primeira coisa que menciona são dois bois distribuídos a cada nau para o banquete dos companheiros de viagem, e o vinho, leite e flores espalhados pela campa, acompanhados da carne de cinco porcos, cinco ovelhas e outros tantos novilhos. Entretanto, a jantarada continua; fervem as caldeiras, rodam os espetos, matam-se vitelos, e durante nove dias, que tantos marcava a liturgia funerária, assim estiveram comendo, bebendo e exercitando jogos rituais. No livro VI descreve os funerais de Miseno, um pouco mais modestos, mas onde não falta a comezaina; o sacerdote a aspergir com hissope por três vezes com água pura os assistentes e a espalhar aromas. No livro III menciona os funerais de Polidoro, ainda mais modestos, todavia de grande interesse arqueológico, porque, descrevendo o sepulcro que lhe deram, diz ser formado por uma grande pirâmide de terra (1239), que faz lembrar a mamoa das antas. Que tais banquetes faziam parte integrante dos rituais fúnebres consta da Ilíada (novecentos anos antes de Cristo), ao descrever as exéquias de Pátroclo, e certamente que o costume vinha dos tempos pré-históricos, pois os monólitos dos dólmens exigiam muita gente para os erguer, e quem manda trabalhar tem de sustentar os operários, de onde o integrarem no ritual, na questão alimentícia a título de sentimento humanitário ou de caridade, como hoje dizemos. Os banquetes funerários mantêm-se, apesar das proibições dos bispos (1240), dos cânones e das leis da Igreja, porque têm a seu favor uma tradição ininterrupta multi-milenária, porque fazem parte integrante do

(1239) VIRGÍLIO – Eneida, livro 3, v. 62 e 63. Ergo instauramus Polydoro fanus, et ingens aggeritur tumulo telus. (1240) Ver tomo II, p. 149, 151, 202, 207 e 231, destas Memórias. A Pastoral sobre deveres disciplinares do Bispo de Bragança D. José Alves de Mariz, de 20 de Dezembro de 1890, a que aludimos na p. 231 do mesmo tomo, diz na p. 36: «O outro costume, não menos digno de reprovação, e que também reputámos intolerável, é que no dia dos enterramentos e das exéquias os Clérigos que tomam parte nos ofícios e dizem as missas que lhe competem, vão comer em forma de banquete a casa da família enlutada, ou noutra, preparando aquela toda a refeição que tem de lhe ser servida... Não se compadece com o carácter sacerdotal semelhante exigência, que um mau costume tem estabelecido como obrigação». Já no século XVI as Constituições do Bispado de Miranda, título XV, constituição 3a, proíbem o mesmo costume.

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substrato litúrgico que o cristianismo recebeu das religiões anteriores, e porque se impõem por si próprios, naturalmente por forma inexcusável, principalmente nos povoados rurais. É sabido que para os funerais são chamadas pessoas amigas de longes terras, que, entre vir, assistir aos ofícios e ir, passam o dia. Como resistir tanto tempo sem comer, visto a maior parte das aldeias carecerem de tabernas e de meios de hospedagem? E tanto é assim, que nos enterros modestos, alheios a convivas longínquos, cruzes processionais, bandeiras de confrarias, etc., o banquete reduz-se a jantarar o coveiro e a distribuir pelos assistentes uns bocados de pão a título de caridade. Em Rio de Onor e Guadramil, povoações essencialmente tradicionalistas, os funerais revestem carácter de primitividade frisante. Além da caridade de pão, adicionada muitas vezes de vinho e sardinhas, os convidados, parentes e amigos, bem como suas famílias, desde as crianças aos velhos, são ajantarados pantagruelicamente. Presuntos inteiros, curgalhos de chouriços, carneiros, cabras, et reliqua, atulham potes e caldeiras. Na deglutição, acompanhada de frequentes libações, em vez da fórmula: que Deus nos ajude, usada pelos nossos aldeões, ao levar o pichel à boca, ouve-se: Deus tenha no céu el ti F... (o falecido), e os doridos assistem, servindo a todos, e de vela acesa na mão, se o banquete é de noite, como algumas vezes temos presenciado. Parece bárbaro, mas não é, pois não se trata de festança, mas sim de rituais arcaicos, piedosos no conceito dos dois maiores génios da humanidade – Homero e Virgílio. Outra reminiscência ancestral se nota ainda nos funerais de Rio de Onor e Guadramil: são as oferecedeiras, mulheres que assistem aos ofícios, tendo diante de si uma cesta coberta com alva toalha de linho, cheia de pequenas e delgadas velas acesas (fabrico caseiro), dispostas em arco, seguras na asa da cesta. Funerais há em que as oferecedeiras passam de vinte, com outras tantas velas cada uma. O cânone XXXIV do concílio de Elvira (1241), que foi lei entre nós durante a monarquia visigótica, celebrado no princípio do século IV, proíbe que se acendam círios no cemitério. Esta resolução do concílio promana evidentemente do desejo de extinguir a costumeira gentílica das luminárias sepulcrais, que continuavam vigorando, pois, de outra forma, seriam ociosas as disposições proibitivas.

(1241) ALMEIDA, Fortunato de – História da Igreja em Portugal, tomo 1, p. 650.

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FUNERAIS

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Ora, as igrejas serviram de cemitério durante muitos séculos, e ainda hoje, nas aldeias do distrito de Bragança, se pratica o costume, imposto muitas vezes nas disposições testamentárias, de alumiar durante um ano, pelo menos, a sepultura do finado com dois círios (brandões) acessos todos os domingos e dias santificados, durante a Missa paroquial, indo no fim o sacerdote rezar-lhe um responso e receber a oferta (1242). Convém notar que as famílias acendem os fessairos (são os tais brandões) na parte da igreja onde dizem que repousam os seus maiores, pois actualmente já se fazem enterramentos nos cemitérios. Tudo isto mostra a vigência ainda hoje de costumes pagãos, que a Igreja em vão se tem esforçado por extinguir vai em vinte séculos. Outras costumeiras arcaicas perduram ainda, relativas a funerais. Dizem os escritores romanos que quando encontravam algum cadáver insepulto lhe lançavam terra por cima ou o apedrejavam, aut lapidabant, isto é, cobriam-no de pedras (1243). O mesmo se faz ainda hoje em terras bragançanas, rezando um Padre Nosso e lançando uma pedra para junto da cruz, colocada no monte onde alguém foi assassinado, se bem que o cadáver não repousa ali mas sim no cemitério. Também estes montões de pedra se relacionam com o culto de Mercúrio, como aponta Viterbo (1244). É destas cruzes que tão elegantemente se lembra Herculano: Amo-te, ó! cruz, até, quando no vale Negrejas triste e só, Núncia do crime, a que deveu a terra Do assassinado o pó (1245). Em muitas terras bragançanas, quando o cadáver é lançado na sepultura cada um dos assistentes lança-lhe um punhado de terra em cima dizendo: Descansa em paz! Nem sempre a cruz nas encruzilhadas dos caminhos ou à beira deles inculca assassinato, como insinuava Lord Byron desesperado por não encontrar em Portugal as facilidades que desejava para satisfação de seus

(1242) Quero que a minha sepultura seja alumiada durante um ano, dizem muitos testamentos. (1243) NIEUPOORT – Rituum qui olim apud romanos obtinuerunt succinta explicatio, p. 579. Esta obra foi traduzida para português por Manuel Bernardes Branco em 1865, sob o título de Usos e costumes dos romanos, mas é muito deficiente na citação dos autores, onde Nieupoort bebeu as notícias. (1244) VITERBO – Elucidário, artigo «Fiéis de Deus». (1245) HERCULANO, Alexandre – A Harpa do Crente, 1860, p. 121.

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vícios, que João de Lemos fustigou, retorquindo-lhe em versos cheios de patriotismo a verdade: Nos bosques e vales as Cruzes que contas Por cá aos milhares, sem ser devoção, Só marcos sanguentos, quais tu os apontas, Das leis em opróbio, do crime em padrão. Talvez que as julgasses então monumentos Piedosos, erguidos em honra do céu, Talvez que a lisonja nos teus pensamentos Pusesse a verdade que a raiva escondeu. Talvez que os milhares não fossem já tantos Bradando assassino; só se inda também As vistas das vinhas, que cantam teus cantos, Tivessem a força que o seu vinho tem. Oh! D’ele bem sabes, se és digno filho Dona Albion sequiosa, bem sabes que faz Mil coisas só d’uma, e tira ou dá brilho A tudo que aos olhos pulando lhes traz (1246). Foi para cristianizar os montões de pedras ao lado dos caminhos, dedicados a Mercúrio, que a Igreja os substituiu pelo símbolo da redenção (1247). Ainda se depõe o cadáver no chão antes de o lavar para o vestir, tal qual como os romanos faziam para a conclamatio (1248); ainda se levam velas e círios ou brandões nos saímentos fúnebres (1249); ainda os vestidos negros são os de luto; ainda usamos incensar o cadáver; ainda a liturgia cristã tem dias privilegiados para os ofícios fúnebres, como são o terceiro, sétimo, nono e aniversário; ainda, após o enterro, «os amigos, voltando para casa com seus parentes, eram recebidos num banquete fúnebre... ...Também algumas vezes em enterro de pessoa ilustre, dava-se um banquete ao povo (visceratio), que vem a ser distribuição de carne crua; o qual banquete tinha o nome próprio de selicernium» (1250), tudo como praticavam os romanos, que, na maior parte, já receberam este formulário dos povos anteriores.

(1246) LEMOS, João de – Cancioneiro, 2° vol., p. 242. (1247) VITERBO – Elucidário, artigo «Fiéis de Deus». (1248) NIEUPOORT – Rituum... (1249) Ibidem. (1250) NIEUPOORT – Usos e costumes dos romanos, tradução de Bernardes Branco, p. 394. Sobre o assunto, pode ver-se RICH – Dictionnaire des Antiquités Romaines, nos artigos respeitantes a funerais.

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Para melhor compreensão, extractámos os seguintes documentos: «Titulo dos Uzos desta Igreja do lugar de Vilarseco de que é orago o Apostulo S. Thiago Primeiramente cada pessoa que morre se lhe farão tres noturnos, e de cada hum delles tem o Paroco mil e duzentos reis, e delles pagará a dois sacerdotes que devem assistir a elles. Se a pessoa que morre deixar em seu testamento que lhe fação officios de corpo presente, ou seus herdeiros voluntariamente lhe quiserem fazer, tem o Paroco por lhos deixar fazer mil reis alem da sua asistencia, e lhe offerecerão com pam, vinho, e cera na forma costumada que vem a ser, todos os domingos do anno, dando em cada hum dois arrates de pão trigo, ou tres de senteio, huma onça de cera, e um quartilho de vinho e no dia do enterro tem o Paroco offerta dobrada e hum carneiro tendo dez cabeças de gado, e não as tendo tem hum cruzado em dinheiro pelo carneiro». Tem mais vinte nove missas do uzo na forma costumada pagas pella esmolla do costume. Se o defunto for filho familia chegando a sette annos se lhe fará um noturno, e offerecerão quatro mezes tudo na forma do costume; e se for de quatorze anos se lhe farão dois noturnos, e offerecerão. oito mezes, e se for de vinte anos lhe farão os legados inteiros como se fosse cabeça de cazal, e darão cera para os noturnos assim como para os officios de corpo presente, e no cazo de lhe fazerem noturno no dia do enterro, o Parocho terá fora da sua asistência o mesmo que no officio de nove liçoins menos o carneiro, que esse só levará sendo cabeça de cazal. Se for anjo lhe mandarão dizer huma missa de esmolla de duzentos reis e huma offerta costumada. Pelos Baptizados por cada hum que se Baptizar tem o Parocho huma offerta na forma do costume e huma galinha. Pelos cazamentos tem o Reverendo Parocho huma offerta na forma do costume e huma galinha, e alem disto se lhe passar certidão de banhos ou o assento do baptismo, ou outro qualquer asento lhe darão por cada certidão cento e vinte reis. Tem mais o R.do Parocho por anno de offerta annual de cada morador iste he de cada fogo hum alqueire de trigo ou cinco quartas de centeiro, como he uzo e costume. Tem mais o R.do Parocho de offerta nas missas cantadas e festas dos Santos alem da sua esmolla como os mais sacerdotes, hum vintem como é uzo e costume» (1251).

(1251) Copiado de um livro antigo, com capas de pergaminho, em que se acham muitas notícias referentes à Igreja de Vilar Seco de Miranda, tais como inventários das suas alfaias,

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FUNERAIS

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Em seguida aos usos de Vilar Seco atrás mencionados vem o seguinte: «Dizimos que se pagão e devem pagar dos frutos e imprimas a Deus Nosso Senhor conforme o uzo estabelecido neste lugar e Beneficio de S. Pedro da Silva. A saber de pam de cada dez hum de dizimo, e de imprima de cada dez huma quarta até chegar a quatro alqueires e dali para cima nada mais, esta imprima se deve pagar de centeio, de trigo de serodio e de cevada, e não havendo algum deste genero, se deve pagar, a cevada em centeio e o trigo em serodio: e o mesmo devem pagar todos os que apartam o pam como filhos de familia, e creados. Tem mais obrigação de pagar dizimos dos cordeiros, cabritos, bezerros, jumentos, leitoens, frangos, queijos, leite de cabras e ovelhas, se o venderem, de mosto, aboberas, feijoins, grans de bico ou garvanços, alhos, cebollas, linho, castanhollas, maçans, peras e toda a qualidade de frutos como he costume, e tambem do sirgo que se criar ou seda». «Assento dos uzos, e costumes desta igreja da Senhora da Assumpção do lugar de Serapicos [concelho do Vimioso] § 1° – Tem de uso toda a pesoa cazada que falecer tres officios de nove liçoens de coatro clerigos a cada clerigo cem reis, e o parocho cento, e vinte reis. Os tais officios sam ofertados cada hum com oito arrateis de trigo cozido comum feito capaz de se comer, com seis arrateis de carneiro com huma meia (sic) de vinho, e coatro honças de sera que se chamão vigilias. § 2° – Tem no emterro e em cada officio huma oferta de trigo de dois arrateis, hüa honça de sera, hü coartilho de vinho. § 3° – Tem de oferta de ano mil e dozentos reis. § 4° – Tem de costume tres missas da agonia e as seis das chagas pagas a cem reis cada hüa. § 4° – Tem de costume que toda a pesoa que falecer antes dos sete annos completos hüa oferta de dois arrateis de trigo, hüa pouca de sera, hü coartilho de vinho, oitenta reis para se dizer a missa do Anjo. § 5° – Tem de costume que toda a pesoa que falecer tendo os sete annos completos fazer-lhe hü officio dos ditos coatro clerigos, e tendo catorze annos de idade dois officios e tendo vinte e hü annos os tres officios na forma dos cazados alumiados e ofertados com as seis Missas das chagas, e feitos em diversos anos; relação dos irmãos da confraria de S. Brás e contas da mesma, que atingem ao ano de 1585; relação das propriedades deixadas por diversos indivíduos aos párocos de Vilar Seco para passal da paróquia, com obrigação de certas missas anuais, etc., fol. 275 v. Este livro tem notícias desde o ano de 1585 até 1909; não se sabe infelizmente quando se escreveram estes usos, se bem que, a julgar pela letra, nos parece do século XVIII.

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FUNERAIS

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tres da agonia e a oferta de anno dous mil e dozentos reis não tendo o defunto os vinte e hü annos se repartirá na forma da idade dos sete anos até aos vinte e hü annos. § 6° – Item declaramos que metendo-se mais algum clerigo que os coatro do uzo serão ofertados a maneira local (?) de cada clerigo, dous arrates de pam, seis coartilhos de vinho, arrate e meio de carneire, hüa onça de cera. E coalquer officío que se faça na dita igreja deve ser ofertado a este modo, ainda que não seia deixado. § 7° – As missas que se cantam por devoção ou deixada se deve dar de oferta ao parrocho alem da sua esmola, dous arrates de trigo, hü coartilho de vinho, hüa onça de sera. Esta he a tradição que achamos nesta igreja immemorial que se observará. Costa». (Livro dos baptizados, casamentos e óbitos de Serapicos de 1676 a 1707, onde vêm estes usos transcritos no final do livro). «Uzo de dizimos que se pagão em Vale de Lamas [concelho de Bragança] Paga-se dizimo de trigo, senteio, serodio e vinho. São Joaneira (1252). Consta de lam, cordeiros, frangos, bezerros, bestas, horta, herva dos lameiros, navais. De lã de 10 arrateis hum. Dos cordeiros de dez hum e quando lá não chega de 6 hum, mas dá-se de cada cabeça, que falta 10 reis, que são 40 reis. Assim tambem havendo só quatro cordeiros pagão de cada hum 10 reis, e chegando a 5 se paga meio. Do mesmo modo que se paga dizimo dos cordeiros se paga dos porcos. Dos frangos quer a casa crie, quer não crie paga 20 reis. De cada bezerro 50 reis. De cada besta de qualquer qualidade 30 reis. De horta 4 reis. De herva dos lameiros se paga de dez feixes hum. Dos navais se mede as varas e se paga de dez huma. Imprimas. Não colhendo dez alqueires, ou cab.os de trigo, senteio, serodio, vinho, não paga imprima, chegando paga de 10 hum = de 20 – 2, de 30 – 3 – de 40 – 4 e meio e nada mais. Os viuvos pagão imprima inteira, as viuvas e solteiras estando sós, meia. Aqui não se costuma semear grãos, feijoens, ou outros legumes, e por isso se não paga dizimo» (1253). (1252) Pensões que se pagam pelo São João (Junho). VITERBO – Elucidário, artigo «Sanhoaneiras». (1253) Documento existente no Museu Regional de Bragança, Maço Documentos para a história da Diocese. Nas costas deste documento puseram o seguinte resumo do seu con-

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GIMONDE

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GIMONDE Separado apenas da povoação de Gimonde, concelho de Bragança, pelo Rio Sabor, fica o sítio chamado Arrabalde. O rio envolve-o por todos os lados, numa profundidade aproximada de cinquenta metros, em rampa fortemente inclinada, à excepção do lado sul, por onde se liga à montanha do Guieiro; mas aqui a defesa natural foi completada por um fosso de sessenta e seis metros de extensão por quarenta de fundura, pouco mais ou menos, em alguns sítios, chamado Cortadura. A todo o conjunto do Arrabalde e Cortadura chamam Tiritana. Em frente há vestígios de uma ponte sobre o rio [204]. Nos outros lados, onde a defesa natural oferece mais fácil ataque, há vestígios de muros, que, com a Cortadura, formam um recinto elipsóide de talvez duzentos metros de comprimento por cinco de largura. Dos muros nada resta visível; apenas os escombros e andares defensivos a mostrar a sua existência, porque lhe aproveitaram a pedra para vedações de propriedades e para uma ponte. Deve ter tido grande importância o Arrabalde, a julgar pelas obras da Cortadura, que realmente são imponentes, pela dificuldade do rompimento feito em grande parte na rocha. À superfície abundam fragmentos de lousa e aparecem cacos de cerâmica, tijolo, telha de rebordo, mós manuárias, escumalhas de ferro e muitos outros objectos deste metal, como sachos, escopros, picaretas, etc. Também apareceu um esqueleto humano, uma forja, uma esfera de ferro, de meio palmo de diâmetro, duas moedas romanas de cobre e a sacha e a relha de que falamos na p. 2. Esta relha, semelhante a outras aparecidas em alguns castros bragançanos, é interessante e não vemos nos autores exemplar igual. Será tipo regional? Vai na figura junta. Comprimento total em linha recta 0,30m, largura máxima 0,04m, espessura 0,01m. Para lavrar, devia ajustar-se ao dente da rabiça do arado, no qual penetraria o esporão A, segura por uma argola móvel.

teúdo: «Papeis pertencentes a Abbadia de São João [antiga freguesia de Bragança, hoje chamada Sé], em que se declara o que cada pessoa deve pagar de dizimo».

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GIMONDE | GRIJÓ DE VALE BENFEITO | GRIJÓ DE PARADA

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No tomo I, p. 353, destas Memórias publicámos, segundo vem em Borges (1254), a seguinte lápide funerária, que ele diz ter aparecido em Gimonde, de onde a fez conduzir para Bragança: ALBVTIO CAPI / TONI INLEP. E... / LIVM...... / AN. LXXV...... / INPENSIS PV...... / F. C. Parece tratar-se de um homem importante, a quem fizeram os funerais à custa do erário público. O nome Albutius é conhecido na península (1255). Pouco acima da povoação de Gimonde, na margem direita do ribeiro de Contense, também chamado Malara, que, junto da aldeia, desagua no Sabor, há, nuns fragueiros, uma gruta onde caberão dois ou três homens. É interessante porque, a meio do arco desce uma espécie de coluna, como que a sustentá-la, à laia de mainel.

GRIJÓ DE VALE BENFEITO Numa parede interior da casa de José Manuel de Sá Miranda, em Grijó de Vale Benfeito, que serve de arrimo à escada, há a inscrição junta em lápide de granito, encimada por uma suástica, de que apenas se divisam alguns raios, por estarem tapados os outros pela parede. Já demos notícia dela no tomo VI, p. 758, destas Memórias, e agora vai conforme a sua disposição gráfica na lápide. Na 5a linha, a primeira letra será L e não um I. Ver adiante o artigo Palaçoulo. Boutia é nome conhecido na Península Ibérica e Bouti figura na lápide n° 33, p. 68, deste tomo.

GRIJÓ DE PARADA «Em o lugar de Grijó de Parada, de hum monte que chamão a Torre de Modorra, tirarão quantidade de pedras, de que se aproveitarão para a

(1254) BORGES, José Cardoso – Descrição topográfica da cidade de Bragança, 1721-1724, manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa. LOPO, Albino, O Arqueólogo Português (1899), vol. 4, p. 186, refere-se a estas ruínas de Gimonde. (1255) Boletin de la Academia de la Historia, tomo 44, cad. 4, p. 356.

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GRIJÓ DE PARADA | IZEDA | JUNQUEIRA

TOMO IX

reedificação da Igreja do mesmo lugar, e das que se podem ver, são mais de sincoenta com bons frisos e remates, mas as letras muito gastadas e de algumas se podem ler “as seguintes” não faço copia das mais pelas poucas letras que se lhe descobrem» (1256). No tomo I, p. 354, destas Memórias publicámos já estas lápides funerárias, segundo a leitura de Borges, as quais são: 1a

CORNEL / IO. CILAC / ILI. AN / XL

2a

......OBI...... / ......OSA / BINOA / N. ILX

a

3

CABVRN / ...VRA / NVLXX

Da Modorra de Grijó de Parada falámos no artigo Pré-história. Debalde procurámos as lápides indicadas por José Cardoso Borges em Grijó de Parada; apenas vimos à porta da igreja uma muito gasta nas letras em que lemos somente a palavra DEO. Tinha aspecto de votiva [205].

IZEDA Izeda, concelho de Bragança, «tem tres ermidas, hua de Santa Eulália, dista do lugar meia legua situada em umas vinhas ha tradição que foy antigamente hua cidade chamada Medea, de que ainda parecem vestigios» (1257).

JUNQUEIRA Nas Cevadeiras, sítio do termo da Junqueira, concelho de Moncorvo, apareceram várias lápides romanas que inutilizaram, metendo-as na construção de muros de casas, sem agora se saber onde param. Consta que tinham letras. Damos aqui a inscrição da única que se conhece, segundo uma cópia que nos mandou o nosso ΛELIV.. colega Padre Júlio António Pires, pároco de Adeganha, no mesmo concelho, a quem vários favores deste género ΛLB.... devemos. ..Λ.... Faltam letras por delidas no final das duas primeiras ..IIS... carreiras e no princípio e fim da 3a e 4a. A 5a parece estar completa. T. L

(1256) BORGES, José Cardoso – Descrição topográfica da cidade de Bragança. (1257) Memórias Paroquiais de 1758, em «O Arqueólogo Português», vol. 5, p. 30.

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JUNQUEIRA | LAGOAÇA | LAMAS DE ORELHÃO

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É funerária e dirá; Aeliu(s) Alb(ini filius) a(nnorum...II) S(it) T(ibi) T(erra) L(evis). Tanto Aélio como Albino são nomes conhecidos na epigrafia romana [206]. LAGOAÇA No termo de Lagoaça, concelho de Freixo de Espada à Cinta, nas margens da ribeira de Vale de Marinha, sítio ameno, brotam umas águas sulfúricas frias, muito procuradas pelos doentes de moléstias de pele (1258) e de grande eficácia, de onde vem dar o povo à nascente o nome de Fonte Santa. Perto fica o casal dos Mouros, recinto fortificado, de que ainda restam muros de «descomunal altura», diz José Avelino de Almeida que serviram de habitação aos mouros (1259) [207].

LAMAS DE ORELHÃO Há nesta vila uma praça murada a que chamam Muro, e dizem os antigos que era onde os cristãos assistiam. Ainda há pessoas que lhes lembra de ver as portas inteiras. Há no meio desta praça um poço que já está entupido. Tem-se encontrado por aqui moedas de cobre. Defronte desta praça meia légua havia outra que fica no Cabeço do Rei de Orelhão, situada em terra muito áspera, de montes e fragas, que dizem que era dos mouros; ainda têm bocados de muralhas, e ao pé da mesma praça se acha uma fonte debaixo de uma fraga, que dizem ser dos mouros (1260). «Memorial do sitio d’este concelho de Lamas de Orelhão» – Setembro de 1688 «A vila de Lamas de Orelhão tem para a parte do sul, junto ás casas, um outeiro que algum dia esteve fortificado, de que ha ainda vestigios, e dentro

(1258) LOPES, Alfredo Luís – Águas Minero-Medicinais de Portugal, p. 270. (1259) ALMEIDA, José Avelino de – Dicionário abreviado de corografia..., artigo «Lagoaça». Deste tomaram a notícia referente aos muros o Portugal Antigo e Moderno e a Corografia Moderna do Reino de Portugal, por J. M. Baptista. Afinal, a tal altura descomunal está hoje reduzida a quatro ou cinco metros, em partes, pois noutras é quase nula. (1260) Memórias Paroquiais de 1758. «O Arqueólogo Português», vol. 5, p. 50. A praça do Muro era cercada de muralhas e fossos e no seu recinto «apareceram muitas moedas consulares, imperiais e góticas», segundo diz o reverendo Manuel de Queiroga Carneiro Fontoura, reitor de Lamas de Orelhão, em O Arqueólogo Português, tomo 7, p. 14.

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LAMAS DE ORELHÃO

TOMO IX

da cerca moravam os moradores desta vila, e para a parte do norte houve um fosso para defensa da praça. Ao poente da vila está uma capela de Santa Barbara com a era de 1620. Dizem pessoas antigas que ainda moravam dentro alguns moradores que nela neste tempo estiveram as casas da audiencia e prisão e que nela esteve o pelourinho. E tinha uma cisterna. E para esta vila veio um Gaspar Vaz Teixeira, homem poderoso e natural de Oucidres, de Monforte, e que diz fizera as casas da audiencia, que mudara o pelourinho, para onde hoje está junto da egreja matriz que é de Santa Cruz. Neste tempo, que seria pela era de 1630, veio para este concelho também um regulo por nome Gonçalo Teixeira de Miranda, natural de Constantim de Vila Real e cirurgião da casa do Marquez de Vila Real. Este, pela era de 1640, fez de novo uma quinta junto do lugar dos Paços a que pôs o nome de Bom Regalo, para o que apanhou muitas fazendas, umas por dinheiro e outras á força, e cercou esta quinta de amoreiras que foram mais de 500, e posto secassem muitas ainda tem muitas». Daqui se deduz a importância que então tinha a indústria sericícola. Depois, o manuscrito que vamos seguindo refere algumas das prepotências do tal Teixeira de Miranda e dos filhos, tudo mariolas consumados, e continua: «Dentro da cerca da vila se conta, que no tempo dos mouros se recolheram nesta cerca os cristãos, que foram uns falsos, que entregaram as chaves aos mouros e degolaram todos os que estavam dentro, que dizem chegara o sangue onde hoje está o pelourinho. E desta vila eram naturais S. Leonardo e Santa Comba de gente lavradora e pobre, que andavam no monte guardando o gado de seus paes; o rei mouro que se chamava Orelhão quiz intender com a moça, êles foram fugindo até onde está um penhasco alto e a santa se meteu pela fraga e ali escapou, que milagrosamente lhe abriu a passagem para dentro, e dizem lhe tiraram as tripas, coração e os botaram a um poço que está logo por baixo do penhasco, o qual nunca seca apesar de estar no alto da serra [mas, então, como é que escapou no penhasco? ou foi de outra vez?]. E da parte de fora do cabeço está outra capela da invocação de S. Leonardo, que dizem foi aqui martirizado. Aqui acodem muitas povoações em procissão de vários povos a pedirem água aos santos e tudo Deus lhe concede por sua intervenção. A esta parte lhe chamam agora Serra do Rei Orelhão e em um cabeço que está para o sul da capela dos santos está o refugio onde morava o rei mouro. Esta vila colhe mediano pão, algum linho, azeite e castanhas e tem tres fontes. Tem um rego d’agua que vem da serra, mas não rega senão uma parte da vila. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


LAMAS DE ORELHÃO

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Tem oitenta visinhos com suas quintas – Cascalhal, Ribeirinha, Carrapata e Fonte da Urze. Carrapata tem quatro moradores e uma ermida. Cascalhal quatro moradores e não tem ermida. Ribeirinha tem uma capela de Santo Antonio. Lamas tem tres ermidas – Nossa Senhora do Amparo, S. Braz e Santa Barbara. Fonte de Urze tem a capela de Santa Luzia, Santa Ursela, outra das Onze mil Virgens e outra de S. Apolinario» (1261). O autor deste «Tombo» menciona ainda a povoação dos Escovais como uma das pertencentes ao concelho de Lamas de Orelhão, de onde distava quatro quilómetros. Hoje (Abril de 1934) nada resta dela senão um montão de ruínas e destroçadas paredes de casas. Na parede de uma capela desbaratada há numa pedra de granito a seguinte inscrição com muitas letras conjuntas e inclusas:

que diz: O Padre Matias Presnel da Ribeira, vigário desta igreja, mandou reformar esta capela de Santa Maria da Apresentação desta quinta por sua devoção, era de 1681. «De onde em onde encontram-se [nesta serra de Santa Comba, sobranceira a Lamas de Orelhão] grandes rochedos de xisto, que apresentam algumas cavidades semelhantes a grutas, distinguindo-se uma de mais de vinte metros de comprimento, que parece artificial e obra talvez de quando se diz que houve nesta serra desenvolvida exploração de minas de antimónio. E como fortalezas naturais prestaram guarida aos primitivos habitantes destes lugares, pois nalguns recintos por eles limitados vêem-se restos de muros de pedra solta que serviram de vedação e de habitações. O refúgio do Rei Orelhão é um castro nestas condições, bem como o local em que está a Capela de Santa Comba e outro que se encontra junto do caminho dos Paços, indo da fraga do Arasco. (1261) Tombo de S. Sebastião do Cobro, feito pelo pároco desta freguesia, reverendo Matias Pires, fol. 811 a 815, existente no arquivo de Lamas de Orelhão, em O Arqueólogo Português, vol. 5, p. 30 e 290. Este Tombo é de 1688, como se declara no princípio deste artigo.

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LAMAS DE ORELHÃO | LENDAS

TOMO IX

E estes castros devem ser de origem muito primitiva, pois assim induz a sua simplicidade, natureza e organização, mas também da lenda de Santa Comba, referida no Memorial, em quase tudo semelhante à de Santa Comba dos Vales, que se lê em a nota do vol. I, p. 382, das Religiões da Lusitânia do Sr. J. Leite de Vasconcelos. E o cavado pintado de vermelho da fraga junto da ermida, que dizem ser ora a lançada do mouro, ora o sítio em que foi degolado ou em que a rocha se abriu para esconder a Santa, não é outra coisa senão um sinal pré-histórico como muitos que o mesmo autor menciona na mesma obra» (1262). Um quilómetro distante desta capela fica a Fraga da Couta, onde há um letreiro já muito delido que diz: Caminho para os Paços e Lamas. O abade Pedro Augusto Ferreira (1263) diz que Lamas de Orelhão fica vizinha à antiga Lettera, Ledera dos Suevos, memorada nos fragmentos do concílio de Lugo (1264) e que Manuel de Queiroga Correia Carneiro de Fontoura, abade de Lamas de Orelhão, no Aparato de antiguidades, numismática e arqueologia romana, manuscrito agora existente na Biblioteca Municipal do Porto, dá um desenho muito bem feito de uma moeda cunhada em Lettera (1265). LENDAS Imagens de santos encontradas em árvores, ruínas arcaicas, cavernas, etc., para as quais fogem quando os levam para as próximas povoações modernas. Lendas de aldeias despovoadas por causa das formigas; lendas agrícolas; apólogos morais. O capítulo III do concílio celebrado em Braga em 411 manda esconder as relíquias dos santos «em lugares decentes, e dande-nos uma relação dos lugares, e covas, onde os depositaram, porque não venham a esquecer pelo discurso do tempo» (1266) Este concílio é considerado pelos críticos como apócrifo e as suas actas atribuídas a falsificação; no entanto, é natural que os cristãos, quando da invasão dos bárbaros e mouros, escondessem as relíquias e imagens dos santos em cavernas e locais apropriados, podendo muitos aparecer depois, se bem que, na maioria dos casos, o tempo as consumira e a lenda da sua aparição permanece tipicamente arqueológica a indicar ruínas onde viveram os nossos antepassados. Luís Chaves (1267) diz que o concílio de Elvira celebrado no século IV manda que as imagens dos santos sejam portáteis, a fim de poderem ser levadas para lugares ocultos em caso de invasão inimiga.

(1262) LOPO, Albino, O Arqueólogo Português, vol. 5, p. 294. (1263) FERREIRA, Pedro Augusto – Tentativa Etimológico-Toponímica. Porto, 1907, tomo 1, p. 25. (1264) Ver p. 27 e 52 do tomo I destas Memórias. (1265) Ibidem, p. 53 em nota. (1266) ARGOTE – Memórias para a História eclesiástica do Arcebispo de Braga, tomo 5, p. 752. (1267) CHAVES, Luís – Portugal Além, p. 124 e 125.

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LENDAS

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Sobre as lendas de outras terras, além das mencionadas neste artigo, ver: Abreiro, Alfândega da Fé, Cabeça de Mouro, Castrelos, Castro de Avelãs, Castros, Castro Vicente, Chacim, Dine, Espadanedo, Feiticeiras, Moncorvo, Mouras encantadas, Paradinha Nova, Pinela, Rebordãos, Vale de Telhas e Varverde. Agrochão. Diz a lenda que entre o termo de Agrochão e o de Ervedosa houve a Casa de Fiães, que recebia os dízimos das duas povoações e lá está a marra divisória do termo das duas povoações. Alfândega da Fé. Na Fonte de Vilarelhos, termo de Alfândega da Fé, vive linda moura encantada em guarda de valiosíssimo tesouro. Um homem a quem apareceu soube-lhe falar e ela prontificou-se a dar-lhe seis vinténs diários, tanto disse bastar-lhe para seu governo sem necessidade de trabalhar, se lá fosse todos os dias ao dar da meia-noite. Na verdade, o homem não era peco, e todos os dias, à hora aprazada, encontrava junto à fonte, debaixo de uma pedra, a luzente moeda de prata. Os vizinhos admiravam-se, porque, sendo pobre, vivia à tripa forra sem trabalhar; os antigos camaradas de jeira chamavam-no ao passar junto da sua porta para o serviço, mas ele dizia sempre que não ia. Por último, aborrecido com a impertinência da chamada, retorquiu escarnecedor e soberbo: Que não ia trabalhar, Nem de trabalhar precisaria, Enquanto a Fonte de Vilarelhos Le desse seis vinténs por dia. Na noite seguinte voltou à fonte, mas a moeda não estava e nunca mais a viu, porque revelou o segredo ou porque, orgulhoso, mofou dos humildes? Talvez por ambas as coisas. Idêntica lenda se conta a respeito da Fonte dos Enqueilhados, no termo dos Couços, concelho de Mirandela, sucedida a um homem que não teve medo de aparecer lá diariamente ao dar da meia-noite, a fim de recolher as duas coroas dadas pela moura. Assim decorreu muito tempo, até que, por fim, radiante com tamanha ventura, não teve paciência e revelou o segredo, não mais aparecendo o dinheiro. Da lenda referente ao auxílio que Alfândega da Fé deu aos de Chacim na expulsão do mouro que exigia o tributo das donzelas, falámos no artigo Alfândega da Fé. O Santuário Mariano (1268) também refere a mesma lenda tocante a Chacim, que damos no respectivo artigo, ao tratar da Senhora de Balsamão, no termo desta vila.

(1268) Tomo V, p. 594.

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LENDAS

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Algoso. Entre a capela de São Martinho e o Cabeço da Forca, termo de Algoso, concelho do Vimioso, dizem que ficava a primitiva povoação deste nome, a qual se despovoou por causa das formigas devorarem todos os mantimentos, tornando impossível a vida. Beira Grande. A povoação da Beira Grande, concelho de Carrazeda de Ansiães, «era antigamente seu assento no sitio de Vale de Pedro, indo para o Rio Douro vistas dele de onde se mudou para este da Beira Grande, conforme tem a tradição, por rezam das muitas formigas» (1269). Ver o artigo Águas. Bragança. Ver artigo Vale Benfeito. A propósito da Senhora de Roncevales, venerada na igreja de São Vicente, em Bragança, ver Santuário Mariano, tomo V, p. 645, e as Inquirições dos reis D. Afonso III e D. Dinis, que publicámos no tomo III destas Memórias. Carocedo. No termo desta povoação, concelho de Bragança, há uma capela dedicada a Nossa Senhora da Assunção, sita no cume do cabeço chamado Ferradal. Dizem que a Senhora «apareceu em huma concavidade, ou nicho, que terá pouco mais de três palmos de altura, que ainda hoje se vê aberto em huma penha, que fica nas costas do campanário da mesma igreja... Tem esta Senhora huma cinta, ou facha de côr azul e branca, com que a cingião sôbre a roupa de sêda com que a adornavão, que se leva ás mulheres que estão em partos perigosos, e tanto que lha aplicão, são logo favorecidas, e alumiadas da Senhora. O mesmo experimentão aquelas a quem falta o leite, que com a tocarem, e porem sobre os seus peitos, cobrão logo leite para alimentar a seus filhos» (1270). Castanheiro do Norte. A igreja paroquial de Castanheiro do Norte, concelho de Carrazeda de Ansiães, fica a um quilómetro do povo. Segundo a lenda, alta noite o pároco foi chamado para confessar e sacramentar um moribundo. Ao chegar à igreja, viu que era uma mulher, irmã dos chamadores, que a mataram e enterraram depois de confessada, por querer casar com pessoa de menor condição ou por estar já pejada dela. O padre espaçou o mais possível a confissão, na esperança de chegar alguém que acudisse, mas os fraticidas impuseram-lhe brevidade se queria poupar-se a igual fim. Segundo a lenda, a condenada devia ser enterrada viva, como as vestais delinquentes; o padre porém aconselhou-a a deitar-se de bruços na sepultura, mas de nada lhe valeu, porque um dos irmãos a trespassou com um punhal após leve camada de terra sobre o cadáver.

(1269) MORAIS, João Pinto de, reitor de S. João Baptista – Memórias de Ansiães, 1721, § 27. (1270) Santuário Mariano, 1716, tomo 5, p. 610.

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Igual lenda se aplica à igreja de São João; freguesia de Cimo da Vila da Castanheira, concelho de Chaves (1271). Covelas. No termo de Covelas, freguesia de Sambade, concelho de Alfândega da Fé, há uma capela moderna, dedicada a Nossa Senhora das Neves, onde se guarda um tronco de árvore que, segundo a lenda, apareceu ao abrir os alicerces para outra capela antiga, nas ruínas da qual se edificou a moderna. «Ainda hoje os fieis que visitam a dita capela, levam uma porçãosinha do dito tronco para suas casas como reliquia, porque apareceu Nossa Senhora sobre o tronco da mesma arvore, entre um circulo de neve, cujo espaço era o que devia ocupar a capela que a mesma Senhora queria que ali se lhe edificasse» (1272). Duas Igrejas. No termo de Duas Igrejas, concelho de Miranda do Douro, fica o Santuário de Nossa Senhora do Monte. Diz a lenda que a imagem da Senhora apareceu a uma pastora sobre uma giesta. O povo trouxe-a para a igreja, mas no dia seguinte tornou a amanhecer no mesmo sítio, e tantas vezes se repetiu a cena da condução e subsequente fuga, que lhe edificaram o Santuário no local da aparição (1273). Edral. A capela de São Tiago de Ribas, no termo de Edral, concelho de Vinhais, fica num despenhadeiro a cair para o Rio Mente, e, segundo a lenda, foi edificada por um homem a quem apareceu o diabo em forma de linda moça para o tentar e levá-lo em corpo e alma para o inferno. Felizmente a tempo viu-lhe os pés de cabra, e, fazendo o sinal da cruz e encomendando-se a São Tiago, com voto de lhe erigir a capela, ficou ileso [208]. No livro IX das Linhagens do Conde D. Pedro vem idêntica lenda aplicada a outro personagem. Em O Panorama, 2a série, ano de 1843, p. 279, romantizou Alexandre Herculano lenda semelhante. Ervedosa. No sítio de Corujas, termo de Ervedosa, concelho de Vinhais, habitava um fidalgo muito soberbo, e um dia, porque a criada, não podendo obter trigo para o jantar, lhe apresentou centeio na mesa, prorrompeu em impropérios contra este cereal, a que chamava comida de perros e, no auge da fúria, esfaqueou o pão, que começou a jorrar sangue. Imediatamente veio uma praga de formigas que tudo invadiu, por forma que o fidalgo teve de fugir para outras terras e de abandonar a vivenda. Macedo do Peso. A primitiva povoação de Macedo do Peso, também chamada Macedinho do Peso, concelho de Mogadouro, estava situada no

(1271) Descrevemo-la no nosso opúsculo Chaves – Apontamentos arqueológicos, 1931, p. 42. (1272) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Sambade». (1273) Ibidem, artigo «Duas Igrejas». Santuário Mariano, 1716, tomo 5, p. 627.

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lugar do termo chamado São Domingos, onde há ainda vestígios da matriz antiga que agora é o cemitério. A razão do despovoamento foi devido às formigas atacarem tudo, inclusive as crianças nos berços. Mascarenhas. No termo de Mascarenhas, concelho de Mirandela, há um sítio chamado Cabeço da Senhora do Viso, por nele haver uma capela desta invocação, «cercada de muros e barbacão a modo de fortaleza». Segundo a lenda, a Senhora apareceu a um pastor e no mesmo sítio rebentou uma fonte (1274). Ver Vale Pereiro. Mogo de Malta. No sítio da Figueira Redonda, termo do Mogo de Malta, concelho de Carrazeda de Ansiães, há um bloco enorme de granito, forma esferóide, de muitos milhares de toneladas de peso, que, diz a lenda, foi trazido à cabeça por uma mulher fiando na roca (outros dizem pelo diabo) do sítio de Cabreira, num precurso de três quilómetros, por uma íngreme ladeira acima, cheia de ravinas e despenhadeiros, eriçada de fragas, onde com dificuldade se anda a pé. Contíguo a este, há outro de configuração discóide achatada, que, no dizer da lenda, era a rodela onde assentava o bloco maior que a mulher trazia à cabeça. No sítio chamado Chelindrão da Presa, termo de Carviçais, concelho de Moncorvo, há cinco blocos enormes de pedra, forma esférica, com que os mouros jogavam os paus, diz a lenda. No Caminho de Valtorno para Vila Flor encontram-se à beira do caminho dois altos fragueiros de forma cilíndrica, a que chamam mal-casados. Segundo costume antigo, ainda vigente no Mogo de Malta, em um certo domingo depois do Natal, juntam-se os moços e vão ao campo arrenegar o diabo. Para isso, fazem muitas cruzes no chão e colocam-lhe em cima grandes pedras, acompanhando tudo de dichotes e algazarras [209]. Montesinho. Diz a lenda que em tempos antigos um conde poderoso se assenhoreara da serra de Montesinho, concelho de Bragança, na parte tocante ao termo de Soutelo da Gamoeda, incomodando muito a gente deste povo e vedando-lhe o pastoreamento dos gados, o que levou seus habitantes a pedir auxílio a sete aldeias vizinhas, que efectivamente o prestaram, expulsando o intruso. Em paga, os de Soutelo concederam aos povos auxiliares o direito de pastoreamento na serra. Parece que a expulsão do conde não foi somente pelo direito da força, porque, segundo a mesma lenda, ele não podia ser obrigado à levantar mão da presa se tivesse a casa completamente mobilada; notou-se, porém, que lhe faltavam as barilhas (1275) e teve de sair. Entre os povos auxiliares ia também este nosso de Baçal, e ainda hoje se mostra na serra um montão de (1274) Ibidem, p. 573.

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pedregulhos, que dizem ser as ruínas da curriça ou cortelho, onde pernoitavam seus gados. Os moradores da Carragosa não quiseram ajudar os de Soutelo, ao que parece por estarem ou quererem relacionar-se com o conde, e por isso desde então, segundo a mesma lenda, ficaram conhecidos pelo apodo de Fidalgos da Carragosa, pela petulância metidiça de, sendo plebeus, se arrogarem intimidades com um grande e fidalgo. Mourão. A povoação do Mourão, concelho de Vila Flor, estava antigamente no sítio do seu termo chamado Mourão Velho, de onde os moradores se viram obrigados a fugir por causa das formigas devorarem todos os mantimentos, tanto no campo como nas casas de habitação. Oleirinhos. Diz a lenda que uma mulher de Oleirinhos, concelho de Bragança, repetia muitas vezes ao marido a declaração da sua muita estima, protestando que não sobreviria ao choque causado pela sua morte, caso ele fosse adiante. Quis o marido experimentar a sinceridade de tais afirmações e fingiu-se morto. Ela, acocuronhada na lareira, mantilha sobre a cabeça, comia muito satisfeita torresmos de presunto e escondia a sertã debaixo do escano quando alguém entrava visitar o defunto. Entretanto, um gato que tinha, chamado «Mundo», aproveitava o momento para comer também um torresmo, choramingando entretanto a viúva: ó Mundo, Mundo, como os vais levando um a um!, e também: tanto hei-de chorar, que estas peles hei-de secar, o que os vizinhos tomavam pela morte do marido, não sabendo que as peles eram as de uma borracha de vinho que ela ia bebendo para melhor saborear os torresmos. O suposto defunto deu pela conta de tudo, e ao ser conduzido no esquife para Meixedo, um quilómetro distante, onde os de Oleirinhos vão a enterrar, agarrou-se à pernada de um castanheiro, dos muitos que há à beira do caminho, e por uns quintais, escondidamente, voltou a casa, onde aplicou valente sova à consorte. Passados tempos morreu de verdade e a mulher choramingava: Ó irmãos da Misericórdia, Que meu marido levais, Retirai-o das paredes, Não fuja para os quintais. Retirai-o do castanho Não faça como o outro ano. Os Livros de linhagens, edição dos Portugaliae Monumenta Historica, título 36, p. 319, mencionam um Paio Soares de Paiva, que se fez morto para matar a mulher «por mao preço que dela havia». (1275) Espécie de estrado sobre que giram as peneiras no acto de peneirar a farinha.

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Parambos. A povoação de Parambos, concelho de Carrazeda de Ansiães, estava situada primitivamente no local chamado Santa Marinha, um quilómetro distante da actual, de onde seus moradores tiveram de fugir por não poderem livrar-se das formigas que tudo devoravam. Ver artigo Parambos. Quintanilha. No termo desta povoação, concelho de Bragança, perto da margem do Rio Maçãs, há uma capela dedicada a Nossa Senhora da Ribeira. Dizem que a Senhora apareceu a uma pastora muda, incumbindo-a de solicitar do povo a construção da capela, e, para confirmação da sua autoridade, deu fala à pastora (1276). Idêntica origem atribui o mesmo autor, baseado na tradição popular, ao Santuário de Nossa Senhora dos Remédios, sito no lugar de Tuizelo, concelho de Vinhais (1277). Rio de Fornos. A povoação de Rio de Fornos, concelho de Vinhais, estava situada na encosta a nascente, distante algumas centenas de metros da actual, de onde se mudou por causa das formigas atacarem tudo quanto possuíam os moradores. Romeu. Segundo refere o Santuário Mariano, a capela de Nossa Senhora de Jerusalém, no termo de Romeu, concelho de Mirandela, foi construída pelo povo a pedido de uma pastora a quem a Senhora apareceu, incumbindo-a de dizer ao mesmo que lha edificasse, e em confirmação da sua sobrenaturalidade, para que a pastora bebesse, visto ser a terra muito falha de água, fez brotar a fonte na encosta do cabeço, onde está a capelinha, ainda hoje existente. O dinheiro para a obra, segundo diz a tradição apontada pelo autor do Santuário Mariano era dado pela pastora, que o «tirava de um buraco, ou de uma lapa, que fica afastada da igreja coisa de quarenta, ou cinquenta passos, entre umas grandes pedras, que ainda ao presente se vêm, de onde a Senhora mandara à mesma pastorinha que o tirasse, porque neste lugar acharia o que fosse necessário para a edificação da sua casa»(1278). Santa Comba da Vilariça. No sítio do termo desta povoação, chamado Ferradoza, havia um povoado que os moradores se viram obrigados a abandonar por não poderem suportar os ataques das formigas que tudo devoravam, tanto os mantimentos nas casas como as culturas dos campos, sem poupar as crianças nos próprios berços. Sesulfe. Diz a tradição ou lenda que a imagem de Nossa Senhora das Flores, venerada numa capela no termo de Sesulfe, concelho de Macedo de Cavaleiros, foi escondida pelos cristãos, quando da invasão dos mouros (1276) Santuário Mariano, 1716, tomo 5, p. 610. (1277) Ibidem, p. 618. (1278) Ibidem, p. 568.

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debaixo de um «monte de pedras, que depois, com o tempo, cobriram de todo as silvas e outras plantas silvestres». Depois da expulsão dos mouros, foi encontrada, não se sabe como, e é venerada com muita devoção (1279). Santrilha. A primitiva povoação deste nome, no concelho de Carrazeda de Ansiães estava situada no lugar chamado Aldeia Nova, de onde seus moradores fugiram por causa das formigas devorarem tudo (1280). Souto da Velha. Santo Ildefonso, orago de Souto da Velha, era pastor de um indivíduo de Felgar, que não queria que deixasse o gado para ir à Missa, e por isso recomendou ao barqueiro do Sabor em Silhares, que não lhe desse a barca. O pastor, vendo a recusa, passou numa cortiça. O amo tirou-lhe a cortiça e ele passou sobre a capa. Em face da teimosia, o amo vendeu o gado, mas o comprador não conseguiu tirá-lo de junto do pastor e só o acompanhou quando o santo lhe deu ordem de marcha, o que levou o comprador a dizer: «Eu é que devia ser o teu criado e não tu o meu» [210]. Enquanto o pastor ia à missa o gado conservava-se sempre quieto em volta de uma cornalheira (arbusto), onde ele pendurava o surrão. Esta cornalheira vê-se ainda hoje de folhagem sempre verde, enquanto que as outras suas congéneres em volta estão sem folha no inverno. O fecundo romancista, dramaturgo e poeta bragançano Doutor Campos Monteiro pôs em verso esta lenda sob o titulo O pastor das arribas (do Sabor) (Lenda transmontana), em A Época de Dezembro de 1923. Torre de Dona Chama. No outeiro sobranceiro à Vila da Torre de Dona Chama onde têm aparecido várias antigualhas romanas e pré-históricas, é que, segundo a lenda, existia a torre habitada por Dona Chama, castelã lúbrica, sempre pronta a dormir com quantos cavaleiros a procuravam e, para que não divulgassem que tinha pernas de cabra, mandava-os matar no dia seguinte. Um mais ardiloso tirou-lhe o anel do dedo enquanto ela dormia e, ao sair, apresentou-o aos guardas do castelo como sinal de aliança com a dama, que o deixaram passar. Quando acordou e deu pela falta, mandou os criados após o fugitivo, gritando-lhe: a dona chama, a dona chama; dando o nome de Dona Chama à vila, mas nada conseguiram, e então ela, vendo-se desacreditada e descoberto o seu segredo, ficou encantada com os seus tesouros e a lira popular a dedilhar: D. Chama chamorra Pernas de cabra Cara de senhora [211]. Tuizelo. Ver Quintanilha. (1279) Santuário Mariano, 1716, tomo 5, p. 561. (1280) MORAIS, João Pinto de – Memórias de Ansiães, § 64.

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Urrós. Entre o Castelo da Bouça de Aires e o Correchá, termo de Urrós, concelho do Mogadouro, há um bezerro de ouro enterrado e quem o achar seu será, mas só pode sair arrancado na ponta da relha do arado. Vale Benfeito. Fica no termo desta povoação, concelho de Macedo de Cavaleiros, a capela de Nossa Senhora do Freixo, nome que lhe veio da Senhora ter aparecido no tronco de um grande freixo a uma pastorinha (1281). Origem idêntica diz a tradição que teve a imagem de Nossa Senhora do Sardão, venerada na igreja de Santa Maria de Bragança, por ter aparecido num grande sardão ou carrasco, sito numa espessa mata deles, que havia no local onde hoje está a dita igreja intra-muros da cidade de Bragança (1282). A propósito devemos lembrar que o nosso Vale Benfeito não deve ser o nobilitado por foral, segundo afirma o Portugal Antigo e Moderno (1283), pois o que lhe atribui, dado por D. Dinis a 19 de Janeiro 1295, certamente pertence a outro Vale Benfeito, quiçá ao da Estremadura, porquanto ao mencionar as confrontações do seu termo, diz: «...desi como er parte con Obidos e con Cedadeira desi como er parte con o mar...», locais que não podem caber no nosso povoado bragançano. Vale Pereiro. Junto à povoação de Vale Pereiro, freguesia de Mascarenhas, concelho de Mirandela, no cume de um cabeço, «donde se descobrem muitos horizontes pela sua grande eminência», está situada a capela de Nossa Senhora do Viso. «Este nome Viso é o mesmo que vigia, e atalaia, de onde se descobrem os campos, e se vigiam os inimigos, para rebater as suas entradas e assaltos». Em volta da capela, coisa de vinte passos de distância, vêem-se restos de fortificações antigas – «muros; e reparos a barbacans», diz o Santuário Mariano, a quem vamos seguindo, «em tal forma, que parece uma fortaleza inexpugnável». Diz a «tradição que a Senhora aparecera a um pastorinho, e lhe mandara dizer aos moradores daquela terra, que lhe edificassem sobre o alto daquele monte hüa ermida, e que em sinal de que esta embaixada era sua, e em credito dela, que naquele mesmo lugar em que se lhe manifestava, arrebentaria huma fonte de agua, e desta ainda hoje se vem vestigios e sinais, já a agua desapareceo, ainda que ha hoje ao presente algumas pessoas que a alcançarão com agua. E o extinguir-se esta fonte pelos demeritos dos pecadores, não é muito, porque se tem visto muitos e se achará nestes Santuarios, que tambem hoje se vem secos» (1284). (1281) Santuário Mariano, 1716, tomo 5, p. 577. (1282) Ibidem, p. 591. (1283) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Vale Benfeito». (1284) Santuário Mariano, 1716, tomo 5, p. 573.

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LENDAS | MACEDO DE CAVALEIROS | MALHADAS

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Valtorno. A padroeira da freguesia de Valtorno, concelho de Vila Flor, é Nossa Senhora da Assunção, vulgarmente chamada Nossa Senhora do Castanheiro, por ter aparecido, segundo diz a lenda, na concavidade de um grande castanheiro, ainda existente junto à igreja, sita a quatrocentos metros do povo, pelo qual é tido em muita estima e veneração (1285). Vilariça. No Castelo da Portela, situado no Vale da Vilariça, ficava a povoação chamada Vilariça, a qual se despovoou, indo seus habitantes estabelecer-se em Moncorvo, porque as formigas invadiam tudo, tornando impossivel a vida humana [212]. Vilas Boas. A Senhora da Assunção, venerada no Santuário de Vilas Boas, concelho de Vila Flor, apareceu a uma menina de dez ou doze anos, curou-a de uma moléstia que padecia, fazendo para isso brotar miraculosamente água de um rochedo que ali havia, com a qual a lavou, e ainda hoje se conserva a fonte. Também perto da capela, na encosta do cabeço, onde está a capela da Senhora, havia um grande seixo muito duro, do qual se extraíam pós de efeitos curativos miraculosos, em razão de ter servido de assento à Senhora nas suas aparições à menina (1286).

MACEDO DE CAVALEIROS «...Somente haver aqui uma chave da igreja do Senhor Sam Pedro que ferrando os animais e algumas criaturas nam se danam em coalquer parte do corpo com a dita chave quente (1287).

MALHADAS Numa excursão a Miranda do Douro em 1910 na companhia dos amigos Doutor Rui Bettencourt da Câmara, secretário geral do Governo Civil de Bragança, e Joaquim Mendes Pereira, intendente de pecuária, encontrámos à porta lateral da igreja paroquial de Malhadas, metida num cunhal da parede, sem prejuízo das letras, a seguinte inscrição: COR PRISCAE ANN. XXXV SILVIVS CALVOS (1285) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Vale de Torno». (1286) Santuário Mariano, 1712, tomo 4, p. 224. (1287) Memórias Paroquiais de 1758. «O Arqueólogo Português», vol. 5, p. 159.

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MALHADAS

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Lápide de granito, muito bem conservada, tendo as letras primorosamente gravadas. Altura 1,71m, largura 0,51m; a grossura não se pôde medir por causa da posição, mas vai além de 0,31m; o corpo das letras regula por 0,06m. Deve ler-se: Cor(neliae) Priscae ann(orum) XXXV Silvius Calvos: ou seja: Sílvio Calvo a Comélia Prisca, falecida aos trinta e cinco anos (1288). Cornélia e Prisca são nomes usuais na epigrafia romana; Silvio e Calvo aparecem nas lápides bragançanas da p. 190, encontradas não longe de Malhadas. No termo de Malhadas «se acham uns vestigios, que indicam ter sido fortaleza, onde chamam a Miramolina, e das suas ruinas se mostra que era grande e é mui próprio ter sido habitação» (1289) [213]. Esta lápide de granito, com 1,46m de altura, 0,54m de largura e 0,10m de grossura, está agora (Abril de 1934) no adro da Igreja paroquial de Malhadas e apareceu junto à porta lateral da mesma igreja, onde estava a lajear o alpendre em frente desta. É ornada por uma suástica de cinco raios e por três arquinhos de ferradura prolongados em linha recta. A inscrição, gravada em superfície rebaixada na lápide, é imperceptível, por gasta ou picada [214]. Ainda no mesmo lajeamento se vê outra lápide, de que só resta a suástica com doze raios. Disseram-nos que metidas na parede de uma casa da povoação havia mais duas lápides, mas não as podemos ver. Estas lápides vieram do sítio chamado Trás da Torre, Cortinha e Toural [215], contíguo à povoação de que falamos no artigo Insculturas (Malhadas). É natural que de lá viesse também a lápide da Prisca.

(1288) Publicámos em primeira mão esta inscrição em O Arqueólogo Português, vol. 18, p. 1. (1289) CARDOSO, Luís – Dicionário Geográfico de Portugal, manuscrito da Torre do Tombo. «Arqueólogo Português», vol. 1, p. 11.

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MALHADAS | MALHO

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Em frente da igreja paroquial de Malhadas, a coroar o cimo da parede de uma casa, há um bezerro de granito, encontrado numa cortinha contígua, de que falámos no artigo Porcos [216]. A igreja paroquial de Malhadas tem uma só nave e pertence ao românico de transição, séculos XII-XIII, com alteração setecentista no arranjo da capela-mor e conserva ainda parte da cobertura primitiva, «coisa extraordinariamente rara em Portugal», diz o Doutor Vergílio Correia (1290). As duas arquivoltas da porta principal, em ogiva de lanceta, são ornadas pelos semi-esféricos besantes, tão vulgares nos pelourinhos e igrejas bragançanas. Na soleira desta porta há uma comprida inscrição ilegível por gasta pelo roçar do calçado. MALHO No termo de Vila Franca, freguesia de Quintela de Lampaças, concelho de Bragança, há um sítio chamado Vale de Malho, onde agora está a estação da via férrea chamada Sendas-Quintela. À beira da estação fica uma grande propriedade da Casa Menéres, que dizem ter umas dez mil árvores, cerdeiras em grande parte, plantadas, e ao pé de cada um sobreiro sementado (já os havia de três palmos, quando lá estivemos em 1932). Diz a tradição, que esta propriedade pertenceu a uma fidalga, a qual, chamando a gente das povoações vizinhas para debulhar o cereal e tendo-se embriagado, desataram à pancada uns nos outros matando-se todos, de onde Vale de Malho, em alusão à dúplice malhada de cereal e corpos humanos. Convém notar que Vila Franca e os seus moradores, envolvidos em feroz rixa, é que se mataram reciprocamente, como consta das Inquirições tiradas pelos anos de 1258 (1291). Também, segundo a etimologia popular, o nome de uma torrente de água, chamada Ribeirinha, que vem de Vila Franca e pouco abaixo entra no Azibo, procede da regueirada coprólita, expelida por um criado da mesma fidalga atacado de diarreia, de cuja magnitude ainda restam vestígios nas escuras águas do regato. A Fonte do Bom-Nome, vulgarmente chamada Fonte do Nome, junto à próxima povoação de Quintela de Lampaças, deve tal classificação à fidalga supra mencionada. Eis como a etimologia popular explica o caso: um pastor do fidalgo de Quintela de Lampaças costumava levar o gado sestear à sombra dos frondosos castanheiros circunjacentes à nascente, onde o amo lhe mandava

(1290) CORREIA, Vergílio, Arte e Arqueologia, 1920, p. 84. (1291) Ver tomo III, p. 291, 358, 359 e 361, destas Memórias.

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MALHO

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o jantar por uma criada, e, como um dia os visse em jogos cupidíneos, vá dar ao arroio o nome de Fonte do C... (1292). Como a fidalga foi visitar o de Quintela, ao passar pelo sítio, encantada da sua amenidade, perguntou ao criado como se chamava; porém este desculpou-se com a obscenidade do nome. A fidalga insistiu e ele não teve remédio senão declinar-lho. Bom nome – contestou ela, e assim se ficou chamando, ou, por brevidade, Fonte do Nome. A pessoa que nos referiu estas etimologias acrescentou ainda que Castro Roupal, povoação próxima, é assim chamado pela roupa de prevenção que aí tinham os mouros para se mudarem quando vinham molhados ao passar na estrada, que por ali seguia, não nos soube, porém, dizer para onde. Esta lenda tem ressaibos das mutationes nas estradas militares romanas. A propósito de Malho julgamos interessante transcrever a seguinte nota de Murguia (1293). Os celtas, como os germanos, adoravam o Deus que não viam, conforme diz Tácito, no recôndito misterioso dos profundos bosques. Lucus erat longo numquam violatus ab aevo Obscurum cingens connexis aere ramis Et gelidas alte submotis solibus umbras segundo descreve Lucano. A estes locais davam os antigos, como aponta Tubin (Essais sur les sanctuaires primitifs) os nomes de Cuma, Coma e Kum, que provavelmente nos toponímicos Santa Comba deixaram o vestígio cultural do bosque sagrado. E como esses povos – continua o mesmo Tubin – se reuniam em centros, ou seja lugares equidistantes o mais possível dos pontos perimétricos da tribo, sob a presidência dos sacerdotes, em tribunas e assembleias da nação, é de presumir que os toponímicos Malho, Malhom e Faramelo, correspondam a outros tantos centros, pois o Malhum céltico significa templo e tribunal. No distrito de Bragança há sítios chamados Malho no termo das seguintes povoações: Alfaião (Veiga de), Bragada, Castrelos, Rabal, Sendas, Sortes, Vila Boa de Carçãozinho (Vale de) e Vila Franca (Vale de), Fornos (Malhós), Edrosa (Rigueiro, consta do Tombo dos Bens do Cabido de Miranda feito em 1501), Vilar do Monte (Fonte dos Malhos), Saldanha

(1292) É o tal órgão em que «mordeu a bespa», a Dona Enxameia Diaz, mencionada no Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, edição do Portugal Monumenta Historica, p. 343, também por nós indicado no tomo Vl, p. 37, destas Memórias. (1293) MURGUIA – Historia de Galicia, tomo 2, p. 539. VITERBO – Elucidário, artigos «Amalhar», «Amolhoar» «Cabo III», «Fiéis de Deus», «Maladia», «Malhom» e «Portelo».

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MALHO | MARZAGÃO

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(concelho do Mogadouro), Felgueiras (concelho de Moncorvo), Urros (Poço do; é neste sítio que se juntam as feiticeiras a bailar), Agrochão (Lombo dos Malhões), Nunes, Passos, Paçó de Vinhais, Peleias, Quiraz, Vila Boa de Ousilhão, Penhas Juntas e Moás (Fraga do). Malhão, Malhões e Malhós correspondem a marcos divisórios de termos, como dizemos no artigo Miranda do Douro e derivam de Mallum ou Mallus, segundo diz Viterbo (1294). que era o tribunal, ou lugar do juízo, o qual se determinava, e fazia nos confins dos litigantes, levantando-se para isto um pequeno monte de terra, ou Arca, que demarcava os respectivos limites, se no mesmo lugar não havia algum monte ou colina» (1295).

MARZAGÃO «Por cima do lugar de Marzagão [concelho de Carrazeda de Ansiães], na serra dêle que se vai despenhar no rio Douro, no mais alto monte dela... está um antiquissimo circuito de parede á maneira de muro em redondo no mais alto do monte, a que chamam Castelo das Donas. Nam se sabe a sua origem, e só ha tradição que fôra aquele sitio castelo, o que ainda se prova por seus piquenos vestigios» (1296). «A igreja tem hum larguo Adro em circuito com muitas comendas das Ordens Melitares para conhecimento dos muitos cavalleiros, que nellas jazem interrados e muitas dellas gravadas em pedra marmore de que o sitio he bem abastado. Foi aquela a villa de Anciaens no tempo dos Romanos Cidade e se denominava Aguas Quintianas como tem monsiú Brusem Lamartinère de nasçam Francesa no seu primeiro volume do seu “Diccionario Geograhico”, foi populloza e nobre, e indicão ainda os seus antigos muros com que ainda se acha morada toda. Está no alto de hum levantado e fraguozo monte, e serra que corre do norte para o sul em distancia de cinquo milhas e finaliza no rio Douro. He circuitada de bons, largos e altos muros e no cima della e do dito monte tem o seu grande e larguo Castello com hüa Torre no ponto mais alto della, chamada da Homenagem: como com mais largueza dirá o Parocho que hora he do Divino Salvador da mesma Villa e cuja tambem o disse quando no estado secular escrevi as antigas notabilidades della em Setembro de 1721 que remetti á Academia Real e della se deram ao R.do Dom Hieronymo Contador de Argote para compor os seus tomos das mesmas notabillidades [217].

(1294) VITERBO – Elucidário, artigo «Malhom». (1295) Ibidem. (1296) Memórias de Ansiães, manuscrito, § 40.

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MARZAGÃO | MASCARENHAS

TOMO IX

Nam ha Minas no destrito da dita Serra (de Marzagão), mas descobriose ha cousa de 60 annos hüa de salitre na praya do dito Rio Douro, no sitio e porto da Balleira, aonde beio um Enginheiro fazer polvora; o que não continuou ou por lhe faltar o salitre, ou pello aspero do sitio. Tem esta terra no mais alto hum circuito de pedra já cahido e arruinado com penedos altos dentro, que se chama o Castello das Donas, por cima das fontes do Duram. E mais adiante já á vista de Campellos está outro Cabeço a que chamem o Castello de Dom Fernando» (1297).

MASCARENHAS Vai na p. 465 a fotogravura da pedra que está no frontão de uma capela em Mascarenhas, concelho de Mirandela, pertencente ao Doutor José Silvério de Campos Henriques de Andrade, médico em Vila Nova de Foz Côa, neto da viscondessa do mesmo título, à qual já nos referimos no tomo VI, p. 762, destas Memórias. Apesar de ser dificílima a leitura por causa das muitas letras inclusas e conjuntas, além de faltarem algumas levadas pelo tempo e outras por omissão do lapicida, aventamos a seguinte, depois de várias tentativas, tendo mesmo consultado J. M. Cordeiro de Sousa, especializado neste tipo de letreiros: Esta capela mandou fazer ho Reverendo Pascoal de Morais de / Mascarenhas. Para (sua) fabrica dota (as) casas que ha na peça que herdara da Saisoial (?) donde he / terra de S. Sebastião, todas as oliveiras que por minha morte tiver, salvo / as que eu reto (?) senhor deixo andem á parte segregadas (?). Do aver se faça um / oficio de seis clerigos pelas almas e dia de S. Senhora do Desterro, se di / gua hua missa cantada ao menos com tres padres dia dos fieis do Deus / se diga missa rezada he se dara doze responsos pelo amor de Deus. Deixo que es / tando ho Senhor Deus encerrado tenha dois lumes nela. Poderá erdar / a dita capela qualquer pessoa que eu nomear e as mais por acordo na eração (herança?) / he faltando algum erdeiro com as obrigações asima perqua a capela / hesta. No mais que (?) he guardado (?) guarde-se o mais que disser no testamento. Era 1520. Morais. A grafia correspondente à era está assim indicada:

que em latim diz: Milesima quingentesimo viginti.

(1297) Memórias Paroquiais de 1758. «O Arqueólogo Português», tomo 5, p. 191.

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MASCARENHAS

465

Fotogravura da pedra do frontão da Capela de Mascarenhas

TOMO IX

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466

MASCARENHAS | MAZOUCO | MEIXEDO

TOMO IX

A princípio ainda entendemos que o pequeno S junto à base do M pertenceria à letra seguinte, dando então sex decimo; mas pode e deve pertencer a milesima. No fim deste tomo trataremos da família Campos Henriques de Andrade, proprietária da capela de Mascarenhas.

MAZOUCO No termo deste povo, «ao pé do rio Douro, ha um velho castelo muito antigo, já de todo arruinado, o qual se chama o castelo do Minguianes (Domingue Anes?), o qual está situado em um aspero penhasco de uma fraga sobre o rio Douro» (1298) [218].

MEIXEDO Apareceu em Meixedo metida dentro de uma parede da casa de habitação de José Queiroga, ao deitarem-na abaixo para a reconstruir. Corpo das letras 0,06m. A lápide está quebrada. As letras em superfície rebaixada no granito. No canto inferior da direita vê-se ainda o resto de um ornato que decorava a pedra. Na primeira linha devem faltar algumas letras, uma talvez no princípio e outra (só outra?) no fim, levadas por quebradura. As letras da 2a linha estão bem claras e legíveis. Dirá: J(uliu)s Muneiae. Ou seja: que aquele monumento foi levantado a Júlio (marido, escravo, filho) de Muneia. No canto inferior da direita há vestígios do bem conhecido ornato chamado arco de ferradura. Publicámos inicialmente esta lápide em O Arqueólogo Português, vol. 18, p. 2. A poente de Meixedo, coisa de três quilómetros desta povoação, na confinança do seu termo com o das povoações de Carragosa, Donai e Vila Nova, fica a Torre do Castro, comum às quatro referidas povoações, também conhecida pelos nomes de Lombeiro Branco e Castro do Tesouro [219]. Está situada no extremo sul de um promontório, que, correndo entre dois caborcos ou linhas de água, termina abruptamente em despenhadeiro quase

(1298) Ibidem, p. 254.

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MEIXEDO | MILHÃO | MIRANDA DO DOURO

467 TOMO IX

inacessível. Tem forma elíptica com cento e setenta e seis passos no eixo maior e oitenta no menor. Ainda apresenta restos de muro no lado sul, que provavelmente o envolvia todo, a julgar do parapeito ainda bem visível. Num e noutro extremo do eixo maior, ou seja a nascente e poente, acrescia à defesa um fosso em cada um. A poente ficava a torre, como diz o povo e o grande montão do pedregulhos inculca, e perto dela uma cisterna ou poço, já muito entulhado, por onde os mouros iam levar os cavalos a beber, segundo diz a lenda, ao ribeiro de Vila Nova, distante algumas centenas de metros, por galeria subterrânea. Há anos foi lá encontrado um cadeado de ferro e uma pia de cantaria. À superfície do terreno vêem-se muitos pedaços de cerâmica, de mós manuárias e de lousa. Deste mobiliário possuímos dois bocais de um vaso grande, de barro vermelho impregnado de areias quartzosas, trabalhados à roda de oleiro; outro também de argila vermelha, pasta mais fina, sem areias, que parece resto de um ímbrice, e um pequeno fragmento de vasilha de barro saguntino (1299). MILHÃO O Castro de Milhão, mais geralmente chamado Castragosa, fica entre o termo desta povoação para nordeste e o de Babe a sudeste, distanciado coisa de três quilómetros de uma e outra. É imponente pela sua defesa natural inacessível, a não ser pelo oeste, onde o guarnece um fosso. A sua área é de 101x90 metros. Têm lá aparecido moedas romanas (1300). MIRANDA DO DOURO Ver o artigo Pré-história, e, quanto ao nenhum fundamento da cunhagem de moeda em Miranda do Douro, consultar O Arqueólogo Português, vol. 10, p. 295, vol. 21, p. 279, e vol. 22, p. 105. Em algumas povoações do concelho de Miranda do Douro fala-se o dialecto mirandês, que «nem é uma corrupção do espanhol, do galego, ou do português, nem é mistura destas línguas; mas, muito pelo contrário, é um idioma à parte, com fenómenos próprios, embora intermédio àqueles; numa palavra, é um idioma regular, como todos os idiomas, e provém directamente do latim que outrora se falou naquele canto de Trás-os-Montes. Eu mesmo encontrei, nas minhas excursões por ali, inscrições e moedas do tempo dos romanos, o que confirma historicamente a minha afirmação» (1301) [220].

(1299) PINHEIRO, J. H. – Estudo da estrada militar romana..., p. 73. (1300) BEÇA, Celestino, O Arqueólogo Português, vol. 20, p. 93. (1301) VASCONCELOS, J. Leite de – De terra em terra, 1927, vol. 1, p. 218.

