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experiêcias de planejamento urbano no mundo
memória e gestão
5.1 planejamento e qualidade de vida
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A qualidade de vida, em sua essência, abrange diferentes aspectos que influenciam a satisfação e o bem-estar das pessoas em suas vidas cotidianas. Na medicina, por exemplo, a qualidade de vida é frequentemente relacionada à saúde física e mental, envolvendo indicadores como a expectativa de vida, a prevalência de doenças e o acesso a serviços de saúde. No entanto, para compreender a qualidade de vida em seu sentido mais amplo, é necessário considerar também outros fatores que vão além da esfera da saúde individual. No campo do urbanismo, a qualidade de vida é entendida como uma medida do nível de satisfação e bem-estar das pessoas em relação ao ambiente urbano em que vivem. Nesse contexto, o espaço físico desempenha um papel central na determinação da qualidade de vida urbana. A qualidade do ambiente construído, a acessibilidade a infraestruturas básicas, a disponibilidade de áreas verdes, a segurança pública e a qualidade do transporte público são apenas alguns dos elementos que podem impactar significativamente o bem-estar dos cidadãos. Uma cidade que busca promover a qualidade de vida deve oferecer espaços públicos adequados, que permitam o convívio social e o lazer, além de garantir a segurança dos seus habitantes. A presença de parques, praças, ciclovias e áreas de recreação contribui para a promoção de um estilo de vida saudável e ativo. Além disso, uma infraestrutura urbana eficiente, que facilite o acesso a serviços essenciais, como saúde, educação e transporte, é fundamental para melhorar a qualidade de vida dos moradores.
A qualidade do espaço urbano também está intrinsecamente ligada à sustentabilidade ambiental. Cidades com políticas de planejamento que incentivam o desenvolvimento sustentável, com redução da poluição, preservação de áreas verdes e uso eficiente dos recursos naturais, tendem a oferecer uma melhor qualidade de vida para seus habitantes. A relação entre o ambiente urbano e a qualidade de vida vai além da esfera individual, impactando também a coletividade e as futuras gerações.
A qualidade de vida urbana está intrinsecamente vinculada à qualidade do espaço em que as pessoas vivem. A promoção de uma boa qualidade de vida nas cidades requer a criação de ambientes que atendam às necessidades físicas e sociais da população.
No entanto, o espaço urbano é muito mais do que meras estruturas físicas e geográficas. Ele é um palco onde inúmeras histórias se entrelaçam e se desenvolvem, representando um mosaico de experiências hu- manas. O espaço é uma simultaneidade de histórias mal acabadas, uma interseção de diferentes trajetórias que se desdobram e se entrecruzam.
Nesse contexto, ao trabalhar com a cidade, é essencial resgatar a dimensão temporal, pois o tempo desempenha um papel fundamental na relação com o espaço. A cidade é um organismo vivo, constantemente em transformação e evolução. A dimensão temporal refere-se à dinâmica da cidade, à sua capacidade de se adaptar, de se reinventar e de se renovar ao longo do tempo. É um processo contínuo de troca, mudança e renovação.
Por outro lado, a dimensão espacial é a manifestação concreta dessa multiplicidade contemporânea. O espaço, quando percebido como lugar, adquire significado social. Ele se torna o palco onde as interações humanas acontecem, onde as relações sociais são construídas e onde a identidade coletiva se manifesta. O espaço urbano é o ponto de encontro das pessoas, dos diferentes grupos sociais e culturais, e é nele que se dá a expressão da vida urbana em todas as suas dimensões.
Ao considerar a cidade como representação, compreendemos que ela vai além de sua dimensão física. A cidade é uma construção social, um reflexo das dinâmicas e das relações humanas. Ela é um conjunto de símbolos, valores, práticas e significados compartilhados pela comunidade que a habita. A cidade é o resultado da interação entre o espaço físico e as pessoas que o ocupam, é a representação concreta das aspirações, necessidades e identidades coletivas.
