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69 Edição Justiça com A

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Dia 8 de Março de 2026

Mais um dia, entre 365 dias, que é das Mulheres. É que todos os dias são nossos... ou seremos nós que somos de todos os dias?

Mulheres, a dias, a noites, a semanas, a meses, a anos.... Mulheres a Vidas. Disse alguém que uma parte do Mundo é feito de Mulheres a outra parte é feita dos filhos delas... .

Entre todos os textos que trazemos neste Mês da Mulher e da Primavera ( ambas têm tudo a ver uma com a outra), encontram uma Mulher, mesmo que a não vejam, ela está lá ainda que o texto seja de um homem.

Com votos de boas leituras deixamos sugestões de livros, de cinema de teatro e partilhamos vivências. Um texto mais sério aqui ou ali que protegendo Direitos protege Mulheres.

Num mês de Março em que um ataque ao Irão lembra as formas de lhes tirar a voz, não demos palco ao conflito militar porque, a nossa Tendência é não "ter" Tendências

Adelina Barradas de Oliveira Diretora

Indíce

MARÇO 2026

04 ....... Flores na Abíssinia | Carla Coelho

06....... Ode aos bananas na era da desinfor-maçã | Raquel Véstia

09 ....... Hamnet ou Hamlet... that is the question! | João Carlos de Melo

12 ......Ré em Causa Própria | Adelina Barradas de Oliveira

14....... Cantinho do João | João Correia

16....... Entrevista Ruben Zacarias | por: Carla Coelho

26 ....... Pano para Mangas | Margarida Vargues

28....... Vamos ao... ... Teatro? | António Manuel Monteiro Mendes

32....... Mulheres | Fernando Corrêa dos Santos

40....... O Mar Logo Ali | Ana Gomes

42....... Fui vitima de violência domestica | Carla Paiva

44....... Estranhamento na sociedade contemporânea | Paulo Ferreira da Cunha

46 ....... Caderno das Mulheres de Luz | Mariana Roque

48 ....... As mulheres de Myanmar (Birmânia) | Graça Raposo

50 ...... Mit brennender Sorge: o novo artigo 8.º-A, n.º 1, da Lei do Cibercrime | Duarte Rodrigues Nunes

56 ....... Entre Linhas | Recomendações literárias

58 ....... Em Memória | António Lobo Antunes

DIRECÇÃO: ADELINA BARRADAS DE OLIVEIRA

DESIGN E PRODUÇÃO: INÊS OLIVEIRA

PUBLICAÇÕES: ISSUU.COM/JUSTICACOMA

FACEBOOK: JUSTIÇA COM A

ELVIRA

FLORES NA ABISSÍNIA

Observa as fotografias outra vez. Naquele tempo, já não se imprimiam fotografias. Só as de ocasiões especiais. As pessoas guardavam as fotos nos telemóveis, aparelhos infinitamente preciosos. O facto de os pais terem impresso várias fotografias daquelas férias, permitia a Elvira perceber como aqueles momentos tinham sido especiais.

Ali estava ela, com pouco menos de dois anos. O irmão Oskar, o pai e a mãe. pareciam tão novos nas fotografias, o pai e a mãe. Ele tinha mais uns quinze anos do que a mãe. Tinham-se conhecido no escritório. Contra o que era costume na época, a mãe casou muito nova, com cerca de vinte e cinco anos. Depois nasceu o Oskar e logo a seguir ela, a Elvira. Tinha nascido durante a pandemia Covid 19 e aquelas eram as primeiras férias da pequena família enquanto tal.

Em rigor, Elvira não se lembrava de nada. Não tinha ideia de chegarem ao Algarve, de passarem os dias na praia e a dormir sestas protegidos pelo ar condicionado dos quartos do hotel e a ver o canal Panda. Também não se lembrava do carro

alugado, de se fazerem à estrada e de chegarem àquele hotel no meio da península alentejana. Não tinha recordação da piscina de crianças, onde ela e o irmão tinham brincado, sempre sob a supervisão dos pais. E certamente não se lembrava de nadarem, com braçadeiras, na piscina dos adultos, com o pai a fingir que era um golfinho, a atirá-los para o ar e a mãe a registar tudo em pequenos vídeos. Por falar nestes, por onde andarão? Talvez num velho computador portátil, algures no sótão da casa.

Elvira não se lembra de nada desses dias, o que não surpreende pela sua idade à época. Mas, de tanto olhar para as fotografias, quase que consegue reconstituir esses dias alegres. Pai e mãe a gostarem um do outro ou pelo menos a não discutirem. Ela e o Oskar a correrem despreocupados, falando numa linguagem que lhes era exclusiva, um segredo que os pais respeitavam.

Não saberia dizer quando as coisas mudaram. De repente, a muralha doce sobre a qual se construía a sua infância desmoronou-se. Ela e

Oskar ouviam sons abafados, o pai batia com a porta e mãe não vinha jantar.

Um dia, sem aviso, a mãe não voltou. Primeiro o pai reagiu de forma que, olhando para trás com os olhos de adulta, Elvira apenas podia considerar frenética. Ela e Oskar não foram à escola, o pai ocupava-se deles, iam ao parque de diversões, ao cinema, jogavam horas a fio, passavam dias a brincar no jardim e a dar de comer aos patos. Quando perguntavam pela mãe a resposta era a mesma “Já vem”.

Nunca veio. E ainda hoje Elvira gostaria de perceber porquê.

O tempo passou, o pai acalmou, voltou ao trabalho, eles voltaram à escola.

Elvira viu, anos mais tarde, documentos oficiais que diziam que ela e Oskar viveriam com o pai e podiam visitar a mãe. A primeira parte cumpriuse. A segunda não. Agora, tantos anos passados, Elvira gostava de perceber o que se passou. Oskar não quer saber de nada. Já lhe disse naquele tom duro que põe quando não quer ter uma conversa

que cada um faz as suas escolhas e tem de viver com elas.

É verdade.

Mas não valeria a pena perceber se houve escolhas e o que as ditou? Porque olhando para aquelas fotografias nada fazia prever o desfecho com que se depararam anos mais tarde. Haveria já fissuras que não tinham notado? Os problemas começaram mais tarde? Porque motivo a mãe os deixou? E não voltou sequer para os visitar?

Não há respostas. Elvira vê uma e outra vez as fotografias daquele Verão. Ela e Oskar sorridentes a comerem gelado, a nadarem no mar e na piscina, a brincarem aos comboios, sob a atenção dos pais. Perscruta-lhes o olhar à procura de pistas.

Vislumbra uma pequena fissura na base da piscina. Mas nada nos olhos dos pais. O que não quer dizer nada, como Elvira bem sabe. O ser humano é mestre em esconder o que lhe vai na alma.

Ode aos/às bananas na

era da desinformaçã

RAQUEL VÉSTIA

Isto é uma maçã.

Algumas pessoas poderão tentar lhe dizer, que isto é uma banana.

Poderão mesmo gritar “Banana! Banana!“ vezes sem conta.

Poderão até escrever BANANA em maiúsculas.

Você poderá inclusive começar a acreditar que isto é uma banana.

Não é!

Isto é uma maçã.

Se pensarmos bem, a verdade é extremamente desconfortável, até chega a ser desprezível. Se tivermos a “ nossa verdade” subjetiva, libertamo-nos da obrigação de estarmos sempre certos, e esse alívio nunca nos compromete!

No tenebroso espelho cultural e político que habitamos, esbateu-se a diferença entre os factos e a ficção, entre o verdadeiro e o falso, a emoção e razão. Tudo é imediato, perene e artificial.

A “decadência da verdade” e o constante relativismo, revelam-se extremamente apelativos, para as vagas populistas e fundamentalistas, bem como para os partidos antissistema, que recorrem à raiva, medo, demagogia e à constante manipulação política.

Margaret Atwood apelidou-os de “ bandeiras vermelhas de perigo” sinais, também presentes nos desígnios digitais, aos quais deveríamos estar permanentemente atentos.

Nas democracias ocidentais, assiste-se a uma apoteose crescente de hostilidade, contra a criatividade, o conhecimento especializado, o ideal de justiça, pluralismo e o Estado de direito democrático.

A proliferação de fake news, entretenimento instagramavel e de Tweeds bizarros, fazem eco à ignorância, preconceito, e aos impulsos autocráticos - são fruto de um marketing digital, que converte ideologias e multidões em função das aspirações narcísicas de “caricaturas políticas”

Em As origens do Totalitarismo, Hannah Arendt ao analisar o papel essencial que a propaganda desempenhou na manipulação

psicológica das populações nazi e da Rússia Soviética, deixou um aviso inquietante:

“ Num mundo incompreensível e em perpétuamudança,asmassastinhamchegado a um ponto em que ao mesmo tempo, acreditavamemtudo,eemnada,julgandoque tudoerapossívelequenadaeraverdadeiro’’.

O relativismo/ subjetivismo, iniciou-se sobretudo com as guerras culturais na década de 1960. Na época, estes valores foram inicialmente resgatados pela Nova esquerda e por académicos, para mais tarde serem apropriados, pela direita populista –sobretudo criacionistas e negacionistas.

A verdade passou a ser incerta, fungível, e maleável, baseada em suposições, repudiando filosoficamente qualquer objetividade.

O conhecimento sobre o passado passou a ser uma construção ideológica, assente em estigmas e preconceitos, fazendo o aproveitamento de bodes expiatórios como os imigrantes, negros, mulheres e a população muçulmana. Transformámos a história numa série de mitos que reforçam os preconceitos das identidades grupais, contribuindo para divisões entre “nós” a elite legítima e “eles” os ressentidos, insatisfeitos com a desordem global.

Assistimos, muitas vezes impávidos e talvez serenos à ascensão destes “pseudo-líderes”, avatares narcísicos descomedidos, amantes do caos político, autocratas, devotos do despotismo (mesmo suave) que parece que não tiraniza, defendendo o pluralismo artificial, disfarçado de bem comum e de humanismo de conveniência.

Os novos políticos do stand up, estrelas da cultura pop, celebridades, artistas, forjam imagens manipuladas, em jogos de publicidade, com falsas encenações de catástrofes, crises e autopromoção política, ao lado de novas trends virais do tik tok de dancing dogs ou de panquecas japonesas Suflê e frases virais“I love the poorly educated”.

Neste novo cenário digital, o egoísmo tornou-se um imperativo moral. Cada clique vale uma existência: acumulamos views, multiplicamos likes, ganhamos mais followers, experimentamos filtros, novos tweets, em nome da certeza dos algoritmos!

Tudo é fast content, scrolável, viral, relativo, superficial - Prisoneiros da geração selfie, dos silos de ódio, egolatria e autopromoção, tornamo-nos especialistas na “arte do fawning” reproduzindo e partilhando o que nos é apresentado sem questionar.

Não podemos ignorar que a ascensão da Web, democratizou a informação, tornou os governos mais transparentes, contribuindo também para a disseminação da desinformação, preconceito e cinismo.

Nas palavras de Jaron Lanier autor de Você não é um gadget- um manifesto.

“Partimossemprecomumafortecrençana naturezahumana,masaformacomoainternet se deteriorou, é perverso, disseminando informaçãoerrada,desinformação,crueldade preconceito cinismo e falta de poder”

A aclamada Teoria dos simulacros/ Simulações, presente também em Kundera, descreve um mundo fabricado por um novo

tipo de pessoas, dos meios de comunicação em massas os “imagólogos” engenheiros, negociantes de imagens e emoções que transformam qualquer realidade ou fição em espetáculo performativo.

O que acontecerá às nossas democracias se deixarmos de distinguir maçãs de bananas?

Afirmar que aquilo é uma maçã, quando toda gente a chama de “ Banana... Banana... “ é um ato de verdade e consciência.

Podíamos continuar a chamar BANANA, mesmo sabendo que é uma maçã?

Podíamos até não nos importar, afinal é mais uma fruta, ignorando-a. Será que a aparência do conhecimento se deve sobrepor à verdade real?

Dizer:

“Isto é uma Maçãaaaa!”

contra todos os/as bananas, é um ato de coragem, e consciência.

Defender a verdade sempre, contra a deterioração moral e a manipulação digital é acima de tudo um ato de lucidez e decência!

João de Melo

Nasci em 1958, em Lourenço Marques (Moçambique), num continente apaixonante onde uma criança se habitua a crescer com regras e Liberdade.

Licenciei-me em Línguas e Literaturas Modernas na Faculdade de Letras de Lisboa. Desde 1981 até 2024, lecionei a disciplina de Português. Depois de 43 anos de vida docente e como diretor do Colégio do Ramalhão, reformei-me.

Continuo ligado ao Colégio de São José – Beja, onde sou consultor pedagógico e colaboro com a direção. Sinto ser aqui que a minha vida tem um renovado sentido na devoção aos outros.

A par de tudo isto a paixão por viajar e por ler ocupam uma parte muito grande da minha existência. Se um dia me dessem a escolher viver numa outra cidade, Florença seria a eleita. Tudo ali ressoa ao Renascimento e à perfeição!

