entre sujeitos, largos, ruas e travessas

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entre sujeitos, largos, ruas e travessas: uma proposta de reabilitação dos espaços abertos públicos do santo antônio além do carmo



caderno tfg2 laura benevides carneiro orientadora: angela magalhĂŁes convidado interno: luĂ­s gustavo costa convidado externo: josĂŠ carlos mota

2018 salvador



a importância de uma coisa há de ser medida pelo encantamento que a coisa produza em nós manoel de barros


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a todos que lutam pelo direito à cidade e por uma produção democrática do espaço urbano


obrigada!


aos meus pais, pelo que somos, por me trazerem ao santo antônio e por tudo o que não saberei agradecer; à angela, pela entrega e por incentivar minha expansão com firmeza e sensibilidade. minha gratidão e amizade; a luis gustavo, por acreditar em meu trabalho e pelo olhar gentil e criativo; a josé carlos, pelo exemplo de ativismo sensível e crítico e pela generosidade desde o primeiro contato. minha admiração; à arquitetura e ao urbanismo, por me ensinar todos os dias sobre generosidade, sobre partilha, sobre o outro, sobre mim. em especial a lucas baisch, por ter me acolhido na iniciação científica e por sempre me incentivar, e à daniela, ana luiza, victória, rebeca, hila, luana, tomás, ricardo, juliana e talys, por estarem comigo nesse percurso; ao ciência sem fronteiras e à roma tre, pela potente experiência de um outro olhar, pelo intercâmbio de afetos e pela transformação que provocou em minha vida; a rodrigo larocca, pelas oportunidades e pela confiança; a zeduardo, por se aventurar comigo e nutrir nossos diálogos com a filosofia; e à luana lindoso, por ser tanto. pela confiança, presença e amizade; vocês me fortalecem e me permitem continuar a acreditar que o conhecimento só faz sentido se ele é construído coletivamente.

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sumário : o início 12 i. o encontro 21 ii. as aproximações 83 iii. o percurso 99 iv. a pausa 161 imagens 166 referências 168 anexos 176

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introdução harvey (2014) apresenta a cidade como um lugar onde uma pluralidade de tipos e classes de pessoas se misturam, ainda que de forma relutante e conflituosa, para produzir uma vida em comum. território de múltiplas manifestações, a cidade e o processo urbano que a produz são importantes esferas de luta política, social e de classe, que devem ser produzidos, geridos e usufruídos por todos os habitantes. nossas cidades, no entanto, têm sido produzidas a partir de perspectivas privilegiadas, sem a participação dos diversos habitantes, suas práticas e seus desejos, de modo que a apropriação dessas cidades e a vivência dos seus espaços públicos, acabam fragilizadas e capturadas por processos de privatização. nos últimos seis anos, aprofundei um olhar crítico para a cidade. nesse percurso, durante o intercâmbio na università degli studi roma tre (ciências sem fronteiras) entre 2014-2015, uma significativa experiência de fruição dos espaços públicos me afirmou a importância do pleno direito à vida urbana. passei a observar diversas iniciativas de produção do espaço urbano (que se pretendem de resistência) e fui mobilizada a investigar, através de iniciação científica (financiada pelo programa institucional de bolsas de iniciação científica e tecnológica da unifacs e orientada pela professora angela magalhães) o fenômeno do urbanismo tático (considerações acerca do urbanismo tático). durante um ano (2016-2017) me debrucei em suas possibilidades de conceituação e práticas, me aproximei de conceitos filosóficos que atravessaram o processo de investigação e nutri um olhar ainda mais atencioso para o santo antônio, bairro onde moro desde que nasci e que, imersa, vivo suas transformações.

“entre sujeitos largos, ruas e travessas”, estudo estruturado enquanto trabalho final de graduação em arquitetura e urbanismo, propõe a reabilitação dos espaços abertos públicos do bairro do santo antônio além do carmo, a partir de um olhar crítico sobre o urbanismo enquanto elaboração de um espaço político dentro de um campo estratégico de disputa em que o valor de troca tem se imposto com mais força que o valor de uso. para isso, potencializar espaços de forma a atender desejos e demandas da comunidade e incentivar sua apropriação; estimular novas relações sócioespaciais que reproduzam um viver à cidade igualitário, justo, coletivo e criativo; e viabilizar a construção de espaços coletivos a partir da participação e trocas entre diversos saberes e agentes sociais. bairro do centro histórico de uma cidade nordestina e primeiro núcleo urbano do país, o santo antônio além do carmo vive um processo de gentrificação e resiste em meio a uma complexidade de contextos sociais, culturais, políticos, artísticos e econômicos. aqui, criamos espaço para refletirmos a transformação do bairro em objeto de desejo, alvo de tantos interesses (econômicos, políticos, sociais) e vulnerável a uma produção de eventos que atraem um público sem pertencimento (por vezes elitizado), legitimando uma imagem de bairro cool, articulada a uma mercantilização da rua direita (cada vez mais ocupada por estrangeiros, artistas e uma elite intelectual) e descontextualizada dos seus múltiplos sujeitos (desejos, demandas, afetos), suas tradições, dinâmicas espontâneas e da configuração e escala do próprio bairro.

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para além dos discursos hegemônicos e dessa aparente incompetência de uma abordagem coletiva por um grupo minoritário (que se legitima como detentor de saberes e controla as ações urbanas na produção e reprodução da cidade), este trabalho pretende revelar possíveis narrativas, incorporando outros discursos ao processo, de forma a não apartar os diversos sujeitos ou transformá-los em sujeitos passivos. para construir essa proposta, que se pretende participativa, o aporte teórico foi construído a partir da compreensão do conceito de espaço aberto público junto a outros conceitos que lhe atravessam na (re)produção da cidade contemporânea, de modo específico em um bairro de centralidade antiga, a exemplo da participação popular. este trabalho tem como base conceitual: henri lefevbre, em o direito à cidade (1991), e a reinvindicação do direito à plena fruição da vida urbana; felix guattari e gilles deleuze, em mil platôs (2012), e as dicotomias no campo político e social: o estriado e o liso, sedentário e o nômade, dentre outros; suely rolnik e felix guattari, em cartografias do desejo (2013), e as reflexões sobre o desejo, conexões/agenciamentos; michel de certau em a invenção do cotidiano (2007), para entender tática e estratégia, enxergar os praticantes ordinários da cidade e compreender o espaço como lugar praticado; antonio negri e michael hardt, em multidão (2014), e a discussão do comum social, político e habitável; david harvey, em cidades rebeldes (2014), com a discussão do direito à cidade, as raízes das crises capitalistas e as manifestações e possibilidades de

lutas anticapitalistas; rogério haesbaert, em o mito da desterritorialização (2016), com a crítica a globalização neoliberal e discussão dos espaços e processos de territorialização/desterritorialização/reterritorialização; milton santos, em a natureza do espaço (2006) e o retorno do território (2005), com o conceito de lugar e território. ainda citamos paola berenstein jacques, em corpografias urbanas (2008) e elogio aos errantes (2012), e a abordagem da experiência urbana da alteridade e da inscrição dessa experiência nos corpos; francesco carreri, em walkscapes (2013), e o convite ao caminhar como forma de intervenção urbana; josep maría montaner e zaída muxí, em arquitetura e política (2014), no que diz respeito a responsabilidade da arquitetura em relação à sociedade, particularmente no que tange a participação uma vez que “não se pode propor o funcionamento de sociedades democráticas fortes sem a participação e a transparência social” (montaner; muxí, 2014, p. 18); lúcia leitão, em onde coisas e homens se encontram (2014) e a articulação entre cidade, arquitetura e subjetividade; josé guilherme cantor magnani, em de perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana (2002), e a abordagem de uma etnografia urbana; e, por fim, carlos nelson dos santos, em a cidade como um jogo de cartas (1988) e quando a rua vira casa (1985), para potencializar as reflexões sobre o papel do arquiteto e a estrutura urbana. aprofundando o conhecimento sobre as formas de apropriação dos espaços de uso coletivo, a compreensão da rua como elemento fundamental da vida urbana com base no “[...] princípio mais simples e fundamental da cidadania:

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a ação conjunta, resultante do diálogo plural que amplia o campo do possível, e, com ele, a diversidade, princípio estrutural do urbano” (santos; vogel, 1985, p.150).

antônio, desde a metodologia desenvolvida, o plano urbanístico concebido, suas diretrizes e a efetiva proposta.

a estrutura metodológica geral pretende uma articulação elaborada por vaz e pereira (2010) entre métodos de leitura de imagens mentais (imaginário coletivo) e a sua aplicação prática no processo de planejamento e desenho urbanos, uma vez que se pretende instrumentalizar a leitura popular (preconizada por um planejamento urbano participativo). evidente, que o trabalho aqui realizado possui fragilidades no que tange ao processo participativo, por se tratar de um trabalho final de graduação, o que traz por si só o entrave da exiguidade do tempo. entretanto, em que pese a ressalva, preferimos não recuar e enfrentá-la mesmo assim. o método construído neste estudo estrutura-se num tripé: etapa de reconhecimento, etapa de teste piloto; e etapa de pesquisa de campo final, quando se dá o processo de leitura comunitária. o trabalho está estruturado em três capítulos: i. o encontro; ii. as aproximações; iii. o percurso; iv. a pausa. no primeiro capítulo apresento e analiso o santo antônio, sua inserção na cidade, sua história, configuração e dinâmicas; no segundo capítulo são investigadas experiências responsáveis por nutrir um olhar crítico para intervenções urbanísticas e paisagísticas em centros históricos; e no terceiro capítulo, dá-se a construção de uma proposta de reabilitação dos espaços abertos públicos do santo

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procedimentos metodológicos

para compreensão da estrutura que será explicada a seguir, vide tabela 1. no primeiro momento, o investigador reconhece o objeto e define o recorte: compreende-se a configuração formal do bairro, suas dinâmicas locais e a relação usuário-espaço, a partir do estado da arte e da revisão bibliográfica (bem como as suas interrelações com outros saberes); das observações feitas in loco; dos registros fotográficos procedidos durante as visitas ao bairro; e do desenvolvimento das diversas análises (conexões bairro-cidade, parâmetros incidentes, análise morfoclimática, uso do solo, sistema viário, mobilidade e acessibilidade, levantamento das manifestações e apropriações, além do reconhecimento dos elementos da paisagem). a seguir, com uma amostra reduzida, um teste piloto permitiria a experimentação antes da estruturação definitiva da etapa de pesquisa de campo final. neste estudo, diante da temporalidade da academia, o teste piloto foi incorporado à pesquisa de campo final, quando foram realizadas entrevistas abertas semiestruturadas (flexibilizando o processo e dando liberdade narrativa aos entrevistados, sendo possível suprimir ou agregar outras perguntas pertinentes) junto a elaboração dos “mapas mentais” (segundo vaz e pereira, os desenhos elaborados pelos participantes). destes são extraídos os conceitos de lugar, estrutura, significado e identidade - uma referência à decomposição da imagem ambiental feita por lynch (vaz; pereira, 2010) -, como palavras repetidas, elementos gráficos similares, demandas comuns, citações próprias ou trazidas vinculadas à

mídia, com os quais elabora-se o mapa conceitual, que consiste na construção de um diagrama que indica a relação de conceitos - de forma que é possível identificar conceitos-chave, selecioná-los por ordem de importância, buscar relações horizontais e cruzadas, dentre outras relações possíveis (anastasiou; alves, 2003). a partir do mapa conceitual elaboramse os objetivos genéricos (mapa cognitivo em arborescência) de onde serão extraídos os objetivos estratégicos. por fim, de cada um dos objetivos estratégicos extraem-se as diretrizes. nesse trabalho foram feitas ainda algumas adaptações ao interelacionar outros instrumentos metodológicos. na primeira etapa, além do levantamento documental (quando fiz a revisão bibliográfica e coletei dados técnicos através de consulta ao plano diretor e a lei de uso e ocupação de solo), os registros e observações se deram a partir do caminhar (a). na etapa de leitura comunitária, com objetivo de dar voz a subjetividade dos participantes, os mapas mentais elaborados por eles foram chamados de cartografias do desejo (b). desejo porque este “é sempre modo de produção de algo, o desejo é sempre o modo de construção de algo” (guattari, rolnik, 2013, p. 261). perpassando todo o processo, o apoio de uma etnografia urbana, um olhar de perto e de dentro (c).

a) o caminhar como forma de intervenção urbana

“diante da diminuição da participação cidadã e do empobrecimento da experiência urbana que tornam os espaços urbanos simples cenários, sem corpo, espaços desencarnados” (jacques, 2008, p. 1), andare a zonzo. passear sem objetivo, perder tempo. um convite ao andar vadio pelas ruas. caminhar.

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o caminhar como uma prática estética, útil à arquitetura como instrumento cognitivo e projetual, como meio para se reconhecer dentro do caos e como meio através do qual inventar novas modalidades de intervenção nos espaços públicos. o caminhar como uma forma de reivindicar o próprio direito à cidade, um projeto cívico capaz de produzir espaço público e agir comum e diminuir o medo, desmascarando construções midiáticas de insegurança. um instrumento estético capaz de ler, descrever e escrever nos espaços. o percurso, como suporte ao caminhar, indica ao mesmo tempo o ato da travessia (ação de caminhar), a linha que atravessa o espaço (objeto arquitetônico) e o relato do espaço atravessado (estrutura narrativa). e, ainda que, de fato, não seja uma construção física é um recurso que pode estar à disposição da arquitetura e da paisagem para modificar esses espaços (carreri, 2013). nesse sentido, “adquire maior relevância a valorização da alteridade urbana, do outro urbano que resiste à pacificação” (jacques, 2012, p. 15) do espaço público. são esses vários outros que provocam o errante urbano a escapar da anestesia. que, ao caminhar, desobedece - como fala frederic grós (blanco, 2014). são errantes aqueles que realizam errâncias urbanas, homens lentos (para além de milton santos), voluntários e intencionais que se permitem a educação de perder-se, lembrando walter benjamin (jacques, 2008). lentos porque praticam um outro tipo de movimento, o que não diz respeito a um grau quantitativo - conforme consideram deleuze e guattari (2012) -, que se nega a entrar no ritmo mais acelerado, de forma crítica.

seria essa uma possibilidade de um pensamento e uma prática do urbanismo que utilizaria as errâncias e as corpografias enquanto formas possíveis de micro resistência ao pensamento urbano hoje hegemônico, espetacularizado e espetacularizante (jacques, 2008). ainda que sejamos convidados por carreri a sair da cidade mais praticada, assim como andar por ruas não conhecidas e a buscar espaços nômades, opacos e lisos dentro do próprio espaço estriado por excelência (a cidade), esse caminhar errante me permitiu um “afastamento voluntário do lugar mais familiar e cotidiano, em busca de uma condição de estranhamento, em busca de uma alteridade radical” (jacques, 2012, p. 23). assim foi possível explorar e apreender as ruas e travessas do santo antônio, suas dinâmicas e resistências. percorri o bairro e deixei-me conduzir pelos eventos. caminhando e detendo-me, perdendo tempo e sem determinações, por vezes me reconhecendo e me aproximando dos praticantes ordinários da cidade, “caminhantes, pedestres [...] cujo corpo obedece aos cheios e vazios de um ‘texto’ urbano que escrevem [...]” (certau, 2007, p. 171).

b) cartografias do desejo

o espaço da arquitetura está “[…] intimamente relacionado à ideia de se experienciar o espaço, não apenas no que se refere à sua importância simbólica coletivamente partilhada, mas, sobretudo, nas variações de sensações pessoais - donde sua dimensão subjetiva - que a apropriação pessoal desse espaço provoca” (leitão, 2014, p. 35). lúcia leitão (2014), quando relaciona cidade, arquitetura e subjetividade, sugere que a relação com o espaço edificado está impregnada de referências pessoais e que estas

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relações e os usos desses espaços pelos diversos grupos humanos, variam de acordo com a cultura em que estão inseridos. entender a dimensão subjetiva do espaço urbanístico implica compreender a cidade como a coisa humana por excelência, portanto um fenômeno sujeito a mecanismos, efeitos e contradições de tudo aquilo que é próprio do humano. perante a valoração excessiva do saber racionalizado, universalizado pelo poder, é preciso valorizar a experiência real do outro. a possibilidade de se expressar começa com o poder de descrever a própria experiência, valorizar as transmissões de saberes não regulamentados e ativar a capacidade critica a partir de cada olhar (montaner; múxi, 2014, p. 199).

c) etnografia urbana, um olhar de perto e de dentro

a experiência do espaço urbano fundamenta a intuição de que a rua é mais do que via, trilha ou caminho. é um universo de múltiplos eventos e relações, unidades de alto significado, referenciais definidores dos limites de um determinado território. e o que viria a ser uma etnografia de uma rua? não só a descrição densa de seu ambiente sócio-físico, mas também a identificação dos comportamentos de residentes e utentes a partir do suporte espacial (santos; vogel, 1985). quanto ao debate em torno da questão urbana, a bem da verdade, não é propriamente a ausência de atores sociais que chama a atenção, mas a ausência de certo tipo de ator social e o papel determinante de outros. em algumas análises, a dinâmica da cidade é creditada de forma direta e imediata ao sistema capitalista (magnani, 2002, p. 14).

quando surgem agentes são representantes do capital ou agentes a serviço desse interesse. os habitantes não aparecem ou são colocados em uma condição passiva. citando magnani (2002), a incorporação de outros agentes e suas práticas cotidianas permite a introdução de outras possíveis narrativas e trajetórias, até então invisíveis a uma certa leitura da politica, permitindo a apreensão de padrões de comportamento de “múltiplos, variados e heterogêneos conjuntos de atores sociais cuja vida cotidiana transcorre na paisagem da cidade e depende de seus equipamentos” (magnani, 2002, p. 17). é justamente essa dimensão que a etnografia ajuda a resgatar. um recorte bem estabelecido é condição para o bom exercício da etnografia. para apresentarmos estes recortes na paisagem urbana: o pedaço; a mancha; o trajeto; e o circuito, categorias que não se excluem e que permitem descrever a multiplicidade de escolhas e ritmos da dinâmica urbana (magnani, 2002). a noção de pedaço evoca os laços de pertencimento e o estabelecimento de fronteiras. as manchas são áreas contíguas do espaço urbano dotadas de equipamentos que marcam seus limites e viabilizam uma atividade ou prática predominante. diferente do pedaço, para onde o indivíduo se dirige em busca dos iguais, a mancha viabiliza cruzamentos não previstos. dentro da mancha os fluxos recorrentes no espaço mais abrangente da cidade configuram os trajetos (curtas extensões na escala do andar). os trajetos são como possibilidades de escolhas no interior das

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manchas. por fim, os circuitos descrevem o exercício de uma prática ou a oferta de determinado serviço por meio de estabelecimentos, equipamentos e espaços que não mantêm entre si uma relação de contiguidade espacial. a relação do pedaço com o espaço é mais transitória. a mancha apresenta uma relação mais estável e é mais visível e reconhecida/ frequentada por um círculo mais amplo de usuários (magnani, 2002). em síntese, magnani (2002), articula um olhar de perto e de dentro, não no sentido de uma técnica, mas porque faz-se necessário, além de uma perspectiva distanciada, um compromisso com um olhar que perpasse os instrumentos metodológicos e reafirme o compromisso em dar voz àqueles sujeitos, efetivamente, que sustentam a dinâmica urbana.