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468

MIRANDA DO DOURO

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Argote (1302) diz que os Vacceos, povo ibérico pré-romano, mencionado pelos geógrafos Ptolomeu, Estrabão e Políbio, ficavam nas vizinhanças da cidade de Miranda do Douro; todavia, não acha fundamento para uma localização exacta. Aos 27 de Setembro da era de 1335 (ano de Cristo 1297) esteve el rei D. Dinis em Miranda do Douro, e por carta desse mesmo dia, mês e ano concedeu «que os Cavaleiros d’Espada Cinta vyzinhos que morarem por seus corpos en a vila de Miranda sem outro engano com casas pobradas em essa vila seiam, meus vasalos e aiam meus maravidis e que tenham cavalos e armas com que me servham o que non dem luitosa nem na leve ou deles. E outrossi outorgo o tenho por bem que... seiam escusados de todo foro real que soyam a dar o fora posto de darem e de pagarem por razom da pobrança desa vila salvo voz o coomha que a pague o que fezer por que. E outrossi outorgo e tenho por bem, que a dita vila do Miranda seia sempre mynha o que a tenha a mha maão, eu e os Reis que depos myn veeren e que a non de a nenguum eu prestamo nem en doaçom e que as Igrejas dessa vila e de seu termho feitas e por fazer seiam mynhas... E outrossi lhis outorgo que os vizinhos moradores dessa vila, nom dem portagem en todos meus Reinos» (1303). Em Outubro de 1506 veio Fernão de Pina, cavaleiro da casa de el-rei, encarregado de fazer as Inquirições para unificação dos forais, a Miranda do Douro, e aos 28 dias desse mês e ano inquiriu a Câmara dessa então vila «perante Joane Anes e Afonso Roiz Juizes e Joam Vara e Joam Pirez vereadores e Martym Pirez procurador hofyciaes da dita villa e Luys Nunez prioll da dita villa e Alvaro Manhoz e Alvaro Mendez e Alvaro Fereira e Martym Vara e Afonso Barata e Gralldo Pirez homens boõs da camara e Regimento da dita villa... sendo yso mesmo Lourenço Pimentel alquaide presente em nome do Alvaro Pirez (de Tavora)» (1304). Nada apresentam de particular estas Inquirições que não se encontre já nos três Forais de Miranda do Douro (1305), a não ser a circunstância de ter estado ali uma vez el rei quando vinha de Castela (1306). J. Leite de Vasconcelos (1307) transcreve integralmente a demarcação do termo da vila de Miranda do Douro, indicando as suas confrontações,

(1302) ARGOTE – Memórias para a história eclesiástica..., 1732, tomo 1, p. 150 e 160. (1303) Chancelaria de D. Dinis, livro 3° de Doações, fólio 1. Foi publicada integralmente em VASCONCELOS, J. Leite de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo 2, p. 236. (1304) Maço único de Inquirições, n° 12, manuscrito da Torre do Tombo. VASCONCELOS, J. Leite de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo 2, p. 237, onde o documento vem integralmente transcrito. Lourenço Pimentel era o alcaide do Castelo de Miranda. (1305) Ver tomo IV, p. 81 a 97, destas Memórias, onde os publicamos na íntegra. (1306) Este rei seria D. Afonso V, a propósito de sustentar os direitos de sua sobrinha D. Joana ao trono de Castela e da batalha de Toro em 1476. (1307) VASCONCELOS, J. Leite de – Estudos da Filologia Mirandesa, tomo 2, p. 239 e seg.

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MIRANDA DO DOURO

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feita a 15 de Junho de 1538 por Memdafonso de Resende, comissário régio para este serviço, que apresentou o título régio da sua idoneidade em sessão da câmara, «estando hy Pero Copico [Sopico (1308)] e Antonio de Reboreda cavaleiros e juizes ordinarios em esta vylla e asy Francisco Fernandez e Luiz Anriquez vereadores e Diogo de Miranda procurador do Concelho e asy estando hy João Pegas scripvam da camara desta vylla. E asy Fernam Pimentell e Gomez de Buiza homes deputados peras cousas da Camara» (1309). Segue o documento dando com muita minúcia as confrontações do termo da vila de Miranda do Douro, «bem demarcado per marcos e malhões», que regulam pelas apontadas nos forais que demos no tomo IV destas Memórias, desde a p. 81 a 97. Aponta as seguintes povoações da raia: «Avelenoso, Paradella (1310), Infanes, Comstantym, Cycoiro o Sam Martinho d’Angeira» e «em toda esta terra per onde esta vylla vay per terra partyndo os termos com Alcaniças vão sempre postos malhoes de hu cabo ate o outro e já ha anos que os de Castella mudaram hos malhois e se tornaram a concertar e por em seu lugar, e que o Ano pasado hymdo esta vylla corer e prover os malhoes da a Raia como costumam fazer cada hum ano acharam mudado hum só marco antyguo que esta acyma dalldea de Paravella junto de huma rybeira e que este concelho tornou a concertar seu marco no proprio lugar onde sempre esteve e despois os d’Alcanica tornaram a desmanchar e espalhar as pedras do dito malhão e marco que estava no dito lugar» (1311). Como se vê, estes malhões têm uma certa analogia com os marcos romanos de que falámos no artigo Pré-história. Marco e malhão são coisas distintas: marco é uma só pedra; malhão é um aglomerado delas, talvez cobertas ou enterradas com um montículo de terra a segurarem o marco, a escorá-lo. Ainda hoje, nesta minha aldeia de Baçal, os marcos divisórios das propriedades constam de três pedras maiores ou mais pequenas, conforme aparecem: duas chamadas tentos ou fiéis, a ladearem o marco, todas espetadas na terra, ficando metade fora. Em média, estes marcos regulam por 0,30m a 0,60m.

(1308) No fim do documento vem assinado Pero Çapyquo. (1309) Livro do Tombo das Demarcações dos lugares das comarcas de Trás-os-Montes e entre Douro e Minho que estão ao longo da raia estremo de Castela e Galiza, fólio 24 e seg. Manuscrito da Torre do Tombo. J. L. de Vasconcelos publicou integralmente a parte respeitante à fronteira de Miranda do Douro em Estudos de Filologia Mirandesa, tomo 2, p. 239 e seg. Esta demarcação fez-se em 1538. (1310) Muitas vezes escreve Paravella. (1311) Ibidem.

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MIRANDA DO DOURO

Sé de Miranda do Douro

TOMO IX

Aos marcos que dividem os termos de uma povoação das outras chamam Marras, regulam por um metro de altura e todos os anos o povo, reunido em conselho, vai examinar a sua exacta localização, fazendo uma pequena escavação circular em forma de poça do lado que lhe pertence, de forma que as covas são duas, três, quatro e mais (uma por cada povoação), MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


MIRANDA DO DOURO | MIRANDELA

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conforme os termos a dividir são dois, três, ou quatro, e assim a Marra fica um pouco elevada em montículo. À operação de vistoriar e escavar em volta das marras chamam altar. A Sé de Miranda do Douro, em estilo clássico ou renascença, começada pelos anos de 1554, deve-se ao traçado de Miguel de Arruda, membro dessa dinastia de Arrudas, que tão glorioso nome deixaram na arte, e não a Jorge Gomes ou Torralva, como se tem escrito [221]. Ver tomo IV, p. 521 e seg.; tomo VI, p. 521, 613 e 762, e tomo VII, p. 206 e 558, destas Memórias. Miranda é muito interessante pelo aspecto medieval das suas fortificações, constantes de fortes muralhas com portas ogivais [222]; pelas suas casas de habitação, muitas ainda medievais, com janelas de contos, ladeadas de mísulas, avultando entre elas uma na Rua da Costanilha, pornograficamente realista, que, em lubricidade, nada fica a dever ao legado pelos artistas românicos e góticos, lembrados nestas Memórias e particularmente no tomo VII, a propósito do cadeirado do coro das sés de Leão e Zamora (Espanha). As esquinas chanfradas das padieiras e fitos de portas e janelas e as pedras salientes ornamentadas, que se notam em muitos edifícios, documentam a época referida e impressionam gracilmente o visitante.

MIRANDELA «Entrando na vila de Mirandela pelo lado de Bragança, a leste, encontram-se ruínas que vão na direcção de S. Sebastião, onde há restos de sepulturas romanas, seguem depois pelo Mourel, onde há telha de rebordo, moinhos de mão e mais sepulturas, adiante fica a Torre Velha, onde há bancos cavados na rocha, suficientes para poder estar assentadas em cada um duas ou três pessoas» (1312). A Torre Velha, também chamada Castelo Velho, fica dois quilómetros a nascente da vila de Mirandela, no cume de um cabeço de difícil acesso por todos os lados. No ponto onde a defesa natural é menor vêem-se restos de fossos. Noutro alto próximo, denominado São Martinho de Cima, encontram-se fragmentos de louça, tijolos, mós manuárias, cantarias lavradas, pesos de barro, alicerces de casas circulares e rectangulares, e nas fragas pias cavadas artificialmente, com sulcos e buracos para escoamento de líquidos. Apareceu também o fragmento de uma lápide de granito com gravuras ornamentais. As pias cavadas na rocha relacionam-se com as dos (1312) PINHEIRO, J. H. – Estudo da estrada militar romana..., p. 50.

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472

MIRANDELA

TOMO IX

Castros de São Brás, na Torre de D. Chama e de Vale de Telhas, tudo no concelho de Mirandela (1313) e umas e outras talvez com as de Panóias, junto a Vila Real. Estas ruínas ainda foram aproveitadas para efeitos tácticos durante as lutas entre monárquicos e republicanos. Desde as sete horas e meia da manhã às cinco da tarde do dia 9 de Fevereiro de 1919, os monárquicos, estacionados em Golfeiras, Canal e Frechas com quatro peças de artilharia, atacaram os republicanos entrincheirados em Mirandela. Na sexta-feira, dia 14 do mesmo mês e ano, fugiram os republicanos de Bragança na direcção do Vimioso por se aproximar uma coluna monárquica de novecentos homens, que tomou posse da cidade e nela esteve até às três da tarde do dia 19 desse mês de Fevereiro, em que se puseram em fuga na direcção de Rabal, França e Portelo, internando-se em Espanha, por se avizinhar o general Abel Hipólito com a sua divisão, que nesse dia 19 pernoitou em Roças e Sortes. Ver tomo VII, p. 633, destas Memórias, e para a bibliografia deste ataque a Mirandela, ver no mesmo tomo os artigos Pessanha e Vilares, p. 390 e 594. O Doutor João de Barros, falando de Mirandela, diz (1314): «Logo adiante [da Vila de Lamas de Orelhão], está o Rio Tua, que he grande e se vai meter no Douro, junto ao qual está a Villa de Mirandella, com sua ponte muito boa e comprida, que não ha muito que se fez; e ali estão minas de prata, onde ora se tira, e no concelho das Lamas, que he ahi iunto, estão minas velhas, donde em outro tempo se tirou, que vão longe por baixo da terra. Os montes dali são muito suaves, cheios de alecrim, rosmaninho, ruda, macella, manjerona, dormideiras e outras ervas cheirosas, e muito pouco tempo ha que ali se plantarão as primeiras oliveiras, e agora ha muito azeite na terra. Está mais adiante a Villa de Freixiel, onde está hua Comenda de Rhodes, val cc mil reis de renda». A ponte de Mirandela não é romana, como alguns escritores têm dito (1315) [223].

(1313) LOPO Albino, O Arqueólogo Português, vol. 16, p. 96, onde vem o desenho das pias. (1314) BARROS, João de – Geografia de Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes, manuscrito da Biblioteca Municipal do Porto, escrito em 1549 e publicado em 1919 pela mesma Bilioteca, p. 119. Esta obra, escrita em 1549, só foi publicada em 1919 pela Biblioteca Municipal do Porto e é a mesma citada por alguns autores com o título de Antiguidades de Entre Douro e Minho. (1315) Ver p. 200 deste tomo onde damos as características das pontes romanas e medievais.

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MOEDAS ROMANAS, IBÉRICAS . . .

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MOEDAS ROMANAS, IBÉRICAS E VISIGÓTICAS [224] «O aparecimento de moedas romanas dos últimos tempos do Império em um lugar nem sempre é documento suficiente para se dizer que aí estiveram romanos, pois sabe-se que os Visigodos não cunharam moedas de prata nem de cobre, do que é natural inferir que se serviram do respectivo numerário romano, que existia na Península em grande quantidade. As moedas romanas de cobre, de pequeno módulo, abundam de tal modo, que ainda há pouco tempo o baixo comércio na Espanha as aceitava a título de ochavos: vid. Heïs, Monnais des rois wisighots, Paris, 1872, p. 25. A respeito das tegulas farei observação semelhante. Conquanto elas sejam de origem romana, estiveram em uso até tarde; já tenho encontrado em cemitérios da época visigótica sepulturas construídas de tégulas. Para portanto se dizer que tal ou tal estação é romana e não visigótica, torna-se necessário lançar mão de vários critérios e combiná-los: nem só o das moedas ou o das tégulas basta» (1316). Como o ochavo valia dois maravedis e este teve diversas cotações, equivalendo ultimamente à trigésima quarta parte de um real de velon (cinquenta cêntimos de peseta) praticamente pode entender-se que o ochavo corresponde a menos de dois cêntimos da actual moeda espanhola, ou sejam seis cêntimos da actual moeda portuguesa, ao câmbio de três escudos a peseta. O Reverendo José Augusto Tavares, abade de Carviçais, concelho de Moncorvo, diz possuir na sua colecção, organizada neste concelho e vizinhos, uma moeda de ouro do imperador Honório; trinta e sete de prata, sendo três de Augusto, uma de Vespasiano, uma de Galieno, uma de Vitélio, duas de Constantino, uma de Faustina, duas de César, duas de Cláudio duas de Flamínio, uma de Fábio, uma de Víbio, uma de Catão e duas de Rebio; sessenta de bronze, sendo cinco de Trajano, três de Faustina, oito de Constantino, uma de Cláudio (com a legenda em grego), três de Augusto, três de Valeriano, uma de Gordiano, uma de Alexandre, duas de Galieno (com a legenda em grego), uma de Maximino, uma de Constante, uma de Severo, uma do município de Cascanto, além de mais de um cento de outras de prata e cobre incognoscíveis (1317). Esta colecção do abade Tavares, composta de lápides funerárias romanas, moedas, machados neolíticos, cossouros, fíbulas e várias outras antiguidades de grande valor, pertence agora ao Seminário Diocesano de Bragança por dádiva do possuidor.

(1316) VASCONCELOS, J. Leite de, O Arqueólogo Português (1904), vol. 9, p. 278, em nota. Não foi só na Espanha que estas moedas correram, pois GNECCHI – Monete Romane, 1900, p. 33, diz que circulavam noutros países ainda no século XIX. (1317) O Arqueólogo Português, vol. 25, p. 128 e seg.

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474

MOEDAS ROMANAS, IBÉRICAS . . .

TOMO IX

Alfândega da Fé. Nas ruínas do antigo Castelo de Alfândega da Fé foi encontrada uma moeda de prata romana (1318). Algosinho. Em Algosinho, concelho do Mogadouro, entre a povoação e o Castelo do Mau Vizinho, também chamado Castelo dos Mouros, sítio um pouco abaixo do povo, têm aparecido moedas romanas de cobre e prata. Alimonde. Nas ruínas do Castelo de Alimonde, concelho de Bragança, apareceu uma moeda romana cunhada pelo município de Bilbilis (1319). Argozelo. No termo de Argozelo, concelho do Vimioso, foi encontrada uma moeda romana da imperatriz Faustina, mulher de Marco Aurélio (1320). Bragança. Na área onde assenta a cidade de Bragança têm-se encontrado em fundas escavações moedas de cobre romanas (1321). Cabeça de Igreja. No termo desta povoação, concelho de Vinhais, apareceram três moedas romanas de prata (1322). Castelo Branco. No termo de Castelo Branco, concelho do Mogadouro, foi encontrada uma moeda romana de cobre (1323). Gimonde. No Arrabalde, sítio do termo de Gimonde, apareceram duas moedas romanas de cobre. Ver artigo Gimonde. Junqueira. No sítio das Cevadeiras termo da Junqueira, concelho de Moncorvo, além das lápides mencionadas no respectivo artigo, também apareceram moedas romanas de prata e cobre, algumas das quais, segundo nos informaram, foram para a família Pastor, de Vila Flor, e outras para o abade de Carviçais, Reverendo José Augusto Tavares. Lamas de Orelhão. No sítio do Muro, termo de Lamas de Orelhão, concelho de Mirandela, «apareceram muitas moedas consulares, imperiais e góticas» (1324). Paçó. No termo de Paçó, concelho de Vinhais, apareceu uma moeda do imperador Tibério, agora existente no Museu Regional de Bragança [225]. Peredo da Bemposta. No Cabeço do Came, termo de Peredo da Bemposta, concelho do Mogadouro, encontrou Francisco Guerra uma moeda

(1318) Ibidem, vol. 3, p. 53. (1319) Ibidem, p. 100. (1320) Ibidem. (1321) LOPO, Albino, O Arqueólogo Português, vol. 7, p. 14. (1322) Ibidem, vol. 4, p. 154. (1323) Ibidem, vol. 3, p. 53. (1324) FONTOURA, Manuel de Queiroga Carneiro de, O Arqueólogo Português, vol. 7, p. 14.

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MOEDAS ROMANAS, IBÉRICAS . . .

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de prata, tipo ibérico, que em Junho de 1930 ofereceu ao Governador Civil do Distrito de Bragança, capitão Tomás Augusto Salgueiro Fragoso e este ao Museu Regional de Bragança [226]. A moeda tem a seguinte legenda em caracteres ibéricos:

que se lêem da direita para a esquerda e que, segundo Hübner, correspondem, respectivamente aos do nosso alfabeto i-o-p-d-e-m. Dá-se o nome de ibéricas às moedas com legenda em caracteres desta língua (1325). Algumas são bilingues, ou seja com letreiro ibérico e romano, de onde resultou saber-se quais as letras do nosso abcedário correspondentes àquelas, e nada mais se tem apurado até hoje referente ao seu significado ou tradução. Estas não irão além do ano de 206 anterior a Cristo, em que Cipião expulsou da Espanha os cartagineses e Roma chamou a si o direito de cunhar moeda. As outras, parece não irem além do ano 400 antes de Cristo e deverem aos cartagineses a sua introdução na Península Ibérica. Assemelham-se às de Empória, colónia fundada pelos focenses nas costas da Espanha, mas os letreiros pertencem a alfabetos diferentes, apesar da sua tal ou qual analogia. Embora grosseiras, delineiam nitidamente o ideal das figuras copiadas – Minerva, Hércules, Mercúrio, uma cabeça de capacete, e no reverso espigas, peixes, leão, elefante – sendo, contudo, o tipo mais vulgar um cavaleiro armado de lança e palma. Picote. No Castro de Picote, concelho de Miranda do Douro, apareceu uma moeda de cobre do tempo de Augusto (1326). Este Castro foi importante estação romana e também neolítica, como dizemos nos respectivos artigos. Pombares. Junto à povoação de Pombares, concelho de Bragança, apareceu uma moeda de ouro do rei godo Suíntila, que vimos em poder de João Bernardino Ferreira, secretário da administração do concelho de Alfândega

(1325) Sobre o assunto, ver CARDIM, Luís – Caracteres rúnicos e caracteres ibéricos, 1929, separata do fasc. 2, vol. 4, dos «Trabalhos da Sociedade Portuguesa de Antropologia e Etnologia». O Arqueólogo Português, vol. 6, p. 81, e vol. 7, p. 165. HÜBNER – Corpus...; Portugalia, tomo 1, fasc. 4, onde se faz a comparação com diversas letras de alfabetos arcaicos (VITERBO – Elucidário, p. 344, e CAGNAT – Course d’Epigraphie, p. 446, também apresentam letras de alfabetos arcaicos, bem como os tratados de paleografia). ALEMANY Y BOLUFEZ, José – Diccionario Enciclopedico ilustrado de la lengua española, 1931. A título de curiosidade citamos também FERREIRA, G. L. Santos – Alfabeto, 1926, com que foram escritas todas as inscrições ibéricas do sul de Portugal, correspondentes por sua ordem às vinte e três letras do alfabeto hebraico. (1326) O Arqueólogo Português, tomo 4, p.154.

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MOEDAS ROMANAS, IBÉRICAS . . .

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da Fé. O nome deste rei aparece nas moedas escrito de diversos modos (1327); nesta estava gravado o régio busto dos dois lados da moeda e dizia o letreiro no anverso: CHINTILLRE †† e no verso BRLCLRL P. I. S † (Chintila Re (x) pio em Braga). São raras as moedas deste rei cunhadas em Braga. Rio de Fornos. Duas moedas de Augusto César encontradas no Castrilhão, termo de Rio de Fornos (1328). Sabemos que mais moedas romanas têm sido encontradas no mesmo sítio. Sacoias. A propósito das moedas romanas encontradas em Sacoias, ver este artigo. Salgueiros. No sítio chamado Chaira, um quilómetro da povoação de Salgueiros, concelho de Vinhais, encontrou dia 27 de Fevereiro de 1934 o lavrador Francisco Martins ao surribar o terreno para plantio de vinha trinta e dois quilos de moedas romanas [227]. Esbanjou muitas, pois as dava a quem lhas pedia, e quando quatro ou cinco dias depois lá fomos em companhia do Doutor Raul Manuel Teixeira, apenas adquirimos o refugo – 14,315kg num total de 9.372 moedas. Estavam metidas numa grande panela de barro, despedaçada infelizmente pelo descobridor. São todas de bronze (os poucos denarius que havia levou-os o esbanjamento); liga da decadência efectuada com cobre, zinco ou chumbo e pertencem à categoria vulgarmente chamada pequenos bronzes – semisse (meio asse) e quadrante (um quarto de asse) e respeitam a Constantino Magno e aos imperadores seguintes até à queda do império romano do Ocidente. Muitas destas moedas pertencem ao tipo das votivas, abundantemente cunhadas no tempo da decadência romana para comemorar votos públicos em tempos fixos e também os celebrados por ocasião de acontecimentos especiais, atinentes a implorar a protecção dos deuses. Assim, as legendas Vota saluta, Vota V (vota quinquennalia). Vota X (vota decennalia), Vota X et XX (votis decennalibus et vicennalibus), Vota Multis, etc., etc., abundam nestas moedas. No local onde apareceram não se divisam vestígios da civilização romana, embora abundem perto nas povoações de Rio de Fornos, Castro e Ciradelha de Vinhais, apenas o resto de uma esquina de parede, que podia ser de prédio urbano. Gnecchi (1329), apresentando algumas conjecturas determinantes dos depósitos de, moedas enterradas, indica: a) Tesouro de um avarento que morreu sem o utilizar. b) Tesouro público privado ou sagrado, escondido num momento de pânico. (1327) FARIA, Manuel Severim de – Notícias de Portugal, 1781, tomo 2, p. 25. (1328) MARTINS, Firmino A. – Folclore do concelho de Vinhais, p. 279. (1329) GNECCHI – Monete Romane, 1900, p. 34.

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MOEDAS ROMANAS, IBÉRICAS . . . | MOIMENTA

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Tudo leva a crer que se trata de espólio sagrado, constituído por esmolas dos fiéis a santuário pagão ou cristão, porque no caso do avarento ou de monetário para pagamento de obras públicas ou tropas, embora o descobridor guardasse a prata graúda e o ouro, sempre haveria grandes e médios bronzes, que desprezaria, e nada disso aparece, de onde a probabilidade de ser dinheiro de esmolas religiosas. A menos de um quilómetro do local onde se encontram as moedas fica o Santuário de Nossa Senhora dos Remédios de Tuizelo, de que se ignora a origem, mas é muito antigo (1330) muito concorrido de devotos, num circuito superior a cinquenta quilómetros. Este santuário, bem como as capelas dos despovoados, ligam-se sempre a outros pagãos, cristianizados pela Igreja Católica. A respeito do fraco valor das moedas dos Salgueiros, ver o que dizemos no princípio deste artigo. Sendim de Miranda. No termo desta povoação, concelho de Miranda do Douro, apareceu uma moeda de prata ibérica (1331) [228]. Urros. Em 1852 apareceram numas escavações feitas no adro da igreja da Senhora do Castelo, termo de Urros, concelho de Moncorvo, várias moedas romanas de ouro, prata e cobre (1332). Urrós. No termo de Urrós, concelho do Mogadouro, apareceu um denário do tempo de Augusto e uma moeda de cobre do imperador Galieno, agora no Museu Regional de Bragança, por oferta do benemerente João do Nascimento Pires. Vila Nova. Uma moeda de cobre romana, encontrada nas ruínas da Devesa da Vila Nova, próximo a Bragança. No mesmo local apareceu cerâmica romana e mais outra moeda romana do imperador Tibério (1333). Vinhais. Moeda de prata romana encontrada no termo desta vila (1334). Zava. No termo de Zava, concelho do Mogadouro, no cume de um cabeço, há ruínas de fortificações e têm aparecido ali moedas romanas, cerâmica e objectos de bronze. MOIMENTA Coisa de meio quilómetro a sudoeste de Moimenta, concelho de Vinhais, fica a Cigadonha, de configuração triangular, defendida por muro (1330) Santuário Mariano, vol. 5. (1331) O Arqueólogo Português, vol. 3, p. 155. (1332) Ver o artigo Urros. (1333) O Arqueólogo Português, vol. 3, p. 52 e 217. (1334) Ibidem, p. 52.

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envolvente, de que ainda restam largos vestígios, e no vértice do ângulo, caras à povoação, forte parapeito de terra e pedra, provável resto do castelo que defendia a cidadela, demarcada pelo fosso, que um pouco mais abaixo se divisa. É muito espaçosa a fortaleza da Cigadonha; talvez de mais de duzentos metros de altura o seu triângulo e metade a largura da base. O povo chama-lhe cidade dos mouros e têm lá aparecido alicerces de casas [229]. A sua posição táctica foi bem escolhida, pela sólida defesa natural do terreno. Paralelos ao lado poente, há grandes blocos de granito, dispostos de espaço a espaço em linha, e consta que mais havia, mas foram destruídos por um sonhador de tesouros e aproveitados para muros de propriedades. Em nenhum castro bragançano vimos coisa similar, de onde a conjectura, que ousamos aventar, de pertencerem a algum alinhamento ou anta [231]. Caminhando da Cigadonha para a ponte sobre o Tuela, coisa de dois quilómetros dela, fica o Castro de Vale de Pereira, e fronteiro a este, mas do lado oposto do rio, ou seja na margem direita, fica o Castro do Ribeiro do Montouto. Nenhum deles apresenta indícios de fortificações ou de civilização romana: provavelmente não são castros no sentido arqueológico, mas simplesmente pontos escabrosos, a que em algumas partes, como em Montesinho, dão aquele nome. Nas mesmas condições estão Castelares e Castilhão, sítios do termo da Moimenta. Das inculturas no rochedo junto à referida ponte da Moimenta sobre o Tuela falamos no artigo respectivo.

MONCORVO Lápide de granito, encontrada na parede da capela do Roncal, concelho de Moncorvo agora no Museu Municipal do Porto [231], a que desapareceu por quebradura a parte superior e inferior. Altura 0,55m a 0,59m, largura 0,42m, grossura 0,29m, corpo das letras entre 0,06m e 0,07m. Vestígios de pintura a vermelho nos círculos concêntricos e de letras na segunda linha, levadas também por quebradura. O nome Cessea é desconhecido na epigrafia ibérica, MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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embora apareça o de Cesia, que muito se lhe aproxima (1335). Foi publicada por José Fortes (1336) e depois por J. Leite de Vasconcelos (1337). Singulariza-se ainda esta lápide pela ornamentação formada por círculos concêntricos. Lápide de granito, também encontrada na parede da capela do Roncal, concelho de Moncorvo, agora no Museu Municipal do Porto [232]. Altura 0,68m, largura 0,40m, grossura 0,25m, corpo das letras entre 0,04m e 0,06m. É ornada por uma suástica de seis raios dos quais desapareceu a parte superior de dois, levada por quebradura e por dois ângulos rectos que, aproximando-se do lado inferior da suástica, sem lhe tocar, deixam entre os seus traços horizontais apenas espaço para a fórmula D. M. Falta a primeira letra da 1a linha idem na 2a e provavelmente outra adiante do X na 5a linha. Conjuntos o A e N finais da 4a linha. José Fortes, que foi quem inicialmente publicou este texto (1338), leu: D(iis) M(anibus) [S]empro[n]ius Silonis F(ilius) An(norum) X [X ou V, pois é duvidoso] S(it) T(ibi) T(erra) L(evis). Ou seja: Aos Deuses Manes. Semprónio, filho de Silónio, falecido de dez (?) anos. A terra te seja leve. Os nomes Semprónio e Silónio abundam na epigrafia ibérica. Esta lápide foi encontrada em 1845 no sítio chamado Mesquita, cinco quilómetros de Moncorvo, nas ruínas de uma capela dedicada a São Mamede e transportada para aquela vila pelo morgado Francisco Carneiro, que a colocou no seu quintal [233]. Foi publicada inicialmente pelo Almanaque Luso-Brasileiro para 1864, p. 86, e depois por Hübner no Corp. Inscr. Lat. 2. Também se encontra em O Arqueó(1335) HÜBNER – Corpus Inscriptionum Latinarum, vol. 2, p. 659 e 1012. (1336) Portugalia, tomo 2, fasc. 3, p. 479. (1337) VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, 1913, vol. 3, p. 421. (1338) Portugalia, tomo 2, fasc. 3, p. 479.

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logo Português, vol. 2, p. 169, na Gazeta de Bragança do 25 de Junho do 1899, no Portugal Antigo e Moderno e na Corografia Moderna do Reino de Portugal. O Doutor José Leite de Vasconcelos interpreta: Jovi Óptimo Máximo civitati Baniens (ium).... L... lniu (dono) d(edit). Parece que aqui se alude ao município de Banium ou Bania e aos seus habitantes Banienses que figuram na inscrição da ponte de Alcântara. Em Bobadela, na Beira Baixa, aparece uma inscrição publicada no Corp. Inscrip. Lat. em que se lê também o dativo civitati, que parece indicar dedicatória. Num caderno manuscrito – continua José Leite de Vasconcelos – de que vamos extraindo estas notícias, de apontamentos do falecido general Pery vem copiada uma pequena dissertação de Manuel de Queiroga Correia Carneiro de Fontoura, antiquário transmontano já falecido, a respeito desta inscrição, mas – diz Vasconcelos – nem a versão da inscrição está boa, nem as deduções arqueológicas são aproveitáveis: ele supõe que a cidade mencionada no monumento devia ter a sua sede no local, ou perto onde este apareceu; mas sendo Baniensium, como parece, o mesmo nome que lê na inscrição da ponte de Alcântara, não poderá admitir-se tal suposição, pois os Banienses da inscrição alcantarense ficavam, segundo lá se diz, na Lusitânia, ao passo que o aro de Moncorvo ficava na Tarraconense. O referido Vasconcelos transcreve para as páginas de O Arqueólogo Português muitas notícias escritas pelo general Pery a respeito deste monumento, e segundo elas, parece que a tal capela do São Mamede foi templo gentílico de primorosa arquitectura, aplicado também ao culto maometano, como ainda o onomástico Mesquita e meias-luas que aparecem gravados num arco dessa capela indicam, e depois restituída ao catolicismo. Indicando tudo que perto do local houve povoação romana de grande importância. Salvo o devido respeito, parece-nos que bem poderia existir o município Baniense perto de Moncorvo, diferente do que concorreu para a ponte de Alcântara; são frequentes povoados e cidades do mesmo nome. De resto, nestas Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança produzimos vários documentos em que aparecem povos muito distantes a concorrer para construções de pontes. Assim, vemos a Câmara Municipal de Bragança a contribuir em 1697 com 165$000 réis para construir uma ponte em Marzagão, concelho de Carrazeda de Ansiães, distante cento e quarenta quilómetros, de que foram mestres Gonçalo Vaz de Carvalho e Domingos da Silva. Por resolução de 21 de Maio de 1696, atendendo a serem reguengueiros da Casa de Bragança, despachou favoravelmente a Câmara desta cidade o requerimento dos moradores de Rebordãos, que pediam escusa de pagar MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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dezasseis mil e tantos réis, lançados para despesas das pontes de Abreiro e de Mirandela. Pela mesma razão foram dispensados de pagar a finta de 3$500 réis para a ponte do Tuela, no termo de Vinhais (1339). Por sentença de 22 de Agosto de 1631 baseado nos mesmos motivos, já haviam sido escusos de pagar 2$000 réis para reparos nas pontes das Ferrarias, Valbom e Penacal (1340). E por igual motivo se eximiram de concorrer para a Ponte da Pedra termo de D. Chama, em 17 de Maio de 1699 (1341). Em 1619 mandou el rei construir duas pontes sobre o Vouga em Segadoães e contribuir para a sua fábrica, além de outros povos, os concelhos de Miranda do Douro e Moncorvo (1342). O Sr. general Pery acrescentou à dissertação de Manuel de Queiroga as seguintes notícias: «O pedestal com inscrição romana, de que trata o artigo antecedente, foi achado nas ruínas de uma capela dedicada a São Mamede, a uma légua da vila, sendo mandado colocar por o morgado Francisco Carneiro, homem de bastante erudição e ao favor do qual devo estes apontamentos, no seu quintal dentro da vila. Encontrou-se o pedestal em 1845, no ângulo interno da direita, à entrada do arco que fazia a da capela-mor daquele pequeno templo e debaixo de outras pedras de cantaria que se haviam desmoronado das paredes; mas bem se vê que aquele não era o seu lugar primitivo; e como as paredes caíram (à excepção da que fica à esquerda entrando, por o arco de que ainda existe um pedaço), devia para ali ter sido impelido pela violência do desabamento, pois se achou mesmo algum tempo enterrado no entulho, que foi o que infelizmente lhe fez desaparecer as duas linhas que obstam à perfeita inteligência da inscrição. Também poderia para ali ter sido removido o pedestal quando se consagrou o templo ao culto católico. Da dita capela não existe de sua primitiva arquitectura romana mais do que os restos da parede do lado norte, fazendo ângulo com a do poente, onde estava o arco ou entrada do templo para a dita capela-mor, e cuja parede (romana) teria ainda dez a doze palmos de altura. O arco que dava entrada para o templo do lado do poente, era de um lavor primoroso de florões, e em volta destes uma tarja de um outro lavor mais miúdo, muito bem feito: e assentava em duas meias-colunas, das quais existe ainda uma em pé, com os pedestais e capitéis da ordem coríntia, de uma grande perfeição. Vê-se com evidência que o edifício é de origem romana, que era con-

(1339) Registo maior n° 1 da Câmara Municipal de Bragança, manuscrito, fólio 132. (1340) Ibidem. (1341) Ibidem. (1342) VITERBO, Sousa, O Instituto (1919), p. 335, onde vem integralmente publicada a ordem régia.

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sagrado a Júpiter, e que depois foi convertido em templo católico. Parece que os mouros o converteram em mesquita, porque nalgumas pedras da parede se vêem uma espécie de meias-luas: além disso, a tradição fez com que o vulgo chamasse àquelas ruínas a “Mesquita” [234]. Em torno da capela e diversas distâncias vêem-se várias escavações talhadas nas fragas, que parece terem sido sepulcro dos romanos. Numa das fragas vê-se cavada na mesma uma figura, que parece representar uma cobra de oito ou nove palmos. Ao norte da capela há um enorme rochedo, para o qual se sobe por uma larga rampa, que parece natural, se bem que nalguns sítios se conhece ainda que ali trabalhou picareta ou outro instrumento: no cimo do dito rochedo, em diferentes pontos, se vêem escavações de várias formas. Por todos os arredores da capela aparecem pedaços de telhas muito grossas, vêem-se pedaços de paredes, bocados de mós de moinhos de mão, aqui e ali espalhados bocados de cantaria faceada; com especialidade na base do lado do sul do grande rochedo, se vêem dois montões de cantaria faceada. Tudo isto demonstra que ali houve antigamente grande povoação. Encontram-se nalgumas casas próximas daquele sítio e especialmente na estalagem das Silveiras, no cunhal de uma das portas, uma inscrição latina. Perto da ponte do Sabor, na margem esquerda, há um edifício de ordem toscana, sem dúvida templo gentílico, do género daqueles a que os romanos chamam aedicula, que não tinha portas. Por cima da entrada deste edifício há uma inscrição de difícil leitura, no meio da qual se divisa um F inverso; deste modo F; F de onde se vê que o letreiro ou foi feito por algum operário que não sabia escrever ou é da época romana, do tempo de Cláudio César; porque o F foi uma das letras que este imperador acrescentou ao alfabeto, como diz Suetónio na sua Vida, cap. XLI; e foram usadas por alguns, porém só no tempo do mesmo Cláudio, valendo então F por V consoante, como dizem os autores que trataram deste assunto [235]. A arquitectura deste pequeno edifício, e também a sumptuosidade do templo, convertido em capela de São Mamede, são uma prova incontestável de que próximo houve uma importante povoação romana» (1343). Em nota, acrescenta o Doutor José Leite de Vasconcelos: «Certamente muitas das afirmações manuscritas precisam de rectificação: mas eu não estou no caso de a fazer, pois, conquanto já andasse em tempo por aqueles sítios, não examinei os monumentos de que se trata».

(1343) Do General Pery, transcrito em O Arqueólogo Português, vol. 1, p. 168 a 170, onde vem uma fotogravura da lápide.

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Nas Memórias Paroquiais encontra-se mais a seguinte notícia referente a esta capela, de São Mamede: «Aos confins dêste termo [dos Estevais] decendo para a ribeira de Villariça, está hum sitio chamado Sam Mamede, donde se acha huma capella de pedraria munto bem feita, porem coasi distruida, que apenas tem algumas paredes, e dizem ser obra dos mouros e o que ha de admiraçam he que a vista, ou tudo o que se avista desta capela nam fazerem mal algum os bichos peçonhentos, outros, porem, dizem ser virtude de Sagregório (sic) que fica a sua capela pela parte de cima, como diz no parrafo treze» (1344). É possível que este sítio de São Mamede seja aquele povoado extinto, de que fala o documento n° 105 que publicámos no tomo IV, p. 299, destas Memórias [236]. «Foi esta villa da Torre de Moncorvo antigamente situada entre o Rio Sabor e a Ribeira Villariça em hum Outeiro que dista do Lugar em que agora tem o seu assento huma Legoa; ainda hoje naquele sitio se vem os muros parte de huma Torre e outras mais reliquias da sua antiguidade; e ali se chamou a villa de Santa Cruz. He tradição que se mudara daquele sitio pela multidão de formigas, que não só fazião damno consideravel em todos os viveres mas aos mesmos viventes lhes causavão notavel oppressão; rezolvendo-se a evitar estes incommodos foram para o pé do monte Reboredo aonde havia huns cazaes de que era senhor hum homem chamado Mendo, o qual dizem que na sua caza tinha huma torre, e domesticando nela hum corvo lhe ficarão chamando Mendo do Corvo. Junto á villa ha a capella de São João Baptista aonde está instituhida a notavel confraria dos cavalleiros que todos os annos tem obrigação de festejar ao mesmo santo, fazendo uma Mourisca de a cavallo na manhã do seu dia, para o que os seus estatutos mandão que cada confrade tenha cavallo proprio e decente para festejos e soccedendo que algum por infelicidade na sua sorte se ponha em termos de não ter com que o comprar são obrigados todos os mais por força do mesmo estatuto a concorrerem para a sua compra, e por ser esta confraria tão ilustre tem uma Provisão Regia para se lhe dar, todos os annos do rendimento do concelho 4$000 reis para refresco dos cavalleiros em hum pucaro de agoa que se dá no dia do mesmo Santo, porem todos os Capitaens (que são os que por sua conta fazem o festejo)

(1344) Memórias Paroquiais de 1758. «O Arqueólogo Português», vol. 4, p. 145. Ver o artigo Cabeça de Mouro.

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costumão deixa-los de esmola para a confraria dando elles á sua custa magnificos banquetes. Nesta confraria só entram pessoas de colificada nobreza. No simo da Serra está situado hum lugar que chamão Felgueiras: e na raís da parte do sul outros dois, hum chamado Massores, outro Assoreira. Nascem dela muitas fontes e regatos de agoa excelente: a mais selebre he a que se chama fonte do gogo, que está no principio da Serra para a parte do sul, da qual muitos tem certeficado que na noute da vespera de São João Baptista, estando com pouca agoa até a meya noute chegada esta hora entra a lançar com muita abundancia athe o nascer do sol, e lavandosse nella varias pessoas dizem tem espirimentado melhorias nas suas infermidades. He abundante esta Serra em mineraes de ferro» (1345). Já Barros (1346) refere a mesma lenda respeitante às formigas. Diz ele, prosseguindo na descrição do distrito de Bragança: «E logo está Vila Frol, junto da qual está o grande valle a que chamão Villariça, onde ha muito pam e muito linho canamo... Alem do Valle está a Villa da Torre de Moncorvo, e tem a Villa da Torre hua Igreja que ha 40 annos que se começou e não he acabada e sempre trabalhão nella; he de bobeda. E tambem tem hu Chafariz de mais de quarenta palmos de alto que deita quatro canos no meio da Praça. Tem o concelho da Villa da Torre oitocentos mil reis de renda. Abaixo do qual está hua Villa despovoada, a que chamão Derruida, que dizem que as formigas a fizerão despovoar, como conta Plinio de outras que forão detruidas de ratos. Na Derruida está hua ponte de mais de cem covados de alto e vem o Douro [deve ser o Sabor e a respectiva ponte, mas no manuscrito está Douro] e passa por sima della. Junto da Derruida está hua Igreja mui antiga que fizerão os Mouros. He agora Sam... (1347); tem muitos letreiros em pedras» (1348) [237]. Parece que Derruida, São Mamede e Vila de Santa Cruz coincidem ou se equivalem geográfica e arqueologicamente [238]. Mendes da Silva repetiu a lenda. Diz ele: «Fundóla el Rey Fernando Primero de Castilla, y Leon, cognomento el Magno, años 1040 nombran-

(1345) Memórias Paroquiais de 1758. «O Arqueólogo Português», vol. 8, p. 218. (1346) BARROS, João de – Geografia de Entre Douro e Minho e Trás-os-Montes, 1919. (1347) Falta o nome em todos os manuscritos conhecidos da obra de Barros. (1348) BARROS, João de – Geografia de Entre Douro e Minho..., p. 119.

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MONCORVO

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dola Santa Cruz, em diferente sitio, que multitud he hormigas obligó a desanpararle. Mudó la poblacion el Rey D. Alonso Segundo de Portugal año de 1216 al Monte de Corvo donde provino al corriente apellido. Despues fabricando el Rey Dom Dionis la famosa torre se compuso mas la voz, como al presente permanece» (1349) [239]. Sobre o assunto dizia Carvalho em 1706: «o certo é que esta Villa [de Moncorvo] se fundou das ruinas da Villa de Santa Cruz, que foi povoação antiga, assentada em hüa iminencia entre o rio Sabor, e ribeira Vellariça, e onde ainda hoje se conservão os vestigios de muralha, casas e igreja com o nome de Derruida, huma legua de Moncorvo referindo-se por causa deste destroço, ou ruina, ou falta de aguas (pois não tem na sua circumvalação fonte alguma) [240], ou á importuna molestia das formigas» (1350). Como obras de arte, destacam-se em Moncorvo a igreja paroquial e o púlpito da Misericórdia. Aquela (obra de século XVI, segundo indicam os cronogramas das portas laterais – 1562-1567) [241] é de três naves, divididas por colunas cilíndricas, das quais arranca o tramo de nervuras, sustentáculo da abóbada. O frontispício, dividido em três corpos, termina numa só torre sineira, coroada por balausIgreja matriz de Moncorvo trada, é ornado por estátuas de santos nos intercolúnios, lucarnas e janelas. Seis robustos esporões por lado, terminados em coruchéus historiados, consolidam exteriormente as altas paredes do templo, correndo-lhe ao longo o canal que expele as águas pluviais por gárgulas de

(1349) MENDEZ DA SILVA, Rodrigo – Poblacion General de España. Madrid, 1645, p. 185. (1350) COSTA, António Carvalho da – Corografia Portuguesa, 1706, tomo 1, p. 419.

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MONCORVO | MOURÃO

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figuração grotesca. O conspecto geral do monumento é imponente e majestoso, embora pesado, segundo impunha o cânone arquitectónico do século XVI. No seu mobiliário avultam alguns paramentos: um cofre de madeira com embutidos; uma custódia renascença e o interessantíssimo tríptico gótico, figurando em talha episódios da vida de Santa Ana e de São Joaquim, seu esposo [242]. O púlpito da Misericórdia está do lado de fora desta, junto à porta principal, exposto ao tempo. É obra da renascença, bem como a fachada da igreja. É todo de granito, oitavado, com imagens de santos em cada lado [243]. O pé, também octogonal, apresenta ornatos em série ao longo das faces e folhas de acanto ornamentam a base [244].

MOURÃO Falando de Mourão, concelho de Vila Flor, dizem as Memórias Paroquiais: «Sertefico em como tudo o Referido asima he verdade e Púlpito em granito nam achey mais couza de da Misericórdia de Moncorvo sustancia nem notavel de que se faça memoria, mais do que estar esta povoaçam defronte de hum cabesso que se chama Cabeça Morada sito no destricto de Vale de Torno e distante huma Legoa desta povoaçam. Ha outro destricto ou sitio a que chamam Lubazim e por intunumaza se dis deziam os Mouros coando foram expulçados destas terras: Cabeça Murada e Val Lubazim munto ouro e prata fica em ti. Donde infiro que por se chamar Mouram esta povoaçam e ficar em meio dos dous sitios já referidos seria abitaçam em algum tempo de Mouros e como de Mouram para Mourama só lhe falta á, seria falta dos Escritores ou quererlhe calar os Moradores» (1351).

(1351) Memórias Paroquiais de 1758. «O Arqueólogo Português», vol. 5, p. 346.

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MOURAS E TESOUROS ENCANTADOS

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MOURAS E TESOUROS ENCANTADOS [245] Quando os mouros, pela força das armas cristãs, se viram obrigados a largar as nossas terras, deixaram lindas mouras encantadas em guarda a seus tesouros, até que um dia, vencedores, pudessem vir tomar conta deles, como diz a mitologia popular. Em geral, as encantadas mouras vivem em rochedos, fontes, rios, poços, castros, castelos, ruínas antigas, montes, cabeços, locais em suma sempre assinalados por vestígios de civilizações extintas, pré-históricas ou luso-romanas em maioria, e as suas habitações têm particular interesse, porque constituem ponto seguro, onde os investigadores arqueológicos devem dirigir de preferência as suas pesquisas. Daqui a necessidade de inventariar tais lendas. A crença das mouras encantadas em rochedos, montes e fontes é, no fundo, um vestígio do culto pagão, que deificava as águas e fontes, fazendo-lhes sacrifícios e ofertando-lhe flores. Tais usanças, de resto bem conhecidas, acham-se constatadas na Ode IX, lib. III, de Horácio, e no adágio: si aquam hauris, puteum corona. Também deve englobar o culto das ninfas, espíritos divinos, que residiam nos bosques, montes, rios, fontes e águas (1352), o das Deusas-mães, dispensadoras da abundância, protectoras dos campos, fontes e lugares (1353) e o das fadas (fatae), que ainda hoje encantam e povoam de sonhos atraentes a humanidade ingénua. Todas estas divindades eram do género feminino e de carácter benéfico, tique que ainda conservam as mouras encantadas, ao contrário das lendas das feiticeiras, em que o povo consubstancia divindades de carácter maléfico. As ninfas simbolizavam as forças naturais, a renovação criadora da vida, e os sátiros, peludos, brutais e feios, e os faunos, lascivos, musculosos e queimados pelo sol, perseguindo-as através das florestas, o contraste entre a frágil beleza feminina e a força vencedora e fecundante masculina. A arte explorou largamente este assunto em maravilhosas obras de escultura, arquitectura e pintura e não menos nas de literatura (1354). É também possível que na crença das mouras encantadas subsistam destroços do culto prestado ao Genius Loci, divindade que tinha a seu cargo proteger os lugares e sítios do termo, como os escritores e textos epigráficos largamente mostram. Para desarreigar esta crença, a Igreja pôs as diversas freguesias e povos sob a invocação de um santo do seu calendário, padroeiro do lugar; v. g. São Romão, padroeiro de Baçal; São Cipriano,

(1352) VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, 1905, tomo 2, p. 192. (1353) Ibidem, p. 175. (1354) Ibidem. CAMÕES – Lusíadas, IX-70.

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MOURAS E TESOUROS ENCANTADOS

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padroeiro de Aveleda, etc., nome oficial com que passaram a designar-se os povos de Baçal e Aveleda, dos respectivos oragos ou padroeiros, correspondentes no passado mitológico ao Genius Loci. O povo, não tão agudo em teologias, concretizou na raça dos últimos conquistadores, que mais feriram a sua imaginação – os mouros e mouras encantadas – os usos e costumes de um passado esplendoroso, empolgante de poesia e sugestão, que enquistou na raça e segue através dos séculos sob a forma de lenda e simbolismo. O tesouro encantado guardado pela moura tem no distrito de Bragança as seguintes formas: porca de ouro (Vilarinho da Lomba); barras de ouro e carneiro de ouro, com o seu chocalho (Sendas); figos de ouro (Campelo); lança de ouro (Carrapatas); cabra com pelagem de ouro (Cortiços); galinha com pintainhos de ouro (Ferreira, Macedo); jogos de paus com tentos e bolas de ouro e sino de ouro (Podence); menino de ouro (Navalho). A moura encantada, quando aparece a alguém a pedir que a desencante, apresenta-se sempre como mulher linda, trajada a primor, ostentando na cabeça cabelos e pentes de ouro. Depois, no acto do desencantamento é que surge em figura de cão, metade homem, metade cabra, leão, serpente, etc., sendo estas duas últimas as mais frequentes. Por brevidade, para não estar a descrever ao pé de cada local a respectiva lenda, damos aqui as variedades de formas em que elas se apresentam, bastando uma leve referência nesse local para se entender qual a lenda correspondente. Temos pois as seguintes formas de encantos: 1a – A moura está muito resignada com o seu encantamento; não procura desencantar-se, entretida como está na guarda dos imensos tesouros a seu cargo e na tecelagem em teares de ouro, que francamente ouvem bater (e ainda é quando é, pois poucos felizões têm essa dita), na manhã de São João (24 de Junho). 2a – A moura encantada, linda como os amores, aparece a pentear-se com pentes de ouro, antes do nascer do sol, na manhã de São João. O feliz que a vê deve dizer-lhe: «Mourinha, dá-me da tua riqueza e eu te darei da minha pobreza». A moura indica-lhe então a forma de a desencantar e promete dar-lhe quanta riqueza quiser, podendo mesmo ir com ela para a mourama e viverem lá felizes. Pelo geral, diz-lhe: que esteja ali à meia-noite de certo dia, que ela aparecerá sob figura terrífica, e que não se assustando, nem tem de quê, pois nenhum mal lhe fará, terá quanto deseja; que intimidando-se, e não aguentando a pé firme a investida da figura terrífica, desaparece tudo e lhe dobra o encanto por mais sete anos. A maior parte das vezes, a moura vem em figura de leão, de serpente, que tenta enlaçar-se no desencantador e beijá-lo na boca. Ninguém ainda se resignou MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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a tanto; todos fogem aterrados, e, por isso, as mouras encantadas continuam penando ou, melhor, poetizando as ruínas. Além do leão rugidor e da serpente voraz, as transformações da moura podem revestir as formas de tigre sanhudo, lobo feroz, touro bravio e mil outros animais por este teor. 3a – Nem se ouve tear, nem se vê moura; aparece simplesmente um infindável cordão de ouro à beira da fonte, do regato ou na boca do que lá foi beber água. Quem o encontra, começa a dobar, a dobar, a dobar sempre, horas e horas, sem lhe ver fim. Por último, cansado de tanto dobar, porque se faz noite ou porque lhe foge o gado ou por outro qualquer motivo, entendendo que já tem riqueza bastante para si, filhos, netos e tataranetos, corta o cordão. No mesmo instante, ouve-se a voz a desaparecer da moura, que clama dolente: «Ah! ladrão, que me dobraste o encanto». O cordão dobado converte-se em carvão ou esvai-se, e nada mais se vê. Outras vezes aparece uma mulher linda, como que a chamar a atenção para o sítio, e quando o que a vê para lá se encaminha, acha apenas o cordão de ouro, que trata de recolher; mas, ou porque não pode com tanto novelo já dobado, ou porque se lhe quebra com o peso, desaparece tudo. 4a – Também não se ouve tear nem se vê moura; simplesmente há no local duas enormes panelas: uma de ouro outra de peste; abrindo-se esta, mataria meio mundo. Na incerteza de qual delas será a do tesouro, ninguém se atreve a tocar-lhe. Ver o artigo Caravela, onde há outra variante desta lenda Parece que há nas lendas das mouras e tesouros encantados um fim moralizador, instrutivo e educador. Assim, na Fonte de Vilarelhos (Alfândega da Fé) e noutros lugares, a moura deixa de fornecer ao seu protegido os seis vinténs diários, porque não guardou segredo. Em Sendim da Serra (do referido concelho), promove-se a destreza e agilidade com o golpe do ovo na cabeça da serpente e arremesso das calças à fenda do rochedo, que se abre e fecha repentinamente. Em Espinhosela (Bragança), o tesouro, que só pode ser arrancado pelas arranhadelas das cabras (noutras partes é pela rabiça do arado), aconselham a cultura pecuária e agrícola. Em Edroso (Vinhais), a pastora que recusa o tesouro, por não saber como explicar aos pais a proveniência de tal dinheiro, exemplifica a honestidade do proceder. Em Quiraz (do mesmo concelho), o tesouro foge do lavrador, porque solta palavras obscenas. Nos pontos em que o tesouro se esvai ao falarem em Deus, não se indicará a dificuldade da salvação para os ricos, segundo o texto evangélico: é mais fácil entrar um camelo pelo só da agulha do que salvar-se um rico? Confirmará esta hipótese o tesouro guardado pelo diabo em Agrobom, Labiados e Vilas Boas, dado que do diabo nunca vem coisa boa? A moura e o tesouro que só podem ser desencantados pelo que não se assusta na presença do leão ameaçador ou ante a serpente que tenta MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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enleá-lo, não estarão preconizando a coragem, sangue frio e presença de espírito? A que sai na fonte em cordão de ouro, não ensinará a necessidade da perseverança, como condição de êxito nos humanos empreendimentos? A figura atraente em que a moura encantada aparece a sugestionar o homem para que a desencante, contrastando depois com a terrífica no acto do desencantamento, não inculcará os trabalhos em que as blandícias femininas metem o homem que as escuta? A moura encantada a tecer em tear de ouro e a estender barrelas e meadas desse metal ao sol, não indicará a salvação nacional pelo cultivo das indústrias domésticas pelo tipo que deve realizar a mulher, que é mulher (1355), sabendo-se, como diz o rifão popular, que quem tece e fia ouro cria? Segue a relação dos sítios do termo no distrito de Bragança a que andam ligadas lendas de mouras encantadas: Alfândega da Fé (concelho de). Há lenda da moura encantada e de tesouros encantados em Agrobom, no sítio chamado Fontainhas, onde aparece a moura a tecer em tear de oiro na manhã de São João (24 de Junho), e por isso chamam ao sítio Fraga da Tecedeira e ainda Mourim. O tesouro consta de um lagar de oiro. Diz a lenda que para o desencantar já lá foi um padre com o povo fazer esconjuros e rezas. Apareceu o diabo escarnanchado na ponta do peso do lagar, declarando como que violentado e com a horrenda cara de quem é: «O tesouro aqui está; onde queredes que vo-lo apresente?». Tudo fugiu aterrado e o diabo desapareceu com o lagar, sem mais haver notícia dele. Também no sítio da Encruzilhada, entre Agrobom e Felgueiras, é onde se reúnem as feiticeiras, e perto há uma moura encantada. Na Fonte de Vilarelhos, termo de Alfândega da Fé, há um encanto. Um pobre jornaleiro viu lá a moura, soube-lhe falar e ela prometeu dar-lhe quanto pedisse. Declarou ele que seis vinténs por dia lhe bastavam. «Está bem, volveu-lhe a moura, cá os encontrarás debaixo de uma pedra, se vieres buscá-los ao dar da meia-noite». Assim sucedeu: o homem não se esquecia de ir à fonte e os seis vinténs lá estavam. Vivia bem; não trabalhava; os vizinhos admiravam a sua ventura; os camaradas chamavam-no quando iam para o trabalho, mas não mais os acompanhou. Um dia, aborrecido do convite dos colegas, declarou-lhes, soberbo: que não ia, nem precisava ir, enquanto a Fonte de Vilarelhos lhe desse seis vinténs por dia. Na noite seguinte voltou à fonte, mas os seis vinténs não estavam lá e nunca mais apareceram, por quebrar o segredo que a moura lhe mandara guardar. (1355) Busca a lã e o linho e manufactura-os para indumentária da família, Provérbios, 31-13.

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Em Covelas, freguesia de Sambade, no sítio chamado Fraga da Moura, há uma moura encantada e um cordão de oiro. Idem (1356) no chafariz de Souto Redondo, termo de Eucísia, onde os mouros levavam os cavalos a beber; no Ladairo, termo de Gebelim, e também na Fraga dos Mouros. Idem no Castelo, termo de Picões (há pedregulhos e restos de muros); na Fraga da Moura, na Fraga da Tecedeira e no Pio, tudo termo de Sambade, na Fonte de Navalheiros, termo do Sardão; no Monte do Concelho, termo de Sendim da Ribeira (há restos de uma capela e uma torre com sineira). Na Cortinha da Ermanda, também termo de Sendim da Ribeira, há uma moura encantada que apareceu a um rapaz, prometendo-lhe imensas riquezas. Para isso, devia o rapaz meter as suas calças no meio de um rochedo que se abria por artes mágicas e se fechava seguidamente, e também de atirar com um ovo à cabeça de uma cobra que sairia rapidamente contra ele. O rapaz devia guardar segredo, nada revelando de quanto lhe disse a moura, mas não teve paciência; jubiloso, como estava, com a riqueza prometida pela moura, declarou tudo. «Ah ladrão, que deste cabo da tua fortuna», disse-lhe o pai quando soube das inconfidências do filho. E, na verdade, o fragueiro não se abriu e nunca mais viu a moura. Na Fraga do Gato e na Fraga da Moura, termo de Parada, lenda da moura e dos tesouros encantados. A Fraga da Moura «em certos dias de Inverno deita fumo, e às vezes tão espesso que chega a ver-se à distância de quinhentos metros» (1357). Corre perto o Ribeiro do Poio, onde há os Penedos Ruivos e uma queda de água de quinze metros de altura. Ainda no termo de Parada fica o Castelo da Marruça, onde há restos de muros e perto a Fraga do Castro, onde por várias vezes os sonhadores de tesouros têm feito largas escavações sempre em vão. Idem em Vale das Cordas, termo dos Vales da Vilariça (há ruínas de uma capela, cacos, telha e restos de muros; «foi povo de mouros», diz o nosso informador, acrescentando mais que, aparecia aqui um bicho aos pastores que, acometido pelos cães, os amimava deixando estes de ladrar. Iam lá os pastores e não viam nada. «Era um encanto que não apareceu a ninguém, por não saberem falar-lhe». Idem nas Casas Brancas, termo de Vale de Pereiro. «Estas casas, muitíssimo pretas, por sinal, são os alicerces de uma aldeia mourisca. Percebem-se ali os restos de algumas casas, que não puderam ser acabadas por causa

(1356) A palavra idem, quando se não indique outra coisa, significa apenas que ao sítio se aplica a lenda da moura encantada a tecer em tear de oiro na manhã de São João (24 de Junho) meadas de igual metal. Pelo mesmo teor é a lenda da moura encantada, quando se não diz outra coisa. (1357) VILARES, João Baptista – Monografia do concelho de Alfândega da Fé, 1827, p. 510.

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da expulsão dos mouros. Ali ficou uma moura encantada em horrorosa serpente, e se algum mortal tiver coragem e tempo de dizer certas palavras sacramentais, a cobra desaparecerá para dar lugar a uma moura» (1358). Idem na Fraga da Moura, termo de Vila Nova, freguesia de Sambade; na Fraga da Tecedeira, termo de Vale Pereiro; na Fontela da Moura, termo de Vilarelhos. Tudo no concelho de Alfândega da Fé. Bragança (concelho de). Em Vale de Castro, termo de Alfaião, há ruínas de mouros, fossos e lenda da moura encantada. Em Sumidague, sítio do termo do mesmo povo, também há igual lenda. Idem no Castro, termo de Baçal, onde há restos de um recinto quadrangular fortificado e de uma torre a poente; no sítio de Pelame, termo de Viduedo. Na Pena do Gato, termo do mesmo povo, há duas panelas de dinheiro, que só podem ser arrancadas pelas cabras a arranhar. Idem (1359) em Chibarbos e no sítio de Cercas, termo de Caravela; no Vale, termo de Carragosa; no Pacio, termo de Carrazedo; em Vale de Novais, termo de Coelhoso; na Peneda dos Corvos, termo de Conlelas; em Vale de Vinhas, termo de Espinhosela. Na Fraga do Corvo, também termo de Espinhosela, além da lenda da moura encantada, há uma calçada feita de pedras roladas como as do rio e vestígios de fortificações antigas. Na Ladeira do Pingão, também termo de Espinhosela, há um tesouro encantado, que só pode ser desencantado, isto é, descoberto pelas cabras a arranhar na terra. Ainda no Curral dos Mouros, termo de Espinhosela, há um grande tesouro encantado, que, entre outras jóias, compreende uma mantilha de ouro. Lenda da moura encantada no Sagrado, na Igreja Velha e no Monte Branco, sítios do termo de Donai; na Pena Gouveia, termo do Faílde; nas Fragas do Castro, também ditas Feira dos Mouros, e no sítio do Castelo, termo de Formil; na Pena do Mouro, termo de Fontes Barrosas; na Torre Velha, termo de Grandais (1360); na Rabona, termo de Grijó de Parada; em Cobreiros, termo de Izeda; no Gato, termo de Labiados, onde há muitíssimas riquezas encantadas e montões de pedras, que parecem restos de fortificações. Nos Lagares, sítio do termo de Labiados, há montões de pedras roladas, que evidentemente vieram de outros sítios. A mesma lenda nos Confurcos, termo de Martim, onde ressoa muito, como se fosse oco por baixo da terra. Idem em Aveleda, termo de Nogueira, ao sopé do

(1358) Ibidem. (1359) Idem, neste artigo e seguintes, referentes a mouras encantadas, quer dizer, a mesma lenda há em... – e sempre se entende que no local há grandes tesouros escondidos de que a moura é guarda. (1360) É comum a Castro de Avelãs e a Grandais.

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outeiro da Senhora da Cabeça, nome que lhe vem da capela aí erecta a Nossa Senhora sob aquela invocação. No Vale de Sio, termo de Parada de Infanções, saiu uma moura encantada, metade homem e metade cabra, a um tal António Alves, dizendo-lhe: «Anda cá, António Alves, que levarás para ti, filhos, netos e tataranetos»; mas o homem assustou-se, fugiu e o encanto sumiu-se. Idem no Salgueiro, termo de Pinela; no Castelo, termo de Pombares; na Poça, termo de Quintela de Lampaças, onde aparece cerâmica romana e mós manuárias; na Tecedeira, termo de Rebordaínhos; na Cova da Felgueira e na Troncada, termo de Refoios, onde há uns baús de ouro escondidos pelos mouros; no termo de Sendas, entre os sítios Penedo do Gato e Souto Navalho, está um carneiro de ouro com o seu chocalho. Também na Fraga da Moura, limite da mesma povoação de Sendas, há uma moura encantada. Idem na Fraga da Pena de Águeda e no cabeço da Senhora do Aviso, termo de Serapicos; na Fonte da Moura, termo de Terroso (lenda do cordão de ouro, bebido pela pastora na fonte); no Seixo e no Tanque, termo de Vale Nogueira. Aqui a moura vive no fundo de um poço de duas cordas de carro de profundidade (trinta metros, pouco mais ou menos), diz o nosso informador, ligado a uma galeria tão longa por baixo da terra, que um cão que lá deitaram foi sair cinco quilómetros distante. Idem na Fonte da Pena, termo de Quintanilha; no Penedo do Gato, termo de Vila Franca, e na Fraga de Penalva, termo de Vila Meão, onde apareceu uma Senhora vestida de luz a um moleiro. Tudo no concelho de Bragança. Carrazeda de Ansiães (concelho de). Há lenda da moura e tesouros encantados na Fonte do Douro, termo da Beira Grande; no Vale do Abade, termo de Campelo (onde um homem viu figos a secar ao sol e, querendo apanhá-los, converteram-se em bolas de ouro); no Crasto e no Fojo, termo de Carrazeda de Ansiães; nas Dobadouras, termo da Coleja; no Navalho, termo do Mogo de Ansiães; na Presa da Moura, termo de Pinhal do Douro; na Fonte da Moura, termo do Seixo de Ansiães (na Cascalheira, termo da mesma povoação do Seixo de Ansiães, há pedregulhos e foi habitação dos mouros); no Pé de Cabrito, termo de Zedes (aqui, além da moura e do tesouro encantado, diz a lenda que há um buraco que vai sair a grande distância por baixo de terra) (1361). Tudo no concelho de Carrazeda de Ansiães. (1361) Lendas idênticas de galerias por baixo da terra, em geral aplicadas a caminhos utilizados pelos mouros para se comunicarem com os de outros povoados ou para levarem os cavalos a beber a rios, fontes e chafarizes, há em Ansiães, Espadanedo, Linhares e outros sítios.

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Freixo de Espada à Cinta (concelho de). Na Fonte de Mé Nunes, termo de Freixo de Espada à Cinta, sonhou um homem de Lisboa com um tesouro; veio, arrancou-o e deixou lá a seguinte quadra: Adeus Fonte de Mé Nunes, Quem te dever que te pague Que eu dentro de ti achei O valor duma cidade. Da Serra de Bornes, também conhecida por Serra de Monte Mé, igualmente diz o povo: «Na Serra de Monte Mé, atiram os pastores com ouro ao gado e não sabem o que é» [246]. Tudo no concelho de Freixo de Espada à Cinta. Macedo de Cavaleiros (concelho de). Há lenda de moura encantada no Carrascal, termo de Ala; no Castrilhão e Valbão, termo das Arcas; no Lameiro das Mós, termo de Brinço; na Fraga dos Mouros, termo de Carrapatas, onde um pobre encontrou uma lança de ouro, mas de pouco lhe valeu, pois um rico lha apanhou por uma insignificância; no Rio do Sino e no Franciscalhão, termo de Chacim. No Cardal, termo da mesma povoação de Chacim, foi onde apareceu a Senhora, agora venerada na Igreja paroquial de Chacim. Nas Guimbrias, termo de Corujas, havia uma povoação, mas enquanto os cristãos estavam na Missa vieram os mouros, lançaram-lhe fogo e despovoou-se, ficando apenas a capela e vestígios de casas. Diz a lenda que um homem achou aqui um cordão de ouro e dobou, dobou, dobou... e segue o mais como nas lendas deste tipo. Idem na Fonte Velha e no Cramanchão, termo dos Cortiços, onde «viveu mourama» e aparece cerâmica e vestígios de ruínas. No Pisão, termo dos Cortiços, apareceu a moura transformada em cabra com pêlo de ouro. Idem em São Mamede e no Vale dos Namorados, termo de Grijó de Vale Benfeito; no Gricho e na Pedra Furada, termo de Ferreira. Neste último sítio há uma gruta ou galeria, por onde os mouros iam levar os cavalos a beber ao local chamado Seixo ou Seixinho. Houve quem visse aqui uma galinha com pintainhos de ouro; mas quando esse alguém ia para os apanhar, desapareceu tudo, e da mesma forma lhe desapareceu uma cabra de ouro que ia berrando de fragueiro em fragueiro. «Grande bruto – disse a mãe ao filho, quando este lhe relatou o sucedido – era a moura encantada a querer que a desencantasses e a preparar-te a tua fortuna; mas tudo se foi por não lhe saberes falar». Também já alguém viu na Pedra Furada os mouros a jogar os paus com vintes ou tentos e bolas de ouro. Perto fica o sítio de Vale de Portas, onde aparece telha de rebordo. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Idem na Fraga do Corvo, termo de Macedo de Cavaleiros. Esta fraga está cheia de buracos e fendas, devidas à própria contextura da pedra, portanto, naturais, mas o povo diz que é onde os mouros guardavam os seus tesouros. No Castro de Rabal, as fragas têm a mesma contextura, e, de quando em quando, os sonhadores de tesouros lá vão desfazê-las a ferro e fogo à cata de riquezas, que nunca aparecem. No Cabeço da Paixão, termo de Morais, há buracos dos mouros e lenda da moura encantada. Idem em Vale Grande e no Ferradel, dois sítios, termo de Murçós, onde há covas e vestígios de exploração mineira. No Cabeço, também termo de Murçós, apareceu um sino de oiro e um grande tesouro, diz a lenda. Em Vale de Cervo e nos Barreiros, termo de Podence, lenda da moura, e neste último sítio já muita gente tem ouvido a moura a tocar uma música como de piano. Na Fraga da Leonor e na Eira do Lombo, sítios do termo de Vale Benfeito, há mouras encantadas. Idem do poço que fica perto de capela de Santa Catarina, termo de Vale de Prados. Idem na Fraga dos Corvos, enorme rochedo; no termo de Vilar do Monte, do qual, por caminho subterrâneo, se comunicavam os mouros com os de Balsamão, quatro quilómetros distante, no outro lado da Serra de Bornes, termo da vila de Chacim. Junto ao fragueiro há um grande círculo levantado em talude, como o dos Castros, indicando restos de fortificação. Idem na Urzeira, termo de Vinhas. Tudo no concelho de Macedo de Cavaleiros. Miranda do Douro (concelho de). Lenda da moura encantada e dos tesouros encantados no Rechano e na capela de S. João, termo de Aldeia Nova (perto da capela há, numa fraga, a pegada de Nossa Senhora e ruínas de habitações); na Malhada, termo da Granja; no Buraco Pardo, termo de Palaçoulo; na Cortinha da Moura, termo de Pena Branca; na Antre las Malhadas, termo de Prado Gatão; no Poço da Moura e nas Bocanas, sítios do termo de Vila Chã da Ribeira (lenda do cordão de oiro). Tudo no concelho de Miranda do Douro. Mirandela (concelho de). Na lenda de moura encantada e de tesouros nos sítios chamados Pipela, Rigueirais e Fraga da Moura (aqui uma caverna, onde cabe um homem de pé), termo das Aguieiras; Freixos, termo de Alvites; Troxos, termo de Barcel (há galerias como de minas); Muralha, termo da Bouça (há buracos nas fragas em duas filas, onde os mouros espetavam as bandeiras, diz o povo), há também uma vaca de oiro; Salgueiros, termo de Cabanelas (lenda das duas panelas, uma de dinheiro e outra de peste); Poço dos Mouros, termo de Carvalhais; Freijoeira, termo de Fradizela (há MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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uma cabra de ouro); Casa dos Mouros, termo de Frechas (há pedregulhos, ruínas e foi habitação dos mouros); Murinho, termo de Freixeda (há uma galeria comprida, por onde cabe um homem de pé e no extremo escadas para descer para outra ou para um poço mais fundo). Dizem que esta galeria dá volta ao Cabeço; no alto deste apareceram pias com muito dinheiro, das quais ainda se conhece o sítio onde estavam. No sítio chamado Salto Perigoso, termo da mesma povoação de Freixeda, anda uma cabra encantada, pulando de umas fragas para outras. Idem no Penedo (têm aparecido tijolos, fíbulas e antigualhas) e na Cidade, termo de Mascarenhas; na Fonte da Canelha, no Eixido (um menino de oiro nestes dois sítios) e na Fonte do Paço (lenda das panelas e oiro e peste), termo do Navalho; Trás-das-Casas, termo de Pai Torto; Pena, termo do Rego de Vide; Trás-do-Cabeço, Serralhão, Calvário e Couço, sítios do termo de São Pedro Velho (em cada um destes sítios diz o povo que houve uma capela, e aparece telha de rebordo e vestígios de fortificações. Ao penúltimo adscreve-lhe a lenda das duas panelas – uma de oiro e outra de peste. Idem no São Brás, sítio do termo da Torre de Dona Chama (lenda das duas panelas); no Marinheiro, Novalho (aqui, além da moura, está um ferreiro a bater ferro), Encruzilhada, Caneleiros e Alto da Marra, sítio do termo de Vale de Gouvinhas, em cada um dos quais também aparece, ao dar da meia-noite, um cavaleiro gigante, montado em cavalo branco; Horta da Senhora, termo de Vale de Couço (foi aqui onde apareceu a imagem de Nossa Senhora de Jerusalém de Romeu, onde lhe erigiram capela, mas ela, de noite, fugiu para o local da aparição, até que, por último, tantas vezes a levaram que lá se resignou a ficar na capela); Miselo, termo de Vale de Lobo (há vestígios de fortificações); Vale, termo de Vale Martinho; Santa Juzenda, termo de Vale de Prados de Ledra (viveu lá mourama, diz o nosso informador, há grandes vestígios de fortificações). Também em Santa Bárbara, termo de Vale de Prados de Ledra, apareceu a Senhora, que o povo levou para as Múrias, de onde de noite fugia para as ruínas, até que tantas vezes a levaram que, por último, lá ficou; Muradelha, Muradela e Muro, termo de Vale de Salgueiro (neste último há buracos dos mouros); Cabeço Figueiro e Orjais, sítios do termo de Vale de Sancha (neste último há vestígios de fortificações e têm aparecido moedas romanas do império); Cabeço, termo de Vale de Telhas («viveu mourama»); Poços, termo de Vila Nova das Patas; Cabeço da Lavandeira, termo de Vila Verdinho (há vestígios de fortificações) e Fonte Velha, termo de Vilares Torre. Tudo no concelho de Mirandela.

(1362) PEREIRA, J. M. Martins – As Terras de Entre-Sabor-e-Douro, p. 337, desenvolve esta lenda.