Hamnet ou Hamlet... that is the question!

Há dias, um grande amigo, homem das artes teatrais e performativas, um dedicado pai de família, um coração grande e sensível, que se habituou a tratar-me e a considerar-me como pai dele, mandou-me esta mensagem que reproduzo na íntegra:

“- João, faça-me um favor, meta-se no cinema a ver isto o quanto antes! Absolutamente arrebatador!”

A decisão foi tomada de imediato.

E fui! Fui... e aquilo que durante cerca de 2 horas e qualquer coisa perpassa diante do nosso olhar leva-nos ao âmago de uma Inglaterra de finais do século XVI, pela mão de homem, como produtor, a quem nunca vimos fazer filmes deste género e desta interioridade – Steven Spielberg – e de dois soberbos interpretes que deixam uma marca de qualidade que, a meu ver não haverá Bafta, Palma de Ouro de Cannes, Leão de Ouro de Veneza, Óscar, Grammys para os premiarem e laurearem uma interpretação difícil de reencontrar. Ela, Jessie Buckley, é absolutamente extraordinária, arrebatadora, fantástica e brutal nos gestos, nos olhares, nos gritos, nas raivas, nos momentos mais dramáticos de uma vida dramática desde o nascimento, no inglês ainda quase

medievo, na liberdade de se sentir sempre um ser humano livre, mas invariavelmente presa ao amor por um homem e aos três filhos. Ele, Paul Mescal, não lhe fica atrás em nada. De um mero tutor de latim, apaixona-se à primeira vista, por ela, e tudo muda na vida de ambos, mas talvez até mais na dele. A abnegação da mulher Agnes é o retrato de uma época histórica da Europa e do mundo, em que as mulheres se anulavam, para o homem ter a oportunidade, não de ser chefe de família – isso vai ser sempre ela – mas de que a vida profissional lhe sorria e abra horizontes. Ele, Will, vai virar as costas à sua tutoria de latim e vai para a grande cidade, para Londres, para se dedicar ao teatro. Até nisto o filme está lindamente concebido, pois só muito para o fim percebemos que este Will, é o grande pai do teatro inglês do século XVI – William Shakespeare – aquele que conferiu ao teatro o cunho de obra literária e o verdadeiro caráter de representação num espaço a ele dedicado, com a criação do The Globe, em Southwark (Londres).

E o que mais une estas duas personagens principais?

Para além de um AMOR único e incondicional, desde o primeiro instante em que se veem e ele se apaixona por ela, para além daqueles três filhos, sendo que um deles gémeo, de seu nome Hamnet, concorrerá magistralmente não para a génese do filme, mas para a da obra do pai – o Hamlet - um jogo tocante, comovedor e arrepiante de SILÊNCIOS que concorrem também eles para o brilhantismos das suas interpretações, do sentir, do vibrar e que os reformula no seu AMOR até à cena final, cuja descrição, pela beleza, se torna impossível ou, pelo menos, eu não a consigo descrever com a generosidade que ela merecerá.

A fotografia, as imagens filmadas em

contra-plongée (contrapicado) da folhagem das árvores verdes que diante de cada cena emergem uma renovada esperança em tudo quanto ali se retrata, se vive, se sente, se grita, se chora.

A recriação do casario, da atmosfera, da realidade inglesa do século XVI, as mãos encardidas da vida do campo, marca profunda de uma Inglaterra onde justificadamente um dia haveria de surgir e florescer a Revolução Industrial, o Romantismo... Um filme que todo ele poderia ser uma peça de teatro magistralmente filmada com cortes bruscos a fazer lembrar as cenas em palco, pois o ato, esse a meu ver será sempre único e vivido intensamente por uma mulher magistral – para mim desconhecida –mas que jamais se esquecerá e com quem nos apetece gritar de raiva diante da morte, dos desaires da vida, do apoderamento do amor, do imaginário que acaba transposto para o palco do The Globe, da tragédia que marcará a sua vida, vivida sempre com a cumplicidade de um irmão que acompanha nos momentos mais críticos, mais dolorosos, mais dramáticos da sua vida.

E o fim, aquela cena final no The Globe, reconcilia-a e reconcilia-nos a todos de forma única, humanamente desfragmentada, criticamente olhada, sentida e vivida com o tema do luto, da necessidade dele se cumprir em todos nós, da perda, a perda irremediável de quem se ama incondicionalmente, de quem parte e deixa uma profundíssima marca, uma dor na alma, mas que ali se prefigura como uma capacidade de resolver a(s) perda(s) dos nossos como uma lição de vida para a eternidade que não nos pertence, que não é nossa, que não dominamos, mas que podemos aprender a viver com uma sempre renovada esperança e um conforto que devolve a vida a quem ainda ficará dando o seu melhor a tantos que de nós precisem, neste caso particular, um marido que cumpriu um sonho

de realização e dos seus outros dois filhos para quem o sol merece brilhar em cada dia, mesmo numa Inglaterra tantas e tão frequentes vezes fustigada pelo soturno dos dias cinzentos, chuvosos e lamacentos. Como é importante percorrer com fôlego essa longa estrada, tantas vezes tenebrosa, dolorosa, plena de silêncios do luto que cada um desconstrói nos mais variados palcos da Vida! É talvez esta temática aquela que mais abala o espectador nos instantes finais desta longa-metragem, que retira o fôlego e derrama lágrimas furtivas que se sentem cair pelo rosto a cada um daqueles que assistem a todos aqueles olhares desmistificados e plurissignificativos de uma Agnes que acaba por reencontrar uma esperança para o futuro dos seus dias. É quiçá ali que ela se debate com o mais profundo de uma Fé viva e verdadeira: a verdadeira Vida de Hamnet é aquela que ele irá agora viver para lá do escuro da perda da sua própria imagem no difuso da negritude daquela porta que esconde a Eternidade onde irá começar uma nova Vida. Se as tragédias têm sempre um clímax, esta cena final no The Globe, na representação primeira do Hamlet, é indubitavelmente o momento em que ele se atinge em plenitude e dando corpo, alma e voz, mesmo através daqueles olhares de Agnes, a essa estrutura de uma tragédia.

E depois??? ... é também o fim que nos permite a ligação entre o nome do filho de ambos, Hamnet, e a obra com que Paul Mescal, Will, inaugura o seu teatro e, ainda hoje, uma das mais famosas da sua criação – Hamlet.

Daí que, para mim, este jogo de palavras entre Hamnet or Hamlet permite substituir a mais famosa e icónica expressão da peça de Shakespeare – “To be or not to be, that is the question”! Esta será uma das essências também deste filme em que nada está ali por mero acaso - Hamnet ou Hamlet... that is the question!

Tudo é pensado, tudo é posto ali para levar o espectador a ver, a sentir, a pensar, a verter uma lágrima ou a insurgir-se com um telemóvel que toca a meio.

Que magistral realização a desta chinesa, Chloe Zhao! O seu nome merece ser retido na memória e quiçá a sua cultura oriental a par de um olhar deslumbrado diante da ocidentalidade europeia, lhe tenha conferido esta capacidade invulgar de criação de uma verdadeira obra de arte cinematográfica.

Como é que um homem que na Sétima Arte nos empolgou com A Lista de Schindler, o E.T., Os Salteadores da Arca Perdida, Indiana Jones e a Última Cruzada, Minority Report, A Cor Púrpura, nos arrebata desta forma verdadeiramente única. Steven Spielberg, dificilmente, produzirá um outro filme como este e... destes filmes há um de 20 em 20 anos.

Ré em causa própria

A Lei pensou sobre o assunto e debruçou-se sobre a minha Liberdade de decidir da minha permanência na minha própria Vida.

Pensou e elaborou um processo moroso e burocrático, cheio de cautelas e exigências relativamente a certos pontos que me dizem respeito e, a outros que são parte do processo de decisão, mas alguns são elaborados sem contacto comigo mas apenas com a minha “ficha técnica”.

A Lei 22/2023 saiu e não chegou a ser regulamentada tendo algumas das suas normas sido já postas em causa pelo Tribunal Constitucional, nomeadamente no que diz respeito à marcação do dia, da hora, do local para proceder aos trâmites necessários pelo médico, à elaboração de um parecer pelo médico da especialidade da patologia de que sofre o doente sem contacto com este e, à obrigatoriedade de apresentação de razões pelo técnico de saúde que se recuse a administrar a medicação necessária.

A sensação que tenho é a de que não se olha esta morte medicamente assistida como uma decisão pensada, livre e ponderada, resultado

do limite a que se chegou porque não há já como resistir ou ter esperança e, não se quer realmente continuar.

Esta decisão é esclarecida e expressa por escrito sendo, pois, uma decisão absolutamente consciente e totalmente desejada, o que me parece legítimo.

Não pode ser evitada pelo aumento de cuidados paliativos, quer na sua quantidade quer na sua qualidade, nem por sessões de psicologia no intuito, ou no encalço, da mentalização de que a Vida importa ainda que sejamos velhos.

Não está em causa sermos velhos ou estarmos adoentados, vivermos sozinhos ou termos depressões.

O Viver sem Vida também se coloca a gente muito jovem.

E não tem que ver com depressão, nem me parece que possa falar-se em Suicídio.

A decisão necessária passa por querer ou não querer permanecer em estado vegetativo e terá de ser, sem dúvida, uma decisão consciente e esclarecida e totalmente pessoal. Mas, terá

A Liberdade e a vontade de Dispor de Mim

( Eutanásia, morte medicamente assistida ou o que lhe queiram chamar)

sobretudo de ser, uma decisão respeitada.

Não é um capricho, um impulso ou um querer pôr fim ao sofrimento pondo fim à Vida, é um querer não continuar a estar vivo se para tudo dependemos dos outros, até para beber água, até para tomar banho, até para.... coçar o nariz.

Não é um “Vou-me Matar! Não é um “Quero morrer”, é um “Não quero continuar dentro de um corpo onde eu não sou mais Eu”.

Claro que tu isto é muito discutível...

E claro que estar deprimido não é requisito para pedir uma Morte Medicamente Assistida. Claro que tudo isto é infinitamente pessoal.

No filme “Mar Adentro” o individuo não quer ver-se, nem que o vejam, incapaz. Quer manter, se possível, a imagem de si mesmo e não quer expor-se aos outros. Pode ser uma forma egoística de decidir, mas não será egoísta querer manter alguém vivo contra a sua vontade?

No filme “ Amigos improváveis” o individuo apesar da sua incapacidade física, muito semelhante à do primeiro, quer manter-se vivo, ser cuidado, viver e aprender ainda, ensinar e

desfrutar do que o rodeia e pode ainda rodear.

Isto para dizer que um não é mais forte de que o outro, isto só para repetir que esta decisão é, apenas e totalmente Pessoal porque cada pessoa é única.

Eu quero poder dispor de mim mesmo!

Este debate permanece juridicamente longe de estar encerrado, provavelmente também eticamente permanece longe de estar encerrado ... E pessoalmente, onde ficamos?

Que pode uma pessoa, imputável, esclarecida, com vontade própria, fazer de si mesma em casos justificados pela Lei que são sempre casos limite?

Que pode fazer quem nada pode, com a decisão que tomou?

E falta preencher conceitos porque “sofrimento intolerável” e “lesão definitiva de gravidade extrema” são nada. .... e falta perguntar:

E se fosse eu?

CANTINHO DO JOÃO

ventos III

José continuava a sonhar junto ao mar com os seus pés enterrados na areia por forma a sentir a mesma enquanto pensava.

Os seus pensamentos rolavam em direcção às ondas do mar, mergulhando no mesmo, através destas, como se fossem atraídas por um magnetismo invulgar.

De todos estes pensamentos havia uns que, ao invés de mergulharem nas ondas esvoaçavam acima destas e subiam, um pouco mais no céu até que o vento os conduzia, gentilmente, através da sua brisa para destino aparentemente incerto.

Dos seus pensamentos apenas aqueles que refletiam as emoções de José subiam no céu o que o fez adivinhar que aqueles que contêm emoções, mesmo as mais intensas, mesmo as mais tristes, são sempre mais leves que todos os outros pensamentos que comportam em si outras realidades.

José quedou-se nessa interrogação, a tentar compreender o porquê de um sentimento de tristeza ou alegria ser tão leve que o vento seria capaz de o levar para outras paragens.

José não compreendia o que se estava a passar, enquanto sonhava junto ao mar com os seus pés enterrados na areia a ver os seus pensamentos a mergulhar no mar ou a voar, levados pelo vento, para destino incerto.

Destes pensamentos, um deles revelava uma intensidade invulgar, aquele que brilhava mais que todos os outros e que traduzia a vontade de José em sair daquele local pois, apesar de adorar aquela praia sonhava, também, voar com o vento que conduzia os seus pensamentos para outro local. Não o conseguia fazer, mas pelo menos, os seus pensamentos podiam fazer o que ele sonhava fazer, ou seja, sair dali.

O seu pensamento saiu dali, deixando José sozinho na areia enquanto o vento o levou até este deixar de o ver. Assumiu que desapareceu e que, na viagem que iniciava agora, o seu pensamento poderia enfrentar tempestades, aves de rapina ou, simplesmente cair no mar e diluindo-se no mesmo.

