Zimbro - Junho de 2016

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Associação Cultural AMIGOS DA SERRA DA ESTRELA * 2º Trimestre *JUNHO*2016


SUMÁRIO FICHA TÉCNICA

Editorial 3

DIRECTOR: J. Maria Saraiva (Presidente da ASE)

CORPO REDACTORIAL: José Veloso Tiago Pais João Pedro Sousa Susana Noronha

COMPOSIÇÃO: J. Maria Saraiva Paulo Silva

A Lã e a Neve 6 Usufruto da Paisagem 10 Plantas Atomáticas 13 Águia Imperial 16 As Aldeias da Serra Sarzedo 24

GRAFISMO:

Famalicão da Serra 32

J. Maria Saraiva Paulo Silva

Linha da Beira-Baixa 42

REVISÃO: José D. Saraiva Luís F. Saraiva Maria Ramos

O que é o Glifosato? 47 Lugares Sagrados 56

COLABORAM NESTE NÚMERO: Ana Cristina Carvalho, José Amoreira, Cláudia Dias, Liliana Barosa e Paulo Marques, Inês Cunha Direito, Cristina Novo, Isa Martins

Imagens... 58 Geobserver 63

SEDE E REDACÇÃO: Rua General Póvoas, 7-1º 6260-173 MANTEIGAS www.asestrela.org asestrela”gmail.com info@asestrela.org

Foto da capa: Vale do Beijames (zm) Foto da c. capa: Despertar da Primavera - Larix decídua (zm)

A revista “ZIMBRO” é editada pela Associação Cultural AMIGOS DA SERRA DA ESTRELA, em formato digital e com distribuição gratuita. Os artigos de opinião são da responsabilidade dos seus autores e podem, ou não, ser coincidentes com a linha orientadora da Associação na defesa e promoção da serra da Estrela.


Editorial O Oportunismo aparece, quase sempre, nos momentos mais imprevisíveis, não se pautando pelo recato nem pelo respeito de quem vive os momentos mais dramáticos. O comunicado da Federação de Campismo e Montanhismo de Portugal (http://fcmportugal.com/ actviewer.aspx?id=382), a propósito do cidadão português que morreu quando praticava Canyoning, no Barranco Del Fecha (Galiza), a escassos 5 quilómetros da fronteira da Portela do Homem, deu origem a um catapultar de pensamentos e memórias que resultaram nas palavras que aqui deixo. Não devo a nenhum clube, federação, inclusive à ASE de que sou presidente, a ligação que tenho com as montanhas e com a serra da Estrela em particular. Tal íman é demasiado íntimo, rebelde e difícil de explicar em poucas palavras, se é que se pode explicar por palavras. Oxalá outros as desfrutem tanto quanto pude, espero continuar a fazer a uma outra escala, mas com os meus e valores. Não necessitei, pois, de me filiar no que quer que seja para me embrenhar montanhas adentro e deixar-me levar… Terá sido este fluir de emoções e apreensões que me tornou menos egoísta no usufruir das montanhas para, juntamente com muitos outros, procurar argumentos para as defender dos atentados de quem vê as montanhas como uma oportunidade infinda para negociatas. Não tenho dúvidas de que foi

“oferecendo” a Serra segundo o olhar da ASE, que hoje temos milhares de portugueses a poderem usufruir dela, com o máximo respeito pelos seus valores. A associação não nasceu apenas com o sentido de se usufruir da Serra. Acima de tudo foi para entrelaçar responsabilidades que gerassem empatias, de maneira a que, individualmente ou em grupo, se questionasse se o interesse de andar nas montanhas era partido ou repartido. Tais propósitos, como os fundamentos com que se têm apresentado muitas soluções que, diga-se, nunca foram contrariadas, bem como dinâmicas de intervenção que ainda estarão presentes na memória dos milhares de cidadãos que nelas se envolveram, ter-lhe-ão granjeando simpatias de que desfruta em muitas Instituições, Órgãos de Comunicação e população. Não foi a primeira vez que a FCMP deu sinais de que era a favor de se condicionar o acesso ao “Gerês” e à “Estrela”, a grupos que não fossem conduzidos por profissionais, bem como “entrar pela área” do socorro onde não fez nada para que tal acontecesse. Ainda tentaram, algumas pessoas da simpatia da FCMP, completamente afastadas da realidade, meter-se em tal aventura! Mas essa insuficiência, em confronto com o que já estava a ser implementado no terreno pela ASE, deitou por terra ambições sem qualquer nexo como adiante complementarei. Recordo as tentativas, claro que sempre perto do Poder, para a criação de uma equipa de intervenção rápida, que seria composta pelos “doutos” do montanhismo radicados na capital, como não seria de esperar outra coisa, para se deslocar de helicóptero 3


sempre que fossem solicitados para qualquer ocorrência. Quem não está recordado das tentativas, infrutíferas, de criar uma equipa de resgate baseada apenas na disponibilidade de um helicóptero, ignorando a necessidade de ter recursos bem preparados e devidamente equipados em terra? Quanto não terá sido consumido em treinos de “diversão” para tentar sossegar a opinião pública de que já estariam reunidos os meios do socorro, o que não passava de uma manobra para encobrir as deficiências, que Bombeiros/Protecção Civil possuíam sobre o resgate, em vez de terem facilitado o diálogo para se conjugarem esforços sobre a realidade que já se vinha a evidenciar e acabou por se concretizar? Como é usual neste país, as coisas não se fazem no tempo certo e quando se decide é quase sempre de maneira desconexa, o que torna o sistema de socorro na serra da Estrela quase irracional, apetecendo dizer que, se não surgem os casos, começa a ser um pouco difícil justificar os meios! Não é descabido referir que a serra da Estrela virou quase um “campo militar”! Até foi divulgado um projecto, pela Câmara Municipal da Covilhã, para a construção de um quartel para a GNR, nas Penhas da Saúde, o que demonstra o desajustamento face às realidades e necessidades da Serra. Seria interessante saber se os demais Municípios teriam sido ouvidos ou o que pensam sobre o assunto, uma vez que, a divisão administrativa desta montanha, é repartida por vários Concelhos. Obviamente que um caso desta natureza teria toda a lógica que fosse consensual.

Nas montanhas de Espanha, as equipas de resgate da Guardia Civil têm uma presença tão dissimulada que se manifesta apenas na acção, eficaz, quando se torna necessário, tendo muito em consideração a forma como as notícias são difundidas para que o turismo e a população em geral não ganhem receio pelas montanhas. A propósito do socorro em montanha, dizia-nos o Dr. José Ramon Morandeira, falecido em 4 de Novembro de 2012, professor na Universidade de Saragoça, e se definia como médico e montanheiro, que os acidentes nas montanhas de Aragão estavam a gerar uma má imagem pública e a prejudicar o turismo da região. Era um assunto muito importante que teria de ser resolvido por quem vive nas montanhas e não por quem está em Madrid. Foi ele que prestou toda a ajuda médica ao João (Garcia), na altura das queimaduras, em resultado da subida ao Evareste. Ainda sobre o último comunicado da FCMP e a referência ao desaparecimento de João Marinho, bem assim como o processo que envolveu o envio de “seis dos nossos técnicos” num “derradeiro” esforço, apenas vem revelar o desconhecimento da montanha e do que se passa no país vizinho em relação à orgânica do resgate. Um alerta, uma semana após o desaparecimento do João Marinho, em pleno inverno, só um mero acaso poderia caucionar o resgate! Disse-o, e também foi esse o diagnóstico da Guardia Civil durante as buscas, infrutíferas, que só na Primavera poderiam ter resultados. É trágico, mas é a dura realidade!


Teria sido muito mais benéfico que a FCMP acompanhasse o exemplo da Federação Portuguesa de Montanhismo e Escalada (FPME) que, num contacto permanente com as autoridades que orientavam as buscas, confirmavam as contradições que eram difundidas pela Comunicação Social portuguesa, que davam conta do abandono das buscas pela Guardia Civil quando o que se passava era uma mera redução de efectivos, face àquilo que, no fundo, era o sentir da experiência de quem já possui estatísticas, para aferir o sucesso ou a infeliz oportunidade das operações. O caso descrito fez-me lembrar um outro, aquando do desaparecimento da Maria João, que levou a que muitos portugueses, individualmente ou em grupo, rumassem aos Picos da Europa, solidarizando-se com os apelos dos familiares e amigos. Fizeramno sem o mínimo enquadramento e com a visível intenção de “desejar” provar, quiçá, talvez a nossa supremacia! Com tal afã, ter-se-ão menosprezado algumas regras mínimas, nomeadamente o sentido de responsabilidade face à ingerência num outro Estado, o que terá motivado um clima de alguma tensão, bem visível nos estados de alma que opunham portugueses e espanhóis, quer num dos bares - nos lagos, quer no refúgio de Veja d’Ário, quando seria lógico que o contrário é que fosse normal. Tal ambiente ficou atenuado após a chegada da Equipa SOS-Estrela,

porque logo no estacionamento do jeep, bem identificado, a equipa foi recepcionada por um militar graduado, com quem se trocaram breves palavras de circunstância. As instruções já teriam chegado do Comando em Jaca, Huesca, na sequência do contacto que antecipadamente fora feito para assim colaborar nas operações, devidamente enquadrados e sob as orientações do comando que dirigia as buscas, a partir dos Lagos de Covadonga, quer a pé quer através da utilização dos helicópteros. As Federações, quando manifestam a vontade de prestar aos seus filiados a informação mais adequada para a prossecução dos objectivos dos associados, procuram disponibilizar as melhores ofertas para garantir uma maior e melhor segurança face aos riscos, estarão a cumprir as suas principais funções. Todavia, quando extravasam competências e manifestam vontades que induzem, com sinais demasiado evidentes, as Tutelas a procurar limitar o direito e a liberdade dos cidadãos, que apenas querem ser livres na vontade de procurar o que entendem ser melhor para si, no usufruto de aceder a todo o território nacional, estarão a cometer um erro gravíssimo, talvez inconstitucional, e pouco apelativo a novos aderentes.

A “ZIMBRO” deveria ter chegado aos leitores no final do mês de Junho e não aconteceu. Uma falha, no sistema informático, não corrigida em tempo útil, como seria desejável, esteve na origem do atraso. Pelo facto pedimos desculpa.


A Lã e a Neve: Natureza, sonho e desencanto. Ana Cristina Carvalho Engenheira do Ambiente. Mestre e Doutorada em Ecologia Humana. CICSNova - Centro Interdisciplinar em Ciências Sociais da Universidade Nova de Lisboa e Centro de Estudos Ferreira de Castro

“Se houve escritor que mostrou quanto a libertação intelectual é indissolúvel da libertação social e por esta se bate, se houve, em suma, escritor ‘humanista’, esse foi Ferreira de Castro” – escreveu Fernando Namora numa homenagem, pouco após a morte daquele1. De entre os muitos rótulos com que podemos catalogar a ideologia do autor de A Lã e a Neve, o cerne humanístico será dos mais basilares, dos mais fieis à essência de um homem que compensava a “inata morbidez de espírito”2 com um indomável desejo de mundo e da humanidade, que tantas vezes o impeliu a partir. Sabemos, por declarações e textos memorialísticos seus, que a imersão adolescente no ambiente pluriétnico do seringal amazónico lhe trouxe a primeira compreensão da universalidade da dor humana, ao ver no infortúnio de cearenses e maranhenses contornos que nada tinham de específico, reproduzindo sim uma condição humana sem fronteiras geográficas ou temporais. Este homem que amava o seu semelhante “(…) nos seus erros e nos seus acertos, (…) nas suas maravilhosas realizações e nos seus heroísmos sem história (…)”3, seguia uma conduta de vida e uma orientação literária atuantes, que repousavam ainda sobre outro pilar: a irredutível fé na competência da Humanidade para sanar as suas imperfeições, gerar a própria redenção e construir um futuro mais igualitário e pacífico. São estas grandezas de humanismo e esperança universal que surpreendemos em A Lã e a Neve ─ romance só por si bastante para dar razão a Agustina Bessa-Luís, que disse da obra castriana ser “como a dum filósofo pastoral: vive da resistência que faz às desgraças do seu tempo”4. Deixemos a excecional lição de História, simultaneamente poética e crua, da evolução do tear manual para a produção têxtil industrial ─ lição vertida no Pórtico da obra ─ para ouvirmos essa outra crónica, a da desventura de um pastor 1“Ferreira de Castro, o Homem, o Escritor” in NEVES, Adelino V. (Org.). 1976. In Memoriam de Ferreira de

Castro. Cascais, Ed. Arquivo Biobibliográfico dos Escritores e Homens de Letras de Portugal, p. 53-56. 2Palavras suas em “Memórias” (1931, in BRASIL, Jaime. 1931. Ferreira de Castro e a sua Obra. Porto, Livraria Civilização. 3Posfácio da edição especial de Terra Fria (1966). 4“Testemunho, in Neves, Adelino (org.), 1976, pp. 69-70.


