Entendida - Ed. especial Ilha do velcro

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entendida

ED. ESPECIAL ILHA DO VELCRO N.1 / 2022

bemvindas a ilha do velcro

esta é uma carta a todas as mulheres lésbicas desta ilha, as visitantes também. necessitei reunir em palavras aquilo que há algum tempo queria que estivesse caminhando junto, nós.

causos lésbicos

“Lembro de quando Bruna veio passar um tempo na ilha fazendo intercâmbio entre universidades e ficou não só comigo mas com todas as lésbicas que eu conheço ao mesmo tempo, inclusive com minha atual namorada. Haja vontade de dar. Foi embora deixou uma legião de mulheres apaixonadas e iludidas e não olhou mais pra trás”.

“nasci em florianópolis e me mudei diversas vezes durante a infância/ adolescência, com 16 anos eu (julia) morava em curitiba. como minha avó continuava em floripa e eu amava a cidade, passava as férias de verão na casa dela. era verão e minha namoradinha de escola continuava em curitiba quando eu decidi terminar com ela a distância, por mensagem. ela tentou conversar e eu não quis, disse que conversaria pessoalmente (2 meses depois, quando voltasse pro paraná). passaram 3 dias, tava lendo em uma rede na varanda de casa quando vi a renata (a namoradinha) parada do outro lado do portão. ela alugou um hostel e veio passar a semana pra tentar me convencer a voltar. voltamos no segundo dia e no último ela tatuou uma frase pra mim na costela direita. (acho essa história representativa da intensidade lesbica-juvenil:))”

“Acho que está ilustrada que Florianópolis todo mundo se conhece, fica com a ex da ex da outra… que agora são amigas e no final todas vão pro mesmo boteco.”

“Um breve conto sobre Mau-caratismo & Falta de Noção crônica: Uma vez, quando eu era uma dama recém solteira e frágil, conheci uma menina no twitter e começamos a desenvolver um relacionamento intenso, porém virtual. Na época, morávamos na mesma cidade, mas ela namorava... dessa forma só podíamos nos falar pelo Telegram (ela tinha medo da namorada olhar o zap dela kkkk). Passávamos horas a fio em ligações e trocando mensagens. Ela dizia que me amava e então resolveu terminar com a namorada APENAS durante o fim de semana para que nós pudéssemos transar. Segundafeira ela reatou o relacionamento seguindo a programação normal! Continuamos com as mesmas intimidades, mas eu estava começando a desconfiar do caráter dessa pessoa que se dizia estar apaixonada por mim. A namorada eventualmente descobriu a existência do aplicativo Telegram e achou de BOM tom me mandar mensagens saborosíssimas descrevendo como ela e a dita cuja passaram a noite toda transando, mas que ela não queria mais esse relacionamento e a dita cuja estava muito mal e que eu deveria ir lá cuidar dela. Fiquei preocupada, mas não fui pois também estava com medo de apanhar! No fim das contas elas voltaram e a grande apaixonada - mais uma vez - veio me procurar como se nada tivesse

acontecido, mas eu já havia aprendido a minha lição e não nos falamos mais. Mais ou menos dois anos se passaram e ela, que era uma antiga amiga da minha então atual namorada, resolveu voltar a Floripa pra passar uns dias e acabamos a encontrando na rua. Ela estava investida em fingir que não me conhecia bem e que nada havia acontecido entre nós. Ela então, pasmem, se convidou pra passar a noite na casa da minha namorada (onde eu estava passando o verão), pois aparentemente não teria onde dormir apesar do pai dela morar em floripa kkkk. A minha namorada, por pena, concedeu a estadia sem saber que a dita cuja ficaria mais 3 dias na casa dela, apesar de ser constantemente alfinetada com dicas de que deveria ir embora. Ela passou o tempo todo fingindo que nada havia acontecido entre nós e assim todas as interações que tivemos foram insuportáveis e podres. Detalhe que muitos anos antes disso ela havia namorado uma das minhas melhores amigas (a qual depois desse causo eu também tive um outro envolvimento romântico :p). Essa minha amiga me avisou brevemente do narcisismo patológico deste ser, mas eu resolvi relevar pois afinal muitos anos haviam se passado desde o relacionamento delas e eu, assim como uma freira sapatona, estava me sentindo muito misericordiosa! Me fudi!!!”

“Duas melhores amigas que já foram namoradas e hoje jogam tênis e beach tennis juntas :)”

“tem um romance meu que de desenrolou nas sc 401 a bordo do 233 (famoso Tican-Titri). essa moça trabalhava no mesmo shopping que eu, e pegava o mesmo ônibus. todos os dias. a gente se olhava e se esbarrava, mas ela não ligava. um dia saímos do tican com um sol pra cada um e chegando no ponto de ônibus do shopping simplesmente estava caindo água - mais um dia típico da ilha? pois bem que desço do ônibus certa que trabalharia encharcada pelo resto do dia mas aí a moça simplesmente estava me esperando com um guarda chuva aberto e diz: ‘quer uma carona?’. eu quis!!!! Essa história ainda cresceu mais pelas areias das praias de canasvieiras e cachoeira. nas folgas a gente combinava de se ver e nos encontrávamos no meio do caminho entre uma praia e outra!!! Ficávamos horas dividindo o fone de ouvido, bebendo e fumando com os pés molhados de sal. Foi no ônibus 260, tican-cachoeira do bom jesus que ela terminou comigo. eu tive que descer no trevo de canasvieiras e chorei andando pra casa fazendo um mar de lágrimas. ai ai, o amor juvenil da ilha de safos.”