O seu pensamento iniciou, assim, uma viagem ao sabor do vento, deslizando sobre o mar, esperançoso das novas aventuras que iria

viver, ao contrário de José que continuou naquela praia, com os pés enterrados na areia, sem da mesma conseguir sair.

O dia, apesar de ventoso, estava bonito e o pensamento de José ganhou velocidade de cruzeiro sobre o mar, onde podia ver, debaixo dela, as traineiras que arrastavam as suas redes no mesmo, ao mesmo tempo que procurava fugir das gaivotas que a procuravam apanhar com os seus bicos, rodopiando à sua volta.

Nessa azáfama, questionou-se sobre qual a razão que faria com que as gaivotas a procurassem caçar pois não passava de um pensamento. Um pensamento não deve ter um sabor a peixe ou coisa do género, e por isso, não deveria interessar a uma gaivota, achava ele, enquanto fintava mais uma gaivota pois, de uma forma ou de outra, o pensamento alargava-se ou moldava-se ao vento que o levava sendo assim, difícil de apanhar.

O pensamento de José deslocavase no ar há muito, saturado das gaivotas que, apesar de as conseguir fintar, não o deixavam contemplar a paisagem que o rodeava pois ambicionava ser, também, um pensamento contemplativo, coisa que as aves de rapina não o deixavam ser.

Nesta ambiguidade, avistou uma costa e uma praia diferente daquela onde deixara José, o seu autor e de cujas emoções nascera. Uma praia para onde o vento o levava à medida que amainava, lentamente, diminuindo o seu ritmo e para

onde ficara curioso de conhecer, pois, para além de ser um pensamento contemplativo também o era curioso, esse sentimento que o ajudou a alcançar a outra praia, diferente daquela que José o lançara.

Porém, já contemplativo e curioso também, essa nova praia ficará para uma outra história pois não queremos apagar a curiosidade do pensamento voador revelando, logo, e de uma vez só, os segredos da mesma.

Até breve.

Ruben Zacarias

Entrevista

Ruben Zacarias nasceu em 1995 em Moçambique, vivendo atualmente no Porto. Descobriu cedo a sua vocação, tendo estudado artes plásticas na Bindarte. Artista visual, escritor e curador, a sua arte está em contacto com as emoções, num processo de autodescoberta para que também os que com ele se cruzam são convocados. Para lá dos projetos artísticos não prescinde da reflexão política, no sentido mais amplo e nobre da palavra. Essa sua dimensão é visível não apenas no trabalho artístico que desenvolve, mas também na sua ação como formador na área da prevenção da violência doméstica e no namoro. Estes temas serviram de mote a uma conversa que com ele tivemos no seu atelier (na Galeria Papoila, no Porto) e não ficaram esgotados, antevendo-se a continuação do diálogo com este artista que se vem afirmando entre nós.

Agradecendo a disponibilidade para esta conversa, começo por lhe pedir que nos fale um pouco do Poemário Índico, exposição de que é curador.

Começo por agradecer a oportunidade de partilhar um pouco do meu universo através desta entrevista. O Poemário Índico é uma exposição que está patente aqui no Porto no Espaço Mira, com direcção artística do Manuel Santos Maia e curadoria minha. Celebram-se os cinquenta anos da independência de Moçambique e esta curadoria nasceu de uma revisitação mais poética do que plástica do universo moçambicano, ou seja, com artistas de diversas gerações. Chamei artistas de antes e depois da independência.

Temos trabalhos de artistas como Estêvão Mucavele ou o Professor Ulisses.

Este último tem a particularidade de ter feito a ponte entre as artes plásticas moçambicanas e as artes académicas. Tenho um carinho por ele muito especial. Para mim é importante festejar a liberdade, festejar a conquista, mas de uma forma poética. Moçambique é tido como o país dos poetas e essa dimensão poética a meu ver é transversal a toda a arte. No processo curatorial explorei mais a interioridade criativa e menos, ainda que seja importante, a parte técnica. Estava mais preocupado em encontrar uma linguagem comum que fosse transversal em todos os artistas. Foi fantástico perceber que, primeiro, cada artista é um mundo, mas havia uma singularidade na forma de apresentar os trabalhos. Passava uma liberdade. Eu acho que os artistas já estavam dentro da poética da liberdade, na forma como trabalhavam as cores, o desenho, a composição e mesmo os materiais. Temos o professor Ulisses que faz uma fusão entre a arte americana (porque ele tem uma formação originária de base cubana) e com o que que ele encontrou de onírico e cultural, e não deixa de ser filosófico, na arte africana, em Moçambique. E é belíssimo este salto. E há artistas mais recentes que trabalham a linguagem mais experimental, performativa, como é o caso da Atija Assane que trabalha as questões da mulher, do feminismo, da negritude e da identidade.

Entrevista

O Ruben está presente no seu tempo e o seu discurso vai nesse sentido. Mas tem uma arte que nos dispõe bem, interpela-nos sem agressividade. De onde retira essa capacidade? o seu percurso

Procuro estar desperto, sou uma pessoa de sorte e como diz o meu sogro, a sorte é tudo na vida. A minha partiu da mãe que eu tive. Tive uma mãe guerreira, muito obstinada e que teve de criar cinco filhos sozinha. É duro, porque o meu irmão mais novo teve uma doença degenerativa.

Em criança temos os olhos postos nos adultos que nos rodeiam. a minha mãe alternava entre a força e acordava-nos com música. Havia dias sabíamos que não íamos ter pequeno almoço, mas ela acordava-nos a cantar, é belo percebermos como é que se pode ser delicado e doce no meio do caos. Eu cresci com esta referência da minha mãe que é uma alternância entre a força e a beleza e a minha avó que era um confronto estético brutal. Era pura imaginação, transcendência, magnetismo e alguma intuição. E isso tento inculcar no meu trabalho.

Também tive sorte na minha formação. O meu mestre foi o Binda, um homem muito afectivo. Ensinou-nos tudo, e disse-nos desde cedo que o sucesso é uma ilusão, tem de se ter cuidado. O mais importante, além de criar, é serse bom e estar em paz. Eu bebi isso, mesmo que não quisesse não teria como... Depois encontrei em Nampula o Mestre Namokotto. Ele tiroume um pouco a timidez. Percorríamos as ruas da cidade com uma farda militar e com os pés descalços. Tocávamos e eu ficava com as moedas.

ele nunca mas pedia, eu é que lhes dava. Eu cresci num mundo em que as pessoas percebiam o tempo em que viviam e estavam dispostas a amar e eu acho que é isso que tento passar no meu trabalho. É possível lutar e ser-se belo.

Das suas palavras, percebo que nasceu num meio pobre do ponto de vista económico, ainda que rico emocionalmente e na imaginação. Eu pergunto como surgiu essa vontade de ser pintor, num meio com tantas dificuldades. O Ruben decidiu ser pintor, artista ou foi algo que foi acontecendo?

Em determinado momento os meus pais separaram-se. A minha mãe apaixonouse por um homem belíssimo, o meu padrasto, com quem aprendi muito sobre masculinidade. Ele morava numa cidade que fica a setenta quilômetros de Nicoadala e convidou-me a ir viver com ele. Quando fui para a cidade onde ele morava frequentei uma escola nova. Um dos meus colegas de turma era muito tímido, mas eu via que ele tinha uma caligrafia muito bonita. Soube que ele tinha aulas de desenho e pintura. Foi através dele que fui para a Bindarte, onde ele tinha as aulas. O Mestre Binda ia para Itália, porém convidou-me para visitar o espaço. Vi uma pintura surrealista, a figura de uma mulher a

Entrevista

fundir-se com um instrumento musical, cores avassaladoramente belas. Eu olhei para a pintura e disse que queria pintar para o resto da minha vida. Foi assim! Fiz o curso de artes plásticas antes de fazer o de fisioterapia – para honrar a memória do meu irmão, cuidando de meninos que estivessem na mesma situação que a dele.

Numa das entrevistas que deu fala sobre a importância dos lenços e dos brincos e fiquei com a ideia de que estão relacionados com uma visão segura que tem da masculinidade.

Sim, acho que basta pegarmos num lenço e numa farda militar. A textura é diferente e a informação sensorial muda completamente. Ou nuns brincos e um relógio. Os lenços e os brincos têm em si qualquer coisa de magnético, a sua geometria remete-nos para um lugar diferente. Quando despertamos para isso percebemos que temos ali representada a dimensão feminina, se temos abertura para essa dimensão energética abrimos para o misterioso, para o desconhecido. é com viver num mundo de homens sem medo do poder feminino. parece que há homens que têm medo que as mulheres tenham um sucesso maior do que o seu. Eu adoro. Não há nada melhor do que estar ao lado de uma mulher que é segura de si, que é cheia. É fantástico. Também tive sorte de viver num mundo assim. Via a minha mãe assim, sempre bonita. Quando ela saía para a igreja, usava lenços, capulanas. A minha mãe dizia-me para engomar, dizia para passar ali e acolá. No fim, eu percebia que aquela peça era diferente das do meu pai. Era outra realidade.

Essas tarefas domésticas também lhe permitiram afinar a sua sensibilidade?

Sim. Eu cuidava do meu irmão e comecei a cozinhar com 11 anos. Todos os irmãos. a minha mãe dizia que nos educava para o mundo, éramos cinco rapazes. para mim, era muito óbvio, fazer o pequeno almoço enquanto a minha mãe estudava, depois ela vinha e fazia o resto. Eu acho que era o expectável, é o que devia ser feito, educar os homens, os rapazes, para a capacidade e não para a amputação emocional. Parece que estão desconectados, têm imensas dificuldades de expressar as suas emoções, é como se aquilo fosse menos importante. Porém a empatia, nasce também deste exercício de auto escuta.

O Ruben tem também um trabalho como formador na área da violência doméstica no namoro.

Desenvolvo com a Marisa Pedrosa. Temos materiais preparados e vamos às escolas explicar o que não é o amor. Muitas vezes, mesmo as pessoas mais velhas não sabem diferenciar o que o amor, da dependência emocional. Isso leva a situações violentas na sociedade. Nas ações formativas, abrimos um espaço, falamos da Sombra, na perspectiva do Carl Jung. Esse espaço, no fundo, é um momento catártico. As pessoas escrevem porque acham que não merecem ser amadas... E é curioso que muitas das coisas que escrevem trazem de casa. Crescem educadas a pensar que são feias ou desinteressantes, são gordas ou que podiam ser mais masculinas ou menos choronas.

Quem educa as crianças já as marca para o futuro?

Sim, infelizmente.

Tem feedback desse trabalho? Há jovens para quem a vossa sessão é um ponto de mudança?

Sim, sim. Percebemos isso, porque quando a sessão termina e mesmo ainda em andamento, vemos reações. meninos a chorar – conscientes do que viveram. Estamos certos que a mensagem fica, mas é preciso continuar e nem sempre a escola está disponível.

É um trabalho voluntário?

Sim.

Tenho uma pergunta para lhe colocar em que quase adivinho a sua resposta. Vê a arte como política? A sua arte é política?

Também. A partir do momento em que nos propomos pensar a sociedade em que estamos inseridos, tirando conclusões ou não. Mas a arte que usa os símbolos políticos, a meu ver, desce uns degraus. A arte tem de ser universal e transcendente. Portanto, arte política, sempre. Fazer, sempre. como? De forma a que perdure no tempo.

Guernica de Picasso é uma obra política. mas a forma como Picasso pinta é diferente de um jovem que escreva um poema sobre um partido.

Admira Picasso?

Sobretudo a obra.

E outros artista?

Entrevista

Chagall, gosto da ingenuidade dele, é difícil chegar ali. Gosto de Matisse, que faz arte como eu gostava de fazer. Parece que viveu numa realidade paralela. Parece que não retratou nada, nada, nada de política e da sociedade. Mas paradoxalmente fico com a ideia de que passou a vida toda a pintar a alma humana. É isso que me interessa. Também admiro o Chissano, o Malangatana, a Albertina Lopes, que é uma artista plástica brutal, Jacob Lawrence e tantos, tantos … Artistas que me cortam o fôlego como Otto Dix, Vrubel, Kokoschka, Rubens e Munch. Ficaria horas e horas a ver os seus trabalhos, parecem óbvios, mas não, são tantas as camadas que exigem uma abertura biopsíquica.

Hoje discute-se muito se a autoficção é literatura. Mas eu gostava de lhe fazer uma pergunta mais abrangente: é possível existir arte que não seja autobiográfica?

Não. É impossível porque mesmo que o artista esteja a fazer de conta, não consegue, há impressões do artista – é ele a “ocultarse” e o seu inconsciente a revelá-lo. É ele a trocar de roupa e a dizer que não é ele quem está a fazer este exercício.

Também tem um trabalho de escritor. Que autores hoje convoca para si?

