O Priorado de Salomão - José Martino - Capítulo 1 para degustação

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JOSÉ MARTINO

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Copyright © 2021 by José Martino All rights reserved Todos os direitos reservados e protegidos pela Lei 9.610 de 19/02/1998. Nenhuma parte deste livro, sem autorização prévia por escrito do autor, poderá ser reproduzida ou transmitida sejam quais forem os meios empregados: eletrônicos, mecânicos, fotográficos, gravação ou quaisquer outros. Preparação dos originais: Ionnes Pavlus Diagramação: Josephus Antonius Capa: Tim Marvim Imagens da capa e do miolo: Depositphotos Revisão geral: João Paulo Martino Impressão: Lis Gráfica e Editora Ltda.

TREVAS EDITORA Av. Major Alvim, 959 – Ap. 15 Alvinópolis - Atibaia / SP CEP: 12.942-550 livrosatibaia@gmail.com

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SEGREDOS OCULTOS

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ESDE ANTES DO AMANHECER, a elegante pracinha diante da igreja de Santa Maria delle Grazie, em Milão, já se encontrava tomada por um admirável ajuntamento de curiosos. As estrelas ainda cintilavam na madrugada, quando as pessoas começaram a chegar por ali feito formigas atrás de açúcar. Todos queriam ver de perto aquele santo homem, que alguns diziam ser a reencarnação do próprio messias. Naquela manhã fria de março, os frades dominicanos do convento de Santa Maria delle Grazie acordaram agitados. Não se sentiam assim, desde que haviam sido mencionados de passagem pelo escritor norte-americano Dan Brown em seu romance O Código Da Vinci, que se tornara um best-seller internacional. Caminhavam de um lado ao outro pelos corredores do claustro, tentando disfarçar a ansiedade, vinham espiar a multidão aglomerada diante da igreja e inúmeras vezes chegaram mesmo a sair para a rua, a fim de procurar descobrir alguma notícia fresca a respeito da chegada de Beato Simão, que peregrinava pela Itália e vinha se hospedar por alguns dias naquele retiro espiritual. A presença de um líder religioso daquela envergadura no convento dos dominicanos enchia os frades de curiosidade e excitação. Embora uma missa estivesse marcada para as nove horas da manhã, ela precisou ser adiada e só teve início após o meio-dia, quando Beato Simão finalmente chegou a Santa Maria delle Grazie. O homem vinha cercado por alguns discípulos e caminhava com muita dificuldade, pois todos queriam tocar a sua mão ou as suas vestes para serem abençoados. Depois que ele trouxera de novo à vida a pequena Natália, filha de um casal de operários da cidade de Bari, dada como 11


morta pelos médicos, a sua fama crescera vertiginosamente. Já ninguém mais desconfiava de que Beato Simão era capaz de fazer milagres e muitos acreditavam que talvez ele pudesse ser o próprio Cordeiro anunciado por São João no livro do Apocalipse, o filho vivo de Deus, enviado pela segunda vez ao mundo para salvar os homens do flagelo prometido no final dos tempos. Beato Simão tinha cerca de quarenta anos, era alto, magro e possuía o rosto todo descarnado. Trazia os cabelos compridos, negros e lisos, muito gordurosos e sujos. A sua barba mal-escanhoada contava sete dias e lhe emprestava um aspecto geral de desleixo, de completo desprezo pela própria aparência. Vestia uma puída túnica marrom, feita de pano grosseiro, costurada em uma só peça e atada à cintura por uma corda velha. Numa das mãos, segurava um pedaço de pau parrudo, que lhe fazia às vezes de cajado e, na outra, empunhava uma Bíblia muito mal conservada. Um tosco crucifixo de madeira, pendurado ao pescoço por um velho cadarço de botina, ornava-lhe o peito franzino, enquanto que seus pés caminhavam sobre um par de sandálias em tão lamentável estado, que outra pessoa qualquer, com um mínimo de bom senso e algumas gotas de vaidade nas veias, já as teria lançado ao lixo há muito tempo. Porém, o que mais chamava a atenção naquela figura invulgar era o fato de Beato Simão não possuir sobrancelhas, ou porque as arrancasse ou ainda por ser algum defeito de nascença. Seja como for, isto lhe dava uma aparência bastante singular, ressaltando demais o seu olhar desvairado e ligeiramente estrábico, o qual parecia não se fixar em local algum.

