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UM NOVO SIGNIFICADO

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GA JULIA MOTA FERREIRA


CINE PIRATININGA UM NOVO SIGNIFICADO

JULIA MOTA FERREIRA ORIENTADA POR ALINE NASRALLA REGINO TRABALHO FINAL DE GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO: FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO CENTRO UNIVERSITÁRIO BELAS ARTES SÃO PAULO, 2019/2


AG RAD E Ç O


Aos meus pais, por pavimentarem o caminho que percorri, tornando-o mais agradável ao meu caminhar. Às minhas irmãs e ao meu irmão por serem grandes ouvintes e grandes exemplos, cada um a sua maneira. À minha orientadora, Aline. Foi muito gratificante trabalhar com uma pessoa tão dedicada e organizada como guia dos meus pensamentos, por vezes, tão inquietos e bagunçados. Aos meus amigos e familiares, por receberem e avaliarem tão calmamente as infinitas versões dos textos, mapas e imagens presentes aqui e por muito mais que isso também. À Paula Dal Maso, por fornecer as plantas do projeto original tão prontamente à uma completa desconhecida. Ao Wilson, obrigada por possibilitar a minha visita às edificações estudadas e por responder com tamanha precisão às minhas muitas perguntas. Especialmente à minha mãe, Rosa, por toda a ajuda com a diagramação dessas páginas e por todo o apoio psicológico; ao meu pai, Guerdson, por suas correções tão precisas e poéticas aos meus textos; à Laura, sua sabedoria multidisciplinar foi imprescindível para a conclusão desse trabalho; e ao Felipe, por me emprestar seu tempo, seu olhar fotográfico e sua companhia que acalma a alma.


R E S UM O

O presente trabalho, realizado sobre o antigo Cine Piratinga, o qual foi projetado por Rino Levi e esteve em atividade como cinema entre 1943 e 1977, tem o objetivo de dar um novo uso e significado ao local que, apesar de sua relevância arquitetônica e histórica para o passado industrial do bairro do Brás, atualmente funciona como um estacionamento. Propõese, portanto, um projeto de preservação e manutenção do edifício supracitado, atividade para a qual se mostrou fundamental a realização da intervenção em outras partes da quadra, acarretando na remoção de alguns lotes e na preservação dos antigos galpões da C.O.P.A.G. localizados na área do terreno original do cinema.


A B STR AC T

This final graduation thesis presents a reexamination of the former Cine Piratininga, a building which was designed by Rino Levi and was in operation between 1943 and 1977. It intends to give a new use and meaning to a space that, despite its architectural and historical relevance to the industrial period of the Brรกs district, is currently used as a parking lot. Therefore, a preservation and maintenance project is proposed for the aforementioned building, an activity for which it will be necessary to carry out an intervention on other parts of the block, resulting in the removal of some lots and the preservation of the former C.O.P.A.G. factory, located in the area of the lot in which the cinema originally built in.


S UM Á R IO


INTRODUÇÃO 10 I LOCALIZAÇÃO 12/ 31 BRÁS: UM BREVE HISTÓRICO 14 SALAS DE CINEMA NO BRÁS 22 BRÁS: SITUAÇÃO ATUAL 24 LEGISLAÇÃO 30 II

CINE PIRATININGA

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O PROJETO ORIGINAL 34 SITUAÇÃO ATUAL 40 ENSAIO: CINE PIRATININGA 43 III PROPOSTA

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PORQUE PRESERVAR O CINE PIRATININGA 68 PARTIDO DO PROJETO 70 CONCEITO: RUÍNA 71 CONCEITO: PATRIMÔNIO CULTURAL 73 CONCEITO: RESTAURAÇÃO 75 A QUADRA 78 CINE PIRATININGA 90 MERCADÃO DO BRÁS/ GALPÕES DA C.O.P.A.G. 102 PRAÇA 120 GALERIA + PRAÇA DE ALIMENTAÇÃO 126 IV

CONSIDERAÇÕES FINAIS

128/ 135

CRÉDITO DAS IMAGENS REFERÊNCIAS

130 132


I NTRO D U Ç Ã O


O presente exercício de projeto aborda a ressignificação de espaços com valor histórico que se encontram subutilizados, trabalhando a permanência dos mesmos por meio de um projeto arquitetônico de preservação e do emprego de novos usos que confiram funcionalidade a esses locais. O objeto escolhido para a elaboração desse trabalho foi o antigo Cine Piratininga, projetado por Rino Levi e inaugurado em 1943, no bairro do Brás, em São Paulo. Edifício este que, atualmente, é utilizado como estacionamento e apresenta crescente estado de degradação. Apesar do foco principal do projeto ser o antigo cinema, a partir do estudo da quadra e da implantação original do projeto, foi possível constatar que é fundamental para a preservação e manutenção da unidade arquitetônica dar atenção para todo o quarteirão e, principalmente, aos antigos Galpões da C.O.P.A.G. (Companhia Paulista de Papéis e Artes Gráficas), implantados na parte residual do terreno original. Para tanto, foram escolhidas demolições pontuais com o intuito de melhorar a permeabilidade da quadra, abrindo-a para novas frentes de rua e gerando novos fluxos de circulação. O resultado dos estudos da região fez, então, com que fosse necessário responder às necessidades locais, mediante um programa projetual, garantindo que a proposta trouxesse funcionalidade e significado às edificações, devolvendo-as ao bairro como memória do local e, ainda, gerando um espaço público de qualidade para a população.


I


LO CA LIZ A ÇÃ O


BRÁS: BREVE HI ST ÓRIC O

A história do Brás tem início com a construção de uma estrada, chamada Caminho da Penha, ligando o povoamento de Penha da França à vila de São Paulo. Às margens desse caminho, que não tardou a ser conhecido como Rua do Brás, é construída uma capela em homenagem ao Senhor Bom Jesus de Matozinhos (1769), por um português chamado José Brás, essa construção marca o início do adensamento local. Quem conhece o Brás de hoje, em que a indústria e o comércio constituem verdadeiro esteio da economia paulistana e cuja pujança dá bem uma ideia do valor da contribuição da imigração europeia, especialmente a italiana, ao progresso de São Paulo, mal pode calcular a modéstia de sua origem e lentidão do seu desenvolvimento, pelo menos nos seus primeiros oitenta ou cem anos, em torno da capelinha erigida ao Senhor Bom Jesus dos Matozinhos, pelo português José Brás (TORRES, 1985, p. 43).

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PLANTA DO MUNICÍPIO DA CAPITAL DE SÃO PAULO, IN SÃO PAULO ANTIGO, 1881, LEVANTADO POR HENRY B. JOYNER. ÁREA DE INTERVENÇÃO ASSINALADA EM VERMELHO

01 LOCALIZAÇÃO DO

BAIRRO DO BRÁS NA CIDADE DE SÃO PAULO

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No começo do século XIX, o centro urbano de São Paulo começou a se espraiar para além do rio Anhangabaú, onde se formaram os bairros do Brás, Pari e Tatuapé. Ao meio da região, que ligava


o centro urbano a essas terras, encontrava-se a estrada da Penha ou Rua do Brás, atual Avenida Rangel Pestana. A ocupação dessas regiões se deu de forma desordenada e demorou para se consolidar devido às frequentes inundações das várzeas dos rios Tamanduateí e do Carmo, locais em que, em 1914, foi realizado um projeto de canalização e saneamento, resultando na área onde atualmente localiza-se o parque D. Pedro II (TORRES, 1985).

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PLANTA DA CIDADE DE SÃO PAULO AMPLIADA SOB O BAIRRO DO BRAZ EM 1895 MOSTRANDO A OCUPAÇÃO DO BAIRRO JÁ MAIS CONSOLIDADA E ORGANIZADA QUE 14 ANOS ANTES. ÁREA DE INTERVENÇÃO ASSINALADA EM VERMELHO

A fisionomia de São Paulo se alterou muito depois da segunda metade do século XIX, tornando-se a metrópole do café, atividade que trouxe consigo o desenvolvimento das vias férreas e grande imigração europeia. Nesse contexto, foi construída a estrada de ferro ligando São Paulo a Santos (1867), que passaria pelas terras do Brás, gerando a necessidade da construção de uma porteira para não obstruir o trânsito que atravessava os trilhos. Tal porteira gerou um problema que permaneceria durante os próximos cem anos e encontrou solução na construção do atual viaduto Alberto Marino que, apesar de resolver o problema inicial, contribuiu muito para a degradação dos imóveis entorno.