Vítor Hugo, adoro os Miseráveis, para mim uma das maiores obras da literatura mundial. Os poetas malditos, Rimbaud, Baudelaire e Bukowski, aprendo bastante. Hoje aprecio a escrita telegráfica. Uma linha – tudo – um soco. Também acho fascinante o trabalho de Virgina Woolf, o fluxo de consciência, o Faulkner, a literatura africana. Adoro o trabalho de Sebastião Alba, para mim um dos maiores poetas. Alba conseguiu encarnar o Van Gogh, mas menos egoísta. E isso é difícil. Há um evento particular. Alba vivia na rua, em Braga, veio de Moçambique com a esposa e as filhas. Elas moravam em Lisboa. Ganhou 5000$00 num prémio literário e mandou todo o dinheiro para elas. Este é o nível em que as pessoas tocam o céu, depois voltam ou ficam lá, são outras histórias.

Também adoro Herberto Hélder, Miguel Torga, Natália Correia, José Craveirinha, Mia Couto, Ungulani Ba Ka Khosa com o seu Ualalapi, o Luís Bernardo Honwana que fez parte da resistência, são obras incontornáveis. Rui Nogar que tinha uma sensibilidade singular. Tem um texto em que nos convida ao espanto constante com o que nos rodeia, ao posicionamento político e há um momento que diz “temos de ser belos como a rocha que está na rua”, que chutamos e nos irrita, mas não deixa de ser bela. Pensamos “poxa, porque é que eu não pensei nisso”

Vai lançar um livro em breve?

O Guarda da Morgue. É uma história do pós-independência de Moçambique, as relações entre Cuba e Moçambique, acompanho jovens que foram estudar para a antiga RDA e que testemunharam a guerra de dezasseis anos. Os que tiveram que interromper as bolsas e regressar as suas zonas de origem depois da morte de Samora Machel, a frustração, o alcoolismo,

o desemprego, mas os personagens buscam a beleza, um contraponto que os permita viver, é livro complexo historicamente por ainda está em gestação.

Mas está a preparar alguma coisa?

Sim. Vou lançar brevemente uma obra intitulada Vulcão. O narrador é um miúdo que vê esta destruição e divaga na sua casa, num espaço curtinho.

Vai-se colocar na pele de uma criança?

Sim, eu sou uma criança.

Isso é um grande desafio. Estava a pensar no se deus me chamar não vou da Mariana Salomão Carrara, onde uma criança de doze, 13 anos também

se interroga sobre o mundo …

Que interessante!

O Ruben está então na pele de uma criança, é um trabalho difícil.

Sim, mas prazeroso. Eu gosto de tudo o que me conecta às emoções. É chato pensar sempre, é chato estar sempre a construir raciocínios. A sabedoria está muitas vezes nas crianças. Nós matamos a galinha sem pensar, as crianças perguntam “mas pai, porque estás a matar a galinha?”, percebemos que nunca pensámos sobre isso. Temos o hábito automatizado.

Gostaria que falasse sobre o projecto Memórias Anoitecidas/Paraíso.

É o título de uma pesquisa que desenvolvi na biblioteca pública de Braga. Propus-me fazer uma

Entrevista

revisitação histórica sobre a África pré-colonial. Aprendi desde tenra idade, na escola, uma África representada sob o ponto de vista português. Interessava-me perceber o que acontecia antes da presença de Pêro de Magalhães, que chegou dez anos antes, e de Vasco da Gama. E na pesquisa descobrem-se coisas … Por exemplo, o xilofone é um instrumento que veio da Malásia, no século V. Havia embarcações enormes naquela região, trocas comerciais com os árabes – vida pulsante, mas a história é contada sobre o olhar dos vencedores e quando estes são execráveis, amesquinham toda uma existência cultural. Interessam-me os núbios, os griôs que falam de estar plenamente, a relação entre música e educação. O ocidente não dá muito crédito à oralidade. Mas em África a oralidade tem valor. Vamos a um sítio comprar cinco quilos de açúcar e prometemos pagar no dia seguinte ou em seis, não é preciso escrever. A palavra tem valor.

Eu queria regressar a esses dois impérios da África, os mwenemutapas, que, segundo algumas descrições do cónego Alcântara Guerreiro, não era preciso cavar, o ouro a superfície – abundância. A arquitetura, com influência árabe ou a sudanesa com relevos e uma linguagem própria não era minúscula como o ocidente passa.

A ideia que tenho é que a obra de Modrian foi influenciada pela arte pré-colombiana.

Exatamente.

Hoje isso é mais reconhecido pois há gente que estuda tais matérias.

Sim. mas também temos o exemplo de Picasso. As Mulheres de Avignon são inspiradas nas máscaras de Benim e de Mali. Quando se faz uma retrospectiva cultural de África … As máscaras, que eu estudei são complexas, têm diferentes funções, cores, formas e tamanhos. O bronze do Mali é tão complexo como a arte ocidental. Por que estas peças são apresentadas na sua maioria sob o olhar etnológico? Quais são os nomes dos seus autores? Caíram do céu como os dez mandamentos? Eu acho que é preciso reivindicar o lugar destas peças, estudar a arte africana numa linha cronológica proposta pelo historiador e filósofo Joseph Ki- Zerbo, uma linha temporal diferente da do ocidente para estudar um povo com uma história diferente da europeia. É óbvio que se um ilustre transportar as épocas renascentistas por exemplo ao contexto africano, encontrará um deserto, a nível de

expectativas construídos a respeito do que é arte, para ele, isso não significa que não haja arte de excelente qualidade.

Os museus devem expor a arte africana com o mesmo respeito que demonstram a um Velásquez ou Caravaggio. Vamos a um museu e a arte ocidental está etiquetada e, por vezes, vemos a arte africana amontoada. Mas quem fez aquelas obras?

Agora estou a lembrar-me de uma questão conexa. Os museus ocidentais têm muitas máscaras e arte africana, mas muitas vezes em museus de etnografia e arqueologia. Apenas numa dimensão.

Exatamente.

O Ruben coloca a questão de as máscaras não serem expostas como objeto de arte. Mas há outra questão que tem surgido e que é o facto dessas obras terem vindo sem a devida autorização. Há países que têm estado a devolver esses objetos, reconhecendo isso mesmo. O que lhe parece?

Só a devolução das estátuas não resolve o problema. É preciso criar políticas abrangentes a partir de olhares multidisciplinares, os intelectuais africanos devem estudar a sua história com rigor e seriedade de forma a passar o legado deste povo, detentor de um papel crucial na história humana.

PANO PARA MANGAS

PARA O PRATO, COM AMOR!

A cozinha sente-se. Então não se faz?

Obviamente que se faz, mas se não a sentirmos, os sabores não florescem.

Até há uns anos tinha o hábito de abrir o frigorífico e, sem grande esforço, combinava ingredientes improváveis e fazia uma refeição “do nada”. Se a memória não me trai, nunca ninguém se queixou. Quer dizer…a única queixosa seria eu, mas tal não aconteceu.

Combinava sabores e temperos com a destreza de quem se dá ao luxo – agora vejo isto mais como imprudência ou asneira – de não provar o que cozinhava. Nunca ninguém se queixou. Ai que estou a ser repetitiva…

(Vejamos isto pelo lado literário e consideremos que se trata da aplicação um processo de coesão ou do uso de um recurso expressivo, pois tal como na culinária, usamos as mesmas especiarias

em vários pratos e o sabor é sempre diferente.)

Perdi o hábito.

Quando? Como? Porquê?

Não sei precisar, porém caso as papilas gustativas não me enganem, deve ter sido na altura do primeiro confinamento, há precisamente seis anos, que é como quem diz, em 1720 – um pouco antes do terramoto.

E aconteceu porque passei a cozinhar menos e a lista das compras era meticulosamente pensada e planeada, para que apenas uma vez por semana fosse necessário ir ao supermercado. Meu Deus! Agora que recordo estes momentos, parece que tudo aquilo que vivenciámos foi noutra vida onde se dizia que tudo ía ficar bem e que as pessoas iriam sair melhores da adversidade. Saíram? Não me parece…

E por que é que o costume se dissipou? Também não sei.

Perdi o hábito de cozinhar com o que houvesse no frigorífico, já que à hora da refeição o que está congelado não pode ser preparado.

E assim se instalou outro hábito: o de comer qualquer coisa. Péssimo!

Apenas me apercebi disto há dias, quando “não tinha nada para almoçar” e, de repente – com o que havia – tinha no prato um manjar dos deuses, repleto de cor e de sabor.

Isto fez-me refletir que é necessário desinstalar o chip do “qualquer coisa” e voltar a instalar o disco do “o que é que eu faço com o que tenho aqui?”

Voltei a namorar livros de culinária, que nascem como cogumelos em minha casa. O Instagram presenteia-me com alguns dos melhores chefs. Já revi os cadernos de receitas que moram nas prateleiras dos meus pais. E a imaginação começa, de novo, a borbulhar. É uma sensação tão boa e tão fresca. Confesso que já tinha saudades.

(Credo! Uma sequência de frases tão curtas

até faz pensar que estas divagações têm o dedo da IA…como se a dita cuja tivesse dedos!)

Voltar a ganhar o gosto pelo tacho e pela colher de pau é overwhelming – que me perdoem os puristas da língua portuguesa, mas a minha alma de eterna emigrante não encontra uma tradução que fique aqui bem – e extremamente gratificante: pegar em dois ou três ingredientes e ter a colaboração dos temperos certos. É pura magia! Aquele gesto maravilhoso de pegar no sal, no piri-piri ou na noz-moscada com a ponta dos dedos e temperar a comida, deixando cair sobre ela as pequenas partículas de cada um dos temperos. É tao bonito de se ver, de se experienciar e de se sentir.

Não há que enganar!

Como não? Perguntarão os mais céticos e com pouca paciência para a cozinha? Não há que enganar. De todo. Porque além dos ingredientes cozinhados, o que eu quero no prato é Amor, e esse está presente desde o primeiro fio de azeite.

É por isto que a cozinha se sente.

Monteiro Mendes VAMOS AO... ...

Quando eu escrevi a peça, “Eu sou o Bardo! Quem?” em 2007 titubeei!

“Onde começar, como nomear sem reduzir e como sustentar cada afirmação com ancoragem textual, cénica e interpretativa?! Recorri como ancoragem a Branagh /Dench.

Em Hamlet, Shakespeare não escreveu apenas uma tragédia de vingança. Escreveu uma tragédia sobre a impossibilidade de sustentar a verdade sem mediação.

Hoje, Branagh e Dench, surgem como um alívio interpretativo dessa tensão, apesar de meros ( lindos, extraordinários), actores e sem serem autoridades de valor absolutas.

Na leitura cinematográfica de Kenneth Branagh, e na escuta subtil que Judi Dench – que propõe o texto shakespeariano -, essa tensão torna-se visível!

A verdade exige um palco, mas o palco não suporta a verdade inteira.

“O that this too too solid flesh would melt” (I,2). É um monólogo privado, uma verdade, verdade sem público. É um Bardismo abortado, uma verdade sem corpo social.

Hamlet usa a arte para dizer a verdade. Hamlet encena e cumpre parcialmente as duas primeiras condições: - diz a verdade; - torna-a pública; No entanto, recusa pagar o preço imediato.

Depois da quebra (IV,5) sim !

Aqui Ofélia torna-se um bardo em pleno. Diz a verdade.

Di-la em público!

Não a fragmenta por estratégia, fragmenta-a por excesso (Shakespeare)!

Aceita o custo, mesmo sem o compreender.

As canções, sexualidade, morte, corrupção e traição

masculina são cantos “bardísticos” arcaicos, quase pré-cristãos.

Procurei um ponto de Aço, um nó de reforço, inquebrável, onde Hamlet intelectualize a verdade até à paralisia.

Ofélia corporiza-a até à dissolução e isso é ouro crítico!

Enche-nos de silêncio!

Existe amor nessa “cortina transparente”(é muito minha, esta expressão) que é afinal, o Bardo?

A resposta é, claro que sim, existe, mas o amor não sobrevive à função “bardística”, o amor exige opacidade, intimidade, silêncio partilhado.

O bardo exige exposição, nomeação e ruptura.

O amor em Hamlet não é traído por falta de sentimento, mas por excesso de verdade.

O que existe aqui é síntese original e experiência prática de palco (e isso foi decisivo para a obra).

Experiência própria “Eu representei ‘O Bardo’. Quem?“

Escrevi a partir do corpo em cena, não apenas da biblioteca.

É uma crítica que emerge da prática teatral e é considerada, no meio académico, produção interpretativa legítima.

Abertura cénica.

– Verdade, palco, mediação.

Bardo: definição forte.

– Tradição, três condições.

Hamlet como função Bardística falhada

– Cenas, monólogos.

Peça-dentro-da-peça.

Ofélia como bardo absoluto e sacrificial

– Canções, loucura, corpo como texto.

Conclusão

– A tragédia não é a morte. –

É a impossibilidade de sustentar a verdade sem se destruir.

EU REPRESENTEI O BARDO! QUEM?

A PALAVRA QUE NÃO

FOI DITA!

