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Grávida do bilionário! Assim que Ellie Brooks conheceu o magnata Alek Sarantos, sua vida saiu dos trilhos. Primeiro, foi demitida. Depois, descobriu que estava grávida dele! Aquela era para ser apenas uma noite apaixonante. Porém, Ellie reaparece exigindo que Alek se case com ela e faça do filho um herdeiro legítimo. Mesmo chocado, Alek aceita a proposta. Imersa em um mundo ao qual não pertence, ao lado de um marido que não deve desejar, Ellie pensa em voltar atrás. Até que um chute dentro de sua barriga a lembra o motivo pelo qual fizera um pacto com um grego malicioso: seu bebê!


Cercada pelo luxo inacreditável do escritório de cobertura de Alek. Ellie sentiu-se invisível. Pensou em todas as mulheres que saíam do escritório de salto alto e sem um fio de cabelo fora de lugar. Aquele era o tipo de mulher com quem ele convivia diariamente. Mulheres com ares decididos e corpos esbeltos. Já ela, com seu vestidinho barato e a barriga crescendo, não se encaixava naquele mundo e experimentava a sensação de não se pertencer a lugar em algum. Aquele era o mundo dele, e nem ela nem o bebê faziam parte desse mundo. Quanto tempo levaria para que ele convenientemente se esquecesse de que tinha gerado uma criança em um momento de impensada paixão? Quanto tempo levaria para ele casar-se com uma mulher classuda e ter filhos legítimos que seriam seus herdeiros, enquanto o filho dela permaneceria nas sombras, esquecido e desprezado? Não sabia que esse era o destino de crianças indesejadas? Conhecia a dor de ser rejeitada pelo pai. E esse foi o momento de iluminação. O momento em que soube o que pediria. Pouco importava seu ego e orgulho; só seu bebê importava.


Querida leitora, A ambiciosa Ellie Brooks sabe que para realizar o sonho de ser bem-sucedida no ramo hoteleiro, precisa ser extremamente profissional durante o treinamento no luxuoso New Forest. Até conhecer Alek Sarantos. Envolver-se com um hóspede é contra as regas, mas resistir ao poder de sedução deste sensual magnata grego é praticamente impossível! Boa leitura! Equipe Editorial Harlequin Books


Sharon Kendrick

ACORDO ULTRAJANTE

Tradução Marie Olivier

2015


CAPÍTULO 1

ELE A desejava. Tanto que era quase capaz de sentir o gosto do desejo. Alek Sarantos sentiu a força do desejo enquanto tamborilava os dedos na toalha de linho. As velas tremeluziam sob a brisa. Um forte perfume de rosas impregnava o ar. Mudou de posição, mas não conseguiu ficar à vontade. Estava inquieto. Mais que inquieto. Talvez a ideia de voltar ao ritmo alucinado de sua vida em Londres tivesse aumentado seu desejo sexual, que corria em suas veias como mel grosso e doce. A garganta apertou. Ou talvez fosse simplesmente ela a responsável por tamanho desejo. Observou quando a mulher atravessou o terreno gramado em sua direção, esbarrando nas flores que brilhavam como discos pálidos sob a luz fraca do sol vespertino. A lua cheia iluminou o corpo vestido com uma camisa branca simples por dentro de uma saia escura que parecia, no mínimo, um número menor que o dela. O avental ressaltava seus quadris. Tudo parecia macio, pensou. Pele macia. Corpo macio. O cabelo farto preso semelhante à seda descia-lhe pelas costas. Seu tesão era insistente – seu membro duro, embora ela não fosse seu tipo. Definitivamente não. Em geral, não ficava excitado diante de garçonetes curvilíneas com sorrisos amáveis. Gostava de mulheres esbeltas e independentes, não ligeiramente arredondas. Gostava de mulheres de olhares duros que desciam as calcinhas sem questionar e com facilidade. Mulheres que aceitavam seus termos, que não deixavam margem para manobras. Termos que ajudaram a alcançar seu posto de homem influente e que lhe permitiam um estilo de vida livre de um compromisso com uma mulher ou com uma família. Porque não queria compromissos. Evitava qualquer mulher que suspeitasse ser meiga, carente ou doce. A doçura não era uma qualidade que exigisse das parceiras na cama. Então por que babava por alguém que deslizava pela sua visão periférica a semana inteira, como uma ameixa prestes a cair da árvore? Tinha a ver com seu avental, talvez. Algum fetiche com uniforme que despertava fantasias eróticas em sua cabeça? – Seu café, senhor. Mesmo sua voz era macia. Lembrou-se de ter ouvido a cadência baixa e musical quando ela confortara uma criança que tinha machucado o joelho em uma das trilhas cobertas de cascalho. Alek voltava de uma partida de tênis com o professor do hotel, quando a vira ajoelhar-se ao lado do menino, exalando ternura. Ela enxugara o sangue com o lenço enquanto a babá, pálida como


cera, ficara parada ao lado. Ao virar a cabeça, a jovem tinha visto Alek. Pedira-lhe que entrasse e buscasse uma caixa de primeiros socorros na voz mais calma que ele já ouvira. E ele obedecera. O homem acostumado a dar, e não a receber, ordens retornara com a caixa e sentiu um violento soco no estômago ao ver o menino lançar para ela, os olhinhos marejados de lágrimas, um olhar de total confiança. Agora ela se curvava enquanto colocava a xícara de chá sobre a mesa, atraindo-lhe a atenção para os seios espremidos na camisa. Meu Deus, que seios! Descobriu-se imaginando como seriam os mamilos espetados em direção aos seus lábios. Quando ela se ergueu, viu os olhos cinzentos emoldurados pelos cílios claros e fartos. Ela usava apenas uma corrente de ouro no pescoço e um crachá no qual se lia o nome, Ellie. Ellie. Além de ser carinhosa e atenciosa com menininhos, ela passara a semana atendendo a cada pedido seu – e, embora isso não fosse novidade para ele, sua presença tinha sido surpreendentemente discreta. A jovem não havia tentado puxar conversa. Tinha sido gentil, mas não comentara sobre suas noites de folga nem se oferecera para acompanhá-lo. Em resumo, não dera em cima dele. Ela o tratara com a mesma civilidade que demonstrava em relação a qualquer outro hóspede do discreto hotel The Hog, e talvez isso o instigasse. Contraiu os lábios. Alek Sarantos não estava acostumado a ser tratado como os outros. Mas não só isso havia lhe capturado a atenção. Ela tinha algo de indecifrável. Ambição, talvez, ou apenas orgulho profissional. Isso o fazia demorar o olhar sobre ela. Ou seria o fato de que ela o fazia lembrar-se de si mesmo anos atrás? No passado, ele alimentara a mesma ambição, quando começara sem um tostão e servia mesas, como ela. Na época em que o dinheiro era apertado, e o futuro, incerto. Ele tinha dado duro para escapar do passado e forjar um novo futuro, e aprendera muitas lições ao longo do caminho. Achava que o sucesso era a resposta para todos os problemas, e não se enganara. O sucesso tornava a vida menos amarga, embora ainda fosse preciso encará-la. Não se dava conta disso agora, quando tinha alcançado todos os sonhos almejados; quando acumulara dinheiro e suas várias contas bancárias continham inimagináveis riquezas? Parecia que não importava quanto doasse para instituições de caridade, ainda continuava ganhando mais. E às vezes isso o fazia questionar-se sobre algo que o deixava constrangido – uma pergunta que não conseguia responder, mas que a cada dia se tornava mais insistente. A vida era só isso? – Deseja mais alguma coisa, senhor Sarantos? A voz da garçonete soou como um bálsamo. – Não tenho certeza – murmurou, erguendo os olhos para o céu. Lá no alto, as estrelas se espalhavam no céu que escurecia, como se um artista celestial tivesse aberto uma tela prateada. Pensou que deveria voltar a Londres no dia seguinte, e uma inexplicável tristeza o fez baixar a cabeça e fitá-la. – A noite é uma criança. Ela sorriu. – Quando se passou o dia trabalhando, às 23h30 da noite posso garantir que a noite não parece uma criança. – Imagino. – Ele colocou um torrão de açúcar no café. – A que horas você sai? Ela abriu um sorriso tímido, como se não esperasse a pergunta. – Daqui a uns dez minutos.


Alek reclinou-se e continuou a admirá-la. As pernas estavam levemente bronzeadas e a lisura da pele fazia com que quase se esquecesse de como os sapatos eram baratos. – Perfeito – murmurou. – Os deuses devem estar sorrindo para nós. Por que não tomamos um drinque? – Não posso. – Ela deu de ombros em resposta às sobrancelhas erguidas. – Não devo confraternizar com os hóspedes. Alek abriu um sorriso. Confraternizar não era uma palavra antiquada? Uma palavra irrelevante, pois ele nunca tivera alguém. Quer dizer, alguém importante. Sempre fora só no mundo, e era assim que pretendia viver. A não ser nessa noite estrelada, que pedia uma companhia feminina. – Só estou convidando você para um drinque, poulaki mou – disse baixinho. – Não pretendo arrastar você para um canto escuro e forçar a barra. – Melhor não. É contra as regras do hotel. Sinto muito. Alek sentiu algo estranho percorrer sua espinha. Seu coração batia forte em consequência do não? Quando fora a última vez que alguém tinha lhe recusado algo? E a última vez que sentira esse frisson? A sensação de que seria preciso fazer um esforço para obter algo em vez de o resultado ser previsível? – Mas vou embora amanhã. Ellie assentiu. Sabia. Todos no hotel sabiam. Sabiam um bocado sobre o bilionário grego que provocava um frisson desde a chegada no The Hog na semana anterior. Embora fosse o hotel mais luxuoso do sul da Inglaterra, acostumado a hóspedes ricos e exigentes, Alek Sarantos era mais rico e mais exigente que a maioria. Antes de sua chegada, seu assistente pessoal enviara uma lista de itens informando o que ele gostava e o que não gostava, e todos os funcionários tinham sido alertados para observar cada item. E, embora Ellie tivesse considerado isso um exagero, seguira as instruções, pois gostava de desempenhar bem suas tarefas. Sabia que ele gostava dos ovos “com a gema mole” porque tinha morado um tempo nos EUA. Que tomava vinho tinto e, às vezes, uísque. Suas roupas chegaram antes, entregues por um serviço de courier e cuidadosamente embrulhadas. Os funcionários do hotel foram convocados para uma reunião antes de sua chegada. – O senhor Sarantos gosta de privacidade. Em nenhuma circunstância deve ser perturbado, a não ser que dê sinais de querer alguma coisa. É uma honra ter alguém como ele em nosso hotel, portanto precisamos deixá-lo à vontade, como se estivesse em casa. Ellie levara as instruções ao pé da letra, porque o treinamento no The Hog lhe dava estabilidade e esperança em relação ao futuro. Para alguém que nunca fora boa nos estudos, o hotel lhe oferecia uma chance de subir na carreira, porque ela queria ser independente. O que significava que, ao contrário das outras mulheres no hotel, ela tentara olhar o milionário grego com certa imparcialidade. Não flertara com ele, como as demais. Conhecia seus limites, e um homem como Alek Sarantos jamais se interessaria por alguém como ela. Muito curvilínea, muito comum... Jamais seria a escolha de um playboy internacional; portanto, para que se iludir? Mas é claro que dera uma boa olhada. Suspeitava que até uma freira o olharia de cima a baixo, porque homens como Alek Sarantos não entravam na linha de radar de uma pessoa comum mais de uma vez na vida. O rosto marcado era duro demais para ser descrito como bonito, e os lábios sensuais traíam um quê de crueldade. O cabelo era cor de ébano, a pele parecia bronze envernizado, mas eram


os olhos que capturavam a atenção e tornavam difícil esquecê-los. Olhos azuis, o que a levou a pensar naqueles mares banhados pelo sol da Grécia mostrados nos folhetos de viagem. Olhos irônicos que pareciam ter a capacidade de fazê-la sentir... Sentir o quê? Ellie balançou a cabeça de leve. Não tinha certeza. Sentir como se houvesse algo de perdido nele? Como se, incompreensivelmente, eles fossem almas gêmeas? Quanta idiotice. Apertou a bandeja. Hora de pedir licença e ir para casa. Mas Alek Sarantos ainda a olhava como se esperasse que ela mudasse de ideia, e ela sentiu-se tentada a aceitar. Porque, afinal, não é todo dia que um bilionário grego convida você para tomar um drinque. – Já é quase meia-noite – disse indecisa. – Sou capaz de ver as horas – disse, com um toque de impaciência. – O que acontece se você ficar aqui depois da meia-noite? Seu carro vira uma abóbora? Ellie ficou surpresa por ele conhecer a história da Cinderela. Isso significava que na Grécia contavam os mesmos contos de fadas? Surpreendeu-se ainda mais por ele a ter associado à famosa heroína que trabalhava feito escrava. – Não tenho carro. Ando de bicicleta. – Você mora no meio do nada e não tem carro? – Não, não tenho. – Apoiou a bandeja no quadril e sorriu, como se explicasse uma conta de subtrair elementar a uma criança de cinco anos. – Nesse lugar, é muito mais prático andar de bicicleta. – E quando você vai a Londres ou para a costa? – Não costumo ir a Londres. E existem coisas como trens e ônibus, sabe? São chamados de transporte público. Ele deitou outro cubo de açúcar no café. – Até os quinze anos eu nunca tinha usado transporte público. – Sério? – Seríssimo. Nem trem nem ônibus, nem mesmo avião comercial. Ela o encarou. Que tipo de vida levava? Por um segundo, ficou tentada a oferecer uma explicação sobre sua vida. Talvez pudesse sugerir se encontrarem na manhã seguinte e tomarem o ônibus para Milmouth-on-Sea. Ou pegarem um trem para qualquer lugar. Podiam tomar chá quente em copos de papel enquanto admiravam a paisagem campestre pela janela. Podia apostar que ele nunca tinha feito isso. Então se deu conta de estar ultrapassando os limites. Ele era um bilionário, e ela, uma garçonete. Embora, às vezes, os hóspedes tratassem os funcionários como se fossem seus iguais, todos sabiam que não eram. Os ricos gostavam de bancar pessoas comuns, mas isso não passava de uma brincadeira. Ele a convidara para tomar um drinque, mas, falando sério, que interesse um homem como ele podia ter por ela? Ele podia ficar mal-humorado tão logo ela se sentasse. Ela sabia que ele podia ser impaciente e exigente. O pessoal da recepção não se queixara porque ele armava um escândalo toda vez que a internet caía? No entanto, a princípio, ele estava de férias e, em sua opinião, ninguém de férias deveria trabalhar. Porém, Ellie se lembrou de algo que o gerente geral tinha contado quando ela participara do curso de treinamento. De vez em quando, os hóspedes importantes queriam conversar e, nesse casso, você devia ouvir.


Então ela olhou os olhos azuis e tentou ignorar o arrepio em sua pele. – Como pode – perguntou, tentando fazer a voz soar casual e indiferente – ter começado a andar de transporte público aos quinze anos? Alek recostou na cadeira e pensou na pergunta, em um meio de mudar de assunto, embora ela o deixasse à vontade. Porque a verdade sobre o seu passado era algo que não discutia. Crescera num palácio, cercado de luxo. E odiara cada minuto passado naquela casa. O lugar era uma fortaleza, cercada de muros altos e cães de guarda. Um lugar onde pessoas eram mantidas trancadas dentro ou fora. Os empregados eram investigados antes de admitidos e recebiam salários astronômicos para fechar os olhos ao comportamento do pai dele. Mesmo as reuniões familiares eram arruinadas pela paranoia do homem por segurança. Ele vivia assombrado, com medo de que histórias sobre seu estilo de vida fossem publicadas nos jornais, com medo de que algo pudesse manchar seu verniz de respeitabilidade. Seguranças eram contratados para manter os jornalistas, ex-amantes e bisbilhoteiros afastados. Mergulhadores nadavam em missões de reconhecimento em torno de barcos estranhos, até darem autorização para o luxuoso iate sair ao mar. Alex nunca soube o que era viver sem a presença de algum guarda-costas. Então, um dia, fugiu. Aos quinze anos deixou a casa e o passado para trás, e rompeu as amarras por completo. Passou de uma vida fabulosa para uma quase penúria, mas entregou-se ao novo estilo de vida com avidez. Nunca mais seria prisioneiro da fortuna do pai. Tudo que possuísse seria ganho com o próprio esforço. Era uma das poucas coisas na vida de que se orgulhava. Talvez a única. Só então percebeu que a garçonete ainda aguardava a resposta e que não mais parecia apressada para terminar o expediente. Ele sorriu, a expectativa fazendo seu coração acelerar de leve. – Porque cresci em uma ilha grega onde não existem trens e apenas poucos ônibus. – Parece o paraíso. O sorriso de Alek se desvaneceu. Que clichê! No momento em que se dizia ilha grega, todo mundo achava que você mencionava o paraíso. Mas havia serpentes no paraíso, certo? Algumas almas torturadas moravam nas casas brancas com vista para o mar azul. Havia toda espécie de segredos sombrios escondidos nas vidas aparentemente normais. Ele mesmo não descobrira isso do modo mais cruel? – Parecia muito idílico visto de fora. Mas as coisas raramente são o que parecem. – Imagino. – Transferiu a bandeja para a outra mão. – Sua família ainda mora lá? O sorriso era tão cortante quanto uma faca afundando no concreto molhado. Sua família? Não seria a palavra adequada para descrever as pessoas que o tinham criado. As prostitutas do pai fizeram o possível, com sucesso limitado, mas com certeza era melhor do que não ter mãe. Ou ter uma mãe que o tivesse largado e não tivesse se dado ao trabalho de ligar para saber como ele estava passando. – Não. A ilha foi vendida depois que meu pai morreu. – Uma ilha inteira? – Ela entreabriu os lábios. – Você quer dizer que seu pai era dono de uma ilha? Outra onda de luxúria o atiçou quando ela entreabriu os lábios. Se ele tivesse anunciado ter uma casa em Marte, ela não pareceria mais chocada. Bem, a riqueza isolava. E, para uma jovem que nem carro tinha, devia ser difícil imaginar alguém dono de uma ilha. Ele olhou as mãos dela


e, por algum motivo, as unhas sem esmalte apenas intensificaram seu desejo. Deu-se conta de não ter sido cem por cento honesto quando dissera não estar planejando arrastá-la para um canto escuro. Adoraria isso. – Você está plantada aí faz tanto tempo que na certa terminou seu turno – disse seco. – Podia ter tomado aquele drinque comigo. – Acho que sim. – Ellie hesitou. Ele era tão persistente. De um jeito elogioso. Perguntou-se o porquê. Porque ele tinha sido quase amável desde que ajudara a cuidar do menininho que tinha machucado o joelho? Ou porque ela tinha demonstrado relutância em sair com ele e ele não estava acostumado a ouvir não? É provável. Ficou imaginando como seria ser Alek Sarantos, tão seguro que ninguém o dispensava. – Do que tem medo? – desafiou. – Duvida que eu seja capaz de me comportar como um cavalheiro? Foi um daqueles momentos de virada na vida. A Ellie sensata deveria fazer que não com a cabeça e agradecer. Devia ter levado a bandeja de volta à cozinha, tirado a tranca da bicicleta e ido para seu quarto num vilarejo ali perto. Mas a luz da lua e o forte perfume das rosas a faziam sentir-se o oposto de sensata. A última vez que um homem a tinha convidado para sair – e não dava para considerar aquilo um encontro – fazia mais de um ano. Ela vinha trabalhando tanto que havia pouca oportunidade para se divertir. Ela o fitou nos olhos. – Nem pensei nisso. – Bem, pense agora. Você tem me servido a semana inteira, então por que não me deixa servila para variar? Tenho uma geladeira cheia de bebida em que nem toquei. Se estiver com fome, posso lhe oferecer chocolates ou pêssegos. – Ele se levantou e ergueu as sobrancelhas. – Por que não lhe sirvo uma taça de champanhe? – Por quê? Alguma comemoração? Ele riu baixinho. – Não é preciso uma comemoração especial. Achei que todas as mulheres gostassem de champanhe. – Eu não gosto. – Ela balançou a cabeça. – As bolhas me fazem espirrar. E vou voltar para casa pedalando. Não quero atropelar algum pônei no meio da estrada. Acho que prefiro algo mais suave. – Claro. – Ele lhe lançou um sorriso estranho. – Sente-se e vou ver o que acho. Ele entrou na villa localizada no imenso terreno do hotel e Ellie sentou-se na ponta de uma cadeira de cana da índia, rezando para que ninguém a visse, pois não devia estar sentada na varanda de hóspedes como se isso fosse a coisa mais normal do mundo. Observou o terreno silencioso onde um imenso carvalho lançava uma sombra enorme. A brisa balançava as flores silvestres e, lá no fundo, luzes clareavam o hotel. A sala de jantar ainda estava iluminada por velas, e ela vislumbrava pessoas tomando café. Na cozinha, os empregados deviam estar lavando a louça toda enquanto sonhavam em chegar em casa. Nos andares de cima, casais retirariam os chocolates de boas-vindas deixados sobre os travesseiros com fronhas de algodão egípcio antes de se deitarem. Ou talvez entrassem nas banheiras pelas quais The Hog era famoso. Pensou ter visto algo se mexendo atrás do carvalho e instintivamente mergulhar nas sombras, mas, antes que pudesse decifrar o que era, Alek tinha voltado com um copo de refrigerante para ela e algo parecido com uísque para ele.


– Acho que devia ter trazido os copos em uma bandeja. Ela tomou um gole. – E usando avental. Ele ergueu as sobrancelhas. – Quem sabe você me empresta o seu? Um jeito sutil de dizer que ela tirasse o avental. Ellie descansou o copo, contente por a escuridão ocultar as maçãs do rosto coradas porque a ideia de tirar alguma coisa fez seu coração disparar, de repente. A luz da lua, as rosas e o brilho daqueles olhos a deixavam vulnerável demais. – Não posso demorar – adiantou. – Eu não esperava que demorasse. Que tal o refrigerante? – Delicioso. Ele se recostou na cadeira. – Então me conte por que uma jovem de vinte...? – Ergueu as sobrancelhas. – Tenho vinte e cinco anos. – Vinte e cinco. – Ele tomou um gole de uísque. – Acaba trabalhando num lugar desses. – É um hotel ótimo. – Num lugar muito parado. – Eu gosto. E proporciona um treinamento reconhecido em todo o mundo. – Mas e a vida noturna? Boates, festas, namorados? O tipo de diversão que a maioria dos jovens de vinte e cinco anos adoram. Ellie observou as bolhas borbulhando em torno dos cubos de gelo. Deveria explicar ter escolhido uma vida tranquila em contraste com o caos de sua infância? Um lugar onde pudesse concentrar-se no trabalho, pois não queria terminar como a mãe, que achava que a ambição de uma mulher devia ser conseguir um homem que pusesse comida na mesa? Ellie logo aprendera o estilo de vida que não queria ter. Nunca entraria em sites na internet nem frequentaria baladas. Nunca compraria uma saia justa ou um sutiã para levantar os seios. Nunca sairia com alguém pensando apenas no que ele tinha na carteira. – Porque estou concentrada na minha carreira. Minha ambição é viajar, e vou conseguir. Um dia espero ser gerente geral. Se não for aqui, pode ser em um dos outros hotéis da rede. A competição é grande, mas não custa sonhar alto. – Tomou um gole e o fitou. – Pronto, essa sou eu. E você? Alek mexeu o uísque. Em geral mudaria de assunto, pois não gostava de falar de si. Mas ela tinha um jeitinho de perguntar que lhe dava vontade de responder, embora ele não entendesse o porquê. Ele deu de ombros. – Ganhei meu dinheiro sozinho. – Mas você disse... – Que meu pai era dono de uma ilha? Verdade. Mas ele não deixou seu dinheiro para mim. – E, se tivesse, Alek o teria atirado na sua cara. Preferia ter abraçado uma cobra venenosa do que receber um único dracma da fortuna do velho. Sentiu o peito contrair. – Tudo que tenho, ganhei com meu próprio esforço. – E foi difícil?


A meiguice de sua voz era hipnótica. Parecia um bálsamo sobre uma ferida não curada. E não era isso que os homens faziam desde o começo dos tempos? Beber uísque um tanto a mais e depois descarregar seu sêmen em uma mulher que nunca mais voltariam a ver? – Foi uma liberação cortar as amarras com o passado. Ela assentiu, como se compreendesse. – E começar do zero? – Exato. Saber que sou capaz de lidar com qualquer decisão que eu tome. O celular decidiu tocar naquele exato momento. Ele pegou o telefone no bolso e verificou o visor. Trabalho, balbuciou ao atender. Despejou uma torrente de palavras em grego antes de começar a falar em inglês, então Ellie não pôde deixar de ouvir. Mas, se fosse sincera, confessaria que era muito interessante ouvir uma conversa que envolvia um futuro negócio com os chineses. Então ele disse outra coisa, também muito mais interessante. – Estou de férias e você sabe disso. Só achei melhor verificar primeiro com o escritório de Nova York. – Tamborilava impaciente o dedo no braço da cadeira. – Está bem. Entendi. Está bem. Desligou e viu que ela o fitava. – O que foi? Ela deu de ombros. – Não é da minha conta. – Não, fale, estou interessado em saber. – Você nunca para de trabalhar? O olhar irritado deu lugar a um sorriso tímido. – Engraçado, mas era o que o meu assistente dizia. Que eu não posso pressionar os outros a tirarem férias, se eu não estou preparado para tirar as minhas. Estão há tempos me pressionando. – Então, como atende ligações de trabalho a essa hora? – Era uma ligação importante. – Tão importante que não podia esperar até amanhã de manhã? – Tem razão – disse indiferente, embora o coração batesse forte. Disse a si mesmo que deveria irritar-se por ela se meter onde não fora chamada, contudo via sua atitude como uma demonstração sincera. Por isso as pessoas saíam de férias: para tirarem você do seu mundo e lhe dar uma chacoalhada? Ninguém se aproximaria dele para reprová-lo pela sua incapacidade de relaxar. Ele estava sempre cercado de gente que mantinha o resto do mundo a distância. Mas o núcleo protetor de sua vida profissional de repente pareceu inútil, e só existia o rosto à sua frente. Ficou imaginando como ficaria o cabelo dela se ele soltasse o rabo de cavalo e o espalhasse pelo travesseiro. Qual a sensação de encostar naquela carne macia quando abrisse suas pernas. Tomou o último gole de uísque e deixou o copo, com a intenção de caminhar pela varanda e tomá-la nos braços. Porém, ela escolheu aquele momento para afastar uma mecha dos olhos, e o gesto o trouxe de volta à realidade. Estremeceu, como alguém que despertasse. Planejava mesmo seduzi-la? Olhou os sapatos baratos e as unhas sem esmalte. E a franja, que parecia ter sido cortada por ela mesma. Enlouquecera? Ela era meiga demais para alguém como ele.


– Está ficando tarde – disse, erguendo-se. – Onde está sua bicicleta? Ela piscou surpresa, como se não esperasse por aquela pergunta. – No estacionamento de bicicletas. – Vamos. Levo você até lá. Ele vislumbrou o tremor nos lábios quando ela balançou a cabeça. – Não precisa. Volto para casa sozinha toda noite. Melhor não ser vista com você. – Vou acompanhar você – disse teimoso. – E não aceito um não como resposta. Ele percebeu sua decepção ao caminharem pela grama banhada pela lua e disse a si mesmo que agia bem. Havia milhões de mulheres com quem podia transar. Melhor manter-se afastado da meiga e sensível garçonete. Chegaram ao hotel, e ela abriu um sorriso sem jeito. – Preciso pegar minha bolsa. Então, melhor nos despedirmos. Obrigada pelo refrigerante. Alek assentiu. – Boa noite, Ellie – disse, curvando-se com a intenção de lhe dar um beijinho no rosto, mas de algum modo isso não ocorreu. Ela tinha virado a cabeça? Ou tinha sido ele? Por isso as bocas se encontraram e deram um beijo de verdade? Ele viu quando ela arregalou os olhos. Sentiu o calor de sua respiração. Podia sentir o gosto do refrigerante, o que o fez lembrar-se da juventude e da inocência perdida. Teria a tomado nos braços e a beijado sofregamente por puro reflexo? Por puro reflexo ela soltou um gemido de prazer? Isso era tudo de que precisava. Toda sua frustração e anseio foram liberados. As mãos buscaram famintas seu corpo enquanto a encostava contra um muro. Gemeu ao sentir a maciez de sua barriga e teve vontade de apertar seu membro duro contra ela. Mostrar seu estado e demonstrar como seria gostoso se ele a penetrasse. Passando a palma da mão no mamilo duro, fechou os olhos. Devia enfiar a mão por baixo da saia do uniforme e descobrir se ela estava tão molhada quanto suspeitava? Descer-lhe as calcinhas e possuí-la ali mesmo? O gemido que ela deu em reação à pressão de seus lábios foi quase o bastante para pôr em ação seus pensamentos eróticos. Quase, mas não o suficiente. A razão tomou conta de seu cérebro e ele recuou, embora o corpo protestasse. Por alguns momentos, havia ignorado o bom senso, assim como ignorara o apelo silencioso nos olhos da jovem mulher. Porque ele não valorizava sua reputação e transaria com uma garçonete desconhecida? Vários minutos se passaram antes que ele conseguisse falar. Abanou a cabeça, incrédulo. – Isso não devia ter acontecido. Ellie sentiu como se ele tivesse derramado água gelada em cima dela, sem saber o motivo de ele ter parado. Na certa, também tinha sentido aquela incrível química. Aquela pura magia. Nunca tinha sido beijada assim e queria continuar. Perguntou antes que pudesse impedir as palavras de saírem: – Por que não? – Porque você merece mais do que tenho a oferecer. Porque você não precisa de um homem como eu. Você é muito meiga e eu não passo de um lobo malvado. – Não acha que eu devo decidir? Ele deu um sorriso amargo.


– Vá para casa, Ellie. Melhor ir embora, antes que eu mude de ideia. Algo sombrio surgiu em seu rosto, algo que a desconcertou. Ele disse algo abrupto, que soou como “tchau”, antes de dar as costas e seguir seu caminho.


CAPÍTULO 2

– AQUELE RAPAZ com quem estava ontem à noite era seu namorado? – A pergunta veio do nada, e Ellie teve forças para se concentrar no que o hóspede dizia, em vez de remoer pensamentos de frustração. Por causa da recente onda de calor, o restaurante passara o dia lotado. A salada de lagosta e o pudim de frutas haviam se esgotado, e o coquetel do mês, um ponche de morango, tinha vendido horrores. Mas agora apenas uma hóspede, uma loura anoréxica, permanecia no restaurante tomando sua terceira taça de vinho. Não que Ellie contasse. Bem, na verdade, contava. Torcia para a mulher ir logo embora para que ela terminasse seu turno em paz. A cabeça latejava, estava exausta, na certa por não ter conseguido pegar no sono na noite anterior. Deitada na cama de solteiro, inquieta, fitando o teto com os olhos arregalados, pensava no que tinha acontecido. Ou melhor, no que não tinha acontecido. Repetia ser insano não parar de pensar naquele beijo. Ele era um bilionário grego. Não o conhecia, e ele nem a levara para sair. No entanto... Passou a língua nos lábios secos. Ainda se lembrava das mãos segurando-lhe os seios. De ser encostada no muro, do membro duro feito pedra. Por segundos achou que ele tentaria fazer sexo com ela ali mesmo. Por acaso, uma parte de seu ser não desejava isso? Podia ser errado, não ter nada a ver com ela, mas na escuridão da noite de verão ela o desejou com mais fúria do que jamais desejara alguém. Deparara-se com uma faceta irreconhecível e da qual não gostava muito. Mordeu o lábio. Uma faceta parecida com a de sua mãe? A loura ainda a fitava com a expressão de um pássaro faminto que acabara de ver um verme no chão. – Então, ele é seu namorado? – insistiu. – Não, não é – respondeu de pronto. – Mas vocês estavam se beijando. Nervosa, apertou a garrafa de vinho tentando se recobrar. Olhou ao redor, com medo de algum funcionário ouvir. Uma das regras que insistiam em repetir desde seu primeiro dia de trabalho era não se envolver com os hóspedes. Nunca. Deu de ombros. – Eu? O olhar glacial da loura iluminou-se de curiosidade.