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Com muito custo, Beato Simão conseguiu entrar na igreja, abrindo caminho por entre a multidão excitada, que gritava seu nome e o aplaudia. Não havia lugar para mais ninguém ali dentro e os próprios corredores laterais encontravam-se apinhados de fiéis, ansiosos para serem abençoados pelo taumaturgo. Todos os bancos da frente estavam ocupados pelos frades do convento, que vestiam seu tradicional hábito branco, coberto por uma capa escura. Frei Abelardo era talvez o menos entusiasmado dentre eles e comentava em voz baixa com seu colega de banco: - Este não me engana... não passa de outro charlatão! Fazia mais de trinta anos que o velho frei Abelardo entrara para a Ordem dos Pregadores, ou Ordo Praedicatorum, como costumava se referir aos dominicanos. Insigne latinista, ele não perdia a oportunidade de florear suas conversações com trechos dos mestres queridos e nada lhe dava mais prazer do que citar seus autores favoritos no original, como Cícero, Ovídio, Horácio, Tibulo, Sêneca, Santo Agostinho e Tito Lívio. Muitos o achavam pedante e até mesmo turrão, pois quando defendia uma ideia não havia maneira de convencê-lo do contrário. Ainda assim, era adorado por todos no convento e ninguém conseguia se zangar com ele por mais de dez minutos. Quando chegou o momento da prédica, o padre que celebrava a missa passou a palavra a Beato Simão. Ele ergueu-se, caminhou com vagar até o púlpito e permaneceu durante alguns segundos admirando a plateia atenta. O silêncio era tamanho, que se escutavam os pombos arrulhando no telhado, uma vez que ninguém queria perder frase alguma do pregador. Em seguida, ele abriu os braços em forma de cruz, como se tentasse abraçar todos os presentes. - Meus irmãos e irmãs... Depois, uniu novamente as mãos diante dos lábios, como quem faz uma prece respeitosa, e manteve-se assim por alguns instantes, de olhos fechados, até que começou a pregar. O assunto predileto de Beato Simão dizia respeito ao final dos tempos, o qual estava próximo, e iria arrastar para os abismos infernais uma legião gigantesca de pecadores que não se arrependessem de suas faltas. Tinha um grande poder persuasivo e descrevia as cenas apocalípticas com tanta imaginação e colorido, que provocava horror ao mais incréu dos homens. Dizia ter sido enviado por Deus para mostrar a seus filhos as coisas terríveis que estavam para acontecer muito em breve.

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- Temei o Senhor e dai-lhe glória, porque é chegada a hora do seu juízo, e adorai Aquele que fez o céu, a terra, o mar e as fontes das águas. Quando Beato Simão se encontrava no auge de sua prédica, descrevendo os funéreos acontecimentos do fim do mundo, uma mulher ainda jovem, conduzida pelo braço por uma menina de uns dez anos de idade, entrou na igreja batendo com uma das mãos nos seios e gritando aflita. - Luz! Luz! Dê-me luz, se és mesmo o Filho de Deus. Todos os presentes se voltaram para a mulher, que seguia descalça pelo corredor central em direção ao altar. Alguns homens levantaram-se para detê-la, mas Beato Simão fez um gesto, pedindo que ela se aproximasse. - Mulher, qual o motivo de tua aflição? - Mestre, perdi minhas vistas há três anos e, desde que meu marido partiu, no último inverno, tenho passado todo tipo de necessidade. Antes, eu era cozinheira na casa de uma boa senhora, mas agora não consigo mais emprego. Só Deus sabe o que tenho feito para alimentar a minha filha. Por piedade, se tens mesmo o poder de curar como dizem, estende tua mão sobre os meus olhos e faça-os enxergar novamente. Muitas pessoas que ainda se encontravam na praça passaram a se aglomerar na porta da igreja, disputando um cantinho qualquer de onde pudessem ver o que estava acontecendo lá dentro. Beato Simão colocou a mão direita espalmada sobre a cabeça da cega. - Acreditas em Deus, nosso Pai, fonte infinita de bondade e salvação dos homens? - Sim, acredito, com toda a fé de meu coração. - Acreditas no seu Filho bem-amado, que veio ao mundo para expiar os pecados da humanidade e voltará muito em breve a fim de livrar os virtuosos das penas do inferno? - Sim, sim! - Acreditas na santa igreja católica, na ressurreição da carne, na vida eterna? - Sim, acredito, em tudo isso eu piamente acredito! Ao ouvir tais palavras, Beato Simão dirigiu-se até uma pia de mármore que continha água benta e se localizava junto ao corredor lateral da igreja. Os seus discípulos foram abrindo caminho entre a multidão para dar passagem ao mestre. Algumas pessoas conversavam em voz baixa, tentando entender o que o taumaturgo pretendia. Todos os fiéis, porém, permaneciam com os olhos cravados em Beato Simão, que molhou dois dedos na pia e fez lentamente o 14


sinal-da-cruz. Depois, ele contemplou a cega e sua filha, que permaneciam junto ao altar. - Aproxima-te, mulher! Quando ela chegou ali, Beato Simão cobriu-lhe os olhos com a mão esquerda, enquanto segurava com a destra o crucifixo de madeira que trazia no peito. Cerrou as próprias pálpebras e pôs-se a pronunciar palavras em tom muito baixo, como se cochichasse com Deus. Por fim, mergulhou o rosto da cega na pia de água benta. - Mulher, tua fé te curou! – disse convicto. Ela então descerrou os olhos e a luz invadiu suas pupilas e íris, as quais se dilataram, contraindo-se feito uma ostra em que se pingaram algumas gotas de limão. Seus olhos arregalaram-se perplexos, sua boca começou a tremer e seus peitos arfavam deveras, lutando para pularem fora do vestido. Finalmente, sem mais conseguir conter a emoção, ela passou a chorar de alegria e caiu de joelhos sobre o piso, para beijar os pés daquele homem extraordinário. Beato Simão fez com que ela se levantasse. - Vá, mulher, e diga a todos que Deus te curou! A comoção entre a plateia foi grande, estupenda. As pessoas não sabiam direito o que fazer, se aplaudiam, se davam vivas, se carregavam o bom homem nos ombros pelas ruas da cidade. Nisso, um dos discípulos de Beato Simão tomou a palavra, aproveitando o clima de euforia. - Caríssimos, talvez vocês não saibam, mas nós também fazemos um trabalho de assistência a nossos irmãos necessitados, recolhendo dinheiro e distribuindo alimentos às famílias carentes. Para levarmos adiante esta obra de amor, contamos com a generosa colaboração de todos. Vou deixar aqui na frente um cesto e, quem puder, traga até ele a sua doação, por menor que seja. Que Deus abençoe a todos. A princípio, as pessoas foram se levantando timidamente de seus lugares para fazerem os donativos, mas, depois de alguns minutos, toda gente abriu as carteiras e as filas tornaram-se imensas. As cédulas iam sendo lançadas dentro do cesto, amontoando-se umas sobre as outras; era tanto dinheiro, que parte dele começou a cair no chão de mármore. Um dos discípulos de Beato Simão apareceu com uma mala enorme e a abriu ao lado do cesto, para que as pessoas pudessem fazer as suas doações com mais conforto. Quando toda aquela generosidade chegou ao cabo, dois homens apanharam rapidamente a mala mais o cesto e os levaram à sacristia. A partir daí, a cerimônia não se estendeu por muito tempo. Por fim, Beato Simão atirou sua bênção sobre a plateia satisfeita, que passou a esvaziar a