Peça em dois atos – versão para leitura encenada

NOTA DE ENCENAÇÃO (essencial)

Duração: 30–35 minutos

Estilo: leitura encenada, atores discretos, movimentos mínimos

Luz: fria, lateral; nunca frontal

Hamlet: ironia seca, quase divertida; dor contida Shakespeare: artesão severo, não oráculo

Ofélia: centro moral; canta sem dramatizar

PERSONAGENS

O AUTOR

O BARDO

HAMLET

OFÉLIA

O REI (Fantasma) SHAKESPEARE

ATO I

Do Pai e da Falha

Cena única (Luz. O BARDO está sentado. O AUTOR entra.)

AUTOR

Entrei quando a casa já falava sozinha e a palavra se apoiava em muletas.

BARDO

As casas aprendem cedo a viver sem pai.

AUTOR

Chamaste-me ainda assim.

BARDO

Chamei quem sabe que o silêncio também acusa.

(HAMLET entra, observa, sorri de lado.)

HAMLET

Vejo-vos graves.

A morte, quando chega, empresta solenidade aos vivos, como se fosse uma virtude.

AUTOR

Dizem que choras demais o teu pai.

HAMLET

Choro pouco. O excesso é o mundo a pedir explicações.

(O REI surge por trás da cortina.)

REI

Filho…

HAMLET (sem se voltar)

Meu senhor!

REI

Não te pedi ira.

HAMLET

Nem eu a recebi.

Recebi uma verdade sem abrigo…

REI

Pedi nome.

HAMLET

Nomear é ferir.

E quem fere sangra junto…

(OFÉLIA avança, calma.) OFÉLIA

Enquanto disputam palavras, o chão aprende a beber.

(Silêncio curto.)

ATO II

Do Autor e do Canto

Cena I — Entrada de SHAKESPEARE

(SHAKESPEARE entra, tira as luvas.)

SHAKESPEARE

Que assembleia é esta? Reconheço as sombras, não o atrevimento.

(Vê o AUTOR.)

E tu — entras na minha obra como herdeiro ou como intruso?

AUTOR

Como quem chegou tarde e encontrou o pai já enterrado sem nome na pedra.

SHAKESPEARE

Pais enterram-se todos os dias. Fazer disso teatro é escolha!! (Volta-se para HAMLET.)

SHAKESPEARE

E tu, príncipe — por que choras tanto este rei?

Outros morreram sem palco.

HAMLET (irónico)

Porque este morreu mal escrito. E erros de escrita custam caro aos filhos. (Breve pausa.)

SHAKESPEARE

Cuidado!! Até os autores pagam revisões.

Cena II — Canção de OFÉLIA

(Ar elisabetano – estilo John Dowland / Thomas Campion; modo dórico; tempo lento)

OFÉLIA canta

Meu pai jaz sem palavra, meu rei sem confissão, quem escreve o nome ausente quando treme a própria mão?

Há flores que leem terra melhor que homem letrado, nem todo o juízo é são, nem todo o canto é errado.

Se a pena teme a verdade, ouve a água que aí vai: quem não nomeia o pai afoga-se no que faz.

(Última nota longa. Silêncio absoluto.)

Cena III — Confronto

SHAKESPEARE (baixo)

Não te dei essa voz…

OFÉLIA

Deste-me água.

A água aprende sozinha.

BARDO

O autor semeia.

A palavra escolhe onde cair.

(O REI avança um passo.)

REI

Não foi o veneno que me matou. Foi o adiamento.

Cena IV — Final SHAKESPEARE (ao AUTOR)

Se permaneces, não expliques. Nomeia… e aceita o custo!

AUTOR

Não canto.

Mas não consinto o silêncio.

HAMLET (última fala, irónico, calmo)

No fim é sempre assim: todos querem justiça, poucos querem a língua que a sustém.

(A cortina move-se. OFÉLIA desaparece. O REI desvanece.)

BARDO E assim termina: não por falta de verdade, mas por excesso de preço. (Escuridão.)

NOTA FINAL DE LEITURA

Hamlet deve sorrir levemente na última fala.

Ofélia nunca chora. Shakespeare sai questionado, não vencido.

Fotografia gentilmente cedida por Fernando Corrêa dos Santos
Fotografia gentilmente cedida por Fernando Corrêa dos Santos
Fotografias gentilmente cedidas por Fernando Corrêa dos Santos

A Justiça Segundo a Última Tendência

Pedro Cabeça

Há qualquer coisa de ternamente trágico na nossa convicção moderna: acreditamos que estamos a salvar a Justiça… abrindo ficheiros a todos os homens do planeta.

A Justiça com maiúscula não nasceu ontem. É conceito filosófico, virtude moral, sistema jurídico e senhora mitológica com três acessórios indispensáveis: balança, espada e venda. A balança para pesar, a espada para decidir, a venda para não distinguir. Tudo muito antigo, muito sóbrio, muito pouco ‘‘instagramável”.

Depois vieram os PDFs. E os da moda atendem pelo nome de Epstein

A divulgação dos ficheiros foi celebrada como triunfo da transparência.

A luz pública como detergente moral. Abrem-se pastas, ampliam-se nomes, discutem-se faixas negras com a paixão que antes se reservava ao futebol.

A verdade estaria lá, comprimida, indexada, pronta a ser descarregada.

Descarregámos. E criámos uma nova modalidade de Justiça a Justiça Popular Global™. Funciona 24 horas, não exige licenciatura em Direito e aceita comentários em direto. A prova é aquilo que circula. A sentença é aquilo que indigna. O contraditório é opcional; o algoritmo trata do resto.

Só que, para a justiça ,essa “aborrecida” instituição da exigência, a investigação não é entusiasmo multiplicado. Implica contraditório, nexo causal, tipicidade. Implica tempo. A balança não é substituível por um contador de partilhas.

Hoje a receita para os símbolos da justiça é simples, a balança é a métrica, espada é o cancelamento, a venda caiu, não para garantir imparcialidade, mas para ver melhor quem devemos julgar primeiro. A prudência é suspeita. A reserva processual

é encobrimento. A demora é cumplicidade, e politiza-se tudo q.b..

Cada redação de documento é estratégica. Cada omissão é manobra. Cada documento é munição. O processo deixa de ser jurídico e passa a ser narrativo.

A Justiça passou a andar de mão dada com as sondagens, e isso nunca foi boa companhia., assunto de painel, tema de café. E depois fazemos a pergunta errada: “quem está escondido?”

A pergunta certa seria: “quem ganhou com isto?”

O público ganha a sensação de participar numa alegada queda de poderosos. Os comentadores ganharam semanas de emissão. Os algoritmos ganharam tráfego.

E as vítimas?

Ganharam exposição. Ganharam reabertura pública da dor. Ganharam mais debate sobre nomes do que sobre danos. A visibilidade aumentou. A reparação não necessariamente.

Chamamos-lhe transparência. Talvez seja apenas espetáculo

A Justiça, no sentido clássico, dar a cada um o que lhe é devido, exige equilíbrio, imparcialidade, aplicação da lei. Não assuntos na moda. Não julgamentos ao engolir de um tremoço. Não sentenças entre uma imperial e um comentário viral.

Talvez a maior ilusão do nosso tempo seja acreditar que todos podemos ser agentes da Justiça, e, claro, sempre do lado certo.

Se continuarmos assim, não estaremos a fortalecer a Justiça que desejamos. Estaremos a destruir a Justiça.

Têmis ficará sem venda, a balança será trocada por sondagens e a espada por likes.

A verdade é que a continuar assim, os processos acabarão julgados entre o café cheio das 9h e o painel das 22h, com comentário em direto, imperial na mão e execução em praça publica.

Esta não é a Justiça que Idealizamos.

E O MAR LOGO ALI

Ana Gomes

DECLARAÇÕES PARA MEMÓRIA FUTURA

(…) ao ouvi-lo, ao observá-lo, eu interrogava-me se seria realmente capaz de entender o seu sofrimento.

José Luís Peixoto, “A Montanha”, 2025, Quetzal

Todos os dias passa por aquela fotografia e é o mesmo espanto. Todos os dias, as pessoas que ali estão - umas a fitar a câmara, outras a evitála ou distraídas com qualquer coisa que não se vê no retrato – comunicam consigo. Gilda conhece bem aqueles rostos e aqueles corpos, pessoas que conviveram durante anos e que se deixaram ver nos dias bons e nos dias maus. A fotografia ficou exposta em casa dos que figuravam nela e quando a família se reunia, devido à intimidade que tinham desenvolvido com o objeto, já não diziam, como no principio, que não fiquei bem, que esse não era o meu melhor perfil, que estava gordo ou demasiado magro, que cabelo horrível. Gilda tinha captado a verdade de cada um e essa verdade ficou fixada no retrato.

A história do retrato de trinta por quarenta e dois centímetros que a Juíza tem na parede conta-se em poucas linhas. Estava ainda a estudar e a explorar que caminho havia de seguir quando as sessões do Doclisboa a prenderam, literalmente. Em segredo, falhou as aulas, passou horas a absorver como cada realizador colhia o que via e ouvia e vertia a sua perceção em filme. Não teria sido estranho que tivesse seguido cinema tal o impacto que aquele período teve em si e na maneira de ver o mundo. Por outras razões entrou em Direito e fez-se Juíza.

Gilda continuou a interessar-se pelo documentário e a frequentar festivais, consumindo e aprendendo, até que propôs aos que estavam ainda disponíveis para serem filmados, fazer de novo o retrato de família, em movimentos, pequenos movimentos, para revelar aquelas pessoas vinte anos depois. Sem falarem, ficou uma declaração para memória futura. Montou o mini filme e hoje está exposto, tal como a fotografia, em todas as casas dos que aparecem. Uns segundos que os aproxima mais que uma chamada de whatsapp e que permanecerá para além da vida de cada um.

Nunca se tinha apercebido da relação deste seu passatempo com o seu trabalho até ter a braços um processo com muitas declarações para memória futura, aliás, todas as vítimas já tinham sido ouvidas.

No processo penal, é possível que os depoimentos das testemunhas sejam realizados

uma única vez, no que a lei chama de declarações para memória futura, em caso de doença grave ou de deslocação para o estrangeiro (embora, com a facilidade de comunicações não faça muito sentido manter como regra), ou em certos tipos de crime, com vista a não sujeitar a vítima a uma repetição de procedimentos, afastando o perigo de vitimização secundária, além de procurar garantirse a proximidade do depoimento em relação aos acontecimentos, facilitando por essa via a liberdade e a genuinidade do depoimento. No processo civil, também é possível antecipar a produção de prova, se bem que em casos mais limitados. As declarações para memória futura são uma exceção ao princípio da imediação que impõe o contacto direto entre o julgador e os meios de prova.

E como tinha sido o registo no caso? Um texto escrito na terceira pessoa, ditado pelo Juiz que disse o que acreditou serem as palavras dos jovens. Havia também algumas gravações áudio. As audiências já eram gravadas. Não sabe por que razão o som está tão mau. Mais à frente, foi surpreendida por uma gravação audiovisual. O número de testemunhas a inquirir muito antes da audiência (para o caso de o Ministério Público acusar e essa acusação chegar à fase de audiência) deve ter feito pensar o Juiz que estava a presidir àqueles atos. Telefonou ao colega, com quem se cruzara um par de vezes, que lhe contou que o Tribunal não tinha equipamento decente para fazer a gravação audiovisual. À medida que ouvia as vítimas, mais de vinte, percebeu que o registo tinha de ter outro suporte até por respeito ao que cada uma delas ia relatando. Contou-lhe que levara a sua câmara, arranjara um microfone e fizera o registo, para que quem tivesse de julgar, pudesse ver, ouvir e sentir o que lhe estava a ser dito, com as pausas, ainda sem acreditar que o inferno tinha acabado, com as lágrimas, e sem a raiva que viriam a manifestar depois por lhes terem roubado a inocência da juventude.

Ao preparar a audiência, Gilda falhou uns compromissos, passou horas a absorver como cada pessoa experimentou ser vítima e como graças a um colega que não se bastou com os meios inexistentes, foi procurar mais e encontrou. A audiência começa amanhã. Venha o contraditório …

CARLA PAIVA

“Fui vítima de doméstica”violência

O verbo é passado…mas não fica no passado.

A pena servirá para reparo nos danos … são os danos físicos e psicológicos que ficam, que doem, porque nos perguntamos porque deixámos que acontecesse a primeira vez, em nome de quê?

A pergunta que ainda hoje coloco é : como é possível que deixemos que alguém nos destrate, nos ofenda, nos empurre, nos violente,… quando buscamos a perfeição em cada gesto para evitar a discussão, quando queremos que tudo funcione para não despoletar mais um episódio menor que é o gatilho para a maior discussão, seja o casaco pendurado na maçaneta da porta e por isso somos desarrumadas, do jantar que se atrasou, que por isso somos desorientadas, ou da resposta que se devolve e somos postas na rua, aos empurrões, como se fossemos “nada”, e sem nada, nem um telefone para ligar a alguém e, por isso, numa força que

não sabemos que temos, batemos e tocamos à campainha e um dos filhos abre a porte…e vê… vê a vulnerabilidade em pessoa, a cara molhada, as marcas nos braços…e o grito na nossa mente, o desespero e a necessidade da libertação e tudo o que não se conta por vergonha, porque não queríamos ter sido vítimas, não queríamos ter calado a primeira vez ou a segunda, porque a culpa é nossa sim, e só ao assumir essa culpa podemos remediar, e não deixar que nenhum episódio se repita porque vão haver outros …um e mais um e mais um.

