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Semanário da Arquidiocese de São Paulo ano 59 | Edição 3032 | 17 de dezembro de 2014 a 7 de janeiro de 2015

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Natal

Reprodução do filme “Jesus, a História do Nascimento”

Porque um menino nos nasceu, um filho nos foi dado... e seu nome é: Conselheiro maravilhoso, Deus forte, Príncipe da Paz. (Cf. Is 9.6) “Eu vim para que tenham vida, e a tenham com abundância” (Jo 10,10), anuncia o Filho de Deus feito homem, nascido na humilde gruta de Belém, para a salvação do mundo. Nesta edição especial de Natal, O SÃO PAULO apresenta a força da vida expressa na

Cardeal convida a viver bem a ‘festa da vida’ Página 3

solidariedade de quem doa, na adoção de crianças, na inclusão pela música, no perdão a quem deseja recomeçar, na determinação de quem supera as limitações do corpo e no diálogo ecumênico e inter-religioso. É Natal de Jesus, expresso nos presépios da cidade. E por

‘Jesus não é personagem do passado’, diz Papa Página 4

falar nisso, como lembra o Cardeal Scherer, “como está o presépio em sua casa? Vamos recuperar e valorizar esse símbolo cristão, não deixando que seja desvirtuado do seu significado originário?” Páginas 11 a 22

Diáconos ordenados para o serviço da caridade Página 24

Dom Milton se despede da Arquidiocese de SP Página 23


2 | Ponto de Vista |

17 de dezembro de 2014 a 7 de janeiro de 2015 | www.arquidiocesedesaopaulo.org.br

editorial

A fecundidade sempre foi sinal da Bênção Divina derramada sobre as famílias, desde o povo de Israel. A Igreja deu continuidade a esse ensinamento ao longo dos séculos. Até passado recente, ter uma família numerosa era considerado normal. O Beato Paulo VI, cujo pontificado coincidiu com a explosão dos métodos contraceptivos, ressaltava, na Humanae Vitae, a ligação intrínseca entre o Matrimônio e a fecundidade. Um dos parágrafos da Encíclica mencionava o termo “regulação dos nascimentos”. Isso demonstrava que, por motivos graves, o casal poderia espaçar o nascimento dos filhos, o que é bem diferente de “fechar a fábrica”, termo pejorativo

Amor é... ser fecundo

utilizado para dizer que determinado casal não terá mais crianças. A ideia de “motivos graves” acabou se alargando em nossos tempos. A cultura do bem-estar gerou o onipresente conceito, repetido como mantra: “qualidade de vida”. Paradoxalmente, os casais com melhores condições financeiras, que, em tese, poderiam ser mais generosos na formação de famílias numerosas, são, com raras exceções, os que mais utilizam argumentos como: “antigamente era mais fácil ter mais filhos, hoje a vida está muito cara”; “prefiro ter um ou dois filhos (de preferência um casalzinho) para poder pagar uma boa escola, propiciar que aprendam

outros idiomas, que viajem para a Disney etc.”. O Papa mencionou esses e outros motivos quando, recentemente, criticou aqueles que veem “com pavor” (palavras literais de Francisco) a ideia de ter uma família numerosa. Os governos que, há décadas, implantaram e disseminaram no Brasil uma política de esterilização e contracepção, têm grande parcela de culpa na aceitação dessa cultura antinatalista; colhem hoje os frutos dessa política. Nosso País viu sua pirâmide etária ser invertida. Em pouco tempo, seremos um país de idosos, com a previdência social cada vez mais em déficit, com poucos contribuintes jovens. Políticas públicas que incentivem e prote-

jam famílias com maior número de filhos seriam bem-vindas. Voltando à família, nossos antepassados poderiam contra-argumentar dizendo o contrário do que os “sensatos” casais hodiernos apregoam. Com sacrifício, as gerações anteriores formaram, sustentaram e educaram famílias grandes, de homens e mulheres com têmpera. E talvez puxem as orelhas contemporâneas alertando que mais do que um problema econômico, a questão de fundo tem a ver com fé. Na hora de fazer as contas, não deveriam esquecer que, além dos números, de receitas e despesas, há uma parcela importante a somar: Deus.

opinião

A festa da gratuidade Sergio Ricciuto Conte

Francisco Borba Ribeiro Neto Para nós católicos, o Natal tal como é celebrado hoje em dia sempre causa certo incômodo e mal-estar. Parece uma estranha festa de aniversário para a qual o aniversariante não foi convidado – e às vezes parece nem mesmo ser bem-vindo. A mercantilização de todas as esferas da vida, típica de nossa sociedade, parece estar fazendo com o Natal exatamente o que o Cristianismo fez com a festa do solstício de inverno, na Roma antiga. Até 25 de dezembro, os dias do ano vão ficando mais curtos e a noite mais longa no hemisfério norte. A partir dessa data, o processo se inverte – indicando que o sol recomeça a “vencer as trevas” da noite. Os cristãos, reza a tradição, teriam se apropriado da festa romana que ocorria nessa data, comparando o nascimento do Cristo à vinda do sol vencedor das trevas da morte. Hoje, quem se lembra da celebração romana do solstício quando pensa no Natal? A mesma coisa parece estar sendo feita pela nossa sociedade: a mercantilização da vida se apodera do Natal, que parece deixar de ser a festa do Cristo que vem para ser uma nova celebração do consumo. Mas será só isso? Não, a festa do natal do consumo – como todas as festas do consumo “inventadas” pelo comércio – traz em si uma contradição inevitável: o consumo não pode ser celebrado em si mesmo, um acontecimento ou uma pessoa tem que ser a razão da festa, o motivo do consumo. Isso é bem claro em nossos dias das

mães, dos pais ou dos namorados. O que se comemora nesse natal do comércio, nesse aniversário sem aniversariante? O próprio “dom”, o presente, o prazer de dar. Para os adultos é o momento, cada vez mais raro em nossa cultura, em que se tem que reconhecer que dar alguma coisa a outro pode trazer felicidade.

Para todos, adultos e crianças, é a ocasião de esperar ou fantasiar um acontecimento de pura gratuidade, a existência de uma pessoa que vive distribuindo o dom da vida e da alegria – um Deus esperado, de modo declarado ou velado, por todos os homens; ou um Papai Noel de fantasia, uma ilusão que delicia nossas

crianças, as anestesia para as contradições da vida, mas deixa aberta a ferida de uma gratuidade que parece impossível no cotidiano. Qual criança, acreditando em Papai Noel, não enfrentou a tristeza inevitável e inconsolável de saber que, terminada a festa, ele só voltará dali a um ano? Para uma Igreja que deseja sair de si, ir ao encontro das pessoas, como pede o Papa Francisco, não basta condenar o consumismo e a comercialização do Natal. É necessário recuperar esse desejo de amor, essa ânsia por um dom gratuito, que se manifesta – inevitável – mesmo neste Natal comercializado de nossos tempos. O maior escândalo do Natal não é o delírio consumista dos que podem comprar, mas a carência dos que aparentemente nada têm para celebrar neste dia. Dos que estão “nas periferias da existência”, vítimas da pobreza material e/ou da solidão sem sentido. Temos que compreender que quando a Igreja propõe ao mundo o amor gratuito do Deus feito homem, propõe algo que corresponde profundamente ao coração de todos nós – sejamos adultos afobados querendo comprar uma felicidade que não está à venda, sejamos crianças excitadas com a perspectiva do brinquedo novo. Temos que compreender que a felicidade não está na celebração fechada em si de um natal consumista, mas no Natal que nos envia às periferias da existência, imitando o Aniversariante esquecido. Francisco Borba Ribeiro Neto é sociólogo e coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP.

As opiniões expressas na seção “Opinião” são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editorais do jornal O SÃO PAULO.

Semanário da Arquidiocese de São Paulo

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cardeal odilo pedro scherer Arcebispo metropolitano de São Paulo

“Hoje, amados filhos de Deus, nasceu nosso Salvador. Alegremo-nos! Não pode haver tristeza no dia em que nasce a vida; uma vida que, dissipando o temor da morte, enche-nos de alegria com a promessa da eternidade” (cf Liturgia das Horas do Natal). Esse convite a viver as alegrias do Natal, do Papa São Leão Magno, do século V, nos ajuda a compreender melhor a importância e o valor da vida humana: o próprio Filho de Deus, sem deixar de ser o que era desde a eternidade, também quis experimentar nossa vida humana, tornando-se um de nós. São João, no Prólogo do seu Evangelho, diz que “nele estava a vida e a vida era a luz dos homens” (Jo 1,4). Em Jesus, a vida manifestouse e tornou-se próxima; a vida eterna “tornou-se visível para nós” (cf 1 Jo 1, 1-3). Aquele que veio no Natal veio da “fonte da vida”, que deu origem a toda vida (cf Jo 1,10). Ele veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (cf Jo 10,10), o manancial do qual todos podem beber e se saciar da “água da vida” (cf Jo 4,14). Ele mes-

Natal, festa da vida mo é “o caminho, a verdade e a vida” (cf Jo 14,6). Veio a este mundo para restaurar a vida, marcada pela morte, e restituir a dignidade a toda vida humana; veio superar o poder da morte e se tornar o vencedor do pecado. Senhor da vida, ele caminha à frente dos seus, para introduzir no seu Reino de vida eterna a todos aqueles que o seguem. O mistério do Natal nos confronta com a simplicidade e a fragilidade da vida: O Filho de Deus nasce pequenino, dependente em tudo de sua mãe, como qualquer criança. Diante da humildade da manjedoura, desarma-se qualquer soberba e autossuficiência humana. Nele, Deus veio ao encontro de toda pessoa e ninguém deve sentir-se esquecido ou menos amado: Ele se fez tudo para todos, para salvar a todos. Se cada vida humana é tão preciosa aos olhos de Deus, deve sê-lo para nós também: “tanto Deus amou o mundo, que lhe enviou seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna!” (cf Jo 6,39). Que pena, pelas vidas desprezadas, vilipendiadas, injuriadas, pisoteadas, violentadas... Que pena, pelas vidas abortadas, assassinadas, com-

pradas e vendidas! É a mesma carne que o Verbo-Filho de Deus um dia assumiu e dignificou. Não nos é permitido desprezar a obra de Deus! Diante de Deus, ninguém é um número, um ser sem rosto, nem peça insignificante na grande máquina do universo: “és precioso para mim, chamei-te pelo nome, és meu” (cf Is 43,1). Cada pessoa conta aos seus olhos e, por isso, o Filho Eterno “veio para os seus”, mesmo sabendo que os “seus” nem sempre o reconhecem e acolhem (cf Jo 1,11). Por isso, convida ainda São Leão Magno: “toma consciência, ó cristão, da tua dignidade!” O Natal é o máximo da valorização da vida humana. Que as mães sejam reverenciadas porque geram e acolhem a vida; as crianças sejam olhadas com carinho: são botões de vida, flor delicada, “sorriso de Deus” para a humanidade; os doentes, idosos e todos os que sentem a vida fragilizada sejam socorridos; quem está encarcerado e os que vivem em situação de risco sejam cuidados. E quem é forte e tem saúde, dê graças a Deus pela vida e faça o bem ao próximo! Feliz e abençoada celebração do Natal, festa da vida!

| Encontro com o Pastor | 3

Dia de Nossa Senhora de Guadalupe Luciney Martins/O SÃO PAULO

O Cardeal Odilo Pedro Scherer presidiu, na sexta-feira, 12, na Catedral da Sé, a missa da Festa de Nossa Senhora de Guadalupe, em celebração que reuniu membros da comunidade latino-americana de São Paulo. A imagem da padroeira da América Latina foi acolhida antes da celebração, acompanhada de flores, incenso e das bandeiras de países Latino-americanos. Também não faltou o som dos mariachi, grupo de músicos tradicional no México.

Proteção para os imigrantes “Hoje, lembrando Nossa Senhora de Guadalupe, lembramos também as muitas necessidades do nosso povo latino-americano, seja em seus países, seja aqui em São Paulo, cidade que recebe tantos imigrantes da América Latina”, salientou o Arcebispo, na homilia, chamando a atenção para as muitas situações de dificuldades pelas quais os imigrantes passam, como a exploração e a série de injustiças que chegam a sofrer. Em nome da Igreja de São Paulo, Dom Odilo manifestou a acolhida aos latinos. “Não se sintam estranhos. A mesma Igreja Católica aqui é aquela que vocês têm em seus países de origem e, portanto, é a mesma casa, mesma família. Sintam-se sempre em casa em nossas paróquias”, disse, pedindo, ainda, que ajudem a difundir a devoção à Nossa Senhora de Guadalupe.

Votos perpétuos Luciney Martins/O SÃO PAULO

No sábado, 13, na Capela do Sagrado Coração de Jesus, no bairro da Pompeia, em São Paulo, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo, presidiu os votos perpétuos das religiosas Guiliane Ciniciato Gonçalves dos Santos, Marlene Oliveira de Lima, e Mary Yamashita, Irmãs Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus. Durante a homilia, Dom Odilo ressaltou que a vocação religiosa é por iniciativa de Deus a graça do Batismo que desabrocha com tal força, que faz com que a pessoa deseje seguir mais de perto os passos de Jesus, vivendo a perfeição evangélica, e faz crescer a santidade da Igreja e renova o vigor apostólico. O Cardeal recordou que 2015 é o Ano da Vida Consagrada e conclamou os presentes a rezarem por todos os que dizem Sim à vocação da vida religiosa e sacerdotal. (Fernando Geronazzo e Daniel Gomes)


4 | Papa Francisco |

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L’Osservatore Romano

Com Jesus, a alegria está em casa A mensagem do Papa Francisco antes da oração mariana do Ângelus, no terceiro domingo do Advento, em 14 de dezembro, teve a alegria como tema. Na praça de São Pedro, cheia de crianças que levaram imagens do Menino Jesus para serem abençoadas, o Papa falou da alegria que já pode ser vivida pela proximidade do Natal. Francisco lembrou que nas duas primeiras semanas do Advento, a mensagem da liturgia era um convite “à vigilância espiritual para preparar o caminho para ‘o Senhor que vem’”. No terceiro domingo, porém, “a liturgia propõe outra atitude interior para viver a espera do Senhor, ou seja, a alegria”, a alegria de Jesus. O coração do homem, a família e cada povo deseja a alegria. E que alegria deve o cristão viver e testemunhar? O Papa responde: “aque-

la que vem da proximidade com Deus, da sua presença em nossa vida”. E não há outro lugar para procurar essa alegria a não ser em Jesus, alegria que não é esperada só no paraíso, mas aqui mesmo, uma alegria real que já é possível sentir. O Papa comentou um cartaz mostrado na praça que dizia que “com Jesus, a alegria está em casa”, e explicou que sem Jesus vivo, o ressuscitado, não existe alegria. Ele age em nós com a Palavra e os sacramentos. Todos os batizados, os filhos da Igreja, são chamados à mesma e bonita missão de João Batista, a acolher a presença de Deus e ajudar os outros a descobri-la. São Paulo, prossegue o Papa, indica as condições para ser missionários da alegria: orar, dar graças a Deus, deixar-se guiar pelo Espírito

Santo, buscar o bem e evitar o mal. Fazendo disso um estilo de vida, a Boa-Nova entrará em muitas casas e ajudará as pessoas a descobrir a salvação que Jesus oferece, porque nele se encontra a paz interior e a força para enfrentar a vida. O Papa fala da alegria dos santos e acentua que o cristão tem o coração cheio de paz, paz que permanece até nas tribulações. “Ter fé não significa não ter momentos difíceis, mas ter a força para enfrentálos sabendo que não estamos sozinhos. E essa é a Paz que Deus dá a seus filhos.” E o Papa conclui exortando a testemunhar que Jesus não é um personagem do passado. Ele é a Palavra de Deus que hoje continua a iluminar o caminho do homem. E suplica a Maria que “nos torne sempre alegres no Senhor, que vem libertar-nos de tantas escravidões interiores e exteriores”.