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IMAGEM DAS PORTEIRAS DO BRÁS ANTES DA CONSTRUÇÃO DO VIADUTO

No fim do século XIX, com a Proclamação da República, as terras ao redor do centro urbano foram sendo loteadas, ocorrendo um intenso movimento de urbanização. Garantido pelo dinheiro proveniente do café, esse grande adensamento transformou a cidade de São Paulo, até aquele momento agrária, em grande metrópole. Riqueza acumulada com o admirável surto da lavoura cafeeira, mão de obra abundante, fornecendo pessoal técnico habilitado, ampliação da rede de transportes e comunicações, com a construção de ferrovias, e abundância de energia hidráulica permitindo já em 1901 o funcionamento da primeira usina elétrica – eis os grandes fatores que irão fazer de São Paulo, não apenas a metrópole do café, mas a capital da indústria. (TORRES, 1985, p. 164)

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Com a necessidade de trabalhadores, foram realizados incentivos à imigração, especialmente italiana, para fornecer mão de obra às industrias e as lavouras, que perderiam grande parte da existente com a Abolição da Escravatura em 1888. Os imigrantes chegavam em Santos e logo se assentavam nos bairros operários paulistanos (Brás e Mooca), próximos à estação da linha férrea e das indústrias em que trabalhariam A influência desses novos residentes começou a se mostrar


evidente a partir das primeiras décadas do século XX, resultando em bairros industriais com forte presença da cultura italiana. As quadras do bairro eram ocupadas por prédios industriais e residenciais, muitos cortiços precários e até chácaras, avizinhados por suntuosos palacetes. Inicialmente, mesmo sendo um bairro misto, de casas e fábricas, o Brás não perdeu seu caráter produtor de alimentos para o abastecimento da capital, mantendo pomares e hortas em algumas remanescentes chácaras cujos proprietários resistiram até que terminaram também cedendo seu espaço para novas industrias.

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PLANTA DA CIDADE DE SÃO PAULO AMPLIADA SOB O BAIRRO DO BRAZ EM 1916, MOSTRANDO A OCUPAÇÃO DO BAIRRO JÁ CONSOLIDADA. ÁREA DE INTERVENÇÃO ASSINALADA EM VERMELHO

A primeira Guerra Mundial foi fator crucial para a industrialização em São Paulo, pois sua existência gerou escassez de produtos internacionais, de forma que se tornou necessário recorrer ao mercado nacional para responder às exigências atendidas pelo mesmo. Por esse motivo cresceu muito a indústria têxtil na cidade, especialmente de algodão, as quais se implantam nos bairros do Brás e da Mooca. Este momento histórico marcou o início da transformação do Brás no polo

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comercial pelo qual é reconhecido atualmente, voltado para a venda em atacado de roupas populares e tecidos. Devido ao contexto socioeconômico do Brasil nas primeiras décadas do século XX muitos nordestinos migraram para São Paulo em busca de emprego e melhores condições de vida, sendo recebidos pelo sistema industrial como mão de obra barata. Assim como fizeram os italianos, se instalaram nas zonas industriais, as quais começaram a apresentar grande diversidade cultural, abrigando ainda uma grande população italiana e, a partir daquele momento, também nordestina.

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HOTÉIS ITALIANOS NO LARGO DO BRÁS. SÃO PAULO, 1900. FOTO DE GUILHERME GAENSLY

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O desenvolvimento do Brás como bairro industrial e comercial prejudicou muito sua função residencial, apresentando decréscimo populacional a partir de 1967. Nesse mesmo período houve uma grande desindustrialização em São Paulo, levando as fábricas a se realocarem em zonas mais distantes da grande metrópole, fato que fez com que bairros como o Brás perdessem sua função primordial (TORRES, 1985). Sem residentes e sem indústrias, os edifícios de lazer do bairro entraram em decadência e foram, um por um, obrigados a fechar suas portas. Dentre estes estava o Cine Piratininga,


objeto de estudo deste trabalho, que encerrou suas atividades na década de 1970. Um dos fatores que mais contribuiu na alteração funcional dos bairros industriais foi a inversão do papel da linha férrea, que passou a funcionar apenas como transporte urbano, inclusive dando suporte à mobilidade do movimento pendular que ainda ocorre, diariamente, em São Paulo, devido à formação de cidades satélite em seu entorno, por causa do alto custo de vida na capital paulista. Além disso, a construção do metrô em 1970 contribuiu muito para articular a linha férrea com outras partes da cidade, tornando desnecessária a proximidade de empresas com a linha do trem, dando a esses locais um caráter de passagem maior que de permanência. O Brás abriga uma grande quantidade de patrimônio industrial de importante valor histórico para o desenvolvimento da capital paulista como é hoje, além de importantes salões cinematográficos, que também marcaram o período industrial do bairro.

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M AP EAM EN TO 1 9 3 0 - S ARA 08 07

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ÁREA DE INTERVENÇÃO LOCALIZAÇÃO FOTOS PG. AO LADO

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Mapa obtido no Geosampa (geosampa.prefeitura.sp.gov.br)


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CRUZAMENTO ENTRE AVENIDA RANGEL PESTANA E RUA PIRATININGA EM 1938

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PASSAGEM SUBTERRÂNEA DA AVENIDA RANGEL PESTANA PARA EVITAR ACIDENTES NA AVENIDA. DEFRONTE AO GRUPO ESCOLAR ROMÃO PUGLIARI EM 1939

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IMAGEM DAS PORTEIRAS DO BRÁS EM 1950, AS QUAIS FORAM SUBSTITUÍDAS PELO VIADUTO ALBERTO MARINO EM 1968

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AVENIDA RANGEL PESTANA EM 1950

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SALAS DE CI N EM A N O BRÁS

11 THEATRO COLOMBO

(1908), MARCANDO O INÍCIO DO PERÍODO CINEMATOGRÁFICO DO BRÁS

12 BRAZ POLYTHEAMA (1926), A PRIMEIRA SALA DO BAIRRO, POSSUIA 2015 ASSENTOS

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CINE OBERDAM (1927), FOI DESTRUÍDO POR UM TRÁGICO INCÊNDIO, TINHA 1260 ASSENTOS

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O Largo da Concórdia funcionava como um pronto de encontro no bairro do Brás e uma zona de contato entre os moradores da Penha e do Belém, também era onde se localizava a Estação do Norte, que trazia muitas pessoas para o bairro. A praça possuía um grande mercado, que fechou suas portas em 1906 dando lugar a um teatro, que abriria no mesmo edifício em 1908 (TORRES, 1985). A inauguração do Teatro Colombo marcou o início do surgimento de locais voltados para o lazer no Brás, que logo tem suas ruas repletas de cineteatros e salões cinematográficos, inicialmente concentrados no entorno do Largo da Concórdia e, posteriormente, próximos das linhas de bonde e dos principais eixos viários de conexão com a região central da cidade (SANTORO, 2004). O cinema se tornou uma atividade de grande sucesso em São Paulo, foi difundido como a principal fonte de lazer do público paulistano entre 1935 e 1955, quando foram inauguradas diversas salas de cinema de rua, principalmente na Cinelândia Paulista, no centro da cidade, e no bairro do Brás, local das maiores salas, devido à existência de maiores terrenos concomitante à alta densidade populacional que se constituía ali. Em 1950 o público das salas de cinema sofreu uma redução de 620% em relação às duas décadas anteriores (SIMÕES, 1990) devido a dois fatores aparentes: por causa da grande redução no fluxo de capital no Brás gerado pela saída das indústrias para a região do ABC e interior; mas também por causa do surgimento da televisão e da ampliação ao seu acesso (DAL MASO, 2017). As salas de cinema, que durante décadas preencheram a Cinelândia paulista e o bairro do Brás, entraram em decadência. Quase todas foram obrigadas a fechar suas portas. Das 154 salas de tcinema de rua construídas naquele período existem apenas cinco ainda em funcionamento (ROLNIK, 2017).