Não é desrespeito, é violência.

Até ao dia em que temos de chamar a polícia …porque já não temos força, porque já não há forma de contornar, porque temos filhos e não cremos ser esse o exemplo, porque é pelo exemplo temos de mostrar que ninguém tem o direito de fazer mal a ninguém de diminuir, de ofender, de violentar.

E vem o depois, e o depois é ainda mais devastador, porque o agressor fica. Fica no seu espaço, no seu conforto, na sua vida.

Sai a vítima, quão injusto isto se afigura…não se coloca apenas o facto de deixar para trás uma casa que já deixa marcas, coloca-se o facto de carregar uma culpa que não é nossa, mas temos de sair, para estarmos em segurança, dizem.

Não. Não estamos em segurança, ficamos ainda mais vulneráveis, desgastadas horas de inquérito, mil perguntas, de forma diferente para corroborar uma verdade que maioritariamente está à vista. Sei do que falo, porque as lágrimas caem a cada resposta, a cada memória de cada encontrão, de cada ofensa, de cada calúnia.

O agressor continua a vida naquela casa… dono e senhor como sempre fora, sem mácula.

Entrei na minha casa com 4 agentes armados para que eu pudesse ir buscar uma muda de roupa – o agressor estava escondido, eu vi. Cobarde. E eu saí…, mas saí de cabeça levantada, cara molhada…o corpo a doer…mas saí pelo meu pé…há muitas que não conseguem…e é

para essas que falo…não tenham medo, porque tudo muda se houver força e uma vítima é uma mulher de força …sobrevivemos e portanto só por isso temos uma capa invisível que nos transforma em super - mulheres…

E passam anos até à condenação e o medo persegue-nos todos os dias e aprendemos a viver com o medo…

Passam anos

Virá o dia em que será o agressor a sair, com a vergonha, de cabeça baixa…com o estigma, porque não são homens, esses, são ratos. Virá o dia que o agressor de violência doméstica será a excepção do in dubio pro reo, o argumento tem que ser a contrario e até ao julgamento será in dubio pro victima

Há de o tempo curar, e o amor, porque o amor cura.

Acredito, hoje, ainda assim no amor.

ESTRANHAMENTO NA SOCIEDADE CONTEMPORÂNEA

Há muitas pessoas amorfas, acomodadas, ou narcotizadas, cujos interesses e motivações se limitam a miragens e quotidianos cinzentíssimos.

Mas também há alguns que, de um rompante, pretendem engolir este mundo e o outro, levando de vencida quem por acaso esteja no seu caminho, que pensam de inevitável sucesso e por vezes até glória.

Entre uns e outros, há alguns, decerto hoje não muitos, que moderadamente encaram a sua vida corrente, com objetivos e, sem se preocuparem excessivamente com filosóficos ou escatológicos « sentidos » para a vida (que podem redundar noutras formas de alienação, e vir a levar a profundas e deprimentes desilusões), teimam em estar de bem consigo mesmos e com os outros. Se bem que reconheçam que os tempos andam complicadíssimos, perigosíssimos, e que os seus concidadãos precisariam de um choque de bom-senso.

Estão de bem consigo e com a vida, mas estão perplexos, por vezes, e outras vezes chocados. Uma verdadeira comoção surge frequentemente, agora. Quando tantos dos que falam na televisão assassinam

com total à vontade a Língua Portuguesa, não só a polvinhando de estrangeirismo pretensamente « chiques » e da moda, como criando neologismos abstrusos, que chocam com a plácida toada poética do nosso idioma. Nem vamos exemplificar, para não semear mais inimizades… Mas que ainda há muitos (e até jovens) que se arrepiam com as barbaridades que se ouvem na comunicação social televisiva, isso há – e ainda bem.

Outro choque, este de contristamento e repulsa, indignação até, se produz ao assistir-se à desenvoltura palavreadora sem conteúdo, com inteligência superficialíssima e estribilhos (bordões de linguagem) óbvios, desinteressantes, mas proferidos com tanta segurança e pretenciosismo ! Parece realmente muito pior que uma língua estrangeira. Porque aos idiomas de outros países podemos aprendê-los, enquanto a esta confusa salada só talvez alcançássemos se desaprendêssemos a nossa Língua.

É como passar para um outro planeta, mas hostil e incompreensível em boa medida. Com o pior da incompreensão, que é o entreabrir-nos o véu do novo templo, sem nos deixar entrar nesse novo e profaníssimo (profanador até) sancta sanctorum. Na

estranheza das palavras, na floresta de enganos da burocracia cerrada da informática em que só não é, na verdade, infoexcluído quem for especialista na área (alguns bem tentam acompanhar, mas a frustração é o seu prémio), na chinoiserie da Finança e da Estratégia (que Bertrand Russel analisou no seu crypticismo), da Estatística, da própria Economia-Economics (que quando era simplesmente « Economia Política », ainda cursei com gosto e proveito na Faculdade de Direito, e era tão bonita e tudo batia tão certo…), enfim, em cada vez mais domínios da existência e da reflexão sobre ela estamos num Brave new World, que tem algo de kafkeano.

Não acreditamos em teorias da conspiração. Mais vamos com o antigo ministro da cultura francês, Luc Ferry, que mais que uma vez sublinhou a roda-livre em que anda muito da decisão. Por isso, quando as coisas correm mal (e crescentemente tendem a correr mal – preço da sociedade de risco e da complexidade), é sempre muito complexo saber quem responsabilizar. Há um constante e quase cómico (se por vezes não fosse trágico) endossar sucessivo, até que, alguns pensam que frequentemente, a culpa acaba por morrer solteira. Mas não é, as mais das vezes, pérfida intenção, maquinação de gregos ou troianos, e dos suspeitos do costume. Estamos em crer que, a maioria esmagadora das vezes, o que se passa é que as políticas andam sozinhas, e mesmo os mais responsáveis não têm nem conhecimento nem intenção.

Nietzsche dizia que o Estado era um monstro frígido, e que sofismava a sua realidade (e a nossa) fazendo-nos falsamente crer que se confundia com o Povo. Ora esse monstro, que não é nem o Povo, nem sequer fundamentalmente se confunde com os próprios órgãos de soberania (uns indefesos, outros exogenamente conduzidos, outros assoberbados de tarefas adventícias e supérfluas e objetivos vãos e « autopiéticos »), esse monstro anda sozinho. Não tem cérebro, e os seus tentáculos funcionam autonomamente. Ainda se o monstro fosse realmente um polvo, com seus nove cérebros, um deles seria o central, apesar de tudo. O que se teme é que, em grande medida, nem seja necessária qualquer descentralização, porque muito se autogoverna, apesar de, como estudou o

antropólogo Jorge Dias, em Portugal haver muita dificuldade de a burocracia mais próxima do cidadão decidir, remetendo frequentemente essa responsabilidade para os superiores hierárquicos. Contam-se vários casos, pitorescamente anedóticos, de questões, militares e alfandegárias, por exemplo, que no Estado Novo tiveram de subir até ao Presidente do Conselho de Ministros, que as teria despachado de uma penada, e até com sentido de humor.

Mas isso foi obviamente possível porque ele detinha o poder praticamente absoluto, e os subordinados temiam qualquer passo fora do estrito círculo da descrição de tarefas do seu posto (que na altura certamente nem existiria como tal –a ciência da gestão de recursos humanos é ulterior, pelo menos entre nós).

Caderno Das Mulheres de Luz Lenta Caderno Das Mulheres de Luz Lenta

Mariana Roque

II — Herança

Nasci com vozes dentro. Não eram minhas, eram restos de mulheres antigas presas nas dobras do tempo. Vieram comigo as mãos da minha avó, ásperas de trabalho invisível, vieram os olhos da minha mãe, treinados para adivinhar perigos, vieram as palavras engolidas das que aprenderam a sobreviver caladas. Há uma herança que não se escreve em testamentos: é passada de pele para pele, no modo de arrumar a casa, na forma de amar sem descanso, no hábito de pedir desculpa por existir. Carrego-as no sangue. Carrego-as nos gestos pequenos. Sou feita de muitas que não puderam ser.

III — As que passam Há mulheres que caminham como quem não quer acordar o mundo. Trazem passos de algodão e um cuidado antigo nos dedos. Vivem entre o som da água a ferver e o relógio que insiste, entre o cheiro do pão e as janelas abertas da manhã. Guardam fotografias que já não existem, vozes dobradas em cartas, nomes que só elas pronunciam em silêncio. Aprenderam a conversar com as sombras da casa, a reconhecer o humor do vento, a ouvir o cansaço das paredes.

São feitas de uma resistência sem espetáculo, de um amor que não aparece nos jornais, de uma coragem pequena e diária que cabe inteira num gesto simples: arrumar a mesa, regar as plantas, tocar no ombro de quem fica. Carregam histórias na curvatura das costas. E ainda assim atravessam os dias com uma delicadeza que não pede licença.

Graça Raposo

Nasceu em Lisboa, em 1955.

Aos 10 anos, com a quarta classe concluída, os pais levaram-na para França.

Aos 20 anos, com o 12º ano feito num liceu parisiense, e naturalizada francesa, regressou a Lisboa.

Na impossibilidade de obter uma equivalência ao 12º, decidiu regressar a Paris.

Casou e nos 5 anos seguintes, começou a trabalhar como assistente de advogados, teve a primeira filha e inscreveu-se na Faculdade de Direito.

Com o diploma em mão, escolheu integrar as equipas jurídicas dum banco e especializouse na área dos fundos de investimento – um desafio cheio de dinamismo.

Chegou o segundo filho. Chegaram as 5 netas. Construiu o património emocional e cuidou do futuro material, mantendo sempre um forte elo com Portugal

Hoje, sem o meu marido, aprecia a reforma ativa, rodeada da família: netas, sobrinhos netos, e amigos, que continuam a desafiarme para viajar, ler, pintar.

As mulheres de Myanmar (Birmânia)

Heroínas que a ditadura patriarcal tende em tornar invisíveis, ao abrigo dos dogmas religiosos.

Em 2019, 8 anos depois da junta militar ter sido dissolvida, e um governo democrático ter sido instaurado, com a participação de Aung San Suu Ky, fui visitar a antiga colónia inglesa birmã, durante 3 semanas.

Ao pisar o solo do Myanmar, compreendi imediatamente que seria uma viajem especial.

O Myanmar tem milhares de pagodes, templos, brancos como a cal, dourados, cheios de torres e decorações extravagantes.

Os budas inundam os jardins, as terras, as florestas, as casas, de pé, deitados, gigantes, brancos, dourados.

Depressa me apercebi que a religião estava omnipresente na vida quotidiana dos birmaneses.

Cerca de 90% da população é budista, o que não os impede de acreditar nos nat (os espíritos), que convivem bem com a religião oficial.

A população dedica entre 10 e 30 % dos seus baixos rendimentos à manutenção dos pagodes e dos monges. Os mais pobres dão mais, proporcionalmente aos seus rendimentos. A quantidade de notas, colocadas todos os dias, entre os braços dos budas, nas dezenas de milhares de templos, por todo o país, dava uma ideia da dimensão financeira envolvida.

Mas o choque não veio da importância da religião que ritma a vida das pessoas que cruzávamos.

O choque veio da visão que me ficou do lugar das

mulheres na sociedade birmã.

Nas suas ocupações diárias, as mulheres, trabalhando nas obras, varrendo os templos com os filhotes nas costas, carregando as nossas malas à cabeça, apresentavam um sorriso discreto, uma atitude reservada e um distanciamento que desconhecia nas mulheres dos outros países asiáticos que já tinha visitado.

Tanto insisti com o guia, que acabei por perceber a razão da tristeza nos olhos das birmanesas.

A religião é a chave das desigualdades e do lugar que ela concede às mulheres.

O budismo Tharavada, que significa “A Doutrina dos Anciãos”, continua a ser a religião dominante, praticada por mais de 85% da população, especialmente pelos Bama, Shan e Môn.

Na religião budista tharavada, a condição feminina impediu as mulheres de aceder à Iluminação.

As mulheres, estando desprovidas de phón, a totalidade das grandes virtudes budistas que englobam a honestidade, a retidão, a renúncia ao desejo, não possuem esse poder espiritual, pois estão inclinadas à desonestidade, à duplicidade e à cobiça.

As lutas travadas por algumas mulheres não conseguiram restabelecer a igualdade.

Se os valores ensinados por Buda são o amor, a compaixão, a não-violência e a tolerância, algumas regras instituídas pelo budismo continuam a restringir a liberdade das mulheres na sua prática religiosa mas também na maioria dos aspetos da vida quotidiana.