dos ermos da Estrela que, após ter conhecido os horizontes urbanos da costa de Lisboa, persegue um sonho simples: ter uma casinha de família “airosa”, fonte de “alegria”, imperativamente limpa no interior e branca por fora. Todo o romance anda a toque de caixa desse sonho legítimo. Ilustração viva da transferência de mão-de-obra serrana dos campos para as cinturas industriais das cidades, o protagonista faz uma trajetória obsessiva, alienando o seu próprio presente, crendo no avanço tecnológico e no ofício de tecelão para alcançar o que a tradicional labuta pastoril lhe negava5. Essa aspiração individual de fuga ao negror dos casebres e da pobreza endémica, à tristeza de uma bem-aventurança eternamente subjugada à miséria ─ intangível até à última linha ─ alimenta-se de uma esperança vacilante mas persistente e parece transmutar-se, enfim, num sonho coletivo. Porém, neste “excelente romance” que Orlando Ribeiro propõe aos seus leitores em Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico6, não é só a denúncia da servidão humana que pontifica. Uma outra dimensão, vasta e omnipresente, entra no texto para acentuar a carga da desigualdade social do meio serrano: a força da Natureza7. Ferreira de Castro nasceu num vale (o de Ossela), despertou para o mundo numa floresta (a da Amazónia) e, a seu pedido8, foi sepultado numa serra (a de Sintra). Mantinha, na opinião do amigo Urbano Tavares Rodrigues, uma relação “quase mística” com a Natureza9. E de facto, ele enleia em quase todas as narrativas esse objeto de devoção que o acompanharia vida fora e lhe ditaria com frequência os locais de repouso e de escrita. Fernando Namora10 testemunha como, já numa idade avançada, Ferreira de Castro garantia não trocar “as errâncias por entre as frondes verdes por uma 5Vemos no romance o oposto daquilo que o economista alemão E. F. Schumacher , em Small is Beautiful ─

Um estudo de Economia em que as pessoas também contam. 1980 (1973), Lisboa, Publ. Dom Quixote - classificaria, quatro décadas mais tarde, como a tecnologia “de rosto humano”, igualmente benéfica para a economia, o ser humano e o ambiente. 6Ribeiro, Orlando. 1986 (1945). Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico. Lisboa, Livraria Sá da Costa Editora, 4.ª ed. rev. e ampl. (p.149). 7Entendendo-se aqui, de forma simplificada, a Natureza enquanto realidade física finita, exterior ao ser humano e à artificialidade dos meios urbanos, industriais e mecanizados. Ou, outra forma de o dizer, a “Ecosfera”, conjunto da atmosfera e da hidrosfera, da litosfera e da biosfera. Ou ainda, simplesmente, o conjunto dos seres e fenómenos vivos e não vivos, bem como as teias de relações que estabelecem entre si – isto é, o conjunto dos ecossistemas. 8Ferreira de Castro. 1970 (25 de Fevereiro). “Às Entidades de Lisboa e Sintra”, in NEVES (org.), 1976, pp. 213214. 9Entrevista de Maio de 2013, em Lisboa. 10Neves, Adelino (org.), 1976 (p.54).


página escrita”. Contudo, em A Lã e a Neve essa natureza vegetal limita-se à menção a poucas espécies de árvores e arbustos indígenas da região e às herbáceas do chamado cervunal11. Este habitat seminatural é a base da pastorícia12, atividade da economia de montanha onde a tradição une, num estreito vínculo, terra - planta - animal - e homem. Mas dois dos aspetos mais cruciais da Natureza são, no romance, o Clima e a ocupação do solo por florestas de produção, imposta pelo governo e móbil de uma linha de resistência popular local. Ambos assumem um papel orgânico na vida das personagens serranas, desequilibrando mais ainda a balança da (des) igualdade social daquele quartel do século XX 13. Tal como a floresta amazónica brasileira n’A Selva (1930), também o clima de montanha figura como uma verdadeira personagem. Como o é o Zêzere, como o são as manifestações da geologia local: rochedos, fragas, lapas. Recorde-se que é sobre “um dorso de uma rocha que emergia da terra” que os protagonistas Horácio e Idalina têm a primeira conversa (p. 15); e que o rio faz de fundo sonoro a muitas cenas, “correndo e cantando entre os penedais do seu leito” (p.21). Mas são os nevoeiros, são as chuvadas e os trovões que interagem com os zagais Horácio e Toino nas pastagens de altitude, ditando-lhes as falas, condicionando-lhes os movimentos; são a ventania e o nevão que, na sua inclemência, levam Horácio e Serafim ao limite das forças físicas e da sobrevivência, na travessia noturna de Manteigas para a Covilhã; é o clima, enfim, na sua imprevisibilidade, que determina a maior ou menor “fortuna” dos pequenos proprietários de terras, vedando-lhes os pastos sob a neve ou, pelo contrário, revigorando-os ao Sol da Primavera14. 11Habitat seminatural de montanha com um coberto vegetal herbáceo, principalmente de cervum, gramínea

que lhe dá o nome, e resultado de um grau de intervenção humana milenar. 12As actividades da tradicional economia de montanha, bem como o cervunal e outros habitats seminaturais estiveram, aliás, na base da criação do Parque Natural da Serra da Estrela, em 1976. 13À semelhança do que também neste século XXI vai acontecendo, um pouco por todo o mundo, com as consequências sociais das Alterações Climáticas, fenómeno global que prima por afetar sobretudo, embora não só, os mais desfavorecidos. 14Sol, tal como Mundo, os únicos substantivos que Ferreira de Castro grafa frequentemente com maiúscula.


Com a ironia das legiões de operários tiritando de frio nas madrugadas geladas, de caminho para as fábricas onde produziam, com as próprias mãos, agasalhos em lã que lhes eram interditos, Ferreira de Castro realça uma dupla vulnerabilidade da espécie humana: às tendências exploradoras dos mais fortes, por um lado, e também a um ambiente natural rigoroso e limitativo. Este impacto humano de uma pressão ambiental (que hoje não passaria indiferente aos ambientalistas) teve o seu paralelo na ocupação privada dos baldios ─ bem retratados no romance como áreas de usufruto comum destinadas a pastagens de Estio ─ e na Lei do Povoamento Florestal de 1938, que intensificou a arborização das encostas a um ritmo feroz, movida pelo autoritarismo insensível do Estado Novo15. A agrestia natural e a paisagem humanizada da Serra da Estrela foram saudadas literariamente por Aquilino, Torga, Oliveira Martins e muitos outros. Mas a Ferreira de Castro, mais do que a efabulação sobre uma Natureza bucólica e pacífica, interessou um “novo realismo” literário, tecendo uma narrativa atenta aos dramas sociais da época16. Aos públicos português e brasileiro e aos das suas vinte e duas traduções (incluindo uma em esperanto)17, A Lã e a Neve mostra uma outra natureza, uma outra terra ─ menos cantada, mais austera, pouco capaz de despertar o fascínio humano. Não o cenário de um sonho, de prosperidade e saúde, mas palco de extremos ─ trabalho, fadiga, sacrifício ─, elemento incontornável a agravar o desencanto do quotidiano. Ainda assim, nada que não encontre cura ou apaziguamento na velha filosofia de esperança com que Ferreira de Castro encheu a voz de muitas personagens e deu corpo à sua obra. [Texto lido no Encontro-tertúlia sobre o romance A Lã e a Neve, no Ecomuseu do Zêzere, Belmonte, a 18 de Outubro de 2014] 15A Lei do Povoamento florestal de 1938 submetia os baldios à arborização maciça das zonas serranas, essen-

cialmente com espécies resinosas, como o pinheiro-bravo, para a indústria de celulose. Entre 1936 e 1942, o arranque de árvores e os incêndios criminosos tiveram um enorme incremento (Torres, E. e Marinho, Luís. 2001d. O Século do Povo Português, Vol. IV, Alfragide, Ed. Ediclube). 16A que também Aquilino Ribeiro fora sensível, ao dedicar às movimentações camponesas da “questão dos baldios” o romance Quando os Lobos Uivam (1942). 17Entre 1936 e 1973, segundo levantamento de Bernard Emery (“Ferreira de Castro, Além-fronteiras”, in Vária Escrita n.º 3, 1996, Sintra, Câmara Municipal de Sintra, p.44).


O direito ao usufruto da paisagem celeste José Amoreira Quando pensamos em paisagem, pensamos normalmente nas formas, texturas e coberto vegetal da superfície terreste, eventualmente acrescentadas das nuvens e nebelinas. E consideramos a paisagem como um elemento da nossa identidade, individual e coletiva, e, também por isso, há o entendimento genérico de que é importante protegê-la ("genérico" é aqui a palavra chave; nos casos concretos, quem quer que defenda a paisagem contra uma dada intervenção acaba sempre a ser acusado de eco-fundamentalismo, como se sabe). O PNSE é um exemplo próximo de uma estrutura criada também para proteger a paisagem. Para além deste elemento mais óbvio, mais terreno, da paisagem, pretendo neste apontamento incluir um outro, mais celestial, o do céu noturno. O céu noturno numa noite limpa, num local afastado de fontes de luz intensas, forma um espetáculo de grande beleza, que irresistivelmente chama para si os olhos e as conversas dos que, casualmente ou não, são confrontados com ele. Como a paisagem terrena, esta paisagem celeste acaba também por se constituir como um elemento da nossa individualidade. Nessa medida, deveria igualmente ser protegida. Mas protegida de quê? O céu noturno está, é claro, a salvo das nossas intervenções, mas a sua visibilidade pode ser afetada. A iluminação pública nas zonas urbanas e suburbanas não se limita a dar claridade às nossas ruas, ela desperdiça (em grande medida por estar mal desenhada) muita potência luminosa nos

também por se constituir como um elemento da nossa individualidade. Nessa medida, deveria igualmente ser protegida. Mas protegida de quê? O céu noturno está, é claro, a salvo das nossas intervenções, mas a sua visibilidade pode ser afetada. A iluminação pública nas zonas urbanas e suburbanas não se limita a dar claridade às nossas ruas, ela deperdiça (em grande medida por estar mal desenhada) muita potência luminosa nos céus, que se reflete nas camadas intermédias da atmosfera. Este efeito torna o céu mais claro, escondendo numa espécie de luscofusco permanente as estrelas de menor luminosidade. A expansão das zonas urbanas e um certo exagero luminoso associado à publicidade e a alguma vontade de "dar nas vistas" ou de “parecer moderno” tornaram o céu num quase "deserto de estrelas". O resultado é que o céu noturno passou a ser para muitos quase uma paisagem exótica. Muitos jovens hoje em dia nunca viram a Via Láctea. Esta situação não é apenas uma agressão à


paisagem, que impede o usufruto do céu noturno, ela configura um esbanjamento de recursos preciosos. De acordo com o "Manual da Poluição Luminosa", editado pelo Conselho Português da Iluminação, cerca de 30% da potência consumida na iluminação é desperdiçada iluminando o céu. A International Dark-Sky Association (IDA) é uma associação fundada em 1988 dedicada a proteger o direito ao céu noturno. Os seus fundadores eram maioritariamente astrónomos, um grupo cuja atividade é claramente dificultada pela poluição luminosa. A IDA promove a utilização racional da iluminação junto das administrações e do público em geral, de modo a reduzir a luz desperdiçada. As propostas avançadas pela IDA incluem a utilização de candieiros de iluminação pública mais eficientes, que dirigem o fluxo luminoso para onde ele é útil (o solo), ou o atenuar do brilho dos painéis publicitários e da iluminação dos monumentos nas horas mais tardias da noite, em que, de qualquer modo, aqueles a quem essas fontes de luz se destinam repousam em casa. Ninguém sugere que as cidades deixem de ser

iluminação das Penhas da Saúde: é tanta a luz "despejada" no céu sobre este aldeamento onde não moram mais do que umas vinte pessoas, que frequentemente é visível da Covilhã o clarão cor de laranja resultante, apesar de as duas localidades não estarem em linha de vista uma da outra. E o ambiente noturno das Penhas da Saúde que dessa serra da Estrela parece-me ser o da iluminação das Penhas da Saúde: é tanta a luz "despejada" no céu sobre este aldeamento onde não moram mais do que umas vinte pessoas, que frequentemente é visível da Covilhã o clarão cor de laranja resultante, apesar de as duas localidades não estarem em

linha de vista uma da outra. E o ambiente noturno das Penhas da Saúde que dessa irracionalidade resulta é semelhante ao da segunda circular, em Lisboa. Convenhamos que é discutível, em termos da atratividade turística do aldeamento… Na Serra da Estrela há ainda algumas zonas


Para mais informações: Conselho Português da Iluminação: http:// www.cpi-luz.pt/ International Dark-Sky Association: http:// darksky.org/ Dark Sky Alqueva: http:// www.darkskyalqueva.com/ "Eficiência Energética na Iluminação Pública", Documento de Referência da RNAE: http:// www.adene.pt/sites/default/files/2eficienciaenergetica_iluminacao.pdf relativamente poupadas ao problema da poluição luminosa, nomeadamente a do alto Mondego, o triângulo formado por Manteigas, Folgosinho e Videmonte. Na minha opinião, essas zonas devem ser protegidas de poluição luminosa, até porque um céu noturno bem visível pode ser usado como cartaz turístico. Veja-se o exemplo do Dark Sky Alqueva, no Alentejo, que se pode gabar de ser a primeira reserva do mundo a obter a certificação Starlight Tourism Destination, atribuída pela Unesco e pela Organização Mundial do Turismo. Não poderemos nós, na serra da Estrela, almejar a algo semelhante?