– Você sabe que sim. Eu fumava um cigarro atrás daquela árvore grande e vi vocês. Logo depois, ele a levou de volta ao hotel. Cá entre nós, vocês não pareciam preocupados com a discrição. Ellie fechou os olhos. Agora fazia sentido ter visto uma luz atrás do tronco e a sensação de que alguém os observava. Devia ter agido de forma sensata e ido embora. – Ah – murmurou. – Isso, ah. Sabe quem é ele, não sabe? Ellie se retesou quando um par de olhos azuis da cor do mar nadou em sua memória e o coração quase parou. Sei, o homem mais maravilhoso que já vi. Um homem que me fez passar a acreditar em contos de fadas. – Claro que sei. Ele é... – Um dos homens mais ricos do mundo. Costuma sair com modelos famosas e herdeiras – disse a loura impaciente. – E aí, sinceramente, não entendi o que fazia com você. O interrogatório da mulher chegava numa hora em que já se sentia emocionalmente vulnerável, mas não precisava ouvir essas insinuações venenosas, fosse ela hóspede ou não. – Não entendo o que há de relevante nisso. – Não mesmo? Mas gostou dele, não é? Aposto que gostou muito. – A loura sorriu. – Não beijo homens de quem não gosto – disse na defensiva, ciente da ironia de seu comentário, tendo em vista que há mais de um ano não beijava ninguém. A loura tomou um gole do vinho. – Você se dá conta de que ele tem fama de ser um homem feito de ferro, assim como seu coração? Na verdade, ele é meio cafajeste no que diz respeito às mulheres. Então, o que tem a dizer sobre isso... – fez uma pausa enquanto se inclinava para ler o nome no crachá – ...Ellie? Seu instinto mandava dizer à mulher que o que pensava sobre Alek Sarantos era assunto confidencial, mas a lembrança das mãos movendo-se com precisão pelo seu corpo ainda era tão vívida que foi difícil não corar. De súbito, foi fácil esquecer que de vez em quando ele fora um hóspede exigente e workaholic, nada preocupado em esconder a impaciência. Porque só conseguia pensar no modo como ela reagira, e, se ele não tivesse se comportado com decência, sabe-se lá o que teria acontecido. Bem, não era bem verdade. Fazia ideia do que poderia ter acontecido. Mordeu o lábio, lembrando-se do modo cavalheiresco com que lhe dissera para ir para casa e de como ela praticamente implorara para que não a deixasse. Por que não deveria defendê-lo? – Acho que fazem uma ideia errada dele. Ele parece um gatinho. – Um gatinho? – A loura engasgou. – Está falando sério? – Estou. Ele é muito meigo e uma ótima companhia. – Aposto que sim. Na certa, passou a semana inteira flertando com você. – Nada disso. – As maçãs do rosto voltaram a ficar rosadas. Por que dera para corar com tanta frequência? – Nós só conversamos. Até... – Calou-se. – Até? Ellie fitou os olhos glaciais da mulher. Tudo parecia irreal. Como se tivesse inventado tudo. Como um sonho vívido que começa a desvanecer no momento em que se acorda. – Ele me convidou para tomar um drinque porque era a última noite dele aqui. – E você aceitou? Ellie deu de ombros.


– Duvido que alguma mulher recusasse. Ele é... divino. – Concordo. E beija bem, posso apostar – sugeriu a loura. Ellie se lembrou da língua entrando em sua boca e de como tinha sido delicioso. Por breves segundos, se sentiu especial. Tinha sido um único beijo, mesmo assim... – Muito bem – disse, com a voz rouca. A loura ficou quieta por um instante e, quando voltou a falar, havia uma entonação maldosa na voz: – E o que diria se eu contasse que ele tem uma namorada? Que ela o esperava em Londres enquanto ele estava ocupado com você? A descrença inicial foi logo substituída pela decepção e pela constatação de que agira como tola. O que lhe passava pela cabeça? Que alguém como Alek Sarantos não tinha compromisso e pretendia começar um relacionamento com alguém como ela? Imaginara que ele apareceria e a pegaria no colo – ainda de uniforme – como naquele filme antigo que a fazia chorar sempre? No fundo, não fantasiara que, apesar de ele ter se despedido, voltaria um dia à procura dela? Foi tomada pela autorrecriminação. Claro que ele não voltaria, e é claro que tinha uma namorada. Uma mulher linda, magra e rica, com certeza. O tipo de mulher que podia correr para tomar um ônibus sem usar sutiã. Acreditara mesmo que ela – a curvilínea Ellie Brooks – poderia competir com alguém assim? E de repente, além de idiota, sentiu-se magoada. Tentou imaginar a reação da namorada se os tivesse visto juntos. Ele não dava valor à fidelidade? Não se importava em ferir os sentimentos dos outros? – Ele não disse que tinha namorada. – Ele não diria, não é mesmo? Não naquelas circunstâncias. Nenhum homem menciona a namorada quando está seduzindo outra. – Mas não aconteceu nada! – Mas bem que você queria, não é, Ellie? O clima parecia bem apaixonado. Ellie sentiu-se mal. Por pouco não dera um show de sexo ao vivo! Quis ir embora. Quis começar a limpar as outras mesas e fingir que essa conversa não acontecera. Mas e se a loura entrasse no escritório do gerente geral para contar o que tinha visto? Eles a demitiriam por comportamento profissional impróprio. Não podia perder o emprego e a oportunidade de sua vida, certo? Não por causa de um beijo. – Se eu soubesse que ele estava envolvido com alguém, eu jamais... – Você costuma sair com os hóspedes? – Nunca! – exclamou. – Só com ele, né? – A loura ergueu a sobrancelha. – Ele contou o motivo de sua presença aqui? Ellie hesitou. Lembrou-se do sorriso que ele abrira quando o menininho a abraçou. Lembrouse de ter interpretado como um elogio sua insistência para tomarem um drinque. Achou que tinham algo em comum. Entretanto, ele a usara como se ela fosse um brinde do hotel. Zangada, pensou no que ele contara. – Ele está trabalhando noite e dia num negócio com os chineses. O assunto é confidencial. Também disse que sua equipe vem insistindo há séculos para ele tirar férias. – Sério? – A loura sorriu, enxugando os lábios com um guardanapo. – Nossa, então ele é humano. Pare com esse olhar assustado, Ellie, não vou contar nada ao seu chefe, mas quero lhe


dar um conselho. Se eu fosse você, no futuro, manteria distância de homens como Alek Sarantos. Homens como ele poderiam comer você no café da manhã. TÃO LOGO entrou na sala de reuniões, Alek sentiu algo no ar que não conseguia identificar. O negócio tinha sido fechado, como sempre, embora a delegação chinesa tivesse tentado negociar o preço. Mas o preço final o satisfez, embora tivesse visto dois membros da delegação disfarçarem um sorriso. Comprara a empresa por poucos tostões e tivera um lucro grande ao vendê-la. Apenas quando todos deixavam a sala de reuniões, a ruiva que servira de intérprete se aproximou e disse “Oi, gatinho”, antes de rosnar e fazer um gesto com as mãos. Alek a fitou. No ano anterior, tinham tido um caso e ele a levara à casa do amigo Murat, na Úmbria. Mas ela parecia não ter entendido que tudo não passava de um caso. Quando o relacionamento terminou, ela tinha ficado furiosa, como às vezes acontecia. Os e-mails de recriminação tinham cessado, bem como as ligações, mas ao ver a expressão em seus olhos constatou que ela ainda estava zangada. – Não entendi. Ela piscou. – Leia os jornais, tigre – murmurou, antes de acrescentar: – Andou apelando, hein? E a história não parou por aí. Ao deixar o prédio, percebeu uma das recepcionistas mordendo o lábio como se tentasse reprimir um sorriso, e ao voltar para sua sala ligou para o assistente. – O que houve, Vasos? – A que se refere? – perguntou com cautela. – A mim! – Saiu um monte de notícias sobre o contrato com os chineses. – É obvio. Mais alguma coisa? A hesitação do assistente dizia tudo. Teria ouvido Vasos suspirar? – Vou levar aí. Alek permaneceu sentado, imóvel, quando Vasos colocou um artigo sobre a escrivaninha. Era um artigo que mostrava uma foto tirada há uns dois anos e que as revistas ainda adoravam publicar, na certa porque davam uma ideia de que ele era uma pessoa séria e discreta. Sobre o rosto sério, as palavras: “Por acaso Alek Sarantos descobriu ouro?”. Cerrou os punhos ao ler a nota. Um dos mais cobiçados solteiros talvez deixe o mercado em breve. O bilionário, conhecido pelo seu toque de Midas e por seu fraco por modelos e herdeiras, foi visto dando um abraço apaixonado em uma garçonete, depois de drinques à luz de velas no luxuoso hotel New Forest, na semana passada. Ellis Brooks não é o tipo de Alek, mas a garçonete boazuda declarou-se encantada com o magnata grego, que havia contado precisar de umas férias antes de concluir seu próximo negócio. Parece que o magnata grego leva a palavra relaxar a sério! Ainda, segundo Ellie, ele nem sempre faz jus ao apelido de Homem de Ferro. “Ele é um gatinho”, ronronou. Talvez os seus parceiros de negócios devam manter um pires com leite à sua disposição no futuro...


Alek olhou para Vasos que, nervoso, afrouxava o colarinho enquanto sacudia os ombros. – Sinto muito, chefe. – Se você não escreveu o artigo, não vejo motivo para pedir desculpas. Telefonaram para confirmar os fatos antes de publicarem? – Não. – Vasos pigarreou. – Acho que não era necessário. – Como assim? Vasos o encarou. – Não teriam publicado isso sem verificar, se não fosse verdade. Furioso, Alek amassou o jornal antes de atirá-lo na direção da lixeira como se fosse contagioso. Observou o jornal cair pela janela, e o fato de ter errado a mira o deixou ainda mais zangado. Sim, era verdade. Ele andara se expondo em lugar público com uma garçonete. Havia pensado com o sexo, e não com o cérebro. Não agira como de costume e agora os leitores de um jornaleco estavam informados disso. Sua vida privada deixara de ser tão reservada. Mas o pior foi a sensação de ter se enganado a respeito dela. Talvez tivesse sido vítima de insolação. Caso contrário, como a teria julgado meiga ou sincera, quando ela armara para cima dele? A reputação construída passo a passo tinha sido comprometida por uma lourinha ambiciosa em cujos olhos brilhavam cifrões. A raiva começou a crescer. Belas férias! Todos aqueles tratamentos e massagens no spa não tinham servido para nada, uma vez que sua pressão sanguínea batia no teto. Aqueles solenes terapeutas repetindo que ele precisava relaxar tinham perdido tempo. Ele devia estar bastante descontrolado para pensar em fazer sexo com “umazinha” como ela. Continuou mal-humorado o resto do dia, embora dedicado a barganhar para concluir sua última aquisição. Mostraria ao mundo que definitivamente não era um gatinho! Passou o dia ocupado com ligações e, no final da tarde, foi tomar um drinque com um político grego que lhe pedira conselhos. De volta à cobertura, ouviu irritado as mensagens na secretária eletrônica. O que faria agora? Podia ter a mulher que quisesse. Para tanto, bastava dar um telefonema. Pensou nos rostos aristocráticos e nos corpos magros sempre à disposição e se pegou os comparando com o corpo cheio de curvas de Ellie. A mulher cujo rosto o havia feito sentir-se inexplicavelmente... O quê? Inclinado a confiar nela? Quanta tolice! Não passara de um tolo, de um idiota movido a testosterona. Ainda não aprendera a lição? Não podia confiar nas mulheres. Passara anos construindo a imagem de um homem agressivo e íntegro em termos profissionais. Era conhecido por sua visão e confiabilidade. Desprezava a cultura de “celebridades” e valorizava a privacidade. Escolhia os amigos e amantes a dedo. Não permitia intimidade e nunca ninguém dera entrevistas falando a seu respeito. Nunca. Mesmo a ruiva, apesar de magoada, tivera o bom senso de ir embora e lamber suas feridas sozinha. Mas Ellie Brooks o traíra. Havia tratado a garçonete como igual, cometera o erro de beijá-la e ela retribuíra dando uma entrevista para um jornalista. Quanto teria lucrado? O coração dele acelerou. Nem ao menos tivera o prazer de se perder naquele corpo macio. Erroneamente a julgara meiga demais. E ela vendera informações a seu respeito. Ele tinha se comportado com decência e honra quando a mandara para casa. E era assim que ela lhe agradecia!


A boca se contraiu em conjunção com o estranho pulsar em seu sexo. Talvez não fosse tarde demais para dar um jeito na situação.


CAPÍTULO 3

SINTO MUITO, Ellie, mas não temos outra alternativa. Você está demitida. As palavras ainda ressoavam dolorosamente em seus ouvidos. Ellie pedalou, debaixo do temporal, em direção às acomodações dos empregados pensando na terrível reunião que acabara de ter com o gerente de pessoal do The Hog. Claro que restava outra alternativa, mas preferiram desconsiderá-la. Na certa, podiam esperar até a poeira baixar. Manobrando a bicicleta pela estradinha, tentou assimilar a conversa. Receberia um mês de salário em vez do aviso prévio e deixariam que continuasse a utilizar o quarto por mais quatro semanas. – Não queremos que pensem que não temos coração e que deixamos você na rua – disse a gerente de RH, com uma expressão de sincero pesar. – Se não tivesse sido indiscreta, ainda mais com um hóspede tão conhecido, talvez pudéssemos esquecer o incidente e manter você. Mas, depois do que aconteceu, é impossível. Não depois de o senhor Sarantos ter deixado bem claro o quanto prezava a discrição. Minhas mãos estão atadas. É uma pena, Ellie, porque tudo indicava que teria uma carreira promissora. Ellie assentiu ao deixar o escritório. Apesar do choque, concordava com todas as palavras da gerente. Chegou a sentir pena da mulher, que parecia sinceramente constrangida em demiti-la. Não podia acreditar que tinha sido tão idiota. Agira de forma inapropriada com um hóspede e ainda cometera outra transgressão ao conversar sobre o assunto com uma mulher, que agora descobria ser jornalista de um tabloide sensacionalista. Uma jornalista! Apertou com força o guidom. E isso aparentemente tinha sido o motivo principal da demissão. O fato de ter traído a confiança de um importante cliente. As linhas telefônicas praticamente fumegavam quando ele ligou para reclamar sobre a notícia do jornaleco, que acabou sendo publicada em todos os grandes jornais do país. O tempo estava feio, e ela ouviu o som do trovão ao estacionar a bicicleta. Abriu a porta. Tinha um mês para encontrar outro lugar para morar. Um mês para achar outro emprego. Era assustador, pois a taxa de desemprego era alta e ela parecia ter voltado à estaca zero. Pior ainda: quem a contrataria depois do ocorrido? Ouviu o trovão enquanto seguia pelo corredor rumo ao seu quartinho. Acendeu a luz. Colocou água na chaleira para ferver.


O que fazer? Olhou os pôsteres nas paredes – fotos gigantes de Paris, Nova York e Atenas. Planejava visitar todos esses lugares quando fosse promovida. Agora a chance de conhecer essas cidades era remota. Devia ter pedido uma carta de referência. Será que o hotel lhe daria uma, enfatizando suas melhores qualidades, ou a fariam parecer uma alucinada, louca para pegar um hóspede rico? A campainha tocou. Foi tomada pela renovada esperança. Era inconcebível pensar que o chefão do hotel tivesse desconsiderado a decisão do RH? Tivesse se dado conta de que tudo não passava de uma bobagem e que não podia perder um membro tão valioso de sua equipe? Ajeitando os cabelos, atravessou às pressas o corredor e abriu a porta da frente. O coração parou de tanta emoção ao se deparar com a figura alta que habitava seus sonhos. Só podia ser uma visão. Como Alek Sarantos estaria na porta de sua casa? Algumas gotas gigantes de chuva cintilavam nos cabelos negros e a pele bronzeada reluzia como se alguém tivesse passado a manhã a encerá-la. Esquecera-se de como os olhos azuis eram divinos, mas agora vislumbrava algo desconcertante naquelas profundezas de safira. E mesmo em meio ao atordoamento – por que ele estava ali? – sentia a reação instintiva do corpo. A pele arrepiou, os seios começaram a inchar, como se ela tivesse consciência de que ali estava um homem capaz de lhe dar muito prazer quando a tocasse. Sentiu o rubor tingir-lhe as faces. – Senhor Sarantos – disse, por hábito, embora o sorriso cínico dele demonstrasse que julgava suas palavras não apenas inapropriadas, mas insultantes. – Ah, por favor, acho que nos conhecemos o bastante para você me chamar de Alek, não acha? – perguntou baixinho. A sugestão de intimidade a irritou mais do que sua presença, e ela segurou a maçaneta em busca de apoio. Agora o barulho do trovão se aproximava e nunca um som parecera mais adequado. – O que está fazendo aqui? – Não faz ideia? – Veio se certificar de que me fez perder o emprego? – Não, não foi culpa minha. – Ele a contradisse com suavidade. – Você se encarregou de tudo sozinha. Então, não vai me convidar para entrar? Ellie disse a si mesma que não precisava. Podia bater a porta em sua cara e ponto final. Duvidava que ele fosse derrubar a porta, embora parecesse perfeitamente capaz de tal atitude. Mas estava curiosa sobre o que o trouxera ali, e o resto do dia era um imenso vazio. Teria de procurar emprego, mas não hoje. – Se insiste – disse, dando-lhe as costas. Ouviu ele fechar a porta e seus passos. Mas só quando ele entrou em seu quarto ela começou a pensar no que a levara a deixá-lo invadir seu espaço. Ele não se encaixava no lugar. Com seu físico atlético, ocupava todo o espaço, como um tesouro vivo. Parecia maior do que a própria vida e duas vezes mais intimidante, como o mais poderoso homem alfa no qual ela tivesse posto os olhos. E isso a deixava constrangida sob todos os aspectos. Sentia uma pressão de novo na barriga e um louco desejo de beijá-lo. A reação do seu corpo deixava seus pensamentos confusos, a boca ressecada. Ela passou a língua nos lábios, mas isso só aumentou o desejo.


A chaleira apitava e a fumaça transformara o quarto em uma sauna. Ellie sentiu o suor escorrendo-lhe pelas costas. A camisa estava colada em sua pele e o jeans apertava suas coxas, tornando-a terrivelmente consciente do próprio corpo mais uma vez. Pigarreou. – O que você quer? Alek não respondeu. Não de imediato. A raiva havia sido momentaneamente eclipsada ao encontrar-se no tipo de ambiente onde há tempos não punha os pés. Relanceou os olhos pelo quarto pequeno, limpo, uma planta crescendo em um vaso no peitoril da janela. Os pôsteres baratos não podiam disfarçar a pobreza do lugar. Havia anos não via uma cama tão estreita, e uma pontada de desejo indesejado foi sua recompensa por ter se permitido concentrar sua atenção no imóvel. Mas ele já tinha vivido num quarto daqueles, certo? Quando começara a vida – bem mais moço do que ela –, dormia em quartos escuros e nada hospitaleiros. Trabalhava horas a fio em troca de pouco dinheiro e um teto sobre a cabeça. Ergueu os olhos para o seu rosto, lembrando-se de como o corpo reagira e tentando convencer-se de que tinha sido uma momentânea aberração. Porque ela era comum. Se tivesse passado por ela na rua, não a olharia duas vezes. O jeans e a camisa não favoreciam seu corpo. Mas os olhos pareciam de prata, mechas de cabelo claro escapavam do rabo de cavalo, as pontas encaracoladas. Sob a luz fraca, ela parecia cercada por um suave halo dourado. Um halo. Torceu a boca. Difícil imaginar uma candidata menos provável para representar uma figura angelical. – Você vendeu a história – acusou. – Não vendi nada. Não ganhei dinheiro. – Então a jornalista tem bola de cristal. Adivinhou tudo? Ela balançou a cabeça. – Não disse isso. Ela viu a gente. Estava atrás da árvore fumando um cigarro e viu a gente se beijar. – Quer dizer que foi uma armação? – Claro que foi! Acha que eu planejei ser demitida? Jeito estranho de conseguir o que queria, não acha? Ele ergueu as sobrancelhas com ar de dúvida. – Então ela estava ali por acaso... – Isso! – interrompeu zangada. – Ela era hóspede do hotel. E no dia seguinte ela me imprensou no restaurante enquanto eu servia a mesa, e eu não pude evitar falar com ela. – Sempre podia ter dito sem comentários quando ela começou a fazer perguntas – acusou. – Não precisava me chamar de gatinho, estragar minha reputação e a credibilidade que consegui construir. Não precisava contar o que ouviu da minha conversa telefônica. – Não tinha como não escutar quando você atendeu o telefone. Ele a fitou. – Com que direito repetiu a conversa? – E que direito tem de vir aqui e despejar todas essas acusações? – Não tente virar o jogo. Eu fiz uma pergunta, Ellie. Vai responder? Pairou um silêncio estranho antes de ela responder. – Ela me disse que você tinha namorada. Ele ergueu as sobrancelhas.


– Então achou que isso lhe dava o direito de fofocar a meu respeito, sabendo que isso podia ser publicado? – Como eu podia saber qual era a profissão dela? – Está me dizendo então que costuma ser indiscreta? – Ou estou tentando dizer que você tem incontinência sexual? Ele engoliu em seco. – Para sua informação, não tenho namorada e, se tivesse, com certeza, não beijaria você. Fique sabendo, Ellie, eu valorizo a lealdade. Na verdade, eu a valorizo acima de tudo. Enquanto você, em contrapartida, não parece conhecer o significado da palavra. Ellie ficou abalada com a frieza de seus olhos. Cometera um erro, é verdade, mas sem querer. Não pretendia manchar sua preciosa reputação. – Está certo. Eu falei o que não devia e, por causa disso, você conseguiu que me pusessem no olho da rua. Estamos quites, não é? Ele a encarou. – Ainda não – disse baixinho. Algo inexplicável a percorreu quando o fitou. Havia algo desconcertante em seus olhos. Algo que contrastava com a súbita tensão do corpo. Ela o fitou sabendo o que ele planejava fazer e reconhecendo ser um erro. Então, por que não pedia que ele fosse embora? Porque não podia. Havia sonhado com esse momento. Desejava Alek Sarantos com todas as suas forças, e essa sensação não tinha mudado. Na verdade, apenas aumentara. Sentiu o tremor quando ele a puxou contra si. A expressão zangada no rosto dele denunciava que ele não agia por vontade própria, e ela sentiu um toque de revolta. Disse a si mesma que se afastasse, mas a necessidade de ser beijada preponderava. E talvez fosse inevitável, como a tempestade que se anunciava. Mais cedo ou mais tarde, a tempestade desabaria. Ele grudou os lábios nos seus e as mãos que deveriam empurrá-lo agarraram-lhe os ombros quando ela retribuiu o beijo com igual sofreguidão. Sentia-se a um só tempo no céu e no inferno. Como ele ousara falar daquele jeito? Queria feri-lo por ele ter feito com que ela perdesse o emprego. Queria que ele engolisse todas aquelas terríveis acusações. E também queria que ele acalmasse aquele anseio terrível dentro dela. Alek estremeceu ao ouvir o gemido de Ellie e pensou em tirar-lhe o jeans e transar com ela. Fazer o que ambos desejavam e se saciar, livrar-se dessa maldita voracidade. Ou talvez devesse sair porta afora e procurar outra. Alguém que não estivesse suada de pedalar no dia mais quente do ano. Mas ela era tão macia. Afastou os lábios e ergueu devagar a cabeça. – Quero você. Ele viu os lábios tremerem ao se abrir, como se ela estivesse prestes a listar todos os motivos pelos quais ele não podia possuí-la, e imaginou que a lista fosse longa. De súbito, algo mudou no momento em que os olhos escureceram e ela ficou ruborizada. Aquele momento “por que não?” em que ela o fitou com olhos convidativos. – Eu também quero você. Dinamite em estado puro! Quando a beijou de novo, experimentou uma sensação nova. O beijo o deixou quase louco de desejo. Beijaram-se até ambos perderem o ar, até ele afastar os lábios e respirar. Ela arregalou os olhos, os lábios trêmulos. Ciente de que perdia o controle, ele desabotoou a camisa dela e admirou seus seios.


– Theo! Seus seios são deslumbrantes. – São? – São exatamente como sonhei. Até mais bonitos. – Andou sonhando com meus seios? – Todas as noites. Acariciou uma generosa curva. Ouviu o gemido quando se curvou para pousar os lábios na curva do seio. Ela correspondeu segurando-lhe o traseiro, como se lhe desse permissão para prosseguir. Ele gemeu ao beijá-la, e, uma vez que começara, não conseguia mais parar. Só quando ela começou a se contorcer, ele retirou o elástico e soltou-lhe os cabelos claros. Que belo espécime de mulher, pensou excitado. Macia e curvilínea; receptiva, apaixonada. As mãos tremiam quando ele a despiu e a deitou na cama estreita. Despiu-se também sem desgrudar os olhos de seu rosto. Desajeitado, como se fosse a primeira vez, colocou o preservativo. Quando a penetrou, um grito selvagem brotou de sua garganta. Parecia ter entrado no paraíso. Teve de pensar em assuntos como aquisições e fusões para não gozar, e pareceu uma eternidade até, por fim, o corpo dela arquear, ela relaxar e, inexplicavelmente, chorar. Só então Alek atingiu o orgasmo, embora as lágrimas salgadas lhe causassem certa inquietação. Lá fora, um trovão pareceu partir o céu. A chuva fustigou a janela. E seu corpo experimentou o mais demorado orgasmo de sua vida.


CAPÍTULO 4

ELLIE COLOCOU a placa onde se lia “Fechado” e limpou o gelo da vitrine da loja de doces. Organizou as caixas, varreu o chão e tirou o avental de babados. Retirou-se para o fundo da lojinha e chorou. As lágrimas escorriam. Cobriu o rosto, preferindo imaginar que fossem catárticas; entretanto, não conseguia pensar em outra coisa a não ser: Como isso aconteceu? Como, de repente, minha vida se transformara em um pesadelo? No entanto, havia tido sorte em encontrar emprego e acomodação na Cupcakes Candy. Na verdade, dupla sorte por Bridget Brody não levar em conta o motivo da demissão do hotel. Mas era difícil focar em gratidão no momento. De fato, era difícil focar em qualquer coisa exceto no fato que não podia ignorar. Por pior que fosse a verdade, era impossível mudar os fatos. As pernas pesavam ao subir as escadas que levavam ao apartamento pequeno e mobiliado acima da loja, mas não tanto quanto seu coração. Impossível evitar o espelho na sala de estar, a não ser entrando com os olhos fechados, o que não era uma boa ideia. O bronzeado saudável adquirido enquanto trabalhava no restaurante do jardim do hotel The Hog há tempos desbotara. O rosto estava pálido, os seios, inchados, a pele, flácida. Havia perdido peso. Não conseguia comer nada antes do meio-dia. Acordava nauseada. Não foi preciso ver as tiras duplas azuis do produto comprado na farmácia para confirmar o que já sabia. Estava grávida de Alek Sarantos e não sabia o que fazer. Afundando em uma das poltronas, olhou o vazio. Não, na verdade, sabia o que fazer. Tinha de contar a ele. Pouco importavam seus sentimentos ou o fato de o bilionário grego ter mantido silêncio desde que saíra de seu quarto, deixando-a nua na cama. Não se tratava dela. Sabia o que era crescer sem saber a identidade do pai. Sentir-se invisível, como se não fosse inteira, mas metade. Seu bebê não passaria por isso. Não permitiria que isso acontecesse. Mas como contar a um homem que iria ter um filho dele, quando ele lhe dera as costas logo depois de atingir o orgasmo? Recordou-se daquele terrível momento. Ao abrir os olhos, Alek Sarantos estava em cima dela na cama estreita, a pele quente colada à sua e a respiração acelerada como se disputasse uma corrida. Em termos puramente físicos, o corpo dela exultava depois da experiência sexual mais


incrível de sua vida, embora não tivesse muitos termos de comparação. Queria capturar aquele momento, torná-lo eterno. Infelizmente, na vida nem tudo é como sonhamos. Não sabia dizer o que provocou a mudança. Estavam deitados juntinhos, quietos, enquanto a chuva fustigava as janelas. Parecia que suas vidas se reduziam ao pequeno quarto. Sentia o calor de sua respiração no pescoço, as batidas de seu coração. Tinha tido um relacionamento antes, mas nunca experimentara essa sensação de completude. Ele também sentia isso? Lembrou-se de lhe acariciar os cabelos e, neste momento, ter percebido a expressão inconfundível no rosto. Ele cometera o maior erro de sua vida; isso diziam os olhos azuis. Como se de súbito, ele se desse conta de onde estava. E com quem. Num piscar de olhos, sem sequer disfarçar, ele se afastou e verificou se o preservativo estava intacto. Ellie recordou o constrangimento. Não sabia como lidar com a situação. Afinal, não estava acostumada com bilionários gregos. Decidiu simular indiferença. Precisava dizer que não fantasiava entrar na igreja de vestido branco só porque tinham feito sexo. Fingir que era normal fazer amor com um homem praticamente desconhecido. Repetiu para si mesma que tinham agido por tesão e que era melhor se convencer disso. Porque se a motivação tivesse sido a paixão, ia querer que ele nunca fosse embora. Talvez agora compreendesse melhor a mãe e devesse se perguntar se era isso o que ela, apaixonada, sentia deitada ao lado do amante casado, mesmo sabendo que agia mal. Fingiu estar sonolenta e cerrou os cílios. Ouviu o barulho enquanto ele pegava as roupas no chão, as vestia e arriscou abrir de leve os olhos. Ele olhava ao redor, mas não para ela. Preferiu lhe conceder o benefício da dúvida. – Alek? – chamou de um jeito que denotava que não se importaria em vê-lo de novo, mas sem parecer insistente. Ele estava vestido, embora desmazelado. Era estranho ver o bilionário poderoso em seu quarto com a camisa amarrotada. Passava os dedos nos cabelos despenteados e a pele brilhava pelo exercício do sexo, mas seus olhos é que lhe chamaram a atenção. Olhos frios como gelo. Ele mexia no bolso procurando pelas chaves do carro. Ou verificava se a carteira ainda estava no bolso? – Foi incrível – disse ele e o coração dela de repente quase saiu pela boca de felicidade, mas as palavras seguintes acabaram para sempre com seu sonho. – Mas um erro – concluiu com um sorriso. – Acho que nós dois nos demos conta disso. Adeus, Ellie. E então se foi e deixou Ellie com a sensação de ter agido feito tola. Ele nem ao menos bateu a porta e, estranhamente, isso apenas aumentou sua humilhação. Como se ele nem se desse ao trabalho de se irritar. Ela ficou um tempão imóvel. Deitada na cama desarrumada, observou os pingos de chuva, semelhantes a lágrimas gigantes. Por que chorou? Por ter sido tão bom? Quanta estupidez! Porém, tinha sido tudo com que seu eu cínico jamais sonhara. Ele a fizera sentir-se linda, preciosa, desejada. Faria isso com todas as mulheres? Mas é claro. Era como jogar tênis ou pôquer. Só exigia prática. Foi para o chuveiro, no banheiro coletivo do corredor, na tentativa de lavar as memórias, mas não obteve êxito. As vívidas imagens de Alek pareciam tatuadas de modo indelével em sua


mente. Pensava nele em horas inconvenientes do dia e da noite. Embora o tempo provavelmente apagasse as lembranças, ela nunca teve a chance de constatar isso, pois sua menstruação atrasou. O que ela estava dizendo? Sua menstruação não atrasou. Não chegou, pois ela era precisa como um relógio. Ondas de náusea começaram a surgir nas horas mais inoportunas e ela soube que não podia mais adiar a decisão. Precisava contar. Não na próxima semana nem no próximo mês, mas imediatamente. Ligando o laptop, digitou o nome da empresa Sarantos, que parecia ter escritórios mundo afora. Rezou para que ele ainda estivesse em Londres. Segundo o site da empresa, ele dera uma palestra na noite anterior. Mesmo que soubesse o endereço da casa dele, fazia mais sentido ir ao escritório. Lembrou-se de que ele comentara ficar sempre até tarde trabalhando. Iria até lá e explicaria ter algo de vital importância para dizer e ele escutaria, mesmo que por simples curiosidade. E se ele não a recebesse? Então ficaria com a consciência limpa, pois ao menos havia tentado. Quarta-feira era seu dia de folga. Pegou o trem para Londres, em mais um dia úmido do verão inglês. Seu melhor vestido de algodão estava um lixo quando saltou em Waterloo, e a viagem de metrô foi um pesadelo até ela sair perto da catedral de St. Paul. Encontrou sem dificuldade o prédio da Sarantos, um gigante de vidro e aço apontando para o céu azul e sem nuvens. Muita gente saía das portas giratórias e Ellie se encolheu enquanto observava as pessoas se dirigirem aos bares e ao metrô. Como as mulheres conseguiam manter essa aparência elegante naquele calor e andar tão rápido com aqueles saltos agulhas que pareciam uniforme? Foi até a recepção, sendo acolhida pelo abençoado ar-condicionado. Uma mulher magra atrás da mesa a encarou, mas ela acomodou-se em um dos sofás de couro em um canto do vestíbulo, experimentando uma sensação de alívio. Um segurança aproximou-se. – Posso ajudá-la? Afastou a franja dos olhos e forçou um sorriso. – Estou esperando um amigo. – Posso saber o nome do seu amigo? Teria coragem? Mas não era verdade que em seu ventre crescia um filho ou filha que um dia poderia vir a ser chefe dessa empresa? Respirou fundo, convencida de que tinha todo direito de estar ali. – Alek Sarantos. – O segurança arregalou os olhos de espanto. Para sua surpresa, o segurança apenas assentiu sem julgar ou removê-la dali. – Avisarei à secretária dele que a senhora está aqui. – Fez menção de ir falar com a recepcionista. Ele vai contar a Alek, pensou assustada. Vai ligar para a sala dele e dizer que uma mulher maluca está à sua espera na recepção. Ainda dava tempo de fugir antes que Alek descesse. Podia voltar para New Forest e continuar trabalhando na Candy Cupcakes. Mas não era o suficiente. Não queria que seu filho crescesse vendo a mãe fazer compras em lojas baratas nem tampouco aprender mil maneiras de ser criativa com apenas um saco de lentilhas. Queria que ele tivesse oportunidades. Que tivesse sapatos novos quando precisasse, sem que a mãe se preocupasse se teria dinheiro para pagar o aluguel. Porque sabia como isso era triste. – Ellie?