Visita pastoral Na tarde do domingo, 14, o Papa Francisco fez uma visita pastoral à Paróquia de São José no Aurelio, na zona oeste da Diocese de Roma. O Santo Padre se encontrou com as várias realidades da comunidade: as crianças e os jovens da Catequese, a comunidade de nômades, os enfermos e famílias com crianças batizadas durante ano. Ele também atendeu confissões de alguns penitentes e presidiu missa. “E a alegria do Natal é uma alegria especial: mas, é uma alegria que não é apenas para o dia de Natal, é para toda a vida do cristão. É uma alegria serena, tranquila; uma alegria que sempre acompanha o cristão. Mesmo em tempos difíceis, em momentos de dificuldade, essa alegria torna-se paz”, disse Francisco na homilia.

Dia Mundial da Paz Por ocasião do Dia Mundial da Paz, celebrado em 1º de janeiro de 2015, o Papa Francisco enviou mensagem em que propõe a reflexão sobre os conflitos e guerras ideológicas entre as religiões e países, chamando atenção para a necessidade do diálogo e da paz. O Papa alerta, ainda, para as diferentes formas de escravidão existentes no mundo e que é preciso “considerar todos os homens, “já não escravos, mas irmãos”. Ao final da mensagem, Francisco convoca os cristãos para que sejam “artífices da globalização da solidariedade e da fraternidade que possa devolver-lhes a esperança e levá-los a retomar, com coragem, o caminho através dos problemas do nosso tempo e as novas perspectivas que este traz consigo e que Deus coloca nas nossas mãos”. Leia a mensagem no site da Arquidiocese (www.arquidiocesedesaopaulo.org.br).

Festa de Nossa Senhora de Guadalupe Na Basílica de São Pedro, o Papa Francisco presidiu um celebração eucarística pela Festa de Nossa Senhora de Guadalupe, na sexta-feira, 12. Celebrada em espanhol, a missa foi acompanhada por instrumentos típicos do folclore latino-americano e cantos da Missa Crioula, composta por Ariel Ramirez, e dirigida na ocasião por seu filho. “A Santa Mãe de Deus não apenas visitou estes povos, mas quis permanecer com eles. Deixou impressa misteriosamente a sua imagem sagrada no “manto” de seu mensageiro para que nos recordássemos sempre, tornando-se assim símbolo da aliança de Maria com estes povos, a quem se confere alma e ternura”, disse o Pontífice. (Por Fernando Geronazzo)


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Espiritualidade

fé e cidadania

‘Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo’ (Mt 2, 2) Dom José Roberto Fortes Palau Bispo auxiliar da Arquidiocese na Região Ipiranga

A estrela é parte essencial dos enfeites de Natal. Mas qual é o principal significado da estrela, para nós cristãos? A estrela representa, na adoração dos magos, o nascimento do Messias. Depois de verem uma estrela, os magos se deixam nortear por ela. Eles eram originalmente sacerdotes persas, mas também astrólogos, por isso mesmo, conheciam as estrelas com precisão. Eles viram uma estrela diferente, provavelmente uma “conjunção estelar”. Os astrônomos falam de uma aproximação de Júpiter e Saturno ocorrida no ano 7 a.C. Como Júpiter era o astro dos reis, e Saturno, a estrela da Palestina, era perfeitamente possível que os astrólogos da Babilônia tivessem

interpretado essa constelação como sinal do nascimento de um filho real em Israel. Daí a procura dos magos pelo rei dos judeus. Os padres da Igreja também associaram Jesus a outra estrela, a “matutina”. A estrela da manhã é aquela que traz a luz. A Igreja primitiva levava a sério a realidade cósmica. Desde sempre, os homens foram fascinados pela luz clara da estrela matutina. Os padres da Igreja incorporam essa experiência cósmica e a relacionam com Cristo. Em Cristo, o mistério da estrela matutina é cumprido. Em seu nascimento, Cristo se ergue como a estrela matutina: “Porque vindo das alturas (...) trouxe a luz para nós, que nos encontramos na solidão e na sombra da morte”. Mas além da realidade cósmica, a estrela representa também nossa “busca de Deus”: almejamos uma realidade que transcende o mundo criado. Almejamos o mundo divino. Os magos não representam apenas outros povos e culturas, mas também nossa própria “busca de Deus”. Eles só chegam a Jesus quando se põem a caminho, e ainda, quando não têm vergonha

de pedir ajuda: “Onde está o rei dos judeus (...)” (Mt 2,2a). Deixam para trás tudo que sabiam e, admirados, caem de joelhos perante o mistério de Deus, velado em Jesus Cristo. Realizam o que hoje convencionamos chamar de “itinerário da fé”. Buscam a verdade, são honestos, se deixam interpelar por ideias diferentes (a Sagrada Escritura, por exemplo) e ao fim dessa busca, conseguem encontrar Jesus. Sem sombra de dúvida: “uma busca honesta e dinâmica da verdade conduz até Deus” (por exemplo, Santa Edith Stein). Ao encontrar Jesus, aqueles magos fizeram uma profunda experiência de fé; experiência que mudou não apenas a mentalidade, mas a vida deles. Prova disso é que Mateus relata que eles voltaram por outro caminho, ou seja, a vida não foi mais a mesma para eles. Foram transformados pela experiência do Mistério. Hoje a estrela que deve conduzir as pessoas a Jesus é o nosso testemunho de vida. Devemos ser “Epifania (Luz) de Cristo” para o mundo. Feliz Natal, a todos!

eSPAÇO ABERTO

A imagem milagrosa de Nossa Senhora de Guadalupe Felipe Aquino A ciência não consegue explicar os sinais milagrosos da imagem de Nossa Senhora que apareceu no manto rústico do índio asteca San Juan Diego, em 1531. Experiências científicas realizadas indicam tratar-se de fenômeno inexplicável à luz das leis da natureza. Nenhum pintor conseguiria efetuar tal imagem. Nossa Senhora apareceu ao índio e disse a ele que pedisse ao primeiro bispo do México, Dom Juan de Zumárraga, para construir uma capela no lugar denominado Cerro de Tepeyac. O Bispo pediu ao índio que lhe levasse uma prova convincente de que dizia a verdade. Alguns dias mais tarde, retornou Juan Diego levando uma porção das chamadas “rosas de Castilla”, que não podiam florescer naquela estação do ano (mês de dezembro) e que ele afirmava terem sido entregues pela própria Vir-

gem, a fim de que as mostrasse ao Bispo. O jovem trazia as flores na túnica de juta e quando as entregou ao Bispo, milagrosamente a imagem da Virgem ficou estampada no seu rústico manto. Isso foi narrado em língua náhualt no século 16. Foi tão grande a devoção dos índios astecas e tantas peregrinações para render culto à imagem, que o evento foi até mencionado por Bernal Diaz del Castillo em sua magna crônica da conquista de Nova Espanha. Os exames científicos realizados por especialistas na imagem de Guadalupe chamam a atenção para vários fatos: a especial conservação do rude tecido. Durante séculos, esteve exposto, sem maiores cuidados, aos rigores do calor, da poeira e da umidade, e, todavia, sua tessitura não se desfibrou, nem tampouco desvaneceu a admirável policromia. O tecido com fibra de ayate se decompõe por putrefação aos 20 anos. A túnica de 1531 já dura mais de

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480 anos sem se rasgar nem decompor, e é imune à umidade e à poeira. A peça foi analisada pelo cientista alemão e prêmio Nobel de Química, Richard Kuhn, que concluiu: Os corantes da imagem “não pertencem ao reino vegetal, nem ao mineral e nem ao animal”. O Doutor Callagan, da equipe científica da NASA, e o professor Jody B. Smith, catedrático de Filosofia da Ciência na Pensacolla College submeteram a imagem guadalupana à análise fotográfica com raios infravermelhos. As suas conclusões foram as seguintes: é inexplicável, à luz dos conhecimentos humanos, que os corantes impregnem fibra tão inadequada e nela se conservem. Não há esboços prévios, a imagem foi pintada diretamente. Não há pinceladas. A técnica empregada é desconhecida na história da pintura. O famoso oculista hispano-francês, Torija Lauvoignet, e o Dr. Aste Tonsmann, que capta as imagens da Terra transmitidas no espaço pelos satélites, fizeram a digitalização da imagem em 1980, e encontraram na íris do olho da imagem a cena exata do índio entregando as rosas ao Bispo, o mesmo episódio relatado em náhualt por um anônimo escritor indígena e editado em náhualt e em espanhol por Lasso de la Veja, em 1649. Felipe Aquino é professor de Física e Matemática, autor de mais de 70 livros e apresentador dos programas “Escola da Fé” e “ Pergunte e Responderemos”, na TV Canção Nova, e “No Coração da Igreja”, na Rádio Canção Nova. As opiniões expressas na seção “Espaço Aberto ” são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, os posicionamentos editorais do jornal O SÃO PAULO.

O Natal é a festa dos insatisfeitos Frei Patrício Sciadini, OCD Feliz Natal a todos os insatisfeitos com a própria vida cristã de cada dia e que buscam com amor e intensidade uma qualidade de vivência do Evangelho que possa despertar as consciências e fazer-nos sonhar com um mundo melhor. No caminho do Advento, temos três pessoas que nos dão o sentido de uma intranquilidade. Maria, a mulher grávida que se coloca a caminho para que seu esposo José possa obedecer às leis impositivas do Império Romano. Ela caminha grávida de esperança e sabe que o filho que nascerá dela é obra do Espírito Santo, e irá reconstruir o mundo de paz; O menino Jesus, que ainda está no seio de sua mãe, mas que é presente no caminho do primeiro Natal. Jesus colocará a semente da inquietação e da insatisfação pelo mundo presente no coração de todos os seus seguidores: “sejais perfeitos como é perfeito o vosso Pai que está no céu”. Com o projeto das bem-aventuranças, quem escuta Jesus será fermento novo na massa da humanidade; E José, o homem dócil, silencioso, mas forte na sua missão. O primeiro Natal em Belém não foi festa com comes e bebes, com presentes e com luzes. Foi um Natal feliz, mas de uma felicidade que nós não podemos compreender, porque temos “coisificado” a felicidade. No primeiro Natal, a felicidade se chama Vida, Amor, Acolhida. Os pastores estão insatisfeitos da própria Vida, mas satisfeitos pela vida. Eles vão porque sabem que a vida de uma criança é um dom inestimável e que deve ser festejada. E voltaram para o próprio trabalho satisfeitos, porque viram e contemplaram a vida em plenitude. Quem está fechado na própria felicidade não pode sentir a alegria do Natal. Quem é insensível diante do sofrimento dos outros não sabe a alegria do Natal. Precisamos sentirnos tristes pelas nossas festas, feitas somente de nós e do grupo dos nossos amigos, que vem nos visitar com dons, presentes. Precisamos sentir o Natal com outros sentimentos. E enquanto todos não tiverem vida e vida em abundância, devemos estar insatisfeitos e rejeitar o que nos é supérfluo, para que os outros tenham o que é necessário. Feliz Natal a todos os insatisfeitos, e péssimo Natal aos satisfeitos, para que se tornem insatisfeitos e possam, com a graça de Deus, tentar mudar de vida. Jesus veio para colocar insatisfação na nossa vida satisfeita de materialismo, para nos dar a alegria de criar uma nova sociedade, feita não mais de egoísmo, mas de partilha.


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novos santos e beatos

LITURGIA E VIDA 4º DOMINGO DO ADVENTO 21 DE DEZEMBRO DE 2014

Brotou o Salvador ANA FLORA ANDERSON

O mistério central na vida dos cristãos é a encarnação. Somos cristãos porque Deus se encarnou no homem, Jesus de Nazaré. Nesta semana antes do Natal, as leituras nos levam a contemplar esse mistério. A antífona descreve a nuvem que chove ao Justo e a terra que faz brotar o Salvador. A oração pede a Deus que pela encarnação, paixão e ressurreição de Jesus, os nossos corações possam receber a graça da vida trinitária. A primeira leitura (2 Samuel 7, 1-5.8-12.14.16) usa uma narrativa sobre o Rei Davi para nos ajudar a compreender a presença de Deus entre nós. Davi quer construir uma casa para Deus habitar entre seu povo. Deus, porém, revela que Ele implantou a Casa de Davi e que dessa Casa nascerá um filho de Davi, para o qual, Deus será um Pai. Na segunda leitura (Romanos 16, 25-27), São Paulo ensina que Jesus é a manifestação do mistério anunciado pelos profetas. Abençoados, devemos oferecer a glória ao Pai e ao Filho para sempre. O Evangelho de São Lucas (1, 26-38) apresenta a cena da anunciação à Maria. Deus revela que ela é cheia de graça e que Ele está presente nela. Maria não deve temer, pois dará à luz um filho chamado Jesus, que significa Javé Salva. Esse Filho reinará para sempre, pois Ele é o Santo, o Filho de Deus.

você pergunta

O final dos tempos está próximo? padre Cido Pereira

Vigário Episcopal para a Pastoral da Comunicação

“Padre Cido, diante dessa realidade cruel que o mundo vive atualmente, estaríamos caminhando para o final dos tempos?”, pergunta a Maria Lúcia Ferreira, de Santana do Parnaíba (SP). Muitos fazem essa pergunta, vendo o mundo se tornar cada vez mais cruel, viu Maria Lúcia? Haja vista a perseguição cruel aos cristãos por certos grupos muçulmanos, que destroem, matam, mutilam outras pessoas porque creem de um modo diferente delas. O Papa Francisco já gritou ao mundo que não se fere, não se mata em nome de Deus. Agora, se estamos no final dos tempos, eu acho que não. Estamos sim numa fase de crise profunda de valores. Estamos numa época de mudanças? Pior do que isso. Estamos numa mudança de época e todos estamos meio perdidos. Em vez de pensarmos, porém, em final dos tempos, em fim do mundo, vivamos a esperança de que o homem, a criatura mais perfeita que Deus pôs neste mundo, irá reencontrar os caminhos do bem. Eu até acho que o bem ainda supera o mal no mundo. Quando a gente menos espera, vem uma surpresa, alguém faz uma coisa boa, alguém dá um testemunho bonito de solidariedade. Sigamos um paizão que a gente teve como arcebispo de São Paulo. Eu estou falando de Dom Paulo Evaristo Arns. Nas horas mais difíceis, ele dizia a nós que colaborávamos com ele: “Esperança sempre!” Então, vamos em frente. Deus nos ama, Deus ama cada pessoa neste mundo. Deus nos fará reencontrar os caminhos do bem, do amor e da paz. Fique com Deus, minha irmã. Que ele abençoe você e sua família.