Mapa interativo da poluição luminosa: http:// www.lightpollutionmap.info NR - As imagens foram obtidas na internet


Fragâncias e paladares da serra da Estrela (Plantas Aromáticas e Medicinais) Cláudia Dias A serra da Estrela é na minha modesta opinião um dos locais mais belos, único, esplendoroso e com maior diversidade florística, o que lhe confere um valor acrescido nas suas paisagens naturais. A serra da Estrela com os seus 1993 m de altitude e com mais de 900 plantas conhecidas, muitas delas raras e algumas endémicas em Portugal, contribuem para a existência de um vasto leque de PAM (plantas aromáticas e medicinais), autênticas dádivas da natureza. O uso das plantas aromáticas e medicinais é uma prática tão antiga quanto a própria humanidade, de facto a necessidade de aliviar o sofrimento dos seus semelhantes levou a que o homem primitivo desse início a um lento e progressivo processo de aprendizagem acerca das capacidades preventivas e

curativas dos vegetais e, permitiu que a ciência médica utilize actualmente algumas plantas em comprimidos, xaropes, entre outras, convertendo-as em medicina convencional. “Uma chávena de chá de camomila ao deitar, em vez de um comprimido?!”; quantos de nós, já o fez! A opção pelas plantas tem cada vez mais adeptos e são já muitas as pessoas que usam as plantas para enfrentar os problemas de saúde do dia-a-dia. Apesar, das enormes transformações causadas pelo homem, ainda é possível desfrutar da beleza destas terras, como a que encontramos pela serra, sendo sem dúvida uma delas a flora silvestre responsável por tamanho encanto e paisagem O presente artigo e os próximos dedicados às PAM da serra da Estrela, são o resultado de um estudo etnobotânico que teve


como objectivo principal recolher o “saber-fazer” tradicional ligado às PAM. Inventariaram-se as plantas potencialmente utilizáveis com caracter aromático, medicinal e/ou condimentar que ocorrem em estado espontâneo na área da serra da Estrela, o nome vernáculo e uso que se dá à planta mencionada, as partes utilizadas e, em alguns casos, as quantidades, a preparação e o modo de emprego. Assim, pretendo com as fragâncias e paladares da serra da Estrela, contribuir para despertar o interesse dos leitores da revista “zimbro”, no que respeita às PAM da serra da Estrela. Não é necessário ser-se um bom observador da natureza, para se dar pela presença do rosmaninho

e de forma abundante. E se alguém já parou para observar o rosmaninho, não vai de forma alguma esquecer ou confundi-lo com outra planta. É conhecido essencialmente pelo seu valor aromático e pela sua utilização nas fogueiras de S. João. O rosmaninho na Península Ibérica utilizavase para afastar tempestades e prevenir a queda de raios nas casas. O rosmaninho tem um grande interesse económico pelos óleos essenciais aromáticos utilizados em perfumaria e como planta ornamental. E quem não viu já, os campos todos perfumados e coloridos com o lilás do rosmaninho?! Apresento de seguida uma pequena ficha técnica do rosmaninho:


Nome científico: Lavandula stoechas subsp. Pedunculata Nome vulgar: Rosmaninho, rosmano, rosmaninho-maior

dores reumáticas e feridas. Como planta utiliza-se na culinária para aromatizar as carnes. É também uma planta melífera.

Família: Lamiaceae

Bibliografia

Identificação: Arbusto de folhas opostas, inteiras, pequenas verde-esbranquiçadas; as flores são de cor purpura ou violácea, agrupadas numa espiga com duas estruturas compridas semelhantes a pétalas, também roxas; o pedúnculo da espiga é menor do que duas vezes o comprimento desta. Cheiro aromático, intenso e de sabor amargo.

Dias, C. (1999). Valorização do Património Genético da Plantas Aromáticas e Medicinais do Parque Natural da Serra da Estrela. ESACB, Castelo Branco. Dias, C. (2008). Aromas e sabores do Concelho de Fig. de Castelo Rodrigo (PAM e/ou condimentares) “Das gentes e da Natureza”. Município de Fig. de Castelo Rodrigo. Silva, A., Meireles, C., Dias, C., Sales, F., Conde, J., Salgueiro, L., Batista, T. (2011). Plantas Aromáticas e Medicinais do Parque Natural da Serra da Estrela – guia etnobotânico. CISE – Município de Seia, Seia.

Ecologia: Frequente em clareiras de matagais, giestais, estevais, pastagens pobres. Partes da planta utilizadas: Folhas e flores. Período de colheita: Mai-Jun. Usos e virtudes medicinais: Propriedades digestivas, antiespasmódicas, antireumáticas, estimulantes e anti inflamatórias. Tradicionalmente, o rosmaninho está indicado para o tratamento de tosse, gripe, rouquidão,


Liliana Barosa e Paulo Marques LIFE Imperial | LPN – Liga para a Protecção da Natureza

A águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) é uma das aves de rapina mais ameaçadas da Europa e uma das mais raras do mundo. Mas não muito longe da Estrela, na Serra da Gardunha, já houve quem a visse. Foi apenas no final do século XX que as populações de águia-imperial existentes na Península Ibérica foram elevadas ao estatuto de espécie e “adotaram” o nome de Aquila adalberti. Até então, o consenso científico classificava-a como uma subespécie da águia-imperial (Aquila heliaca) que também incluía as populações orientais. Porém, diferenças genéticas, morfológicas e de plumagem entre as populações ibéricas e orientais, resultantes de um longo período de isolamento geográfico e adaptação a condições locais, contribuiriam para a sua elevação ao estatuto de espécie: a águia-imperial-ibérica está assim restrita como nidificante a Portugal e a Espanha, constituindo um endemismo da Península Ibérica. Apesar de não ocorrer como nidificante no Norte de África, é aí comum a ocorrência de indivíduos juvenis e imaturos em dispersão. A águiaem grande lo XX. fatores redução de um declínio população finais da da de ser observa-

imperial-ibérica seria uma espécie relativamente abundante parte da sua área de distribuição durante o início do sécuContudo, ao longo das últimas décadas, devido a relacionados com alteração do uso dos solos, presas e perseguição direta, a espécie sofreu acentuado até ao desaparecimento da reprodutora em Portugal entre década de 1970 e inícios da déca1980. No entanto, continuaram a dos indivíduos esporádicamente, principalmente


juvenis e imaturos, mas a nidificação só voltou a ser confirmada em 2003 na Beira Baixa, na região do Tejo Internacional. Desde então, a espécie tem vindo a colonizar lentamente o território nacional, apresentando ainda o estatuto de conservação de “Criticamente em Perigo”. Em 2015, dos mais de 400 casais existentes na Península Ibérica, 13 encontravam-se em Portugal, distribuídos pelas regiões da Beira Baixa, Alto Alentejo e Baixo Alentejo. O tamanho da sua população reprodutora é tão reduzido que existe o risco de extinção da espécie, por exemplo, pelo aparecimento de uma doença, por períodos consecutivos de baixa produtividade e por deterioração genética (devido à possível reprodução entre indivíduos da mesma “linha genética”, diminuindo a sua viabilidade a diversidade genética da espécie). Descrito o voo de uma história atribulada, é agora altura de apresentar convenientemente a personagem principal: a águia-imperial-ibérica. A primeira dica para identificar esta águia é que se trata de uma ave de rapina de grande porte que “ladra”: ao contrário das restantes águias, que “piam”, a sua vocalização é idêntica a latidos (“owkowk-owk”), algo semelhantes aos do corvo. Depois deste detalhe, a identificação complica-se um bocadinho porque a plumagem da águia-imperial atravessa 6 distintas fases de coloração até atingir a maturidade. Nos primeiros meses de vida, os juvenis apresentam uma coloração avermelhada, em tons de ferrugem. A plumagem v a i depois sofrendo desgaste e descolara- ção por ação do sol e da abrasão física, adquirindo um tom amarelado/dourado, semelhante à cor da palha, pelo que é utilizado o termo “palhiço” para descrever esta fase. Posteriormente começam a adquirir penas novas, castanhas escuras, que se destacam da matriz de cor amarela clara, pelo que as aves adquirem um aspeto axadrezado, sendo por isso utilizado o termo “xadrez”: quando apresentam menos de 50% de penas escuras, denomina-se “xadrez claro” e quando esta percentagem se inverte, passa a designar-se “xadrez escuro”. Os sub-adultos (ou “adultos imperfeitos”) caracterizam-se por apresentarem uma plumagem castanho-escura


praticamente negra, muito similar à dos adultos, embora ainda com alguns vestígios da plumagem anterior mas já com os ombros brancos bem visíveis. A plumagem definitiva de adulto é praticamente negra, com as penas da parte posterior da cabeça e nuca douradas, e um distintivo bordo branco, de dimensão muito variável, que delimita as asas a partir dos ombros e/ou zona escapular; a base da cauda é cinzenta clara com uma barra terminal larga de cor preta. “B.I.” DA ÁGUIA-IMPERIAL-IBÉRICA 72-83cm Comprimento 190-210cm Envergadura 2.900-3.400g Peso dos machos 3.500-4.400g Peso das fêmeas

O seu habitat preferencial é formado por montados e matagal mediterrânico intercalados com áreas abertas de cerealicultura extensiva e pastagens. A presença de alimento abundante, nomeadamente coelhobravo, é um requisito essencial para a presença da espécie, influenciando a sua distribuição, densidade e sucesso reprodutor: a águia-imperial apenas prospera e se reproduz bem em áreas com elevada densidade de presas sendo por isso um bom indicador de áreas ecologimente equilibradas e com uma boa gestão. Esta espécie captugrande parte do em busca de alida águia-imperial. outras espécies pequena/média teis. Capturam

ra a maioria das suas presas no solo, passando tempo em pontos de observação ou a planar mento. O coelho-bravo é a principal presa Fazem ainda parte da sua dieta muitas como a lebre, a perdiz-vermelha, aves de dimensão e, em menor escala, alguns réppreferencialmente os i ndivíduos mais


fracos, o que favorece a manutenção de populações de presas mais saudáveis. Pontualmente consomem outras aves de rapina de menor porte e pequenos mamíferos carnívoros, como saca-rabos e crias de raposas. Devido ao seu comportamento necrófago, os cadáveres são também uma importante fonte de alimento, incluindo esta espécie no grupo das que contribuem para a “limpeza” dos ecossistemas. As águias-imperiais utilizam extensas áreas de caça, em média de 4000ha, escolhidas em função da disponibilidade de alimento e da localização das principais áreas de caça. Sendo um predador de topo e fortemente territorial, a presença da espécie limita a abundância de predadores generalistas (outras aves de rapina de médio porte, corvídeos e também mamíferos carnívoros de pequeno porte). Uma vez reprodutora, a águia-imperial é uma águia sedentária e monogâmica, vivendo, em média, cerca de 16 anos. A formação de casais reprodutores pode acontecer a partir dos 3 anos de idade tendo, em casos muito excecionais, sido registada a nidificação de águias com apenas 2 anos. Após formarem um casal, o macho e a fêmea mantêm-se unidos, defendem o território conjuntamente e ambos os progenitores incubam e cuidam das crias. Os seus ninhos, entre um e cinco, são construídos em zonas tranquilas, em árvores de grande porte, maiorita ariamente em pinheiros, eucaliptos e sobreiros, podendo reutilizar o ninho em anos sucessivos ou ocupar ninhos alternativos. A época de acasalamento inicia-se em janeiro/fevereiro, com as vertiginosas e ruidosas paradas nupciais, e a construção ou ninho. As posturas ocorentre finais de fevereiro

melhoramento do rem geralmente


e meados de abril e varia entre 1 e 4 ovos. A incubação dura cerca de 42 dias após os quais as crias eclodem e permanecem no ninho entre 75 e 85 dias. fenómeno frequente em Portugal e decorre essencialmente de mortalidade não natural causada por estes fatores de ameaça. Para além do impacte direto na espécie devido à morte dos indivíduos reprodutores, a substituição daqueles por elementos imaturos poderá limitar a capacidade reprodutiva do casal. Sendo uma espécie extremamente sensível às perturbações e alterações provocadas pelo Homem, o aumento da sua população e a sua conservação é o imperativo do Projeto LIFE Imperial “Conservação da Águia-imperial-ibérica (Aquila adalberti) em Portugal”, coordenado pela Liga para a Protecção da Natureza (LPN) e executado em parceria com 7 entidades, nomeadamente: Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), Câmara Municipal de Castro Verde, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), Guarda Nacional Republicana (GNR), EDP Distribuição – Energia S.A., Sociedade Española de Ornitologia (SEO/Birdlife) e TRAGSATEC S.A.. O projeto inclui intervenções nas Zonas de Proteção Especial (ZPE) da Rede Natura 2000 de Castro Verde, Vale do Guadiana, Mourão/Moura/Barrancos e Tejo Internacional, Erges e Pônsul e decorre desde julho de 2014 até dezembro de 2018. O Projeto LIFE Imperial pretende criar condições para a manutenção e o aumento da população de águia-imperial através da aplicação de um conjunto de Ações de conservação. Estas Ações visam reduzir o impacte das ameaças sobre a espécie e melhorar as condições de sustentabilidade dos territórios para a manutenção dos casais existentes e para a fixação de novos casais, atuando a diversos níveis, nomeadamente gestão direta da espécie, do seu habitat de nidificação e alimentação, gestão e recuperação das principais espécies-presa, fiscalização e vigilância, formação e sensibilização das partes interessadas e também da população em geral.