Tanto na esfera privada como pública, as desigualdades entre homens e mulheres fazem-se sentir, de maneira persistente.

E foi na célebre Rocha de Ouro, onde passamos uma noite, que o afastamento das mulheres se tornou para mim mais revoltante.

Entre os tesouros espirituais da Birmânia, poucos lugares fascinam tanto como o pagode da Rocha de Ouro, conhecida localmente pelo nome de Pagoda Kyaiktiyo.

Empoleirada na encosta de uma montanha, este pagode

atrai todos os anos milhares de peregrinos budistas e viajantes curiosos, ansiosos por admirar um espetáculo natural e religioso único no mundo: uma enorme rocha coberta de folhas de ouro, desafiando a gravidade à beira de um precipício.

Segundo a lenda, mantém o equilíbrio graças ao posicionamento muito preciso de um cabelo do buda.

Para chegar ao pagode da Rocha Dourada, famílias inteiras, monges, visitantes, começam a viagem a partir de Yangon.

Após cerca de 5 horas de carro, chegamos a Kinpun, chamado o “acampamento base” do local. A partir daí, uma subida espetacular, em camião adaptado, conduz os peregrinos e turistas até perto do cume.

Os mais corajosos podem então escolher percorrer a última etapa a pé, uma caminhada de cerca de 4 quilómetros que adiciona uma dimensão espiritual e contemplativa à experiência.

O meu grupo optou por experimentar a carrinha descapotável e subir aos solavancos e gargalhadas. Ao aproximar-me da rocha, reparei que grupos de homens colavam folhas de ouro umas por cima das outras, dando ao rochedo o seu nome.

Nenhuma mulher se aproximava da rocha….proibição total de dourar a rocha mítica.

E a razão deixou-me sem voz : as mulheres sendo impuras, não se podem aproximar da Rocha. Vim também a saber que não se podem aproximar dos budas.

São elas que se levantam as 5 h da manhã para preparar os cestos de presentes, de comida, de flores para a decoração e o bem estar dos budas todos da Birmãnia…. mas não se podem aproximar.

A superioridade dos homens é justificada por a tal qualidade que faltaria às mulheres : o phón, geralmente traduzido como «glória»: essa força espiritual particular que os coloca de facto acima das mulheres na escala das reencarnações, e não só.

A junta militar, em fevereiro de 2021, derrubou a frágil democracia, e o budismo tharavada defende hoje os valores ultranacionalistas duma religião onde as minorias e as mulheres lutam pela vida ou a igualdade.

Duarte Rodrigues Nunes

1. Introdução

O legislador português por via do DecretoLei (DL) n.º 125/2025, de 4 de dezembro, que transpôs para a ordem jurídica portuguesa a Diretiva (UE) 2022/2555 do Parlamento Europeu e do Conselho de 14 de dezembro de 2022, relativa a medidas destinadas a garantir um elevado nível comum de cibersegurança na União que altera o Regulamento (UE) n.º 910/2014 e a Diretiva (UE) 2018/1972 e revoga a Diretiva (UE) 2016/1148 (Diretiva SRI 2), aprovou o novo regime jurídico da cibersegurança, revogando o anterior regime jurídico da segurança do ciberespaço, que havia sido aprovado pela Lei n.º 46/2018, de 13 de agosto.

Em 2016, o legislador europeu adotara a Diretiva (UE) 2016/1148 do Parlamento Europeu e do Conselho, de 6 de julho de 2016, relativa a medidas destinadas a garantir um elevado nível comum de segurança das redes e da informação em toda a União, que havia sido transposta para a ordem jurídica portuguesa pela referida Lei n.º 46/2018. Contudo, apesar dos resultados positivos que proporcionara, a Diretiva (UE) 2016/1148 revelou deficiências intrínsecas que impediam uma resposta eficaz aos novos desafios no domínio da cibersegurança entretanto surgidos, o que levou o legislador europeu a adotar a Diretiva 2022/2555 precisamente com a finalidade de incrementar os níveis de cibersegurança, adaptando-os às novas ameaças e, com o mesmo objetivo, aproximar ainda mais as legislações dos Estados-Membros em matéria de cibersegurança.

Além de aprovar o novo regime jurídico da cibersegurança, o DL n.º 125/2025 introduziu alterações noutros diplomas, um dos quais é a Lei n.º 109/2009, de 15 de setembro (a Lei do Cibercrime).

Na Lei n.º 109/2009, o DL n.º 125/2025 introduziu uma nova alínea h) no art. 2.º (conceito legal de vulnerabilidade) e, com maior interesse para o presente artigo, um novo art. 8.º-A, que exclui a responsabilidade penal relativamente aos crimes de acesso ilegítimo e de interceção ilegítima

previstos sempre que o agente atue no interesse público da cibersegurança. Todavia, embora o DL n.º 125/2025 seja o diploma que transpõe para a ordem jurídica portuguesa a Diretiva 2022/2555, em lado alguma a Diretiva impõe a criação de uma norma como o art. 8.º-A da Lei n.º 109/2009. Na verdade, a única referência à exclusão da responsabilidade penal (e civil) para quem atue em prol da cibersegurança na Diretiva 2022/2555 é o seu considerando 60, o qual reza que «Os Estados-Membros, em cooperação com a ENISA, deverão tomar medidas para facilitar a divulgação coordenada de vulnerabilidades, definindo uma política nacional nessa matéria. No âmbito da sua política nacional, os Estados-Membros deverão procurar resolver, na medida do possível, os problemas encontrados pelos peritos que investigam as vulnerabilidades, nomeadamente a sua potencial sujeição à responsabilidade penal, em conformidade com o direito nacional. Dado que as pessoas singulares e coletivas que investigam as vulnerabilidades podem, em alguns EstadosMembros, incorrer em responsabilidade penal e civil, os Estados-Membros são incentivados a adotar orientações sobre a não instauração de ações penais contra quem faz investigação no domínio da segurança da informação e uma isenção de responsabilidade civil para as suas atividades.».

Por isso, não pode deixar de se estranhar que, depois de afirmar, no preâmbulo da Diretiva, aquilo que acabámos de citar, o legislador europeu não tenha introduzido, no articulado da mesma, qualquer norma que impusesse – ainda que ressalvando algum obstáculo do Direito interno dos Estados-Membros a tal – a previsão, na legislação interna dos Estados-Membros, da exclusão da responsabilidade penal e civil daqueles que atuem em prol da cibersegurança, deixando a cargo dos Estados-Membros os (a nosso ver, muito elevados) ónus e encargos da criação de normas como a do art. 8.º-A da Lei n.º 109/2009, maxime os seus nºs 1 e 4, pois, como se demonstrará, o n.º 5 não levanta quaisquer problemas.

Acresce que, visando a Diretiva 2022/2555 precisamente aproximar ainda mais as

Mit brennender Sorge: o novo artigo 8.º-A, n.º 1, da Lei do Cibercrime

legislações dos Estados-Membros em matéria de cibersegurança, existindo diferenças substanciais ao nível da legislação interna dos Estados-Membros ao nível da exclusão da responsabilidade penal e civil daqueles que atuem em prol da cibersegurança e, para mais, após uma exortação como aquela que consta do considerando 60 do preâmbulo da Diretiva, impor-se-ia a consagração de uma norma que impusesse – ainda que ressalvando algum obstáculo do Direito interno dos EstadosMembros a tal – a previsão, na legislação interna dos Estados-Membros, de normas que excluam a responsabilidade penal e civil daqueles que atuem em prol da cibersegurança.

Não obstante e apesar de não estar obrigado a consagrar na nossa ordem jurídica interna qualquer norma, o legislador português, ao abrigo da sua liberdade de conformação, elaborou a norma que constitui o atual art. 8.º-A da Lei n.º 109/2009.

2. A causa de exclusão da ilicitude prevista no artigo 8.º-A, n.ºs 1 e 4, da Lei n.º 109/2009

No art. 8.º-A da Lei n.º 109/2009, duas causas de exclusão da responsabilidade penal:

a) O acesso a um sistema informático e/ou a interceção de comunicações alheios sem o conhecimento e o consentimento do(s) titular(es) do(s) sistema(s) informático(s) e/ou do(s) participante(s) na(s) comunicação(ões) em causa (n.º 1);

b) O acesso a um sistema informático e/ou a interceção de comunicações alheios com o consentimento do(s) titular(es) do(s) sistema(s) informático(s) e/ou do(s) participante(s) na(s) comunicação(ões) em causa (n.º 5).

O legislador, ao utilizar a expressão “Não são puníveis”, não esclarece qual é a natureza jurídica desta causa de exclusão de responsabilidade penal, deixando à Doutrina e à Jurisprudência a tarefa de determinar essa mesma natureza.

Começando pela situação prevista no n.º 1 do art. 8.º-A da Lei n.º 109/2009, tendo em conta a redação da norma e a sua ratio de prosseguir o interesse público numa cibersegurança mais efetiva e aludindo o legislador a uma situação de colisão de interesses ao exigir que a atuação do agente seja proporcional aos seus propósitos e estritamente limitada pelos mesmos, restringindo-se a

identificar vulnerabilidades e sem causar algum dos resultados referidos nas subalíneas da al. d) do n.º 1 do art. 8.º-A da Lei n.º 109/2009, tratando-se de uma conduta aprovada pela ordem jurídica (apesar do preenchimento dos elementos do tipo do crime de acesso ilegítimo e/ou de interceção ilegítima), estamos perante uma causa de justificação.

Passando à situação prevista no art. 8.º-A, n.º 5, da Lei n.º 109/2009, aludindo o legislador, nos arts. 4.º, n.º 1, 5.º, n.º 1, 6.º, n.º 1, e 7.º, n.º 1, da mesma Lei, à falta de autorização do proprietário

ou de outro “titular do direito do sistema ou de parte dele” enquanto elemento do tipo, trata-se de um caso de acordo-que-exclui-o-tipo (e não de consentimento enquanto causa de justificação), pelo que estamos perante uma causa de exclusão da tipicidade.

O n.º 5 do art. 8.º-A da Lei n.º 109/2009, apesar da redundância da sua 1.ª parte, não suscita quaisquer problemas e/ou riscos para os direitos fundamentais dos cidadãos, ao contrário do que sucede com os n.ºs 1 a 4 desse mesmo preceito. De acordo com o art. 8.º-A, n.º 1, da Lei n.º 109/2009, a exclusão da ilicitude só opera relativamente aos crimes de acesso ilegítimo (p. e p. pelo art. 6.º da mesma Lei) e ao crime de interceção ilegítima (p. e p. pelo art. 7.º da referida Lei), pelo que não ocorre qualquer exclusão da ilicitude no caso de condutas subsumíveis a outros tipos de crime.

Quanto à possibilidade de justificação, nos termos do art. 8.º-A, n.º 1, da Lei n.º 109/2009, de condutas que configurem o crime de interceção ilegítima, discordamos, em absoluto, da solução legal, porquanto uma tal conduta configura uma devassa do sigilo das comunicações privadas, sendo que, nos termos do art. 34.º, n.ºs 1 e 4, da CRP, o sigilo da correspondência e dos outros meios de comunicação privada é inviolável e é proibida toda a ingerência das autoridades públicas na correspondência, nas telecomunicações e nos demais meios de comunicação, salvos os casos previstos na Lei em matéria de processo criminal. Sem prejuízo de defendermos um conceito amplo de “matéria de processo criminal” (que inclui a investigação no âmbito de um processo penal, mas também a prevenção criminal, a execução de penas e o procedimento relativo ao confisco de instrumentos, produtos e vantagens do crime ou do facto ilícito típico), em todos esses casos, estamos perante um processo que corre termos sob o controlo de uma autoridade judiciária (Juiz ou Magistrado do MP) e obedece a regras estritas (que incluem a exigência de autorização judicial quando se trate de intervenções nas comunicações entre presentes ou entre ausentes, dado que se trata de restrições intensas de direitos fundamentais), o que nada tem a ver com alguém que, à margem de um processo criminal (na aceção ampla suprarreferida) e sem qualquer comunicação

prévia e autorização prévia de um Juiz ou de qualquer outra autoridade pública, leva a cabo uma devassa não consentida de comunicações privadas alheias não consentida. De resto, também não podemos olvidar que, na “matéria de processo criminal” estão em causa condutas que atentam contra bens jurídicos essenciais à convivência comunitária e ao livre desenvolvimento da pessoa, que, por sua vez, são concretizações de valores jurídico-constitucionais especialmente relevantes (ao ponto de constituírem crimes), o que não sucede necessariamente no caso da prossecução do interesse público numa cibersegurança efetiva.