Santa Virgínia Centurione Bracelli 15 de Dezembro

Virgínia, riquíssima filha de um doge da República de Gênova, nasceu em 2 de abril de 1587. Esposa dedicada, cuidou do marido na longa enfermidade que o acometeu, a tuberculose. Gaspar, seu esposo, morreu em 1607, feliz por sempre ter sido assistido por ela. Ficou viúva aos 20 anos de idade. Assim, jovem, entendeu o fato como um chamado direto de Deus. Desenvolvia e promovia as “Obras das Paróquias Pobres” das regiões rurais, conseguindo doações em dinheiro e roupas. Mais tarde, com as duas filhas já casadas, passou a dedicar-se, também, ao atendimento dos menores carentes abandonados, dos idosos e dos doentes. Finalmente, em 1626, doou todos os seus bens aos pobres, fundou as “Cem Damas da Misericórdia, Protetoras dos Pobres de Jesus Cristo” e entrou para a vida religiosa. A sua atividade era incrível, só explicável pela fé e total confiança em Deus. Virgínia foi uma grande mística, mas diferente; agraciada com dons especiais, como êxtases, visões, conversas interiores, assimilava as mensagens divinas e as concretizava em obras assistenciais. Morreu no dia 15 de dezembro de 1651, com fama de santidade, na Casa-Mãe de Carignano, em Gênova. A devoção aumentou em 1801, quando seu túmulo foi aberto e seu corpo encontrado intacto, como se estivesse apenas dormindo. Virgínia foi beatificada em 1985. O mesmo papa que a beatificou, João Paulo II, declarou-a santa em

Reprodução

2003. O seu corpo é venerado na Capela da Casa-Mãe da Congregação, em Gênova, com uma festa especial no dia de sua morte. Porém, suas “irmãs” e “filhas” também a homenageiam no dia 7 de maio, data em que Santa Virgínia Centurione Bracelli vestiu hábito religioso. Fonte: www.paulinas.org.br

50

anos

Dom Agnelo Rossi toma posse na Arquidiocese de São Paulo

Capa da edição de 20 de dezembro de 1964

A edição do O SÃO PAULO de 20 de dezembro de 1964 foi publicada no mesmo dia em que Dom Agnelo Rossi tomou posse como o quarto arcebispo da história da Arquidiocese de São Paulo. Por conta disso, o jornal apresentou detalhes de como seria a posse do Arcebispo. “Chegando às 15h na Igreja de Santo Antonio da Praça do Patriarca, revestido dos paramentos pontificiais, irá em procissão até a Sé Catedral onde, recebido pelas autoridades eclesiásticas do regime em sede vacante, tomará posse da Arquidiocese, saudado na ocasião por Monsenhor Castro Neri, arcediago”. Na capa da edição também foi

publicado o brasão do Arcebispo, por ele mesmo explicado. “Nosso brasão de armas tem como figura central, em campo azul, uma cruz de prata, emitindo raios dourados, símbolo da Ação Católica Brasileira, significando nosso vivo empenho na expansão do reinado de Cristo, intimamente vinculado à devoção à Virgem Santíssima e ao Romano Pontífice”. O lema do arcebispo Oportet Illum Regnare também foi explicado pelo próprio Dom Agnelo. “É texto paulino da primeira epístola aos Coríntios, 15,25. ‘É necessário que Ele (Cristo) reine até que ponha todos os seus inimigos debaixo dos seus pés’”.

ATOS DA CÚRIA EXERCÍCIO DO MINISTÉRIO DIACONAL Em 13 de dezembro de 2014, foram ordenados diáconos os seminaristas João Henrique Novo do Prado e Wellington Laurindo dos Santos, que em 2015 exercerão seu ministério diaconal, respectivamente, nas regiões episcopais Ipiranga e Belém. Os neodiáco-

nos devem entrar em contato com os bispos auxiliares das regiões para onde foram designados para receberem a provisão específica de seus encargos pastorais. Em 13 de dezembro de 2014, foram ordenados nove diáconos permanentes, que exercerão seu ministério diaconal nas seguintes regiões episcopais: Região Episcopal Belém (Diácono Benedito José da Silva, Diácono

Francisco Jandui Gonçalves, Diácono Gilmar Freire Rodrigues e Diácono Marcelo Brito); Região Episcopal Santana (Diácono Antônio Ferreira Júnior e Diácono Francisco Eduardo Leme Nogueira); Região Episcopal Lapa (Diácono José Donizeti Leonel); Região Episcopal Brasilândia (Diácono José Jindarley Santos da Silva); e Região Episcopal Sé (Diácono João Carlos Franco de Barros Fornari). Os neodiáconos

devem entrar em contato com os bispos auxiliares das regiões para onde foram designados para receberem a provisão específica de seus encargos pastorais. ÓBULO DE SÃO PEDRO A Mitra Arquidiocesana informa que o valor arrecadado na Arquidiocese de São Paulo na Coleta do Óbulo de São Pedro 2014 foi de R$ 306.846,37, em valor bruto.


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8 | Igreja em Missão |

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Destaques das Agências Nacionais

Nayá Fernandes

nayafernandes@gmail.com

Universitários participam de Vigília de Natal Fotos: Luckas Judocka

Já passava das 5 horas da manhã do sábado, 13, quando o Padre Vandro Pisaneschi, coordenador do Vicariato Episcopal para a Educação e a Universidade, retirou a Hóstia Consagrada do ostensório para levá-la ao sacrário. O semblante de quem passou a noite em oração por nove horas, na Igreja Coração de Maria, mais conhecida como Capela da PUC-SP, Campus Perdizes, expressava o desejo de permanecer ali por muito mais tempo. Desde às 21h de sexta-feira, 12, jovens universitários de vários movimentos e novas comunidades, cada um com o seu carisma, se revezavam para conduzir os momentos de oração na vigília. Cerca de 300 pessoas lotaram a Capela na missa de abertura da vigília universitária de preparação para o Natal e em honra a Nossa Senhora de Guadalupe, presidida por Dom

Carlos Lema Garcia, bispo auxiliar de São Paulo e vigário episcopal para a Educação e a Universidade, concelebrada pelo Padre Vando Valentini, coordenador da Pastoral Universitária da Arquidiocese, e por outros padres. Compareceram, também, Dom Julio Endi Akamine, bispo auxiliar de São Paulo e vigário para a Região Episcopal Lapa, e a professora Anna Maria Marques Cintra, reitora da PUC-SP. Dom Carlos afirmou que a vigília foi o momento para intensificar a preparação para o Natal. “O Natal é essencialmente Jesus Cristo, o mesmo Cristo presente na Eucaristia e conservado sobre o altar”. Concluindo sua fala, disse: “Esta vigília foi um ponto de partida para o trabalho de evangelização a ser realizado por cada um dos professores ou dos estudantes, que, pelo Batismo, são responsáveis por essa missão”.

Sacerdotes estavam disponíveis para o sacramento da Confissão. Gabriela Previati, do Movimento de Emaús, afirmou que se confessar a fez “esvaziar-se” de todos os sentimentos ruins e de toda angústia. “Para mim foi um verdadeiro conselho espiritual. Eu me enchi do Espírito Santo na presença do Santíssimo, sentindo o meu coração arder em cada momento de louvor na vigília”. Magna Rocha, da Comunidade Católica Shalom, disse que foi uma grande alegria passar a noite na presença do Senhor com irmãos de diferentes expressões da Igreja; todos juntos em torno de Cristo, amando e sendo amados por Deus. “O tempo passou muito rápido e ficou o desejo de permanecer mais tempo naquela presença de paz, presença de Jesus manso e humilde de coração”, completou. Por Diego Monteiro

Vigília prepara a festa de Natal e reúne comunidade universitária na Capela da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) durante toda a noite da sexta-feira, 12

A arte de recontar a história de Jesus A terceira edição do espetáculo “Filho de Deus Menino Meu” terá duas apresentações no dia 21, no Parque Quinta da Boa Vista, em São Cristovão, no Rio de Janeiro (RJ). São mais de 20 locais do Rio, como shoppings, praças, faculdades, pontos turísticos, que recebem as versões reduzidas, de 15 de novembro a 29 de dezembro. A apresentação integral

terá sessões somente no dia 21. O musical “Filho de Deus Menino Meu”, inspirado no livro homônimo de Emmir Nogueira, encena o nascimento de Jesus de forma alegre, jovial e dinâmica. Figurino, cenário e trilha sonora usam expressões de diversas regiões brasileiras, tornando nova a história que é contada há mais de 2000 anos. Foto: Arquidiocese do Rio

Festa da Vida em Fortaleza A Festa da Vida na Arquidiocese de Fortaleza nasceu para ser espaço de celebração e visibilidade das ações em defesa da vida, realizadas pelas pastorais, movimentos, organizações, entidades eclesiais e civis. É também espaço privilegiado de conhecimento, partilha, diálogo e confraternização das pessoas cuidadoras da vida. Ligada à Campanha da Fraternidade, no ano de 2014, a Festa da Vida

teve como tema “Vida e Liberdade! Não ao tráfico humano!”, chamando todas as pessoas a um compromisso concreto com a causa das vítimas do tráfico. Também insere ainda mais no tempo litúrgico do Advento: tempo de esperança e alegria pela vida que nasce. O evento foi realizado na Paróquia São Francisco de Assis, no dia 14. Fonte: Arquidiocese de Fortaleza

Diocese de Santarém se solidariza com os indígenas no Rio Maró O bispo de Santarém (PA), Dom Flavio Giovenale, e representantes das pastorais sociais, manifestaram solidariedade aos povos indígenas da região do baixo rio Tapajós e os Borari e Arapium, que vivem na Terra Indígena Maró, e vêm sofrendo discriminação e negação de seus direitos. No texto, a Diocese ressalta que, “o mais duro golpe foi

dado pelo juiz federal Airton Portela, que em sentença do dia 26 de novembro, determinou que o Relatório de Identificação da Terra Indígena (TI) Maró não tem qualquer validade jurídica, pois aqueles moradores não são indígenas”. E ainda que “a decisão de primeira instância da Justiça Federal do Pará também não pode ser aceita porque vai

contra a Constituição Federal de 1988, que afirma no Artigo 231: ‘São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens’. Não compete ao Estado decidir quem é e

quem não é indígena. São os próprios indígenas que têm o direito de se autoidentificar enquanto tais, conforme estabelecido na Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT)”. Na mensagem, eles afirmaram que os indígenas podem contar sempre com o apoio da Diocese. “Ficamos esperançosos e felizes que,

apesar de séculos de perseguição, exploração e desrespeito à sua cultura, vocês continuam orgulhosos da sua história, das suas crenças e práticas tradicionais e, principalmente, da sua identidade como povos indígenas. E nisso, vocês contaram e continuam contando com o nosso apoio e reconhecimento.” Fonte: CNBB


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Destaques das Agências Internacionais

Filipe David

osaopaulo@uol.com.br

ESPANHA

Maior presépio do mundo Neste Natal, o maior presépio do mundo está em Jerez de los Caballeros, na Espanha. Ele ocupa 600 metros quadrados e possui mais de 7,5 mil peças, ilustrando as principais passagens bíblicas referentes ao nascimento de Cristo. A tradição de construir presépios na região é secular e remonta, em Jerez de los Caballeros, ao século XVII. No mundo, o primeiro a construir um presépio foi, ao que tudo indica, São Francisco de Assis, em Greccio, na Itália, no século XIII. Pouco a pouco, a prática se difundiu por toda a Europa e demais continentes. Fonte: Hoy.es

Uma das cenas representadas pelo Presépio Santa Ângela da Cruz, o maior do mundo no seu gênero

EUROPA

PAQUISTÃO/ALEMANHA

100 anos de uma partida de futebol inesquecível Em plena Primeira Guerra Mundial, há exatos cem anos, na semana do Natal de 1914, ingleses e alemães decidiram interromper os combates e estabeleceram uma trégua informal, parando a guerra em muitos pontos ao longo da frente de batalha. Ao que tudo indica, a proposta de interromper os combates por oca-

Site Hoy

Campanha em favor de Asia Bibi

sião do Natal veio principalmente do lado alemão, mas foi do lado inglês que vieram as propostas para um futebol entre amigos ou inimigos de guerra. Houve várias partidas e o episódio entrou na história como a “trégua de Natal” da primeira grande guerra. Fonte: The Guardian/ BBC

A seção alemã das Pontifícias Obras Missionárias lançou uma campanha de Natal de oração e solidariedade em favor de Asia Bibi, uma cristã condenada à morte por “blasfêmia” no Paquistão. Como parte da campanha, foi entregue ao governo alemão uma petição com mais de 18 mil assinaturas para que ele ponha em prática todos os eforços

diplomáticos possíveis para conseguir a libertação de Asia Bibi, de forma que ela possa viver em segurança com sua família. Enquanto isso, Asia aguarda o julgamento de seu caso pela Suprema Corte do Paquistão, último recurso possível para tentar escapar da condenação à morte. Ela está presa desde 2009. Fonte: Fides

CHINA

Comunidade católica se prepara para o Natal As comunidades católicas da China continental lançaram diversas iniciativas para ajudar os fiéis a se preparar para o Natal, principalmente os idosos e outras pessoas com dificuldades de locomoção, impossibilitadas de ir à Igreja. Uma organização

MÉXICO 5 mil confissões

católica, a Jinde Charities realiza desde 2005 uma campanha de Natal para ajudar pessoas carentes no País. Neste ano, o tema será “Eu caminho contigo” e terá três intenções principais: ajudar crianças com deficiência ou com o vírus do HIV/AIDS, realizar

o sonho de jovens que não têm condições de pagar para estudar – cerca de mil meninas de zonas pobres e de minorias étnicas – e oferecer assitência odontológica a mil idosos sozinhos ou de famílias pobres. Fonte: Fides

InDONÉSIA

Católicos e protestantes assinam mensagem de Natal conjunta

Em resposta à exortação do Cardeal Norberto Rivera Carrera, cerca de 5 mil fiéis receberam o sacramento da Confissão durante 12 horas na Catedral da Cidade do México. Trinta sacerdotes estiveram disponíveis em turnos para que todos pudessem se confessar no início do Advento, como preparação para o Natal. Muitos que não têm tempo para se confessar no dia a dia puderam usufruir da maratona de confissões oferecida na Catedral. Fonte: CNA

Foi publicada, por ocasião do Natal, uma declaração conjunta assinada pelos arcebispos de Jacarta e Semarang, Dom Ignatius Suharyo e Dom Johannes Pujasumarta, e pelos responsáveis pela Comunhão das Igrejas – que reúne as Igrejas protestantes no País – Andreas Yewangoe e Gomar Gultom. Na mensagem, eles lembram que a família é um lugar da presença de Deus e realiza

um papel importante na história da salvação. A declaração, intitulada “Se encontrar com Deus em família”, sublinha diversos desafios enfrentados pelas famílias no País, como a pobreza, a violência doméstica, as drogas e o alcoolismo, e chama a atenção para a ameaça que representam o aborto, a prostituição e o tráfico de seres humanos.