Portanto, ao trabalhar com a cidade, é essencial reconhecer a interdependência entre tempo e espaço. É preciso compreender a cidade como um organismo vivo e em constante transformação, onde as histórias individuais e coletivas se entrelaçam e se entrelaçam em um tecido social complexo. A cidade, enquanto representação, é o reflexo dessa dinâmica, é o cenário onde as múltiplas narrativas se encontram e se entrelaçam, formando a identidade e a cultura urbana. Compreender essa relação entre tempo, espaço e cidade é fundamental para o planejamento urbano, pois permite a criação de espaços que atendam às necessidades das pessoas, promovam a inclusão social, valorizem a diversidade e construam uma urbanidade significativa e enriquecedora para todos. Nesse contexto, as memórias sociais representam as experiências compartilhadas por uma comunidade ao longo do tempo. Elas são um patrimônio coletivo que reflete a identidade, a cultura e a história de um local. Assim, a incorporação dessas memórias no planejamento é essencial para criar uma conexão entre os moradores e o espaço urbano em que vivem. Ao considerar as memórias sociais no planejamento urba- memória e gestão no, é possível valorizar e preservar o legado cultural de uma comunidade. A requalificação de espaços urbanos históricos, a preservação de patrimônios arquitetônicos e a revitalização de áreas degradadas podem ser feitas de maneira a preservar as memórias sociais e fortalecer o sentimento de pertencimento dos moradores.
Além disso, a incorporação das memórias sociais contribui para a construção de uma cidade mais inclusiva e participativa. Ao envolver os moradores no processo de planejamento, permitindo que expressem suas memórias, desejos e necessidades, é possível criar espaços urbanos mais adaptados às demandas locais. Essa abordagem colaborativa fortalece os laços comunitários, promove o diálogo e a coesão social, fatores essenciais para uma boa qualidade de vida nas cidades.
Outro aspecto relevante é a valorização da memória como recurso para o desenvolvimento sustentável. A história de um local e suas memórias podem fornecer insights valiosos para a preservação ambiental, o uso adequado do espaço e a criação de políticas públicas eficientes. Através do conhecimento das práticas tradicionais, da relação com a natureza e das soluções encontradas no passado, é possível buscar alternativas mais sustentáveis e resilientes para o desenvolvimento urbano.
A incorporação das memórias sociais no planejamento urbano também auxilia na construção de uma cidade mais humanizada. Ao reconhecer a importância das narrativas individuais e coletivas, é possível criar espaços que promovam o bem-estar emocional e a qualidade de vida dos moradores. A preservação de lugares de significado cultural, a criação de locais de memória e a promoção de eventos culturais fortalecem a identidade local, enriquecem o tecido social e contribuem para uma cidade mais acolhedora.
A partir desta reflexão a cerca do planejamento urbano prezando a qualidade de vida, apresentaremos 3 estudos de casos como referência no debate sobre medidas trabalhadas em escala urbana. O primeiro deles, trataremos sobre a cidade de Chicago, localizada no estado de Illinois, Estados Unidos. Neste exemplo, podemos entender, além de outros fatores, como se desenvolveu o setor industrial e compará-la com nosso objeto de estudo. Em uma segunda análise, trataremos de Vancouver, na Colúmbia Britânica do Canadá, nos apoiando no entendimento da forte imigração que ocorreu na cidade, além de formas que a gestão encontrou para envolver a população em decisões urbanas. Por último, falaremos sobre a cidade de Medellín, em Antioquia, na Colômbia, onde iremos refletir sobre os problemas urbanos e as soluções adotadas que se aproximam melhor da nossa realidade latino-americana.
5.2
experiência em chicago - illinois, eua: chicago go to 2040
Chicago, Illinois | EUA
Área do Município: 607,4 km²
População: 2,7 milhões
PIB per capita (US$): US$ 67.268
A cidade de Chicago, utilizada como estudo de caso, está localizada no estado de Illinois, nos Estados Unidos. Geograficamente, a cidade está situada na costa sudoeste do Lago Michigan, um dos Grandes Lagos da América do Norte e é dividida em 10 distritos, conforme Figura 21. Sua localização estratégica no centro dos Estados Uni- dos, combinada com uma infraestrutura robusta, contribui para tornar a cidade um dos mais relevantes hubs logísticos e de distribuição.