O forte sotaque grego interrompeu seus pensamentos. Alek Sarantos estava à sua frente, e o segurança, a poucos passos de distância. A voz demonstrava surpresa e também irritação. Devia levantar-se, e não ficar ali jogada como um saco de batatas. Passou a língua nos lábios e tentou sorrir, sem sucesso. Não era loucura olhar para alguém que a desprezava e mesmo assim desejá-lo? Já fora traída uma vez pelo corpo. E ele nunca parecera tão intimidante quanto naquele terno bem-cortado. Mantenha a calma, comporte-se como adulta. – Olá, Alek – disse, conseguindo abrir um sorriso amigável. Ele não reagiu. Os olhos azuis continuavam frios. Não. Frio não era a temperatura certa. Gélido seria mais apropriado. – O que está fazendo aqui? – indagou, em tom quase agradável, embora não escondesse a irritação. Ela percebeu o segurança retesar-se, como se previsse algum problema. O que aconteceria se ela dissesse “vou ter um filho seu”, ou “você vai ser pai, Alek”? Na certa, o olhar frio desapareceria. Mas algo a impediu. Autopreservação? E orgulho. Não podia se dar ao luxo de reagir simplesmente; precisava racionar. Não por ela, mas pelo bebê. Em sua opinião, ela já o traíra com a jornalista. Não podia contar sobre a paternidade com um segurança do tamanho de um armário por perto. Precisava encontrar um jeito de dar a notícia a sós. Manteve o olhar e a voz serenos, por mais difícil que fosse. – Se não se importa, gostaria de falar com você a sós. Alek percebeu o que estava por vir. Tentou convencer-se de que, na verdade, estava chocado de vê-la ali, mas não funcionou. Ele tinha pensado nela. É claro. Chegara a pensar em encontrála de novo. Por que não? Por que não repetir o que tinha sido a melhor transa da sua vida? Mas isso não era nada simples, assim como raramente algo era simples na vida. Lembrou-se de cochilar com a cabeça em seu ombro. E dos dedos macios acariciarem seus cabelos. De um jeito afável e íntimo. A sensação lhe despertara algo desconhecido, ameaçador o bastante para ele surtar. Sentira as paredes fechando-se ao seu redor, e agora experimentava a mesma sensação. Tentou convencer-se de que estava enganado. Não podia ser. Mas então o que seria? Nenhuma mulher na situação dela apareceria daquele jeito, a não ser que tivesse um ás na manga. Não quando ele a deixara sem um beijo ou a promessa de um telefonema. Ellie devia ser orgulhosa. Não viria à sua procura implorando que ele a recebesse. Ela tinha demonstrado força. Força igual à dele, tanto em seus braços quanto fora, apesar da disparidade das circunstâncias individuais. Ele notou sua palidez, o cansaço. Contraiu os lábios e um lampejo de raiva e autorrecriminação o atingiu. Precisava ouvi-la. Precisava descobrir se o que temia era verdade. A mente acelerou a mil. Pensou em levá-la a uma cafeteria. Não; público demais. Deveria levá-la ao seu escritório? Talvez fosse mais fácil. Mais fácil do que levá-la em casa. Só queria livrar-se dela. Queria que ela sumisse de sua vida. Queria esquecer-se de que a tinha conhecido. – Melhor ir até minha sala. – Está bem. Foi bizarro subir no elevador em silêncio, mas ele não queria iniciar nenhuma discussão naquele espaço confinado, e ela parecia partilhar de sua opinião. Quando as portas abriram, ela o seguiu. – Não me passe nenhuma ligação – avisou a Vasos, cujos olhos demonstravam surpresa.


– Certo, chefe. No escritório, de onde se descortinava a cidade, ele pensou como ela parecia deslocada com aquele vestido de algodão florido e as pernas alvas. Entretanto, apesar do rosto sem maquilagem e do rabo de cavalo, algo nela o deixava tenso, de um jeito primitivo e desconhecido. Embora ela tivesse perdido peso, ainda sentia vontade de derrubá-la no sofá de couro e possuí-la. – Sente-se. – Não, obrigada. – Hesitou, como uma penetra diante do dono da festa. – Deve estar querendo saber o motivo de eu ter aparecido aqui... – Eu já sei. – Nunca encontrara tanta dificuldade para manter a voz calma, mas sabia que psicologicamente era a atitude correta. Falou com calma: – Você está grávida. Ela vacilou. Literalmente. Teve de se apoiar na escrivaninha. E, embora furioso, Alek a segurou pelos ombros e a ajudou a sentar-se. – Sente-se – repetiu. – Não quero. – E eu não quero correr o risco de você desmaiar na minha sala – retrucou, soltando-a, como se isso representasse o risco de bancar o idiota pela segunda vez. Não queria assumir responsabilidades, ponto final. Queria que ela fosse apenas uma lembrança distante de um interlúdio que seria melhor esquecer, mas isso não aconteceria. Chamou o assistente. – Vasos! Vasos apareceu de imediato, incapaz de ocultar a expressão de surpresa ao ver o chefe debruçado sobre a mulher afundada na poltrona. – Um copo d’água por favor. Rápido – disse em grego. O assistente voltou segundos depois com o copo e a mesma expressão de curiosidade. – Mais alguma coisa, chefe? – Mais nada, obrigado. Pode sair e não transfira nenhuma ligação. Quanto Vasos fechou a porta, Alek levou o copo aos seus lábios. Ela o fitou com olhos desconfiados. Parecia a gatinha que ele encontrara e tinha levado para casa quando criança. O animal era um monte de pulgas, pele e osso, mas ele cuidara da bichinha, que acabara ficando linda e saudável. Orgulhara-se disso. Finalmente encontrara alguém para cuidar naquele mausoléu frio. E então seu pai descobrira e... A garganta doeu como se garras a apertassem. Por que lembrar-se disso agora? – Beba – disse em tom áspero. – Não tem veneno. – Na certa, você gostaria que tivesse – disse baixinho. Ele não retrucou. Bloqueou o turbilhão de emoções. Emoções que pareciam pairar como espectros sombrios. Esperou que ela recobrasse um pouco de cor. Descansou o copo na escrivaninha e parou diante da janela com os braços cruzados. – Melhor começar a explicar. Ellie o encarou. Recuperara parte das forças, mas os olhos azuis irritados foram suficientes para lembrar-se de que estava ali numa missão. Não estava tentando fazer amigos ou influenciar pessoas, ou porque esperava um repeteco da paixão que a metera naquela situação. Então mantenha a emoção fora dessa história, disse a si mesma. Atenha-se aos fatos e lide com eles. – Não há muito a explicar. Vou ter um bebê. – Usamos camisinha. Sabe disso.


Estranhamente, ela corou, como se discutir métodos contraceptivos no seu lugar de trabalho fosse inadequado. Mesmo que fosse, também era necessário, lembrou-se com firmeza. E não se deixaria intimidar. Foram precisos dois para criar aquela situação, portanto ambos precisavam aceitar a responsabilidade. – Também sei que preservativos não são cem por cento confiáveis – disse ela. – Então você é uma especialista no assunto. – Ele a fitou com desprezo. – Talvez existam outros homens para quem tenha contado essa história para boi dormir. Quantos outros estão no páreo? Pode me dar minha posição na lista? Ellie cerrou os punhos quando uma onda de fúria a invadiu. Não precisava disso, em nenhuma circunstância, mas especialmente não agora. Fez menção de se levantar, mas as pernas se recusavam a obedecer às ordens de seu cérebro. E, embora tivesse vontade de sair correndo dali para nunca mais voltar, sabia que a fuga era uma indulgência a que não podia se permitir. – Não tem mais ninguém no páreo – esbravejou. – Talvez você seja diferente, mas eu não faço sexo com várias pessoas. Então por que não guarda essas acusações infundadas para si mesmo? Eu não vim aqui para explorar você. – Não? Então veio para quê? – A brutalidade na expressão transformou-se em curiosidade. – Você não veio aqui por causa de dinheiro? – Dinheiro? – Foi o que eu disse. A raiva de Ellie aumentou, mas isso foi até benéfico, pois lhe dava maior poder de concentração. Ela sentia mais forças para lutar. Não por ela, mas pelo pequenino ser crescendo dentro dela. Porque ele era importante. Ele era o motivo de ter ido ali, embora consciente de que seria um sacrifício. Então pense bem antes de responder. Nada de golpes baixos só para marcar pontos. Mostre que está negociando. Porque está. – Vim aqui para lhe apresentar fatos. Porque acho que tem o direito de saber. Tomar consciência de que o que aconteceu naquela tarde teve consequências. – Está sendo meio dramática, concorda? Podia ter telefonado para me avisar antes de vir. – Acha mesmo? Sério? – Inclinou a cabeça de lado e o encarou. – Não tinha seu telefone porque você fez questão de não me dar; mas, mesmo que eu tivesse conseguido o número, teria me atendido? Duvido. Alek considerou suas palavras. Não, provavelmente não atenderia, apesar de seu irracional desejo de vê-la de novo. Teria solicitado a Vasos que pedisse que ela enviasse um e-mail. Ele a teria mantido a distância, como agia com todas as mulheres. Mas começava a se dar conta de que o motivo de terem transado era agora irrelevante. Pouco importava que ela tivesse quebrado a regra de ouro e invadido seu local de trabalho. Só uma coisa importava, o que ela acabara de dizer. E não havia como fugir. Ele fez a pergunta como se seguisse algum antigo livro de regras entre homens e mulheres, mas se a pergunta pareceu idiota era porque, no fundo, conhecia a resposta. – Como posso saber que é meu? – Acha que eu viria aqui se não fosse seu? Que eu me sujeitaria a esse tipo de humilhação se fosse filho de outro? Ele tentou se convencer de que ela blefava e que ele poderia exigir um exame de DNA, que teria que esperar até o nascimento da criança. E mais uma vez algo lhe disse que nenhum teste seria necessário, sem saber ao certo o porquê. Seria a certeza no rosto pálido que lhe dizia que ele


era o pai ou algo mais sutil, que desafiava qualquer lógica? Ele podia ouvir a porta da prisão se fechando e o som da fechadura girando. Estava encurralado. De novo. Não havia sensação pior no mundo. Lembrou-se daquela fortaleza distante e a voz soou soturna, como se viesse de outro mundo. – O que quer de mim? Fez-se uma pausa quando os olhos cinzentos e tristes encontraram os seus. – Quero que case comigo.


CAPÍTULO 5

ESTREITANDO OS olhos, Alek a fitou. – E se eu não concordar? – indagou, com um leve tom venenoso. – Ou caso com você ou vai abrir o jogo para sua amiga jornalista? Daria um furo de reportagem e tanto. Grávida do magnata grego. Apesar da acusação, Ellie tentou manter a calma. Não tivera a intenção de dizer o que pretendia daquele jeito. Na verdade, nem pretendia dizer aquilo. Apenas comunicar que planejava ter o bebê e respeitaria a decisão dele quanto à criança. Planejava dizer que para ela tanto fazia, e certamente não pretendia manipulá-lo. Mas algo lhe ocorrera durante a estranha conversa que transcorria naquele escritório de cobertura. As minúsculas gotas de suor em sua testa congelavam com o ar-condicionado, e o vestido de algodão colando ao corpo como um pano de prato a fizera sentir-se horrorosa. Cercada pelo luxo inacreditável do escritório de cobertura de Alek, ela tinha se sentido invisível. Pensou em todas as mulheres que saíam do escritório de salto alto e sem um fio de cabelo fora de lugar. Aquele era o tipo de mulher com quem ele convivia diariamente. Mulheres com ares decididos e corpos esbeltos. Com seu vestidinho barato e a barriga crescendo, ela não se encaixava naquele mundo e experimentava a sensação de não se encaixar em lugar em nenhum. Definitivamente, não se encaixava em lugar nenhum. Aquele era o mundo dele, e nem ela nem o bebê faziam parte desse mundo. Quanto tempo levaria para que ele convenientemente se esquecesse de que tinha gerado uma criança em um momento de impensada paixão? Quanto tempo levaria para ele casar-se com uma mulher classuda e ter filhos legítimos que seriam seus herdeiros, enquanto o filho dela permaneceria nas sombras, esquecido e desprezado? Não sabia que esse era o destino de crianças indesejadas? Conhecia a dor de ser rejeitada pelo pai. E esse foi o momento de iluminação. O momento em que soube o que pediria. Pouco importava seu ego e orgulho; só seu bebê importava. – Não se trata de chantagem. Cansei de repetir que aquela história da jornalista foi um erro idiota que não pretendo repetir. Só quero que se case comigo, só isso. – Só isso? – repetiu, com um sorriso cruel. – Por quê? – Porque você é um encanto, é claro. E tão atencioso e... – ironizou. – Por quê? – repetiu em tom seco, como se suspeitasse de que por trás da aparência controlada ela se encontrasse a um passo de um ataque histérico.


– Não é óbvio? – Manteve com esforço a aparência calma, mas o coração batia tão forte que apostava que ele era capaz de ouvir. – Porque quero que meu bebê tenha alguma segurança. – Isso não envolve casamento. Se o bebê for meu, assumo a responsabilidade. Posso lhe dar dinheiro. Uma casa. Umas bugigangas, se é esse seu propósito. Bugigangas? Achava mesmo que sua motivação fossem joias? – Não se trata apenas de dinheiro. – Sério? Que milagre! Uma mulher que alega que dinheiro não é sua única motivação. – Deu uma risada cínica. – Uau! Isso é novidade. Então, se não é dinheiro, qual o motivo? Distraída, passou a mão na testa. – Quero que ele ou ela saiba quem é, que tenha o nome do pai na certidão de nascimento. Ela vislumbrou uma sombra passar por seu rosto como uma nuvem cobrindo o sol. – Talvez não queira associar o nome do bebê ao meu. – Como assim? Alek balançou a cabeça à medida que as lembranças familiares bloquearam as perguntas. Porque casamento constava no topo da lista do que jamais faria. E, embora tivesse apagado o passado há tempos, jamais poderia escapar por completo de seus tentáculos. Eles o açoitavam quando menos esperava. Na escuridão da noite, às vezes, lembrava-se de acontecimentos que preferia esquecer. O casamento dos pais tinha sido uma ferida cujo veneno espalhara-se em sua vida. A união entre um homem cruel com uma mulher que desprezava a ponto de não tolerar sequer dizer seu nome. Franziu os lábios. Por que diabos ia querer se casar? O sucesso de Alek era público, mas ele conseguira manter a vida pessoal longe dos holofotes. Trancara-se numa concha emocional de modo a se proteger e raramente deixava alguém chegar perto. Não tinha sido esse um dos motivos de sua raiva por Ellie? Não apenas sua indiscrição tinha manchado sua reputação profissional conquistada a duras penas, mas ela revelara como ele tinha sido tolo em confiar nela. – Talvez eu não seja o marido ideal. Investigue com as mulheres com quem saí e aposto que vão adorar listar todos os meus defeitos. Sou egoísta, intolerante, trabalho demais e tenho pouca paciência para a monotonia, sobretudo no que diz respeito a mulheres. – Ergueu as sobrancelhas. – Devo continuar? Ela balançou a cabeça e o rabo de cavalo. – Não estou falando de um casamento de verdade. Estou falando de um contrato com prazo de validade. Ele franziu os olhos. – Por que motivo? – Porque não quero que meu filho seja ilegítimo como eu. Mas também não quero passar o resto da minha vida com alguém que aparentemente nem gosta de mim. Não sou uma completa masoquista. – Apenas parcial? – indagou debochado. – Devo ser masoquista para ter feito sexo com você. – Um sexo incrível – disse, como adendo. Deliberadamente, Ellie afastou a lembrança, embora a simples menção bastasse para deixar seu corpo em chamas. Sim, tinha sido incrível. Começara com raiva, mas se transformara em algo distinto. Algo apaixonado e sôfrego, que a deixara nas nuvens. Teria ele também sentido aquela


conexão impressionante? Ou seria esse mais um traço comum às mulheres? Querer tanto alguma coisa a ponto de acreditar que seja verdade? – Não interessa como foi o sexo, só importa o bebê. Ele vacilou ao ouvir a palavra. Trincou o maxilar, que parecia cinzelado em granito. – Vamos direto ao assunto. A combinação de calor, emoção e fome a deixavam tonta, mas não podia vacilar. Ter Alek em sua vida não a deixava saltitante de alegria, mas pior seria ficar sozinha. – Providenciaremos um casamento discreto. Na certa, seus advogados redigirão um contrato, e eu assino. – Melhor – disse irônico. – Nem precisamos morar juntos. Basta reconhecer a paternidade e pagar a pensão. O bebê vai ter seu sobrenome e receber parte de sua herança. – Estremeceu. As palavras soaram bizarras. Havia poucas semanas ela só pensava na promoção, e agora discutia sobre paternidade. – Depois do nascimento, podemos providenciar um divórcio amigável. Acho que é justo. – Justo? – Alek riu. – Pretende que eu banque o provedor? Que eu me mantenha afastado só despachando dinheiro? – Não é minha intenção ser gananciosa. Ele estreitou os olhos. – Não passou pela sua cabeça que vão desconfiar? Que vão querer saber por que não vivemos juntos? – Levando em conta o modo como reagiu à notícia, deduzi que adoraria inserir uma cláusula dessas. – Nunca tire conclusões a meu respeito. Esse foi o primeiro erro que cometeu. Não sou um “gatinho” nem em sonhos. – Não se preocupe. Já mudei de ideia. – Ainda bem. – Percorreu-a com o olhar, relutando em examinar sua barriga. – Filhos e casamento não constavam dos meus planos. Mas, se o destino colocou essas cartas no meu caminho, vou ter que jogar com elas. E só jogo para ganhar. Ela afastou a franja dos olhos. – Isso é uma ameaça? – Não, mas não ouviu as minhas condições. – Alek não tinha opção. Teria que se sacrificar por essa criança, como ninguém nunca se sacrificara por ele. Tinha de se casar com ela. Porque era bem melhor ter Ellie ao seu lado como esposa do que deixá-la livre e vê-la agir de modo leviano sem que ele pudesse interferir e proteger a criança. O coração apertou. – Se quiser colocar uma aliança no dedo, vai ter que se comportar como esposa. Vai morar comigo... – Já disse que não... – Estou me lixando para o que disse – interrompeu impaciente. – Se vamos levar isso adiante, quero que esse casamento pareça um casamento tradicional. – Pa-pareça? – repetiu confusa. – Como assim? – Não dá para adivinhar? – Abriu um sorriso amargo. – Vamos fingir. Vai usar um vestido branco de noiva e bancar a apaixonada. Acha que consegue, Ellie?


O estômago de Ellie roncou e, encabulada, achou que ele poderia ouvir o ruído no estranho silêncio que se seguiu. Comera uma maçã no trem há horas. Na verdade, parecia que uma eternidade transcorrera desde que havia feito alguma coisa remotamente normal. Poucos dias atrás, servia as mesas; hoje discutia detalhes do casamento com um bilionário de olhos frios, que lhe dizia para fingir gostar dele. De repente, sentiu-se uma pluma girando ao redor de uma hélice. – Quer uma espécie de farsa – disse num sussurro. – Farsa não. Um comportamento capaz de convencer o mundo de que nos apaixonamos. – Por quê? Por que não assinar um contrato, já que nós dois sabemos o motivo do casamento? Ele flexionou os dedos e ela viu as juntas ficarem brancas, apesar da pele cor de oliva. – Porque quero que minha criança tenha memórias. Possa olhar fotos do pai e da mãe no dia do casamento, e mesmo que já tenham se separado, o que é óbvio, ao menos terá o consolo de saber que um dia nos amamos. – Mas isso é uma mentira! – Não seria apenas uma ilusão? Afinal, a vida não passa de uma. As pessoas veem o que queremos que vejam. Não quero que minha criança sofra. Deixe que ela acredite que os pais um dia se amaram. Ellie observou o rosto dilacerado por uma dor que ele não conseguia ocultar. Uma dor que toldava o brilho dos olhos azuis e transformava seus traços em uma máscara austera. Apesar da situação, ela sentiu vontade de perguntar o que lhe causara uma dor tão palpável que o simples fato de presenciá-la parecia uma intrusão. Quis tomá-lo nos braços e acalentá-lo. Mas ele parecia tão distante em seu terno bem-cortado, cujo tecido escuro ressaltava o corpo bem-feito, e cuja gola branca da camisa contrastava com a pele morena, tão orgulhoso e nobre que parecia quase intocável, o que não deixava de ser uma ironia. Pigarreou. – E quando esse casamento deve acontecer? – O mais rápido possível, não acha? Não fica bem uma noiva barriguda. Vou instruir meus advogados a redigirem um contrato e você se muda para o meu apartamento em Londres. Podemos discutir a compra de uma propriedade para você depois do nascimento do bebê. Ellie teve a sensação de que sua vida antiga já desvanecia. Como se tivesse sido arrastada da obscuridade e colocada sob os holofotes da existência glamorosa de Alek e só agora se desse conta da claridade dos holofotes. Mas o que tinha imaginado? Que continuaria vendendo cupcakes depois de casada? – Acho que sim – concordou. Os olhos azuis a examinaram. – Você perdeu peso. – Eu enjoo todo dia de manhã, e só passa à tarde. – Mesmo assim pretende continuar trabalhando? – Dou um jeito – disse teimosa. – Quase todas as mulheres dão seu jeito. – E depois do nascimento? Sua carreira virá em primeiro plano? – Não posso dizer o que vai acontecer – disse baixinho. – Só sei que uma criança nunca deve ficar em segundo plano. Fitaram-se e, por um instante, Ellie achou que ele diria algo como muito bem, mas enganouse.


– Vai ter de renovar seu guarda-roupa se quiser ser uma noiva convincente, mas isso não será um problema. Como futura sra. Sarantos, terá acesso ilimitado ao meu cartão de crédito. Isso a excita? Ellie encontrou o sorriso irônico. – Pode parar de falar de mim como se eu fosse uma interesseira? – Ah, faça-me o favor, Ellie – disse, parte da aspereza deixando sua voz. – Ainda não aprendeu a fazer de um limão uma limonada? Ela sentiu uma pontada de dor ao lhe dar as costas. Ele não entendia que falava com a rainha do pensamento positivo? Não entendia que ela tinha passado a vida tentando não se deixar influenciar pela mãe, que afundara na amargura e no arrependimento? Não havia jurado que sua vida seria diferente? Que seria forte e independente? E ali estava ela, disposta a se unir a um homem frio, sem sentimentos, em busca de segurança. Mas isso não importava. Nada disso importava. Faria qualquer coisa para dar ao bebê uma vida bem melhor do que a sua. O coração dela apertou. Mesmo que isso representasse casar-se com alguém que parecia desprezá-la.


CAPÍTULO 6

A NOVA vida de Ellie começou no instante em que Alek concordou em se casar com ela. Foi um despertar para um universo paralelo. Fim das viagens de Londres para New Forest de trem. Se ele não usava transporte público, tampouco a mulher com um filho seu no ventre usaria. Alek insistiu que ela comesse alguma coisa antes de ir para casa de limusine. Ele fez ouvido de mercador às suas tentativas de dizer que não sentia fome. Pediu a Vasos pão, uvas e uma suculenta sopa de grão de bico, que Ellie tomou com um suspiro de satisfação. Comeu tudo e, ao terminar, viu que ele a observava. – É evidente que não tem cuidado de sua saúde. Faz todo sentido deixar seu emprego e mudar-se imediatamente para Londres. – Não posso deixar Bridget na mão. Preciso cumprir o aviso prévio. Ele não ficou satisfeito com a decisão, nem com o fato de ela ter recusado um maço de notas que ele insistiu em lhe dar para eventuais despesas. – Por favor, não me dê dinheiro na rua como se eu fosse uma prostituta – sibilou. – E, já que tocamos no assunto, quero um quarto separado quando me mudar para seu apartamento. – A expressão de surpresa no rosto dele era quase cômico. – Isso é uma exigência, não um pedido. Já era tarde quando o carro a deixou em New Forest. Tarde demais para procurar Bridget, mas seu plano de contar à chefe a novidade na manhã seguinte foi pelos ares quando Bridget entrou na loja com expressão estranha. A viúva, na faixa dos cinquenta anos, que a tratara como a filha que não tivera, fitou-a, repleta de alegria. – Minha Nossa Senhora, por que não me contou? – perguntou com seu leve sotaque irlandês, embora morasse há três décadas na Inglaterra. – Contar o quê? – perguntou arrepiada de pavor. – Que vai se casar. E com um grego lindo. Nossa, mas você é muito discreta, srta. Brooks. Ellie agarrou-se à bancada de vidro, esquecendo que deixaria marcas dos dedos. – Mas como...? – Engoliu a pergunta como se já soubesse a resposta. – Como descobriu? – Adivinha... – Explodiu numa gargalhada. – Recebi uma ligação do seu noivo ontem à noite. Eu já dormia profundamente, mas ele é tão galanteador, como todos os gregos, que não me importei nem um pouco. Ele disse que precisa de você ao seu lado. Para compensar sua partida antes do aviso, me ofereceu dinheiro que dá para pagar umas dez ajudantes e ainda vai sobrar o


suficiente para montar uma casa de chá. Ele é muito generoso, Ellie. Você é uma mulher de sorte. Ellie quase passou mal. Ela, sortuda? Sentia-se com tanta sorte quanto alguém que tivesse jogado o bilhete premiado da loteria no fogo. Mas não era tola. Bridget não se importou porque a oferta de Alek punha abaixo qualquer contestação. Quanto valia a amizade ou a lealdade diante de toda aquela grana? Por isso ele era tão cético?, pensou, ciente de que tudo tinha um preço e que, se ele pagasse bem, obteria tudo que desejava. – Contratei uma moça do vilarejo que começa amanhã – continuou Bridget. – Já está tudo resolvido. Como a chefe reagiria se ela lhe contasse a verdade? Só fizemos sexo uma vez e, se isso não tivesse acontecido, nunca mais nos veríamos. Só vai se casar comigo porque tem um bebê a caminho. Mas de que adiantaria? Por que desiludir alguém? Na certa, seria melhor retribuir a gentileza de Bridget deixando que pensasse que essa era a solução que queria. Não deveria ao menos se comportar como quem vivesse um conto de fadas, mesmo que não acreditasse nele? – Bridget, muito obrigada por ser tão compreensiva. – Que bobagem! É um prazer enorme ver você tão feliz. Vá ao meu chalé hoje à noite. Vou preparar um jantar para comemorarmos. Depois do expediente, Ellie subiu para o seu apartamentinho. Como imaginava, havia uma mensagem de texto no telefone. Já resolvi tudo com sua chefe. O carro chega amanhã às 11h. Esteja pronta. Alek. Se acreditasse que faria diferença, ficaria tentada a mandar uma resposta desaforada, mas estava cansada demais para tentar. Por que perder energia lutando contra o inevitável? Guardou as poucas roupas e depois foi ao chalé de Bridget, tão pequenino que parecia construído para um anão. Ao voltar para casa na noite quente de verão, contemplou o céu estrelado. Sentiria falta da beleza da floresta, onde os bonitos pôneis passeavam e se detinham no meio da estrada interrompendo o trânsito enquanto sacudiam os rabos. Sempre sonhara em morar um dia na cidade grande, mas nunca nessas circunstâncias. O futuro à sua espera parecia repousar em um imenso mapa desconhecido, e ela sentiu medo. Entretanto, dormiu profundamente e só acordou com o som da buzina. Pulou da cama e apanhou um vestido às pressas. Dormira demais, e o motorista já havia chegado. Só que não era o motorista. Ellie esperou o enjoo passar antes de espiar pela janela. A respiração quase entalou na garganta ao ver Alek encostado em um carro esporte verde-escuro, e foi como se o estivesse vendo daquela primeira vez, quando tinha se hospedado no hotel e ela se esforçara para não ficar olhando. Óculos escuros cobriam-lhe os olhos e o jeans desbotado ressaltava os contornos musculosos das pernas compridas. As mangas arregaçadas da camisa exibiam os braços fortes, e o cabelo preto à luz do sol brilhava num tom azulado. Começou a sentir o desejo crescer, inconveniente, quente e muito potente. – Ah – disse indiferente, pois não queria sentir isso toda vez que o olhasse. Queria não sentir nada. – É você.


