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AVALIAÇÃO DO CONTROLE POSTURAL DE CRIANÇAS PRATICANTES E   NÃO PRATICANTES DE ATIVIDADE FÍSICA REGULAR  1

2

1

1,2

T. P. Oliveira , A. M. C. Santos , M. C. Andrade , A. O. V. Ávila     Universidade do Estado de Santa Catarina ­ UDESC  2 Instituto Brasileiro de Tecnologia do Couro, Calçados e Artefatos ­ IBTeC  1

  Resumo:                   O  objetivo  do  estudo  foi  analisar  o  controle  postural  de  crianças  Praticantes  de  Atividade  Física (PAF) e Não Praticantes de Atividade Física (NPAF). Participaram 25 crianças (14 PAF  e 11 NPAF) de 8 a 11 anos.  Foram verificados os valores de amplitudes de deslocamento do  Centro  de  Equilíbrio  nas  direções  Antero­Posterior  (AP)  e  Médio­Lateral  (ML).  As  variáveis  foram  observadas  em:  Apoio  Bipodal  Olhos  Abertos  (BOA);  Bipodal  Olhos  Fechados  (BOF);  pé  Dominante  Olhos  Abertos  (DOA);  pé  Dominante  Olhos  Fechados  (DOF);  pé  Não  Dominante  Olhos  Abertos  (NDOA);  pé  Não  Dominante  Olhos Fechados (NDOF). Foi utilizada  a  plataforma  de  força  Chattex  Balance  System,  com  tempo  máximo  de  coleta  25s.  Os  dados  foram  adquiridos  no  Balance  System  Software.  O  tratamento  estatístico  foi  composto  de  análise  descritiva  exploratória  e  a  análise  variância  ANOVA  (p≤  0,05),  com  SPSS®.  Foi  observado  baixo  valor  de  amplitude  de  oscilação  do  Centro  de  Equilibrio  ML  e  AP,  para  os  dois  grupos,  com  apoio  Bipodal  (BOA  e  BOF)  e  maiores  valores  para  apoio  unipodal.  Para  todas  as  condições  e  variáveis  estudadas,  não  foram  encontradas  diferenças  significativas  entre  os  PAF  e  NPAF.  Porém,  foi  observado  maior  número  de  quedas  antes  de  completar  o  tempo  máximo  na  condição  de  apoio  unipodal  das  crianças  NPAF.  Os  praticantes  de  Atletismo  e  Karatê  permaneceram  por  menor  tempo  na  condição  Unipodal,  comparado  aos  de  Ginástica  Artística  e  Capoeira.  Assim,  sugere­se  um  novo  estudo,  para  observar  dentro  destes grupos a influência das quedas ocorridas. 

  Palavras­chave: biomecânica, controle postural, crianças.    Abstract:                     The  purpose  of  this  study  was  to  analyze  the  postural  control  in  children  who  practice  of  physical  activities  (PPA)  and  who  do  not  practice  physical  activities  (NPPA).  Twenty­five  children,  between  8  and  11  years  old,  participated  (14  PPA  and  11  NPPA).  The  displacement  amplitude  of  Center  of  Balance  values  were  verified  in  directions  forward/backward  (F/B)  and  side  to  side  (S/S).  The  conditions  were:  Bipedal  with  Open  Eyes  (BOE),  Bipedal  with  Closed  Eyes (BCE), Dominant Unipedal with Open Eyes (DOE); Dominant Unipedal with Closed Eyes  (DCE),  Non­Dominant  Unipedal  with  Open  Eyes  (NDOE),  and  Non­Dominant  Unipedal  with  Closed  Eyes  (NDCE).  The  force  plate  used  was  the  Chattex  Balance  System,  with  maximum  time of 25s. The data were acquired in the Balance System Software. The statistical treatment  was  composed  of  exploratory  descriptive  statistics  and  an  analysis  of  variance  (ANOVA)  (α≤  0,05),  SPSS®  was  used.  Low  values  of  oscillation  amplitude  of  the  Center  of  Balance  for  F/B  and S/S were observed, in both groups with Bipedal Stance (BOE and BCE). Higher values of  oscillation  amplitude  for  Unipedal  Stance  conditions  were  observed.  There  were no significant  differences  between  groups  (PFA  and  NPFA)  for  all  conditions  studied.  However,  for  NPPA  was  observed  a  higher  number  of  falls  before  finishing  the  maximum  time,  for  Unipedal  condition.  The  practice  of  Athletics  and  Karate  stayed  in  Unipodal  condition  for  a  shorter  time  compared to the Artistic Gymnastics and Capoeira. Thus, a new study is suggested in order to  observe the influence of the types of activities and the falls. 