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igreja aos poucos e cada um foi cuidar de sua vida na santa paz do Senhor. Após a missa, os frades dominicanos conduziram seu célebre hóspede para o convento. Beato Simão encantou-se com a beleza do lugar, louvando-lhes a tranquilidade do retiro, imprescindível a uma vida dedicada ao estudo e à oração. Levaram-no em seguida aos seus aposentos, uma cela simples, onde havia apenas uma cama, um baú e uma cruz pendurada na parede vazia. Aí, Beato Simão permaneceu descansando por algum tempo, recuperando as energias, até que um sino anunciou o almoço e todos desceram ao refeitório. A refeição não foi tão modesta, como convinha àqueles homens devotados a uma vida monástica. Sobre a mesa, uma terrina de minestrone, típica sopa italiana com feijão branco, alho, repolho, presunto picado, cenoura, abobrinha, tomate, entre outros legumes, lançava no ar um aroma saboroso de comida caseira, que excitava os apetites. Numa travessa ao lado, havia canelones gratinados ao forno. Como prato principal, o cozinheiro preparara um risoto, que era uma iguaria muito apreciada pelos frades do convento. Além disso, havia também alcachofras assadas, frango grelhado, berinjela à moda do cônego, diversos tipos de pães e muito queijo. Frei Abelardo sentou-se ao lado do jovem Michael, ainda um postulante, que viera para Santa Maria delle Grazie há pouco mais de um ano. Apesar da grande diferença de idade entre eles, os dois tornaram-se grandes amigos, tanto que viviam juntos por toda parte. Abelardo tinha cerca de sessenta anos, mas aparentava ser bem mais velho. Trazia os cabelos muito brancos e o rosto redondo quase sempre rosado, coloração que se acentuava quando ele bebia vinho, um de seus pecadilhos, conforme costumava dizer. A sua altura ficava um pouco abaixo da média ordinária dos homens, algo em torno de um metro e sessenta e cinco ou pouco menos, e era bem rechonchudo, para não dizer gorducho, embora ele nunca tenha feito caso disso. Ao contrário do que se poderia imaginar, Beato Simão comeu muito e, por assim dizer, feito um porco. O piso ao redor de sua cadeira ficou cheio de migalhas de pão derrubadas por ele, como se estivesse dando comida para as galinhas. Também a toalha não escapou à sua voracidade; não que ele a tivesse comido, mas a deixou completamente empapada de sopa, pois a cada colherada metida na boca, algumas gotas do caldo acabavam respingando sobre a mesa. Seus modos pouco refinados causaram certo constrangimento entre os frades, os quais se entreolhavam de soslaio, tentando esconder um sorriso de escárnio dos lábios. Beato Simão parecia não ser íntimo de alguns talheres, como a faca, por exemplo, uma vez que destrinchou o 16


frango com as mãos, quando este lhe foi servido. Como a gordura escorresse pelos seus dedos longos e ossudos, por mais de uma vez ele os enxugou nas próprias vestes, que, aliás, não primavam pelo asseio. Frei Abelardo não deixou de notar isto, comentando baixinho com Michael, enquanto saboreava a sopa. - Este homem come feito um bárbaro! Depois, como era espirituoso e um tanto gozador, levantou o copo de vinho e propôs um brinde ao hóspede. - À saúde de nosso ilustre conviva, que, como escreveu Horácio, “cenabat tribus ursis quod satis esset”.1 Todos riram satisfeitos, inclusive Beato Simão, certamente porque não entendia nada de latim. Após o almoço, os frades voltaram à sua rotina: uns foram orar na igreja, outros se dirigiram à biblioteca ou recolheram-se às suas celas, enquanto que os demais passaram ao claustro, a fim de conversar ou descansar um pouco, enquanto faziam a digestão. Era este um local muito agradável, onde os religiosos podiam passear por corredores abertos para um pátio interno, com belas árvores e uma singela fonte. Frei Abelardo e Michael caminhavam lado a lado no claustro, respirando o perfume revigorante do jardim, quando o mais velho disse: - Espere-me aqui um minuto, pois volto já. Preciso lhe falar sobre aquele assunto de ontem... Dizendo isso, sumiu dentro do convento. O assunto de ontem era um segredo que frei Abelardo desejava revelar a Michael, mas que ele ainda nada adiantara, pois os dois não tinham ficado a sós desde então. O rapaz abriu aleatoriamente as Centúrias de Nostradamus, volume que trazia nas mãos, e leu a seguinte quadra: “Na fundação da nova seita, Os ossos do grande Romano serão encontrados; Um sepulcro coberto de mármore aparecerá, A terra irá tremer em abril, mal enterrada.” Michael tinha verdadeira paixão pelos livros e gostava também deste tipo de literatura, onde pairava certa névoa misteriosa de ocultismo. Não chegara a compreender o significado daquela quadra, como tantas outras escritas pelo célebre francês. Mesmo assim, era um dos seus autores de cabeceira, apesar da opinião desfavorável de