A mensagem também convida a privilegiar os momentos de oração e meditação sobre a Palavra de Deus, que se tornam “essenciais” quando “a presença de Deus é difícil de ser sentida”. Lembrando que o Senhor se faz presente no seio familiar, o texto conclui dizendo que assim “a família se torna graça e bênção para todos e boa-nova para o mundo”. Fonte: Fides


A história do filme de Hollywood, que parece filme de Hollywood Luiz Otávio Ugolini Vianna Uma verdadeira batalha campal está sendo travada de baixo de nossos narizes, e nós sequer temos percepção do que está ocorrendo: a guerra cibernética. Ela é diferente de tudo o que já vivemos antes. Em batalhas na vida real, é fácil identificar atores, quantificar exércitos e comparar forças, mas como fazemos isso no mundo virtual? Quem está lutando? Quais são os seus interesses? Difícil, não? É assunto comum para nós que desenvolvemos soluções para a internet, planejar ações que visam proteger sistemas e portais contra os chamados “acessos indevidos”. Confesso, é um trabalho árduo. Agimos tentando antecipar cada situação, cada brecha, cada oportunidade para bloqueá-las antes que um aventureiro as utilize. Mas qual o nome de nosso inimigo, o “hacker”? Olhando para a história recente, podemos observar como o imaginário da figura do “hacker” tem variado. Inicialmente, seu estereótipo era de um estudante de faculdade, provavelmente um “nerd”, que até horas da madrugada, a partir de seu computador em casa, buscava maneiras de bisbilhotar a vida alheia. Depois, com casos ligados a operações com internet banking, o “hacker” passou a ser visto como um oportunista. Continua bisbilhotando as coisas, mas na busca de senhas de acesso. No imaginário coletivo, assim como nos filmes, criou-se a imagem de alguém que é inimigo do sistema, das instituições financeiras, quase um anti-herói, algo que estaria num universo fora do nosso círculo. O caso da Sony, ocorrido nos últimos dias, nos trouxe uma nova percepção do que pode estar de fato ocorrendo. A empresa acaba de filmar uma comédia, uma trama para assassinar o líder coreano: Kim JongUn. O filme causou reclamações do país asiático, tendo sido chamado de “terrorismo sem disfarce”, em tradução literal. Na última semana, o tema chegou às páginas policiais. A Sony teria sido invadida, após ameaça por e-mail, para não divulgar ou lançar o filme que poderia “prejudicar a paz regional e causar a guerra”. Como resultado da invasão, cinco filmes inéditos da empresa, inclusive um estrelado por Brad Pitt, foram roubados e estão sendo disponibilizados para download gratuito em sites de pirataria. Alguns dizem que por trás das ameaças estaria um grupo que havia pedido dinheiro para não atacar, outros que os ataques teriam sua origem na Coreia do Norte. Difícil saber. Independente da origem, as perdas financeiras da empresa são astronômicas, dado ao apetite de muitos pela possibilidade de baixar os filmes gratuitamente o que, convenhamos, está tão errado quando o crime que “deu origem à série”. Luiz Otávio Ugolini Vianna é engenheiro e Diretor de Tecnologia da Mult.Connect

Comportamento

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Cuidar da saúde

Tecnologia

10 | Viver Bem |

As maravilhas da natureza Valdir Reginato Quando foi que você assistiu um pôr do sol, sem prédios pela frente? Você sabe que fase da lua está hoje? Qual foi sua última viagem a uma cachoeira, onde permaneceu sentado numa pedra, ouvindo aquela música, sentindo a brisa molhada no rosto, sem pressa para se levantar? E aquela parada na estrada, onde se avistava as curvas de um rio a se perder no horizonte distante, para onde viajamos em pensamentos? Lembra-se daquele vaso de plantas que disse que cuidaria na sua sacada, ou no quintal? Ainda está vivo? Pois é, tudo isso nos recorda as maravilhas da natureza! O que sempre foi óbvio aos sentimentos humanos, agora a Ciência “prova” pelos estudos. (“A Cura pela Natureza”, Revista Scientific American, Mente e Cérebro, ano XXI, nº 263, p. 22-31). Viver em harmonia com a natureza é o grande remédio para muitos males que afligem o homem moderno. Será que é tão difícil compreendermos que levantar e poder abrir a janela do quarto e encontrar um jardim, com o canto dos pássaros, é muito melhor do que olhar a parede colada do vizinho e ouvir buzinas? É evidente que não! As comparações poderiam se multiplicar e, sem dúvida, todos concordariam que hoje vivemos um novo mal: o “Transtorno do déficit de natureza”. Não podemos nos distanciar por muito tempo do verde dos campos, do frescor das praias, das alegrias dos jardins de primavera e da serenidade do pôr do sol no verão, assim como da paz das estrelas de uma noite de lua nova... Mas como conseguir tudo isso morando numa cidade como São Paulo? É preciso voltar à realidade. Contudo, estar na realidade não significa esquecer o quanto a natureza nos faz bem, ao corpo e à alma. É preciso programar o passeio de final de semana com a família. E agora que vêm as férias escolares, é preciso aproveitar para levar as crianças a descobrir as alegrias da natureza! Muitas vezes, deixamos de fazer o possível porque estamos sempre querendo o que não alcançamos. Abando-

namos o bom, porque não podemos fazer o ótimo. Se programarmos a tarde no parque ensolarado e vier a chuva, alegremo-nos com a chuva! O quanto é uma bênção a água a nós todos! A sua música, o seu correr que faz curvas para chegar a todos os cantos... Se não há dinheiro para o hotel por um fim de semana inteiro, que se faça o almoço num restaurante de estrada onde se possa olhar, de um mirante, a grandiosidade das montanhas e o colorido dos campos. Se não podemos sair de casa, olhemos e cuidemos da nossa planta no jardim, no terraço ou na área de serviço, e imaginemos que ela é a representante da vida da natureza no meu “pedacinho de chão”, onde moro. Se nem da cama posso sair, pela janela olharei o pedaço possível do céu e pensarei na grandiosidade do universo. E se nem isso puder, então, colocarei uma música que me embale, no cantar dos pássaros ou com a melodia da chuva, e fechando os olhos deixarei a paz inundar o meu espírito. Precisamos voltar a viver a natureza, essa mãe maravilhosa, que nos acolhe e com quem nem sempre nos comportamos como bons filhos. Porém, ela, com sua grandiosidade, nos espera e acredita que um dia voltaremos a nos comportar como no paraíso, quando tudo foi feito por Deus para a nossa felicidade, e nada nos faltava. Que em cada dia, pensemos como São Francisco. Esse santo que fez de toda a natureza a sua enorme família, vendo, em todos, irmãos: no sol e na lua, na castidade da água, e no calor da força

Infecção intestinal Cássia Regina É muito comum nesta época de festas, chegarem pessoas em Pronto-socorro com diarreia. Algumas vezes, são de fácil resolução, mas outras vezes podem se complicar. Existe uma bactéria chamada Salmonella, que se encontra presente em alimentos que permanecem em exposição ao calor sem refrigeração correta. O mais perigoso é que ela

pode causar infecção intestinal, provocando, também, dor abdominal e febre e é necessário tratamento com antibióticos. Por isso, cuidado com comidas muito manipuladas, que ficam expostas por longo tempo, como maionese, bolo, tortas, que são ambientes propícios para que essa bactéria se prolifere. Boas festas! Dra. Cássia Regina é médica na Estratégia de Saúde da Família (PSF)

Sergio Ricciuto Conte

do fogo, no gorjeio dos pássaros, e na fidelidade do cão, no cheiro da grama molhada e na beleza da flor... E em tudo isso encontrava com a paz da alegria do Senhor! Dr. Valdir Reginato é médico de família, professor da Escola Paulista de Medicina e terapeuta familiar


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|Especial de Natal |

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Elba Ramalho

‘O aborto é o grande equívoco de nossa sociedade moderna, porque ele mata o futuro’ Arquivo pessoal

Rafael Alberto

Especial para O SÃO PAULO

“Ser católica e artista ao mesmo tempo me causa, às vezes, um certo conflito”, revela a cantora pernambucana Elba Ramalho, 63. Mãe de quatro filhos – um biológico e três filhas adotadas –, Elba tem militado a favor da vida e, nos últimos anos, voltou a vivenciar sua fé católica. Ao receber a reportagem em seu camarim após um show em São Paulo, quis logo saber em que Igreja poderia participar de uma missa na manhã do dia seguinte. “Eu preciso da Eucaristia diariamente”, justificou. Nesta entrevista exclusiva ao O SÃO PAULO, Elba revela acreditar que o aborto não traz benefícios para as mulheres e que, apesar da perseguição de alguns grupos feministas, seguirá defendendo a vida. Sobre ter as suas três Marias, nomes das filhas adotadas, a cantora garante que a experiência da adoção é “rica”, e recomenda: “Experimente! É lindo e gratificante”.

O SÃO PAULO – Você sempre foi religiosa? Elba Ramalho – Sim, sempre fui religiosa, de família católica. Como nasci numa cidade muito pequena no alto sertão da Paraíba, a Igreja era nossa referência. Nossa padroeira, Nossa Senhora da Conceição, era o farol de nossa fé. Ainda criança, ingressamos na Cruzada Católica, eu e meus irmãos, num tempo em que as missas eram rezadas em latim. Em muitas ocasiões, nas festas da padroeira, no dia 8 de dezembro, tive a graça de coroar Nossa Senhora – o que, para mim, era motivo de grande emoção. Portanto, muito cedo, aprendi a amar Nossa Senhora e colocar em suas mãos minhas angústias e alegrias.

Você nasceu no interior do Nordeste. Que recordações traz da infância e adolescência? Era uma vida sofrida? Recordo as festas de rua com quermesses e brincadeiras, também dos autos de Natal comemorados com a encenação do pastoril nas escadarias da nossa catedral, onde eu sempre participava como pastorinha. Era tudo muito puro, inocente, até as brincadeiras de roda nas ruas e as serestas feitas ao som do violão de meu pai na calçada de casa. Assim foi minha infância... Junto à família, compartilhando das dores e alegrias, todos por um e um por todos. O lado

de amar, de compartilhar nosso amor com as pessoas que cruzam nosso caminho. Existem milhares de crianças abandonadas em orfanatos, precisando de uma família, de um lar, do seu amor. Experimente! É lindo e gratificante.

Sua postura pró-vida provocou preconceito contra sua carreira? O que você precisa enfrentar no meio artístico para manter suas posições? De um modo geral, não me trouxe problemas, exceto algumas perseguições da parte de grupos feministas, o que não me incomoda. Quanto aos colegas, me tratam com respeito porque conhecem meu caráter e meu coração. Sou transparente e sincera. O que os outros pensam não me importa. Importa o que vou ter nas mãos para entregar ao Senhor quando estiver diante dele, e desejo ter muitas vidas!

mais triste era a seca cruel que castigava o sertão e vitimava muitas vidas. Vivi isso bem de perto, o que me fez compreender com mais naturalidade a fragilidade da vida humana e também a força restauradora vinda da fé em Deus, na esperança de dias melhores. As chuvas eram escassas e as colheitas nem sempre fartas, mas a gente seguia com fé!

Você tem defendido publicamente a vida. Porque é contra o aborto? Não sou contra nada, apenas defendo o direito de todos nascerem, o direito de todos viverem. Penso que a vida é algo muito precioso e sagrado, que dá sentido à existência de todas as outras coisas. O aborto é o grande equívoco de nossa sociedade moderna, porque ele mata o futuro. Também porque as mães, que deveriam acolher, rejeitam. E os médicos, que tem a missão de salvar, matam! A grande vítima do aborto são os menos culpados de toda essa desordem que há no mundo. Precisamos ser voz e vez desses pequenos inocentes que não podem se defender sozinhos, sequer rezar por eles próprios. Ao insurgir contra sua própria espécie, a sociedade humana se desintegra, se brutaliza e perde totalmente sua dignidade, pondo em risco a perpetuação de sua espécie. Deus nos deu as leis para que possamos, por elas, alcançar nossa salvação. Ele disse: “Não

matarás!” Precisamos ouvir essa voz, pois, pela desobediência, o pecado entrou no mundo. Tenho muita convicção de que o aborto não traz benefício nenhum às mulheres. Pelo contrário! E nós, que defendemos a vida, defendemos também as mulheres.

Você adotou três filhas, três Marias, e já era mãe biológica. Por que adotou? Já era mãe biológica e muito feliz, mas a adoção veio num momento circunstancial. Estava casada e queríamos filhos. Como não foi possível, partimos para a adoção e hoje temos uma bela família que em nada se diferencia das outras. Nossas filhas são de verdade e a adoção é um ato de amor. Uma experiência rica que recomendo a todos. Somos todos irmãos em Cristo e, se o mundo compreendesse dessa maneira, seria bem mais feliz. Falta um pouco mais de amor!

O que você diria a quem tem dúvidas em relação à adoção? Infelizmente, ainda existe um leve preconceito com relação à adoção e isso é uma completa ignorância, uma falta de conhecimento. Noutros casos, há medo, receio de não ser capaz de amar e ou de ter problemas futuros com filhos, que não são de sangue, outro grande equívoco. O medo diminui a consciência, cega, atordoa e confunde. Não podemos ter receio

É possível ser católica no meio artístico? Como você testemunha para o mundo que Elba Ramalho é uma pessoa de fé? Procuro dar meu testemunho em muitos lugares, quando me convidam. Falo da minha conversão e do amor de Deus que pode ser experimentado por todos. Meu passado me condenaria, porque fui uma grande pecadora e ainda sou, mas hoje tenho a meu favor a confiança na misericórdia divina pela reconciliação através da confissão. Ser católica é a melhor coisa que carrego na bagagem, no bom sentido, é claro. Uma missa para mim é uma bênção e procuro assisti-la todos os dias. O sacramento da Eucaristia é a maior expressão de amor do nosso Deus e todos deviam compreender dessa forma e buscar se purificar das faltas cometidas na Santa Eucaristia. Ser católica e artista ao mesmo tempo me causa, às vezes, um certo conflito. O mundo lá fora é aberto ao pecado e a Igreja é aberta à santidade. Procuro ser o mais santa possível em todos os lugares, mas não sei se consigo e isso me desagrada, porque sei que desagrada a Deus. Mas, chego lá... Vou devagar e, nessa caminhada, procuro ajudar a outras pessoas que não conhecem ainda esse amor. Nossa Senhora me ajudou muito nessa conversão, de uma forma mística e muito presente. Sou-Lhe grata por tanto amor. O que Ela e Jesus me deram foi a prova real de que a Palavra é fiel, Deus é fiel. Onde mais habita o pecado, mais super abunda a graça.