  Keywords: biomechanics, postural control, children   

 

INTRODUÇÃO   O controle da postura pode ser definido como a  habilidade de manter o centro de gravidade dentro da  base  de  apoio  do  corpo.  A  manutenção  da  postura 

depende  de  uma  complexa  interação  e  integração  entre o sistema visual, vestibular, somatossensorial e  músculo­esqueléticas  (NICHOLS  et  al,  1995).  Assim,  conforme  o  corpo  se  movimenta,  os  sistemas  de  referência  auxiliam  para  que  todos  os  mecanismos 


Controle Postural de Crianças 

se  adaptem  às  demandas  das  novas  posturas,  podendo assim ser mantidas em equilíbrio.  A  maturação  dos  sistemas  controladores  da  postura  inicia  no  nascimento  e  se  prolonga  ao  longo  do  desenvolvimento  normal  da  criança,  sendo  que  o  estágio  final  da  obtenção  do  controle  postural  é  apontado por volta de 8 à 12 anos de idade (Gallahue  e Ozmun, 2005).  Uma  série  de  processos  associados  à  prática  ou  à  experiência  levam  a  mudanças  relativamente  permanentes  na  capacidade  de  produzir  uma  ação  hábil  que  é  descrita  como  aprendizagem   motora  (SHUMWAY­COOK e WOOLLACOTT, 2003).  Da  mesma  forma  que  as  experiências  durante  a  infância  aprimoram  os  padrões  de  controle  postural,  a  manutenção  do  mesmo,  é  um  fenômeno  crucial  para  a  realização  das  atividades  da  vida  diária.  A  prática  de  atividade  física  regular  incorpora  e  automatiza  algumas  habilidades  devido  à  estimulação  da  estrutura  neuromuscular,  que  é  essencial  no  controle  postural.  Assim,  alguns autores  como  Gallahue  e  Ozmun  (2005)  indicam  que  o  exercício  físico  é  essencial  para  desenvolver,  manter  ou  recuperar  alterações  no  controle  postural.  Porém,  para  os  mesmos  autores,  a  atividade  física  geralmente  tem   efeito  positivo  sobre  o  crescimento,  exceto em casos de nível excessivo de exercícios.  Alguns estudos que avaliam  o controle postural  de  crianças  de  diversas  idades  são  realizados  para  tentar  verificar  influências  advindas  da  prática  de  diferentes  atividades  físicas  como  a  ginástica  artística,  futebol,  handball  e/ou  efeitos  do  meio  em   que  vivem,  no  caso  de  crianças  com   algum   tipo  de  lesão  como  a  paralisia  cerebral  (BUCCI  et  al  2006,  VUILLERME et al 2004 e FERBER­VIART et al 2007,  GRAAF­PETERS et al 2007).  No  entanto,  são  poucas  as  evidências  que  permitem   afirmar  se  as  práticas  de  atividades  físicas  regulares  durante  o  processo  de  maturação  e  refinamento  da  estrutura  neuro­músculo­esquelética  tem  maior efeito sobre o desenvolvimento do controle  postural.   Assim, o presente estudo pretendeu verificar se  o  desenvolvimento  e  a  maturação  do  controle  postural  são  atribuídas  às  mudanças  de  crescimento  e  maturidade  normais,  ou  se  atividade  física  regular  contribui de forma significativa para esse processo.    

MATERIAIS E MÉTODOS  Esta  pesquisa  foi  avaliada  e  aprovada  pelo  Comitê de Ética em Pesquisa em Seres Humanos da  Universidade  do  Estado  de  Santa  Catarina  ­  UDESC,  Florianópolis­SC no dia 26/06/2007.     