E nem se diga que o art. 34.º, n.º 4, da CRP só se refere à autoridade pública, pois, além de nada impedir que o agente seja um agente público ou alguém que atua sob a direção de entidades públicas (designadamente entidades de outros poderes do Estado que não os Tribunais, o MP e/ ou as entidades policiais que atuem no âmbito da prevenção e da repressão da criminalidade), só por absurdo poderia defender-se que um particular, para mais fora de um processo criminal e ainda que na prossecução do interesse público numa cibersegurança efetiva (que não pretendemos menorizar de forma alguma), pudesse fazer aquilo que as autoridades só podem fazer no âmbito de um processo criminal (na aceção ampla suprarreferida) e com autorização prévia de um Juiz, que, obviamente, oferece garantias de imparcialidade, independência face a outros poderes (incluindo outros poderes do Estado e poderes de facto) e de autocontenção na hora de autorizar, ou não, a intervenção nas comunicações que uma pessoa singular ou uma entidade cuja idoneidade e independência nem sequer foram previamente aferidas por qualquer autoridade pública não oferece de modo algum.

Por isso, consideramos que o art. 8.º-A, n.º 1, da Lei n.º 109/2009, na parte em que prevê a justificação do facto nos casos em que a conduta do agente preenche o tipo de crime de interceção ilegítima é inconstitucional, por violação do art. 34.º, n.º 4, da CRP.

Acresce que o legislador permite, no art. 8.ºA, n.º 1, da Lei n.º 109/2009, a justificação do facto independentemente de quem seja o agente, o que constitui uma opção muito arriscada e altamente criticável ao permitir que qualquer

Mit

pessoa possa aceder a sistemas informáticos e/ou a comunicações alheios independentemente da aferição, pelo Centro Nacional de Cibersegurança ou por outra entidade pública, da sua idoneidade e da sua independência face a quaisquer interesses (a fim de garantir tanto quanto possível que a sua atuação visará apenas o interesse público numa cibersegurança mais efetiva).

Deste modo, ao permitir que uma qualquer pessoa ou entidade, independentemente da sua idoneidade e da verificação da mesma e dos reais objetivos que possa prosseguir, intercete comunicações privadas alheias, o art. 8.º-A, n.º 1, da Lei n.º 109/2009, na parte em que prevê a justificação do facto nos casos em que a conduta do agente preencha o tipo de crime de interceção ilegítima conduz a uma proteção insuficiente do direito fundamental à inviolabilidade das comunicações privadas garantido pelo art. 34.º da CRP e, por isso, é inconstitucional também por violação do princípio da proporcionalidade na vertente de proibição de insuficiência. E não estará também afastada a inconstitucionalidade por proteção insuficiente dos direitos fundamentais a que se reconduzem os bem jurídicos protegidos pelo crime de acesso ilegítimo.

Além disso, o princípio in dubio pro reo é também aplicável às causas de exclusão da tipicidade, da ilicitude, da culpa ou da punibilidade, sendo que sempre que existam dúvidas fundadas acerca da verificação, ou não, dos pressupostos de uma causa de exclusão da tipicidade, da ilicitude, da culpa ou da punibilidade, haverá que considerar os mesmos verificados.

Ainda que não baste que a defesa alegue uma causa impeditiva da responsabilidade do arguido para que, automaticamente, a acusação tenha de provar a sua não verificação, pelo menos nos casos em que o agente atue com outra(s) finalidade(s) ad latus da finalidade de identificar a existência de vulnerabilidades, o princípio in dubio pro reo poderá levar o Juiz, o JIC ou o MP a ter de considerar que o agente agiu com

a finalidade exclusiva de identificar a existência de vulnerabilidades. Mas tal também poderá suceder em situações em que o agente nem sequer atue com a finalidade de detetar a existência de vulnerabilidades, mas sim com outra finalidade.

Por isso, existe o risco de o agente, com o pretexto de investigar a eventual existência de vulnerabilidades, estar, na realidade, a prosseguir outras finalidades, mormente finalidades ilícitas, acabando o art. 8.º-A, n.º 1, da Lei n.º 109/2009 por funcionar como um mecanismo garantidor de impunidade e que permite violações graves de direitos fundamentais dos titulares dos sistemas informáticos e/ou dos participantes nas comunicações em causa.

E aqui pouco releva se o agente é uma pessoa ou entidade privada ou um agente público ou alguém que atue sob o controlo dos poderes públicos.

O legislador impõe que o agente comunique, imediatamente após a sua ação, as eventuais vulnerabilidades identificadas (1) ao proprietário ou a pessoa por ele designada para gerir o sistema de informação, produto ou serviço de tecnologias de informação e comunicação, (2) ao titular de quaisquer dados obtidos e que se encontrem protegidos ao abrigo da legislação aplicável em matéria de proteção de dados pessoais (designadamente, o RGPD e as Leis n.ºs 26/2016, de 22 de agosto, e 59/2019, de 8 de agosto) e (3) à autoridade nacional de cibersegurança, que a remete à Polícia Judiciária sempre que revista relevância criminal.

Estranha-se, porém, que o legislador apenas tenha exigido a comunicação nos casos em que o agente tenha detetado vulnerabilidades e não o exija em todo e qualquer caso, a fim de permitir a aferição da licitude da conduta do agente, uma vez que, de todo o modo, a conduta do agente preenche a previsão de normas incriminadoras, sendo que o preenchimento do tipo de crime constitui um indício prima facie da contrariedade da conduta à ordem jurídica (i.e., da sua ilicitude).

Sem embargo, para além da não justificação de condutas subsumíveis ao crime de interceção ilegítima à luz do art. 8.º-A, n.º 1, da Lei n.º

109/2009 por violação do direito à inviolabilidade das comunicações privadas e do princípio da proporcionalidade na vertente de proibição de insuficiência, em face do disposto nos n.ºs 1, als. d), subal. iii), e e), e 3 desse mesmo preceito, o âmbito de uma eventual justificação de condutas subsumíveis ao crime de acesso ilegítimo tenderá a ser mais limitado do que aquilo que poderia resultar da mera leitura do corpo do n.º 1, visto que:

a) Por força de o art. 8.º-A, n.º 1, al. d), subal. iii), que veda a justificação do facto nos casos em que a conduta do agente tenha causado prejuízos à pessoa ou entidade afetada, direta ou indiretamente, ou a quaisquer terceiros, salvo os efeitos correspondentes ao próprio acesso ilegítimo ou interceção ilegítima os que resultariam, com elevada probabilidade, da própria vulnerabilidade detetada ou da sua exploração, estará, em regra, excluída a justificação nos casos em que a conduta do agente preencha a previsão do art. 6.º, n.ºs 4, al. b), e 5, als. a) e b), da Lei n.º 109/2009, bem como, pelo menos nos casos em que o agente tenha obtido um benefício ou vantagem patrimonial de valor elevado (que é subsumível ao art. 6.º, n.º 1, da mesma Lei);

b) Por força de o art. 8.º-A, n.º 3, als. b), c) e g), da Lei n.º 109/2009, que veda a justificação do facto nos casos em que a conduta do agente consista em/inclua práticas de engenharia social, Phishing ou variantes e/ou instalação e/ou distribuição de software malicioso, está excluída a justificação nos casos em que a conduta do agente preencha a previsão do art. 6.º, n.ºs 2 e 3, da mesma Lei; c) Por força de o art. 8.º-A, n.º 3, al. d), da Lei n.º 109/2009, que veda a justificação do facto nos casos em que a conduta do agente consista no roubo ou furto de palavras-passe ou outras informações sensíveis, também estará, em regra, excluída a justificação nos casos em que a conduta do agente preencha a previsão do art. 6.º, n.ºs 4, al. a), e 5, al. a). da mesma Lei. Por isso, sem prejuízo da verificação dos demais pressupostos da justificação, o âmbito da exclusão da ilicitude à luz do art. 8.º-A, n.º

1, da Lei n.º 109/2009 tenderá a incluir apenas condutas subsumíveis ao art. 6.º, n.º 1, da mesma Lei (igualmente sem prejuízo do que referimos quanto à eventual inconstitucionalidade por violação do princípio da proibição de insuficiência também no caso de condutas subsumíveis ao crime de acesso ilegítimo).

No entanto, consideramos que o art. 8.º-A, n.ºs 1 a 4, deve ser revogado pelo legislador o mais rapidamente possível.

1. AD ETERNUM

José Marques Vidal

E se Deus, perturbado com a perturbação Mundial, não vendo outra forma, pedisse ajuda?

E se para entender os tiranos, os abusadores, os arrogantes, os tresloucados da Vida ouvisse outras gentes, tão humanas e pensantes como os que dirigem os rumos Mundiais? Mas com outra visão......

E se os escolhidos fossem por exemplo: O Marquês de Pombal, Hipátia de Alexandria, e Salazar! Quem diria!!

Tudo com o objetivo de entender como haveria de endireitar o Mundo

E se depois de toda a discussão, da análise soberana, política e económica, a filosófica deixasse Deus ainda mais na dúvida, com a sensação de que apenas lhe restava aguardar o Livro do Apocalipse?

José Marques Vidal faz o caminho com os 4 personagens, faça o caminho com eles.

Recomendação de Adelina Barradas de Oliveira

2. SUSAN SONTAG

Jonathan Cott

Nascida em 1933 e falecida em 2004, Susan Sontag já em vida era reconhecida como uma das principais intelectuais norte-americanas do seu tempo, com obra de ficção e ensaio em diversas áreas. O Amante do Vulcão, A Doença Como Metáfora, Olhando o Sofrimento dos Outros são alguns dos seus títulos mais conhecidos.

Passados vinte anos sobre a sua morte, a sua influência não esmoreceu. Como atestam as sucessivas republicações da sua obra. Esta entrevista à Rolling Stone é uma conversa que se prolongou por várias horas em dias diversos. Nela, Sontag fala sobre a sua vida, incluindo as obras que a influenciaram, as relações humanas, a doença, a fotografia, bem como o modo como entendeu o tempo em que viveu que é (ainda) o nosso. É um livro curto, em que parece estar a ocorrer uma conversa a três: Sontag, Cott e quem lê e que, de vez em quando, abre a boca para intervir em tão apaixonante conversa.

Recomendação de Carla Coelho

3. MEMÓRIAS DAS MONTANHAS DISTANTES

Memórias das montanhas distantes.

Não é um livro.

É uma coleção de apontamentos que Orhan Pamuk fez constar em papel, pequenas notas às quais coloriu o espaço em branco que as ladeava após as escrever.

Dentro destas é possível compreender as dificuldades de quem se propõe a escrever um romance, assim como as ameaças que o mesmo foi alvo após manifestar-se publicamente contra algumas ideias “patrióticas” dos (actuais) líderes turcos. Também é possível acompanhar as suas viagens ao longo do globo assim como as viagens à volta dele próprio (do escritor, entenda-se).

Das suas aguarelas, aquelas que contornam as suas notas, destacamse as cores invulgares dentro das quais o céu não é bem um céu, mas sim uma cortina “kitch” azul que poderia figurar numa banheira algures nos anos setenta ou em que as ondas do mar não são bem ondas mas sim pequenas montanhas com um cume nevado, ordenadas ao longo do mar.

Orham Pamuk. O melhor livro de “notas” que já folheei..

4. 777 Orhan Pamuk

Sara B. Carvalho

Recomendação de João Correia

Num apelo bem criativo « 7 7 7 » editado em 2021, dialoga com os leitores num traço comunicador, onde a “chave” apelativa de leitura das palavras envolventes traduz um sentir continuado de um “voltar de página” modelo cartão de garantia directo, como luz de um caminhar sedento habilmente sonhado e dado a conhecer.

Logo no início, o desafio lógico e bem verdadeiro de uma obra literária, grita através de um “cartão” religioso a vontade de mostrar o elo continuado como garantia de um nascer e viver eternamente:

- “Persistam em pedir, e ser-vos-á dado; persistam em procurar e encontrarão.”

Num voltar de página bem ousado, a dimensão deste folhear com imenso agrado dita-nos o inédito:

“De volta à Bíblia, nova surpresa impressionante:“ Vi um anjo descer do céu com a chave do abismo e uma grande corrente na mão. Ele agarrou o dragão e prendeu-o por mil anos.

E lançou-o no abismo, fechou o abismo e selou-o sobre ele, para que não continuasse a enganar mais as nações até que os mil anos tivessem terminado. Depois disso, ele terá de ser solto por pouco tempo.”

Quando “nos bate à porta” um acto bem orquestrado de páginas poderosas de criatividade, sorrimos e … em segredo, segredamos ao nosso acto de leitura:

- Há momentos bem vitaminados via leituras ímpares !

Recomendação de José Luis Outono

“Os amigos não morrem: andam por aí, entram por nós dentro quando menos se espera e então tudo muda: desarrumam o passado, desarrumam o presente, instalam-se com um sorriso num canto nosso e é como se nunca tivessem partido. É como, não: nunca partiram”.

António Lobo Antunes (1942 - 2026)

Fotografia retirada do site https://antena1.rtp.pt/

Terminado o número de Março, esperamos que o número de Junho, dedicado à Criança, tenha as férias de Verão sem Guerra, sem Conflitos, sem caprichos políticos e económicos

Talvez aí falemos ( novamente), de Direitos de Crianças rodeadas de egoísmos e existências de invisibilidade

Que nos espera quando o Futuro parece esquecido?

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