Tirando os óculos, franziu os olhos por causa da luz forte. – Já fui mais bem recebido – disse seco. – Por que não abre a porta para eu subir e pegar suas coisas? – Tem uma chave na escada – disse, entrando e pegando umas coisas enquanto se dirigia ao banheiro. Depois de ter lavado o rosto e se vestido, encontrou-o na sala de estar, não parecendo nada arrependido. Irritada diante da expressão arrogante, jogou a nécessaire sobre a mesa. – Como ousa ligar para a minha chefe e lhe oferecer dinheiro quando eu disse que queria cumprir o aviso prévio? Ser tão controlador o excita? – Se puder me apresentar uma objeção válida, além do seu ego, estou disposto a ouvir. Mas não pode, certo, Ellie? Você tem passado mal todos os dias de manhã, está com uma aparência péssima, mas quer continuar trabalhando. Está tentando pôr os clientes da loja para correr? – Olhou as duas malas velhas no meio do aposento. – É só isso? – Não, ainda faltam várias malas Louis Vuitton – disse irônica. Ele as levantou como se contivessem plumas, e não tudo o que ela tinha na vida. – Vamos. O carro está esperando. Ela levou as chaves para a loja, onde Bridget ensinava à nova assistente os nomes dos diferentes cupcakes. Delícia de Morango e Limão Gracioso. Chocolate Nêmeses e o best-seller, Turbilhão de Cereja. Era a despedida de uma vida simples e um salto para um mundo sofisticado desconhecido. Ellie sentiu um aperto no coração quando a irlandesa a abraçou e se despediu. A capota do carro estava arriada e o barulho do trânsito dificultava a conversa, o que foi um alívio. Ellie não estava com vontade de falar e, ademais, o que diria? Como iniciar uma conversa com um homem praticamente desconhecido em tais circunstâncias? Admirou as árvores e campos que deram lugar a prédios altos, que cintilavam sob os raios do sol como cidadelas distantes. Passaram por South Kensington, que visitara em uma excursão do colégio. Trinta e cinco crianças barulhentas tinham passado a manhã no Museu de História Natural e depois foram à lojinha do museu. Ellie gastara todo seu dinheiro em um sabonete em formato de dinossauro para a mãe. Mas o presente não lhe agradara. Aparentemente, ele o lembrava de todas as coisas que faltavam em sua vida. Ellie recordou o olhar da mãe, como se o sabonetinho estivesse contaminado, a voz amarga, o rosto contorcido de raiva, como de hábito. Se seu pai tivesse se casado comigo, você podia ter comprado um presente para mim maior que uma noz! Essa recordação não era motivo suficiente para sentir-se grata por Alek não ter tentado se safar de suas responsabilidades? Apesar da atitude autoritária, ele assumia sua parte em relação à vida que inadvertidamente haviam criado. Não pretendia não pagar pensão nem guardar distância da criança. Ela o fitou de esguelha. Ele não era nada mal. Tal constatação foi seguida de outra, desconfortável, sobretudo quando ele apertou o acelerador. Ele era incrivelmente atraente e ela não tinha parado para refletir como seria conviver com ele. O desejo podia ser apagado como a luz? Ou a proximidade apenas aumentaria sua atração pelo pai da criança que estava para nascer? Alek morava em Knightsbridge. O apartamento era ainda mais bonito do que Ellie imaginara. Nada poderia prepará-la para tal tamanho e luxo. Mesmo o relativo luxo do hotel The Hog era insignificante se comparado com o pé-direito alto, os sofás de veludo, os tapetes de seda e os


lindos objetos de decoração. Numa mesinha, havia uma caixa de madrepérola e um ovo pequeno incrustado de esmeraldas. Ela piscou diante do brilho da peça à luz do sol. Com certeza, essas pedras não podiam ser verdadeiras. Teve vontade de perguntar, mas pareceu indelicado, como se ela avaliasse o lugar e tentasse calcular o quanto valia. Mas não era o valor, mas sim a beleza que lhe tirou o fôlego. Para todos os lugares que olhava avistava quadros de lugares que ela sempre sonhara em conhecer. Versões dos pôsteres que tinha pendurados em seu quarto no hostel. Ruas de Paris cobertas de folhas, igrejas icônicas em Roma, bem como a inacreditável arquitetura de Veneza refletida nas águas dos canais. Sonhadora, admirou os quadros. – Seus quadros são lindos. – Obrigado. – Inclinou a cabeça, o tom de voz ligeiramente alterado, como se seu comentário o tivesse surpreendido. – É meu hobby. Você gosta de arte? Ela reprimiu o comentário defensivo que lhe veio aos lábios. Por acaso ele achava que só porque alguém trabalhava prestando serviços era incapaz de apreciar arte ou que ser rico era uma exigência para gostar de arte? – Gosto de visitar galerias sempre que posso – disse tensa. – Embora nunca tenha visto nada parecido com isso na casa de alguém. Afinal, nunca tinha entrado em uma casa daquelas. Caminhou até uma das janelas de onde se descortinava uma deslumbrante vista do parque e, quando se voltou, ele a observava, embora os olhos azuis nada transparecessem. – Pelo que entendi, você aprovou minha casa. – Como não aprovar? – Deu de ombros, tentando não se deixar intimidar pela intensidade daquele olhar de safira. – É impressionante. Você mesmo decorou tudo? – Infelizmente não posso me vangloriar. – O sorriso era suave. – Contratei uma decoradora chamada Alannah Collins. Ellie assentiu. Claro. Homens como Alek não escolhiam papel de parede ou passavam séculos deliberando sobre a melhor posição para os sofás. Pagavam alguém para se encarregar disso. Assim como pagavam donas de lojas para liberar funcionárias de um contrato. Ele podia fazer o que bem entendesse. Bastava pegar o talão de cheques. – Ela é uma decoradora muito talentosa – disse ela. – Tem razão. – Ele franziu os olhos. – Então suponho que você vai tolerar morar aqui por um tempo. – Quem sabe? – respondeu indiferente. – Talvez a gente queira se matar antes de a semana terminar. – É possível. Ou podemos encontrar maneiras infinitamente mais satisfatórias para sublimar nossas... frustrações. O que acha, Ellie? Apesar do tom sarcástico, as palavras também revelavam um desafio sexual brotando daquele olhar frio, e é evidente que ela ficou tentada por aquele olhar. Porém, mais forte que a tentação era a transbordante sensação e desorientação quando ele flertou com ela. Vê-lo naquela casa deslumbrante tornava difícil acreditar que as circunstâncias a tivessem conduzido àquele lugar. Ele realmente havia entrado em seu humilde quarto no hostel dos funcionários e eles haviam feito sexo numa cama de solteiro? Parecia um sonho estranho a lembrança de ele arrancar às pressas suas roupas, como um homem fora de controle. Lembrou-


se da raiva em seu rosto e da súbita transformação quando a raiva dera lugar à paixão, o que a fez gemer em seus braços. Mas os homens podiam sentir paixão no auge do momento e depois descartá-la, uma vez o apetite saciado. Ela não entendia muito de sexo, mas já tinham lhe dito isso, e precisava reconhecer que era vulnerável no que dizia respeito a Alek. Eles podiam ter agido como iguais naquele dia, mas, na verdade, não eram iguais. Em breve, ela poderia usar uma aliança de casamento, mas isso era apenas um símbolo. Não tinha nenhum significado real. Definitivamente não significava nada que uma aliança de casamento deveria significar. Precisava guardar distância emocional. Tinha de guardar, se quisesse se proteger e não ser magoada. – Quero deixar bem claro que falei sério quando disse que queria ter um quarto. Então, se está pensando em tentar me persuadir do contrário, sinto muito, mas está perdendo seu tempo – disse, fitando os olhos azuis. Ele abriu um sorriso amargo. – Pensando melhor, concordo com você. Estou começando a achar que dividir o mesmo quarto com você só complicaria uma situação já complicada por si só. Ellie sentiu uma onda de algo muito feminino e decepcionante a envolvendo enquanto deixavam a imensa sala de estar. Ele não podia ao menos ter fingido desapontamento, em vez de demonstrar algo semelhante a alívio? Com dificuldade, desviou o olhar das costas largas e obrigou-se a olhar tudo o que ele lhe mostrava. A sala de cinema com sua imensa tela. As bancadas de mármore preto na cozinha indiscutivelmente masculina. A sala de jantar moderna, que dava a impressão de não ser muito usada, com compridos candelabros de prata na mesa impecável. Na parede de seu escritório, diferentes relógios marcavam a hora em todas as mais importantes cidades do mundo e, sobre a mesa, uma quantidade razoável de documentos. Ele explicou que havia uma piscina no térreo do prédio, bem como uma academia de ginástica totalmente equipada. O quarto onde ficaria hospedada não era feminino nem delicado – e por que seria? – , porém, ao menos, era confortável. A cama era grande e a vista, espetacular. O banheiro da suíte tinha toalhas brancas como neve e vidros caros de óleos para banho. Impressionante como tudo parecia perfeito. E ali estava ela. Usando jeans e camiseta, sentia-se como uma teia de aranha que tivesse se instalado em algum lugar imaculado. – Você gosta? – perguntou. – Não posso imaginar que exista alguém que não goste. É lindo. – Passou o dedo pelo delicado vidro colorido retorcido cujo único propósito era capturar a luz e refleti-la em raios de arco-íris. – Só não consigo imaginar como um bebê vai viver aqui. O olhar seguiu a linha traçada por seus dedos. – Nem eu. Mas eu não planejava ter uma criança quando comprei este apartamento. – Você nunca pensou que um dia podia querer ter uma família? Quero dizer, não nessas circunstâncias, é óbvio. – É óbvio – interrompeu irritado. – E a resposta é não. Nem todos os homens sentem necessidade de serem aprisionados à vida em família, especialmente quando tão poucas famílias são felizes. – Alek, que ponto de vista mais cético. – Você acha? Por quê? Sua infância foi feliz? – Cravou o olhar no seu. – Vamos ver se acerto. Um vilarejo inglês acolhedor onde todo mundo se conhece. Um chalé com rosas crescendo em


volta da porta. – Não chegou nem perto. – Deu uma risadinha. – Só conheci meu pai quando tinha dezoito anos e, para ser sincera, teria sido melhor não ter nunca esbarrado com ele. Ele franziu os olhos. – Por que não? Ela não sentia muito orgulho da sua história. Correção: na verdade, sentia vergonha da sua história. Sabia que tudo isso era irracional, mas quando não se foi amado, isso não o torna automaticamente não merecedor de amor? A culpa não era sempre dela? Afastou esse pensamento triste, como vinha fazendo durante toda sua vida adulta. E não havia motivos para guardar segredos com Alek. Não estava tentando impressioná-lo, pois ele já deixara claro que não a desejava. E, se superasse essa constatação insultuosa, isso significava que podia ser quem era, em vez de tentar passar a imagem da pessoa que achava que deveria ser. – Odiaria chocá-lo – disse impertinente. Sua voz soou brusca. – Acredite em mim, acho pouco provável conseguir me chocar. Ela observou as cortinas esvoaçantes moverem-se como nuvens nas laterais das gigantescas janelas. – Meu pai era empresário. Na verdade, um empresário muito bem-sucedido, e minha mãe trabalhava como sua secretária, mas também era sua... – Deu de ombros ao deparar com a expressão curiosa. – Hoje em dia isso parece tão antiquado, tão fora de moda, mas eram amantes. – Ah – disse, com a entonação de um homem especialista no assunto. – Amantes. – Isso mesmo. Ele a instalou em um apartamento. Comprou roupas para ela – principalmente lingerie. Os dois costumavam sair para o que eufemisticamente é conhecido como “almoço”, o que suponho não contribuía para a popularidade de minha mãe no escritório. Às vezes, ele dava um jeito de escapar e passar com ela algumas horas no final de semana, embora, é claro, ela sempre ficasse sozinha no Natal e nas férias. Ela me contou tudo numa noite em que tinha bebido demais. – Então, o que aconteceu? – perguntou, ignorando diplomaticamente o repentino tremor em sua voz. – Como você entrou nessa história? Aprisionada em uma história na qual não pensava há tempos, Ellie desabou na cama. Repousou as palmas das mãos no macio tecido de algodão egípcio e enfrentou o olhar curioso de Alek. – Ela quis que ele pedisse o divórcio, mas ele não concordou. Ele vivia repetindo que primeiro os filhos teriam de sair de casa. Sabe como é, aquela velha história. Então, ela decidiu dar-lhe uma mãozinha. – E engravidou. – Engravidou – repetiu. Percebeu a expressão de seu rosto. – E, antes que diga alguma coisa, não tive a intenção de repetir a história. Acredite, a última coisa que eu queria era recriar minha infância. O que houve entre nós foi... – Um acidente – disse ele, em tom relativamente áspero. – Sim, eu sei. Continue. Ela perdera o fio da meada, e levou alguns segundos para se localizar. – Acho que ela se iludiu e acreditou que ele se acostumaria à ideia de ter um bebê. Deve ter pensado que talvez ficasse satisfeito... Uma prova de sua virilidade, esse tipo de coisa... Mas não


foi o que aconteceu. Ele já tinha três filhos na escola e uma esposa que adorava joias. Ele disse à minha mãe... A voz de Ellie desvaneceu. Lembrou-se daquela terrível noite, em um aniversário seu, em que a mãe tomara quase toda a garrafa de gim e começara a dizer coisas que nenhuma criança deveria ouvir. Ela havia mergulhado nas profundezas de sua memória, mas agora vinha à superfície, como uma sujeira que tivesse ficado submersa muito tempo. – Ele mandou minha mãe se livrar daquilo. Ou melhor, quis que se livrasse... de mim – disse, o sorriso radiante murchando à medida que as palavras da mãe reverberavam em sua cabeça. Eu devia ter dado ouvidos a ele! Se soubesse o que me esperava, com certeza eu teria dado ouvidos a ele! – Acho que ela imaginou que ele mudaria de ideia, mas ele não mudou. Parou de pagar o aluguel do apartamento da minha mãe e contou à esposa que tivera um caso, de modo a evitar qualquer possibilidade de chantagem. Então, eles se mudaram para outra cidade do país. E ponto final. – Ele não manteve contato? – Não. Naquela época, antes dos computadores, das redes sociais, era diferente. Era fácil perder o contato com alguém. Minha mãe era orgulhosa demais para levá-lo aos tribunais. Ela disse que já tinha perdido tanto que não lhe daria a satisfação de vê-la implorando. Disse que daríamos um jeito, mas, é claro, nunca é assim tão simples. – Mas você disse que se encontrou com ele. Quando tinha dezoito anos? Ellie ficou em silêncio por um tempo, pois esse território era proibido, intransponível. Deveria contar-lhe ou não? Nunca tinha tocado nesse assunto antes, pois não queria fazer papel de coitadinha, mas talvez Alek tivesse o direito de saber. – Encontrei com ele – disse devagar. – Depois que minha mãe morreu, eu o localizei e enviei uma carta. Fiquei surpresa quando ele concordou em marcar um encontro. – E um pouco assustada também, porque criara fantasias de que ele fosse uma espécie de herói. Talvez ansiasse por uma intimidade que nunca tivera com a mãe. Talvez fosse culpada por sonhar com um conto de fadas que nunca existiu. Ansiava pelo encontro definitivo que mudaria sua vida para melhor. – O que aconteceu? Ela franziu os olhos. – Quer mesmo saber? – Quero. Você conta histórias bem – disse. Ela quis dizer que não era uma história, mas, pensando melhor, talvez fosse. A vida era uma história sem fim, não era isso que diziam? Limpou a garganta. – Não havia nenhuma semelhança física entre nós. Nenhum sinal de que eu tivesse herdado seus genes. Ele sentou à minha frente numa mesa de um bar barulhento na estação de Waterloo e disse que minha mãe era uma vagabunda, uma interesseira que por pouco arruinara a vida dele. – Só isso? – perguntou, depois de um longo silêncio. – Basicamente. Tentei saber sobre minha meia-irmã e meus meios-irmãos e ele reagiu como se eu tivesse pedido a senha de sua poupança. – Ele havia se levantado com uma expressão desdenhosa no rosto, mas também de satisfação – como se estivesse feliz por ter encontrado uma desculpa para ficar zangado com ela. Lembrou-se do soco que ele dera na mesa e que tinha derrubado o cappuccino no qual ela sequer tocara. – Ele me disse para nunca mais procurá-lo. Depois foi embora.


Alek ouviu a nota indiferente em seu tom de voz e sentiu como se tivesse levado um soco no peito. Seria identificação? A constatação de que cada um carregava sua própria dor, embora a escondesse? De súbito, sua desmesurada ambição tornou-se compreensível – uma ambição que tinha sido forçada a colocar em segundo plano por causa do bebê. Sentiu uma pontada de culpa ao lembrar-se de sua reação grosseira quando ela perdera o emprego. De chofre, compreendeu sua insistência no casamento – uma exigência que devia ser consequência da incerteza de seus anos de infância. Ela não pretendia ser reconhecida como esposa por vaidade, mas por querer proporcionar ao bebê a segurança que nunca tivera. Mas reconhecer o fato não mudava nada. Ele precisava esclarecer muito bem a situação, assim como ela – e o fato mais importante do qual ela precisava dar-se conta era de que ele nunca podia agir como as mulheres pareciam desejar. Podia ser capaz de honrar seus compromissos em relação a ela e ao bebê, mas, em termos emocionais, não fora talhado no mesmo molde que o pai dela? Também ele não se afastara de mulheres no passado, cego às suas lágrimas e necessidades? Ellie Brooks não fazia seu gênero, mas, mesmo que fizesse, ele era o último homem no mundo de que ela precisava. Ela precisava do seu nome na certidão de nascimento do seu filho e do seu dinheiro, e isso ele poderia lhe dar. Um sorriso amargo brotou de seus lábios. Isso ele podia dar – e como! Mas, se ela queria alguém que proporcionasse ao bebê o amor e apoio que o pai lhe negara, procurara a pessoa errada. Ela afastou a franja dos olhos. Estava pálida, notou. E agora, sem aquelas curvas generosas, certa fragilidade dava à sua pele uma estranha luminosidade. De súbito, todas suas certezas pareciam desaparecer. Ele esqueceu que era infinitamente mais sensato manter a distância, pois vivia obcecado pelo desejo de tomá-la nos braços e confortá-la. Engoliu em seco, confuso com os próprios sentimentos. E zangado. Não queria estar preso a ninguém, muito menos a ela. Porque reconhecia que Ellie tinha algo que nenhuma outra possuía. Alguma semelhança com ele. E isso não lhe conferia um tipo especial de poder? Um poder que ela poderia usar e abusar, caso ele não tomasse cuidado. Caminhou apressado para a porta. Precisava sair dali. – Melhor desfazer as malas – avisou abruptamente. – Depois precisamos sentar e discutir os detalhes práticos de sua estada aqui.


CAPÍTULO 7

COM UMA velocidade que a deixou ligeiramente atordoada, Alek tomou conta da vida de Ellie. Providenciou um médico e um cartão de crédito para ela. Preencheu todas as exigências e formulários exigidos para o casamento e marcou a cerimônia no civil. Contudo, o que rapidamente ficou evidente para Ellie foi que o ponto mais prático de morar com o magnata grego era a capacidade de se sentir feliz sozinha. – Eu trabalho até tarde – avisou ele. – E viajo muito. Vai precisar entreter-se sozinha e não ficar correndo atrás de mim porque se sente entediada. Entendeu? Escondendo a indignação por ele se dirigir a ela como se ela fosse uma boneca desmiolada, Ellie disse a si mesma que discutir só tornaria pior uma situação já difícil. Já era terrível que ele desfilasse pelo apartamento como um deus do sexo; não precisava também de suas broncas. Tentava a duras penas dar-lhe o benefício da dúvida, tentando convencer-se de que talvez não fosse sua intenção ser tão agressivo. Dizia a si mesma que ele era um homem poderoso, acostumado a dar ordens que esperava serem obedecidas. E, a princípio, ela decidiu obedecê-las para evitar brigas. Durante os primeiros dias na cobertura em Knightsbridge, ela ainda estava muito desorientada pela repentina mudança de vida para criar objeções quanto ao estilo “rolo compressor”. Foi apresentada como noiva aos inúmeros funcionários dele – diga-se de passagem, surpresos –, tanto do escritório quanto do apartamento, e tentou lembrar-se do nome de todos. Faxineiras moviam-se sem o menor barulho pelo vasto apartamento – como fantasmas carregando baldes –, e havia uma mulher cuja única tarefa consistia em manter o refrigerador e a adega de vinhos devidamente estocados. Havia também um médico que insistia em visitá-la em casa – inacreditável! – e lhe recomendava não fazer esforços e seguir suas instruções à risca. Aproveitou todo o seu tempo livre. Pela primeira vez, tinha tempo só para si – e adorou essa rotina sem obrigações, sem culpa –, para se concentrar em se acomodar em sua nova morada, como um pássaro reconhecendo o terreno em seu luxuoso ninho. Mas ainda não sentia o bebê, apesar de agora estar de posse de uma brilhante foto em preto e branco mostrando o que se assemelhava a uma noz presa à margem de um lago escuro. E, quando mergulhou na beleza gélida dos olhos de Alek, foi difícil acreditar que aquela minúscula vida que crescia dentro dela tivesse alguma ligação com ele. Ele seria capaz de amar o filho?, começou a indagar-se. Na verdade, ele seria capaz de amar?


Ele era capaz de fazer sexo, sussurrou a vozinha em sua cabeça, mas ela bloqueou o pensamento. Não pensaria nele dessa forma. Ponto final. A simpática recepcionista no saguão lhe deu um mapa da cidade e ela começou explorando Kensington e Chelsea, bem como o parque nas redondezas, onde as folhas das árvores começavam a mostrar leves toques dourados. Visitou as galerias da capital dispondo de bastante tempo para apreciá-las, como nunca acontecera antes. Todas as manhãs, Alek saía cedo para o escritório e voltava tarde. Os óculos com aros escuros lhe davam uma aparência surpreendentemente sexy, moderna, quando entrava carregando uma pilha de documentos que lera no carro, durante o trajeto. Desaparecia no quarto dele para tomar banho e mudar de roupa, e então – supreendentemente – entrava na cozinha para preparar o jantar dos dois. Um extenso cardápio de pratos surgia todas as noites. A receita que usava queijo e berinjela logo se transformou na favorita de Ellie. Ele contou que aprendera a cozinhar aos dezesseis anos, quando trabalhara em um restaurante onde o chef lhe ensinara que um homem capaz de preparar a própria comida sempre sobreviveria. Sua habilidade na cozinha a surpreendeu, e ela levou um tempo para se acostumar a sentar e discutir educadamente os acontecimentos do dia durante o jantar, como duas pessoas num primeiro encontro que pareciam se dar muito bem. Vivia uma espécie de sonho. A sensação era de que isso tudo estava acontecendo com outra pessoa. Era uma lástima que o corpo de Ellie não se sentisse nem um pouco saído de um sonho, mas sim inconfortavelmente real. Suas reservas quanto a morar com ele tinham se materializado e ela ansiava por ele. Como poderia ser diferente? Impossível ignorar sua presença. Por mais que tentasse negar, ele era uma fantasia transformada em realidade. E, o pior, ela ainda trazia nos lábios, no corpo, o gostinho de fazer amor com Alek, e isso a deixava faminta, com gosto de quero mais. E a convivência diária só reforçava essa fome. Ela via Alek de manhã, logo depois de ele ter tomado banho e se vestido, os cabelos pretos penteados para trás, a pele cheirando a limão. Via Alek sentado à mesa, colocando as pesadas abotoaduras de ouro nos punhos de uma de suas impecáveis camisas – e seu coração contraía, tamanho o anseio que sentia. Será que ele percebia? Saberia que, por dentro, ela se recriminava por ter insistido naquela regra estúpida de não fazerem sexo? Seria imaginação dela o vislumbre de uma ponta de malícia nas profundezas daqueles olhos cor de safira quando ele a fitou? Como se achasse graça de alguma piada particular à sua custa – silenciosamente zombando dela por saber que lidava muito melhor com a privação de sexo do que ela. A provação pior era nos finais de semana, quando ele não ia ao escritório, deixando um buraco no dia que se estendia à frente, bem como o transtorno de ter sua companhia sem interrupção. Nessas ocasiões, o café da manhã se transformava em uma refeição mais complicada que o normal. Seria imaginação sua ou ele a fitava com olhar penetrante? Ou isso não passaria de um desejo insano de sua parte? Havia ele deixado de propósito um botão da camisa de seda aberto para que o triângulo macio de sua pele bronzeada fosse revelado? Ellie sentia os seios pulsando com um odioso anseio quando ele passou um pote de geleia para ela. Lembrou-se do que ele dissera sobre simular afeição para as fotos do álbum de casamento. Não. Em definitivo, não teria qualquer problema com isso. No terceiro final de semana, sentia-se tão aflita quanto uma aluna às vésperas da prova e, ao mesmo tempo, feliz com o convite de irem ao Victoria and Albert. Morria de vontade de voltar a visitar o museu, embora, dessa vez, comparasse os traços cinzelados dos vários reis e dignitários


com os do homem ao seu lado. E, diga-se de passagem, os do homem ao seu lado eram sempre mais bonitos. Ao saírem do museu, foram a um restaurante ao ar livre onde almoçaram, e ela lutou contra o estúpido desejo de que ele voltasse a tocá-la. Pensou no casamento, na lua de mel e ficou matutando como lidaria com a situação. No mês que vem, a essa hora, serei sua esposa, pensou. Embora ambos parecessem determinados a não tocar no assunto. O sol baixava no horizonte enquanto atravessavam o parque. Quando regressou ao apartamento, ela não conseguia ficar à vontade. Seus pés doíam e ela não conseguia parar quieta no sofá. Não sabia o que esperar quando Alek aproximou-se e sentou-se ao seu lado. Ergueu-lhe os pés descalços e os repousou em seu colo. Começou a massageá-los, um de cada vez. Era a primeira vez que a tocava depois de muito tempo e, apesar de seus pensamentos anteriores, sua reação foi permanecer imóvel, embora o coração batesse acelerado. Podia Alek ouvir o palpitar descontrolado ou até mesmo ver o movimento do coração dela por baixo da camiseta? Seria esse o motivo de entreabrir os lábios num sorriso? A tensão inicial se dissolveu no instante em que seu polegar começou a lhe acariciar a sola do pé e, uma vez tendo entendido que não se tratava de sedução, mas apenas de uma massagem, recostou-se e aproveitou. Parecia uma bênção, e ela se pegou pensando na ironia de que, apesar de todo o seu dinheiro, ele não podia comprar algo tão gostoso quanto aquilo. Por acaso, ele se dava conta do quanto ela adorou o gesto atencioso, embora tivesse feito o possível para esconder o quanto o desejava? Teria ele consciência de que uma prova de gentileza daquelas era como os tijolos perigosos que faziam com que começasse a construir sonhos impossíveis? Na segunda seguinte, tomava chá de gengibre na cozinha, quando ele levantou o rosto do jornal e franziu os olhos. – A respeito das roupas novas que você ia comprar... – Roupas de grávida? – Ainda não. Eu me refiro a roupas bonitas. Não foi o que combinamos? Algo que a faça representar bem o papel de minha mulher. Falta pouco tempo para o casamento. – Eu sei. – Até o momento, você não demonstrou muito interesse pelo casamento. – É difícil sentir entusiasmo a respeito de uma cerimônia de mentirinha. Ele não aceitou a provocação. – Pensei que estivesse doida para pôr as mãos no meu talão de cheques. – Lamento desapontá-lo – disse, ainda pensando na massagem dos pés. Será que ele não percebia que algo simples e íntimo valia muito mais do que seu dinheiro? Claro que não. Era mais conveniente imaginá-la salivando só de pensar em seu cartão de crédito. Ele deixou o jornal na mesa. – Bem, não faz sentido adiar por mais tempo. Vou pedir a Alannah que leve você para fazer compras. Assim pode escolher seu vestido de noiva também, se quiser. Vai perceber que ela tem um ótimo gosto. – Está dizendo que eu não tenho? Ele franziu o cenho. – Não disse isso.