Amostra  Participaram  do  estudo  25  crianças  de  idade  entre 8 e 11 anos, de ambos os sexos (15 feminino e  10  masculino),  Praticantes  de  atividade  física  regular  (PAF)  e  Não  Praticantes  de  Atividade  Física  Regular  (NPAF).  Foram  8 praticantes de Ginástica Artística, 3  praticantes de Atletismo, 2 praticantes de Capoeira, 1  praticante  de  Karatê  e  11  crianças  que  não  praticavam  de  atividade  física  regular.  Foram  excluídas  as  crianças  que  apresentavam  qualquer  patologia  neurológica,  ortopédica  ou  outra  que  pudesse  interferir  no  controle  motor.  Todos  os  participantes  foram  devidamente  autorizados  pelos  pais  e/ou  responsáveis  a  participar  do  estudo.  As  coletas  de  dados  foram  realizadas  em  dois  locais:  Laboratório  de  Biomecânica  do  CEFID­UDESC  e  Escola  de  Ensino  Básico  Lauro  Muller,  ambos  em  Florianópolis­SC.   

Instrumentos de coleta de dados  Foi  utilizada  a  Plataforma  Dinâmica  e  Estática,  Chattex  Balance  System  (Figuras  1­a  e  1­b).  Esse  equipamento  consiste  em  quatro  plataformas  móveis  e  ajustáveis  para  o  tamanho  dos  pés,  sendo  duas  plataformas  para  a  colocação  do  antepé  e  duas  plataformas  para  a  colocação  do  retropé.  As  plataformas  são  posicionadas  acima  de  uma  superfície  plana  que possui uma grade de referência.  Através  do  software  é  permitida  a  sua  reprodução  no  computador  para  que  o  mesmo  calcule  o  centro  geométrico  entre  as  plataformas.  Estas  são  compostas  por  sensores  de  força  do  tipo  strain  gauge.  A  freqüência  de  aquisição  é  de  100Hz  e  o  tempo  máximo  de  aquisição  por  avaliação  de  25  segundos.  O  instrumento  era  zerado  antes  de  iniciar  cada coleta. (Chatanooga Group Incorporation, sd).    

Variáveis Analisadas  Foram  analisadas  as  seguintes  variáveis:  Amplitude  de  deslocamento  do  centro  de  equilíbrio  nas  direções  Antero­Posterior  (AP)  e  Médio­Lateral  (ML). Estas foram analisadas em seis circunstâncias:  apoio  Bipodal  Olhos  Abertos  (BOA);  apoio  Bipodal  Olhos  Fechados  (BOF);  apoio  pé  Dominante  Olhos  Abertos  (DOA);  apoio  pé  Dominante  Olhos Fechados  (DOF);  apoio  pé  Não  Dominante  Olhos  Abertos  (NDOA),  apoio  pé  Não  Dominante  Olhos  Fechados  (NDOF).   

    42 

Brazilian Journal of Biomechanics, Year 9, n.16, May 2008 


T. P. Oliveira, A. M. C. Santos, M. C. Andrade, A. O. V. Ávila 

  maneira  aleatória,  sendo  que  a  cada  coleta  necessitava  que  um  colaborador  estivesse  próximo  à  criança para evitar a queda em caso de desequilíbrio.     

Arquivamento  e  Processamento  dos  Dados  Os  dados  coletados  foram  exportados  para  uma  planilha  do  Microsoft  Excel  para  Windows  XP  para  que  fossem  calculados  os  valores  médios  das  Amplitudes em AP e ML.   O  tratamento  estatístico  foi  composto  de  uma  análise  descritiva  exploratória  e  análise  de  variância  ANOVA  –  One  way  para  a  comparação  entre  os  grupos,  adotando  um  nível  de  significância  de  α≤  0,05.    Foi  utilizado  o  pacote  estatístico  SPSS®  versão 14.    

Figura 1a ­ Plataforma de força Chattex Balance System   

RESULTADOS   

Figura 1b ­ Plataforma de força Chattex Balance System com  placa   de adaptação para coletas em apoio unipodal. 