MAPA DE LEVANTAMENTO DAS SALAS DE CINEMA NO BAIRRO DO BRÁS ENTRE OS ANOS DE 1910 E 1970

Mapa elaborado a partir de dados obtidos em ANTORO, P.F. A relação da sala de cinema com o espaço urbano em São Paulo: do provinciano ao cosmopolita. 2004. Dissertação (mestrado). FAU - São Paulo, 2004. E a partir de mapa elaborado por DAL MASO, Paula. Cine Piratininga: um projeto de intervenção em preexistência. TFG , FAU - São Paulo, 2017.

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BRÁS: SI T UAÇÃO ATUAL

Observando o bairro atualmente, é possível notar a pouca existência espaços de saúde, lazer e centros esportivos. Há, também, poucos respiros urbanos no bairro, realidade que se estendeu por toda a sua existência. O entorno está se verticalizando rapidamente e os antigos galpões, cada vez mais, cedendo espaço à condomínios residenciais, o que torna ainda mais necessária a criação de espaços que gerem melhor qualidade de vida para todos que venham a residir na região, atualmente despreparada. Além de uma urgente necessidade de permanência de locais que marquem a história do bairro, para que a mesma não se perca completamente nessas novas construções. Observando a quadra do Cine Piratininga, foco de estudo desse trabalho, é possível notar a crescente verticalização do bairro, resposta ao incentivo de adensamento na região proposto pelo novo Plano Diretor Estratégico (PDE, 2014) de São Paulo, que tem como objetivo criar mais residências no bairro, bem como equipamentos de serviços, lazer, esportes e educação. A quadra é delimitada pela avenida Rangel Pestana, rua Piratininga, rua Martin Buchard e rua Prudente de Morais, sendo cortada por rua menor, chamada Maurício Salomão Nahas. Essa região, defronte à Igreja do Brás e da antiga rua do Braz, abrigou as primeiras ocupações do bairro. Há, na mesma, duas edificações tombadas por órgãos patrimoniais, sendo elas: Grupo Escolar Romão Pugliari (tombada por: CONPRESP; CONDEPHAAT* 1) e o Atual fórum das Varas da Infância (originalmente Primeira Escola Profissional Masculina, tombada por: CONPRESP* 2).

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*1 Resolução de tombamento Colégio Romão Pugliari: Resolução SC 60, de 21/07/2010 (fonte: www.infopatrimonio.org/ acesso em 29/05/19)

*2 Resolução de tombamento Primeira Escola Profissional Masculina: Resolução 24/16 (fonte: www.infopatrimonio.org/ acesso em 29/05/19)


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FOTOGRAFIA AÉREA DA QUADRA ONDE SE LOCALIZA O PROJETO. VISÃO DA AVENIDA RANGEL PESTANA E DA RUA PIRATININGA E FACE FRONTAL DO ANTIGO GALPÃO DA C.O.P.A.G.

1 CINE PIRATININGA 2 IGREJA COM JESUS DO BRÁS 3 GRUPO ESCOLAR ROMÃO PUGLIARI 4 FUNDAÇÃO CASA 5 FÓRUM DAS VARAS DA INFÂNCIA E JUVENTUDE 6 ANTIGOS GALPÕES DA COPAG 7 RUA MAURÍCIO SALOMÃO NAHAS 8 ESTAÇÃO BRÁS C.P.T.M. 9 ESTAÇÃO BRÁS DE METRÔ

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USO E OCUPAÇ ÃO 1 CINE PIRATININGA 2 IGREJA COM JESUS DO BRÁS

3 GRUPO ESCOLAR ROMÃO PUGLIARI

4 FUNDAÇÃO CASA 5 FÓRUM DAS VARAS DA INFÂNCIA E JUVENTUDE

6 ANTIGOS GALPÕES DA 26

COPAG


F OTOS AT UAI S DA ÁREA FÓRUM DAS VARAS DA INFÂNCIA E JUVENTUDE, QUE FAZ LIMITE COM OS ANTIGOS GALPÕES DA C.O.P.A.G. FOTO DA AUTORA, 2019.

IMAGEM DA ENTRADA DA RUA MAURÍCIO SALOMÃO NAHAS A PARTIR DA RUA MARTIN BUCHARD. FOTO DA AUTORA, 2019.

IMAGEM DA ENTRADA DA RUA MAURÍCIO SALOMÃO NAHAS A PARTIR DA RUA PIRATININGA. FOTO DA AUTORA, 2019.

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T RAN SP ORTE 28

Mapas feitos a partir de informações extraidas do Geosampa (geosampa.prefeitura.sp.gov.br)

1 ESTAÇÃO BRÁS METRÔ 2 ESTAÇÃO BRÁS MOOCA 3 ESTAÇÃO BRÁS CPTM


E QUI PAM EN TOS *NÃO HÁ EQUIPAMENTOS DE SAÚDE PRESENTES NA ÁREA

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LEGI SLAÇ ÃO

O lote em que será realizado o projeto encontrase, segundo a Lei de Zoneamento definida pelo Plano Diretor Estratégico (PDE) – Lei no. 16.050/14, na Zona Centralidade (ZC), que são porções territoriais destinadas “à promoção de atividades típicas de áreas centrais ou subcentros regionais promovendo especialmente a qualificação paisagística e dos espaços públicos” (gestaourbana.prefeitura.sp.gov.br, 25 de maio, 2019, 15:30). No entanto, a intervenção tem objetivo de restaurar as edificações levando, possivelmente, ao tombamento das mesmas, de forma que serão considerados os parâmetros de ZEPEC-APC também. A subcategoria da ZEPEC de Área de Proteção Cultural (APC) foi criada pelo PDE com o objetivo que incentivar a proteção de imóveis que melhoram a qualidade de vida da população. São essas áreas os imóveis de produção e fruição cultural e espaços significativos para manutenção da Identidade e memória. A área do projeto também se encontra na Macrozona de Estruturação e Qualificação Urbana, a qual visa realizar a manutenção dos usos não residenciais existentes, fomentando a diversificação dos mesmos e incentivando o adensamento populacional moderado. Há, nessa região, muitas edificações de uso misto e se mantêm o incentivo para construções desse gênero se utilizando, por exemplo, da fachada ativa para fazê-lo, mantendo comércio e serviços de acesso público no térreo e apartamentos residenciais nos demais pavimentos. São incentivados também espaços que melhorem a fruição pública, como áreas verdes e espaços livres. Próximo à quadra estudada existem dois importantes Eixos de Estruturação da Transformação Urbana, são eles a linha ferroviária (a leste) e a linha do metrô (a sul). Além desses existe um corredor de ônibus municipal planejado em 2016 que passará pela avenida Rangel Pestana e também servirá como eixo de estruturação. O lote não se encontra sob área de influência dos

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eixos citados, mas encontra-se próximo da mesma, de forma que nas suas proximidades há grande incentivo para adensamento populacional. Localizada também na Macroárea de Estruturação Metropolitana (MEM), a área estudada encontrase sob a influência da Operação Urbana Centro e Sob o Plano de Intervenção Urbana (PIU) Setor Central. O PDE determinou, em 2014, que a Lei da Operação Urbana Centro seria revisada (parágrafo 2o do art. 382) por não se adequar às diretrizes do Estatuto da Cidade (Lei Federal no. 10.257/2001). A revisão da operação será vinculada ao PIU Setor Central, o qual teve início em abril de 2018 e ainda se encontra em estado de proposição. Os principais objetivos do PIU Setor Central, de acordo com o site Gestão Urbana, são: o fortalecimento da centralidade municipal; a valorização das áreas de patrimônio cultural; a melhoria no transporte coletivo; o estímulo a produção de habitação de interesse social; a requalificação de áreas deterioradas ou subutilizadas; o estimulo a diversidade de renda e a revisão da Operação Urbana Centro.

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II


C INE PIR AT INING A O P R O JE TO ORIGINAL E A SITUAÇ ÃO ATUAL


O P ROJETO ORI GIN AL

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Para uma melhor intervenção, visando a preservação e permanência da edificação estudada, se mostrou necessário o estudo detalhado da mesma em seu estado original para, dessa forma, trabalhar melhor sob sua preexistente espacialidade.