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metodologia instrumentos

etapa

ação

resultados

reconhecimento

teste piloto

etapa 1

etapa 2

diretrizes de plnejamento pesquisa de campo final (análise)

etapa 3 leitura comunitária

etapa 4 leitura comunitária

etapa 5 leitura comunitária

etapa 6

entrevista (5 entrevistados), extrair conceitos elaboração de de lugar, levantamento mapas mentais estrutura e documental (cartografia significado das a partir dos entrevista (dados técnicos) do desejo) e entrevistas e objetivos aberta (50 e, através do análises para cartografias do elabora-se genéricos, entrevistados) caminhar determinar desejo (palavras objetivos elaboram-se e elaboração errante, perguntas da repetidas, genéricos a partir os objetivos de mapas visitas, registro entrevista de elementos dos conceitosestratégicos, a mentais/ fotográfico, campo final, gráficos similares, chave partir dos quais cartografias observações em ver como demandas extraem-se as do desejo dias e horários proceder na comuns, citações diretrizes difeentes análise dos próprias ou desenhos e vinculadas à aferir tempo mídia) de duração reconhecer o objeto, definir dar voz à redefinição das o recorte e subjetividade entrevistas e compreender a dos desenhos relação usuárioparticipantes espaço

mapa conceitual com conceitos-chave

mapa cognitivo (em arborescência)

diretrizes

tabela 1 - instrumentos metodológicos

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i. o encontro



para ver una cosa hay que compreenderla jorge luis borges


a cidade fundada em 1549, salvador foi o primeiro núcleo urbano do brasil e, mais tarde, a primeira capital portuguesa no país. implantada em um sítio elevado, a cidade foi estruturada em dois planos (cidade alta e cidade baixa), “marca evidente da urbanística de colina praticada pelos portugueses em todo o seu império colonial ao longo do século xvi” (simões junior; campos, 2013, p. 49). a cidade alta abrigava as funções residenciais, administrativas e religiosas (protegidas pelas encostas íngremes) e na cidade baixa, eram desenvolvidas atividades portuárias e de comércio, “cidades” que se comunicavam através de ladeiras, guindastes, rampas e contrapesos.

que às portuguesas” (simões junior; campos, 2013, p. 67) e pode-se salientar ainda o aparecimento tardio das praças urbanas como elementos formais estruturadores do tecido urbano, uma vez que, na sua origem, a cidade portuguesa foi marcada pela presença de largos (em frente às igrejas) e de campos abertos (para manobras militares, festividades, touradas etc.)” (ibid., p. 66)

(embora não rígidos) que atendiam aos objetivos políticos de controle do território (tratava-se de uma cidade murada), do processo de colonização e de afirmação do poder real português.

entre as décadas de 1870 e 1890 – substituindo os antigos guindastes construídos desde o século xvi para o transporte de cargas entre os dois níveis – se edificam os ascensores (lacerda e taboão) e os planos inclinados (gonçalves e pilar). no final do século xix, com a crescente articulação da economia baiana com o capitalismo internacional, observou-se em salvador uma intensificação dos processos de transformação urbana que, dentre tantas consequências, levou ao fim a vinculação entre moradia e trabalho que caracterizou todo o período colonial (couto, 2000). até o final do século xix, os diversos segmentos da população (escravos libertos, mestres, artesãos, burgueses, nobres) conviviam no mesmo espaço e os casarões abrigavam usos mistos (residenciais e comerciais, ao mesmo tempo). a partir do século xix é que começa a ocorrer uma mudança progressiva nessa estrutura espacial e na estratificação social (mourad, 2011). uma segregação socioespacial que se inicia com o deslocamento da população mais abastada do centro tradicional para os bairros do campo grande, vitória, graça e barra.

“em relação à implantação do edificado no lote, a normativa de construir sem recuos frontais e laterais era comum mais às cidades brasileiras do

no entanto, “a reforma urbana considerada de maior importância para os urbanistas e geógrafos brasileiros corresponde ao período de 1912-1916” (mourad,

ainda de acordo com simões junior e campos (2013), o traçado da cidade e a construção de seus elementos iniciais ficaram sob a responsabilidade do mestre de obras luís dias, responsável por trazer de lisboa desenhos que esboçavam o arruamento urbano desejável. planos e modelos urbanísticos que funcionavam como orientação, passível de adaptação às condições específicas do sítio e aos recursos e técnicas locais. não se tratou, no entanto, de uma urbanização espontânea. inspirada nos ideais urbanos renascentistas, salvador se desenvolveu com traçados urbanos regulares

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2011, p. 69). é no século xx que ocorrem as grandes transformações urbanas, como a redefinição de novas centralidades, a modernização dos transportes e a prática de um urbanismo de higienização. nesse período grandes obras de modernização foram conduzidas pelo então governador josé joaquim seabra que “pôs em curso a construção da avenida sete de setembro, explicitamente inspirada na avenida central do rio de janeiro” (ferreira filho, 2003, p. 152) - obra higienista realizada por pereira passos (época conhecida como bota-abaixo) -, “modernizou o porto e ampliou a área comercial da cidade baixa, por meio de grandes aterros” (simões junior; campos, 2013, p. 53). “a idealização da elite durante todo o século xx era a de uma cidade europeizada e branca, porém essa aspiração esbarrava no fato de a população de salvador ter aproximadamente 75% de negros e mestiços” (mourad, 2011, p. 69). “mostrando que apesar de todo o esforço pela modernização, restarão ainda por muito tempo em salvador as cicatrizes de uma cidade colonial e escravista” (couto et al, 2000, p. 32). a partir do século xx (mais precisamente nas décadas de 1970 e 1980) se fortalece uma tendência de esvaziamento e desvalorização dos centros históricos onde “acelerou-se o processo de encortiçamento e proletarização, agravado com o abandono da região pelas políticas públicas” (simões junior; campos, 2013, p. 53). em grande medida por conta do deslocamento das atividades econômicas e administrativas desses centros tradicionais para os novos centros, direcionando a expansão urbana soteropolitana devido às construções da avenida paralela, do centro administrativo, da nova estação rodoviária e do shopping iguatemi.

“a mudança de centralidade [...] e o surgimento do turismo como possibilidade econômica para o estado da bahia coincidem com a redefinição da política de patrimônio histórico e cultural” (mourad, 2011, p. 73). em 1984, o instituto do patrimônio histórico e artístico nacional (iphan) foi responsável pelo tombamento do centro histórico de salvador (chs) - o lento processo de ampliação do limite da área de tombamento desde 1973, quando foi criado o serviço do patrimônio histórico e artístico nacional (sphan), explica em parte a grande descaracterização do centro histórico em alguns trechos (couto et al, 2000) como a demolição da sé, o aterro que alterou parte do frontispício na cidade baixa, o alargamento da avenida sete de setembro, dentre outros. em 1985 a área é inscrita como patrimônio cultural da humidade pela unesco, o que provocou duas importantes intervenções. em 1986 (na gestão de mário kertész) a prefeitura criou o programa especial de recuperação dos sítios históricos de salvador. arquitetos renomados como lina bo bardi e joão filgueiras lima (lelé) foram contratados para desenvolver projetos de reabilitação e outros projetos foram efetivados, como o belvedere da sé, o complexo da barroquinha, a casa de benim, a casa de olodum e a fundação pierre verger. esse teria sido também o primeiro projeto a utilizar meios de comunicação em massa para alavancar a recuperação do chs e auferir ganhos políticos. no entanto, os investimentos públicos não foram capazes de reverter o estado do centro. em 1992, ocorreu uma reorientação politica de recuperação do chs e o governo do estado (na

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gestão de antônio carlos magalhães) interveio agressivamente na área através do programa de recuperação do chs. este que transformou-se em uma ferramenta autoritária e excludente para transformação do chs em shopping a céu aberto (mourad, 2011) e que respondia a uma antiga aspiração da elite local “interessada em ‘liberar’ aquela área da ‘degradação’, ‘marginalidade’ e ‘promiscuidade’ com que se estigmatizava a sua população pobre [...]. em tal contexto, o significado do termo restauração transcendia o campo da arquitetura para expressar uma reapropriação politica do espaço urbano” (dantas neto, 2006, p. 307). em todas as 7 etapas desse projeto, “pode-se perceber a transformação do centro histórico como objeto de consumo, substituindo e/ou introduzindo novas funções, que pressupõe a refuncionalização das relações sociais que ali subsistem” (mourad, p. 80, 2011) através de intervenções-espetáculoscenários que apartaram as populações locais e as atividades tradicionais e cotidianas e produziram um centro histórico despovoado da população pobre e vulnerável, voltado apenas para o comércio e o turismo.

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o lugar um dos bairros mais antigos da primeira capital do país, leva em seu nome a referência do crescimento da cidade para além das “portas do carmo” (ou portas de santa catarina) que protegia o norte da cidade murada (dorea, 2006) e se localizava “primitivamente, no fim da atual praça tomé de souza, início da rua da misericórdia” (silva, 1949, p. 117). o termo “além do carmo” também indica, em sequência exata, a chegada àquela área de dois importantes monumentos sacros da bahia: primeiro, a igreja do carmo (em 1592), e, em seguida, a igreja de santo antônio além do carmo (entre 1594 e 1595) (dorea, 2006). no que diz respeito aos estilos arquitetônicos, lembrando o arquiteto e urbanista marcos queiroz (i), o bairro possui uma grande variedade: existem exemplares de estilo neoclássico (como a fachada do forte do santo antônio, vide foto 2), art noveau, art déco, eclético (a exemplo da pousada colonial) e rococó (a exemplo da igreja do boqueirão). historicamente, em termos gerais, o bairro de santo antônio foi zona de moradia de segmentos das camadas médias da população [...]. esta característica foi determinante para que a área não passasse por processos de decadência tão intensos quanto os vivenciados em zonas mais próximas do centro da cidade colonial – como pelourinho, terreiro de jesus e arredores (cardoso, 2010, p. 51)

voltando ao programa de recuperação do pelourinho (marco no que diz respeito à substituição populacional) é importante sinalizar que, no que tange à gentrificação, o processo em salvador foi inicialmente promovido pelo estado (expulsando moradores a favor da execução de um projeto turístico) aliado a realidade de uma população rica que não tem interesse em habitar o centro. por conta das obras de recuperação do chs, estrangeiros e outros agentes, interessaram-se em comprar imóveis no santo antônio com a possibilidade de sua valorização. este é um processo que, em verdade, se intensifica a partir de 2000, quando o bairro começa a configurar-se como um espaço turístico, com uma maior oferta de pousadas, hotéis (com destaque para o hotel convento do carmo) e restaurantes. em 2005 o projeto piloto do rememorar, desenvolvido exatamente no santo antônio, recuperou 5 casarões na rua dos marchantes e na rua direita e criou uma expectativa em relação à recuperação do próprio bairro (mourad, 2011). com a entrada da holding lgr além do carmo empreendimentos ltda constitui-se efetivamente

(i) disponível em <http://gshow.globo.com/rede-bahia/ aprovado/videos/v/conheca-mais-a-historia-do-bairrosanto-antonio-alem-do-carmo/2607404/>.

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toponímias (i) do bairro rua dos adobes

adobe no brasil é um termo utilizado para designar um tipo de tijolo grande seco ao sol, no caso da rua dos adobes trata-se de um provincianismo originário de trás-os-montes (região nordeste de portugal) que significa um certo tipo de toicinho empregado para tempero.

rua direita de santo antônio

denominação tipicamente portuguesa que significa rua direta não reta (torta). que leva diretamente a um determinado ponto. serve para indicar as vias através das quais os moradores chegavam diretamente às edificações mais importantes do aglomerado urbano. rua dos marchantes

largo da cruz do pascoal

largo de forma triangular onde localiza-se o oratório de nossa senhora do pilar do século xviii, estrutura de notávelde mérito arquitetônico-urbanístico praticamente toda revestida de azulejos, hoje protegida por gradil de ferro do século xix.

largo da quitadinha do capim

batismo ligado ao comércio de gado nos primeiros tempos coloniais.

largo dos quinze mistérios

batismo determinado por conta da capela dos quinze mistérios, localizada em sua esquina.

rua dos marchantes

rua onde moravam os principais negociantes de gado e onde se alojavam os que traziam gado para o matadouro público.

rua dos ossos

parte de um conjunto de logradouros cujos batismos têm origem no abate e comércio de gado, na época da bahia colonial.

(i) listagem de toponímia baseada na obra dorea, luiz eduardo. histórias de salvador nos nomes das suas ruas. salvador: edufba, 2006. (coleção bahia de todos).


ladeira de água brusca

referência ao engenho de açúcar movido à roda d’água, localizado no sítio que hoje se conhece como água de meninos, de nome engenho d’água dos meninos dos padres da companhia de jesus. a água que descia com violência de santo antônio era a água brusca, que movia a roda do engenho.

ladeira do baluarte

situada ao lado esquerdo da fortaleza de santo antônio além do carmo, a ladeira foi palco de pesadas perdas sofridas pelos holandeses. a fortaleza só veio batizada com seu nome atual muito depois daqueles combates, época em que ainda não existia a freguesia de santo antônio (criada em 1648 pelo bispo dom pedro da silva e sampaio). o batismo popular da ladeira preserva o nome da primitiva construção defensiva.

ladeira do boqueirão

significa “saída larga para um campo, depois de uma estrada estreita”, o que se aplica ainda hoje a ladeira existente entre as ruas direita de santo antônio e dos adobes, tendo sua origem na irmandade de nossa senhora do boqueirão, que existiu na igreja de santo antônio além do carmo, com o nome de irmandade de homens pardos.

ladeira do aquidabã

segundo nélson cadena é um nome de origem guarani e significa “terra entre rios”. aquidabã é, também, o batismo de um riacho , afluente do rio paraguai, às margens do qual foi travada, a batalha que pôs fim à guerra do paraguai (conflito que teve participação ativa da bahia).

ladeira dos perdões

tem como origem a instalação de um recolhimento para as beatas da ordem franciscana da capela do senhor bomjesus dos perdões. no mesmo local há ainda uma travessa dos perdões. asssim como os demais batismos que tiveram sua origem na presença de estabelecimentos religiosos, este é apenas mais um exemplo do que edison carneiro registra como “um sinal da extrema beatice da época”.


um processo perverso de gentrificação (ii). o grupo, conduzido por luciana rique (herdeira do shopping da bahia), efetuou a compra de cerca de 35 casas com objetivo de transformar o bairro em um shopping de luxo a céu aberto, projeto que integrava a 7a etapa do programa de recuperação do chs - etapa considerada, inclusive, como precurs ora do processo de gentrificação no brasil (mourad, 2011, p. 2). aspecto interessante da dinâmica imobiliária do bairro é que até 2007 os agentes eram diversificados e em grande parte pessoas físicas, a partir desse ano, com a ação do lgr, esse cenário é modificado. ao longo de 10 anos (2000 a 2010), a rua direita concentrou 44% das transações imobiliárias realizadas no bairro (mourad, 2011).

além de gerar uma especulação visto que, com a entrada do lgr, diversos casarões começaram a ser colocados a venda por valores exagerados, o projeto gerou uma desertificação do bairro. caminhando por suas ruas, não era difícil encontrar placas de venda. hoje, cerca de 71 imóveis configuram-se no bairro como vazios construídos. além dos imóveis de moradores e herdeiros à venda, estão também os do próprio grupo lgr que desistiu do projeto (não se tem conhecimento do motivo) há cerca de 5 anos. todos estes fatos ocorreram sem nenhum questionamento por parte do poder público. toda situação essa é escamoteada através de um discurso construído no plano de reabilitação do centro antigo que se apresenta como democrático e visa incentivar a diversidade social e de uso. o que se percebe, no entanto, é uma despolitização do discurso na prática: [...] o controle e a privatização do espaço urbano e residencial pelas empresas privadas [...]; a total ausência de debate sobre os instrumentos jurídicos que devem ser utilizados nos imóveis reabilitados no centro antigo – nenhuma menção sobre propriedade coletiva ou aluguel social [...] (ibid., 2011, p. 190)

um projeto baseado numa espécie de mercantilização da vida urbana, responsável por um discurso que reflete “a posição de certos setores sobre o bem público, a prepotência e o voluntarismo com que tratam a cidade, como se fosse uma extensão de seu negócio [...] como se estivessem operando um espaço vazio” (mourad, 2011, p. 175) sem sujeitos.

em 2014, mobilizados por essa problemática, um grupo (ii) gentrificação ou enobrecimento urbano é um termo, usado pela primeira vez pela socióloga britânica ruth glass em 1964, que caracteriza um processo de enobrecimento e embelezamento de áreas urbanas (com ou sem auxílio governamental), as quais provocam valorização imobiliária, provocando expulsão de moradores tradicionais que pertencem a classes sociais de menor renda. trata-se de uma colonização do espaço. fonte: cartilha indebate #02 gentrificação ou colonização do espaço, disponível em: <http://indebate.indisciplinar.com/wp-content/uploads/2017/03/07-03_cartilha-gentrificação_indebate_vac_online.pdf>)

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de moradores pichou a frase aqui podia morar gente em diversas casas desocupadas. o protesto buscava alertar a população para a gentrificação vivida pelo bairro desde a ação do grupo lgr. por falar nisso, “no centro histórico de salvador entre a cidade alta e a cidade baixa, há uma verdadeira ‘cidade do meio’” (nascimento, 2015, p. 1). além da configuração formal, faz-se presente no santo antônio uma comunidade de cerca de 165 famílias que ocupa informalmente a encosta desde a década de 1960. mais precisamente, a chácara santo antônio ocupa a porção da falha geológica que começa no túnel américo simas e termina no muro da igreja da trindade (nascimento, 2015). conforme explica nascimento (2015), em 2002, foi fundada a associação de moradores e amigos da chácara santo antônio, entidade representativa da comunidade. em 2006, água, esgoto e luz foram instalados na comunidade, mesmo ano em que eram previstas obras de urbanização, sob responsabilidade da companhia de desenvolvimento urbano do estado da bahia (conder). no entanto, o projeto foi suspenso no ano seguinte antes de começar e a prefeitura foi responsável pela construção de uma escadaria, dando acesso à comunidade. em 2011, um deslizamento de solo derrubou casas da chácara e a codesal tentou remover a comunidade da área de risco. nascimento (2015, p. 12) destaca que, segundo moradores locais, essa ação se deu porque todo o bairro do santo antônio além do carmo estava sob mira de

especuladores imobiliários estrangeiros e nacionais (a exemplo de luciana rique). após denúncias de movimentos sociais com relação a violações aos direitos de moradia em salvador, em 2014 a chácara foi visitada pela arquiteta e urbanista raquel rolnik, quando relatora especial para o direito à moradia adequada do conselho de direitos humanos da onu, junto a defensoria pública da bahia, em missão não oficial. de forma geral, a problemática que envolve a comunidade se dá por ela ocupar informalmente, e em área de risco (onde já houve deslizamento), uma área tombada. por um lado, a comunidade alega que o tombamento ocorrido em 1984 compreendeu a chácara santo antônio (iii), fazendo-a parte integrante do patrimônio histórico nacional, sustentando sua permanência no fato de que ocupam terra pública há mais de cinco anos (o que lhes daria domínio útil do terrenos) e do plano de reabilitação participativo do centro antigo de salvador referir-se à comunidade ao indicar como uma de suas metas a produção de 110 unidades habitacionais para ela. todavia, o instituto do patrimônio histórico e artístico nacional (iphan) nega qualquer possibilidade de permanência na encosta tombada e a legislação urbanística de salvador indica a área da encosta do centro histórico como non aedificanti, ou seja, proibida para construções (nascimento, 2015).