 

Procedimentos para a coleta de dados  Inicialmente  foram  selecionadas  as  crianças  e  encaminhado  o  termo  de  consentimento  aos  pais  e/ou responsáveis.  Primeiramente,  antes  da  coleta  de  dados,  foi  preenchida  a  ficha  de  avaliação  para  caracterização  e  identificação  da  amostra  e  realizado  o  teste  de  dominância  para  verificar  a  lateralidade  da  criança,  proposto por Rosa Neto (2002).  Em  seguida,  cada  criança  passou  por  um  período  de  adaptação  ao  local  da  coleta  até  o  mesmo  apresentar­se  familiarizado  com  o  equipamento e com o ambiente.   Os  sujeitos  foram  orientados  a  permanecer  sobre  a  plataforma  de  força,  com  os  braços  ao  longo  do  corpo,  o  mais  imóvel  possível,  sempre  descalços.  Nas  coletas  com  olhos  abertos  permaneciam  olhando  um  ponto  fixo  na  parede  que  estava  à  uma  distância  de  dois  metros  conforme  proposto  no  estudo de Gandelman­Marton (2006).   As  plataformas  foram  ajustadas  pelo  tamanho  dos  pés  das  crianças  e  a  distância  entre  as  plataformas  esquerda  e  direita  foi  baseada  na  distância  natural  entre  os  pés  de  cada  criança  na  posição  natural  bipodal  semi­estática.  Para  a  coleta  de  dados  na  condição  unipodal  as  plataformas  foram  ajustadas  e  a  placa  de  adaptação  foi  colocada  seguindo o mesmo cuidado de alinhamento.  As  coletas  foram realizadas nas seis condições  já  descritas,  sendo  que  o  tempo  máximo  de  aquisição para cada condição foi de 25 segundos.  As  coletas  somente  eram  iniciadas  a  partir  do  domínio  da  criança  na  posição  semi­estática  sobre  as  plataformas.  A  ordem  das  condições  foi  de  Revista Brasileira de Biomecânica, Ano 9, n.16, Maio 2008   

Os  valores  das  amplitudes,  apresentados  em  centímetros,  apontam  a  oscilação  média  da  amplitude  Médio­Lateral  (ML)  e  da  amplitude  Antero­ Posterior (AP).  Dessa  forma,  pôde­se  perceber  que  para  a  condição  BOA  (Tabela  1)  os  valores  da  oscilação  Antero­Posterior  foram  maiores  que  os  valores  de  Médio­Lateral.  Os  valores  médios  de  amplitudes  de  BOA  foram  bastante  semelhantes  para  os  dois  grupos pesquisados.  Tabela  1  ­  Indica  a  amplitude  média  em  centímetros  nas  direções  Antero­Posterior  e  Médio­Lateral  para  as  condições BOA e BOF de ambos os grupos. 

Variáveis  AP_BOA    ML_BOA    AP_BOF    ML_BOF   

Grupos  comparados  NPAF 

Amplitude  x (cm) 

S

33 

2,36 

1,07 

PAF 

42 

2,33 

0,75 

NPAF 

33 

1,75 

0,71 

PAF 

42 

1,76 

0,64 

NPAF 

33 

2,65 

1,25 

PAF 

42 

2,56 

0,65 

NPAF 

33 

1,67 

0,72 

PAF 

42 

1,88 

0,62 

  Os  valores  de  amplitude  antero­posterior  e  médio­lateral  de  BOF  (Tabela  1)  apresentaram  o  mesmo  comportamento  da  condição  de  olhos  abertos,  onde  os  valores  de  oscilação  antero­ posterior  foram  maiores  que  os  valores  de  médio­ lateral.  Observou­se  que  na  condição  de  apoio  do  pé  dominante  com  olhos  abertos  (DOA)  as  oscilações  ântero­posteriores  e  médio­laterais  foram  muito  superiores  à  condição  bipodal  em  ambos  os  grupos,  ainda  demonstrando  maiores  números  para  a  43 


Controle Postural de Crianças 

amplitude  na  direção  antero­posterior  que  na  médio­ lateral (Tabela 2).  Para  a  condição  de  apoio  de  pé  dominante  e  olhos  fechados  (DOF)  notou­se  ainda  um  aumento  de  oscilação  nas  direções  antero­posterior  (PAF  8,93±2,2cm;  e  NPAF  7,51±3,04cm)  e  médio  lateral  (PAF  5,19±1,53cm;  e  NPAF  4,54±1,5cm),  sendo  também  considerados  altos  os  valores  de  desvio  padrão (Tabela 2).  Na  condição  de  apoio  de  pé  não­dominante  com  olhos  abertos  (NDOA)  as  amplitudes  demonstram  grande  semelhança  com  a  condição  DOA  os  valores  foram  parecidos  em  ambos  os  grupos (Tabela 3).  Para  a  condição  apoio  de  pé  não­dominante  com  olhos  fechados  (NDOF)  foram  observados  os  mais  altos  valores  de  amplitude  antero­posterior  (PAF  9,03±2,31cm;  e  NPAF  8,41±1,74cm)  e  médio  lateral  (PAF  5,15±1,57cm;  e  NPAF  4,71±1,02cm)  (Tabela 3). 