– Não com todas as letras, mas disse nas entrelinhas. Pobre Ellie, arrancada de Hampshire, um vilarejo rural, e que não faz ideia de que roupas comprar para que as pessoas acreditem que ela vai ser a esposa de um grego milionário! – Levantou-se depressa demais e teve que se apoiar. – Bem, sou perfeitamente capaz de comprar minhas roupas e meu vestido de casamento. Então, por que não me dá seu precioso cartão de crédito e vou ver se consigo fazer jus ao rótulo que colocou em mim? Vou sair hoje de manhã e torrarei muito dinheiro, como faria o estereótipo da interesseira que você decidiu que sou. – Ellie. Ela saiu apressada da cozinha e bateu a porta com força, mas quando voltou algum tempo depois o encontrou no mesmo lugar, diante da pilha de jornais praticamente intocada. – Pensei que fosse ao escritório hoje de manhã. – Mudei de ideia. Vou levar você para fazer compras. – Eu não quero... – Calou-se. Quando aqueles olhos azuis se suavizavam daquela maneira, ele a fazia experimentar sentimentos que preferia evitar. – Não quer o quê? Não queria ele parado do outro lado da cabine enquanto ela tentava enfiar o corpo esquisito em roupas apresentáveis. Não queria ver o assombro das funcionárias das lojas, que se perguntavam o que um homem daqueles fazia com uma mulher daquelas. Comprar roupas era um pesadelo, na melhor das hipóteses, mas acompanhada do arrogante Alek seria um milhão de vezes pior. – Você esperando do lado de fora da cabine – disse. – Por que não? Deu de ombros. Por que não dizer a verdade? – Eu tenho vergonha do meu corpo. Ele serviu-se de uma xícara de café. – Por quê? – Porque tenho, ponto. – Relanceou os olhos em sua direção. – A maioria das mulheres tem, especialmente quando estão grávidas. Ele desceu o olhar até a altura de seu umbigo, com uma expressão que sugeria não estar acostumado a olhar uma mulher a não ser como objeto sexual. – Pensei que a forma como reagi ao seu corpo seria prova suficiente de que o acho muito atraente. – Não se trata disso – disse, sem querer confessar que ultimamente ele não demonstrava o menor interesse por seu corpo, porque isso demonstraria sua vulnerabilidade. – Não estou disposta a sofrer uma transformação ao estilo Cinderela com você como público. Ele fez menção de falar, mas apenas suspirou. – Está certo. Então, que tal eu fingir ser seu motorista hoje? Levo você a uma loja de departamentos e fico no estacionamento esperando. E você pode me enviar uma mensagem de texto quando terminar. O que acha da ideia? Parecia tão razoável que Ellie não conseguia inventar uma justificativa para não aceitar a proposta, e logo estava sentada ao lado dele no carro, em meio ao terrível trânsito matinal. Sentia-se levemente aterrorizada quando ele a deixou na porta da loja, mas já tinha lido muitas revistas e sabia que podia solicitar o serviço de uma atendente para ajudá-la. E não se importou por usar jeans e camiseta ou por sua franja cair em seus olhos como um sheepdog – porque a


moça elegante que a atendeu não demonstrou fazer qualquer julgamento. Perguntou delicadamente até que preço estaria disposta a pagar. E, embora o instinto de Ellie fosse escolher a opção mais barata, sabia que Alek não ficaria grato por ela economizar. Certa vez, ele havia lhe dito que o sonho de todas as mulheres era pôr as mãos em seu cartão de crédito; então, por que o desapontar? Por que não tentar se tornar a mulher que ele e os amigos chiques obviamente esperavam que ela fosse? Logo descobriu como era fácil fazer compras quando se tem dinheiro. Você podia comprar o melhor. Podia complementar as roupas com sapatos de couro macio e escolher uma delicada echarpe de seda. Roupas caras realmente podiam transformar um ser humano, decidiu. Os tecidos pareciam ajustar-se ao seu corpo em vez de ressaltar seus defeitos. A vendedora a persuadiu a comprar vestidos que normalmente rejeitaria alegando que andar de jeans era mais prático, e Ellie descobriu que gostava do roçar dos tecidos delicados em sua pele. Comprou todas as roupas básicas de que precisava e depois escolheu um vestido de noiva branco com uma leve tonalidade prateada que deslumbrou seus olhos, bem como realçou sua silhueta. Movida por um impulso, a vendedora passou uma pashmina escarlate em seus ombros – um material tão fino que era quase transparente, e foi esse detalhe que trouxe vida à sua pele. Ellie se olhou no espelho de corpo inteiro. – Ficou perfeito – disse baixinho. Ao sair da loja, usando algumas das novas compras, sentiu-se uma nova mulher. Viu a mudança na expressão de Alek ao observar enquanto ela se aproximava do carro acompanhada por dois porteiros carregados de sacolas. Ele passou o braço por suas costas de uma maneira possessiva ao abrir a porta e ela ficou tensa, pois o breve toque surtiu o efeito de imprimir sua marca. Teria sido esse o motivo de ele também retesar-se? De seus olhos estreitarem e uma veia pulsar em sua têmpora? Ela pensou que ele a tocaria de novo – e não era esse seu desejo? –, porém um carro começou a buzinar e o barulho interrompeu a estranha hesitação. Ele quase não falou enquanto dirigia. Não até estarem parados diante da vitrine de uma joalheira que exibia milhares de pedras preciosas reluzentes. De repente, ele se virou, e o rosto trazia aquela expressão que ela só vira uma vez, desprovida da arrogância, na qual se lia um anseio explícito. O dedo tremia quando ele o deslizou pelo rosto dela, e ele deve ter percebido que ela se arrepiou, pois estreitou os olhos. – Você... está diferente. – Não era essa a intenção? – perguntou, de modo mais malicioso do que pretendia. – Não preciso passar a imagem convincente de que posso ser a futura senhora Sarantos? – Mas não passa, Ellie, essa é a questão. – Ele abriu um sorriso estranho. – Não parece nada convincente com essa expressão tensa no rosto. Não é o que esperam de uma mulher prestes a se casar com um dos solteiros mais cobiçados do mundo. Seu rosto não demonstra qualquer alegria, e acho que precisamos dar um jeito nisso. Vamos deixar bem claro ao mundo que temos um relacionamento, poulaki mou? Mostrar a todos para valer? E, antes que Ellie refletisse sobre o significado de suas palavras, ele a beijou. No meio da rua, na frente do segurança e de todos as pessoas que passavam na rua elegante. Ele a abraçara com força e ela se sentia como se fosse propriedade dele. O homem conhecido pela discrição prestava


uma declaração pública. E, apesar de seu coração bater de alegria, de repente ela se sentiu como um bem. Uma mulher que ele carimbasse. Sua mulher; sua propriedade. Tentou manter os lábios fechados, impedir que a língua entrasse em sua boca, para deixar claro que não era sua. Deixar claro que ele não podia dispor dela como bem entendesse. Mas o nível de resistência tinha limites, quando ele se mostrava tão determinado. Quando ele lhe acariciava as costas desnudas e a deixava arrepiada. Quando o corpo forte estava tão junto do seu que nem um papel poderia ser inserido entre eles. Não quando, dentro do delicado sutiã novo, os seios pesavam. Os lábios continuavam roçando os seus quando suas pálpebras fecharam. Era loucura tantas emoções serem despertadas com um simples beijo. Perceberia ele que ela adorava estar em seus braços? De um jeito até mais satisfatório do que fazer sexo? Sentia-se segura. Como se nada pudesse lhe causar mal quando Alek estava por perto. E foi sua força, mais que sua sensualidade, que finalmente deitou por terra sua última reserva. Ela correspondeu ao beijo com fervor e paixão, e se esqueceu de onde estava. Segurou-lhe a cabeça com as mãos e gemeu baixinho com tanta sofreguidão que Alek recuou, os olhos azuis soltando faíscas. – Caramba – disse baixinho. – Eu devia ter beijado você no apartamento, se soubesse que reagiria dessa maneira. As palavras quebraram o feitiço e Ellie retrocedeu, invadida pela sensação de autorrecriminação. Mais uma vez ela se deixara seduzir e esquecer que, para ele, isso não passava de um jogo. Um jogo idiota, sem sentido. Ele a havia beijado para demonstrar poder, ou então para cobrar o caro e novo guarda-roupa dela. De qualquer modo, ela acabaria magoada se não fosse cuidadosa. Muito magoada. Ela ficou na ponta dos pés calçados com o scarpim novo de couro e sussurrou em seu ouvido: – O que foi isso? – Quer que eu desenhe para você? – Não precisa. – Chegou os lábios mais perto de seu ouvido, resistindo à tentação de mordiscar o lóbulo perfeito. – Sexo só vai complicar a situação. Esqueceu-se do combinado? – Tendo em vista sua reação, acho que estou preparado para desconsiderar o combinado. – Eu não faria isso, e é melhor entender um detalhe, Alek. – Engoliu em seco, tentando injetar certa dose de convicção na voz. – Eu não iria para a cama com você nem que você fosse o último homem do planeta. Ele inclinou a cabeça. Ela vislumbrou o fogo cruzado em seus olhos, a tonalidade azul iluminada por um definitivo toque de ironia. Ele ergueu o dedo e lhe contornou os lábios. – Tenho a impressão de que isso não é cem por cento verdade, Ellie. – Mas é – disse impetuosa, resistindo à vontade de lhe morder o dedo, receosa de que, se o fizesse, podia começar a lambê-lo. – É a pura verdade. Ele segurou-lhe a mão e ela teve vontade de puxá-la, como reagiria uma criança mimada. Mas o segurança da joalheria ainda os observava e, se queria representar convincentemente o papel de noiva, não lhe restava outra opção senão permitir que ele continuasse a lhe acariciar os dedos e fingir que isso não a excitava. – Vamos comprar sua aliança de casamento.


CAPÍTULO 8

A ALIANÇA era toda cravejada de diamantes, e a sola do sapato prateado, que combinava com o vestido de casamento, era vermelha. Ellie encostou os dedos no penteado feito por um profissional. Parecia uma noiva, é verdade, mas uma versão de noiva de revista – embora nada tradicional e ligeiramente irritada. O vestido prateado e a pashmina escarlate lhe davam um toque sofisticado ao qual não estava acostumava e projetavam uma imagem que não reconhecia. Mas a aparência elegante não impedia o frio no estômago. Frio que crescia desde que ela e Alek tinham proclamado os votos de união mais cedo, tendo Vasos e outra funcionária da empresa como testemunhas. Estranho acreditar que eram marido e mulher – e que uns cinquenta amigos de Alek estivessem reunidos no restaurante chique escolhido para a festa. E, se ela se sentia uma impostora, era porque o era. Entretanto... Olhou a reluzente aliança de brilhantes. Quando ele a tinha beijado com tanta paixão na Bond Street, não parecera haver sentimento? Embora houvesse tentado convencer-se de que ele apenas queria provar que eram um casal, continuava a sentir o coração bater forte. O fogo quase tomara conta de seu corpo, e uma onda de emoção a atingiu com tamanha intensidade que ela perdeu as forças depois. A sensação era de que o mundo deixara de existir durante aqueles breves minutos, e isso não era... perigoso? A batida peremptória na porta do quarto interrompeu seus pensamentos. Ao abri-la, encontrou Alek, deslumbrante em seu terno de ótimo caimento e uma gravata da cor de nuvens plúmbeas. – Pronta? Não, não esperava que ele comentasse sua aparência, mas o que mais justificaria sua repentina tristeza? Havia culpado o nervosismo dos preparativos da primeira vez que ele a tinha encontrado vestida de noiva. Mas, agora que eram marido e mulher, com certeza ele podia ter feito algum elogio. No fundo, ansiava pelo brilho de seus olhos, que demonstraria que pelo menos ela estava uma noiva razoável? Ou que tentasse alguma coisa e, dessa vez, ela não ficaria zangada? Até permitiria que ele... Bem, então consumariam o casamento e satisfariam os preceitos da lei, bem como os corpos ávidos.


Engoliu em seco. Sim, a verdade é que esse era seu anseio. Desde que tinham voltado daquela ida às compras até o dia da rápida cerimônia civil naquela manhã, ela parecia um gato em telhado de zinco quente. Havia se convencido de que ele tentaria renegociar a decisão de dormirem em quartos separados, mas se enganara. Apesar das palavras finais, ele devia ter reparado, pelo jeito como ela correspondera ao beijo, que ela tinha mudado de ideia. De que bastaria beijá-la uma única vez e ela seria dele. Mas Alek não era um homem de comportamentos previsíveis. Ele parecia manter deliberadamente a distância desde então, ignorando-a como se ela fosse uma bomba prestes a explodir, da qual não ousava chegar perto. Mesmo quando colocara a aliança em seu dedo, apenas lhe dera dois beijinhos no rosto. Ela abriu o sorriso de garçonete. – Estou pronta. – Então vamos. Ficou nervosa diante da ideia de conhecer os amigos dele. Ela só convidara Bridget, que infelizmente não pudera aceitar o convite, pois a nova assistente ainda não se sentia confiante para cuidar sozinha da loja. Ellie pegou a bolsa. Havia pensado em convidar algumas amigas de New Forest, mas como explicar o motivo do casamento com um homem que mal passava de um estranho? Uma delas logo perceberia a estranheza de ela não ficar abraçada com o homem com que planejava passar o resto da vida. Não, não tolerava piedade. Tampouco suportaria uma amiga bem-intencionada tentando convencê-la a desistir do que ela acreditava ser a única solução plausível. Teria que enfrentar a situação sozinha, sem demonstrar insegurança. Teria que fingir e fazer os amigos dele acreditarem que o casamento era real. Tinha capacidade de desempenhar um papel convincente diante de pessoas desconhecidas. – Repita o nome dos convidados – pediu, enquanto o carro percorria as ruas movimentadas. – Niccolò, magnata do mercado imobiliário, e Alannah, decoradora de interiores. Luis e Carly; ele é o ex-campeão mundial de Fórmula 1 e a mulher dele é médica. Ah, e Murat. Ellie forçou um sorriso. Ele não conhecia pessoas normais? O sultão??? – Ele mesmo. E, por isso, o sistema de segurança foi reforçado. – Você quer dizer que vou ser revistada na entrada da minha festa de casamento? Ele contemplava a paisagem pela janela enquanto tamborilava os dedos na coxa. Ellie torcia para ele dizer algo irreverente que dissipasse a atmosfera esquisita. Mas, quando ele falou, apenas fez um resumo da lista de convidados. – Os convidados vieram de Paris, Nova York, Roma, Sicília... – E da Grécia, é evidente. Ele balançou a cabeça. – Da Grécia não. – Mas é o seu país. – E daí? Já parti há muito tempo e raramente visito meu país. – Mas... – Olhe, dispenso seu interrogatório – interrompeu com frieza. – Não estou disposto a responder nenhuma outra pergunta. De qualquer maneira, chegamos. – Claro – disse, desviando o olhar. Alek sentiu uma pontada de culpa ao ver os ombros de Ellie retesarem. Tudo bem, tinha sido grosseiro, mas ela precisava se dar conta de que ser interrogado não era sua distração predileta. Mas o que esperava? Isso não acontecia quando passava um tempo prolongado com uma


mulher? Elas se sentiam no direito de bisbilhotar. Tocar em assuntos sobre os quais você não queria mencionar, mesmo quando tinha deixado claro que um assunto era proibido. Ele nunca tinha vivido com alguém. Nunca dera intimidade para deixarem uma escova de dentes em seu apartamento, nem abrira espaço em seu closet. Embora Ellie ocupasse um quarto separado, às vezes achava impossível manter a distância. Na verdade, não queria. Pelo contrário, queria mais intimidade, embora seu instinto o alertasse do perigo. Ellie era uma tentação constante. Ele queria ficar com ela todo o tempo, embora ela não flertasse com ele. E não seria isso o que o excitava? Ela estava ali de manhã, antes de ele sair para o trabalho, sorridente, tomando seu chá de gengibre. Assim como estava em casa quando ele voltava do trabalho, oferecendo-lhe um drinque, contando que tinha começado a fazer experiências na cozinha e perguntando se ele queria prová-las. Ela lhe pediu instruções para preparar o prato de berinjela e ele se curvou perto demais enquanto ela mexia alguma coisa num pote. Sentiu-se tentado a beijar a nuca a poucos centímetros de distância. Devagar e sutilmente, sua presença o tirava do sério. Basicamente porque a desejava, e a culpa era toda sua. Aquele beijo apimentado do lado de fora da joalheria tinha como única intenção distrair-se. Se fosse honesto, confessaria ter sido também uma demonstração arrogante de sua sensualidade. Queria demonstrar quem mandava. Mas o tiro saiu pela culatra. Reativou seu desejo, e agora ele não pegava no sono a maior parte das noites, olhando para o teto e imaginando mil coisas que queria fazer com ela. Sabia que nada o impedia de entrar no quarto dela de madrugada. De puxar a coberta e descobri-la, quem sabe... nua. Ou com uma camisolinha sexy que talvez tivesse comprado na mesma ocasião que comprara os sapatos de salto alto e as roupas novas. Os eventuais e acidentais contatos físicos apenas reafirmavam o que já sabia. Ela o desejava com a mesma intensidade que ele. Ao menos fisicamente. Sabia que podia penetrá-la, caso assim o decidisse, enquanto lhe segurava os cabelos e admirava as curvas do corpo alvo. E depois? Foi tomado por outra indesejada crise de consciência, capaz de matar seu desejo no ato. Fazer com que ela se apaixonasse por ele? Partir seu coração como tantos no passado e deixá-la triste e amargurada? Não daria certo, pois ele precisava mantê-la ao seu lado. Ela ia ter um filho seu, e ele precisava dela como amiga, não como amante. Porque algo dentro dele mudara. Sempre imaginara que não sentiria nada em relação à nova vida que crescia dentro dela. Mas enganara-se. O coração apertou no peito da primeira vez que tinha visto seus dedos instintivamente acariciarem a barriga ainda reta. Com uma fascinação incontrolável, ele a observou sem que ela notasse. Quando enroscada em uma poltrona, lia um livro e tornava sua vida quase... normal. Ele nunca tivera uma vida normal antes. Nem sentira falta da vida familiar de sua infância. Como poderia? Tinha sido insuportável. No entanto, começara a pensar se seria capaz de dar àquela criança o que ele nunca tivera. De uma coisa tinha certeza: não podia partir o coração da mãe de seu filho. O carro parou na porta do restaurante e, quando ela ajeitou a echarpe escarlate em volta dos ombros, ele descobriu que não conseguia desviar o olhar dela. Queria tomá-la nos braços e tirar todo aquele batom cintilante dos lábios lindos, mas por que começar o dia com base em uma falsa promessa? – Você está admirável – disse em tom neutro, quando o motorista abriu a porta da limusine para ela.


– Obrigada. Ellie apertou a alça da bolsa. Primeiro a deixava ardendo em fogo e depois dizia que ela estava admirável? Era o melhor que tinha a dizer? Puxa, até sua professora de ciências a elogiava mais – e olha que ela era uma nulidade na matéria! Com cautela, saltou do carro, equilibrando-se nos saltos altos e pensando como estava diferente da antiga Ellie. Aqueles diamantes em seu dedo dariam para comprar um apartamento. Ao entrar no aposento, onde todas as outras mulheres estavam incríveis, sentiu-se grata por ter comprado roupas novas e caras. Todas as mulheres e namoradas pareciam tão felizes. E ela? Parecia uma noiva serena? Alguém perceberia que se agarrava àquela nova e estranha realidade por um fio? Às vezes, contudo, a gente fantasia uma realidade pior do que é. A mulher que tinha cuidado da decoração do apartamento de Alek – Alannah – era bem menos assustadora do que imaginara. Talvez por ser casada com Niccolò da Conti, um homem deslumbrante que parecia chamar quase tanta atenção quanto Alek, e que obviamente adorava a esposa. Alguns dos convidados eram bastante interessantes. Ellie ficou um tempão conversando com Luis e Carly e descobriu que todos eram amigos há muito tempo. Quando o sultão chegou, Ellie ficou nervosa. Nunca tinha conhecido alguém da realeza. Mas Murat era encantador e logo a deixou à vontade e sua esposa, escocesa, era adorável. Ellie observou um grupo animado de homens rindo e, enquanto ouvia as esposas discutindo suas agendas de compromissos, tentou não se sentir uma estranha no ninho. – Quero ver sua aliança – disse Alannah, pegando a mão de Ellie. – Nossa, é linda. Esses diamantes são fabulosos. – Ergueu os olhos e sorriu. – Conte sobre o pedido de casamento. Foi romântico? Gostaria de ter ensaiado uma resposta. Não sabia o que Alek tinha contado. Bem, não havia nenhum sinal de gravidez. Talvez algumas tivessem adivinhado o motivo de o homem mais avesso a casamento ter posto uma aliança em seu dedo, mas ela não quis falar disso. Não agora. Hoje não era seu dia especial?! Não podia fingir pelo menos uma vez? Então abriu um sorriso e descobriu como era fácil falar com a voz trêmula de excitação ao se permitir mergulhar em suas recordações. – Ele me beijou na Bond Street e quase parou o trânsito. – Sério? – Alannah sorriu. – Não me diga. Bem, mas eu li uma notícia de que ele beijou você em público quando você trabalhava como garçonete. Ellie sentiu um nó na garganta e apenas assentiu. Teria Alek voltado a pensar naquele momento de paixão sob o céu estrelado? Naquele breve segundo de inconsequência, que desencadeara o efeito dominó que os trouxera até ali? Estaria arrependido? Observou Alek em uma conversa animada com Murat. Ela não podia se arrepender do que acontecera. Às vezes, os sentimentos desafiavam a lógica. Algo incrível acontecera e ela não conseguia apagar aquela lembrança. Ele podia ser arrogante e frio, mas algo nele a atraía feito um ímã, por mais que tentasse resistir. Podia ser bobagem gostar dele, mas seria errado? Como impedir se apaixonar por alguém, mesmo sabendo que era um erro? Ela viu Alek rir e agitar as mãos como nenhum inglês faria. Nunca tinha ido à Grécia, mas naquele momento ele sintetizava a terra ensolarada, sua história e suas paixões. Entretanto, essa parte de sua vida permanecia um mistério. Ele se trancara quando ela mencionara o país a caminho da festa. Mudara de assunto e não fora nada sutil ao mostrar quem


dava as ordens. Quanto sabia a respeito do pai de seu bebê? Provavelmente tanto quanto sobre seu pai. Afastou o pensamento e tentou entrar no clima festivo. Ficou ao lado de Alek quando ele fez um discurso curto sobre amor e casamento, descontraído e solene ao mesmo tempo. Essa foi a parte mais difícil. Nesse momento, quis desvencilhar-se da mão em seus ombros, pois ela despertava a indesejada sensação de intimidade; a vontade de voltar a se deitar com ele e senti-lo dentro dela; a raiva de si mesma por ter exigido quartos separados. Conversou com todos os convidados demonstrando interesse e fingindo ser a Ellie em treinamento para ocupar o cargo de gerente do hotel. As pessoas nunca são aterrorizantes, por mais que pareçam. Conheceu um juiz, uma artista de Hollywood e um espanhol, Vicente de Castilla, cuja aparência de pirata atraía olhares disfarçados. Entretanto, por mais lindo que fosse, só um homem atraía a atenção de Ellie, e ela o acompanhava com os olhos todo o tempo. Sob a luz dos candelabros, seus cabelos cintilavam negros como tinta. Em determinado momento, ele girou a cabeça para fitá-la, os olhos azuis radiantes. Ela se afastou, sentindo-se exposta. Ele se aproximou e a abraçou pela cintura. Como se fosse a coisa mais natural do mundo. Ela sabia que era apenas para simular intimidade. Sabia que aquele abraço não significava nada, mas infelizmente seu corpo não sabia. Enviava mensagens frenéticas a seu cérebro. Queria mais. Queria que fosse real. Queria que ele tivesse se casado com ela porque a amava, e não por causa da gravidez. Logo pediu licença e foi até o banheiro, onde encontrou Alannah diante do espelho, penteando os cabelos negros e compridos. – Está gostando de sua festa? Ellie abriu um sorriso convincente. – Adorando. O lugar é divino. E todos os amigos de Alek são muito simpáticos. – Não precisava dizer isso, mas obrigada. Estamos todos felizes por ele. Ninguém achava que um dia ele sossegaria. Imagino que saiba que ele nunca assumiu compromisso com ninguém. Não se preocupe, Niccolò era igualzinho. Só precisavam encontrar a mulher certa. – Abriu a porta e deu um adeus com os dedos. A mulher certa. Ah, se soubessem. Engasgariam com o champanhe? Mas ela insistira nos quartos separados. Ela havia decidido que manter a distância a protegeria do sofrimento. Puro engano. Desejava Alek, por mais que tentasse não pensar nele. Seu reflexo não traía a turbulência, o desejo tão intenso que chegava a causar dor física. Fechou os olhos. Queria mais do que aquele único encontro que resultara na gravidez. Algo lento, precioso, pois todo o resto ocorrera rápido demais. Engravidara. Exigira que ele se casasse e se mudara para o apartamento dele. Comparecia às consultas médicas, cuidava da saúde e tentava se manter ocupada. Mas tinha sentimentos, embora tentasse congelá-los. Mas eles começavam a desmanchar como gelo. O que faria? Era corajosa o suficiente para correr atrás do que queria sem se importar com as consequências? Correria o risco de sofrer por outro momento de paixão? Ao sair, encontrou Alek. – Você me assustou.


Alek sentiu uma veia latejar em sua têmpora ao encará-la. Theos, ela estava tão perto. O cabelo descia pelos ombros, linda como todas as noivas. Mas ele só pensava em sua pele e no perfume lembrando rosas ou laranjas. Ou ambas. Sentiu um aperto na garganta. – Estava procurando você. – Bem, estou aqui. O que você quer? Alek ficou imóvel. Viu o brilho dos olhos dela, ouviu o tom da sua voz, e compreendeu o que lhe passava pela cabeça. Conhecia as mulheres; sabia quando enviavam sinais de desejo, mas não esperava isso de Ellie. Não hoje. Ela considerava o casamento uma farsa. Ninguém sabia o verdadeiro motivo de se casarem. Ele se justificava por não ter contado aos amigos, pois o médico tinha avisado que Ellie corria o risco de aborto. Precisavam esperar até a décima segunda semana. Então percebera o quanto queria essa criança, por razões sobre as quais preferia não refletir. A vida que ela carregava lhe importava. Deveria contar a ela? De súbito, nenhum dos dois pensava no bebê. O convite em seu olhar era quase tangível e, embora a desejasse como jamais desejara ninguém, a consciência avisou que a atitude sensata seria encerrar a noite como haviam começado. Separados. Às vezes, contudo, a decisão acertada não prevalecia. Ele segurou-lhe a mão, trêmula como a sua. – Faz ideia do quanto desejo você? – Acho que faço uma ideia. – Mas só se você quiser. Entende? – Alek. – A alça do vestido escorregou e ela a puxou com força. Como se as palavras que estivesse prestes a dizer fossem difíceis. – Você é um homem experiente. Deve saber o quanto desejo você. – Sei que seu corpo me deseja e que fisicamente somos bem compatíveis. Mas, se vai acordar de manhã vertendo lágrimas em meu travesseiro por ter se arrependido, vamos nos comportar como se essa conversa nunca tivesse acontecido. Fez-se um silêncio que pareceu durar horas. – Eu quero – suspirou, afinal. O coração dele acelerou e o corpo se excitou. Levou sua mão aos lábios e, embora a quase sussurrante voz de sua consciência fizesse um último apelo, ele a afastou. – Então vamos para casa. Vamos para a cama.


CAPÍTULO 9

ALEK SE sentia a ponto de explodir, mas precisava ir com calma. Haviam deixado a festa quase de imediato – sorrindo sob a chuva de arroz e de pétalas de rosa. Mas o trajeto para casa tinha sido tenso e silencioso, em total oposição ao clima na recepção. Alek temia encostar em Ellie, e talvez ela experimentasse a mesma sensação, pois sentou-se a distância. A tensão no carro crescera a ponto de ele encontrar dificuldade em respirar. Não o aterrorizava a possibilidade de ela ter mudado de ideia? Ao subirem o elevador, o rosto de Ellie parecia ainda mais pálido. As paredes pareciam fecharse, aprisionando-os até chegarem à cobertura. Ele tinha se convencido de que ela mudaria de ideia ao abrir a porta. Não, não tinha mudado, e, tão logo a porta foi fechada, caíram nos braços um do outro. O primeiro beijo, ávido, quase desajeitado, aconteceu no hall, e eles derrubaram um enfeite. Ele a imprensou na parede e já foi levantando seu vestido. Não, não era essa sua intenção. Não na noite de núpcias. Não depois da última vez. Queria demonstrar conhecer o significado da palavra consideração. Queria fazer amor devagar, muito devagar. Ela se deixara conduzir para o quarto dele e olhava ao redor com uma leve expressão de nervosismo no rosto. – Imagino que esse seja o cenário de milhares de seduções. – Acho que exagerou um bocado na estimativa – respondeu em tom seco. – Por acaso quer que eu minta para você? Quer que eu diga que você é a primeira mulher que trago aqui? Ela abriu um sorriso sem jeito. – Não, claro que não. – Eu nunca perguntei sobre nenhum de seus ex-namorados, perguntei? – Não, é verdade, não perguntou. O que tentava fazer? Seria um gesto de autossabotagem? Por que diabo não tinha simplesmente dito que naquele vestido prateado ela eclipsava todas as outras mulheres que ele havia conhecido? Que ela era linda, meiga e absolutamente desejável? Com um grunhido de raiva, dirigido basicamente a si mesmo, ele a tomou nos braços e a beijou de novo, e ouviu um gemido baixinho quando ela segurou seus ombros. Ele a beijou durante um tempão, até ela começar a relaxar – até ela começar a pressionar o corpo contra o seu e a barreira formada pelas


roupas de repente parecer algo que ele não suportaria por nem mais um segundo. Ele a levou até a cama e a sentou na beirada, antes de se ajoelhar diante dela. – O que está fazendo? – perguntou em tom de brincadeira, enquanto ele tirava um de seus sapatos de salto alto. – Você já me pediu em casamento. Ele ergueu o olhar com expressão sarcástica. – Achei que você tivesse feito a proposta. – É verdade. – Ela inclinou a cabeça para trás e suspirou quando ele começou a massagear seu pé com o polegar. – Fui eu que tomei a iniciativa. Ele a descalçou e tirou o vestido de casamento antes de deitá-la de costas na cama e desvencilhar-se dos próprios sapatos e meias. Deitou-se ao seu lado, afastando-lhe os cabelos do rosto e roçando os lábios nos seus, sem pressa. – Você é muito linda. – Eu sou... Ele a silenciou pressionando o indicador em sua boca. – A resposta correta é: obrigada, Alek. Ela engoliu em seco. – Obrigada, Alek. – Mas tenho medo de machucar você. Ela ergueu a mão para afastar a mecha de cabelo de sua testa e de repente seu rosto pareceu muito suave. Ele sentiu o coração apertado. – Por causa do bebê? – perguntou baixinho. Ele assentiu, ainda surpreso com aquela ternura que instintivamente o punha em guarda. – Por causa do bebê – repetiu. – O médico disse que está tudo bem. – Ela se inclinou e o beijou. – Mas que talvez devêssemos evitar nos pendurarmos nos candelabros. – Eu não tenho nenhum... candelabro – disse, mas de repente o sedutor jogo de palavras foi esquecido, dando lugar à primitiva necessidade de possuí-la. Começou a explorá-la acariciando a pele acima das meias presas pela cinta, quando ela começou a emitir gemidos de prazer. Teria ela sentido sua hesitação, tão pouco característica, o quanto seus dedos subiram devagar? Poderia ela ouvir o batimento de seu coração? Saberia ela que de repente, por mais ridículo que fosse, isso lhe parecia algo completamente novo? – Não é diferente do que aconteceu antes – sussurrou ela. – Ainda sou eu. Ele a beijou de novo. Mas era diferente. Para ele, Ellie era um navio carregando uma carga preciosa. Seu bebê. Ele engoliu em seco enquanto passava o dedo por seu umbigo e percebeu que ela prendia a respiração, só expirando quando ele enfiou a mão por dentro do elástico da calcinha e cobriu-lhe a região quente e molhada. – Hum – sussurrou ela. Ele roçou a boca na sua. – Hum – ecoou enquanto procurava o cinto e ela lhe desabotoava a camisa, emitindo um sussurro de prazer quando a desceu pelos ombros. E então ele parou de pensar. Apenas se entregou a cada segundo de erotismo. Abriu com um estalido o sutiã e os seios repousaram em suas mãos ávidas. Ele sentiu a coxa nua contra a sua


enquanto ela usava os pés para descer-lhe as calças. Sentia o aroma almiscarado de seu sexo quando lhe tirou a calcinha e a jogou de lado. Fitaram-se por um longo momento, e Alek ficou abalado com a súbita e inesperada intimidade do gesto. Ele escorregou a palma da mão em seu quadril. – Não quero machucar você... Ela mordeu o lábio, como se pretendesse dizer algo controverso, mas tivesse mudado de ideia no último instante. – Faça amor comigo, Alek – pediu, em um tom tão sincero que o incendiou como uma chama. Ele a penetrou devagar, murmurando algo em tom gutural em grego, uma atitude muito inusitada. Mas nada do que fazia se parecia com ele. Nunca se sentira tão próximo de uma mulher, nem tão consciente da parceira como pessoa, e não apenas como um simples corpo. Isso o abalou e também intimidou – e ele não gostou da sensação. Não estava acostumado a perder o controle. A sentir-se maleável nas mãos de uma mulher. Ele era um homem duro, inflexível. Não era? E estava mais duro do que nunca. E, se não se segurasse, acabaria gozando. Isso é sexo, sexo com mútuo consentimento. Então trate isso como sexo. Interrompendo o contato visual, encostou o rosto em seu pescoço e começou a assumir o comando, cada lenta e deliberada investida demonstrando seu poder e controle. Ele sorriu quando ela sussurrou seu nome e sorriu ainda mais quando ela começou a murmurar num crescente: – Ai, por favor, não pare, não pare! Ele moveu a cabeça e a observou atingir o orgasmo. Viu quando ela inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos. Viu o corpo estremecer e ouviu o gritinho que se seguiu. E então viu a primeira lágrima escorrer-lhe pelo rosto, logo seguida por outra. Nesse instante, retesou-se. Da primeira vez ela tinha chorado e havia sido combinado de que dessa vez não haveria lágrimas. Nenhum arrependimento. Retorceu a boca. Nada, a não ser prazer. – Alek – sussurrou, e ele não conseguiu mais se conter, despejando de seu corpo uma explosão que parecia não ter fim. Ele devia ter adormecido, e quando abriu os olhos a encontrou dormindo. Virando o corpo, olhou para o teto, e, embora seu coração ainda batesse acelerado pela euforia pós-orgasmo, ele sentiu um arrepio frio e estranho. Olhou ao redor. Viu o vestido de noiva embolado no chão junto com sua calça e camisa. O quarto, habitualmente impecável, parecia ter sido revirado, e ele se lembrou do enfeite quebrado no hall – uma porcelana de valor incalculável despedaçada a seus pés. Que artimanhas tinha ela para fazê-lo perder o controle daquele jeito? Girou a cabeça para olhá-la de novo – uma pálida Vênus surgindo das ondas brancas dos lençóis. Seu olhar deslizou até sua barriga – ainda reta –, e o coração apertou ao pensar que seria pai. Os temores que vinha tentando silenciar agora se amontoavam assustadoramente em sua mente. E se certos traços fossem herdados, e não aprendidos? Não tinha sido essa uma das razões de ter sempre desconsiderado a paternidade como uma escolha de vida? Afinal, não ousava correr o risco de fracassar na tarefa, como o próprio pai. Ela se mexeu e abriu os olhos, e ele ficou encantado ao vê-los tão claros e radiantes, com sombras de lágrimas. – Por que você chora? – perguntou num rompante. – Quando eu faço amor com você?