“Já fiquei com mulher aparentemente religiosa/conservadora, mas que aprontava bastante em festas.”

“Era uma vez sapatas que viveram na época do bob’s.... uma tinha uma amiga em comum e sempre ficavam rindo para outra, nunca trocavam uma palavra sequer, até que uma delas notou que esta menina tinha um chaveiro do Mickey da diversidade pendurado na bolsa... pegavam mesmo busão e tudo... depois do desenrolar da história até chegaram a namorar, descobriram que o pai de uma era amigo do avô e pasmem moravam umas três ruas de distância. A grande importância dos símbolos.”

FAMÍLIA UNIDA

“Sou não-monogâmica e sim, durante três meses estive saindo com a mãe e a filha ao mesmo tempo sem saber. A mãe sabia que a filha é lésbica, e a filha sabia que a mãe é bi, desde que se divorciou. As duas eram muito amigas e moravam juntas, mas não contavam de mim uma pra outra. Eu ia às vezes buscar a filha em casa e a mãe no trabalho, pra gnt ir pra algum restaurante, barzinho, motel rs até que um dia ela falou que a filha tava viajando, nem desconfiei. Ela foi me guiando até chegar à casa dela e pimba: era a mesma casa e a ficha caiu. A mãe tem harmonização facial e pinta o cabelo, a filha tem piercing, elas são parecidas, mas nem tanto. Fiquei sem saber como agir por um tempo, até que contei pra cada uma separadamente e parei de sair com as duas.”

“uma vez ouvi um que era assim: uma menina namorava outra que era super próxima da prima, próxima de fazer praticamente tudo junto. a namorada e a prima sempre trocavam carinhos e a menina desconfiava mas achava impossível pois: prima. enfim, um belo dia essa menina tava arrumando a casa e encontra uma carta dentro de uma jaqueta da namorada. de quem? da prima. e daí pra frente foi um grande rolo, e no fim as duas acabaram terminando. este eh o meu CAUSO.”

“Floripa tem um bar no centro que tira foto de todo mundo que está lá bebendo e curtindo com as amigas. Isso não seria problema nenhum se eles não postassem nos stories do instagram, causando muito babado pras monas safadas e come quieto da cidade. Certa vez, uma amiga estava nesse bar e ficando com uma menina que tinha um rolo gigante mal resolvido ainda com a ex. Quando perguntada se poderia posar para uma foto no bar com essa menina e uma amiga, ela não sabia que seria postada em alguma rede social do bar. Resumo: A ex da menina mal resolvida viu a foto no instagram do bar e deu um rolo enorme.”

“estava eu, sapatona de canasvieiras, trabalhando na temporada de verão em uma lojinha turística qualquer como fazia todos os anos. naquela temporada fiz uma amiga, uma moça que veio do RS pra aproveitar o verão e juntar dinheiro também, trabalhando noutra lojinha dessas perto da minha. ai a gente dava roles bacanas bem amigas mesmo e aí um dia ela disse “nossa dei match com uma menina incrível ficamos foi bem legal tu tem que conhecer!!” e eu falei legal vamo nessa”. chegamos no rolê e eu dou de cara com quem? claaaaro, uma ex ficante de mil anos atrás. rebuceteio da ilha não falha!!!!”

“Tem uma história que eu gosto minha que é pessoal, eu ficava com uma menina do meu colégio e queríamos passar mais tempo juntas sem necessariamente gastar dinheiro da passagem mas sem sair dos terminais e aí ficávamos andando de ônibus pra lá e pra cá juntas, ouvindo músicas e se acariciando de um jeito reservado pra não sofrer lesbofobia. Nosso terminal favorito era o tilag.”

“Uma amiga gaúcha (que coisa mais típica uma gaúcha na ilha?) mudou pra canasvieiras quando era adolescente e em um verão se apaixonou por uma argentina!! (mais clichê que isso????) Acontece que essa argentina foi-se embora e passou um bom tempo (anos!) e elas não tinham mais contato. Há um certo ano, minha amiga deu match com uma moça no tinder, marcaram de se encontrar e quando foram se ver pessoalmente ela não percebeu a princípio até a mulher perguntar “no te a acuerdas de mi???” pois sim, era aquela mesma moça argentina, mudada e crescida e mais sapatona que nunca!!!”

“Nenhuma história em específico, mas a ilha é cheia de rebuceteio.”

REGIÃO CENTRAL REGIÃO LESTE REGIÃO NORTE REGIÃO SUL REGIÃO

CONTINENTAL

cura gay lésbica existe?

