UMA VIAGEM ENTRE SOLSTÍCIOS
TRADUÇÃO DE ELISABETE RAMOS
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1. UMA NASCENTE DISPUTADA
NÉVOA NO PEDREGAL
No pedregal de Irimia, o Minho esconde e retarda o seu nascimento após uma tripla tentativa de camuflagem: a língua de rochas que se antepõe à sua fonte, a escuridão da noite mais longa do ano – o viajante escolheu a manhã seguinte ao solstício de Inverno para descer o rio –, que ainda resiste ao amanhecer, e uma névoa tão espessa que impede que se veja a mais de uns escassos metros à frente do nariz, deixando o ouvido, atento ao rumor soterrado, como único recurso para chegar até à nascente. Com um começo assim, poderia fazer-me ao caminho e, já agora, encomendar-me à orientação espiritual de dois viajantes cujas narrativas sempre admirei e que também são, em parte, responsáveis por esta modesta expedição. Mas este viajante já não é o poeta de vinte anos que há décadas subiu o curso do lendário rio que atravessa na vertical a montanha leonesa, tal como já não é o «jovem magro» que, há décadas também, calcorreou e viu, qual vagabundo, uma extensa região castelhana. Este viajante acumula uns quantos achaques: hipertensão e presbitismo, osteopatias várias, fruto da idade, pois aos cinquenta soma mais um e, além do mais, enquanto outros usufruíram da placidez do Verão, no seu caso o Inverno saúda-o com o abraço húmido da
névoa, capaz de se infiltrar por quantos poros houver até deixar uma pessoa toda encharcada.
Um calafrio traz consigo uma longínqua memória de infância: o contacto íntimo com a água doce. Nunca nos abandona. As mães e as avós galegas alertavam sempre para os perigos das correntes de ar, porém, a causa de tanta tosse infantil talvez fosse melhor procurá-la noutro inimigo invisível, a humidade, contra a qual era inútil lutar: os desumidificadores eram aparelhos desconhecidos na nossa meninice. Essa água omnipresente decompunha-se em milhões de moléculas para se colar a nós como uma segunda pele através da roupa sempre fria que vestíamos de manhã antes de irmos para a escola. No caminho, corríamos atrás dos raminhos ou das cascas de noz que navegavam nas valetas e que salvávamos com ambas as pernas fazendo uma ponte para vermos passar o que a nossa imaginação transformara em caravelas ou galeões. Nas aulas, as pingas deslizavam pelos vidros condensados; no recreio, entrávamos de galochas no antigo lameiro que a camada de areia do pátio não cobrira, para vermos quem era capaz de arrancar a maior camada de gelo sem a partir. A mesma chuva que caía, mansa ou feroz, sobre as nossas brincadeiras reencontrávamo-la mais tarde nos canos a que íamos beber aqui e acolá: um mapa mental de fontes levava-nos até à mais próxima. A fonte do Minho, contudo, durante muitos séculos não figurou como tal. Essa honra cabia a uma lagoa alguns quilómetros mais abaixo, uma honra consagrada por uma sucessão de vozes autorizadas, de Licenciado Molina a Domingo Fontán, assim como no imaginário popular através da toponímia: a lagoa é conhecida como Fonmiñá ou Fonte Miñá. No seu mapa pioneiro de 1834, a Carta Geométrica da Galiza, à qual terei de recorrer mais vezes durante esta viagem, Fontán designa a freguesia adjacente como «Fumiñá» e acrescenta «Fonte Miñá ou nacemento do Miño», ao passo que o troço que se estende do pedregal de Irimia é
identificado apenas como «Río de Meira», adquirindo o nome da serra e da primeira vila importante que o curso do rio encontra. Posteriormente, Pascual Madoz e Otero Pedrayo reconheceram as contribuições dos riachos que descem da serra em direcção ao Atlântico: na sua vertente leste nasce também o rio Eo, que flui até ao Cantábrico; no século XX, Pérez Alberti divide em três as fontes do Minho: Rego da Pena, Xirómeno e aquela que brota no pedregal; deste trio, especialistas como Río Barja e Rodríguez Lestegás destacam a de Irimia como a nascente principal.
Contudo, após essa tão prolongada espera, a glória de Irimia como nascente do Minho bem poderia esvanecer-se por intervenção dos modernos sistemas de cartog rafia digital.