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Mogadouro (concelho do). Há lenda da moura encantada e de tesouros encantados no Castro da Serra de Ala, no Caminho do Azinhoso, termo do Brunhosinho, e no Castelo, termo da Bemposta (1362); no Poio, termo de Brunhoso (há aqui um fragueiro enorme, onde as cabras se encarrapitam e livram do lobo, que não se atreve a subir lá. É o belo horrível. Nele fazem seu ninho águias, bufos e outras aves de rapina, andorinhas, lobos e raposas. É tão acidentado, que toda esta animalidade vive em sítio adequado a seus hábitos, sem se prejudicar uma a outra). No Cachão, sítio do rio Sabor, também termo de Brunhoso; na capela de Nossa Senhora de Castelo Branco (lenda das duas panelas) e no Freijal, também termo de Castelo Branco (há ruínas de casas que foram dos mouros); no Cabeço do Santo Cristo, termo de Castro Vicente (há restos de muralhas e dizem que foi aqui a primitiva povoação), em Santa Ana, perto das margens do Sabor, também termo de Castro Vicente, há restos de casas de um pequeno povo que se extinguiu modernamente; na Foia, também termo de Castro Vicente, há restos de casas de outro pequeno povo, que se extinguiu há pouco. Idem em Vale de Porco, termo de Freixeda (há cacos e telhas, e foi povoação dos mouros). Idem na Cevadeira, termo de Linhares, perto da Ribeira do Inferno (deita fumo no Inverno, e dizem que se aquecem lá os pastores); nos Juncarelhos, termo de Macedo do Peso (aqui, a moura aparece em forma de enorme serpente, com cabeleira loira de mulher) e no Freixo da Moura, também termo de Macedo do Peso (a moura a estender a barrela ao sol); na Serra de Zava, termo do Mogadouro. Na Franca, termo de Penas Roias; na Pala dos Mouros, termo de Peredo da Bemposta (é um grande fragueiro, que dizem foi habitação dos mouros, e no cume dele há «divisões e uns círculos que dizem ser esconderijos das espingardas dos mouros». Os sonhadores de tesouros têm ido ali muitas vezes fazer escavações sem resultado). Idem no sítio de Entre-os-Ribeiros, termo de São Martinho do Peso (há cacos grossos de talhas e telhas de rebordo; foi habitação dos mouros) e no Vale da Terra Fernandes, também termo de São Martinho do Peso, onde muitos sonhadores de tesouros têm ido cavar à meia-noite sem nada encontrarem. Idem na Fraga da Tinhosa, termo de Vale de Porco. No sítio dos Barrocais, termo de Souto da Velha, fica a Fraga dos Mouros, que tem a todo o comprimento um carreirão por ela acima, sempre sem musgo, por ser o caminho de uma moura encantada, ao contrário do resto da fraga, que está coberta dele. Perto fica a Fonte dos Mouros e outro rochedo, onde há um nicho perfeitamente delineado. Ainda do mesmo grupo de fragas faz parte outra, assente pelas duas extremidades em dois rochedos a modo de ponte, e na parte «inferior tem MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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MOURAS E TESOUROS ENCANTADOS

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grande quantidade de orifícios: uns de boca redonda e estreita, outros de forma alongada, sendo quase todos muito mais largos no interior». Idem no Castelo dos Mouros, termo de Vilarinho dos Galegos (1363). Idem na Fraga de São Cristóvão, termo de Zava (há restos de muros; foi povo dos mouros). Tudo no concelho do Mogadouro Moncorvo (concelho de). Há lenda de mouras nos Barrais, termo da Açoreira; na Fonte da Moura, termo da Cardanha; na Olhadela e na Pindura, sítio do termo de Felgar; na Garcia, termo da Lousa; na Portela, termo de Mós, onde há muitos buracos nas fragas, que dizem ser feitos pelos mouros. Tudo no concelho de Moncorvo Vila Flor (concelho de). Há mouras e tesouros encantadas no Penedo Redondo, termo de Benlhevai; no Olival Escuro, termo de Felgares, freguesia de Freixiel; no Amarelo, sítio do termo da Trindade; nas Fragas do Bodido, termo de Vale Frechoso; na Fonte de Valtorno (uma mulher foi lá buscar água na manhã de São João e trouxe, sem dar pela conta, o cântaro cheio de novelos de oiro, mas desapareceram quando ela, cheia de surpresa, exclamou: «Ai, Jesus! tanta riqueza!»; na Fonte do Lameiro de Cima, termo de Vilas Boas. Em 1925 foram lá uns homens cavar para desenterrar o tesouro encantado, mas fugiram assustados ao ver o diabo ou a moura feita em horrendo bicho, e uma mulher foi levada pelos ares até cair no Cruzeiro do Prado (1364). Tudo no concelho de Vila Flor. Vimioso (concelho de). Há lenda de moura encantada na Fonte que está no sítio dos Fornos, termo de Algoso (lenda do cordão de oiro, aparecido a uma mulher que lá foi beber; esta dobou, dobou até que o fio se quebrou com o peso do novelo, convertendo-se então tudo rapidamente em carvões e ouvindo-se ao mesmo tempo uma voz que dizia: «Ai! que me dobraste o meu encanto!») (1365). ldem no Murio, termo de Avinhó; no sítio dos Bezeninhos, termo da Junqueira (apareceu um bezerro de oiro deixado pelos mouros); nos sítios do Murio, Freixiosa e Abrunheiro, todos no termo de Santulhão, e no Prado, termo de Vila Chã da Ribeira. Tudo no concelho do Vimioso

(1363) Ibidem, p. 338, desenvolve esta lenda. (1364) No artigo Pré-história referimos lenda idêntica a propósito das insculturas rupestres de Labiados e outra igual no artigo Castelo, termo de Urrós. (1365) CHAVES, Luís –Lendas de Portugal – Contos de mouras encantadas, 1924, p. 147, dá forma literária à lenda da moura de Algoso, que está na fonte acima indicada.

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MOURAS E TESOUROS ENCANTADOS

499 TOMO IX

Vinhais (concelho de). Há lendas de mouras e de tesouros encantadas no Castelo e no Pisão, sítios do termo de Cabeça da Igreja; na Pala, termo de Candedo (há também uma caverna na fraga a que chamem Casa da Moura, e dizem que foi habitada pelos mouros); no Lombo do Carvalho, termo da Cisterna; na Pedra do Gato, termo de Edral (há anos foi lá cavar o povo para arrancar o tesouro, mas nada encontrou); na Lameira da Moura, termo de Edroso (aqui apareceu a moura a uma pastora, prometendo-lhe quanto dinheiro quisesse se a desencantasse; porém ela recusou, por não saber como explicar a seus pais a proveniência do dinheiro); na Perifita, termo de Frades (lenda da moura a estender a barrela ao sol e a pentear-se com pentes de oiro); no Coução da Freita, também termo de Frades, viveram os mouros; na Cerca, termo de Gestosa (há fossos e vestígios de casas); na Cigadonha, termo da mesma povoação de Gestosa (têm visto a moura a ir à fonte e a estender a barrela no sítio da Terronha, termo também de Gestosa); na Fonte da Moura, termo de Melhe (lenda da pastora que foi beber e lhe saiu o cordão na boca). Idem nos sítios chamados Calvário, Peneiras e Talhocos, termo de Moás; no Lombo do Seixo, termo da Mofreita; na Fonte Salgueiro, idem (lenda da pastora que lá foi beber e lhe saiu o fio de oiro da boca); na Pedra Furada, termo de Mós de Celas; na Fraga do Gato e no Crasto, termo de Ousilhão; neste último ouve-se a moura encantada a tecer em tear de ouro na manhã de São João; no Sobreiró de Cima, termo de Soutelo, freguesia de Sobreiro; no Sobral e na Vila Viçosa, sítios do termo do Pinheiro Velho (há ruínas de casas, fossos, covas e grandes montões de pedregulhos); na Devesa Velha, também dita Fraga da Moura, termo de Paçó de Vinhais; no Marco Roço, termo de Prada (neste sítio há um marco e na área de sete passos em volta dele está um grande tesouro); no Couto, termo da Quadra; nos Fragões, termo de Quiraz (aqui um lavrador arrancou, na ponta da relha do arado, uma arca grande com um tesouro encantado, e como soltasse uma asneira ao mesmo tempo, a arca desfez-se em vento e trovões, que metiam pavor); na Fraga da Moura, termo de Rio de Fornos (tem aparecido dinheiro dos mouros neste sítio). Idem no sítio chamado Pedreiros, termo de Romariz; no sítio de Trás-das-Teixugueiras e no Guedelho, termo de São Cibrão; na Fraga da Pomba, termo de Sendim de Lomba; nos Lagoalhos e no Monte Calvo, sítio do termo de Sobreiró de Cima; no Muradal, termo de Vale das Fontes (há ruínas, pedregulhos e foi habitação de mouros); no Serralhão, termo de Valpaços; na Forjinha, termo de Vilar Seco da Lomba, há numa fraga um buraco com escada cavada na rocha, onde, segundo a lenda, entrou um cão e foi sair à margem do rio Mente, alguns quilómetros distante. Segundo a mesma, aparecia um homem aqui que ia às feiras com os destas povoações, abonando dinheiro e dizendo no regresso: «Ide para vossas casas, que eu vou para o meu lugar»; sem que ninguém soubesse onde esse lugar era. Também aparecia uma MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


500

MOURAS E TESOUROS ENCANTADOS | NOGUEIRA | NUNES

TOMO IX

moura às pastoras, com vestidos brilhantes, dizendo-lhes: «Trocai a vossa pobreza pela minha riqueza». Outras vezes via-se a lavar roupa no rio Mente. No Toural, sítio do termo da mesma povoação de Vilar Seco de Lomba, dizem que estava situada a igreja primitiva, depois transferida para a povoação, e ainda lá aparecem ossos humanos, fragmentos de telhas e pedaços de cantaria lavrada. No Cabeço dos Mouros e no sítio da Torre, limite de Vila Verde, lenda dos tesouros guardados numa pipa junto a outra cheia de peste. Idem no Quadraçal e na Fonte da Moura do Campo Redondo, sítios do termo de Vilar de Ossos; neste último, a moura já apareceu em figura de serpente. Idem na Fonte Mouresca, termo de Vilar Seco de Lomba (lenda do novelo), e no sítio chamado Mirandês, onde os mouros iam, por uma galeria subterrânea, levar os cavalos a beber ao rio. Na Lama da Porca, termo de Vilarinho de Lomba, havia uma porca de oiro guardada pelo diabo, e quando a foram exorcismar, a fim de a desencantar, falaram em Deus, coisa que não deviam fazer, e tudo desapareceu. Idem no Arrabalde dos Mouros, termo de Vinhais. Tudo no Concelho de Vinhais. NOGUEIRA No termo de Nogueira, concelho de Bragança, coisa de um quilómetro ao norte do povo, fica no alto de um cabeço de forma cónica, a não ser pelo lado poente, que o liga à Serra de Nogueira, da qual é contraforte, capelinha de Nossa Senhora da Cabeça. Ao local deu o povo o nome de Cigadonha e nele tem aparecido telhas de rebordo, cerâmica grosseira e outros vestígios romanos (1366). Há ainda quem dê a esta Cigadonha o nome de Castro, mas tal nome é menos usado pelo povo. NUNES No sítio de São Mamede, termo de Nunes, aparecem telhas de rebordo e cantarias aparelhadas, que inculcum ter pertencido a edifício de importância. O povo diz que foram de um convento de freiras que ali houve (1367). Não há notícia histórica de tal convento, nem é provável que existisse, dada a pequenez económica e escabrosidade da terra. (1366) LOPO, Albino, O Arqueólogo Português, vol. 12, p. 310, onde publica uma fotografia do monumento. PINHEIRO, José Henriques – Estudo da estrada militar romana de Braga a Astorga, p. 92. (1367) Informações de um homem da povoação.

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NUNES | ONOMÁSTICO | OUSILHÃO | PALAÇOULO

501 TOMO IX

Martins Sarmento fala (1368) de lendas idênticas, referentes a freiras que viveram em grutas de fragas, por baixo de palas das mesmas e em conventos no alto de montes fronteiriços à Citânia, e acrescenta: como nos mouros se esconde certamente a individualidade obscurecida dos pagãos, é bem possível que nas freiras se esconda outra com raízes muito profundas no paganismo, do mesmo modo ainda que as fadas dos nossos contos são em regra antigas divindades pagãs, muitíssimo deslavadas pela acção dos séculos e outras causas complexas. No termo de Mairos, concelho de Chaves, há umas cavernas com pinturas megalíticas, se bem nos recordamos, chamadas Buracos de Jac-mi-Jorge e ainda Câmara do Diabo e Buraco Feio, onde a lenda diz ter vivido uma mulher sete anos em conúbio com o diabo (1369).

ONOMÁSTICO Ver o artigo Toponímia.

OUSILHÃO A dois quilómetros de Ousilhão, concelho de Vinhais, fica o sítio chamado Castro, onde ainda se percebem os andares de defesa e abundam cacos de cerâmica grosseira e saguntina [247] e restos de colunas de granito aparelhadas. Perto de Ousilhão fica o sítio chamado Torre, onde dizem ter havido uma capela, à qual, segundo a lenda, vinham ouvir Missa os mouros do Castro. Provavelmente, esta Torre corresponde à Fonte do Paço e Pomar do Paço, sítios do termo de Ousilhão, mencionados no Tombo dos bens do mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501 e seria o terreão de algum palacete senhoril. Na Fraga da Vela, termo de Ousilhão, está gravada uma ferradura e na Fraga do Gato há um grande tesouro encantado. Ver p. 63, onde falámos da lápide votiva (fig. 27) ao Deus Laesu encontrada em Ousilhão. PALAÇOULO Lápide de granito (?), inédita, encontrada no sítio chamado Castrilho [248], junto à povoação de

(1368) O Arqueólogo Português, tomo 6, p. 175 e seg. (1369) ALVES, Francisco Manuel – Chaves – Apontamentos arqueológicos, 1931, p. 43. Era Nova, semanário de Chaves, de 14-6-1931.

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PALAÇOULO | PAULITEIROS (DANÇA DOS)

TOMO IX

Palaçoulo, concelho de Miranda do Douro, pelo reverendo Manuel de Castro Pires, pároco da freguesia, de que nos mandou um desenho Bento da Silva Mendes, professor em Miranda do Douro, em 1920. Na carta que acompanhava o desenho dizia-nos ter encontrado uma lança romana no Castro de Aldeia Nova e uma espora medieval no Castrilhouço de Ifanes. Altura da lápide 1,03m, largura 0,34m, corpo das letras 0,04m. É ornada por uma suástica de doze raios, envolvida pelo chamado arco de ferradura (ver p. 21), e, inferiormente à inscrição, por três barras, segundo o teor da estela discóide n° 36, p. 70, à qual se assemelha perfeitamente tanto na decoração (excepção do quadrúpede, que esta não tem) como no enquadramento da legenda em superfície rebaixada na pedra. Letras muito nítidas; palavras separadas por arcos de círculo, como vemos em várias outras da região bragançana publicadas neste tomo. Os LL terminados em ângulo, pelo teor da lápide n° 57, p. 92, algo semelhantes também ao da lápide de Grijó de Vale Benfeito. Vem a dizer: Memória levantada a Siloni, filho de Ceri, falecido aos cinquenta anos. Siloni, Caeri F(ilio) an(norum) L. Em Julho da era de 1240 (1370) fez el rei D. Afonso doação «nostro militi Petrus Menendiz et cognominatus Tyu» dos regalengos de Atenor e Palaciola (1371). PAULITEIROS (DANÇA DOS) As mulheres mirandesas, a fim de trazerem as mãos livres para se entregarem a outros trabalhos, como sejam: fiar, fazer meia, lavar, andar mais desembaraçadas pelos caminhos, etc., trazem os filhos às costas, numa espécie de bornal feito com a mantilha, cujas pontas atam depois ante o peito. Chamam-lhe trazer os filhos ó Chino ou ó Chin-chin (ver figura da p. 503). O Dr. J. L. de Vasconcelos (1372) observou este costume em Quintanilha, concelho de Bragança, praticado talvez por alguma mirandesa aí residente. Em A Voz, diário de Lisboa, de 9 de Outubro de 1932, vem uma gravura de costumes dos pretos que estiveram em Lisboa na Grande Exposição Industrial Portuguesa, celebrada nessa época, e lá está uma preta com o filho ó Chin-chin, de onde se vê que o costume se pratica também em África. (1370) RIBEIRO, João Pedro – Dissertações Cronológicas, vol. 3, p. 202, demonstrou que se deve emendar para 1210 (ano de Cristo 1172). (1371) Livro 2° de Doações de D. Afonso III, fólio 15 v., e livro 2° de Além Douro, fol. 157. O Dr. Leite de Vasconcelos nos Estudos de Filologia Mirandesa, tomo 2, p. 231, publicou na íntegra este documento. (1372) VASCONCELOS, J. Leite de – Ensaios Etnográficos, tomo 2, p. 190.

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PAULITEIROS (DANÇA DOS)

503 TOMO IX

A indumentária mirandesa é toda de burel laranjo (por tingir), também chamado pardo, fabricado pela indústria doméstica local, e consta, para o homem, de calção de alçapão, meias de lã, polainas, jaqueta de gola direita, camisa de linho (fabrico local) de grandes colarinhos, muito lavrados de ornatos bordados, carapuça prolongada em espécie de pala para trás e para diante e capa de honras muito ornamentada de lavores nas bandas, gola-carapuça sui generis e rabicho que, por detrás, pende até meio dela, dando ao todo o aspecto de capa de asperges eclesiástica medieva, como observa Trindade Coelho. Os vestidos da mulher são do mesmo tecido e por igual interessantes. Estes pitorescos trajes fazem lembrar um passado arcaico cheio de interesse etnográfico como documentação de arte e de história. A Dança dos Pauliteiros [249], assim chamada dos pauzinhos (um em cada mão) que os os dançantes usam durante as evoluções coreográficas, só admite homens – dezasseis na dança completa e oito na meia dança. Mirandesa a fazer meia Os diversos bailados chamam-se levando o filho ó chin-chin Laços, com nome especial para cada um deles: são dançados ao som de tamboril e gaita-de-fole; ao ritmo do canto, tangendo ao mesmo tempo castanholas; ao toque da flauta e também só ao rufar das castanholas (matraculas, como alguns lhe chamam), acompanhando sempre o bater dos paulitos uns nos outros, a compasso, nos momentos próprios em todas as voltas que fazem. É incalculável a presteza exigida por esta dança e o seu efeito coreográfico, de onde o entusiasmo que desperta, tanto nos grandes como nos pequenos centros, quer nacionais, quer estrangeiros (Porto, Lisboa, Londres). Os dançantes, em mangas de camisa, vestem o fato regional, distinguindo-se no colete o losango de pano branco, que lhe serve de forro nas costas. Dos bolsos do colete pendem-lhe lenços brancos bordados a cores berrantes, com predomínio das vermelhas; outros pelo mesmo teor, MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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PAULITEIROS (DANÇA DOS)

TOMO IX

mas de seda com larga franja, lhe pendem das costas, ombros e cinto, completando a indumentária largo chapéu redondo armado de flores, plumas de pavão, palmitos e lantejoulas. Antigamente usavam saio de alvo linho muito bordado, constante de três enáguas sobrepostas umas a outras, de comprimento desigual, a fim de se verem os amplos bordados de cada uma; agora já se não usa, mas quando foram a Londres, como adiante se diz, levavam saio. Os Laços têm os seguintes nomes: Acto de contrição, Águias (dança-se nas procissões religiosas), Anrramáda, Berde, Bicha, Bilhano, Calix, Campanitas, Canário, Carmelita, Carrascal, Cavallero, China, D. Rodrigo, Herba, Lebre, Lindo D. Pedro, Maridito, Meia dança, Mirandum, Oficios, Padre António, Paira grande, Perdigão, Pimenta, Pombas (dança-se nas procissões religiosas), Ponte, Primavera, Procissão, Rosas, Senhor mio, Toro (touro), Vinte e cinco e Vinte e cinco de roda. Quinze destes Laços já foram mencionados pelo Doutor José Leite de Vasconcelos (1373); os outros colhemo-los in loco. Em Calabor (Puebla de Sanábria, Espanha) ainda se praticava a Dança dos Paulitos pelos anos de 1893, como adiante dizemos, e alguns Laços tinham os nomes seguintes: São José, São João, São Pedro, São Vicente, Bendito Cristo e Virgem Santíssima do Rosário, sempre realizado como coroa de todos. Esta variedade nominal, se mostra o carácter sagrado da Dança, inculca não constituírem os Laços partes fundamentais, mas somente modalidades deduzidas de um tema esquemático. Um grupo de Pauliteiros Mirandeses, composto de doze moços, quase todos de Cércio, foi a Londres em Janeiro de 1934, por convite de Rodney Gallop (antigo secretário da Embaixada Inglesa em Portugal e agora em Londres, a prestar serviço no ministério dos Negócios Estrangeiros), grande amador e escritor de assuntos folclóricos, exibir-se em Albert Hall, no certame internacional organizado anualmente a 6 de Janeiro pela «Sociedade Inglesa de Danças e Canções», que lhe pagou viagens e hotéis, além de os recompensar generosamente. Todos os jornais de grande circulação, tanto portugueses como estrangeiros, se referiram elogiosamente à perícia, típica indumentária e característica dança dos Pauliteiros Mirandeses, publicando gravuras com diversos aspectos da dança, e outras de página, policromadas, só com duas figuras para melhor se apreciar a cor, feitios de vestuário e atitudes coreográficas (1374). O êxito dos Pauliteiros Mirandeses, tanto em Lisboa como em (1373) VASCONCELOS, J. Leite de – Estudos de Filologia Mirandesa, tomo 1, p. 46. (1374) News Chronicle, de Londres, de 18 de Dezembro de 1933; La Voz, de Madrid, 3 de Janeiro de 1934; A B C, de Madrid, de 11 e 12 de igual mês e ano, gravuras diversas e policrómicas de página nas capas; idem, idem, Notícias Ilustrado, de Lisboa, de 7 de Janeiro de

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PAULITEIROS (DANÇA DOS)

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Londres, onde os vitoriou o corpo diplomático e o escol da sociedade marcante, festejando-os ao som do Hino Nacional Português, foi absoluto, como referiram os jornais ingleses e portugueses (1375). «En la capital de Ingaterra – dizia o A B C (1376) – el pintoresquismo de su indumento y de sus danzas ha gustado extraordinariamente. Los Pauliteiros o Paulitos no salen su asombro. Sorpresas de la fama que llega coando menos se espera!». No número do dia anterior, ou seja a 11 de Janeiro de 1934, escrevera esse mesmo jornal, guiado pelos colegas ingleses e portugueses: «Hubo quienes afirmaron que estas danzas dos “paulitos” no han pasado de ser una adaptacion de la danza pírrica. Pero el abad de Baçal probó, con documentos, que su origen es nada menos que sagrada». Ora, eu sou de facto o abade de Baçal, porque toda a gente assim me chama, apesar de oficialmente ter apenas o título de reitor, que uso, porque D. José Alves de Mariz, bispo de Bragança, ao colar-me na igreja de Baçal em 1896, não quis dar-me o título de abade, como os meus antecessores tiveram, por causa de um artigo que publiquei na Revista Católica, de Viseu, apesar de esse escrito nada ter de censurável doutrinariamente, segundo ele reconheceu, nem o prudente director da Revista o consentiria, e somente ser algo forte na linguagem. Depois, os seus sucessores enveredaram pelo mesmo caminho, se bem que a opinião pública e mentalidades como o Doutor José Leite de Vasconcelos instaram para que se me desse tal título (1377). Nunca disse estas coisas a não ser em conversa particular a um ou outro amigo e só agora, porque vêm a propósito, porque está vivo, felizmente, o abade José Cardoso Figueira, secretário do bispo Mariz, que sabe como o caso se passou, e porque constituem um pequeno nada da minha vida e dos estímulos que tenho encontrado repassados de modalidades psiquiátricas. Sei bem que abades não são reitores, como diz o adágio popular; sei também que canonicamente o título de abade aplicado aos párocos nada é 1934 e o Diário de Lisboa de 31 de Dezembro de 1933; A Voz, de Lisboa, de 30 do mesmo mês; Diário da Manhã, de 30, idem, idem, publicando, além das gravuras e texto elucidativos, a interessante conferência realizada pelo Doutor Raúl Manuel Teixeira, director da Biblioteca Erudita de Bragança, no Teatro do Ginásio de Lisboa, onde os Pauliteiros dançaram por iniciativa do Secretariado da Propaganda Nacional. (1375) A Voz de 7 de Janeiro de 1934 e O Primeiro de Janeiro do mesmo dia. (1376) Número correspondente a 12 de Janeiro de 1934. (1377) P’ra cá do Marão, quinzenário de Bragança, de 4 de Maio de 1933.

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PAULITEIROS (DANÇA DOS)

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de seu significado próprio, e não deixo de ter certa satisfação – auriculas asini quis non habet – em ver a opinião pública e os intelectuais manifestarem-se no sentido acima dito; mas não é sem ponta de tristeza, não por mim, mas pelos outros, que vejo no mundo ganhar-se mais no paço às barretadas que no campo às lançadas, como diz o grande Vieira. Não se vá entender que esta exposição encobre ressentimento ou pretensão, pois na imprensa defendi durante oito anos, com perigo de vida mesmo, o referido Bispo Mariz dos ataques de seus inimigos, e de nenhuma forma usaria o título de «abade» se hoje mo dessem. Regressando ao assunto: eu não provei com documentos que a Dança dos Pauliteiros era de origem sagrada, mas sim que se usava como dança

Dança dos Pauliteiros

sagrada nas festividades religiosas bragançanas (1378), o que é diferente. A origem desta dança é muito discutida e o seu carácter religioso salta líquido do seguinte: Quem vê os Pauliteiros postos frente a frente em duas filas, vestidos de saio à maneira dos guerreiros antigos, chapéu emplumado na cabeça, à laia (1378) Trás-os-Montes (1929), p. 24.

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PAULITEIROS (DANÇA DOS)

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de capacete com penacho, empunhando paus de trinta centímetros, pouco mais ou menos, a par das castanholas, gaiteiro e tamboril em lugar de música, investirem uns contra outros, a um sinal dado, penetrando-se as

Dança dos Pauliteiros

filas, circuitando-se, envolvendo-se, baralhando-se, reconstituindo-se com pasmosa agilidade, para logo se tornarem a confundir, atirando-se incessantemente pancadas rítmicas à cabeça, ao peito, às pernas, pela frente, pela retaguarda, à direita, à esquerda, pancadas que o adversário desvia ou apara nos seus paus com perícia suma, saltando, para ferir o adversário, por cima da cabeça dos que o cercam parando repentinamente em fila para dançar ao som das castanholas que tocam, e recomeçando com a mesma brevidade o ataque saltando ao ar ou em avanço, como para transpor obstáculos, tem a plena certeza de estar ante uma dança guerreira de duas filas de homens, que se atacam ou exercitam na esgrima (1379).

(1379) Cf. FIGUEIREDO, Antero de, Jornadas em Portugal.

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PAULITEIROS (DANÇA DOS)

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Foi o Padre João Manuel de Almeida Morais Pessanha quem primeiro afirmou que a Dança dos Pauliteiros era a Pírrica dos gregos, dança guerreira e sagrada muito vulgarizada entre eles (1380) guiado por Larousse (1381). Esta opinião tem sido geralmente seguida. Deusdado (1382), abunda no mesmo pensar, adindo que na Sala das Musas do Museu do Vaticano, em Roma, logo à direita de quem entra, se vê esculpida em baixo-relevo a Dança Pírrica, na qual, «o viajante que conhecer a dança mirandesa dos pauliteiros, sente a imagem intelectual, objectivada no relevo que contempla. Adivinha na expressiva escultura os movimentos acelerados e rítmicos dos dançantes guerreiros da antiguidade clássica, hoje ainda conservados na tradição viva dos rústicos habitantes das terras de Miranda do Douro e Vimioso. Cremos, fundado na observação própria, que no sul da França, em lugares da antiga Narbonense, existem entre as danças populares vestígios da dança pírrica… Durante a Idade Média foi muito celebrada uma pírrica dos suíços, chamada dança das espadas». A propósito da identidade entre a Dança dos Pauliteiros e a Dança Pírrica, diz o Dr. José Leite de Vasconcelos: «O meu amigo Ferreira Deusdado, seguindo a opinião do Sr. João Pessanha, exarada in Revista de Educação e Ensino, 1886, p. 216, filia a dança mirandesa dos pauliteiros na dança pírrica dos gregos, e desta julga acharem-se igualmente vestígios em danças populares no sul da França e na dança das espadas dos Suíços na Idade Média: seriam os Romanos quem propagaria a dança pírrica na Itália e na Gália. Não creio nesta origem da dança, pois que os Romanos não tiveram a dança pírrica clássica, tal como os Srs. Pessanha e Deusdado a descrevem. Sem poder demorar-me aqui em longa discussão, que viria fora de propósito, limito-me a citar o que se lê em duas obras autorizadas: “Pyrrhica et pyrriche, danse guerrière, d’origine dorienne... Jules Cézar en introduisit à Rome une imitation que favorisèrent aussi plusieurs de ses successeurs” (Rich; Dictionnaire des antiquités romaines, s. v.); “Pyrrhica:... Ballet dramatique et mimique exécuté par plusieurs danseurs et danseusses; ce divertissement qui n’a rien de commun avec la pyrrhique dorienne, est du temps de l’Empire” (Cagnat & Goyan, Lexique des antiquités romaines, s. v.).

(1380) DEUSDADO, Manuel Ferreira, Revista de Educação e Ensino (1886), p. 216. (1381) LAROUSSE, Pierre – Grand Dictionnaire, 1870, artigos «Danse» e «Pyrrich». Não cita este autor; mas, confrontando os dois trabalhos, vê-se que Pessanha o seguiu pari passu. (1382) DEUSDADO, Manuel Ferreira, Revista de Educação e Ensino, n.º 13, p. 313-316.

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PAULITEIROS (DANÇA DOS)

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Portanto, sem se apresentarem mais provas que a fortuita coincidência de alguns passos, não se poderá dizer tão peremptoriamente que a dança dos pauliteiros é a dança pírrica» (1383). Certamente que não se trata da Pirra clássica grega, nem podia ser, pois tendo esta por fim manter os exercícios guerreiros e adestrar os mancebos para o combate, devia evolucionar a par dos progressos na arte bélica; mas pode muito bem derivar dela ou da tradição das danças guerreiras gregas, introduzidas em Roma e desta comunicadas a nós, se não foi directamente pelos gregos, como muito bem podia suceder, aproximando-se mais da pírrica grega, por não admitir mulheres nem mímica. Quanto às evoluções da táctica militar, sabe-se que os espartanos estavam agrupados em cinco regimentos, cada um de quatro batalhões, compostos de oito pentecostias ou dezasseis enomocias, isto é, companhias, e que se vestiam de vermelho para o combate e se coroavam de flores (1384). Depois, Epaminondas alterou fundamentalmente a táctica militar, substituindo-lhe outra de sua criação (1385). Mais tarde, veio Filipe da Macedónia e fez o mesmo com a criação da Falange (1386), e o mesmo fizeram depois os romanos organizando a Legião (1387). Todas estas alterações deviam reflectir-se na Pírrica, visto ser dança guerreira por excelência e depender da sua boa aprendizagem a conservação da nacionalidade, como afirmam os escritores gregos (1388). Para melhor se ajuizar das partes análogas que possa haver entre a Pírrica e a Dança dos Pauliteiros, transcrevo a descrição que Larousse faz daquela. Na Pírrica – diz ele – os dançantes usavam armas e escudos de pau, e nos seus movimentos simulavam as diversas evoluções de batalhas para adestrar os soldados no modo de executar o ataque, a defesa, a fuga. Vestiam túnicas vermelhas, cinturões guarnecidos de aço, dos quais pendia a espada; os músicos tinham a mais o capacate emplumado e os dançantes

(1383) VASCONCELOS, J. Leite de – Estudos de Filologia Mirandesa, 1900, tomo 1, p. 45, em nota. (1384) CANTU, César – História Universal, tradução de Bernardes Branco, 1875, tomo 1, p. 339. (1385) Ibidem, p. 402. (1386) Ibidem, p. 407. (1387) lbidem e tomo 2, p. 264. (1388) LAROUSSE – Grand Dictionnaire Universel, 1870, artigo «Danse». Os espartanos, diz Larousse, eram obrigados por lei a exercitar-se na Pírrica desde os cinco anos. O seu uso estava tão generalizado, que Xenofonte menciona o caso de uma rapariga ter dançado ante o embaixador dos Pafalonios para o honrar, com tal perícia, que ele perguntou se as mulheres gregas iam à guerra.

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PAULITEIROS (DANÇA DOS)

TOMO IX

estavam postos em duas filas e movimentavam-se ao som da flauta. Constava de quatro partes: 1a – Podismus – Movimentos acelerados e repetidos dos pés, simulando a perseguição do inimigo ou a fugida dele, se vencia. 2a – Xiphismus – Simulação de combate, em que se dão golpes e se evitam os do adversário; entrelaçamento de escudos e lanças. 3a – Comus – Saltos muito e muito elevados, como para transpor barreiras, fossos ou escalar muros. 4a – Tetracomus – Disposição em quadrado, executada por movimentos majestosos e tranquilos. A Pírrica tornou-se, tempo andando – continua o mesmo Larousse – dança consagrada a Baco e veio até nós por imitação na Dança das Espadas dos Suíços, muito usada nos fins do século XVIII. Em Roma teve carácter guerreiro no princípio, depois degenerou um pouco (1389). Além da tal qual concordância da indumentária Pírrica com a Pauliteira, pois que o saio guarnecido de lenços de cores berrantes, pode traduzir a túnica escarlate, e os que cobrem os ombros, a estilização do escudo, bem como os enfeites do chapéu, os emplumados e enflorados dos capacetes; além da flauta, ainda usada pelos Pauliteiros, encontram-se outros pontos de analogia entre as duas. Assim, aos podismus e xiphismus correspondem as evoluções pauliteiras atrás anunciadas; o entrelaçamento dos paus, também usado pelos gregos, bem marcado na figura junta; os saltos do comus vêem-se igualmente no mesmo anunciado, e a parte atinente ao escalamento de muros aparece no Laço chamado Castilho, que já se não pratica em Portugal, mas ainda se usava em Alcanices, vila espanhola fronteira a Miranda do Douro, segundo nos informa Manuel Alves Velho, por alcunha o Galinho, natural do Vimioso, negociante em Bragança. Executavam-no desta forma: dois pauliteiros, dançando sempre, saltavam aos ombros de outros dois postos frente a frente, e, dando-se as mãos, formavam arco, que os outros pauliteiros transpunham, saltando sem suspender a dança. Nome e execução do Laço quadram bem ao Comas grego. Em Calabor, povoação espanhola fronteira à raia de Bragança, também se usava o mesmo Laço, segundo nos informou o velho atrás citado; mas, em vez do arco formado pelos paus, colocavam uma mesa entre as duas filas de pauliteiros, pulando os outros por cima dela. Os mirandeses, no Laço da bicha, ainda praticam um simile desta parte, quando dois pauliteiros tomam os paus pelas extremidades em forma de ponte e os outros, dançando, saltam por cima. (1389) LAROUSSE – Grand Dictionnaire Universel, «Danse» e «Pyrrique».

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PAULITEIROS (DANÇA DOS)

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O Tetracomus aparece nítido no Laço chamado Vinte e cinco de roda, realizado ainda pelos mirandeses, quando quatro dançantes se colocam respectivamente no vértice de um quadrado e os outros, dançando em volta, simulam atacá-los. Se estas coincidências não servem para identificar as duas danças, como parece, auxiliam não pouco o estudo genésico da sua evolução. Se a estas considerações juntarmos a de que os Laços não significam partes essenciais da dança, mas sim modalidades reduzíveis a quatro temas diversos, ainda mais nos aproximamos da identificação visionada. No Laço chamado Senhor mio, curvam-se e tocam com os paus no chão em atitude de respeito; no dito Ofícios – segar erva, barbear, etc. imitam gestos destes mesteres (a mímica dos romanos?), dando aos paus o jeito de quem ceifa erva, de quem faz a barba, passando com os paus por junto da cara dos outros. O mesmo se dá noutros Laços, mas isto são apenas derivações do esquema básico. A Dança dos Pauliteiros praticava-se, que nós saibamos, antes de os Bispos de Bragança condenarem este divertimento, também no concelho do Vimioso, como muita gente ainda viva se recorda, nomeadamente Luciano Augusto Machado, guarda do Museu Regional de Bragança, e Manuel Alves Velho, o Galinho, atrás referido; ambos naturais do Vimioso, que muitas vezes a viram realizar na sua terra em festas religiosas e nas mais aldeias do concelho. O mesmo testemunha, quanto ao concelho de Bragança, José Vicente Afonso, de Aveleda, que a viu executar na festa religiosa da sua terra pelos anos ele 1865, segundo o uso e tradição de outras festas anteriores, celebradas na sua povoação, como outras pessoas nos informaram (1390). Ainda hoje em São Pedro de Serracenos, concelho de Bragança, se exibe a Dança dos Pauliteiros. Usava-se também a mesma dança nas festas religiosas das povoações espanholas fronteiriças à região bragançana, que etnograficamente muito se assemelham às nossas, segundo nos informam as duas pessoas acima nomeadas, naturais do Vimioso, que muitas vezes as presenciaram. Ainda vivem em Calabor, povoação espanhola fronteira à raia de Bragança, o velho que nos indicou os nomes dos Laços atrás referidos, usados na sua terra, que fez parte da Dança dos Pauliteiros numa festa religiosa do seu povo, celebrada pelos anos de 1893, e muita gente assistiu a ela. Haverá dez anos que se celebrou uma festa religiosa em Pedralva, povoação espanhola confinante de Calabor, que meteu dança de pauliteiros. De passo arquivamos outra usança folclórica. Em Miranda prevalecia o mesmo costume do Vimioso (1391). Depois de recolher a procissão, principal(1390) Ver p. 240, onde publicámos o documento. (1391) Ver p. 343.

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PAULITEIROS (DANÇA DOS) | PARADA DE INFANÇÕES

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mente a de Corpus Christi, dava-se nos Paços do Concelho, por conta da Câmara, aos portadores das insígnias vindos das aldeias – cruzes, lanternas, varas e bandeiras – um arrátel de trigo cozido, um quartilho de vinho e uma quarta de queijo. Idêntica distribuição se fazia aos músicos, dançantes, cabos, soldados, empregados menores das repartições, sineiros, sacristãos e outros serventuários da procissão, terminando a jantarada por baile e Dança de Pauliteiros (1392). Cervantes, no D. Quixote, tomo II, cap. 20 (p. 113 mihi), fala de diversas danças que se fizeram por ocasião das festas de um casamento e diz: «De alli á poco comenzaram á entrar por diversas partes muchas y diferentes danzas, entre las cuales venia una de espadas de veinte y cuatro zagales [pastores] de gallardo parecer y brio, todos vestidos de delgado y blanquisimo lienzo com sus paños de tocar labrados de varias colores de fina seda; y al que los guiaba, pregunti uno si se habia herido alguno de los danzantes. Por ahora, bendito sea Dios, no se ha herido nadie: y luego comenzó á enredarse con los demás compañeros, con tantas vueltas y con tanta destreza, que aunque don Quijote estava hecho á ver semejantes danzas, ninguma le havia parecido tan bien como aquella». São conhecidas várias danças guerreiras que Larousse aponta (1393), tais como a Menfítica, a Pérsica e a das Espadas, espécie de dança pírrica, diz ele, usada pelos suíços, que veio até nós por imitação. Bluteau (1394) diz que a Dança das Espadas se usa nas procissões. Tácito (1395) descreve uma dança guerreira dos germanos, praticada por mancebos despidos, correndo e saltando por entre espadas e lanças afiadas, a fim de se familiarizarem com os perigos, adquirindo ao mesmo tempo agilidade, elegância e graça nos movimentos. Entre os povos Bascos (Espanha) usa-se muito a Ezpata Danza, o Salto Basco e o Zorcico (evolução dos oito), danças de carácter guerreiro e religioso, das quais eram excluídas as mulheres, que muito se aproximam da nossa Dança dos Pauliteiros (1396) [250]. PARADA DE INFANÇÕES O termo de Parada de Infanções, concelho de Bragança, abunda em recordações arqueológicas: a Cunca da Anta, o Castro Mau e a Ciradelha ou (1392) NETO, José Maria –Rabiscos. (1393) LAROUSSE – Grand Dictionnaire..., artigo «Danse». (1394) BLUTEAU – Vocabulário, 1713, artigo «Dança». (1395) TÁCITO – De Moribus Germanorum, XXIV. (1396) LIMA, J. M. Pereira de – Iberos e Bascos, 1902, p. 148, 167, 197, 198 e 202, texto acompanhado de estampas.

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PARADA DE INFANÇÕES | PARAMBOS

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Cidadelha, dois quilómetros a sudoeste da povoação, próximo da estrada a macadame de Bragança-Izeda. É espaçosa: ainda se divisa claramente o fosso e a muralha de pedra solta que a defendia, ligada por grandes rochedos, de que há quantidade no sítio. Nos pontos onde a defesa natural oferecia facilidade de ataque, havia segundo fosso e na esplanada um labirinto de pedras de mais de meio metro espetadas no solo com a ponta para cima. No recinto fortificado e em volta aparecem mós manuárias de granito, tijolos, telhas, cerâmica grosseira e saguntina [251]. Também lá apareceram dois fragmentos de martelos de pedra e «argolas de metal amarelo» (1397), manilhas? provavelmente de cobre ou de bronze, de onde se mostra que a civilização luso-romana sucedeu aí à neolítica. A Ciradelha está na raia de Parada, Paredes e Pinela, e por isso, apesar de o toponímico destes três povos acusar o mesmo nome, não se entende haja três, mas sim uma só comum aos três. A área intramuros, uma das maiores dos castros bragançanos, regula por dois hectares; as muralhas ainda em parte têm mais três metros de altura e os pedregulhos delas caídos estendem-se por uma faixa toda em circuito de trinta metros de largura, que o nosso informador, um lavrador de Paredes, avaliou em cem mil carros de pedra! – tal a imponente magnitude das ruínas e a importância que deve ter tido. Diz a lenda que nas ruínas apareceu um sino de ouro, junto a um chafariz, que tinha uma argola fixa numa das suas pedras. Mais acrescenta que o sino nenhuma aparência tinha de oiro, antes parecia de metal ordinário e velho, sendo, por isso, mandado refundir, mas quando os artistas deram pela conta do precioso metal, fugiram com ele sem esperar pela paga. A lenda das argolas, chafarizes e sinos de oiro é comum a outras ruínas. Sobre a Cunca da Anta ver o artigo Paredes.

PARAMBOS A poente de Parambos, concelho de Carrazeda de Ansiães, «distante dele uma milha, está um sítio a que chamam Santa Marinha, cujo nome houve de antigamente ser nele a povoação do lugar de Parambos, e de ser nele nesse tempo a igreja da invocação de Santa Marinha no lugar da qual se conserva e está uma cruz levantada, do qual dizem se mudou o povo para onde está por razão das muitas formigas» (1398).

(1397) O Arqueólogo Português, vol. 25, p. 330. (1398) Memórias Paroquiais, 1721, manuscrito, § 63.

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PELOURINHOS

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PELOURINHOS [252] O pelourinho é uma coluna de pedra, posta na rua ou praça, em frente do Paço Municipal do concelho, que simboliza o poder de jurisdição e autonomia deste. Pinho Leal (1399) deriva a origem dos Pelourinhos da coluna ou espécie de mirante que o cônsul Ménio (Moenio) construiu na praça (Forum) com os esporões dos navios dos Latinos e Antiatos vencidos por ele em batalha naval no ano 417, para melhor se poderem ouvir e ver os julgamentos feitos pelos triúnviros, as festas e castigos públicos (1400). Herculano diz: entre os romanos havia cidades que gozavam o direito itálico (jus italicum), por ele obtinham a completa organização municipal com duúnviros, quinquenais, edis e questores, podendo por isso levantar no foro ou praça a estátua de Marsyas ou Sileno com a mão erguida, símbolo da liberdade burguesa. Esta é, quanto a nós, a origem dos pelourinhos. Abolido o politeísmo, nada mais natural do que substituir-se aquele símbolo por uma pilastra ou coluna, a qual, com o decurso do tempo, foi tomando diversas formas caprichosas (1401). Segundo Moreri, denominava-se «Marsyas a estátua que estava na praça maior de Roma, debaixo da protecção do Deus Liber ou Baco. Era perante ela que se reuniam os advogados e litigantes. As cidades que pagavam algum tributo, ou que apenas eram aliadas, não tinham direito de erigir semelhante estátua nas suas praças públicas» (1402). Teófilo Braga (1403) entende que o pelourinho é a «representação do genius loci romano, patrono da independência municipal». Segundo o visconde de Jerumenha (1404), o pelourinho é «poste de expiação pública, convertido pelo desuso em emblema de jurisdição municipal». Todos têm sua parcela de razão, porque na origem dos pelourinhos e diversas aplicações sofridas pelos tempos adiante, influíram vários factores, como na de tantas outras instituições filiadas através dos tempos em remota ascendência. Cícero, nos seus discursos, refere-se aos castigos da coluna infamante; Cristo foi preso a uma coluna para ser açoutado, e que à ideia de pelourinho se ligava a de suplício ou castigo já muito antigamente entre

(1399) PINHO, Leal – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Pelourinho». (1400) MORERI – El Gran Dicionario, artigos «Menio» e «Moenio». Sobre os pelourinhos ver RACZYNSKI – Les Arts en Portugal, p. 330, 411, 423 e 427; CHAVES, Luís – Os Pelourinhos Portugueses, 1930, p. 41, em nota, onde se cita a bibliografia referente ao assunto. (1401) HERCULANO, Alexandre – História de Portugal, 1846, livro 8, parte 1a, p. 11. (1402) MORERI – El Gran Dicionario, artigo «Marsyas». (1403) MONTEIRO, Manuel – Serões, n° 21, Março de 1907, p. 190. (1404) Ibidem.

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PELOURINHOS

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nós, vê-se do baixo-relevo do túmulo de D. Inês de Castro, em Alcobaça, onde está figurada a flagelação do Redentor amarrado à coluna em forma típica de pelourinho. O Código Alfonsino (século XV (1405)) condena as padeiras, carniceiros, regateiras, taberneiros e outros transgressores das posturas municipais, pela terceira vez, roubando nos pesos e medidas, a serem empicotados, isto é, postos na picota ou pelourinho, com os pesos falsificados na mão, de onde pagavam o dinheiro da multa (1406) e ouviam as chufas escarninhas do poviléu. Os documentos indicam outras aplicações dadas aos pelourinhos. Em 1580 os éditos de Filipe II de Espanha contra D. António, prior do Crato, pondo-lhe a cabeça a pregão, foram afixados nos pelourinhos (1407). No Tombo dos Bens do Cabido de Miranda feito em 1691, fólios 13 e 15 (1408), se diz que, para efeitos de reclamação tocante à demarcação que se ia fazer dos bens do cabido, se mandaram afixar editais citatórios nos pelourinhos de Miranda do Douro e Vinhais. No fólio 239 do livro intitulado Registo maior da Câmara Municipal de Bragança (1409), manda-se dar publicidade a uns editais afixando-os nos pelourinhos. Isto no século XVII. Este uso continuava ainda em 1834, pois o chefe da guerrilha miguelista, organizada em Algoso, concelho do Vimioso, afixou as «Proclamações» de el-rei D. Miguel «nos pelourinhos e portas das igrejas» (1410). Todos os autores concordaram em que o pelourinho e picota indicam a mesma espécie de monumentos, podendo talvez também acrescentar-se «tronco», segundo aquilo que diz Viterbo (1411) a propósito da Forca, Picota e Tronco, concedida à Vila de Vale de Prados, concelho de Macedo de Cavaleiros (1412), mas Pinho Leal (1413) entende que são coisas diferentes; todavia são pouco sólidas as razões que apresenta. Nos Portugaliae Monumenta Historica (1414) diz-se que Fromusindo e sua mulher vendem uma propriedade, cujo preço «misimus pro me que jacia in tronco et in katena de truitesindo didaz que me tragia per garganta pro suo meiorino que illi malliavi et cedei foras de mea eira».

(1405) Livro 1, título 28. (1406) VITERBO – Elucidário, artigos «Empicotar» e «Picota». HERCULANO, Alexandre – História de Portugal, livro VIII, parte 2a, p. 239 e 240. (1407) Tomo VIII, destas Memórias, p. 2 e 22. (1408) Manuscrito existente no Museu Regional de Bragança. (1409) Ibidem. (1410) Tomo VIII, p. 17, destas Memórias. (1411) VITERBO – Elucidário, artigo «Picota». (1412) Ver tomo III, p. 102, destas Memórias, onde publicámos o respectivo documento. (1413) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Pelourinho». (1414) Diplomata et Chartae, documento n° 424, ano 1060.

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PELOURINHOS

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Há pelourinhos que têm a meio do fuste um delgado arco de ferro, no qual está fixa uma pequena argola, e do seu capitel partem quatro delgadas hastes de ferro semelhando a cruz equilateral, um pouco recurvadas nas extremidades em forma de serpente, pendendo também uma argolinha de cada braço da haste. São deste tipo os de Chacim, Freixo de Espada à Cinta e Outeiro, no distrito de Bragança. É evidente que estes aprestes de ferro nunca serviram para enforcar condenados, em razão da sua exiguidade e falta de consistência para suster o peso de um corpo humano, e também os pelourinhos não eram aplicados a tão revoItante suplício (1415) realizado nas forcas sempre erguidas em descampado, fora do povoado, ao contrário dos pelourinhos sempre levantados na praça pública em frente dos paços municipais. Estes, elegantes e donairosos, são verdadeiros monumentos de arte arquitectónica: aquela, estúpida e bestial, consta apenas de dois paus cravados no solo ligados por outro transversal pegado no topo daqueles, do qual pendiam os infelizes justiçados como pode ver-se em Duarte de Armas (1416). Além da exposição vexatória no pelourinho ou picota dos delinquentes que roubavam nos pesos e medidas e falsificavam os géneros alimentícios, ou transgrediam as leis municipais, como fica dito, também aí se executavam os castigos de açoutes (1417) e mordaça. Na página 15 falámos de dois freios das mulheres maldizentes, existentes no Museu Regional de Bragança, e apontámos a descrição que Viterbo (1418) faz de um deles, isto é, do que veio da Câmara Municipal de Sanceriz. Ao outro aludimos na p. 431. Convém notar que estes castigos tanto se aplicavam a mulheres como a homens, e embora a língua da mulher seja mais viperina, é contudo menos correcto dizerem-se freios ou mordaças das mulheres em vez dos maldizentes. O seu uso foi geral, como vemos do próprio Viterbo (1419). No Auto-

(1415) Quanto a enforcamento em pelourinho, só há notícia de se ter realizado um no de Lisboa, segundo refere LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Pelourinho», que por sinal não tem as tais hastes de ferro, como pode ver-se em CHAVES, Luís – Os Pelourinhos Portugueses, p. 45. (1416) Livro das Plantas das Fortalezas do Extremo deste Reino, manuscrito do século XVI, existente na Torre do Tombo. Nas cartas em que desenha as fortificações de Bragança e Freixo de Espada à Cinta, acham-se também os respectivos pelourinhos e forcas. Se bem recordamos, pareceu-nos que da de Bragança pende o vulto de um enforcado, talvez justiçado na altura em que Duarte de Armas esteve em Bragança, facto interessante como elemento cronológico. (1417) HERCULANO A. – Monge de Cister; GARRETT, Almeida – Arco de Sant’Ana, citados por CHAVES, Luís – Os Pelourinhos Portugueses, 1930, p. 10, 11, 16 e 20. MONTEIRO, Manuel – Serões, 1907, p. 190. (1418) VITERBO – Elucidário, artigo «Zeganiar».

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PELOURINHOS

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-de-Fé da Inquisição de Lisboa de 16 de Janeiro de 1605 (1420) foi julgada por blasfémias Inês Fernandes, solteira, filha de Álvaro Fernandes, natural de Candedo, concelho de Vinhais, moradora em Bragança, e condenada a açoutes e mordaça. Merecem atenção especial os pelourinhos, porque, pelas suas proporções, equilíbrio e disposição ornamentológica; pela sua figuração humana, animal, vegetal, heráldica, simbólica e iconográfica são verdadeiros monumentos arquitectónicos, característicos da fácies mental de uma época da arte românica, gótica, manuelina, renascença e barroca, dominante ao tempo da sua erecção; da hegemonia étnica e espírito inventivo de uma região, quando ela chega a produzir um modelo especial, como são, por exemplo, os pelourinhos Tipo Bragançano, definidos pelo capitel em cruz grega, que aparece nos de Bragança, Azinhoso, Chacim, Frechas, Freixo, Mirandela, Mogadouro, Outeiro, Torre de D. Chama e Vale de Prados. Luís Chaves (1421) foi quem primeiro propôs a classificação Pelourinhos do tipo Bragançano. Os pelourinhos não são monumentos de ignomínia, como erradamente se tem dito, por entenderem que serviram de forca; são antes os pergaminhos nobilitantes de uma terra, devendo por isso conservar-se; são o documento vivo, a prova sensível da independência, liberdade e poder jurisdicional dessa terra; a prova de que tinha direito e cabeça para se governar por si, sem precisar de tutela estranha; são a bandeira em volta da qual todos devem congregar-se. Resumem a vida municipal da terra, e por isso, quando alguém atenta contra ela, contra os interesses da colectividade, é aí que vai patentear-se a sem-razão; aplicar a correcção, fraternal a bem dizer, leve afinal, segundo aquela brandura medieva, que tão dura nos parece, mas sem ir mais adiante. Quando a lei exigia pena grave, lá estava a cadeia, a forca. Nada disto era o pelourinho; aviso, corregimento provisório e mais nada, procurando, pelo efeito moral do escárnio e sarcasmo do poviléu, trazer o transgressor ao verdadeiro caminho, indispensável ao convívio municipalista. Abreiro. O pelourinho da vila de Abreiro, antiga sede de concelho extinto e hoje incorporado no de Mirandela (1422), é todo de granito e consta

(1419) Ibidem. (1420) Listas manuscritas existentes na Biblioteca Nacional de Lisboa. (1421) CHAVES, Luís – Os Pelourinhos Portugueses, 1930, p. 64; idem em A Voz de 1-5-1930. (1422) Abreiro teve foral dado por D. Sancho em 1225; publicámo-lo no tomo IV, p. 433, destas Memórias.

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PELOURINHOS

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de escadório de três degraus, disposto em forma de pirâmide quadrangular; pedestal oitavado, fuste liso; capitel e sobre ele um paralelepípedo, que tem na frente as quinas nacionais com a orla dos castelos e nos outros lados escudos, cujas armas não podemos precisar, por imperceptíveis [253]. A coroar tudo, uma pirâmide cónica rematada em esferóide, tipo de cabaça. Nas linhas gerais aproxima-se do de Carrazeda de Ansiães. Foi publicado na Ilustração Trasmontana, 1910, p. 171 (1423).

Pelourinho de Abreiro

Alfândega da Fé. O pelourinho desta vila, sede de concelho (1424), foi destruído em 1578 para dar passagem à estrada a macadame que serve a vila (1425).

Ansiães (1426). Em 1734 foi José Álvares de Almeida nomeado juiz de fora de Ansiães, e como esta vila, sempre com menos de vinte fogos (1427), ficava em lugar desabrido, falto de água e de acesso trabalhoso para transporte de (1423) Em A Região Duriense, bissemanário da Régua, de que é director e proprietário o Dr. Júlio Vasques, desde 1931 por diante têm saído fotogravuras de alguns pelourinhos bragançanos, como sejam: Carrazeda de Ansiães, Freixo de Espada à Cinta, Outeiro, Rebordãos e Vila Franca. São as mesmas gravuras que saíram na Ilustração Trasmontana. (1424) No tomo IV, p. 324, destas Memórias publicámos o foral dado a esta vila por el rei D. Dinis em 1294 e, na p. 391, o que lhe deu el rei D. Manuel em 1510. (1425) VILARES, João Baptista – Monografia do concelho de Alfândega da Fé, p. 139. (1426) Publicámos o seu foral no tomo IV, p. 403, destas Memórias. É anterior à fundação da nacionalidade portuguesa. E na p. 218 e seg. o que lhe deu D. Manuel em 1510. (1427) Memórias de Ansiães, por João Pinto de Morais, reitor de São João Baptista, extramuros de Ansiães, e António de Sousa Pinto, natural de Marzagão, que mais tarde se ordenou e foi reitor da sua freguesia, manuscrito de 1721, existente na Biblioteca Nacional de Lisboa, §§ 51 a 53. Em 1721 já só tinha 13. Idem § 22. Publicámos este manuscrito em O Trasmontano, semanário de Carrazeda de Ansiães, desde 6 de Janeiro de 1911 por diante.

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PELOURINHOS

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mantimentos e pessoas, mudou a sede concelhia para a povoação de Carrazeda, hoje chamada Carrazeda de Ansiães, por ser mais central, onde, por ordem régia, mandou construir os paços do concelho, já prontos em 1737, segundo declara a inscrição que têm na fachada. Mais tarde, o juiz de fora Francisco Justiniano Ferraz de Araújo e Castro, para acabar de todo com o prestígio de Ansiães, mandou derribar o seu pelourinho (1428). Eis como as Memórias de Ansiães o descrevem: «Nas armas que tem o pellourinho della alem das Riais dêste Reino que tem em hum dos 4 coadros em hum delles tem hüa torre com duas portas e em outro hum Castello com sua porta, e nella huma mam com hüa chave e em outro hum velho venerando com os braços meios levantados, e parece que com hüa maça na mam direita á maneira de quem peleja» (1429). As armas do sinete da Câmara divergiam destas, pois constavam de «huma Torre com hüa porta e nella huma mam com 2 chaves, e em seo circuito o seguinte letreiro – Anciaens Lial ao Rey de Portugal» (1430). Os nossos historiógrafos têm armado grande balbúrdia, confundindo as armas do pelourinho com as do selo municipal, misturando tudo. O velho pelourinho de Ansiães ainda se conserva prostrado no recinto intramuros, esperando que a mentalidade local se Pelourinho de Azinhoso

(1428) MESQUITA, José Maria de Morais da – Memórias etimológicas e históricas do concelho de Ansiães, 1857, p. 66. Este opúsculo é o resumo da parte essencial do manuscrito intitulado Notabilidades antigas e modernas da Vila de Ansiães, por Manuel de Morais Magalhães Borges. Ver tomo VII, p. 55 e 283, e tomo VIII, p. 85, destas Memórias. (1429) MORAIS, João Pinto de – Memórias de Ansiães, 1721, manuscrito, § 16. (1430) Ibidem, § 17.

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PELOURINHOS

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revalorize com o restauro ou conservação digna desta relíquia e da outra chamada Igreja de São Salvador. Ainda vimos o pelourinho em 1924, numa excursão feita a esses sítios desde 20 a 25 de Outubro, em companhia do Doutor Raul Manuel Teixeira, ao tempo juiz de direito desta comarca, e Doutor Pedro Vitorino, conservador do Museu Municipal do Porto. Azinhoso (1431). Altura total do pelourinho, compreendendo escadório, 4,29m. Fuste redondo, escadório em forma de pirâmide quadrangular, tendo três degraus por cada lado. É de braços como o do Mogadouro. Bragança. O pelourinho desta cidade consta de um escadório poligonal de três degraus, na plataforma do qual assenta um quadrúpede, vulgarmente dito Porca da Vila, a que furaram o dorso para encaixar uma coluna redonda, lisa, de 6,40m de altura por 0,30m de diâmetro. Serve-lhe de capitel uma pedra discóide achatada, de que saem quatro braços em forma de cruz grega, tendo carrancas nos topos e nos intervalos, em relevo, várias figuras humanas, que parecem representar cenas de castigo, uma ave, um cão, ornatos flor-de-lisados e um escudo dividido em pala, tendo na esquerda um castelo e na direita as quinas, segurado por uma figura humana, que forma o remate do monumento, todo ele de granito, bem como o escadório e Porca. A sua altura é de 7,42m, sendo 1,02m do escadório e o resto do monumento. Pelourinho de Bragança

(1431) Teve foral dado por el rei D. Manuel em 1520, que publicámos no tomo IV, p. 255, destas Memórias, e na p. 251 vários privilégios concedidos por D. João I a esta vila.

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PELOURINHOS

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A Porca da Vila, acima mencionada, engloba no tipo dos monumentos pré-históricos que mencionamos no artigo Porcos; nada tem que ver com o pelourinho a que a ligaram, pois é muitíssimos séculos anterior. O Pelourinho de Bragança estava, segundo era costume, em frente dos antigos Paços do Concelho (Domus Municipalis), de que falámos no artigo Bragança, e foi mudado pelos anos de 1860 para a Praça de São Tiago, onde agora se encontra, distanciado do primitivo local cerca de duzentos metros; arquitectonicamente pertence ao estilo românico, segundo escreve Luís Chaves (1432), baseado nos braços cruciformes, que toma como modilhões, e nas insculturas [254]. A sua fotogravura encontra-se na Ilustração Tramontana, 1909, p. 154; Serões, n° 21, correspondente a Março de 1907; devendo porém advertir-se que a epígrafe deste pelourinho está trocada com o de Rebordãos, pois pertence a Bragança o que dá como sendo de Rebordãos; Luís Chaves, Os Pelourinhos Portugueses, 1930, p. 15. Já atrás dissemos que o Pelourinho de Bragança concretiza o tipo bragançano. Carrazeda de Ansiães. Era uma aldeia da despovoada vila de Ansiães, transferindo-se em 1734 a sede municipal desta para aquela povoação, onde na mesma época se erigiu pelourinho diferente do de Ansiães, que, para vergonha da mentalidade local, anda aos tombos, despedaçado, no recinto muralhado da desabitada vila [255]. O pelourinho de Carrazeda de Ansiães é todo de granito aparelhado e encontra-se no largo em frente da cadeia e Paços do Concelho. Consta de escadório de quatro degraus, em forma de pirâmide quadrangular, mas de formato sui generis; fuste octogonal, liso, de três metros de altura, sem ornatos; capitel com o escudo nacional e orla dos castelos encimado por uma pirâmide cónica truncada, ornada por ressaltes à moda dos botaréus góticos, tendo de altura 0,65m e cerca de 0,50m aquele. Arquitectonicamente, este pelourinho aproxima-se do de Abreiro. Foi publicado na Ilustração Trasmontana, 1910, p. 170. Castro Vicente. O pelourinho desta antiga vila e sede concelhia, hoje incorporada no concelho do Mogadouro, ainda se conserva em pé. Assenta sobre um escadório octogonal, formado por seis degraus com 1,20m de altura. O fuste, também oitavado, tem de largura 0,30m por 2,60m de altura.

(1432) CHAVES, Luís – Os Pelourinhos Portugueses, 1930, p. 17 e 30. Bragança teve foral dado por D. Sancho em 1187; teve outro dado por D. Afonso III em 1252 e ainda outro dado por el rei D. Manuel em 1514. Ver o tomo III, p. 107 e seg., destas Memórias, onde os publicámos.

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O capitel é quadrangular e regula por 0,60m de altura; uma das faces ostenta um escudo com as armas de Portugal; nas outras há escudos, mas não se divisam emblemas heráldicos, ou porque nunca os tiveram ou, mais provavelmente, porque o tempo os levou, pois em dois deles parece ver-se uma estrela em chefe. O monumento é todo de granito e rematado por uma pirâmide cónica, já mutilada. Chacim. O pelourinho da vila de Chacim, sede de um extinto conPelourinho de Castro Vicente (1433) celho , é todo de granito aparelhado e consta de um escadório de três degraus, dispostos em forma octogonal, arrancando do cume deste o pedestal e fuste oitavado (quatro lados mais estreitos e quatro mais largos, alternando entre si estreitos e largos, sendo estes ornados por florões em série). O seu capitel é formado por quatro braços ou hastes equilaterais que rompem de um disco achatado, cruzados em aspa ou, melhor, cruz grega, de onde o nome de capitel em cruz grega, que damos aos deste tipo, muito frequente nos pelourinhos bragançanos. Nos espaços entre os braços da cruz e topos destas há gravadas figuras alegóricas e ornatos. Sobre o capitel assenta, à laia de arquitrave, um paralelepípedo, tendo num dos lados as armas reais junto a uma figura de mulher (Nossa Senhora de Balsemão, que, segundo a lenda, valeu aos cristãos em luta contra os mouros por causa do tributo das donzelas?). Ainda neste lado, por baixo das armas reais, está gravada a data 1769, possível referência à erecção deste pelourinho, pois a autonomia municipal de Chacim é

(1433) Publicámos o seu foral no tomo IV, p. 260, destas Memórias. Foi-lhe dado por el rei D. Manuel I.

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muito mais antiga. Na face oposta às armas reais está o escudo dos Sampaios, donatários da terra. Ver p. 183, onde se faz a sua descrição. Do ponto de junção entre o capitel e o paralelepípedo, coroado por um cone truncado ou colunelo, saem quatro hastes de ferro serpentiformes, como as dos pelourinhos de Outeiro e Freixo de Espada à Cinta, e também como estes, o fuste, à altura de um homem, é cingido por delgado e estreito arquinho de ferro com argolinha. O pelourinho de Chacim encontra-se desenhado na Ilustração Trasmontana, p. 56.

Pelourinho de Chacim

Ervedosa (1434). O pelourinho desta vila, agora incorporada no concelho de Vinhais, consta de um escadório circular de três degraus, sobre o qual assenta a coluna octogonal coroada por um capitel trapezoidal, sobre o qual assenta uma espécie de calote, como no de Rebordãos. A sua altura acima do escadório é de 2,60m. Não tem ornato nenhum e é todo de cantaria, como os demais do distrito de Bragança. Faílde e Carocedo. Estas duas vilas formavam um concelho municipal, que foi suprimido e incorporado no de Bragança. O seu pelourinho estava já mutilado, restando apenas de pé o fuste, sem capitel ou remate, «coluça», como lá lhe chamam, mas, graças à interferência do coronel Albino dos Santos Pereira Lopo, foi completado, como ele mesmo declara (1435).

(1434) Teve foral dado por D. Dinis em 1288 e outro dado por D. Manuel em 1514. Ver tomo IV, p. 194, destas Memórias, onde os publicámos. (1435) O Arqueólogo Português, vol. 15, p. 332.

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Frechas (1436). O pelourinho desta vila, hoje incorporada no concelho de Mirandela, consta de um escadório triangular de cinco degraus, todos de granito, bem como o resto do monumento, da altura de um metro, que servem de apoio à base octógona, ornada por besantes, e esta ao fuste, igualmente oitavado, ostentando a mesma decoração acrescida de florões. O capitel, em forma de cruz grega, alinha tipologicamente ao lado do pelourinho de Bragança, terminando os quatro braços: dois em carantonha, um em florão e o quarto em «furo para destino ignorado». Pelourinho de Frechas Dos ferros recurvados com argolinha pendente, que os pelourinhos deste tipo apresentam projectados sobre os quatro braços, apenas resta um. Sobre o capitel assenta um paralelepípedo ornado na parte norte por duas caras, uma das quais barbada e coroada; na do sul por uma figura feminina (?), nua, pernas escanchadas, mãos postas em atitude de súplica (o povo explica-a eroticamente); na do poente pelo escudo nacional, ornado de cinco castelos somente, e na outra pelo escudo dos Sampaios, outrora donatários da terra. Completa o monumento um cilindro carregado de vários ornatos, dispostos em quatro faixas. Este pelourinho tem 4,60m de altura acima do escadório.

(1436) Teve foral dado por D. Manuel em 1513, que foi por nós publicado no tomo IV, p. 262, destas Memórias. Ver SALES, Ernesto Augusto Pereira – Dois documentos históricos: O foral e o pelourinho da exinta vila de Frechas, 1923, separata da «Arqueologia e História». Contém interessantes fotogravuras detalhadas do pelourinho e do foral de Frechas.

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Freixiel. O pelourinho de Freixiel, vila autónoma, hoje incorporada no concelho de Vila Flor, todo de granito, bem como os demais do distrito de Bragança, mede 6,24m de altura e consta de um escadório oitavado de quatro degraus, sobre o qual se ergue o fuste encimado por um capitel quadrangular, ornado na base por uma cinta de florões, tendo em duas faces o escudo nacional. Nas outras duas também estavam as mesmas armas, mas foram picadas pelos franceses durante a Guerra Peninsular, segundo dizem na povoação. Seria assim ou estaria nesses lados o emblema da Ordem de Malta ou de seus comendadores, senhores da terra, arrasado Pelourinho de Freixiel por má vontade popular? [256]. A uma rua de Freixiel ainda lhe chamam Rua Queimada, e dizem que foi incendiada pelos franceses (1437). Freixo de Espada à Cinta (1438). Nas suas linhas gerais o pelourinho desta antiga vila bragançana concorda na matéria, ornamentação, argola do fuste, varinhas do capitel, paralelepípedo e cone terminal com os de Chacim e Outeiro (ver estes), levando-lhes porém vantagem no todo mais cuidado da sua elaboração. O capitel não tem, como aqueles, o formato em cruz grega. As figuras alegóricas nos lados do paralelepípedo apresentam: num, o escudo de Freixo, diferindo do que se encontra na torre das fortificações por ter a espada suspensa do tronco do freixo, tal qual como se encontra noutro

(1437) Freixiel teve foral dado em 1195-1209. Ver tomo IV, p. 422, destas Memórias, onde o publicámos. (1438) No tomo IV, p. 328, 406 e 411, publicámos os forais desta vila.

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escudo existente na actual cadeia, e não tendo, como este, o escudete das quinas; no outro lado tem as armas do reino. Na face voltada a poente tem um escudo com um castelo de três torres, não se distinguindo mais qualquer outra peça, e a face voltada a norte apresenta um saliente, que talvez seja a representação do freixo. Arquitectonicamente, o pelourinho de Freixo pertence à arte manuelina (1439) é todo de granito, assenta sobre um escadório de dois degraus com 0,50m de altura; fuste octogonal ornado por florões. O todo do monumento regula por cinco metros acima do escadório. O desenho deste pelourinho encontra-se na Ilustração Trasmontana, 1910, p. 109 e nos Serões, 1907, p. 21 [257]. Frieira (1440). Vila autónoma, agora incorporada no concelho de Bragança. O Pelourinho de Freixo de Espada à Cinta seu pelourinho consta de um escadório quadrangular, de dois degraus de xisto com 0,40m de altura, postos sobre um montículo de pedras. Em cima daqueles ergue-se a base cónica, de granito, como o resto do monumento, que serve de apoio ao fuste de forma cilíndrica, coroado por capitel discóide, do qual partem quatro braços em cruz grega – tipo pelourinho de Bragança – rematando o todo por uma pirâmide cónica. A altura do monumento acima do escadório é de 2,70m. Gostei. O pelourinho da vila de Gostei, extinto concelho, hoje incorporado no de Bragança, a que D. Dinis deu foral em 1289 (1441), é típico na sua singeleza, pequena altura, absoluta falta de ornatos e nudeza primitiva. Consta de uma coluna cilíndrica de granito, coroada por um capitel de forma cónica, talhado à moda das carapuças dos personagens nas iluminuras medievas, que se ergue entre quatro blocos de granito, dispostos não (1439) CHAVES, Luís – Os Pelourinhos Portugueses, p. 17. (1440) Teve foral dado em 1282 por el rei D. Dinis, que publicámos no tomo III, p. 294, destas Memórias. (1441) Ver tomo III, p. 288, destas Memórias, onde o publicámos.

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em forma de escadório, mas com o fim de lhe servirem de sustentáculo, tudo grosseiramente trabalhado. Parece-nos que este pelourinho, grosseiro, baixo, robusto, com tal capitel, aliado à circunstância de ser perfeitamente idêntico ao de Vila Franca de Lampaças, a quem o mesmo rei D. Dinis deu foral em 1286 (1442), será com aquele o mais antigo do distrito de Bragança. O pelourinho de Gostei está situado num largo junto à igreja paroquial, em frente da antiga cadeia (1443). A sua fotogravura encontra-se na Ilustração Trasmontana, 1910, p. 172. Lamas de Orelhão (1444). O pelourinho de Lamas de Orelhão, vila hoje incorporada no concelho de Mirandela, todo de granito, como os demais do distrito de Bragança, consta de um escadório octogonal de quatro degraus, ângulos arredondados, com a altura de 1,80m. Em cima dele levantase o fuste, de forma cónica, assente em pedestal também oitavado, coroado pelo capitel, de onde partem quatro braços em forma de cruz grega, destacando-se nos intervalos doze saliências semi-esféricas (besantes). O todo finda em coruchéu com quatro pequenas saliências, cobertas por uma espécie de capacete com saliências e reentrâncias, à maneira de pequenas Pelourinho de Lamas de Orelhão folhas.

(1442) Tomo III, p. 291, destas Memórias, idem. (1443) Esta casa da cadeia e Câmara de Gostei ainda hoje pertence à junta da paróquia da freguesia e conserva o aspecto primitivo, interessante para ajuizarmos da vida municipal daquele tempo. (1444) Teve foral dado em 1259 por D. Afonso III. Foi por nós publicado no tomo IV, p. 183, destas Memórias. Ver o artigo Lamas de Orelhão, p. 447.

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Desde o escadório para cima tem de altura três metros, vindo, portanto, a dar no todo 4,80m. Coisa de trezentos metros de Lamas de Orelhão, logo por cima da capela da Senhora do Amparo, ficava a Forca, complemento jurisdicional inerente ao pelourinho. Mirandela. O pelourinho desta vila, sede de concelho (1445), foi destruído em seguida à implantação do constitucionalismo em 1834, mas, encontrando no jardim da casa da Câmara de Mirandela parte das suas pedras o Doutor António Júlio do Vale e Sousa, delegado na comarca do Mogadouro, reconstituiu-o e publicou o desenho no vol. X, p. 160, da História de Portugal de Pinheiro Chagas. Eis como Luís Chaves o descreve: «Tinha braços transversos terminados em cabeça de leão; era própria do tipo desta decoração zoomórfica, como remate dos braços da cruz. Entre o fuste e o “coluço” ou remate (leões, porcos, carrancas). Rematava o de Mirandela um florão coroado. Do fuste nada havia. Poderia ter sido liso, cilíndrico (Bragança) ou prismático (Mogadouro). O principal é conhecido. Existem ainda esses fragmentos? Se existem, porque não há-de a Câmara ou alguma entidade moral do concelho restaurar o padrão das liberdades municipais? Pelos fragmentos conservados, ou pelo desenho publicado na História de Portugal, pode-se restaurá-lo sem falsificação de modelo. Porque por analogia se poderia dar qualquer dos modelos dos pelourinhos similares, e eu, pelo exame da decoração, dar-lhe-ia o de Chacim, Frechas, ou Freixo, o pelourinho ficava certo, no que se pode refazer com certeza, e provável no resto não identificado. A Câmara honrar-se-ia com esse monumento e provaria a sua cultura moderna, alheia a erros históricos e procurando renovar para o futuro a continuidade do passado» (1446). Os fragmentos do pelourinho de Mirandela ainda hoje (Maio de 1934) se conservam no pequeno quintal adjunto à Câmara de Mirandela; falta apenas mão carinhosa e culta que compreenda o valor histórico do monumento e o restaure, colocando-o no devido lugar [258]. Para se julgar da elegância gráfica dos forais manuelinos, damos aqui o primeiro fólio do de Mirandela, lembrando que nos tomos III e IV fizemos a descrição bibliográfica destes monumentos.

(1445) No tomo IV, p. 168, destas Memórias publicámos o foral dado a esta vila por el rei D. Dinis em 1291 e na p. 199 e seguintes o que lhe deu D. Manuel em 1512. (1446) CHAVES, Luís, «A Voz» de 17-4-1931. CHAVES, Luís – Os Pelourinhos Portugueses, 1930, p. 51.

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Primeiro fólio do primeiro foral de Mirandela

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Mogadouro (1447). O pelourinho desta vila, todo de granito, assenta num escadório de quatro degraus em forma de pirâmide quadrangular e consta de pedestal, fuste octogonal, liso, tendo, à altura de um homem, delgado e estreito arco de ferro com uma argola pendente. Do capitel, em forma de disco achatado, projectam-se quatro braços iguais, cortando-se em aspa ou, melhor, cruz grega. Sobre o capitel assenta uma pirâmide quadrangular de lados ornados por duas fiadas de toros em série, coroada por um cone truncado, do qual rompe um esporão triangular de ferro. Altura do escadório 0,59m, idem do pelourinho, compreendendo pedestal, fuste, etc., 1,68m. Está situado num largo a sul, perto da igreja paroquial, do castelo e muralhas, em frente dos antigos Paços do Concelho. Das fortificações do Mogadouro resta: uma torre ameiada de forma quadrangular, toda de alvenaria argamassada, ainda completa, mas esburacada, arruinada e mal conservada, e parte de outra torre ou, melhor, só as bases dela. Fora do recinto fortificado, mas perto dele, há uma torre quadrangular de granito, tendo no cimo duas janelas, quase quadradas, de cada lado. É possível que esta torre fosse a dos sinos, separada, como era costume nos templos românicos, de outra igreja ali perto, agora sem estilo característico, talvez em razão de reconstruções, mas que bem podia ter outro tipo arquitectónico na sua fase primitiva. A fotogravura do pelourinho do Mogadouro vem na Ilustração Trasmontana, 1910, p. 87. No século XVI, como se vê do desenho de Duarte de Armas, Livro das Fortalezas, p. 79 e seg., manuscrito da Torre do Tombo, o pelourinho do Mogadouro divergia do que agora existe, pois era de gaiola, bem como o de Penas Roias. Moncorvo. O pelourinho desta vila e sede de concelho (1448) desapareceu, porque «o desleixo o deixou desmoronar, nada existindo do mesmo» (1449). Todavia, nos baixos do antigo tribunal, agora (1934) em demolição, há duas pedras de granito ornamentadas, que parece pertenceram ao seu capitel, segundo nos informa o tenente João José Vaz de Morais de Abreu Sarmento. Uma tem 0,55m de alto por 0,35m de largura. Numa das faces apresenta um castelo; na outra a esfera armilar. Decoram as duas restantes ornatos florais. A outra, idêntica à anterior no formato, ajustando-se-lhe na secção da base, devia assentar sobre ela; mede 0,85m e termina por um grande corvo, que segura nas unhas o escudo de Portugal [259]. (1447) Ver tomo IV, p. 436 e 437 destas Memórias, onde publicámos os dois forais do Mogadouro, dados por D. Afonso em 1272 e 1273. Teve outro dado por D. Manuel I. (1448) No tomo IV, p. 304. destas Memórias publicámos o foral dado a esta vila por el rei D. Manuel em 1512. (1449) Boletim da Real Associação dos Arqueólogos, n° 10, p. 587.