LEGENDAS DAS IMAGENS: Casal imperiais_Jose Luis Barros: Casal de águias-imperiais-ibéricas, Aquila adalberti (foto de José Luís Barros) Coelho-bravo_Davina Falcao: O coelho-bravo, Oryctolagus cuniculus, é a principal presa da águia-imperial-ibérica mas a sua dieta é muita variada (ilustração de Davina Falcão) Destruicao Habitat_Davina Falcao: A destruição e fragmentação do habitat é uma das principais ameaças à conservação da espécie (ilustração de Davina Falcão) Equipa cinotecnica da GNR_Davina Falcao: A luta contra o uso ilegal de venenos através da vigilância e fiscalização com equipas cinotécnicas é um dos objetivos do LIFE Imperial (ilustração de Davina Falcão) Imperial adulto_DavinaFalcao: Águia-imperial-ibérica com plumagem de adulto (ilustração de Davina Falcão) Imperial xadrez claro_DavinaFalcao: Águia-imperial-ibérica com plumagem xadrez claro (ilustração de Davina Falcão) Imperial_Jose Pesquero: Águia-imperial-ibérica em voo (foto de Jose Pesquero) logo LIFE Imperial_sem fundo: Logotipo do Projeto LIFE Imperial Montado_Davina Falcao: O montado e o matagal mediterrânico são parte essencial no habitat da águia-imperial-ibérica (ilustração de Davina Falcão) Ninho imperial_Davina Falcao: Ninho de águia-imperial-ibérica (ilustração de Davina Falcão) Todas plumagens_Davina Falcao: A plumagem da águia-imperial-ibérica atravessa 6 distintas fases de coloração até atingir a maturidade (ilustração de Davina Falcão)

“RESERVAI NASCENTES, RIOS E OCEANOS: - ÁGUA NÃO SE FABRICA!”. AJCMusskoff


Iniciámos no número anterior a série de reportagens sobre as aldeias da serra da Estrela, num pretexto de nos envolvermos ainda mais nas suas dinâmicas, problemas, curiosidades e quiçá revelações, com o propósito de dar a conhecer ao público, pela voz dos que nelas vivem, sem dúvida aqueles que melhor sabem e sentem o que lhes vai na alma quando falam das suas terras. Começámos por ouvir os habitantes de Aldeia do Bispo, concelho da Guarda, e Valezim, concelho de Seia, povos que se localizam em vertentes completamente opostas da serra da Estrela e distantes entre si. Nesta edição não seguimos o mesmo critério. Famalicão da Serra, concelho da Guarda e Sarzedo, concelho da Covilhã, quase que se “olham”, tão curta é a distância que as separa e sendo fácil assomar-se a relevos de onde se avistam. Famalicão da Serra, no fundo mas a meio do vale com o seu nome, enquanto Sarzedo se posiciona a meia encosta, na vertente nascente da serra da Estrela, precisamente na primeira linha elevatória em relação às terras baixas da Cova da Beira, onde as águas bravias do rio Zêzere, rasgaram o seu leito e a ponte “Filipina” passou a ligar as duas margens, nas proximidades de Valhelhas. O casario está disposto de maneira a receber os primeiros raios do Sol nas suas fachadas principais, o que é uma característica comum das aldeias serranas para compensar o rigor dos invernos.


SARZEDO Em 2013, no âmbito da reforma administrativa a nível nacional, foi extinta a freguesia, tendo sido agregada a Teixoso que passou a designar -se "União das Freguesias de Teixoso e Sarzedo". Se os tempos não corriam de feição para as povoações isoladas, esta reorganização administrativa veio acentuar ainda mais essa realidade, sentimento que nos foi manifestado por muitos Sarzedenses, provavelmente no seu todo, não concordaram com a perda da Junta de Freguesia, pela importância na tomada de decisões na gestão do território e apoio à população que, por muita vontade que haja da nova reorganização administrativa, não é a mesma coisa. A aldeia de Sarzedo foi uma freguesia do concelho da Covilhã, de onde dista 15 quilómetros. As referências dão conta de ter sido um pequeno município, composto por uma única freguesia, extinto em 1836. Chegou a fazer parte do concelho de Valhelhas entre 1836 e 1855, ano em que esta povoação deixou de ser vila e sede do concelho.

[4] INE (Recenseamentos Gerais da População) - https://www.ine.pt/


Foto: José M Saraiva

Como se pode verificar no quadro da evolução da população, a aldeia de Sarzedo tinha em 1864, 555 habitantes, atingindo entre 1890 e 1920 o número máximo de pessoas, na casa dos 660. Presentemente, tendo como referência o censo de 2011, os seus habitantes não vão além de 130. Com uma área de 11,10 km2, domina um substancial território, interessante do ponto de vista da prática de uma agricultura de subsistência de montanha que lhe garantia total autonomia alimentar. As encostas estão revestidas de bosques de caducifólias, de onde se destaca o carvalho negral e o castanheiro.

Foto: José M Saraiva

Como pontos de interesse, pelos horizontes que possibilitam, destacam-se os pontos referenciados pelos três marcos geodésicos, acima dos 1.000m: Corujeira (1.184m), Rafeiro (1.009m) e Mato da Atalaia (1.048m). O facto de dominar os pontos geográficos referidos, faz com que partilhe limites com um número muito significativo de outras sete povoações: Teixoso, Orjais, Aldeia de Souto, Vale Formoso, Valhelhas, Vale de Amoreira e Verdelhos, de quatro concelhos distintos – Belmonte, Covilhã, Guarda e Manteigas. A Fonte dos Amieiros é um óptimo lugar para passar umas boas tardes nos dias quentes de Verão. A fonte de água fresca e abundante, agachada entre um bosquete de pseudotsugas e outras espécies que se esforçam por vencer perante as dominadoras falsas tsugas merecem uma visita.


A proximidade aos rios Zêzere e Beijames são, também, motivo suficiente para um bom passeio. Património

Vale de Amoreira vira para tomar a M501, atravessando o rio Zêzere, depois a localidade de Verdelhos e escassos 9 quilómetros separam esta aldeia da de Sarzedo.

Destacam-se no centro da aldeia de Sarzedo, o interior da Igreja Matriz, a Torre Sineira e o chafariz. Bem assim como as Capelas de Nª Srª. das Preces e do Espírito Santo. Onde comer Sarzedo não tem restaurantes, para comer, no Canhoso, Covilhã, Belmonte, Manteigas e Valhelhas existe uma diversidade interessante para degustar. Como chegar Indo da Covilhã, basta seguir a M501, no Alto de São Gião virar à direita e em dois minutos chega a Sarzedo. Para quem proceder do lado Norte, seguir pela N232, na povoação de

Foto: José M Saraiva

Sarzedo À procura da riqueza antiga “Deixei de cantar há muito tempo”, ameaçou Felismina Lourenço, fugindo ao desafio de recordar as modas da sua juventude, sobre trabalho ou amor. Um grupo de senhoras, que se juntou a ouvir as memórias dos seus 82 anos de vida, deu -lhe o ânimo necessário. Bastou uma delas lançar para o ar a primeira frase: “Sarzedo, lindo Sarzedo (...).


Todas incluindo Felismina Lourenço a seguiram, descrevendo a sua terra, numa melodia alegre e saltitante: “(...) Cercado de castanheiros Onde há rapazes formosos, mas são todos cavalheiros. Sarzedo que tudo crias Com tanta boa harmonia Tens tantas raparigas Cheias de graça e poesia.” A música encheu aquele canto de Sarzedo em que as senhoras idosas se reuniram, à sombra, perto de um canteiro de rosas vermelhas e rosadas. A produção de castanha e a agricultura eram fundamentais para a economia da aldeia, “mas sempre com muito trabalho”, explica Felismina Lourenço. Há cerca de 16 anos, continua, “vieram os fogos e derrubaram os castanheiros... Antes não havia tantos fogos, porque havia muito gado e o mato estava todo roído.” A castanha, mais do que ter um papel na alimentação, era uma fonte de rendimento i mp o r t a n t e . “Assadas, cozidas, em caldudo [um caldo feito com castanhas piladas (secas) e água quente] e vendiam-se. Fazia-se Felismina Lourenço muito dinheiro em Foto: Inês Cunha Direito castanhas. Agora está tudo aí às silvas e ao mato.” Felismina Lourenço lembra o passado, sem tirar os pés do presente. “Não era uma territa, assim, relezita. Havia cá ferreiro, sapateiros, costureiras, alfaiates...” Quando era nova, “havia muitas famílias, as casas eram pequeninas e, agora, as casas são grandes e já não vive cá ninguém”. Os mais novos procuraram outras terras, tão perto como a Covilhã, Teixoso ou Canhoso, ou tão longe como França.


Ana Sofia Rodrigues Foto: Inês Cunha Direito

Poucas crianças Hoje, há em Sarzedo apenas um casal jovem com uma filha, o único bebé da terra. “Vejo um dia como hoje, com a festa pelo Centro de Dia de Sarzedo, com espírito de comunhão e partilha... Pergunto-me por que é que os outros partem...”, questiona Ana Sofia Rodrigues, a doutoranda em Química, na Universidade da Beira Interior, que não quer deixar Sarzedo, a terra onde nasceu e foi criada. “Casei com um rapaz de cá e tive uma filha, agora com dois anos. No mesmo ano em que ela nasceu, até nasceram muitas crianças com pais com raízes no Sarzedo, mas nenhum está a viver cá. Só nós.” As restantes crianças da aldeia, ou melhor, adolescentes, são da sua família: “o meu sobrinho tem 14 anos e a minha afilhada com 16”. Ana Sofia Rodrigues é, aos 27 anos, ministra da comunhão e uma das responsáveis pela organização das duas festas religiosas da aldeia: Divino Espírito Santo e Nossa Senhora das Preces. “Dizem que a terra está a morrer. Para não me juntar ao grupo dos que só dizem, decidi começar a fazer alguma coisa”. A aldeia esvazia-se. “O Sarzedo precisa de população. É difícil fazer as coisas com pouca gente. Na última festa do Espírito Santo [no domingo de Pentecostes] faltaram pessoas para levar andores. A própria procissão era pequena. Os músicos até disseram que se calhar havia mais pessoas na banda do que na procissão”. Talvez fosse necessário “mudar mentalidades”, fazer com que se comece a perceber que “o Sarzedo não está assim tão longe da Covilhã”, reconhece Ana Sofia Rodrigues. “Em Lisboa demora-se muito mais tempo a chegar ao trabalho.


Quem vive na Covilhã ou no Tortosendo provavelmente tem cá casa deles ou dos pais”, conclui. “É só a questão de dormirem perto do trabalho, porque eu chego à Covilhã em 20 minutos”.