O P ROJ ETO

O projeto apresentado por Rino Levi para o Cine Piratininga na década de 1940 foi implantado em um terreno pertencente à companhia C.O.P.A.G. (Companhia Paulista de Paulista de Papéis e Artes Gráficas), o qual ocupava grande parte da quadra. O terreno possuía forma de “T” e acessos à três frentes de rua: avenida Rangel Pestana, Rua Piratininga e Rua Martim Buchard. A construção do edifício, no entanto, ocupou apenas uma parcela do terreno, com acesso principal na avenida Rangel Pestana e um outro secundário na Rua Martim Buchard, a parte restante do terreno foi destinada à construção de uma fábrica para a companhia. O projeto da edificação contemplava além do cinema, alguns conjuntos comerciais no térreo, um edifício residencial, que se dava nos andares superiores.

FICHA TÉCNICA CINE PIRATININGA ARQUITETO RINO LEVI ANO 1944 ENDEREÇO AVENIDA RANGEL

PESTANA, 1554 - BAIRRO DO BRÁS, SUBPREFEITURA DA MOOCA, SÃO PAULO - SP, BRASIL ENDEREÇO SECUNDÁRIO RUA MARTIM BUCHARD STATUS CONSTRUÍDO MATERIALIDADE CONCRETO

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DI VI SÃO DO P ROGRAM A N AS PL AN TAS 36

CINE PIRATININGA EDIFÍCIO RESIDENCIAL CONJUNTOS COMERCIAIS


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O C INE

A entrada principal foi implantada defronte à Avenida Rangel Pestana devido à fácil conexão da mesma com a região central da cidade e por ser local em que passava a linha do bonde. Na entrada havia um grande letreiro em concreto escrito ‘CINE PIRATININGA’ sob uma marquise onde eram indicados os filmes que seriam exibidos.

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FOLHETO DE INAUGURAÇÃO DO CINE PIRATININGA, 1994

O corredor da entrada principal possui pé-direito duplo, paredes laterais onduladas e pilares de seção circular, gerando um ambiente de escala colossal e promovendo uma experiência de certa dramaticidade aos espectadores do cinema através de um desenho arquitetônico arrojado. Nas laterais desse corredor localizavam-se as escadas de acesso ao mezanino e seguindo adiante, a sala de espera do térreo. O mezanino, por sua vez, guardava o acesso ao balcão superior, além de um bar e uma sala de espera exclusiva. A sala de exibição do Cine Piratininga se localizava no centro da quadra e possuía capacidade para 4.500 pessoas, distribuídas entre a plateia e o balcão superior. O palco era equipado para receber projeções cinematográficas e também peças teatrais, além de apresentar um fosso para orquestra. Esse tipo de implantação no centro da quadra era frequentemente empregada, principalmente nas grandes salas do Brás, graças a grande escala da sala de projeção e porque essas áreas possuíam menor preço. A solução era prevista no Código de Obras, como cinemas no interior do terreno, e para as quais se exigia, pelo menos, dois acessos às vias públicas (OLIVEIRA, 2006, p.130).

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Rino Levi foi um dos mais importantes arquitetos de salas de cinema no Brasil, projetou a sala de exibição do Cine Piratininga utilizando uma técnica chamada “parábola acústica”, utilizada por ele pela primeira vez no projeto para o Cine Ufa-Palácio, o qual inaugurado em 1939 e localizava-se no centro de São Paulo. Nesse projeto acústico ele busca proteção contra ruídos, o condicionamento acústico do ambiente e boa visibilidade da tela a todos os espectadores.


CON J U NTOS C O M E R C I A I S

Os conjuntos comerciais encontram-se na mesma edificação, mas assim como o edifício residencial, são unidades independentes do cinema. A entrada aos mesmos localiza-se na Avenida Rangel Pestana ao lado da entrada do Cine. O espaço destinado à essa atividade se divide em duas unidades comerciais de profundidade aproximada de 40 metros e largura de aproximadamente nove metros. As duas unidades têm circulação independente e possuem dois pavimentos, sendo o primeiro de pé direito de cinco metros e o segundo, três metros. Os conjuntos, que se localizam sob o edifício residencial, possuem uma malha estrutural densa e desordenada.

EDI F Í CI O RE S I D E N C I A L

A entrada do edifício residenciais se dá através da avenida Rangel Pestava, entre a entrada dos conjuntos residenciais e do cinema. É composto por onze andares com quatro unidades residenciais por pavimento.

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SI T UAÇÃO ATUAL 40

VOLUMETRIA ATUAL COM PARTES REMOVIDAS AO LONGO DAS ÚLTIMAS QUAT RO DÉ C ADAS MARC ADA S E M PR E TO C O M T R A N SPA R Ê N C IA


Atualmente, a área onde uma vez existiu o alegre Cine Piratininga, foi transformada pelo tempo, num triste estacionamento, que ocupa a área da plateia sala de exibições, hoje descoberta, e a parte térrea dos conjuntos comerciais. Na década de 90 o teto da sala de exibições ruiu, acelerando o processo de degradação da sala de exibições devido à exposição da mesma às intempéries e gerando diferentes estados de degradação no edifício. Segundo o site ‘São Paulo Antiga’, o letreiro da entrada principal do cinema foi removido em 2008. No entanto os corredores dessa mesma entrada mantêm muitas de suas características originais, inclusive o piso, as paredes laterais onduladas, a recepção, a moldura para cartazes e os portões e acesso ao pavimento superior são os mesmos do projeto original, a única alteração foi na pintura das paredes, que agora são brancas com faixas amarelas e pretas, comuns à estacionamentos. O mezanino e a sobreloja, que se encontram sem uso, estão muito degradados, assim como o balcão superior. No mezanino o teto está cedendo e algumas partes já se romperam completamente, de forma que é arriscado ficar no local por muito tempo. O acesso às sobrelojas só é possível através de uma escada metálica vertical e com acompanhamento do corpo de bombeiros*. A parte central do balcão superior encontrase em bom estado estrutural, apesar de muitas plantas terem nascido no lugar por onde passam as tubulações e serem visíveis alguns pontos de infiltração. A parte lateral do balcão, no entanto, apresenta rachaduras que indicam a necessidade de reforço estrutural urgente, apesar dve apresentar seu formato tal qual foi proposta por Rino Levi.

FACHADA DA ENTRADA PRINCIPAL DO EDIFÍCIO. FOTO DA AUTORA, 2019.

LETREIRO DA ENTRADA ANTES DE SER REMOVIDO. FOTO DE DOUGLAS NASCIMENTO, 2008.

Todo o piso original, em tacos e todas as cadeiras do balcão e da plateia foram removidas, assim como o palco e o fosso para orquestra, ambos foram nivelados com o piso da plateia *INFORMAÇÕES OBTIDAS EM VISITA AO LOCAL.

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para aumentar o espaço de estacionamento. A estrutura de fechamento do palco se mantém presente e encontra-se em ótimo estado, sem nenhuma infiltração ou rachaduras aparentes. As paredes laterais da sala de exibições provavelmente preserva a tinta da época do fechamento do cinema, em 1977, as fotos da década de noventa apresentavam um tom azulado nas paredes, que foi desbotando e dando lugar à cor rosa claro que se mostra mais presente hoje. A escada de acesso ao piso superior pela rua Martim Buchard foi removida para gerar mais um acesso ao estacionamento, mas resquícios da mesma podem ser vistos na parede do local. Já a escada de acesso do palco ao piso superior, apesar do descaso e exposição a chuvas, encontrase em ótimo estado, mantendo inclusive parte do corrimão original.

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VISÃO SUPERIOR DA SALA DE EXIBIÇÕES APÓS DESABAMENTO DO TELHADO.