Num estudo recente sobre a envolvente ambiental do seu leito, Pablo Ramil Rego e Javier Ferreiro da Costa, seguindo o critério de associar as fontes de um rio aos troços fluviais mais afastados da sua foz, transferem a nascente para a sub-bacia do Sil, o principal afluente do Minho, mais concretamente, para a ladeira de Peña Orniz, no município leonês de Cabrillanes. Esta atribuição parece confirmar a sabedoria tradicional do ditado: «O Sil leva a água, o Minho a fama». Ao Sil já chegaremos, mas não antecipemos acontecimentos: ainda faltam muitos quilómetros para esse encontro. Se nos cingirmos à sub-bacia do Minho, a precisão informática destronaria o ribeiro de Irimia – e, com ele, os outros da serra de Meira – para situar como o troço fluvial de maior comprimento, com 325 quilómetros até ao oceano, aquele que nasce dos regatos que emanam das ladeiras entre o pico O Carrancho e o monte Toxoso, no concelho lucense de Abadín, e que convergem no Labrada, tradicionalmente considerado parte desse rebanho que pastoreia o Minho. Seria tentador atribuir esta sucessão de mudanças, por vezes polémicas e disputadas, ao tópico do galego indeciso, mas nisto o Minho limita-se a juntar-se à tradição de outros grandes rios, do Nilo ao Amazonas e ao
Danúbio, de se divertir à conta de espalhar a confusão sobre as respectivas nascentes.
Seja como for, apesar de não ter a toponímia do seu lado, o pedregal de Irimia contribui para a sua causa com uma paisagem única e um molho de lendas que procuram explicar este prodígio da natureza. Agora que a noite por fim se despede e a névoa começa a levantar-se, uma cascata petrificada, formada por centenas de rochas de grande tamanho e de todas as formas, parece brotar do manto branco que ainda cobre a serra para, de súbito, se liquefazer no regato que aflora precisamente aos seus pés, entre fetos arborescentes. É uma paisagem de outra era, uma era virgem de qualquer mão humana, quando a terra era exclusivamente habitada pelos elementos. Aqui não só nasce um rio, aqui nasceu um mundo cujas pegadas fósseis perdurarão enquanto quisermos contemplá-las.
Era inevitável que uma paisagem tão deslumbrante inspirasse inúmeras lendas que justifiquem a sua origem. Uma delas alude ao próximo mosteiro de Santa María de Meira: tal era o esplendor do cenóbio cisterciense que o diabo, possuído pela inveja, quis derrubá-lo à pedrada. No entanto, o aparecimento repentino de são Bernardo de Claraval impediu a investida das hostes diabólicas, que não tiveram outra hipótese a não ser recuar, deixando amontoadas as rochas que pensavam usar como projécteis. Uma variante atribui aos religiosos o papel oposto: são eles que assediam uma feiticeira que se negava a render os tributos exigidos por uma terra abençoada com fontes abundantes. Como represália, Irimia, assim se chamava a feiticeira, gritou «Destas águas nunca bebereis, porque o rio é minho», fazendo assim crescer os pedregulhos que acabaram por ocultar os mananciais; pelo que o mito serve tanto para explicar a origem do pedregal como, aliás, para acrescentar outro argumento à defesa de que o Minho nasce aqui. E outra versão alega que as rochas não são senão homens
malvados que visam a expiação dos seus pecados na pureza destas águas.
Um relato geológico da nascente do Minho será menos lendário, mas nem por isso desprovido de poesia. Pelo contrário, com a sua precisão, a linguagem científica reforça as ressonâncias míticas, anteriores à história humana, de um mundo em formação. O pedregal é uma moreia cársica do período periglacial – de entre dez mil a vinte mil anos de antiguidade –, ou seja, uma sucessão de pedregulhos arrastados por um glaciar nos processos de congelação e degelo. É um perfeito exemplo do que é conhecido como campo de blocos de encosta. A longa concentração de clastos de quartzito espalha-se pela encosta, partindo de um penedo rochoso onde ainda se vêem as marcas da gelivação, e estreita-se à medida que desce formando uma vala debaixo da qual se ouve correr a água até se tornar visível no seu extremo inferior. Esta fractura permite que assome da reserva subterrânea de quase 1,5 quilómetros quadrados de extensão sob a serra. O emaranhado de blocos, cobertos de musgo e de uma pátina de líquenes que seria a inveja de qualquer pintor informalista, revela o seu movimento conjunto graças ao gelo intersticial que ocupava alguns buracos onde agora crescem os fetos. Contudo, desde a sua fixação, a gravidade parece ter ficado suspensa, sem que se tenham produzido novas mobilizações, embora algumas rochas conservem memória, ou quiçá nostalgia, daqueles dias em que a língua do glaciar as empurrava para baixo, cedendo, traiçoeiras, sob os meus pés.