Ellie afastou a franja dos olhos. O gesto, na verdade, era mais um hábito do que uma necessidade. A pergunta sugeriu uma intimidade pela qual não esperava e a surpreendeu. Não era só sexo, certo? Embora ela acreditasse que ele só tivesse isso em mente. Independentemente de seus sentimentos por ele. Se, de repente, ela lhe contasse que o motivo de chorar era por ele fazê-la sentir-se tão realizada, na certa ele gargalharia ou sairia correndo. Se lhe contasse que, quando ele estava dentro dela, era como se ela tivesse esperado por isso durante a vida inteira, isso não pareceria carência? Se ela dissesse que chorava por todas as coisas que nunca teria dele – como, por exemplo, amor –, isso não a faria parecer outra mulher tentando obter dele algo que sabia ele jamais daria? Decidiu dizer parte da verdade. – Porque você é um amante incrível. – E isso faz você chorar? – Culpe meus hormônios. – Suponho que devo entender isso como um elogio. Embora, é claro, isso dependa do seu nível de experiência. Ela afastou os cabelos do rosto e apertou os olhos. – Está jogando a isca para saber com quantos homens dormi antes de você? – Acha estranho eu querer saber? Ela sentou e admirou o corpo moreno que contrastava com os lençóis brancos. – Tive um relacionamento duradouro, e é tudo que vou falar, porque acho desagradável discutir o assunto, sobretudo numa hora dessas. Acha minha resposta aceitável? – Absolutamente aceitável seria se dissesse que eu fui o único. – Ele sorriu, mas era um sorriso no qual havia mais intensidade que humor. – E, como eu pretendo afastar a lembrança de qualquer outro de sua mente para sempre, melhor vir até aqui e me beijar agora mesmo. A mão tomou-lhe o seio e, embora seu interrogatório fosse despropositado e sua atitude, extremamente machista, Ellie parecia incapaz de se controlar. Ficou pensando sobre o que ele diria se ela lhe contasse que ele já banira qualquer outro homem de sua mente desde que a beijara pela primeira vez. Ficaria surpreso? Provavelmente não. Na certa, as mulheres repetiam esse tipo de elogio todo o tempo. Não planejara que ele lhe abrisse as pernas de novo tão cedo, e na certa não planejara gritar seu nome como uma espécie de oração quando ele a penetrou pela segunda vez. Mas foi assim que agiu. E depois foi deixada sentindo-se exposta e desnuda de todas as maneiras possíveis, enquanto ele permaneceu o enigma de sempre. Ela permaneceu deitada enroscada em seus braços e, apesar de os lábios pressionados contra o ombro abafarem as palavras, mesmo assim ela ainda conseguiu percebê-las. – Estou pensando que devíamos passar a dormir juntos. O que você acha? Porque seria loucura dormirmos separados. Era uma conclusão estranhamente sem emoção depois de terem feito amor, e Ellie não entendeu o motivo de ficar tão decepcionada por ele estar agindo seguindo as regras do jogo. Mas ela não apagou o sorriso nem demonstrou decepção. Manteve a expressão tão neutra quanto a dele. Ele queria tratar sexo como uma necessidade qualquer. Bem, ela também agiria assim. Recostou-se no travesseiro e passou os braços por seu pescoço. – Loucura total – concordou com voz rouca.


CAPÍTULO 10

SUA ALIANÇA de casamento já não debochava dela, nem tampouco a porta fechada do quarto de Alek. Porque Ellie agora dividia aquele quarto e a cama com o dono do quarto. Usando um vestido elegante, Ellie começou a pentear os cabelos. Para todos os efeitos, ela e Alek agora tinham um casamento “completo”. Desde a noite de núpcias – quando haviam quebrado o juramento de não fazer sexo –, usufruíam dos prazeres maritais de um modo que havia superado todas as suas expectativas. Ele podia excitá-la com um simples sorriso. Podia fazer com que se despisse em segundos. Mesmo quando repetia que devia resistir – numa fútil tentativa de obter algum controle sobre seu equilíbrio em pedaços –, ela fracassava. – Você não consegue resistir, poulaki mou – murmurava, como se adivinhasse o que ela pretendia. – Você sabe que me deseja loucamente. E esse era o problema. Desejava mesmo. Parecia impossível deixar de desejá-lo, por mais que tentasse convencer-se de que se entregava demais. E, se às vezes permanecia deitada sonhando acordada, depois de terem feito amor, sempre se certificava de que ele já adormecera. Tentou impedir-se de gostar tanto dele – e tentou esconder seus sentimentos. Porque não era isso o que ele queria. A união era ao mesmo tempo um acordo de negócios e um relacionamento pessoal. Porém, sua vida também mudara de outras maneiras. Eles começaram a sair como casal, então às vezes o casamento parecia quase autêntico. Ele a levara ao teatro, experiência que ela adorara. Iam ao cinema e jantavam em restaurantes sofisticados e exploravam todas as ruelas da cidade. Dirigiram até a Costa Sul a fim de visitar Luis e Carly na casa incrível de onde se descortinava um rio maravilhoso. Entretanto, apesar da crescente riqueza da existência cotidiana, era difícil conhecer o homem que se escondia por trás da imagem de ferro, apesar da proximidade. Ele podia ser atencioso a ponto de lhe massagear os pés quando estava cansada, mas se seus dedos não fossem feitos de carne e sangue ela podia pensar que a massagem era administrada por uma espécie de robô. De vez em quando, parecia que ela só conhecia aquela lista de coisas de que ele gostava ou não gostava que haviam sido enviadas aos funcionários do hotel The Hog antes de sua chegada. Ela ainda não sabia o que o motivava, o que o fazia às vezes acordá-la no meio da noite quando ele tinha tido um pesadelo. Ela se virava e o via de olhos abertos, mas sem realmente ver, o corpo tenso – suspenso entre os dois mundos, o do sonho e o da realidade. Mas, quando ela o sacudia


com carinho, ele fechava a cara e afastava suas preocupações com algum comentário sensual o bastante para mandar suas perguntas pelos ares. Ele era um mestre em ocultar o verdadeiro homem dentro de si: adepto da arte de evitar perguntar. Os olhos azuis frios se estreitavam toda vez que ela tentava discutir algum assunto mais pessoal, e o olhar se transformava em gelo. Não force a barra, pareciam dizer. Mas isso não impediu Ellie de tentar, embora ele desconsiderasse suas perguntas enfiando a mão por baixo de sua saia e fazendo amor com ela. Ele a deixava ofegante enquanto todas as perguntas eram eliminadas e nada mais restava senão o prazer que ele lhe proporcionava todas as vezes. Mas ela não desistiu. Apenas diminuiu um pouco as expectativas. Deixou de esperar grandes revelações e concentrou-se nas pequenas. E, sempre que descobria algo sobre ele, a sensação era de uma grande vitória – como se tivesse encontrado outra pecinha do quebra-cabeças. Em um daqueles momentos sonolentos, depois de fazerem amor, ele lhe contou como tinha deixado de ser ajudante de cozinha em Atenas e virado o proprietário de uma cadeia de restaurantes. Contou que havia trabalhado em um vinhedo na Califórnia, e por esse motivo entendia tudo sobre o mercado de vinhos. Ele fez uma cara sonhadora ao descrever o lindo país do amigo Murat, Qurhah, e de como as estrelas pareciam enormes quando se contemplava o céu no meio do deserto. Explicou como a vida não passava de uma grande experiência de aprendizado e de como tudo que sabia aprendera por conta própria. Uma coisa que ela vinha aprendendo mais rápido que qualquer outra é que não era fácil frear as próprias emoções. Não tinha certeza se eram seus hormônios que mudavam seus sentimentos em relação ao marido grego ou se o sexo havia removido a camada protetora de seu coração. Por mais que tentasse, parecia incapaz de não se preocupar com ele, de gostar dele cada vez mais. Seu coração era teimoso e se recusava a prestar atenção aos argumentos lógicos que sua mente tentava inculcar. Sabia, contudo, o que acontecia com mulheres idiotas o suficiente para amar homens que não lhes retribuíam o amor. Ela observara a vida da mãe se tornar sem sentido por ter desejado algo que jamais conseguiria. A mãe havia perdido anos de vida, mergulhada na amargura e no ressentimento, porque havia se recusado a aceitar que era impossível forçar alguém a fazer o que não desejasse. E isso não aconteceria com ela. Não se permitiria repetir os erros da mãe. Ajeitando o vestido, entrou na cozinha e encontrou Alek sentado à mesa, lendo uma pilha de jornais e tomando uma xícara de café. Ele ergueu a cabeça quando ela entrou, seguindo-lhe cada passo, como uma cobra enfeitiçada por um encantador de serpentes. Ela já se acostumara à avaliação machista e, com certa dose de culpa, passara a apreciá-la. Ele deixou de lado o jornal quando ela se instalou à sua frente, e os olhos faiscaram quando ela estendeu a mão para pegar o pote de mel. – Eu adorei lamber meu mel favorito a noite passada – murmurou ele. Ela arregalou os olhos. – Alek! – Ficou encabulada, Ellie? – Claro que não. Foi o vapor da máquina de café. – Gostaria de ir à Itália?


Ellie colocou de volta a pequena espátula de madeira no pote de mel. – Com você? – Claro que é comigo. A não ser que tenha outra pessoa em mente. – Ele sorriu, dando de ombros. – Podemos ter uma espécie de lua de mel, se quiser. Podíamos ir para Lucca. Tenho negócios em Pisa e posso ir para lá depois, quando você pegar o avião de volta para casa. E Lucca é uma cidadezinha linda. É conhecida como a joia escondida da Toscana. Tem uma praça oval em vez de quadrada e uma torre com árvores que crescem no topo. Muitas ruelas escuras e serpenteantes e igrejas icônicas. Já foi a Lucca? Ela fez que não. – Nunca fui a lugar nenhum, a não ser passar um dia em Calais, com minha mãe. – Então, aceita? – perguntou, arqueando as sobrancelhas. – Você não me disse uma vez que adoraria viajar? Sim, ela tinha dito isso, mas numa época em que a ambição ainda habitava seu coração. Quando viajar fazia parte de seus planos profissionais e a independência ainda era um sonho possível, que parecia ter sido deixado para trás desde que descobrira estar grávida. Pensou na Itália – com suas colinas verdejantes e tetos de terracota. Todas aquelas igrejas famosas e estátuas de mármore que apenas conhecia de fotos. Não seria maravilhoso viajar em uma inesperada lua de mel ao encontro do sol e da cultura, mesmo que fosse a lua de mel menos convencional na história do mundo? Entretanto, o simples fato de Alek ter sugerido a viagem já alegrou seu dia. Não seria uma abertura por parte de seu enigmático marido? Poderia tornar a viagem uma verdadeira lua de mel – como se fossem duas pessoas que gostassem sinceramente um do outro, e não apenas tentassem transformar uma situação ruim tolerável? Ela começou a espalhar o mel na torrada e sorriu para ele. – Aceito. Gostaria muito. Ou melhor, adoraria. – Thavmassios. Viajamos depois de amanhã. DOIS DIAS depois, o avião aterrissou em Pisa, onde Alek tinha contratado um carro para levá-los a Lucca. A viagem durou menos de uma hora, e eles chegaram ao anoitecer, quando todas as lojas estavam fechadas e o lugar parecia adormecido. Ellie contemplou os muros da cidade e pensou que nunca tinha visto nada tão lindo. Alek alugara um apartamento antigo que dava para um pátio coberto, onde gerânios brotavam de vasos de terracota. A cabeceira de madeira da cama era escura e antiga, e os lençóis limpos cheiravam a lavanda. Ela sabia que não eram como outros casais tradicionais em lua de mel; entretanto, quando ele fechou a porta do apartamento, Ellie foi invadida por uma estranha sensação de esperança. Pensou: Estamos em uma cidade onde ninguém nos conhece. Dois estrangeiros no meio de outros estranhos. Não haveria uma chance de que ali o homem com quem se casara deixasse cair a máscara pela primeira vez, já que não havia mais ninguém para ver seu rosto a não ser ela? Fizeram amor, desfizeram as malas, tomaram banho e então Alek a levou para jantar em um jardim à luz de velas onde comeram o delicioso prato típico, tortelli lucchese – massa recheada coberta com um saboroso molho de ragu. De mãos dadas, tomaram café sob o céu salpicado de estrelas, e pela primeira vez a relação deles pareceu real. Como se fossem um casal em lua de mel, e não apenas uma dupla de atores representando seus respectivos papéis. Quando ele a


levou para casa, ela lhe abraçou o pescoço e o beijou apaixonadamente. Ele a pegou no colo e a levou para o quarto com uma expressão no rosto que a deixou trêmula. Na manhã seguinte, Ellie acordou sozinha. Por um minuto, permaneceu deitada, saboreando as lembranças sensuais da noite anterior. Em seguida, pegou um roupão, jogou água gelada no rosto sonolento e foi procurar Alek. Ele estava sentado na varanda, o café da manhã na mesa e o aroma do café misturando-se ao forte perfume de jasmim. – De onde veio tudo isso? – perguntou, olhando o pão fresco, os doces amanteigados e a geleia vermelha. – Acordei cedo. Você parecia dormir tão serena que preferi dar uma volta pelos muros da cidade. Na volta, passei em um panificio. – Ele serviu duas xícaras de café e sorriu. – O que gostaria de fazer hoje? E de repente – ela não sabia o que causara a sensação – o cenário perfeito à sua frente começou a desintegrar. Foi como se, ao puxar um pedacinho delicado de tecido, a peça de repente se rasgasse. Tudo parecia tão falso. Ali estava Alek – absolutamente divino com uma camisa branca aberta no peito e uma calça escura, os olhos azuis cintilando como pedras preciosas. Entretanto, a educada distância a fez sentir-se como se fosse apenas outro item a ser ticado em sua agenda. Seu sorriso parecia automático, e não sincero, e ela se descobriu ressentida de seu controle e de seu distanciamento. Isso não tem nada a ver com a realidade, pensou, enquanto uma sensação de revolta começou a pulsar dentro dela. Sentou-se e o fitou. – Na verdade, gostaria de conversar sobre o bebê. Ele se retesou. – Sobre o bebê? – Isso mesmo. Nosso bebê, sabe? Aquele sobre o qual nunca falamos. – Fez uma pausa e repousou a mão sobre a barriga. – Porque, embora ele esteja crescendo dentro de mim, nunca discutimos sobre isso, certo? Parece que sempre fugimos do assunto. Quero dizer, eu vou ao médico, chego com um relatório de que estou bem de saúde e você consegue parecer satisfeito. E uma ou duas vezes você foi comigo e meneou a cabeça nas horas certas, mas continua agindo como se nada estivesse acontecendo, ou como se estivesse acontecendo com outra pessoa. Como se nada disso fosse real. Um olhar disperso surgiu em seu rosto e ele deu de ombros. – Suponho que poderíamos nos sentar e manter discussões hipotéticas sobre o que faremos e como nos comportaremos quando o bebê chegar, mas por que se importar com isso, quando é impossível prever? – Então você prefere ignorar o fato até que aconteça? Os olhos dele se tornaram sombrios, e de repente ele não parecia mais tão descontraído. – Não foi o que acabei de dizer? E Ellie ouviu o som falso na entonação das palavras – a amargura impossível de esconder. Viu o modo como o corpo se retesou, sem saber o motivo. Tampouco sabia o motivo de não ter coragem de perguntar e insistir, até ele finalmente dar uma resposta. Do que tinha medo? De que, se descobrisse os segredos dele, não mais seria capaz de alimentar a esperança que tolamente habitava seu coração? Com certeza, era melhor saber e encarar a verdade, por mais terrível que fosse. Melhor do que construir sonhos que jamais se materializariam.


– Sabe, durante todo esse tempo que estamos juntos, você nunca mencionou sua infância, a não ser aquele comentário desconcertante de nunca ter usado transporte público porque seu pai era dono de uma ilha. – E você não imagina o motivo? Se alguém não fala sobre certos assuntos, costuma haver um motivo. – Você nunca me contou nada sobre sua família – continuou teimosa. – Nadinha. Nem sei nem se você tem irmãos. – Não tenho. – E nunca mencionou seus pais. De cara fechada, ele a fitou. – Talvez porque eu não queira falar sobre eles. – Alek – Ela se curvou. – Você precisa me contar. – Por quê? – retrucou. – Porque esse bebê vai ter os genes de seus pais. Seu pai... – Já morreu. E, acredite, torça para que nosso bebê não herde muitos de seus genes. Um arrepio percorreu-lhe a espinha. – E sua mãe? Por um momento, ele manteve o silêncio. – O que tem ela? Ellie não estava preparada para o tom agressivo da voz dele ou para o curvar dos ombros largos. Tudo em sua reação demonstrava que ela entrava em território perigoso – mas sabia que não podia recuar. Não dessa vez. Se ela retrocedesse agora talvez ganhasse sua aprovação temporária, mas e depois? Ela simplesmente concordaria em conviver com meias verdades. Em criar uma criança em um mundo de ignorância, onde nada era o que aparentava ser. Porque conhecimento era poder. E a balança que pesava o poder naquele relacionamento já não pendia muito mais para um lado? – Ela ainda está viva? – Não sei – retrucou, a voz fria como gelo. – Não sei droga nenhuma sobre ela. Você quer que eu resuma a história? Ela me largou quando eu era um bebê. E, embora eu seja conhecido por minha impressionante memória, nem eu posso me lembrar disso. Está satisfeita? A cabeça de Ellie girava. A mãe o abandonara. Isso não era o pior que poderia acontecer a alguém? Não havia lido em algum lugar que era melhor sofrer abuso físico do que ser abandonado? Na época, ficou na dúvida. Imaginou que sempre seria possível enfrentar pais agressivos, mas, se você era abandonado, isso não lhe deixaria outra opção a não ser o sentimento de vazio e perplexidade? Imaginou um neném acordando de manhã e chorando à espera da mãe que nunca viria. Qual seria a sensação de perder o conforto do abraço maternal e nunca mais voltar a senti-lo? Mesmo que o laço não fosse forte, um abraço ainda representava segurança para uma criança indefesa. Em um nível primitivo e subliminar, isso tornaria impossível que esse bebê voltasse a confiar em uma mulher? Isso explicaria sua frieza e ausência de intimidade, não importava quantas vezes fizessem sexo? – O que aconteceu? – Eu acabei de dizer. – Não, não disse. – Enfrentou-lhe o olhar, determinada a não se deixar acovardar pela fúria que cintilava naquelas frias profundezas azuis. – Você só me contou os fatos.


– E não lhe ocorreu que talvez seja tudo o que eu esteja disposto a contar? – Empurrando a cadeira, levantou-se e começou a andar de um lado para o outro da varanda, como um homem em uma cela. – Por que não aprende o momento de parar? Ela nunca tinha visto Alek tão zangado. Talvez tivesse se calado havia poucas semanas, mas não mais. Não buscava ganhar sua afeição ou manter a paz. Ela seria mãe e queria ser a melhor mãe possível – e isso significava decifrar o pai do bebê, mesmo que ele não quisesse. Mesmo que isso os separasse, era um risco que precisava correr. – Porque não é hora de parar – disse teimosa. – Que diferença faz se uma mulher foi embora de uma casa em uma ilha grega há mais de trinta anos? – Faz toda a diferença. Eu quero saber mais sobre ela. Quero saber se ela tinha mais jeito para as artes ou se era boa em matemática. Estou tentando montar o quebra-cabeças, Alek; imaginar que tipo de características nosso bebê pode herdar. Talvez seja extremamente importante para mim, porque não sei muita coisa sobre meu pai. Se as coisas fossem diferentes, eu já teria algumas respostas para essas perguntas. Alek a fitou quando ela despejou essas palavras apaixonadas em meio à tranquila manhã italiana. Sua infância também não tinha sido um mar de rosas, mas, apesar disso, sua mãe ficara ao seu lado. Ellie não tinha sido rejeitada pela única pessoa em quem supostamente se pode confiar. Ela parecia um personagem em um quadro, tendo atrás os limoeiros e os jasmins. Em seu roupão de seda, ela parecia tão jovem, e nada disfarçava o brilho de esperança em seus olhos. Imaginaria que essa história teria final feliz como nos contos de fadas? Que ele podia consolá-la por todo o sofrimento e fazer com que a vida sorrisse graças a poucas palavras cuidadosamente escolhidas? Trincou os dentes. Talvez devesse lhe contar a verdade. Deixar que ela compreendesse o tipo de homem que realmente era – e o porquê. Revelar que sua frieza emocional não tinha sido inventada como passatempo. Tinha sido incutida nele desde o início – enraizada fundo demais para que ele pudesse ser diferente. Talvez, ao tomar conhecimento da verdade, seus sonhos corde-rosa se dissipassem. Precisava mostrar o motivo de as barreiras erigidas ao seu redor serem impenetráveis. E o motivo de ele preferir manter as coisas assim. – Nunca houve visitas ou férias. Por muito tempo, eu nada soube sobre minha mãe. Ou, na verdade, sobre qualquer mãe. Quando se cresce sem algo, você nem se dá conta de que sente falta disso. Seu nome nunca foi mencionado na minha frente, e as únicas mulheres que conheci eram as prostitutas do meu pai. Ellie estremeceu ao ouvir a palavra e ele observou-a recompor a expressão e demonstrar compreensão. – É perfeitamente razoável não gostar das mulheres que substituíram sua mãe... – Ah, faça-me o favor. Deixe de lado essa psicologia de amador – interrompeu, passando a mão impaciente nos cabelos. – Não estou emitindo um puritano juízo de valor porque assim me sinto melhor. Elas eram prostitutas. Tinham aparência de prostitutas e se comportavam como prostitutas. Ele pagava por sexo. Foram as únicas mulheres com quem tive contato. Cresci achando que todas as mulheres enchiam a cara de maquilagem e usavam saias tão curtas que dava para ver as calcinhas delas. Uma, em particular, convidou um menino de doze anos para tirar suas calcinhas para ela ensiná-lo a se divertir.


Pronto, agora ela acreditava nele? Por isso mordia o lábio? Ele quase podia ver sua mente trabalhando a todo vapor enquanto procurava algo para dizer – como se tentasse encontrar um ponto positivo no que ele acabara de contar. Ele podia ter lhe poupado o trabalho e afirmar que não havia nenhum. – Mas... você devia ter amigos – disse, com um toque de desespero. – Deve ter conhecido as mães de seus amigos e tentado imaginar o que acontecera com a sua. – Eu não tinha amigos. Minha vida era cuidadosamente controlada. Minha casa era uma prisão. Eu não via ninguém a não ser os empregados. Meu pai só contratava empregados sem filhos, solteiros, que pudessem devotar todo o tempo a ele. E, se você não tem parâmetros para comparação, não dá para comparar. A ilha era distante e inacessível. Ele cuidava de tudo, era dono de tudo. Eu morava em um lugar imenso, que mais parecia um palácio, e tinha aulas particulares em casa. Só aos sete anos eu ouvi falar de minha mãe e o garoto que me contou foi espancado. Seu olhar vagueava no espaço. Deveria contar que os machucados do menino foram tão profundos que ele teve que ser conduzido de avião para o hospital e nunca tinha retornado? E que os pais do menino – embora fossem paupérrimos – ameaçaram dar queixa na polícia? Alek era pequeno, mas lembrou-se do pânico que pairou na ilha. Lembrou-se das expressões de medo dos assistentes do pai dele, como se o velho tivesse realmente passado dos limites daquela vez. Mas o pai tinha se safado, como sempre acontecia. Ofereceu dinheiro, e eles aceitaram. O dinheiro compra tudo. Comprou o silêncio e comprava sexo – e outra catástrofe havia sido evitada. Ele também não tinha agido assim? Não tinha dado dinheiro à chefe irlandesa de Ellie para que a liberasse, com a mesma frieza do pai? Ele notou o desespero no rosto da jovem e tentou imaginar sua reação ao ouvir esses fatos. Provavelmente achava tudo inacreditável. Como um daqueles filmes pornôs a que os seguranças do pai costumavam assistir tarde da noite. Não sabia se devia interromper a história, se o que contara seria suficiente para ela compreender o motivo de ele não ser como os outros homens. Mas ela tinha exigido a verdade e talvez continuasse a exigir. Como as mulheres invariavelmente faziam. Deu-se conta de que pela primeira vez na vida ele não a afastara ou se recusara a atender suas ligações. Deixá-la num canto como se não existisse, como sempre fizera antes com as outras. Gostasse ou não, estava preso a Ellie Brooks, ou melhor, Ellie Sarantos. E talvez ela devesse aprender, de uma vez por todas, que era melhor não fazer perguntas, caso não estivesse preparada para ouvir certas respostas. – Deseja saber mais alguma coisa? Algum ponto ainda é uma incógnita? – O que o menino disse a respeito de sua mãe? – Ele contou a verdade. Que ela tinha ido embora de madrugada com um dos pescadores da ilha. – Recostou-se na balaustrada de ferro. A distância, ouvia uma mulher chamar alguém em italiano e uma criança responder. – Foi muito conveniente arrumar um amante dono de um barco, pois não havia outro meio de deixar a ilha sem que meu pai soubesse. Mas imagino que sua principal proeza foi ter um caso bem debaixo do nariz dele, sem que o velho descobrisse. E o fato de ela estar preparada para enfrentar a raiva dele. – Retorceu a boca. – Ela deve ter sido uma mulher e tanto. Ele sentiu uma dor que há tempos não sentia. Uma dor profunda, indesejável, capaz de excluir qualquer outra sensação. A dor apunhalou seu coração como uma faca enferrujada, e ele


se arrependeu de não ter dito a ela que cuidasse da própria vida. Agora, porém, abrira as porteiras e, de alguma forma, não podia parar, mesmo que isso o fizesse sofrer. – Meu pai ficou completamente humilhado ao ser abandonado e decidiu apagar qualquer traço de sua existência. Algo que, surpreendentemente, foi fácil de realizar. – Ele fitou os olhos brilhantes e então falou tudo. Nunca havia admitido isso antes. Nunca havia contado a ninguém. Nem mesmo à terapeuta que consultara quando morava em Nova York. Nem mesmo aos seus amigos, nem às mulheres com quem dormira e que tentavam obter a verdade. Para ninguém. Não até aquele instante. Engoliu em seco quando a amargura cresceu como uma onda sombria. – Nunca vi uma foto da minha mãe. Ele destruiu todas. Ela é uma estranha. Nem sei como ela é. Ela não soluçou ou murmurou um consolo sem sentido. Apenas ficou sentada e assentiu, como se absorvesse tudo o que ele havia contado. – Mas você nunca pensou em descobrir seu paradeiro e ouvir seu lado da história? Ele a encarou. – E por que eu ia querer encontrar uma mulher que me abandonou? – Ah, Alek, porque ela é sua mãe; só por isso. – Ela se levantou e atravessou a varanda banhada pelo sol até chegar perto dele. E então o abraçou e o manteve pertinho, como se não quisesse permitir que ele jamais fosse embora. Ele sentiu os dedos se entrelaçando ao redor dele, e tentou se afastar. Não precisava de sua meiguice, de sua compaixão. Não precisava de nada dela. Aprendera a viver com a dor e o abandono. Afastara as lembranças trancando-as em um lugar de acesso restrito e batera a porta... Que direito tinha ela de obrigá-lo a abrir a porta e olhar todos aqueles espectros sombrios? Por acaso ela obtinha algum tipo de satisfação ao forçá-lo a encontrar coisas mortas e enterradas? Ele quis empurrá-la, mas o seu corpo se fundia ao dele. Seus dedos afagavam-lhe os cabelos e, de repente ele a beijou como um homem que tivesse por fim perdido o controle. Deixou-se perder em um beijo doce como mel e foi tragado por uma sensação que o fazia sentir-se... Desvencilhou-se dela, o coração pulsando acelerado. Não queria sentir nada. Ellie trazia à tona sensações que era melhor deixar quietas, e ela precisava aprender que ele não estava preparado para tolerar tamanha invasão. Tinha conseguido uma vez, mas isso não voltaria a acontecer. Com esforço, serenou a respiração. – Não quero dar um show erótico para os apartamentos em volta – disse com voz fria, enquanto ia até a mesa e se servia de um copo de suco. – Então, por que não senta e toma seu café da manhã antes de sairmos para passear? Você não queria viajar, Ellie? Melhor não perder essa oportunidade de ouro.


CAPÍTULO 11

A LUA de mel não foi um sucesso, apesar de Lucca ser deslumbrante e do fato de Ellie, com seu chapéu de palha novo, ter acompanhado Alek a cada icônico destino que a cidade tinha a oferecer. Viu a torre com as árvores crescendo no topo e tomou cappuccino na famosa piazza oval. Visitaram tantas igrejas que ela perdeu a conta, e comeram em praças cobertas de folhas em meio a pátios escondidos. Havia estátuas de mármore em maravilhosos jardins, onde rosas cresciam ao lado de limoeiros. E, quando o sol ficava forte demais, havia ruas com sombra para passear, e no ar pairava o aroma das carteiras e bolsas de couro balançando nas lojinhas ao longo das ruas. Mas uma nova froideur havia se instalado em Alek. Não parecia importar que seus primeiros instintos ao o conhecer estivessem certos – e que, de alguma forma, eles fossem espíritos com afinidade. Ambos sabiam o significado de infâncias terríveis, mas haviam escolhido lidar com a experiência de maneiras distintas. É verdade, ela conseguira por fim extrair a verdade sobre seu passado. Agora o conhecia melhor... Mas a que preço? A revelação não os aproximara ou os unira de um jeito mágico. A impressão era de que as confidências que o forçara a compartilhar tinham rompido o tênue laço existente entre eles. Como se ele tivesse se trancado e a afastado – só que dessa vez ela sentia não haver caminho de volta. Não havia resquício de luz por baixo da porta de aço que ele fechara. A raiva tinha ido embora e, em seu lugar, a consideração e a cortesia fria o tornavam ainda mais distante. Ele falava com ela como se fosse seu médico. Estava sentindo muito calor? Muito cansada? Talvez com fome... E ela lhe garantia estar passando bem. Afinal, havia outra alternativa? Mentira, ela não se sentia bem. Sentira dor de cabeça e enjoo, e uma espécie de peso parecia ter se instalado em suas pernas. Ela creditava o mal-estar à tensão que se estabelecera entre eles. Agora compreendia o motivo de ele ser tão distante em termos emocionais, mas isso não ajudava a resolver a questão. Vasos havia telefonado várias vezes de Londres, mas, em vez de Alek dizer algo como “desculpe, mas estou em lua de mel”, atendia todas as ligações e passava tempo demais ao telefone. Ou, pelo menos, assim lhe parecia. Ellie ficava sentada na varanda, o livro ainda na mesma página, enquanto ele falava uma torrente de palavras em grego que ela não compreendia.