Uma ligação a Valhelhas Ter bons acessos é uma das preocupações da comunidade. Para sul o trajeto, da responsabilidade da Câmara da Covilhã, foi recuperado. Até Valhelhas, a Câmara Municipal da Guarda não faz melhoramentos, nem alcatroa os 4km de estrada, de terra batida, que ligam uma terra à outra. “Faz muita falta a estrada que liga o Sarzedo a Valhelhas”, assegura Maria Alice Prata. Nascida na aldeia e durante bastante tempo emigrada em França, percebe que não são apenas razões de mobilidade que estão em causa, mas também questões económicas: “Havia mais ligação entre quem vai até ao rio [Zêzere], ao parque fluvial. Ligava melhor o Teixoso e a Covilhã ao Sarzedo. Porque aqui não há trabalho, aqui só mesmo para turismo.” Obras em falta que se transformaram num “muro, num entrave”, assume José Rafael, antigo Presidente da Junta de Freguesia. Se “quero ir à Guarda posso fazer o caminho em 24km, mas tenho de fazer 50km dando a volta por Teixoso, Orjais, Belmonte...” Laurinda Fonseca, também nascida no Sarzedo, mas a viver no Tortosendo, utiliza novos argumentos: “Quem vem passear pelo Sarzedo sabe que tem de voltar atrás. Mas, se passar por aqui para ir a Valhelhas (onde há dois bons restaurantes) por uma estrada arranjada, pode parar para tomar um café, por exemplo, gira a economia. A Câmara da Guarda diz que não faz a estrada, porque não se justifica, o Sarzedo está em vias de desaparecer. É triste." Em busca de soluções O centro de dia, em que Laurinda Fonseca é voluntária, dá apoio à população idosa da aldeia. Um trabalho intenso, tendo em que conta o cenário traçado por esta técnica oficial de contas: “O Sarzedo tem cerca de 90 pessoas e 80% da população tem mais de 65 Laurinda Fonseca Foto: Inês Cunha Direito anos. É uma população


analfabeta e envelhecida”. Esta é a “única resposta social” da terra. “Perdemos a freguesia e passámos para a união das freguesias do Teixoso e Sarzedo, lembra Laurinda Fonseca. “Hoje a afinidade que temos ao Teixoso não é muita. Eles financeiramente também não têm dinheiro, é uma realidade.” É difícil arranjar respostas simples para os problemas da aldeia. “Precisávamos de ser freguesia novamente e de emprego para chamar gente jovem. Uma empresa ligada à castanha, porque ainda há castanheiros. Eu plantei castanheiros, outras pessoas já o fizeram. O Sarzedo precisa de ser reflorestado e de recuperar a sua riqueza”. Um passado rico que não é assim tão longínquo. Laurinda Fonseca tem 49 anos e fez no Sarzedo a escola primária. “Ainda éramos freguesia, tínhamos duas salas de aulas cheias. Agora olho com muita tristeza para a escola vazia”. Não está sozinha. Quando Felismina Lourenço era menina, chegou a haver “duas escolas em Sarzedo”. Agora “não há cá nada, nem escola temos, não há crianças”. Contudo, o mundo mudou. Se Sarzedo está diferente há razões que o explicam. A história da sua família é disso exemplo. Felismina Lourenço fez “a terceira classe, sempre a trabalhar no campo e em casa”. As duas irmãs “nem aprenderam a ler”. Sobre os dois netos conta outra história, sempre com um sorriso orgulhoso nos olhos. Ambos escolheram ser violoncelistas. “São professores de música”. Ele em Lisboa e ela nos Estados Unidos da América. “Nem podem estragar as mãos na agricultura. O professor disse logo, se o Nelson fizer alguma coisa é no café, para o campo não o levem”. Felismina Lourenço ouve as outras senhoras a trautearem mais uma cantiga da juventude, mas ela já não canta. Compara-a com as melodias que os netos tocam. “No meu tempo não havia dessas músicas aqui”.

Foto: José M Saraiva

“A sabedoria da natureza é tal que não produz nada de supérfluo ou inútil.” Niccolo Copernico



Foto: JosĂŠ M Saraiva


FAMALICÃO DA SERRA

Quem procede da Guarda pela N232-I pode olhar a serra da Estrela de um ângulo menos comum quando chega à Portela do Alto de Famalicão. Baixando a visão, dá-se de caras com a povoação logo ali. À medida que vamos elevando a vista surgem-nos três paisagens dominadas por igual número de vales: o de Famalicão, que se espraia no do Zêzere, em Valhelhas, e o do Beijames que começamos a ver onde o seu rio se desarranja nas águas do rio Zêzere, prolongandose por mais de duas dezenas de quilómetros até alcançarmos os Poios Brancos, onde começa a dar os primeiros passos. Limita o nosso olhar os horizontes da Abitureira, Curral do Vento e Poios Brancos. Mais acima e para a direita, os contornos dos Cântaros e as “bolas” dos antigos radares da Força Aérea põem fim ao limite máximo da altitude da serra da Estrela e do seu Planalto Superior. Bento da Rocha, na sua “Monografia de Famalicão”, defende que a origem

de Famalicão da Serra, que se completa com o pequeno aglomerado da Carapita, remota ao período da ocupação romana, baseando a sua Tese na existência de vestígios constituídos por marcos miliários, calçada e túmulos.

População da freguesia de Famalicão da Serra (https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_publicacoes)

1864

1878

1890

1900

1911

1920

1930

1940

1950

1960

1970

1981

1991

2001

2011

1 124

1247

1488

1631

1628

1649

1530

1861

1971

1591

1221

995

791

755

615


Coordenadas Geográficas Coordenadas

40° 26' 37" N 7° 22' 38" O

Concelho

Guarda Área

- Total

16,02 km² População (2011)

- Total

615

Orago

Nossa Senhora da Anunciação

Com efeito, a via romana que chega à serra da Estrela por Folgosinho e que pode ser percorrida ao longo da Calçada dos Galhardos, passava pelo Alto de Famalicão, em Barrelas, onde foram observados alguns vestígios da época romana e descia a encosta passando por esta povoação até Valhelhas (Vallécula).

Era uma via que integrava o itinerário Braga—Mérida. Terá feito parte do concelho de Valhelhas entre 1187 e 1855, por foral de D. Sancho I dado aos Templários, vindo a integrar-se do concelho da Guarda após esta data.

Foi na década de 1950 que o número de habitantes chegou a ser de 1971 e o mais baixo, de 615, no Censo de 2011. Existe, de facto, uma linha crescente de 1864 até 1950, excepto na década de 1930, e depois em decréscimo progressivo até à actualidade.


Famalicão da Serra possui uma área de 16,02 km2 e limita com as povoações de: Valhelhas, Vale de Amoreira, Fernão Joanes, Gonçalo e Seixo Amarelo.

Património

caminho entre Famalicão e Valhelhas, foi habitado por Frades Franciscanos. Apenas a parte da Igreja, a que se encontra conservada, pertence à Paróquia, encontrando-se o Convento em avançada degradação. Lagar: merece uma visita o Lagar de

A Igreja Matriz construída por volta de 1500, foi destruída por um incêndio em 1997. Um altar lateral, em talha dourada, foi o único valor do seu interior a ser salvo. Provavelmente, por dificuldades na obtenção de espaço, a Igreja está muito condicionada, não possuindo o tradicional adro tão comum nas aldeias da serra. Destacam-se ainda as Capelas de S. Marcos, de Santo Antão, e do Bom Jesus. O Convento do Bom Jesus, situado a meio

Varas Estevão Martins da Rocha, cujo acervo contempla o mecanismo do antigo lagar de azeite, pias, azenha e demais equipamento, estando a sua tutela a cargo da Associação Cultural e Social de Famalicão. Oito chafarizes: da Fonte da Lameira; da Praça, da Fonte Nova; da Carreira;


de São José; da Bica; da Quinta da Pêdra; e do Pombinho, testemunham a importância da vivência comunitária no aproveitamento e partilha da água. Miliário a Tácito: (A milha IV, depositada, juntamente com outras, no Museu da Guarda, foi descoberta em Barrelas. Refere-se a possível existência de um povoado fortificado Castellum de Barrelas, do tipo mutatio (significa lugar onde passar a noite durante uma viagem), pelo achado de duas inscrições romanas, uma delas dedicada à divindade local Aelua pelos Castellani B e r e c e n s e s .

do vale e facilmente chegará à povoação. O que visitar Se tiver possibilidade de utilizar uma viatura TT, vale a pena dar uma volta pela ribeira do Quécere (afluente do rio Mondego) de onde é possível admirar extraordinárias paisagens para vários ângulos da serra da Estrela. Também a encosta Nascente e toda a cumeada dos Mosqueiros merece uma visita, acessível a todo o tipo de viaturas ligeiras. O acesso é feito a partir do cruzamento de Gonçalo, na N232-I, direcção da Guarda.

(http://www.viasromanas.pt/ #viseufamalicao)

Onde comer Não há restaurantes em Famalicão, mas bastará descer o vale e terá ao dispor restauração de referência, em Valhelhas. Como chegar Chegado a Valhelhas pela N232, tem duas opções, ou segue pela N232-I (a melhor solução) ou percorre o fundo

Perder tempo em aprender coisas que não interessam, priva-nos de descobrir coisas interessantes. Carlos Drummond de Andrade


Famalicão Entre a cultura e a burocracia No largo principal de Famalicão da Serra quatro meninos jogam à bola e andam de bicicleta. Provocadores, dominam a rua e nem parecem ligar aos carros, afastando-se apenas no momento em que os veículos, em passo de caracol, estão m e s m o próximos deles. Ali perto, C a r o l i n a Ferreira, de 79 anos, lembra as suas brincadeiras de infância. “Jogava à bola, à macaca e à Foto: Inês Cunha Direito bilharda. Para esse jogo usávamos um pau com dois bicos, punha-se o pau no chão, batia-se num bico e a bilharda saltava, batia-se de novo e voltava a saltar. Havia outro jogo em que saltávamos por cima uns dos outros”. Na quaresma a falta de bailes puxava pela imaginação, “jogávamos ao pelo e à corda”. Os miúdos que brincam na rua vão à escola em Famalicão. Quando José de Almeida Teixeira era menino não lhe calhou essa sorte. “No dia em que era para me mandarem para a escola, mandaram-me prender as cabras no chão e disseram-me: É para te irmos matricular. Ainda hoje estou à espera”. Fala sempre com um riso na voz, mas sente-se alguma amargura quando


diz: “Era o homem mais feliz do mundo se aprendesse a ler”. Felizmente, acrescenta, “os mais novos já todos sabem ler e escrever. É uma diferença como do dia para a noite”. Havia trabalho. Agora, pouco emprego Muito mudou. O passado e o presente “são coisas muito diferentes”, lembram os 90 anos de Emídio Martins. “Antes trabalhava-se desde as 8h até às 8h da noite. Eu trabalhei nos aquedutos, lá na serra, a fazer as barragens, de Unhais e na Garganta de Loriga, no Covão do Meio. Dormíamos num barracão. Vínhamos no sábado a casa e levávamos comida para toda a semana”. Em Famalicão, recorda José de Almeida Teixeira, “o que mais havia era agricultura, muitos alfaiates e sapateiros. Os aprendizes estavam dois e três anos a trabalhar de borla para conhecerem a arte. Tinham jericos para levarem estrume para os

Foto: José M Saraiva

Da esquerda para a direita: José de Almeida Teixeira - 82 anos, Fernando Marques 80,Emídio Antunes - 90, Emídio Martins - 89 e José silvestre - 67.


prédios dos donos. Aprendiam a ser sapateiros, mas faziam o trabalho de agricultura para os patrões. Pagavam o estágio com o lombo”. As quintas estavam “cheias de gente, lagares de azeite havia cá três, cesteiros, cadeireiros...”, acrescenta. E agora? “Ninguém vive nas quintas. Foram-se embora. Para Lisboa, para França. Foram tratar da vida”, responde Fernando Marques, 80 anos. Samuel Silva, confirma o cenário. “Já se cá viveu melhor. Há 20 anos Famalicão tinha mais de 1200 habitantes, agora tem uns 600 ou 800 habitantes. Havia cá muita juventude. Isto parecia uma vila. Começou a faltar trabalho e as pessoas tiveram de ir embora, para a Guarda, para a Covilhã, outros emigraram. Havia a construção civil, a agricultura”. O bombeiro de 44 anos aponta muitas razões para o esvaziar da terra. A falta de emprego está em primeiro lugar. “É o que dizem os velhotes, aqui havia comércio, oficinas, havia duas serrações, uma loja onde se vendia desde um parafuso a tudo o resto. Temos uma escola primária, mas está previsto fechar porque não há crianças suficientes”. Ao que se somam outros fatores, em particular o impedimento de alargamento da área de construção.