diferenças  significativas  entre  os  grupos  comparados  (NPAF e PAF).  Outro  dado  importante  de  ser  apresentado  é  a  quantidade  de  quedas  ocorridas  durante  a  as  coletas  na condição unipodal de Olhos Fechados (Dominante  e  Não  Dominante)  antes  do  tempo  máximo  de  aquisição  (25  segundos).  Foram  25  quedas  na  condição  DOF  e  23  quedas  para  NDOF  nas  coletas  do  grupo  de  crianças  NPAF;  já  para  o  grupo  de  PAF  foram  9  quedas  na  condição  DOF  e  13  quedas  em  NDOF.  Os  praticantes  de  Atletismo  e  Karatê,  destacam­se  com  sendo  os  responsáveis  pela  maior  parte  das  quedas  ocorridas  entre  os  PAF,  pois  juntos,  foram  responsáveis  por  67%  das  quedas  ocorridas  na  condição  DOF  e  62%  na  condição  NDOF.   

Tabela  2  ­  Indica  a  amplitude  média  em  centímetros  nas  direções  Antero­Posterior  e  Médio­Lateral  para  as  condições DOA e DOF de ambos os grupos. 

Os  resultados  obtidos  são  compatíveis  com  o  que  Mochizucki  e  Amadio  (2003)  afirmaram  sobre  o  conhecimento  das  relações  entre  oscilação  ântero­ posterior  e  médio­lateral  da  postura  ereta  de  curta  duração.  Eles  apontam  que  a  oscilação  média  da  amplitude  antero­posterior  é  aproximadamente  o  dobro da oscilação média da amplitude médio­lateral,  porém  a  variável  utilizada  para  esta  verificação  foi  o  Centro de Pressão (COP).  A  diferença  da  amplitude  de  oscilação  apresentada  entre  os  apoios  bipodal  e  unipodal  já  foi  observada  por  Assaiante  (1998)  quando  relatou  que  a  dificuldade  de  manutenção  do  equilíbrio  é  mais  acentuada na condição em que o do peso do corpo é  suportado  apenas  por  um  membro,  justificando  que  as  estratégias  de  equilíbrio  adotadas  por  adultos  e  crianças  envolvem  dois  princípios  funcionais:  primeiro  a  escolha  do  quadro  de  referência  no  qual  o  equilíbrio  se  baseia,  este  pode  ser  a  base  de  suporte  que o sujeito está quando em pé; o segundo princípio  é  a  escolha  sobre  o  grau  de  liberdade  de  cada  articulação  do  corpo  que  deve  ser  controlada  simultaneamente durante o equilíbrio dinâmico.  Faquin  (2005),  também  não  encontrou  diferenças  no  equilíbrio  quando  observado  atletas  e  não atletas, para a posição de apoio bipodal.  No  presente  estudo  também  ficou  evidente  a  importância  da  dependência  visual  nas  crianças  estudadas, principalmente na condição Unipodal com  Olhos  Fechados.  Do  mesmo  modo,  Ferber­Viart  et  al. (2007), verificaram que essa dependência visual é  significativamente  maior  nas  crianças  com  idade  entre  6  a  14  anos  quando  comparadas  a  adultos  jovens com 20 anos de idade.  Um  fator  determinante,  com  relação  aos  resultados  encontrados,  foi  o  número  de  quedas  observadas  durante  as  coletas  na  condição  unipodal  de  Olhos  Fechados  (Dominante  e  Não  Dominante)  para  o  grupo  de  Não  Praticantes  de  Atividades  Física.  Visto  que,  60%  das  crianças  NPAF  que 

Variáveis  AP_DOA    ML_DOA    AP_DOF    ML_DOF   

Grupos  comparados  NPAF 

Amplitude  x (cm) 

S

33 

5,86 

2,50 

PAF 

42 

5,48 

1,97 

NPAF 

33 

3,43 

0,85 

PAF 

42 

3,33 

0,70 

NPAF 

31 

7,51 

3,04 

PAF 

41 

8,93 

2,20 

NPAF 

31 

4,54 

1,50 

PAF 

41 

5,19 

1,53 

    Tabela  3  ­  Indica  a  amplitude  média  em  centímetros  nas  direções  Antero­Posterior  e  Médio­Lateral  para  as  condições  NDOA e NDOF de ambos os grupos. 