12 |Especial de Natal |

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É Natal, de Jesus! Em todas as paróquias da Arquidiocese, haverá celebrações de Natal nos dias 24 e 25. Segue a lista das atividades e missas que serão presididas pelos cardeais Scherer e Hummes e pelos bispos auxiliares. Cardeal Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano Segunda-feira (22) 15h – Missa de Natal, no Instituto de Infectologia Emílio Ribas Terça-feira (23) 9h30 – Cumprimentos de Natal, na Cúria Metropolitana 15h – Missa de Natal, no Amparo Maternal

Presépio em tamanho natural anuncia à metrópole paulistana a chegada do Natal, Igreja Nossa Senhora da Consolação, uma das que montam presépios em SP

Quarta-feira (24) Meia-Noite – Missa da Noite de Natal, na Catedral da Sé

Presépio: ce

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Quinta-feira (25) 11h – Missa de Natal, na Catedral da Sé 17h – Missa de Natal, no Arsenal da Esperança

Arcebispo metropolitano de São Paulo

Neste ano, a Novena de Natal da arquidiocese de São Paulo tem como tema o presépio: “As Lições do Presépio” – este é o tema geral. As reflexões tomam como referência os personagens principais do presépio e nos levam a pensar sobre a nossa própria postura diante daquilo que se passou no nascimento de Jesus. O presépio tem uma história bonita. Atribui-se a São Francisco de Assis, na Idade Média, a popularização do costume de fazer presépios no Natal. Ele tinha uma enorme admiração pelo Mistério da Encarnação e pela humildade do Filho de Deus, que se fez ho-

Cardeal Cláudio Hummes, arcebispo emérito de São Paulo Quarta-feira (24) 20h – Missa da Noite de Natal, na Paróquia Nossa Senhora do Brasil (Região Sé) Quinta-feira (25) Missa de Natal, na Catedral da Sé (horário não informado) Dom José Roberto Fortes Palau Quarta-feira (24) 20h30 – Missa da Noite de Natal, na Paróquia Nossa Senhora de Fátima (Região Ipiranga – Setor Imigrantes)

mem para estar perto de todos. Assim, Francisco quis recriar numa gruta, em Greccio, perto de Assis, o suposto ambiente do lugar do nascimento de Jesus, em Belém, conforme se lê nos Evangelhos. Naquele lugar simples, entre orações e cantos, a vivência do Mistério do Natal ganhava especial significado. A arte popular dos presépios, reproduzindo com criatividade o ambiente, a cena e os personagens do Natal de Jesus, espalhou-se rapidamente por toda a Europa, chegou à América, à África e à Ásia; inculturou-se, tomou feições indígenas e recebeu novos ingredientes das culturas locais. Nada estranho, pois isso traduz bem a realidade do Mistério da Encarnação: “o Verbo

Dom Sergio de Deus Borges Quarta-feira (24) Meia-Noite – Missa da Noite de Natal, na Paróquia São Pedro Apóstolo (Região Santana) Quinta-feira (25) 10h – Missa de Natal, no Hospital Geriátrico Dom Pedro II (avenida Guapira, 2.674, Jaçanã) Dom Julio Endi Akamine Quarta-feira (24) 21h – Missa da Noite de Natal, na Paróquia São Francisco de Assis (Região Lapa) Quinta-feira (25) 9h – Missa de Natal, na Paróquia Santo Antônio do Rio Pequeno (Região Lapa) Dom Edmar Peron Quarta-feira (24) 21h – Missa da Noite de Natal, na Paróquia São Miguel da Conquista (Região Belém)

Isopor, filtro de papel e tinta natural na composição de presépio em exposição

Presépio em mosáico e barro cozido pintado, originário de El Salvador, em exposi


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Fotos: Luciney Martins/O SÃO PAULO

na esquina da Avenida Brasil com Rua Colômbia, no Jardim América, zona sul de SP

Coleção Franciscana de Presépios retrata o nascimento do Menino Jesus em obras feitas em madeira e papel machê

ena do Natal cristão de Deus se fez homem e habitou no meio de nós” (cf Jo 1,14), de todos nós, de qualquer povo e cultura... O presépio apresenta diante dos nossos olhos a imagem do Natal de Jesus, descrito no Evangelho de São Lucas (cf Lc 2,1-20). No presépio não devem faltar os personagens centrais: o menino Jesus na manjedoura, Maria, José, o anjo que anuncia aos pastores o nascimento de Jesus, os próprios pastores, os reis magos... Sem esses elementos, já não seria mais um presépio autêntico. É pena que em tantos presépios atuais, infelizmente, falte o menino Jesus e seu lugar tenha sido dado a Papai Noel ou a bichinhos mitológicos... Pena mesmo! Jesus é real, não é mito. Fazer o presépio deveria ser

ição no Convento São Francisco

uma ação em família, onde adultos, crianças e adolescentes interagem; poderia ser lugar para uma catequese bonita e muito participativa. Uma vez montado, o presépio também poderia ser lugar para orações e cânticos na preparação do clima do Natal em família; na noite e, especialmente, no dia de Natal, junto do presépio, poderia ser rezada a oração do Angelus (A Anjo do Senhor anunciou a Maria...”) e lido o texto do Evangelho do Natal, antes de abrir os presentes e antes da refeição natalina em família. A festa do Natal ganharia mais beleza, significado e sabor. O presépio traz uma cena da vida em família: uma casa, um lar, um recém-nascido, pai, mãe, pessoas que chegam para ver e trazer

presentes, comentários, alegria, reflexões compartilhadas... O Filho de Deus veio para entrar numa família humana em particular e para reunir a grande família da humanidade numa comunidade de irmãos. “Ele está no meio de nós”, não apenas no Natal, mas todos os dias. Por falar nisso, como está o presépio em sua casa? Vamos recuperar e valorizar esse símbolo cristão, não deixando que seja desvirtuado do seu significado originário? Também essa é uma forma de testemunhar a nossa fé. Desejo felizes celebrações do Natal do Senhor para todos! Que no Natal, se renovem a fé, a esperança e a caridade. O Deus que se fez Emanuel (“Deus-no-meio-de-nós”) abençoe a todos!

Presépio feito no Vaticano em papel impresso e resina está nos Franciscanos

Cimento e tecido pintado são utilizados na confecção de presépio elaborado em Atibaia (SP)

Montado em Lorena (SP), presépio é feito com barro cozido pintado


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Os muitos sons da Banda Música do Silêncio Luciney Martins/O SÃO PAULO

Projeto da rede pública de ensino completará dez anos em março de 2015, com estudantes surdos e ouvintes em apresentações musicais Daniel Gomes

danielgomes.jornalista@gmail.com

Manhã de 28 de novembro, bairro do Jaçanã, extremo da zona norte de São Paulo. Mesmo antes de entrar no espaço de eventos do Clube Guapira, já é possível ouvir as muitas falas de crianças e adolescentes, ansiosos pelas apresentações culturais que fariam no encerramento do projeto MOVE, desenvolvido pela Santa Casa de São Paulo, para ajudar no combater à obesidade infantil. No palco, vestidos de vermelho e com seus instrumentos musicais, estão outros jovens e crianças, que ao começarem a tocar, conseguem silenciar o falatório e atrair todos os olhares. Seria essa a justificativa para que sejam chamados de Banda Música do Silêncio? Não. O nome é uma alusão aos estudantes surdos que a compõem a banda junto a outros que são ouvintes. Ao final da execução instrumental do Hino Nacional do Brasil e das canções “Descobridor dos Sete Mares” (Tim Maia), “Isto Aqui, o que é?” (Caetano Veloso) e “Saideira” (Skank), a plateia, automaticamente, levanta os braços e movimenta as mãos, saudando os músicos pela apresentação.

Banda criada em escolas públicas da periferia da zona norte de SP une estudantes surdos e ouvintes em um só ritmo

Começou de repente, seguiu persistente Há cerca de dez anos, a Escola Municipal de Ensino Bilíngue para Surdos Madre Lucie Bray, no Jaçanã, recebeu da Prefeitura de São Paulo um questionário para saber se gostaria de ter aulas de instrumentos musicais aos estudantes. Perante o inédito convite, a direção escolar repassou a pergunta aos alunos e 12 deles se interessaram pela proposta, que passou a ser conduzida pelo maestro Fábio Bonvenuto. Nascia assim a Banda Música do Silêncio, também composta por estudantes ouvintes da Escola Municipal Marechal Rondon, do bairro vizinho, Tremembé. “Naquela época, não havia nenhuma referência no Brasil sobre bandas assim. O maestro Fábio foi questionado se não estava invadindo o espaço dos surdos, o chamaram de louco, disseram que não conseguiria, mas ele foi atrás, e encontrou uma referência na percursionista escocesa Evelyn Glennie, que é surda, conhecida

mundialmente”, recorda-se Caroline Beatriz Corrêa, 17, atuante na Banda desde os 7 anos de idade, e que na ausência do maestro Fábio, como aconteceu naquele dia 28 no Clube Guapira, rege as apresentações.

Música para sentir A perfeita harmonia da Banda começa com ensaios em separado. Os alunos ouvintes treinam os instrumentos de metal, e os surdos os de percussão. Depois, são feitos os ensaios conjuntos, mas a base é a mesma: sentir a música. “Ouvir, eles [surdos] não ouvem, mas escutar é mais que ouvir com os ouvidos, escutar envolve o olhar também, e isso para eles é fundamental; eles escutam com os olhos, com o corpo, sentem as pulsações, na própria pele”, disse, em recente entrevista à TV Globo, o maestro Fábio. Carolina detalha: “Todos temos o mesmo sentido, mas para nós que ouvimos, por algumas vezes, é imperceptível, porque

usamos mais os ouvidos. Uma coisa que o maestro Fábio sempre priorizou é que o surdo não é um repetidor de sinais, ele tem que sentir o que está tocando e sentir alegria com aquilo. Eles sentem os sons graves nas costas e na região da barriga e os agudos na região da nuca”, explicou à reportagem.

Todos ensinam, todos aprendem Emily Vieira, 12, é surda. Ela está na Banda há três anos e conta – por meio de conversa mediada em Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) - que muitos dos seus colegas ouvintes procuram entender um pouco mais dessa linguagem para que conversem. Foi o que fez Pedro Henrique Corrêa Dourado, 14, que toca saxofone na Banda há dois anos. “Quando eu entrei, fui observando essa forma de comunicação e pesquisei na internet para aprender LIBRAS e poder me comunicar com todos. Comecei a me dar melhor com as pessoas”, conta.

Carolina diz que conviver na Banda Música do Silêncio com surdos, além de cegos e deficientes mentais (que também participam dos ensaios), “me fez entender que independente das dificuldades, do que esteja acontecendo, é preciso querer mais. A Banda mudou meu olhar sobre como devo me relacionar, o respeito pelo outro aumentou, porque a mesma coisa que posso fazer, eles podem, mesmo sendo deficientes”. E todos parecem mesmo uma só família. À reportagem, a adolescente Emily expressou que na Banda não sente que os outros a veem como deficiente, mas fora de lá, percebe que os outros a olham com estranhamento.

Frutos em outros países Em março de 2015, a Banda completará dez anos, e neste período já se apresentou até fora do País, como em setembro de 2013, quando foi a quatro cidades portuguesas. “Em Portugal, a gente foi mostrar que esse é um trabalho possível. A viagem já começou a dar frutos, porque os alunos cegos da cidade de Coimbra demonstraram interesse em aprender e foram introduzidos no conservatório municipal de lá com o mesmo método que o maestro Fábio aplica”, contou Carolina. “A nossa intenção não é mudar o mundo, mas é fazer com que, cada vez mais, outras pessoas estejam inclusas. Para um surdo, tocar um instrumento é romper limites”. O trabalho da Banda, que reúne adolescentes e jovens de 11 a 18 anos, pode ser conhecido no blog http://bandamusicadosilencio.blogspot.com.br.


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Para Padre Cyzo Lima, o bullying é fruto de uma sociedade mais violenta em que as pessoas não têm canais institucionais sólidos e nem participação pública Nayá Fernandes

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“Ô boliva”, é o que João Rodrigo Viruez Manjhon, 7, filho de America Joselin Viruez e Marco Manjhon escuta diariamente na escola infantil que frequenta. Boliviana, a família está em São Paulo há 3 anos e America tirou o filho da escola anterior que frequentava devido aos mesmos comentários de coleguinhas. Recentemente, um fato preocupou o casal America e Marco. João chegou chorando em casa com um bilhete da professora. O filho havia chamado uma amiguinha de “nêga”, motivo pelo qual a menina começou a chorar sem parar. Em casa, a mãe costuma chamar o pai carinhosamente de “nêgo”, explicou à reportagem. “Ele queria ligar para a coleguinha e pedir desculpas. E assim fizemos. ‘Não sabia que ela ia ficar tão triste, mãe, desculpe’”, contou. “Porém, comecei a pensar quantas vezes o meu filho havia chegado em casa chorando e nada aconteceu”, lamentou America,

que fez tentativas frustradas de falar com as professoras e tinha sempre a resposta: “Eles não têm maldade, são crianças, mãe”. O que acontece com João pode ser classificado como um caso de bullying escolar. O bullying, em sua definição mais simples, é o ato violento intencional verbal ou físico, feito repetidas vezes. A palavra bullying tem origem no termo bully e ainda não há uma palavra específica em português, mas a tradução pode ser ameaça, tirania, opressão, intimidação ou humilhação. O estudo do bullying surgiu com Dan Olweus quando pesquisava as tendências suicidas em jovens. Desde então, muita investigação tem sido levada a frente

A sociedade e suas ditaduras Ampliando a discussão para fora da sala de aula, Padre Cyzo Assis Lima, com formação em psicoterapia, observou que, “nos últimos dez anos, parte da população, por vários fatores, tem se tornado mais agressiva, autossuficiente, arrogante, e, até mesmo, violenta. Essas são atitudes de uma sociedade que, de certa forma tem seu ‘ethos social’ deteriorado”. Padre Cyzo explicou ainda que isso acontece quando uma

com foco nos tipos de agressores, vítimas e nas variáveis que estão por trás disso. Para Tânia Paias, psicóloga clínica, mestre em Saúde Escolar, diretora do Portal Bullying e autora do livro “Tenho medo de ir à escola”, a “violência escolar é fruto da combinação entre fatores sociológicos e psicológicos relacionados com o desenvolvimento das crianças e dos jovens, de suas necessidades, formação da personalidade, competição, na sociedade. E, se por um lado, os que

sociedade não tem canais institucionais sólidos e nem participação dos cidadãos nas diversas esferas públicas e institucionais. “Ela cria, assim, seus próprios ‘monstros’ e medos. O bullying está situado numa plataforma, aparentemente invisível, de uma realidade sempre mais violenta.” É importante considerar que o bullying não é um fenômeno que se desenvolve fora do contexto atual. A imigração, por exemplo, é um fator social latente na megalópole paulistana. E convi-

agridem possuem descontrole dos impulsos, por outro, aqueles que são vítimas não têm capacidade de resposta. Ambos têm que ser trabalhados”.