(iii) segundo moradores que foram entrevistados, a chácara santo antônio exista há, no máximo, 20 anos. ao contrário da ocupação na ladeira do pilar, também conhecida como “quebra bunda”.

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projetos em 2014 foi elaborado por dois escritórios paulistas (stuchi & leite projetos e consultoria e levisky arquitetos associados) um masterplan estratégico para o centro antigo de salvador. tratava-se de um plano de desenvolvimento sócio-econômico, com base no plano de reabilitação participativo do centro antigo, coordenado pela secretaria de cultura do estado da bahia e gerenciada pelo escritório de referência do cas (ercas), embrião do atual dircas (diretoria do cas). o projeto teve como estratégia-foco estabelecer a conexão do centro antigo com a cidade (a partir do incremento do transporte vertical e o resgate do circuito do bonde) e o incentivo à moradia (a partir da atração de novos moradores, de diferentes faixas de renda, e a sua permanência estimulada pela construção de equipamentos de uso coletivo geradores de emprego e renda). para realização do processo, foi proposta a implantação de 20 ações, faseadas em 3 momentos distintos (com duração de 3 anos cada um). no que diz respeito ao santo antônio, estavam previstas a recuperação do frontispício, a recuperação dos transportes verticais, a implantação dos planos elevados (belvederes), a revitalização da rua direita de santo antônio e a revitalização do largo de santo antônio. comparando o plano de reabilitação do centro antigo divulgado em vídeo em 2014 e o masterplan estratégico (stuchi e levisky) antes mencionado, a maior parte das ações previstas estão, desde 2014, sendo efetivadas. é o caso do plano de acessibilidade no pelourinho, da recuperação do asilo santa izabel

e seus jardins, da reforma do hotel palace e, mais recentemente, da requalificação da rua chile. desse modo, entende-se que as propostas que incidem para o santo antônio virão a se realizar, como a criação do circuito do chamado bonde moderno que ligará a praça castro alves ao largo de santo antônio (uma proposta de caráter turístico porque não contribui para ligação do bairro com outras centralidades importantes da cidade) e do plano inclinado santo antônio (conforme será explicado em momento posterior, o bairro já possui o plano inclinado do pilar, cujo funcionamento é ineficiente). estão em execução as obras de pavimentação de vias e requalificação de calçadas, viabilizadas no âmbito do projeto pelas ruas do centro antigo, iniciado em 2015 (com previsão de conclusão em 2017). o projeto foi dividido em cinco lotes, o santo antônio integra o lote 3. dentro deste projeto está previsto para a rua direita a remoção da fiação aérea e a sua transferência para uma vala subterrânea, onde passarão redes de energia elétrica, telefonia e internet (de acordo com entrevista realizada com moradores, na década de 90 já houveram obras na rua para preparação, tratandose de um projeto antigo, jamais executado). o largo do santo antônio foi reinaugurado em 2016 pela prefeitura. ganhou novos bancos, pavimentação, parque infantil e equipamentos de academia pública. a crítica aqui é que um bairro do centro histórico de salvador tem sua praça principal em estética semelhante à todas as outras praças da cidade que, no mesmo período, foram requalificadas. nesse momento, iphan, ipac, ufba e unesco,

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coordenados pela fundação mario leal ferreira, a partir de um acordo de cooperação técnica, realizam estudos e diagnósticos para subsidiar a regulamentação da área de proteção cultural e paisagística do centro antigo de salvador (apcp). além disso, também atinge o santo antônio o programa revitalizar (programa de incentivo e recuperação de imóveis do centro antigo de salvador) e o pelourinho dia e noite, ambos integrantes do projeto salvador 360 da prefeitura municipal de salvador – eixo centro histórico – que prevê ações em áreas de incentivo, intervenções urbanas, equipamento estruturantes, mobilidade, habitação, regulamentações, cultura e gestão, com investimentos até 2020. o revitalizar é uma das iniciativas da prefeitura para estimular a revitalização e dentro desse programa é possível obter benefícios fiscais (como redução do iptu, perdão de dívidas, redução do iss, isenção do itiv) ao reformar, recuperar ou edificar imóveis dentro da área abrangida. por sua vez, o pelourinho noite e dia, coordenado pela diretoria de gestão do centro histórico, órgão da secretaria municipal de cultura e turismo (secult), tem o objetivo de revitalizar praças, investir em segurança e iluminação, implementar projetos sociais, além da elaboração de uma rotina de shows e atividades artísticas.

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legislação incidente existem três poligonais com delimitações para a área de estudo: a poligonal mais restritiva, o centro histórico de salvador (chs), a área de proteção rigorosa ao patrimônio cultural e paisagístico de salvador (apr) e, a poligonal mais abrangente, o centro antigo de salvador (cas). em 1983 (lei municipal de 3.289) foi definida a apr, área [...] em que os elementos da paisagem construída ou natural abrigam ambiências significativas da cidade, tanto pelo valor simbólico, associado à história da cidade, quanto por sua importância cultural, artística, paisagística e integração ao sítio urbano (salvador, 2018b, art. 108).

em 1984, o instituto do patrimônio histórico e artístico nacional (iphan) foi responsável pelo tombamento do chs, inserido na apr. e em 2010, no plano de reabilitação participativo do centro antigo de salvador foi delimitado o cas, área contígua à apr que engloba o centro histórico (chs) e o entorno do centro histórico (ehs), compreendendo 11 bairros: centro histórico, centro, barris, tororó, nazaré, saúde, barbalho, macaúbas, lapinha, comércio e santo antônio.

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centro histórico área de proteção rigorosa centro antigo

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configuração em 2017, a partir da nova lei de bairros, salvador (lei 9278/2017) passou a ser dividida em 163 bairros. no corpo da lei, que dispõe sobre a delimitação e denominação dos bairros do município, determina-se o bairro como unidade territorial com densidade histórica e relativa autonomia no contexto da cidade, que incorpora noções de identidade e pertencimento dos residentes e usuários, os quais utilizam os mesmos equipamentos e serviços comunitários, mantêm relações de vizinhança e reconhecem seus limites pelo mesmo nome (salvador, 2017a, art. 2).

a proposta foi baseada no caminho das águas, um estudo da universidade federal da bahia publicado em 2010, que delimitou os bairros do município tendo como referência noções de identidade e pertencimento dos seus moradores. o caminho das águas define ainda os conceitos de localidade e centro de bairro. localidade como sendo uma porção do território, inserida (parcial ou totalmente) em um bairro, que possui elementos específicos de estruturação e complexidade urbana, podendo ser um conjunto, um loteamento ou uma ocupação informal que tenha se tornado referência. e centro de bairro compreendido como uma área para a qual convergem e se articulam os principais fluxos do bairro/região, dotado de variedade de serviços, infraestrutura e acessibilidade (santos et al, 2010). com muita frequência compreende-se o santo antônio delimitado entre a cruz do pascoal e largo de santo

antônio além do carmo. até mesmo nas entrevistas, percebe-se que seus limites não são claros nem aos próprios moradores. diante do exposto, foi utilizada para o desenvolvimento deste trabalho a poligonal definida pelo caminho das águas e a nova lei de bairros (lei 9278/2017), cuja configuração é apresentada no mapa 1. para análise de suas conexões e inserção na cidade, foram utilizadas 3 escalas: intrabairro (relação interna do próprio bairro) (iv), interbairros (relação do bairro com os bairros vizinhos) e urbana (relação do bairro com a cidade). no que diz respeito à sua inserção na cidade, 6 bairros do centro antigo estão no seu entorno: centro histórico, saúde, nazaré, barbalho, lapinha e comércio. na imagem x, observam-se as seguintes conexões: ladeira do carmo (centro histórico-santo antônio); ladeira do arco (nazaré-barbalho-santo antônio); travessa emídio santos (barbalho-santo antônio) e rua dos perdões (barbalho-santo antônio); rua são josé de baixo (lapinha-santo antônio); e ladeira da água brusca (comércio-santo antônio). estas conexões foram observadas na perspectiva de acesso através de veículos motorizados, uma vez que, na perspectiva dos pedestres, outros percursos podem ser escolhidos (principalmente como no caso da conexão entre o santo antônio e o barbalho).

(iv) no mapa 1 estão localizadas espacialmente as relações interbairros e urbana, a relação intrabairro será analisada em momento posterior, junto a análise da infraestrutura viária para veículos (página 56).

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mapa 1 - localização

outro destaque importante, agora na perspectiva de uma escala urbana, é a respeito da avenida j. j. seabra (conhecida como baixa do sapateiros) – em parte dentro da poligonal do santo antônio – inserida numa área de importância metropolitana (zona de centralidade metropolitana – zcme-ca), e a rua cônego pereira (conhecida como sete portas), por se tratarem de zonas de centralidade linear municipal que viabilizam a articulação do bairro com a cidade.

o mapa identifica a inserção do santo antônio na cidade quanto aos seus seus acessos e bairros no entorno e sinaliza o direcionamento das principais vias no recorte representado.

01 02 03 04 05 06 07

acesso ao bairro ladeira da água brusca rua são josé de baixo rua dos perdões travessa emídio pio ladeira do arco j. j. seabra (baixa dos sapateiros) ladeira do carmo

centro histórico

cidade baixa

comércio

direção de vias estruturais do entorno av. jequitaia - cidade baixa via expressa - tancredo neves av. presidente costa e silva - centro (tororó) av. da frança - centro histórico

1

bairros do entorno comércio centro histórico saúde nazaré barbalho lapinha

lapinha

santo antônio

7

2

centro histórico

6

saúde

3 4

5 barbalho

nazaré

centro (tororó)

200m 250

tancredo neves


condições climáticas com base no estudo de clima urbano em salvador, elaborado pelo laboratório de conforto ambiental (lacam fau/ufba), salvador localiza-se na costa nordeste do brasil (12¬o52’ s, 38¬o22’ o), em uma região de clima tropical (quente e úmido, com médias anuais entre 25,2oc, umidade em torno de 80,8% e velocidade média dos ventos 3,1 m/s), próximo ao equador geográfico - estando sob exposição de radiações solares quase que perpendicularmente durante todo o ano. em salvador há um regime de ventos constantes na maior parte do ano com baixo percentual de calmaria e predominam os ventos alísios se durante quase todo o ano, embora mais expressivos no outonoinverno. destacam-se ainda os ventos l na primaveraverão; ventos ne de outubro-março pela manhã; e, os ventos s, embora secundários, são intensos e geralmente associados a períodos chuvosos.

algumas regiões, “ilhas da calor”. quanto à vegetação, são naturais de salvador as florestas úmidas, a restinga e os manguezais. todas essas tipologias de vegetação fazem parte do domínio da mata atlântica, sendo a restinga e os manguezais considerados como seus ecossistemas associados. a mata atlântica é um dos grandes biomas brasileiros e seu nome é originado da sua localização, acompanhando a faixa litorânea atlântica. esse é o bioma que mais sofreu intervenção humana e, apesar de recordista mundial em biodiversidade, a mata atlântica é uma das mais ameaçadas do planeta (salvador, 2017b).

sua configuração peninsular lhe confere 3 bordas marítimas com orientações distintas. duas voltadas para o oceano atlântico e uma para no (do farol da barra ao subúrbio ferroviário), voltada para baía de todos os santos, onde também se faz presente outro elemento significante de sua morfologia, a falha geológica (65m) que separa a cidade alta da cidade baixa. essa falha funciona como uma barreira à ventilação dominante se, implicando numa ventilação invertida na cidade baixa. a massa de água, situada a oeste da faixa, reflete a radiação solar e, junto a exposição poente da encosta, são responsáveis por um acréscimo na temperatura desta área gerando, em

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parâmetros a análise das condições legais da poligonal estudada se deu através do plano diretor de desenvolvimento urbano do município de salvador (pddu), lei 9069/2016, e da lei de ocupação e uso do solo (louos), lei 9148/2016. o recorte estudado dos mapas aqui mencionados encontram-se na seção anexos.

a) zoneamento e centralidade

o santo antônio configura-se como zona predominantemente residencial 3 (zpr-3). nesta porção do território, com alta densidade construtiva e demográfica (classificação 3), se admitem outros usos desde que conciliáveis com os usos residenciais (como uso misto, atividades comerciais e prestação de serviços). a partir do mapa de centralidades observa-se que o bairro não é contemplado pelo novo pddu como uma centralidade, ainda que boa parte do seu entorno imediato faça parte da zona de centralidade metropolitana do centro antigo (zcme-ca), “um espaço simbólico e material das principais relações de centralidade do município”, nos termos do art. 170, §3o, do pddu (salvador, 2016a, p. 87). é importante a reflexão crítica sobre essa não inclusão do santo antônio como uma centralidade uma vez que é parte do centro antigo.

b) savam

o savam (v) (sistema de áreas de valor ambiental e cultural) compreende as áreas do município que

contribuem de forma determinante para qualidade urbana e é composto por dois subsistemas, o subsistema de unidades de conservação e o subsistema de áreas de valor urbano-ambiental. esse último constituído por áreas cujos valores naturais encontram-se parcialmente descaracterizados em relação às suas condições originais, mas que contribuem para o conforto climático, sonoro e visual, assim como compreendem também elementos, cenários e marcos de referência vinculados à imagem, história e cultura local (salvador, 2016a, art. 245, inciso ii). o santo antônio integra a apcp (área de proteção cultural e paisagística). área, portanto, especialmente protegida por se associar ao meio ambiente cultural uma vez que vincula-se à imagem da cidade e caracteriza-se como monumento histórico significativo da vida e construções urbanas. no seu caso, comporta ainda a área de proteção rigorosa (apr), cujos arranjos da paisagem construída refletem ambiências significativas para o desenho e imagem da cidade, pelo seu valor simbólico e por sua integração ao sítio urbano em termos visuais e paisagem resultante (salvador, 2016a). e ainda integra área de borda marítima (abm), mais especificamente do trecho 3 (são joaquim-mercado modelo). dentre as diretrizes incidentes, no caso da borda da baía de todos os santos, está a regularização (v) todas as praças e largos de salvador, entendidos como espaços urbanos de gozo e uso públicos, livres de edificações, que propiciam convivência e/ou recreação para seus usuários, integram o savam (salvador, 2016a, art. 283)

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fundiária dos assentamentos precários urbanizáveis e reassentamento das áreas não urbanizáveis, especialmente nos casos de encostas íngremes e instáveis (caso da ocupação informal da chácara santo antônio).

c) infraestrutura viária para veículos

a infraestrutura viária do município orienta-se pela definição de uma rede hierarquizada de vias compreendendo duas categorias rede viária estrutural (rve), da qual a via expressa (ve) e a via arterial (va) fazem parte e a rede viária complementar (rvc), da qual a via coletora (vc), a via local e a via de pedestre e/ou de transporte não motorizado (vp) fazem parte. na poligonal estudada, com base no mapa de classificação viária da lei de uso e ocupação do solo (louos), a maioria de suas vias são classificadas como coletoras, sendo as demais locais. no seu entorno imediato, há duas importantes vias arteriais: a avenida jequitaia (comércio) e o túnel américo simas (associado ao ponto crítico do complexo viário dos fuzileiros navais, segundo o mapa de sistema vário) e, desde 2013, uma via expressa (via expressa da baía de todos os santos) que permite o acesso direto ao porto.

d) mobilidade e acessibilidade

com base no mapa de centralidade da louos, o plano inclinado do pilar viabiliza a conexão do santo antônio com a zona de centralidade linear metropolitana do centro antigo (ca) e o terminal do aquidabã conecta

o bairro à zona de centralidade linear municipal (vi) 17 (rua cônego pereira e avenida j. j. seabra) e 19 (avenida heitor dias) e, por consequência, à zona de centralidade metropolitana do retiro/acesso norte. além desses, existem 6 pontos de ônibus dentro do bairro que permitem sua conexão com a cidade. “o plano inclinado do pilar foi construído em 1872, sendo também reformado para servir ao transporte de passageiros em 1915, com capacidade para dez passageiros, mas sem perder totalmente a importância no que se referia ao transporte de mercadorias diretamente do porto para a cidade alta” (dorea, 2006, p. 286). hoje, o plano “vive fechando/abrindo/ fechando. sem nunca avisar que vai fechar nem que vai abrir. e muito menos o porquê de tanta irregularidade” (ganzelavitch, 2018). existe também o argumento da violência urbana por parte dos usuários, o que contribui para uma menor utilização do plano inclinado e do terminal do aquidabã. muitos consideram que o plano leva o usuário até uma área de risco do bairro do comércio e que são recorrentes os assaltos na ladeira do aquidabã, percurso de acesso ao terminal do aquidabã. além disso “o único micro-ônibus que ia, de caju em caju, do largo de santo antônio até o campo grande, agora encolheu a rota, regressando logo na piedade” (ganzelavitch, 2018) e os frequentadores, em sua (vi) “porções do território lindeiras às vias estruturais, que fazem a conexão entre bairros, bem como aquelas estruturadas nas imediações dos corredores de transporte coletivo de passageiro de média capacidade” (salvador, 2016a, art. 27).

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maioria, acessam o bairro a partir de serviços de empresas de transporte privado (táxi, uber, 99pop) ou em carro próprio, aumentando a demanda por estacionamento frente a uma oferta já insuficiente. um problema dos centros urbanos antigos, não limitado ao santo antônio, e que “dificultam a competição com as novas centralidades, pelo que os centros das cidades têm perdido importância e revelam, não raro, sinais de degradação física, social e funciona” (carvalho, 2012 apud isidoro, 2017, p. 38). trata-se, portanto, de um problema a ser administrado pelas cidades contemporâneas em articulação com outra problemática: o aumento no número de transportes individuais e os investimentos feitos até então para viabilizar, principalmente, o fluxo desses veículos em detrimento de transportes de uso público. no que diz respeito à acessibilidade, a partir do levantamento fotográfico e das observações feitas em campo, compreende-se que o bairro não é completamente acessível (ainda que alguns trechos possuam piso tátil e o largo de santo antônio possua rampas de acesso). além disso, o comportamento típico dos moradores e frequentadores de caminharem pelo leito carroçável, revela que, os diversos obstáculos (jarros de flores, mesas e cadeiras) posicionados em calçadas estreitas, impedem o livre tráfego de pedestres ou deficientes.