Impossível construir

Foto: José M Saraiva

“Famalicão está parado. Metade das casas estão fechadas. Nem abrem nas férias. Vem um familiar e acolhe-o na casa dele, nem no verão abrem”, constata Samuel Silva. O Presidente da Junta de Freguesia de Famalicão, Honorato Esteves, 53 anos, explica: “Quando se fez o Plano Diretor Municipal o alargamento da área urbana foi fortemente condicionado pelo Parque Natural da Serra da Estrela (PNSE). Na altura [no final dos anos 80 do séc. XX] foi cerceada a possibilidade de, fora do núcleo urbano, se construírem novas habitações”. Procurava-se consolidar o centro das aldeias e vilas de modo a recuperar os edifícios existentes. “Só que nem sempre houve uma política de facilitar a reconstrução, há mil e um obstáculos arquitetónicos, burocráticos... Houve uma debandada. Era sempre mais fácil comprar uma casa já feita em Belmonte, Guarda ou Covilhã, do que reconstruir um edifício que nem dava direito às condições mínimas, porque estas casas são muito pequenas”, assume Honorato Esteves. As negociações com o parque natural “avançam e recuam”. Afinal, diz o responsável, “o PNSE é uma entidade distante das populações e localidades que serve. Já esteve muito mais próxima”. O problema


são “as políticas centrais”, afirma. “Quem tem de manter as áreas protegidas e manter o habitat são as pessoas, que também devem ser valorizadas. Gostamos muito da nossa terra, não há quem mais goste dela do que nós”. O ideal seria haver “uma maior flexibilização nas finanças, taxas, registos e, à são “as políticas centrais”, afirma. “Quem tem de manter as áreas protegidas e manter o habitat são as pessoas, que também devem ser valorizadas. Gostamos muito da nossa terra, não há quem mais goste dela do que nós”. O ideal seria haver “uma maior flexibilização nas finanças, taxas, registos e, à semelhança do que se faz noutros países europeus, o incentivo das populações para usarem materiais e soluções arquitetónicas tradicionais”. No fundo, desburocratizar e apostar no património local. Potencial cultural A valorização dos recursos tradicionais, da cultura e do património, tem aliás sido uma constante na vida da aldeia. O que se vê na atividade do Centro Cultural de Famalicão (onde nasceu a fanfarra NemFáNemFum e o grupo de concertinas Os (Folgaitos), da Banda Filarmónica e nas várias festas que decorrem ao longo do ano: O carnaval em Fevereiro, com o enterro do entrudo; as festas de Santo Antão na Páscoa; a festa dedicada ao Senhor do Bom Jesus em Setembro e o queimar do madeiro no Natal. Uma dinâmica que não acaba por aqui. No ano passado nasceu o grupo Cantarinhas, que recolhe e apresenta músicas tradicionais. “Basicamente vamos buscar as músicas antigas”, explica Eunice Esteves.


“Diz a minha mãe que, se estiver a cantar um dia inteiro, não acaba as modas. A minha avó era a animadora aqui da aldeia. Tocava adufe e as pessoas dançavam e cantavam. Eram assim os bailes de São João”, lembra.

Da esquerda para a direita: Carolina Ferreira - 79 anos, Eunice Esteves, Helena Castro, Piedade Santos. Foto: Inês Cunha Direito

“Faz-nos bem estarmos juntas”, diz Piedade Santos. “Saímos alegres. Alivia a cabeça”, acrescenta com um sorriso grande no rosto. Isabel Castro, a mais nova das Cantarinhas, soma a estes argumentos um outro: “a terra precisa de união”. E acrescenta que seria importante para o futuro de Famalicão “se houvesse ainda mais iniciativa e se as pessoas novas participassem em mais coisas”. Talvez os meninos que jogam futebol pelas ruas da aldeia se juntem a Isabel. Neste número os trabalhos sobre as aldeias da serra da Estrela estiveram a cargo da Inês Cunha Direito, que conversou com as populações e traduziu para as páginas da Zimbro os agradáveis diálogos que, empaticamente, soube “provocar”, e do José Maria Saraiva que tratou das pesquizas e dos contactos com as populações de Sarzedo e Famalicão da Serra.


LINHA DA BEIRA-BAIXA A linha da Beira-Baixa, originalmente denominada Caminho de Ferro da Beira-Baixa, liga as Estações do Entroncamento e da Guarda. Foi inaugurada no dia 11 de Maio de 1893, apenas no troço Abrantes e a Guarda. A aposta no sistema de transporte rodoviário com as consequências resultantes para o ambiente, para não se referirem os económicos, cou na ferrovia nacional um retrocesso tal que irá exigir anos e custos presentemente, não tem capacidade para realizar. “Desde 9 de março de 2009 que o comboio não circula entre a Covilhã da naquele que é o único eletrificar na Linha da Beira data, a via encerrou para requalificação do trajeto, mento de 85 milhões de outubro do mesmo ano o interrompido.”

d a í provoque o país,

e a Guartroço por Baixa. Nessa obras de num investieuros, mas em processo foi

O abandono da “Linha” originou a descrença das pessoas e as promessas para o início das obras de reabilitação do troço Covilhã-Guarda manifestam-se de muitas maneiras para quem "O encerramento da linha foi uma sentença de morte e já andamos a ouvir essa conversa há muito tempo", diz Maria Virgínia, que viveu os seus 78 anos ao lado da gare de Belmonte. "O meu filho tinha aqui um café, e havia uma tasca e uma mercearia. Fechou tudo, porque sem comboio as pessoas deixaram de passar por aqui". António Rodrigues, vereador da Câmara de Belmonte, diz que "o encerramento da linha afetou o pequeno comércio", mas está confiante na sua reativação, sobretudo, "por ser uma ligaç ã o fundamental, que servirá não apenas a Beira Baixa, mas toda a região Centro, uma vez que é a única alternativa à Linha da Beira Alta na ligação à Europa". Uma realidade, que sempre existiu mas que ultimamente terá feito despertar o alarme, foi a série de acidentes na Linha da Beira-Alta e que deixou sem alternativa a circulação dos comboios internacionais com destino para a capital e mesmo para Norte, via Entroncamento.


Tenham ou não, as condicionantes da Beira-Alta, tido influência, nas decisões, o certo é que a Infraestruturas de Portugal, no seu Plano de Investimento em Infraestruturas Ferrovia 2020, anunciou para Setembro do corrente ano, o início dos trabalhos de requalificação do troço da Linha da Beira-Baixa, os últimos 46,106 km. As obras da 2ª fase de Modernização, prevista para o referido troço, irão ter um custo total de 691 M€ e a sua conclusão prevista para 2018. De acordo com o anunciado pela Infraestruturas de Portugal, o projeto visa melhorar a ligação ferroviária do norte e centro de Portugal com a Europa, de modo a viabilizar um transporte ferroviário de mercadorias eficiente, permitindo a articulação entre os portos do norte/centro e a fronteira de Vilar Formoso. • Promover a interoperabilidade ferroviária com a rede Espanhola e Europeia. • Aumentar a capacidade para os comboios de mercadoria, permitindo a circulação de comboios de mercadorias de comprimento até 750m • Construir as concordâncias na Guarda e Pampilhosa • Eliminar restrições de velocidade e recuperação dos tempos de trajeto dos serviços de passageiros de longo curso • Permitir comboios elétricos na totalidade da Linha da Beira Baixa, com a eletrificação do troço Covilhã – Guarda • Melhorar condições de segurança com a eliminação de passagens de nível e a instalação de sinalização eletrónica • Reduzir os custos de operação da IP da ordem dos 500 mil € / ano • A intervenção permitirá um aumento de capacidade diária dos atuais 14 comboios de 500m para 20 de 750m, o que corresponde a um acréscimo de capacidade de mais do dobro da atual.

 Melhorar a eficiência e o conforto das condições de exploração com adequados padrões de segurança e de fiabilidade;

 Reduzir as emissões de CO2 e o nível de ruído com a utilização de material elétrico;  Reduzir o número de acidentes em passagens de nível.



Foto: JosĂŠ M Saraiva



Nuno Verdasca

O Glifosato começou a ser utilizado como herbicida em 1970 quando a empresa norte-americana Monsato criou o herbicida Roundup, prometendo revolucionar a agricultura. Posteriormente, várias outras empresas criaram herbicidas tendo como princípio ativo o glifosato, que se tornou assim no herbicida mais vendido e de utilização mais generalizada a nível mundial, sendo em Portugal também o mais utilizado. Quimicamente, o glifosato é um aminofosfonato análogo à glicina, que é um aminoácido natural, derivando o seu nome da junção da palavra glicina e fosfato. Este químico inibe a enzima (EPSPS) responsável pela síntese de três aminoácidos aromáticos essenciais ao crescimento da planta, impedindo assim o seu crescimento. Quando aplicado nas plantas em crescimento é absorvido pela folhagem e transportado para as raízes onde bloqueia a enzima EPSPS, impedindo assim o crescimento da planta.

Esta começa a murchar acabando por morrer no espaço de 7 a 10 dias. Como a atuação do glisfosfato não é seletiva afeta qualquer planta com que contacte, o que levou a que tivesse muita aplicabilidade, desde o uso doméstico, jardinagem, espaços urbanos, campos de golf, agricultura, entre outros. Nos espaços urbanos podemos dar como exemplo a sua utilização para controlo e eliminação total de ervas em locais onde o seu aparecimento não era desejável (ruas, edifícios, etc.). Na agricultura é muito utilizado para uma limpeza generalizada de um terreno como preparação para a introdução de nova cultura. Com o aparecimento dos organismos geneticamente modificados (OGM) e a criação de culturas agrícolas resistentes ao glifosato a sua utilização, a nível mundial, aumentou ainda mais porque permite a sua aplicação com a planta já desenvolvida. As culturas são abundantemente pulverizadas e o glifosato só afetará as plantas que não contêm o ge-


ne que lhes confere a resistência. Para além da problemática das patentes das sementes, e do controlo que as empresas obtêm relativamente ao fornecimento de bens alimentares, há a exposição da planta adulta e mesmo o possível contacto do fruto com glifosato. A existência exclusiva desta enzima nas plantas contribui para a afirmação de que a utilização de gilosfato não afeta o ser humano e que a sua aplicabilidade é totalmente inócua, sem qualquer perigo de toxicidade, para o homem e para os restantes animais. Os fabricantes argumentam também que outras características do glifosato contribuem para a sua segurança no que toca à saúde humana, como por exemplo: A baixa volatilidade que contribui para que ele não seja transportado pelo ar para fora da

zona de aplicabilidade, não afetando assim outras culturas fora da zona de aplicação. Retenção pelo solo do glisfosfato evitando que o mesmo esteja disponível para poder afetar outras culturas adjacentes à zona de utilização, esta forte ligação com o solo evita também o seu movimento ao longo do terreno. Degradação microbiana do glifosato por micro-organismos, a degradação completa demora em média 1 mês, variando com o tipo de solo, condições ambientais e conteúdo microbiológico do solo. Esta degradação evitaria a passagem do glifosato para os lençóis freáticos. A não ocorrência de Bioacumulação evita a amplificação da sua concentração ao longo da cadeia alimentar. Os fabricantes indicam que ocorre uma retenção mínima pelos tecidos do glifosato e que quando ocorre este é rapidamente eliminado. Referem também que o efeito do glifosato nos micro-organismos existentes no solo foi amplamente avaliado e que apesar de alguns deles, nomeadamente algumas bactérias e fungos, serem sensíveis ao glifosato as consequências são desprezíveis e muitas delas reversíveis.