Olhou as páginas não lidas do romance. Por acaso tinha imaginado que seria fácil? Havia sido ingênua a ponto de achar que obter informações sobre sua sofrida infância o tornaria mais receptivo e aberto? Se soubesse que o contrário ocorreria, talvez tivesse pensado duas vezes antes de forçar a confissão sobre a mãe que o abandonara. Fechou o livro. Não era de admirar que ele tivesse se fechado assim. Que se mostrasse tão indiferente ao bebê deles. Apreensiva, ergueu o rosto e viu Alek de pé, cercado pelas laranjeiras em miniatura que cresciam no terraço, franzindo a testa ao guardar o celular no bolso. – Era Vasos. – De novo? – Parece que o novo negócio referente ao prédio Rafael será concluído antes do previsto e o arquiteto viaja para Londres hoje à noite. – Vamos ver se adivinho... – Sua voz soava descontraída. – Você precisa voltar. – Receio que sim. Minha reunião em Pisa vai ter que ser adiada. – A expressão ficou mais séria à medida que ele parecia olhá-la de fato pela primeira vez. – Você está suando, Ellie. Está passando bem? Não, não estava bem. Sentia calor, tonteira e decepção. Talvez fosse chegada a hora de parar de correr atrás de arco-íris e encarar a realidade. – Estou bem – disse tensa. – Vou arrumar as malas. Algo sombrio e desconfortável tomou conta de Alek ao vê-la entrar com os ombros retesados. Uma sensação que lhe apertou e retorceu o coração. Maldita Ellie, pensou. Por que não havia mandado que calasse a boca? Por que não se recusara a responder àquelas perguntas intrusivas que apenas tinham aberto uma sombria lata de lixo? E mesmo agora que a afastara a sensação de alívio que esperava não ocorrera. Eles vinham dormindo em cantos opostos da cama – a respiração soando estranhamente alta na escuridão –, cada um ciente de que o outro estava acordado e, mesmo assim, mudo. Porque não tinham mais nada a dizer. Alguma cruel reviravolta do destino lhe deixara com uma terrível sensação de perda sem a suavidade dos abraços de Ellie. Uma dolorosa lembrança do quanto a rejeição doía. Mas não era melhor assim? Rejeitar em vez de ser rejeitado pela segunda vez? Quando ela retornou, após ter feito a mala, Alek achou que o rosto, sob a aba do chapéu de palha usado durante praticamente toda a viagem, parecia quase translúcido. O sol italiano mal tocara sua pele, e os olhos cinzentos pareciam sombrios. Embora soubesse que devia dizer algo, não imaginava nada que pudesse mencionar para interromper o silêncio. Ela ficou calada durante toda a viagem de volta a Londres e, no momento em que o avião pousou e ele ligou o celular, o aparelho começou a vibrar alertando sobre a enxurrada de mensagens. No fundo, não era bom ter a oportunidade de entregar-se a problemas relativos ao trabalho? Bem melhor do que ter de enfrentar a reprovação silenciosa ou vê-la morder o lábio como se tentasse controlar as lágrimas. Enquanto ela foi para o apartamento, ele seguiu direto para o escritório. – Você se importa? – perguntou ele. Ela deu uma risada nada convincente, como se reconhecesse que a pergunta era só para constar. – E se eu me importar? Está preparado para colocar de lado seu precioso trabalho e passar a tarde comigo, caso eu peça? – Ellie...


– Entendo isso como um não – disse sorrindo. – De qualquer maneira, quero descansar. Estou exausta. Ao chegar em casa, ela fechou as cortinas e colocou o telefone no modo silencioso, dentro da bolsa, num canto do quarto. Mas ouvia o telefone vibrar como uma mosca insistente enquanto tirava um cochilo agitado. Entretanto, teve preguiça de se levantar e desligar o celular. Às 17h, obrigou-se a se levantar e viu três ligações perdidas de um número desconhecido. Entorpecida, tomou um banho, mas ainda não recuperara o ânimo quando pegou uma calça de linho e uma camiseta. Tomava um copo d’água, quando a campainha da porta tocou. Acariciando a barriga, foi abrir a porta. Encontrou uma mulher loura que não reconheceu, mas que lhe parecia familiar. – Posso ajudar? – perguntou. – Não se lembra de mim? Ellie balançou a cabeça. – Deveria? – Talvez. Conheci você antes de se casar. Eu estava hospedada no hotel The Hog na época em que você trabalhava lá. Agora está se lembrando? E, de repente, a nuvem se dissipou. Claro. Era a jornalista. A loura sorrateira que fizera perguntas que Ellie tolamente respondera e que resultaram em sua demissão. Olhou os olhos glaciais da mulher. – Não temos nada para conversar – disse Ellie. – Talvez não. Mas talvez esteja interessada em ouvir o que tenho a dizer. – Duvido muito. – Fez menção de fechar a porta. – Nem eu nem meu marido gostamos de jornalistas. – Seu marido sabe que tem um irmão? O suor começou a brotar na testa de Ellie quando ela se encostou na porta. Pensou no que Alek lhe contara sobre a infância. Durante o relato doloroso, de partir o coração, ele não havia mencionado que o pai tivera outros filhos. Mas talvez a mãe dele tivesse se casado. Se ele nunca a tinha encontrado, como poderia saber? – Você está mentindo. – Por que mentiria? Na verdade, ele tem um irmão gêmeo. É, achei que você ficaria interessada na história. Sim, estava interessada, mas isso não a impediu de balançar a cabeça, pois as palavras dramáticas pareciam não fazer sentido. – Mas, se o que diz é verdade, como você sabe, e ele não? A mulher deu de ombros. – O irmão dele pediu que eu o localizasse e falasse com ele. Queria saber se Alek estaria disposto a marcar um encontro. A primeira parte não foi difícil, mas a segunda foi, porque nunca consegui chegar perto dele para perguntar. É difícil se aproximar de homens como Alek Sarantos. Ele não dá entrevistas, não sai para beber sozinho, então tentar chegar perto não é fácil. Além do mais, como você mesma disse, ele não gosta de jornalistas. – E isso a surpreende? – Nada mais me surpreende – disse a mulher com cinismo. – Por isso não acreditei na minha sorte quando vi vocês dois juntos naquela noite. Um homem como ele com uma garçonete


comportando-se como se fossem dois adolescentes em uma discoteca! Achei que tinha conseguido a oportunidade perfeita para abrir caminho, e tinha razão. – Abrir caminho? – repetiu Ellie horrorizada. – Claro. Basta colocar uma mulher na vida de um homem e logo você tem como atingi-lo. – Você é nojenta. – Não, queridinha. Estou apenas fazendo o meu trabalho. – A jornalista inclinou-se e enfiou um cartão na mão de Ellie. – Por que não diz a ele para me ligar? Depois que a mulher se foi, Ellie fechou a porta, recostando-se e tentando respirar normalmente. Um irmão. Um irmão gêmeo. Como era possível? Alek deliberadamente omitira dela esse fato explosivo? Ficou atordoada; não podia acreditar. Teria a mulher feito o que os jornalistas faziam tão bem: inventar uma história para obter algum tipo de reação? O coração batia acelerado e uma dor estranha se espalhava pelo seu corpo, e ela não sabia há quanto tempo estava ali parada, mas não podia mais permanecer de pé. Não podia permitir que Alek chegasse do trabalho e a encontrasse ali parecendo um zumbi. Com esforço, arrumou-se, mas o vestido de seda parecia debochar dela. Lembrou-se do dia em que tinha ido fazer compras e da sensação de orgulho. Tão estupidamente orgulhosa. Como se gastar sozinha uma fortuna, em um cartão de crédito de um homem, fosse algum tipo de acontecimento extraordinário. Lembrou-se de como tinha sido fácil gastar o dinheiro dele. Apesar de todas suas palavras agressivas, era realmente diferente das outras mulheres que adoravam sua fortuna? Ele odiava mulheres interesseiras. Parecia odiar mulheres em geral, e agora ela compreendia o motivo. Fora o que ele vivera no passado que o deixara daquele jeito. Alek passara os primeiros anos de vida abandonado pela mãe e entregue aos cuidados do pai cruel. Era de se estranhar que houvesse trancado suas emoções e jogado fora a chave? A cada minuto, o nervosismo aumentava; porém, quando Alek chegou em casa e entrou na sala de estar, ela observou sua aparência exausta. Ela pretendia contar a novidade com jeito, mas talvez algo em sua expressão o tenha alertado, pois ele franziu o cenho tão logo pousou os olhos nela. – O que houve? Ela vinha quebrando a cabeça para descobrir a maneira certa de contar a história, mas talvez não houvesse maneira certa. Apenas narrar os fatos. Não podia protegê-lo do que estava prestes a contar, por mais que o quisesse. – Lembra-se daquela jornalista que escreveu aquela nota sobre nós dois? Ele ficou tenso. – Acho pouco provável esquecê-la. – Bem, ela veio aqui hoje. Ele fechou a cara. – Como ela descobriu meu endereço? – Acho que não é esse o problema. – Não? – Retorceu a boca. – Bem, minha privacidade é um problema, e achei que a esta altura você já tivesse entendido. O que lhe disse dessa vez? – Deu uma gargalhada amarga. – Você lhe


passou um relatório completo da trágica infância de seu marido? – Eu jamais... – Ou talvez tenha decidido anunciar a chegada do bebê – interrompeu –, embora tenhamos concordado em não dizer nada até se completarem as doze semanas. – Na verdade, foi ela quem trouxe novidades. – Hesitou e respirou fundo. – Ela me disse que você tem um irmão. Seus olhos se estreitaram. – Do que diabos está falando? – Na verdade, um irmão gêmeo. – Ela passou a língua nos lábios. – Você não sabia? – Não sei do que está falando – disse com frieza. – Ele pediu à jornalista que entrasse em contato com você para saber se estaria disposto a marcar um encontro. – Eu não tenho irmão! – vociferou. – Alek... – Mas as palavras sumiram quando o corpo foi trespassado pela dor mais lancinante que já sentira. Parecia que facas apunhalavam sua barriga com uma força cada vez maior. As pernas fraquejaram. Trêmula, tentou apoiar-se no parapeito da janela. Alek atravessou o aposento, o rosto contorcido de preocupação, e a segurou. Mas ela não queria sua preocupação. Apenas queria algo para cessar a dor. Não apenas a dor na barriga, mas também a dor no seu coração. – Vá embora! – murmurou. Então percebeu algo em seus olhos. Algo que a assustou. Por que a olhava daquele jeito? Por que seu rosto empalidecera? Seguindo a direção de seu olhar, viu o sangue que começava a pingar nas tábuas do assoalho. E, nesse momento, deve ter desmaiado.


CAPÍTULO 12

ALEK SENTIU a pontada de dor em seu coração – gelada, esmagadora. Não conseguia respirar. Tampouco pensar. Não podia ajudá-la e, mesmo que o quisesse, parecia que não teria chance de tentar. Ellie não quis que ele a acompanhasse na ambulância, como um dos paramédicos informou com expressão ligeiramente constrangida e sem coragem de encará-lo. Pela primeira vez em sua vida de adulto, descobriu a sensação de impotência. Não podia insistir em conduzir o assunto do seu jeito, ou controlar o que acontecia graças à força de sua personalidade ou de sua situação financeira. Estava sendo forçado a aceitar os fatos. Aceitar que Ellie passava mal e a vida do bebê corria perigo. Aceitar que ela estava sendo levada às pressas pelas ruas de Londres enquanto as luzes azuis piscavam e as sirenes tocavam, e que ela não o queria por perto. Um gosto amargo invadiu sua boca. Quem poderia culpá-la? Dirigiu o mais rápido possível rumo ao hospital. Seu infalível senso de direção falhou e ele se viu perdido entre os corredores do hospital, até uma gentil enfermeira apiedar-se e mostrar-lhe o caminho para a unidade. Com o coração na boca, aproximou-se do local branco e esterilizado. Mesmo assim, não lhe permitiram visitá-la. – Mas sou o marido dela – disse, sem saber se as palavras soavam falsas. Que direito tinha de se intitular marido de Ellie? Teria sido esse o motivo de a enfermeira-chefe da unidade o fitar com olhar de reprovação? Teria Ellie confessado a verdade em um momento de fraqueza e implorado às enfermeiras que não deixassem o homem que só lhe trouxera sofrimento aproximar-se? – O médico está com ela. – Por favor... – A voz falhou. Uma voz frágil, muito diferente da sua. Mas até então nunca havia pedido nada a ninguém. Não desde aquelas noites no conforto da maldita fortaleza do pai, quando permanecia acordado, com o travesseiro cobrindo-lhe o rosto, apavorado demais para chorar ou gritar. Ouvindo ao longe o grasnar das garças-reais noturnas que povoavam a ilha, ele tinha implorado em silêncio, a um deus indiferente, que trouxesse sua mãe de volta. E então, como agora, a solução estava fora de seu controle. As coisas não aconteciam simplesmente porque ele queria. Agora entendia que talvez tivesse dado as costas a qualquer relacionamento porque, no fundo, era incapaz de controlá-los, e esse controle se transformara em sua segurança em um mundo incerto. O coração parecia quase sair pela boca.


Ou talvez fosse porque até encontrar Ellie nunca tivera um relacionamento de verdade com ninguém. Ele olhou no fundo dos olhos da enfermeira-chefe. – Como ela está? – Seu estado está sob controle. – E... o bebê? A voz voltou a falhar. Não esperava que essa pergunta doesse tanto, nem que tivesse tamanha importância. Em que momento crítico aquela criança ainda por nascer penetrara em seu coração e ali se instalara? O mundo pareceu rodopiar quando o rosto da mulher assumiu uma expressão de calma controlada – como se tentasse tranquilizá-lo, porém sem despertar esperanças falsas. Ele imaginou que a mulher já devia ter ouvido a mesma pergunta um milhão de vezes. – Lamento, mas ainda é cedo para dizer. Não havia nada a fazer, exceto esperar. Assentiu cabisbaixo enquanto era conduzido à sala de espera que dava para uma parede de tijolos horrorosa. Havia uma pilha de revistas velhas em uma mesa lascada e um monte de tijolinhos de plásticos no canto, na certa para distrair as crianças, o que o emocionou. Crianças. Nunca quisera filhos – isso sempre tinha sido claro. Não queria que uma criança corresse o risco de passar por tudo o que ele passara. Mas agora, de repente, desejou aquele bebê com todas as forças. Queria educar a criança. Nunca abandonarei meu bebê nem o magoarei ou punirei, pensou decidido. De mim só receberá amor – mesmo que eu tenha que aprender a amá-lo desde o início. Fechou os olhos, ouvindo os minutos escoarem. Alguém lhe trouxe café num copo de plástico, mas ele nem sequer o tocou. E quando, por fim, o médico chegou à sala de espera, acompanhado de uma enfermeira de plantão, ele ergueu-se e conheceu o verdadeiro significado do medo. As mãos tremiam, geladas. O coração batia com força no peito. – Como ela está? – Está bem. Ainda em choque e assustada, mas fizemos uma ultra... – Uma ultra? – Por um segundo ficou confuso. Deu-se conta de que vinha pensando em grego e não em inglês, e a palavra lhe era desconhecida. – Precisávamos verificar se a gravidez ainda era viável, e fico contente em dizer que sim. – Ainda viável? – repetiu feito um tolo. – O bebê está passando bem – confirmou o médico com gentileza, como se falasse com uma criança. – Sua esposa teve uma hemorragia leve, o que é comum no início da gravidez. A partir de agora, vai precisar de repouso. Isso significa nada de correrias. Nem montar a cavalo. – Sorriu educadamente, como se fosse prepará-lo para algum golpe. – E, sinto muito, nada de sexo. Levaram-no ao quarto de Ellie, onde ela se encontrava deitada na cama estreita do hospital, mais branca que os lençóis. Os olhos permaneciam fechados e a franja estava empapada de suor, então seus cílios escuros causavam uma impressão dramática em contraste com a fronte pálida. Ela não se moveu e, atento às instruções do médico, sentou-se sem fazer barulho na cadeira ao lado da cama, cobrindo-lhe a mão com a sua. Não saberia dizer quanto tempo ficou ali, mas o resto do mundo parecia ter se evaporado. Avaliou o tempo pelo pingar lento do soro no braço de Ellie. E devia estar olhando para o soro quando ela acordou, pois quando ele moveu a cabeça viu os olhos cinzentos fixos neles. Tentou ler a expressão dela, mas em vão.


– Oi. Ela não respondeu, apenas desvencilhou a mão e tentou sentar-se, estendendo a mão e tocando sua barriga, erguendo o olhar agonizante. – O bebê? Ele meneou a cabeça. – Está bem. O bebê está bem. Ela soluçou ao se recostar nos travesseiros, a boca trêmula de alívio. – Então não foi um sonho. – Um sonho? – Alguém veio aqui. – Passou a língua nos lábios e fez uma pausa, como se o esforço de falar fosse excessivo. – Colocaram uma coisa fria na minha barriga. Ficaram movendo essa coisa em círculos. Disseram que ia ficar tudo bem, mas pensei... Sentiu-se completamente despreparado quando as palavras lhe faltaram e pensou: Você é o único responsável. Se não a tivesse afastado, se não tentasse impor suas regras idiotas, seria capaz de confortá-la agora. Seria capaz de tomá-la nos braços e dizer que daria tudo certo. Mas não podia. Não faria promessas que possivelmente não cumpriria. Promessas nas quais ela jamais acreditaria. Porém, estava ao seu alcance providenciar para que nada lhe faltasse. – Quietinha – sussurrou em um tom de voz meigo jamais usado, e ela fechou os olhos como se não suportasse mais fitá-lo. – O médico disse que você vai precisar repousar. – Eu sei – disse, as lágrimas escorrendo. Eles a mantiveram em observação durante a noite, e no dia seguinte foi liberada. Ela tentou recusar sua oferta de uma cadeira de rodas, afirmando que era perfeitamente capaz de ir andando até o carro. – Eles disseram que devo repousar, não passar os próximos seis meses me comportando como uma inválida. – Não vou correr riscos – respondeu, em um tom de voz que não admitia contestação. – E, se não aceitar a cadeira de rodas, vou ser obrigado a levar você no colo até o estacionamento. Você decide, Ellie. Ela lhe lançou um olhar furioso, mas não protestou quando ele a empurrou na cadeira de rodas até o carro. Permaneceu em silêncio até chegarem ao apartamento. Alek a instalou em um dos sofás macios e preparou o chá de gengibre de que ela tanto gostava. Ergueu o olhar, com expressão firme e calma, quando ele se aproximou com a bandeja. Respirou fundo. – Então, o que pretende fazer em relação ao seu irmão? Ele sentiu um aperto na garganta. Ela tinha pulado direto em sua jugular. – Meu irmão? – repetiu, como se ouvisse pela primeira vez aquela palavra. Como se não tivesse passado as últimas vinte e quatro horas tentando expurgar sua existência da mente. – No momento, minha mente está concentrada em você e no bebê. – Você está evitando o assunto – assinalou. – O que é típico de sua parte. Mas não vou deixar o assunto de lado. Pode acreditar. Antes de ir para o hospital, descobrimos algo sobre seu... – Não tenho irmão – interrompeu em tom áspero. – Estamos entendidos? Frustrada, ela balançou a cabeça. – Entendi que você é um cabeça-dura e teimoso! Pode não gostar da jornalista ou de seu jeito de se aproximar, mas isso não significa que esteja mentindo. Que motivos teria?


Cerrou os punhos, varrido por outra onda de impotência, só que nesse caso ele podia reagir. – Não estou preparado para discutir o assunto. Ela deu de ombros; o olhar resignado tornava sua expressão impassível. – Como preferir. E tenho certeza de que compreenderá também que não estou mais preparada para dormir com você. Vou voltar para o meu quarto. Alek hesitou. Doeu mais do que deveria, embora não fosse uma grande surpresa. Entretanto, algo o impelia a tentar manter a relação como antes e, por um segundo, pensou se seria o medo de perdê-la ou apenas o medo da perda em si. – Sei que o médico avisou que sexo está proibido, mas posso conviver com isso. Podemos dormir juntos. Se precisar de alguma coisa, estarei ao seu lado. Ela o encarou como se ele tivesse perdido o juízo. – Se eu precisar de alguma coisa, chamo você, Alek. – Mas... – A farsa acabou, Alek. Não vou mais dormir com um estranho. Ele a fitou com expressão incrédula. – Como podemos ser estranhos quando você sabe mais a meu respeito do que qualquer um? – Só sei alguma coisa porque insisti muito, e foi quase como tirar leite de pedra. E entendo o motivo. Tenho consciência de como foi penoso me contar e sei que o que aconteceu gerou o medo de não querer intimidade. Entendo perfeitamente. Mas também percebi que eu quero intimidade. Na verdade, anseio por intimidade. E não posso fazer sexo por fazer. Também não posso dormir abraçadinha com você à noite. É tudo muito confuso. Eu fico sem chão. Começo a achar que estamos nos aproximando, mas é claro que não. – Ellie... – Não – disse com firmeza. – É importante que eu diga o que penso, então, por favor, ouça. Não culpo você por sua atitude. Compreendo o motivo de você ser como é. Acho que posso até compreender a razão de não querer revirar o passado e não querer encontrar o irmão que afirma não ter, só que eu não consigo conviver com isso. Se eu estivesse em plena forma, acho que tentaria convencer você a mudar de ideia quanto a ficar comigo até o bebê nascer. Porque acho que nós dois reconhecemos que isso não tem mais cabimento, e espero que me conheça o suficiente para saber que vai poder ver seu filho sempre que quiser. – Ela abriu um sorriso triste, como quem se despede de alguém que nunca mais tornará a ver. – Eu gostaria de voltar para New Forest, encontrar um pequeno chalé, viver uma vida simples e cuidar de mim mesma. Mas obviamente não posso fazer isso, porque os médicos não me darão autorização e porque você mora em Londres. – Ellie... – Não. Por favor. Deixe que eu termine. Quero que saiba que sou grata por estar aqui e por você estar cuidando de mim e do bebê, porque a partir de agora só o bebê interessa. O bebê, única e exclusivamente. – A voz dela tremia. – Porque nunca mais quero contato físico com você, Alek. Não posso correr o risco de um sofrimento em potencial. Você entende? E o terrível é que ele entendia. Concordava com cada uma das palavras sensatas dela. Aceitava cada ponto, apesar de uma sensação desconhecida borbulhar dentro dele e impeli-lo a contestar. A convencê-la do contrário. Mas não podia. Uma das razões do seu sucesso no mundo dos negócios era a habilidade de ver adiante, sua visão de raio X sempre que examinava um negócio falido com a intenção de


torná-lo proveitoso e lucrativo. Entendeu que deveria usar o mesmo tipo de lógica naquele momento. Não adiantava insistir no que não tinha futuro. Ele havia destruído qualquer possibilidade de ter uma vida em comum com a mãe de seu filho e precisava aceitar a decisão dela e se conformar. De qualquer maneira, ela seria mais feliz sem ele. Sem um homem que não sabia expressar seus sentimentos. Sem um homem covarde demais para sequer tentar. Uma dor como um vento frio e implacável o percorreu. – Eu compreendo – respondeu.


CAPÍTULO 13

ENTÃO POR que estava tão atormentado? Alek olhou pela janela do escritório e, impaciente, tamborilou os dedos na escrivaninha. Por que não podia aceitar uma vida que – apesar de ter uma esposa grávida morando em seu apartamento – ainda se encaixava à perfeição em suas necessidades? Disse a si mesmo que as coisas não eram, na verdade, tão diferentes. Por que se incomodar tanto com o fato de ele e Ellie terem voltado a dormir em quartos separados? Ele continuava indo todas as manhãs para o trabalho, como sempre, embora Ellie tivesse passado a dormir até mais tarde e não tomarem juntos o café da manhã. Pelo menos, ele imaginava que ela estivesse dormindo. Talvez estivesse acordada fazendo movimentos de ioga nua enquanto o sol nascia. Ou mergulhada, com a barriga que começava a crescer, em uma banheira cheia de bolhas sensuais. Não fazia ideia do que se passava por trás da porta do quarto, embora tivesse fantasiado sobre isso muitas vezes. Droga, e como fantasiava. Não sabia se a frustração estava estampada em seu rosto. Se havia se entregado numa manhã dessas quando inesperadamente a encontrara voltando da cozinha com uma caneca de chá de gengibre, quando ele estava prestes a atender uma ligação de videoconferência bem cedo. O cabelo caía encantadoramente despenteado em seus ombros e o roupão largo e florido conseguia ao mesmo tempo esconder e enfatizar seu corpo em transformação. A pele estava reluzente, os olhos, cintilantes, apesar de ser muito cedo. Ela parecia mais uma adolescente que uma mulher de 25 anos, e ele sentira uma pontada de arrependimento. No dia anterior, o médico a examinara e a cumprimentara. A mãe e o bebê passavam muito bem e Alek disse a si mesmo que ao menos algo positivo emergira de toda aquela história. Mas não era engraçado como sempre se deseja o que não se tem? Caso contrário, por qual motivo ele ansiava cada vez mais por sua companhia e desejava que ela se demorasse depois do jantar antes de ir para o quarto? Torcia para que ela dissesse alguma coisa – qualquer coisa – além das observações educadas sobre o que fizera durante o dia. Ele fizera algumas concessões para se adequar à gravidez, mas nem isso havia alterado a decisão da mulher. Ele não engolira as palavras e tinha comparecido àquelas malditas aulas do curso pré-natal onde esperavam que eles deitassem no chão e bufassem como um bando de baleias? Não obstante, ela mantinha a distância. Ele sentiu uma pontada na consciência. Não era assim que costumava sentir-se em


relação a ela? E não vinha descobrindo que não gostava de ser posto de lado? Entretanto, ansiava por ela. De maneiras que nada tinham a ver com sexo. Ele vinha pensando nisso a semana inteira, sem encontrar soluções para mudar o atual estado de coisas, quando, no sábado à noite, ela o fitou do outro lado da mesa de jantar com uma expressão estranha no rosto. – Quero que saiba – disse, daquele jeito cauteloso que as pessoas usam quando ensaiaram dizer alguma coisa –, que se você decidir sair com outras... mulheres, eu não vou me importar. A faca desabou no prato com estrondo. O coração bateu forte. Poucas vezes havia se sentido tão chocado. Ou furioso. – Repita – disse entre os dentes. – Você ouviu muito bem, Alek. Só peço que seja discreto, só isso. Eu não quero... – Ei, espere um minuto. – Embora viesse tentando evitar interrompê-la ultimamente, ele se inclinou sobre a mesa e a encarou. – Você está me dizendo que quer que eu comece a sair com outras mulheres? Ellie não respondeu, ou melhor, não de imediato. Ela mexeu no guardanapo um bom tempo para recuperar a compostura, repetindo a si mesma que essa era a única solução. Não podia mantê-lo acorrentado como um leão adestrado. – Não sei se querer é o verbo certo... – Talvez você queira olhar – sugeriu com grosseria. – Talvez isso seja uma de suas fantasias. A ideia de me ver fazendo sexo com outra pessoa a excita, Ellie? – Não seja nojento! – replicou, as bochechas ficando ruborizadas. – Não é nada disso e você sabe! – Sei? – indagou furioso. – O que devo pensar, quando você me dá sua bênção para eu fazer sexo com outra pessoa enquanto ainda mora debaixo do mesmo teto que eu? Ela o encarou. – Eu não estava dando minha bênção. Estou tentando ser justa! – Justa? – repetiu indignado. – Isso mesmo, justa. – Ela tomou um gole d’água, a mão trêmula. – Sei que você é um homem viril, saudável, com apetite sexual, e eu não deveria esperar que você se reprima só porque... – Porque você não me deseja mais? Ellie engoliu em seco ao deparar com a acusação nos olhos azuis. Ah, quem dera! Quem dera fosse simples assim. – Não é que eu não deseje você. – Nesse caso, você é masoquista e sente prazer em dormirmos separados? Gosta que eu passe quase a noite inteira sem dormir sabendo que você está no quarto ao lado? – Eu já disse. Não posso fingir intimidade. E não comecei essa conversa para discutir os motivos de não dormir com você. – Então, por que motivo começou? – Estou tentando ser gentil. – Gentil? – Ele a fitou incrédulo. – E como isso funciona? – Só estou sugerindo que, se você quiser aliviar suas frustrações, sinta-se à vontade; mas, por favor, seja discreto. Não quero saber ou ver, só isso. Fez-se um breve silêncio enquanto ele olhou os punhos cerrados e, em seguida, ergueu o olhar. Havia algo irreconhecível em seus olhos.