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Nozelos. Do pelourinho desta vila, agora incorporada no concelho de Macedo de Cavaleiros, ainda resta o fuste de forma cilíndrica. Outeiro. O pelourinho de Outeiro (1450) é, na matéria, ornamentação, proporções e disposição, perfeitamente igual ao de Chacim, abstendo-nos, por brevidade, de descrição particular. Todavia, é possível que na figuração alegórica do capitel e paralelepípedo haja diferença, pois num dos lados deste estão as armas do reino, no outro uma figura revestida de amplas vestes sacerdotais báculo na mão e nimbo (?) na cabeça, em atitude de atender um personagem a seus pés. Como Outeiro e região adjacente pertenceram ao mosteiro de Castro de Avelãs e seu Dom Abade, passando depois esta posse e rendas para os bispos e cabido de Miranda, teremos na glíptica alegórica a representação iconográfica deste facto? Paçó de Quintela, também chamada Paçó de Vinhais. Vila, sede de concelho extinto, hoje incorporado no de Vinhais. Não podemos despedir-nos de Paçó de Vinhais – apontámos no nosso caderno de notas em 30 de Abril de 1932, numa excursão a estes sítios – sem nos referirmos à dor de alma que nos causou ao ver o capitel do seu pelourinho a servir de Pelourinho batente à porta de uma loja de bois! É de granito, de Outeiro oitavado, decorado por três ordens de ornatos, que se repetem, alternando em cada face do octógono. Num, uma torre com três janelas, terminada em triângulo coroado por uma cruz; no outro, um triângulo encimado por três círculos contínuos em linha recta e no outro uma carantonha. O centro da base apresenta o orifício onde encaixava o fuste da coluna. Que a mentalidade indígena se amercie do monumento, lídimo brasão do seu povo, mandando-o restaurar, como fizeram os de Vinhais, ou recolher a um museu, onde documentará a importância da sua terra, a glória dos que, pelo seu valor mental, cívico e económico, souberam triunfar abraçados à ideia municipalista, égide de incalculáveis benefícios sociais. É possível que, procurando cuidadosamente, ainda apareçam as outras pedras do monumento [260].

(1450) O seu foral foi publicado no tomo III, p. 279, destas Memórias.

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TOMO IX

Penas Roias. O pelourinho desta vila, sede de concelho (1451), hoje incorporado no do Mogadouro, pertencia ao tipo dos de gaiola, bem como o do Mogadouro, e encontra-se desenhado em Duarte de Armas (1452). Segundo nos informou o tenente João José Vaz de Morais de Abreu Sarmento ainda em 1933 havia dois pedaços do fuste do pelourinho de Penas Roias utilizadas para degraus de uma escada na povoação. São cilíndricos: um tem 0,80m de comprimento por 0,28m de diâmetro e outro 0,90m por 0,32m. Pinhovelo. O pelourinho desta vila, antigo concelho, hoje extinto e incorporado no de Macedo de Cavaleiros, é todo de granito aparelhado. Consta de pedestal assente sobre escadório de dois degraus; fuste oitavado, ornado por besantes em série, alternando com ornatos em ponta de diamante, capitel quadrangular, tendo inscrita na frente a data 1776, época provável em que foi reconstruído, paralelepípedo assente sobre o capitel, tendo na frente o escudo nacional com a orla dos castelos, encimando tudo numa pirâmide cónica coroada por uma esfera, tudo de granito, como fica dito, alcançando quatro metros a sua altura. Está num largo no meio da povoação, em frente dos antigos Paços Municipais. A sua fotogravura foi publicada na Ilustração Trasmontana, 1910, p. 153.

Pelourinho de Rebordaínhos

Rebordaínhos. O pelourinho da vila de Rebordaínhos, sede de concelho extinto e hoje incorporado no de Bragança, ainda se conserva num pequeno largo em frente da antiga cadeia e casa da Câmara, já vendidas a pessoa particular. Consta de um escadório de dois degraus dispostos em forma de pirâmide

(1451) Teve foral dado por el rei D. Afonso em 1272 e outro dado pelo mesmo rei em 1273. Ver tomo IV, p. 436 e 439, destas Memórias, onde os publicámos. São ambos, bem como os dois que na mesma data teve o Mogadouro, modelados pelo tipo do foral de Samora. (1452) Livro das Plantas das Fortalezas do extremo deste Reino, manuscrito do século XVI, existente na Torre do Tombo.

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PELOURINHOS

533 TOMO IX

quadrangular, prestes a desconjuntar-se, rompendo da plataforma do superior o fuste oitavado, a meio do qual se destaca um arquinho de ferro. Tem capitel de forma quadrangular, que apresenta vestígios de insculturas, coroando tudo um esferóide. Rebordãos (1453). O pelourinho da vila de Rebordãos, hoje incorporada no concelho de Bragança, consta de um escadório quadrangular, de dois degraus – um de granito e outro de xisto – com a altura de 0,54m. Em cima deles assenta a base rectangular de granito, bem como o resto do monumento, sobre a qual se ergue o fuste oitavado, tendo apenas a meio, por ornato, quatro pequenas saliências semi-esferóides. Serve-lhe de capitel um cubo ou paralelepípedo muito maior que a base, dando-lhe aspecto de ter a cabeça maior que os pés, encimado por cúpula de calote. A sua altura acima do escadório regula por 3,50m. Ainda se conserva Pelourinho de Rebordãos no local primitivo em frente dos antigos Paços do Concelho e cadeia, agora convertido em escola primária e residência do professor. Disseram-me na povoação que o pelourinho caíra e o ergueram novamente, de onde a possibilidade de servir agora de capitel a antiga base e vice-versa.

(1453) Teve dois forais: um dado em 1208 por D. Sancho e outro em 1285 por D. Dinis. Estão publicados no tomo III, p. 299 e seg., destas Memórias.

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PELOURINHOS

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Sanceriz (1454). O pelourinho da vila de Sanceriz, agora incorporada no concelho de Bragança, consta de quatro degraus de xisto, dispostos quadrangularmente, num total de 1,50m de altura. Sobre estes assenta a base octogonal de granito, bem como o resto do monumento, que serve de apoio à coluna, também de oito faces, coroada por capitel cónico como o de Gostei, do qual saem quatro braços – tipo pelourinho de Bragança – já mutilados. A sua altura, excluindo o escadório, regula por 3,10m. A traça primitiva do pelourinho era outra, pois tinha a Pelourinho de São Ceriz base quadrangular e o fuste cilíndrico mas, tendo caído, ao erguê-lo, pelos anos de 1930, modificaram-na no sentido acima, ajustando-lhe à base o peso de um lagar. Torre de Dona Chama. O pelourinho desta vila, antiga sede concelhia (1455), todo de granito, consta de pedestal assente sobre um bloco quadrangular, fuste hexaédrico e não liso, como alguns dizem, capitel encimado por um bloco quadrado, de onde se projectam os braços terminados nos topos em cabeça de porco. Idêntica inscultura suína se vê nos outros dois lados do bloco, que é coroado por outro, tendo inciso o escudo nacional sem a orla dos castelos. Sobre este assenta o pedestal de

(1454) Teve foral dado por el rei D. Dinis em 1286. Ver tomo III, p. 292, destas Memórias onde o publicámos. (1455) Teve foral dado por el rei D. Dinis em 1287; outro pelo mesmo rei em 1299; e outro dado por D. Manuel em 1512. Ver tomo III, p. 289 e 290, destas Memórias onde publicámos os dois primeiros.

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PELOURINHOS

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uma pirâmide cónica coroada por um disco elipsóide. As esculturas zoomorfas devem relacionar-se com a Berroa da Torre de Dona Chama, quadrúpede em granito, pertencente à pré-história, de que tratamos no artigo Porco, que se encontra coisa de um metro distante do pelourinho. Este tem de altura, desde a Pelourinho da Torre de Dona Chama base do pedestal, 5,26m. O pelourinho da Torre de Dona Chama foi publicado na Ilustração Trasmontana, 1910, p. 155 e nas Religiões da Lusitânia, por J. Leite de Vasconcelos, vol. 3, p. 21, juntamente com a Berroa. Vale de Prados (1456). O pelourinho desta vila, sede de concelho extinto e hoje incorporado no de Macedo de Cavaleiros, é muito interessante arquitectonicamente, pela variedade de insculturas e respectiva simbologia. Consta de três degraus octogonais, num total de 0,60m de altura. Sobre a plataforma destes ergue-se o fuste octogonal de 3,70m de altura, formado por uma só pedra, assente numa base do mesmo formato. Do capitel discóide saem quatro braços em cruz grega, terminados por carantonhas nos topos, tendo nos intervalos uma careta humana, uma figura curva como foice, crescente ou serpente, um cão e uma cabeça de boi. Junto ao cimo do fuste, um pouco abaixo do capitel, há um pequeno orifício que

(1456) Ver tomo III, p. 96, 99, 101 e 190 destas Memórias, onde se diz do seu foral e o publicamos.

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PELOURINHOS

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repassa de um lado para outro, singularidade que não vemos em nenhum outro pelourinho bragançano. Em cima dos braços da cruz assenta um paralelepípedo, que tem na frente as cinco quinas cantonadas de quatro castelos e no lado oposto um quadrúpede, lobo ao que parece. Nos outros dois lados um escudo e uma cruz de hastes em arco de círculo. Ainda nesta peça, logo por cima do quadrúpede, há outro orifício semelhante ao do fuste, mas não vaza para o outro lado. Remata o todo por uma pedra em forma de capacete, pelo teor do de Lamas de Orelhão, assente sobre uma cabeça de sileno, carranca humana ou o quer que seja. A altura do monumento do escadório para cima é de 5,70m, ou seja 6,30m incluindo tudo. Tipologicamente engloba nos Pelourinhos Bragançanos e foi publicado na Ilustração Trasmontana, 1910, p. 172.

Pelourinho de Vila Flor

Vila Flor. O pelourinho desta antiga vila bragançana, derrubado há anos, estava no largo fronteiro aos Paços do Concelho, como era da praxe. O seu capitel, remate superior, formado por um pedaço de coluna octogonal, coroada por um corochéu com ornatos estilo D. João V, e parte do fuste (0,45m de alto) encontram-se no jardim do Sr. Soveral Pastor, de Vila Flor. A pedra em que encaixava o fuste sobre o escadório está debaixo do soalho do estabelecimento do Sr. Armando Alípio Garcia a servir de calço a uma viga. Por informações de quem o viu ainda em pé, sabe-se que era todo de granito, assente sobre um escadório octogonal de cinco degraus. O capitel, de forma quadrangular, com 0,50m de alto e de largura na base 0,35m, ostenta num dos lados um escudo com a flor-de-lis, encimado por uma coroa e ladeado, bem como as outras três faces, por ornatos estilo D. João V (1457).

Vila Franca de Lampaças. Como o pelourinho desta vila bragançana é tipologicamente idêntico ao de Gostei, para lá remetemos o leitor, advertin-

(1457) Vila Flor teve foral dado em 1512 por D. Manuel. Ver tomo IV, p. 394, destas Memórias, onde o publicamos.

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do apenas que o fuste deste de Vila Franca se firma numa mó de moinho a servir-lhe de plataforma. A gravura deste pelourinho foi publicada na Ilustração Trasmontana, 1910, p. 126. Vila Franca teve foral dado em 1286 por D. Dinis, cuja reprodução fizemos no tomo III, p. 291. Vilar Seco de Lomba. O pelourinho da antiga vila de Vilar Seco de Lomba, hoje incorporada no concelho de Vinhais, é como todos os demais do distrito de Bragança, de granito e conserva-se ainda em frente dos antigos Paços do Concelho, agora apropriados a escola primária. Consta de quatro degraus dispostos em forma circular, acima dos quais se eleva 3,50m. Fuste cilíndrico terminado em carantonhas, das quais arrancam quatro braços, terminados em cabeças de serpes, que lhe dão arranjo único na região bragançana (1458) [261]. Vilarinho da Castanheira. O pelourinho desta vila, agora incorporada no concelho de Carrazeda de Ansiães, andava aos tombos numa estrumeira, mas ultimamente, graças ao salvador movimento regionalista, compadeceram-se do monumento nobilitante da terra e colocaram as únicas peças que restavam – a coluna adjunta a uma carantonha – Pelourinho em cima da fonte da vila. de Vilar Seco de Lomba Vilarinho da Castanheira teve foral dado em 1218 por el-rei D. Afonso; outro dado em 1287 por D. Dinis e ainda outro dado por el-rei D. Pedro em 1363 (1459). Vimioso. O pelourinho desta vila, todo de granito, encontra-se num largo perto dos Paços do Concelho. Consta de um escadório quadrangular, de quatro degraus por lado, sobre o qual se ergue o fuste oitavado, coroado por um disco achatado ou tambor, do qual saem quatro braços em

(1458) Vilar Seco de Lomba teve três forais dados por D. Dinis e D. Manuel I. Estão publicados no tomo IV, p. 244 e seg., destas Memórias. (1459) Ver tomo IV, p. 185, 188 e 425, destas Memórias, onde os publicamos.

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PELOURINHOS

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forma de cruz grega. Dois destes braços são ornados nos topos por semiesferas dispostas em quincôncio (representariam as quinas do reino?); nos outros dois não vimos os ornatos. Por remate tem um colunelo, de que falta a parte superior, ornado por faixas verticais ligadas por outras horizontais, a modo de degraus de escada, tudo em relevo. Há a notar no fuste a singularidade de apresentar a meio da altura um escudo com as quinas do reino sem a orla dos castelos. A altura do pelourinho desde o escadório para cima é de 3,5m, devendo notar-se que talvez chegasse aos quatro, pois, como fica dito, já desapareceu parte do remate. Estranhando o caso do escudo a meio do fuste, perguntei se teria havido qualquer reconstrução, mas o meu velho amigo e contemporâneo escolar Firmino da Ascensão Geraldes, que já passa dos setenta anos e é natural e residiu sempre no Vimioso, disse-me não haver memóPelourinho do Vimioso ria de tal, tendo-se apenas ultimamente dado uns retoques ao escadório para o consolidar, em razão de ameaçar ruína, mas sem tocarem no resto do monumento (1460). Vinhais. O pelourinho de Vinhais, demolido pelos anos de 1870-1880, foi restaurado em 1929 por iniciativa do Padre Firmino Augusto Martins, então presidente da Câmara Municipal daquele concelho, sob a direcção técnica do arquitecto Baltasar de Castro, no tocante à reposição das pedras componentes primitivas, que poucas faltavam, no seu respectivo lugar. Estava primitivamente na praça, em frente aos Paços do Concelho, como era geral costume, e agora foi colocado na do Arrabalde, perto daqueles, por a outra ter desaparecido, a bem dizer, por novas construções.

(1460) No tomo IV, p. 379 e seg., publicámos o foral dado a Vimioso por el rei D. Manuel em 1516.

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PELOURINHOS | PENHAS JUNTAS

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Pelourinho de Vinhais

Consta de um escadório hexagonal de seis degraus (1461), sobre o qual se eleva o fuste oitavado, que serve de apoio a uma peça do mesmo formato, onde estão insculpidas as armas do reino com a orla dos castelos e a data 1808. Nos outros lados há vários emblemas – duas mãos, dois pés, duas maçãs. Do capitel projectam-se os braços terminados em cabeça de serpe, com florões nos intermédios. Serve-lhe de remate a esfera armilar, emblema do rei D. Manuel I, que deu foral a Vinhais (1462). A altura do pelourinho acima do escadório regula por três metros.

PENHAS JUNTAS O Serro de Penhas Juntas, dois quilómetros distante do povo, concelho de Vinhais, é constituído por um enorme penhasco de três quilómetros aproximadamente de comprimento, que segue em linha recta para o rio Tuela, distante quatro quilómetros. Está cheio de enormes e compridas galerias para exploração de minério, que demonstram insano labor e grandes e ricos filões. Em volta dos fragueiros, e principalmente no Múrio, aparecem pedaços de mós manuárias, restos de casas sem cimento, fossos, muralhas de pedra solta e recintos fortificados, cobertos de pedras de metro enterradas no solo com a ponta para cima, à maneira de estrepes, dispostas com tal arte que, mesmo a pé, dificilmente se anda por entre elas (1463) [262].

(1461) Os degraus são apenas cinco, pois o sexto é a base da coluna. O povo diz que esta base é o lagar; os florões, as folhas de videira; as mãos, pés e maça, símbolos da vindima, para o esmagamento das uvas, tudo relacionado com o nome de Vinhais. (1462) Ver tomo IV, p. 326, destas Memórias, onde o publicámos, e p. 435 do mesmo tomo, onde reproduzimos o que lhe deu D. Afonso III. (1463) O mesmo sistema defensivo se encontra no Castelo de Cidadelhe termo de Segirei, freguesia de S. Vicente da Raia, concelho de Chaves, na Cigaduenha, termo de Picote, concelho de Miranda do Douro, e na Ciradelha, termo de Parada.

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PENHAS JUNTAS | PENAS ROIAS | PINELA

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Pelos anos de 1918 apareceu no penhasco um túmulo com ossos, que profanaram. Da sua disposição e espólio nada nos souberam dizer. A lenda diz que os trabalhos do Serro foram feitos pelos mouros, comunicando as galerias com o rio Tuela, e que lá há grandes tesouros guardados pelo diabo, que às vezes sai aos pastores em forma de touro preto. Acrescenta ainda que as pinturas da Igreja de Penhas Juntas foram feitas com cores tiradas do Buraco das Tintas, nome com que designam uma das galerias do Serro. «Ha em tres partes do dito Serro [de Penhas Juntas] hum vestigio de muros de que ainda se divizão os alicerces, e he tardição (sic) serem fortalezas e Castellos de Mouros» (1464).

PENAS ROIAS «... tem castelo, que é antiquissimo, cujos muros estão arruinados, que eram de pedra de seixo bruto, pedra que não pode ser lavrada, e tem uma Torre antiquissima que ainda está bem segura e fabricada do mesmo seixo bruto, esta tem quatro esquinas, não pode ser bombeada de parte alguma sem que a bomba vá esgodando, porem nan tem aseio algum mais que as paredes, estas bem altas. Sobre a porta (que tambem fica levantada mais de trinta palmos) está um letreiro que por sua antiguidade se não lê, e á parte direita no peito está uma comenda bem feita» (1465) [263].

PINELA O termo de Pinela, concelho de Bragança, fornece larga documentação arqueológica: Castro e Castelo de Alfenim. O Castelo de Alfenim, também chamado de Alvelina e ainda Avelino, fica a quilómetro e meio da povoação de Pinela e coisa de três a nascente da estação de Roças, na via férrea, da qual se vê nitidamente. Ainda conserva restos de fossos e muralhas de pedra solta. No seu espaçoso recinto têm aparecido mós manuárias de granito, tijolos, cerâmica grosseira e telhas de rebordo. A muralha é em parte substituída por grandes rochedos e duplo fosso nos pontos de mais fácil ataque. Há ainda vestígios de uma fonte ou cisterna no recinto fortificado, no qual a lenda diz existirem grandes tesouros encantados pelos mouros. (1464) Memórias Paroquiais de 1758. «O Arqueólogo Português», vol. 6, p. 109, e vol. 7, p. 101. (1465) CARDOSO, Luís – Dicionário Geográfico de Portugal, 1758, manuscrito da Torre do Tombo. «O Arqueólogo Português», vol. 1, p. 12, e tomo VI, p. 109.

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PINELA | PINHEIRO VELHO | PORCO

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Albino Lopo encontrou lá um martelo de sílex (1466), possível resto de estação neolítica [264]. O mesmo diligente investigador, a quem a arqueologia bragançana tanto deve, diz que Castro de Avelãs é a «Alvelina dos forais» (1467). Ver p. 149 e seg. deste tomo. PINHEIRO VELHO No termo do Pinheiro Velho, concelho de Vinhais, há um sítio chamado Castro. A fortificação é constituída por um fosso de mais de vinte metros de largura e mais do dobro de comprimento. Marchando deste fosso para o recinto, há vestígios de forte muralha e depois outro fosso. Estas defesas não circuitam completamente o recinto, que, em parte, é defendido por inacessível despenhadeiro, ao qual se ligam as obras de arte. Temos aqui um castro defendido por dois fossos e um muro. No recinto aparecem mós manuárias e cerâmica idêntica à dos outros castros bragançanos [265].

PORCO O NOSSO IRMÃO PORCO Há na província de Trás-os-Montes umas esculturas zoomorfas [266] em pedra, granítica geralmente, representando quadrúpedes, conhecidos pelo nome de Porcos ou Porcas, segundo indica a marcação sexual, nitidamente definida em muitos exemplares, se bem que noutros é incognoscível. Idênticas esculturas se encontram nas vizinhas províncias espanholas de Salamanca e Zamora, que etnograficamente, em parte, muita conformidade têm com aquelas (1468). Em Portugal, fora da região trasmontana, são desconhecidos, a bem dizer, estes monumentos, se bem que Martins Sarmento (1469) dá notícia de duas cabeças de porcos encontradas na exploração que fez das ruínas de Sabrosa. Encontra-se a sua fotogravura nas Religiões da Lusitânia, vol. 3, p. 30. Parece ser no distrito de Bragança onde abundam mais: são já conhecidas dezasseis, enquanto que no de Vila Real se aponta a Porca de Murça e (1466) O Arqueólogo Português, vol. 15, p. 331. (1467) O Arqueólogo Português, vol. 2, p. 286. (1468) HOERNES, Moritz – Pré-história, trad. espanhola, 1926, vol. 2, p. 69. (1469) O Arqueólogo Português, vol. 6, p. 32. No Diário do Governo de 14 de Novembro de 1868 vem o «Relatório sobre o cemitério romano descoberto perto da cidade de Tavira» em Maio desse ano por Augusto Carlos Teixeira de Aragão, onde apareceram duas lâmpadas sepulcrais ornadas com figuras de porcos.

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PORCO

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as duas inéditas que adiante damos. Na província de Zamora conhecem-se duas: sendo uma delas a de San Vitero, de que falamos noutra parte (1470), e na de Salamanca dez e mais uma desaparecida (1471). Quer dizer: só o distrito de Bragança, à sua parte, conta mais esculturas deste tipo do que o resto da província trasmontana e as duas vizinhas espanholas de Zamora e Salamanca. Em algumas partes aparecem estas esculturas ligadas a pelourinhos, como a Porca da Vila de Bragança, que serve de suporte ao desta cidade, e a da Torre de D. Chama, mas nenhuma relação tem uma coisa com outra: os pelourinhos são medievais e posteriores e os quadrúpedes em questão remontam à pré-história, contando, portanto, milénios de antiguidade. Têm grande importância como documentação, primária talvez, da arte ibérica, além do significado étnico. Aos Porcos ou Berrões trasmontanos correspondem em algumas províncias ibéricas outras esculturas zoomorfas, representando bois, cavalos, gatos, leões, etc., a que na Espanha dão o nome genérico de Toros de Guisando, tipificados nos existentes em Ávila. Moran, acima citado, menciona, além dos porcos, mais dois touros existentes na província de Salamanca e seis desaparecidos por culpa de um idiota iconoclasta, governador de Salamanca, que os mandou despedaçar devido a supô-los símbolos ignominiosos colocados por Carlos I nas povoações insurgidas contra ele durante a Guerra das Comunidades (1472)! O porco teve grande prestígio na antiguidade: entre os doze trabalhos de Hércules conta-se o de haver segurado na corrida e morto um javali que assolava o país de Erimanto; era insígnia militar dos soldados espanhóis de cavalaria, e ainda algumas moedas de Clúnia do tempo dos romanos têm por divisa um javali; nos sacrifícios a Ceres imolava-se-lhe um porco (1473), e «à Deusa romana Tellus, a terra, se sacrificava uma porca, a porca praecidanea» (1474). Açoreira. Nesta povoação, concelho de Moncorvo, apareceu uma berroazinha, como o povo lhe chama, de granito e já muito esmurrada. (1470) GOMEZ MORENO, Manuel – Zamora – Catalogo monumental de España, 1927, tomo I, p. 11 e 28. Ver O Arqueólogo Português, vol. 23 (1918), onde demos inicialmente conta deste monumento, bem como dos de Mairos e Malhadas, adiante apontados. (1471) MORAN, César, O Instituto (1926), p. 633, onde se faz a respectiva descrição acompanhada da competente fotogravura. MORAN, César, Homenagem a Martins Sarmento, 1933, p. 257. (1472) FLOREZ – España Sagrada, vol. 7, p. 273. (1473) CHOMPRÉ – Dicionário Abreviado da Fábula, artigo «Ceres». (1474) VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, vol. 2, p. 127.

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É muito pequena; tem de comprimento 0,32m e de circunferência abdominal 0,44m. Está agora no Museu Etnológico Português (1475). Algosinho. Nesta povoação do concelho de Mogadouro apareceu um bezerro de granito, que foi despedaçado pelo estúpido selvagem que o encontrou. Ver o artigo Algosinho. Bragança. Na cidadela, em granito, a Porca da Vila. Comprimento 2,05m, altura 0,67m, espessura 0,50m. Está a servir de suporte ao pelourinho, cujo fuste penetra num orifício praticado no dorso do quadrúpede. Acha-se publicado o desenho da Porca da Vila em O Ocidente, vol. 1 (1878), p. 100; no Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, 1898-1899, p. 172; Bragança e Benquerença, p. 21; A Nossa Pátria, de 1 de Fevereiro de 1905; Religiões da Lusitânia, vol. 3, p. 23; Ilustração Trasmontana, 1909, p. 154, e em muitíssimos outros jornais e revistas. Cabanas. No sítio chamado Olival dos Berrões, termo de Cabanas de Baixo, freguesia de Cabeça Boa, Concelho de Moncorvo, coisa de cinquenta metros da povoação, apareceram seis esculturas em granito [267], em média de 1,5m de comprimento, representando porcos, berrões, como aqui chamam ao macho inteiro, isto é, por castrar, completos alguns e bem conservados, outros «incompletos desde a sua origem ou apenas esboçado pelos fabricantes deles». Entre tantos, só apareceu uma fêmea e um bacorinho. Diz o reverendo José Augusto Tavares, abade de Carviçais (1476), que foi quem primeiro deu notícia destes monumentos arqueológicos, que um pouco mais ao sul, no cume de um pequeno outeiro, havia um «rebanho de bacorinhos», também de granito, segundo o informaram, mas não conseguiu vê-los, apesar das diligências empregadas. Os mencionados primitivamente estão hoje no Museu Etnológico Português de Lisboa. Faílde. Na povoação deste nome, concelho de Bragança, anda por ali aos tombos, umas vezes metida nas paredes das propriedades, outras vezes lançada pelo rapazio travesso à poça da povoação, uma escultura em granito, representando um porco ou porca! Não haverá alma que se amercie da venerada relíquia e a faça recolher ao Museu de Bragança? Creio bem que, se alguém o tentar, há-de encontrar pela frente a estupidez renitente (1475) Ibidem, vol. 3, p. 29, onde vem a fotogravura. (1476) O Arqueólogo Português, vol. 1, p. 127. VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, vol. 3, p. 25, onde vem publicada a gravura de dois berrões.

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dos que agora maltratam esse monumento de arte, embora rude, dos nossos maiores; mas é necessário conservá-lo e olhar por ele, como se faz em todos os povos cultos [268]. Fornos. No sítio do Escouradal, termo de Fornos, concelho de Freixo de Espada à Cinta, descobriu o diligente arqueólogo reverendo José Augusto Tavares, abade de Carviçais, um porco de granito no género da Porca da Vila de Bragança. Foi para o Museu Etnológico Português (1477) [269]. Linhares. «E indo da igreja [de Linhares, concelho de Carrazeda de Ansiães], que ora hé matriz para o bairro, que chamam Sampayo, pela caza desta nobre familia habitada nela, perto da mesma igreja está huma fonte de cantaria á maneira de poço cuberta com arco de abobeda, profundissima, que apenas colhe a vista ver a hum canto dela hum grande buraco, porque parece caber hum homem, e dali para baixo se vê por ele mais agoa, em tal cantidade que se tem exprimentado, em ocasioens que se despeja e limpa, esta parte superficial para que se desce por huma bem feita escada de cantaria, com cordas huma grande altura, que tem a tradição tapar-se com huma grande lancha que fas solhado aquela parte superficial, para que caindo dentro alguma cousa se podesse tirar. Dentro desta parte superficia estava feita de pedra marmore a figura de hum porco de pé (donde esta fonte o nome de fonte do Porco) a qual alimpandosse ha vinte anos por o plebeo daquele lugar inadvertidamente foi tirada fora, e lhe quebraram a cabeça e a parte do corpo está por tapamento de hum quintal que ficou de Domingos Monteiro Guomes daquele julgado, na parede dêle» (1478). Parada de Infanções. No adro da igreja paroquial de Parada de Infanções, concelho de Bragança, há um quadrúpede em granito, a que chamam Berrão do Adro, se bem que a vulva, indicando o sexo feminino, está nitidamente marcada. Dimensões: 1,63m de comprimento, 0,95m de altura e 0,46m de largura no ventre. No dorso tem algumas covinhas, que também se encontram na Porca da Vila de Bragança e em quadrúpedes similares de Espanha (1479). Dizem que havia também um macho que foi metido na parede da igreja, porque os seus testículos, grandemente avultados, causavam escân-

(1477) Ibidem, p. 613. (1478) MORAIS, João Pinto R. de – Memórias de Ansiães, 1721, manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa, § 61. (1479) VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, vol. 3, p. 35.

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dalo, como a nós nos disseram, ou por causa dos grandes tributos que se pagavam em razão desses quadrúpedes, como informaram o Doutor Leite de Vasconcelos (1480). Torre de Dona Chama. Na vila deste nome, concelho de Mirandela, sítio chamado Largo do Pelourinho, há em granito uma escultura representando um suíno, a que o povo dá o nome de Berroa e Ursa as Memórias Paroquiais (ver o artigo Torre de Dona Chama). Tem de comprimento 1,60m de altura 0,92m e de largura 0,36m (1481). Vila dos Sinos. No adro da igreja de Vila dos Sinos, que é românica, cornija decorada com modilhões, há uma escultura em granito representando um suíno, no tipo da Porca da Vila de Bragança. Tem de comprimento 1,13m, de altura 0,55m e de grossura abdominal 1,50m. Diz o povo que é um ídolo dos mouros e já tentaram desfazê-lo, por entenderem que dentro tem grande tesouro escondido, bem como a um cruzeiro que perto fica, na base do qual se lê a inscrição: Esta obra fez – Miguelines. Era de 1673 (1482). Aos quadrúpedes tipificados na Porca da Vila de Bragança, já conhecidos, aditamos mais os seguintes, inéditos: Coelhoso. Num largo que há a meio da povoação de Coelhoso, concelho de Bragança, há uma escultura em granito, representando uma porca (fêmea, marcação sexual bem nítida) no tipo da Porca da Vila de Bragança. Conserva-se in loco. Mairos. Na casa da família Aires, sita na Rua da Carcavelha, em Mairos, concelho de Chaves, há metidas na parede, junto ao cimo, duas esculturas, representando quadrúpedes no tipo dos porcos de que vamos tratando. São relativamente pequenos, devendo regular por metade da Porca da Vila de Bragança. Esta casa serviu-me de residência paroquial durante alguns dos sete anos (1889-1896) que paroquiei Mairos, e disseram-me que os quadrúpedes foram encontrados no sítio da Troia, limite do mesmo termo, local assinalado por vestígios da civilização romana, e perto deste têm apa-

(1480) Ibidem, p. 24, onde vem a fotogravura do Berrão do Adro, que, como digo acima, é fêmea e não macho. (1481) Ibidem, p. 30, onde vem a sua fotogravura, bem como em O Arqueólogo Português, vol. 1, p. 237. (1482) PEREIRA, José Manuel Martins – As Terras de Entre-Sabor-e-Douro, p. 99 e 100.

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recido outros da pré-história, como indiquei no opúsculo Chaves – Apontamentos arqueológicos, 1931. Ver SANTOS JÚNIOR, Joaquim R. dos – Homenagem a Martins Sarmento, 1933, p. 364. Malhadas. A coroar a parede de uma casa sita em frente da igreja paroquial de Malhadas, concelho de Miranda do Douro, que pertenceu ao Doutor Albino, dos Cortiços, e agora a Domingos Vaz, há uma escultura de pedra (granito?) representando um touro (orgãos sexuais bem patentes) em atitude de arremeter. Só o pude ver de longe, porque a parede é alta, mas pareceu-me bem trabalhado, e embora agrupado tipologicamente às esculturas de quadrúpedes chamadas porcos, diverge destas pela factura mais artística e cuidada, manifestada na sua atitude que tende para a glíptica paleolítica de Altamira e de outras estações. Dizem que apareceu na cortinha próxima da casa, quando andavam a lavrá-la, em tempo que se não pode determinar, mas seguramente superior a duzentos anos. Disseram-me que, juntamente com o quadrúpede, apareceram os restos de uma sepultura. Convém muitíssimo que se recolha no Museu Regional de Bragança, ou que se estude convenientemente, porque, a confirmar-se-lhe a antiguidade paleolítica, é exemplar raríssimo e o primeiro conhecido desta arte na região bragançana [270]. Tanto quanto pude avaliar pela vista à distância de quarenta metros, pareceu-me que terá de comprimento coisa de 0,50m de altura 0,30m e a espessura correspondente. É relativamente pequeno. Murça. Carvalho da Costa, falando da Torre de D. Chama e do quadrúpede, porco, como se diz hoje, ou urso, segundo ele lhe chama, diz que a sua origem e significado é o mesmo da Porca de Murça, denominada urso por ele. Aponta este autor a tradição corrente no povo, segundo a qual estes ursos comemoram o feito dos senhores e donatários da terra, que após a reconquista aos mouros pelos anos de 757, como achassem a região povoada de ursos, «que destroiam as colmeas fizerão delles montarias, e os matarão, em cujo reconhecimento os moradores, alem dos foros de pão, vinho e dinheiro atrás referidos, lhe pagão os três arrateis de cera em satisfação do beneficio recebido: depois levantavão gente paga á sua custa para as guerras, e se lhes fazia seu assento ao pé deste Urso, com que ganharão nove castelos, que tem este termo [de Murça], povoado e sustentados pelos Mouros naquelle tempo» (1483).

(1483) COSTA, A. C. da – Corografia Portuguesa, 1706, tomo 1, p. 467.

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Segundo Vicente Paredes Guillen (1484), desde os mais remotos tempos a população de Espanha dividia-se em ganadeiros e ribeirinhos, vivendo aqueles da exploração pecuária e estes da cultura agrícola. Os ganadeiros das zonas quentes usavam a transmutação, isto é, procuravam à entrada do Verão, nos pontos elevados, serros e montanhas, os pastos, águas e sombras que naquelas terras faltavam; daqui a necessidade de caminhos habilitados, demarcados, para passagem através das terras cultivadas, que ficariam reconhecidos por essas esculturas de quadrúpedes, à laia de marcos ou padrões – porcos e outros animais – pois nem sempre a classificação zoológica é fácil. Acha o autor que desse costume ficaram no onomástico muitos vestígios, ainda cognoscíveis nos sítios do termo, como: via, canada, carreira, adrada, calçada, vereda – isto respeitante ao caminho – e torre, mira, miranda, atalaia, enquanto à sua vigilância, defensa e muitos outros, que indica. Com referência aos tais marcos ou padrões entende ele que têm relação com a usança pastoril da transmutação os nomes de Pedroso, Pedrosa, Bustelo e outros, indicando o primeiro lugar onde havia esculpido o simulacro de um urso, e o segundo um busto, que hoje se não sabe a que animal pertencia. Achamos que o autor não foi feliz na escolha do onomástico com que tentou justificar a sua tese, pois todos os nomes que aponta têm explicação etimológica mais natural e mais conforme à índole de documentos históricos, coetâneos da formação dessas palavras. Assim, referente aos dois apontados, temos Pedroso, de pedra, e sufixo oso, que indica abundância; assim, monte, montuoso, montanha, montanhoso, etc. Bustelo e bauzas, como observa Alberto Sampaio (1485) e se mostra das Inquirições, p. 301 e 332, eram terrenos de mato, pascigo de animais, dando, de passo, franças e folhagem para cama dos mesmos. A bausa, sob a forma de bouze, bouça, ainda permanece no nosso onomástico geográfico. Ver VASCONCELOS, José Leite de – Filologia Mirandesa, tomo 1, p. 335. É certo porém que a transmutação ainda hoje se pratica em muitas terras de Espanha. Para as montanhas sobranceiras à Puebla de Sanábria vêm todos os anos, e nós as temos visto, manadas enormes de gado ovino das zonas quentes de algumas províncias de Castela e nelas se demoram os três meses estivais – Junho, Julho e Agosto – pouco mais ou menos, conforme a estação calmosa se antecipa, prolonga ou encurta. Em regra, os ganadeiros de uma ou mais povoações circunvizinhas juntam os rebanhos, formando manadas de vinte mil a cinquenta mil cabeças, sob a guarda de

(1484) PAREDES GUILLEN, Vicente – Historia de los Framontanos Celtiberos desde los mas remotos tiempos hasta nuestros dias, Plasencia, 1888. (1485) Portugália, tomo 1, fascículo 1.

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cinco ou seis pastores, e por caminhos habilitados, marcham para a serra, que usufruem segundo marcações fixas. Para outras serras do antigo reino da Galiza vão de vários pontos de Espanha gados bovinos e cavalares. No distrito de Bragança apenas resta do nosso conhecimento, como vestígio desta usança, a transmutação do gado bovino em Montesinho, que vai todo para a serra do mesmo nome nos meses estivais. É curioso ver assim a boiada a pastar no alto da serra, sem se afastarem os animais uns dos outros, e sobretudo vê-los reunir, ao som da buzina tangida pelo pastor, ao pôr-do-sol em volta da fraga onde dormem. A tradição que referimos no artigo Lendas, p. 454, a propósito da Serra de Montesinho, talvez se relacione com a transmutação pecuária. Como os egípcios, segundo Heródoto (lib. 2, § 4°), foram os primeiros que esculpiram animais em pedras, sem dúvida elevados no seu carácter sagrado, proveniente de neles encarnarem seus deuses, sente Paredes Guillen que deste simbolismo cultural trouxeram os ganadeiros, cujo exercício contava também divindades propícias, a tradição de tal demarcação, em harmonia com as suas praxes pecuárias. Querem alguns autores que as lutas da mitologia egípcia entre Osíris e seu irmão Tífon simbolizem a guerra entre o bem e o mal, e outras verdades astronómicas respeitantes à variedade das estações. A alma de Osíris teria encarnado no touro; daí a veneração do boi Ápis, e a de Tífon num animal carniceiro, de comprido focinho e grandes orelhas, e como é preciso estar de bem com Deus e com o Diabo, o bem e o mal ou Osíris e Tífon, àquele sacrificavam touros e a este hipopótamos, e o porco, animal abominável, para todos os povos orientais. Daqui resultaria naturalmente colocarem Ápis, símbolo de Osíris, à beira dos caminhos pastorais a indicar, pela sua posição, a direcção que seguiriam os rebanhos para as zonas quentes, onde Tífon fazia sentir menos impetuosamente o seu domínio nos meses de Inverno, em busca do sol e do bom tempo, e o porco em posição contrária apontando a via adequada para encontrar as sombras e as águas das serras, que Tífon abandonava, indo esconder-se no fundo do Lago Sirvou, onde permanecia inofensivo até Novembro, época em que recomeçava o seu dominador fadário tumultuoso até à lua de Março. Em conclusão: Segundo o autor da História de los Framontanos, os berrões trasmontanos – Porca da Vila (Bragança), dita de Murça, a da Torre de Dona Chama, o berrão do adro de Parada, os berrões de Cabeça Boa, no concelho de Moncorvo, etc. – são restos de uma demarcação inculcadora dos caminhos pastoris seguidos pelos pecuário-cultores em procura de regiões adequadas. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Entendem outros que são marcos divisórios, indicativos dos limites jurisdicionais das diversas tribos, isto é, deuses termini (1486). Há quem os considere como divindades tutelares e guardas dos túmulos. Relacionam-se «com as ideias religiosas dos antigos habitantes da Península Ibérica» (1487). «São monumentos religiosos pré-históricos» (1488) Datam «dos tempos proto-históricos» (1489). São «monumentos funerários da época dos Lusitanos» (1490). Pertencem à época pré-romana (1491). As expressões: pré-históricos, proto-históricos, pré-romana e época dos Lusitanos não são antinómicas; equivalem-se cronologicamente. O mesmo Vasconcelos falando de uma estátua de guerreiros lusitanos encontrada na povoação de Capeludos, concelho de Vila Pouca de Aguiar, que foi para o Museu Etnológico Português de Lisboa, diz: «O trabalho desta estátua é grosseiro. É um exemplar da arte dos rudes lusitanos de Trás-os-Montes, exemplar inteiramente comparável, quanto à execução e ao uso, aos célebres berrões ou figuras de porcos, também de pedra da mesma província. Tanto os guerreiros, como os berrões, serviram para serem postos sobre sepulturas, o que se prova pela inscrição que se lê na estátua de Viana e pelas que se lêem nas dos toros de Espanha que são semelhantes aos nossos berrões. (Ver vol. 3, p. 37, das Religiões da Lusitânia, onde se dá o desenho de uma). O nome popular destes quadrúpedes de pedra em Espanha é toros de Guisande; entre nós adquiriu fama a Porca de Murça que pertence à mesma classe. O costume de colocar estátuas sobre as sepulturas é bastante espalhado. Muitos povos crêem que as almas dos mortos passam de preferência para as estátuas ou retratos feitos à imagem do defunto» (1492). Martins Sarmento (1493) também os considera como símbolos religiosos e refere uma tradição referente à Porca de Murça, segundo a qual «em certos casos-crimes, a mudança da cor da Porca dava sinal da inocência ou criminalidade do réu». Modernamente, durante o período constitucional (1834-1910), quando subiam ao poder os Progressistas, a Porca da Murça aparecia pintada com a cor simbólica deste partido, e quando estes caíam e lhes sucediam os (1486) GUERRA, Aureliano F. – Discursos leidos ante la Real Academia de Historia, 1862. (1487) VASCONCELOS, J. Leite de, O Arqueólogo Português, vol. 2 (1896), p. 284, e Ensaios Etnográficos, vol. 2, p. 73. (1488) VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, 1897, tomo 1, p. 37. (1489) VASCONCELOS, J. Leite de, O Arqueólogo Português, vol. 10 (1905), p. 41. (1490) Ibidem, vol. 22 (1917), p. 39, e Religiões da Lusitânia, vol. 3 (1909), p. 31-34. (1491) VASCONCELOS, J. Leite de, O Arqueólogo Português, vol. 6 (1901), p. 284. (1492) Ibidem, vol. 7 (1903), p. 26. (1493) O Arqueólogo Português, vol. 6 (1901), p. 32.

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Regeneradores, os magnates locais destes substituíam-lhe a cor por outra significativa do seu predomínio. Entende o mesmo Sarmento que «os símbolos religiosos da nossa antiguidade vieram certamente da Índia; mas a filiação directa é perigosa, além de tudo, porque o desenvolvimento religioso dos índios é um pouco obscuro... Seja como for, o elemento animalesco fez grande figura entre nós» (1494). Nos monumentos sepulcrais as cabeças de animais podem às vezes ter carácter protector (mágico), diz Vasconcelos (1495). O mesmo, falando das lápides funerárias de Argozelo e Bemposta, que damos nos respectivos artigos, a que podemos juntar a de Pinhovelo, bem como a de Sacoias, em todas as quais figuram quadrúpedes, entende que o porco representa «O tóteme do morto» (1496). Querem alguns que os porcos e mais esculturas zoomorfas de que temos falado correspondam aos ídolos totémicos (1497), restos de um culto outrora vigente entre nós. O texto em seguida transcrito mostra bem a natureza desse culto, e por ele ajuizamos acerca do seu modo de ser, certos de que num passado longínquo as coisas se passariam aqui por forma equivalente. «O indígena [natural de Timor] tem principalmente o culto das almas dos antepassados, mas adora também certos objectos, árvores, ribeiros e lugares a que chamam lulics, que significa sagrado. O crocodilo é um dos animais sagrados; são incapazes de matar nenhum, é mais fácil deixarem-se comer por eles do que fazerem-lhes mal; e é sempre com receio e desgosto deles que nós fazemos tiros sobre alguns que aparecem. Numa ribeira de Lautem, e julgo que noutras, os indígenas, sempre que matam alguma rês, vão deixar junto dela uns pedaços de carne para o crocodilo, a que chamam avô, comer e para que fique contente e os proteja. Às vezes o crocodilo, tendo apanhado qualquer caça, um porco ou veado descuidado à beira da água, come-o na margem e, porque se afastou, deixa uns pedaços. O indígena encontra-os e convence-se ser a retribuição do avô aos presentes que lhe têm dado e delira de contentamento com a atenção do bicho. (1494) SARMENTO, Martins, O Arqueólogo Português, vol. 6, p. 32. (1495) VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, vol. 3, p. 462. (1496) Ibidem, p. 441, onde se vê a fotogravura dos quadrúpedes. (1497) Totem (de onde totémico, totemismo), segundo Carballo (Pré-história, p. 302), é o nome que dão certas tribos índias da América do Norte ao animal protector, do qual se julgam descendentes. No Brasil, Austrália e África, todas as tribos têm o seu totem, que veneram como seu protector contra os malefícios dos espíritos malinhos e auxiliar na guerra e na caça, pois é seu progenitor. Todos os descendentes do mesmo totem se agremiam religiosamente para formar um clã (espécie de grémio ou confraria).

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Têm aqui e acolá, espalhadas pelo mato, casas – lulics – onde guardam instrumentos de culto e esculturas toscas de animais sagrados. Mas a sua maior preocupação é pelas almas dos antepassados, que vivem permanentemente à sua volta, segundo supõem, enchendo-os de felicidade ou de tortura. Saem raramente de noite por recearem todos estes fantasmas, e nas guerras cortam sempre a cabeça aos inimigos, mesmo moribundos, ou já mortos, para evitar que as almas deles os persigam [...]. Costuma haver todos os anos, geralmente no descanso das lavoiras, ou época das queimadas, grandes festas aos mortos, com hecatombes de búfalos mortos e danças e cantos e bebedeiras de tuaca (vinho de palmeira), a que chamam acoimati, os estilos». Os cemitérios dos indígenas são junto das suas palhotas, dentro das povoações. Por vontade deles deixariam ficar os cadáveres dentro das palhotas, em lantens (estrados) de bambus suspensos dos tectos, como nós em Portugal costumamos deixar as castanhas e o fumeiro. É preciso às vezes quase a violência para que eles enterrem os cadáveres, pois ficam com eles durante muitos dias, em festas e banquetes com parentes e amigos. Para os mortos de importância há a cerimónia de enrolar a esteira. A esteira é um tapete de folhas de palmeira entrelaçadas, que lhes serve de cama, e só pode ser enrolada depois de reunidos todos os parentes do morto, que haja espalhados pela província; enquanto se não reunirem não pode ser realizada a festa. Há casos entre os chefes de estarem infinito tempo à espera, a ponto de passarem anos e anos sem que ela se realize» (1498). Não há dúvida de que os nossos antepassados ainda no século VI, embora cristãos, adoravam os animais: ratos, traças, formigas e outros, segundo usanças que lhes vinham do paganismo (1499); ainda acreditavam, como se vê da obra do bispo bracarense São Martinho, abaixo citada, que quem estava farto e contente no princípio do ano, tinha a mesma satisfação garantida para todo ele, de onde as festas celebradas nesta época, às quais nos referimos noutra parte; nas vozes e cantos das (1498) METELO, António – Timor, fantasma do Oriente. Lisboa, 1923, p. 43-44. O autor é alferes e foi governador de Timor, e por isso descreve o que viu com olhos de ver. (1499) MARTINI, Sancti, Episcopi – De Correctione Rusticorum, § 11 e seguintes. A obra deste bispo bracarense é importantíssima pelas notas etnográficas que fornece. Saiu primeiramente na España Sagrada, do Padre Henrique Florez, tomo 15, p. 425. Há uma tradução portuguesa por António Caetano do Amaral, Vida e obras de S. Martiño Bracarense, 1803, e uma em galego por Paulino Pedret Casado, Tradução galega na obra de São Martinho de Braga – De Correctione..., 1932. VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, 1913, vol. 3, p. 566, diz que a obra tem valor etnográfico [271].

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aves (1500); em adivinhações e agouros; na eficácia das palavras mágicas e versos, nos malefícios e encantamentos feitos com ervas e fórmulas de feitiçarias; ainda enfeitavam as mesas, deitavam frutos e vinho no lume, pão na fonte, evitavam certos dias como nefastos (hoje, terças e sextas-feiras); ainda prestavam culto a certos penedos, árvores, fontes e encruzilhadas de caminhos, acendendo lá velas. Ainda conservavam várias superstições gentílicas que o santo aponta e, coisa curiosa, ainda hoje achamos abundantes restos dessas superstições entre o nosso povo, que mantém intacta a teologia pagã a par da cristã, apesar da guerra que esta lhe move vai em vinte séculos. O cristianismo não acabará jamais, enquanto houver homens, como dizemos nós, os católicos, mas é necessário confessar que o paganismo e as outras religiões participam da mesma imortalidade. A veneração e adoração dos animais, plantas e fontes começou naturalmente por ser um acto de reconhecimento do homem aos benefícios recebidos desses seres (1501). É natural que o homem estimasse como santa a fonte que nas regiões áridas lhe matava a sede ou curava as doenças; a planta que lhe fornecia alimentos ou recursos terapêuticos; o animal que, por razões especiais, se lhe tornava prestadio, etc. Daqui ao culto, à adoração, a reconhecer predicados de nume tutelar, vai um passo, principalmente em espíritos materializados. Os mais elevados em concepção espiritual para lá caminham, vendo nestas criaturas a providência do Criador. A estima que o nosso povo tem ainda hoje pela cegonha, exterminadora dos répteis, respeitando-lhe religiosamente o ninho (1502), do qual ela própria lança um filho abaixo para pagamento do seu dízimo à igreja, como o povo diz; pelas andorinhas, devoradoras dos insectos sazonáticos, fontes de contágios patológicos que se cobriram de luto, ainda hoje conservado, pela morte de Jesus Cristo (1503); pelo lagarto, fiel amigo do homem, que o avisa, quando está dormindo no campo, da aproximação da cobra peçonhenta; pela pandoneza, que põe as mãos em sinal de adoração, quando lhe dizem: pandoneza põe a mesa; e por vários outros animais, inculcando está os restos de um totemismo milenário que dos tempos neolíticos ou anteriores veio até nós e há-de continuar, por mais que o persigam e apodem de estúpida superstição. Nestas condições, nada admira que um povo primitivo, residente na área trasmontana, prestasse culto ao porco, sem dúvida ainda hoje o animal mais prestadio da culinária trasmontana; a sua melhor caixa económica,

(1500) Ver o artigo Etnografia, onde apontamos várias superstições. (1501) CANTU, César – História Universal, tradução de Bernardes Branco, tomo 1, p. 207 e 212. (1502) Ver tomo VIII, p. XIV, destas Memórias, e neste p. 315. (1503) Ibidem, tomo V, p. 60.

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PORCO

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que se alimenta com todos os rebotalhos, assimilando tudo e tudo restituindo centuplicado em presunto, toucinho, unto, manteiga, lombo, salpicões e tabafeias divinais (1504). Não admira que este povo adorasse o porco, se ele é a base da sua alimentação; se este povo diz ainda hoje que se Deus viesse do céu à terra, o melhor manjar a dar-lhe seria lombo de porco; se este povo professa o rifão: das carnes o carneiro, das aves a perdiz e, sobretudo, a codorniz; mas se o porco voara, não havia carne que lhe chegara?! Não creio que haja ateus, pois os que como tais se apresentam professam superstições que são a escória da crença na divindade pura; mas se algum infeliz destes há, que venha a Trás-os-Montes e veremos se é capaz de resistir ao argumento divinal do lombo, salpicões e tabafeias desde os Santos ao Natal, preparados segundo os preceitos da culinária local. Entendo pois que a Porca da Vila de Bragança e similares são ídolos, restos de um culto totémico vigente outrora, como a etnografia mostra ainda hoje praticado nos países selvagens da África, Ásia e América. Mesmo as razões apresentadas pelos sequazes das outras opiniões, no fundo, vêm reduzir-se ao totemismo [272]. Relativamente a alguns costumes dos nossos antigos, ainda hoje vigente nos povos de mentalidade inferior, lembramos o seguinte: os indígenas de Timor têm várias formas de juramento, sendo estas as principais: «1a – Invocam a terra, comendo um pouco da mesma, pois dizem que servirá de veneno àquele que está a mentir, isto é, que jura falso; 2a – Bebendo a água em que lavaram as catanas [espadas] de guerra, sendo de sua crença que esta água ferirá o interior do que jura falso como a catana fere o inimigo. Juram também pelo nome de Deus ou por qualquer outra coisa pela qual tenham respeito, como pela bandeira, pelas suas coisas sagradas (lulic), pelo lagarto (crocodilo), pois os reinos o consideram como avô, no sentido de sagrado (lulic). Há também várias formas de provar a inocência ou culpabilidade de um indivíduo, sendo, entre outras, as seguintes: 1a – ............... 2a – ............... 3a – Colocam na mão do indivíduo suspeito um ferro em brasa. Antes, porém, abrem sete pequenas covas a distância de um passo de cada uma, colocando na mão do indivíduo suspeito sete folhas de uma planta, sobre as quais é posto o ferro em brasa. Se o indivíduo conseguir passar sete vezes por cada uma das covas sem que o ferro lhe queime a mão, está inocente, estando culpado no caso contrário. (1504) Ver p. 305.

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PORCO | POVOS ANTIGOS

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4a – Tirar de uma panela a ferver e sem se queimar um ferro a que está preso um pequeno fio e que está a dois dedos debaixo da água, pois dizem que, se o indivíduo está inocente, a água descerá a sua fervura, depois deste passar em volta da mesma panela sete folhas de betel, podendo assim tirar o ferro sem dificuldades. É preciso dar uma volta com as sete folhas à panela» (1505) [273]. Em face do exposto, nós os portugueses, em vez de totem e totemismo, devíamos dizer luliquismo, porque promana de uma terra nossa. Pelos anos de 1915, um homem de Puebla de Sanábria (Espanha), que estava a vender um boi na Feira do Toural de Bragança, como o comprador duvidasse das boas qualidades do animal, gritava convicto: – Por Dios hombre, si es verdade, si; e tan cierto, que hajo un xuramento d’alma. O comprador porém ficava na mesma; e então o senabrês, desesperado, tirou o chapéu com toda a solenidade religiosa, deitou-se ao chão, agarrou com a boca alguma terra, que mastigou, e depois, levantando-se, expeliu com violência contra o comprador alguma da terra da boca e, solene, impávido, como se tivesse dado a maior prova de veracidade, nada mais disse. Os espectadores ficaram estáticos, sem compreenderem o alcance de tal gesto, mas convictos da sua sinceridade. Ainda hoje vivem em Sacoias muitas pessoas que presenciaram a cena e, pelo menos entre os raianos espanhóis, ainda é conhecida esta fórmula de juramento, apesar de pouco usada. No nosso concelho de Vinhais, diz o Padre Firmino Martins (1506), «havia outrora o costume de, em negócios ou em compras e vendas, arrancarem um cabelo da barba para melhor se fazerem acreditar. E também, depois de o negócio feito e contas liquidadas, arrancavam um cabelo da cabeça, dando-lhe um sopro». Os forais de Ansiães, Freixo de Espada à Cinta, Urros e Santa Cruz da Vilariça impõem o duelo como meio judicial de investigar a verdade, quando a prova testemunhal não é bastante (1507), isto ainda na Idade Média; portanto não há que rir dos timorenses. POVOS ANTIGOS No tomo I, desde p. 1 a 44, destas Memórias, tratámos largamente dos povos que possuíam ou habitavam o território bragançano, tanto pré(1505) DUARTE, Teófilo, tenente de cavalaria, antigo governador de Cabo Verde e Timor – Timor (antecâmara do Inferno), 1930, p. 132 e 133. (1506) MARTINS, Firmino A. – Folclore do concelho de Vinhais, 1928, p. 299. (1507) Ver p. 398 deste tomo.

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POVOS ANTIGOS | PRÉ-HISTÓRIA

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-romanos como posteriores. No artigo Freixo de Espada à Cinta dissemos dos Narbassos, situados nas suas imediações, o mesmo fazendo no artigo Miranda do Douro [274]. No artigo Onomástico, ao tratar dos étimos de Lanção, Ligares e Limãos abordámos o mesmo assunto, que trataremos noutro tomo destas Memórias. PRÉ-HISTÓRIA É enorme o desenvolvimento que os estudos pré-históricos estão tomando de ano para ano (1508). O distrito de Bragança, na ânsia de acompanhar o movimento geral, inventaria a sua documentação a fim de ser levada em conta na solução dos múltiplos problemas ainda insolúveis, ligados ao assunto. Não apresenta nenhuma estação paleolítica, porque nenhuma apareceu ainda [275], apesar de deverem existir (1509), nem admira, pois poucas se conhecem em Portugal (1510). É rico em espécies neolíticas e não menos em petróglifos, pictóglifos e insculturas rupestres de temas variados, com estilizações zoomorfas e antropomorfas, que o ingressam tipologicamente na arte geral de outras regiões peninsulares, máxime na galaica. O significado destes trabalhos líticos ainda não foi encontrado; faltam elementos bastantes e só pode resultar de um estudo comparativo de conjunto, se bem que a seriação pictórica paleolítica [276] tem mostrado incontestavelmente a esquematização estilizada da figura humana em muitas delas. Obermaier e outros arqueólogos acham para a arte rupestre galaica um tipo particular característico, dividindo-o em dois períodos: o primeiro, contemporâneo da época do cobre, caracterizado por estilizações da figura humana, bem como da dos animais e rectângulos xadrezados; o segundo, coetâneo da idade do bronze até à invasão celta, definido por sinais labirínticos, espirais, círculos e suas combinações [277]. Carballo (1511) filia toda a nossa região (galaica) na escola perinaica durante a época paleolítica, mas entende que na neolítica a mesma técnica artística se espalhou por toda

(1508) Ver OBERMAIER, Hugo – El Hombre Fósil, onde se aponta a respectiva bibliografia. PINTO, Rui de Serpa – Bibliografia de Pré-história Portuguesa, 1930, e ainda, por ter especial relação connosco, CUEVILLAS, Florentin L.; BOUZA BREY, Fermin – Bibliografia de Pré-história Galega, 1827. (1509) Algumas têm aparecido nas outras províncias portuguesas, e nas vizinhas espanholas de Astúrias, Leão, Salamanca e uma na Serra da Brunheira, perto de Chaves (OBERMAIER – El Hombre Fósil, p. 184, 191, 195 e 225). (1510) VIEIRA, Abel, Portugal (1929), p. 355. HOERNES, Moritz – Pré-história, 1926, tomo 2, p. 69. (1511) CARBALLO, J. – Pre-historia universal y especial de España, 1924, p. 270 e 308.

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PRÉ-HISTÓRIA

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a península ibérica, uniformizando-a portanto; não deixa porém de reconhecer que a região galaica continua destacando-se pela macromorfia característica das suas produções glípticas [278]. Ver adiante os artigos Belver e Labiados, onde se dá explicação geral de muitos sinais das insculturas rupestres. Julgamos oportunas umas explicações prévias para os leitores leigos em assuntos arqueológicos, no intuito de lhes despertar o gosto por estes estudos (1512). Dólmens (Arcas, Antas, etc., como o nosso povo lhes chama, segundo dizemos adiante), são recintos mais ou menos circulares, formados por grandes blocos de pedra, enterrados de ponta no solo e cobertos por outro bloco também de tipo megalítico, destinados a sepultura. O diâmetro do recinto varia, mas em geral regula por dois a três metros; pelo mesmo teor andam os blocos (esteios), em geral de três a oito; quanto à altura, acompanhada de largura e grossura proporcionada e a corbertura (mesa ou chapéu) com a extensão bastante para tapar o recinto. Há dólmens com galeria ou sem ela e com mamoa ou sem ela. Chama-se galeria a uma espécie de corredor de um metro pouco mais ou menos de largura, formado e tapado de pedras, na extensão de alguns metros, que comunica do exterior para o dólmen, voltado a nascente. Mamoa é o montículo de terra e pedregulhos, em forma cónica, semelhando uma teta ou mamilo, de onde o nome, que cobre o dólmen (1513). Em alguns monólitos dolmínicos encontram-se: covinhas (fossetes), pinturas policrómicas [279], e no recinto: cerâmica, goiva, formão, cinzel, martelo, flecha, lança, punhal, raspador, serra, moinho de mão, machados, facas e outros aprestes neolíticos, ouro raras vezes, conchas e,

(1512) Para estas explicações, socorremo-nos de: CARBALLO, J. – Pre-historia universal y especial de España, 1924; VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, vol. 1, 1897; CORREIA, Mendes – Os povos primitivos da Lusitânia, 1924. (1513) Os romanos costumavam erguer sobre algumas sepulturas um montão de terra. Ergo instauramus Polydoro funus et ingens Aggeritur tumulo tellus. VIRGÍLIO – Eneida, 3-62. Também no canto XXIII, da Ilíada se diz que Aquiles, terminadas as exéquias solenes em honra de Pátroclo, fez erguer sobre o seu túmulo um montão de terra.

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PRÉ-HISTÓRIA

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nos mais modernos, objectos de cobre, bronze, etc., típicos da época eneolítica. Também alguns dólmens, em lugar de uma só pedra a servir de chapéu, apresentam várias, dispostas em forma de cúpula [280]. Medorra, Modorra, Madorra ou Medorro (como o povo diz) é outro género de sepultura contemporâneo dos dólmens (época neolítica e eneolítica) [281], dos quais diverge por constar de um montículo de pedregulhos e terra de forma cónica, erguido sobre a sepultura, formada de lousas e, às vezes, com alguma a cobri-la. Quando estas são grandes, como na aparecida em Vale Benfeito, o monumento toma o carácter de dólmen. Dentro do moimento aparecem: ossos, cinzas, quando o cadáver foi queimado, e o mais como nos dólmens [282]. «Durante muito tempo – diz Mendes Correia – todos os dólmens eram também incluídos no neolítico: hoje, como veremos, as construções dolménicas da Península são distribuídas por várias fases, sendo a mais antiga o neolítico final. Por outro lado, muitas outras estações, que passavam por neolíticas, foram mais remoçadas, sendo incluídas no eneolítico ou calcolítico, alvorada da idade dos metais; poucas ficaram no neolítico final» (1514). Cistas. São monumentos funerários de tipo megalítico, usados desde o neolítico final até aos tempos históricos através dos períodos do cobre, bronze e ferro, compostos de quatro ou mais lajes, postas de cutelo e uma de tapadura, formando uma caixa quadrangular. Diferem dos dólmens por serem totalmente fechados; não têm galeria nem acesso à câmara; algumas são cobertas por mamoa, outras não; podem conter um ou mais esqueletos e o seu espólio é formado por objectos usados na época em que foram utilizadas. Menir é um grande penedo, grosseiramente aparelhado, de forma cónica, colocado em posição vertical sobre a terra. Pertencem ao tipo megalítico; supõem-se de origem neolítica. Alguns têm três e quatro metros e outros passam de vinte. Supõem-se elevados com fins religiosos, ligados ao culto das pedras (litolatria). São raros em Portugal [283]. Cromeleque ou Alinhamento é o conjunto de muitos menires. Pertencem também ao período neolítico. Diz Aristóteles (1515) que os ibéricos ou hispanos elevavam em volta do túmulo tantos monólitos quantos os inimigos mortos pelo indivíduo nele sepultado. É importantíssima esta passa-

(1514) CORREIA, Mendes – Os povos primitivos da Lusitânia, 1924, p. 179. (1515) Cap. 2, livro 7, citado na Revista Arqueológica, vol. 3 (1889), p. 97.

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PRÉ-HISTÓRIA

TOMO IX

gem, por ser a mais antiga referência aos menires e cromeleques (IV século antes de Cristo) e por indicar o motivo da erecção de alguns, pelo menos. Os grandes alinhamentos comemorariam grandes batalhas [284]. Campos sagrados. J. Carballo (1516) entende que deviam existir desde os tempos neolíticos lugares destinados ao culto religioso e dá-lhe o nome de Campos sagrados. Covinhas (fossetes) são pequeninas covas de forma circular ou elipsóide gravadas em rochedos ou pedras soltas. «As covinhas estão muitas vezes disseminadas, sem ordem, à superficie das pedras, outras vezes agrupadas regularmente, em linha recta, em círculos, em quadrados; ora se acham separadas umas das outras, ora ligadas entre si por sulcos ou goteiras; podem apresentar-se insuladamente, ou combinadas com outras insculturas (círculos, espirais, figuras várias), o que mostra a contemporaneidade dessas diversas espécies de sinais» (1517). «Das observações dos diversos investigadores resulta que as insculturas de que se está falando datarão já dos tempos neolíticos, o que não impede que as haja também do período do bronze» (1518). Muitas teorias têm aparecido para as explicar: «Uns consideram as covinhas como meros ornatos, outros como receptáculos do sangue de vítimas, como cartas geográficas ou astronómicas, como relógios de sol, como mesas de jogo», como «distracção dos pastores pré-históricos nas longas horas que a guarda dos rebanhos lhes deixava livres e ociosas», ainda outros como contendo sentido religioso, simbólico, e outros dizem que têm relação com o culto dos mortos. «Apesar do que fica notado, ainda ninguém, que eu saiba, deu esclarecimentos certos a respeito da época e civilização a que pertencem os sinais, e só tem apresentado hipóteses inverosímeis e pueris» (1519). Carballo (1520), constatando a mesma divergência de explicações, diz saber-se apenas, com certeza, que as covinhas são figuras simbólicas e religiosas [285]. Cruz. Idêntica divergência à das covinhas há quanto à cruz, diz o citado Carballo (1521), que não é de origem cristã, mas vem já dos tempos neolíticos

(1516) CARBALLO, J. – Pre-historia universal y especial de España, 1924, p. 205. (1517) VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, 1897, vol. 1, p. 354. (1518) Ibidem. (1519) Ibidem. (1520) CARBALLO, J. – Pre-historia universal..., p. 337. (1521) Ibidem, p. 338.

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PRÉ-HISTÓRIA

559 TOMO IX

por estilização da figura humana. «Otro signo de más importancia y no menos abundante que el anterior [as covinhas] es la cruz en todas sus variantes. Suponen muchos que se trata de la cruz cristiana, incluso la de los dolmenes y menhires. Con frecuencia sucede asi; porque los primeros fieles poniam especial empeño en cristianizar los lugares y los monumentos que hubieran sido objeto de culto pagano. Pero esta figura deriva de la humana por estilizacion, segun se dijo ya; existe por lo menos desde el neolitico inferior, como se ve en los guijarros pintados de Mas-d’Azil; encuéntra-se tambien en la cerámica egipcia y en la estatuaria de casi todos los pueblos orientales anteriores al cristianismo; sobretodo en Persia, Egipto, Caldea e Siria. La cruz, como símbolo usado por tantas culturas y en tantas regiones, ha sofrido innumerables modificaciones, presentando un polimorfismo muy variado» (1522) [286]. Insculturas rupestres. Durante a idade paleolítica a arte de pintura e de gravura atingiu o cume da perfeição, como mostram as suas produções cheias de perspicaz observação, sentimento e beleza, encontradas nas cavernas de Altamira (Espanha) em 1880 [287], bem como noutras partes tanto da Península Ibérica como da França e outras nações (1523) Pode dizer-se sem exagero que o artista das cavernas, nesta especialidade, não foi excedido pelo dos tempos históricos. Depois, a arte decaiu miseravelmente, e no epipaleolítico desenvolveu-se a arte rupestre esquematizada, em que a linha, o traço, a figura geométrica estilizada representa o homem, o animal por forma tão primitiva e infantil que, a não se conhecer toda a graduação dessas figuras, vindas do paleolítico até descambar na sigla representativa, ninguém lhe alcançaria a significação, e, todavia, «el negar hoy la autenticidad del arte rupestre es admitir una serie de absurdos, o denotar una ignorancia inconcebible» (1524). Esta feição pictórica e petroglífica continuou durante as épocas neolíticas e eneolíticas, e a par dela aparecem numerosos sinais ramiformes, pectiniformes, astrais, serpentiformes, alfabetiformes, cruciformes, zigue-zagues, círculos, espirais, etc., etc. [288].

(1522) CARBALLO, J. – Pre-historia universal...; MORTILLET – Le signe de la Croix avant le Christianisme, 1866. (1523) Podem ver-se as suas reproduções em OBERMAIER, H. – El Hombre Fósil, 1925. (1524) CARBALLO, J. – Pre-historia universal y especial de España, p. 258. Ver OBERMAIER, H. – El Hombre Fósil, 1925, p. 253, 260, 267, 268, 276, 278, 279, 280, 283, 285 a 287, 365, 366 e 368, texto e estampas, onde se explica e mostra com documentos a evolução das figuras, coisa aliás corrente entre os pré-historiadores. O mesmo se vê de outras gravuras apresentadas por Carballo, p. 326 e 328.

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560

PRÉ-HISTÓRIA

TOMO IX

De tudo isto se encontra nas insculturas rupestres bragançanas, adiante mencionadas, documentos, onde os sinais em forma de cruz e de ferradura significam o esquema, a sigla, a nota taquigráfica na sua expressão mais simples, da figura humana – como dizem os pré-historiadores atrás citados na nota 1524 [289]. Parece que esta decadência da arte paleolítica, onde se ligava a crenças religiosas de carácter totémico [290] e ritos atinentes à magia da caça, teve por motivo novas concepções religiosas e filosóficas, concebidas pelo homem neolítico, já mais adiantado em civilização, que deixa a zoolatria e passa à idolatria, isto é, ao culto de seres mais perfeitos e poderosos que o animal, quais sejam: o raio, o trovão, as forças, enfim, da natureza, deificando-as, e, «como sempre sucede na arte popular, uma representação definitiva, perdendo a pouco e pouco a sua significação arcaica, morre em estilização insignificante» (1525). Convém notar que as insculturas bragançanas se encontram sempre em rochedos à superfície da terra, horizontais ou inclinados, facto aliás já constatado pelos arqueólogos na glíptica de outras regiões (1526).

(1525) FRANKOWSKI, Eugeniuz – As cabeceiras de sepulturas e as suas transformações, 1918, p. 10. Sobre o assunto, ver CARBALLO – Pre-historia..., p. 330 e seg. (1526) FONTES, Joaquim, Revista de Arqueologia (1932), p. 75.

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PRÉ-HISTÓRIA

561 TOMO IX

Alfabeto Ibérico (a)

Ibérico ulterior segundo Hübner

Ibérico citerior segundo Hübner

Ibérico primitivo segundo Cejador

Caracteres ibéricos segundo Merino (b)

Alguns caracteres ibéricos tirados de moedas que aponta Muñoz y Rivero, e faltam nas anteriores, o qual diz haver muitas mais letras que apresentavam variantes conforme as regiões onde se usavam (c )

a b c g d e z f th i k l m n o p q r s t u h vs z x (Ver no verso desta página as notas (a), (b) e (c).

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562

PRÉ-HISTÓRIA

TOMO IX

CRONOLOGIA PRÉ-HISTÓRICA Para organização do mapa da cronologia pré-histórica adiante apresentado valemo-nos de elementos colhidos em Mendes Correia (1527), J. Carballo (1528) e Hugo Obermaier (1529).

(a) Alfabeto ibérico, segundo Hübner e Cejador, conforme se encontra nos Caracteres rúnicos e caracteres ibéricos, do Dr. Luís Cardim, professor de letras da Universidade do Porto. Diz ele que «os valores fonéticos atribuídos aos caracteres ibéricos por Hübner e Cejador dão-se apenas a título complementar». Nas letras q, r e s damos outros sinais, metidos entre parêntesis, tirados da Encyclopédie Catholique do abade Glaire, 1840, artigo Celtiberiennes, por se encontrarem idênticos em estações rupestres adiante apontadas. (b) O Padre Andres Merino, na Escuela de leer letras cursivas antiguas y modernas desde la entrada de los godos en España, 1780, p. 2, diz que as letras acima são tiradas das moedas ibéricas, ainda por ninguém entendidas, as quais coloca em frente das que mais lhe parece corresponderem graficamente às do nosso alfabeto, não devendo, portanto, entender-se que sejam tais foneticamente. Quanto àquelas últimas da letra X, diz tê-las posto ali por não saber onde colocá-las, parecendo-lhe, contudo, que podem ser várias figuras da letra N. Quanto às questões sobre o alfabeto, tocantes a ser de origem fenícia ou se já anteriormente existia na nossa península constituído pelas letras ibéricas, ver Revista de Guimarães (1927), p. 177 e seg.; idem (1929), p. 8 e seg. Ver também Portugalia, tomo 1, fasc. 4, p. 745, onde vêm publicadas as letras de vários alfabetos arcaicos e também os caracteres aparecidos nos dólmens de Alvão (Vila Pouca de Aguiar) em 1894 [291]. (c) MUÑOZ Y RIVERO, Jesus – Manual de Paleografia Diplomatica España, 1917, p. 14. (1527) CORREIA, Mendes – Os povos primitivos da Lusitânia, 1924, p. 148, 150, 225, 226 e 249. (1528) CARBALLO, J. – Pre-historia universal y especial de España, 1924, p. 28. (1529) OBERMAIER, H. – El Hombre Fósil, 1925, p. 361, 398 e 400.

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PRÉ-HISTÓRIA

563 TOMO IX

TERCIÁRIA ERAS

PROTO- IDADES PALEOLITICO

MAPA DA CRONOLOGIA PRÉ-HISTÓRICA [292]

A I

{

{

Chelense ......................... Grandes achas manuais ) grosseiras. Clima quente.

{

<

Superior (corresponde à idade da rena, que é pós-glaciária)

}

{

R Á N

{

NEOLÍTICO (PEDRA POLIDA)

E T A

Protoneolítico

<

}

{

{

{

{

Decai a indústria da pedra e prevalece a do osso. Chega a arte ao seu apogeu. Pintura realista insuperável. Policromia.

}

18.000 a 19.000 anos antes de Cristo

Capsiense final ............... Decadência de todas as Tardenoisiense ............... indústrias e artes. Acaba a Maglemoisiense ............. última glaciação; melhora Aziliense ......................... o clima.

}

8.000 a 9.000 anos antes de Cristo

{

{

{

Aparecem os Castros e os dólmens ou antas, que no período do cobre evolucionam para as cistas e antinhas ou antelas.

{

(

{

Hallstatt .......................... 1° período 2° pei»odo

{

1° período La Tène .......................... 2° pei»odo 3° pei»odo

de duração

– 8.000 anos antes de Cristo

Clima óptimo. Começam as culturas agrícolas; inventa-se a cerâmica cozida ao sol Campinhiense ................ e sem torno. A arte perde o realismo e entra em estilização. Aparece o cão doméstico.

}

}

6.000 a 7.000 anos antes de Cristo

5.000 a 2.000 anos antes de Cristo

– 2.000 anos antes de Cristo

I ...................................... Descobre-se o cobre; depois II ..................................... o estanho e por último B r o n z e o bronze. Estilização dos III .................................... símbolos e figuras realistas; IV .................................... gravados alfabetiformes.