Ou pode talvez ser a feiticeira que, zelosa da sua propriedade aquífera, continua a defender-se, com a ameaça de resvalos e quedas, dos intrusos que vê como uma ameaça.
Quando a subida começa a afadigar, quando o fôlego foge da minha boca como se desejasse reunir-se com a névoa que já se levantou, quando o sol, oculto ainda pelos eucaliptos que coroam a serra, já arranca lampejos dos quartzitos, sei que é a altura de parar. Até ao momento, só tenho trepado, precariamente, pela
corrente petrificada, a subida de um rio que ficou imóvel por uma maldição mineral. Apenas a alguns metros do cume, onde um par de aerogeradores eólicos se junta ao duvidoso privilégio invasor do eucaliptal, estaco sobre duas rochas de solidez fiável. E viro-me.
Após tantos minutos atentos ao microcosmos do pedregal, os meus olhos surpreendem-se com a súbita amplitude do campo de visão. A língua rochosa tornou-se agora numa linha de fuga que atrai fortemente o meu olhar: a gravidade, que durante milénios não conseguiu deslocar os pedregulhos, conduz sem dificuldade a minha atenção para a panorâmica que se abre perante mim: prados e casais que ainda resistem à invasão das plantações de eucaliptos, fileiras de carvalhos, ulmeiros e salgueiros que denunciam o Minho no seu jovem deslizar em direcção ao Atlântico, que se intui por detrás dos montes que fecham o vale a oeste. Já não se ouve o rumor da corrente subterrânea. São os chilreios dos melros os que recebem um dia que tentará compensar a sua brevidade ainda invernal com um sol que, mesmo que não chegue a ser um frio de herança glaciar, aquece o coração de quem se prepara para embarcar nesta longa viagem fluvial pelas marcas da paisagem e pelas pegadas do tempo, acaso ambas as coisas não sejam a mesma.
Um sol que parece amornar também, como se quisesse desmentir a sua ascendência glacial, a água que vem à superfície sob a cúpula protectora dos ramos, agora nus, de uns salgueiros que lhe dão as boas-vindas. Está fria, mas não corta nem gela quando molho os dedos no pequeno charco formado pela nascente, para depois os levar à testa, em jeito de bênção pagã antes de empreender a viagem do seu curso que me conduzirá até ao oceano, onde esta água agora doce salgada será.
AS RELÍQUIAS DE MEIRA
Apenas a alguns passos do seu manancial, o Minho vai abrindo o respectivo caminho em direcção ao vale, flanqueado numa margem por um prado e, na oposta, por fileiras marciais de eucaliptos que chegam até à borda do regato. Fá-lo após superar a estrada que leva até ao próprio pedregal, pela qual esta manhã retumba um reboque madeireiro – pois onde há plantações, há maquinaria –sobre os dois canos de betão que canalizam a água: ainda mal teve tempo de correr uns escassos metros em liberdade e o Minho já enfrenta a primeira de incontáveis intervenções humanas que não deixarão de o acompanhar até à sua foz.
Com a lembrança da brincadeira infantil ainda presente, coloco-me com um pé de cada lado do regato e deixo que o meu olhar deslize ladeira abaixo com a água cristalina. A postura devolve-me ao território do pensamento mágico da meninice, esse que se satisfaz com a ideia de que o grande rio Minho, a coluna vertebral do país, consegue nesse momento passar pelo arco formado pelas minhas pernas.
Outro arco, o das copas entrelaçadas de carvalhos e ulmeiros que povoam a margem, leva o Minho para oeste até um pequeno vale, que antecede a sua entrada em Meira. Aqui, em Porto da Pena, recebe os tributos dos seus primeiros afluentes, os regatos Irimia, Feás ou Xirómeno, e o que baptiza também aquilo que na antiguidade era conhecido como um locus amoenus, mas que hoje chamamos, de forma mais prosaica, área recreativa. Para que não reste nenhuma dúvida, uma placa de bronze, fixada numa lousa rugosa, lembra-nos que a zona foi reabilitada por uma escola-oficina, acção promovida e subsidiada pelas respectivas administrações públicas; lá estão os nomes dos políticos, como se alguém, para além de eles próprios, se importasse com isso. Também não
admira: é difícil de esquecer o monólito de mais de dois metros de altura, junto ao pedregal, com outra placa que apregoa que a zona foi melhorada, como se a natureza precisasse, pela Câmara Municipal. Um cheiro inconfundível para quem o tenha alguma vez sentido interrompe as minhas estéreis reflexões sobre a infinita vaidade dos homens: flutua no ar um penetrante fedor a esgotos. Tal como uma dessas criaturas infernais que turvam os quadros de Bosch, um tractor e a sua torpe cisterna surgem de um prado, e a fragilidade do idílio clássico é quebrada pelo contacto com o seu rasto pestilento.