– Por que não com você? – perguntou diretamente. – Se você é a única mulher que desejo. Quando nós dois sabemos que, se eu desse a volta na mesa e começasse a beijá-la você se incendiaria, como acontece sempre que a toco. – Então por que não faz isso? – provocou. – Por que não assume o controle, já que é tão bom nisso? Por que não tira a decisão das minhas mãos? Ele fez que não com a cabeça e deu uma risada. – Porque seria fácil demais. Um arranjo a curto prazo, não uma solução a longo prazo. Você tem que ficar comigo porque deseja, Ellie, não porque seu corpo reage a algum estímulo meu. Ela olhou o guardanapo. O copo d’água. Mas, quando ergueu o rosto, balançou a cabeça. – Não posso. Seria insano tentar. Estamos planejando um divórcio dentro de pouco tempo e quero me acostumar com a decisão. Estou tentando me habituar às vidas separadas que concordamos em levar. Por um minuto fez-se silêncio. – E se eu dissesse que não quero vidas separadas ou um divórcio? – perguntou por fim. – Que quero começar tudo de novo, só que dessa vez fazer tudo diferente? Podemos ir com calma, se preferir. Vou cortejar você, se é isso o que deseja. Vou conquistá-la com flores. Não atenderei ligações de trabalho quando sairmos. Farei tudo o que for preciso, se você me der outra chance. Os olhos brilhantes mergulharam nos seus e, por um momento, Ellie perdeu a fala, pois teve a sensação de que Alek não fazia propostas assim com frequência. Não havia sonhado com um momento desses, embora dissesse a si mesma que isso jamais aconteceria? Mas estava acontecendo. Ele estava ali sentado dizendo coisas com que ela sonhara e a tentação era muito forte, pois quando Alek agia com tranquilidade e buscava a paz era um bocado irresistível. Os olhos azuis estavam radiantes; os lábios, separados, como se ele já esperasse por seu beijo – e ela não queria desesperadamente beijá-lo? Poderia atirar-se em seus braços e se perderem um no outro, e... E o quê? Por quanto tempo até que a vida doméstica o entediasse? Até que as exigências emocionais que ela inevitavelmente faria se tornassem tediosas demais para ele suportar? Porque ele ainda não havia conversado, se aberto. Não sobre assuntos que realmente importavam. Ainda negava ter um irmão. Ele agia assim apenas porque barganhava com ela. Porque era provavelmente frustrante que ela não se atirasse em seus braços cheia de gratidão. Ela balançou a cabeça. – Não posso. – Por que não? Ellie se deu conta de que ele provavelmente ficaria com o orgulho ferido, mas talvez isso não fosse má ideia. Ela precisava mostrar-lhe que o assunto era mais importante que o orgulho. Precisava reunir coragem e força suficientes para expor algumas duras verdades. – Porque não consigo imaginar minha vida com um homem que vive fugindo. – Fugindo? – repetiu, e ela percebeu uma ponta de raiva crescendo em sua voz. – Está me acusando de covardia, Ellie? – Cabe a você fazer o diagnóstico, não a mim. – Ela contemplou o pequeno vaso de flores azuis no centro da mesa. Pensou na delicadeza das pétalas. Na verdade, quando se presta atenção, percebe-se como a maioria das coisas na vida é delicada. Ergueu o olhar e o fitou, tentando não reagir à raiva. – Quando você me falou de sua família, de sua mãe ter ido embora


e o abandonado e o efeito que isso causou, eu entendi o motivo de você nunca ter tentado entrar em contato com ela. Compreendi que você transformou sua raiva em sucesso e que foi mais fácil virar as costas para o passado. Mas agora você é adulto, tem o mundo em suas mãos, é o homem mais bem-sucedido que conheci. É inteligente, rico e, apesar disso, quando ouviu que tinha um irmão, decidiu agir como se nada tivesse acontecido! Ele inclinou a cabeça e ficou em silêncio. Quando, por fim, a fitou, Ellie chegou a tremer ao ver a dor estampada em seus olhos. – Não apenas um irmão. Acho que eu podia aceitar isso. Mas um irmão gêmeo? Tem ideia do que isso significa, se for verdade? Por acaso pensou a respeito disso, Ellie? Ela não teve outro filho com outro homem. Ela teve um da mesma idade que eu. Ela o levou com ela e me deixou para trás. Eu fui o filho que ela rejeitou. Fui o filho que ela não quis. Como você acha que me sinto? – Acho que você não sente nada – sussurrou em resposta. – Porque você está reprimindo seus sentimentos como sempre fez. Está ignorando o fato e fingindo que ele não existe e torcendo para ir embora. Mas isso não vai embora. Eu não vou parar de tocar nesse assunto e você vai acabar ficando com raiva de mim, amargurado. E não quero um homem assim. Quero alguém capaz de enfrentar a realidade. Alguém capaz de aceitar seus sentimentos, por mais que doa, e que não tenha medo de demonstrá-los. Ela se inclinou, a voz fervorosa. – O que a gente imagina é sempre pior do que a verdade. Eu posso afirmar isso. Quando encontrei meu pai, todos os sonhos que havia alimentado sobre nos tornarmos uma grande e feliz família foram destruídos no momento em que ele empurrou a mesa e derramou meu cappuccino. É claro que fiquei decepcionada. Mas, depois, eu me senti... bem, eu me senti livre, suponho. Eu podia deixar de lado todas aquelas fantasias tolas. Porque é melhor lidar com a realidade do que com os sonhos. Ou com os pesadelos – concluiu, erguendo-se. Ela olhou seu rosto e viu a dor estampada nele. Uma dor tão profunda e lancinante que instintivamente ela sentiu o impulso de acariciar seu rosto, de confortá-lo. Mas tinha plena consciência de que não poderia livrá-lo de seus pesadelos. Não podia curar Alek. Ele teria que se encarregar disso por conta própria.


CAPÍTULO 14

ELE NÃO avisou sobre sua partida até o dia da viagem, quando Ellie entrou na cozinha e o encontrou tomando café e viu a maleta de couro no chão perto de seus pés. Alek se voltou quando ela entrou no cômodo e, embora seus olhos nada demonstrassem, o corpo forte estava tenso. Um arrepio de apreensão percorreu a espinha de Ellie. – Você vai viajar a trabalho? – perguntou. Ele balançou a cabeça. – Vou a Paris. O medo e o pavor apunhalaram seu coração em rápida sucessão. Paris. A cidade do amor. Ela baixou o rosto. Uma maleta para uma viagem curta. O medo aumentou. – Você decidiu aceitar minha proposta? – perguntou horrorizada. Ele franziu o cenho. – Qual proposta? – Você está saindo com alguém? Ele franziu as sobrancelhas. Ela viu uma veia pulsar em sua têmpora. – Ficou maluca? Vou encontrar meu irmão. Telefonei para a jornalista e conversamos. Ela me deu as coordenadas e enviei um e-mail para ele. Vamos almoçar mais tarde no Paris Ritz. O coração de Ellie encheu-se de uma complexa miscelânea de emoções. Sentiu alívio por ele não ter levado a sério sua tola sugestão, bem como alegria por ele ter tomado a decisão de marcar um encontro com o irmão. Mas havia também decepção. Ele estava encarando seus demônios, porém não havia parado para pensar que ela talvez também quisesse participar. Estava curiosa para encontrar o tio do seu bebê. E não seria possível servir de apoio ao marido se ficasse ao seu lado? Irritada, deu um passo em sua direção, mas foi interrompida pelo enfático balançar de cabeça dele. – Por favor, não. Demonstrações de carinho são a última coisa com que quero lidar no momento. Levando-se em conta as circunstâncias, não era uma reação irracional, o que não a impediu de ficar magoada. Os braços penderam inúteis ao longo do corpo, enquanto apertava os lábios. Afinal, por que ele deveria aceitar sua solidariedade ou ajuda quando ela havia passado semanas mantendo distância, tentando afastá-lo? Ela meneou a cabeça.


– Boa sorte – disse baixinho, embora nunca houvesse sentido tanta vontade de dar-lhe um beijo. Passou o dia tentando não pensar no que podia estar acontecendo na França. Disse a si mesma que Alek não telefonaria e tinha razão. Toda vez que olhava o celular – com muita frequência, por sinal –, não havia mensagens de texto ou ligações perdidas, e a pequena tela permanecia irritantemente em branco. Cancelou o almoço agendado com Alannah, com medo de se comportar de maneira idiota e talvez até chorar. Ou pior, de despejar toda a verdadeira história. E não podia agir assim. Ela não era a única envolvida. Já traíra a confiança de Alek uma vez, e repetir isso – dessa vez por livre e espontânea vontade – seria imperdoável. Tentou manter-se ocupada. Como ventava, vestiu um casaco e caminhou pelo parque, cujas folhas exibiam as distintas cores pinceladas de bronze do outono. Foi comprar comida na pequena delicatéssen que tinha descoberto, localizada numa ruazinha estreita atrás das lojas elegantes de Knightsbridge, e comprou todas as comidas preferidas de Alek. Entretanto, independentemente do que fazia, não conseguia parar de pensar nas perguntas que só seriam respondidas quando ele chegasse em casa, embora lhe tivesse ocorrido, em determinado momento, que talvez ele decidisse não contar nada. Ele era naturalmente discreto, fechado, e isso não necessariamente devia ter mudado. Descobrir algo sobre seu passado não iria necessariamente transformá-lo em outra pessoa, em alguém aberto, disposto a fazer confidências. Ela foi deitar por volta das 23h e algum tempo depois ouviu o barulho da chave na fechadura e a porta ser fechada devagar. A garganta ficou seca. Ele tinha chegado em casa. Podia ouvir seus passos, como se não quisesse acordá-la, mas, quando passou pela sua porta, ela o chamou. – Alek. Os passos se detiveram. O piso rangeu e fez-se silêncio. – Alek – repetiu. A porta se abriu e um clarão de luz penetrou no quarto como um holofote. Ela piscou um pouco e sentou-se, afastando os cabelos dos olhos. Tentou enxergar seu rosto, mas os olhos estavam mergulhados na sombra, e ela só conseguia ver o corpo alto e musculoso contra a luz forte. – Você está bem? – perguntou. – Não queria acordar você. – Não quer... entrar? – perguntou nervosa, ao acender o abajur. – Conte o que aconteceu. No fundo, achava que ele se recusaria e a informaria com frieza que lhe contaria tudo – bem, talvez quase tudo – pela manhã. Essa seria uma atitude típica do Alek que conhecia. Mas ele não se comportou assim. Entrou no quarto e sentou-se na beirada da cama. Ela percebeu que ele manteve distância, como se certificando-se de estar fora do alcance de suas mãos. E feito uma tola – porque isso era bastante inapropriado nas atuais circunstâncias – ela se pegou desejando estar usando uma camisola provocativa, e não uma camiseta largona cuja única vantagem era o conforto. – Então – disse nervosa –, o que aconteceu? Alek notou que ela mordia o lábio. Olhou os cabelos sedosos descendo pelos ombros e a ansiedade que não conseguia esconder. Ele achava que ela o amava, mas não podia ter certeza. Apertou os lábios. Como é possível saber se uma mulher ama a gente de verdade? Ele não tinha parâmetros de comparação.


– Nós nos encontramos. Depois de conversamos um pouco, ele me mostrou umas fotos. As primeiras... – a voz estremeceu ligeiramente. – As primeiras fotos que eu vi dela. Ellie meneou a cabeça. Engoliu em seco. – Como ela é? Ele inclinou a cabeça para trás e olhou para o teto. – Ela era muito bonita, mesmo nas últimas fotos. Tinha os cabelos pretos e fartos e os mais incríveis olhos azuis que já vi. – Quer dizer, como os seus? Ele abriu um sorriso triste ao voltar a fitá-la. – É verdade. Iguais aos meus. – Tinha sido muito estranho constatar a semelhança física com alguém de quem só ouvira falar em termos negativos. Uma mulher de vestido de algodão, sob o sol e cujo rosto demonstrava uma tristeza imensa. – E como é seu irmão? As palavras de Ellie penetraram em seus pensamentos, e Alek abriu a boca para responder, mas até mesmo a mais articulada pessoa do mundo encontraria dificuldade para expressar os sentimentos conflitantes que se abateram sobre ele ao ver o irmão gêmeo pela primeira vez. – Ele é parecido comigo – disse afinal. – Seu irmão gêmeo é parecido com você? Não me diga. E, inesperadamente, ele começou a rir. A brincadeira conseguira o impossível, e tirou um pouco da seriedade da situação. Ele recordou como se sentira ao entrar no famoso hotel e ver o homem de cabelos pretos e rosto tão assustadoramente igual ao seu olhando para ele do outro lado do restaurante. Recordou-se da esmagadora sensação de reconhecimento que o abalou e momentaneamente o deixou sem ar. – O nome dele é Loukas, mas os olhos dele são pretos, e não azuis. E essa tinha sido a única diferença física que ele fora capaz de detectar; embora, depois da segunda garrafa de vinho, Loukas tivesse falado sobre as cicatrizes em suas costas e o que as causara. Ele tinha contado muitas coisas. Algumas difíceis de ouvir. Algumas ele quis esquecer no mesmo instante. Falou sobre a mãe que tinha muito azar para escolher seus homens, e como isso influenciara negativamente sua vida. Sobre sua infância pobre, bem diferente da de Alek, mas também problemática. Problemas sérios que Loukas prometeu contar outro dia. – Ele vinha tentando encontrar você faz muito tempo? – perguntou num sussurro. Ele fez que não com a cabeça. – Ele só descobriu sobre a minha existência no ano passado, quando a mãe dele... a nossa mãe... morreu. – Puxa, Alek. Ele balançou a cabeça, despreparado para receber a onda de emoção que ameaçava explodir caso fizesse o que vinha tentando conter durante todo o dia. Pigarreou e concentrou-se nos fatos. – Ela deixou uma longa carta explicando por que tinha agido daquela maneira. Na carta, dizia que não conseguia mais viver com meu pai, pois seus acessos de raiva e infidelidades se tornavam insuportáveis. Ela não tinha dinheiro nem influência, estava aprisionada em sua ilha. Achou que ele arruinaria a vida de nós três se ela continuasse ali, mas também sabia que não tinha condições de cuidar de dois bebês. Então, ela... ela escolheu Loukas.


Ela meneou a cabeça sem nada dizer. Por um segundo, ele achou que ela não perguntaria nada, mas é claro que ela se manifestou. Afinal, aquela era Ellie. – Como ela escolheu? Outro silêncio. – Tirou cara ou coroa. – Ah. – A voz era baixinha. – Ah, entendi. Ele deu uma risada amarga. Não era um homem dado a voos de imaginação, mas imaginou com clareza o momento antes de ela sair daquela casa para sempre. Ele queria que o irmão tivesse mentido, inventado um conto de fadas, que lhe tivesse dito que a mãe escolhera Loukas por ele ser mais fraco, ou por achar que Alek ficaria melhor por ser dois minutos mais velho e meio quilo mais pesado. Ou porque Loukas havia chorado no minuto em que ela se decidia e isso lhe despedaçara o coração. Mas não. Era algo bem mais prosaico. Seu destino e o destino do irmão haviam sido decididos por uma moeda jogada no ar, até o momento em que a moeda pousou nas costas de sua mão e a mãe a tapou com a palma. O que será que pensou quando olhou a moeda e viu qual menino iria com ela e qual seria deixado para trás? Teria achado fácil dar as costas para ele? – Minha mãe jogou uma moeda e eu perdi – disse. Outro silêncio. Dessa vez, bem mais longo. – Sabe que ela fez isso por amar você? – perguntou de repente. – Você se dá conta disso? Ele levantou a cabeça, mal percebendo as lágrimas que pareciam teimar em jorrar. – De que diabos está falando? – Ela agiu assim porque amava você – repetiu com mais ênfase. – É a única explicação. Devia estar alucinada de preocupação. Tinha consciência de que mal tinha condições de cuidar de um bebê, quanto mais de dois. Se ela tivesse levado os dois filhos, seu pai iria atrás de vocês. Definitivamente. Deve ter imaginado que seu pai ficaria satisfeito em ficar com um filho e que ele o amaria muito. Mas ele não podia. Ele simplesmente não podia, por razões que provavelmente você jamais saberá. Mas o que precisa fazer é parar de pensar que tudo isso aconteceu porque não é merecedor de amor, pois isso não é verdade. Precisa aceitar que você é uma pessoa digna de amor e seria muito amado se parasse de afastar as pessoas. Nosso bebê vai amar você, disso tenho certeza. Eu tenho tanto amor em meu coração que estou louca para entregar a você, se permitisse. Ah, meu querido, meu querido. Está tudo bem. Está tudo bem. Ah, Alek, venha aqui. – Os olhos de Ellie ficaram marejados de lágrimas. – Tudo vai dar certo. Ela o abraçou e Alek fez o que vinha tentando o dia inteiro não fazer, isto é, chorar. Derramou lágrimas que nunca antes havia derramado. Lágrimas de dor e de solidão, que por fim o levaram a entender que finalmente estava livre. Livre do passado e de seus tenebrosos tentáculos. Ele havia conseguido desvencilhar-se do passado graças a Ellie. A mão tremia quando ele afastou os cabelos claros do rosto da mulher e a fitou. – Você nunca vai fazer isso – disse. Ela virou devagar a cabeça, de modo a beijar a mão que lhe segurava o rosto. – Fazer o quê? – Abandonar nosso bebê. Ela voltou a cabeça à posição inicial, mordendo o lábio, os olhos cinzas escurecendo. – Não quero julgar sua mãe nem comparar...


– Não era esse o meu objetivo – comentou ele baixinho. – Estou apenas constatando um fato e deixando que o sentimento de gratidão tome conta de mim. Eu sei que não agi bem com você, Ellie, e muitas mulheres teriam perdido a paciência comigo. Entretanto, você não agiu assim. Você continuou ao meu lado. Você me deu força e me ensinou o caminho a trilhar. No fundo, ele esperava uma resposta, que pairou no ar quando ela olhou dentro de seus olhos. – Porque eu amo você – confessou. – Já deve ter percebido, certo? Contudo, às vezes, o amor significa dar um passo atrás, porque ele nunca pode florescer se há segredos escondidos, se não nos abrirmos e falarmos de tudo que nos atormenta. – E eu amo você – disse ele, estendendo a mão livre e a pousando possessivamente na barriga, onde ela trazia o filho por nascer. Ele sentiu um nó na garganta quando sentiu a barriga se mover. – Amo você e nosso bebê e amarei os dois para sempre. Eu vou cuidar de vocês dois e nunca os decepcionarei. Pode ter certeza absoluta, poulaki mou. Nunca vou decepcionar você. Ele podia sentir o gosto de sal das lágrimas de Ellie quando a beijou e fez o que vinha desejando havia tempos. Deitou-se ao seu lado e a abraçou, mantendo-a bem apertada contra seu coração.


EPÍLOGO

– ENTÃO, QUE tal estar de volta? – As palavras de Ellie pareciam flutuar no ar quente noturno em direção ao marido. – É estranho? A lua brilhava entrando pelas janelas abertas e transformando o aposento em um ambiente de fantasia em índigo e prateado. Sobre as cabeças dos dois girava um enorme ventilador antigo, e os corpos estavam enroscados nos lençóis. O leve aroma de sexo pairava no ar, misturando-se ao perfume dos limões espremidos na jarra ao lado da cama. Ellie virou de lado e olhou Alek, deitado ao seu lado com os braços esticados sobre a cabeça, parecendo um quadro que retratasse o contentamento absoluto. Esperaram muito tempo para realizar a viagem a Kristalothos. Esperaram até se sentirem preparados. Uma viagem à ilha da infância de Alek – um local que simbolizava o terror e o sofrimento do passado – nunca estaria em primeiro lugar na lista de prioridades. Na verdade, Ellie se surpreendera quando, pela primeira vez, Alek havia sugerido a viagem, pois, embora a vida deles fosse agitada, beirava a perfeição. O nascimento do filho, dois anos antes, coroara a felicidade do casal, e Ellie tinha ficado... Engoliu em seco. Tinha ficado com medo de que voltar representasse um teste para a felicidade e ameaçasse destruí-la? Assustada achando que ele pudesse voltar a ser o Alek de antigamente, fechado, que a mantivera afastada de seu coração? Ou que a realidade ao confrontar o passado pudesse renovar a amargura do marido? Sim, ela havia pensado em tudo isso – e ainda mais. Mas havia afugentado os temores e aceitado os planos do marido com entusiasmo, porque havia percebido que se tratava de algo que ele precisava fazer. Não tinha sido ela quem insistira que é preciso enfrentar nossos medos em vez de fugir deles? E talvez houvesse alguma verdade quando diziam que é impossível alguém seguir em frente até fazer as pazes com o passado. Depois de muita conversa, tinham decidido deixar o filho na Inglaterra. Loukas, o filho adorado, que fora batizado com o nome do irmão de Alek e que lhes trouxera tanta alegria e felicidade. Tinha sido o bebezinho o responsável pela crescente habilidade de Alek de demonstrar emoção. Porque as crianças amavam incondicionalmente, e Alek agora sentia o mesmo. Ele aprendera que o verdadeiro amor não conhece limites. Por vezes, Ellie ficava observando enquanto ele brincava com o filho, e o coração se enchia de orgulho e afeto.


Mas uma criança agitada de dois anos não era a companhia ideal para uma viagem catártica que, na certa, seria dolorosa emocionalmente. Por esse motivo tinham deixado o filho com Bridget, que se tornara sua avó postiça. Ellie e Alek alugaram um barco de Atenas, que os levara até Kristalothos, a ilha onde Alek passara a infância. O barco deixava uma trilha de espuma no mar escuro. Haviam chegado em uma manhã de primavera, quando as flores selvagens se espalhavam pelas colinas baixas e o mar se apresentava claro como cristal. O barco ancorou junto à areia fina e branca. Quando olhou ao redor com expressão ligeiramente deslumbrada, Alek lhe disse que o lugar tinha mudado tanto que estava irreconhecível. Algumas das alterações ele havia descoberto antes, quando fazia planos para a viagem, mas era diferente ver com os próprios olhos. A constatação o fez observar que nada jamais permanecia igual. O dono do hotel, um grego chamado Zak Constantides, havia comprado a antiga fortaleza do pai e a demolido, construindo em seu lugar um hotel butique, que logo se tornou tão badalado quanto seu icônico London Granchester. Alex, contudo, preferira alugar uma villa em vez de hospedar-se no hotel, e Ellie ficou satisfeita, pois não queria passar uma noite sequer no local onde um menino havia sido infeliz durante tantos anos. Ela se debruçou em meio à cama desarrumada e acariciou com as pontas dos dedos o peito bronzeado. Seu carinho pareceu tirá-lo de seus pensamentos. Ele sorriu quando a abraçou e pensou na pergunta que ela fizera. Que tal estar de volta? Pensativo, acariciou-lhe os cabelos. – É meio esquisito – admitiu. – Mas deixou de doer. Passou. E estou contente por ter vindo, porque eu precisava fazer isso. Outro fantasma voltou a dormir. Gosto do fato de que o hotel de Zak trouxe trabalho e prosperidade à ilha e que o lugar não seja mais administrado por meio do medo e da opressão. – Eu também estou contente – disse, aconchegando-se. – Estou contente com tantas coisas – disse ele. – Basicamente por ter uma esposa maravilhosa e um filho igualmente maravilhoso, que me enchem de uma alegria que eu não imaginava existir. – Ele ergueu o queixo da amada com a ponta do dedo a fim de admirar o brilho de seus olhos à luz da lua. – Estou até contente por ter um irmão, embora... – Embora Loukas tenha seus próprios demônios – concluiu baixinho. – É verdade. Mas não é em Loukas que estou pensando neste momento, poulaki mou. É em você. – Ele se deitou em cima dela, os dedos brincando com seus cabelos enquanto sentia a maciez do corpo sob o dele. – Porque sem você eu nada teria. Sou quem sou graças a você, Ellie. Você me fez enfrentar coisas que eu tinha passado a vida evitando. Me fez olhar para dentro de mim mesmo, por mais que eu evitasse. Eu aprendi... – O que aprendeu? – perguntou com meiguice, quando a voz dele ficou embargada. Ele deu de ombros. – Que é melhor encarar a verdade, e não fugir dela. E que sentimentos, mesmo os mais fortes, não matam; pelo contrário, tornam a gente mais forte. Você me ensinou tudo o que vale a pena saber, e eu amo você por tudo isso, Ellie Sarantos. E por um milhão de outros motivos. – Ele franziu a testa com ar debochado. – Apesar de sua teimosia, apesar de ter me proibido de anunciar a novidade ao mundo.


Ele passou devagar o dedo em seu colo. Ele quisera celebrar uma segunda cerimônia de casamento, dessa vez com mais convidados, na Catedral Grega em Londres, com o objetivo de demonstrar seu amor por ela porque sentia que a primeira cerimônia não satisfizera todas as expectativas da mulher amada. Por um tempo, Ellie havia concordado e chegara a consultar uma cerimonialista e ouvido sobre os méritos de um quarteto de cordas versus uma banda de bandolins gregos, uma tradição antiga, para a recepção. Até que certa manhã, durante o café da manhã, ela informou que não precisava de declarações ou de despesas extras. Para ela, bastava saber que ele a amava, e nos momentos de privacidade de seu precioso relacionamento suas sinceras palavras de amor representavam bem mais do que um caminhão cheio de confetes. E essa não era outra característica de sua personalidade que o fazia amá-la tanto? Ela não se interessava por coisas pelas quais tantas pessoas seriam capazes de matar. Não precisava de demonstrações nem de nenhum tipo de declaração. Não precisava provar nada. Não lhe importavam diamantes, e, embora usasse vestidos de seda porque sabia que ele gostava, sentia-se mais feliz usando jeans e camiseta. Ela era a mesma Ellie – a mesma mulher simples e direta por quem ele se apaixonara –, e ele não queria que ela mudasse. Ele segurou seus seios com as duas mãos e ela emitiu um gemido rouco, porque adorava seu carinho. Theos, e como ele também gostava. Bem, ele gostava de tudo em sua meiga e linda mulher. – Devo fazer amor com você agora? – perguntou. Ela passou as pontas de dedos na sombra escura de seu queixo, acompanhando o gesto com os lábios macios. – Sim, por favor – sussurrou. Estavam no lugar em que ele nascera, mas poderiam estar em qualquer outro lugar. Um lugar que antes simbolizara tristeza e sofrimento, mas não mais. Porque Ellie fazia qualquer lugar parecer o lar que ele nunca tivera de verdade. Ellie trouxera vida à sua vida. Ele inclinou a cabeça e a beijou enquanto as garças-reais noturnas se reuniam em torno da baía de águas agitadas vista da janela.


O REI LEGÍTIMO DE DAHAAR Tara Pammi

– Eu já tinha me consultado com todos os médico que pude em Dahaar. Nenhum deles me deu um diagnóstico conclusivo. Só me diziam que era normal, que eu tinha que aprender a lidar com isso. Aquela dor acabava comigo todos os meses. Meu pai... – Ela pigarreou. – Eu ficava tão zangada com ele. Minha mãe já havia morrido quando as dores começaram, e ele… – Nikhat sentiu a força da raiva de Azeez e deu vazão à sua. – Ele não podia conversar sobre o assunto, nem sequer chegava perto de mim. Era tradicional demais para isso. Mas também não ignorou o meu problema. Ele me mandou para Nova York com uma amiga da família. Alguém recomendou um especialista lá. Fiz um monte de exames. No prazo de uma semana, recomendou esses remédios e outras medidas. – Foi por isso que você se tornou ginecologista e obstetra? Nikhat assentiu, contente em poder compartilhar ao menos metade da verdade. – Nenhuma mulher deve ser obrigada a sofrer esse tipo de dor por tantos anos. Quero atrair mais a atenção para esse problema. Já é um assunto difícil para uma jovem. Então, quando alguém tem coragem de falar, lhe dizem repetidamente para apenas viver assim, que é natural. Nada nessa dor é suportável. Azeez segurou-lhe os braços com mais força e, quando falou, sua voz era baixa, grave e cheia de orgulho, o que a enterneceu. – Você terá êxito. Não tenho dúvida disso. Elabore uma proposta. Converse com alguns especialistas da área que gostariam de trabalhar em Dahaar. Pense em cada recurso de que possa precisar e coloque-o nessa proposta. Tem meu completo apoio e a minha fortuna pessoal à sua disposição. Lágrimas marejaram os olhos dela e, dessa vez, não as conteve. Não eram provenientes de dor ou sofrimento. Naqueles dois primeiros anos depois que partira, estando entre estranhos, pensando que ele se fora para sempre, perdera sua fé, duvidara de sua habilidade de fazer o que quisera. O orgulho brilhando nos olhos de Azeez era como seu verdadeiro prêmio. Achava-a forte, capaz.


– E eu aqui presumindo que você era um príncipe empobrecido, derrotado. – Ela riu por entre as lágrimas. – Tenho que me lembrar de ser boa com você. Ele curvou os lábios num sorriso que lhe deixou os olhos delineados por cílios espessos mais expressivos. – Vai agradar o príncipe pelo dinheiro? Estou bastante desapontado com você, dra. Zakhari – gracejou, fazendo-a rir mais. Cedendo à vontade, Nikhat segurou-lhe a face com uma das mãos. Traçou-lhe os contornos do maxilar com o polegar, sentindo-lhe a barba cerrada começando a despontar. Ouviu-o conter a respiração quando moveu o dedo para os lábios dele, viu o brilho de aviso em seus olhos negros, mas não pôde parar. Ele tinha lábios grossos e de formato masculino perfeito. Ela quisera tocá-lo havia tanto tempo, sem timidez, sem ser atormentada por inseguranças. Por quanto tempo isso a fizesse se sentir bem. Azeez segurou-lhe o pulso, detendo-a. – Nikhat? Não... Ela se sentou na cama e traçou-lhe os contornos do lábio inferior, deixando-o com a respiração acelerada. Com a própria respiração alterada, virou a cabeça de lado e tocou os lábios dele com os seus. Azeez ficou imóvel. Tocando-lhe os ombros, ela depositou pequenos beijos ao longo do lábio inferior dele e do superior. Impaciente por mais, traçou seus contornos com a língua e, então, mordiscou-os.


464 – O SEGREDO DO SEU TOQUE – CATHY WILLIAMS Giancarlo de Vito precisa da bela Caroline para finalizar o seu plano de vingança. Porém, ela se recusa a colaborar. E Giancarlo terá de usar todo o seu poder de sedução para conseguir o que deseja. 465 – O ÚLTIMO PRÍNCIPE DE DAHAAR – TARA PAMMI A única maneira de o príncipe Ayaan Al-Sharif conseguir restaurar a ordem e calar os rumores do povo é casando-se com Zohra Naasar. Porém, ela não quer perder sua liberdade e impõe uma condição: Seria sua esposa, mas não se deitaria com ele. Será que Zohra conseguirá manter a própria promessa? 467 – O REI LEGÍTIMO DE DAHAAR – TARA PAMMI Após uma decepção, o príncipe Azeez cai em desgraça. E, para ser o futuro rei de Dahaar, vai em busca da única mulher que pode ajudá-lo, a doutora Nikhat Zakhari. 468 – ALIANÇA DE TENTAÇÃO – CHANTELLE SHAW Isobel Blake está decidida a confrontar Constantin de Severino para virar de uma vez essa página de sua vida. Porém, esse reencontro despertará sentimentos há muito enterrados.

Últimos lançamentos: 461 – SALVA PELA PAIXÃO – JANE PORTER 462 – SEGREDOS DE AMANTE – LYNNE GRAHAM 463 – SALVA PELA SEDUÇÃO – JANE PORTER


CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ

K43a Kendrick, Sharon Acordo ultrajante [recurso eletrônico] / Sharon Kendrick; tradução Marie Olivier. - 1. ed. - Rio de Janeiro: Harlequin, 2015. recurso digital Tradução de: Carrying the greek's heir Formato: ePub Requisitos do sistema: Adobe Digital Editions Modo de acesso: World Wide Web ISBN 978-85-398-2020-7 (recurso eletrônico) 1. Romance inglês. 2. Livros eletrônicos. I. Olivier, Marie. II. Título. 15-26660

CDD: 823 CDU: 821.111-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A. Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a transmissão, no todo ou em parte. Todos os personagens desta obra são fictícios. Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência. Título original: CARRYING THE GREEK’S HEIR Copyright © 2015 by Sharon Kendrick Originalmente publicado em 2015 por Mills & Boon Modern Romance Arte-final de capa: Isabelle Paiva Produção do arquivo ePub: Ranna Studio Editora HR Ltda. Rua Nova Jerusalém, 345 Bonsucesso, Rio de Janeiro, RJ – 21042-235 Contato: virginia.rivera@harlequinbooks.com.br


ACORDO ULTRAJANTE Texto de capa Teaser Querida leitora Rosto Capítulo 1 Capítulo 2 Capítulo 3 Capítulo 4 Capítulo 5 Capítulo 6 Capítulo 7 Capítulo 8 Capítulo 9 Capítulo 10 Capítulo 11 Capítulo 12 Capítulo 13 Capítulo 14 Epílogo Próximos lançamentos Créditos

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