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mapa 2 - usos o mapa é um levantamento dos uso do solo das edificações que compõem este território. observa-se a predominância do uso residencial, com destaque para a ocupação informal no frontispício e cerca de 71 vazios construídos.

0 10

100



centro histórico mapa 3 - mobilidade o mapa é um levantamento dos transportes e das vias neste territtório de acordo com a classificação viária, identifica sua toponímia e evidencia as conexões estabelecidas na escala intrabairro.

23 24 26

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centro (tororó) 0 10

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centro (nazaré)


02 cidade baixa

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01 07 17

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mapa 4 - topografia configuração topográfica da área de estudo revelando a falha geológica (frontispício).

0 10

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análise morfológica a cidade pode ser entendida como uma construção do espaço e esse design como uma atividade temporal de construção de imagens inter-relacionadas. formada na relação entre o observador e o meio, a imagem ambiental pode variar significativamente entre diferentes observadores (inclusive, em alguns casos, oferecendo um importante sentimento de segurança emocional). para analisá-la podemos decompor essa imagem em 3 componentes: identidade, estrutura e significado. no sentido de individualidade ou unicidade, a identificação de um objeto implica a sua diferenciação de outras coisas. uma imagem viável também deve incluir a relação espacial ou paradigmática do objeto com o observador (estrutura) e deve ter algum significado para este observador (lynch, 2011). a forma física responsável pela paisagem urbana do santo antônio foi analisada a partir da articulação de lynch (2011), cullen (2006) e panerai (2006), através de alguns elementos. são eles: via; limite (barreira ou costura); ponto nodal ou núcleo; marco; apropriação do espaço (analisada junto às dinâmicas locais); ponto focal; entrelaçamento; saliência e reentrância; estreitamento; continuidade e linha de força.

vias são canais de circulação ao longo dos quais

os usuários se locomovem e observam a cidade. podem ser caminhos, passeios, ruas, calçadas, canais, ferrovias (lynch, 2011; panerai, 2006).

limites são aqueles elementos responsáveis por

quebra de continuidade linear: muros, praias, rios, encostas. são referências laterais e organizacionais porque, quando contorno, podem conferir unidade a

uma determinada área. podem ser barreiras mais ou menos penetráveis e também costuras, linha ao longo das qual duas regiões se relacionam e se encontram (lynch, 2011; panerai, 2006). pontos nodais são os nós, cruzamentos e abrigos. lugares estratégicos onde é possível o usuário entrar, focos de atividade para os quais ou a partir dos quais ele se locomove. alguns funcionam como verdadeiros símbolos de um bairro. podem ser cruzamentos, pontos de reunião, estações ferroviárias, convergência de vias ou meras concentrações que adquirem importância por serem a condensação de algum uso ou característica física, como um ponto de encontro numa esquina ou praça fechada (lynch, 2011; panerai, 2006).

marcos são também elementos de referência, mas,

nesse caso, sem possibilidade de entrada pelo observador. em geral são objetos físicos indicadores de identidade (ou até de estrutura), como anúncios, detalhes em fachadas, árvores (lynch, 2011; panerai, 2006).

ponto focal é um símbolo vertical de convergência, um lugar para onde o olhar converge e todos reconhecem como ponto de encontro (fontes, obeliscos) (lynch, 2011; panerai, 2006).

entrelaçamento ocorre quando se insere no

nosso espaço próximo uma cena longínqua, particularizando-a. saliência e reentrância se percebe quando o olhar fica emaranhado numa complexidade e sinuosidade, que não ocorreria se as fachadas estivessem perfeitamente alinhadas. estreitamento se dá com a aproximação de dois grupos compactos de edifícios resultando numa espécie de pressão, numa

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proximidade que contrasta com as características de um largo, praça ou grandes avenidas. continuidade pode se dar por proximidade, repetição ou semelhança, facilitando a percepção de uma realidade física. e linhas de força, morfologicamente, caracterizam a cidade e contribuem para sua particularização fazendo-a inteligível. muitas vezes a organização de seus elementos e sua função está ligada as suas linhas que, em geral, dizem respeito a origem da cidade (cullen, 2006). existem 3 pontos nodais: o largo do santo antônio (figura 13), a igreja de santo antônio (figura 12), o largo da cruz do pascoal e o terminal do aquidabã este, não por sua condição de importância simbólica para o santo antônio (uma vez que as pessoas não o reconhecem como parte do bairro), mas por ser, oficialmente, reconhecido dentro dessa poligonal e por configurar um equipamento de importância para a mobilidade, responsável pela condensação de um determinado uso. a balaustrada (figuras 15 e 15) que divide a praça da encosta no largo do santo antônio, a encosta em si mesma e o casario na rua direta e rua do carmo configuram limites - na perspectiva das barreiras. o oratório da cruz do pascoal é um marco simbólico assim como um ponto focal (figura 14).

e estreitamento (figuras 19 e 20). a encosta pode ser entendida como linha de força. através da técnica de análise figura-fundo compreende-se a ocupação da massa edificada e dá-se visibilidade aos fundos de quintais (mapa 2). estes tratam-se de um atributo do sítio histórico e parte significante da paisagem, além do casario antigo, do mar, dos largos e do traçado urbano e que “[...] pelo menos até o século xix, eram parte integrante e fundamental das residências, tanto nas mais humildes ‘casas térreas’ quanto nos sobrados” (holthe, 2002, p. 255). através da técnica figura-fundo, o mapa é um levantamento dos cheios e vazios, dando visibilidade aos fundos de quintais e a massa edificada.

existe enquadramento na ladeira do pilar (figura 17) e podem ser observadas saliências e reentrâncias na rua direita – somado ao que entendemos como conflito visual na paisagem do bairro (devido à fiação aparente e “puxadinhos” construídos de maneira irregular, descaracterizando as fachadas e agredindo um patrimônio tombado) (figura 18). há também, em ruas e travessas estritas a sensação de confinamento

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mapa 5 - elementos da paisagem atravĂŠs da tĂŠcnica figura-fundo, o mapa ĂŠ um levantamento dos cheios e vazios, dando visibilidade aos fundos de quintais e a massa edificada

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mapa 6 - figura-fundo atravĂŠs da tĂŠcnica figura-fundo, o mapa ĂŠ um levantamento dos cheios e vazios, dando visibilidade aos fundos de quintais e a massa edificada.

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dinâmicas locais o bairro do santo antônio ainda preserva suas festas cívicas, religiosas e profanas. neste capítulo são apresentadas as dinâmicas locais no que diz respeito às festividades e outras apropriações com o apoio de uma linha do tempo (página x) e do mapa x (página x), especializando-as no tempo e no espaço.

inicia sua caminhada na igreja de nossa senhora da conceição da praia e segue até a igreja do nosso senhor do bonfim. não se trata de uma manifestação que ocorre dentro do santo antônio, mas o cortejo percorre a avenida jequitaia, no bairro do comércio, muito próximos dos seus limites.

a) festividade

carnaval: durante os meses de fevereiro ou março,

bom jesus dos navegantes: assim que inicia o ano,

no dia 1 de janeiro, a procissão marítima de bom jesus dos navegantes (importante festa religiosa baiana que há 125 anos transcorre pela baía de todos os santos) se inscreve como um cartão postal no imaginário dos moradores do bairro, sobretudo os da rua direita que têm de suas casas a visão da baía de todos os santos.

dia de santos reis: no dia 6 de janeiro, comemora-

se o dia de santos reis ou dia de reis. a tradicional festa é realizada na paróquia nossa senhora da conceição, no bairro da lapinha, para onde desfilam ternos de reis pertencentes às paroquias da capital e igrejas do recôncavo baiano e da ilha de itaparica. dentre eles estão os ternos que percorrem a rua direita do santo antônio, oriundos do pelourinho e da rua do carmo, para dessa forma alcançar o bairro da lapinha: terno eterna juventude, terno das flores e terno da lua.

festa do senhor do bonfim: na segunda quinta-

feira do mês de janeiro ocorre em salvador a festa do senhor do bonfim. tradicional festividade religiosa e considerada a mais importante das comemorações de rua de salvador, o cortejo

no período que antecede a quaresma, ocorre o carnaval, um importante festival popular de rua da cultura brasileira. em salvador, nas últimas décadas, o carnaval passou por uma elitização que fragmentou a festa entre foliões populares, blocos e camarotes: dos camarotes, onde ocorrem verdadeiros carnavais particulares, têm-se a visão privilegiada de uma festa em que cortejos elitistas (blocos) seguem o trio elétrico e separa-se da pipoca (foliões populares) através de cordas. hoje “o carnaval de salvador é fruto da indústria cultural e não conserva, senão no nome, nenhuma qualidade essencial resguardada de sua origem” (ramos, 2015). nos últimos anos, em oposição a lógica mercadológica que entende o carnaval apenas como negócio, tem ganhado força na cidade blocos irreverentes e criativos organizados por moradores ou coletivos que desfilam pelas ruas de seus bairros afirmando um carnaval democrático e livre de cordas. no caso do santo antônio, onde nasceram os primeiros blocos de trio elétrico (internacionais e corujas), há alguns anos podemos observar a presença dos blocos de hoje a oito, gravata doida, rodante, baba de saia, segura

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e ataca. o bloco de samba de hoje a oito é um coletivo que desde 2012 reúne artistas e amigos e tem o objetivo de retomar um carnaval autônomo, criativo e livre de cordas. hoje o bloco é um movimento cultural que se posiciona politicamente contra temas pertinentes a realidade da cidade, como a especulação imobiliária e o processo de gentrificação vivido pelo bairro, com a tradição de sempre homenagear a cultura popular - como os antigos blocos de índio do carnaval de salvador, o compositor riachão, a performer ivana chastinet, mestre guiga de ogum, entre outros. no dia do seu festejo, desde o largo do santo antônio (onde é sua concentração), o bloco percorre a travessa dos perdões - rua dos perdões - rua dos adôbes – rua dos marchantes – largo da cruz do pascoal – rua direita de santo antônio - largo do santo antônio (onde finaliza o cortejo). nos últimos anos o evento tem atraído cada vez mais foliões e movimentos originários de outras localidades, que se agregam ao cortejo, em muitos casos sem um diálogo anterior com as ações carnavalescas do bloco, chegando, no último carnaval, a uma escala incompatível com o bairro. o bloco rodante, vinculado ao restaurante d’venetta,¬¬ é uma iniciativa de moradores e amigos do bairro que desde 2008 promove a participação na festividade carnavalesca de forma independente. a partir da praça dos quinze mistérios (onde é sua concentração), percorre rua dos adôbes – rua dos marchantes – rua direita de santo antônio – travessa josé bahia – rua dos carvões– travessa dos perdões – rua dos ossos – rua dos adôbes - praça dos quinze mistérios.

diferente do de hoje a oito e do rodante, o gravata doida é um bloco que reproduz a mesma lógica mercadológica do carnaval imposta nos grandes circuitos soteropolitanos, dodô (barra-ondina) e osmar (campo grande). da cruz do pascoal ao largo do santo antônio, o bloco (que não conta com moradores do bairro em sua organização) nem possui um ponto de apoio no bairro, desfila na rua direita com um mini trio elétrico para depois seguir para uma festa privada no pátio da igreja (anexo da igreja do santo antônio, alugado para eventos).

semana santa: no domingo de ramos iniciam-se os

festejos com uma procissão da igreja do boqueirão em direção a igreja do santo antônio via rua direita; na quinta-feira santa após a cerimônia do lava-pés na igreja do santo antônio, os fiéis vão em procissão até a igreja do boqueirão fazer a vigília do senhor morto; e na sexta-feira da paixão, as imagens de nossa senhora das dores (da igreja dos 15 mistérios – rua dos adôbes - rua dos carvões), e do senhor bom jesus dos passos (igreja do boqueirão – rua direita) são conduzidas por procissões que se encontram à praça do santo antônio, onde se localiza a igreja matriz.

festa do divino espírito santo: no mês de maio, 50

dias após a páscoa, ocorre a festa do divino espírito santo. a festa acontece tradicionalmente no bairro há 240 anos e a cerimônia tem início na igreja de nossa senhora do boqueirão de onde segue em procissão pelas ruas do bairro até à igreja de santo antônio. a festa promovida pela irmandade do divino espírito santo, da igreja de santo antônio além do carmo, era um acontecimento de grande importância para cidade. nesse dia uma criança, filha de uma família do bairro,

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era coroada imperador e libertava um preso na antiga casa de detenção, que funcionava no forte de santo antônio além do carmo (leal, 2000 apud nunes, 2010). hoje, o forte (antiga casa de detenção) abriga o museu da capoeira, e a cerimônia de soltura ocorre dentro da própria igreja.

trezena de santo antônio: no mês de junho a paróquia

santo antônio além do carmo realiza a trezena de santo antônio. no dia festivo (13), os devotos saem em procissão pelas principais ruas do santo antônio e barbalho, retornando depois à matriz. além da tradicional festividade religiosa, presente no imaginário coletivo, ocorre em paralelo a festa profana (a princípio apenas no largo, hoje estendendo-se até parte da rua direita) que é há alguns anos alvo de críticas pela proporção que tomou e pela relação conflituosa que tem estabelecido com o tradicional rito religioso e a própria origem da festividade. em 2012 houve mobilização de moradores para redução dos dias de festa com acusações de que a associação de moradores do bairro do santo antônio (amabasa), sem representatividade no bairro, explorava a festa (realizando-a nos 13 dias da festa religiosa e não apenas 5 cinco dias como no passado) e gerava transtornos (lyrio, 2012). hoje, ainda que a trezena religiosa ocorra, a festa profana só se inicia a partir do dia 8 de junho. muitos moradores, insatisfeitos com o rumo que a festa tomou, deixaram de frequentá-la. o que já foi uma antiga quermesse no largo do santo antônio, conta hoje com barracas descaracterizadas (sob padrões estéticos determinados pelos patrocinadores cervejeiros) somadas aos inúmeros vendedores

ambulantes (muitos ocupando as calçadas); a poluição sonora; a sujeira produzida por muitos dos visitantes que transformam as calçadas em banheiros e lixeiras; ao engarrafamento e ainda o controle ineficiente realizado pela transalvador (superintendência de trânsito de salvador) que não consegue viabilizar o acesso e estacionamento dos próprios moradores (que, em muitos casos voltando do trabalho, se vêm obrigados a estacionar em bairros vizinhos).

dois de julho: outra importante manifestação que

atravessa o santo antônio é o desfile do dois de julho, em comemoração a independência do brasil ocorrida na bahia. a comemoração tradicional começa quando o fogo simbólico sai da cidade de cachoeira, no recôncavo baiano, para o bairro de pirajá, em salvador. nesse contexto, além da festa cívica, também ocorrem atrações culturais e é tradicionalmente um espaço de manifestações políticas. no santo antônio, o desfile adentra o bairro através da rua dos perdões, percorre a rua dos adôbes, ladeira do boqueirão, rua direita de santo antônio, rua do carmo até alcançar o pelourinho.

festa de nossa senhora do carmo: também faz parte do calendário a festa nossa senhora do carmo. a novena ocorre entre os dias 7 e 15 de julho e no dia 16 de julho, após missa realizada na igreja do carmo, uma procissão passa pelas ruas direita, dos perdões, dos adôbes, dos marchantes, largo da cruz do pascoal, retornando à igreja do carmo.

festa de santa luzia: por fim, também estabelece uma íntima relação com o bairro - através da ladeira do pilar e do plano inclinado do pilar - a festa de santa

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luzia. no dia 13 de dezembro, os fiéis a homenageia na igreja matriz de nossa senhora do pilar e santa luzia, no bairro do comércio, onde a santa está alocada.

b) apropriações

o santo antônio é tradicionalmente um bairro boêmio. na década de 80 e 90 o forte recebeu ensaios semanais do ilê ayê (bloco afro mais antigo do brasil) e foi aqui onde também onde nasceram os primeiros blocos de trio elétrico, internacionais e corujas. o largo da cruz do pascoal e a rua do carmo são tradicionalmente a região mais boêmia do bairro porque nesse trecho se encontram a maior parte dos bares e restaurantes. no largo da cruz do pascoal, os comerciantes colocam mesas e cadeiras no largo e na calçada em frente aos seus estabelecimentos promovendo uma efetiva apropriação do espaço público já presente no imaginário do bairro (um feito que tem se repetido em alguns trechos da rua direita e da rua dos carvões). em 2018, o pascoal recebeu o projeto chulas no pascoal, parte do programa pelourinho dia e noite (prefeitura). eventualmente outros largos, ruas e travessas do bairro são também apropriadas por eventos festivos e culturais, como o largo do santo antônio, a praça dos quinze mistérios, a rua direita e a travessa santo antônio. o largo do santo antônio, por ser o maior deles, é o espaço que com maior frequência recebe tais eventos, como a roda de samba, a feira da cidade e o cinema na praça. a roda de samba, projeto do grupo botequim, ocorria sempre na última sexta-feira do

mês e chegou a receber apoio do pelourinho dia e noite. hoje não é mais público e ocorre eventualmente no pátio da igreja (espaço alugado para eventos). a feira da cidade, projeto de iniciativa privada que conta com o apoio da prefeitura, ocorreu em 2017 e em 2018, quando sofreu duras críticas por parte de um grupo de moradores do bairro devido ao funcionamento consecutivo da feira em dois finais de semana que, nessa edição, ocorreu em paralelo ao projeto vamos ver o pôr do sol (prefeitura), atraindo um grande público e promovendo um evento de proporção exagerada para a escala do bairro. o cinema na praça, uma das ações do pelourinho dia e noite em parceria com a fundação gregório de mattos (fgm) e o serviço nacional de aprendizagem comercial (senac), promoveu, durante o verão, sessões de cinema no largo do santo antônio. com o apoio financeiro do governo do estado (através do fundo de cultura), da secretaria da fazenda e da secretaria de cultura da bahia, o projeto do divino – escola livre de arte realizou, em 2016, oficinas gratuitas de dança, cenografia, música, artes gráficas e comunicação para a comunidade. as atividades aconteciam no salão da igreja do boqueirão e dentre as diversas ações, o projeto água viva (que reuniu os processos artísticos construído ao longo de quatro meses) fez apresentações na travessa santo antônio (beco do zé). em 2018, o largo foi um dos pólos do 14o festival internacional de artistas de rua da bahia. ainda quanto às dinâmicas locais cotidianas, percebese uma utilização constante do largo do santo antônio e de seus equipamentos (academia pública e parque infantil). de modo geral, durante a semana no turno