Aqueles que talvez se tenham deixado tentar pela literatura bucólica, como uma lufada de ar puro para as suas muito elevadas lições na Escola Maior de Filosofia, foram os monges do mosteiro de Santa María de Meira. Até este Porto da Pena chegava o muro que circundava as suas propriedades, muro este que hoje sobrevive em parte e a cujos pés se erguia no Minho a azenha que movia o seu poderoso moinho de três mós. Outrora motor das férteis colheitas de cereais cobradas pela congregação cisterciense, hoje dá pena assistir à decadência do moinho. As suas paredes de calhaus expostas partilham o estado de ruína com um posto de transformação – talvez as rodas tenham deixado de moer grãos para gerar electricidade –, e enfrentam juntos o cerco dos predadores da desolação, alguns naturais, como heras e silvas, e outros fruto da incúria humana: uma roda de camião, plásticos pretos e azuis, resíduos vários. O moinho podia ter tido melhor sorte, como a que calhou a outro semelhante mais a jusante do rio, porém, apesar das tentativas municipais de adquiri-lo, a sua caminhada rumo à decomposição e ao esquecimento segue a bom ritmo. Quem mo conta é Yoani, especialista na história de Meira e a quem recorri no posto de turismo para ver o interior da igreja cenobítica à hora estipulada e indicada num cartaz de anúncios. Encontramo-nos no cenário de outro desaparecimento, o dos
claustros do mosteiro: conhecido como sendo o dos cavaleiros, onde se encontravam a hospedaria e a escola filosófica. Aos dias de hoje chegaram apenas alguns arcos e uma ala do edifício, reconvertido em câmara municipal. Do segundo, o dos frades, só se vêem os inícios dos arcos da parede sul da nave principal do templo. Contudo, o granito que os sustentava não foi para muito longe. Boa parte continua aqui, tendo sido reutilizado para pavimentar ruas e a praça central de Meira, reconstruir outros edifícios da vila e até mesmo como cantaria.
Durante uns segundos, observamos em silêncio a grande praça que se alarga onde outrora se erguia o claustro gótico. Yoani conta-me que o convento já se encontrava num estado ruinoso após a desamortização de 1835, que só agravou as desfeitas cometidas pelas tropas francesas quando funcionou como «hospital de sangue» aqui no início do século XIX. Longe ficavam já os seus tempos de esplendor, para os quais concorria o patrocínio interessado da nobreza e de monarcas como os Reis Católicos, obreiros de que aqui se fundasse uma das cinco escolas maiores de Castela, a já mencionada de Filosofia e Artes.
A fundação do mosteiro é muito anterior. Remonta a meados do século XII e é atribuída ao próprio Bernardo de Claraval, também presente nas lendas de Irimia, mentor da expansão europeia do Cister. Diz-se que de Claraval saiu um grupo de monges, comandados pelo abade Vidal – «mui insigne sujeito, excelente em santidade e vida», segundo frei Damião, historiador galego da ordem –, em busca de um lugar idóneo para se estabelecerem como comunidade. Aquele lugar era Meira, então desabitado, contudo, dali em diante, passaria a ligar o seu destino ao do seu poderoso mosteiro, pois dele dependiam duas comunidades de religiosas, uma em Pantón e outra em Moreira. A sua igreja ajusta-se quase ao milímetro ao chamado plano bernardino, um modelo aplicado aos templos: planta de cruz latina, três naves e
A viagem que resgata do esquecimento uma …das fronteiras mais antigas da Europa
Durante seis meses, entre o solstício de Inverno e o de Verão, o escritor e jornalista galego, Xesús Fraga, desafiou-se a trilhar, da nascente até à foz, o curso do rio Minho ao longo dos seus 315 .quilómetros
Nesta viagem natural e contemplativa, narrada com sedução e engenho, o autor conduz com mestria o leitor por uma rota que parte não só à descoberta da “coluna vertebral, física e simbólica da Galiza”, como também das paisagens e testemunhos que, dos dois lados desta fronteira de água, unem e simultaneamente distinguem galegos e .portugueses
Mesclando um estilo tão lírico quanto documentado, Fraga transcende a dimensão natural do rio e imerge na História e nas estórias das suas gentes, desvendando tradições, cultura, arte ou gastronomia, ao mesmo tempo que reflecte sobre o seu passado, presente e futuro, num .genuíno retrato líquido dessas regiões ribeirinhas 5