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Caderno do Professor

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CADERNO DO PROFESSOR

APRESENTAÇÃO

A mediação em espaços culturais precisa ser pensada mais como um diálogo entre os estudantes e professores e menos como uma mera transmissão de informações. A palavra do educador precisa estimular o olhar do aluno e muito mais questionar do que explicar. Para isso, é necessário que o professor esteja familiarizado com a proposta do projeto.

Nesse sentido, criamos esse caderno e também o MATERIAL DE APOIO, com conteúdos específicos, para ajuda-lo a criar um roteiro próprio, que melhor se adeque a seus planos de aula.

Diferente dos outros campos do conhecimento, a arte é sempre uma interpretação e os seus sentidos estão em constante transformação, de modo que nunca há respostas certas – cada pessoa possui um contexto próprio, a partir do qual avalia suas experiências.

O CADERNO DO PROFESSOR visa dar condições para que o professor possa proporcionar aos seus estudantes uma experiência ativa e interessada, à medida que seus conteúdos podem ser trabalhados antes, durante e após a visita – potencializando a aprendizagem e o conhecimento.

O museu, nesse sentido, pode se tornar um grande parceiro da educação escolar. As visitas de estudantes a espaços culturais não são apenas uma forma de lazer, mas, principalmente, uma ferramenta que estimula a sua percepção, seu pensamento crítico, sua comunicação e, sobretudo, a sua capacidade de empatia – habilidades fundamentais para o desenvolvimento de suas personalidades e sociabilidades.

1. A origem do projeto d’Os sertões
2. Sobre Os sertões
Homero Massena
Juliana Pessoa 5. Fernando Pessoa

1. A ORIGEM DO PROJETO

Desde 2018, Juliana Pessoa e Fernando Pessoa vêm construindo juntos trabalhos baseados na leitura de Os sertões, de Euclides da Cunha. Ele, como curador, escritor e fotógrafo. Ela, como artista visual. Juntos, eles realizaram duas exposições e uma residência artística na cidade de Canudos/BA. Juliana recebeu menção honrosa no Salão de Artes de Praia Grande/SP, por uma série de quatro desenhos, realizados em Canudos e Fernando publicou o livro “Linguagem, poesia e pensamento: leituras de João Cabral de Melo Neto e João Guimarães Rosa”, pela EDUFES, derivado de seu estudo de pósdoutorado, que também incluiu uma interpretação da obra de Euclides.

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Em visita ao Museu Atelier Homero Massena, o casal foi surpreendido com as correções e as ilustrações que o pintor produziu nas páginas de seu exemplar de Os sertões.

Desse encontro, surgiu a proposta da exposição d’Os sertões, na Casa da Memória de Vila Velha, reunindo as ilustrações de Homero, os desenhos de Juliana e as fotografias de Fernando, durante sua vivência em Canudos.

Além disso, o projeto também busca dar visibilidade a um lado ainda pouco conhecido de um dos maiores pintores capixabas: o Homero leitor, pensador, ilustrador, que, mesmo à beira-mar, na bucólica Prainha, em Vila Velha, guardava dentro de si o vigor do sertão.

2. SOBRE OS SERTÕES

O livro apresenta a narrativa de Euclides a partir de sua experiência como correspondente de guerra, em 1897, durante a quarta campanha do exército brasileiro contra Antônio

Conselheiro e os moradores do arraial de Belo Monte, popularmente conhecido como Canudos. Nesse contexto, o autor coletou uma série de relatos, manuscritos, matérias de jornais, aos quais, no decorrer de alguns anos, incluiu também um estudo sobre geografia, história, sociologia, etc., com o propósito de descrever o sertão, o sertanejo e a luta. A publicação incluiu as célebres fotografias de Flávio de Barros, que, assim como Euclides, acompanhou a 4ª expedição a Canudos, registrando imagens tanto dos militares, quanto dos moradores do arraial, aprisionados pelo exército.

400 jagunços. Fotografia de Flávio de Barros

Em Os sertões, Euclides denuncia que a guerra contra Canudos “foi, na significação integral da palavra, um crime”, expondo uma série de atrocidades cometidas pelo exército brasileiro, que degolou todos os seus prisioneiros, bem como bombardeou e incendiou o arraial – não deixando restar pedra sobre pedra. No entanto, ao longo do seu relato, o autor aponta Antônio Conselheiro e seus “fanáticos” seguidores como os principais culpados desse massacre, tanto por sua falta de instrução adequada, quanto por sua mestiçagem racial, que ele considerava como uma degeneração da espécie.

Guardado o mérito do escritor de dar visibilidade ao conflito e de denunciar o massacre, que o exército tentou esconder, por meio da censura dos correspondentes de guerra, não podemos deixar de falar que o viés racista, preconceituoso e elitista da visão euclidiana aprisionou, durante muitos anos, a história e a memória de Belo Monte. Em nosso imaginário popular, até hoje, o Conselheiro e a sua gente ainda figuram sob o crivo do atraso, do misticismo e do desequilíbrio mental – cujo destino era, inevitavelmente, a eliminação.