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da manhã os moradores (em sua maioria, idosos) frequentam o largo para se exercitar (há, inclusive, um projeto do posto de saúde do bairro que realiza no largo aulas gratuitas de ginástica) e, no turno da tarde, as crianças usam o parque infantil. é nesse turno que começam a surgir a maior parte dos ambulantes atraídos por esses usuários. aos finais de semana, há um significativo aumento do fluxo de pessoas nos largos e ruas do bairro. além dos moradores, outros frequentadores, atraídos pelos bares, restaurantes e ambulantes, ocupam os espaços públicos.

vive em salvador desde 1975, morador e responsável pelo solar santo antônio (declarado casa-museu em 2008 pelo ministério da cultura). em 2017 o coletivo noz criou o projeto sobe desce, festival autônomo de cozinhas do santo antônio. no primeiro ano participaram do festival 17 estabelecimentos do bairro (entre ateliês, bares e restaurantes), e em novembro de 2018 participam do evento 25 estabelecimentos.

o mapa registra as apropriações do espaço público (destacando o raio de abrangência), os fluxos das manifestações festivas que ocorrem dentro do bairro ou no seu entorno (interferindo em sua dinâmica ou fazendo parte do simbólico e do imaginário coletivo) e os pontos de apoio espaciais de algumas dessas manifestações

c) coletivos

o projeto dus quintais é um coletivo que tem o objetivo de desenvolver a agricultura urbana nos quintais e terrenos vazios do santo antônio além do carmo, resgatando a cultura de plantio nos quintais através da criação de hortas e da organização comunitária. o projeto piloto foi criado em 2016, durante o programa comunidade empreende pce pelourinho do parque social, por duas moradoras e artesãs do bairro, e hoje encontra-se suspenso. existe também o cuidado coletivo santo antônio, criado em 2014, e organizado por mães e pais do bairro. o coletivo conta com a parceria de dimitri ganzelevitch, produtor cultural e blogueiro francês que

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um percurso no tempo a linha do tempo organiza em ordem cronolรณgica as festividades que ocorrem no bairro, assim como no seu entorno (as datas se referem ao ano de 2018)



mapa 7 - dinâmicas locais o mapa registra as apropriações do espaço público (destacando o raio de abrangência), os fluxos das manifestações festivas que ocorrem dentro do bairro ou no seu entorno (interferindo em sua dinâmica ou fazendo parte do simbólico e do imaginário coletivo) e os pontos de apoio espaciais de algumas dessas manifestações

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ii. as aproximações



o existente não é um problema, é uma oportunidade anne lacaton


havana velha (havana, cuba) havana velha, como é conhecido o centro histórico da capital cubana, foi declarado em 1978 como patrimônio cultural da nação, em 1982 foi reconhecido pela unesco como patrimônio cultural da humanidade e em 2016 recebeu o título de cidade maravilha do mundo moderno. cidade murada até meados do século xix, quando começou a demolição de suas muralhas e época em que começa a decadência do centro histórico transformando-o em periferia, tem sua cidade velha praticamente intacta ainda que bastante deteriorada (zanchetti, 2011). fundada em 1938, a oficina del historiador de la ciudad de la habana é a instituição responsável por proteger e restaurar o patrimônio cubano em havana. a princípio financiada por recursos orçamentais municipais, passou a ter sua gestão autofinanciada quando em 1989 o fim do bloco socialista (que apoiava financeiramente o país desde a revolução socialista) gerou uma crise econômica que tomou o país. em 1993, o conselho de estado ampliou as atribuições institucionais da ohch dando-lhe autonomia para desenvolver uma gestão que lhe permitisse prosseguir com a recuperação do centro histórico, configurando-se, portanto, como um projeto que baseia-se na formação de uma entidade pública com poderes de governo e gestão de uma parte da cidade de havana que atua em paralelo com a municipalidade (zanchetti, 2011). a oficina do historiador gestiona todas as questões referentes ao planejamento do uso e da ocupação do solo, do processo de recuperação dos imóveis e dos espaços públicos, da alocação dos imóveis recuperados no centro histórico e do financiamento da sua regeneração (zanchetti, p. 52, 2011).

os principais objetivos da ohch são o desenvolvimento urbano da área (atraindo investimentos, empregos e aumentando o turismo); a revitalização ou recuperação urbana (melhorando as condições de habitação, dos espaços públicos, a conservação das edificações históricas e a volta do uso da área pelo restante da população); a proteção de monumentos e áreas históricas (conservando e revitalizando monumentos e áreas significativas para a memória local); e a revitalização social (aumento da oferta de empregos impedindo o abandono do lugar por parte da população de baixa renda, maioria residente no lugar) (zanchetti, 2011). os recursos de investimento da oficina são utilizados: na requalificação de edificações; no provimento de infraestrutura; na restauração de bens patrimoniais; na requalificação de espaços públicos e áreas livres; na conservação do caráter residencial do centro histórico; na exploração do turismo com objetivo de desenvolver a economia e financiar o processo de reabilitação local; na implantação de equipamentos sociais e culturais; na revitalização econômica (direcionada ao setor terciário e jovens trabalhadores); e na geração de serviços culturais e recreativos para residentes promovendo e recuperando as tradições culturais. criada em 1994 dentro da estrutura da ohch, o plano mestre é uma entidade que surgiu com o objetivo de elaborar um guia de trabalho e acabou por tornar-se uma instituição que guia todos os trabalhos que partem a ohch. o plano reúne um grupo multidisciplinar de instituições e especialistas que estuda as problemáticas do centro histórico, define

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estratégias e ações para sua recuperação e conduz de forma integrada (através de uma série de políticas fundamentais) o desenvolvimento integral de havana velha, sendo também responsável pela elaboração e execução do plano especial de desenvolvimento integral (pedi), cujo objetivo é utilizar o restauro como agente promotor de transformação da área, a partir do desenvolvimento sustentável e da participação de seus residentes (azevêdo, 2017). por fim, pode-se destacar alguns pontos importantes em que essa experiência se constitui como uma referência para o presente trabalho. primeiro, não é possível o desenvolvimento patrimonial, sem um desenvolvimento social e comunitário. ao esbarrarse na falta de mão de obra especializada, quando nos primeiros restauros, foram criadas escolas de formação técnica e prática que hoje são partes constituintes da ohch e de onde surgiram duas grandes cooperativas de alunos (inclusive uma composta apenas por mulheres). segundo, após a revolução de 1959 cuba passou por uma reestruturação de suas relações sociais com a constituição de um sujeito político coletivo e foram ouvidos mais de 6 milhões de cubanos para elaboração do anteprojeto da constituição que passou por referendo popular para ser aprovado. por consequência do embargo comercial norteamericano, o governo implementou um conjunto de reformas conjunturais e estruturais e modificou a constituição ampliando a participação popular (guanche, 2011; almaguer, 2013; alonso, 2011; feitosa, 2008 apud azevêdo, 2017). os processos participativos foram implementados pela oficina do historiador em havana velha com a primeira versão do pedi (1998).

a cada revisão do plano esses instrumentos são revisitados e aperfeiçoadas de forma que, com o amadurecer do projeto de restauro novas possibilidades de participação começam a surgir, como foi o caso da consulta pública do plano de 2012, com a implementação de um indicador referente à participação cidadã e o projeto-piloto de orçamento participativo realizado no conselho popular catedral, dentre outros (iglesias e pérez, 2014; iglesias, 2015; iglesias, 2016 apud azevêdo, 2017). o presupuesto participativo é uma ferramenta adaptada a partir de experiências vividas em porto alegre (nos anos 1990 durante a gestão de olívio dutra) e em montevidéu e foi utilizada no processo de identificação de temas prioritários e atualização do plano estratégico que direcionou os recursos para o restauro de uma escola junto a um plano de recuperação social e econômica do entorno. e por fim, ainda que o turismo seja a principal atividade econômica da cuba atual e a ohch relacione-se com agências governamentais, empresas estrangeiras e instituições multilaterais e bilaterais de fomento, havana velha não sofreu um processo de gentrificação. dentre as políticas de restauro do centro histórico está a de conservar o caráter residencial da área, garantindo a permanência de seus residentes com a melhoria da infraestrutura, aumento dos serviços disponíveis (saúde, educação, esportes), capacitação de jovens (a partir do resgate de ofícios tradicionais) e apoio à economia local (azevêdo, 2017).

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bairro histórico (aveiro, portugal) a segunda referência escolhida foi o projeto-piloto vivó bairro, “que teve como mote a revitalização urbana e comercial da zona histórica” (isidoro, 2017, p. 37) da cidade de aveiro, em portugal.

no planejamento urbano estratégico, contava com o envolvimento de entidades coletivas, investidores e promotores, mas envolvia os cidadãos apenas na fase final.

conhecida como “veneza portuguesa”, aveiro foi fundada em 1515 e abriga ainda hoje ruínas do perímetro muralhado que define sua zona histórica. citando isidoro (2017), o bairro histórico tem na rua direita o seu elemento estruturante, gênese da cidade e centro funcional original. semelhante a outros centros históricos, foi esvaziado e perdeu sua influência com o crescimento da cidade que se desenvolveu em torno de novos centros e centralidades.

na primeira década do ano 2000, foi elaborado o plano de urbanização da cidade de aveiro, mantendose a prática de planejamento de comando e controle, sem participação pública e com os movimentos cívicos não reconhecidos legalmente. em 2003, implementado em parceria com os municípios e planejado pela administração central, nasce o programa polis (programa de requalificação urbana e valorização ambiental das cidades) onde foram promovidas parcerias público-privadas e seguiu-se um modelo de “política urbana ancorada em projetos físicos e numa prática de estilo gerencialista” (ibid., p. 49).

conforme enquadramento histórico de isidoro (2017), durante a década de 80, dentro do sistema formal de planejamento, foram elaborados planos funcionalistas (sem visão integrada da cidade e ausentes de participação pública) liderados por técnicos. neste contexto, houve a implementação de um plano geral de urbanização com objetivo de limitar as intervenções no centro da cidade, definiuse legalmente o centro histórico da cidade, mas os investimentos propostos nunca foram implementados. entre a década de 1990 e os anos 2000, foi elaborado o pano diretor municipal (pdm) e, numa prática de planejamento de comando e controle, elaborou-se sob perspectiva regulatória, o primeiro esquema geral de zoneamento. fora do sistema formal, uma nova política urbana com o prosiurb (programa de consolidação do sistema urbano nacional e apoio à execução dos planos diretores municipais), baseada

surge também nesse período o plano projeto da avenida lourenço peixinho, assentada numa metodologia promovida por entidades externas, como a universidade de aveiro, que estimulou a participação pública. é nesse contexto que nasce o primeiro movimento cívico de planejamento em aveiro, o amigos d’avenida. em 2008, no polis xxi, a partir de uma abordagem hierárquica, tecnocrática e gerencialista elabora-se o plano diretor, sem a participação dos cidadãos. em 2009 é lançado o parque da sustentabilidade (um grande projeto de regeneração urbana que envolveu parceiros locais e nacionais, incluindo a universidade), onde a participação cidadã foi encarada como uma exigência burocrática. houveram protestos por parte dos cidadãos e ação dos movimentos cívicos (como o

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amigos d’avenida), os quais foram alvo de resistência do poder público. atualmente está em curso o plano de desenvolvimento estratégico urbano sem que se conheça qualquer processo de consulta pública (nogueira apud isidoro, 2017, p. 51). conforme coloca isidoro (2017), os instrumentos de planejamento tradicionais, no entanto, nem sempre conseguiram dar conta dos desafios locais e algumas intervenções são consideradas, inclusive, como geradoras de problemas. argumenta-se que a pedonalização da rua direita foi responsável pela desertificação da rua e a construção do estacionamento subterrâneo na praça marquês de pombal afastou a comunidade a tal ponto que se perdeu o hábito de ocupá-la (por conta de sucessivos atrasos na sua execução), além do espaço exageradamente amplo, árido e pouco convidativo que foi entregue e do funcionamento do estacionamento que se dá em horários e preços inadequados.

com o politécnico de milão (it), a universidade de ulster e a organização community places (ru) (ibid., p. 2). como coloca isidoro (2017), o cpip tem o objetivo de explorar os processos de participação em planejamento (através de workshops, visitas de estudo e o desenvolvimento de um projeto-piloto). no caso do vivó, trata-se de um projeto à escala do bairro através de uma abordagem colaborativa envolvendo os diversos agentes, com destaque para a comunidade acadêmica da ua.

“a necessidade de reverter esta situação levou a sociedade civil a organizar-se tendo sido criada uma associação de moradores e comerciantes, a corda, que visa dinamizar iniciativas de promoção da zona história referenciada como bairro histórico (bh)” (isidoro, 2017, p. 61).

o projeto foi lançado em 2015 numa sessão aberta à comunidade na universidade de aveiro. nesta mesma ocasião os participantes foram provocados por um jogo de palavras a interpretar a palavra participação. nessa dinâmica foi pedido “o contributo sobre os benefícios e desafios da participação, e também proposta para o projeto-piloto em aveiro. os contributos de todos foram compilados e partilhados com toda a comunidade através da página da rede social facebook [...]. como metodologia para seleção do projeto-piloto cpip, seguiu-se esta lógica de envolvimento dos atores e cidadãos da cidade, convidando-os a participar em 2 workshops” (ibid., p. 53).

o vivó bairro é um projeto colaborativo promovido pela corda e pelo departamento de ciências sociais, políticas e do território da universidade de aveiro (ua) e implementado no âmbito do projeto europeu community participation in planning/participação da comunidade no planejamento (cpip), no qual participam a universidade de aveiro (pt), em parceria

nestes workshops foram explorados os conceitos de comunidade, participação e planejamento e também fez-se um balanço das experiências de planejamento urbano anteriores, além do mapeamento das comunidades existentes. a criação de formulários online (que permitiu ampliar o número de participantes) viabilizou o mapeamento

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de comunidades de lugar (levantando problemas, oportunidades, agentes e recursos de cada lugar) e comunidades de interesse e prática (levantando questões mais relevantes e agentes dispostos a se envolver). isidoro (2017) revela que destacaram-se as contribuições do bairro histórico. foram apresentados dois possíveis projetos-piloto e, após uma sessão pública, foi selecionado como projeto-piloto a revitalização urbana e comercial da zona histórica, a ser implementada no âmbito do cpip. os objetivos do projeto-piloto foram a revitalização urbana e comercial envolvendo os diversos agentes; a revitalização do espaço edificado (a partir da introdução de novas funções); a qualificação do espaço público, seus mobiliários e equipamentos urbanos; e o desenvolvimento de um programa equilibrado de qualificação e animação do espaço público a partir de eventos. para materialização destes objetivos, uma intervenção tática. foi proposta à comunidade o desafio de realizar um evento experimental de forma a trazer mais vida à zona histórica através da valorização dos recursos locais existentes; da compreensão das demandas e desejos coletivos da comunidade; e da construção, de forma colaborativa, de um conjunto de ações que atendessem aos desejos e valorizassem os recursos (invisíveis) tirando partido do potencial científico, empresarial, tecnológico, artístico e cívico existente na cidade e na universidade (mota, 2016). num primeiro momento realizou-se um diagnóstico participativo (questionário e assembleia pública)

que permitiu a reflexão sobre os recursos, sonhos e propostas de ação. esta reflexão constituiu um caderno de encargos da comunidade do bairro aos participantes no projeto vivó bairro. em seguida foi lançado um convite para a apresentação de projetos autofinanciados e inovadores a serem desenvolvidos nos espaços públicos e edificados com atenção a estes desejos e recursos coletivos, conforme explica mota (2016). “a construção deste projeto comunitário envolveu ao longo do tempo um número alargado de pessoas/ voluntários, com diferentes funções e intensidades de participação. assim, e de forma a garantir a participação e motivação de todos, sentiu-se a necessidade de organizar um workshop com o mote ‘pensar e fazer de forma colaborativa’” (isidoro, 2016, p. 70). a sessão foi dividida em 3 momentos: a construção coletiva do conceito do vivó bairro; a definição de estratégias de mobilização da comunidade; e o mapeamento de atividades e definição de estratégias de concretização. o processo contou ainda com a visita de estudo cpip a aveiro e a análise do projeto-piloto e da programação criada para o evento. essa visita permitiu algumas reflexões importantes para a construção de uma visão de bairro: a importância de dar continuidade ao evento; a importância de flexibilizar os usos mantendo-se o conjunto edificado; a criação de eventos a longo prazo, de um calendário e plano permanente para cada espaço e a importância da qualidade prevalecer sobre a quantidade. foram diversas as atividades realizadas pelo vivó,

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isidoro (2017) destacou as atividades brincar no bairro (iniciativa que testou a possibilidade de transformar determinados locais em espaços lúdicos, dedicados às crianças); a ocupação temporária de lojas desocupadas com exposições fotográficas; a recriação das portas da muralha pelos alunos das escolas de aveiro; as troca de saberes (workshops organizados pelos lojistas); o jantar comunitário (com centenas de pessoas partilhando comida, preocupações e desejos) e as sessões de balanço direcionadas às organizações e sujeitos que participaram da construção e implementação do vivó e, em outro momento, uma sessão aberta aos cidadãos que participaram do evento.

processo aberto e flexível que leva à cocriação e coimplementação do projeto. com essa metodologia os habitantes, comerciantes, a organização local e a universidade puderam criar uma visão compartilhada do território. segundo, a corda foi fundamental para manutenção do envolvimento da comunidade local durante todo o processo devido a sua proximidade com os moradores e comerciantes (cpip, 2017a).¬¬¬ além disso, as experiências que se mostraram inviáveis, como a pedonalização da rua direita e o estacionamento subterrâneo na praça marquês de pombal, também foram alertas para as decisões projetuais para o santo antônio.

ainda que os benefícios do projeto não tenham sido sentidos por todos de igual modo; que exista um desgaste da atividade cívica/associativa e que não tenha havido uma evolução para um quadro de organização interassociativo, a comunidade foi envolvida na construção de um projeto comum (o que permitiu o fortalecimento do sentido de pertencimento ao território), as organizações públicas sentiram-se desafiadas (e o papel da administração local é fundamental para dar robustez à mudança) e percebeu-se que é possível dar vida a um bairro mesmo num quadro de orçamentos reduzidos, uma vez que tratou-se de um evento sem orçamento que levou milhares de pessoas à zona histórica (mota, 2016). por fim, pode-se destacar alguns pontos importantes em que essa experiência constitui-se como uma referência para o presente trabalho. primeiro, a metodologia utilizada em aveiro contribui para um