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ver com este fator não é simples quando a própria mídia acaba por incentivar a xenofobia e ignorar certos sujeitos ou retratá-los sempre sobre um único ponto de vista. No consultório de Padre Cyzo, a maior parte dos casos de bullying que atendeu foram de jovens negros e mulheres fora dos padrões de beleza estipulados pela mídia. “Tive pacientes que foram usuários de drogas e que sofreram bullying de forma constante. Essas pessoas passaram a ser tratadas como uma ‘raça inferior’, ‘nóia’, ‘peso morto’ etc.”, contou.

Narciso e seu espelho A partir da sua experiência,

Padre Cyzo considera que ainda não se chegou a uma conclusão unânime dos possíveis transtornos na psique da vítima de bullying a longo prazo. Mas as pessoas por ele atendidas têm mostrado comportamentos como se estivessem “engessadas”, “travadas”, limitadas, e, inclusive, mostram certo atraso no seu desenvolvimento psicológico. “A vítima tende a se sentir como se lhe faltasse terra firme sob os próprios pés. Um rapaz, ótimo executivo, após sofrer uma

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injusta agressão verbal na sua empresa por parte de seu arrogante superior, levou anos para voltar a ter o mesmo nível de produção na sua área de Estratégia e Logística Empresarial”, disse.

O ensinar a melhor conviver com o diferente America conversou com o filho João e, tendo ele sofrido o mesmo tipo de agressão, ensinou-lhe que não se deve chamar as pessoas por apelidos ou as considerar inferiores por serem diferentes. “Acredito num mundo em que o lugar onde se nasceu não conta, mas sim a pessoa que você é”, disse a boliviana, que já experimentou muitas situações de discriminação no Brasil, por ser estrangeira. Seria um bu l ly i ng c o l e t i vo, uma insistência social em julgar inferior quem não é igual? E, se por um lado, é importante auxiliar aqueles que têm maiores dificuldades no controle dos impulsos e na expressão das suas emoções; por outro, o caminho parece ser o de ensinar a diferença, a tolerância, a generosidade, bem como a capacidade de afirmação, de dizer não, romper com laços destrutivos e se colocar no lugar do outro. Até Caetano Veloso, em sua música “Sampa”, alertou para essa realidade. “É que Narciso acha feio o que não é espelho.” Numa sociedade complexa, com tantas injustiças sociais e tantos padrões a serem seguidos, pode ser difícil detectar onde termina a fronteira da brincadeira ou da violência e começa a prática do bullying.


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Divulgação/Colégio Dante Alighieri

Estudos de solidariedade Alunos do Colégio Dante Alighieri conduzem aulas de reforço escolar para educandos da ONG Acorde, da periferia de Embu das Artes (SP) Daniel Gomes

danielgomes.jornalista@gmail.com

Sempre nas tardes de quintafeira, Vitor Martes Sternlicht, 16, estudante do ensino médio no Colégio Dante Alighieri, no Jardim Paulista, bairro nobre da zona oeste paulistana, partilha o que sabe com crianças e adolescentes que vêm do Jardim Tomé, na periferia de Embu das Artes, cidade da grande São Paulo, onde participam dos projetos da ONG Acorde. No chamado “AcorDante”, alunos voluntários do Dante Alighieri oferecem reforço escolar para 25 crianças e adolescentes da Acorde, com idades de 12 e 14 anos, utilizando recursos de informática, arte, entretenimento e tecnologia educacional. Há atividades similares também para 25 educandos da ONG com idades entre 15 e 17 anos. “Já tivemos atividade de matemática, inglês, italiano, história. Pegamos o básico dessas matérias e fazemos algumas atividades mais lúdicas para tentar passar os

conteúdos e valores de educação para essas crianças e adolescentes”, detalha Vitor, que foi um dos 20 estudantes do Dante que participaram dessa iniciativa este ano. “O que nós desenvolvemos com educandos no colégio é a parte acadêmica. Temos assessoria de alguns professores, mas são os nossos alunos voluntários que ajudam nas atividades”, explica, ao O SÃO PAULO, Maria Aparecida Tenecherani, professora do Dante e articuladora do projeto, que existe desde 2008.

Humanização mútua No Jardim Tomé, onde se localiza a Acorde, a maioria das famílias é de baixa renda e há precariedades de condições sanitárias, uma realidade bem diferente da encontrada no Jardim Paulista, próximo da Avenida Paulista. “Estudando no Dante Alighieri, na Paulista, às vezes é difícil enxergar que existe outro mundo além daqui. Então, quando a gente tem a oportunidade de trabalhar com essas crianças, só de ouvir as coisas que elas falam, acaba aprendendo também. Tentamos passar um pouco de valores humanos para elas, mas aprendemos com o modo de vida delas, com as brincadeiras mais simples, com o que curtem”, garante Vitor. Na avaliação de Marta Barreto Junqueira, coordenadora de projetos da Acorde, a partilha de valores entre os estudantes ajuda a cultivar referenciais positivos.

“O projeto abre um mundo novo para esses meninos que antes estavam limitados à escola, ao posto de saúde, ao centro de Embu. Permite ampliar horizontes”, comenta. Ainda segundo Marta, os próprios pais dos educandos percebem a diferença na formação cultural dos filhos e os jovens que já passaram pelo projeto alcançam diferenciais no mercado de trabalho. “É uma experiência que faz diferença na formação integral deles”, avalia. A professora Maria Aparecida lembra que muitos estudantes do Dante que estão no projeto conseguiram melhorias no relacionamento interpessoal. “Tive aluno muito reservado, mas que quando começou a frequentar esses encontros foi melhorando seu relacionamento com as pessoas, é uma troca muito forte, porque os meninos de lá trazem uma realidade que ensina nossos alunos em várias questões”, garante. Foi o que aconteceu com Vitor. “Eu sou um cara mais de exatas, faço oficina de robótica e por um tempo faltou um pouco dessa interação mais humana. O contato com as crianças toda a semana, a preocupação de lidar com elas, independentemente do conteúdo, faz diferença, acabou abrindo meus olhos”.

Outras ações solidárias Segundo a direção do Colégio Dante Alighieri, anualmente, são

Educandos da ONG Acorde durante atividades no Colégio Dante Alighieri

realizados outros projetos de ação social, como doações de mobiliários e livros, e de alimentos, como leite em pó para creches, e ovos de Páscoa e sacolas de Natal para comunidades carentes. O Colégio

também estimula a coleta seletiva, tendo coletado 21 toneladas de resíduos recicláveis no primeiro semestre de 2014. Mais detalhes em http://www.colegiodante. com.br.


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Um amparo de esperança De janeiro a novembro, foram atendidas mais de 800 mulheres, entre gestantes e parturientes acompanhadas dos recém-nascidos Edcarlos Bispo edbsant@gmail.com

“Tenho a esperança que esse neném reúna a família outra vez...”. Quarenta anos, grávida do quarto filho, Alexsandra Nascimento dos Santos (foto maior) tem a voz baixa e a fala tranquila. As mãos, volta e meia, alisam a barriga. Nos olhos, o brilho da esperança de alguém que reencontrou o rumo. “Tinha problema com alcoolismo. Perdi a esperança, os pais dos meus outros filhos se afastaram de mim. Mas fiz tratamento no CAPS [Centro de Atenção Psicossocial], em São Sebastião, me apeguei a Deus. Fiquei cinco anos sem engravidar e para mim, essa gravidez é uma esperança. Uma esperança em mudar de vida”. Alexsandra é uma das muitas histórias do Amparo Maternal, uma das diversas mulheres que devido à vulnerabilidade e risco social encontrou abrigo no Centro de Acolhida da Instituição. “Eu estava na ocupação do Hotel Othon Palace, veio a ordem de despejo e os médicos optaram por me trazer para cá. Estava sem saber para aonde ia, sem dinheiro para alugar um lugar e ai vim pra cá”. Fundada em 1939, pela franciscana Madre Marie Domineuc, pelo médico e professor Dr. Álvaro Guimarães Filho e pelo então arcebispo de São Paulo, Dom José Gaspar d´Afonseca e Silva, o Ampa-

ro possui uma maternidade que atende pelo Sistema Único de Saúde (SUS), além de projetos sociais, como, por exemplo, o Centro de Acolhida, que oferece abrigamento provisório para gestantes, mães e bebês em situação de vulnerabilidade e risco social. Além de histórias de superação, o Amparo se orgulha de ter realizado em 2014 mais de 6.896 partos, sendo que 70% deles foram normais. Para Júnia J. Rjeille Cordeiro, diretora executiva da entidade, esses resultados são significativos, pois há um aumento no índice de cesáreas o que preocupa autoridades sanitárias nacionais e internacionais. Júnia destaca que os números de partos normais no Amparo garantiram à Instituição um convite, por parte da Organização Mundial da Saúde (OMS), para que participasse de um estudo mundial divulgado no Congresso da Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia, em 2012, sobre taxas de partos normais e cesáreas.

Centro de Acolhida De janeiro a novembro, foram atendidas mais de 800 mulheres, entre gestantes e parturientes acompanhadas do recém-nascido. “Nossa expectativa é minimizar os danos causados pelas situações de vulnerabilidade. Acreditamos que o impacto é positivo. Após seu desligamento, algumas usuárias do nosso serviço retornam ao Centro de Acolhida para visitá-lo e com relatos de histórias de construção de vida melhores que as vivenciadas antes de passarem por nossos cuidados”, conta Priscila Maria Queiroz de Carvalho, assistente técnica pedagógica do Centro de Acolhida. De acordo com Priscila, trabalhar no Centro de Acolhida é um desafio, “um Fotos: Luciney Martins/O SÃO PAULO

Marcela Kerollini da Silva e Tânia Pereira da Silva são atendidas pelo Centro de Acolhida do Amparo

trabalho árduo, porém gratificante”. Ela destaca que no Amparo tem o “prazer em auxiliar as conviventes em sua reinserção social, e satisfação em proporcionar atendimento acolhedor diferenciado, oferecendo moradia temporária, alimentação, oficinas diversas (como artesanato, informática e de costura) e cuidados a essas mulheres e aos seus bebês”. Uma dessas mulheres é a “mãe de primeira viagem” Marcela Kerollini da Silva, 20. Com um filho de 11 dias, o pequeno Kaique, Marcela conta que estava passando por um momento de dificuldade, após a separação e a perda de contato com a família. O marido, com quem morava há três anos, não quis assumir o filho. Sozinha, a jovem encontrou abrigo no Centro de Acolhida do Amparo Maternal. “Vim para cá aos oito meses. Morava na casa de um casal onde não podia sair, não podia fazer nada. Mas tinha meu acompanhamento médico e a assistente social me indicou aqui”, contou. Marcela destacou que não tinha planejado o filho, mas pelo que sente, após o nascimento do menino, é como se já o tivesse planejando há muito tempo. De acordo com ela, a experiência “está sendo ótima, aqui temos tudo que precisamos, tanto pelo material como pelo psicológico”. Grávida do quarto filho, Tania Pereira da Silva, 29, também destaca que o suporte que possuiu no Amparo Maternal é diferente do atendimento que há em qualquer outro lugar. Aos oito meses, ela acredita que o filho vai mudar a sua vida. Mesmo tendo casa, e já sendo mãe de três meninas, Tânia conta que vivia em baladas e na rua usando drogas. Ao engravidar, passando em um atendimento do CAPS, foi encaminhada ao Amparo. O tempo de estadia no Amparo é, também, um tempo de troca de vivências. Tanto Alexsandra quanto Marcela e Tânia afirmam que a experiência de ser acolhida na Instituição mudará a vida delas, “através dos problemas das outras meninas vamos aprendendo também”, comenta. Alexsandra se tornou um exemplo para alguns colegas que ainda moram na rua. Ela e o marido, que atualmente trabalha em uma reciclagem, abandonaram o vício do álcool. “Nós, eu e meu marido, decidimos melhorar, mudar de vida e muitas pessoas que nos viram na rua falam que estão com esperança de mudarem também”.

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‘Ouviu-se um grito em Ramá, choro e grande lamento: é Raquel que chora seus filhos e não quer ser consolada, pois não existem mais’ (Mt 2,18) Edcarlos Bispo edbsant@gmail.com

“Uma moça recém-casada, cujo projeto dela e do esposo era não ter filho naquele momento, acabou engravidando. Tanto ela quanto o marido chegaram à conclusão de que não deveriam ter esse filho. Fizemos um trabalho para que não abortasse. Ela passou em consulta comigo e falei das patologias pós-aborto. Ela não acreditou muito porque o foco dela era não ter filho naquele momento. Então, abortou e, uma semana depois, ela me procurou, estava triste e chorosa”. Quais os sintomas para uma mulher que faz um aborto? O psicólogo da Comunidade Unidos em Cristo, Luiz Carlos Carmona, no parágrafo acima, cita um: a tristeza, mas, segundo ele, na “síndrome pós-aborto” – uma síndrome de características psicopatológicas que alguns médicos sustentam ocorrer em algumas mulheres após um aborto provocado – os sintomas podem ser culpa, ansiedade, alheamento (distraído, absorto), depressão com tendências suicidas, alcoolismo e uso de drogas, entre outras. Não há unanimidade entre a classe médica sobre a “síndrome pósaborto”, mas, mesmo assim, Luiz destaca que muitas das mulheres que atendeu desenvolveram alguns desses sintomas. O psicólogo é um dos fundadores, juntamente com sua esposa, Eneida André Carmona, da Comunidade Unidos em Cristo, que é responsável, na Arquidiocese de São Paulo, pelo Projeto Raquel.