Figura 21- Distritos de Chicago
A cidade é reconhecida como um dos principais centros econômicos globais, abrigando um conjunto diversificado de setores e indústrias. O mercado financeiro de Chicago é renomado, com a presença de instituições financeiras de renome internacional, bolsas de valores e empresas de investimento. Além disso, a cidade é um importante polo de negócios, com uma ampla gama de empresas líderes em diversos setores, como tecnologia, manufatura, transporte e logística. A influência de Chicago transcende as fronteiras nacionais, desempenhando um papel significativo nos mercados globais e servindo como um centro de inovação e empreendedorismo. Em suma, a relevância financeira e a influência de Chicago são fundamentais tanto na econo- mia nacional quanto no cenário internacional, solidificando sua posição como uma das cidades mais importantes e dinâmicas do mundo. Dito isso, cidade enfrenta uma série de desafios urbanos relacionados à industrialização e outros fatores. Como uma cidade que experimentou um rápido crescimento industrial no final do século XIX e início do século XX, Chicago enfrenta os legados da poluição industrial e degradação ambiental. A presença de antigas fábricas e instalações industriais abandonadas representa desafios em termos de reabilitação de terrenos contaminados e revitalização de áreas urbanas deterioradas. Além disso, a industrialização passada contribuiu para a segregação socioeconômica e racial, com a formação de bairros empobrecidos e negligenciados. Esses bairros enfrentam dificuldades em termos de acesso a serviços básicos, empregos de qualidade e oportunidades de desenvolvimento. A desigualdade socioeconômica e a segregação residencial são desafios significativos para a cidade. Além disso, Chicago também lida com problemas relacionados à infraestrutura, como o envelhecimento do sistema de transporte público, a necessidade de investimentos em infraestrutura viária e a escassez de moradias acessíveis. Esses desafios urbanos exigem abordagens integradas e políticas públicas eficazes para promover o desenvolvimento sustentável, reduzir as disparidades socioeconômicas e melhorar a qualidade de vida para todos os residentes. Por isso, a Agência Metropolitana para o Planejamento de Chicago (CMAP), passou a auxiliar na reestruturação local ao implementar o plano “Go to 2040”, lançado em 2010 e atualizado em 2015. O plano nada mais é do que uma série de diretrizes com o objetivo de promover o desenvolvimento a longo prazo de toda a Região Metropolitana de Chicago, visando a sustentabilidade, a participação social e a equidade.

O Plano é baseado em quatro eixos principais, que são diretrizes urbanas fundamentais para orientar o crescimento e o desenvolvimento da região. Esses eixos fornecem recomendações e ações específicas para abordar os desafios urbanos e alcançar uma cidade mais habitável, socialmente engajada, com boa governança e mobilidade eficiente.
O primeiro eixo, “Comunidades habitáveis - criando o senso de local”, concentra-se na criação de comunidades sustentáveis e habitáveis. Isso envolve o planejamento adequado do uso do solo e da habitação, garantindo que haja uma mistura adequada de usos residenciais, comerciais e de lazer. Também é importante gerir e conservar os recursos hídricos e energéticos, promovendo práticas de conservação e sustentabilidade. Além disso, o plano busca expandir e melhorar parques e espaços abertos para oferecer áreas verdes acessíveis à população. A promoção de uma alimentação sustentável, incluindo a produção local de alimentos, também é uma prioridade para garantir a segurança alimentar e a saúde das comunidades.
O segundo eixo, “Capital social - aprendendo, trabalhando e informando”, concentra-se na melhoria da educação e no desenvolvimento da força de trabalho. O plano busca melhorar a qualidade e o acesso à educação em todos os níveis, desde a primeira infância até o ensino superior, para garantir que os residentes tenham as habilidades necessárias para prosperar em um ambiente econômico em constante evolução. Além disso, o plano busca promover a aprendizagem contínua e o desenvolvimento profissional ao longo da vida. A disponibilidade de oportunidades de emprego de qualidade também é uma preocupação, com ênfase no desenvolvimento econômico inclusivo e na criação de empregos bem remunerados para todos os residentes. O terceiro eixo, “Governança eficiente - alcançando a transparência”, concentra-se na reforma do governo e na melhoria da transparência e responsabilidade. Isso envolve a revisão dos sistemas estaduais e impostos locais para torná-los mais eficientes e justos. Além disso, o plano busca melhorar o acesso à informação e a participação dos cidadãos no processo de tomada de decisão. A coordenação de investimentos entre diferentes agências governamentais também é uma prioridade para garantir a eficiência e maximizar os recursos disponíveis. Por fim, o quarto eixo, “Mobilidade regional - locomoção”, concentra-se na melhoria do transporte e da mobilidade na região metropolitana de Chicago. Isso inclui investimentos estratégicos em infraestrutura de transporte, como estradas, pontes e trilhos, para melhorar a conectividade e reduzir o congestionamento. Além disso, o plano promove um compromisso contínuo com o transporte público eficiente, incluindo a expansão e modernização das redes de metrô, ônibus e trem. O objetivo é criar uma rede de transporte integrada e acessível, que atenda às necessidades de todos os residentes, baseando-se no princípio de Cidade de 15 minutos.