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são josé (santa catarina, brasil) em janeiro de 2014 o departamento de santa catarina do instituto de arquitetos do brasil (iab-sc), lançou o concurso nacional de arquitetura para a requalificação urbanística do centro histórico de são josé, em santa catarina. o projeto recentrar o centro, premiado em 1o lugar, integra-se ao presente trabalho como uma de suas referências. recentrar o centro, além de propor a criação de um manual de intervenção no centro histórico, contempla a reurbanização do trecho norte-sul do principal eixo viário de são josé, entre duas importantes igrejas históricas, e da zona central da cidade onde estão localizados os principais edifícios históricos como a igreja matriz, teatro municipal, além do beco da carioca. a proposta se baseia num plano macro de intervenções a longo prazo que considera reformulações no plano diretor e adequação às diretrizes do estatuto da cidade (baratto, 2014)

são objetivos do projeto a valorização do patrimônio histórico e cultural edificado e da paisagem natural e o resgate da relação da cidade com a água (fragilizada desde a substituição do transporte marítimo pelo rodoviário, quando da construção da ponte hercílio luz e de edifícios públicos e residenciais junto à orla). para privilegiar a circulação do pedestre e humanizar os espaços, propôs-se a diminuição progressiva do fluxo de veículos no núcleo histórico (considerando o aumento da permeabilidade viária através da construção de novas conexões e da maior utilização da br-101 pelos moradores locais); o alargamento dos passeios (permitindo uma melhor distribuição do mobiliário, arborização e iluminação, o que

incentivaria uma maior permanência do frequentador no logradouro público) e a substituição de muros de lotes vizinhos por fechamentos permeáveis (possibilitando permeabilidade visual e segurança). no principal espaço público da cidade, buscando o resgaste histórico da conexão entre a igreja da matriz e a orla marítima, primeiro acesso à cidade, propôs-se a remoção do edifício da câmara municipal, substituído pelo parque das águas. outro parque, esse do beco da carioca, visa proporcionar à cidade um parque urbano com potencial turístico, a partir da valorização do patrimônio natural e da exploração do córrego como elemento de destaque na paisagem. neste mesmo parque também são propostos espaços comerciais e há uma preocupação com o controle de acesso, argumentado em favor de segurança dos frequentadores e prevenindo apropriação de áreas públicas por lotes vizinhos. ao contrário das duas experiências apresentadas anteriormente, não encontra-se neste projeto nenhuma menção ao estabelecimento de um processo participativo. além, também, do fato de que aqui não se trata de um projeto executado. todavia, algumas decisões projetuais importantes podem ser destacadas como referências: além de tratar-se de um centro histórico brasileiro e da preocupação com a paisagem natural, destaca-se o olhar voltado ao pedestre e, de forma mais pragmática, o alargamento de passeios e a utilização de fechamentos permeáveis

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iii. o percurso



o desafio consiste em construir um espaço sem gênero nem ordem patriarcal; portanto, um espaço sem hierarquias, horizontal, um espaço que evidencie as diferenças, e não as desigualdades, um espaço de todos e de todas em igualdade de valoração de olhares, saberes e experiências. josep maría montaner e zaída muxí


análise das questões estruturantes e o imaginário coletivo conforme explicado anteriormente nos procedimentos metodológicos, a etapa de reconhecimento (da configuração formal do bairro, suas dinâmicas locais e a relação usuário-espaço) foi compreendida a partir do estado da arte e da revisão bibliográfica (bem como as suas interrelações com outros saberes); das observações feitas in loco; dos registros fotográficos procedidos durante as visitas ao bairro; e do desenvolvimento das diversas análises (conexões bairro-cidade, parâmetros incidentes, análise morfoclimática, uso do solo, sistema viário, mobilidade e acessibilidade, levantamento das manifestações e apropriações, além do reconhecimento dos elementos da paisagem). após a etapa de reconhecimento, mobilizada pelo interesse de descobrir como o bairro está presente no imaginário coletivo e cotidiano, elaborei previamente 8 perguntas (vide anexo) e propus a elaboração de cartografias do desejo. a entrevista semiestruturada com 13 entrevistados, entre moradores e frequentadores, não seguiu um roteiro rígido. pelo contrário, no decorrer do processo foi possível suprimir ou agregar outras perguntas que se mostraram pertinentes, flexibilizando o processo e dando liberdade aos entrevistados. diante da temporalidade da academia, os resultados do teste piloto (a princípio realizada apenas para determinar as perguntas da entrevista aberta e analisar a estruturação da metodologia), foram incorporados à pesquisa de campo final. além disso, o trabalho conta com uma amostragem reduzida, frente às dificuldades encontradas para realização das entrevistas e o tempo disponível dentro da academia

para desenvolvimento do trabalho final de graduação. os conceitos-chave, extraídos das entrevistas e das cartografias do desejo, refletem a diversidade de referências, a força de elementos estruturantes e sinaliza as fragilidades. com eles estruturou-se o mapa conceitual (mapa 9), um diagrama que indica a relações entre estes conceitos. a partir do mapa conceitual, construiu-se o mapa cognitivo (em arborescência) com os objetivos genéricos (que produzem os objetivos estratégicos). de modo geral houve uma resistência à elaboração dos desenhos (alguns entrevistados não concordaram em fazer), mas, quanto à análise dos que foram obtidos, o largo da cruz do pascoal, a rua direita e o largo de santo antônio (com destaque para igreja de santo antônio) foram elementos que se repetiram. reconhecemos, portanto, que essa é a espinha dorsal do bairro (assim como as travessas são elementos negligenciados pelo imaginário) cuja dimensão imaginada pelos entrevistados não contempla a rua do carmo, a rua siqueira campos (rua dos currais velhos) e o terminal do aquidabã. o bairro não possui uma grande oferta de serviços (encontra-se casa lotérica, banco, farmácia e outros em bairros do entorno) e os percursos intrabairro e interbairro se dão, predominantemente, na escala do caminhar - inclusive existe uma preferência espontânea dos usuários em percorrer o bairro pelo leito carroçável e não pelas calçadas.

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mapa 8 - mapa conceitual


outro fator importante é a ineficiência do transporte público na região. os moradores alegam inconstância do plano inclinado do pilar, insegurança no trajeto até o terminal do aquidabã e a existência de um micro-ônibus com um trajeto incompatível com a necessidade dos usuários. essa desconexão contribui para que o bairro funcione como uma espécie de ilha dentro da própria cidade, metáfora feita por uma das entrevistadas (moradora do bairro há x anos) que revela, além do isolamento em relação às dinâmicas da cidade, a falta de investimento em transporte ativo e a consequente elitização do bairro uma vez que a maioria dos frequentadores, e boa parte dos moradores, utilizam carro particular e sobrecarregam a infraestrutura do bairro.

outra percepção é o não reconhecimento da chácara santo antônio como parte do bairro pela maioria dos entrevistados e, principalmente, pelos que vivem no santo antônio há mais tempo. outros, ainda que reconheçam a ocupação como um espaço de resistência e luta por moradia, não se posicionaram espontaneamente sobre esse conflito (só após a pergunta). a percepção é que a chácara não faz parte do imaginário quanto ao que se entende como santo antônio além do carmo e é vista, por muitos, como fator gerador de insegurança no bairro.

a origem do bairro e a influência portuguesa no seu traçado é uma referência frequente feita pela maioria dos entrevistados e, portanto, parte do imaginário coletivo. os novos chegantes também foram uma referência importante como provocadores de transformações no bairro (no que diz respeito aos sujeitos que promovem as dinâmicas), desde os estrangeiros nos anos 2000 até a chegada atual de uma elite intelectual que, por vezes, querem impor seus padrões de convivência ignorando a preexistência, dinâmica e funcionamento do bairro e que prefere habitar a rua direita, um movimento que destaca a nítida diferenciação de classe social entre a rua direita e as demais ruas que também fazem parte do bairro (e que, por não terem vista para a baía de todos os santos, não atraem tantos interesses).

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mapa 9 - mapa cognitivo


diretrizes são diretrizes projetuais definidas pelo plano urbanístico de reabilitação:

fortalecimento e ampliação do espírito de vizinhança,

a partir da criação de um sistema de espaços abertos públicos, compartilhados e articulados, que possam contribuir para nutrição das relações comunitárias;

diversificação de usos e atividades que possibilitem a fruição do direito à cidade o exercício da função social da propriedade, revertendo o processo de esvaziamento vivido por áreas urbanas centrais;

incentivo a caminhabilidade e a permeabilidade urbana garantindo o conforto e acessibilidade a todos

os usuários, junto a ampliação, melhoria e adequação da infraestrutura urbana e viabilização de conexões urbanas, interbairros e intrabairro eficientes;

estímulo à uma gestão integrada e participativa,

a partir do desenvolvimento de um projeto de reabilitação participativo que acolha as atividades tradicionais e cotidianas que produzem o centro histórico e que garanta a permanência e inclusão social da população que reside ou trabalha na região.

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plano urbanístico de reabilitação urbana do santo antônio além do carmo áreas urbanas centrais são bairros ou conjunto de

bairros, consolidados e articulados “[...] em torno do núcleo tradicional da cidade, dotado de infraestrutura urbana, equipamentos e serviços públicos, comércio, prestação de serviços e oportunidades de trabalho” (brasil, 2005, p. 10-11), com significativo acervo edificado que “[...] contam com características que os identificam e permitem seu reconhecimento, devido à sua arquitetura, ao período histórico em que foi edificado, aos equipamentos culturais e urbanos existentes, dentre outras alternativas. (brasil, 2008, p. 142).

reabilitação urbana é um “[...] processo de recuperação e adaptação de áreas urbanas consolidadas subutilizadas, degradadas ou em processo de degradação a fim de reintegrá-las à dinâmica urbana, criando condições e instrumentos necessários para conter os processos de esvaziamento de funções e atividades” (brasil, 2005, p. 75).

que diz respeito a utilização desses imóveis ociosos e vazios no sentido de reduzir esse déficit), e o custo da infraestrutura para que se promovam novas urbanizações em áreas de expansão, em relação ao custo de implantação de atividades nas áreas centrais, onde essa infraestrutura já existe (ainda que, em muitos casos, subutilizada) (ibid., p. 76). a seguir, apresento o plano urbanístico de reabilitação para o santo antônio além do carmo, acompanhado da tabela 2 (a seguir), onde se apresentam as potencialidades e limites/conflitos das questões estruturantes do bairro, assim como a formatação das propostas e indicação de ações e instrumentos.

o plano de reabilitação urbana da área central [...] é um instrumento que orienta e define diretrizes de intervenção física, social, econômica e de regulação urbanística. o plano pode apresentar a situação atual da área, suas deficiências e potencialidades, a formatação das propostas, a indicação das ações e instrumentos (incluindo aqueles previstos no estatuto da cidade) necessários à implementação desses projetos [...] (ibid., p. 75)

a escolha por reabilitar uma área central consolidada se justifica em dois motivos principais: o potencial do estoque imobiliário subutilizado, em relação ao déficit habitacional que marca nossas cidades (no

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questão ou situação atual da área

potencialidade

conflito

área de proteção cultural e paisagística (apcp), área de proteção rigorosa (apr), área de borda marítima (abm)

resultados esperados

alta densidade de ocupação do uso do solo

mobilidade e acessibilidade

dinâmicas locais

espaço público

relações comunitárias

uso do solo mais racional, eficiente e sustentável; utilização da infraestrutura urbana existente

manutenção do direito constitucional à mobilidade urbana eficiente; desencorajamento do uso de carros particulares; apropriação cotidiana do espaço público; conexão do santo antônio com a cidade baixa, zonas de centralidade linear (baixa do sapateiros e rótula do abacaxi) e zona de centralidade metropolitana (retiro/acesso norte)

manutenção de tradicionais festividades religiosas, cívicas e profanas; possibilidade de expressão artística, cultural, cívica e política; aumento da vitalidade urbana pontos nodais que estruturam a espinha dorsal do bairro; apropriação do espaços público por múltiplos sujeitos; nutrição de relações comunitárias

pontos nodais que estruturam a espinha dorsal do bairro; apropriação do espaços público por múltiplos sujeitos; nutrição de relações comunitárias

coletivos, associações e iniciativas espontâneas diversas são um exemplo de multidão (hardt e negri, 2014)

pouca área permeável (com exceção de alguns trechos dos largos e fundos de quintais)

oferta insuficiente e ineficiente de transporte público (plano inclinado do pilar e terminal do aquidabã); desarticulação do bairro nas escalas interbairro e urbana; calçadas estreitas; barreiras nas calçadas; enfraquecimento do comércio local; aumento da insegurança urbanat

eventos sem pertencimento ou em escala incompatível ao bairro; poluição; demanda por estacionamento; privatização de espaço público

concentração de fluxos e apropriações na rua direita, no largo do santo antônio e na largo da cruz do pascoal; mercantilização da rua direita

desarticulação dos moradores

remoção da ocupação informal; parcelamento, edificação ou utilização compulsórios, iptu progressivo no tempo, desapropriação; direito de preempção

cobrança de taxa de circulação de veículos; articulação de um sistema de transporte coletivo integrado e eficiente; plano de reabilitação específico para o pilar;

direcionamento de fluxos dos eventos

ocupação de espaços subutilizados; destinação de espaço público para atividades artístico-culturais, de ensino, lazer e práticas esportivas;

recuperação e preservação do frontispício e indicação de instrumentos de política urbana

recuperação e preservação do frontispício; plantação de árvores; paisagismo produtivo; sistema de coletagem adequada para todos os tipos de resíduos

reordenamento e requalificação de vias acessíveis aos diversos modais; aplicação de técnicas moderadoras de tráfego; enterramento da fiação elétrica, de telefonia e internet; ampliação, melhoria e adequação da infraestrutura urbana; conexão em escala interbairros e urbana; requalificação da ladeira do aquidabã

aumento da área verde

humanização do espaço público; aumento da qualidade de vida; aumento da vitalidade urbana; reforço da acessibilidade; incentivo a caminhabilidade; diminuição progressiva do fluxo de veículos particulares e demanda por estacionamento

ocupação informal da encosta

preservação de ambiências preservação do bairro como significativas para o desenho e resistência na luta pela zona de moradia (característica imagem da cidade; preservação viabilização do direito à cidade histórica); imprime qualidade e tratamento do frontispício e função social da propriedade de bairro a área (encosta)

degradação do patrimônio edificado por falta de manutenção; descaracterização pouca vitalidade urbana devido ilegal das fachadas; poluição a baixa diversidade de usos; visual provocada pela fiação; insegurança urbana ocupação de área insegura (encosta)

remoção da ocupação informal de área não urbanizável (encostas); parcelamento, ações e instrumentos edificação ou utilização compulsórios, iptu progressivo no tempo, desapropriação; direito de preempção

proposta

zona predominantemente residencial (zpr-3)

enterramento da fiação elétrica, de telefonia e internet; recuperação e preservação do frontispício

aumento da permeabilidade do solo; conforto ambiental; qualidade da paisagem urbana

aplicação de instrumentos de política urbana para controle do uso do solo urbano previstos no estatuto da cidade; diversificação, mistura e intensificação de usos; ocupação de vazios construídos;

inserção de equipamentos de ensino, cultura, arte, comércio, serviço

aumento da vitalidade urbana;

área de risco imprópria para ocupação humana

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adequação de eventos em escala compatível com a reivindicada pelo bairro

criação de espaços de fruição e atividades artístico-culturais, de ensino, lazer e esportivas no largo do santo antônio, na ladeira do pilar e na praça dos quinze mistérios; fechamento da travessa santo antônio para veículos e configuração como espaço de estar; reconfiguração das das barracas de ambulantes no largo do santo antônio

criação de laboratório cidadão

aumento da vitalidade urbana

desenvolvimento do sentimento de respeito e proteção pelo bairro por parte dos seus moradores e frequentadores


mapa 10 - plano urbanístico o mapa espacializa as ações propostas para o bairro. decisões projetuais recuperação e preservação do frontispício e remoção da ocupação informal

diversificação, mistura e intensificação de usos; ocupação de vazios construídos;

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fechamento da travessa santo antônio para veículos

reordenamento e requalificação de vias acessíveis aos diversos modais; enterramento da fiação elétrica, telefonia e internet; incentivo a caminhabilidade

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mobilidade 09 10 11 12 13 14

centro histórico av. j. j. seabra (baixa do sapateiros) aquidabã barbalho comércio pilar plano inclinado do pilar terminal do aquidabã

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instituição: universidade salvador/unifacs disciplina: título: endereço:

trabalho final de graduação 2 entre sujeitos, largos, ruas e travessas

orientadora:

angela magalhães

convidado interno:

luís gustavo costa

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convidado externo:

josé carlos mota


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a) paisagem e melhoria da qualidade ambiental

qualquer operação de transformação do entorno urbano tem que partir da preservação dos valores arquitetônicos e paisagísticos que se manifestam neste lugar e que são formados não só por elementos tangíveis (como edificações e vegetação), como também as vistas, a trama do tecido urbano, a escala e as dimensões dos espaços abertos (chile, 2017, p. 28, tradução nossa).

a trama urbana do bairro é parte importante de seu patrimônio histórico e arquitetônico e os projetos devem não só respeitá-la como reforçar sua legibilidade. o projeto é, inclusive, uma oportunidade de reafirmar as qualidades inerentes ao tecido urbano e valorizar monumentos de significado simbólico. a qualidade desse espaço depende também da relação com os edifícios do entorno, com os elementos que conformam a identidade do lugar e com elementos intangíveis que geraram sua identidade: a memória dos usos, os acontecimentos que marcaram sua história e as pessoas que o habitaram (chile, 2017, tradução nossa). o santo antônio vive um processo de degradação de seu patrimônio edificado (por falta de manutenção e pela descaracterização ilegal das fachadas) somada a poluição visual provocada pelo excesso de fiação elétrica, de telefonia e internet e pelas barracas de ambulantes que ocupam a balaustrada; a ocupação informal em área de risco (frontispício); e ao excesso de eventos ocorridos no bairro. questões que comprometem a sua paisagem e qualidade ambiental. é importante deixar claro que o santo antônio além do carmo não faz parte do circuito do carnaval e não tem infraestrutura para atender a eventos de grande porte.

além da escala que reivindica para seus eventos, o bairro não deve ser abruptamente sobrecarregado como um pólo de eventos da cidade. inclusive porque, em muitos casos, eventos aqui realizados se apropriam de um conceito de economia criativa, para, em verdade, privatizarem um espaço que é público através de uma lógica mercadológica do que são feiras e festas de bairro. portanto, o projeto pretende preservar as ambiências significativas para o desenho e imagem da cidade, indicando o controle dos eventos a serem realizados (de forma a respeitar a escala reivindicada pelo bairro e as manifestações tradicionais); remoção da ocupação informal; recuperação e preservação do frontispício e o enterramento da fiação elétrica, de telefonia e internet e relocamento das barracas efêmeras dos ambulantes.

b) uso e ocupação

algumas funções são mais eficazes que outras para garantir mais vida nos espaços públicos. as funções que representam as maiores fontes de vida como as escolas, as universidades, os edifícios públicos, os hotéis e as áreas comerciais, deveriam distribuir-se levando em consideração o objetivo principal que é promover vitalidade (diap et al, 2007, p. 18, tradução nossa).

com esse objetivo, decide-se pela diversificação dos usos criando um sistema complexo de usos mistos (de forma a não perder o caráter residencial) onde venham a funcionar durante o dia e não apenas a noite, equipamentos de ensino, cultura, arte, comércio e serviços. desse modo, contribui-se para diminuição da insegurança urbana.