No entanto, as pesquisas do professor José Calasans, da UFBA, que encontrou e entrevistou sobreviventes da guerra, ajudaram a mostrar uma outra face da vida no arraial, onde diziam ser os barrancos feitos de cuscuz e os rios de leite, tamanha a fartura em Belo Monte.

Os relatos ainda contam que todos tinham um lugar pra morar, terra para trabalhar e que também havia uma espécie de caixa comum, reservada para aqueles que não tinham mais condição de prover o próprio sustento. No tempo do Conselheiro, “de tudo se tratava porque a nenhum pertencia e era de todos, grandes e pequenos”. (HonórioVilanova, sobrevivente)

João Botão, sobrevivente. Fotografia de EvandroTeixeira.
João Régis, sobrevivente. Fotografia de Evandro Teixeira

A exposição d’Os sertões convida você, professor, a uma reflexão sobre como a Guerra de Canudos permanece um paradigma de nossa formação social, em relação à opressão do Brasil oficial – dos gabinetes políticos, dos comandos militares, das lideranças religiosas e das oligarquias – contra o Brasil real, que luta por terra e por seu direito à vida.

Um fenômeno repetido de algo que sempre acontece em nosso país.

Nesse sentido, para que você possa saber um pouco mais sobre a vida em Belo Monte e sobre a obra Os sertões, de Euclides da Cunha, indicamos três aulas online, disponíveis no YouTube, realizadas pelo professor Pedro Lima Vasconcellos da UFAL, que foi colega de José Calasans e possui várias publicações sobre essa temática:

Canudos 1. Apresentação do curso "Canudos - o Belo Monte de Antonio Conselheiro“

Canudos 3. Formação, cotidiano e aniquilamento do Belo Monte de Conselheiro

Canudos 7. A interpretação de Euclides da Cunha e seu impacto na cultura brasileira

Caso tenha interesse em assistir o curso completo, é só clicar nos links abaixo:

Canudos 2. Como a pesquisa aborda Conselheiro e Canudos desde 1950

Canudos 4. Vozes do sertão: o Belo Monte como “terra da promissão”

Canudos 5. O pensamento e a obra do “peregrino”: a obra escrita de Conselheiro

Canudos 6. A hierarquia católica na inviabilização do Belo Monte

Canudos 8. Aula final: A destruição do Belo Monte em nome da ordem e do progresso

3. HOMERO MASSENA

Nascido na cidade de Barbacena/MG, Homero Massena se formou em pintura, urbanismo e decoração na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro e continuou

seus estudos na renomada Academia Julien, na França, país onde viveu durante onze anos.

Desde a infância, o artista desenvolveu um forte vínculo com Vila Velha, onde passava boa parte de suas férias e mantinha boas relações sociais. Em 1951, foi convidado pelo então governador do estado para fundar e dirigir a primeira Escola de Belas Artes do Espírito Santo, que viria a ser o embrião do Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo.

O convite fez com que Homero pudesse realizar seu antigo sonho de residir na Prainha de Vila Velha, onde ele se consagrou como um dos maiores pintores da natureza e das paisagens capixabas. O artista foi também um ávido leitor, com um apreço especial por Euclides da Cunha, cuja obra Os sertões, Homero manteve, por anos, como seu livro de cabeceira – e que, atualmente, está em exposição no Museu Atelier Homero Massena. Nesse momento, convidamos você a refletir sobre: o que significa um livro de cabeceira?

Optamos por compreender o livro de cabeceira como uma obra que nos é complementar, à medida que nas suas palavras encontramos algo que sacia a nossa fome, mas que é também a própria fome, assim, ele nos dá aquilo que nos falta e, ao mesmo tempo, arranca o pouco que temos – por isso precisamos recorrer a ele, reler as sua páginas. Desse modo, pensamos que o livro Os sertões ofereceu a Homero um horizonte de pensamento e também um vasto imaginário, que contribuíram para a construção de sua própria identidade. Talvez, sem trazer o vigor do sertão ardendo no próprio peito, o artista não tivesse conseguido transformar em tela o frescor vivo de nossa mata atlântica e de nossas marinhas.

Além dessa especulação, podemos também apontar para o fato de que a relação de Homero com seu livro de cabeceira foi ainda mais além. Ele saiu da condição passiva de leitor e passou a de interlocutor, à medida que inscreveu, nas páginas de seu livro, uma série de imagens produzidas com caneta esferográfica e lápis aquarelável – acrescentando, às palavras de Euclides da Cunha e às imagens de Flávio de Barros, o seu próprio ponto de vista.