Variáveis  AP_NDOA    ML_NDOA    AP_NDOF    ML_NDOF   

Grupos  comparados  NPAF 

Amplitude  x (cm) 

S

33 

5,67 

1,93 

PAF 

42 

5,33 

1,46 

NPAF 

33 

3,43 

0,72 

PAF 

42 

3,30 

0,60 

NPAF 

31 

8,41 

1,74 

PAF 

42 

9,03 

2,31 

NPAF 

31 

4,71 

1,02 

PAF 

42 

5,15 

1,57 

  No  entanto,  foi  observado  para  as  condições  de  Olhos  Fechados  que,  tanto  no  apoio  do  membro  Dominante,  quanto  para  o  membro  Não  Dominante,  o  grupo  de  Não  Praticantes  de  Atividades  Física  apresentaram menores amplitudes de oscilação.   Todavia,  para  todas  as  variáveis  acima  descritas,  a  análise  de  variância  não  apontou  44 

DISCUSSÃO 

Brazilian Journal of Biomechanics, Year 9, n.16, May 2008 


T. P. Oliveira, A. M. C. Santos, M. C. Andrade, A. O. V. Ávila 

  tiveram  queda  na  condição  de  apoio  do  pé  Dominante  não  conseguiram  permanecer  15  segundos sobre a plataforma.  Este  mesmo  fato  foi  relatado  no  estudo  de  Bucci  et  al  (2006)  que  verificaram  a  influência  da  atividade  física  no  controle  postural  através  do  COP,  participando  20  atletas  de  nível  competitivo  e  20  indivíduos  sedentários  saudáveis.  Os  autores  também  apontaram  que  as  diferenças  são  mínimas  entre  os  grupos,  porém,  ao  relacionar  as  quedas  durante  as  coletas,  puderam­se  diferenciar  os  tais  grupos  na  manutenção  da  posição  unipodal,  apontando o melhor desempenho dos atletas.  Mesmo  com  o  grande  número  de  quedas  ocorridas,  considerou­se  adequado  o  tempo  de  coleta  escolhido,  visto  que  estudos  da  área  utilizam  esta  faixa  de  tempo  para  as  pesquisas  de  controle  postural  em  curta  duração  (BUCCI  et  al,  2006;  FERBER­VIART  et  al,  2007;  VUILLERME  et  al,  2004).  Gallahue  e  Ozmun  (2005),  colocam  que  a  maturação  dos  sistemas  controladores  da  postura  atinge  o  estágio  final  por  volta  de  8  à  12  anos  de  idade,  porém  existe  a  possibilidade  que,  as  crianças  utilizadas  no  presente  estudo,  ainda  encontram­se  em  fase  de  maturação  e  não  terem  alcançado  o  seu  pico  de  desenvolvimento.  Ferber­Viart  et  al.  (2007),  observaram  esse  fato  em  estudo  com  195  crianças  saudáveis  (6  a  14  anos)  comparado  com  64  adultos  jovens  também  saudáveis  (20  anos)  e  concluíram  que  o  nível  de  estabilidade  corporal  aumenta  de  acordo com a idade e a organização sensorial, sendo  a  de  uma  criança  significativamente  inferior  que  a  de  um adulto jovem.   Em  concordância,  Ionescu  et  al.  (2006)  compararam  o  sistema  vestibular  e  somestésico  de  crianças  (12  anos)  e  adultos  jovens  (20  anos)  e  verificaram  também  que  as  relações  vestibulares  em  crianças  quando  comparadas  com  as  adultas  são  inferiores.  Porém,  diferentemente  de  Ferber­Viart  et  al.  (2007),  observou  que  as  relações  somestésicas  são  similares  em  ambos  os  grupos  e  a  dependência  visual é significativamente maior nas crianças.  Com  relação  ao  tipo  de  prática  de  atividade  física,  algumas  modalidades  esportivas  praticadas  pelas  crianças  deste  estudo  podem  ou  não  ter  como  prioridade  o  desenvolvimento  de  habilidades  que  estimulam o controle postural semi­estático. Fato que  pode  estar  relacionado  com  o  maior  número  de  quedas  dos  praticantes  de  Atletismo  e  Karatê  comparado  aos  praticantes  de  Ginástica  Artística  e  Capoeira.  A  escolha  da  modalidade  esportiva  também  foi  observada  no  estudo  realizado  por  Vuillerme  e  Nougier  (2004),  com  ginastas  profissionais  (mais  de  10  anos  de  prática)  comparado  à  atletas  de  outros  esportes (futebol e handball), em que verificaram que  ginastas  necessitam  de  uma  demanda  menor  de  atenção  para  manter  o  equilíbrio  em  relação  aos  outros atletas.   Revista Brasileira de Biomecânica, Ano 9, n.16, Maio 2008   