Em suma, o Plano Chicago Go to 2040 é uma estratégia abrangente que visa orientar o crescimento e o desenvolvimento da região metropolitana de Chicago de forma sustentável, equitativa e inclusiva. Ao estabelecer diretrizes e metas claras, o plano busca abordar os desafios urbanos enfrentados pela cidade, proporcionando qualidade de vida para seus habitantes. Trazendo como comparativo para o objeto de estudo, Chicago e São Bernardo do Campo são duas cidades que enfrentaram desafios urbanos significativos relacionados ao seu histórico de industrialização. Embora tenham passado por processos de industrialização em perío- dos diferentes, ambos os locais tiveram que lidar com os impactos socioeconômicos, ambientais e estruturais resultantes dessa transformação. Apesar desses desafios compartilhados, é importante reconhecer que Chicago e São Bernardo do Campo possuem diferentes contextos e níveis de desenvolvimento. Chicago é uma cidade globalmente influente, com uma economia diversificada e recursos consideráveis para enfrentar seus desafios urbanos. São Bernardo do Campo, por sua vez, é uma cidade industrializada no Brasil, enfrentando desafios em um contexto de desenvolvimento emergente. É importante adaptar as soluções para cada contexto específico, levando em consideração os recursos disponíveis, as particularidades locais e as necessidades da população. Os problemas relacionados à infraestrutura, desigualdade social e pressões ambientais são comuns a ambas as cidades e o enfrentamento desses desafios requer uma abordagem integrada, envolvendo políticas públicas eficazes, participação cidadã e cooperação entre os setores público e privado.
5.3 experiência em vancouver - colúmbia britânica, can: “vancouverismo”
Vancouver, Colúmbia Britânica | CAN Área do Município: 114,94 km²

População: 675.218
PIB per capita (US$): US$ 44.337
Utilizada como estudo de caso, a cidade de Vancouver, no Canadá, está situada na costa oeste do país, na Península Burrard, dentro da província da Colúmbia Britânica, demostrada na Figura 23. Vancouver é amplamente reconhecida como uma das cidades mais habitáveis e bem planejadas do mundo, possuindo um planejamento urbano que reflete os valores de sustentabilidade, inclusão social, preservação do meio ambiente e promoção de uma alta qualidade de vida para seus residentes.
A cidade enfrentou desafios comuns a muitas áreas urbanas, como crescimento populacional devido à imigração, aumento da densidade e demandas por infraestrutura. Com o aumento da densidade populacional, houve a demanda por habitação acessível. O mercado imobiliário aquecido e a especulação imobiliária têm levado a aumentos significativos nos preços das moradias, tornando difícil para muitos moradores encontrar opções de moradia adequadas e acessíveis. Além disso, a pressão sobre as infraestruturas existentes, como transporte, saneamento e serviços públicos, tem sido uma preocupação constante. Outro desafio importante é a busca pela sustentabilidade ambiental, com a necessidade de reduzir as emissões de carbono, proteger espaços verdes e recursos naturais, e promover práticas de construção sustentável. Mas, apesar dos desafios, a cidade soube contornar essas questões de maneira inovadora e eficiente.