Em meados de 2018 conheci uma menina na faculdade, ela era amiga de uma melhor amiga minha da época, nos enrolamos por quase um ano, quer dizer, sempre deixei bem claro minha intenção… passou o tempo até que ela me pedisse em namoro, era tudo muito subentendido. Mas algo sempre me incomodou quando a situação era “assumir”, ela quase nunca postava foto comigo, passava um ar de vou trazer uma “amiga” para a casa dos meus pais, nunca tocava no assunto diante da família, mas tudo bem, cada um tem seu tempo, certo? Após anos a família meio que entendeu a situação. Após dois anos namorando ela veio com o seguinte tópico, “sou bissexual e não lésbica” (imaginem isso como aqueles letreiros do programa Casos de família) tópico muito sugestivo, sendo que sou obviamente sapatão, respiro a lesbiniadade, as amigas chamavam ela de sapatão o tempo todo, a identificação é algo importante para mim. Engoli, tudo bem, pois era algo que se subentendia, o famoso não falado, quando contei para as minhas amigas, ficou um ar de

grande ponto de interrogação. Ao passar dos anos, longas conversas sobre heterossexualidade compulsória, grande Adrienne Rich, ela se colocou como uma mulher lésbica, construiu trabalhos sobre lesbianidade, escrevemos longos artigos sobre o amor entre duas mulheres, construímos exposição com a temática sapatão. Após anos de romance, o fim chegou, terminamos, tudo bem eu não era o sal da terra e ela sabe muito bem que não era o meu. Um mês depois, chega ela, a cura lésbica aos nossos bons lares de nação patriótica, e claro, apresentou para a família no primeiro mês. Meu último presente para ela tinha sido “Vivendo como uma lésbica” da Cheryl Clarke, por algum motivo tinha pego emprestado para estudar/ler em algum momento, menos uma coisa para devolver, a vida às vezes é engraçada. Eu não virei mendiga, entendi que sirvo pra várias coisas, mas como disse Maurício Pereira “Não vou ser teu amigo” e aqui realmente fui tudo o que me foi possível e é verdade: há sempre um lado que pesa e outro lado que flutua, é inevitável. Doeu.

o bob’s da trajano

Essa história começou há mais ou menos treze anos, os jovens emos e LGBT da grande Florianópolis se juntavam na frente do restaurante Bob’s no período da tarde, a maioria saía da escola e vinham direto, principalmente quem estudava no centro. Tudo acontecia ali, paquera, vinho barato (campo largo) e tudo que você pode imaginar que jovens reunidos poderiam proporcionar. O cronograma começava quintafeira, o famoso almoço de quinta, era na frente do hotel Majestic, localizado na Av. Jorn. Rubéns de Arruda Ramos, de frente a Av. Beira Mar, sendo uma das localizações mais caras de morar, e não à-toa o local que mais avistamos bandeiras do Brasil hasteadas em período eleitoral atualmente, a elite de Florianópolis rodeia a região, assim como o bolsonarismo. Na sexta-feira o encontro era na frente do bobs, com os anos o Museu Histórico de Santa Catarina — Palácio Cruz e Sousa começou a ser mais truculento com esses jovens que ali frequentavam semanalmente, pois eles abriam na parte de trás, assim tínhamos acesso à área da escada (sempre ficava um policial militar resguardando o espaço) começaram a ser mais truculentos com esses jovens que ali frequentavam semanalmente. O bob’s hoje não existe mais, claro o restaurante de fast food ainda está lá, mas é só isso.

onde fica o brejo?

Pedimos para as sapatonas da ilha mandar os lugares preferidos delas, vamos de tour?

BARES NO CENTRO DE FLORIPA

Ponto e Bugio, Afonso, Travessa, Galeria Lama, Barracô. Todos os rolezinhos do Baixo Centro e lugares mais gourmetzinhos também, wine bars.

BREJO NA ÁGUA

Praia do Matadeiro, Barra da Lagoa, Praia Mole, Daniela, Lagoa da Conceição, Joaquina e Novo Campeche.

BALADINHAS

Bar Madalena, Selva, Conca Club, Jivago Social Club, Bar do Deca, Blues Velvet, Desgosto e Jonas Pub.

“Nascida y criada em Floripa, gosto de transitar pela cidade toda, mas tenho um carinho especial pelo baixo centro. Madalena’s Bar ou melhor Madá.”

“Sul da ilha na casa das minhas amigas. E olhe lá. Mas sou medicada :(“

“Bugio (gosto de frequentar e até um ponto, por ser um lugar com uma opinião política muito bem definida e divulgada, mas mesmo assim por ser muito aberto e inconstante, ainda não me sinto completamente segura)”.

“Subsidiariamente bares da Madre, Festas da ufsc, barzinhos da ufsc, latinos, cachaçaria do lado do latinos.. Os melhores definitivamente.”

“Quando estou acompanhada da minha namorada, sinto que podemos ser abertamente sapatonas no sul da ilha principalmente e em algumas partes do centro. Mas depende muito do dia e de quem está ocupando o lugar paralelamente. O centro pode ter uma aura ameaçadora, por exemplo.”

“Casa delas! (das consagradas amigas)”.

“Ando bem tranquila sozinha ou acompanhada”.

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