Já,  Vuillerme  et  al.  (2001)  comparando  a  estabilidade  postural  de  ginastas  com  atletas  de  outras  modalidades,  através  da  análise  do  Centro  de  Pressão,  observam  resultados  que  não  demonstram  nenhuma evidência direta que ginastas possuem um melhor  senso  de  controle  postural  do  que  o  outro  grupo.  Entretanto,  os  ginastas  se  mostraram  menos  dependentes  nas  condições  em  que  os  testes  eram  feitos  com  olhos  abertos  do  que  os  outros.  Os  autores  justificam  este  fato  por duas possibilidades: os ginastas podem comutar entre o  sistema  visual  e  outros  sistemas  mais  eficientes,  ou  então,  possuem  o  sistema  sensório  mais  eficiente  quando  comparado aos outros atletas.  Na  comparação  feita  por  Faquin  (2005)  entre  atletas  que   treinam  utilizando  calçado,  atletas  que  treinam  descalços  e  não  atletas  observou  que  a  dependência  da  informação  visual  para  se  manter  na  posição  unipodal  foi  maior  para  o  grupo  de  atletas  que  treinam  utilizando  calçado do que para os outros dois grupos.   

CONCLUSÃO    Os   resultados  indicaram  os  valores  mais  baixos  para  a  amplitude  de  oscilação  nas  condições  Biopodais  (BOA  e  BOF)  para  os  dois  grupos  e  maiores  valores  de  amplitude  de  oscilação  médio­ lateral  e  antero­posterior  para  as  condições  de  apoio  unipodal em apoio não dominante (NDOA e NDOF).    Para  as  variáveis  estudadas,  a  análise  de  variância  não  demonstrou  diferenças  significativas  entre  as  crianças  Praticantes  e  Não  Praticantes  de  Atividade  Física.  Porém,  cabe  ressaltar  que  houve  maior  número  de  quedas  antes  de  completar  o  tempo  máximo  estipulado  na  condição  de  apoio  unipodal  das  crianças  NPAF.  Do  mesmo  modo,  as  crianças  que  praticavam  Atletismo  e  Karatê  permaneceram  por  menor  tempo  em  posição  semi­ estática,  na  condição  unipodal,  comparado  aos  praticantes de Ginástica Artística e Capoeira.  Assim,  pode­se  afirmar  que  para  as  variáveis  analisadas  não  há  diferença  estatisticamente  significante  dentro  destes  grupos  avaliados.  No  entanto,  diante  das  inesperadas  quedas  ocorridas  durante  as  coletas,  sugere­se  que  um  novo  estudo  seja  realizado  para  verificar  se  estas  falhas  serão  um  fator  de  diferenciação  entre  grupos  de  crianças  praticantes  regular  de  atividade  física  e  não  praticantes.   

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Controle Postural de Crianças 

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Endereço para correspondência:  1   Thessaly Puel de Oliveira Universidade  do  Estado  de  Santa  Catarina  ­  UDESC  Av. Elza Luchi, 143. Centro – Palhoça ­ SC  Cep: 88­130­600  email: thessalypo@yahoo.com.br 

 

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Avaliacao do controle postural de criancas na atividade fisica