Aliviando as dores de um trauma

O Projeto Raquel consiste em uma rede de pessoas – entre médicos, psicólogos, sacerdotes, conselheiros leigos e outros –, que prestam ajuda a mulheres, homens e seus familiares que se envolveram com o aborto. Para tal, é dado um

Superando a dor, a culpa e o trauma pós-aborto treinamento a esses voluntários. No Brasil, o Projeto está implantado em São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro. Criado nos Estados Unidos, por iniciativa de Vicki Thorn, em 1984, à época diretora diocesana pró-vida de Milwaukee, no Estado de Wisconsin, o Projeto Raquel está presente também na Espanha, Nova Zelândia, Guatemala e Eslováquia. “Quando chegam aqui, a parte física e espiritual delas está muito

machucada, percebemos que essas mulheres não conseguem ser felizes em nenhum contexto da vida. Elas abortam uma criança, mas não abortam o instinto de mãe, e isso leva a um sofrimento muito grande”, afirma a coordenadora do Projeto Raquel na Arquidiocese de São Paulo, Sonia Maria de Oliveira Ragonha. De acordo com Sonia, uma das principais características do Projeto é o sigilo, pois muitas mu-

lheres que fizeram o aborto nunca revelaram esse fato para ninguém e precisam de muita discrição para poder contar suas histórias. “Muitas vezes, essas mulheres ficam com o telefone do Projeto por uns quatro, cinco, seis meses para depois ligarem. Teve uma que falou que há um ano estava com o número de telefone daqui, ela anotou quando estava ouvindo a rádio 9 de Julho, em uma entrevista que dei.

Só agora, teve coragem de ligar”, comenta Sonia. As histórias são as mais diversas. Na maioria das vezes, são de mulheres entre 45 e 50 anos. Em um desses casos, uma senhora de 72 anos procurou o Projeto, vivia com o peso de um aborto realizado há cerca de 50 anos. “Desabafou e chorou por mais de meia hora”, contam Luiz e Sonia. Outro projeto que funciona paralelo ao Raquel é o “Gravidez em risco”. Voltado para atender mulheres que cogitam a ideia do aborto, o “Gravidez em Risco” apresenta os perigos de uma ação que marcará para sempre a vida da mulher, do homem e da família que está envolvida na prática do abortamento. Sobre os homens, o psicólogo destacou que muitos sofrem os sintomas do aborto realizado pelas companheiras, em muitos casos se sentem culpados por não terem impedido que a mulher recorresse à interrupção da gravidez. Por vezes, destaca Luiz, os homens acabam por adquirir patologias psicológicas como raiva ou ira, prejuízo da autoimagem masculina, impotência, angústia e tristeza entre outras.

Um projeto arquidiocesano

Devido à falta de divulgação e do pouco conhecimento das pessoas sobre o projeto, a procura é baixa. No primeiro ano, em 2011, foram pouco menos que 30 atendimentos. Sonia destaca que o Projeto é arquidiocesano e como tal deve ser assumido pela Arquidiocese. De acordo com ela, por hora, a Comunidade Unidos Divulgação em Cristo toma conta do projeto, mas aguada o momento que o mesmo será assumido, divulgado e apoiado por toda a Arquidiocese. O nome que batiza o Projeto, Raquel, tem origem na figura bíblica de Raquel, que aparece no livro do Gênesis como “A mãe das doze tribos”. Depois, é encontrada no livro de Jeremias, quando ela perde seus filhos em tempo de exílio na Babilônia. Raquel sofre com a mágoa de ter perdido os filhos e só consegue se reconciliar consigo mesma, quando Deus vem ao encontro dela. Raquel passa pelo processo de provar a misericórdia de Deus, como as mulheres que passaram por um aborto.

O Projeto Raquel existe para ajudar mulheres, independentemente de sua crença, a redescobrirem a esperança após o aborto.


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‘No dia seguinte, eu era mãe’ ‘Não há um dia para contar. Mas dias em que se conta aos poucos e, um dia em que a criança pergunta se ela foi adotada’, explicou Monica Natale, membro fundador do Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo

para os pais, mas pais para as crianças e foi assim que, em agosto de 2010, eles receberam a primeira ligação. “Eram três irmãos e eu fiquei muito empolgada, mas o Sandor me ajudou a entender que não tínhamos nem mesmo espaço suficiente. Chorei muito, respirei fundo e fui em frente.” A segunda ligação, eles receberam quando estavam em viagem de férias. “Faltava uma semana para voltar ao Brasil e a assistente social disse, ao telefone, que não

podia esperar. Foram os dias mais longos que vivi”, contou a mãe do João. Quando voltaram, a menina, de 10 meses já havia sido adotada. Uma semana depois, outro telefonema: “‘É um menino de 9 meses, de etnia negra... se vocês quiserem conhecer’. Fomos. O Sandor, curioso, virou a página do processo que a assistente social tinha em mãos e foi a primeira vez que vimos o João. Naquele momento, no ‘entre olhares’, ele Arquivo pessoal

Nayá Fernandes

nayafernandes@gmail.com

“Mamãe. Pega, pega. Bola. Mamãe, olha. Bolacha. Nuna. Vem. Mas pé, pé, pé. Banana. Nana. Mãe, toma.” Durante quase duas horas de entrevista na casa de Andreia Schweitzer, 43, e de Sandor Rezende, 52, essas foram as palavras de João Pedro Schweitzer Rezende, 3 anos e 6 meses. Claro que a palavra mãe ele falou outras tantas vezes, além de chutar a bola, brincar de carro, quebra-cabeça, comer bolacha, banana e bolo, nessa ordem. Andreia é paulistana do Bixiga e trabalha na Editora Paulinas e ele, o Sandor, é assessor do desembargador do Tribunal Regional do Trabalho e dá aulas de direito. Casados há dez anos, resolveram adotar uma criança, depois de várias tentativas sem sucesso para engravidar. Contando assim, a história fica leve porque o vocabulário engraçado e inusitado de João, o personagem principal, ajuda e muito. Mas para o casal foi um tempo de tensão e espera.

Vamos brincar de outra coisa?

“Como a maioria dos casais, a gente tentou muito tempo ter um filho por métodos naturais. Fui a um especialista em fertilização, fizemos uma primeira tentativa de inseminação artificial e não deu certo. Depois, a fertilização “in vitro”. Engravidei, mas perdi o bebê”, contou Andreia. Para uma mulher que está tentando engravidar, cada perda é um luto. E foi assim que partiram para a adoção. “A primeira fase é burocrática e, a partir daí, a gente preenche um formulário em que faz algumas opções acerca da criança.” A maioria dos casais no Brasil escolhe crianças de 0 a 3 anos. Andreia e Sandor entraram O trabalho do Gaasp é, socom o processo para se tornabreudo, de conscientização. rem pretendentes à adoção, em “Ainda há uma cultura de adomarço de 2009 e só em novemtar somente bebês e, muitas bro, depois de várias visitas e vezes, preconceitos acerca da entrevistas, receberam a habietnia e do histórico familiar das litação. “Na visita em casa, da crianças. Por esse motivo, há assistente social, eu estava muito uma preparação de ambos os nervosa. Afinal, era uma avalialados e isso pode fazer com que ção para dizer se eu poderia ou o processo demore um pouco não ser mãe.” mais”, explicou Monica. O casal tinha consciência de que não se procuram crianças

Processos vitais

nos escolheu”, contou Andreia, sentada no sofá, enquanto João, na sala do apartamento da família, chutava a bola sobre o olhar cuidadoso da “mãe de primeira viagem”.

A história do Alberto e da Bruna

Sentados no sofá também estavam Monica Natale e seu esposo para a foto em que esperavam o primeiro filho. O caso deles também é de infertilidade, como a maioria dos casais que decidem adotar hoje no Brasil. “Tive vários abortos espontâneos e o médico falou que meus óvulos eram fracos e, além disso, havia uma incompatibilidade de sangue com meu marido que hoje não é mais um problema. Havia alguns métodos e eles me foram apresentados, mas meu marido e eu resolvemos adotar. À época, uma emissora de televisão fazia uma campanha de adoção e liguei. Falei com um pequeno grupo em São Paulo.” Monica teve o primeiro contato com o Grupo de Apoio à Adoção de São Paulo (Gaasp), em 2003 e participou da fundação oficial do órgão em 2005. Mas, foi em 2004 que ela experimentou, de fato, o significado da adoção. “Eu queria um bebê e, por isso, me cadastrei em 25 cidades. O Alberto veio de Porto Alegre (RS), recém-nascido. A mãe biológica dele, desde a gestação, havia manifestado desejo de entregar para a adoção”, contou a mãe que completará 12 anos de atuação voluntária no Gaasp em 2015. Quatro anos depois do Alberto, ela foi buscar a Bruna em São João Del Rei (MG). “Ela era ruiva de olhos azuis e tinha pouco mais de 2 meses de idade. Lá, me contaram a história triste da família da Bruna...”. Os pais, desde quando decidiram adotar, começaram a fazer um álbum. “Tiramos uma foto esperando no sofá. Aquela espera era a nossa gravidez. Depois, fotos deles com a gente nas cidades em que nasceram. Eu nunca falo em: o dia que você nasceu, mas o dia em que você chegou. Um dia, ele me perguntou, aos 3 anos e meio: ‘Mãe, eu não sai da sua barriga, né?’ Aí, eu contei a sua história.”

A primeira noite A partir da lei 12.010, de 2009, ficou estabelecido que o prazo máximo que uma criança pode ficar institucionalizada é de dois anos. Nesse tempo, procura-se a reinserção no círculo familiar. Se não for possível, a criança fica disponível para adoção. Em São Paulo há cerca de 8 a 10 mil pretendentes e 2 mil crianças para adoção. Ela salientou que tem crescido o número de pretendentes na capital devido às novas formações familiares, casamentos tardios,

pares homoafetivos e segunda união. Mãe adotiva, coordenadora da Associação dos Grupos de Apoio à Adoção e membro consultor da Frente Parlamentar de Adoção da Assembleia Legislativa, Monica enfatizou que é importante compreender que “elas, as crianças, não têm a condição de coitadinhas. Quando pequenas, acham que a culpa é delas e, no caso de terem passado por maus-tratos, há marcas difíceis e etapas a serem superadas”.

“No dia seguinte, eu saí do trabalho e disse: ‘Vou buscar meu filho’. Era dia 8 de março de 2011. Às 17h, fomos ao Tribunal assinar o termo e levamos duas horas para chegar à Pinheiros, onde era o abrigo do João. Só em casa me dei conta que não tínhamos fraldas. Sandor saiu para comprar e, naquele momento, pensei... ‘E se ele estranhar?’ Quando coloquei o João no berço, ele balbuciou: “Ma ma ma ma”. Dormiu a noite inteira e, no dia seguinte, eu era mãe”, contou emocionada Andreia, enquanto seu filho comia bolacha sentado no seu colo.


20 |Especial de Natal |

17 de dezembro de 2014 a 7 de janeiro de 2015 | www.arquidiocesedesaopaulo.org.br

Fotos: Luciney Martins/O SÃO PAULO

Em cerimônia das luzes, católicos e judeus celebram a coexistência pacífica entre os seres humanos; encontro foi animado pela Orquestra Sinfônica de Paraisópolis, sob a regência do maestro Rydlewski

‘Deus está próximo, conduzindo as pessoas pela sua luz’ Edcarlos Bispo edbsant@gmail.com

No domingo, 14, o Cardeal Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano, e o Cônego José Bizon, diretor da Casa da Reconciliação, estiveram no Centro de Cultura Judaica para, junto com o Rabino Raul Meyer, Presidente do Centro da Cultura Judaica, celebrar a Festa das Luzes. A cerimônia teve o intuito de celebrar a coexistência e a paz entre os seres humanos num encontro entre representantes das religiões católica e judaica, para comemorar as festas de final de

ano: o Natal, celebrado por cristãos, e Chanuká, pelos judeus. Ambas são conhecidas pela profusão de luzes e cores associadas às suas festividades. Além de acontecerem em datas próximas, compartilham valores e ensinamentos inspiradores não só aos membros de suas religiões, mas a toda a humanidade. O Cardeal manifestou a sua alegria e satisfação por poder participar do momento da celebração das luzes, destacando que é uma ocasião muito “especial para judeus e cristãos”. Dom Odilo relembrou que a Sagrada Escritura possuiu diversas passagens que ressaltam

o simbolismo da luz. “A luz como vinda de Deus, iluminando o caminho dos homems e significando caminho, discernimento, sabedoria e a presença do próprio Deus que indica o caminho”, afirmou. Para o Arcebispo de São Paulo, a celebração das luzes nesta época do ano indica que a luz de Deus não abandona a humanidade “certamente a luz nessa época do Natal, para os judeus Chanuká, está a indicar que a luz de Deus não abandona a humanidade, mesmo quando nem sempre se tem consciência disso. Deus está próximo, conduzindo as pessoas pela sua luz”.

O Rabino Raul, por sua vez, destacou que em uma época marcada por conflitos entre algumas religiões, o encontro entre judeus e católicos mostra que “ainda há no mundo de hoje, grupos como esse que se reúnem dizendo ‘eu quero conhecer a sua religião e quero que você conheça a minha’, ou seja, nós somos filhos e um só pai. Nós podemos juntos lutar por um mundo melhor”. Segundo as tradições judaicas, Chanuká surgiu a partir de um milagre: durante oito dias, a chama do candelabro do Templo de Jerusalém não se apagou.

O Rabino destacou que todos precisam fazer parte desse milagre, sendo luz e iluminando o mundo e promovendo o diálogo, o respeito e as tolerâncias entre as várias tradições religiosas. “O Brasil é um exemplo de convivência pacífica de religiões e culturas diferentes e de mútuo respeito”, destacou Raul Meyer. O Cônego José Bizon, em entrevista ao O SÃO PAULO declarou: “ Nós, católicos e judeus, acreditamos no Deus Uno. Sendo um, ele é luz para todos, católicos e judeus. Por isso, temos que ser testemunhas de um convívio pacifico”.