O planejamento urbano tem sido fundamental para encontrar soluções criativas e inovadoras para enfrentar esses desafios, envolvendo a participação da comunidade, o estabelecimento de políticas progressistas e o investimento em projetos de infraestrutura e desenvolvimento urbano sustentável. Uma das características mais marcantes desse planejamento urbano, é o conceito do “Vancouverismo”. Esse termo descreve uma abordagem de planejamento que enfatiza a densificação moderada, a mistura de usos do solo, o desenvolvimento orientado para o transporte público e a criação de espaços públicos de alta qualidade, além de uma série de outros pontos marcantes, buscando criar uma cidade sustentável, com alta qualidade de vida e foco na densidade populacional equilibrada.

Apoiado no conceito de Vancouverismo, a Câmara Municipal da cidade aprovou em julho de 2022 o “Plano de Vancouver”, uma série de diretrizes que orientam o crescimento de longo prazo da cidade de forma eficiente, esclarecendo o crescimento e as mudanças que ocorrerão pelos próximos 30 anos, baseando sua fundamentação nos seguintes princípios: Reconciliação; Equidade e Resiliência.
O plano dividiu-se em 05 fases, que incluiu uma etapa inicial de ampla participação popular através de pesquisas digitais, reuniões comunitárias, sessões de diálogo, entrevistas e divulgação presenciais, para criar uma rede de contribuição e parceria para que os resultados do planejamento fossem mais responsivos, inclusivos e acolhedores. Além disso, para embasar o conceito adotado, o plano contém 11 capítulos de políticas que cobrem os principais tópicos de construção da cidade. São eles: Habitação; Economia; Clima; Ecologia; Transporte; Creche; Infraestrutura Comunitária; Artes, Cultura e Patrimônio; Espaços Públicos; Bacias Hidrográficas e Recursos Hídricos e Sistemas Alimentares.
O principal foco do Plano é a Estratégia de Uso do Solo, que, primeiramente, visa direcionar novas opções de moradia para áreas residenciais de baixa densidade, que são ricas em amenidades e atualmente carecem de serviços adequados. Isso permitirá não apenas uma melhor distribuição das opções de moradia, mas também adicionará oportunidades para o estabelecimento de novas infraestruturas nessas áreas. Além disso, o plano visa fortalecer o papel de Vancouver como centro cultural e econômico da região, ao mesmo tempo em que gerencia o crescimento de forma a priorizar a saúde, a felicidade e o bem-estar dos residentes. Isso significa equilibrar o desenvolvimento econômico com a qualidade de vida, promovendo um ambiente urbano que seja vibrante, inclusivo e que atenda às necessidades de seus habitantes. Outro objetivo importante é incentivar uma vida urbana mais sustentável e inclusiva. Isso implica em promover a cria- ção de habitações e empregos acessíveis em áreas que possam ser facilmente alcançadas a pé ou por meio de transporte público. Dessa forma, busca-se reduzir a dependência do automóvel, melhorar a mobilidade urbana e contribuir para a redução das emissões de carbono.

A estratégia também busca fortalecer os centros existentes e apoiar o desenvolvimento de novos bairros. Isso é alcançado por meio da incorporação de habitação do tipo “Missing Middle” em aglomerados de lojas locais, espaços de trabalho flexíveis, creches, espaços públicos e locais de arte e cultura. A ideia é criar comunidades vibrantes, onde as pessoas possam viver, trabalhar e desfrutar de uma variedade de serviços e atividades em seu próprio bairro. Adicionalmente, a estratégia enfatiza a criação de uma rede integrada de espaços públicos, corredores ecológicos, vias verdes e incentiva o uso de modos ativos de deslocamento, como caminhar, rolar e andar de bicicleta, baseando-se no conceito de Cidade de 15 minutos. Essa abordagem visa promover um estilo de vida saudável, melhorar a conectividade e proporcionar uma experiência urbana agradável para os cidadãos. Por fim, a estratégia de uso da terra em Vancouver também valoriza a ecologia e a sustentabilidade ambiental. Busca-se permitir que a ecologia funcione em todo o espaço urbano, integrando soluções de infraestrutura verde em locais, bairros e em toda a cidade. Isso inclui a preservação de áreas naturais, a promoção da biodiversidade e a adoção de práticas de construção e desenvolvimento sustentáveis.
É possível observar o plano macro da Estratégia de Uso do Solo a partir do mapa iconográfico elaborado pelos idealizadores do projeto, na Figura 24.