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Ceava aquilo que teria sido suficiente para três ursos. 17


frei Abelardo, o qual desprezava tudo que não tivesse o perfume ático dos clássicos gregos e romanos. - Não perca tempo com isso! Como dizia o grande Cícero, “errare malo cum Platone quam cum istis vera sentire”. 2 Enquanto Michael esperava no claustro pelo retorno de frei Abelardo, Beato Simão e Manfredino finalmente haviam conseguido se livrar de alguns frades grudentos e entraram num banheiro sem serem vistos por ninguém. Manfredino tinha cerca de quarenta anos e era o discípulo favorito do taumaturgo. Os dois conheceram-se num manicômio, onde aquele se encontrava internado. O médico que o assistia já não acreditava mais em possibilidade de cura, pois o quadro clínico do seu paciente não apresentava qualquer sinal de melhora. Nem altas doses de medicação, nem tratamento de eletrochoques produziam resultado algum para acalmar Manfredino, que precisava ficar amarrado numa camisa-de-força a fim de não agredir os demais internos. Beato Simão estava de passagem pela vila e, como uma das enfermeiras do hospício já havia sido testemunha de seu poder extraordinário, pois ele curara a mãe dela de um mal no estômago, a moça solicitou ao diretor do manicômio autorização para que o homem viesse ver o doente. A autorização foi dada e chamaram Beato Simão para ajudar o pobre infeliz. Tão logo ele pôs os olhos em Manfredino, teve certeza de que se tratava de um caso de possessão demoníaca. Segurando seu grosso cajado, ordenou a todos que deixassem a sala. Os dois permaneceram a sós por mais de uma hora e ninguém nunca soube direito o que se passou lá dentro, embora pudessem imaginar pelos gritos pavorosos que o infeliz interno proferia. De qualquer forma, quando a porta foi aberta, Manfredino estava manso feito um carneirinho. Dias depois, recebeu alta e a primeira coisa que fez foi procurar Beato Simão para se juntar aos seus seguidores. Beato Simão e Manfredino entraram no banheiro rindo muito e falando mais alto do que convinha ao ambiente sisudo do convento. Os dois tinham bebido bastante vinho durante o almoço e estavam com a consciência um tanto alterada pelo álcool. Parecia que debochavam de algo ocorrido durante a refeição ou a missa. Manfredino dirigiu-se até o mictório e abriu o zíper da calça. - Agora falando sério, preciso de algum dinheiro para pagar a mulher. - Quanto foi o combinado? - indagou Beato Simão. - Duzentos! Mas esta foi muito convincente, não acha? 2

Prefiro errar com Platão a ter razão com estes.

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- Acho que você deveria levantar a calça, pois está lhe aparecendo o rego! Sabe bem que não aprovo estes seus métodos e, além do mais, confio no poder que Deus me deu. Meio desajeitado, Manfredino puxou a calça para cima pelo cinto, mas acabou urinando na própria perna. Depois, veio lavar as mãos na pia. Tinha-as grossas e cascudas, como um peixe escamoso. Por alguns instantes, permaneceu admirando no espelho o seu rosto precocemente envelhecido, os dentes amarelos e com excesso de tártaro. Trazia os cabelos cada vez mais grisalhos e em constante desalinho. Tentou assentá-los com um pouco d’água, mas não obteve grande resultado. Em seguida, meteu o rosto debaixo da torneira e o enxugou com uma toalha felpuda que encontrou pendurada num gancho. Beato Simão tirou do bolso um grosso maço de notas e deu algumas a Manfredino. - Entregue isso à vadia e mande-a desaparecer! Pagando esse preço, o que vai sobrar para os pobres? Os dois riram debochadamente. Porém, quando iam sair do banheiro, ouviram um espirro vindo de um dos sanitários, dentre os vários ali existentes, todos fechados por portas que não desciam até o piso. Beato Simão alarmou-se, arregalando seus grandes olhos um tanto quanto estrábicos. Colocando o dedo indicador diante do nariz, pediu para Manfredino fazer silêncio e abriu a porta do banheiro, que rangeu baixinho. Depois, caminhou alguns passos e a bateu outra vez, como se tivessem ido embora. Logo após, frei Abelardo saiu do sanitário e deu de cara com os dois homens, que o fitavam com feições nada amistosas. Ao vê-los ainda ali, o frade levou um susto enorme e seu rosto tornou-se muito branco. Fez um leve cumprimento com a cabeça, procurando dominar o seu nervosismo, e dirigiu-se ao lavatório. - Deus te abençoe! – disse Beato Simão com voz enérgica. - Como disse? - respondeu frei Abelardo. - Deus te abençoe! - e fez o sinal-da-cruz em sua direção. - Perdoe-me, pois estou velho e não ouço quase mais nada. Fiquei surdo com a idade. Agora, se me derem licença, preciso voltar às minhas orações! Dizendo isso, frei Abelardo saiu do banheiro rapidamente, deixando os dois a sós. Beato Simão esfregava a testa, preocupado e pensativo, sem acreditar naquela desculpa, enquanto que Manfredino mordiscava os lábios, aguardando alguma ordem de seu chefe. - Isto pode não ser bom aos nossos negócios - ponderou o taumaturgo. - O que devemos fazer para ele não abrir o bico? 19