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remoção da ocupação informal

o pddu define como diretriz para as áreas impróprias à ocupação humana a “preservação ou recomposição da cobertura vegetal nas encostas íngremes de vales e matas ciliares ao longo de cursos d’água, consideradas áreas de preservação permanente (app) e de risco potencial para ocupação humana” (salvador, 2016a, art. 22, inciso i) e como diretriz para a borda da baía de todos os santos a “recuperação ambiental com revegetação e controle da ocupação em toda área de influência da falha geológica, especialmente na encosta do centro antigo e adjacências [...]” (salvador, 2016a, art. 274, §3o, inciso i).

da cidade. o estatuto (lei n. 10.257/2001) regulamenta os artigos 182 e 183 da constituição federal no que se refere a política urbana e instrumentaliza o município para garantir o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana, através do plano diretor (instrumento básico da política de desenvolvimento e expansão urbana que deve ser construído coletivamente).

diante do exposto, decidiu-se pela remoção da ocupação informal chácara santo antônio da encosta. no entanto, reconhecemos que há no país um grave problema de acesso à moradia e de exclusão social, um quadro histórico de marginalização e violência onde se faz necessária uma “[...] redinamização socialmente justa da cidade e o direito à moradia no centro [...]” (urbba, 2017). no santo antônio além do carmo existem cerca de 71 vazios construídos, muitos em decorrência do processo de gentrificação que promoveu uma desertificação e uma diminuição da vitalidade urbana. no bairro do comércio, também há “[...] uma grande concentração de estruturas tornadas obsoletas, em situação precária ou sem uso [...]” (urbba, 2017).

o parcelamento, edificação ou utilização compulsórios é um instrumento que promove o uso e ocupação de imóveis em situações de abandono, especialmente se localizados na área central da cidade, podendo abrigar o uso habitacional como forma de revitalização do centro urbano. em caso de não atendimento a esse instrumento, aplica-se o imposto predial e territorial urbano progressivo no tempo, que pune com um tributo de valor crescente, ano a ano, os proprietários de terrenos cuja ociosidade ou mal aproveitamento acarrete prejuízo à população. o objetivo desse instrumento é a utilização socialmente justa e adequada de imóveis ou sua venda. decorridos cinco anos de cobrança do iptu progressivo no tempo, sem cumprimento do parcelamento, edificação ou utilização, o poder público municipal pode proceder à desapropriação do imóvel, com pagamento em títulos da dívida pública (oliveira, 2001).

portanto, para viabilizar o direito à cidade sustentável, a gestão democrática da cidade e a função social da propriedade, indico a possibilidade de utilização de alguns dos instrumentos de política urbana para controle do uso do solo urbano previstos no estatuto

há ainda o direito de preempção, que confere ao poder público municipal a preferência para compra de imóvel urbano, respeitando o seu valor de mercado, antes que o imóvel seja comercializado entre particulares. para isso o município deve, no plano

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diretor, delimitar áreas onde incidirá a preempção (oliveira, 2001). no caso de salvador, está previsto no pddu (salvador, 2016a, art. 310, inciso iv) que o direito de preferência pode ser exercido para preservação de imóveis de interesse histórico, cultural e ambiental, atendidos os critérios estabelecidos pelo savam. uma vez que o santo antônio está inserido em uma área de proteção cultural e paisagística (apcp), definido pelo savam, é possível a utilização desse instrumento de forma a dar preferência ao poder público para que os imóveis de interesse histórico, cultural e ambiental, recebam usos especiais e de interesse coletivo.

qualificação do pilar

especificamente zeis-2 que diz respeito a “edificação ou conjunto de edificações deterioradas, desocupadas ou ocupadas, predominantemente, sob a forma de cortiços, habitações coletivas, vilas ou filas de casas” (salvador, 2016a, art. 68, §2o, inciso ii). “a degradação da área definida como projeto pilar segue o padrão de esvaziamento econômico e social dos centros históricos das principais cidades da américa latina e do caribe. sua degradação se intensificou na década de 70 e atualmente se busca recuperar sua vocação residencial e sua articulação com a área do comércio” (brasil, 2005, p. 56).

antiga freguesia de nossa senhora do pilar, o subdistrito do pilar integra o bairro do comércio, um dos mais antigos de salvador. historicamente vinculada ao porto, a área do pilar/ taboão teve sua ocupação inicial concentrada em uma única rua paralela à encosta, conectada aos caminhos de acesso à cidade alta. foi lugar de trapiches, entrepostos, armazéns, lojas e bazares; lugar de portuários, mas principalmente de comerciantes, prestadores de serviços, vendedores ambulantes e escravos ‘ganho’. até o fim do século xix esses mercados da cidade baixa foram os verdadeiros centros comerciais. mais tarde vieram os aterros, a modernização e um traçado de ruas ortogonais [...]. perdendo a proximidade do porto e suas funções correlatas, a área antiga perde também o interesse econômico, sofrendo um processo de deterioração física e social [...] (ramos et al, 2006).

inscrita na poligonal do centro histórico de salvador (chs), na área de proteção rigorosa (apr) e no centro antigo de salvador (cas), a área é considerada pelo pddu uma zona de interesse social (zeis),

contemporaneamente à sétima etapa do programa de recuperação do centro histórico de salvador, o governo do estado inicia a elaboração de um plano voltado à recuperação de dezenas de sobrados arruinados ou em avançado estado de degradação, situados nas ruas do pilar, julião e caminho novo do taboão, no sopé da encosta que separa cidade alta e cidade baixa [...]. (junior, 2015, p. 158)

em 2003, a faculdade de arquitetura da universidade federal da bahia (faufba) e a conder assinam um convênio que resulta na criação do laboratório de requalificação urbana do pilar (rup), sob coordenação da professora esterzilda berenstein de azevedo (junior, 2015) com participação do ministério das cidades. em 2012, no âmbito do projeto pilar i, 107 famílias (que estavam em situação de maior vulnerabilidade) foram realocadas da encosta e ladeira do pilar para um imóvel na avenida jequitaia, antigo frigorífico do estado (bahia, 2014). foram também executadas a requalificação da ladeira do pilar (acesso entre a rua direita do santo antônio e avenida jequitaia) e

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a reurbanização da encosta (dircas/conder), junto a restauração da igreja de nossa senhora do pilar, seu cemitério e a recuperação do jardim, além da construção de um suposto mirante no meio da ladeira e de equipamentos urbanos com área de recreação.

como objetivo contribuir para o acesso universal à cidade. com a pnmu as cidades brasileiras receberam diretrizes para planejar e guiar suas ações políticas no sentido da acessibilidade universal e de um desenvolvimento urbano democrático e sustentável.

localizado em uma via arterial (avenida jequitaia) – principal eixo viário da cidade baixa no sentido nortesul –, em uma zona de centralidade metropolitana (zcme), o condomínio nossa senhora do pilar funciona como uma espécie de ilha desarticulada de serviços necessários à moradia e dinâmica urbana adequada a esse uso.

para efetivação dessa política, a pnmu determinou a elaboração de planos de mobilidade urbana, integrados ao planos diretores, para cidades com mais de 20 mil habitantes, como requisito para o repasse de recursos orçamentários federais. em salvador, o plano de mobilidade urbana sustentável (planmob), lei 9.374 sancionada em 2018, é o instrumento de orientação das políticas públicas do setor de mobilidade, com diretrizes e ações para os próximos 31 anos (horizonte de 2049), que pretende proporcionar o acesso amplo, democrático e sustentável ao espaço urbano, priorizando os meios de transporte não motorizados e coletivos.

hoje, essa região de importância histórica para a cidade, ainda se encontra abandonada e em processo de degradação. a encosta do pilar e os imóveis ociosos e em ruínas são ocupados informalmente e de forma precária e os projetos já realizados não atendem as demandas da comunidade. indico, portanto, a necessidade de reabilitação dessa região e o posicionamento do poder público através de um plano específico com um programa adequado e projetos em acordo com as demandas e desejos da população, ao mesmo tempo que procure possibilidades de uma melhor articulação entre comércio, o pilar e o santo antônio (que possui conexão direta com o pilar através da ladeira do pilar e do plano inclinado do pilar).

c) mobilidade e acessibilidade

a política nacional de mobilidade urbana (pnmu), lei 12.587 sancionada em 2012, é um instrumento da política de desenvolvimento urbano que tem

a mobilidade urbana eficiente é um direito constitucional que deve ser garantido pelo poder público. no entanto, o plano de mobilidade não deve ser tratado apenas como requisito legal para uma eficiente circulação urbana, mas como um instrumento eficaz de melhoria da qualidade de vida. nossas políticas públicas, o desenho de nossas cidades, a distribuição do espaço urbano e os investimentos em infraestrutura urbana têm sido dedicados a atender uma minoria privilegiada que se locomove com transporte motorizado particular, enquanto a maior parte da população, que efetivamente utiliza transporte coletivo e caminha, vive afastada dos centros urbanos e faz seus deslocamentos diários de forma cansativa e ineficiente. investir em mobilidade

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ativa (estímulo à bicicleta e ao caminhar), contribui para democratização do espaço público (e portanto redução de desigualdades sociais); redução das emissões de gases de efeito estufa e de poluentes locais e aumento da qualidade da paisagem urbana.

coletivo – de forma que ocorra a diminuição progressiva do fluxo de veículos particulares e a demanda por estacionamento.

a movimentação de nossos corpos através do caminhar é um exercício político de nossa liberdade individual, do nosso direito de ir e vir tal qual nossos desejos. com objetivo de aumentar a caminhabilidade, além de desencorajar o uso de carros particulares, decide-se pela remoção do asfalto e recuperação do paralelepípedo (pavimentação original), pela remoção de postes (assim como outros obstáculos que prejudicam a livre circulação, como vasos de plantas e jardineiras colocados por moradores) e o enterramento da fiação elétrica, de telefonia e internet em vala subterrânea, em todo o bairro. além disso, se a infraestrutura viária é um bem público e seu uso deve ser partilhado por todos os cidadãos, onerar os carros – que ocupam a maior parte das vias públicas - pela utilização das infraestruturas urbanas, e em paralelo criar incentivos a utilização de transporte coletivo, podem ser alternativas (além da priorização do transporte público ativo, como a bicicleta e o caminhar). desse modo, indica-se a cobrança de taxa de circulação de veículos que não sejam de moradores do santo antônio; turistas hospedados em pousadas (considerados residentes); emergência; transporte escolar; serviço de entregas; e motoristas com deficiência ou mobilidade reduzida – essa taxa cobrada sendo revertida para melhorias no transporte

além da necessidade de um funcionamento eficiente do plano inclinado do pilar, indica-se também a requalificação do acesso ao terminal do aquidabã através da ladeira do aquidabã (e do próprio terminal) e a ampliação da frota e percurso de micro ônibus elétricos (que hoje faz o trajeto santo antônio-saúdecampo da pólvora) viabilizando a conexão do santo antônio com importantes centralidades municipais (como a centralidade barra e centralidade pituba) ou a terminais que permitam essa conexão (como no caso do aquidabã). “um projeto não deve interromper o modelo urbano existente, e sim dar continuidade ao seu traçado urbano e fluxos, evitando fraturas. a continuidade favorece o funcionamento da cidade como um sistema integrado e influencia a vitalidade.” (diap et al, 2007, p. 14, tradução nossa).

d) dinâmicas locais, espaço público e relações comunitárias

existe uma correlação entre densidade urbana e o controle espontâneo. uma adequada densidade é necessária para que exista quantidade suficiente de pessoas que garantam dinamismo e ofereçam uma vigilância nas ruas. além disso, as pessoas cuidam e desenvolvem um sentimento de respeito e proteção pelos lugares que sentem como próprios. os espaços públicos não podem, portanto, ser monopolizados por um único grupo. devem ser pensados em quantidade, localização, qualidade e possibilidade de usos, evitando espaços desmensurados, amplos demasiadamente com apenas um uso, cercados ou

116


com pouca visibilidade das ruas ou que possam transformar-se em “terra de ninguém” (diap et al, 2007, tradução nossa).

espaços públicos que provoque a reorganização dos fluxos do bairro que não se limita ao eixo estruturante acima mencionado.

o presente estudo dedicou à dinâmica urbana um olhar atencioso e cuidadoso para em suas propostas contribuir com a produção e reprodução de um espaço público que o reconheça como um espaço coletivo, aceitando seus conflitos e os desejos dos múltiplos sujeitos que articulam e sustentam a vida urbana e não compactuar com ações neoliberais nos espaços urbanos responsáveis por fetichizar experimentações – que mascaram a ação agressiva do capital privado na transformação do espaço público em função das lógicas de consumo e entretenimento.

largo de santo antônio além do carmo

o santo antônio, mesmo com suas fragilidades, funciona e sustenta uma rica dinâmica urbana. seus espaços públicos são apropriados por seus moradores e o bairro reinvidica, uma intervenção delicada e crítica para que não se incorra na descaracterização de sua paisagem ou na sua espetacularização. para viabilizar o convívio urbano, onde a rua e o espaço público são elementos fundamentais de apropriação coletiva pelos múltiplos sujeitos, as decisões projetuais foram tomadas de forma a reabilitar espaços já utilizados e também requalificar espaços de permanência em regiões do bairro menos utilizadas - dando visibilidade a outros sítios e desafogando o eixo estruturante do bairro (largo da cruz do pascoal-largo do santo antônio). desse modo, em oposição a mercantilização que tem sido promovida nesse eixo, facilita-se uma apropriação sustentável a partir da articulação de um sistema de

decide-se pela manutenção do largo do santo antônio como espaço de fruição, lazer e atividades esportivas, além de acolher a apropriação por barracas efêmeras. no seu entorno (assim como em todas as demais vias do bairro), resgata-se o paralelepípedo, reorganiza-se o fluxo de carros e prevê-se áreas de estacionamento específicas. no próprio largo, remove-se o pergolado e adapta-se o layout da praça e o seu paisagismo preservando a ambiência original. decide-se, também, pela criação de uma nova praça a partir de dois canteiros preexistentes. atraídos pelo fluxo de usuários, barracas informais e ambulantes têm se instalado, ainda que de forma transitória, no largo do santo antônio. as tipologias das barracas desmontáveis são estruturas tubulares que, muitas vezes, se apoiam na balaustrada ou ocupam a calçada em frente ao casario. junto à descaracterização do casario sofrida em diversos trechos, essas instalações (a princípio efêmeras) comprometem a paisagem ambiental e a preservação do patrimônio. as cidades reproduzem edilicamente sua história; inscrevem no território a condição humana de seus habitantes; narram espacialmente a realidade social que contém. a imagem da cidade é uma construção coletiva definida pela cultura de uma determinada população e que, materialmente, a representa (girotto, 2010, p. 1).

117


respeitando a dinâmica que tem se desenvolvido, decide-se, então, pela organização dessas barracas em uma instalação também em estrutura tubular desmontável e de layout flexível, a ser locada na nova praça ao lado do largo de santo antônio. a proposta para o santo antônio é, então, a criação de estruturas multifuncionais baseadas num sistema modular de andaimes cujo sistema escolhido, andaime multifuncional allround (layher), não requer a utilização de parafusados. o objetivo é acolher a apropriação espontânea existente e oferecer um espaço, sem normas ou regras, em que essas atividades possam ocorrer sem deteriorar o patrimônio ou comprometer a paisagem. a estrutura adaptável permite a livre apropriação pelos mais diversos usuários (e não somente os comerciantes locais) e provoca a experimentação do espaço urbano, de forma coletiva, comunitária, flexível e criativa. dessa maneira permite-se, inclusive, a desmontagem e (re)montagem dessa estrutura em caso de ocorrência das tradicionais festividades que ocorrem no bairro e que podem exigir outras configurações para esse espaço público. a escolha pela estrutura tubular, além de respeitar o material já utilizado, é um recurso utilizado pela arquitetura em projetos sensíveis à paisagem. para além de sua utilização efêmera quando na construção civil, os andaimes também sugerem uma cidade em eterno fluxo de acontecimentos.

118


[41]

119


o arquiteto norte-americano ken isaacs foi responsável pela elaboração de um sistema construtivo modular (living structures) baseado em uma unidade (matrix) estruturada em um grid tridimensional. nesse sistema, as matrizes podem ser combinadas criando ambientes multifuncionais, flexíveis, de baixo custo e fácil transporte, que podem ser construídos pelos próprios usuários.

[42]

120


o projeto do grua arquitetos, cota 10, foi uma estrutura temporária instalada em 2015, na praça xv no rio de janeiro, que buscou estimular a reflexão a respeito da demolição do antigo viaduto da perimetral, estrutura que existiu por meio século até a demolição em 2014. o projeto, composto por módulos de estrutura tubular em aço (andaimes), consistia em uma escada que conduzia o público até uma plataforma que se elevava a 10 metros do nível do solo, cota do antigo elevado, provocando uma nova experimentação da praça ao descortinar a baía de guanabara e oferecer uma nova perspectiva de percepção do centro histórico do rio. o baixo custo da implantação é garantido pelo reaproveitamento de suas peças em outras construções temporárias, sejam elas relativas à estrutura de grandes eventos ou ao aparato necessário às obras de construção e reparo de construções ‘permanentes’. [...] com o sistema de andaimes a ideia de reuso ganha dimensões inalcançáveis [...]. não existem conexões definitivas. [...] os módulos de andaime funcionam como um sistema aberto, permitindo que sejam feitos ajustes sem que a integridade seja comprometida. também não existem fundações, a conexão física entre arquitetura e terreno se dá unicamente através da distribuição de suas cargas [...]. (vitruvius, 2015)

[43]

121


em 2015 o artista italiano fra. biancoshock transformou em casa o andaime onde trabalhava para o festival memorie urbane. a instalação intitulada 24/7 abrigava em 4 andares um pequeno estúdio, um quarto, uma sala de jantar e um terraço e criticava a situação de vida dos artistas.

[44]

122


baseado na simplicidade e funcionalidade, o designer espanhol jordi iranzo critou o soufuu, um módulo lúdico com forma semelhante a uma casa que encoraja as pessoas a se reunirem e experimentarem novas formas de interação.