Concluindo que não afeta a biomassa nem a respiração microbiana. Perante todas estas características e afirmações podemos pensar que estamos perante um produto ideal e que contribui para um mundo melhor. Mas os herbicidas baseados no glifosato têm outros componentes na sua formulação, a percentagem de glifosato varia entre o 1% e os 41%. Estes herbicidas consistem numa mistura aquosa de sal isopropilamina de glifosato, um agente surfactante, um agente antiespuma, corantes, entre outros. Os mecanismos de toxicidade dos formulados de glifosato são complexos. Não só os vários herbicidas, baseados no glifosato, usam diferentes sais mas também as formulações contêm diferentes surfactantes, que variam em concentração e natureza. Como resultado, o envenenamento humano por parte deste não é através do princípio ativo isolado mas sim pelo complexo e diferentes misturas. É por isso difícil separar a toxicidade do

do glifosato da formulação do composto como um todo ou determinar a contribuição do surfactante para a toxicidade total. Em março de 2015, a agência IARC (Internacional Agency for Research on cancer) que é a agência especializada no cancro da OMS (Organização Mundial de Saúde), na sua monografia 112 datada de 20 de março de 2015 considerou como provável carcinogénico (Grupo 2A) o glifosato. Esta classificação significa que existe uma evidencia limitada de carcinogénese em humanos para o desenvolvimento de linfoma não hodgkin. Estes dados em humanos foram obtidos em estudos sobre a exposição, maioritariamente agrícola, nos Estados Unidos, Canadá e Suécia publicados desde 2001. Acresce o facto de existir também


a evidência de que o glifosato pode causar cancro em animais de laboratório. Estas suspeitas/evidências sobre o glifosato são já antigas tendo a US EPA (United States Environmental Protection Agency), em 1985, considerado como possível carcinogénico para humanos (Grupo C), esta classificação foi alterada para evidência de nãocarcinogénico para humanos (Grupo E) em 1991. Em 2015 o Grupo de Trabalho da IARC que efetuou a avaliação do glifosato juntou ao estudo da US EPA estudos mais recentes que levaram à conclusão que existem suficientes evidências de carcinogénese em animais de laboratório. O glifosato pode também causar alterações no DNA e nos cromossomas nas células humanas, contudo estes resultados não foram observados em bactérias. Num estudo realizado em residentes de uma comunidade, após a aplicação de herbicidas baseados no glifosato, foi observado um aumento dos marcadores de danos cromossomais. Outros estudos indicam que o glifosato foi detectado no ar durante a pulverização, na água e na comida. A população está, por isso, exposta principalmente pela pulverização realizada nas zonas residenciais,

pelo uso doméstico e na dieta. Apesar os valores poderem ser baixos não é também bem conhecido o limiar de toxicidade do glifosato. Não existem, em Portugal, estudos oficiais sobre a presença de glifosato nos alimentos, solo, água ou nas pessoas. O valor médio de glifosato na urina dos portugueses estudados foi de 26.2 ng/ml (nanogramas por mililitros). O indivíduo com a maior concentração de glifosato detetada é um jardineiro que lida profissionalmente com o produto químico, o segundo individuo não é jardineiro, não lidando com o químico, revelando que qualquer pessoa é alvo da exposição ao glifosato. Em estudos realizados noutros países os níveis de excreção de glifosato na urina foram inferiores (38% num estudo suíço em 2015 e 44% num estudo realizado em alguns países europeus). O estudo Urinale 2015, que abrangeu mais de 2000 alemães, encontrou uma média de apenas 1.1 ng/ml: cerca de 20 vezes abaixo dos resultados portugueses. Além disso, o valor mais alto detetado na Alemanha foi de 4.2 ng/ml, enquanto os valores portugueses variaram entre 12.5 e 32.5 ng/ml. Ou seja, o português menos contaminado tem três vezes mais glifosato


que o pior caso alemão. Outros estudos publicados apresentam valores médios próximos dos alemães. Todos estes estudos, apesar de poderem ter utilizados metodologias e abordagens diferentes, o que pode também explicar alguma discrepância de resultados, demostram que algo não está bem e que poderemos estar perante um problema de saúde que tem estado adormecido, ou mesmo camuflado. Para contrariar estas conclusões da IARC existem diversos estudos que anunciam o contrário, ou seja que não existe qualquer evidência de que o glicogénio apresenta risco de ser carcinogénico, contudo tem que se ter atenção em analisar como foram obtidas estas conclusões. Nas conclusões obtidas pela EFSA (European Food Safety Authority) não foi tido em conta a evidência de três tumores renais observados em três ratos estudados, hemangiossarcoma em dois ratos estudados e linfomas malignos em outros dois ratos. A EFSA descartou incorretamente evidências de ocorrência de casos de cancro induzidas pelo glifosato em animais. Foram também ignorados mecanismos evidentes, em laboratório e em humanos, de genotoxicidade. A EFSA confirmou que o

glifosato induz stress oxidativo mas descartou outras evidências de possível actividade carcinogénica concluindo assim que a indução de stress oxidativo isoladamente não é suficiente para se atribuir o rótulo de carcinogénico. Tem que se ter por isso muito cuidado a analisar as conclusões dos vários estudos existentes. A classificação por parte da IARC relativa ao glifosato assenta em conclusões baseadas em evidências científicas publicadas em revistas internacionais, mas não tem nenhum caracter vinculativo. A responsabilidade de alterar a legislação, de regular ou mesmo intervir a nível da saúde pública é da responsabilidade individual de cada governo/estado ou de outras organizações internacionais. Todos sabemos que a indústria química mexe com milhões de euros e que possui um lóbi fortíssimo que pode levar a uma inoperância dos governos e das instituições internacionais. Estes lóbis só poderão ser combatidos através de uma sociedade civil mais informada e interventiva, exigindo a realização de estudos fidedignos que permitam avaliar os níveis de glifosato e aumentar as evidências científicas sobre os seus efeitos na população humana.


poderão ser combatidos através de uma sociedade civil mais informada e interventiva, exigindo a realização de estudos fidedignos que permitam avali-

ar os níveis de glifosato e aumentar as evidências científicas sobre os seus efeitos na população humana.

CAMPAIGNING FOR HEALTH, JUSTICE, SUSTAINABILITY, PEACE, AND DEMOCRACY A Associação dos Consumidores Orgânicos, tem vindo a desenvolver uma intensa actividade juntos dos meios de difusão com o objectivo de mobilizar a opinião pública mundial, contra as políticas da MONSANTO, na produção e aplicação, dos seus produtos químicos em muitas das actividades agro-alimentares, em todo o mundo. De acordo com a informação que divulgou, as 25 doenças que se indicam estarão associadas ao uso do Roundup/glifosato. 1) TDHA: nas comunidades agrícolas, existe uma forte relação entre a exposição ao Roundup e o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, provavelmente devido à capacidade do glifosato de afetar as funções hormonais da tireoide. 2) Alzheimer: no laboratório, o Roundup causa o mesmo estresse oxidativo e morte de células neurais observados no Alzheimer. Isso afeta a CaMKII, uma proteína cuja desregulação também foi associada à doença. 3) Anencefalia (defeito de nascimento): uma pesquisa sobre os defeitos no tubo neural de bebês cujas mães viviam em um raio de mil metros de distância de onde se aplicava o pesticida mostrou uma associação entre o glifosato e a anencefalia; a ausência de uma grande porção do cérebro, do crânio e do pericrânio formado durante o desenvolvimento do embrião. 4) Autismo: o glifosato tem um número de efeitos biológicos alinhados a conhecidas patologias associadas ao autismo. Um desses paralelismos é a disbiose observada em crianças autistas e a toxicidade do glifosato para bactérias benéficas que combatem bactérias patológicas, assim como a alta resistência de bactérias patógenas ao glifosato. Além disso, a capacidade do glifosato defacilitar a acumulação de alumínio no cérebro poderia fazer deste a principal


causa de autismo nos EUA. 5) Defeitos de nascença: o Roundup e o glifosato podem alterar a vitamina A (ácido retinoico), uma via de comunicação celular crucial para o desenvolvimento normal do feto. Os bebês cujas mães viviam em um rádio de 1 km em relação a campos com glifosato tiveram mais que o dobro de possibilidade de ter defeitos de nascença segundo um estudo paraguaio. Os defeitos congênitos se quadruplicaram na década seguinte a que os cultivos com Roundup chegaram ao Chaco, uma província da Argentina na qual o glifosato é utilizado entre 8 e 10 vezes mais por acre do que nos EUA. Um estudo em uma família agricultora nos EUA documentou elevados níveis de glifosato e defeitos de nascença em crianças, tais como ânus não perfurados, deficiências no crescimento hormonal, hipospádias (relacionada à normalidade da abertura urinária), defeitos no coração e micropênis. 6) Câncer cerebral: em um estudo comparativo entre crianças sadias e crianças com câncer cerebral, os pesquisadores detectaram que, se um dos pais estivera exposto ao Roundup dois anos antes do nascimento da criança, as possibilidades de ela desenvolver câncer no cérebro dobravam. 7) Câncer de mama: o glifosato induz o crescimento de células cancerígenas no peito por meio de receptores estrógenos. O único estudo em animais a longo prazo de exposição ao glifosato produziu ratas com tumores mamários e reduziu a expectativa de vida. 8) Câncer: pesquisas de porta em porta com 65 mil pessoas em comunidades agrárias da Argentina nas quais o Roundup foi utilizado – conhecidas como cidades fumigadas – mostraram médias de câncer entre duas e quatro vezes maiores do que a média nacional, com altos índices de câncer de mama, próstata e pulmão. Em uma comparação entre dois povos, naquele em que o Roundup fora aplicado, 31% dos moradores tinham algum familiar com câncer, ao passo que só 3% o tinham em um povoado sem Roundup. As médias mais elevadas de câncer entre as pessoas expostas ao Roundup provavelmente surgem da reconhecida capacidade do glifosato de induzir danos ao DNA, algo que foi demonstrado em inúmeras pesquisas de laboratório. 9) Intolerância ao glúten e doença celíaca: peixes expostos ao glifosato desenvolveram pro


problemas digestivos que são reminiscentes da doença celíaca. Existem relações entre as características da doença celíaca e os conhecidos efeitos do glifosato. Isso inclui desajustes nas bactérias das tripas, deslocamento de enzimas implicadas na eliminação de toxinas, deficiências minerais e redução dos aminoácidos. 10) Doença crônica nos rins: os aumentos no uso do glifosato poderiam explicar as recentes ocorrências de falências renais entre os agricultores da América Central, do Sri Lanka e da Índia. Os cientistas concluíram que, “embora o glifosato por si só não provoque uma epidemia de doença renal crônica, parece que ele adquiriu a capacidade de destruir os tecidos renais de milhares de agricultores quando forma complexos com água calcária e metais nefrotóxicos”. 11) Colite: a toxidade do glifosato sobre bactérias benéficas que eliminam a clostridia, assim como a alta resistência da clostridia ao glifosato, poderia ser um fator significativo na predisposição ao sobrecrescimento da clostridia. O sobrecrescimento da clostridia, especialmente da colite pseudomembranosa, foi comprovado como causa da colite. 12) Depressão: o glifosato altera os processos químicos que influem na produção da serotonina, um importante neurotransmissor que regula o ânimo, o apetite e o sono. O desajuste da serotonina é vinculado à depressão. 13) Diabetes: Os níveis baixos de testosterona são um fator de risco para o tipo 2 de diabetes. Ratos alimentadas com doses significativas de Roundup em um período de 30 dias, abrangendo o começo da puberdade, tiveram uma redução na produção de testosterona suficiente para alterar a morfologia das células testiculares e o início da puberdade. 14) Doença cardíaca: o glifosato pode alterar as enzimas do corpo, causando disfunção lisossomal, um fator importante nas doenças e falências cardíacas. 15) Hipotireoidismo: uma pesquisa realizada de porta em porta com 65 mil pessoas em comunidades agrícolas na Argentina nas quais se usa o Roundup encontrou médias mais elevadas de hipotireoidismo. 16) Doença inflamatória intestinal: o glifosato pode induzir a deficiência severa do triptófano, que pode levar a uma grave doença inflamatória intestinal que desajusta severamente a capacidade de absorver nutrientes por meio do aparato digestivo devido à inflamação, hemorragias ou diarreia. 17) Doença hepática: doses muito baixas do Roundup podem alterar as funções das células no fígado, segundo um estudo publicado em 2009 na “Toxicology”. 18) Doença de Lou Gehrig: a deficiência de sulfato no cérebro foi associada à Esclerose Lateral Amiotrófica. O glifosato altera a transmissão de sulfato do aparelho digestivo ao fígado, e poderia levar a uma deficiência de sulfato em todos os tecidos, incluindo o cérebro. 19) Esclerose múltipla: encontrou-se uma correlação entre uma incidência aumentada de inflamação de intestino e a Esclerose Múltipla. O glifosato pode


ria ser um fator causal. A hipótese é que a inflamação intestinal induzida pelo glifosato faz com que bactérias do aparelho digestivo se infiltrem no sistema circulatório, ativando uma reação imune e, como consequência, uma desordem autoimune, resultando na destruição da bainha de mielina. 20) Linfoma Não-Hodgkin: uma revisão sistemática e uma série de metaanálises de quase três décadas de pesquisas epidemiológicas sobre a relação entre o linfoma não-hodgkin e a exposição a pesticidas agrícolas concluiu que o linfoma de célula B tinha uma associação positiva com o glifosato. 21) Doença de Parkinson: os efeitos danosos dos herbicidas sobre o cérebro foram reconhecidos como o principal fator ambiental associado a desordens neurodegenerativas, incluindo a doença de Parkinson. O início de Parkinson após a exposição ao glifosato foi bem documentado, e estudos em laboratório mostram que o glifosato provoca morte celular característica da doença. 22) Problemas na gravidez (infertilidade, morte fetal, aborto espontâneo): o glifosato é tóxico para as células da placenta, o que, segundo os cientistas, explicaria os problemas na gravidez de trabalhadoras agrícolas expostas ao herbicida. 23) Obesidade: uma experiência consistente na transmissão de uma bactéria do aparelho digestivo de um humano obeso para os aparelhos digestivos de ratos provocou obesidade nos ratos. Tendo o glifosato produzido uma mudança nas bactérias do aparelho digestivo de produtores de endotoxinas, a exposição ao glifosato poderia, dessa forma, contribuir com a obesidade. 24) Problemas reprodutivos: estudos de laboratório em animais concluíram que os ratos machos expostos a altos níveis de glifosato, tanto no desenvolvimento pré-natal ou da puberdade, padecem de problemas reprodutivos, incluindo o atraso na puberdade, a baixa produção de esperma e a baixa produção de testosterona. 25) Doenças respiratórias: as mesmas pesquisas com 65 mil pessoas na Argentina descobriram médias mais elevadas de doenças respiratórias crônicas.