{

600.000 anos

{

Cobre ou eneolítico .............................. –

F e r r o

>

Chega ao auge a indústria da pedra e patenteia-se a do osso e do marfim. Frio máximo. Última glaciação. )

Solutrense ... Inferior Superior

N e o l í t i c o Pleno .............................. Final ...............................

{

a

{

Preneolítico – Asturiense ..................... –

<

U

{

500.000

{

Madalenense Inferior Superior

Epipaleolítico

Q

{

Desaparece a grande acha e Musteriense . Inferior Superior surgem novas formas mais pequenas. Clima frio. Inferior Aurignacense Médio Nasce a arte: escultura, graSuperior vura e pintura.

(

(

CRONOLOGIA

Inferior Grandes achas bem retoI n f e r i o r Acheulense .. Superior cadas

(

R

ÉPOCAS

PRECHELENSE (

PALEOLÍTICO (PEDRA LASCADA)

(

PERÍODOS

}

} { Descobre-se o ferro e o chumbo.

2.500 a 1.900 a. de Cristo 1.900 a 1.600 a. de Cristo 1.600 a 1.300 a. de Cristo 1.300 a 900 a. de Cristo 900 a 700 a. de Cristo 700 a 500 a. de Cristo 500 a 300 a. de Cristo 300 a 100 a. de Cristo 100 a. de Cristo até à era Cristã

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564

PRÉ-HISTÓRIA

TOMO IX

Os dados cronológicos referentes aos períodos do bronze e do ferro são relativamente exactos; os anteriores bastante problemáticos. A idade da pedra não coincide cronologicamente em todos os povos; civilizações há em que acabou mais cedo do que noutras, estando alguns na pedra polida quando outros já iam nos metais. Diz Heródoto (1530) que os egípcios se serviam de facas de pedra para fazer incisões nos cadáveres, onde introduziam as espécies odoríferas para os embalsamarem. Facas de pedra utilizavam os hebreus quando procediam ao rito litúrgico da Circuncisão (1531), e que o uso se prolongou mostra-se no mandado de Deus a Jesué, determinando-lhe que se fizessem umas facas de pedra para serem circuncidados segunda vez os filhos de Israel (1532). Os árabes, diz Heródoto (1533), para autenticarem solenemente os convénios de amizade e aliança, tinham de expor a palma da mão ao medianeiro, na qual fazia uma incisão junto ao dedo polegar com uma faca de pedra. Os israelitas, para comemorarem os factos notáveis, erguiam grandes pedras ou grandes montões de terra (1534) e sobre o cadáver dos criminosos lapidados lançavam pedras, formando um montão tanto maior quanto mais reprovável era o delito. Às vezes alisavam com cal certos monumentos a fim de escreverem neles máximas e preceitos religiosos (1535). Com pedras enormes em bruto, virgens de todo o aparelho e de folha de ferro, construíam grandes altares (1536). Do exposto vê-se que a idade da pedra se prolongou pelos tempos históricos. João de Barros (1537), falando das ilhas Canárias e dos costumes de seus habitantes, diz: «entre êles não havia ferro e à míngua dele rapavam as barbas com pedras agudas». Isto quando foram descobertas ou quando lá chegaram os portugueses. Os mesmos comiam cobras, lagartos, ratos e outras coisas desta qualidade. As mulheres eram quase comuns, e quando se visitavam uns aos outros davam as mulheres por gasalhado. A cada passo está Barros nas Décadas mencionando povos que comiam todo o ser vivente, desde o homem ao mais asqueroso réptil. (1530) HERÓDOTO – Livro 2°, n° 55. (1531) Êxodo, 4-25. (1532) Josué, 4-2. (1533) HERÓDOTO – Livro 3°, n° 8. (1534) Génesis, v. 45 a 47. Josué, cap. 27. (1535) Deuteronómio, cap. 25, v. 2 e 3. (1536) Josué, 8-30, 31 e 32, e 12-10. (1537) BARROS, João de – Asia. Dos feitos que os portugueses fizeram no descobrimento e conquista dos mares e terras do oriente, Década 1a, livro 1, cap. 12, e livro 9, cap. 3.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


PRÉ-HISTÓRIA

565 TOMO IX

MAPA ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICO DO DISTRITO DE BRAGANÇA [293]

Embora muitos sítios de termos chamados Casarelhos, Castelo, Cigadonha, Terronha e equivalentes, correspondam a Castro no sentido arqueológico, damos os nomes conforme o povo os apresenta, por nos parecer que assim o manda a probidade e assim deve ser. Nos artigos referentes às povoações fazemos a descrição arqueológica tocante aos toponímicos indicados no Mapa e nos artigos Castelos, Castros, Facho, Feiticeiras, Mouras encantadas e Pré-história assinalamos a parte que lhe corresponde. Também incluímos os toponímicos Forno, porque alguns têm carácter arqueológico, como o de Sacoias, onde há cavidades nas fragas à maneira de forno, que podem relacionar-se com a cavernalogia. A mesma razão milita quanto a Lagar, como se mostra nos artigos Lamalonga, Vale Benfeito e Labiados (insculturas rupestres). Convém também notar que em muitos dos nossos castros e equivalentes aparecem vestígios de casas, segundo apontámos nos artigos respectivos, de planta circular, pelo tipo das usadas pelos celtas (1538) e na citânia de Briteiros (1539) e também de forma oblíqua, rectangular de cantos interiores redondos algumas vezes. Ver p. 172 e seg. Tavares Proença publicou em 1908 o Ensaio de inventário dos Castros Portugueses, onde aponta cento e um pertencentes ao distrito de Bragança, mas deste número é preciso tirar trinta e dois por estarem repetidos ou se referirem ao mesmo sob nome diferente e mais sete por corresponderem a locais onde há ruínas, mas são medievais, vindo, portanto, a ficar só sessenta e dois. É preciso também advertir que nesta lista inclui não só os locais chamados castros pelo povo, mas também os conhecidos pelos nomes de Castelo e as povoações com os nomes de Castro e Castrelos (ao todo três), que, embora derivem de ruínas castrejas, estas ficam fora do povoado já incluídas noutro castro.

(1538) ESTRABÃO – Geografia, livro 4, 4, edição francesa, 1853, p. 163. (1539) SARMENTO, Martins – Revista de Guimarães (1930), p. 7.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


Antas, Arcas, Arcãs, Modorras e Lagares

– – – – – – – – – – – – –

– – – – – – – – – – Medorra – Modorra Cabeço da Anta – Tumbeirinho

POVOAÇÕES

Agrobom ..................................... Alfândega da Fé .......................... Covelas ........................................ Gouveia ....................................... Parada .......................................... Ride Vides ................................... Saldonha ...................................... Sendim da Ribeira ...................... Vale Pereiro (Agrobom) ............ Vilar Chão ................................... Vilar de Baixo ............................. Vilar de Cima ............................. Vilarelhos ....................................

Alfaião .......................................... Alimonde .................................... Vilar Chão ................................... Babe ............................................. Baçal ............................................. Cabeça Boa (Samil) .................... Calvelhe ....................................... Caravela ....................................... Carocedo ..................................... Carragosa ..................................... Carrazedo .................................... Castrelos ...................................... Castro de Avelãs ......................... Coelhoso ..................................... Cova de Lua ................................. Donai ............................................ Vale de Castro – – Vale de Castro Castro Alto do Castro Há dois Castros Castro Há três Castros Torre do Castro (1541) Castro Castro Salgueiro Torre do Castro Castro e Castrilhão – Ver Carragosa – Castelo. Terronha – – – – Castelo – Terronha – Castelo e Castelinho – Torre Velha – Terronha. Casarelhos –

– – Vilar – – – – – – Vilar Vilar Vilar Vilar

Vilares

– – Vilar Vilarinho Vilar e Vilarinho – – Vilarinho – – – – – – Vilar –

(CONCELHO DE)

Castelo Castelo – Castelo Castelo da Marruça – – Castelo Casinhas Brancas – – – –

Castelos, Torres, Cigadonhas, Ciradelhas, Terronhas e Casarelhos (1540)

BRAGANÇA

– – – – – – Castro – Castro – – – –

Castros

(CONCELHO DE)

– – – – – – – – – – – – – – – –

– – – – – Pedra escrita – – – – – – –

Insculturas rupestres

– – – – Facho – – – – – – – – – Facho –

– – – – Facho – – – – – – – –

Fachos

566

ALFÂNDEGA DA FÉ

TOMO IX PRÉ-HISTÓRIA

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


– Madorrinha – Pena de Arca Penedante – Lagares Modorra – – Lagares – – – – – – – – – Vale de Anta – Cunca da Anta (1543) – Penedo da Arquinha – Lameiro da Anta (1543) – Tulha e Anta – – – – – Fragas do castro – – Castrelares Castromil – – – – – – Castro Castro Ver Carragosa Castrogosa – – – Castro Castro Mau Castro Mau – Castro – – Chastra – Castro – Vale de Castro – – Castelo Torre Velha – – – – – – Castelãos. Terrona – – – Terronha – – – Cigadonha (1542) – – Castelo Ciradelha – Castelo Sanguinho – – – – Castelo de Alvelina Castelo Terronha Vilar – – – Vilarinho – – – Vilar Vilarelhos – Vilar Vilar – Vilar Vilar – – Vilar – – – Vilar – – Vilar – – – – – – – – – – – – – – – – Pedra escrita – – – – – – – – Patada de mouro – – – – Escrita – – – – – – – – – Esculca – – Facho – Esculca Fraga da Esculqueira – – – – – – – – Facho Esculca – – Facho – – Facho Facho – – – Facho – –

(1540) Ver o artigo Cova da Lua, p. 187, onde se mostra como Casarelhos indica castro. (1541) A Torre do Castro de Carragosa é comum a esta povoação, bem como à de Donai e Meixedo. (1542) Fica no outeiro onde está a capela da Senhora da Cabeça. Já aparece com este nome no Tombo dos bens do Cabido de Miranda feito em 1691. (1543) A Cunca da Anta de Parada é a mesma a que chamam Lameiro da Anta, em Paredes. Da mesma forma a Cidarelha de Parada é comum a Paredes e Pinela e também lhe chamam Castro da Ciradelha.

Espinhosela .................................. Fermentãos .................................. Formil .......................................... Fontes Barrosas ........................... França ........................................... Gimonde ...................................... Gondesende ................................. Grijó de Parada ........................... Gostei ........................................... Izeda ............................................. Labiados ....................................... Lagomar ....................................... Lanção .......................................... Maçãs ........................................... Macedo do Mato ......................... Meixedo ....................................... Milhão .......................................... Montesinho (França) .................. Nogueira ...................................... Oleirinhos do Sabor .................... Oleiros da Vereia ......................... Outeiro ......................................... Parada de Infanções .................... Paredes (ver nota 4) .................... Paradinha Nova ........................... Parâmio ........................................ Paredes ......................................... Petisqueira ................................... Pereiros ........................................ Pinela ............................................ Pombares ..................................... Quintanilha ..................................

PRÉ-HISTÓRIA TOMO IX

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA

567


– – Madorrinha Modorra –

Chão de Arca – – – – – –

– – – – – – –

Rio de Onor ................................. Sacoias .......................................... Salsas ............................................ Samil ............................................. São Julião .....................................

São Pedro de Serracenos ............. Sendas .......................................... Serapicos ...................................... Sortes ............................................ Soutelo da Gamoeda ................... Terroso ......................................... Valverde .......................................

Veigas (Quintela de Lampaças) . Vila Boa de Carçãozinho ............ Vila Meã ....................................... Vilar (Milhão) ............................. Vilarinho de Cova de Lua .......... Zeive ............................................. Zoio ..............................................

?

}?

Medorro s Medorros

Medorro – – – –

Quintela de Lampaças ................. Rabal ............................................ Rebordaínhos .............................. Rebordãos .................................... Refoios .........................................

Rio Frio de Outeiro .....................

Antas, Arcas, Arcãs, Modorras e Lagares

– Castro – Castro – Castro Castro

– – – – Torre do Castro – –

Castro

(1544)

Castro Castro –

Castro

– Castro Castro – –

Castros

– – – – – – –

– – – – Castelo – –

– – – – –

Terronha – – – Fraga do Castelo

Castelos, Torres, Cigadonhas, Ciradelhas, Terronhas e Casarelhos

– – Vilar Vilar Vilar Vilar –

– – Vilar – Vilar Vilar –

– Vilar – – –

Vilar – – Vilar –

Vilares

– – – –

(1546)

(1545)

– – – Pena escrita – – Ferradura no sítio Vale de Salgueiro –

– Ver artigo Sacoias – – –

– – – – –

Insculturas rupestres

–– Facho – Facho Facho – – –

– – Miragaia – Facho e Cabeço de Sentinela – Miragaia Senhora do Aviso – – Facho

– Facho – – –

Fachos

568

POVOAÇÕES

TOMO IX PRÉ-HISTÓRIA

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


– – – – Antas Arcã – – Arquinha – Casa da Moura Casa da Moura

Beira Grande ................................ Carrazeda de Ansiães .................. Codeçais (Pereiros) ..................... Linhares ........................................ Luzelos (Marzagão) ..................... Parambos ..................................... Pereiros ........................................ Pombal ......................................... Samorinha .................................... Seixo de Ansiães .......................... Vilarinho da Castanheira ............ Zedes ............................................ – Castro – – – – – – – – – –

– – – – Castelo – Castelar – Castelo Castelejo e Castelo – Castelo – –

– –

– –

Lagoaça ........................................ Mazouco ...................................... – –

– – – Castelo Terronho. Cegadonha. Castelares Casal dos Mouros Castelo do Pinho

Pegada (1548) – – –

– – – –

(CONCELHO DE)

– – – Ferraduras Ferraduras – –

(1547)

– Ferraduras nas Fragas das Pias – – – Ferraduras e Letras

– – –

Miradouro Miraga – Mirago – – – – – Mira – –

– –

(1544) AIRES, Cristóvão – História do Exército Português, vol. 1, p. 380 e seg., e Albino Lopo mencionam o Castro de Samil; porém o povo não lhe dá tal nome, mas sim o de Castrilhão. (1545) No Castro de Vila Boa de Carçãozinho há insculpidas ferraduras e fornos dos mouros. (1546) No sítio do termo de Vila Meã chamado Salsas há insculpida numa fraga a pegada de um boi. (1547) Há um sítio do termo chamado Pedra do Sapato; será inscultura? No sítio do termo chamado Tiro Longo há esculpida numa fraga uma foucela. Assim chamam à forma de fazer o queijo. (1548) À beira do caminho de uns moinhos no termo de Fornos há gravada numa fraga a pegada de um mouro no acto de fugir, estendendo dali um pé à Pena Furcada, já em Espanha, distante mais três quilómetros. Falando de Fornos, diz o autor das Terras entre Douro e Sabor, p. 36: «como vestígios de monumentos pré-históricos, existe aqui um dolmen e um sino de granito» [294]. Ligar com o Sino dos Mouros no artigo Bousende. No sítio chamado Mesquita, termo de Fornos, concelho de Freixo de Espada à Cinta, há restos de um dólmen, diz o abade José Augusto Tavares em A Voz de 18 de Agosto de 1930. (1549) No Castelo Terronho [295] há um tesouro constante de uma panela de peste e outro de dinheiro, diz a lenda.

Arcal –

Fornos .......................................... Freixo de Espada à Cinta (1549) ....

– Vilarinho – Vilarelho Vilarinho – – – – – – –

– –

(CONCELHO DE)

FREIXO DE ESPADA À CINTA

Arcã, Lagares –

Arnal (Linhares) .......................... Belver ...........................................

CARRAZEDA DE ANSIÃES

PRÉ-HISTÓRIA TOMO IX

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA

569


Antas, Arcas, Arcãs, Modorras e Lagares

Vale de Arcas – – – – – – – Lagar –

Modorra Lagarões Lagar dos Mouros – Mudura – – – – – – Cabeço da Anta Lagar – –

POVOAÇÕES

Ala ................................................

Amendoeira ................................ Arcas ............................................. Bagueixe ...................................... Bornes .......................................... Castelãos ...................................... Chacim ........................................ Corujas ........................................ Espadanedo ................................. Ferreira (freguesia) ..................... Gradíssimo ..................................

Grijó de Vale Benfeito ............... Lagoa ........................................... Lamalonga ................................... Lamas de Podence ...................... Morais .......................................... Murçós ......................................... Olmos (1550) ................................... Peredo .......................................... Peredo dos Cavaleiros ............... Pinhovelo (1551) ............................ Podence ....................................... Salselas ......................................... Santa Combinha (freguesia) ..... Sobreda ........................................ Soutelo Mourisco (1552) .............. – – – – – – – – – – – Castro – Lameiro de Castro –

– Castrilhão Cruzes de Castro – – – – – – –

Castros

Cigadonha, Casarelhos e Casinhas (é o mesmo sítio conhecido por estes três nomes) – – Castelo – Tra lo Castelo Castelo – – Castelares Casarelhos (Terradas) – Fraga do Castelo – Casinhas Casinhas. Ciradelha – Terronha Castelejo – Terronha Castelo Terronha – – Terronha

Castelos, Torres, Cigadonhas, Ciradelhas, Terronhas e Casarelhos

– – – – – – – – – – – – – – – – Escrita – – – – – – Pegada – –

– – Vilar – – – – – – – – – – – –

Insculturas rupestres

– – – – – – Vilares – – –

Vilares

(CONCELHO DE)

Facho – – Facho Facho Miradouro e Fachinha Luzias e Luzio Chama da Talanqueira – Facho – – – – – –

Facho – – Fachal Miradouro – – Viso e Facho Viso –

Fachos

570

MACEDO DE CAVALEIROS

TOMO IX PRÉ-HISTÓRIA

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


– – Vale de Arca – – – –

– – –

– – Mamona Lagariça

Aldeia Nova ................................ Atenor .......................................... Caçarelhos (1554) ........................... Cércio (Duas Igrejas) ................. Especiosa (Genísio) (1555) ............ Fonte de Aldeia (Picote) ........... Fonte da Urze .............................

Genísio ......................................... Ifanes ............................................ Malhadas .....................................

Miranda do Douro .................... Palaçoulo ..................................... Paradela ....................................... Pena Branca .................................

Castelo – – – – – – Castelo Castelo

– – Castrilhouço –

Castro Castro Luço Castrilhouço – – Castralheiras – (por Terronha?) – Castrilhouço –

(1553)

– – – – Terronha Casicas Terrona – – – Tra lha Torre (Trás da Torre) Terronha. Urreta Castelo – –

MIRANDA DO DOURO

– – – – Vale de Castro Castro Castrilhão – –

Pegada – – Gravatos – – – – Três pés – – – – –

– Vilarinho – – Vilarinho – – –

– Fraga das Ferraduras – – – – – – –

– – – – – –

(CONCELHO DE)

– – – – – – Vilarinho Vilarinho Vilares

Facho – – Facho –

Viso –

– – Penha la Vela – – –

– – – – – – – – Fachal

(1550) Lenda da moura encantada na Terronha. (1551) A Terronha foi vila e habitação dos mouros, diz o povo, e lá aparecem tijolos, moedas romanas, cerâmica, pondus, etc. (1552) Na Terronha de Soutelo Mourisco é onde se julgam as feiticeiras de Cabanas e de Vilar de Ouro. (1553) LOPO, Albino, O Arqueólogo Português, vol. 3 (1897), p. 212, menciona um Castro em Aldeia Nova, mas o povo não lhe dá tal nome, embora existam ruínas semelhantes mais ou menos às dos Castros. (1554) O sítio chamado Lombeiro, termo de Caçarelhos, é evidentemente um castro, diz AIRES, Cristóvão – História do Exército Português, vol. 1, p. 380. (1555) A menção do sítio chamado Terronha no termo de Especiosa já aparece no Tombo dos bens do Cabido de Miranda feito em 1691.

– – Lagares Arcal Arcão – – – Arcal, lagar

Talhinhas ..................................... Travanca ...................................... Vale Benfeito .............................. Vale de Porca .............................. Vale de Prados ............................ Vila Nova .................................... Vilarinho de Agrochão .............. Vilarinho do Monte .................. Vinhas (freguesia) ......................

PRÉ-HISTÓRIA TOMO IX

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA

571


Modorro – – –

Antas – –

Arcã Modorra na quinta do Casario – Anta – Modorra Medorra Madorra (1558) – – – Lagareta – – Pereira de Anta – Pais de Antas Modorra (1558) Madorra Anta Anta

Picote ........................................... Póvoa ........................................... Prado Gatão (Palaçoulo) ........... S. Martinho de Angueira ...........

S. Pedro da Silva ......................... Vale de Águia (Miranda) ........... Vila Chã de Braciosa ..................

Abreiro ......................................... Aguieiras ......................................

Avantos ........................................ Barcel ........................................... Bouça (1557) ................................... Cabanelas .................................... Caravelas ...................................... Carvalhais .................................... Cedães (1559) .................................. Ferradosa (Bouça) ...................... Fonte da Urze ............................. Gandariças ................................... Lama de Cavalo (Alvites) .......... Marmelos .................................... Mascarenhas ................................ Milhais ......................................... Miradeses ..................................... Mirandela .................................... Múrias .......................................... Navalho ....................................... Pai Torto .....................................

Antas, Arcas, Arcãs, Modorras e Lagares

– Castelo – – Ciradelha. Terronha – – – – – Terrona – – – Cidade Castelo – Castelo Velho – – –

Castro – – – – – – – – Castro – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – –

Vilarinho – – –

– Terronha Casonas –

(CONCELHO DE)

– – –

Vilares

Castelo, Cigaduenha – –

Castelos, Torres, Cigadonhas, Ciradelhas, Terronhas e Casarelhos

MIRANDELA

– – Castro de Cocoia (dois Castros) – Castrilhouço Castralheira

(1556)

Castros

Letras nos Castrijões – – – – – – – – – – – – – – – – – – –

– – – –

– Dois pés de homem –

Insculturas rupestres

– Facho Facho – Facho – – – – – – Facho Frago da Vela – – – – – – –

Facho – – –

Esculca Facho –

Fachos

572

POVOAÇÕES

TOMO IX PRÉ-HISTÓRIA

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


– – – Antinha e Vale da Arcanha – – – – –

Lagares – – Modorra, Lagariça – Medas Lagar dos Mouros – Arcas – – Fraga das Arcas Tombaro

São Pedro Velho .......................... Seixo (Guide) .............................. Suçães ........................................... Vale de Conde .............................

Vale de Gouvinhas ...................... Vale de Juncal .............................. Vale da Sancha ............................ Vilar de Ledra .............................. Vilares da Torre ...........................

Algosinho (Peredo da Bemposta) ............ Bemposta ..................................... Bruçó ............................................ Brunhoso ..................................... Brunhosinho ................................ Castanheira .................................. Castelo Branco ............................. Castro Vicente ............................. Estevais ......................................... Figueira ou Figueirinha (Travanca) Lamoso ......................................... Medal (Meirinhos) ...................... Peredo da Bemposta ................... – – – – Castro – – Castro – – – – – Castelo Castelo Castelo, Casinhas – – – Castelo – – Castelo – – Castelo (1560)

– – –

– –

– – – – – – – – – – – – –

– – – – Vilar Vilarinho

(CONCELHO DE)

– Castelo Castilhão Fraga do Castelo – –

– – – – – –

MOGADOURO

– – Castelo

– –

– – –

– –

– – – – – – – – Réptil – Insculturas – Insculturas, Miradouro, Atalaia, Trincheira

– – – – – –

– Na Gândara há um lagar na fraga – – –

– – – – – – – – – Pena da Vela – –

– – – – – –

– – Miradouro –

Facho

(1556) O povo não lhe chama Castro, como inculca LOPO, Albino, O Arqueólogo Português, vol. 3, p. 212, mas sim Castelo. (1557) À Ciradelha também lhe chamam Castro dos Casarelhos; vide O Arqueólogo Português, vol. 20, p. 101. Aparecem lá objectos de cobre pré-históricos, ruínas de casas, de fornos e outros antigualhas. Ao sítio também lhe chamam Casinhas. (1558) É comum com Mirandela. (1559) Coisa de um quilómetro de Cedães há ruínas, restos de casas e dizem que foi aqui a primitiva povoação. (1560) Há um outeiro chamado Cabeço Diano. Virá do culto prestado a Diana, a Lua?

– Antas

Passos ........................................... Póvoa (Suçães) ............................

PRÉ-HISTÓRIA TOMO IX

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA

573


– –

– Anta – Fraga das Arcas Regato dos Lagares – –

Pedra Dante Anta

Açoreira ....................................... Adeganha (1563) .............................

Cabanas de Baixo (1564) ............... Cabeça Nova ............................... Cabeça de Mouro ....................... Carviçais ....................................... Castedo ........................................ Felgar (1565) ................................... Felgueiras ....................................

Horta ........................................... Junqueira (1566) .............................

Remondes ................................... Fonte dos Lagares Saldanha ...................................... – Sanhoane (1561) ............................. Madorra Santiago (Vila de Ala) ................ – São Martinho do Peso ............... – Sampaio ....................................... – Tó ................................................. Touça Dante, Medorra Travanca ...................................... – Urrós (1562) .................................... Casarelhos Vale Certo (São Martinho do Peso) – Valverde ....................................... – Vila de Ala ................................... Modorra Vilar de Rei ................................. Modorra Vilar Seco .................................... – Vilariça (Variz) ........................... – Vilarinho dos Galegos ............... Lagares

Antas, Arcas, Arcãs, Modorras e Lagares

– –

– – – – – – –

Volta de Crasta Fonte do Castro

– Castelo. Castelo Velho. Há três castelos. – – Castelo Cidadonha Fonte das Torres Castelo Selhade Castelo junto ao Santuário de Santa Eufémia – –

Vilares

– – – – – Insculturas – – – – –

– – – – – – – – – –

– Insculturas – – – – Insculturas – Pegada – – Insculturas – – – –

Insculturas rupestres

– Vilar – – – – – – Vilarinho – Vilarinho – Vilar Vilar Vilar Vilarinho

(CONCELHO DE)

– – – – Castelo Castelo – – Castelo de Oleiros Castelo Castelo, Vale das Casas – – – – Castelo

Castelos, Torres, Cigadonhas, Ciradelhas, Terronhas e Casarelhos

MONCORVO

– – – Vale de Castro – – Crasto – – Crasto – – – – – –

Castros

– – –

– – – – – – –

– – Facho – – – – Ferradura Facho – – – – – – –

Fachos

574

POVOAÇÕES

TOMO IX PRÉ-HISTÓRIA

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


Póvoa (Estevais) .........................

Urros ............................................ –

– – – Castelos. Cigadonha. Terronha Torre Branca e Torre Preta e Castelinho Castelo perto do Santuário de Santo Apolinário –

– –

– –

Insculturas

Vilariça

Miradouro

(1561) No termo de Sanhoane «existe um grande montão de seixos e terra que devia ser uma anta, embora a tradição diga que servia para fazer sinais, por meio de fachos, nas antigas guerras, como diz PEREIRA, J. M. M. – As Terras entre-Douro-e-Sabor, 1908, p. 123. Há no termo de Sanhoane os sítios chamados Modorra e Facho, diz-se em O Arqueólogo Português, vol. 7, p. 126. (1562) O sítio chamado Casarelhos fica contíguo a outro denominado Meireide, que foi povoação dos mouros, diz o povo, e onde aparecem vestígios de casas feitas de pedras com cimento algumas, segundo parece, escumalhas de ferro, mós manuárias, facas e raspadores neolíticos, cossoiros e mais antigualhas, que o nosso diligente informador João do Nascimento Pires, de Urrós, nos tem enviado. (1563) No termo de Adeganha há três castelos, diz-me o pároco: Castelo Velho, Castelo e Castelo da Senhora do Castelo e ruínas em todos eles. Há também no Vale da Vilariça o Castelo da Silveira e o da Portela, segundo o mesmo pároco. Dará o povo o nome de Castelo a todos eles? É certo que ruínas aparecem em todos. (1564) Um velho do povo informou: «Por duas vezes me lembro de, no sítio da Mina, ao poente de Cabanas de Baixo, procederem a escavações e encontrarem lá uma enorme fraga em cimento de três colunas, e que o Reverendo Abade Tavares (José Augusto Tavares, abade de Carviçais) levara de lá um porco inteiro e uma porca de granito». Informações do professor Manuel António Vicente. Pela descrição parece tratar-se de uma anta. O porco inteiro (berrão, porco por castrar) foi provavelmente um exemplar dos que o referido abade encontrou no termo desta povoação. (1565) O Abade Tavares, na Agenda Brigantina, 1928, aponta o Castelo da Cizonha, o Castelo dos Mouros e o Castelinho, tudo no termo de Felgar. (1566) Fala na anta da Junqueira o autor de As Terras entre-Douro-e-Sabor, p. 45. No Prado da Junqueira, próximo de Ribeira da Vilariça, há restos de uma anta, diz o abade José Augusto Tavares em A Voz de 18 de Agosto de 1930. (1567) Disseram-me que na Quinta da Avelaira, próximo de Moncorvo, havia insculturas rupestres; mas o Dr. Santos Júnior, que muito tem estudado a região moncorvense, diz-me que não tem notícia de tal. (1568) Na Terronha, sítio do termo de Mós, há abundantes vestígios da exploração de ferro com aproveitamento da água da ribeira para lavagem do minério (Abade Augusto Tavares, em Gazeta de Bragança de 14 de Maio de 1899). «Em torno da Vilariça [diz o Dr. J. R. Santos Júnior, As ruínas castrejas da Cidagonha (Carviçais), 1929, p. 8, em nota] e empoleirados nos cabeços que circundam este feracíssimo vale, tenho conhecimento dos seguintes Castros: Cabeço dos Carneiros, Vila Velha, Baldoeiro, Senhora do Castelo, Junqueira, Sampaio, Vila Maior e Cabeça Boa». Damos notícia de todas estas estações arcaicas, mas nem todas vão com o nome de Castros, porque, embora arqueologicamente o sejam, popularmente são conhecidos pelos nomes de castelos ou equivalentes e assim os resenhamos.

– –

Moncorvo (1567) ........................... Mós (1568) ......................................

PRÉ-HISTÓRIA TOMO IX

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA

575


– – – – – – – – – Medorras – – – – Antas –

Vale de Arcas – – Lagares –

Nabo ............................................. Ribeirinha (Vilas Boas) ............. Trindade ...................................... Vale Frechoso ............................. Vilas Boas ....................................

Algoso ..........................................

– –

Freixiel .......................................... Macedinho ..................................

Angueira ...................................... Argozelo ...................................... Campo de Víboras ..................... Carção .......................................... Junqueira (Matela) ..................... Matela .......................................... Mora (Uva) ................................. Pinelo ........................................... São Joanico ................................. Santulhão .................................... Serapicos (Vale de Frades) ........ Uva (1570) ....................................... Vale de Pena (Pinelo) ................ Vila Chã da Ribeira (Uva) ......... Vilar Seco .................................... Vimioso (1571) ...............................

Antas, Arcas, Arcãs, Modorras e Lagares

POVOAÇÕES

– – – – Castro – – – – – – – Castro – – – Castro

Castelo dos Mouros, Terronha – Terronha (1569) Castro Velho – – – – – – – – Castelo, Terronha – Castelouço – Terronha

(CONCELHO DO)

Castelinho e Castelo Castelo (restos de muros) – – – Castelo Castelo Velho

Castelos, Torres, Cigadonhas, Ciradelhas, Terronhas e Casarelhos

VIMIOSO

– – – – Castro

– –

Castros

– – – – Insculturas –

– Vilar – – – –

– – – – – – – – – – – – – – – – –

Insculturas

Insculturas rupestres

Vilares

– Vilarinho – – – Vilar Vilar – – – – – – Vilar – – –

(CONCELHO DE)

– – – – – – – Fraga do Lume Facho Facho – Facho – – – – –

Fraga da Pedra da Luz – Lameira da Vela – – –

Fachos

576

VILA FLOR

TOMO IX PRÉ-HISTÓRIA

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


– – – Tumbiadouro, montão de terra –

Montouto (ver Travanca) ......... Nuzedo de Cima ........................ Ousilhão ...................................... Paçó de Vinhais .......................... – –

– – Castro

Castro – Castro – – Castro – – – – – – – Eira do Castro – Castro

(1572)

– – Castro Mau – –

Torre Castelo

Castrilhão Terronha Terronha Castelo – – – – – – – – – Castelejão – Cidagonha, Terronha – Castelo Castilhão Castelo Castelo Castelares, Castilhão, Cigadonha – Castelo Torre

(CONCELHO DE)

Pena Escrita –

– – – Ferradura

– – – – – –

Escrita – – – – – Pena escrita – – – – – – – Escrita – Pegada da vaca – – Pegada do Mouro Pena Escrita

– – – – Vilar – Vilar – – – – Vilar – – – – – – – Vilar Vilarinho

(1569) Em Argozelo ao sítio da Terronha também alguns chamam Castro da Terronha. (1570) Na Terronha, sítio do termo de Uva, fica da Terronha, onde vão banhar as crianças atacadas de angaranho para as curar. (1571) Na Terronha há vestígios de ruínas. (1572) Alguns dão ao sítio Vila de Souane, no termo da Cisterna, também os nomes de Castelo, Circa, Cerca e Castro de Souane. (1573) Dizem que as mouras da Terronha iam estender a barrela à Cigadonha.

Passos (Vilar Seco da Lomba) ..

– – – – – – – Lagares – – – – – – – – – – – – – –

Agrochão ...................................... Brito (Edral) ............................... Brito (Penhas Juntas) ................ Cabeça de Igreja ......................... Candedo ...................................... Cisterna ....................................... Dine ............................................. Edral ............................................. Edrosa .......................................... Edroso ......................................... Ervedosa ...................................... Espinhoso ................................... Ferreiros (Edral) ......................... Frades (Edral) ............................. Fresulfe ........................................ Gestosa (1573) ................................ Lagarelhos ................................... Maceira ........................................ Melhe ........................................... Moás ............................................ Mofreita ....................................... Moimenta ...................................

VINHAIS

Mirões. Esculqueira –

– – – Fraga da Vela

– – – – Pedra da Vela – – – – Facho Esculca – Facho – – – – – – – Facho

PRÉ-HISTÓRIA TOMO IX

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA

577


– – Antas, Lagares – – – – – Modorro – – – – – – Tumbeirinho – – – –

– – – – Modorro –

Pedras Juntas ............................... Pinheiro Novo ............................ Pinheiro Velho ........................... Quintela de Vinhais .................... Quiraz .......................................... Rebordelo ..................................... Revelhe ......................................... Rio de Fornos ............................. Santa Cruz ................................... Santalha ....................................... São Jomil ..................................... Seixas (Santalha) ......................... Sendim (Edral) ........................... Sobreiró de Baixo ...................... Sobreiró de Cima ....................... Soeira ........................................... Travanca (1575) .............................. Vila Verde ................................... Vilar da Lomba .......................... Vilar de Ossos (1576) ...................

Vilar de Peregrinos ...................... Vilar da Lomba .......................... Vilarinho (Quiraz) ..................... Vilarinho das Touças ................. Vinhais ......................................... Zido ............................................. – – – Castro Cerca do Castro Castro

Castro Castrijão (1574) Castro Crasto Castrilhão – Castro Castrilha – – – Castro – Castro – Castro da Ponte – Castro. Castrilhão – Crasto

Castros

– – Terronha – – – – – – Vales das Casas – Castelo Seixão Fraga da Casarelha Castelo – Cortelhas – – – Casarelhos, Casinha ou Casilha – Castelo – – Ciradelha ou Cigadonha –

Castelos, Torres, Cigadonhas, Ciradelhas, Terronhas e Casarelhos

– Insculturas – – – Ferraduras – – – – – – Fraga da Estrela – – – Pegada do burro Pedra Escrita – Lombo da Escrita – – – – Insculturas –

Vilar Vilar Vilar Vilarinho Vilarinho Vilar –

Insculturas rupestres

– Vilar – – – – – – – – Vilar – – – Vilariça Vilar Vilar Vilar Vilar

Vilares

Facho – – – – – –

– – – – – Fraga da Vela – – – – Vale de Miro – – – – Vale de Miro Esculqueira – –

Fachos

(1574) Alguns chamam-lhe também Castelo e ainda Cidade de Santa Rufina. (1575) Em Montouto há também um sítio chamado Esculqueira, mas como marginam os termos, é possível que sejam um e o mesmo. Também no termo de Montouto (freguesia) há um sítio chamado Casarelha. (1576) Na Casilha, sítio do termo de Vilar de Osos aparecem vestígios de casas e de fortificações. Casulhas e Cortelhas relacionar-se-ão com Casarelhos.

Antas, Arcas, Arcãs, Modorras e Lagares

578

POVOAÇÕES

TOMO IX PRÉ-HISTÓRIA

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


PRÉ-HISTÓRIA

579 TOMO IX

INSCULTURAS E ARTE RUPESTRE. NOVOS ELEMENTOS PARA SUA INTERPRETAÇÃO [296] O costume de marcar os termos confinantes das povoações e das grandes propriedades com cruzes ou outros sinais insculpidos em fragas, pedras móveis (chamadas marras pelo povo) e árvores, é antiquíssimo: encontra-se em toda a Idade Média, bem como nos tempos modernos e vem já dos romanos, que provavelmente o receberam dos povos primitivos [297]. O Código Visigótico, também chamado Lei dos Godos, Fori Judicum e ainda por outros nomes equivalentes, manda assinalar com três decúrias (1577), quae vocantur characteres, o mato, campo, rochedo ou árvore, onde alguém encontrou enxame de abelhas, para marcar a prioridade do seu invento e título de posse (1578). As decúrias (algarismo X) serviam também de marcação nos limites dos termos e grandes propriedades, gravadas nas fragas e pedras já pelos romanos, como se deduz do mesmo Código (1579), que comina vinte sólidos de multa por cada decúria apagada ou raspada criminosamente para, alargando o campo, roubar o terreno alheio. Qui studio pervadendi limites complanaverit, aut terminos fixos fuerit ausus evellere: si ingenuus est, per singula signa vel notas XX solidos, cui fraudem fecit cogatur inferre (1580). Depois, na Lei III do mesmo livro e título, passando a indicar quais são os sinais marcantes postos pelos antigos e romanos para os casos de contestação de limites, diz: Quotiescumque de teterminis fuerit orta contentio, signa quae antiquitus constituta sunt, oportet inquiri, id est, aggeres terrae sive arcas, quas propter fines fundorum antiquitus apparuerint fuisse congestas atque constructas: lapides etiam, quos propter indicia terminorum notio evidentibus sculptos constiterit esse defixos. Si haec signa defuerint, tunc in arboribus notas, quas decurias vocant, convenit observari, sed illas quae antiquitus provantur incisae (1581). Este antiquitus refere-se aos romanos, pois os godos não alteraram as marcações dos campos, antes as conservaram, como determina logo no

(1577) Decúria é o algarismo X dos caracteres romanos, como diz Viterbo no Elucidário, artigo «Decúria», e confirmam os editores do Código no respectivo Glossarium. (1578) Fori Judicum, edição dos Portugaliae Monumenta Historica, livro 8, título 6, p. 94 e 130. (1579) Ibidem, livro 10, título 3, leis 2 e 5. Estas leis são de el rei Recesvintus, falecido em 672. (1580) Ibidem, lei 2. (1581) Ibidem, lei 3.

MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


580

PRÉ-HISTÓRIA

TOMO IX

princípio a lei I deste título III, livro X. Antiquos terminos et limites sic stare iubemus, sicut antiquitus videntur esse constructi, nec aliqua patimur commotione, divelli. A lei V é ainda mais expressiva, pois diz: si quodcumpe ante adventum gotorum de alicuius fundi iure remotum est, et ad aliquam possessionem, aut venditione, aut donatione, aut divisione, aut aliqua transactione translatum est; id in eius fundi, ad quem a romanis antiquitus probatur adiunctum, iure consistat (1582). Em 911 suscitaram-se dúvidas sobre limites de terrenos pertencentes ao mosteiro de Dume e para as resolver congregaram-se os magnates do território bracarense – bispo, abades, presbíteros et homines bonos, qui solent antiquitum comprovare – e, examinando as demarcações antigas, começando na povoação de Infídias; invenimus ibidem in petra caracterem Sancti Vincenty; et exinde in alia petra invenimus Cruce. Et inde per petras fictas, qui ab antico pro termino fuerunt constitutas. Et exinde in via, quam dicunt de Vereda, qui discurret de Bracara, et invenimus ibidem congesta magna petrinea. Et inde per agirem, et petras fictas quousque ad barca, qui sedet sculta in petra. Et exinde ad alia congesta petrinea. Et inde per agirem, et petras fictas que sunt secus via de Vereda, quousque in termino Pittanes. Et inde per agirem et archas principias, qui divident inter Dumio, et Palmaria. Et inde per agirem certum, qui dividet inter Dumio, et Paretelias... Et inde per alia via de Vereda, qui discurrit de Bracara quousque in terra tumeda, qui fuit manum facta. Et exinde in archa petrinea principia, ab antiquis constructa... Et inde per agirem, et petras fictas, usque invenimus petra scripta, ubi dicet Terminum. Et inde per agirem, et petras fictas, usque in termino de Villa Pascasi, et invenimus ibidem petra scripta, ubi dicet Sanctae Eolaliae... Et sic exivimus per signas certas, usque in monte, ubi prius incoavimus» (1583). Por este documento vemos que nos marcos divisórios de termos se esculpiam: sinais iconográficos do possuidor – caracterem Sancti Vincentii – que seria a grelha, a nau ou os corvos (1584); cruzes; palavras que indicavam (1582) Ibidem, lei 5. (1583) Portugaliae Monumenta Historica, documento 17. (1584) É flagrante a configuração da grelha apresentada por alguns petróglifos. No tomo I, p. 361, destas Memórias, publicámos a inscrição terminal HEINC/LETERANl, aparecida em Lamas de Orelhão, referente à demarcação de Ledra. CAGNAT – Cours d’Epigraphie latine, 1898, p. 248, trata das inscrições terminais usadas pelos romanos, tanto em propriedades públicas como particulares, onde se escreviam os nomes dos interessados, e diz que a mais antiga conhecida é anterior a Aníbal. HÜBNER – Corpus..., menciona muitas encontradas na nossa Península Ibérica.

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termo ou nome do possuidor (Santa Eulália, no documento). Além destes elementos também serviam de marra divisória: petras fictas (pedras de certa altura, tendo parte espetada no solo); congesta magna petrinea (montões de pedras); Archa (marco especial formado de quatro paredes na forma de guardas de poço, que os agrimensores colocavam nos quadrifínios, como a arcella no trifínio, segundo diz Alberto Sampaio (1585); terra tumeda (mamoa das antas ou dólmens). A barca esculpida na pedra de que fala o documento, seria também símbolo iconográfico do proprietário? «Uma cruz erguida sobre a terra não privilegiada – diz Herculano (1586) –, um sinal que indicasse a qualidade de imune, bastavam para a defender dos exactores do fisco. Porque, segundo as formas das cruzes, ou pelos marcos e padrões, se entendia ter nela domínio directo um instituto de caridade, uma das ordens de cavalaria ou algum fidalgo». O Doutor Mendes Correia, estudando os petróglifos existentes entre os montes de Vila Meã e Sampaio, ao Sul das Pedras Salgadas (Vila Pouca de Aguiar, Portugal), de que dá as gravuras (1587), constantes de covinhas, sinais cruciformes e outros, diz que a gente daquela região considerava as cruzes esculpidas por sinais divisórios de termos e pastagens gravados por seus antepassados. No tomo IV, p. 383, destas Memórias publicámos um documento que anda junto ao foral que el rei D. Manuel deu à vila do Vimioso em 5 de Março de 1516. Contém este documento a acta da sessão da Câmara do Vimioso, celebrada a 4 de Janeiro de 1747, referente às demarcações do termo da vila «por serem requeridos [os vereadores da Câmara], que as marras e comfrontaçoins atraz descritas neste foral [de el rei D. Manuel] se achavam com menos observancia e se ia prejudicando aos direitos reays usurpando-se parte do termo da dita villa mandaram elles officiaes da Camera vir pessoas assim desta vila como dos lugares de seu destrito e dos de Pinello, Caçarelhos e outros comfrontantes e com todos fizeram hua geral revista, e exame e aferimento nas marras e Balizas a que se refere este foral para evitar nos tempos foturos, e que não suceda o mesmo, que no presente se experimenta pelos descuidos e omissoins das cameras preteritas, e como este foral deve ser eterno e esta declaração o deve acompanhar, mandarão se estendesse aqui por ser muita, a sua duração e boa (1585) Revista de Portugal (1892), p. 543. (1586) HERCULANO, Alexandre – História de Portugal, livro 4°, p. 187. (1587) CORREIA, Mendes – Art Rupestre en Trás-os-Montes (Portugal), 1929, p. 123, separata da «Revue Arqueologique».

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arrecadação dos direitos reays, util e conveniente, cuja declaração e aferimento se fez pela maneyra seguinte: No alto das barreiras naquella parte do rio Angueira avistando a Caçarelhos no meio do caminho, que desta villa vae para o mesmo lugar está hua marra de pedra de cantaria de bastante altura, a qual he antiga, e desta vai cortando o extremo do termo caras o norte pelo cabeço abaixo onde estam duas marras de cantaria com cruzes de comenda e destas se segue no alto do mesmo lombo hua marra no cimo da vinhola, que he de cantaria com a mesma cruz. E vae seguindo-se a hua fraga de cantaria grande e redonda no fundo da vinhóla, que tem hua cruz da comenda caras a poente, e dahi passa o ribeiro de caderno logo pela parte de baixo do Moinho de Braz Pires de Caçarelhos, e sobe ao alto de hum monte defronte do mesmo moinho onde está hua fraga de cantaria alta, e redonda, nella ficão duas cruzes hua caras ao nascente e sul outra ao norte, e poente, e dahi vay a demarcação pella parede que devide os dois lameiros, hum da quinta de São Thomé, outro de Caçarelhos, e se mete no fim deste no caminho the o alto que chamão a boca de caderno assomando caras o norte, onde está hua marra grande de cantaria antiga, e com cruz de comenda, e dahi em direito entre o norte, e nascente a hua fraga que está no alto da orreta dos chopos assomando para as bouças de Caçarelhos, onde finda o termo deste lugar, na qual fraga fiqua hua alfa em hua fisga da mesma e o pé aberta hua cruz, e baixa dahi os malhadais ao lameiro, e terra de Antonio Ramos onde alem do ribeiro para a parte do sul fiqua hua alfa em huas fraguinhas, e aberta nellas hua cruz; e continua a demarcação a meio de hua terra que he da Igreja de São Joanico onde estão tres fragas, na do meyo fica hua alfa e aberta hua cruz, e vay sobindo o cimo desta terra a hua fraga que chamão a Penica do Abbade, na qual fica hua cruz caras o norte, e vay baixando a demarcação em direitura passando a ribeira aos emverniços, onde para o sul da ribeira, bem chegado a este, fica hua alfa metida o pé de hua fraga, o qual ribeiro he o de Cabanas, onde desemagua na ribeira; e sobe a demarcação a hua fraga grande, que chamão a Pena do Mocho, onde ficão oito escalloins caras o norte; e vay sobindo áquelle alto em direitura á cruz de São Julião assomando de São Joanico a cabanas, onde fica hua marra de cantaria com cruzes nella; e desta vay subindo a ladeira da moreira, aguas vertentes a cabanas, onde no meio fica hua alfa de pedra laje que se lhe não pode fazer cruzes e vay emdireitando a lagonica no caminho que vay de Cabanas para Serapicos, onde fica hua alfa de pedra laje, e continua the a quina do ultimo lameiro no fundo dos que chamão de Pedro Marcos na parte do sul fiqua hua alfa de pedra laje o pé da rodeira que vay a lagonica, e passa no fundo destes lameiros, e dahi corta o para baixo em direitura a fonte de reboredo, que MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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está na parte do sul do ribeiro onde o pé da fonte fiqua hua alfa de pedra laje, e daqui corta a demarcação partindo a serra pelo alto desta onde fica hua alfa em hua fraga metida e abertas duas cruzes e vay continuando pela mesma serra the o cimo da Orreta dos milhos onde fica hua alfa de cantaria do estado de hum homem com cruz aberta, e vay continuando a demarcação atravessando o caminho de Val de Frades the a marra da boca de Val de Zervos, a que na tombação do lugar de Pinello chamão pedra fita; nesta se devide o termo desta villa, o de Val de frades e o de Pinello, he pedra de laje, que não admite cruzes porem teve tres quinas que faz as divisoins dos tres termos; e desta marra corta a demarcação o para baixo, e vay dar a hua alfa antiga que está no fundo em hua terra lavradia de Manuel Lopes de Val de Frades, ou erdeiros de Francisco Lopes de Pinelo, e continua a correr a demarcação na marra que está no caminho de Pinello, assomando para o vale de Picotino, a qual marra he antiga, e de pedra laje com suas cruzes; e dahi se vay seguindo a rodeira abaixo pelo lombo da mó the o ribeiro de Malhadas fiquão coatro alfas e vay sobir a demarcação onde se juntão as aguas do ribeiro da festiadeira com o de Malhadas a que serve de diviza, e vay subindo a direito ao alto onde no extremo de hua terra dos Padres da Companhia fica hua alfa, e vay emdireitando á portella do Canal onde no caminho que vay para Pinello está hua marra antiga, e dahi vay a demarcação a Penica da Roca em hua terra de Aleixo Martins, e tem cruzes e senhas; e dahy corre a demarcação direito ao rio Maçãs onde fiqua em hua fraga antes de chegar ao rio hum tiro de pedrada huas cruzes e vay a demarcação rio abaixo, servindo de diviza o mesmo rio the á boca dos Bolssedos onde na ladeira fica hua alfa, e na encruzilhada no alto, que he a boca dos bolssedos fica hua marra dividindo o termo de esta villa e do logar do Campo, e dahi vem vindo em direitura o extremo do termo a sahir ao caminho que vay desta villa para o lugar do Campo, em hua fraga piquena hindo desta villa para o dito lugar á mão direita está hua cruz que serve de marra, e dahi vay baixando a pena samarra, e para o extremo a ribeira de Angueira daquela parte por baixo de um moinho que he de Nossa Senhora de Villa Cham, em hua cova por onde vem hum regato fica hua marra, e dahy vay subindo o alto de Cabeça aguda, onde está outra marra, e dahy vay em direitura á quinta dos Piquadeyros, onde por baixo da capela de Santo Amaro no mesmo adro está hua marra, e, dahy vay pello meyo das cazas cortando direito ao caminho que desta villa vay para a capella de Nossa Senhora do Rozario do Monte onde em hua fraga está hua cruz que serve de marra, e dahy vay cortando por detraz das Pedriças a sahir a marra das barreiras primeiro omde se principia esta demarcação; nesta demarcação ficam incluidos os termos das quintas de Piquadeiros e de Rodaguiços, que he a de Sam Thomé, cujos senhorios tem tombados e demarcados seus termos, porem se tem presumido excederem seus limites, MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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e cazo haja em algum tempo algua duvida se deve desfazer á vista dos tombos, que tem de suas demarcações......».

Marra do Alto das Barreiras. No Alto das Barreiras, a demarcar o termo entre Caçarelhos e Vimioso, está uma marra de cantaria de 1,50m de altura, por 0,30m de largura e 0,15m de grossura, pouco mais ou menos. Nela se encontram insculpidas as cruzes acima, espalhadas por todos os lados, segundo o formato indicado pelo gráfico, e por baixo de uma das cruzes as letras R. A. O documento não diz se esta marra tinha cruz, mas estas lá estão. As duas marras seguintes a esta, de que fala o documento da demarcação do termo do Vimioso, estavam no Válico de Mariana, como nos informaram, mas desapareceram ou estão tombadas. É possível que algumas das cruzes, que damos como maçanetadas, sejam de comenda; mas o tempo tem levado os traços de maneira que os nossos olhos, vítimas do mesmo, não perceberam melhor. Igual razão influiria para darmos traços da cruz de Cristo a algumas, talvez, da Ordem de Malta, que muitas propriedades tinham na região. Ver o artigo Frades, p. 404 e seg. Semelhantes a alguns destes sinais da marra do Alto das Barreiras e das seguintes, encontram-se em Galiza, na fraga chamada Eira dos Mouros (1588); nas margens do Rio de Arousa (1589); na estação rupestre de Sabroso, entre

(1588) CARBALLO, J. – Pre-historia..., 1924, p. 318. Nas páginas seguintes apresenta o autor várias outras esculturas de diversas regiões espanholas, onde há siglas idênticas às nossas. (1589) BOUZA BREY, Fermin – Una estacion de arte rupestre en las márgenes de la ria de Arousa, 1927, p. 8, 11, 18 e 19. Florentino L. Cuevillas e Fermin Bouza Brey, em Os Oestrimnios, os Saefes e a Ofiolatria en Galiza, 1929, p. 48 e seg., dão os gravados de mais aparecidos em Galiza.

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Braga e Guimarães (1590); na de Vila Meã (Vila Pouca de Aguiar) nas de Outeiro Machado, perto de Chaves (1591); e noutras adiante citadas e em muitas mais mencionadas por pré-historiadores nacionais e estrangeiros.

Figura 1

Marra do Cimo da Vinhola. Na marra do Cimo da Vinhola diz o documento da demarcação que há uma cruz de comenda insculpida, e, no entanto, vêem-se agora lá seis e vestígios de outra do formato dado no gráfico, prova de que o povo ou os interessados quando faziam as vistorias anuais abriam outras cruzes (fig. 1). Na fraga de cantaria redonda, sita no fundo da Vinhola, diz o documento que há uma cruz de comenda, e realmente não tem mais. A que lá está, fundamente gravada, é de mais de um palmo de altura (fig. 2). Semelhante a esta, há outra cruz numa fraga junto ao Ribeiro de Caderno, em frente do tal moinho de Brás Pires, de Caçarelhos, agora em ruínas, mas ainda bem patentes as paFigura 2 redes. Na outra fraga em frente do moinho, no alto do monte, há só as duas cruzes de que fala o documento. Marra da Boca de Cadernos. Na marra da Boca de Cadernos estão cinco cruzes (três profundamente gravadas) como apresenta o gráfico.

(1590) PINTO, Rui de Serpa – Petróglifos de Sabroso e a arte rupestre em Portugal, 1929, p. 4. (1591) CORREIA, Mendes, Revue Archéologique (1929), p. 212 e 129.

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A marra da Orreta dos Chopos, a dos Malhadais, a do meio da terra da Igreja de São Joanico, a da Penica do Abade e a do Ribeiro de Cabanas ninguém deu notícia delas, se bem que os nomes destes locais ainda se conservam. Estas marras apoucam o termo de São Joanico e pareceu-me ver jeito de terem sido destruídas com o fim de o alargar. Ficou a da Pena do Mocho, porque não sabiam que servia de marco divisório e só desde que lhe falei nos escalões [298] é que repararam neles, do contrário teria levado o mesmo caminho das outras, visto ser a que ainda mais limita o termo de Marra da Boca de Cadernos São Joanico. Como é de capital importância pré-histórica, classifiquem-na monumento nacional enquanto é tempo e com efectivação séria, senão é possível que a dinamite entre em jogo com ela. Marra da Pena do Mocho. Na fraga da Pena do Mocho, que serve de marra, «ficão oito escalloins caras o norte», diz o documento, como sinal demarcante. É preciosíssima esta indicação, porque os tais escalões ainda bem patentes, são autênticas covinhas (fossetes), cujo diâmetro regula por 0,03m e por 0,02m a profundidade. Os oito escalões avançam pelo fragueiro acima, que é enorme e de forma arredondada, em fila, e há mais dois, certamente abertos depois do documento demarcante, na disposição indicada pelo gráfico. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Adiante, na marra da Penica da Roca, veremos o mesmo sistema de covinhas (senhas, no dizer do documento), empregado como símbolo divisório de termos. Estas duas marras, em razão da sua importância arqueológica, devem ser declaradas monumentos nacionais. Da marra da Cruz de São Julião ninguém deu notícia, embora ainda se conserve o nome do local. O mesmo com referência à da Ladeira da Moreira. A da Lagonica, ainda conhecido o sítio por este nome e, mais geralmente, por três Marricas, ainda lá está e tem uma cruz. Na p. 153 damos notícia de uns escalões cavados na rocha no termo de Urrós, e adiante, na Fraga das Ferraduras de Belver, há junto ao fundo um sinal quadrangular, talvez relacionado com escalões ou estribo. Também no artigo Sacoias daremos notícia de um cossoiro ornado por covinhas. As fossetes desta marra devem relacionar-se com as que damos adiante, existentes em Rebordãos, e talvez com as de Carocedo e Moimenta e ainda com as mencionadas nas Religiões da Lusitânia, vol. 1, p. 377 e 380. Marra do fundo do lameiro de Pedro Marcos. A marra do fundo do lameiro de Pedro Marcos apresenta duas cruzes pela forma indicada no gráfico, o resto da base de outra e vestígios de mais levadas por quebradura, pois a pedra é de xisto laminoso. A marra de Fonte de Reboredo não tem cruzes. Coisa de oito metros da Fonte, fica o Poço da Moura, no ribeiro que ali corre. Desta marra segui directamente para a da Portela do Canal sem ver as intermediárias, porque o dia estava bravo, de choviscos e ventanias, e os guias de São Joanico, que até ali me acompanharam, não sabiam das marras seguintes, tendo de aproveitar um pastor do Vimioso que me indicou as duas adiante mencionadas. Marra da Portela do Canal. A marra da Portela do Canal apresenta cinco cruzes pelo tipo indicado no gráfico. Marra da Penica da Roca. A Penica da Roca é um fragueiro de xisto laminoso de fácil desagregação e apresenta

Marra da Portela do Canal

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alguns vestígios de sinais desaparecidos. A sua altura regulará por dois metros e pouco menos de largura; vai-se comendo pela acção do tempo e do lume que os pastores fazem arrumado a ele. Acudam-lhe enquanto é tempo e declarem-no monumento nacional, porque a única covinha (fossete) que lhe resta (o seu diâmetro regula por 0,03m e a profundidade por 0,02m) relaciona-se com os escalões da Pena do Mocho e muita luz projecta sobre as insculturas arqueológicas deste tipo, usadas pelo povo como sinais demarcantes, com que afirmava e autenticava a sua personalidade e títulos possessórios. Como o documento da demarcação diz que esta Penica da Roca tem «cruzes e senhas», resulta que estas são as covinhas, chamadas escalões na Pena do Mocho, tendo desaparecido as outras devido às razões já apontadas. É possível que as mais marras do termo do Vimioso contenham outras surpresas, mas não as examinei, porque o colega Marra da Penica da Roca Padre Félix Rodrigues Lopes, levado de gentil amizade, acompanhou-me na excursão e obrigou-me a sair da hospedaria onde me alojara e a ir para sua casa, onde me tratou, bem como suas irmãs, com requintes inolvidáveis de estima. Tenho sempre recusado, durante mais de quarenta anos que levo de peregrinações arqueológicas por terras bragançanas, oferecimentos desta ordem, e, se algumas vezes me vejo obrigado a ceder, dou por terminadas nesse dia as investigações, embora o não estejam, e vou-me embora no dia seguinte. Desta vez sucedeu o mesmo, a despeito dos protestos do velho amigo Padre Félix; é que burro velho não toma andadura e, se a toma, pouco lhe dura. Do que se colheu e do mais anteriormente dito parece poder concluir-se: 1° – Nas marras divisórias de termos, o povo, quando vai alfar (1592), gra-

(1592) Em geral, os povos vão uma vez por ano examinar as marras do termo para ver se foram mudadas e avivar as pocinhas ou gravar mais cruzes e sinais, se julgam conveniente. A estes serviços chamam em Baçal e noutras terras bragançanas alfar, ir alfar. O uso das pocinhas ou das cruzes é corrente em muitas terras do distrito, senão em todo, como temos observado. Estas pocinhas regulam por 0,04m de diâmetro e 0,02m de fundura. São feitas com certo esmero, muito redondas e alisadas, como que para lembrar tradição veneranda.

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va cruzes e outros sinais indicativos de posse ou abre em volta das mesmas pocinhas na terra com idêntico motivo (1593) [299]. 2° – Entre as cruzes atrás apresentadas, existentes nas marras do Termo do Vimioso, há algumas perfeitamente idênticas às das estações rupestres dadas pelos arqueólogos como esquemas estilizados da figura humana (1594), e, como aquelas são de tempos históricos, resulta que nem todas as chamadas insculturas rupestres são pré-históricas nem a sua figuração obedece à técnica estilizada. A semelhança que há entre os sinais de alguns petróglifos existentes no distrito de Bragança, adiante apontados, e outros de Espanha dados por Obermaier (1595), análogos aos cantos pintados de Mas d’Azil, atribuídos ao Aziliense, só prova que continuariam a usar-se pelos tempos históricos fora, como mostra o documento do Vimioso, de onde a necessidade de recorrer a outros elementos de investigação para classificar de pré-históricas ou não as estações rupestres. Ainda podia supor-se que o povo aproveitou para marcos divisórios de termos rochedos e pedras móveis, que já tinham esses sinais; mas pelo mesmo documento do Vimioso vemos que mais outros lhe foram gravados pelo tipo das cruzes, ferraduras e covinhas depois de ele ser escrito. 3° – Segundo temos observado, a maior parte das estações de arte rupestre estão em sítios marginais dos termos de povoações confinantes ou muito perto deles a servir de divisória aos mesmos ou a direitos de compáscuo entre vários povos, demarcando mesmo propriedades particulares ou bens adjacentes a igreja e capelas nos povoados. O povo ainda em alguns sítios conserva a noção desta origem (1596). 4° – Pode entender-se que, em muitos casos, a demarcação do termo das povoações é ainda a dos romanos e, talvez, em parte, a dos povos e tribos pré-romanos. 5° – Se atendermos à grande variedade de cruzes conhecidas – egípcia ou ansada, grega, latina, gamada, comisa, potêntea, trebolada, ancorada, maçanetada, aguçada, cantonada, floreada, carregada, chã, papal, arce-

(1593) O acto de posse rural pela escavação constitui título legal. Ver MONCADA, Luís Cabral de – A traditio e a transferência da propriedade imobiliária no direito português, 1921. (1594) Ver Obermaier, Carballo e outros adiante citados. (1595) OBERMAIER, H. – El Hombre Fósil, 1925, lâminas XXIII e XXIV. (1596) O Dr. Mendes Correia, na Revue Archéologique, 1929, p. 123, refere-se à informação de um pastor que dizia serem alguns petróglifos de Vila Meã, perto das Pedras Salgadas, limites de pastagens postos pelos antepassados. Ver artigo «Porco» a propósito da transmutação dos gados, p. 547.

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bispal, de Malta, dos Templários, de Avis, de Cristo, de São Jorge, do Santo Sepulcro, de Santo André, de Calatrava, de Alcaravaca, de Lorena, etc., etc. – não admirará que o povo, acostumado a vê-las como símbolos demarcantes nas marras das ordens religiosas, tão ricas por toda a parte (1597), derive delas algumas das suas, aproximando-as, na factura e arranjo, das cruzes estilizadas da figura humana lembradas pelos arqueólogos, máxime ligando ele tanta virtude a algumas dessas cruzes contra malefícios e febres malignas. 6° – As covinhas (fossetes), ainda inexplicáveis para os arqueólogos, quer elas sós, quer a par das cruzes, aparecem nos rochedos divisórios de termos a indicar sinal de posse, devendo, portanto, entender-se que esta é uma das razões porque foram insculpidas. Ora, como o marco divisório de termos teve carácter sagrado desde a mais remota antiguidade, pode dimanar daqui a ligação das covinhas à simbologia religiosa e culto litolátrico (1598). 7° – As covinhas (fossetes), gravadas nos fragueiros e monólitos como título de posse e demarcação, devem relacionar-se com as pocinhas que o povo abre em volta das marras ainda hoje com idênticos fins, semelhando-se-lhes mesmo na configuração, guardadas, é claro, as devidas proporções. 8° – Como as covinhas (fossetes) insculpidas nas marras demarcantes de termos têm o nome de escalões (ver atrás Pena do Mocho) e este é o primeiro documento conhecido no mundo arqueológico (?) que dá tal novidade, seria justo ficarem por ele mencionadas para o futuro, banindo aqueles. Nem obsta o encontrarem-se na marra da Penica da Roca (ver atrás a sua descrição) «cruzes e senhas», devendo incluir-se nestas últimas a covinha ainda lá bem patente, porque senhas pode indicar outros sinais já desaparecidos – ferraduras, pés, letras, etc. – como é provável, dada a friavilidade da rocha, e, quanto a escalões, não há dúvida nenhuma. 9° – Se aparecem em alguns marcos de termos, segundo fica dito no documento XVII dos Portugaliae Monumenta Historica atrás citado símbolos iconográficos – caraterem Sancti Vincentii – ou seja o corvo, a nau, a grelha (1599); palavras que indicam termos ou nomes de possuidores, não

(1597) Ver artigo Frades, p. 440 e seg. (1598) Ver O Arqueólogo Português, vol. 3, p. 171, onde se apontam alguns factos históricos, praticados por diversos povos, relacionados com o culto da pedra, além de muitos outros que mencionamos nesta obra. Sobre o formato das diversas cruzes, ver VITERBO – Elucidário, artigo «Cruzes»; LACERDA, Aarão de – O fenómeno religioso, 1924; O Arqueólogo Português, vol. 14, p. 35; ALEMANY Y BALUFER, José – Dicionário Enciclopédico, 1931, artigo «Cruz». (1599) É notável a semelhança que alguns sinais das insculturas rupestres têm com a grelha.

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serão os caracteres alfabetiformes, as letras ibéricas e ainda medievais, que vemos em muitos deles, a sigla individual dos que aí as fixaram, máxime havendo tantas idênticas às dos canteiros incisas nas pedras dos edifícios românicos e góticos (1600); às das marcas de oleiro aparecidas na cerâmica; às dos ferros de marcar os gados ovinos, caprinos, bovinos e cavalares, ainda hoje tão usadas na Península Ibérica e até mesmo aqui em Trás-os-Montes para o armentio ovino (1601) e às dos sinais com que alguns louvados e testemunhas, que não sabiam escrever, autenticavam a sua individualidade em documentos públicos, como vemos adiante no Tombo dos bens da comenda de Algoso feito em 1707-1708 e noutros? Se no papel, em documento público, marcavam assim, por sigla própria e característica, feita com certo cuidado artístico, a sua personalidade, por que não fariam o mesmo na marra divisória dos termos, que também é documento público, o juiz, o mordomo, o homem-bom, a suprema autoridade, o regedor ou cabo de polícia, como hoje dizemos, da povoação, da tribo, do medianedo, havendo, aliás, tanta semelhança entre os sinais glípticos e cartográficos? Aos ferros de assinalar os gados chamam aqui em Baçal marcas. Constam de um ferro com uma sigla incisa, aquecida ao rubro e aplicada na testa do animal. Cada família tem a sua marca característica, diferente da de todos os outros vizinhos, para distinguir as suas rezes. Raramente se usa na marca a inicial do nome ou apelido do proprietário, mas sim a sigla própria da família. Salta aos olhos a analogia destas marcas com as siglas dos canteiros, louvados e testemunhas nos monumentos arquitectónicos e cartográficos, de que adiante damos alguns fac-símiles, e da mesma forma com os gravados das insculturas rupestres. As marcas já raramente se aplicam; vão caindo em desuso, substituídas por incisões nas orelhas dos animais feitas à tesoura, por serem de mais rápida execução e menos perigosas. Custa a compreender que em tão pequeno espaço como o das orelhas se possam fazer sinais diferentes, para se distinguir os rebanhos de cinquenta

(1600) Confrontar com as siglas dadas pelo Portugal – Dicionário Histórico, artigo «Maçonaria», onde se encontra grande abundância delas; VASCONCELOS, José Leite de – Memórias de Mondim da Beira, 1933, p. 86 e 145. Nas p. 108 e 110 damos siglas em forma de ferradura, existentes na igreja de Algosinho. Adiante, no artigo Siglas, também se encontram outras. (1601) Em A Voz de 5 de Abril de 1828 publicou Ludovico de Menezes um artigo acompanhado de estampas a propósito do opúsculo de Rui de Andrade, em que este mostra a semelhança existente entre os ferros de marcar os gados e as insculturas rupestres. Realmente a analogia é flagrante. Sobre o assunto, ver: FERREIRA, Vitória – Ferros de marcar, 1887; LEMOS, Chaves de – O cavalo, 1903; OLIVEIRA, Costa – Raças cavalares da península, 1905, onde se encontram muitos desenhos de marcas.

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ou mais vizinhos de cada povo; mas assim é. Um ou mais golpes pelo lado de trás ou diante da orelha direita ou esquerda, rectos, oblíquos para baixo ou para cima; um ou mais orifícios nas mesmas, dispostos em triângulo, quadrado, losango, quincôncio, arco, círculo, com ou sem ponto central, linha horizontal, vertical, ondulada, etc.; a ponta das orelhas cortada rachada; as combinações que com estes sinais se podem fazer dão marcas bastantes para evitar confusões. 10° – Os sinais em forma de ferradura, tão abundantes nas insculturas rupestres de Trás-os-Montes e Beira, não serão a letra ibérica desta configuração (ver no alfabeto atrás, p. 561, as correspondentes a z e x), que, por razões especiais, à maneira das achas e machados líticos, passou à categoria de talismã mágico, com virtudes cabalísticas, abracadabracas, contra os maus espíritos perseguidores do povo, da tribo? Os Escritos, tão usados outrora pela Igreja, e ainda hoje de incontestável voga popular; as letras efésias de virtude mágica (1602); o alfa e o ómega dos escribas medievos no princípio dos documentos, não justificarão, por analogia, o símbolo ferraduriforme, sendo que ainda hoje o nosso povo liga grande virtude mágica à ferradura (1603)? Favorece esta conjectura a circunstância de serem as cruzes e as ferraduras os sinais que mais abundam nas insculturas rupestres. Daqui a verosímil hipótese de se poder tomar como sinal simbólico a par da cruz, da suástica, do sino-saimão e outros. No alfabeto ibérico, atrás transcrito, encontra-se uma letra adjudicada por Merino ao nosso A, a qual tem a meio do ângulo um ponto ou traço, que pode relacionar-se com os sinais em forma de ferradura com ponto central; nem lhe obsta o formato linear, pois é bem conhecida a transição deste processo glíptico para o curvo, e na Idade Média usou-se um A em forma de ferradura (1604), a tal ferradura inglesa de que adiante falamos no artigo Seixo de Ansiães. (1602) Ver p. 371 e seg. (1603) Ver p. 370. A ferradura do pé esquerdo da mula (outros atribuem a mesma virtude à dos equídeos e asininos, achadas ou não por acaso), encontrada por acaso e pregada na porta da loja dos porcos, dos bois, do tear da tecedeira, da casa de habitação, etc., protege-as contra todos os malefícios, no entender da crença popular bragançana, que muito a emprega com esse fim. Alguns não fazem distinção quanto à pata do animal nem à sua qualidade de muar, asinino ou cavalar, nem ao encontro por acaso ou à sua colocação na parte interna ou externa das portas. (1604) MUÑOZ Y RIVERO – Manual de Paleografia Diplomática, 1917, p. 47; MERINO, Andrés – Escuela de leer letras cursivas antiguas, 1780, p. 426. Ver neste tomo p. 108, onde damos uma inscultura rupestre de Algosinho em forma de A medieval. No códice do Beato Silense, escrito no século XI, os A A têm a forma de ferradura com traço vertical ao meio, no tipo de algumas que aparecem nas nossas insculturas rupestres. Ver o trecho fac-similado reproduzido por MILLARES CARLO, Augustin – Paleografía Española, vol. 2, p. 16. De resto, os A A visigóticos todos tendem para este fim.

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Como o povo ainda hoje, segundo fica dito, chama alfar às operações inerentes ao acto de ir examinar as marras, não se traduziria graficamente por um alfa e por ómega esse serviço, sendo que a ferradura com traço central, como adiante vemos no artigo Cerdedo, muito se aproxima desta última letra e nas marras é que começa e acaba o termo das povoações? 11° – Também pode supor-se que as ferraduras, como o povo lhes chama, da fraga de Belver e da de Travanca (Macedo de Cavaleiros) adiante apontadas, constantes de arcos, semicírculos, semicírculos de lados prolongados paralelamente, círculos e círculos de lados achatados tendendo para cilindros; as ferraduras com a abertura para baixo, para cima, para a esquerda ou para a direita, tudo com ou sem ponto central, correspondem a um alfabeto de dez letras, pois tantas são as variantes de posição e formato em que se apresentam. Um alfabeto por este teor aproxima-se no fundo técnico do cuneiforme e não deixa de ser já relativamente perfeito, se atendermos a que o alfabeto grego, como lho transmitiram os pelasgos, tinha apenas treze letras (1605), introduzindo-lhe depois eles as outras. Caso similar se deu com os demais alfabetos; além de que, bem podiam existir outros sinais e faltarem na glíptica, onde, de resto, estão, com relativa frequência aparecendo símbolos novos, por o lapicida não precisar deles para exprimir o seu pensamento. Ora, como na Fraga das Ferraduras de Belver há sete letras de tipo ibérico e na de Travanca (Macedo de Cavaleiros) seis (1606), associadas aos sinais ferraduriformes, podem dar um alfabeto de dezasseis ou dezassete letras, que pouco a pouco se vem constituindo pela cooperação de todos os povos e não apenas pelos fenícios, como se tem pensado.

Figura 1

Indo de Macedo de Cavaleiros para Vale de Prados encontra-se à beira do caminho uma marra de xisto (fig. 1) a

(1605) CANTU, César – História Universal, tradução de Bernardes Branco, 1875, vol. 1, p. 447. (1606) Vai adiante o respectivo gráfico.

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dividir o termo das duas vilas, que tem gravados os sinais constantes do gráfico acima. São muito importantes estes sinais para confirmar o já dito referente às marras do Vimioso, pois mostram que nos tempos históricos se usaram, como marcas divisórias de termos, covinhas, ferraduras e outros símbolos já existentes nos tempos pré-históricos, e ainda porque dão a razão de ser das chamadas Fragas das Ferraduras. Adiante, no artigo Sacoias, falamos de pequenas covinhas, como a desta marra e outras das insculturas rupestres incisas em cossoiros. O Doutor José Leite de Vasconcelos (1607) dá a gravura das insculturas num rochedo do termo de Senhorim (Beira Alta), onde aparecem cruzes associadas a covinhas e outros sinais. No sítio da Lameirinha, a dividir os termos de Grijó de Vale Benfeito e Vale Benfeito, há uma marra de cantaria com 1,30m de altura, que tem gravados na face voltada para Vale Benfeito os sinais da fig. 1. Ainda a dividir o termo das duas povoações há Figura 1 Figura 2 outro marco de cantaria no sítio do Cheilinho, com 1,40m de altura, que tem no lado voltado a Grijó de Vale Benfeito os gravados da fig. 1 e no voltado a Vale Benfeito os sinais da fig. 2.

Figura 1

Figura 2

Um quilómetro a sul da povoação de Aveleda, concelho de Bragança, fica o sítio chamado Babão e também Igreja Velha, por lá ter havido uma (1607) VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, 1897, vol. 1, p. 364 e seg.