- Não sei. Vamos deixar nas mãos de Deus... - Entendo o que você quer dizer, mestre, entendo perfeitamente... Enquanto isso, frei Abelardo voltou para o jardim do claustro, onde Michael continuava esperando por ele. Havia prometido revelar um segredo ao amigo, mas agora eram dois. Se antes já desconfiava de Beato Simão, depois de tudo o que ouvira no sanitário, não tinha mais qualquer dúvida de que ele era um grande embusteiro. Ao vê-lo de volta, Michael o achou bastante alterado. - O que aconteceu? Parece ter visto um fantasma... - Dois fantasmas, meu caro. E pelo jeito, escapei de boa! - Não entendo... - Acabei de encontrar Beato Simão no banheiro, acompanhado por um daqueles discípulos imbecis e, sem querer, ouvi a conversa dos dois. Como bem disse São Mateus, “adtendite a falsis prophetis, qui veniunt ad vos in vestimentis ovium, intrinsecus autem sunt lupi rapaces”3. Sabia, meu caro, que eles pagaram àquela mulher para se fazer passar por cega? - Que me diz? Nesse caso, o melhor é alertar as autoridades sobre a verdade, ir aos jornais e à televisão a fim de desmascarar este pilantra, que está se aproveitando da fé ingênua do povo. - Não, meu amigo, embora a minha vontade inicial também tenha sido esta. De nada vai adiantar abrirmos a boca sem provas, pois será a nossa palavra contra a deles. Qual lado você acha que a opinião pública ficaria, do célebre taumaturgo capaz de realizar prodígios assombrosos e que alguns acreditam, inclusive, ser a reencarnação do próprio messias, ou do frade caduco e despeitado? - E o que você pretende fazer a respeito? - Por ora, deixemos para lá! Venha, pois quero lhe mostrar algo que vai fazer seu queixo cair... Os dois entraram no convento e dirigiram-se à biblioteca. Àquela hora da tarde, não havia muitos frades ali, principalmente por causa da presença do insigne hóspede, que monopolizava todas as atenções. Os religiosos seguiam-no aonde ele fosse, ansiosos para serem abençoados por seu hálito venerando. Os poucos que se encontravam na biblioteca, mantinham-se praticamente alheios a tudo mais, concentrados em suas leituras. Frei Abelardo e Michael penetraram no interior da ampla sala em silêncio, como convinha ao recinto, e caminharam até uma pequena saleta, ao fundo da biblioteca, que servia como depósito de jornais velhos, livros estragados e outros 3

Guardai-vos dos falsos profetas, que vêm a vós com as vestes de ovelhas, mas no íntimo são lobos vorazes. (Mateus 7:15) 20


papéis malcheirosos. Após se certificar de que ninguém os observava, Frei Abelardo abriu a porta com uma chave que trazia no bolso e os dois ingressaram lá dentro. Apertou o interruptor para acender a luz e trancou a porta. - Há quase trinta anos, quando eu ainda era jovem como você e não tinha estes olhos céticos de hoje, um velho frade contou-me isto que pretendo lhe revelar. Chamava-se Felício o bom homem e estava morrendo. Como não queria levar para a tumba seu segredo, trouxeme aqui e me confiou o que pretendo lhe confiar. - Nossa, quanto mistério! Não vai me dizer que você está morrendo também? - indagou Michael gracejando. - Ninguém sabe o dia de amanhã, meu caro amigo. De qualquer forma, prometa-me que não comentará nada com pessoa alguma a respeito do que estou para lhe mostrar. - Mas por que isso? Você me conhece e sabe do meu caráter... - Prometa, Michael! - Está certo, eu prometo! Tem a minha palavra. Agora fale de uma vez, você está me matando de curiosidade! Frei Abelardo dirigiu-se até uma estante, que se encontrava encostada a uma das paredes, e a arrastou um pouco para o lado, com grande esforço. - Já não tenho mais as forças de antigamente... No local onde estava a estante, bem escondido pelas placas de madeira atrás dela, Michael viu que existia na parede um buraco com pouco mais de cinquenta centímetros de altura. O velho frade pôs-se de gatinhas e pediu que o amigo o acompanhasse. Ao chegarem do outro lado, ele acendeu a luz e seu segredo finalmente foi revelado. Havia uma sala repleta de estantes com livros entulhados até o teto, quase todos com belas lombadas de couro, desgastadas pelo tempo, muitas delas gravadas a ouro. A princípio, Michael ficou pasmo, boquiaberto. Era incrível como mais ninguém ali no convento sabia da existência daquela biblioteca. Durante alguns momentos, ele permaneceu mudo, admirando a enorme quantidade de volumes empilhados caoticamente pelas prateleiras, amparando a poeira dos anos. Foi frei Abelardo quem quebrou o silêncio. - E então, o que acha... gostou? - É... incrível... deve haver preciosidades extraordinárias aqui... - Sim, esta biblioteca possui obras muito interessantes e raras. Inclusive, há aqui uns três ou quatro incunábulos... Mas lembre-se, você não pode falar sobre ela com mais ninguém. Fica sendo o nosso segredo, entendeu?