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ENTRADA PRINCIPAL DO CINEMA, PELA AVENIDA RANGEL PESTANA COM O BANNER INDICANDO A ENTRADA DO ESTACIONAMENTO FOTO DE JULIA MOTA, 2019

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PILARES DA ENTRADA PRINCIPAL E PAREDES ONDULADAS TAL QUAL O PROJETO ORIGINAL FOTO DE JULIA MOTA, 2019

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CORREDOR DA ENTRADA PRINCIPAL VISTO DE DENTRO DO EDIFÍCIO FOTO DE JULIA MOTA, 2019

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ESCALA LATERAL DO CORREDOR PRINCIPAL, ACESSANDO O MEZANINO FOTO DE JULIA MOTA, 2019

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LUGAR ONDE LOCALIZAVAM-SE OS BANHEIROS DA SALA DE ESPERA DO TÉRREO, HOJE O BANHEIRO DO ESTACIONAMENTO FOTO DE JULIA MOTA, 2019

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SALA DE ESPERA NO MEZANINO, FOTO DE FELIPE DOS ANJOS, 2019

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SALA DE ESPERA NO MEZANINO, MOSTRANDO ESCASA DE ACESSO AO BALCÃO SUPERIOR FOTO DE JULIA MOTA, 2019

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VISTA DO MEIO DA SALA DE EXIBIÇÃO EM DIREÇÃO AO BALCÃO E À ENTRADA PRINCIPAL FOTO DE JULIA MOTA, 2019

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VISTA DO BALCÃO SUPERIOR MOSTRANDO VERTICALIZAÇÃO DO ENTORNO EM RELAÇÃO AO CINEMA FOTO DE JULIA MOTA, 2019

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RACHADURAS NA ESTRUTURA QUE UNE O BALCÃO SUPERIOR FRONTAL COM SUAS LATERAIS FOTO DE JULIA MOTA, 2019

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COBERTURA DAS PARTES LATERAIS DO BALCÃO SUPERIOR FOTO DE JULIA MOTA, 2019

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BALCÃO SUPERIOR MOSTRANDO QUE O MESMO PRESERVA SUAS CONFIGURAÇÕES ESPACIAIS APESAR DA AUSÊNCIA DO TELHADO FOTO DE FELIPE DOS ANJOS, 2019


PARTE LATERAL DO BALCÃO SUPERIOR FOTO DE FELIPE DOS ANJOS, 2019

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ACESSO LATERAL DE ONDE EXISTIA O PALCO, QUE FOI REMOVIDO E NIVELADO AO NÍVEL DA PLATEIA FOTO DE FELIPE DOS ANJOS, 2019

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ESTRUTURA DE FECHAMENTO DO PALCO FOTO DE FELIPE DOS ANJOS, 2019

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ESTRUTURA DE FECHAMENTO DA CAIXA ONDE SE LOCALIZAVA O PALCO COM AS PORTAS DO ÁTICO, QUE DESABOU JUNTO COM A COBERTURA FOTO DE JULIA MOTA, 2019


ESCADA LATERAL AO PALCO, ACESSANDO O BALCÃO SUPERIOR FOTO DE JULIA MOTA, 2019

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VISTA DA CAIXA DE EXIBIÇÃO DO CINEMA, MOSTRANDO QUE PARTES DE APOIO DO PALCO FORAM DEMOLIDAS FOTO DE JULIA MOTA, 2019

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ENTRADA LATERAL PELA RUA MARTIM BUCHARD MOSTRANDO RESQUÍCIOS DA ESCADA DE ACESSO AO BALCÃO SUPERIOR QUE EXISTIU AÍ FOTO DE JULIA MOTA, 2019

LUGAR DAS ANTIGAS SALAS COMERCIAIS FOTO DE JULIA MOTA, 2019

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BALCÃO SUPERIOR E VISTA DO ALTIGO PALCO FOTO DE JULIA MOTA, 2019

17 BALCÃO SUPERIOR E

VISTA DO PALCO MOSTRANDO AS LUMNINÁRIAS ORIGINAIS E O TELHADO UMA SEMANA ANTES DO DESABAMENTO DO TELHADO, EM 1994

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BALCÃO SUPERIOR ATUALMENTE, SEM O PISO DE TACOS FOTO DE JULIA MOTA, 2019

18 BALCÃO SUPERIOR

AINDA COM O PISO DE TACOS, APESAR DE JÁ MUITO DANIFICADO, UMA SEMANA ANTES DO DESABAMENTO DO TELHADO, EM 1994

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ANTIGA BILHETERIA DO CINEMA FOTO DE JULIA MOTA, 2019

19 BILHETERIA DO CINE PIRATININGA EM SEUS ÚLTIMOS ANOS DE FUNCIONAMENTO FOTO DE CRISTIANO MASCARO, 1975

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III


PR O PO S TA


P ORQUE P RESERVAR O CI N E PIRATININGA

O cinema foi, durante muitos anos, a principal atividade de lazer do paulistano, realidade que acarretou a construção e muitas salas de cinema pela cidade. Esse período, que da ascensão ao declínio, se deu entre as décadas de 1910 e 1970, deixou muitas construções sem funcionalidade na cidade, principalmente no centro (Cinelândia paulista) e no bairro do Brás, focos principais do circuito cinematográfico. Um dos principais projetistas de salas de cinema foi o arquiteto Rino Levi. Ele desenvolveu seus conhecimentos sobre acústica em seus estudos na Itália, trazendo grande inovação tecnológica para a arquitetura brasileira da época, o que fez com que se tornasse um profissional renomado na construção de edifícios para esse uso específico. Em São Paulo, Rino construiu quatro salões cinematográficos, são eles: o UFA Palácio (1936), o Cine Universo (1939), o Cine Piratininga (1943) e o Cine Ipiranga (1943). Nenhuma das salas construídas por ele encontrase em funcionamento. O UFA-Palácio e o Cine Ipiranga, que ficam no centro, e são tombados por órgãos de preservação estão sem uso e muito degradados. Já os outros dois, que se localizam no Brás, tiveram novas funcionalidades conferidas a eles: o Cine Universo funciona como Igreja Universal e o Piratininga como estacionamento. Apesar de não ser tombado por nenhum órgão de preservação, o Cine Piratininga se apresenta como um dos últimos exemplares dos cinemas de rua que preenchiam as ruas do Brás entre 1910 e 1970. Mantêm grande parte da espacialidade arquitetônica proposta no projeto original, apesar da ausência do telhado da sala de exibições, que ruiu na década de 1990. Seu estado é de ruína e crescente degradação nos preocupa, uma vez que, pelo descaso, se está perdendo mais um marco memorial de importante período da história da cidade de São Paulo e do bairro do Brás. O uso do local como estacionamento fez com que apenas os espaços utilizados tenham passado por manutenção e

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sobrevivido bem à passagem do tempo, sendo eles o térreo do cinema e das salas comerciais, bem como o edifício residencial, que manteve seu programa original. Já os mezaninos e o balcão superior, devido à exposição às intempéries gerada pela ausência do telhado foram vítimas de intensa degradação e, em vista disso, precisam de urgente atenção, no intuito de manter a volumetria principal do edifício da forma como foi projetado por Rino Levi, uma vez que o mesmo apresenta muitos fatores que levam à necessidade de sua preservação como unidade arquitetônica.

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PART I DO DO P ROJE TO

O projeto apresentado aqui tem como objetivo primordial realizar a manutenção e preservação da unidade edificada do antigo Cine Piratininga, tratando-a como construção de valor arquitetônico e cultural. Ao estudar o edifício torna-se imprescindível agir sob toda a quadra, visando garantir maior fruidez ao projeto, abrindo o espaço para novas frentes de rua e retomando o terreno original através da realização de demolições pontuais, e da preservação dos antigos Galpões da C.O.P.A.G. (Companhia Paulista de Papéis e Artes Gráficas), implantados sob o mesmo terreno do cinema, que devem ser preservados por fazerem parte do período industrial do bairro do Brás que coincide com aquele da construção das salas de cinema no bairro e em São Paulo. Agir sob uma edificação existente de reconhecido valor histórico, arquitetônico ou cultural envolve, além de um profundo conhecimento da mesma, a decisão de como preservá-la. Para um melhor entendimento do desenvolvimento do projeto e dos caminhos possíveis considerados durante esse processo, foram escolhidos três conceitos principais para guiar e definir o partido arquitetônico trabalhado aqui, sendo eles: ruína, patrimônio cultural e restauração.

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A definição do conceito de ruína como cicatriz urbana é de extrema importância para o entendimento do contexto em que se encontra o Cine Piratininga e de muitas das construções vinculadas ao passado industrial do bairro do Brás. O processo de modernização das cidades, assim como o movimento de desindustrialização das grandes metrópoles, levou muitas áreas urbanas a serem abandonadas e funcionarem apenas como memória de algo que já não tem mais função para a sociedade. A reflexão sobre o comportamento urbanístico e arquitetônico para com esses espaços evidencia a fugacidade funcional da urbe, que se transforma num piscar de olhos, deixando grandes áreas e muitas construções em pura obsolescência. Através da arquitetura é possível trazer visibilidade para tal esquecimento, devolvendo significado à locais que não passam de mera ruína ou lembrança utilitária urbana.