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capela, segundo diz a tradição e os vestígios mostram, que se arruinou (ver p. 119). No local da capela há, enterrada no solo, uma pedra de xisto de 1,55m de altura acima do terreno, cuja largura regula por 0,42m e a grossura por 0,20m. Do lado poente tem os sinais da fig. 1. A cruz central, fundamente gravada, regula por 0,30m de alura; a mais pequena é uma simples ranhura. As duas cavidades quadrangulares são mais fundas e talvez servissem para suporte de algum pau noutro destino primitivo da lápide. Do lado nascente ficam os sinais da fig. 2. A cruz maior regula pelo tamanho da correspondente no lado poente. As duas incisões verticais seriam traços para cruzes inacabadas ou representarão sinais cujo significado ignoramos e relacionar-se-ão com as duas cavidades quadrangulares do lado oposto, se bem que são mais estreitas e menos profundas? Nos livros intitulados Capítulos de Visita e Registo de Pastorais dos bispos de Bragança e Miranda, guardados nos Arquivos Paroquiais e muitos já no Museu Regional de Bragança, encontram-se determinações dos mesmos, em harmonia com as disposições canónicas, para ser levantada uma cruz no local onde houve alguma igreja ou capela caída em ruínas, sem ter restauração (1608). As cruzes de que vimos tratando devem ter esta origem, equivalendo a cruz gravada na pedra à de madeira. No sítio de Pitoso, na parte chamada Caborco de Pitoso, termo de Aveleda, concelho de Bragança, à direita do caminho que vai de Aveleda para Rabal, e coisa de dez metros desviada do caminho, fica a marra que divide os termos de Aveleda, Rabal e Baçal. É de xisto e, desde a superfície do solo onde está enterrada, tem de altura 1,5m e de largura 0,50m; a grossura é variável. Do lado voltado para Baçal e Rabal tem os sinais indicados no gráfico junto; do lado de Aveleda apenas uma cruz pelo teor da maior do lado oposto. Vindo de Sortes para Rebordãos, coisa de cinquenta metros do caminho e perto daquela

(1608) A 17 de Novembro de 1761 visitou a Igreja de Meixedo, concelho de Bragança, o cónego e Dr. António José da Rocha por mandado do bispo D. Aleixo de Miranda Henriques e, entre outras disposições, mandou colocar uma cruz nas ruínas na Capela de Santa Catarina, sítio do termo ainda hoje assim chamado por não se reedificar a mesma, como tudo consta dos Capítulos de visita da freguesia de Meixedo. Ver p. 513.

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povoação, há no meio de uma terra lavradia uma marra com a bem conhecida legenda [300]: CA BAR No topo da mesma tem uns gravados deste formato e disposição:

Indo de Macedo de Cavaleiros para Vale de Prados há outro marco de cantaria pertencente ao mesmo tipo do acima indicado, mas só se lhe vêem as letras da segunda linha. Há outro idêntico, mas com todas as letras, no termo de Serapicos, concelho de Bragança, perto do santuário da Senhora do Viso. Ver p. 127, onde apontamos mais. No Castro Corisco, termo de Montesinho, freguesia de França, há uma Pedra bulideira (é a sexta adiante mencionada no respectivo artigo) com muitas cruzes e sinais incisos, pelo teor da de Algosinho (ver p. 108), que dizem ser feitas pelos pastores para verem quanto crescem de um ano para o outro. Ver adiante o artigo Montesinho. No caminho que, pela crista do Cabeço, vai de Rebordainhos para Penha Mourisca encontram-se muitos marcos com cruzes, que nos disseram dividirem os termos de Soutelo da Penha Mourisca, Pereiros e Bousende. Na Fraga do Ramalho, também chamada Fraga da Demarcação, entre o termo de Mairos e o de Lama de Arcos, concelho de Chaves, há dois escudos gravados na rocha granítica: um, voltado a Portugal, com o escudo das quinas, e outro olhando para Espanha. Noutro rochedo junto ao antecedente há também dois escudos incisos. Um pouco mais acima ficam dois outeiros de forma acastelada, constantes de grandes blocos graníticos apinhados a esmo, semelhando castelo de seus trinta metros de altura, chamados Castelhanchos pelo povo. Quase no pináculo do mais alto fica o sinal divisório da raia entre Portugal e Espanha, constante de uma cruz como a de Malta (pelo teor desta encontram-se mais na Igreja paroquial de Vilarelhos, povoação espanhola confinante com Mairos) e mais duas cruzes de formato vulgar. Na base do outeiro dos Castelhanchos encontram-se gravados num bloco de granito os sinais da figura junta (p. 597). No sítio chamado Moinho de Babe, por aí haver um deste povo, há um fragueiro a dividir os termos de Sacoias do de Gimonde, que tem uma MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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cruz gravada de mais de palmo e meio, feita para indicar a marra divisória. Quando perguntei aos de Sacoias por que abriram ali a cruz e nas outras marras faziam apenas na terra, em volta delas, umas pocinhas redondas, muito lisinhas e bem feitas, de dois palmos de diâmetro, por um de fundura, pouco mais ou menos, quando vão alfar, responderam-me que só abriam cruzes quando o terreno era fragoso e não permitia a escavação das pocinhas ou não apresentavam condições de duração. Como nem todas as rochas se dão ao pico, resulta que as insculturas só aparecem, pelo geral, nas graníticas e xistosas. Muitos mais casos de marcação pelos sistemas indicados se podiam apontar, os documentos seguintes abundam no mesmo conceito. Ver p. 469. Algoso – Demarcação do seu termo. Começa o termo de Algoso «junto ao rio Maçãs, que divide do termo do lugar da Vinhó, lugar pertencente á dita Comenda [301] da parte da quem do dito rio ao fundo do Gralheiro adonde se acha um marco já antigo na terra que fes Afonso Luiz em baixo da Peneda Grande que está evidente sobre o Rio Maças e dahi cortando ladeira acima ao Norte está outro marquo que é na terra de Belchior Roiz já antiguo e se lhe fez hua cruz que fica para a parte do nasente e dali cortando ao Norte enclinado para a parte do nasente está outro marquo na terra Francisco Lopes aos sobreiros que tem um marquo velho ao nasente em uma fragua alta do dito marquo ficão duas cruzes na dita fragua exculpidas, uma já antigua e outra nova e dahi cortando ao nasente está outro marquo sobre o laguazinho da parte do poente donde se acha uma cruz exculpida na ponta de uma fragua que fica em o meio de toda a fragua a qual está por cima da terra de João de Macedo e fica outra cruz na parte do norte na mesma fragua e dahi cortando ao nassente enclinado ao norte está outro marquo por cima do Ervedal donde se achão umas pedras soltas em monte junto de uma fragua piquena que tem uma cruz da parte do poente outra mais piquena na quina da outra fragua junto desta direito ao alto junto dos quais fica uma pedra levantada e dahi cortando ao nassente está outro MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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marquo que devide o termo do lugar de Campo de Biboras do termo de Val de Algoso e desta vila [de Algoso] junto a uma pedra grande em que se acha uma cruz da parte do sul junto desta outra nova e fica este marquo entre outro marquo que cabe pera a parte do norte e outro para a parte do sul em que se acha um marquo que devide o termo da villa com o de Val de Algoso e dahi direito ao nassente enclinado ao norte está um marquo entre duas pedras de seixo levadiço sobre uma pedra e uma das pedras tem uma veia cortada como se nella quizerão fazer uma cruz e fica este marquo em uma terra de Francisco Sardinha de Val de Algoso e dahi cortando ao nassente a estrada de Campo de Biboras no meio do Cal está um marquo fronteiro a primeira fragua que se acha a mão direita indo para o dito lugar de Campo de Biboras desta vila» (1609). Acaba aqui a demarcação do termo da vila de Algoso. Choupim – Demarcação do seu termo. Demarcando o termo desta quinta, o qual confronta com o de Frechas, São Salvados e o rio, menciona «...Penedo do Redondo aonde esta hüa crus em um penedo pela parte do nassente que he divisão da dita quinta [de Choupim] e do termo de Frechas... e dahi passando Ribeiro Velho sobindo ao fito Dasparadão antes de cheguar a elle fiqua um marquo levantado junto de hüa fragua donde fiqua hua cruz» (1610). Fornos de Ledra – Demarcação do seu termo. Começa a demarcação «por onde chamão o Reguadeiro a asude dos Moinhos da Soutilha na volta do rio donde se parte o termo da Ervedosa e dali vai a Portela da Carvalha donde esta hum marquo que tem hua cruz na quabeça e di vai ao Lixo e corta ao lombo de Fonte Fria por junto da parede da cortinha dos herdeiros de Maria Diz que fiqua pera a parte do norte e sob pello lombo dereito ao

(1609) Tombo dos bens da comenda de Algoso, concelho do Vimioso hoje, feito pelo poder judicial a requerimento do comendador em 1684, fólio 32 v. Este Tombo é um fólio manuscrito encadernado, existente no Arquivo da Câmara Municipal do Vimioso, constante de 623 fólios. Faltam-lhe os 13 primeiros fólios e desde o 609 por diante estão muito danificados mais e mais à medida que se aproximam do fim, sendo os últimos ilegíveis. O bruto do encadernador cortou-lhe em muitos fólios a paginação. No dito Arquivo Municipal do Vimioso há outro Tombo da mesma comenda feito pelo poder judicial em 1707-1708. Consta de 383 fólios, igualmente cortados na paginação pelo estúpido encadernador. Também lhe faltam alguns fólios no princípio e no fim, mas está melhor conservado. Na demarcação dos termos, propriedades, igrejas, capelas e bens da comenda guiou-se pelo de 1684, transcrevendo muitas vezes as mesmas palavras. Neste de 1707-1708 a demarcação do termo de Algoso vem no fólio 47 v. Como estes códices carecem de paginação para maior facilidade da consulta pusemos-lhe a lápis preto no primeiro e a vermelho no segundo. (1610) Tombo dos bens da comenda de Algoso, feito em 1684, fólio 359.

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simo da vinha dos erdeiros de Fernão Annes e dali corre ao muro por sima da vinha de Pedro Fernandes que foi de Fernando Annes das Pias a dali vai a vinha dos herdeiros de Luiz Alves donde esta hum marquo sobre hua pedra e dali ao caminho da Ervedosa donde esta hum marquo com hua cruz e dali ao Ribeiro da Rapossa donde fiqua hum marquo e dali conta a Frixa a terra dos herdeiros de Domingos Rodrigues de Lama Longua donde fiqua hum marquo e dali loguo hum marquo com duas cruzes e dali vai ao cabecinho mais alto por baixo do Souto e dali vai ao quabeço da penha mais alta adonde estava hua cruz de pau e do quabeço do Souto vai ao quabeço mais baixo do Quabeço da Pinha donde fiqua hua cruz e hum marquo e dali corre pella terra de Antonio Lopes pello lombo asima e asima do cabeço mais alto da Pinha donde fiquão dous marquos e dali dese ao fundo do Prado Velloso que hoje he de Francisco Sarmento de Fornos e vai cortando direito a estrada rial donde se devide o termo de Fornos Lama Longa e Villa Nova e dali vai ao lombo da Lintisqueira adonde esta hum marquo e core dereito a cerdeiro da Laguoaça donde estão duas fontes dali cortando por hum canto da cortinha de Pedro Guomes depois de passar o Penedo de Miravelhas que fiqua atrás da cortinha e dali a quina do bacello de Pedro Guomes e dali auguas vertentes a Pedra Alta e dessa a asude de Tuella ao Penedo da Merla e dahi sobe pello rio asima ate asude de Reguodeiro donde principiou esta demarquação» (1611). Malta (concelho de Macedo de Cavaleiros) – Demarcação do seu termo. Começa a demarcação na estrada que vai de São Cristóvão (1612) para a «vila de Chassim aonde achou um marquo de cantaria com a commenda de Malta, que divide o termo deste lugar com o da villa de Chassim e dahi cortando auguas vertentes ao moinho caido que fora de Belchior Alves antes de chegar ao dito moinho defronte de uma peneda que está levantada firme em uma terra de Domingos Pires deste lugar está outro marquo de pedra meio levantado que se meteu na dita terra e dahi cortando para a parte do norte rodeira asima junto de umas fraguas em uma dellas está uma cruz aberta que serve de marquo no simo da terra de João Luiz deste luguar e dahi rodeira assima vai dar á estrada que vai deste luguar para os Olmos donde se acha um marquo de cantaria com abito de malta escolpido nelle junto de uma cortinha que he de Pedro Nunes e dahi rodeira assima para o norte enclinando para o poente vai dar ao caminho do Villar que está entre duas fraguas e dahi cortando direito lombo assima vai dar ao mais alto do monte donde chamão ao Serrado Maurel donde se acha um marquo de (1611) Ibidem, fólio 582 v. (1612) Neste tempo, ainda Malta tinha o nome de São Cristóvão, depois mudou-o para aquele. Ver p. 184.

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cantaria com a mesma comenda escolpida e neste marquo se devide o termo dos Olmos, Villar e Castelans do deste lugar e dahi se vai lombo assima para a parte do poente donde chamão a Fonte do Espinheiro donde está um marquo de lagem entre umas penhas e loguo cortando auguas vertentes lombo abaixo pelos Abertiais para a Boizinha se achou outro marquo de cantaria levantado com a mesma commenda escolpida e dahi cortando auguoas vertentes direito ao fragão que está onde chamão Riguo de Sinos e dahi lombo abaixo auguoas vertentes por sima do souto a terra de Dominguos Roiz deste luguar donde se acha uma cruz aberta em uma pedra mociça e dali cortando abaixo a Carreira de Chassim vem a dar a estrada deste lugar á da villa de Chassim adonde está um marquo onde se comessa a dita demarcação» (1613). Falando da demarcação do termo da Igreja de Malta, diz: «fora da dita igreja está hum caixão de pedra que por tradição se diz servia de deposito dos quadaveres dos commendadores que aqui falecião» (1614). Olmos – Demarcação do seu termo. Entre outras marras do termo, menciona: «...todo o rio de Azibro asima athe onde chamão Atofeiras athe o Penedo do Corvo que tem hua cruz e dahi direito ao caminho que vai de Val de Prados para este luguar dos Olmos e dahi direito mais asima onde chamão a Molher Morta donde se acha hum marquo com hua cruz de cantaria que devide este lugar com o de Castelans» (1615). Picote – Demarcação do termo. Começa na «ermida de Sam Paulo, Douro asima até a Faia Longua e dali vai as Malhadas de Nacral e dali a Pena do Marquo donde corta direito por baixo da Fonte da Quoquanha as Pessoras a pedra mais alta que fiqua nella hüa cruz posta ao naçente...» (1616). Romeu – Demarcação do seu termo. Começa à «portellinha de Val de Couco [Couço?] donde esta um marquo de cantaria com hüa cruz de Sam João [Malta (1617)] na estrada e dahi cortando asima a ermida de Nossa Senhora de Jerusalem ao Cabeço das Ovelhas fiqua outro marquo de cantaria com hüa cruz de Sam João [Malta] da saida da ermida oito varas e

(1613) Tombo dos bens da comenda de Algoso, feito em 1684 pelo poder judicial, já citado, fólio 244. No Tombo de 1707 a demarcação de São Cristóvão (Malta) está no fólio 136, mas nada acrescenta de novo. (1614) Ibidem, fólio 239. (1615) Ibidem, fólio 267. (1616) Ibidem, fólio 588. (1617) A Ordem de Malta chamou-se primitivamente Ordem de São João do Hospital de Jerusalém.

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outro mais abaixo de pedra tosqua desviado des varas os quoais marquos devidem o lemite deste luguar com o termo de Val de Couço cortando o cabeço abaixo das Ovelhas vai dar a muita de Pedro Alvares onde esta outro marquo de cantaria junto ao caminho com a mesma cruz e dahi cortando auguoas vertentes ao pontão Selva donde esta outro marquo com hüa cruz de Sam João e dahi lombo asima do Avezedo direito ao marquo que esta ao Marmeiral que devide o termo dos Cortiços e Vimieiro termo de Mirandella e dahi pela Estremadura a Portella do Romeu donde fiqua outro marquo antiguo com duas cruzes e loguo dali as Lages donde esta hum marquo em sima de hüa lagem com dois juizes e dahi cortando a Lameira que Terme [Treme?] que antiguamente chamavão Lameira da Erva dos Maltezes donde fiqua hum marquo e dahi direito a hüa terra que no Tombo Velho dis ser de Maria Femandes donde se acha hum marquo antiguo sobre hüa pedra e dahi cortando abaixo direito ao Moinho Caido de João Martins direito ao rio e dahi a terra a Portellinha das Colmeias donde fica hum marquo levantado de pedra tosqua e dahi cortando a terra de Guaspar Esteves direito ao Pinheiro donde se levantou outro marquo de pedra tosqua e dahi cortando a Portellinha de Val de Cousso donde principiou esta demarquação» (1618). S. Pedro Velho. Nas marras do termo de S. Pedro Velho, aponta duas marras cada uma com duas cruzes e são: «… e vai cortando por sima dos moinhos da Batuqua ao Lagiado e dahi corta a vinha de Antonio de Morais da villa de Vinhais fronteira a orta de João Gonçalves na qual vinha esta hua fragua com hua cruz e dahi corta as fraguas que estão na vinha de Francisco Fernandes espanhol de São Pedro Velho e vai direita ao Mairo entre os termos de Rebordello e Val de Fontes e Villar Douro e passa a Portella da Freixeda auguas vertentes para Val de Fontes e vai direito por esta parte do ribeiro donde esta hum marquo de seixo branquo e o ribeiro sai do prado de Val das Fontes e do seixo corre a Pedra Alta... e vai dereita ao Lombo Travesso pello simo do Lombo dereito ao Penedo de Mora donde esta hua cruz» (1619). Urrós – Demarcação do seu termo. «Comesa desdonde chamão ao Baceial junto ao rio Douro e core rio abaixo ao Castello de Oleiros e dahi vai rodeira asima ate as Penas de Luis Sanches e dali vai ao Péguão de Gemonde e corta por baixo da Cortinha do Marmeleiro que oje de Manoel Pires deste luguar por sima da Ribeira donde esta hum marquo com hua cruz e dahi vai as Penas da Siara e core ao piquão e quabeço do Chelrequo (1618) Tombo dos bens da comenda de Algoso, feito em 1648, fólio 368. (1619) Ibidem, fólio 278.

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donde esta hum marquo entre dous penedos nos quais esta uma cruz e dahi vai a Pena donde se fazem as cartas e escrituras donde esta hua cruz e dali vai a Pena Figueira e core a Pena do Vasso e dali corta ao Quabeço do Quaguadeiro, dahi toda a rodeira e estrada diguo em te a estrada de Brinhosinho toda a estrada e rodeira ate a estrada de Mourisquo» (1620). Nesta altura os louvados e Homens do Acordo de Urrós protestaram, alegando que a demarcação do seu termo com a Vila da Bemposta ia pela Pena da Gata. Nas marras do termo de Urrós encontram-se hoje os seguintes sinais, conforme o formato dado pelo gráfico [302]: Castelo de Oleiros ..........

Picão de Gimonde .........

Picão do Chelreco ..........

Barranca, caminho de Urrós para Bemposta

Pena do Vaso .................

Caminho de Urrós para Travanca ..................... Marra que divide o concelho do Mogadouro do de Miranda do Douro e o termo de Urrós do de Sendim. (1620) Ibidem, fólio 591.

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Outra marra também a dividir o termo de Urrós do de Sendim .....................................................................................

Outra marra distante coisa de cem metros da antecedente ....

Convém notar que estas insculturas se encontram tanto em rochedos como em monólitos móveis e que algumas delas são interpretadas pelos pré-historiadores, quer portugueses, quer estrangeiros, como estilizações da figura humana (Revue Archéologique, 1929, p. 122). Ao sítio conhecido pelo nome de Quagadeiro chamam hoje Cabeço do Mau Nome, segundo nos informa o velho amigo João do Nascimento Pires. Em Benlhevai, a dividir o termo desta povoação do de Vale Frechoso, concelho de Vila Flor, há uma marra de 1,33m de altura, por 0,34m de largura e 0,27m de grossura, que tem insculpido o seguinte letreiro, cuja cópia devemos a D. Amélia de Almeida Morais, professora daquela povoação: SMB Vale de Asnes – Confrontações do termo. Começa por «sima das vinhas das Baboreiras junto ao sitio donde estavão huns moinhos de Maria Rodrigues donde esta hum marquo e parte com termo de Sedainhos que he de Mirandella e loguo cortando lombo asima vai ter a Portella da Forqua e dahi a vista das Vinhas do Frichoso corta para a portella a vista do muro da Escorregadeira donde fiqua hum marquo que parte com o termo de Sedainhos e dahi cortando a vista do termo da Salgueira donde esta hüa fragua asima della e dahi cortando vai ao Val da Sinada junto a terra de Guaspar Choia e de Pedro de Crasto donde fiqua outro marquo e dahi cortando a vista da Froia lombo asima vai ter ao simo de Val de Carvalhal auguas vertentes donde esta outro marquo e parte com o termo de Sedois de Mirandella e Cortiços e dahi cortando pello pé do lombo do simo de Val de Sinada augoas vertentes para o Val de Carvalhal e dahi cortando para o lombo de Val Medo e comfronta com o termo da Vila dos Cortiços e Semadella e pella pedreira todo o lombo asima até o Cabeço Gordo e dahi toda a Veia asima que parte com o dito termo dos Cortiços e vai dar no marquo que esta na estrada indo para Bornes aonde esta hum marquo de canto com a crus de São João [Malta] donde se devide o caminho por baixo do cabeço do Masuqualvo e parte com o termo de Bornes de Barguança e MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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PRÉ-HISTÓRIA

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dahi vai dar na fragua de Fernam Martins de Bornes e antre isto esta hum marquo adonde chamão a Orreta da Colmeia e pela fronte da dita fragua vai dar ao simo da Orreta do Freixo donde esta feita hüa cruz no penedo e do simo da Fonte da Pedra junto ao Forno da Sorte que no Tombo antiguo diz Forno de Lampassas e dahi atervessando junto a pedra e cham da Taveira de Bornez e dahi por sima donde chamão a Mossa Morta e dahi direito donde chamão ao Muro do abade por meio Bixieiro do Rebentão direito a Penada do Saquo que o Tombo velho dis Suquo donde esta hüa cruz e os mesmos mrs. [moradores?] de Caravellas asim comfrontarão tudo e isto comfronta tudo com o termo de Caravellas e de Mirandella e dahi a Portella a vista das casas do Mouque e dahi vai dar no marquo de sima no simo das vinhas de Boborida donde se comessou esta demarquação» (1621). Vale Certo – Demarcação do seu termo. Começa «onde chamão ao Posso do Arguarial no rio de Emgueira e dahi vai direito aos olmos que chamão ao Cortinheiro e dahi vem a Eira que chamão Dianção donde esta huma crux em huas penedas e dahi vai direito a hua peneda piquena no Cabeço dos Servos e dahi cortando aos penedos de Ramos e Costa pella emcruzilhada pella portella das Carriças donde esta hum marquo e corre pella rodeira de Forno Telheiro e Fonte do Nazo donde esta outro marquo com duas cruzes e dahi corta ao Cabeço de Domingos Romão adonde esta hum marquo no mesmo caminho que devide os termos e dahi corre aos Olmos do Cabeço de Domingos Romão e dahi corre lombo abaixo aos tres sobreiros que ficão auguas vertentes ao poente de Val Certo e dahi corre ao Cabecinho de João Ferreiro lombo abaixo e sobe outra vez ao dito Cabeço de João Ferreiro e dahi vai a ladeira do Orffo lombo abaixo direito ao fundo do ribeiro da Pallameda e dahi corre lombo asima direito ao simo da passar de Ingeira e dahi lombo abaixo direito a malhada das Vaquas donde esteve hum cazalinho donde se devide o termo da villa de Algoso e o deste lugar e o da Saldanha» (1622). Além das cruzes existentes nas marras divisórias dos termos das povoações atrás indicadas, o juiz do Tombo de 1684 nunca se esquece, no final dos autos respeitantes à medição e confrontação das propriedades da comenda nas diversas povoações, de mandar pôr marcos com cruzes onde faltavam, e, como se mediam e confrontavam também as igrejas e bens adjuntos nas aldeias pertencentes à comenda, segue-se que até dentro das povoações havia marcos com esses distintivos. (1621) Ibidem, fólio 352. (1622) Ibidem, fólio 80 v.

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No Aditamento que poremos no final deste livro, artigo Frades, daremos a lista das povoações onde a comenda de Algoso tinha bens, indicando ao mesmo tempo aqueles de cujos termos se marcam as confrontações. No Tombo dos bens do cabido da Sé de Miranda feito em 1691 encontram-se as demarcações dos termos das seguintes povoações pela ordem que vão indicadas: Nunes, Malhadas, Póvoa, Sanceriz, Frieira, Calvelhe, Vila Franca, Lamas de Podence, Vale de Prados de Macedo, Arufe, Viduedo, Sarzeda, Paradinha Nova, Alfaião, Samil, Castro de Avelãs, Gostei, Nogueira, Fermil, Vila Nova (Bragança), Labiados, Milhão, Vale de Prados de Milhão, Refega, Rio Frio de Outeiro, Veigas, Paçó de Outeiro, Pinelo, Vale de Pena, Paradinha de Outeiro, Outeiro, Argozelo, Carção, Santulhão, Ervedosa, Penas Juntas, Valongo de Espadanedo, Celas e Negreda. Nestas demarcações são frequentes as referências a cruzes antigas existentes nas fragas que servem de marras e a cruzes que se mandam abrir de novo para o mesmo fim. Ainda no mesmo Museu Regional de Bragança se conserva o Livro do tombo dos prazos da Exma. Mitra deste bispado de Miranda feito em 1760, que também traz as demarcações dos termos de algumas povoações, e, por exemplo, falando do de Quintas, concelho de Mirandela, diz: Começa o seu termo «onde se devide o termo de Val de Martinho com que vai confrontando the a ermida do Espirito Santo donde vai direito ao sitio dos Cazaroens, em que algum tempo houve casas... e dahi ao Cabeço de Val dos Moinhos onde esta hua fraga com hum signal que divide os termos e dahi vem a Azenha de Antonio Xavier Doutel do lugar de Cabanellas, onde esta outro signal que tambem devide os termos deste lugar [de Quintas], do termo da Torre [de Dona Chama]...». Dizem-me que na marra do Couço, que divide os termos de Soeira e Gondesende, há cruzes e outros sinais. No Tombo dos bens da comenda de Algoso feito em 1707-1708, existente no Arquivo da Câmara Municipal do Vimioso (1623), aparecem testemunhas e louvados que, por não saberem escrever, confirmam de cruz simples, sem mais

(1623) Vai atrás a sua descrição bibliográfica.

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arranjo do que um traço vertical cortado por outro transversal feitos ao calhar da pena, como saía; alguns, porém, mais artistas e com preocupação de vincar a sua personalidade por sigla individual característica, dão-lhe os formatos que se vêem no gráfico da p. 605. Estão no citado códice, respectivamente nos fólios 74 v., 108 v., 116 v., 202, 209, 225 v., 319, 346, 353 e 354 v. A haste vertical do sétimo sinal da figura I é relativamente grossa; conhece-se que foi ajeitada propositadamente, como querendo imitar o tronco de uma árvore, e encontra-se repetido sempre do mesmo formato, sinal de que o louvado o usava como sigla individual. Encontra-se no fólio 123 e seguintes, sempre do mesmo feitio, usado pelo mesmo louvado.

Encontra-se no fólio 98 v. e seguintes como sinal do louvado Diogo Sardinha. Encontra-se no fólio 274 v. e seguintes, como sinal do louvado António Francisco Caseiro (?). A repetição do sinal mostra que o usava como símbolo pessoal.

Encontra-se no fólio 354 v. e seguintes, como sinal do louvado Brás Lopes, de onde se vê que o usava como sigla pessoal representativa do seu nome. Também no Tombo dos bens do Mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501, manuscrito em pergaminho existente no A r q u i v o Distrital do Museu de Bragança, aparecem louvados e testemunhas que assinam com estas siglas nos fólios 26, 27, 47, 80, 90, 92 e 119. É bem patente a semelhança de algumas destas siglas com as insculturas rupestres, e, por este teor, mais se podiam apresentar vasculhando os arquivos. Convém notar a sigla em forma de pegadas e as mais ou menos MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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quadrangulares xadrezadas, por aparecerem outras pelo mesmo teor nas insculturas rupestres adiante apontadas.

ALGUNS SINAIS DOS TABELIÃES

Numa escritura do ano de 909.

Numa escritura do ano de 914.

>

Idem, idem.

Numa escritura do ano de 942.

Encontram-se na p. 124 da Escuela de leer letras antiguas, do Padre Andres Merino, 1780.

)

)

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)

Numa escritura do ano de 1416, p. 217.

Numa escritura do ano de 1418, p. 219.

>

Numa escritura do ano de 1534, p. 269.

Numa escritura do ano de 1603, p. 336.

Encontram-se no Manual de Paleografia Diplomatica Española, por D. Jesus Muñoz y Rivero, 1917.

Numa escritura do ano de 1393, p. 205.

Numa escritura do ano de 1603, p. 338. )

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PRÉ-HISTÓRIA

609 TOMO IX

Num documento de 1619, p. 348.

Num documento de 1623, p. 351.

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Num documento de 1631, p. 364.

Num documento de 1504, p. 254.

Encontram-se no Manual de Paleografia Diplomatica Española, por D. Jesus Muñoz y Rivero, 1917.

)

)

É desnecessário salientar a semelhança que alguns destes sinais marcantes de individualidades públicas, inclusive os de forma de sapato ou pé humano, apresentam com as insculturas rupestres, onde também há pegadas, quais as de Ifanes, Póvoa, Paradinha e Travanca, adiante apontadas. Quanto aos que têm por tema básico a figura quadrangular xadrezada, quer ela só, quer ligada por traço em forma de grelha ou colher, quer ladeada por semi-esferas ou tracinhos horizontais, que dela arrancam, alteando-se a modo de escada, embora a semelhança não seja tão completa, se bem que pode ainda aparecer, nota-se contudo a mesma concepção fundamental nos quadradinhos [303]. No Museu Regional de Bragança há uma importante colecção de rocas, canhões (1624) e flautas, de fabrico popular, em geral obra de pastores, com

(1624) Utensílio de madeira usado para fazer meia até há poucos anos; agora já se não emprega.

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muitos ornatos incisos a ponta de faca, em que se notam: sino-saimão simples e dobrado, corações, cavaleiros, cruzes de diversos feitios, placas sobrepostas pelo teor das do estilo românico, superfícies cortadas por linhas oblíquas cruzadas, formando losangos pelo tipo da cerâmica neolítica, xadrezados inscritos em triângulos e quadrados, assemelhando-se tipologicamente aos do Cachão da Rapa no termo de Linhares (Carrazeda de Ansiães), losangos e ângulos em série, vasos de flores, ornatos floriformes, zig-zagues, figuras humanas masculinas e femininas, ostentando nitidamente a marcação sexual, outras em atitude de dança, bestiária (aves, quadrúpedes alados, lagartos, etc.). Toda esta manifestação popular do actual artista bragançano, na cerâmica sucede o mesmo, relaciona-se com a pré-histórica, porque o homem é sempre o mesmo nas suas concepções simplistas e no modo de as executar, chegando aos mesmos temas pela actividade da própria mentalidade sem plagiar os antepassados [304]. Não vimos todos os rochedos adiante apontados, onde se diz que existem gravados sinais em forma de ferradura; todavia, pela descrição facilmente se dá conta dos que examinámos. É possível que o povo se confunda, tomando por sinais de ferraduras, estrelas, cavalos, mulas, etc., alguns que são naturais, devidos à erosão do tempo; mas é incontestável que muitos deles são obra intencional do homem, como os das Aguieiras, Baçal, Belver, etc., adiante mencionados. «As pegadas figuram frequentemente na Arqueologia, tanto cristã como pagã, tanto de Portugal, como de fora [305]. Sem ascender aos tempos pré-históricos (Cf. Religiões da Lusitânia, vol. 1, p. 381), basta lembrar que elas figuram em monumentos votivos romanos, para que os respectivos dedicantes, em ocasião de viagem, obtenham boa ida e boa volta (Cf. Boletim Archéologique, 1916, p. 31); figuram do mesmo modo nas sepulturas dos primeiros cristãos, talvez por imitação dos costumes precedentes (vide MARTIGNY, Dictionnaire des antiquités chrétiennes, Paris, 1865» (1625). O jesuíta Manuel da Nóbrega, nas cartas terceira e quinta, escritas em 1549 do Brasil (1626), diz que aí viu distintamente pegadas insculpidas em rochas, «mui sinaladas e distintas com seus dedos... e que algumas são ás vezes cobertas pela agua do rio quando cresce». Os naturais da terra dizem que são as pegadas de S. Tomé, quando, evangelizando no país, fugiu a seus perseguidores, que tentavam fechá-lo [306].

(1625) VASCONCELOS, J. Leite de – O Arqueólogo Português, vol. 22, p. 14. (1626) VASCONCELOS, Simão de – Crónica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, 2a edição, 1865, onde as cartas vêm transcritas.

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Aguieiras. Na quinta de Prado do Freixo, freguesia das Aguieiras, concelho de Mirandela, no sítio chamado Fragão, há um grande rochedo de granito, na direcção nordeste-sudeste, cuja altura regula por quatro metros e dois de largura, composto das figuras 1 e 2, estando aquela colocada em cima desta. A fraga esférica (fig. 1), que pelo colar assenta sobre a fig. 2, tem quatro covinhas na disposição indicada pelo gráfico. As covinhas da fig. 2 estão na disposição e grandeza proporcional dada pelo desenho. O círculo mais pequeno no centro de algumas indica que são Aguieiras – Figura 1 mais fundas. Algumas delas apresentam uma espécie de rego, que as liga umas às outras, segundo indica a gravura. São conhecidos em Portugal e no estrangeiro vários monumentos deste género (1627). O povo chama letras às insculturas do Fragão, do qual fica perto o sítio chamado Castrijão, onde ainda se vêem ruínas de fortificações e fossos. Aldeia Nova. Perto da capela de São João, no termo de Aldeia Nova, concelho de Miranda do Douro, há gravada numa fraga a pegada de Nossa Senhora. No local aparecem ainda vestígios de casas, cerâmica, etc., e têm-se encontrado várias lápides votivas romanas, de que tratamos no artigo Aldeia Nova. Cardoso (1628) diz que no sítio do termo deste povo, chamado Castelo, há uma mula gravada numa fraga.

(1627) Ver O Arqueólogo Português, vol. 3 (1897), p. 170, onde se dá notícia de alguns, bem como de lendas e práticas supersticiosas tocantes aos mesmos. VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, vol. 1, p. 359, 385 e 386, onde se encontram desenhos de rochedos insculturados em covinhas. (1628) CARDOSO – Dicionário Geográfico, artigo «Aldeia Nova».

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A lenda referente à pegada de Nossa Senhora gravada na fraga vai-se modificando, pois já alguns dizem que é de um castelhano ao ver-se obrigado a retroceder na invasão e saque de Aldeia Nova em consequência do voto feito pelos moradores às Almas do Purgatório nas guerras de 1710. Ver tomo IV, p. 137, destas Memórias, onde se trata do assunto.

Aguieiras – Figura 2

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Algosinho. Sobre a Pedra balouçada, sita no termo de Algosinho, concelho do Mogadouro, que tem insculturas semelhando algumas cruzes ver o artigo Algosinho, p. 108. Assares. Na Cova da Moura, sítio do termo de Assares, concelho de Vila Flor, há «uma rocha com alguns sinais do mesmo tipo e factura da Pedra Escrita de Ride Vides, mas em que há a destacar dois novos sinais, e que são certamente, ou pelo menos se podem considerar, como símbolos solares» (1629). Estes novos sinais são estrelas de dez raios. Ver Pinheiro Novo, Ride Vides e Sendim. Babe. No termo de Babe, concelho de Bragança, à direita e junto ao caminho que do Ribeiro de Pereira sobe para a povoação, um pouco abaixo de uma fila de castanheiros que ficam à mão direita do mesmo caminho, há incisa numa fraga de xisto uma ferradura grande, como de cavalo, muito nítida. Falta-lhe a patine própria dos séculos, devido talvez a ser martelada em período não distante, no intuito de a aclararem. Aclaramentos desta natureza notam-se bem evidentes nas cruzes de outras esculturas. Baçal. As gravuras da página seguinte encontram-se em Baçal, insculpidas numa laje de xisto ardosiado, que está a tapar a Fonte do Pácio, em frente da minha casa de habitação. Tem de altura 2,20m, de largura 2,12m e de espessura 0,11m. Algumas são circulares, outras elipsóides e a disposição segue conforme indica o gráfico. Carballo (1630) reproduz os desenhos de muitas dessas gravuras encontradas em rochedos das províncias de Galiza, Santander, Astúrias e outras existentes em França, já sós, como aqui nas Aguieiras e em Espinhosela, já acompanhadas de cruzes e outros símbolos estilizados. Convém notar que no termo de Baçal não aparecem rochas ardosiadas e as mais próximas estão no de Sacoias, quatro quilómetros distantes. Perto da Fonte do Pácio aparecem machadinhos de fribolite (?) neolíticos. Belver. A Fraga das Ferraduras (assim chamada pelo povo) de Belver, concelho de Carrazeda de Ansiães, fica à beira do caminho, entre o termo desta vila e o daquele povo, quase rasa com a superfície da terra, no

(1629) De uma Carta do Dr. Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior, datada de 3 de Outubro de 1932, em resposta às informações que lhe pedi sobre as insculturas de Moncorvo (quinta da Aveleira). (1630) CARBALLO, J. – Pre-historia universal y especial de España, 1924, p. 334 a 361.

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sítio chamado Valongo e também Pias. Está cheia de sinais em forma de arco, círculo e cruz, acompanhados de outros alfabetiformes de tipo ibérico, como mostra o gráfico da página seguinte. Insculturas semelhantes a estas de Belver, a não ser as ferraduras, encontram-se na Eira dos Mouros, em Galiza (Espanha), segundo vemos em Carballo (1631). A propósito do significado destas ferraduras, ver o que fica dito atrás e, adiante, o artigo Paradinha Nova.

Insculturas de Baçal

(1631) Ibidem, p. 318, onde vem a respectiva gravura. A glíptica ferraduriforme abunda nas províncias de Trás-os-Montes e Beira. Ver SANTOS JÚNIOR, Joaquim Rodrigues dos – Gravuras rupestres de Linhares (a Fraga das Ferraduras), 1933, p. 4, em nota onde se apontam várias estações.

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Ao bom amigo Doutor Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior, da Universidade do Porto, agradecemos o desenho da Fraga das Ferraduras de Belver, que ilustra este artigo.

Fraga das Ferraduras de Belver

Bousende. Na cordilheira da Pena Mourisca, adiante descrita no artigo Antas a propósito da de Pereiros, na parte respeitante ao termo de Bousende, concelho de Macedo de Cavaleiros, junto à base da fraga do Berço, no bloco granítico esquerdo que guarnece a escada do Berço (1632), estão gravados uns sinais, letras lhe chamam os informadores de Cardoso (1633), de

(1632) Ver artigo Bousende, p. 124-125. (1633) Idem, p. 125.

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que Albino Lopo deu um gráfico (1634), em superfície perfeitamente lisa, como se fosse aparelhada, e à altura de três ou mais metros do solo. Visitei pela primeira vez estas insculturas a 24 de Setembro de 1930, em companhia dos amigos Padre António Bernardo Carriço, pároco de Soutelo Mourisco, e Padre Filinto Elísio Afonso, pároco de Rebordaínhos, mas em razão da grande altura e musgo nada pude verificar. Voltei lá segunda vez acompanhado do tenente João José Vaz de Morais de Abreu Sarmento munido de uma escada de cinco degraus, levada da próxima povoação de Rebordaínhos, mas não atingia a altura e o resultado foi o mesmo. Consegui depois um decalque tirado pelo meu amigo Luciano de Jesus Micael, negociante de cereais, morador na próxima povoação de Ferreira, mas não concorda inteiramente com o de Albino Lopo, obtido também em más condições, devido às dificuldades do local, como se vê do seu artigo (1635). Tanto quanto pude ver, as insculturas apresentam pequenas covinhas ligadas por traços e no conjunto pareceu-me divisar uma figura algo semelhante à que Obermaier apresenta (1636) como pertencente ao paleolítico superior. Ver adiante o artigo Freixiel. Igualmente se aproxima de outra dada por Carballo existente na província de Santander (Espanha), pertencente à mesma época, isto é, aos inícios da arte glíptica, cujas primeiras manifestações se reduzem a rasgos singelos ou pontuações, sobre as quais se passa depois a linha firme da ligação (1637). Talvez aqui e nas pegadas de Ifanes, adiante apontadas, encontremos traços desta primitividade. Noutro rochedo adjunto ao da escultura anterior e à mesma altura divisei nitidamente gravados os sinais

que são acentuadamente letras ibéricas (1638). Guarnecendo a parte direita que dá entrada para a escada do Berço, há outro bloco granítico, onde, à altura de um homem, se vê gravada a palavra LOPO, apelido do coronel Albino dos Santos Pereira Lopo, que aí o mandou insculpir quando da sua visita. Perto da fraga do Berço há muitos pedregulhos, evidentes escombros de fortiticações e casas. Um pouco abaixo apresenta a cordilheira enorme cortadura de, talvez, duzentos

(1634) LOPO, Albino, O Arqueólogo Português, vol. 8, p. 250. (1635) Ibidem, p. 258. (1636) OBERMAIER, H. – El Hombre Fósil, 1924, p. 255. (1637) CARBALLO, J. – Pre-historia universal..., p. 264. (1638) CARDIM, Luís – Caracteres rúnicos e caracteres ibéricos, 1929, p. 24.

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metros de largura por igual de comprimento, devida a exploração mineralógica, segundo informação dada ao pároco de Soutelo Mourisco por um engenheiro francês que ali andou em pesquisas antes da Grande Guerra (1914-1918), não as continuando depois por morrer nela. Bragança. No Cabeço da Cidade, também chamado Cabeço das Freiras, termo de Bragança, a seis quilómetros desta cidade, «sobre o Rio Sabor, e muito abaixo da ponte de Valbom, no caminho velho que vai para Miranda… vêem-se restos de um castro e sinais em forma de ferradura numa fraga» (1639). Cabeça Boa. No sítio chamado Pegada da Senhora, termo de Cabeça Boa, concelho de Bragança, há o sinal de um pé nitidamente insculpido numa fraga, distinguindo-se perfeitamente os dedos. Nessa fraga está cravada uma cruz e lá vai de ladainha o povo com o pároco em certo dia do ano, de onde vem ser conhecido o fragueiro pelo nome de Cruz da Pegada e ainda Cruz da Ladainha. Carvalho de Egas. À direita do caminho que de Carvalho de Egas vai para Vila Flor ficam os dois fragueiros de granito A e B, assentes sobre outro que aflora à superfície do terreno, e perto está o castanheiro ChocaNASCENTE

NORTE SUL

Cam inh o par a Vila Flo r POENTE

(1639) LOPO, Albino, O Arqueólogo Português, tomo VII, p. 15.

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leiro, ao qual o povo adscreve várias lendas de ladrões. Ao conjunto dos dois fragueiros dão na terra o nome de Penedo Macho, por lhe atribuirem tipo fálico. O penedo B terá uns dois metros e tal de altura; o outro é muito maior e raros são os que conseguem subir acima dele, de onde vem dizer uns que termina em cone e outros em forma um pouco achatada. Algo mais deveríamos dizer relativamente aos apêndices do Penedo Macho, mas o gráfico, adjunto à lembrança de estarmos em presença dos emblemas fálicos, dispensa mais largas anotações. Diz a lenda que no Penedo A está um encanto, e ainda outros que está cheio de oiro, de onde veio a ideia de o esfacelar a tiros de pólvora, sem nada conseguirem. Mais acrescenta ainda, que passando por ali um homem, viu um grande tendal de figos, e meteu dois no bolso e achou-os em casa convertidos em bolas de ouro. Ver o artigo Carvalho de Egas, p. 145. Junto à povoação de Águas Frias, concelho de Chaves, à beira da estrada a macadame, há um penedo muito semelhante na configuração ao Penedo Macho, só que conserva posição erecta e é muito mais alto. As raparigas vão lá lançar pedrinhas na persuasão de que tantos anos tardam em casar quantas as que atiram até ficar lá uma. A região flaviense é muito rica em monumentos arqueológicos e tradições etnográficas (1640), destacando-se várias lápides votivas e funerárias, que lá descobrimos durante os anos de 1890 a 1896, em que paroquiámos a freguesia de Mairos. Ultimamente apareceu lá a ara junta dedicada a Vénus, que diz: «Ara posta à Vénus Vencedorazinha por inspiração comunicada em sonho». Guarda-se no projectado Museu de Chaves. Falta-lhe o nome do dedicante e não restam indícios de ter sido escrito. É interessante porque, em vez de foculus, termina em frontão triangular com nicho como os monumentos cristãos para colocar um santo [307]. Também na povoação de Tamaguelos (Espanha), perto da raia de Chaves, vimos metida na parede de uma loja de porcos uma lápide funerária romana. No sítio chamado Cebolar, termo de Vilas Boas, concelho de Vila Flor, há duas fragas cilíndricas, que à distância parecem duas pessoas; o povo chama-lhe o Frade e a Freira. Também indo de Valtorno para Vila Flor, à beira do caminho, há dois penedos postos ao alto de configuração antropomórfica; o povo chama-lhe os mal-casados, porque parecem voltados de costas um para o outro. (1640) Ver a conferência que lá realizámos em 22 de Novembro de 1930, intitulada Chaves – Apontamentos arqueológicos, Porto, 1931.

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No alto da serra da Machuqueira, termos de Urros, concelho de Moncorvo, fica o penedo Redondo, assim chamado em razão da sua configuração, que se supõe ser monumento pré-histórico. Perto deste está a Fraga do Lapão, onde os pastores recolhem os gados à séstia no Verão, e dizem que tem capacidade para quatrocentos bois (1641). É possível que alguns dos monumentos mencionados sejam menires naturais. Carrazedo. No sítio chamado rio de Martim, à beira do caminho que vai de Carrazedo para Martim, concelho de Bragança, perto da estrada de macadame que segue para a Torre de Dona Chama, há numa fraga gravado um sinal em forma de ferradura. Alguém nos diz que este sinal é natural da rocha e não artificial. Carviçais. No termo de Carviçais, concelho de Moncorvo, há um sítio chamado Cabeço do Sarilho. Virá este nome de lá haver ou ter havido algum sarilho (cruz grega, estrela de quatro raios) insculpido na rocha? No distrito de Bragança há vários toponímicos com o nome de Sarilho. Ver o artigo Pinheiro Novo. Na Cigadonha, também termo de Carviçais, há insculturas rupestres. Ver o artigo Carviçais, p. 146 [308]. Cedães. No Facho, termo de Cedães, concelho de Mirandela, há gravada numa fraga a ferradura da burrinha de Nossa Senhora quando fugia para o Egipto. Cércio. No termo de Cércio, concelho de Miranda do Douro, há um sítio chamado Gravatos. Virá este toponímico de gravados, nome com que os espanhóis designam as insculturas rupestres e geralmente as gravuras dos livros? Cerdedo. No termo de Cerdedo, freguesia de Montouto, concelho de Vinhais, a um quilómetro do povo, junto ao caminho desta povoação para os Salgueiros, no planalto da serra, fica a Fraga das Ferraduras, cujas insculturas vão na p. seguinte, segundo um gráfico que nos mandou o amigo João Inácio Fernandes, natural de Baçal, destacado naquela região como guarda fiscal. Tem de altura 1,50m e 6 de comprimento. Está em posição inclinada. As insculturas variam na grandeza, tendo umas 0,90mx0,08m e outras 0,02mx0,3m; parece ascenderem a quarenta, faltando porém algumas no gráfico devido ao musgo da fraga e a estarem gastas. Também não garantimos o rigor da sua disposição. (1641) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Urros».

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Perto da Fraga das Ferraduras fica a enorme Fraga do Pingadeiro, debruçada sobre o Ribeiro Cabanelas, afluente do Rabaçal, à qual se refere a lenda da formosa Helena (1642), filha de rei cristão, raptada por um mouro disfarçado de peregrino, que fugiu levando-lhe um colar de pérolas, supondo-se perseguido. Ela refugia-se no fragueiro de noite, para escapar às feras, e com rede feita de tiras do manto e dos seus cabelos apanha peixes de dia para se alimentar. Quando alfim chegaram seus irmãos e pai, que diligentes a procuraram, e inquiriram do colar, apenas lhe apresentou algumas contas, caídas ao Insculturas de Cerdedo mouro na precipitação da fuga e encontradas no estômago das trutas pescadas. As outras diz o povo que ficaram no fundo do regato, sendo devido a elas o fino sabor das suas trutas. Coisa de um quilómetro da Fraga das Ferraduras fica o Castelo Seixão. Insculturas como estas, menos as ferraduras, encontram-se no rochedo da Eira dos Mouros (Galiza, Espanha), segundo vemos em Carballo (1643), e noutras localidades espanholas, mencionadas por Obermaier (1644), que por sua vez se relacionam com os cantos pintados de Mas d’Azil (1645), convindo notar os mais alfebetiformes e ramiformes. Mendes Correia (1646) dá a gravura de umas pinturas ramiformes pelo teor destas de Cerdedo, existentes no esteio de um dólmen na Serra de Cota (Beira Alta), e outras em que aparecem sinais cruciformes e ferraduras existentes em Outeiro Machado, cinco quilómetros a Sul de Chaves. Ver adiante no artigo Paradinha Nova a sua explicação.

(1642) MARTINS, Firmino A. – Folclore do concelho de Vinhais, p. 275. (1643) CARBALLO, J. – Pre-historia universal..., p. 318. (1644) OBERMAIER, H. – El Hombre Fósil, 1924, p. 268, 368 e 378. (1645) Ibidem, lâmina XXVI. (1646) CORREIA, Mendes – Os povos primitivos da Lusitânia, 1924, p. 184.

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Fraga da Ramada

Espinhosela. A Fraga da Ramada, assim lhe chama o povo, está no termo de Espinhosela, concelho de Bragança, dois quilómetros a nascente do povoado, numa pequena eminência, semelhando um cone truncado, de quatro metros de raio por meio de altura, plus minus, cercada por terrenos lavradios. É de xisto duro. Para o lado Norte, desviado dela coisa de três metros, há seis penedos estirados no chão, meio enterrados, que terão dois metros de comprimento e um de largura. São monólitos soltos e não rochas firmes. O monólito das covinhas apresenta configuração quadrangular, se bem que sensivelmente arredondada no lado Norte, tendo por cada lado coisa de 2,50m. A superfície voltada para cima é plana, mas está inclinada no sentido Norte-Sul, devido, segundo parece, à posição em que se encontra e não a trabalho intencional. O lado oposto, isto é, o que assenta na terra, vai engrossando em forma esférica da periferia para o centro, de modo que neste a grossura regulará por 1,5m. Do lado Sul há, aflorando à superfície do solo e levantando acima dele coisa de metro por um de comprimento uma pedra móvel (rocha fixa?), apenas separada do monólito meio metro. Do lado Norte há outra nas mesmas condições, mas um pouco mais distante. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Seriam estas pedras móveis ou fixas os esteios da outra, à qual pertenceriam as seis mencionadas acima? É muito possível, porque o conjunto sugere logo à primeira vista a ideia de anta com a respectiva mamoa derrubada. As covinhas, umas maiores, outras mais pequenas, de um a dois centímetros de raio, em geral, por meio de profundidade, fusiformes algumas e também elípticas, não guardam disposição simétrica, a não ser dois grupos delas de forma quadrangular e a série de seis em posição vertical, ligadas por um canalzinho levemente inciso no monólito, mas perfeitamente visível. Este grupo apresenta a singularidade de ser encimado por um sinal em forma de ferradura, que o povo diz ser a da burrinha de Nossa Senhora quando fugiu para o Egipto. Ver o artigo Baçal. Diz a lenda que havia mais outro monólito como os esteios estirados no chão, também com sinais incisos e pinturas, e que um dia veio um homem da cidade do Porto a pedir que lho ensinassem. O dono da casa onde se hospedou prontificou-se a isso, mas de noite foi buscar a pedra no carro e escondeu-a num palheiro; e quando no dia seguinte lá guiou o investigador, mostrou-lhe apenas o sítio, alegando que a tinham roubado. «À F. Fulano, como me enganaste; até aqui eras um Zé Ninguém e agora passas a ser o Exmo. Snr. F...», exclamou ele, pois percebeu o logro do patrão. Assim explica o povo a fortuna da melhor casa actual de Espinhosela. A pedra encerrava um grande tesouro. Estevais. No sítio chamado Prado do Junco, termo dos Estevais, concelho do Mogadouro, um quilómetro a Norte da estação do Freixo (1647), na via férrea de Moncorvo ao Mogadouro, mesmo contígua à linha de água que desce pelos lameiros abaixo, num prado, ou junto a ele, que me disseram pertencer à família Lopo (Manuelzinho Lopo, se bem recordo), dos Estevais, há um grupo de rochedos graníticos, entre os quais um suspenso pelas extremidades, assente sobre dois à maneira de cabana. Noutro, perto deste, mas do lado esquerdo do riacho, de forma esferóide, há um sulco desde o alto da fraga até à base, que, a ser cobra, como alguns dizem, outros negam tal classificação, parece querer beber na torrente. Figura 1 Figura 2 (1647) O local onde está a estação é chamado Vale de Ladrão e dela a Freixo de Espada à Cinta são catorze quilómetros; tem porém o nome desta vila por ser a que lhe fica mais perto na via férrea.

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A figura 1, desde o ponto A ao B, tem de comprimento 0,74m, e esta parte inculca ter sido aberta a cinzel em linha mais estreita, como para formar o rabo do ofídio. Desde o ponto B ao C, inflecte o traço, segundo mostra o gráfico, e vai engrossando, como para indicar-lhe o tronco. Esta parte parece ranhura natural da fraga e tem de comprimento 0,84m. Paralela a esta serpente, há outra na mesma fraga, apenas distanciada coisa de meio metro, que tem de comprimento 2,60m, mas esta parece toda ranhura natural da rocha. É a figura 2, toda em traço contínuo, que vai alargando proporcionalmente desde a cauda à extremidade oposta, sem contudo nenhuma delas apresentar sinais de cabeça. São serpentes, segundo diz quase unanimemente o povo, em que o inscultor aproveitou a erosão natural da pedra numa e com pequeno aditamento na outra, como muitas vezes sucedia na arte rupestre pré-histórica? É muito possível, visto que a ofiolatria é hoje um facto perfeitamente averiguado (1648), e ali bem perto, no Castro da extinta vila de Santa Cruz da Vilariça (Castro do Baldoeiro, Civitas Baniensis, como outros lhe chamam) [309], concelho de Moncorvo, e em Ride Vides, concelho de Alfândega da Fé, como dizemos noutra parte, temos provas do culto da serpente e a sua figuração em monumentos megalíticos (1649). Demais, contígua ao sítio chamado Prado do Junco fica o das Arcas, de evidente tique arqueológico, onde há cavernas e uma pedra oscilante, o que tudo induz à localização nestes sítios de uma estação arqueológica, valorizada pela inscultura da Fraga do Gato no termo de Fornos, adiante descrita, que fica perto do Prado do Junco. O soldado meu informador (1650) disse-me que a cobra do Prado do (1648) CUEVILLAS, Florentino L.; BOUZA BREY, Fermin – Os Oestrimnios, os Saefes e a Ofiolatria en Galiza. «Arquivos de Seminário de Estudos Galegos», vol. 2 (1929), p. 29 e seg.; FERREIRA, Betencourt – Vestígios do culto da serpente (ofiolatria) na pré-história lusitana; A Águia (1924), vol. 5; CORREIA, Mendes – Le serpent, totem de Lusitanie proto-historique, 1928. (1649) Ver Ilustração Trasmontana (1910), p. 60, onde se dá a fotogravura de um dos rochedos do Castro de Santa Cruz da Vilariça com duas serpentes insculpidas, uma das quais apresenta a mesma inflexão ou quebradura desta dos Estevais. O Dr. Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior, em As serpentes gravadas do Castro de Baldoeiro (Moncorvo – Trás-os-Montes), 1931, fez desenvolvido estudo, acompanhado de estampas, das cobras insculpidas neste castro bragançano; SANTOS JÚNIOR, Joaquim Rodrigues – Pinturas megalíticas no concelho de Carrazeda de Ansiães, 1930, p. 31. (1650) É de justiça declarar que muitas das informações toponímicas concernentes ao distrito de Bragança, as obtivémos dos recrutas militares quando incorporados no regimento em Bragança, onde fomos vários anos colhê-las, e nas Inspecções Militares pelos concelhos do distrito, acompanhando para isso as respectivas Comissões, também em diversos anos. Aos oficiais destas; aos oficiais do regimento de Infantaria n° 10 da guarnição de Bragança a profundeza do nosso reconhecimento pela gentileza com que nos facilitaram todos os meios de realizar as pesquisas, cuja exactidão fomos depois constatar, de aldeia em aldeia, pelo dis-

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Junco tinha asas, mas, por mais que espreitei, não vi tal apêndice, a não ser que se queiram ver na inflexão ou curvatura da figura 1. De resto, é crença geral no povo que as serpentes têm asas. Foi provavelmente esta crença, documentada no conceito popular, pela curvatura da serpente do Prado do Junco e do Castro da extinta vila da Santa Cruz, que levou o barão Leon de Rosmital a dizer, na viagem feita em Portugal nos anos de 1465-1467, que as serpentes no concelho de Freixo de Espada à Cinta e imediações tinham asas e voavam (1651). No ponto B, como fica dito, a cobra inflecte por forma quase em ângulo, que parece discordar do movimento destes animais; mas diz Carballo (1652), «debemos reconecer que el artista paleolítico era un gran observador. Por mi parte no vacilo en decir que superaba al pintor moderno en esto: tiene mejor vista, sorprende el movimento del animal con más rapidez y exactitude; y lo que es más admirable, lo representa mejor con menos amaneramiento y de modo más sencillo dentro de una tecnica irreprochable». Quem observa o rasto que as cobras deixam no pó dos caminhos durante o Verão, quando fogem perseguidas, nota, de quando em vez, deslocações em ângulo como a indicada na gravura. De resto, também a serpente do Penedo do Cobrão, no Castro do Baldoeiro (Civitas Baniensis) [310], inflecte por forma acentuadamente angulosa (1653). Perto do Prado do Junco fica a Fonte do Scairo, a que o povo adscreve a lenda da Moura Encantada. O coronel Albino Lopo, falando dos Estevais, concelho do Mogadouro, sua terra natal, diz: como digno de interesse arqueológico, «mencionaremos a nomeada Portela da Rainha, que dizem provir de ter passado neste ponto uma rainha, que, sequiosa, bebera água numa fontela que fica em baixo a norte, e que de a haver encontrado tão bela, boa, lhe ficou o nome de Águas Belas; a sombria e escura ravina, a algumas centenas de metros aquém, a que mesmo de dia enche de temor e receio a quem a percorre, a que chamam vale de ladrões, onde se vê o Lameiro do Mouro junto da parte do nascente, do qual, há poucos anos, uns coelhos, fazendo as suas lorgas,

trito, aos locais que julgámos proveitosos. Também algumas notas foram colhidas pelo nosso amigo tenente João José Vaz de Morais de Abreu Sarmento em Inspecções a que não podemos ir. (1651) Ver CASTRO, João Baptista de – Mapa de Portugal antigo e moderno, livro 4, p. 36, onde vem transcrita. (1652) CARBALLO, J. – Pre-historia universal y particular de España, 1824, p. 279. (1653) Ver a respectiva fotografia, publicada pelo Dr. J. R. Santos Júnior nas Pinturas megalíticas no concelho de Carrazeda de Ansiães, 1930, p. 38.

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puseram a descoberto os alicerces de uma casa e fragmentos de louça, tijolo e telha do feitio da actual. A Fraga do Seixo, outra ravina logo a nascente desta, onde se achou uma interessante fíbula de cobre ou bronze, coberta de uma espessa e brilhante camada de óxido, que semelha tinta, e que é muito parecida a outras duas que estão no Museu e foram descobertas nas povoações mortas de Picote e Coelhoso. Neste local, na encosta Norte da serra, deparam-se-nos ao longo e de uma a outra parte da linha de água oito buracos, palas, abrigos ou grutas em rocha dura, algumas ainda completamente livres e desimpedidas, com uma capacidade de conter trinta a quarenta cabeças de gado lanígero ou caprino, outros porém já muito entulhados e mal distintos, mas percebendo-se ainda, em quase todos, restos de muros de pedra solta, que servia para vedar ou proteger a entrada. Alguns metros por cima, na encosta e num altinho, havia uns pequenos cercos ou circuitos lajeados, Eirinhas, de três a quatro metros de diâmetro e cercados de um murozinho de pedra solta. Neste sítio viveram os mouros, diz a tradição e os mais velhos acrescentam que era onde se refugiavam e se escondiam os que fugiam ao serviço militar, especialmente, no tempo da guerra dos franceses. Finalmente, outros circos ou Eirinhas, informam, se vêem ainda agora próximo dos conhecidos buracos ou Palas, resguardo dos pastores, nos pontos da Gricha, das Arcas – chamada gruta da Maria Tomé – na canada das Parreiras, no caminho de Meirinhos e outras partes... É crença antiga ser muito milagrosa a Senhora da Alegria [venerada numa capela que há no sítio do Sarzedo, termo também dos Estevais], que narram fora vista de pé, no meio da corrente do rio Douro, um dia de grande cheia, e de onde foi retirada para esta ermida, que mandou fazer o padre de Mazouco, Lourenço Sanches, em 1782, como se vê do auto ou instrumento que tenho presente do seu património, e com autorização do arcebispo de Braga, D. Gaspar. Segundo contam, concorriam ali a ouvir missa todos os povos de ao redor... Outras recordações ainda muito interessantes devemos também citar existentes no termo deste pequeno povoado, e vem a ser que, a quem dela olha para poente e a mil metros proximamente e quase no mesmo meridiano, correspondem: ao lado esquerdo os poucos sinais do Castelinho, na margem direita, os alicerces de uma pequena casa quadrada dos mouros, onde está, dizem, pintado um gato numa fraga a indicar um terreno; à sua frente o Alto de São João, cabeço perfeitamente cónico, em que havia uma pequena capela da invocação deste santo... e ao lado direito, quase no cimo do ribeiro e abaixo da fonte de Figueiras, as ruínas das antigas casas de Baixo em que se podem notar, mesmo agora, pedaços de MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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muro de habitação, fragmentos de tijolos, louça e telha do tipo da actual. Este local é o que tem dado mais trabalho aos sonhadores de tesouros, pois chegam até a vir de povoações distantes a cavar e a remover o terreno em procura deles» (1654). Estevais, ver o artigo Moncorvo. Freixiel. No termo de Freixiel, concelho de Vila Flor, fica o sítio chamado Fraga dos Mouros, no cume da qual vegeta um sobreiro, pasmo de todos por se desenvolver em tal lugar. Num rochedo próximo deste dizem estar insculpido um braço humano com a respectiva mão, e perto deste há outro a que chamam das Patadas de Cavalo, por ter gravados os sinais do gráfico junto, segundo um desenho que nos mandou D. Amélia Augusta de Almeida Morais, natural de Freixiel digníssima professora em Benlhevai. Ao conjunto destes fragueiros chama o povo Castelo, pois ainda apresenta vestígios de muros. No recinto tem aparecido cerâmica em abundância, mós manuárias, e na manhã de São João sente-se bater o tear da moura. Algumas ferraduras são maiores e outras regulam por vinte a trinta centímetros de abertura. Algumas destas figuras têm forma de escudo e talvez se relacionem com as do tipo escutiforme que Obermaier (1655) dá como pertencentes à arte do paleolítico superior [311]. Se assim fosse, teríamos aqui e em Bousende a primeira documentação concernente a este período na região bragançana.

(1654) O Arqueólogo Português, vol. 5, p. 249. (1655) OBERMAIER, H. – El Hombre fósil, 1925, p. 269, figura 118.

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Fornos. Na Fraga do Gato, termo de Fornos, concelho de Freixo de Espada à Cinta, quilómetro e meio a Sueste da povoação, à beira do caminho que vai para Freixo, há gravado toscamente na dita fraga de granito um quadrúpede, classificado de gato pelo povo, desta forma: Tem de comprimento, excluído o rabo, 0,44m, de grossura no tronco 0,09m e 0,20m de comprimento as pernas. Como vemos, o escultor tracejou-lhe rabo, orelha (uma só) e pernas. É para notar a covinha que apresenta a meio das espáduas. Será uma teta ou uma fosseta de carácter arqueológico? A lenda diz que o gato está a olhar para um tesouro [312]. Perto, noutra fraga, está gravada uma ferradura e em frente, a pequena distância, fica o Cabeço da Escória, assim dito por muito abundarem nele; há vestígios de povoado extinto. No distrito de Bragança há muitíssimos sítios com o nome de Fraga do Gato, e em muitos deles vêem-se realmente insculturas mais ou menos semelhantes a um animal, que tanto pode ser gato como outro quadrúpede, mas o povo prefere aquele. Em muitos, o petróglifo já desapareceu por malvadez dos sonhadores de tesouros ou comido pelo tempo; noutros nunca lá estaria, provindo talvez o toponímico do felino montês que aí tinha seu habitat. Em muitos, como dizemos a propósito das insculturas de Rebordaínhos e Vila Verde, o lapicida aproveitou as ranhuras naturais da rocha que podiam servir-lhe na confecção da obra projectada; noutros parece tudo obra da natureza, classificada zoomorfamente pelo povo em ordem a intuitos étnicos ainda mal conhecidos, mas provavelmente de carácter totémico. Ao ilustre causídico Doutor Afonso Augusto Pinto, residente em Fornos agradecemos a notícia da existência deste petróglifo, bem como a carinhosa hospedagem e companhia que nos fez em 3 de Maio de 1933 para o exame dele e do dos Estevais. O Doutor J. R. Santos Júnior já se referiu a esta inscultura (1656). Ifanes. No sítio chamado Rodela, junto à povoação de Ifanes, concelho de Miranda do Douro, há gravadas, na disposição indicada pelo gráfico

(1656) SANTOS JÚNIOR, J. R. – As ruínas castrejas da Cigadonha (Carviçais), 1929, p. 13, em nota.

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junto, três pegadas ou plantas de sapatos, como o povo lhe chama, numa rocha granítica, ao rés-do-chão. A primeira é do pé esquerdo e do direito as duas seguintes. O seu comprimento é respectivamente, quanto à grandeza, de 0,28m, 0,16m e 0,12m. Diz o povo ser a maior de São José, a seguinte de Nossa Senhora e a outra do Menino Jesus, ali deixadas na fuga para o Egipto. Divergem da da Póvoa, adiante indicada, em serem redondeadas na ponta e não em bico. Também, quanto à factura, parece que nestas de Ifanes o artista marcou primeiro o contorno do pé ou sapato por pontos, pequenas covinhas, ligando-as depois por traços contínuos, pois, ou seja do tempo ou da incisão inicial, a verdade é que se distinguem os pontos nas linhas de contorno. Ver o artigo Bousende. Foi Paulo José Pinto, de Ifanes, quem primeiro nos deu notícia deste monumento em 8 de Setembro de 1932, quando estávamos copiando o da Póvoa, adiante apontado. Moreno (1657) apresenta o desenho de uma lousa votiva aparecida em Rosinos, na vizinha província de Zamora, na qual se encontram gravadas quatro plantas de pés humanos, acompanhado de notícias explicativas. Ainda no sítio da Curvaceira, também termo de Ifanes, há gravada numa fraga de granito, ao rés-do-chão, uma ferradura. Diz o povo que é a dum cavalo dos soldados franceses, quando nas Guerras Napoleónicas vinham para arrasar Miranda do Douro sem o conseguir, por se verem obrigados a fugir. Sobre a lenda que atribui as pegadas nas insculturas rupestres a personagens históricas, como Nossa Senhora, São José, São Tomé, diabo, etc., ver Doutor José Leite de Vasconcelos (1658) [313]. Labiados. As insculturas (fig. 1) da página seguinte, letras como o povo lhe chama, e as das p. 631-632-633 (fig. 2, 3 e 4), que visitei pela segunda vez a 9 de Abril de 1932 (a primeira fora em 1903), encontram-se no Cabeço da Velha, termo de Labiados, concelho de Bragança, coisa de cinco quilómetros de mau caminho distantes do povo, na vertente Nordeste do Cabeço, olhando para Guadramil, ao lado debaixo do carreiro que segue para Deilão, no meio de espesso matagal de sardões e estevas. Há quatro lápides insculturadas, soltas, todas de xisto, junto a uma fraga pouco ele-

(1657) GOMEZ MORENO, Manuel – Zamora..., tomo 2, figura 3, e tomo 1, n° 118. (1658) VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, vol. 1, p. 381; Dechelette, no Manuel d’Archéologie Prehistorique, vol. 1, p. 379, diz que a atribuição das insculturas com pegadas deve relacionar-se com o culto litolátrico.

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vada. É possível que as lápides fizessem parte da rocha, de onde as desagregariam os sonhadores de tesouros, que muitas voltas lhe têm dado. Os petróglifos cruciformes ocupam apenas o lado esquerdo da lápide, que é xistosa, de forma irregular, tendo no lado superior e no da direita quatro palmos de largura, sete no inferior e seis no da esquerda. São de diversos tamanhos, todos nitidamente gravados, se bem que a maior parte apresentam sulcos mais largos e outros apenas ligeiro filete. Encontram-se em posição vertical, oblíqua, horizontal e algumas com a haste maior volta-

Insculturas de Labiados – Figura 1

da para cima. Convém notar a circunstância de na primeira carreira aparecer uma fosseta e na segunda outra. Pelo conjunto, as insculturas identificam-se com outras encontradas por Cabré num rochedo perto da Torre de Hércules (Corunha), reproduzidas por Carballo (1659), fig. 137, com excepção das fossetas, que não têm. Da associação de cruzes e fossetas apresenta o mesmo outros gravados epilíticos (1660), existentes respectivamente na Galiza e no Cabezon de la Sal

(1659) CARBALLO, J. – Pre-historia universal y particular de España, 1924, p. 353. (1660) Ibidem, p. 334 e 335, figuras 117 e 119.

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(Santander), mas também lhe faltam as fossetas hastiais. Segundo Cabré, já citado, estas insculturas representam a dança sagrada, conforme preceitua a liturgia em acto de culto à divindade, e as cruzes o esquema da figura humana, o símbolo do homem. Em Portugal registam-se já muitas estações pictoglíficas e petroglíficas (1661), que por brevidade omitimos, lembrando apenas que o Doutor Joaquim Fontes (1662) encontrou na Galiza insculturas cruciformes como as que deixámos apontadas (1663), e Abel Viana menciona outras existentes em Lanhelas (Caminha, Alto Minho) (1664), e que constantemente o Padre Eugénio dos Anjos Jalhay e outros estão noticiando o aparecimento de idênticas insculturas rupestres nas sessões da Associação dos Arqueólogos Portugueses, como consta da respectiva «Revista» e do extracto dos jornais. Em O Arqueólogo Português e na Revista de Guimarães o mesmo se constata, e os Doutores Mendes Correia, Santos Júnior e Serpa Pinto ao assunto têm dedicado profícuos trabalhos. A cruz na iconografia cristã significa a redenção operada por Cristo nela crucificado, mas isso não obsta a que date de tempos muitíssimo mais antigos a sua aplicação como símbolo de outras crenças, mais ou menos ligadas a mistérios cultuais (1665). Certamente que essa tradição crucilátrica, pré-cristã contribuiu muito para popularizar o culto que esta religião lhe presta. Devendo também entender-se que aqui a Igreja Católica cristianizou um símbolo religioso pagão, ou como deva chamar-se, assim como fez nos Castros com a erecção de capelas e santuários que continuaram sedes de cultos, apenas com mudança nos nomes das divindades, pois a mudança no significado teológico mal se apercebeu no espírito popular. O culto, o santuário, o numen, a sua advocacia nas necessidades espirituais e temporais, lá estavam, o nome era o menos; com o tempo, a poder de catequese, se chegaria à preparação teológica adequada. Ver o artigo Feiticeiras (p. 356 e seg.), a propósito do culto a Mercúrio e Hécate, prestado nas encruzilhadas dos caminhos. Perto das Letras há gravada noutra fraga uma ferradura. Disseram-me que noutra fraga havia insculpido um cavalo, mas, apesar de muito o procurar, não consegui encontrá-lo, nem admira, porque os fragueiros são muitíssimos e o mato é tão espesso que só de gatas se penetra em alguns pontos. Todavia, muita gente afirma tê-lo visto.

(1661) Pode ver-se a sua bibliografia e respectiva descrição na obra de CORREIA, Mendes – Os povos primitivos da Lusitânia, p. 182. (1662) Ver Arqueologia e História, vol. 5, p. 38 e seg. (1663) Ibidem, p. 38, figura 15, e estampa 1, figura 19. (1664) Portucale (1929), onde publica as respectivas gravuras. (1665) MORTILLET – Le Signe de la Croix avant le Christianisme, 1866.