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Michael assentiu com a cabeça, sem compreender o real motivo daquele mistério. Ele seguiu até o fundo da sala e retirou de uma estante um livro ao acaso. Era uma antiga edição bilíngue das obras completas de Horácio, escrita em português e latim, que havia sido publicada em Lisboa no ano de 1639. O moço recolocou o volume em seu lugar, após o ter folheado com curiosidade. - Mas por que motivo você me pediu para não revelar este segredo a ninguém? Afinal de contas, trata-se apenas de uma biblioteca, que seria mais proveitosa se pudesse ser utilizada por todos aqui do convento... - Assim fiz, pois esta era a vontade de frei Felício, que deveria ter os seus motivos, embora nunca me tivesse dito nada a respeito. Ele me recomendou o mais estrito segredo, como eu pedi a você. Só Deus sabe quantas vezes estive para dar com a língua nos dentes. Apenas o fiz agora, porque alguém do convento precisa conhecer a existência desta biblioteca, alguém que seja o seu guardião, como eu fui durante tanto tempo e como frei Felício o fora antes de mim. Não sabemos o dia de amanhã e, na minha idade, posso faltar de uma hora para outra... - Ora, não fale assim! Você é forte e saudável como um touro! - Quem me dera, meu amigo, quem me dera... Sabe, por muito tempo eu imaginei que esta biblioteca pudesse esconder algum segredo espantoso, algum mistério que precisava ser mantido longe dos olhos curiosos do mundo. Aqui passei trancado inúmeras noites, lendo livros e mais livros, na esperança de solucionar este enigma. Como é de seu conhecimento, durante anos coube à Ordem dos Pregadores a incumbência de supervisionar o Tribunal da Santa Inquisição... - Sim, eu sei disso... - Pois a minha ideia fixa era descobrir no meio de todos estes volumes algum documento que revelasse segredos mantidos em sigilo pelos inquisidores. Contudo, confesso o meu vergonhoso fracasso... - Ora, talvez não haja nada para ser encontrado aqui. Diga-me, mais algum frade sabe da existência desta biblioteca? - Creio que não. Nunca toquei no assunto com nenhum deles e tampouco ouvi alguém se referir a ela. Os dois permaneceram ali por mais alguns minutos até que frei Abelardo despediu-se do amigo, pois precisava terminar de escrever um texto sobre a morte de Sêneca para uma revista literária publicada na internet. Antes de sair, porém, entregou uma cópia das chaves a Michael, recomendando-lhe que ele fosse o mais discreto possível e

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frequentasse a biblioteca apenas à noite, quando todos os frades já estivessem recolhidos em suas celas. - Posso voltar esta noite? - indagou o rapaz ansioso. - Volte quando quiser, agora ela é toda sua! Talvez você tenha mais sorte do que eu tive e descubra o segredo que procurei a vida inteira... Quando todos já se encontravam em seus aposentos, Michael abriu silenciosamente a porta do seu quarto, certificou-se de que não havia mais ninguém pelos corredores e dirigiu-se para a biblioteca em bicos de pés. O convento estava bastante escuro e o único ruído ouvido era o vento gelado chocalhando as janelas. O rapaz acendeu a pequenina lanterna de seu chaveiro, mas a luz dela era tênue demais e mal conseguia iluminar alguns passos adiante. Além disso, deitava sobre as paredes umas sombras sinistras e fantasmagóricas, que se contorciam de forma terrível, feito espíritos agonizantes a padecer na podridão do inferno. Talvez ele estivesse um pouco impressionado, tanto que interrompeu seus passos algumas vezes, pois tinha a nítida sensação de que o estavam seguindo. Ao abrir a porta da saleta, ao fundo da biblioteca, podia jurar que alguém o espiava por trás das estantes. Chegou mesmo a mirar o facho de luz de sua lanterna naquela direção, mas não descobriu nada. Depois, entrou na saleta e, arrastando a estante até ter espaço suficiente para passar seu corpo, penetrou ajoelhado naquela enigmática biblioteca. Após acender a luz, Michael começou a retirar ao acaso alguns livros das prateleiras. Era um jovem alto, bonito, com belos olhos azuis lembrando uma manhã ensolarada de domingo. Trazia os cabelos escuros e lisos, que ele penteava tanto para a direita, quanto para a esquerda, pois lhe ficava bem de qualquer maneira. Tinha o corpo rijo, braços e pernas fortes, tronco atlético. Ainda não chegara aos trinta anos e talvez passasse por vinte e cinco, pois era daqueles que demoram a envelhecer. Uma de suas características físicas mais peculiares é que ele não possuía lóbulo nas orelhas. Certa feita, lera em algum lugar que os cátaros - uma seita herética cristã muito importante durante a Idade Média - também não possuíam lóbulos. Segundo se dizia, todos os seus descendentes ainda hoje apresentavam esta distinção. Talvez por isso mesmo, Michael nutria tanto interesse pela trágica história deles. No ano de 1208, o misericordioso papa Inocêncio III ordenou que os cristãos pegassem em armas e marchassem numa cruzada para lutar contra os cátaros hereges. Mais de trinta mil soldados atenderam a ordem de Sua Santidade, invadiram as aldeias ao sul da França e massacraram sem