Na natureza não há prémios nem castigos. Há apenas consequências! James Mc Neil Whistler, 1834-1903.

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LUGARES SAGRADOS Cristina Novo IMAGO é um projecto académico de Documentário, não narrado enfatizando um sentido visual e sonoro intensamente mais profundo, fundado numa cinematografia especificamente inovadora, com Realização de Rui Pedro Lamy, Direcção de Fotografia de António Morais, Produção de Cristina Novo, Imagens Aéreas por Nuno Magalhães, elementos que se dirigiram à Serra da Estrela no dia 6 de Abril de 2016. O projecto funda-se numa busca espiritual pelos lugares sagrados de Portugal. Como não poderia deixar de ser, tivemos de contemplar a Senhora da Boa Estrela no nosso mapa de rodagens: o Santuário mais elevado de Portugal. A sua imposição pela beleza que integra é tal, que lá passamos um dia de filmagens, ainda que fosse nosso desejo mais tempo ficar. Foi através de um contacto com o Sr. José Maria, da Associação Cultural dos Amigos da Serra da Estrela, que esta aventura começou. A sua generosidade, que, como viemos a perceber posteriormente, se alarga ao

Concelho de Manteigas, sendo que agradecemos profundamente a forma tão hospitaleira com que nos receberam – com um agradecimento especial ao Sr. José Cardoso – Vice-Presidente da C.M de Manteigas e ao Sr. Vinagre e Sr.ª Fernanda do Restaurante de Santa Lúzia – permitiu-nos um dia na Serra da Estrela que jamais esqueceremos. Pela manhã, ao passarmos por Manteigas, vislumbramos um vale simpático de casas torneado por montanhas poderosas, enquanto subíamos e digeríamos a beleza crua de uma natureza imponentemente intocada. Pensamos e comentamos: “Teremos de cá voltar”. Explorando um conjunto etnográfico e antropológico de diversos elementos do imaginário colectivo histórico-cultural Português: Festividades, Lugares Sagrados e Artes, remetendo-nos para um Universo Cristão (e outrora Pagão), e que ainda hoje se encontram ativos em determinados locais do nosso País, o projecto IMAGO tem como um de seus objectivos fazer o levantamento de grande parte


dessas atividades e lugares considerados sagrados, enquanto essas atividades ainda se encontram ativas e praticadas nos seus ambientes naturais; e enquanto esses mesmos lugares sagrados mantêm um bom estado de conservação. Perante um objetivo comum - a valorização e conhecimento da nossa Cultura, Crenças, Devoção e Fé, bem como do Património Histórico e Arqueológico Português, a equipa IMAGO deparou-se com uma beleza natural ímpar ao

neve que, num dia de sol intenso, se transformava em água deslizante, música para os nossos ouvidos. A paisagem conduziu-nos imediatamente para um plano de imaginação, como se num outro tempo nos tivéssemos situado. A sensação que tivemos, no decorrer das filmagens, e a par de verificar que existe um turismo saudável e não abusivo do lugar, foi que estávamos dentro de um filme. Porquanto, da lá saímos com a alma enriquecida. À noite, o convívio no restaurante de

Foto de Arquivo/ASE

chegar à Nossa Senhora da Boa Estrela. Uma escultura da Nossa Senhora com 7 metros de altura, de António Duarte, do ano de 1946, integra-se numa rocha, num topo constituído de rochas separadas por mantos brancos de

Santa Luzia, em Manteigas, a par de uma cozinha divinal, preencheu-nos o corpo e o coração. Portugal é, sem dúvida, um país de belezas naturais que, quando acompanhadas de tamanha simpatia, fazem-nos querer voltar e não olvidar.


Imagens que valem mais que mil palavras! Tenho por hábito, perante os amigos que me são mais chegados, manifestar o desconforto face ao comportamento das pessoas sobre a natureza, e à insensibilidade, para não dizer incompetência, de quem tem as funções de zelar por

ela, expressando o seguinte comentário: devia fazer Sol de Segunda a Sexta-feira e, no Sábado e Domingo chover a cântaros (expressão serrana para referir muita chuva)! Digo isto com a convicção de que têm sido as condições atmosféricas quem mais tem feito pela defesa da serra da Estrela, por impor algumas restrições a comportamentos menos dignos que nos revelam até onde pode ir a ignorância e o desprezo das pessoas

perante o meio natural, mas, também da ausência de medidas para as corrigir e por termo. Quando se instalam contentores para o lixo, em espaços de grande sensibilidade ecológica, muito apelativos para a visitação e a altitudes elevadas, o que se está a fazer é cultivar nas pessoas a ideia de que em todos os lugares deve haver recolha do lixo. Já vimos que fazer demasiadas estradas faz com que depois 1 não tenhamos dinheiro para as manter a todas. Da mesma maneira se provou que as políticas de recolha do lixo implementadas pelo Parque Natural da Serra da Estrela, para procurar sensibilizar as Câmaras Municipais para a situação dos lixos, fora das zonas urbanas, se revelou perversa e terminou como era previsível que acontecesse. Nenhum país se pode dar ao luxo de tentar resolver os problemas sem ter em mente o envolvimento das pessoas. Na questão dos lixos, como em muitas outras, essa


2 vertente não tem sido desenvolvida, muito menos envolvida. Aliás, o que se tem vindo a observar, quer pela acção persecutória sobre aqueles que mais têm feito para defender o património natural da serra da Estrela ou a indiferença sobre aqueles que mais danos lhes causam, é demasiado perverso e não será o facto de se escudarem nos regulamentos que justifica as acções que têm vindo a prosseguir. Os tempos exigem mudanças profundas, a

começar por quem pensa que os cargos de gestão se destinam mais a impor que a coordenar com envolvimento e responsabilidade. A 3ª Reunião Ordinária de 2016 do Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável, realizada a 1 de Junho de 2016, fez uma “Reflexão sobre o modelo de gestão da Rede Nacional de Áreas Protegidas”, documento a que iremos dedicar mais atenção no próximo número, na parte final 3 das considerações e recomendações,


expressa o seguinte: “A necessária reforma estrutural ultrapassa em muito a reforma administrativa de qualquer instituição em particular, exigindo um acordo prévio alargado, tanto social como político, eventualmente

através de um quadro legal de bases, que estabilize um entendimento comum da sociedade portuguesa sobre a sustentabilidade e a integridade da RNAP e que identifique claramente o papel e as funções de cada tipo de AP, considerando que a


internacionais em matéria de conservação da natureza vão no sentido da desconcentração e da democratização, sem alienar a obrigação do Estado de garantir a salvaguarda dos recursos vitais para as gerações actuais e futuras e de zelar pelos “bens comuns”, apostando na busca de soluções económicas e financeiras diversificadas e adequadas para custear as AP e na valorização do património natural e paisagístico como forma de promover o desenvolvimento económico e social, em particular das comunidades locais. Este é o esforço colectivo que deveremos enfrentar e para o qual o CNADS contribui com a presente reflexão”. IMAGENS QUE DIZEM TUDO

4 designação genérica de AP induz uma perceção geral e uniforme que não se coaduna com a diversidadede funções e especificidades de cada uma delas. Os ventos de mudança

Não foi preciso muito tempo nem demasiada atenção para dar nota de algumas situações que revelam desmazelo e até ignorância. O que preocupa a ASE são os maus exemplos que se plantam nas boas vindas aos visitantes. As coisas boas, cada vez mais raras e pesquizadas quase à lupa para se dar nelas preocupam-nos menos. Na foto 1 podemos constatar a manutenção do diferendo entre o presidente do Conselho Directivo dos Baldios de São Pedro - Manteigas, e a Câmara Municipal de Manteigas sobre a recolha dos resíduos no Covão d’Ametade. Mesmo assim é de louvar o comportamento


das pessoas pela preocupação em colocar os sacos junto do edifício da entrada do Covão d’Ametade e no acondicionamento do lixo. A imagem 2 mostra o estado de degradação em que se encontra o muro que serve de protecção ao trânsito na zona de estacionamento do Covão do Boi, em frente da escultura da Senhora da Boa Estrela. As pedras estão caídas no fundo e a falta delas no local onde deviam estar a revelar-se um perigo para as pessoas, principalmente para as crianças que ali param para admirar a Senhora esculpida na rocha. A foto 3, foi tirada no mesmo local, Covão do Boi. A placa colocada pelo PNSE/ICN, é uma relíquia e marca um período, aquele em que se procurou dar uma imagem uniforme do país, implantando o mesmo padrão, do Minho ao Algarve contrariando a essência da diversidade em que as próprias AP se criaram. Revela também a centralização da decisão quando a aposta deveria fomentar-se pela descentralização e criatividade de cada AP e dos seus quadros, bem assim como na aplicação de materiais de cada região ou zona. A informação do PNSE procura dar a conhecer o interesse geológico do Covão do Boi, sem dúvida um dos locais onde o elemento erosivo na serra da Estrela é expressivo, bem como o cervunal ali existente o qual tem vindo a recuperar de forma extraordinária, depois da pequena intervenção para evitar o acesso dos veículos. O estado em que se encontra a placa informativa é o melhor exemplo da erosão evolutiva do PNSE e elucidativa de que as coisas dirigidas por Lisboa nem sempre podem ser o melhor exemplo para a eficácia da gestão das Áreas Protegidas. Por último, a foto 4 é tirada no Covão d’Ametade, no trecho final do rio Zêzere. Uma segunda imagem, mais pequena, no canto superior esquerdo da maior indica o local onde está colocada uma pequena barreira em betão com pouco mais de 20/30 cms. de altura. Este, disfarçado, dique tem tipo uma preciosa função. Assim os gestores o compreendem-se e desenvolvem-se iniciativas que prosseguissem-se o desempenho da pequena barreira. Pela imagem pode ver-se a quantidade de matéria orgânica que ali se tem depositado motivado pelo pequeníssimo muro que ali se construiu. Aliás em dois períodos distintos os inertes depositados no leito foram retirados por jovens e depositados nas margens onde hoje já as estabilizam as gramíneas. O próprio depósito em si, já é um obstáculo à evacuação de mais inertes e á matéria que ali se encontra depositada deveria ser retirada e depositada onde faz falta para que o Covão d’Ametade mantenha a camada superior do solo com os ingredientes suficientes para que o cervunal continue a constituir-se como o elemento preponderante do local, contribuindo assim para que o processo erosivo diminua.


GeObserver na Serra da Arrábida e Estuário do Sado Foi assinado um novo protocolo entre o GeObserver (www.geobserver.org) e o IPS – Instituto Politécnico de Setúbal para implementação do sistema na Serra da Arrábida e Estuário do Sado, passando assim a plataforma a “observar” mais estas duas áreas protegidas. O GeObserver é um sistema de informação geográfico, criado em 2011 no IPS – Instituto Politécnico de Setúbal em parceria com a ASE - Associação Cultural Amigos da Serra da Estrela, orientado para o conhecimento, investigação e protecção ambiental, assentando num modelo colaborativo. A esta parceria juntou-se também o CISE Centro de Interpretação da Serra da Estrela (Município de Seia), parceiro fundamental na área da biologia e biodiversidade. A plataforma encontrase actualmente, e desde o seu início de actividade, instalada no Parque Natural da Serra da Estrela onde tem revelado grandes potencialidades e contributos, tanto para a protecção ambiental como para comunidade científica. Alguns resultados interessantes foram: descoberta da águia-de-Bonelli, ave extinta na serra da Estrela há mais de 30 anos, novos habitats para a lagartixa-demontanha (Iberolacerta monticola), uma espécie vulnerá-vel e endémica da serra da Estrela, descoberta esta, que, do ponto de vista científico se revelou muito importante, alterando deste modo o mapa da sua distribuição. Os dados constantes na plataforma são forne-

cidos não só pelas entidades que apoiam o projecto, mas também por cidadãos comuns que podem registar as suas observações de biodiversidade ou alertas ambientais. A implementação na Serra da Arrábida e Estuário do Sado representa um novo desafio, uma vez que as características destas áreas são muito diferentes da Estrela, principalmente o Sado tratando-se de um ambiente maiori-

tariamente marinho. A implementação no Parque Natural da Arrábida e Reserva Natural do Estuário do Sado faz parte de uma nova fase, que pretende chegar a outras áreas protegidas do país com a mesma finalidade: observar para preservar recolher e agregar informação, cruza-la e fornecer dados que permitam melhor conhecer e proteger estes monumentos naturais. Hoje a plataforma faz o cruzamento de mais de um milhão de registos, é utilizada por mais de uma dezena de universidades e escolas (nacionais e estrangeiras) para estudos e investigações. Foto de Daniel Pinheiro





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