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Na base poente do Cabeço da Velha, coisa de um quilómetro das Letras, junto à margem do Rio Contense, sítio chamado Rachas, fica a Pala dos Mouros, também dita Pena Veladeira, sob a qual há uma gruta, «pala», no dizer do povo, que pode acobertar um rebanho de quarenta ovelhas. Pelos anos de 1900 aí viveu durante muito tempo um homem de Varge, chamado Miguel Fernandes, à custa da cabrada que pastoreava. Intonso de barba e cabelo e vestido de peles, parecia um troglodita autêntico. Também o falecido reitor de Babe, Celidónio Sarmento, aí costumava ir passar uma semana durante o mês de Setembro, acompanhado pelos homens de Labiados, que, na caça de monte, rio e pásGrossura 0,15m, plus minus saros, além de uma vitela que lá comiam e respectiva vinhaça, achavam veraneio admirável. Realmente, o sítio é atraente, pelo pitoresco ameno, salpicado de belo horrível. Na Pala da Moura havia um tesouro escondido, disse o nosso informador, metido numa cavidade tapada com uma massa cinzenta da cor da rocha, coisa que ele viu muitas vezes, mas sem lhe lembrar de a destapar, embebidos como todos andavam na faina cinegética; vieram porém uns galegos e levaram o tesouro, deixando o buraco a descoberto. Pelos anos de 1860 foram desencantar a riqueza do Cabeço da Velha uns quantos sonhadores de tesouros, naturais de Baçal e Insculturas de Labiados de Sacoias, acompanhados de um padre e de Figura 2 uma bruxa (ambos são indispensáveis para estas coisas). Ainda conheci o padre, a bruxa (tia Martinha, de Sacoias) e dos homens o tio Vicente e o tio Nicolau, aquele de Sacoias e este empregado na máquina de destilação de vinhos de Baçal. O padre era natural de Baçal, onde faleceu em 1892, e muitas vezes me contou o caso. Ele lia, lia no «Livro de S. Cipriano», o autêntico, um códice antigo, manuscrito, se bem me recordo, pois os modernos, impressos, nada valem, dizia ele, e exorcismava sem cessar (é também condição indispensável), metido dentro de um pentalfa inscrito num círculo que traçou no terreno, do qual não podia sair, sob pena de ficar tudo sem efeito; a bruxa, dentro de um signo-salomão, fazia conjuros e deitava as varinhas do condão e os homens cavavam, cavavam, sem parar e calados. Tudo corria admiravelmente, indicando que o tesouro estava prestes a sair. Neste comenos surge na escavação um sapo enorme, colossal (era o diabo, guarda do tesouro), a abrir e fechar a boca, num gesto de os papar a MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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todos. Os homens aterram-se, o padre recua um pouco, saindo do círculo, a bruxa faz o mesmo e de repente a trincheira esboroa-se, apanhando o Nicolau pelas pernas; o tesouro, uma enorme bola de oiro, maior que a roda de um carro, reginga pela ladeira abaixo, até se esfrangalhar no rio, sentindo-se nitidamente o tilintar do oiro nos fraguedos e lajes das margens, e um medonho tufão arrasta os sonhadores, por cima de carrascos e fraguedos, a muitos metros de distância, deixando-os assaz maltratados e, sem poderem regressar a casa no mesmo dia ou só muito tarde. A bruxa, porém, foi vista logo em Sacoias, sã e escorreita, com a cantarinha debaixo do braço a ir buscar água Grossura 0,15m, plus minus à fonte. É sempre assim! O tesouro lá está, dizem os da carolice; falta porém a coragem precisa para o desencantar. Casos similares, com pequenas variantes, deixamos apontados referentes a outros locais marcados por antigualhas arcaicas, como é, por exemplo, o do Castelo da Bouça de Aires, no termo de Urrós, concelho do Mogadouro, onde o povo Insculturas de Labiados – Figura 3 foi cavar, aparecendo-lhe umas contas (esferas) pretas, muito grandes, sinal de estar próximo o tesouro, mas ao mesmo tempo sonou estampido medonho, tudo fugiu aterrado, e lá se foi o cobiçado haver. Nos Eivados, concelho de Mirandela, arrancaram uma oliveira por sonharem com um tesouro debaixo dela. Depois de muito ler no «Livro de São Cipriano» e de muito cavar, apareceu a moura e também o diabo, que ninguém aguentou a pé firme, e por isso todos arrebatados por grande vendaval foram projectados a grandes distâncias, ficando o tesouro encantado como estava. O mesmo dizem em Mairos, concelho de Chaves, referente a outro tesouro encantado no sítio da Tróia, onde aparecem largos vestígios da civilização romana e até da neolítica. Um pouco abaixo da Pena Veladeira, no sítio chamado Vale de Madeiro, no cume de um cabeço, há uma esplanada a que chamam Picadeiro dos Mouros, pois, segundo a lenda, era ali que iam exercitar os cavalos. Um outro tesouro encantado está logo ali ao pé do sítio chamado Penados. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Na Pena Veladeira, atrás referida, havia gravado um corvo, que muita gente diz ter visto, e, segundo a mesma, o corvo estava voltado na direcção do tesouro e a olhar para ele, mas os galegos destruíram-no ao arrancar a panela de dinheiro que lá estava. Factos idênticos referentes a insculturas destinadas a indicar tesouros mencionamos noutras partes [314]. Ainda perto da mesma Pena Veladeira fica o moinho das Rachas, que os de Varge tiveram de abandonar por causa dos trasgos (1666), e logo ali está a Lameira da Fugaça, que, segundo a lenda, os de Rio de Onor deram aos de Varge a troco da inscultura de São João, seu padroeiro. Vi essa inscultura; nada vale artisticamente. Diz a lenda que na véspera da festa de São João (23 de Junho) os de Rio de Onor lançavam o santo ao rio da ponte abaixo (1667). Ainda no termo de Labiados fica o sítio chamado Lagares, que pode relacionar-se com a pré-históGrossura desigual e quase dois palmos ria (1668), onde aparecem grandes em alguns sítios montões de pedras roladas, levadas evidentemente de outros sítios para lá, nos quais reside uma moura encantada. A fig. 3 só tem seis cruzes e duas fossetas, tudo na disposição indicada no respectivo gráfico, mas no canto direito falta um pedaço da lápide, que provavelmente tinha insculturas, a julgar pela haste que ainda resta e se vê no mesmo gráfico. À lápide 4a também falta um pedaço e só apresenta uma cruz na superfície rebaixada. A propósito dos sinais cruciformes, ver adiante o artigo Paradinha Nova. Insculturas de Labiados – Figura 4 Lagarelhos. No termo de Lagarelhos, confinante com o de Zido, concelho de Vinhais, há a pegada de uma vaca gravada numa fraga.

(1666) Ver p. 344 deste tomo. Há um outro moinho mais abaixo, mas este continua em exercício; do dos trasgos restam apenas ruínas. (1667) Ver p. 269 e 379, idem. (1668) Ver os artigos «Lama Longa», «Vale Benfeito» e o que se diz no Mapa arqueológico do distrito de Bragança, p. 565 e seg.

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Lamas de Orelhão. No tomo VII, p. III, destas Memórias, ao tratar de Comba (Santa), dizemos da lenda da Fonte Santa e da ferradura e espada de um mouro insculpida num rochedo do termo de Lamas de Orelhão, concelho de Mirandela. Ver p. 449. Lamoso. No sítio chamado Caminho de Lamoso, perto da povoação deste nome, concelho do Mogadouro, está gravado numa fraga o campanário de uma igreja com os respectivos sinos e outras figuras.

Fraga das Ferraduras

Linhares. Dois quilómetros a Sul de Linhares, concelho de Carrazeda de Ansiães, descendo para o Douro, fica o Penedo que Bole, descrito adiante no artigo Pedras oscilantes. Coisa de duzentos metros abaixo deste está a Fraga das Ferraduras, de forma esferóide, onde estão gravados os sinais acima, semelhantes, muitos deles, aos das suas congéneres de Cerdedo e Travanca (Macedo de Cavaleiros). Foi o Doutor Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior (1669), da Universidade do Porto, quem primeiro estudou esta estação rupestre, guiado pela notícia que demos na Ilustração Trasmontana (1670).

(1669) SANTOS JÚNIOR, Joaquim Rodrigues dos – Gravuras rupestres de Linhares (a Fraga das Ferraduras), 1933. (1670) Ilustração Trasmontana. Porto. vol. 3 (1910), p. 137.

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A mais antiga menção do monumento encontra-se nas Memórias de Ansiães, que dizem: «E em o mesmo limite de Linhares [concelho de Carrazeda de Ansiães] está hum sítio que chamam as Ferraduras, cujo nome ouve e conserva de uma grande pedra firme que nele está toda cheia

destes signaes

» (1671).

Luzelos. No termo de Luzelos, concelho de Carrazeda de Ansiães, há um sítio chamado Pedra do Sapato, que provavelmente lhe viria de qualquer inscultura no formato de pé, salto de sapato, como há noutros sítios. O toponímico Sapato, junto a Bragança, relacionar-se-á com o mesmo assunto? Ainda no termo de Luzelos, sítio chamado Tiro Longo, há gravada numa fraga uma foucela e o feitio de um queijo. Foucela, segundo nos indicou o nosso informador, é a forma em que se deita o leite para fazer os queijos [315]. Macedinho do Mato. No termo desta povoação dizem-me haver uma ferradura insculpida numa fraga.

(1671) MORAIS, João Pinto de – Memórias de Ansiães, 1721, n° 60, manuscrito da Biblioteca Nacional de Lisboa, secção de manuscritos, «Relação de Vila Real», códice A-6-8, n° 222, a folhas 153 [316]. No fólio 196 deste códice A-6-8, n° 222, há um amontoado de notícias referentes a Ansiães, vila e cabeça de concelho, hoje extinto, pertencente a Carrazeda de Ansiães, que diz ser «tirado de Memorias que se mandarão á Academia Real e tem o S. D. Heronimo Contador d’Argote». É evidente, para quem lê as notícias destas Memórias, que foram tiradas das escritas por João Pinto de Morais e António de Sousa Pinto, pois as seguem na ordem das matérias e copiam ipsis verbis em muitas partes. Mostra-se ainda do que dizem as Memórias de Ansiães numa espécie de prólogo, que as antecede, e no n° 64 em dois sítios, que elas foram escritas para serem mandadas à Academia Real, como aí se declara, e a uma pessoa certa desta, qual seria D. Jerónimo Contador de Argote, pois este afirma na p. 20, tomo 1, das suas Memórias para a História Eclesiástica de Braga, 1732, que «Antonio de Sousa Pinto, da principal nobreza de Anciães, concorreu com as relações da villa de Ancians e Alfarella, que remetteu á Academia Real, obra muy perfeita, curiosa, e bem discorrida». Em algumas partes Argote copiou ipsis verbis as palavras e frases das Memórias de Ansiães; mas a estampa das insculturas do Cachão da Rapa, no termo de Linhares, que as Memórias dão no n° 58, não concorda com a de Argote inserta no tomo VI, p. 332, das suas Memórias; ora, como os autores das Memórias de Ansiães diziam que, os sinais no fragueiro do Cachão da Rapa eram muitos e que só mandavam desenhos de alguns, prontificando-se no entanto a remetê-los todos, se fossem necessários, deve concluir-se que Argote ou os pediu todos ou os obteve por outra via.

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Macedo do Peso. No Zamborinho, também dito Zambozinho e ainda Serra do Gato, termo de Macedo do Peso, concelho do Mogadouro, havia um gato insculpido numa fraga, de onde veio o nome à Serra do Gato, que estava a olhar para um tesouro encantado, constante de muitas barras de ouro e prata. Já não existe, porque um sonhador de tesouros o esfrangalhou estupidamente. A lenda das insculturas antropomorfas, zoomorfas e alfabetiformes, a indicarem tesouros para os quais estão voltadas ou a olhar, é comum a outras terras do distrito bragançano e estranhos. Malhadas. As insculturas da fig. 1 estão a Sul de Malhadas, concelho de Miranda do Douro, numa fraga de granito, menos de um metro elevada acima da superfície do terreno, situada numa propriedade murada sobre si, denominada Cortinha do Poço, no local chamado Trás da Torre [317]. A fraga apresenta dois planos: um elevado coisa de 0,30m, e outro mais baixo. As insculturas e a figura trapezóide, que deve ser uma sepultura de ângulos quadrangulares, regulando a sua cavidade por coisa de 0,20m, estão no plano mais baixo, correndo o lado nascente da sepultura pela base do plano alto da fraga, de forma que a parte destinada à cabeça do defunto, para este lado, não estreitece, Figura 1 como é de uso no tipo similar, e se vê no lado oposto, mas forma uma linha seguida com a parte destinada ao corpo do defunto. No lado poente, junto à sepultura, vêem-se doze covinhas com o diâmetro de 0,02m, na disposição mostrada pelo gráfico, associadas a três ferraduras, como lá lhe chamam: duas de lados rectangulares e uma semi-circular. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Um pouco abaixo está a inscultura que parece um L bem nítido e contígua a ele há outra menos clara, que parece uma ferradura junto a um S. Esta sepultura é interessantíssima, por apresentar associadas a ela covinhas e ferraduras rectangulares e curvas. No mesmo trato de terreno chamado Trás da Torre, onde está situada a Cortinha do Poço, fica a Cortinha do Toural, um pouco distante da precedente, e nesta têm aparecido várias antigualhas romanas – lápides funerárias, moedas, mós manuárias, telhas de rebordo, tijolos, etc. Um quilómetro a nascente de Malhadas, concelho de Miranda do Douro, no sítio chamado Lameira do Mular, à beira do caminho deste último nome, há uma fraga de granito, elevada acima do nível do terreno coisa de um metro, onde está insculpido um círculo (fig. 2), com o diâmetro de 0,13m, a que o povo chama a ferradura da burrinha de Nossa Senhora. Havia mais insculturas, mas os idiotas sonhadores de tesouros, que supunham encantados no rochedo, despedaçaram-nas. Figura 2 Coisa de meio quilómetro adiante fica, à beira do caminho que vai para São Martinho, a fraga da Penhalta, elevada, em plano inclinado, coisa de dois metros acima do nível do terreno; é granítica e junto ao fundo tem a seguinte inscultura (fig. 3), chamada Piso do Mouro ou Pegada do Mouro:

Figura 3

Parece tratar-se de uma sepultura de criança, tipo da Cortinha do Poço. Apresenta, como ela, ângulos quadrangulares, mas a terminação no extremo oposto é lanceolada; faltam-lhe as outras insculturas, talvez levadas pelo roçar do calçado dos transeuntes, que no Inverno, por o rochedo estar num charco de água, devido às paredes de propriedades que por ali fizeram, passam por cima dos gravados, gastando-lhe já a parte do lado nascente, que damos ponteada, e muito da fraga, pois a cavidade sepulcral não atinge 0,05m. Também no termo de Malhadas, no sítio chamado Lombas, ao cimo da quinta de Pereira, junto ao caminho conhecido pelo nome de Rodeira dos MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Frades, apareceu uma lápide de granito de 0,82m x 0,75m nas partes maiores, toda insculturada de covinhas, umas maiores e outras mais pequenas, regulando a sua profundidade por metade do diâmetro. A Rodeira dos Frades, talvez nome indicativo das propriedades que aí tinham (ver artigo Frades), deixou de ser caminho e está agora incorporada nos bens do Posto Zootécnico de Malhadas. A lápide foi trazida pelo amigo Doutor Joaquim Mendes Pereira para junto da casa de habitação do mesmo Posto, de que é director, e não aparece. Entende ele que por ali deve estar em qualquer canto, sumida entre os muitos materiais de reconstrução da casa. Também nos informaram, quando em 7 de Setembro de 1932 estivemos em Malhadas, que no sítio do termo chamado Penhalta havia insculturas, mas não conseguimos vê-las. Moás. No termo de Moás, concelho de Vinhais, há um sítio chamado Eira do Castro, onde aparece telha de rebordo e outras antigualhas. É um fragueiro enorme, constituído pelo aglomerado de diversos penhascos, que se vêm elevando abruptamente desde o fundo de um caborco até formar no cimo um planalto inacessível por este lado, sob o qual fica a Fraga da Vela. O nome de Eira vem-lhe de ainda hoje ser utilizada pelo povo para debulha dos cereais numa planura do fragueiro. De onde a onde, a espaço de três ou quatro metros, na eira e nas fragas próximas, encontram-se buracos circulares de variado diâmetro e profundidade, chegando alguns a 0,40m de fundura por 0,20m de largura, ficando outros a meio, e ainda menos destas dimensões. Alguns comunicam entre si por uma ranhura ou canalzinho, outros têm apenas a ranhura estreita pouco extensa e pouco funda e deles simplesmente a cavidade sem canal. Na mesma Eira do Castro se vê cavada na rocha uma agueira, feita evidentemente para desviar as águas pluviais. Ainda num rochedo da mesma Eira há insculpido um círculo de dois palmos pouco mais ou menos de diâmetro, a que o povo chama a Fraga da Peneira, por a inscultura ter realmente configuração de peneira. Para que serviam os buracos da Eira do Castro? O povo diz que era neles onde os mouros moíam o pão. E realmente a explicação está bem achada, principalmente se nos lembrarmos que ainda em Setembro de 1932 os indígenas da Guiné que vieram a Lisboa traziam grandes almofarizes em que as pretas moíam os cereais para fazer farinha com altos e grossos pilões, como se vê nas gravuras dos jornais dessa época, de entre os quais citamos A Voz de 19 de Setembro daquele ano. No sítio da Muralha, termo da Bouça, concelho de Mirandela, há duas filas de buracos idênticos a estes de Moás, também cavados na rocha granítica, e diz o povo que eram aplicados pelos mouros para segurarem as suas bandeiras. Neste sítio da muralha há restos de muros, ruínas, onde aparece telha de rebordo e outras antigualhas. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Moimenta. No termo de Moimenta, concelho de Vinhais, quatro quilómetros a nascente do povo, fica a Ponte da Moimenta sobre o Rio Tuela (1672). É de um só arco de granito, apontado em ogiva de lanceta, e apresenta agulheiros, indício de ser medieval. A sua altura regulará por oito metros. Contígua à ponte eleva-se em rampa abaulada e muito inclinada, a ponto de ser quase impossível andar por ela, uma rocha granítica, de talvez vinte metros de extensão, na qual estão gravados os sinais indicados no gráfico junto, em duas linhas paralelas, segundo o mesmo indica. Estes sinais são buracos ovais cavados na rocha, alguns de 0,15m de profundidade e outros menos, regulando por 0,22m no eixo maior. Alguns são contíguos; outros separados, vendo-se ainda vários ligados por uma ranhura, mas a água em todos eles pode correr de uns para outros, devendo-se talvez a ela a maior profundidade e largura que apresentam. Algo se relacionam com as do termo de Urrós. Ver p. 153. Estas insculturas aproximam-se das que Carballo (1673) dá de outro rochedo existente na província de Santander (Espanha), e diz serem de carácter religioso e pertencerem aos Campos Sagrados vigentes nos períodos neolíticos e eneolíticos. Ver adiante a rubrica Rebordelo. A Moimenta é uma das terras mais férteis de Portugal em centeio, que em média produz vinte sementes, sem estrume, num terreno humoso, sempre arável, mesmo com arado de pau sem relha, que leva um terço de semente menos do que as terras vizinhas. «Em Vinhais um hectare de terreno leva nove alqueires de semeadura, na Moimenta apenas três» (Doutor Vergílio Taborda, Alto Trás-os-Montes, 1932, p. 120). Em batatas, é também muito fértil a Moimenta, embora não tanto. A cultura da batata iniciou-se no distrito de Bragança pelos anos de 1800. Ver tomo II p. 182, destas Memórias, onde apontámos um documento de 1817, talvez a primeira notícia histórica referente ao assunto em terras bragançanas. Link e Hoffmansegg, no Voyage en Portugal, fait depuis 1797 jusqu’en 1799 (tradução), Paris, 1808, III, p. 6, menciona já a cultura da batata no Vale de Chaves. (1672) Ver tomo VIII, p. 68, destas Memórias. (1673) CARBALLO, J. – Pre-historia universal..., p. 208.

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Moncorvo. Na quinta da Aveleira, junto à Vila de Moncorvo, há uma fraga com insculturas, segundo nos informaram, mas o Doutor Santos Júnior, que muito tem estudado a região, a quem comunicámos a notícia, disse-nos em carta de 3 de Outubro de 1932 que as não achara, apesar de as procurar diligentemente. Cinco quilómetros de Moncorvo e um da quinta da Silveira, na margem direita do Sabor, perto da ponte que sobre ele dá passagem a estrada à macadame desta vila para a de Vila Flor, ficam as ruínas da despovoada Santa Cruz da Vilariça, de onde os moradores fugiram por não poderem suportar os ataques das formigas, indo estabelecer-se a Moncorvo, situado em escarpado outeiro, como todos os povoados arcaicos, nos locais chamados Baldoeiro e Mesquita, pertencentes ao termo dos Estevais, concelho de Moncorvo. Ficava nestas ruínas a capela de S. Mamede, já descrita nas páginas 480 e seg. (ver também p. 155), que, a julgar pela descrição, devia ser românica – séculos XI-XIII – e não do tempo dos romanos, como aí se diz [318]. Nestas ruínas, além dos vestígios decorativos da capela de São Mamede, já indicados, que são valiosos, aparecem restos de casario, cerâmica, tégulas, ímbrices e mós manuárias. Também delas provém a ara votiva a Júpiter, que damos na p. 479, uma cabeça de touro pelo teor das insculturas denominadas porco, de que tratamos no artigo respectivo [319]. Não será de mais lembrar que Vila de Santa Cruz da Vilariça, São Mamede, Ermida, Mesquita (derivado de suporem que a capela serviu aos cultos pagão, cristão e mouro), Castro do Baldoeiro, Civitas Baniensi, Castrum Baniensium se correspondem geográfica e arqueologicamente [320]. Nos vários fragueiros adjuntos ao Castro do Baldoeiro encontram-se insculpidas muitas cobras de tamanho variado, atingindo uma 3,50m de onde vem dar o povo a esse fragueiro o nome de Penedo do Cobrão. Noutro, denominado Fraga do Corvo ou do Ninho do Corvo, há abertos escalões, como para facilitar a subida ao cimo, escavações a modo de sepulturas abertas na rocha ou, melhor, como as que o povo chama Lagares em algumas terras, pelo teor das de Lamalonga, adiante indicadas (aqui, porém, dá-lhe o nome de medidas – alqueire e meio alqueire) e muitas covinhas. Algumas destas medidas semelham as do Santuário de Panóias (Vila Real) (1674), de onde vem entender-se que aqui estaria outro pelo mesmo teor, embora mais pobre, e que as serpentes se ligam ao culto ofiolátrico e aos Sefes, povo pré-romano (1675). (1674) ARGOTE – Memórias para a história do Arcebispado de Braga, 1732, tomo 1, p. 325, onde se faz minuciosa descrição dela, acompanhada de muitas gravuras. (1675) Sobre o assunto, ver Afonso Pereira Cabral, em Ilustração Trasmontana (1910), p. 58 e seg., onde se encontram várias fotogravuras representando as serpentes, cabeça de

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Montesinho. No sítio chamado Lama das Onzelhas ou Zonzelhas, à beira do Caminho da Serra, termo de Montesinho, freguesia de França, concelho de Bragança, há um rochedo chamado Fraga Medideira pelo povo, todo insculturado com os sinais constantes do gráfico junto. Os números por baixo indicam quantos sinais existem desse tipo. No Castro Curisco, também termo de Montesinho, 1 17 1 1 12 fica à beira do caminho outra fraga insculturada, que apresenta dezoito cruzes em forma de estrela, como a segunda na figura anterior, e cinco covinhas circulares e outras elipsóides. Ainda no Castro Curisco fica a Fraga Bulideira (é a n° 6 adiante descrita no artigo Pedras oscilantes), que tem gravadas trinta e sete cruzes estreliformes, pelo tipo do gráfico acima, quatro de dois braços e sete covinhas, umas circulares e outras elipsóideas, já tudo coberto de musgo. Convém notar que, de algumas das covinhas circulares de todas estas insculturas, parece partirem pequenos traços, como querendo indicar a vulgar figuração do sol. Dizem em Montesinho que estes sinais foram feitos pelos pastores a fim de marcar quanto crescem em altura de um ano para outro, servindo-lhe de limite o centro da cruz ou do círculo onde chegam com a língua; daqui o nome de Fraga Medideira à primeira indicada. E, na verdade, ainda hoje os pastores lá se vão medir, se bem que o musgo da Fraga Bulideira inculca menos uso. Murçós e Agrochão. No termo de Murçós, concelho de Macedo de Cavaleiros, há um local chamado Escrita, que certamente, como os demais deste nome, descritos nesta obra, deriva de letras ou insculturas rupestres, mas não foi possível encontrá-las. Sobre o caso, diz-nos o nosso amigo reverendo António Bernardo Carriço, natural e pároco de Soutelo Mourisco, confinante com Murçós, em carta de Janeiro de 1931: «De Murçós pedi informações a diversos indivíduos e ninguém me deu notícia de letras ou rabiscos existentes no tal lugar da Escrita. Scrita e não Escrita é como chamam àquela parte do terreno. Não haverá

touro, sepulturas, medidas e uma pedra ornamentada da antiga Capela de São Mamede; SANTOS JÚNIOR, Joaquim R. dos – As serpentes gravadas do Castro do Baldoeiro (Moncorvo – Trás-dos-Montes), 1931. Quanto aos Sefes e Ofiolatria, ver as obras já citadas em várias partes deste trabalho.

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corruptela? Não poderá vir de cripta em vez de escrita? Naqueles sítios existem covas diversas, talvez exploração de minas aqui atribuídas aos mouros. Contam que houve em Murçós uma família, composta de muitos irmãos, todos doidos, e que, quando a loucura os atacava mais, se iam esconder a uma dessas covas. A doidice não era contínua, mas sim sucessiva, até que o último dos irmãos se foi meter numa cova que dizem ter uma galeria bastante comprida e ninguém o viu mais senão morto à boca da galeria, onde dizem viveu anos, indo a família levar-lhe alimento sem nunca lograr vê-lo. Este chamava-se Vicente e deu o nome à tal galeria, ainda hoje chamada Cova do Vicente. Diz a lenda que quando trouxeram para o povo o cadáver do tal Vicente num carro de bois, estes espantaram-se, fugindo de tal forma que ninguém os pode alcançar até certo ponto em que sossegaram e a passo lento se encaminharam para casa do dono, tendo desaparecido o cadáver do Vicente». Estas lendas de homens que vivem em galerias subterrâneas, grutas, cavernas, etc., como o Malato, de que falámos no artigo Quintela, a mulher que viveu sete anos em conúbio com o diabo nos Buracos de Jac-mi-Jorge no termo de Mairos, concelho de Chaves (1676), talvez se relacionem com a vida das cavernas. Ainda sobre o assunto dizia-nos em carta de Dezembro de 1930 o nosso amigo Padre António Manuel Figueiredo, pároco de Murçós: «Fiz tudo por saber onde era a tal pedra Escrita, dizendo-o publicamente à hora da Missa e depois indagando particularmente, e não houve ninguém que me dissesse coisa alguma, nem se lembram de que alguém o soubesse». No termo de Agrochão, concelho de Vinhais, há também um local chamado Escrita, mas como o termo deste povo confronta com o de Murçós, trata-se do mesmo sítio, que segundo a lenda, é o centro onde convergem as feiticeiras a fazer o sabat em descantes e bailados. Oleirinhos. Na fraga da Patada do Mouro, termo de Oleirinhos, freguesia de Meixedo, concelho de Bragança, na margem do rio Sabor, estava gravada a figura de um pé humano, impressa por um mouro, quando ia a fugir na ocasião de serem expulsos destes sítios. Já não existe (1677). Foi destruída por uns sonhadores de tesouros, e ultimamente pelos anos de 1920 despedaçaram também a fraga ao abrirem uma agueira de rego ao correr do rio, mas ainda falámos com muita gente que viu a inscultura. (1676) Ver o nosso opúsculo Chaves – Apontamentos arqueológicos, p. 43. (1677) LOPO, Albino, O Arqueólogo Português, tomo 15, p. 317.

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Ousilhão. Na Fraga da Vela, também chamada Fraga da Ferradura, termo de Ousilhão, concelho de Vinhais, há o sinal de uma ferradura bem nítida gravada no rochedo. Recentemente deram cabo da inscultura ao tirarem alguns pedaços da rocha para degraus de uma escada, segundo nos informou o digno professor de Ousilhão, Manuel Chamorro. Diz a lenda que a ferradura fora gravada pela pata do cavalo de um mouro perseguidor de Santa Comba, que ao chegar à fraga dissera: «Abre-te fraga bendita, que no mundo ficarás escrita». De repente a fraga abriu-se para recolher a santa e livrá-la do mouro. Perto do rochedo havia uma capela dedicada a Santa Comba, que, arruinando-se, transferiram a padroeira para a igreja matriz da povoação, perseverando contudo os toponímicos Monte de Santa Comba e Fraga das Ferraduras, derivados do local da capela e das gravuras do rochedo. Outeiro. Na Vinha do Judeu, sítio do termo de Outeiro, concelho de Bragança, há uma fraga com letras ou rabiscos.

Paradinha Nova. Os petróglifos acima [321] encontram-se na Escrita ou Fraga Escrevida, sita no local chamado Ribeira de Ansiães, termo da Paradinha Nova, concelho de Bragança, coisa de dois quilómetros e meio do povo, na vertente Sul, caindo para o Sabor, do qual distam passante de quatrocentos metros, numa rocha granítica própria da região, que terá 2,60m de altura e 3,5m de largura. A fraga apresenta uma superfície tão lisa MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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e aprumada, que parece que foi aparelhada intencionalmente. Mais seriam os petróglifos, porque na base tem a malvadez despegado lajes do monumento. Este fragueiro era o altar onde os mouros (que viviam numas cavernas agora muito entupidas pelos pastores e ociosos, sitas abaixo coisa de vinte metros) vinham celebrar Missa, segundo afirma a lenda popular. Em frente, no outro lado do caborco Sul, que corre para o Sabor, há outro penhasco insculpido, segundo nos afirmaram, mas não tivemos coragem de lá ir, devido à enormidade dos fragueiros e ao escabroso do sítio, que verdadeiramente é o belo horrível, esparso em vistoso e variado panorama, com ravinas que assombram e mesmo os carreiros de cabras faltam. São frequentes os sinais cruciformes nas insculturas rupestres, tanto portuguesas como estrangeiras. Alguns dos acima indicados encontram similar na fraga da Eira dos Mouros (Galiza, Espanha) (1678), mas outros diferem, e com os de Carviçais, descritos pelo Doutor Santos Júnior. O Doutor Mendes Correia (1679) estuda e reproduz em estampas os sinais existentes nos rochedos entre os montes de Vila Meã e Sampaio, ao Sul das Pedras Salgadas (Vila Pouca de Aguiar) e os de Outeiro Machado (Chaves), nos quais se encontram muitos cruciformes (além de ferraduras e covinhas) semelhantes aos nossos da Paradinha Nova. O mesmo arqueólogo atribui estes petróglifos ao neolítico final e inícios do bronze e, baseado em Breuil, Cabré e Obermaier, interpreta as cruzes por símbolos estilizados da figura humana, com ponto central, como última fase evolutiva do esquema masculino e do feminino as que o não têm (1680). O Doutor Joaquim Fontes (1681) estuda e dá o gravado das insculturas existentes nos fragueiros do Gião (Arcos de Valdevez), constantes de sinais cruciformes, muito relacionados com os da glíptica bragançana, principalmente com estes da Paradinha Nova. Na interpretação segue pelo teor indicado. A propósito da estranheza que aos profanos pode causar a interpretação acima, lembramos o pensar de um grande mestre, mundialmente reconhecido. Diz ele: «Dificil seria en muchos casos adivinar la derivacion de estos dibujos de la figura humana e animal, si no existiese toda la gradación en la transformacion de las figuras desde el dibujo naturalista hasta el esquema geometrico final» (1682).

(1678) CARBALLO, J. – Pre-historia universal..., p. 318. Ver OBERMAIER, H. – El Hombre fósil, p. 358, onde há alguns sinais pelo tipo destes. (1679) CORREIA, Mendes – Arte rupestre em Trás-os-Montes (Portugal), 1929, p. 122 e seg., separata da «Revue Arqueologique». (1680) CORREIA, Mendes – Arte rupestre em Trás-os-Montes, 1929, p. 135. (1681) Revista de Arqueologia (1932), p. 79 e 235. (1682) OBERMAIER, H. – El Hombre fósil, p. 365.

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As insculturas constantes do gráfico junto encontram-se na Fraga das Ferraduras, monólito solto, que está no sítio chamado Da Casa, coisa de quatrocentos metros do cabeço de Mata Mouros, termo da Paradinha Nova, concelho de Bragança, quilómetro e meio a Sul do povo e dois da Escrita ou Fraga Escrevida, atrás mencionada. O monólito tem de comprimento 3,74m, de largura 2,64m e de grossura em média 0,54m. Debaixo dele já os idiotas têm feito escavações à cata de tesouros, que nunca aparecem. Dois metros distantes deste há outro quase idêntico em dimensões, que também apresenta covinhas. Como vemos, às covinhas e ferraduras associa-se a forma de um pé humano, bem nitidamente gravado, e outro que damos em forma ponteada, por ser menos perceptível. Pela inscultura do pé, aproxima-se um tanto da pedra votiva de Rosinos, mencionada por Moreno (1683), na vizinha província de Zamora (Espanha), e de outras que referimos nos artigos Ifanes, Póvoa e Travanca. Quis-nos parecer que os dois monólitos serão os restos de uma anta. No cume do cabeço de Mata-Mouros fica o Piocho ou Feira dos Mouros, também chamado Toural dos Mouros, onde há uma fonte e um recinto fortificado por restos de muros. Diz a lenda que uma moura encantada todos os dias depositava seis vinténs novinhos em folha, para um pobre a quem os prometeu, compadecida da sua miséria. Um dia comprou o pobre na feira um chocalho, e quando o vendedor lhe notou o brilho da moeda respondeu soberbo que todos os dias lha trazia à Fonte do Piocho uma moura encantada. Esta indiscrição bastou para nunca mais encontrar na fonte a dádiva da moura benfazeja.

(1683) GOMEZ MORENO, Manuel – Zamora..., 1927, figura 3 e texto n° 118.

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Ainda no Cabeço de Mata-Mouros há um sítio chamado Fojo, e algumas centenas de metros abaixo fica o Castelo Sanguinho, onde aparecem telhas de rebordo, cerâmica própria dos castros bragançanos, mós manuárias, restos de muros e fossos. Também a nascente do mesmo povo de Paradinha Nova, coisa de um quilómetro, fica o Penedo da Arquinha, que provavelmente deriva o nome de alguma anta ali existente, da qual nenhuns indícios encontrámos, devido talvez à cultura cerealífera do terreno. Quando no regresso a casa passámos em Coelhoso vimos, metida na parede de um quintal em frente ao largo da fonte, no meio do povo, a pedra com o brasão de armas de que falámos no tomo VI, p. 752, destas Memórias. Triste fadário persegue o monumento! Até há pouco andou aos tombos pelas ruas e charcos do povo; agora, querendo resgatar o passado, alindaram-no, limparam-no, avivaram-lhe os emblemas heráldicos, relevando-os a cinzel no granito, e o canteiro, provavelmente leigo no assunto, sem hesitações, raspou e adicionou segundo entendeu. Nas armas, que pareciam dos Almeidas, tirou os besantes e deixou apenas os traços da doble cruz; no bico da ave, em vez do que parecia uma carta, deixou uma cruz inscrita num círculo, e a mesma cruz e círculo fez nos ângulos formados pela aspa do primeiro quartel, no centro dela e nas suas quatro extremidades. Tudo isto sem mais critério do que avivar o que lhe parecia ver. É por estas e por outras que os epigrafistas quebram inutilmente a cabeça para resolver charadas que a não têm. Peredo da Bemposta, concelho do Mogadouro. No sítio chamado Pala dos Mouros há «uma enorme fraga que dizem ser habitada por mouros e ter divisões; no tecto há uns círculos que dizem ser o esconderijo das espingardas». Dizem que encerra tesouros encantados e têm lá ido fazer escavações, mas sem resultado. Pinheiro Novo. Na Fraga do Sarilho, termo do Pinheiro Novo, concelho de Vinhais, há um sarilho (estrela de quatro raios ou cruz grega) insculpido na rocha pelos mouros. No sítio de Trás da Calçada, termo da mesma povoação, conservam-se as ruínas de uma capela dedicada a Santa Rufina, cuja padroeira foi levada para a igreja depois de arruinada a capela, tendo, contudo, fugido três vezes para esta, antes de se fixar na igreja. Diz a lenda que esta capela foi erigida por um cavaleiro que, vendo-se perdido por se lhe esbarrar o cavalo, recorreu à santa. Numa fraga próxima vê-se ainda gravada a ferradura do cavalo, e junto à capela apareceu uma sepultura pelo tipo das cistas e restos de edifícios. Ver o artigo Carviçais. Como nas ruínas da capela vive uma moura encantada, a fértil imaginação popular vê ainda nas insculturas rupestres a sertã e a colher, aprestes da sua MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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culinária. Ver «Assares» e «Cisterna» no artigo Pré-história, ao tratar do «Neolítico». É possível que as insculturas astrais – sol, lua, estrelas, etc. – não sejam meramente decorativas e se relacionem com cultos de carácter heliolátrico, de que ainda se encontram vestígios etnográficos entre nós.

Póvoa. Esta inscultura encontra-se numa fraga granítica pouco elevada acima no nível do terreno, coisa de duzentos metros ao Norte da povoação da Póvoa, concelho de Miranda do Douro, junto à capela do Divino Espírito Santo. O povo chama-lhe Pegada do Mouro, e realmente tem muita semelhança com o gráfico de um pé direito descalço.

Fraga do Gato

Rebordaínhos. No termo desta povoação do concelho de Bragança, a marginar com o das povoações de Viduedo e Lanção, fica um elevado rochedo, chamado Fraga do Gato pelo povo, que tem no topo as insculturas constantes do gráfico acima. Parecem naturais e devidas a influências meteorológicas, mas o povo vê lá insculpido um gato, coisa que nem eu nem o amigo tenente João José Vaz de Morais de Abreu Sarmento, que na ocasião da visita lhe tirou o desenho, apercebemos. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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Rebordãos. No planalto da Senhora da Serra, termo de Rebordãos, concelho de Bragança, nove metros distante da Fonte do Milagre, também chamada Fonte da Senhora, na parte voltada para a povoação de Lanção e para as insculturas de Sortes, que damos no artigo respectivo, das quais dista coisa de três quilómetros, há uma fraga granítica de dois metros e dez centímetros de comprimento por um de grossura na parte mais grossa, disposta em plano inclinado, na qual se vêem três ferraduras da burrinha de Nossa Senhora, quando por ali passou na fuga para o Egipto, segundo diz o povo, rebaixadas na superfície do rochedo, na disposição e formato indicados pelo gráfico junto. A mais elevada tem 0,18m de comprimento por 0,06m de largura; a do meio 0,15m de diâmetro e a do fundo 0,10m de comprimento por 0,10m de largura. Ficam a pequena distância do Santuário da Senhora da Serra, muito concorrido de devotos, sito no píncaro da Serra de Nogueira, e, pela disposição e formato, ligam-se às de Carocedo e Rebordelo, de que tratámos, também sitas perto de santuários. Rebordelo. A – Capela de Nossa Senhora da Penha de França. B – Fonte da Virgem. C – Fenda no rochedo por onde a Senhora se sumiu.

Fraga das Ferraduras

Junto à povoação de Rebordelo, concelho de Vinhais, distante cem metros da capela de Nossa Senhora de França e ao lado da Fonte da Virgem, fica a Fraga das Ferraduras, de largura variável mas regulando por cinco metros e treze centímetros de altura. É de granito; tem parte enterrada na terra e apresenta visível uma superfície lisa muito inclinada, na qual estão gravados os sinais da figura junta, símile de rochedo. A linha maior de sinais tem de comprimento 5,5m e a distância entre eles vai de 0,20m a 1,20m.

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Na base esquerda do fragueiro fica a nascente chamada Fonte da Virgem, cuja água sempre está benta, podendo ser bebida mesmo no período agudo de qualquer doença sem perigo, segundo diz o povo. No dizer da lenda, andando Nossa Senhora pelo mundo, ao chegar à fraga em questão foi surpreendida pelos mouros, que a perseguiam para a matar (1684). Então ela fez trepar a burrinha pela rocha acima, que se abriu e fechou na fenda C, escapando assim aos perseguidores e ficando na rocha os sinais das ferraduras. Realmente, algumas insculturas apresentam configuração de ferradura pelo teor das indicadas neste trabalho, mas outros sinais são fechados em forma oval. Carballo (1685) dá as gravuras de um rochedo muito semelhantes a estas no feitio e disposição, existente na província de Santander (Espanha), e diz que se relacionam com o culto prestado nos Campos Sagrados durante os períodos neolíticos e eneolíticos. Ver os artigos: Moimenta, p. 636, e Lamas de Orelhão, p. 450. Ride Vides. No termo de Ride Vides, concelho de Alfândega da Fé, há um sítio chamado Pedra Escrita, assim denominada do fragueiro insculturado ali existente. O rochedo é de xisto e a glíptica estende-se por uma superfície talvez de doze metros quadrados e dista coisa de trezentos metros do povo. Foi o amigo Francisco António Esteves, mestre de serralharia artística na Escola Industrial de Bragança, que primeiro nos deu notícia do monumento em Janeiro de 1927, notícia que depois divulgámos no opúsculo Trás-os-Montes, que faz parte da colecção Portugal na Exposição de Sevilha. As insculturas constam de muitos traços, uns maiores, outros mais pequenos, alguns rectos e outros curvos, dispostos paralela ou triangularmente, já em grupos, já isolados, entremeados de sinais alfabéticos, serpentiformes, covinhas e ferraduras com ou sem ponto central, tudo irregularmente localizado. Como ao carácter geral deste tomo das Memórias não interessa o estudo de conjunto do monumento, estudo que o nosso amigo Doutor Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior, da Universidade do Porto, se propõe fazer [322], limitamo-nos a dar um gráfico dos sinais de tipo geométrico (figura 1) e cópia de um trecho insculturado na fraga (figura 2), que abrange ferraduras, covinhas, sinais alfabéticos e serpentiformes, para se ajuizar da irre(1684) Aqui, a variante de judeus para mouros provirá de não quererem avivar o conhecido apodo referente aos de Rebordelo. Ao meu parente e amigo David Tiago Pires, ao tempo professor de Rebordelo, agradeço o croquis da Fraga das Ferraduras. (1685) CARBALLO, J. – Pre-historia universal y particular de España, p. 208.

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gularidade dispositiva, segundo um desenho tirado pelo bom amigo João José Vaz de Morais de Abreu Sarmento, tenente do exército. Alguns sinais aproximam-se das letras ibéricas; as covinhas, ferraduras e serpentes aparecem noutras estações rupestres bragançanas resenhadas neste trabalho. Ver o artigo Antas, na parte referente às de Vilarinho da Castanheira e Zedes.

Ride Vides – Figura 1

Ride Vides – Figura 2

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S.

N.

Um aspecto dos sinais da Pedra Escrita de Ride Vides, concelho de Alfândega da Fé, segundo uma fotografia que nos enviou o Doutor Santos Júnior

P.

N.

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O Doutor L. de Vasconcelos (1686) reproduz o desenho de pedras insculturadas por traços aparecidas no Algarve, que de algum modo se relacionam com estas de Ride Vides e com as de Sortes, adiante apontadas. Saldonha. Na Pena do Gato, termo de Saldonha, concelho do Mogadouro, há um tesouro encantado. O nosso informador tem ouvido dizer que ali está gravado numa fraga um gato e umas letras, mas nunca viu essas insculturas devido a lidar pouco para aqueles sítios. Samorinha. No termo desta povoação, quase na confrontação com o de Zedes, tudo no concelho de Carrazeda de Ansiães, um pouco abaixo da capela da Senhora da Graça, sita no cume de um cabeço, em rocha granítica, pouco elevada, encontram-se, na disposição e formato do gráfico que acompanha este artigo, as catorze insculturas dadas no mesmo, chamadas ferraduras pelo povo. A o b o m amigo Padre Félix Rodrigues Lopes, nosso companheiro nas lides arqueológicas do Vimioso, devemos também o desenho deste monumento. Sampaio. Na Fraga das Cruzes, termo de Sampaio, concelho do Mogadouro, há quatro ou cinco cruzes, mas não são muito antigas, diz o soldado nosso informador. Santa Combinha. Dizem que na povoação de Santa Combinha, concelho de Macedo de Cavaleiros, ha uma pegada incisa numa fraga.

(1686) VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, vol. 1, p. 387.

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São Pedro Velho. No sítio da Gândara, termo de São Pedro Velho, concelho de Mirandela, há um lagar cavado na rocha. Pelo formato, relaciona-se com os do Castro Baldoeiro (Moncorvo), Lamalonga e Penhas Juntas. Seixo de Ansiães, Pinhal do Douro, Parambos e Ribalonga. «Na freguesia de Seixo de Ansiães, no caminho daquela povoação que conduz ao Rio Douro, no sítio denominado Calçadas, existe na borda do caminho uma pedra rectangular, medindo aproximadamente 0,60m de comprimento por 0,40m de largura orientada no sentido E.-O., tendo na parte extrema E. uma escavação semelhante a uma ferradura inglesa, e um pouco atrás desta uma cruz também gravada na dita pedra. Diz a lenda que o diabo, montado no seu cavalo, desejando juntar-se às feiticeiras que habitualmente às sextas-feiras dançam pela meia-noite na fraga do Sívio ou Ola, queda de água de mais de trinta metros de altura, um pouco abaixo da povoação do Pinhal do Douro, onde existem também sinais da ferradura do cavalo, deu um salto do caminho até ali, alcançando assim de um pulo os seis mil e quinhentos metros que separam os dois pontos. Existe a um terço de distância que separa o lugar das Calçadas do de Sívio, uma pequena elevação de terreno, com penedos e junto a um curral, um sinal de ferradura idêntico aos dois precedentes, que se supõem feitos pelo cavalo do diabo ao dar o formidável salto» (1687). Noutras partes apontámos idênticas explicações lendárias. No termo de Parambos, concelho de Carrazeda de Ansiães, à beira de um caminho, no sítio chamado Fraga das Ferraduras, há um fragueiro que tem gravuras por este formato, de que lhe veio o nome ao rochedo. Também no sítio das Ferraduras e na Eira da Codeceira, termo de Ribalonga, do mesmo concelho de Carrazeda de Ansiães, há insculturas em forma de ferradura (1688). É no concelho de Carrazeda de Ansiães que mais abundam as estações rupestres, devido, talvez, a predominarem os granitos, destacando-se os sinais ferraduriformes. Sendim. No termo de Sendim, freguesia de Edral, concelho de Vinhais, há uma grande fraga de seixo, com mais de nove metros de altura, que tem junto ao cimo uma estrela insculpida, de que só se percebe parte, pois a outra foi comida pelo tempo e apresenta apenas vestígios de raios. O povo

(1687) Informação do Dr. Vitorino Cabral de Sampaio, médico em Carrazeda de Ansiães, em 1932 comunicada ao tenente João José Vaz de Morais de Abreu Sarmento e este a nós. (1688) SANTOS JÚNIOR, Joaquim R. dos – Gravuras rupestres de Linhares (a Fraga das Ferraduras), 1933, p. 4, em nota.

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chama-lhe Fraga da Estrela. No meio da estrela há gravado um animal bovino (?), e, saindo na extremidade para onde fica a cauda, vê-se a cabeça de outro animal, lagarto ou coisa parecida. Cerca de dois metros e meio abaixo destas gravuras, há covinhas, já muito delidas, de forma elipsóide e uma maior circular, tudo na disposição indicada pelo gráfico junto. É possível que as covinhas fossem mais, mas já se não percebem. Perto deste rochedo havia outro chamado Fraga da Mula, por ter lá uma insculpida, que muita gente se lembra de ter visto, mas, gasta pelo tempo, já não se percebe. Perto deste fragueiro fica o sítio chamado Covas da Fonte, onde houve Fraga da Estrela «Praça de Mouros», diz o povo e a lenda afirma que lá existia uma grande pedra com estes dizeres «Debaixo de mim haverá um grande tesouro». Virando-a, uns sonhadores de tesouros encontraram nela escrito o seguinte: «O tempo que estive para baixo hei-de estar agora para cima». Temos encontrado esta lenda aplicada a outros penedos e até com mais tique poético, dizendo: Debaixo de mim um grande tesouro está enterrado. Deus seja louvado; já estou do outro lado. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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E outros ainda: Quem me virar Grande tesouro há-de achar. Deus seja louvado; Já estou do outro lado. Ainda noutro sítio próximo, chamado Fragas, há duas cavernas que se comunicam interiormente por uma escada aberta na rocha e outra mais pequena, sem ligação com as duas anteriores. Neste sítio das Fragas existem ruínas de mouros, vestígios de casas e numa fraga há gravados sinais em forma de ferradura. Às cavernas aplica o povo a lenda da moura encantada a tecer e a de os mouros saírem delas a levar os cavalos a beber às Covas da Fonte. Também, segundo a mesma lenda, um lavrador que andava arando ali perto encontrou no sulco do arado uma bola de oiro e, querendo apanhá-la, como se lhe escapava sempre das mãos, exclamou: «Valha-me Deus, que será isto?», imediatamente a bola desapareceu a regingar pela ladeira abaixo para o ribeiro sem mais a ver. Em frente de Sendim, do outro lado do rio Rabaçal, fica a povoação de Segirei, já pertencente ao concelho de Chaves, onde há as notáveis ruínas da Cidadelha (1689), nas quais apareceu um falus de pedra. Como em mais de uma parte deste trabalho nos referimos a estrelas e outras figurações astrais insculpidas em fragas bragançanas, lembramos que o Doutor Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior, da Universidade do Porto, encontrou no abrigo chamado Pala Pinta, sito no termo do Franzilhal, concelho de Alijó, contíguo ao de Carrazeda de Ansiães, umas pinturas (1690) na fraga de configuração astral adjuntas a outros sinais, que atribui à época do Bronze [323]. Serapicos. As insculturas que acompanham este artigo encontram-se numa rocha de xisto, que visitámos a 17 de Maio de 1932, no termo de Serapicos, concelho de Bragança, coisa de trezentos metros a Sul do santuário da Senhora do Aviso (Viso?), junto à Fonte dos Engaranhos, no meio do caminho que do santuário segue para Sanceriz. A rocha é de secção triangular e levanta uns três palmos à superfície do terreno; o seu comprimento regula por dois metros. Infelizmente, está condenada a desaparecer, devido (1689) Ver o nosso opúsculo Chaves – Apontamentos arqueológicos, p. 38, onde as descrevemos. (1690) Ver SANTOS JÚNIOR, Joaquim R. dos – O abrigo pré-histórico da «Pala Pinta», 1933, p. 8, onde as reproduziu acompanhadas de eruditas explicações, segundo costuma.

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ao atrito dos passageiros, e já estaria gasta de todo se não fosse a particularidade do seu formato triangular, que obsta à passagem por cima dela. Na figura 1 está escrito, com letras do nosso alfabeto e, ao que parece, não contemporâneas dos sinais, o nome que lemos Pulibeus (Pulibeo). A 1a letra é clara; entre esta e a 2a fica um espaço onde cabia uma ou duas letras; a 2a, 3a e a 4a são traços, que entendemos ter copiado bem. A 5a e a 6a não oferecem dúvida; as seguintes são apenas os traços que vimos.

Insculturas do lado nascente – Figura 1

Insculturas do lado poente – Figura 2

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Deste lado nascente apenas se vêem os sinais indicados no gráfico na disposição que lhe demos. É possível que houvesse mais, mas desapareceram por falhas na rocha, devido a lascas levadas pelo tempo ou pelo roçar do calçado. Na figura 2 há também escrito o nome biovodra (a 3a letra e as seguintes até ao fim são nitidíssimas e não oferecem dúvida) e uns algarismos, que dirão: De 1797. Tanto estes como aquele nome e as quatro letras do fundo são relativamente modernas; os outros sinais, nitidamente incisos, quer os deste lado poente da rocha, quer os do lado nascente, têm a patine bem cognoscível do tempo, coisa que falta às letras alfabéticas modernas e algarismos. A Fonte dos Engaranhos, como muitas outras deste nome (1691), é muito procurada pelas mães de crianças atacadas de raquitismo (engaranho), que lá as vão banhar com certos formalismos rituais para obter a cura. O santuário da Senhora do Aviso fica no extremo de um planalto, terminado abruptamente em forma cónica, tudo indicando, pela posição topográfica e largos horizontes, corresponder aos pontos tácticos denominados Facho, Esculca, Esculqueira, Viso, Mira, Bandeira e Pendão. Seria natural que ali tivesse existido um antigo Castro; mas, por mais pesquisas que fizéssemos à superfície do terreno, nada vimos confirmativo de tal; apenas a lenda diz que lá vive uma moura encantada. A capela da Senhora do Aviso foi reconstruída nos fins do século passado pelo grande benemérito José Maria de Sá Morais, de Serapicos, que jaz na capela-mor em campa rasa inscricionada. Não tem mérito arquitectónico; todavia o frontispício inculca ar de fachada românica. É muito visitada de romeiros, que de muitas léguas em redondeza lá acorrem, principalmente no dia da festa principal, celebrada na terça-feira seguinte à dominga do Pentecostes, ou seja do Espírito Santo. Da estação de Salsas, via férrea de Bragança, ao Santuário da Senhora do Aviso são sete quilómetros de bom caminho e atraente panorama. Sobreiro. No sítio chamado Pedras Brancas, termo de Sobreiró, concelho de Vinhais, um pouco ao Norte do caminho que sai do povo, «há um buraco numa pequena rocha, com abertura voltada para Sueste, tendo dentro, do lado direito, em forma circular, outro de menor tamanho, havendo ainda no interior deste segundo uma figura circular, que parece de argamassa, de pequenas dimensões. O povo diz que naquela cavidade se ouve o ruído de uma corrente de água que passa no subsolo». Realmente produz-se lá um som idêntico ao da água a correr. Sortes. Uns dois quilómetros a poente de Sortes, concelho de Bragança, à beira do caminho que sobe para a Senhora da Serra, há umas pequenas (1691) Ver artigo Águas, p. 90 e seg.

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fragas de xisto, que correm de nascente a poente, e numa delas talhada em forma de banco com encosto, voltada a Sul, estão insculpidos os sinais representados no gráfico, numa extensão de três metros que vi pela primeira vez em 2 de Setembro de 1930. Ao local chama o povo a Escrita ou Pena Escrita e ainda Fraga dos Fusos, pela semelhança que algumas letras têm com este apreste industrial. Já aparece com o nome de «Vale de Pena Scripta» no Tombo dos bens do Mosteiro de Castro de Avelãs feito em 1501 manuscrito existente no Museu Regional de Bragança.

Insculturas de Sortes – Figura 1

Um pouco abaixo da Pena Escrita, junto ao mesmo caminho, fica o sítio chamado Marroninho, onde ainda se vê o resto de um fosso a poente e muita abundância de telha de rebordo. Diz o povo que foi aqui a primitiva povoação de Sortes, de onde mudou para o local agora ocupado, um pouco mais abaixo. Algumas das insculturas aproximam-se das letras ibéricas. Desenho do amigo e companheiro da excursão arqueológica João José Vaz de Morais de Abreu Sarmento. É de notar que na fraga as insculturas das três figuras que damos se encontram no mesmo plano horizontal, umas a seguir às outras, e não umas por baixo das outras em plano vertical, como aqui se vêem [324]. Tó. Na Fraga da Moura, termo de Tó, concelho do Mogadouro, há gravada a pegada de uma moura. Travanca. Na Fraga do Peredo Galego, termo de Travanca, concelho do Mogadouro, estão gravadas as ferraduras de um cavalo. Numa casa desta povoação há figuras interessantes em relevo nos fitos e soleiras das janelas, de tipo medieval. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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As figuras 2 e 3 representam uma fraga de xisto ardosiado, existente no termo de Travanca, concelho de Macedo de Cavaleiros, a um quilómetro daquela povoação e a dois da vila, pouco mais ou menos, à esquerda do caminho e distante dele coisa de cem metros, que vai de Travanca para a estação de Grijó de Vale Benfeito, na via férrea. O povo chama-lhe a Fraga das Ferraduras.

Insculturas de Sortes – Figura 2

Insculturas de Sortes – Figura 3

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Até ao ponto A a fraga constitui um todo só e depois separa-se em duas, alteando-se em forma cónica. A fig. 1 tem de altura acima do solo coisa de dois metros e de largura perto de três. A fig. 2 tem a mais em altura e largura coisa de um palmo. São perfeitamente visíveis à distância, porque não há mais fragas em volta e elevam-se numa pequena eminência circuitada por campos planos de lavoura. As insculturas estão na parte voltada a nascente, dispostas quase com regularidade em linhas horizontais, sendo de conjecturar que esse alinhamento fosse completo, apesar de hoje se não manter integralmente, devido talvez a mutilações naturais ou vandálicas no monumento. O número menor de sinais na fig. 2 é, provavelmente, devido a essas mutilações, que talvez também causassem a falta de proporção nas distâncias. Tanto numa como noutra figura damos os sinais que vimos segundo a sua disposição e formato. Na fig. 2, um pouco abaixo dos dois sinais superiores, vimos uma covinha que nos pareceu de tipo arqueológico, mas talvez não seja. Figura 2 Figura 1 Em a Ilustração Trasmontana (1910, p. 142) demos inicialmente notícia da Fraga das Ferraduras de Travanca, depois publicada por D. Cândida Florinda Ferreira (1692).

INSCULTURAS DE TRAVANCA (Figura 3, p. 661) a – A esta figura chama o povo Pé Descalço, isto é, sinal na configuração do pé descalço. Tem 0,24m de comprimento e 0,05m de fundura. b – Esta figura diz o povo que é o Pé Calçado. Tem 0,25m de comprimento e 0,10m de fundura e comunica por um pequeno sulco com uma das fossetas maiores. c – Esta figura foi arrancada à fraga pelo indivíduo que me deu notícia dela; agora conserva-se no Museu Regional de Bragança, onde a depositei.

(1692) FERREIRA, Cândida Florinda – Carrazeda de Ansiães – Notas monográficas [1932], p. 74.

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As fossetas maiores, se assim lhe posso chamar, têm de diâmetro 0,10m e de fundura 0,08m, e as menores 0,025m x 0,02m. As cruzes, todas de braços sensivelmente iguais, têm: as mais pequenas 0,02m e as menores 0,22m. Estas insculturas encontram-se gravadas numa rocha de xisto existente na vertente Sul da montanha da Coroa, um pouco acima da ribeira de Carriças, dois quilómetros a poente de Travanca, concelho de Vinhais, e um do marco geodésico da triangulação primitiva, sito no cume da montanha, onde confinam os termos de algumas povoações. A fraga não tem aparelho algum; é muito irregular, com altos, baixos, saliências e reentrâncias. O seu comprimento regula por quatro metros e a largura vai de 0,30m a dois metros. Como o terreno é muito inclinado, fica toda enterrada na terra, menos a parte insculturada.

Figura 3

O povo chama-lhe Fraga das Patinhas da Burrinha de Nossa Senhora, e diz que as insculturas são pegadas da Senhora e ferraduras da burrinha postas do avesso, pois assim ela ia ferrada para desorientar os judeus que a perseguiam na fuga para o Egipto (1693).

(1693) Na capela de Penso, concelho de Vinhais, nove quilómetros distante destas insculturas, há uma imagem de Nossa Senhora montada na burrinha com as ferraduras pregadas às avessas.

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Perto destas insculturas, no termo da povoação de Nuzedo de Cima, há uma fraga com duas cavidades, na semelhança das fossetes atrás indicadas, chamadas malgas pelo povo, e dois pés de grandeza desigual, a que anda ligada lenda igual à das insculturas de Travanca. Ao ilustrado professor de Vinhais, Manuel Jerónimo Pires, agradecemos a indicação que nos deu desta estação rupestre. No Lombo da Escrita, sítio do termo de Vilar de Ossos, concelho de Vinhais, também perto das insculturas que vamos mencionando, nada encontrámos, apesar de o toponímico parecer indicar qualquer coisa; mas no sítio contíguo, chamado Escusanha, há um sinal em forma de ferradura bem nítido, gravado numa fraga, e perto ficam as insculturas de Lagarelhos, indicadas no respectivo artigo. Ainda no termo de Travanca, mas já a confinar com o de Paçó, no sítio chamado Marcão, há uma fraga que tem insculpidas duas cruzes de um palmo de altura pouco mais ou menos, semelhantes no feitio às da Fraga das Patinhas da Burrinha de Nossa Senhora. Coisa de um cento de metros desta fraga do Marcão há duas mamoas, nove ou dez metros uma da outra, ainda bem patentes, formadas por largo e elevado montículo de terra, já profanadas, a julgar pela depressão central. É curioso notar como o povo deu aqui o nome de Marcão às antas, por entender que estes montículos de terra eram para indicar a linha divisória dos termos. Na verdade, o marco romano tinha uma certa analogia com as antas, segundo dizemos noutra parte. A dois quilómetros destas antas fica a conhecida pelo nome de Montão de Terra no termo de Paçó, de que tratámos noutra parte. Insculturas de Travanca – Figura 4 MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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As insculturas da fig. 4 estão no sítio do Marcão, um pouco mais abaixo da fraga das duas cruzes atrás mencionada, termo de Travanca, concelho de Vinhais, numa penha de xisto com cerca de três metros de comprimento, por 1,50m de largura e 0,70m de grossura. As cruzes são umas maiores outras mais pequenas, bem como as fossetas havendo algumas da capacidade de uma pequena tigela de caldo. Distante desta fraga coisa de seis metros há uma outra que também tem algumas cruzes, mas já quase apagadas pela erosão do tempo. Perto, no sítio da Vidoeira, à esquerda do caminho que de Travanca conduz a Vinhais, há concavidades subterrâneas que foram habitadas pelos mouros, e não longe encontrou um lavrador arando duas mós manuárias, e uma mulher de Travanca um machado neolítico, de pedra, que guarda religiosamente, porque supõe ser um raio e ter virtude contra as trovoadas. Ao inteligente aluno teológico do Seminário de Vinhais, Augusto do Espírito Santo Morais, natural de Travanca, agradecemos a notícia que nos deu desta estação rupestre. Urrós. No sítio de Tomelar (Fonte e Ponte de), termo de Urrós, concelho do Mogadouro, numa fraga próxima da ponte, está gravada a pegada do diabo, diz o povo, quando por ali passou em perseguição de Nossa Senhora, que fugia para o Egipto. Também no termo da mesma povoação de Urrós há um fragueiro chamado Pena Campã, que tem uma cavidade onde cabe um homem e está cheia de outras mais pequenas, ao que parece feitas por correntes de águas, apesar de não estar próximo delas. Quando se lhe toca emite um som como de sino, de onde lhe vem o nome de Pena Campã. Vale de Fontes. Nesta povoação, anexa de Miranda, existe uma pedra com letras; informação de Mendes Pereira. Vale Frechoso. Nas Fragas da Pena do Corvo, termo de Vale Frechoso, concelho de Vila Flor, está insculpida uma raposa em sinal de tesouro encantado, para o qual olha. Na Costa, termo da mesma povoação, à beira do caminho que liga Vale Frechoso com a estação do Cachão na via férrea, havia gravada uma ferradura numa fraga, também como sinal de tesouro, mas já não existe por se ter gastado com o roçar do calçado dos transeuntes. Vale de Lamas. Passa no termo de Vale de Lamas, concelho de Bragança, o rio de Igrejas, que entra no Sabor em Gimonde, e no sítio chamado Poço do Seixo, à beira da água do rio, há numa fraga voltada a sul muito interessantes gravuras, de lindo efeito, semelhando pegadas de lobo, gato e ainda saltos de sapatos. Algumas estão a desaparecer, outras, porém, muito nítidas. A fraga, de xisto muito duro, regula por 1,20m de altura por 2m de comprimento; é coberta pela água nas enchentes. As insculturas pareceram-me naturais devidas à erosão dos agentes meteorológicos. Meio quilómetro MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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abaixo, no mesmo rio, junto a uma antiga fonte, fica o Poço do Cavalo, onde, numa fraga livre das águas, havia insculpido um cavalo, diz o povo. Desapareceu, assim como desapareceu também o gato, que, segundo afirma o mesmo povo, havia gravado noutra fraga, um quilómetro abaixo, perto do rio, mas livre dele, no Penedo do Gato, nome que lhe veio da inscultura, do mesmo modo que a precedente o legou ao Poço do Cavalo. Também nos informaram que para os lados do Poço do Seixo havia uma ferradura gravada numa fraga. Varge. No sítio do Vale de Salgueiro, termo de Varge, concelho de Bragança, a confinar com o termo de Deilão, dizem que há inciso numa fraga o sinal de uma ferradura. Vila de Ala. Na Serra Alta, termo de Vila de Ala, concelho do Mogadouro, há um poço feito pelos mouros e numa pedra uma argola gravada. Quem a vê uma vez nunca mais a torna a ver. A lenda de a mesma pessoa não tornar a ver os sinais arcaicos que uma vez viu corre em diversas terras do distrito de Bragança. Vila Boa de Carçãozinho. No Crasto, sítio do termo de Vila Boa de Carçãozinho, concelho de Bragança, há o sinal de ferradura gravada numa fraga, na qual está uma moura encantada, e perto ficam os fornos dos mouros, segundo me informaram. Vila Meã. Em Salsas, termo de Vila Meã, concelho de Bragança, dizem que há gravada numa fraga o sinal da pegada de um boi. Vila Verde. As insculturas do gráfico junto encontram-se gravadas num penedo solto no sítio chamado Eira do Outeiro, termo de Vila Verde, concelho de Vinhais, dois quilómetros a sudoeste do povo. A altura do penedo regula por 1,20m, o comprimento por dois e grossura por um. Foi deslocado pelos sonhadores de tesouros do MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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local primitivo, que lhe deram alguns tombos para fazer escavações, que nada produziram. Agora fica coisa de oito metros à esquerda do caminho que de Vila Verde segue para a Eira do Outeiro, perto de um lameiro tapado sobre si. A estas insculturas chama o povo Cara do Gato ou Nariz do Gato à do n° 3 e Pegada da Vaca à do n° 4. Além destas, vêem-se mais as indicadas no desenho. Na do n° 3, os orifícios que representam os olhos do gato têm respectivamente de profundidade 0,02m, o da esquerda de quem olha, e 0,04m o da direita. A Pegada da Vaca tem de comprimento 0,12m, de largura 0,10m e de profundidade incisa na pedra 0,05m. O sulco formado pela figura n° 5 é ladeado por quatro covinhas. Examinando com atenção as insculturas, parece notar-se que o artista aproveitou em parte as depressões e sulcos naturais da pedra que se prestavam à figuração intentada, suprindo artificialmente quanto faltava. Este aproveitamento era corrente entre os artistas paleolíticos (1694). Diz a lenda que o gato estava a olhar para um tesouro encantado, constante de bolas de oiro com que os mouros jogavam os paus, também de oiro. Coisa de vinte metros do Penedo do Gato vimos no caminho enterrada uma laje também insculturada, mas tão gasta do roçar dos passageiros que apenas se lhe percebiam quatro traços verticais em linha na parte superior e um na inferior, seguido de outro do formato aproximado ao algarismo arábico 2. Esta laje tem de comprimento 0,40m, de largura na parte inferior 0,30m e na inferior 0,20m. Na continuação do sítio chamado Eira do Outeiro fica o Cabeço de Cabrões, já no termo de Vinhais, debruçado sobre o Tuela. Foi vinhago antes da invasão filoxérica; agora é matagal espesso de giestas, urzes, carrascos, sobreiros e medronheiros, habitado por javalis e lobos. É tão íngreme, que só rastejando por baixo do mato e agarrado a ele conseguimos chegar à Fraga do Lagarto, sita a meio da encosta coisa de dois quilómetros da do Gato, atrás mencionada. O nome veio-lhe de ter insculpido um lagarto, que muita gente viu mas que já não existe, pelo menos não o encontrámos, apesar de o nosso guia garantir a veracidade da afirmação. Provavelmente foi destruído por malvadez estúpida ou pelos sonhadores de tesouros, desesperados pelas infrutíferas escavações ali praticadas, pois muitos viram a pedra, que era solta e não rocha firme, mas de avantajada grandeza, deslocada do sítio primitivo. Debaixo dela diz a lenda que havia grande riqueza. Perto fica a Fraga do Boi. Haverá nela algum boi insculpido?

(1694) OBERMAIER, H. – El Hombre fósil, 1924, p. 272.

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Em frente da Fraga do Lagarto, do outro lado do Tuela, na raia do termo de Vinhais com o de Nunes, ficam as Fragas do Cavalo Branco, onde dizem havia gravada a figura de um cavalo, mas nada resta dela, segundo nos informaram. Diz a lenda que aqui achou um cavalo de ouro uma família de Vinhais, a qual, sendo pobre, é hoje das mais ricas da vila. Ver p. 622. Ainda a Sudeste de Vila Verde e coisa de um quilómetro do povo fica o sítio chamado Modorra, onde há anos apareceu uma sepultura pelo sistema das cistas, na vertente norte do cabeço conhecido pelo nome de Torre ou Castelo, à distância de cinquenta metros desta. O cabeço é coroado por restos de muros desbaratados, feitos de alvenaria e argamassa, com 1,20m de grossura por 2,5m de altura ainda em alguns sítios, a fecharem um recinto de 21x16 metros. Ainda se divisa nitidamente a porta a nascente. Em volta encontrámos cerâmica idêntica à dos nossos castros, fragmentos de telha de rebordo e mós manuárias. Vilar de Ossos. Concelho de Vinhais. Ver artigo Travanca, concelho de Vinhais, onde dizemos a propósito do toponímico Lombo da Escrita. Vilarinho da Castanheira. No sítio da Tavares, termo de Vilarinho da Castanheira, há letras numa fraga, que ninguém lê. Esta notícia, corrente no povo, foi recolhida pelo Doutor José L. de Vasconcelos (1695), que não chegou a ver a tal fraga, mas depois ao Doutor Santos Júnior, que tem palmilhado a região à cata de insculturas rupestres (1696), parece-lhe que não existem tais letras e somente fendas naturais na rocha que lhe indicaram. Será outra a das letras, visto ele dizer que é na Fraga dos Pais, e a nossa informação indicar o sítio da Tavares? Ou estará neste sítio a tal fraga? Vilarinho dos Galegos. No termo desta povoação, concelho do Mogadouro, «há um castro sobranceiro ao Douro, onde o povo supõe existir um gato de oiro. Há anos um desconhecido ali trabalhou semanas a fio, revolvendo o terreno de ponta a ponta e arrasando as muralhas na sua quase totalidade» (1697). Linhares. No concelho de Carrazeda de Ansiães, quase na raia divisória entre os termos de Ribalonga e Linhares, meia légua distante desta

(1695) VASCONCELOS, J. Leite de, O Arqueólogo Português, vol. 22 (1917), p. 197. (1696) SANTOS JÚNIOR, Joaquim R. dos – Pinturas megalíticas do concelho de Carrazeda de Ansiães, 1930, p. 6, em nota. (1697) SANTOS JÚNIOR, Joaquim R. dos – As ruínas castrejas da Cigadonha (Carviçais), 1929, p. 13, em nota.

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povoação e vinte passos do rio Douro, sobre o túnel da Alegria, na linha férrea do Douro, dois quilómetros da estação do Tua, fica o sítio chamado as Letras, nome derivado dos sinais pintados a azul e vermelho existentes em alto rochedo granítico sobranceiro ao rio. Também o sítio é conhecido por Cachão da Rapa, Cachão da Valeira e ainda Cachão de São João da Pesqueira, por estar próximo da vila deste nome, incluindo o primeiro na designação geral de Cachão da Valeira. As pinturas ocupam uma superfície de quase 3 x 2 metros. Parece que a notícia mais antiga referente às pinturas do Cachão da Rapa foi dada pelo Padre Carvalho da Costa. Diz ele: «Junto ao Douro neste sitio aspero [termo de Linhares] aonde chamão as Letras, está hüa grande lage com certas pinturas de negro e vermelho escuro, quasi em forma de xadréz, em dous quadros com certos riscos, e sinais mal formados, que de tempo imemorial se conservão neste penhasco, e como não são caracteres formados, os não trazemos estampados: os naturais dizem, que estas pinturas se envelhecem humas, e se renovão outras, o que guarda esta pedra algum encantamento; porque querendo por vezes algumas pessoas examinar a cova, que se oculta debaixo, forão dentro mal tratadas, sem ver de quem» (1698). «Ha [dizem as Memórias de Ansiães] em o destricto d’esta aldeia [de Linhares] meia legoa d’ella 20 passos do rio Douro, por cima do Cachão da Rapa em hum grande rochedo de fragas despenhadas ao mesmo rio hum alto penedo que no discurso de 30 palmos de alto abaixo e largueza no baixo e alto de 8 palmos e no meio de 12 estão gravados com vivas côres das que aqui se mostram muitos caracteres, dos que vam com as quatro estampas adiante, do que todos sendo necessário se remeterá a estampa por bem se lhe poder tirar por suas vivas cores, que a tradição tem se reformam todas as manhans de São João Baptista em que sem duvida se acham renovados; em a dita distância, que está muito lisa sem musgos, estando delles coberto todo o mais penedo. Com advertencia de que pondosse huma pessoa a olhar para elle, fica com as costas entre norte e poente, e lhe ficam os que parecem dados á mão esquerda e os que parecem caracteres á direita tudo em muita cantidade na altura e largueza da dita pedra de que aquelle sitio tem o nome de Letras. No fundo desta pedra em que estão estas estampas e caracteres para a parte que olha para o Rio Douro está hum portal ao que parece será da natureza, e entrando por elle dentro se acha em pedra firme huma grande salla com asentos á roda, e no meio huma grande meza tudo de pedra, como dizem pessoas que nelle tem entrado, que affirmam ver-se desta salla outra porta, que vae para outras, que estam mais para dentro, adonde os

(1698) COSTA, António Carvalho da – Corografia Portuguesa, 1706, tomo 1, p. 436.

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presentes não tem entrado com pavor, porque intentando fazello com sobrepelliz e estolla em huma manhã de Sam João (em que se reformam as letras acima) o padre Domingos de Mendes confirmado que foi de Santa Marinha do lugar de Riballonga no ano de 1687, ou para desenganar o vulgo que diz estar ali hum grande thezouro encantado, ou por ambição de o haver a si achando-o, depois de entrar aquella primeira salla intentando entrar a segunda lhe deu tal fedor e pavor, que ficou tremulo e insensato e a poucos dias lhe cahiram os dentes, e nunca mais fallou de sorte que bem se intendesse. De traz do monte em que está o Castello e igreja matris velha daquelle julgado de Linhares estam huns grandes largos e compridos buracos por baixo da terra, que parece serem impossiveis em sua feição pelas fragas e rochedos que tem aquelle grande e alto monte, em a parte que desce do sul para o rio Douro, que de sua entrada vão acima e tem por dentro grandes larguezas, e tanto na flôr da terra que quem falla dentro se ouve fallar pelos que estam de fóra na mesma direitura» (1699) [325]. Guiado pelas Memórias de Ansiães, tratou com largo desenvolvimento estas pinturas o Padre D. Jerónimo Contador de Argote (1700), acompanhando o texto da gravura. A este erudito antiquário, chama Juan Cabré Aguiló (1701), director do Museu Carballo (Madrid): «la segunda figura de mas relievo de la trinidade primitiva de investigadores de arte rupestre de la Peninsula Iberica». Também em 1747 se referiu às pinturas do Cachão do Rapa o Padre Luís Cardoso (1702). Na sessão da Câmara dos Pares de 5 de Março de 1853 o visconde de Seabra lembrou ao ministro das Obras Públicas, por ocasião de se construir a linha férrea do Douro, a necessidade de se poupar o monumento, de onde resultou mandar-se tirar um desenho dos sinais, que o Doutor Leite de Vasconcelos reproduziu (1703), bem como o dado por Argote, sendo por isso fácil, do confronto de um com outro, avaliar os estragos que sofreu desde o tempo de Argote [326].

(1699) MORAIS, João Pinto Ribeiro de – Memórias de Ansiães, 1721, §§ 58 a 62, manuscritos, texto acompanhado de desenhos das insculturas. (1700) ARGOTE – Memórias para a história eclesiástica do arcebispado de Braga, 1734-1738, tomo 2, p. 486, e tomo VI, p. 332. (1701) CABRÉ AGUILÓ, Juan – Arte rupestre galego y portugues (Eira dos Mouros y Cachão da Rapa). In «Memórias publicadas pela Sociedade Portuguesa de Ciências Naturais». Lisboa, 1916, vol. 2. (1702) CARDOSO, Luís – Dicionário Geográfico, artigo «Ansiães». (1703) VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, 1897, vol. 1, p. 361 e seg., onde se encontra o desenho de várias insculturas rupestres.

