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Do Conflito à Guerra

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In: Turres Veteras, V, História Militar e da Guerra, CM de Torres Vedras, Torres Vedras, 2004, p. 9-19.

“Do Conflito à Guerra: Aspectos do desenvolvimento e institucionalização da violência na Pré-História Recente Peninsular” José Manuel Quintã VENTURA* & João Carlos de SENNA-MARTINEZ**

“...War entails armed conflict that is collectively carried out. It differs from other (often antecedent) forms of conflict such as disputes and altercations by the fact that participants employ deadly weapons with deadly force...”1 (KELLY, 2000: 3-4) A definição de guerra proposta por Kelly envolve um conjunto de condições que não são fáceis de verificar no plano arqueográfico, nomeadamente para as sociedades menos complexas e longe da estruturação estatal, como é o caso da maioria, senão totalidade, das sociedades peninsulares anteriores aos contactos orientalizantes do início do primeiro milénio a.C. O matiz que é introduzido por Carman às definições tradicionais de Chaliand e Gray – “...«Primitive» warfare: occasional small-scale wars fought by traditional societies, determined by subsistence and demography and not very costly in lives (CHALIAND, 1994: 7), with strict ritual controls on violence, whereby both the environment and the enemy will be preserved (GRAY, 1997: 97)…”2 (CARMAN, 2000: 144-5) – não simplifica a questão e, pelo contrário, acresce às dificuldades já pressentidas. O problema da violência nas sociedades pré-estatais implica necessariamente o do seu reconhecimento arqueográfico o qual, de uma forma directa, implica a existência dos restos mortais das “vítimas”. Alternativamente, evidências indirectas podem ser inferidas a partir de equipamentos (armas, estruturas defensivas) ou dados contextuais (representações gráficas, por exemplo). No âmbito arqueológico peninsular, as evidências directas de violência na PréHistória Recente são escassas, para o que pode ter contribuído a falta de escavações com metodologias adequadas ao estudo anatómico dos restos humanos, nomeadamente em contexto funerário. Uma recente súmula de dados disponíveis para o Calcolítico (KUNST, 2000: 131) apenas aponta três casos: o Hipogeu de Longar (Pamplona); a gruta

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Mestre em Pré-História e Arqueologia pela F.L.U.L., Investigador do PEABMAM-PAISAGENS e Investigador Exterior do Instituto «Alexandre Herculano» de Estudos Regionais e do Municipalismo da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Rua Dr. Ricardo Jorge, 5, 13º Esq, Venda Nova, 2700-301 Amadora, Portugal. E-mail: jmqtventura@yahoo.com ** Professor Associado do Departamento de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Instituto «Alexandre Herculano» de Estudos Regionais e do Municipalismo e Instituto de Arqueologia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 1600-214 LISBOA. PORTUGAL. E-mail: smartinez@mail.doc.fl.ul.pt 1

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“...O conceito de «Guerra» implica um conflito armado conduzido colectivamente. Diferencia-se de outras formas de conflito, tais como disputas e altercações, pelo facto de os participantes empregarem armas mortais para matar...” “...Guerra «primitiva»: guerra em pequena escala e ocasional conduzida por sociedades tradicionais, causada por questões de subsistência e demografia e envolvendo poucas baixas (CHALIAND, 1994: 7), com controles estritos de ritualização da violência, d forma que tanto o ambiente como o inimigo sejam preservados (GRAY, 1997: 97)…”


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