Ilustração de Homero Massena em seu exemplar de Os sertões

Homero, ao que se sabe, nunca buscou dar visibilidade às suas ilustrações. Ele bem poderia ter seguido adiante e transformado essas notações visuais em pinturas, por exemplo.

Porém, optou por mantê-las restritas ao interior de seu livro, guardado na cabeceira de sua cama.

Dito isso, é necessário salientar que as imagens em exposição, na Casa da Memória de Vila Velha, não são um conjunto de obras, no sentido tradicional do termo, do pintor Homero Massena – mas algumas de suas reflexões visuais sobre o sertão, o sertanejo e a luta de Belo Monte.

Nesse sentido, a mostra d’Os sertões apresenta um Homero menos grandioso e mais humano. Nela, estão em exposição reproduções de algumas ilustrações produzidas pela imaginação de um leitor encantado por uma “terra ignota”*, “inóspita”, “imprópria à vida”, que se transfigura, por vezes, em “paraíso”, em um vasto “vale fértil” – onde foi travada

uma das maiores batalhas de nossa história nacional, ainda nos primeiros anos de nossa recém fundada república, em 1897 – imortalizada pelas palavras de Euclides da Cunha e pelas lentes do fotógrafo Flávio de Barros.

* Terra ignota significa um lugar desconhecido, obscuro. As aspas indicam as expressões usadas por Euclides da Cunha para descrever o sertão..

Ilustração de Homero Massena em seu exemplar de Os sertões

4. JULIANA PESSOA

Nascida na cidade de Vila Velha/ES, formou-se em Artes Visuais e possui mestrado em Filosofia, ambos pela Universidade Federal do Espírito Santo. Também participou do curso

Propriedade e Procedência, com o professor Charles Watson, bem como foi selecionada pelo Programa Rumos, do Itaú Cultural, para uma residência artística na cidade de Canudos/BA

Após um longo estudo sobre o livro Os sertões, sua fortuna crítica e suas iconografias, a artista produziu uma série de trabalhos, intitulada – Nonada., composta por desenhos, feitos à mão, sobre papel, com materiais elementares, tais como carvão, pigmentos em pó, argila, giz, borracha, estilete, lixa, etc.

Série – Nonada., Juliana

Pessoa

Desenhos dessa série já foram expostos no Complexo Cultural Teatro Deodoro, em Maceió/AL na Galeria de Arte UFF Leuna Guimarães, em Niterói/RJ, e no Salão de Artes

Plásticas de Praia Grande/SP.

Após a residência artística em Canudos, a série foi ampliada com novos trabalhos, baseados nas imagens atuais da cidade e de seus moradores, muitos descendentes diretos dos conselheiristas que lutaram por seu território em 1897 e outros, seu descendentes indiretos, cujas histórias de vida são uma espécie de repetição dessa saga sertaneja. Essa é a sua primeira exposição na cidade onde nasceu.

4. FERNANDO PESSOA

Nascido na cidade do Rio de Janeiro/RJ, é doutor em Filosofia, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor titular da UFES. Foi o organizador das oito edições dos Seminários Internacionais Museu Vale e, há sete anos, está à frente dos Diálogos com a arte contemporânea, realizado pela mesma instituição.

Em um de seus pós-doutorados, estudou os sentidos do sertão e do sertanejo nas obras Os sertões, de Euclides da Cunha, Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa e os poemas de João Cabral de Melo Neto.

Dona Maria Botão, Fernando Pessoa. (Ela é filha de Seu João Botão, fotografado por EvandroTeixeira)

Já escreveu alguns textos críticos, tendo ganhado uma edição dos Prêmios Literários da Fundação Cultural do Pará, com o livro Corpo e faca em João Cabral de Melo Neto. Foi também o curador de diversas exposições de arte, na cidade de Vitória. Durante a residência artística, em Canudos, realizou uma série de fotografias da cidade atual, de sua gente e de suas paisagens, bem como registrou em vídeo várias entrevistas com os moradores do lugar. Essa será a primeira vez que Fernando expõe suas fotografias.

Fotografia de Fernando Pessoa

D’os sertões

Artistas

Homero Massena

Juliana Pessoa

Fernando Pessoa

Curador e assessor de comunicação

Manoel Góes

Arte-educadora

Juliana Pessoa

Montadora

Angélica Reckel

Instituto Histórico e Geográfico de Vila Velha

Presidente

Luiz Paulo Siqueira Rangel

Produtor cultural

Marcello França Furtado

Casa da Memória de Vila Velha

Coordenador

Paulo Sérgio Fehlberg Silvestre

Pedagoga

Alexandra Cristina Nunes Museóloga

Flávia Fernandes

Monitores

Marcos Gaudencio Cardoso

Clarissa Souza Xavier

Rodrigo Euzebio de Almeida

Jose Antonio Alvez Neto

Josmar Andrews da Costa Paterlini

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