C ONCEI TO: RUÍ N A

CON CEI TO : R U Í N A

O conceito de ruína começa a ter maior significância por volta do século XIX, com John Ruskin, um escritor, crítico de arte, sociólogo e admirador do desenho e da música. Seus pensamentos pregam o respeito ao edifício em sua forma original, se mostrando contrários a qualquer modificação. Para ele, manter viva a ruína no contexto urbano torna possível a identificação ou sentimento de pertencimento do espaço. Ele entende a arquitetura como expressão capaz de se eternizar, devendo envelhecer de maneira intocada e admitir morte, se for o caso. O entendimento e resgate de locais esquecidos em meio a urbanidade é tão necessário quanto a realização de uma releitura sob os mesmos, para que não se tornem espaços subutilizados ou obsoletos nas cidades cada vez mais densas. Este fato é evidenciado por José Lira em seu texto para a revista Redobra: Nelas (nas ruínas), talvez seja possível entrever um estorvo arquitetônico, imobiliário, territorial, mais do que arqueológico, ao processo

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de urbanização, uma revanche do que é constantemente soterrado ou descartado na edificação, (...) uma evidência embaraçosa da incapacidade da civilização burguesa de lidar com as diferentes temporalidades que lhe perpassam. (LIRA, 2013, p. 172) Segundo Tim Ederson, as ruínas “contêm uma promessa de inesperado” (EDERSON, 2005), comportamento que atrai e contrasta a construção. São locais que provocam a curiosidade através de sua presença fantasmagórica, locais que nascem da morte funcional da arquitetura que ali existiu. Paula Dal Maso (2017) observa que edifícios dessa categoria podem oferecer espaços esteticamente interessantes para a paisagem urbana e para o desenho arquitetônico, que se define através da sua indefinição. Richard Harper (2015), um fotógrafo de lugares abandonados e autor do livro ‘Abandoned Places’ (Tradução: Lugares Abandonados), nota que os locais que ele visita são resultado da ganância, que arruína lugares através do fluxo do comércio há milênios. E de fato é a ausência de incentivo ou fluxo capital que determina o esquecimento de um espaço, mas é essa mesma determinante que pode trazer visibilidade ao mesmo. É essencial, para a definição de um partido arquitetônico, entender a condição urbana atual do Cine Piratininga, da Fábrica da COPAG e da quadra em que ambos de inserem. O descaso para com o bairro do Brás levou ao esquecimento edifícios como estes, que se encontram em total abandono há décadas. No entanto, seu estado de ruína tem o poder de expressar claramente a decadência do bairro, dos cinemas de rua em São Paulo e dos edifícios industriais que uma vez estivam ali e foram o coração do lugar, trazendo reflexão sobre o abandono de espaços ao redor da cidade e traduzindo o valor histórico dos edifícios através da aceitação de sua morte funcional.

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O interesse por questões de preservação do patrimônio cultural no Brasil teve início em 1920, quando são elaborados os primeiros projetos de lei a respeito, porém se manteve como preocupação de poucos. O tema começa a se ampliar apenas em 1980, quando a UNESCO declara alguns sítios do país como patrimônio da humanidade. Mesmo estando presente já há quase um século, ainda há pouco conhecimento e muito despreparo profissional com a salvaguarda de patrimônios nacionais em suas diversas instâncias. A definição do conceito de patrimônio como bem cultural visa definir a forma como serão tratados os edifícios entendidos como tal, de forma a refletir com clareza sobre o valor simbólico guardado na sua forma arquitetônica. O entendimento da edificação, em meio à modernidade e da nova lógica de vida que a acompanha, resulta no entendimento do abismo que existe entre criação e tradição, qualificando uma forma consciente ou crítica de intervenção.

C ON C E I TO: PAT RI M ÔN I O CULT URAL

CON CEI TO : PAT R I M Ô N I O C U LT URAL

De acordo com Françoise Choay (2001), a ideia de patrimônio parte do princípio de um monumento como testemunho do passado, uma memória viva. Esse monumento, além de transmitir o poder histórico, tem a função demonstrar padrões estéticos de outras épocas. Pala ela, a ideia de conservação é dinâmica, de forma que o patrimônio pode modificar suas funções para se adequar aos novos padrões da sociedade, assim como pode sofrer alterações a serem diferenciadas do original, se restaurado. Aplicada às obras de arquitetura designa um edifício construído para eternizar a lembrança de coisas memoráveis, ou concebido, erguido ou disposto de modo que se torne um fator de embelezamento de magnificência nas cidades. (QUINCY, 1789) Choay diz ainda que o papel da preservação era de conjurar seu tempo, para garantir a preservação da origem de uma cultura ou

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tradição. Esse sentido perdeu sua significância na sociedade ocidental, principalmente por causa da forma como se dissemina o conhecimento, o qual pode ser guardado em livros, fotos, e até filmes; que funcionam também como referência ou prova histórica social de uma época, podendo transmitir costumes e tradições de povos que não existem mais. Segundo Roland Barthes (1984) a fotografia funciona como referência e uma forma adaptada de individualismo, dando à cada pessoa a possibilidade de preservação do seu passado pessoal, a volta dos mortos e dos momentos, fundando sua identidade nas imagens que salvaguardam um segundo no tempo que já passou. A fotografia tem grande influência na conservação do passado, assim como influenciou muito na forma como são preservados os edifícios patrimoniais na atualidade. Barthes conseguir perceber e analisar a duplicidade da fotografia (...) que tem o poder de jogar com dois planos da memória: abonar uma história e ressuscitar um passado morto. (CHOAY, 2001, p. 22) O sentido de preservar algo em seu formato original torna-se obsoleto, de forma que o patrimônio deixa de ser apenas uma lembrança e passa a funcionar também como uma releitura do passado pelo presente, através da restauração. É dessa forma que se desenha o olhar sob o Cine Piratininga e os galpões da antiga fábrica da COPAG, que tem como principal objetivo preservar o valor simbólico das edificações através da devolução da visibilidade dos mesmos no contexto urbano atual.

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Cesare Brandi (2004) encara o monumento restaurado, em sua totalidade, como obra de arte. O ato da restauração é, pala ele, uma intervenção sobre a matéria que tem como principal objetivo o reconhecimento de sua importância, privilegiando seu valor estético em relação ao histórico. Para Brandi, o comportamento para com a edificação no momento do restauro depende de quem a reconheça como obra de arte e exerça sobre ela uma intervenção, de forma a conferir certa liberdade artística à essa pessoa e maior valor ao resultado final da restauração como obra de arte.

C ONCEI TO: RESTAURAÇÃO

CON CEI TO : R E S TAU R A Ç Ã O

Para bem restaurar, é necessário amar e entender o monumento, seja estátua, quadro ou edifício, sobre o qual se trabalha.... Ora, que séculos souberam amar e entender as belezas do passado? E nós, hoje, em que medida sabemos amá-las e entendê-las?. (BOITO, 2002, p. 4) Dando continuidade ao pensamento de Brandi, Samuel Kruchin (2012) também vê a atividade da restauração como uma constante dualidade entre estética e história, de forma que o olhar sob tais edificações sempre se dá nos valores manifestados e visíveis, mas também naqueles não manifestos, que dão valor histórico ao objeto. Platão define memória como a presença do ausente; assim se define o olhar sobre a restauração de Kruchin, uma arquitetura que faz presente a memória do ausente, tornando-a visível. A interpretação que mais influenciou a forma de restauro moderno e atual, normatizada pela Carta de Veneza, vem de Camillo Boito, que busca uma unidade arquitetônica através da restauração. Para manter a integridade do todo e continuidade do monumento sugere, quando necessário, a substituição de elementos com características idênticas aos originais, mas que se destaquem como parte da obra de restauro. Através da análise do pensamento de Brandi, Kruchin e Boito é possível concluir que a restauração de um monumento, mais que apenas um ato de projeto, é um ato de análise crítica

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de uma obra de arte que representa a memória de algo significativo historicamente. Portanto, a formulação de uma proposta de intervenção sob o Cine Piratininga e antiga fábrica da COPAG deve reconhecer os potenciais existentes nas edificações através de uma análise realizada sob as mesmas. O Cine Piratininga é um dos únicos palacetes cinematográficos restantes no bairro do Brás, que já foi o segundo local mais importante na história cinematográfica de São Paulo, além disso é um importante exemplar da arquitetura de Rino Levi, por demonstrar sua racionalidade construtiva e plasticidade, por isso sua conservação se mostra necessária e importante. Já os galpões da COPAG são símbolo do período industrial do bairro do Brás e, assim como muitos outros galpões subutilizados na região, pode ter sua funcionalidade reciclada sem que seja necessária sua demolição, servindo como marco ou lembrança da identidade local.