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piedade milhares de pessoas inocentes. Conta-se que um dos guerreiros teria perguntado: - Mas como podemos diferenciar os heréticos dos verdadeiros seguidores da fé? - Matem a todos, Deus reconhecerá os seus! – respondeu o representante do papa. Fazia quase três horas que Michael se encontrava dentro da biblioteca, procurando por obras raras e interessantes, quando seus olhos se fixaram por acaso num livro no alto da estante. Não havia quaisquer dizeres em sua lombada, apenas um desenho de dois cavaleiros montados sobre um único cavalo. Imediatamente, ele teve a certeza de que tal volume se referia aos templários, pois este era um antigo símbolo da Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo. Michael nutria verdadeira paixão pelo tema e, inclusive, já visitara as ruínas de alguns de seus castelos, como Tomar, em Portugal, e Ponferrada, na Espanha. Como o livro se achava quase junto ao teto, o rapaz teve de subir em uma cadeira para apanhá-lo. Porém, quando o tomou entre seus dedos, teve uma grande decepção. Não se tratava de um volume sobre os cavaleiros templários, conforme imaginava, mas de um livro falso, feito de madeira em uma forma vazada, exatamente como esses vistos em fitas de cinema, apenas para figurar no cenário. Acreditando ser algum tipo de estojo usado para guardar antigas relíquias, Michael pôs-se na ponta dos pés sobre a cadeira, a fim de ver se algo não ficara esquecido na estante, atrás do livro falso. Para sua surpresa, encontrou ali uma espécie de pequena alavanca, que saía da parede e se encaixava dentro do estojo, o qual a mantinha camuflada. Com o coração batendo acelerado, ele forçou a alavanca para baixo, mas teve certa dificuldade, pois parecia estar emperrada. Finalmente, ela cedeu e o rapaz ouviu um “troc” estalando do outro lado da parede. Com isso, a estante moveu-se alguns centímetros do seu lugar e Michael pulou da cadeira com os olhos arregalados. Tinha a respiração alterada e suas pernas tremiam de excitação. Empurrou a 24


estante com firmeza, que girou sobre o próprio eixo, abrindo uma passagem para uma sala secreta. No mesmo instante, o rapaz teve a certeza de que o segredo de frei Felício se encontrava lá dentro. Ele entrou com cautela naquele misterioso recinto envolto em penumbra, buscando em seu bolso a pequenina lanterna. Ao acendê-la, Michael levou um susto violento, chegando a soltar um grito de horror. Havia ali um homem de pé, armado com uma enorme espada, pronto para lhe decepar a cabeça! Quis correr, mas suas pernas permaneceram cravadas ao chão, completamente paralisadas pelo pânico avassalador. A sua mão tremia tanto, que ele mal conseguia iluminar o desconhecido, o qual continuava a ameaçá-lo com sua arma. Após alguns segundos, como o homem não fazia um único movimento, Michael controlou-se um pouco e percebeu que não se tratava de um ser humano, mas de um boneco de cera em tamanho real, vestindo roupa branca e tendo ao peito uma cruz pintada de vermelho. Riu aliviado. - Por Deus, um templário! Depois, aproximou-se para observá-lo de perto. A sua fisionomia era impressionante. Tinha o olhar do tigre diante da presa, a barba espessa e os cabelos compridos e grisalhos nas laterais da cabeça, embora fosse calvo da testa à nuca. Sobre o seu traje, usava uma capa branca, que descia quase ao assoalho. Segurava a espada com as duas mãos, numa atitude ameaçadora, como se defendesse a própria vida e a de seus entes queridos. Alto e forte, a figura daquele templário representava um grande mistério. Por qual motivo o haviam colocado no silêncio de uma sala secreta? O que ele estaria guardando? Eram estas perguntas que o jovem Michael tentava responder. Certamente, frei Felício tinha todas as respostas, mas por algum motivo não quis - ou não as pôde transmitir - a frei Abelardo, quando este ainda era moço. O rapaz vasculhou com sua lanterna a sala inteira e encontrou, penduradas em castiçais nas paredes, algumas velas que ele acendeu para iluminar melhor o ambiente. Quase mais nada havia ali além do templário sobre um velho tapete de pele de carneiro. Michael estranhou a presença daquele tapete, como se estivesse escondendo alguma coisa de olhares indiscretos. Ele o iluminou, ergueu uma das pontas com cuidado e sua face resplandeceu de júbilo. Surpreendentemente, os seus olhos depararam-se com um alçapão! Deslumbrado pela extraordinária descoberta, Michael abraçou-se ao templário e, levantando-o do assoalho com delicadeza, arrastou-o alguns passos para o lado. Ao tirar o tapete do local em que se encontrava, surgiu uma insólita porta horizontal no piso. O peito 25