A partir da implementação desse plano único, baseado no vancouverismo, a cidade tem como objetivo final até 2050 tornar-se ainda mais sustentável, inclusiva e com qualidade de vida para os seus habitantes. Essa abordagem busca equilibrar o crescimento urbano com a preservação do meio ambiente, promovendo o uso eficiente do espaço, a proteção das áreas naturais e a redução das emissões de carbono. Além disso, visa criar comunidades vibrantes e diversificadas, onde as pessoas possam viver, trabalhar e desfrutar de uma variedade de serviços e amenidades em seu próprio bairro, reduzindo a dependência do automóvel e incentivando o uso de modos de transporte sustentáveis. Outro objetivo é garantir a acessibilidade à moradia e empregos, promovendo a criação de habitações e oportunidades de trabalho próximas umas das outras, facilitando o deslocamento a pé ou por transporte público. O plano também busca fortalecer a identidade cultural e econômica da cidade, incentivando a criação de espaços públicos, áreas verdes e locais de arte e cultura. No geral, o objetivo final é construir uma cidade mais equitativa, saudável e próspera, onde as necessidades e aspirações da comunidade sejam atendidas de forma sustentável e inclusiva. Comparando o estudo de caso com o objeto deste trabalho, vemos que, embora os desafios urbanos enfrentados por Vancouver e São Bernardo do Campo sejam diferentes em escala e contexto, ambos compartilham a necessidade de planejamento urbano estratégico para enfrentar essas questões. O rápido crescimento populacional, o aumento da demanda por novas infraestruturas e o histórico de imigração aproximam os dois municípios na necessidade de compartilhar boas práticas para contribuir com o desenvolvimento urbano eficiente e equitativo.
5.4 experiência em medellín - antioquia, col: projecto urbano integral
Medellín, Antíoquia | COL Área do Município: 382 km²
População: 2,5 milhões
PIB per capita (US$): US$ 3.794
Medellín é uma cidade colombiana localizada às margens do rio Medellín e atualmente é a segunda cidade mais populosa da Colômbia, depois de Bogotá. Está situada no centro geográfico do Vale de Aburrá, na cordilheira central dos Andes. A cidade se divide em seis zonas, divididas por sua vez em comunas, como demonstrado na Figura 26.

A cidade latino-americana implementou uma série de estratégias de transformação urbana a partir da iniciativa do Projeto Urbano Integral (UPI), encomendado pela empresa EDU (Empresa de Desarrollo Urbano). O projeto teve como objetivo principal melhorar as condições de vida dos residentes, promover a inclusão social e reduzir as desigualdades por meio de intervenções urbanas abrangentes. O UPI foi implementado em várias áreas da cidade, com foco em bairros historicamente marginalizados e afetados por problemas sociais e econômicos. O projeto envolveu o desenvolvimento de infraestrutura, espaços públicos, habitação, transporte, educação e serviços sociais. Por meio de ações estratégicas e inovadoras, a gestão local conseguiu fomentar o desenvolvimento econômico e proporcionar alternativas de financiamento para os grupos mais vulneráveis da cidade. Essas medidas não apenas apoiaram a geração de renda, mas também romperam o ciclo da pobreza, promovendo uma maior inclusão social. Uma das principais forças impulsionadoras desse processo foi a ênfase na inovação, que estimulou a implementação de soluções criativas para os desafios enfrentados pela cidade. Ao adotar abordagens inovadoras para o desenvolvimento econômico, Medellín abriu caminho para novas oportunidades, incentivando a criação de negócios sustentáveis e o crescimento de setores promissores. Essa abordagem ajudou a diversificar a economia local e reduzir a dependência de setores tradicionais, gerando mais resiliência e estabilidade para a cidade. Além disso, o UPI reconheceu a importância da participação cidadã como uma ferramenta essencial durante momentos de mudanças sociais tão intensas. A EDU e outras entidades envolvidas no projeto buscaram envolver os residentes locais em todas as fases do processo, desde a concepção até a implementação das intervenções. Através de espaços de diálogo e consulta, a população foi convidada a fazer parte ativa das decisões e ações que moldaram o futuro de Medellín. Essa abordagem fortaleceu o sentimento de pertencimento e engajamento da comunidade, estabelecendo uma nova cultura de desenvolvimento baseada na participação e no interesse pelo bem comum. Os cidadãos passaram a se envolver ativamente na gestão pública e a contribuir com ideias e soluções inovadoras, promovendo um senso de responsabilidade coletiva pelo futuro da cidade. Como parâmetros quantitativos, um dos resultados mais expressivos do projeto é a queda acentuada na taxa de homicídios. Segundo o Programa de Cidades Sustentáveis, entre 1991 e 2010, houve uma redução de quase 80% nesse índice. Entre 2010 e 2011, especificamente, a taxa de homicídios diminuiu em 19,4%, atingindo 69,9 mortes por 100 mil habitantes. Essa redução significativa na violência tem sido fundamental para promover a sensação de segurança e melhorar a qualidade de vida dos cidadãos.