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Estas letras ou sinais do fragueiro de Linhares não constituem caso único, diz Leite de Vasconcelos; existem em mais partes e, além delas, acham-se também nestes monumentos, de comum com as letras, as tais covinhas, que datam dos tempos neolíticos; portanto o penedo do «Douro deve atribuir-se à mesma época e civilização». A gruta, que Argote diz ficar perto, e de onde se extraíram vasos e uma «grande cruz de prata», era mui provavelmente um monumento pré-histórico, talvez um túmulo, onde tão vulgarmente aparece cerâmica; a cruz de prata não passará de alguma faca de alvo sílex, que o povo facilmente elevaria à categoria de prata e de cruz, porque quem conta um conto acrescenta um ponto» (1704). Seguidamente trataram das letras do Cachão da Rapa o visconde de Vila Maior (1705); Possidónio da Silva (1706), que tirou um desenho dos sinais e o mandou, acompanhado de descrição, ao Congresso da Associação Francesa para o progresso das ciências, celebrado em Genebra em 1885; Amílcar de Sousa (1707), que as dá como desaparecidas, bem como os seguintes: Doutor Vergílio Correia (1708), a propósito da opinião de Juan Cabré Aguiló (1709), que vê nas pinturas a dança sagrada de umas mulheres em torno de um homem despido e não uma consagração ao Rio Douro, como ele entende. A hipótese de Cabré é insustentável, diz Santos Júnior, adiante citado, p. 27, porque nas pinturas «predomina a esquematização geométrica, e nenhum dos sinais pode ser tomado como possível estilização da figura humana masculina». A propósito da interpretação de Cabré diz uma nossa conterrânea ilustre: «Realmente a arte neolítica apresenta figurações por tal forma esquemáticas e estilizadas que custa a perceber-lhe o significado, ao contrário da arte paleolítica em que o naturalismo é surpreendente pela realidade fotográfica, só assim posso expressar-me. Como arte, a neolítica, neste particular da figuração animal, representa decadência, embora noutro particular, como cerâmica, indumentária, mobiliário, seja superior à paleo-

(1704) Ibidem, p. 365. (1705) VILA MAIOR, Visconde de – O Douro Ilustrado, 1876. (1706) SILVA, Possidónio, Boletim da Real Associação dos Arquitectos e Arqueólogos Portugueses (1887), tomo 5. (1707) SOUSA, Amílcar de, Ilustração Portuguesa, número correspondente a 26-8-1907. (1708) CORREIA, Vergílio – Arte Pré-histórica, p. 10. CORREIA, Vergílio – Terra Portuguesa, 1916, n° 4. (1709) CABRÉ AGUILÓ, Juan – Arte rupestre galego y portugues... (1710) Sobre a teoria da estilização e esquematismo, ver: CORREIA, Mendes – Os povos primitivos da Lusitânia, 1924, p. 180 e seg.; CARBALLO, J. – Pre-historia universal y particular de España, 1924, p. 288, 323, e 328; OBERMAIER, H. – El Hombre Fósil, p. 279, 280, 285 e 365, onde se encontram, principalmente no segundo, gravados representando a evolução da figura naturalista paleolítica até chegar à estilização, ao puro símbolo neolítico.

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lítica: a figura neolítica, como diz Carballo, deixa de ser imagem para se transformar em símbolo (1710). Neste sentido, pode ser que Cabré tenha alguma razão, mas, quanto a mim, se me é lícito assim falar, entendo que se trata de sinais alfabéticos; que se trata de letras, como diz o povo, pois muitas são bem claros caracteres ibéricos, facilmente cognoscíveis a quem os compara com os apresentados por Hübner e por Cejador» (1711). Carballo (1712) reproduz a gravura da dança sagrada de Cogul (Lérida) dada por Cabré, e, embora se trate de figuras neolíticas de mulheres estilizadas, nenhum símile lhe vejo com as de Linhares; a mesma dissemelhança se encontra nos petróglifos da Torre de Hércules (Coruña) e de Sória, símbolos de dança sagrada, segundo o mesmo Cabré (1713). Na mesma dúvida fico após a leitura de Obermaier (1714), de Hoerners e Benh (1715)... Enfim, o que parece certo é que nas Letras de Linhares há caracteres fonéticos (as letras ibéricas) e caracteres simbólicos (os quadros xadrezados), ligados, numa tentativa de escrita, que dá ao todo grande analogia com os hieróglifos egípcios, essencialmente baseados no mesmo sistema gráfico» (1716). Aos precedentes juntam-se mais os seguintes, que todos fizeram referências às pinturas do Cachão da Rapa, dando-as «como um documento pré-histórico valioso»: Obermaier, Mendes Correia, Amorim Girão, H. Breuil e Cuevillas, Bouza-Brey (1717) e Aarão de Lacerda (1718), que as toma como símbolos religiosos, estilizações da figura humana ou talvez hieróglifos, ainda que muito rudimentares, exprimindo qualquer fórmula ritual. Teófilo Braga, refere-se às pinturas do Cachão da Rapa, sob as quais se oculta «o Tesouro do Luso», caverna das inscrições ógmicas; a rocha que domina essa caverna é a Pedra Virgem, o penedo que fala, porque tem na face lisa, ou Peravana, os son fan, phone, ou vene, que traduzem as Sagas venerandas das Idades passadas.

(1711) Podem ver-se em CARDIM, Luís – Caracteres rúnicos e caracteres ibéricos, 1929, p. 24. (1712) CARBALLO, J. – Pre-historia universal..., p. 292, 349, 352, e 359. (1713) Ibidem. (1714) OBERMAIER, H. – El Hombre fósil, p. 139, 244, 284, 289 e 292, onde trata do assunto. (1715) HOERNERS; BENH – Pré-história, tradução de Serra Ráfols, 1925, p. 48. (1716) FERREIRA, Cândida Florinda – Carrazeda de Ansiães, 1932, p. 83. (1717) SANTOS JÚNIOR, Joaquim R. dos – As pinturas pré-históricas do Cachão da Rapa, 1933, p. 23, onde se aponta a respectiva bibliografia. (1718) LACERDA, Aarão – O fenómeno religioso e a simbólica, 1924, p. 233, onde dá uma gravura dos sinais do Cachão da Rapa.

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«Esses quadrados que vês – continua Teófilo – são como as letras rúnicas, que os nossos antepassados deixaram gravadas sobre muitos rochedos do Norte. Chamaram Ogum, nome que se aproxima de Kova, ou os hieróglifos de um povo amarelo do extremo oriente. Com o movimento das raças, esses caracteres gravados nas pedras foram reproduzidos em ramos de árvores, a que chamaram os Bastões dos Poetas; muitas vezes porém, nas largas narrativas históricas, esses bastões rúnicos baralhavam-se, e para restabelecer a sua ordem cronológica, ou as séries dos Tríades, era necessário ir procurar nos rochedos esquecidos nas florestas a disposição primitiva desses traços ou letras. [...] esses quadrados gravados na pedra fixaram para sempre a ordem em que se deve dispor os Bastões rúnicos, nos quais estão escritas as tradições da Lusónia. [...] Repara para estes quadrados: uma linha figura o tronco da árvore de Orgham, e, como ramos dela, cruzam-se outras linhas, que se distinguem umas das outras apenas pela posição e agrupamento: a primeira letra é figurada por um risco ou barra atravessada; a segunda letra por dois travessões, terminando o grupo de barras na quinta letra. E do lado oposto ao 1° grupo, começa-se da mesma forma os caracteres do 2° grupo de letras; no 3° os traços são perpendiculares ao tronco; e no 4° esses traços são transversais ou oblíquos» (1719) [327]. Como as Letras estão em sítio pouco acessível e não foram encontradas por alguns arqueólogos que as procuraram, julgaram-nas destruídas pelos construtores da linha férrea do Douro; foi por isso grande a satisfação, tanto em Portugal como no estrangeiro, quando em 1931 o Doutor Santos Júnior verificou a sua existência redescobrindo-as, e maior ainda ao dar-nos o estudo completo do monumento (1720), acompanhado do respectivo desenho, relativo ao seu estado actual, reproduzindo ao mesmo tempo o de Argote, Possidónio e outros, por forma a julgar-se das alterações sofridas pelo tempo, tudo repleto daquela erudita meticulosidade que o distinto pré-historiador costuma pôr nos seus trabalhos. Atribui ele, baseado nos cacos de cerâmica e machadinho de pedra polida que encontrou na gruta ou, melhor, plataforma da base do rochedo, as pinturas ao «eneolítico avançado [328], possivelmente mesmo à Idade do Bronze, que no território vem seguramente até aos tempos proto-históricos (1721), e acha certa analogia entre esta cerâmica e a das grutas

(1719) BRAGA, Teófilo – Alma Portuguesa – Narrativa epo-histórica, 1904, p. 270-274; Henri Martin nos Etudes d’archéologie celtique, p. 97, dá esta mesma explicação. (1720) SANTOS JÚNIOR, Joaquim R. dos – As pinturas pré-históricas do Cachão da Rapa. Porto, 1933. (1721) Ibidem, p. 37.

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de Santo Adrião (Vimioso). Mais lhe parece que «cinco sinais rectangulares» xadrezados são comparáveis às placas-ídolos, tão abundantes nos espólios dolménicos do sul do país», lembrando portanto que «seriam representações de ídolos e, consequentemente, o conjunto pictográfico um santuário» (1722). Para maior esclarecimento, damos na p. 673 o desenho das pinturas, segundo as viu e publicou no seu livro o Sr. Doutor Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior. Como vemos pelas Memórias de Ansiães, 1721, § 47, só em tempo de águas baixas no Verão o Cachão da Rapa dá passagem aos barcos, impedindo-lha no Inverno, de onde resulta ser ele o extremo navegável no Douro. Esta circunstância, junta ao que fica dito no artigo Insculturas a propósito das marras do Vimioso (p. 584) e das conclusões a tirar delas, adidas ainda do que vai ler-se, sugerem nova hipótese. Os barqueiros e pescadores da Póvoa do Varzim têm marcas próprias de cada família, que esculpem, à laia do seu nome próprio, em todos os seus objectos e aprestos piscatórios (1723). «Nas suas arribadas à costa norte, os Poveiros gravam nas portas das capelas mais destacadas nos areais ou montes a sua marca, como documento da sua devoção – Nossa Senhora da Bonança, em Esposende, e Santa Trega (Santa Tecla) que fica no monte junto a la Guardia, Espanha – conservam ainda as suas antigas portas cobertas de marcas poveiras... – Mas não era só nas arribadas que o Poveiro assinava a sua passagem com a marca. Nos mosteiros ou capelas onde fosse cumprir uma promessa, mormente quando ela era feita em nome colectivo, isto é, da companha, gravava nas portas dos templos, nas mesas das sacris-

(1722) lbidem, p. 40. Em nota transcreve, «por curiosidade», a explicação dos sinais no Cachão da Rapa, dada por Vitorino da Silva Araújo no «Boletim da Real Associação dos Arquitectos Civis e Arqueólogos Portugueses», 1887, tomo 5, p. 79, que diz serem as pinturas «a representação de uma batalha, dada no tempo dos romanos na Lusitânia. Aqueles quadrados e quadrilongos, ordenadamente colocados, figuram as tropas divididas em vários corpos e esquadrões, marchando umas de frente, outras de flanco. Os quadrados maiores, que estão no fundo traçados a duas linhas, tendo cada uma perto de si outro quadrado mais pequeno, são os arraiais ou acampamentos com o seu fosso e estacada. Estes arraiais mais pequenos costumavam eles fazer ao pé dos maiores, quando estavam em guerra; e serviam-lhe para se recolherem neles quando eram batidos os maiores. O serem uns poucos denota que trouxeram alguns dias de marcha até chegarem ao ponto onde se deu a batalha; porque é sabido que os romanos, quando tinham próximo o inimigo, ainda que viessem de marcha, não passavam uma noite sem levantar entrincheiramentos; que o exército que entrou em batalha constava de várias legiões». Esta descrição vai de acordo com o que diz Nieupoort e outros sobre os arraiais romanos. (1723) Estas marcas obedecem ao tipo das siglas dos canteiros medievais e das assinaturas das testemunhas, louvados e notários dos tempos antigos, como dizemos no artigo Insculturas, p. 590.

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As pinturas do Cachão da Rapa

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tias, nas cercaduras em madeira, nos arcos cruzeiros, a sua marca, que assim servia de testemunho perante a grei do cumprimento da sua promessa. Eram bem marcas votivas. Os templos da Senhora da Abadia e São Bento da Porta Aberta, e em Terras de Bouro, São Torcato, em Guimarães, Senhora da Guia, em Vila do Conde, e Santa Cruz, em Balazar, Póvoa do Varzim, têm todos larga documentação destas siglas, que atestam a grande fé dos Poveiros nos santos invocados. É corrente entre eles que os velhos poveiros analfabetos, em lugar de assinarem em cruz nos documentos públicos, faziam a sua marca, que era equivalente à sua assinatura. Poucos documentos encontrámos a comprovar afoitamente esta afirmação. Apenas nas actas da Velha Associação Marítima dos Poveiros, relativamente moderna, encontrámos essa sinalização... Existe ainda imenso material para o estudo destas marcas que se encontra por toda a parte: nos interiores das casas dos pescadores, nas cortiças das redes e em todas as madeiras das embarcações estendidas na praia. O Poveiro, ao casar-se, registava a sua marca na mesa da sacristia da Matriz, gravando-a com a faca que lhe servia para aparar a cortiça das redes. A mesa da velha igreja da Misericórdia, que serviu de Matriz até 1757, tinha gravadas milhares de marcas, representando um precioso documento para estes estudos. Infelizmente, essa mesa desapareceu com a demolição desta Igreja, sem que dela ficasse o menor vestígio ou documento fotográfico. Contudo, ainda se vêem hoje algumas gravações destas marcas nas mesas da sacristia da actual Matriz e da Igreja da Lapa. Os vendeiros analfabetos serviam-se das marcas para saberem de quem era a conta fiada. E assim, antes das rodelas e riscos com que designavam os vinténs e os tostões, pintavam a marca do devedor» (1724). O autor acompanha o texto de muitos desenhos de marcas, encontrando-se entre elas algumas de tipo xadrezado, e, como segundo ele diz, para distinguir na mesma família os diversos filhos herdeiros da mesma marca, símbolo ou sigla da família, o primeiro filho acrescenta à marca um pique, isto é, um traço, o segundo dois, o terceiro três, o quarto quatro e assim sucessivamente, e «estes piques são agrupados de formas diferentes: umas vezes, são alinhados; outras vezes, formam cruzes, estrelas; outras vezes, grades [quadrados], conforme o número de piques» (1725), resulta que os traços (os poveiros chamam-lhe piques) adjuntos aos sinais quadrangulares xadrezados do Cachão da Rapa, podem corresponder a uma marcação

(1724) GRAÇA, A. Santos – O Poveiro – Usos, costumes, tradições, lendas, 1932, p. 30 e seg. (1725) Ibidem, p. 27.

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pelo tipo anterior, fixada pelos barqueiros do Douro, por ser aí o extremo da sua viagem; por se tratar de um santuário (adjunto fica o do Salvador do Mundo, ainda hoje muito concorrido de romeiros); ou ainda para confirmarem com a sua sigla a marra divisória entre os seus termos de Linhares e Ribalonga. Talvez pareçam demais os traços para indicar filhos de um chefe; mas, além de não ser anormal o número 21, apresentado pelo maior, pode a marca corresponder a outro ramo da mesma família, herdeiro conseguintemente da mesma sigla. Além destas marcas xadrezadas, apresenta o autor desenhos de outras semelhantes às do Cachão da Rapa. Na Ilustração Trasmontana, 1910, p. 138, guiando-nos pelo que fica dito na p. 351 a propósito da Tala do Gado e Tala do Foro de Calabor, monumentos de grafia simbólica gravados em madeira, ainda hoje usada em muitas aldeias bragançanas nos seus negócios comerciais, tributários e pecuários, aventámos a hipótese de as letras do Cachão da Rapa obedecerem ao mesmo sistema técnico. Neste caso, a disposição mais ou menos regular em linhas verticais, indicaria o alinhamento topográfico das casas de morada pelas ruas do povo de Linhares; os quadros xadrezados, as casas, e os tracinhos horizontais e verticais adjuntos a elas, o foro, pensão, tributo, ou o que fosse, pago por cada morador. Os quadrados sem traços adjuntos, a não admitir-se que desapareceram comidos pelo tempo, indicariam modificações gerais do conhecimento de todos, sem necessidade de esclarecimento especial, se é que as letras ibéricas, bem claras em algumas siglas, não indicam o teor dessas modificações. Pode esta interpretação não se referir ao foral de Linhares dado no século XI (1726), pois as letras ibéricas são muitíssimo anteriores, mas sim a qualquer facto de uma organização social proto-histórica desconhecida. Também os quadrados xadrezados em vez de indicarem os fogos de Linhares podem referir-se aos povos constituitivos da sua tribo. As siglas representariam então o rol da contribuição, o cadastro financeiro, económico, administrativo, pecuário, etc., de cada um dos núcleos populativos da tribo. Esta hipótese foi julgada «inconsistente» pelos mestres (1727); veremos se a das marcas como símbolo pessoal é consistente.

(1726) Ver tomo IV, p. 403, destas Memórias, onde o publicamos. (1727) SANTOS JÚNIOR, Joaquim R. dos – Gravuras rupestres de Linhares, 1933, p. 8.

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CAVERNAS Como a cavernologia está adquirindo enorme importância, agrupamos neste capítulo as cavernas de que temos notícia no distrito de Bragança, além do que vai dito nos artigos Carocedo e Pré-história, a propósito das insculturas de Labiados, Talhinhas e Vimioso. Em todos os tempos as cavernas e grutas despertaram a curiosidade do homem, tanto nas suas relações sociais como religiosas. Na Bíblia, na mitologia egípcia, na Odisseia, na Eneida e noutras obras clássicas, descrevem-se cavernas, que foram centro de notáveis acontecimentos históricos e não menos cotação têm nas manifestações religiosas de que a caverna onde pontificava a Sibila de Cumas, perto de Nápoles, Itália, memorada até no famoso hino da Igreja, chamado Dies irae, a da Índia, onde Buda viveu e pregou a sua doutrina (1728), base da religião que fundou, e Lurdes, em nossos dias, são flagrante índice. O estudo das grutas, cavernologia ou espeleologia, sob o ponto de vista científico, é porém recente: está reservado a grande futuro e presta elementos à sismologia, geologia, físico-química, hidrologia, paleontologia, antropologia, botânica e à arqueologia, que de maneira especial aqui nos interessa. As cavernas são naturais, artificiais ou mistas, e foram aproveitadas para vivenda e sepultura do homem em diversas épocas. Daqui a importância que o estudo do seu espólio tem e as luzes que pode fornecer à ciência. «Nas cavernas e necrópoles do eneolítico pleno aparecem com frequência objectos de cobre, além de instrumentos de sílex bem talhados e retocados e botões e plaquitas de osso com perfurações em V» (1729). Em Portugal conhecem-se e estão estudadas algumas cavernas; no estrangeiro há notáveis trabalhos sobre o assunto e são imensamente interessantes as cavernas de Altamira em Espanha, pelos elementos pictóglifos e petróglifos que forneceram ao estudo da arte paleolítica e neolítica, bem como à teoria da estilização das figuras. Alvaredos. A sul da povoação de Alvaredos, concelho de Vinhais, coisa «de um tiro de espingarda, ha hum monte, a que dão o nome de Picota, e afirma a tradição ser habitação dos mouros, e se vêem vestigios de paredes arruinadas, e huma celebre gruta feita ao picão na rocha viva, de tal capacidade, que recolherá dentro em si hum regimento de infantaria» (1730). A caverna parece antes obra da natureza que do picão humano, e conquanto seja bastante espaçosa, muito aquém do regimento se fica [329]. (1728) Leio em A Voz e noutros jornais da última quinzena de Outubro de 1932, que um arqueólogo italiano acaba de descobrir a caverna da Sibila de Cumas e outro a de Buda, na Índia. (1729) CORREIA, Mendes – Os povos primitivos da Lusitânia, 1924, p. 202. (1730) CARDOSO, Luís – Dicionário Geográfico, 1747, artigo «Alvaredos».

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Arcas. Concelho de Macedo de Cavaleiros. A meio do fragueiro do Castrilhão, sito no termo deste povo, há uma gruta de difícil acesso, onde têm aparecido vários objectos de oiro, segundo diz a lenda e o informador confirma, tais como asas de braseiras, etc. (chorcas, manilhas de cobre?). Argozelo. «Nas íngremes ladeiras do Sabor, em frente da Paradinha Nova [mas termo de Argozelo], nas Covas do Teixo, existe o Buraco do Fumo e a Sala Assobradada, que parece ter sido habitação do homem pré-histórico» (1731). Candedo. No sítio chamado Pala, termo de Candedo, concelho de Vinhais, há uma gruta num fragueiro, onde vive uma moura encantada, chamando-lhe por isso Casa da Moura, e foi habitação de mouros, diz o povo. Caravelas. No sítio da Cova, termo de Caravelas, freguesia de Vale de Asnes, concelho de Mirandela, há uma caverna que comporta vinte pessoas e foi habitação dos mouros, no dizer do nosso informador. Cedães. No sítio chamado Carneiro, termo de Cedães, concelho de Mirandela, há uma caverna onde cabem mais de vinte pessoas. Edral. Concelho de Vinhais, há uma gruta chamada Fraga da Sola. Gebelim. No sítio chamado Fraga dos Mouros, termo de Gebelim, concelho de Alfândega da Fé, e também nos rochedos situados à margem do ribeiro que passa na povoação, há cavernas onde cabem em algumas sete ou oito homens (1732). Gimonde. Acerca da caverna do termo de Gimonde, ver este artigo, p. 445. Paçó de Vinhais. No sítio chamado Fraga da Moura, termo de Paçó, concelho de Vinhais, há uma longa galeria por um fragueiro dentro, que termina em poço fundo. Há poucos anos andaram lá três homens de Vinhais à procura de tesouros; tiraram mais de trinta carros de entulho, mas nada encontraram do que procuravam. Refoios. Nas Pedras Furadas, termo de Refoios, concelho de Bragança, há umas grutas que foram habitadas pelos mouros, diz a lenda, e ainda hoje os pastores as utilizam para lá recolher o gado, principalmente os cabritos pequenos, quando os querem apartar das mães. As estas grutas dão o nome de Fornos e também Fornos dos Mouros. Rio de Fornos. Concelho de Vinhais. Na Fraga dos Mouros; sita no termo desta povoação, há uma caverna que apresenta vestígios de cal. Diz a lenda que a caverna é a boca de extensa galeria por onde os mouros iam levar os cavalos a beber ao Poço do Mosqueiro, situado a grande distância. (1731) LOPES, José Manuel Miranda – Argozelo – Notícia histórica e corográfica, 1931, p. 31. (1732) VILARES, João Baptista – Monografia do concelho de Alfândega da Fé, 1927, p. 193.

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Romariz. No sítio chamado Pedreiros, termo de Romariz, concelho de Vinhais, há uma caverna numa fraga, onde cabem vinte homens «sem chover neles». Em continuação desta, há outra, mas de entrada tão estreita que ninguém se atreve a transpô-la. Dizem que não tem menos capacidade que a anterior. Sacoias. No sítio chamado Sardoal, termo de Sacoias, nas margens do Rio Contense, há duas cavernas que se comunicam uma com a outra, chamadas Buracos pelo povo, que foram habitação dos mouros, a meio de um rochedo, de custoso acesso. Em cada uma cabem dez ou doze pessoas. Pelos anos de 1900 fiz lá escavações e nada mais encontrei além de muitos ossos de equídeos e de pequenos animais caprinos, ovinos e de raposas. Diz a tradição que aqui escondia a gente do povo os toucinhos e mantimentos no tempo das guerras. Sampaio. Concelho do Mogadouro. O Buraco do Pedro e o Buraco do Gonçalo, sitos no termo deste povo, são cavernas de notável grandeza. São Pedro de Serracenos. No sítio chamado Penacal, termo de São Pedro de Serracenos, concelho de Bragança, margem da ribeira chamada do Penacal, que desagua no Sabor, há uma caverna num grande fragueiro explorado para cal, que não pode ser examinada por falta de luz e por se apagar logo a artificial que tentam lá introduzir. Vive na gruta uma moura encantada a tecer em tear de oiro. Sendas. No sítio chamado Lamelas, termo de Sendas, concelho de Bragança, há uma gruta numa fraga. Sendim de Lomba. Na Forginha, também dita Foiginha, termo de Sendim de Lomba, concelho de Vinhais, há grandes grutas na fraga e tem-se visto lá uma moura a estender a barrela ao sol. Ver o artigo Insculturas (Sendim de Lomba), p. 655. Souto da Velha. No sítio do Noguedo há uma caverna aberta na rocha a grande altura, chamada Fóia. Junto dela têm aparecido muitos machados de pedra, um de bronze, tégulas e moedas (1733) [330]. Urros. No alto da Serra da Machuqueira, também chamada de Minde, termo de Urros, concelho de Moncorvo, há «um monstruoso penedo, a que pela sua forma dão o nome de Redondo, que se supõe ser um monumento megalítico, e perto há uma gruta natural, a que deram o nome da Fraga do Lapão, com capacidade para recolher quatrocentos bois» (1734). O povo chama-lhe Buraco dos Mouros. Também no mesmo termo de Urros, junto à capela de Nossa Senhora do Castelo ou dos Prazeres, sita no alto chamado Castelo, há uma gruta, obra dos mouros, para sua vivenda, diz o povo. (1733) TAVARES, José Augusto – Agenda Brigantina, 1928. (1734) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Urros».

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Urrós. Fica no termo desta povoação, concelho do Mogadouro, o Buraco dos Morcegos, grande caverna sita ao fundo de enorme despenhadeiro, na margem do Douro. Parece uma catedral, diz o nosso informador João do Nascimento Pires. Deve ter sido habitada. No Verão, o tecto da caverna apresenta-se coberta de morcegos, que dejectam um estrume muito aproveitado pelos lavradores, por ser o mais enérgico que se conhece. Também o mesmo diligente informador nos deu notícia numa carta de 1927 de uma pequena gruta aparecida numas pedreiras calcárias do termo de Urrós, onde se encontrou um osso. Supõe ele que a gruta será maior, pois está entulhada. Valpaços. Concelho de Vinhais, tem uma gruta no sítio chamado Serralhão, à beira do rio. Vilar de Rei. Na margem direita da Ribeira de Santo Gidro, próximo à quinta do Madruga, termo de Vilar de Rei, concelho do Mogadouro, há uma caverna a meio de um fragueiro, onde, segundo diz a tradição, a gente do povo guardava os mantimentos no tempo das guerras. Vilariça. Dizem que no sítio dos Talhos, termo da quinta da Tarrincha, no Vale da Vilariça, concelho de Moncorvo, há duas cavernas. Vilarinho da Castanheira. No termo desta povoação, concelho de Carrazeda de Ansiães, há uma grande caverna numa fraga. Vilas Boas. Na Pala da Feiticeira, termo de Vilas Boas, concelho de Vila Flor, há uma caverna com mais de dois metros de altura, onde cabem dez ou doze pessoas. Contígua a esta fica outra, onde cabem quatro. Vimioso. Nos jazigos de mármores e alabastros de Santo Adrião, concelho do Vimioso, apareceram várias grutas quando da sua exploração. Estas grutas, diz Vasconcelos, «velaram duas civilizações: uma que parece ser dos fins do período neolítico e começo da época dos metais, pois se manifesta em setas e lascas de sílex, louça de barro grosseiro fabricado à mão, mas ornamentada, setas e machados de bronze, etc.; outra que Nery Delgado disse poderá ser romana, mas que talvez seja de origem proto-histórica, a julgar da suástica flamejante que apareceu numa pedra. A opinião do mesmo geólogo acerca do destino destas grutas nos tempos pré-históricos é que elas foram aproveitadas pelo homem como habitação ou para sepultura» (1735). Zava. A povoação de Zava, concelho do Mogadouro, está «abrigada pelo enorme rochedo ou monte da Penha de Zava, que tem centenas de metros de altura e diferentes cavernas ou grutas naturais, podendo abrigar-se em (1735) VASCONCELOS, J. Leite de – Religiões da Lusitânia, vol. 1, p. 421. À longa bibliografia que no tomo II, p. 439, destas Memórias apontamos, referente às grutas de Santo Adrião, adimos mais: Boletim de Minas (1925), p. 760 e seg., onde se trata proficientemente delas.

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uma delas mais de quinhentas cabeças de gado lanígero, que ali costuma pernoitar no inverno» (1736). Diz o povo que estas cavernas foram habitação dos mouros. NEOLÍTICO Além do que a seguir apontamos, ver os artigos: Carocedo, Parada de Infanções, Pinela, Roios, Sacoias, Torre de D. Chama, Tralhariz, Vale de Águia e Vide. O abade de Carviçais, José Augusto Tavares, diz em O Arqueólogo Português, vol. 25, p. 130, que tem na sua colecção, agora depositada no Seminário Diocesano de Bragança, setenta e cinco machados de pedra e cobre provenientes dos concelhos de Carrazeda de Ansiães, Mogadouro, Moncorvo, Freixo de Espada à Cinta, Bragança, Foz Côa e Vila Pouca de Aguiar. O uso dos machados neolíticos deveu seguir assim: primitivamente serviram-se deles directamente empunhados à mão; depois, com o progresso dos tempos, meteram-nos na fenda de um pau rachado, como hoje fazem os ferreiros com as talhadeiras e, aplicando-os ao que queriam cortar, bater-lhe-iam com um martelo, ou pedra à laia de martelo, em cima. Assim utilizariam tanto os de pedra como os de bronze do tipo em forma de cunha. Mais tarde vieram os machados de bronze munidos de aselhas (uma ou duas), também chamadas argolas, com fenda ou canelura rebaixada na extremidade oposta à do gume e aí segurariam um cabo de madeira recurvado, ligando-o às aselhas do machado, que assim ficaria encabado a modo de enxó algumas vezes e outras com cabo direito a modo de escopro. Em O Arqueólogo Português, vol. 8, p. 136, encontra-se figurado o modo de usar machados pré-históricos. Adeganha. No termo desta povoação, concelho de Moncorvo, têm aparecido machados de pedra, de cobre e moedas romanas. No sítio chamado São Martinho há vestígios de povoado antigo e aparecem restos de cerâmica, mós manuárias, etc. Argozelo. No termo de Argozelo, concelho do Vimioso, foram encontrados quatro machados neolíticos de pedra, um fragmento de machado de cobre e um fragmento de um objecto de bronze, tudo agora no Museu Regional de Bragança (1737). Açoreira (Moncorvo). Têm aparecido no seu termo machados de pedra, moedas, uma porca de xisto encontrada no sítio de Canelas, hoje no Museu (1736) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Zava». (1737) O Arqueólogo Português, vol. 3, p. 99.

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Etnológico do Doutor José Leite de Vasconcelos, e uma lucerna de bronze. À derrota dos mouros neste sítio refere-se a canção popular, que diz: No sítio de Canelas Nos feriam as amarelas, E no sítio dos Barrais Ainda nos feriam mais. No sítio dos Barrais há numa rocha de xisto insculpida uma pata de boi e aí aparecem tégulas romanas (1738) [331]. Aveleda. Em Vale de Vime, termo de Aveleda, concelho de Bragança, encontrou-se uma ponta de lança de pedra polida (1739). Num merouço de pedras, dentro da povoação, encontrou o professor João Baptista da Cruz, pelos anos de 1906, um machado e uma ponta de flecha, ambos de pedra. Babe. Entre o termo de Babe e o de Vila Meã, concelho de Bragança, no sítio chamado Valbão, apareceu um machado de cobre. Baçal. Perto da fonte desta nossa povoação de Baçal, concelho de Bragança, apareceram três machadinhos, tipo fino, quase microlíticos, de sílex branco com manchas pretas (fribolite?), agora no Museu Regional de Bragança. A grande laje ardosiana que cobre a mesma fonte está cheia de covinhas, como dizemos noutra parte. Bemposta. No termo de Bemposta, concelho do Mogadouro, foi encontrado um machado de pedra e «um fragmento de machado de cobre», agora ambos no Museu Regional de Bragança. No termo da mesma povoação foram encontrados mais sete machados neolíticos de pedra (1740). São também importantes no termo de Bemposta os restos da civilização romana, como dizemos no respectivo artigo. Bornes. Na Serra de Bornes, concelho de Macedo de Cavaleiros, foi encontrado um machado de pedra polida. Bragança. No alto de um pequeno outeiro, que fica cento e cinquenta metros a nascente da cidadela de Bragança, onde há um pequeno pinheiral, foram encontrados entre as fragas que ele tem um machado e uma faca de sílex muito perfeitos (1741). Calvelhe. No termo de Calvelhe, concelho de Bragança, apareceu um machado neolítico de pedra (1742). (1738) TAVARES, José Augusto, Agenda Brigantina, 1928. (1739) O Arqueólogo Português, vol. 4, p. 154. (1740) Ibidem, vol. 3, p. 54 e 155. (1741) LOPO, Albino – Bragança e Benquerença, p. 47, em nota. (1742) O Arqueólogo Português, vol. 22, p. 46.

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Castedo. No seu termo têm aparecido machados de pedra e no sítio do Couto havia alguns dólmens próximo da Pala do Mouro, no termo de Vilarinho da Castanheira (1743) [332]. Cardanha. No seu termo têm aparecido machados de pedra e moedas antigas. No limite do mesmo termo com o da Junqueira há um penedo baloiçante (1744). Cisterna. No termo da Cisterna, concelho de Vinhais, há um local chamado Vila de Souane (1745), onde ainda se vêem restos de muros, casas, fossos e abundantes vestígios de fortificações antigas. No recinto divisa-se um poço ou cisterna, que, apesar de muito entupido por pedregulhos lançados pela malvadez dos pastores, conserva água quase todo o ano. Nos escombros destas ruínas, a mais de um metro de profundidade, encontrou-se um belo machado neolítico de pedra esbranquiçada com manchas pretas (diorite?), que foi oferecido pelo Padre Miguel dos Anjos Ferreira, natural de Vilarinho de Lomba, ao capitão Tomás Augusto Salgueiro Fragoso, governador civil do distrito de Bragança, e por este cedido ao Museu da mesma cidade [333]. O Padre Firmino Martins (1746) apresenta a lenda popular referente à Vila de Souane, conquistada pelos cristãos do Castrijão, também dito Castelo e ainda Cidade de Santa Rufina, no termo do Pinheiro Novo, aos mouros postos em debandada pânica pelos fachos nos cornos dos bovinos e caprinos, com que em noite escura caíram sobre eles. Igualmente descreve a lenda da moura encantada de Souane. Esta lenda é corrente em todas as ruínas de civilizações extintas, e a do ataque pelos cornípetos vigora nos Açores (1747) e na conquista de outras terras; têm contudo importância e convém que se arquivem como padrão arqueológico. Também nos disseram que perto das ruínas havia um freio gravado num rochedo, mas não conseguimos vê-lo. Deilão. Junto à povoação de Deilão, concelho de Bragança, apareceram enterradas, quando surribavam o terreno, seis manilhas de cobre para trazer nos pulsos. Pelo lado exterior são ornadas por duas linhas de ziguezagues em série, entremeadas por outra linha de ornatos em losango. Vieram para o Museu de Bragança por nosso intermédio. Donai. No sítio do Tumbeirinho, termo de Donai, concelho de Bragança, encontrou-se um machado de pedra polida (1748). Da anta existente neste sítio falámos noutra parte. (1743) TAVARES, José Augusto, Agenda Brigantina, 1928. (1744) Ibidem. (1745) Alguns chamam-lhe também Castelo, Circa, Cerca e Castro de Souane. (1746) MARTINS, Firmino A. – Folclore do concelho de Vinhais, p. 272. (1747) DEUSDADO, Manuel Ferreira – Quadros açóricos. (1748) O Arqueólogo Português, vol. 4, p. 154.

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Estevais. No termo dos Estevais, concelho do Mogadouro, apareceu um machado neolítico de pedra, que está agora no Museu Etnológico de Lisboa (1749). Sobre o Castro Baniensium e insculturas de cobras, ver os artigos Moncorvo e Pré-história. Horta. No seu termo têm aparecido machados de pedra polida e mós manuárias (1750). Junqueira (Moncorvo). Tem ao nascente do povo um Castelo roqueiro em sítio verdadeiramente inexpugnável, onde aparecem moedas de prata romanas, tégulas, mós manuárias, fíbulas, etc. [334]. Próximo deste local há muitas sepulturas cavadas na rocha, e no sítio chamado Prado existiu um dólmen, «eu ainda o conheci já sem a mesa, mas hoje já nada existe», diz o abade José A. Tavares na Agenda Brigantina. Larinho. No seu termo têm-se encontrado machados de pedra polida (1751). Lousa. No seu termo têm aparecido machados de pedra e um de bronze com anilhas (1752). Maçores. No seu termo apareceram muitos machados de pedra polida e moedas antigas. «No sítio da Cabecinha Aguda houve um Medianido, lugar onde se reuniam os juízes eleitos de Ligares, Maçores, Mós e Urros para regularem a pastoreação dos seus gados, estando juntos e cada um em seu termo» (1753). Ver Viterbo, Elucidário, artigo Medianedo. Miranda do Douro. No sítio do Raio, termo de Miranda do Douro, perto da cidade, têm-se encontrado machados de pedra, uma ponta de seta de sílex e fragmentos de louça da que costuma «aparecer nos castros e nas antas» (1754) [335]. «Em Miranda [do Douro] encontrei um machado de pedra; em Ventozelo obtive outro e posteriormente mais três daquela região e duas pontas de lança, também de pedra, o que tudo ofereci ao Museu Municipal da Figueira. Em nenhum ponto de Portugal talvez se encontrem tantos vestígios e tantos monumentos da idade da pedra como na província de Trás-os-Montes» (1755). (1749) O Arqueólogo Português, vol. 22, p. 344. (1750) TAVARES, José Augusto, Agenda Brigantina, 1928. (1751) Ibidem. (1752) Ibidem. (1753) Ibidem. (1754) VASCONCELOS, J. Leite de, O Arqueólogo Português, vol. 8, p. 79, onde vêm os desenhos dos objectos encontrados. Ver o artigo Vale de Águia e O Arqueólogo Português, vol. 3, p. 212. (1755) FERREIRA, Pedro Augusto, O Arqueólogo Português, vol. 1 (1895). O mesmo diz no artigo «Zava do Portugal antigo e Moderno», obra que continuou e completou depois da morte de Pinho Leal.

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Mós. «Abundam os machados de pedra polida nos sítios dos Olmos e da Fraga do Raio [termo de Mós, concelho de Moncorvo]. No sítio do Carril e nas proximidades da Ribeira do Vale [também termo de Mós] ainda hoje se vêem restos da célebre estrada da Marialva» (1756). Deve ser esta estrada a que mencionámos na p. 211 com o nome de «Mourisco». Picote. No termo de Picote, concelho de Miranda do Douro, apareceu uma lança de cobre, agora guardada no Museu Regional de Bragança (1757), e também um machado de pedra polida (1758). Esta lança apresenta alvado e crista central e é a mencionada por Cuevillas (1759), que diz ignorar onde ela pára. Sendim. No termo de Sendim, concelho de Miranda do Douro, encontrou-se um martelo de pedra polida (1760). Soutelo Mourisco. No termo de Soutelo Mourisco, concelho de Macedo de Cavaleiros, apareceu um bezerrinho de bronze (1761). Souto da Velha. No termo de Souto da Velha, concelho do Mogadouro, têm-se encontrado machados de pedra polida (1762). Tralhariz. Em Tralhariz, concelho de Carrazeda de Ansiães, há documentos que mostram ter existido ali uma estação neolítica (1763). Urrós. No sítio de Meireide, termo de Urrós, concelho do Mogadouro, encontram-se moedas romanas e várias outras antiguidades da mesma época. No mesmo sítio dos tempos líticos apareceu um machadinho de sílex branco com manchas pretas, um raspador de sílex, de secção trapezóide, e um machado de cobre, tipo cuneiforme, tudo agora no Museu Regional de Bragança por oferta do grande benemérito João do Nascimento Pires. Meireide é estação neolítica e luso-romana de grande importância. Vale Benfeito. No sítio chamado Lagares, termo de Vale Benfeito, concelho de Macedo de Cavaleiros, encontrou numa sua propriedade o nosso amigo tenente João José Vaz de Morais de Abreu Sarmento, pelos anos de 1904, uma sepultura, tipo cista, e nela um anel de ouro puro, serpentiforme, sem liga, que provavelmente remonta à Idade do Bronze. A sepul-

(1756) TAVARES, José Augusto, em Gazeta de Bragança de 14 de Maio de 1899. (1757) O Arqueólogo Português, vol. 7, p. 54, onde vem a sua fotogravura. (1758) Ibidem, vol. 4, p. 154. (1759) CUEVILLAS, Florentino L.; BOUZA BREY, Fermín, Arquivos do Seminário de Estudos Galegos (1929), p. 105. (1760) O Arqueólogo Português, vol. 4, p. 154. (1761) PINHEIRO, José Henriques – Estudos da estrada militar romana de Braga a Astorga, p. 50. (1762) PEREIRA, J. M. Martins – As Terras de Entre-Sabor-e-Douro, p. 59. (1763) Ver o artigo Tralhariz.

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tura era formada por três grandes lajes de xisto, uma à cabeceira e duas aos lados. O anel dava três voltas ao dedo anular e, por ser muito maleável, podia facilmente apertar-se ou alargar-se. Dentro da sepultura «encontrou muitos cacos de vasilha de barro muito espesso». Como se vê, a sepultura já fora violada antes, a julgar pelos cacos e pela outra cabeceira, que faltava. Supõe ele que a sepultura ainda lá deve estar, porque, não podendo, com o auxílio do criado, tirar as lajes que obstavam ao granjeio do terreno, tornou a deitar-lhe a terra para dentro e assim ficou. Adiante, no artigo Vale Benfeito, diremos dos punhais de bronze encontrados no termo desta povoação, agora em poder do mesmo tenente Morais, que prometeu dá-los ao Museu Regional de Bragança. Vide (Moncorvo). No seu termo têm aparecido machados de pedra e moedas antigas (1764). Vilarinho da Castanheira. Em O Arqueólogo Português (1765) diz-se que na Lousa e em Maçores, concelho de Moncorvo, apareceram seis machados neolíticos de pedra, mas depois o abade José Augusto Tavares veio declarar (1766) que esse mobiliário lítico fora encontrado no dólmen de Vilarinho da Castanheira, concelho de Carrazeda de Ansiães. O mesmo erudito abade afirma que nos concelhos de Freixo de Espada à Cinta, Moncorvo e Carrazeda de Ansiães abundam os machados neolíticos. PEDRAS OSCILANTES O povo chama Pedras bulideiras, Berços, Embanadores, Penhas abolidas e ainda Sinos dos mouros a uns monólitos por tal forma equilibrados que oscilam facilmente com pequeno impulso. São conhecidos desde remotos tempos, como vemos pelas referências de Plínio e Ptolomeu. Borges de Figueiredo (1767) diz que só conhecia dois em Portugal; depois, o abade de Miragaia, Pedro Augusto Ferreira, continuador do Portugal Antigo e Moderno (1768), aponta mais quatro (1769). 1a – Na Canteira, sítio do termo da Serra de Montesinho, concelho de Bragança, coisa de dois quilómetros de Soutelo da Gamoeda, à beira do

(1764) TAVARES, José Augusto, Agenda Brigantina, 1928. (1765) O Arqueólogo Português, vol. 7, p. 149. (1766) Ibidem, p. 273. (1767) Revista Arqueológica (Jan. 1888). (1768) Artigos Viseu e Vila Nova de Tazem. Ver também Portugal – Dicionário Histórico, artigo «Mancelos», onde há um. (1769) Sobre o assunto, ver os artigos Algosinho e Bousende.

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caminho, lado poente, que dirige pela serra a Teixeira (Espanha), há uma Pedra baloiçante de granito, talhada em forma de barco que oscila no sentido Norte-Sul sobre um plano inclinado, apoiada num só ponto. Está colocada em cima de enorme penedia, que se ergue de alguns metros acima do nível do caminho. Não tem pedra nenhuma a servir-lhe de resguardo, se bem que pelo poente, a menos de dois metros, sobre a dita penedia, se ergue um enorme bloco de granito de algumas dezenas de metros cúbicos de grossura. Numa cavidade natural deste monstruoso fragueiro têm os canteiros, que ao sítio vão cortar pedra, cama para dormir e forja para aguçar a ferramenta. Em plena vida moderna a vida antiga das cavernas. Esta Pedra baloiçante tem de comprimento 4,30m, altura no ponto máximo 1,17m, largura, idem, 2,70m. A oscilação só tem lugar quando impulsionada no lado Norte ou Sul. 2a – Um ou dois quilómetros adiante da Pedra baloiçante da Canteira, à beira do caminho do Rol, lado nascente, que dirige para Padornelo (Espanha), sobre larga penedia de algumas dezenas de metros de superfície, há outra Pedra oscilante. É de granito; tem um só ponto de apoio e move-se no sentido N.-S., em plano horizontal, sem qualquer outra pedra a servir-lhe de resguardo. Comprimento 2,50m, largura dois metros e um de altura. 3a – Seguindo pelo mesmo caminho do Rol, vai dar-se ao sítio denominado Marra do Porto do Sabor, e aí, precisamente onde está a marra que divide o termo de Soutelo do de Espanha, à beira do caminho, lado nascente, há outra Pedra baloiçante, sem mais a servir-lhe de resguardo, assente em plano horizontal sobre um fragueiro, tudo de granito, que oscila no sentido N.-S., apoiada num só ponto. Comprimento 2,40m, largura dois metros e um de altura. 4a – Um quilómetro a Noroeste da povoação de Montesinho, freguesia de França, concelho de Bragança, no sítio do termo chamado Lombeiro da Derreigada, há dois monólitos oscilantes à beira do caminho que segue pela crista do Lombeiro, apenas distante um do outro quarenta metros. Ambos são de granito, bem como os respectivos suportes. O que fica mais ao norte oscila no sentido N.-S., em plano inclinado, apoiado num só ponto de uma penedia que aflora ao de cima do terreno e sem pedra alguma a servir-lhe de resguardo. Move-se seja qual for o ponto em que se impulsione. Comprimento 2,21m, largura 2,40m, altura um metro. 5a – O que fica quarenta metros abaixo deste tem só de um lado outro penedo a servir-lhe de resguardo ou de espera e do outro nada. Oscilação N.-S., sobre plano inclinado em penedia que aflora à superfície do terreno. Tem dois pontos de apoio, sitos cada um na respectiva extremidade do monumento, de modo que, formando eixo a todo o comprimento, se inclina, ora para a direita, ora para a esquerda destes dois pontos. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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A oscilação só tem lugar quando impulsionado no lado Norte ou Sul. Comprimento 3,46m, largura 2,25m, altura um metro. 6a – Perto do Lombeiro da Derreigada fica outro sítio do termo de Montesinho, denominado Castro Curisco e nele outro grande bloco de granito também apoiado em dois pontos, que oscilava no sentido N.-S.; mas pelos anos de 1919, por estúpida malvadez, quebraram-lhe um pedaço, de modo que agora se inclina para um e outro lado quando o impulsionam, mas não oscila. Das insculturas cruciformes que tem, falámos na p. 641. 7a – No termo de Tronco, concelho de Chaves, ao cruzar a estrada a macadame que desta vila segue para Vinhais por Lebução, com a vereda ou caminho que de Vilarandelo e Oucídres se dirige pela cumeada da montanha para Dadim e Travancas, a menos de cem metros ao norte da estrada fica a Pedra bulideira [336], que visitei em Maio de 1909 em companhia do bom amigo Padre José Miguel Machado, pároco de Rabal, concelho de Bragança. Na visita das seis anteriores, sitas na Serra de Montesinho, em 11 de Junho de 1917, acompanhou-me o Padre Manuel José da Ressurreição Palmeiro. A Pedra bulideira de Tronco é de granito, bem como o seu suporte; move-se em plano inclinado no sentido N.-S., apoiada num só ponto fornecido por uma grande penedia, que emergindo do terreno se eleva de um a dois metros. Tem a servir-lhe de resguardo ou espera pelo lado norte um grande bloco de granito e do oposto nada. Comprimento 9,90m, largura variável entre 2m e 7,50m, altura 2,40m. Só oscila quando impulsionada em certo ponto do lado Sul. Dois quilómetros distante de Linhares, concelho de Carrazeda de Ansiães, descendo para o Douro, há uma Pedra baloiçante, a que na região chamam Penedo que bole. É de granito, bem como o seu suporte e afecta a forma de um barco, diminuindo sensivelmente de altura do centro para as extremidades. Oscila no sentido N.-S. e só quando impulsionado na extremidade Sudoeste ou Nordeste, sobre dois pontos de apoio fornecidos por uma fraga que aflora à superfície do terreno. As suas dimensões são: comprimento 5 metros, largura 2,12m, altura variável entre 0,30m e 1 metro. Nenhuma lenda lhe ouvi aplicar pelo povo. Ver p. 107 e 124, onde descrevemos mais duas Pedras bulideiras: uma em Algosinho e outra em Bousende. O Doutor Joaquim Rodrigues dos Santos Júnior menciona (1770) mais os seguintes, cuja existência ignorávamos, de que lhe deu conhecimento o Padre José Augusto Tavares, abade de Carviçais: um, na freguesia do Pombal, concelho de Carrazeda de Ansiães; outro, entre a Lagoaça e Bruçó;

(1770) SANTOS JÚNIOR, Joaquim R. dos – Gravuras rupestres de Linhares (a Fraga das Ferraduras), 1933, p. 3, em nota.

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outro, três quilómetros a Sul de Fornos, concelho de Freixo de Espada à Cinta; outro, entre a Cardanha e a Junqueira e mais três na quinta das Peladinhas, termo dos Estevais, tudo no concelho de Moncorvo. Os Penedos baloiçantes, relativamente à sua oscilação, incluem-se em quatro grupos: 1° – Assentam horizontalmente sobre outro penedo ou fragueiro vertical, de forma cónica e oscilam no sentido do comprimento, erguendo-se ora uma extremidade, ora outra, como no bem conhecido jogo dos rapazes, chamado Serrar, formado por um pau colocado equilibradamente em cruz sobre outro, tendo um rapaz montado em cada extremidade, que alternadamente se eleva e abaixa ao pequeno impulso que faz ao tocar com os pés no chão. 2° – Assentam horizontalmente sobre outro penedo ou fraga, mas giram como a roda de um moinho em volta do ponto de apoio, que lhes serve como de eixo. 3° – Assentam sobre dois penedos ou fragueiros e inclinam-se para a direita ou para a esquerda, isto é, no sentido da sua largura em oposição às do primeiro grupo que é no sentido do comprimento. 4° – Pousam verticalmente sobre outro horizontal e oscilam quer para um quer para outro lado, quando impulsionados: estão colocados ao alto e são de forma mais ou menos cilíndrica. As Pedras bulideiras, pelo geral, oscilam só quando impulsionadas num certo ponto. Dizem os filólogos que os toponímicos: Falperra (Falsa pedra); Peravana (Pedra que abana); Pedra da paciência; Pedra que fala; Perramedo (Pedra do medo) e Penedo da Mó indicam locais de pedras oscilantes, que ainda existem ou perderam sua característica. «Há quem diga que as pedras baloiçantes não são monumentos devidos ao trabalho do homem, mas simples curiosidades naturais. É meu parecer, que esta asserção não é verdadeira em absoluto. É natural que a primeira que apareceu fosse devida ao acaso, o homem inteligente que primeiramente descobriu suas propriedades de oscilação serviu-se dela para dominar aqueles que desconheciam o segredo de movê-la e a superstição auxiliou-o. Mas como nem sempre se encontrava e ao mesmo tempo se tornava necessário esse meio de domínio, foi indispensável preencher a falta artificialmente... Têm divergido as opiniões sobre o fim a que foram aplicadas as pedras baloiçantes, quer naturais quer artificialmente dispostas. Consideram-se já como símbolos da divindade, como emblemas do mundo suspenso no espaço (opinião de De Camby), como emblemas do livre arbítrio, e finalmente como meios de reconhecer a culpabilidade dos acusados, uma prova judiciária. MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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A este respeito diz judiciosamente o ilustre Henry Martin: Cette idée d’interroger les forces secréts de la nature sur les secrets de la vie humaine a été aussi universelle que la magie procedait du même principe ou de la même illusion; on croyait faire parler dans la nature exterieure le Dieu que ne parle que dans la consciense de l’homme. Les accusés qui ne parvenaient pas a mettre en mouvement la pierre étaient sans doute réputés coupables. Il’y a pas bien longtemps encore que les maris que soupçonnaient la fidelité de leurs femmes, les obligeaient à subir cette épreuve. Esta hipótese é plausível e de mais a mais confirmada pelas tradições que em muitas localidades andam ligadas a estes monumentos. Mas ela não importa a negação de que algumas pedras baloiçantes não hajam servido ao mesmo tempo de altares de sacrifícios, como fica dito. Em França, conforme diz H. du Cleuzion, on la consulte encore de nos jours, noutras partes sucederá o mesmo. Mas esta consulta não é, nem foi talvez jamais, unicamente feita pelos juízes que buscavam conhecer a inocência ou culpabilidade de alguém. Se a pedra baloiçante era prova judiciária, se ela era o juízo de Deus (1771), se ela tinha a virtude de responder sobre o gravíssimo facto de uma acusação, não daria ela também resposta a quem a interrogasse sobre outros assuntos, sobre coisas futuras? Interrogavam o oráculo do destino da alma do morto, como o consultavam sobre o resultado de um combate. O homem interrogava-o sobre a oportunidade de efectuar uma empresa, sobre a fidelidade da sua companheira, sobre variados objectos. A mulher perguntava-lhe se o seu noivo correspondia ao seu afecto, se o ente concebido seria filho ou filha, inquiria-o sobre mil dúvidas. O emprego da pedra baloiçante como prova judiciária é, porém, o mais importante; e algumas das denominações portuguesas, que apontei, parecem conservar memória do emprego do monumento e do terror que infundia a tremenda prova. Pedra da paciência é a que gasta a paciência de quem busca movê-la. Penedo que fala é o que em sua particular linguagem, a oscilação, responde à pergunta que lhe é dirigida também por um especial modo de dizer, a pressão. Perramedo (pedra medo – a palavra que é medo, que causa medo) é a que incute receio, terror, ao acusado que tem de a fazer oscilar para provar a sua inocência. Peravana (pedra abana – ó pedra, abana) exprime o desejo íntimo e ardente, a invocação mental ou explícita de quem pedia ao oráculo uma resposta, de que supunha depender a sua ventura, ou de que de facto dependia a sua existência» (1772).

(1771) O primeiro foral de Linhares e de Ansiães ainda admite o duelo como prova judiciária, ou seja como juízo de Deus. Ver p. 399. (1772) FIGUEIREDO, Borges de, Revista Arqueológica (1888), p. 1 e seg.

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SEPULTURAS CAVADAS NA ROCHA Algumas das sepulturas abertas na rocha ficavam ao ar livre e nunca foram cobertas com terra, outras seriam. Afectam duas formas: planta rectangular, ou seja de paralelogramo, tendo os quatro lados paralelos entre si; planta trapezóide, alargando para o lado da cabeça e estreitecendo para os pés, tendo ou não nicho semiesférico para colocar aquela. As trapezóides são julgadas medievais e cristãs, começando pouco depois da queda do império romano, com a vinda dos visigodos; e romanas, conseguintemente pagãs, as rectangulares (1773). Todavia, o formato das sepulturas não parece elemento cronológico absoluto, como o mesmo Pereira reconhece um pouco mais adiante, na nota à p. 19, lembrando, em razão de terem aparecido na necrópole explorada por Santos Rocha em Marateca, onde «havia forma trapezóide no fundo e rectangular superiormente», que «algumas das formas romanas deviam conservar-se na Idade Média». Seja o que for, os arqueólogos portugueses divergem; faltam elementos para se chegar a conclusão definitiva. Sarmento (1774) entende que são pós-romanas ou do período de transição para o cristianismo; Filipe Simões (1775) dá-as como pré-romanas; José Leite de Vasconcelos, como romanas; Moran (1776) e Vergílio Correia (1777) como medievais [337]. Para as classificar é necessário atender, além do formato, ao espólio, advertindo – como já fica notado na p. 473, a propósito das moedas romanas e tégulas – que estes dois elementos nem sempre indicam romanização. O mesmo Pereira esboça, sem contudo dar como certo, «três fases na evolução da tégula. A 1a, a romana, apresenta lados paralelos, e o encaixe faz-se por meio de dois chanfros na face inferior da telha. A 2a, ainda anterior à Idade Média, seria já trapezoidal, mas com o mesmo sistema de encaixe. Seria a 3a, propriamente medieval e talvez já de fabrico local, com forma de trapézio, mas nela o encaixe far-se-ia por dois entalhes ou dentes em toda a grossura da telha e nas extremidades do lado menor do trapézio. Nos bordos também parece haver diferenças» (1778). As mesmas considerações são aplicadas às sepulturas abertas em pedras móveis. Os romanos vieram para a Península Ibérica no século III antes de Cristo, mas «só temos notícia da chegada deles ao nosso território no século II (em 193)» (1779). (1773) PEREIRA, Felix Alves, O Arqueólogo Português, vol. 10 (1905), p. 17 e seg. (1774) SARMENTO, Martins – Carta 19, «O Arqueólogo Português». (1775) Ibidem. (1776) MORAN, César, O Instituto de Coimbra (1926), p. 618. (1777) CORREIA, Vergílio – Monumentos e Esculturas, p. 91. (1778) PEREIRA, Félix Alves, O Arqueólogo Português, vol 10, p. 25 em nota. (1779) VASCONCELOS, J. Leite de, O Arqueólogo Português, vol. 29 (1934), p. 195.

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A propósito das divergências referidas diz Girão: «Uma das preocupações que mais fatais têm sido à resolução de alguns problemas arqueológicos é, sem dúvida, atribuir a determinadas descobertas uma cronologia própria; ou ainda englobar, na mesma tentativa de explicação, vestígios de diversa procedência, por maiores que sejam as semelhanças entre eles reveladas. A significação dos monumentos de arte rupestre estará possivelmente neste caso. Procura-se uma única explicação onde explicações várias devem por certo existir, o que não somente prejudica a boa interpretação dos achados, como em muitos casos afastará consideravelmente da verdadeira solução que todos procuram. Por outro lado, muito generalizada se encontra ainda a tendência para fazer remontar à mesma época espécies arqueológicas que podem pertencer a diferentes épocas históricas ou proto-históricas. E a idade das sepulturas antropomórficas cavadas em rocha constitui, em nosso entender, um exemplo interessante deste facto» (1780). Nas p. 56, 38, 47 e 208 apresentámos diversos miliários da estrada militar romana de Braga a Astorga, em que se abriram sepulturas de forma trapezóide, e como este facto só podia dar-se depois da queda dos romanos, quando as suas estradas entraram a ser desconhecidas no seu valor, talvez tenhamos aqui elementos em prol da cronologia deduzida do formato das escavações na pedra. O povo dá o nome de Lagares a algumas sepulturas abertas na rocha, em razão da semelhança que têm com as lagaretas de espremer as uvas. Nestas condições está uma em Vale de Telhas e outra na Fradizela, tudo concelho de Mirandela (1781), mas distingue entre as de formato rectangular e trapezóide; àquelas chama-lhe Lagares e Pias: a estas sepulturas Caixões de pedra, e genericamente a umas e outras Fragas dos mouros. Além do que vai ler-se, ver os artigos: Ansiães, p. 116, Castelo, p. 154 e 155, Junqueira, p. 683, e adiante, no artigo Antas, a propósito das de Vilarinho da Castanheira e Zedes [338]. Adeganha. Junto a esta povoação, concelho de Moncorvo, numa propriedade de Luís Teixeira, há sete sepulturas abertas na rocha [339]. Cabeça Boa. No Olival da Raza, sítio da Zambulheira, concelho de Moncorvo, há dez sepulturas cavadas na rocha, além de outras que foram destruídas. Algumas, «construídas no cimo das rochas, têm ao fundo, na parte correspondente aos pés, um orifício, que devia servir, segundo presumo, para os escoamentos dos humores fétidos dos cadáveres» (1782). (1780) GIRÃO, A. de Amorim, Homenagem a Martins Sarmento, 1933, p. 122. (1781) LOPO, Albino, O Arqueólogo Português, vol. 8, onde vem uma gravura de uma dessas sepulturas. (1782) TAVARES, José Augusto, O Arqueólogo Português, vol. 1 (1895), p. 128.

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O Doutor J. Leite de Vasconcelos (1783), referindo-se a estas sepulturas, das quais já só existem nove, orientadas no sentido N.-E., diz que apresentam tipos diversos, como se vê pelos respectivos gráficos. É notável uma delas por conter no encosto da cabeceira, pelo lado exterior, o letreiro VIVI, que o mesmo erudito homem de ciência interpreta como vive, pela conversão do e átono final em i, conforme aparece em vários textos e corresponde à fórmula vivas em Dio. Carviçais. No termo desta povoação, concelho de Moncorvo, há um sítio chamado Sepulturas, por ainda se verem cavadas na rocha algumas. Ver o artigo Carviçais, p. 147 [340]. Cisterna. No sítio chamado Lagoa, termo da Cisterna, concelho de Vinhais, apareceram pelos anos de 1860 restos de sepulturas cavadas na rocha. Estevais. No sítio chamado Valdoeiro, lugar de São Mamede, termo dos Estevais, concelho de Moncorvo, há uma sepultura aberta no granito, com distinção de lugar para repousar a cabeça. Freixedinho. No termo desta povoação, concelho de Mirandela, há um sítio chamado Fraga do Caixão, que provavelmente deriva o nome de alguma sepultura lá existente. Freixiel. No sítio chamado Salgueiral, termo de Freixiel, concelho de Vila Flor, há três sepulturas cavadas numa fraga, que diz o povo serem dos mouros. Linhares. No termo de Linhares, concelho de Carrazeda de Ansiães, há Fragas dos Mouros e Caixões de Pedra (sepulturas cavadas na rocha, de forma trapezóide). Mairos. Embora a povoação de Mairos, concelho de Chaves, seja estranha ao distrito de Bragança e, portanto, fora do plano destas Memórias, não posso deixar de me referir a ela, como reconhecimento à grata recordação de ali ter iniciado a minha vida paroquial. Em Mairos, pois, no sítio do Outeiro, também chamado Cruzeiro, logo à entrada do povo, vindo de Chaves, há duas sepulturas abertas na rocha granítica, orientadas no sentido nascente-poente. Ainda no mesmo povo há uma aberta em pedra móvel de granito na parede da capela de São Martinho e no sítio do Forte, contíguo ao povo, apareceram mais três. Na próxima povoação de Cimo de Vila da Castanheira há várias sepulturas em pedras móveis, aplicadas a servir de chafarizes nas fontes. Outra nas mesmas condições está a servir numa fonte junto às igrejas de São João, orago da freguesia. (1783) VASCONCELOS, J. Leite de, O Arqueólogo Português, vol. 11 (1909), p. 369.

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Todas estas sepulturas, tanto as móveis como as cavadas na rocha, apresentam, algumas, configuração trapezóide simplesmente e outras escavação semicircular para descanso da cabeça. Mogadouro. No adro da igreja paroquial do Mogadouro, arrumadas à parede da capela-mor, lado sul, há duas sepulturas abertas na rocha, de forma trapezóide, com escavação mais estreita para a cabeça do defunto; de forma arredondada numa e quadrangular noutra. O cadáver ficava a olhar para o nascente. Contíguas a estas há vestígios de mais duas, já muito esboroadas. Mós. «Parece terem existido aldeias ou lugares em Verea e em Santa Marinha [termo de Mós, concelho de Moncorvo], cuja pia baptismal se encontra na matriz de Mós, segundo afirma a tradição. Neste último lugarejo têm aparecido várias colunas de granito e sepulturas abertas em rocha de xisto em São Pedro» (1784) [341]. Paços. No sítio chamado Poula dos Mouros, termo de Paços de Lomba, concelho de Vinhais, houve uma capela dedicada a São Martinho, de que poucos vestígios restam, e perto viam-se ainda pelos anos de 1904 trinta e duas sepulturas cavadas no saibro duro, de forma trapezóide, com nicho semicircular para a cabeça, orientadas no sentido nascente-poente (para este lado os pés) [342]. Eram tapadas com grandes lajes algumas e com duas ou três lousas outras. Perto apareceu um forno, construído de tijolos, que tinha dentro terra negra, carvões e grãos de trigo de cor negra. Sepultura por incineração? Também se diz que perto destas sepulturas apareceu um garfo de ouro, que venderam na feira de Vilar Seco de Lomba (1785). Provavelmente o tal garfo de ouro era algum objecto de cobre da época eneolítica. Poiares. No termo desta povoação, concelho de Freixo de Espada à Cinta, junto das ruínas da capela de São Paulo, ao cimo da estrada de Alpajares, vêem-se algumas sepulturas abertas em rocha de xisto (1786). Samil. No sítio chamado Martim Cansado, termo de Samil, concelho de Bragança, mesmo no alto do outeiro, há uma sepultura cavada na rocha (1787). Sendim da Serra. No sítio chamado Cabeço do Rebentão, termo de Sendim da Serra, um quilómetro do povo, concelho de Alfândega da Fé, há uma capela dedicada a Nossa Senhora de Jerusalém, construída em 1603 por influência no espírito popular de uma pastora muda, a quem apareceu a Senhora, que a curou da surdez e lhe pediu a construção da capela. (1784) TAVARES, José Augusto, Gazeta de Bragança, de 14 de Maio de 1899. (1785) BEÇA, Celestino, O Arqueólogo Português, vol. 9, p. 36. (1786) TAVARES, José Augusto, Boletim Diocesano de Bragança, n° 11 (1898). (1787) PINHEIRO, José Henriques – Estudo da estrada militar..., p. 55.

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Diz Jorge Cardoso (1788) que este é «o mais celebre santuário de Tralos-montes, mui frequentado de romeiros, pelos inumeros milagres, que a Mãi de Deus ali obra». Os santuários, como tudo, têm suas épocas; o de que tratamos, nada é do que foi: hoje impera Fátima. Fica na povoação de Sendim da Serra a capela de Santa Eufémia, no adro da qual se vêem duas sepulturas abertas na rocha, de forma trapezóide, orientação nascente-poente, ficando a cabeça para este lado. Torre de Dona Chama. No outeiro junto à Torre de Dona Chama, onde dizem que ficava a torre habitada por Dona Chama e aparecem várias antigualhas, há uma sepultura cavada em pedra granítica. Urrós. À porta da igreja paroquial de Urrós, concelho do Mogadouro, há quatro ou cinco sepulturas abertas na rocha, em forma de caixão funerário, estreitecido para os pés e de contorno arredondado para a cabeça, disposta a olhar a nascente. Algumas são menores, próprias de crianças. No sítio chamado São Facundo, termo de Urrós, quinhentos metros a norte do povo, há dois arcos, um ogival e outro semicircular, restos da capela que ali houve dedicada àquele santo, e perto deles vêem-se dez ou doze pias do tipo anterior, apresentando porém a particularidade de os contornos de toda a escavação serem arredondados e não em ângulo recto. Coisa de trezentos metros deste local há restos de fortificações e aparecem moedas romanas. Vila Maior (Moncorvo). No seu termo há restos de muros e sepulturas abertas na rocha. Vale Telhas. «A montante da ponte de Valtelhas [concelho de Mirandela], junto da parede da frente de uma azenha, vimos uma sepultura cavada em uma pedra granítica» (1789). Vilarinho da Castanheira. «Em Vilarinho da Castanheira [concelho de Carrazeda de Ansiães], ao cimo da Cerca do Fidalgo, onde existiu outrora a matriz da vila, segundo reza a tradição e os antigos vestígios atestam, aparecem ainda hoje muitas sepulturas de granito, tendo a configuração do corpo humano. Vilarinho da Castanheira é uma estação arcaica de primeira ordem: já por estas sepulturas, já pelo seu extinto castelo, já pelos

(1788) CARDOSO, Jorge – Agiológio Lusitano, 1652-1666, referente ao dia 26 de Março. Tratam deste santuário: AMIAX, João do – História de Nossa Senhora de Codes, livro 1, cap. 9; VASCONCELOS, António de – Descriptio regni lusitani, p. 544. (1789) LOPO, Joaquim de Castro, O Arqueólogo Português, vol. 1 (1895), p. 233.

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seus dólmens e já pela célebre Fraga da Moura, que contém uma extensa inscrição em caracteres até hoje completamente desconhecidos» (1790). Vila Velha. No termo desta povoação, concelho de Moncorvo, há uma sepultura aberta no xisto [345]. Vilas Boas. No termo desta povoação, concelho de Vila Flor, há dois grandes cabeços, onde «se tem encontrado ruínas de casas e de fortificações antiquíssimas, moedas romanas e sepulturas abertas na rocha, como se encontram também no pavimento da igreja matriz», que está situada num pequeno outeiro junto à povoação (1791). ANTAS (1792) Vasconcelos publicou (1793), acompanhado da respectiva carta geográfica, um artigo intitulado Le peuplement du Portugal aux temps pre-historiques, em que menciona cinco toponímicos no distrito de Bragança com o nome de Anta, sendo um no concelho de Bragança, outro no de Miranda e três no de Moncorvo. Como o toponímico Arca pode indicar anta e marco divisório de termo, convém notar o que fica dito nas p. 579 e seg. Abambres. Concelho de Mirandela, tem um sítio do termo chamado Madorra e também Madorrão. Abreiro. Um quilómetro a nascente de Abreiro, concelho de Mirandela, no sítio chamado Arcã, no lameiro do Azendro ou Azindro (ver tomo VIII, p. 100, destas Memórias), pertencente metade à família Negreiros (Doutor) e Padre José Maria de Mendonça Negreiros e a outro co-herdeiro, existe uma anta a que o povo dá o nome de Arcã. Deste monumento conservam-se ainda dois esteios de pé no local primitivo; outro, provavelmente também no sítio primitivo, mas deitado um pouco, e dois estirados no chão, meio enterrados, à distância de três metros. Encostado ao n° 2 está o n° 3, que supomos seria a mesa do dólmen. Ver o respectivo gráfico (fig. 1) na p. 696. N° 1 – Altura, 1,90m; largura máxima 1,54m; mínima 0,94m. N° 2 – Altura, 1,93m; largura máxima 1,72m; mínima 1,03m. N° 3 – Altura, 1,80m; largura máxima 1m; mínima 0,90m. (1790) TAVARES, José Augusto, Boletim Diocesano de Bragança, n° 11 (1898). (1791) LEAL, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, artigo «Vilas Boas». (1792) Ver p. 550, 557 e 566, onde damos o «Mapa arqueológico» do mesmo distrito. (1793) VASCONCELOS, J. Leite de, O Arqueólogo Português, vol. 17 (1912), p. 255.

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Poente

3 2

Sul 1

4

Norte

6

5

Nascente Anta de Abreiro – Figura 1

N° 4 – Altura 1,70m; largura máxima 0,95m. N° 5 – Altura 2,38m; largura máxima 1,30m. N° 6 – Altura 2m. A altura dos esteios nos 1, 2 e 4, como estão enterrados ainda, entende-se só a parte acima do solo; nos outros, é toda, porque se vêem bem, por estarem livres de terra, no sentido do comprimento, embora a largura do n° 6 esteja em parte tapada com terra. Todos são de granito, e na parte interna do n° 2 há quinze covinhas dispostas como o gráfico junto indica (fig. 2). As covinhas são redondas, fusiformes, em geral de 0,20m de fundura por 0,04m de diâmetro. Como dissemos, a anta está dentro de uma propriedade de importante valor agrícola, tapada sobre si, na divisória que separa o lameiro do terreno que anda de lavradio entregue à cultura hortícola [346]. Anta de Abreiro – Figura 2 MEMÓRIAS ARQUEOLÓGICO-HISTÓRICAS DO DISTRITO DE BRAGANÇA


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A circunstância das antas de Abreiro, Donai, Paçó, Paredes e outras se encontrarem junto a lameiros (1794) e terrenos fundáveis não indicará predilecção pela vida pecuária? A Arcã foi profanada, e ainda recentemente, mas nada acharam, segundo consta. Dois quilómetros a sudoeste de Abreiro fica um elevado cabeço de forma cónica, conhecido pelo nome de Castelo e ainda pelo de Poço dos Mouros, devido a uma escavação artificial na rocha viva, sita na vertente nascente, que parece indicar poço ou cisterna, hoje entupida em grande parte. Também alguns chamam Castro ao referido cabeço, mas este nome é menos usado e parece de origem científica recente. Do lado norte ainda restam vestígios do muro e parapeito ligado à fiada de fragueiros que o defendiam pelos outros lados. No meio do circuito formado por estas fortificações há uma capela dedicada a Santa Catarina (cristianização do castro pela igreja católica) e nele e nas imediações vimos enorme quantidade de cerâmica fragmentada dos castros, telhas de rebordo, tijolos, mós manuárias e pedras roladas do rio. Entre a cerâmica notámos um fragmento bocal do vaso grande, pasta avermelhada, homogénea, bordo largo, prolongado em plano horizontal, ornado por dois sulcos paralelos, fundos, traçados antes da cozedura (1795). Entre 20 de Junho de 1932 que vimos pela primeira vez a Arcã de Abreiro e pela segunda em 21 de Maio de 1934, quebraram-lhe já alguns esteios para fazer poldras de passagem no lameiro do Azindro. Como é deprimente esta fraca noção do valor dos monumentos!... E note-se que no sítio, ali à mão, há milhares e milhares de blocos de granito em todos os tamanhos! Adeganha. Em 1932 dizia-nos em carta o Padre Júlio António Pires, pároco de Adeganha, concelho de Moncorvo: «Também no Prado, termo de Adeganha, num prédio de Luís Teixeira, existia um dólmen, a que o povo chama o Lagar da Capela de São Martinho. Dele restam algumas lápides quase ilegíveis, estando uma delas a servir de banco junto à porta da residência de Faustino dos Santos Lopes». Dólmen ou não, é evidente tratar-se de uma antigualha, que convém examinar. Barcel. No termo de Barcel, concelho de Mirandela, quatrocentos metros a Sul do povo, fica o Cabeço da Anta. Terreno lavradio de cultura cerealífera. Nenhuns vestígios do monumento. Contíguo ao Cabeço da Anta fica o sítio chamado Trochos, nas margens de uma linha de água, igualmente cultivado e fértil, onde vimos um montículo de pedregulhos e perto dele, estirados no chão, dois penedos regulando por 1,80m de altura, 1,10m de largura e 0,30m de grossura, que provavelmente foram esteios (1794) No distrito de Bragança chamam lameiro ao prado natural permanente. (1795) Ver o artigo Abreiro, p. 93.

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da anta, deslocados há poucos anos pelo povo em pesquisas de tesouros, segundo nos informaram. O Cabeço da Anta e Trochos foi tudo «uma mourama», isto é, habitação de mouros, diz o nosso guia; lá vive uma moura encantada e há muitas riquezas. Um dos penedos tem vestígios de ferraduras, mas parecem naturais. Também o povo aplica ao Cabeço da Anta a lenda das duas panelas, uma de oiro e outra de peste. Cabanas de Baixo. Manuel António Vicente, professor de Cabanas de Baixo, concelho de Moncorvo, informou-nos em carta de 1932: «Por duas vezes me lembro de no sítio da Mina, ao poente de Cabanas de Baixo, procederem a escavações e que encontraram lá uma enorme fraga em cima de três colunas, e que o Reverendo Abade Tavares levou de lá uma porca e um porco inteiro de granito». Pela descrição parece tratar-se de uma anta [347]. O abade de Carviçais é José Augusto Tavares. Ver p. 543. Caçarelhos. André de Fresno deixou em testamento uma casa em Caçarelhos para servir de hospital e «uma terra de faceira que está onde chamão Vale da arca» (1796). Esta deixa é anterior ao século XVII. Castro de Ladrões. Nas Inquirições de D. Afonso III (1797) diz-se que a confrontação do reino de Portugal com o de Leão era «per antas qui stant ultra Castro de Latronis», isto nos lados de Miranda do Douro (1798). Coelhoso. Concelho de Bragança, sítio chamado Cabeço da Anta. Donai. No sítio da Devesa, termo de Donai, concelho de Bragança, cerca de trezentos metros a poente da aldeia, no meio de um prado ou lameiro há um montículo de terra chamado pelo povo Tumbeirinho. É uma anta que foi explorada pelo professor do Liceu de Bragança, Pinheiro (1799), e deu machados de pedra, facas de sílex, um percutor, que tudo foi para o Museu Martins Sarmento de Guimarães, de quem a anta é propriedade [348]. Espinhosela. Ver p. 621. Estevais. Ver p. 622. Fermentãos. Concelho de Bragança