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A QUA D R A

O maior interesse do presente trabalho é promover a preservação do edifício do antigo Cine Piratininga, devolvendo esse espaço, tão subutilizado por décadas, à cidade. Para conseguir realizar tal tarefa é necessário dar ao local maior visibilidade, de forma que se torna imprescindível agir sob toda a quadra, garantindo que o espaço tenha maior fruição. Para verificar as possibilidades do local foi realizado um estudo de área, buscando edifícios subutilizados, áreas livres no miolo de quadra, assim como problemas pontuais que deveriam ser resolvidos, apresentado na próxima página. A resposta a esse estudo se desdobra na área de intervenção, a qual se abre para quatro frentes de rua (avenida Rangel Pestana, rua Martim Buchard, rua Piratininga, e rua Mauricio Salomão Nahas), tornando o desenho da quadra mais permeável e gerando a possibilidade de melhor qualificação do espaço. As demolições propostas nesse novo desenho de quadra têm como objetivo dar ao bairro alguns tão necessários espaços livres públicos para os muitos condomínios residenciais que se tornam cada vez mais presentes na região. As unidades demolidas são: antigos galpões industriais utilizados como depósito; um estacionamento; três casas residenciais térreas e um galpão menor que existe no terreno dos galpões da C.O.P.A.G., os quais, assim como o Cine Piratininga, devem passar por um projeto de manutenção e preservação.


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DE F IN IN DO A ÁREA DE I N T ERVEN ÇÃO


DEM OLI ÇÕES/ P RESERVAÇ ÕE S

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F L UX OS


O programa do projeto foi definido a partir da análise sob a área feita no primeiro capítulo desse estudo. Nos últimos anos a região vem se adensando cada vez mais e apresenta grande verticalização no entorno da área de intervenção. O P ROGRAMA

No mapa de equipamentos (página 29) é possível notar que há necessidade de espaços públicos, de lazer e serviços e de áreas verdes na região. Buscando responder às necessidades locais sem fugir dos usos

C I N E PIRATININGA

O programa proposto para o Cine Piratininga consiste em: uma biblioteca, uma área expositiva, um café, uma lanchonete, uma área de descanso e um palco multiuso. A biblioteca funciona como apios ao grande número de equipamentos educacionais que existe na região. A área expositiva e o palco funcionam como locais de lazer, respondendo à ausência dos mesmos na área.

M E RC ADÃO D O BRÁS, GAL PÕE S DA C .O.P.A.G.

Nos antigos galpões da C.O.P.A.G. é proposto um grande mercado, visando atender ao crescente número de residentes do local. Além do mercado, são propostos restaurantes e bares com a intenção de atrair público para o edifício em diferentes horários do dia, dando ao local mais segurança, além de intensificar o uso do miolo de quadra.

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já consolidados da região, o programa visa compatibilidade com os mesmos, criando um espaço funcional e conferindo uma unidade arquitetônica a todo o projeto. As atividades propostas devem suprir as demandas existentes, mas também atrair um novo público aos edifícios com o intuito de torna-los funcionais, gerando a melhor preservação dos mesmos.

PRA ÇA

Visando criar um espaço público, de lazer e de esportes, é proposta uma praça substituindo um galpão, defronte à rua Maurício Salomão Nahas. No local são propostas diferentes atividades despostivas, buscando atender à um público de diferentes interesses idades.

GALER I A E P R A Ç A D E A L I M E N TAÇ ÕE S

Considerando o uso comercial da área é proposto uma pequena galeria e praça de alimentações, abertas para a rua Maurício Salomão Nahas, visando maior circulação e segurança ra rua que, atualmente não tem mais que 6 metros de largura.

QUA D R A

Na área aberta no miolo de quadra é proposto uma grande área verde, respondendo à essa necessidade e intensificando o uso do local.

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ELEVAÇ ÕE S

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I M P LAN TAÇ ÃO

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CI NE P I R AT I N I N G A A escala dos espaços presentes no edifício do Cine Piratininga, em seu estado atual, sem a cobertura da sala de exibições, se altera muito, gerando escalas diferentes em seus ambientes, a qual deve ser mantida por garantir surpresa ao percurso do projeto. De fato, a espacialidade atual será quase inteiramente mantida, com ressalvas pontuais para melhorar a qualidade de implantação do programa no edifício. São propostos: uma área expositiva, um café e uma lanchonete no térreo onde encontravam-se os conjuntos comerciais; uma biblioteca no antigo mezanino e segundo pavimento dos conjuntos comerciais; um espaço para descanso e arquibancada no balcão superior. No presente projeto, a sala de exibições mantém sua configuração espacial atual por ter sido considerado que a mesma guarda a memória do descaso com o edifício, servindo como símbolo da decadência do período cinematográfico em São Paulo, que deixou muitas cicatrizes na cidade. O projeto sob esta edificação se dá de forma sutil, mantendo o máximo do que foi preservado até agora e buscando a preservação daquilo que sobreviveu há todas essas décadas, dando vida ao edifício através do emprego de novas funcionalidades há ele. O foco no programa no Cine Piratininga é o palco, que deve receber atrações múltiplas, planejadas pelo setor administrativo, localizado nos galpões da C.O.P.A.G., que serão abordados nas próximas páginas. Um local que se altera de acordo com a necessidade corre menos risco de perder sua funcionalidade, uma vez que a mesma se transforma constantemente, por isso a proposta não busca devolver a função puramente de sala de cinema, mas um espaço para apresentações artísticas em geral, abrangendo um público maior e garantindo uma maior flexibilidade de atividades no local.


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ENTRADA PRINCIPAL DO CINE PIRATININGA PELA AVENIDA RANGEL PESTANA

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ENTRADA SECUNDÁRIA COM ACESSO DIRETO À ANTIGA SALA DE EXIBIÇÕES E ATUAL PALCO A ABERTO, PELA RUA MARTIN BUCHARD

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VISTA DO PALCO A PARTIR DO BALCÃO SUPERIOR MOSTRANDO O MERCADO AO FUNDO

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PARTE LATERAL DO BALCÃO SUPERIOR

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BIBLIOTECA E, AO FUNDO, ACESSO A SALA DE ESTUDOS

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CAFÉ PIRATININGA, O QUAL FAZ A TRANSIÇÃO ENTRE A ÁREA EXPOSITIVA E O PALCO E A PLATÉIA, ENCONTRANDO-SE 1,3M ABAIXO DO NÍVEL DOS MESMOS

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P LAN TA T ÉRRE O

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PL AN TA M EZAN I N OS


CORTE S

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M E RC A D Ã O D O BR Á S/ G A L P Õ ES DA C O PAG Para o edifício onde funcionou uma fábrica da C.O.P.A.G. é proposto um projeto de preservação das fachadas e malha estrutural. Desde os anos noventa, quando a fábrica da empresa se transferiu para outro endereço, o local se encontra sem uso e bastante degradado. Atualmente, seu proprietário, que é o mesmo do Cine Piratininga, realizou algumas obras no local modificando a fachada frontal e o telhado da edificação posterior. As obras foram embargadas por não considerarem o desenho original da edificação, que tem valor histórico por marcar o passado industrial do bairro do Brás. O edifício é composto por quatro pavimentos de mesma organização espacial. Seus núcleos de circulação vertical principais se encontram nas laterais dos edifícios, mas há núcleos separados que se dão de forma desorganizada na planta. É proposto para a edificação um mercadão para o Brás voltado para a culinária italiana e nordestina, de forma que o projeto celebra o passado industrial do bairro celebrando os indivíduos que construíram este passado que, no caso do bairro do Brás, foram principalmente os italianos e, posteriormente, os nordestinos. Além do mercado, restaurantes celebrando a cultura gastronômica dessas duas raízes tão distintas, salas para cursos de culinária, um espaço para eventos e um grande bar no térreo ao lado de um grande mercado aberto, que tem o objetivo de incentivar o uso do miolo da quadra e fazer com que esses espaços sejam utilizados continuamente ao longo do dia, gerando maior segurança para o local. O térreo da edificação teve suas paredes removidas na última reforma realizada no local, e o projeto deve mantê-las assim, abrindo o edifício para o terreno trazendo a rua para dentro da quadra ao gerar um fluxo visual contínuo do espaço, instigando curiosidade e convidando o transeunte ao passeio.