[45]

123


ladeira e mirante do pilar

diante da importância histórica da ladeira do pilar na conexão entre cidade alta e cidade baixa, marca da urbanística da cidade, e sua relação íntima com o bairro objeto desse estudo, propõe-se a requalificação da ladeira do pilar e a criação do mirante do pilar, um espaço de contemplação e permanência que poderá receber eventos artísticos, culturais e pedagógicos (de forma a inserir essa região na dinâmica vivida pelo santo antônio) significando esse espaço para novos frequentadores e contribuindo, ainda, para diminuição da insegurança e aumento da vitalidade urbana da região.

praça dos quinze mistérios

a praça dos quinze mistérios está atualmente passando por uma requalificação. em seu entorno imediato encontra-se a igreja dos quinze mistérios, igreja inconclusa da primeira metade do século xix. apesar de sua importância histórica para o bairro e de sua localização próxima ao terminal do aquidabã, este sítio não recebe o mesmo fluxo de pessoas que o eixo largo da cruz do pascoal-largo de santo antônio. até a requalificação que está passando hoje, a praça hoje não contava com mobiliário urbano, apenas um telefone público. diante dessa realidade, a intervenção proposta nesse espaço pretende tornálo mais confortável, incentivando sua apropriação por moradores e frequentadores, contribuindo para diminuição da insegurança no entorno.

travessa santo antônio

decide-se por fechar a travessa santo antônio para circulação de veículos, configurando-a como um espaço de estar e realização de atividades (recebendo,

por exemplo, o cinema ao ar livre que acontece no largo de santo antônio).

laboratório cidadão

“qualquer proposta deve levar em consideração as redes sociais existentes e fomentar a sociabilidade, principal elemento de um bairro para desenvolver seu próprio autocontrole prevenindo a exclusão de novos grupos” (diap et al, 2007, p. 14, tradução nossa). a força do coletivo na transformação da cidade não depende apenas de sua ativação, mas do seu engajamento e interesse pela continuidade. portanto, “a participação permite o sentimento de pertencimento de modo que as pessoas respeitam e protegem os espaços que sentem que lhes pertence. se cada intervenção tem um impacto físico e social no ambiente, estas ações podem constar em informações dirigidas a grupos particulares, intervenções graduais e reversíveis, mediações, organizações de eventos, etc. as festas de bairro são, inclusive, um excelente instrumento para fortalecer e integrar a comunidade” (diap et al, 2007, p. 14, tradução nossa). diante da potencialidade em nutrir um rico diálogo comunitário, propõe-se para o santo antônio a criação de um laboratório cidadão, espaço em que todos os sujeitos que sustentam e produzem essa vida cotidiana, com apoio da universidade e da governança local, possam dialogar democraticamente sobre o bairro. o laboratório cidadão é um espaço de produção aberta de conhecimento, a partir de uma cultura experimental e de uma confiança na inteligência coletiva. experimentação é uma prática, uma forma

124


de conhecer o mundo e relacionar-se com ele, mas também uma forma de se relacionar com o outro, o que permite a criação de espaços de confiança e colaboração. no laboratório ela funciona, primeiro, criando e sustentando condições e contexto propícios para o encontro e a colaboração – e é importante que sejam oferecidas diferentes formas de participação que permitam a colaboração de pessoas com perfis diferentes e níveis diferentes de especialização – e, depois, aplicando a lógica da experimentação em si mesmo – o laboratório precisa ser um espaço de questionamento acessível, pondo em questão seu próprio saber e renunciando o controle. nele a participação social não é aproveitada apenas para levantamento de dados, a intenção não é apropriar-se da inteligência coletiva (marcos, 2018; lafuente, 2017, tradução nossa).

ser sustentado por ele. nestes espaços não nos conectamos uns aos outros pelo consumo, pelo mérito ou pela utilidade. estamos todos dando forma a ideia de que a cidade é suas relações e não suas construções. prototipar, experimentar, provar, modelar, equivocar-se são mecanismos de aprendizagem que provocam a transformação dos sujeitos e das instituições tradicionais verticalizadas, fechadas, fixas e burocráticas. os laboratórios cidadãos são uma aposta para a inovação e um mecanismo para que as instituições respondam agilmente a demandas sociais, tornando-se, assim, plataformas abertas, inclusivas, cidadãs, com capacidade de ação e gestão (quijano, 2018, tradução nossa).

o modelo institucional dos laboratórios cidadãos se articula em torno da convivência que surge do fazer compartilhado, da colaboração e da produção de conhecimento. trata-se de uma comunidade de aprendizagem coletiva que permite que competência e saberes diversos encontrem-se para escutar necessidades e anseios coletivos; definindo prioridades de ação, a partir de diálogos com a comunidade; protipando, em grupo, soluções para problemas urbanos (que não sejam urgentes ou agudos); permitindo à governança local experimentar no território, em tempo real, projetos e políticas de forma controlada (marcos, 2018; lafuente, 2017, tradução nossa). para lafuente (2017), sempre que há um bem comum, é necessário um laboratório para sustentá-lo e para

125


materialidade

todo o pavimento dos largos e praças são em concreto com alguns trechos em paralelepípedo (um recurso estético que conecta os espaços públicos com as vias a partir do resgate paralelepípedo preexistente).

concreto

paralelepípedo

126


127


mobiliário todos os mobiliários utilizados no projeto foram projetados, ainda que alguns deles adaptados de projetos de referência.

02 poste de 2 petálas

06 balisador

04 guarda-corpo metálico

03 lixeira

0

para


d e l o s h é ro es

(m

éx

ic

j ar

dim

d o ba o bá ( re c

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o n t e n o v a (li s b ça f o

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rt

al

)

aciclo

que

ug

05

pa r

07 bancos os bancos são adaptações da praça fonte nova, em portugal. aqui, tratam-se de bancos pré-fabricados e definidos por 2 módulos distintos: um módulo reto coletivo e um módulo individual com encosto inclinado. projetei estes bancos de acordo com critérios ergonômicos e inclui assentos e encostos compostos por madeira assentadas no concreto, garantindo conforto ergonômico, tátil e térmico.

08

01 instalação

parque infantil

existem inúmeras possibilidades de combinação do módulo em estrutura tubular, para o trabalho elaborei duas.

129

balanço os balanços utilizados no projeto são adaptações dos balanços do jardim do baboá. no projeto original as bases e assentos são de madeira de lei autoclavada, aqui são de madeira plástica.


instalação

1,13

1,00

poste de aço sem espiga .50m 48,3x3,2mm

0,10

plataforma T4 de aço 1.09x.32m

0,50

0,50

diagonal de aço 2.25m

0,50

poste de aço com espiga 3.00m 48,3x3,2mm

horizontal de aço em tubo redondo 1.09m

trava de segurança de plataformas 1.09m

0,50

sem escala

horizontal de aço em u 1.09m

0,40

vista superior

base ajustável .60m

0,15

01

vista frontal sem escala

placa de base 150x150x5mm


DET 01

DET 01 sem escala DET 02

DET 03

DET 02 sem escala

sem escala DET 03 sem escala

DET 03

perspectiva sem escala

131


poste

0,80 0,10

0,10

1,60

vista superior

vista superior

sem escala

sem escala

chapa de aço galvanizado

4,00

02

vista frontal sem escala

vista lateral (duas pĂŠtalas) sem escala

vista lateral (uma pĂŠtala) sem escala


lixeira

04

guarda-corpo

0,35

0,35

vista superior

chapa de aรงo galvanizado

0,85

chapa de aรงo galvanizado

1,00

1,00

sem escala

vista frontal sem escala

vista lateral sem escala

0,10

0,10

malha metรกlica

0,05

03

vista frontal sem escala

vista lateral sem escala


paraciclo

06

0,50

balisador

0,15

0,03

0,15

vista superior

vista superior

sem escala

0,03

sem escala

chapa de aรงo galvanizado

0,70

0,70

chapa de aรงo galvanizado

0,05

0,67

05

vista frontal sem escala

vista lateral sem escala

vista lateral sem escala


bancos

0,29

1,50

0,35

0,35

07

0,45

vista superior sem escala

vista superior

0,44

sem escala

encosto em madeira

115

°

sem escala

0,30 0,05

0,05

vista frontal

0,30

concreto base em concreto

0,05

0,30

assento em madeira

vista lateral sem escala

vista frontal sem escala


0,25

0,18

0,62

0,03

0,62

0,49

0,13

08

balanço

vista frontal sem escala

1,98

base em madeira plástica

3,98

6,00

0,04

tubo em aço inox

tubo em aço inox

assento em madeira plástica

97

°

vista frontal sem escala

vista lateral sem escala



paisagismo no projeto foram preservadas as espécies preexistentes, como o flamboyant (delonix regia) e a bunganvílea (bougainvillea). no entanto, a diversificação é necessária porque boa parte das espécies plantadas em salvador são de outros ambientes e até de outros continentes. essa tradição vem desde a chegada dos portugueses que tanto trouxeram espécies de fora como levaram as nossas para outros continentes. utilizando espécies nativas estaremos contribuindo para o controle de espécies exóticas invasoras, para proteção de nossos ambientes e valorizando nosso patrimônio genético natural (salvador, 2017b). houve ainda a preocupação com a área da encosta. o manual técnico de arborização de salvador com espécies nativas da mata atlântica (2017) além de indicar a observação das espécies preexistentes, alerta para sua cobertura com árvores que apresentem sistema radicular agressivo e ramificado. as áreas verdes são delimitadas por bancos em seu perímetro conformando “ilhas”. a seguir, todas as forrações, folhagens e árvores acrescentadas aos espaços públicos:

138


grama batatais (axonopus notatum)

grama são carlos (axonopus compressus)

coqueiro-de-vênus (cordyline fruticosa)

grama batatais (eragrostis curvula)

neoregelia (neoregelia sp)

árvore cambuí (myrcia guianensis)

babosa (aloe arborescens)

árvore pitangueira (eugenia uniflora)

139


largo de santo antĂ´nio proposta

140


largo de santo antônio situação atual

141


rua direita de santo antĂ´nio proposta

142


rua direita de santo antônio situação atual

143


largo de santo antĂ´nio proposta

144


largo de santo antônio situação atual

145


largo proposto proposta

146


largo proposto situação atual

147


travessa santo antĂ´nio proposta

148


travessa santo antônio situação atual

149


praça dos quinze mistÊrios proposta

150


praça dos quinze mistérios situação atual

151


praça dos 15 mistÊrios proposta

152


largo proposto situação atual

153


ladeira e mirante do pilar proposta

154


ladeira e mirante do pilar situação atual

155


ladeira do pilar proposta

156


ladeira do pilar situação atual

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mirante do pilar proposta

158


mirante do pilar situação atual

159



iv. a pausa



nos livre, oxรณssi, dos homens de bem que encaram a cidade fomentando o individualismo mais tacanho, o olhar enviesado e o clima de desconfianรงa entre seus habitantes luiz antonio simas


iniciei esse percurso com o desejo de intervir no santo antônio além do carmo enquanto moradora-estudante de arquitetura e urbanismo, incluindo nesse processo a alteridade de outras narrativas. mas

o entendimento do urbano a partir do encontro, com o outro e com o espaço, e da escuta gerando, assim, um projeto de reabilitação adequado. era importante, para isso, criar uma metodologia que ativasse o sensível e fosse aberta às impermanências. por isso a articulação da análise técnica, do estado da arte e do imaginário coletivo junto a uma “observação participante”. assim, foi possível compreender quais eram os conflitos e as potencialidades de cada questão estrutural e, assim, propor ações e instrumentos.

fazer uma experiência com algo significa que algo nos acontece, nos alcança; que se apodera de nós, que nos toma e nos transforma. quando falamos em “fazer” uma experiência, isso não significa precisamente que nós a façamos acontecer, “fazer” aqui significa sofrer, padecer, tomar o que nos alcança receptivamente, aceitar, à medida que nos submetemos a algo. fazer uma experiência quer dizer, portanto, deixar-nos abordar em nós próprios pelo que nos interpela, entrando e submetendo-nos a isso. podemos ser assim, transformados por tais experiências [...] (heidegger, 1987, p. 143 apud larossa, 2002, p. 25)

um dos momentos mais significativos foi reconhecer no santo antônio um exemplo de resistência a um planejamento urbano que tem se dedicado ao ideal de desenvolver um cenário puramente racional, funcionalista e simplificado. o santo antônio nos revela uma pluralidade de contextos e desejos espontâneos que o sustenta contra todas as adversidades. ele funciona na microescala do caminhar, sustenta uma cultura da vizinhança e se contrapõe a esse modelo de cidade estéril.

foi uma escolha consciente, a de afetar-me, de ser atravessada por esse processo. e isso me permitiu refletir sobre a minha própria existência no santo antônio e o exercício da minha profissão. a prática da arquitetura não se reduz a uma análise técnica de parâmetros. esse exercício é obrigatoriamente socioespacial, afetivo, criativo e político. e aqui, justamente, esse exercício não realizou “apenas” espaços úteis dentro de um projeto de reabilitação. o bairro reivindicava um projeto participativo que compreendesse seus sujeitos, largos, ruas e travessas, como um corpo político. um território de resistência que não podia ser acessado de um ponto de vista meramente estratégico. reivindicava uma intervenção sensível que respeitasse a preexistência dos sujeitos e dos espaços e que nutrisse a articulação desse território com suas dinâmicas espontâneas.

potência cultural, artística e política, o santo antônio pode ainda ser compreendido como um exemplo do que hard e negri (2014) chamam de multidão. a diversidade de associações, coletivos, e iniciativas que existem no bairro – que pode sugerir uma desarticulação – revela, em verdade, os múltiplos interesses que constituem esse “sujeito social ativo internamente diferente e múltiplo cuja constituição se baseia naquilo que tem de comum” (hard; negri, 2014, p. )

o intuito, aqui, não foi gerar conclusões, mas promover

por fim, se “a liberdade é uma prática. nenhum projeto pode, simplesmente por sua natureza

164


própria, assegurar que as pessoas terão liberdade automaticamente [...]. a liberdade precisa ser praticada” (foucault apud santos, 1988, p. 21). o projeto aqui apresentado pretendeu permitir o exercício do direito cívico de produzir e sustentar o espaço público contra uma plutocracia do urbano. se, como disse paulo mendes da rocha, o objetivo da arquitetura é fazer as pessoas conversarem, desejo que o meu trabalho possa contribuir para fortalecer esses diálogos e o pleno direito ao convívio urbano entre os sujeitos e as suas diferenças.

[46]

165


imagens imagem 01: cartão postal de salvador. acervo da autora, 2018. imagem 02: forte de santo antônio além do carmo. disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/forte_de_ santo_antônio_além_do_carmot>. acesso em 2018. imagem 03: pichação aqui podia morar gente na rua direita de santo antônio. foto da autora, 2018. imagem 04: pichação aqui podia morar gente. disponível em: <http://novoblogdodimitri.blogspot. com.br/2016/12/aqui-podia-morar-gente.html>. acesso em 2018. imagem 05 e 06: proposta para o largo de santo antônio. masterplan estratégico para o centro antigo de salvador. archdaily, 30 jul. 2014. disponível em: <https://www.archdaily.com.br/br/01-188243/primeirolugar-no-concurso-para-a-requalificacao-urbana-docentro-historico-de-sao-jose-sc>. acesso em mar. 2018. imagem 07: largo antes da requalificação. disponível em: <http://mapio.net/pic/p-2664665/>. acesso em 2018. imagem 08: largo do santo antônio além do carmo. foto da autora, 2018. imagem 09: poligonais incidentes no centro antigo. elaborada pela autora, 2018. imagem 10: condições climáticas de salvador. adaptado do livro eletrônico centro antigo de salvador. disponível em: <https://issuu.com/danielsoto/docs/ cas_piloto_idcs5-final_ok6>. acesso em jan. 2018.

antônio. foto da autora, 2018. imagem 13: situação atual do largo de santo antônio. foto da autora, 2018. imagem 14: largo da cruz do pascoal. foto da autora, 2018. imagem 15 e 16: balaustrada no largo de santo antônio. foto da autora, 2018. imagem 17: entrada da ladeira do pilar vista da rua direita. foto da autora, 2018. imagem 18: fachada descaracterizadas na rua direita de santo antônio. foto da autora, 2018. imagem 19: rua dos ossos interna. foto da autora, 2018. imagem 20: travessa santo antônio vista da rua direita de santo antônio. foto da autora, 2018. imagem 21: bloco de hoje a oito. disponível em: <https://www.facebook.com/blocodhja8/photos/a.1329 343157121885.1073741833.288870097835868/1331721613550 706/?type=3&theater>. acesso em 2018. imagem 22: bloco gravata doida. disponível em: <https://www.facebook.com/blocodhja8/photos/a.1329 343157121885.1073741833.288870097835868/1331721613550 706/?type=3&theater>. acesso em 2018. imagem 23: projeto chulas no pascoal. foto da autora, 2018.

imagem 11: criança andando de bicicleta na ciclovia do largo de santo antônio. foto da autora, 2018.

imagem 24: festival internacional de artistas de rua. disponível em: <https://www.facebook.com/ festivalderuaba/photos/a.1760894450648129.1073741830 .138199749584282/1870707916333448/?type=3&theater>. acesso em 2018.

imagem 12: rampa de acesso ao largo de santo

imagem 25: bar oliveiras. disponível em: <https://www.

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imagem 27: projeto música na rua. foto da autora, 2018. imagem 28: calçada em frente ao antoniu’s bar na rua dos ossos. foto da autora, 2018. imagem 29: projeto água viva. disponível em: <https:// www.facebook.com/dodivinoescoladearte/photos/a.19 0355677995918.1073741828.189011744796978/271395119891 973/?type=3&theater>. acesso em 2018. imagem 30: vendedor de água no largo do santo antônio além do carmo. foto da autora, 2018.

imagem 44: 24/7. disponível em: <http://unevengrowth.moma.org/post/117515079273/entitled-247-theinstallation-ironically>. acesso em 2018. imagem 45: soufuu. disponível em <https://www. archdaily.com.br/br/806612/soufuu-arquitetura-paradescanso-e-desconexao>. acesso em 2018. imagem 46: crianças se preparando para brincar. foto da autora, 2018.

imagem 31: moradores jogando futebol. foto da autora, 2018. imagem 32 e 33: barracas de ambulantes. foto da autora, 2018. imagem 34: havana velha imagem 35, 36 e 37: vivó bairro. disponível em: <https://www.facebook.com/vivobairro/>. acesso em 2018. imagem 38, 39 e 40: primeiro lugar no concurso para a requalificação urbana do centro histórico de são josé - sc. disponível em: <https://www.archdaily.com. br/br/01-188243/primeiro-lugar-no-concurso-para-arequalificacao-urbana-do-centro-historico-de-saojose-sc>. acesso em 2018. imagem 41: buzzi space. disponível em: <http://buzzi. space/buzzijungle/>. acesso em 2018.

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anexos

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entrevista Quando você pensa no Santo Antônio, que imagem vem a cabeça? Qual a dimensão do bairro? Até onde você entende que é Santo Antônio? Onde começa a ser Barbalho, Comércio, Lapinha, Saúde, Nazaré? Por quais transformações o bairro passou? O que mudou? O que você acha que poderia existir aqui, que não fizeram ou que existia e não existe mais? Como você enxerga as manifestações do bairro? cívicas, religiosas, festivas. Há alguma que você destaca? Por que? Como é o seu cotidiano aqui? Normalmente, quais trajetos você faz? Como você se locomove daqui para a cidade? Quais serviços a gente encontra aqui? O que eu não perguntei que você acha interessante falar?

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