do rapaz parecia conter uma tempestade oceânica, tamanha era a sua excitação. Ele agarrou a argola de ferro e a puxou para cima com força, mas não obteve qualquer resultado. Após anos sem uso, as dobradiças estavam emperradas. Não se abateu com o primeiro fracasso. Tomando novo fôlego, puxou outra vez a argola com todas as forças de seus braços. Dessa vez, as dobradiças cederam. Quando ele abriu o alçapão, duas baratas saíram lá de dentro, correram pelo piso e foram se refugiar na biblioteca. Michael contemplou aquela entrada que provavelmente daria nos subsolos do convento, mas só conseguiu ver os primeiros degraus de uma escada de pedra, engolida pela mais completa escuridão. Talvez estivesse com medo, como seria natural, mas tal era a sua curiosidade, que ele não hesitou um instante sequer. Apanhou uma vela de um dos castiçais, encheu-se de coragem e pôs-se a descer devagar a escadaria. Com uma das mãos, ia afastando as teias de aranha diante de seu rosto. Não se ouvia barulho algum, além de seus sapatos pisando as pedras úmidas de cada degrau. Ao se aproximar do fim da escada, os seus passos iam se tornando ainda mais lentos, como se ele temesse penetrar naquele recinto proibido. O que o aguardaria lá embaixo? Uma cripta cheia de esqueletos assustadores? Um cemitério onde se enterravam crianças mortas, filhas de relações ilícitas? Tudo isso ia passando pela cabeça de Michael, que começava a sentir algum enjoo, em virtude do cheiro insuportável de mofo. Sua única certeza era que, no final daquela escada lúgubre, estaria a revelação do segredo de frei Felício. Quando finalmente os degraus acabaram, ele seguiu por um corredor comprido e muito estreito, até atravessar uma porta baixa, alcançando o seu almejado objetivo. A luz da vela cintilou rubra nos olhos perplexos do rapaz. Ele deu dois passos para dentro daquele ambiente e estacou maravilhado, sem poder sequer engolir a saliva que lhe aguava a boca. Deus do céu! Havia ali outra biblioteca, aparentemente com obras muito mais antigas do que a primeira. Todos os livros, manuscritos e rolos de pergaminho estavam cobertos por anos de poeira, talvez séculos. Michael dirigiu-se a uma mesa tosca e apanhou um caderno aberto sobre ela. Com os dedos, limpou um pouco do pó acumulado por cima de suas páginas, aproximando a chama da vela para tentar ler o que ali estava escrito. A letra era graúda e trêmula, garrancho de velho. “Saibam todos que me lerem, que esta é a biblioteca secreta da Ordem dos Cavaleiros Templários. Frei Felício Prior do Priorado de Salomão” 26


Por um momento, o rapaz sentiu que lhe escasseava oxigênio nos pulmões e precisou se apoiar na mesa para não cair. Era incrível! Diante de seus olhos perplexos, encontrava-se um tesouro incalculável, centenas de originais copiados a mão com mais de setecentos anos de idade. A biblioteca que frei Abelardo lhe mostrara naquela tarde não valia nada se comparada a esta. Eis o verdadeiro segredo de frei Felício! Não se tratava de uma biblioteca muito grande, mesmo porque a maioria dos templários não sabia ler; porém, aquelas obras poderiam mudar a própria história da civilização! Também lhe chamou a atenção a maneira como Frei Felício assinou aquelas linhas, ou seja, prior do Priorado de Salomão. O que seria isso? Jamais ouvira falar qualquer coisa a respeito deles. Além do caderno, outros três livros permaneciam sobre a mesa, talvez as últimas leituras feitas pelo velho frade, derradeiro guardião daquelas preciosidades. Após fixar a vela na mesa com alguns pingos de cera derretida, Michael tomou um dos livros ao acaso e surpreendeu-se com o título perturbador: Segredos Ocultos da Igreja. Logo nas primeiras páginas, intrigou-se com o nome do capítulo inicial: “Da prisão do demônio pelos templários”. Isto encheu o moço de curiosidade. Apanhando o segundo livro, quase caiu de costas. Era o Evangelho de José de Arimateia, uma obra que durante muito tempo foi considerada irreal, imaginária, pois apenas constavam referências a ela em alguns textos apócrifos, e ninguém sabia se tal evangelho existia de fato. O terceiro livro era ainda mais surpreendente: o diário de Jacques de Molay. Michael gostava muito da história dos templários e sabia que ele tinha sido o último grão-mestre da Ordem. Segundo a maioria dos historiadores, Jacques de Molay era analfabeto, mas o seu diário provava exatamente o contrário. Os três livros estavam escritos em latim, língua que o rapaz conhecia. Tinha grande facilidade para aprender idiomas e falava italiano, inglês e francês, além de se virar em espanhol e português. Ele os deixou sobre a mesa e pôs-se a retirar algumas obras das estantes. Parecia uma criança que ganhou vários brinquedos de aniversário e não sabe com qual brincar primeiro. Quando já estava se aprontando para retornar, ouviu um barulho estranho lá em cima, como se alguém estivesse descendo as escadas. Uma sensação de medo muito intensa passou a dominá-lo. - Há alguém aí? – proferiu. Por alguns instantes, ficou esperando uma resposta. Teriam seguido o moço até a misteriosa biblioteca dos templários ou seria aquela estátua de cera que ganhara vida e vinha defender o segredo da 27


Ordem do indesejado intruso? Seja como for, Michael apanhou os três livros sobre a mesa, pois estava ansioso para os ler no silêncio de sua cela. Frei Felício não os separara ali por acaso e, intimamente, o rapaz acreditava que tudo aquilo era apenas o início de um imenso mistério a ser solucionado...

(Fim do Capítulo 1)

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