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IMAGENS EXTERNAS DO VOLUME ATUALMENTE MOSTRANDO O TÉRREO ABETO PARA A PARTE EXTERNA FOTO DA AUTORA, 2019

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ESPACIALIDADE DO PAVIMENTO TIPO MOSTRANDO DETALHE DA COR DA PAREDE, E NA CAIXILHARIA DAS JANELAS FOTO DA AUTORA, 2019

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P LAN TA T ÉRRE O

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PL AN TA 1 O PAVI M EN TO


P LAN TA 2 O PAVI M E N TO

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PL AN TA 3 O PAVI M EN TO


CORTE S

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I SOM ÉT RI CA DETALHAN DO L AYOUT 01 ESPAÇO PARA EVENTOS 02

ARQUIBANCADA BAR

03

SALAS PARA CURSOS

04 ÁREA ADMINISTRATIVA

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05

RESTAURANTE NORDESTINO

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VARANDA

07

CAFÉ

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MERCADO DE COMIDA NORDESTINA

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RESTAURANTE ITALIANO

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ÁREA DE ESTAR

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MERCADO DE COMIDA ITALIANA

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RESTAURANTE BAR

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MERCADO ABERTO


PERSPECTIVA DA ENTRADA DO MERCADÃO, ABERTA PARA A RUA PIRATININGA, MOSTRANDO BAR ABERTO AO FUNDO (NÚMERO 13 NA PERSPECTIVA ISOMÉTRICA DA PÁGINA 112).

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PERSPECTIVA DA ENTRADA DO MERCADÃO, ABERTA PARA A RUA PIRATININGA, MOSTRANDO BAR ABERTO AO FUNDO (NÚMERO 13 NA PERSPECTIVA ISOMÉTRICA DA PÁGINA 112).

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PERSPECTIVA DAS PASSARELAS ENTRE O EDIFÍCIO DO MERCADO E OS RESTAURANTES, MOSTRANDO OS DOIS CAFÉS E A ÁREA DE ESTAR PRESENTES NO ESPAÇO (NÚMEROS 07 E 10 NA PERSPECTIVA ISOMÉTRICA DA PÁGINA 112).

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PERSPECTIVA DO CORREDOR ENTRE AS SALA DE CURSOS DE CULINÁRIA (NÚMERO 03 NA PERSPECTIVA ISOMÉTRICA DA PÁGINA 112).

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PERSPECTIVA DO RESTAURANTE NORDESTINO (NÚMERO 05 NA PERSPECTIVA ISOMÉTRICA DA PÁGINA 112).

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PERSPECTIVA DO RESTAURANTE ITALIANO (NÚMERO 09 NA PERSPECTIVA ISOMÉTRICA DA PÁGINA 112).

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P RAÇ A

A praça aberta defronte às Ruas Piratininga e Maurício Salomão Nahas substitui um antigo galpão industrial que se encontrava no local e tornava a Rua Maurício Salomão Nahas em uma viela mal iluminada, com muros altos de ambos os lados. Observando a situação atual do bairro é possível notar que há poucos equipamentos desportivos na região e o programa proposto na praça tem o objetivo de gerar um espaço que responda à essa necessidade. O trabalho de piso com cores vibrantes convida ao grafitti, já bastante presente no local, funcionando como um espaço livre para exposição desse viés artístico.


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01 GRAMADO 02

MESAS DE XADREZ

03

MESAS DE TÊNIS DE MESA

04 PISTAS DE SKATE 05

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QUADRAS


PERSPECTIVA DO GRAMADO (01) OLHANDO EM DIREÇÃO ÀS QUADRAS (05).

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PERSPECTIVA EM PROJEÇÃO PARALELA DA PISTA DE SKATE (01) OLHANDO EM DIREÇÃO ÀS QUADRAS (05) E AO PATAMAR MAIS ALTO ONDE ESTÃO AS MESAS DE XADREZ (02) E AS MESAS DE TÊNIS E MESA (03).

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PERSPECTIVA DAS QUADRAS (05) OLHANDO EM AO BANHEIRO E PATAMAR MAIS ALTO DA PRAÇA.

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G A L E R IA + P RAÇ A D E A L IME N TA ÇÃ O

Para melhorar a segurança e a escala na Rua Maurícío Salomão Nahas é proposto para o local, não só a praça defronte à Rua Piratininga, mas também uma galeria e praça de alimentação, voltada para a Rua Martim Buchard. Na mesma há oito pontos de venda e nove containers que se organizam no espaço, formando uma praça de alimentação aberta e voltada para a rua, na qual se propõem o fechamento para carros. Essa estratégia tem como objetivo gerar circulação no local em diferentes momentos do dia, de forma que o caminhar se torne mais agradável ao pedestre, que caminhará por um espaço mais aberto, iluminado e movimentado.


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IV


CONSIDERAÇÕES FINAIS


CRÉDI TO DAS I M AGE N S

IMAGEM 01 Mapa elaborado a partir de exemplar presente em https:// pt.saopaulomap360.com/mapa-bairros-saopaulo#.XPMwrtvOrBU IMAGEM 02 PLANTA DO MUNICIPIO DA CAPITAL DE SÃO PAULO, in São Paulo Antigo, ob. Cit., Consta do mapa da cidade de São Paulo. 1881, levantado por Henry B. Joyner. O Brás está dentro da área que corresponde ao perímetro urbano. (pg do caderno) IMAGEM 03 http://smul.prefeitura.sp.gov.br/ historIco_demografico/img/mapas/1895.jpg IMAGEM 04 http://www.jorbras.com. br/portal/index.php?option=com_ content&task=view&id=4959&Itemid=2 IMAGEM 05 http://smul.prefeitura.sp.gov.br/ historico_demografico/img/mapas/1916.jpg IMAGEM 06 26/8/1900. Acervo Guilherme Gaensly. IMAGEM 07 http://www.saopauloantiga.com.br/ passagem-rangelpestana/ IMAGEM 08 http://www.saopauloantiga.com.br/ passagem-rangelpestana/ IMAGEM 09 https://diariodotransporte.com. br/2011/06/27/historia-do-bras-exemplo-decrescimento-fe-e-trabalho-hoje-vitima-doabandono-e-da-degradacao/ IMAGEM 10 https://diariodotransporte.com. br/2011/06/27/historia-do-bras-exemplo-decrescimento-fe-e-trabalho-hoje-vitima-doabandono-e-da-degradacao/ IMAGEM 11 http://salasdecinemadesp. blogspot.com/2008/02/antigos-cinemas-eteatros-do-bairro-do.html

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IMAGEM 12 http://salasdecinemadesp2. blogspot.com/2008/05/brs-polytheama-sopaulo-sp.html IMAGEM 13 http://www.saopauloantiga.com. br/a-tragedia-do-cine-oberdan/ IMAGEM 14 googlemaps.com IMAGEM 15 http://salasdecinemadesp2. blogspot.com/2008/06/piratininga-so-paulo-sp. html IMAGEM 16 http://salasdecinemadesp2. blogspot.com/2008/06/piratininga-so-paulo-sp. html IMAGEM 17 https://cinemafalda.blogspot. com/2016/08/cine-piratininga-fotos-da-internet. html IMAGEM 18 https://cinemafalda.blogspot. com/2016/08/cine-piratininga-fotos-da-internet. html IMAGEM 19 https://casavogue.globo.com/ MostrasExpos/Fotografia/noticia/2014/01/ retratos-de-uma-sao-paulo-antiga.html

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REF ERÊN C IAS

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AO FIM DO DIA, PODEMOS AGUENTAR MUITO MAIS DO QUE PENSAMOS QUE PODEMOS FRIDA KAHLO


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Cine Piratininga: um novo significado - TFG - Julia Mota Ferreira  

Trabalho final de graduação em Arquitetura e Urbanismo: Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Centro Universitário Belas Artes. São Paulo, 2...

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