O projeto também obteve resultados positivos na área socioeconômica. A linha de pobreza, no período entre 2002 e 2010, diminuiu em 39%, passando de 36,1% para 22%. Da mesma forma, a indigência também registrou uma redução de 29%, de 7,9% para 5,6%, embora em uma proporção menor. Esses números indicam uma melhoria significativa nas condições de vida da população, contribuindo para a redução da desigualdade social.
Outro resultado quantitativo relevante é o investimento decidido pelos cidadãos, que corresponde a 5% do orçamento municipal. Essa medida demonstra o compromisso com a participação democrática e a transparência na gestão pública, permitindo que os cidadãos contribuam ativamente nas decisões e prioridades do desenvolvimento da cidade.
A implementação do projeto trouxe benefícios significativos para a cidade de Medellín. O planejamento urbano incorporou elementos como espaços verdes, ciclovias, transporte público eficiente e acessível, além de infraestruturas adaptadas para pessoas com mobilidade reduzi- da. A construção de novas escolas, bibliotecas, espaços verdes, espaços culturais e centros de conhecimento contribuiu para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. Essas novas infraestruturas oferecem oportunidades educacionais, culturais e de lazer, promovendo a inclusão social e contribuindo para a redução da criminalidade e do desemprego. Fazendo um comparativo com o objeto de estudo deste trabalho, Medellín e São Bernardo do Campo compartilham algumas características sociais comuns e o laço latino-americano. Ambas as cidades possuem uma diversidade étnica e cultural significativa, resultado da migração interna e externa. No entanto, Medellín enfrentou um histórico de violência e conflitos relacionados ao narcotráfico, enquanto São Bernardo do Campo se desenvolveu como um polo industrial, com forte presença de sindicatos e movimentos trabalhistas. Em termos de desenvolvimento urbano, Medellín enfrentou desafios significativos devido à topografia montanhosa da região. No entanto, a cidade adotou medidas ousadas para melhorar a mobilidade urbana, como a construção do sistema de metrô, teleféricos e escadas rolantes nas comunidades mais inclinadas. Essas iniciativas transformaram Medellín em uma referência global em termos de mobilidade sustentável e acessibilidade.
São Bernardo do Campo, por sua vez, desenvolveu-se como uma cidade industrial, com grande concentração de empresas e indústrias. No entanto, a expansão urbana desordenada e a falta de investimentos em transporte público resultaram em problemas de mobilidade, congestionamentos e poluição. A cidade está investindo em melhorias na infraestrutura de transporte, como a ampliação do sistema de transporte público, para enfrentar esses desafios. Além disso, São Bernardo do Campo tem promovido projetos de revitalização urbana, como a requalificação de áreas degradadas e a criação de espaços públicos para o lazer e convívio da população. Essas ações visam melhorar a qualidade de vida e promover a sustentabilidade urbana na cidade. Medellín se tornou um exemplo de modelo sustentável para outras cidades ao redor do mundo. Sua abordagem integrada, que combina desenvolvimento econômico, inclusão social, participação cidadã e planejamento urbano voltado para as pessoas, demonstra que é possível conciliar crescimento econômico com proteção ambiental e justiça social. Essa abordagem inspiradora não apenas melhorou a qualidade de vida dos habitantes de Medellín, mas também serviu como referência para outras cidades que buscam soluções sustentáveis para os desafios urbanos.