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Luciney Martins/O SÃO PAULO

Cristãos e muçulmanos confraternizam-se em clima de Natal Lideranças muçulmanas e católicas, entre as quais o Cardeal Scherer, participam de jantar de confraternização de Natal no domingo, dia 14

Rafael Alberto

Especial para O SÃO PAULO

A comunidade muçulmana de São Paulo, por meio da representação diplomática da República do Líbano no Brasil, ofereceu no domingo, 14, um jantar de confraternização com os cristãos para celebrar o Natal. O encontro, primeiro realizado no Brasil, teve como tema “Jesus no Islã”, e contou com a participação do Cardeal Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo, do Sheik Mohamad Al Moghrabi, representante do Dar al-Fatwa no Brasil, e de Dom Damaskinos Mansour, arcebispo da Igreja Católica Ortodoxa Antioquina. “Para nós, cristãos, este tempo de Natal é de grande significado”, disse o Cardeal Scherer, destacando que os cristãos católicos ficam “felizes pela sensibilidade das comunidades islâmicas de São Paulo” em celebrar o Natal de Jesus Cristo. O Arcebispo recordou, ainda, os 50 anos do Concílio Vaticano II, cuja declaração Nostra Aetate contempla as relações da Igreja com as religiões não cristãs. “A Igreja tem grande apreço pelos muçulmanos, que adoram o Deus único, vivo, subsistente, misericordioso e onipotente, Criador do céu e da terra, e que falou aos seres humanos, chamados a se submeterem aos seus decretos, mesmo ocultos, como se submeteu Abrão, a quem a fé islâmica claramente se refere”, disse o Cardeal, citando um trecho da declaração Nostra Aetate. Reconhecendo que, “no decorrer dos tempos, verificam-se inúmeras divisões e lutas entre cristãos e muçulmanos”, Dom Odilo afirmou que “o Concílio agora convida todos a superarem esse passado e a cultivar sinceramente a compreensão mútua, a fim de protegermos e promovermos juntos, em favor de todos os seres humanos, a justiça social, os bens morais, a paz e a liberdade”. Em seu discurso, o Sheik Moghrabi também destacou o que une cristãos e muçulmanos. “Todas as religiões que vieram de um Deus Único, vieram para ajudar o ser humano. Todas elas convocam para o amor, a paz e a fraternidade”, disse. O representante do Dar El Fatwa Libanesa no Brasil também condenou o uso das religiões para justificar guerras. O Sheik garantiu que o Islã é inocente da “matança que acontece em nome da religião” e pediu, ainda, que os governantes encontrem no diálogo uma forma de resolver os conflitos. Os muçulmanos acreditam que Jesus é “um dos grandes mensageiros de Deus para a humanidade”.


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- Esportes | 17 de dezembro de 2014 a 7 de janeiro de 2015 | www.arquidiocesedesaopaulo.org.br Comitê Paralímpico Brasileiro

Sem limitações para vencer Antonio Tenório perdeu completamente a visão aos 19 anos; no judô, ganhou o reconhecimento internacional Daniel Gomes

danielgomes.jornalista@gmail.com

A final por equipes masculinas do Mundial de Judô Paralímpico, disputado em Colorado Springs, nos Estados Unidos, em setembro passado, estava empatada: duas vitórias para os brasileiros, duas para os russos. Coube a Antonio Tenório vencer a luta decisiva que garantiu a única medalha de ouro do Brasil na competição. “Tive apenas que fazer o meu trabalho que era ganhar aquela luta. O judô é o esporte mais individual, mas nós precisamos um do outro para treinar e quando nos juntamos em equipe temos que nos ajudar, apoiando e torcendo”. A declaração acima poderia ser de um novato, feliz pela primeira medalha internacional da carreira, mas não: Antonio Tenório tem 44 anos, e foi o primeiro judoca paralímpico do País a conquistar uma medalha de ouro, nos jogos Paralímpicos de Atlanta 1996. A essas se somaram as de Sydney 2000, Atenas 2004 e Pequim 2008. Em Londres 2012, já com 41 anos, ele foi medalhista de bronze. Tenório diz que pretende estar na Paralimpíada Rio 2016, mas antes, “tenho fé em Deus que vou participar do Parapan de Toronto em 2015”. Todas as medalhas paralímpicas de Antonio Tenório, bem como os pódios em mundiais e jogos Parapan-americanos (ouro no Rio 2007 e em Guadalaraja 2011), foram conquistadas na classe funcional B1, para atletas completamente cegos.

Amante de judô, cego por acaso Nascido em São José do Rio Preto (SP), Antonio Tenório da Silva teve plena visão até os 13 anos de idade, quando brincando de estilingue com os amigos foi atingido por uma semente de mamona e ficou cego do olho esquerdo. Seis anos depois, uma inflamação no olho direito fez com quem perdesse a visão por inteiro. “Desde os 7 anos, pratico judô, foi por intermédio do meu pai. Eu nunca me vi fora do esporte. O esporte na vida da gente, principalmente na minha que fiquei deficiente visual aos 19 anos, me ensinou muitas coisas, a ganhar e a perder, e é um bom caminho para a vida”, disse Tenório em entrevista ao O SÃO PAULO. Com uma vida de superação digna de história de cinema, o judoca paralímpico virou filme: “B1 – Tenório em Pequim”, lançado em 2010, com direção de Felipe Braga e Eduardo Moura. “O filme conta minha história de vida e foi gravado também durante a paralimpíada de 2008. Ele retrata o momento esportivo da vida do atleta, fala da preparação, do stress vivido em uma competição, o que a gente sofre no dia a dia da Vila Olímpica, e as emoções da vida de esportista”, explicou o tetracampeão paralímpico. Superação cada vez mais reconhecida Antonio Tenório garante que hoje os atletas paralímpicos no Brasil têm mais prestígio que em tempos passados. “O reconhecimento das pessoas com os atletas paralímpicos melhorou, e a gente vem sentido essa transformação, pois cada vez que buscamos uma medalha, o público vai conhecendo mais a gente”. Porém, ter mais reconhecimento não significa, segundo Tenório, que os esportes paralímpicos sejam devidamente valorizados no Brasil. “Há várias ações que

Antonio Tenório, tetracampeão paralímpíco, quer disputar medalhas no Rio de Janeiro em 2016

podem ser aprimoradas, principalmente a busca do patrocínio privado, para se aproximar mais ainda do movimento paralímpico”, comentou, dizendo ter confiança que o Brasil será quinto colocado no quadro de medalhas da Paralimpíada Rio 2016, como projeta o Comitê Paralímpico Brasileiro.

Aliás, Antonio Tenório já avisa: vai seguir atuante após a paralimpíada. “Parar de competir? Eu vou até 2024! Até 54 anos”, garantiu, sorridente, o judoca paralímpico, que também participa de competições com esportistas sem deficiência, já tendo vencido, em 2008, o Campeonato Paulista Master de Judô.

MUNDO DOS ESPORTES

• O judô é praticado como modalidade paralímpica desde a década de 1970, mas só ingressou no programa da paralimpíada a partir de Seul 1988, apenas na categoria masculina. A inclusão da disputa feminina aconteceu em Atenas 2004. • No judô paralímpico, competem atletas deficientes visuais das classes B1, B2 e

Judô Paralímpico B3, todos juntos, conforme a limitação de peso de cada categoria.

• São considerados atletas B1 os completamente cegos, que não têm qualquer percepção luminosa em ambos os olhos até a percepção de luz, mas com incapacidade de reconhecer o formato de uma mão a qualquer distância ou direção; os

atletas B2 têm a percepção de vultos, assim conseguem reconhecer a forma de uma mão até a acuidade visual de 2/60 ou campo visual inferior a 5 graus; e os judocas B3 conseguem definir imagens, tendo acuidade visual de 2/60 a 6/60 ou campo visual entre 5 e 20 graus.

• Em 1987, os judocas paralímpicos bra-

sileiros participaram pela primeira vez de uma competição internacional, o Torneio de Paris. Desde a inclusão da modalidade nos Jogos Paralímpicos, em Seul 1988, o Brasil conquista medalhas. Naquela edição, foram três de bronze, com Jaime de Oliveira, Júlio Silva e Leonel Cunha. Fonte: CBP


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Dom Milton: ‘solidariedade foi o que mais aprendi na Brasilândia’ Luciney Martins/O SÃO PAULO

Renata Moraes

ESPECIAL PARA O SÃO PAULO

Os fiéis e o clero atuante na Região Brasilândia se reuniram na sexta-feira, 12, na Paróquia São Luís Gonzaga, em Pirituba, para se despedir de Dom Milton Kenan Júnior, que foi ordenado bispo em dezembro de 2009 e desde fevereiro de 2010 atuou como vigário episcopal na Região. Ele tomará posse como bispo da Diocese de Barretos (SP), no domingo, 21, às 15h. A missa foi presidida pelo próprio Dom Milton e contou com a presença do Cardeal Odilo Pedro Scherer, arcebispo metropolitano, de Dom Julio Endi Akamine, do bispo auxiliar na Região Lapa, Monsenhor Eduardo Vieira dos Santos, recém-nomeado bispo auxiliar da Arquidiocese, e dezenas de padres. No início da celebração, o Cardeal agradeceu a Dom Milton pelos anos de trabalho na Arquidiocese. O Bispo Auxiliar

Dom Milton recebe carinho de fiéis da Região Brasilândia em sua missa de despedida da Arquidiocese, no dia 12

retribuiu às palavras de Dom Odilo e também estendeu seus agradecimentos ao povo da Brasilândia. “Nesses quase cinco anos, eu mais recebi do que doei,

já fui recompensado por Deus”. Nas palavras do comentarista da celebração, Padre Reinaldo Torres, coordenador de pastoral, Dom Milton foi lembrado

como um homem simples e que se desdobrou no campo social e nos desafios pastorais, sendo sinal da bondade de Deus para todos.

Em sua homilia, Dom Milton recordou que colocou seu pastoreio e episcopado aos pés da Virgem Maria. “Coloquei o meu báculo sob a proteção de Nossa Senhora do Carmo, numas das primeiras missas que celebrei na Brasilândia”. Os sete setores pastorais que compõem a Região Brasilândia prestaram suas homenagens ao Bispo. A réplica da cruz da Jornada Mundial da Juventude foi entronizada pelos jovens da Região, em sinal de agradecimento ao apoio do Bispo na Semana Missionária e na Jornada Mundial da Juventude, em 2013. Crianças o homenagearam com rosas e um quadro Virgem de Guadalupe, festejada naquele dia. Ao final, o Bispo lembrou os momentos de alegrias e tristezas, e revelou ter tido um aprendizado especial. “Solidariedade foi o que eu mais aprendi aqui na Brasilândia e a levo comigo em meu coração”.


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Fotos: Luciney Martins/O SÃO PAULO

Cardeal Scherer presidiu no sábado, 13, na Catedral da Sé, a ordenação de 9 diáconos permanentes e de 2 diáconos transitórios para a Arquidiocese Daniel Gomes

danielgomes.jornalista@gmail.com

Casados há 41 anos, Elisabeth Maria e João Carlos de Franco de Barros Fornari caminharam juntos pelo corredor central da Catedral da Sé, no sábado, 13, em direção ao presbitério. Pais de seis filhos e avós de sete netos, o casal é atuante na Paróquia Santa Francisca Xavier Cabrini, na Região Sé, e agora estará ainda mais a serviço da Igreja, pois João Carlos, 65, foi um dos nove diáconos permanentes ordenados naquele dia pelo Cardeal Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo, em celebração em que também foram feitos diáconos transitórios os seminaristas João Henrique Novo do Prado, 25, e Wellington Laurindo dos Santos, 31. “Foi mais fácil o discernimento do João Carlos para servir um pouco mais à Igreja, depois que os filhos cresceram e casaram. Ele começou a pensar e eu dei meu apoio para que pudesse alcançar o objetivo. Hoje, nos sentimos felizes por esse momento”, disse Elisabeth ao O SÃO PAULO.

Vocação com o apoio da família João Carlos, assim como os demais homens casados ordenados diáconos naquele dia – Antonio Ferreira Junior, 47,

Pela imposição das mãos do Cardeal Scherer são feitos diáconos nove homens casados e dois seminaristas, no dia 13

Diaconato: serviço à Igreja amparado na família Benedito José da Silva, 59, Francisco Eduardo Leme Nogueira, 66, Francisco Jandui Gonçalves, 50, Gilmar Freire Rodrigues, 46, José Donizeti Leonel, 58, José Jindarley Santos da Silva, 40, e Marcelo Brito, 44 – tiveram seis anos de estudos na Escola Arquidiocesana São José para o Diaconato Permanente, e realizaram um ano de vivência pastoral. Para esse período de preparação foi indispensável o apoio da família, como apontou o diácono Ailton Machado Mendes, 53, um dos formadores da Escola Diaconal. “Sem o apoio da família, da esposa, não é possível ser diácono, pois ela acaba sendo a pessoa que permite o estudo. Sempre precisa haver o discernimento do casal, especialmente da esposa, pois os diáconos trabalham bastante”, afirmou.

‘Apontamos para aquele que é a luz’ O rito de ordenação teve início após a leitura do Evangelho com a apresentação e o chamado dos 11 ordenandos, com a participação dos padres Cícero Alves de França, reitor do Seminário de Teologia da Arquidiocese, e Fernando José Carneiro Cardoso, reitor da Escola Diaconal. Na sequência, Dom Odilo proferiu sua homilia, em que expressou alegria pela vocação dos ordenandos e lembrou que diáconos, padres e bispos têm a missão de testemunhar Cristo. “Nós não temos brilho próprio, nem a Palavra própria, apontamos para aquele que é a luz, somos servidores daquele que é a Palavra, Jesus Cristo, luz do mundo”. Após a homilia, houve a sequência do rito de ordenação, com o propósito dos eleitos (em que

afirmaram o desejo de desempenhar o ministério diaconal), Ladainha, prece de ordenação e imposição das mãos do Arcebispo sobre os ordenandos, momento central da celebração, em que foram feitos diáconos. Posteriormente, os neodiáconos foram revestidos por seus padrinhos da estola e da veste dalmática, receberam do Cardeal o Livro dos Evangelhos, e foram acolhidos no clero da Arquidiocese com o abraço da paz que receberam do Arcebispo, bispos auxiliares e padres.

Comprometidos a servir a Igreja “O diácono é este que serve ao povo de Deus na liturgia, na palavra e na caridade, em comunhão com o bispo e seu presbitério”, apontou o neodiácono transitório João Henrique, na mensagem final em que também agradeceu o apoio,

confiança e orientação do Cardeal Scherer, bispos auxiliares, padres formadores e familiares. “A família é o nosso primeiro seminário”. Sentada nos primeiros bancos da assembleia, Maria Cileide Policarpo, mãe do neodiácono Wellington, se emocionou com Sim dado a Deus por seu filho. “Como mãe e alguém que pertence à Igreja, estou muito feliz hoje. Só peço a Deus que o Wellington seja convicto na vocação que escolheu para bem servir o povo de Deus”. Ao final da celebração, também o neodiácono permanente Francisco Eduardo agradeceu em nome dos demais ordenados. “Nossos estudos de Teologia e nossas práticas pastorais nos recordam a convocação do querido Papa Francisco, para todos vivermos a vocação eclesial e diaconal de uma Igreja em saída missionária”.

PARA ONDE IRÃO DIÁCONOS PERMANENTES Região Belém Diácono Benedito José da Silva Diácono Francisco Jandui Gonçalves Diácono Gilmar Freire Rodrigues Diácono Marcelo Brito Região Santana Diácono Antonio Ferreira Júnior Diácono Francisco Eduardo Leme Nogueira Região Lapa Diácono José Donizeti Leonel Região Brasilândia Diácono José Jindarley Santos da Silva Região Sé Diácono João Carlos Franco de Barros Fornari DIÁCONOS TRANSITÓRIOS Região Ipiranga João Henrique Novo do Prado Região Belém Wellington Laurindo dos Santos

Nasce a luz da vida eterna, ressurge a esperança! Feliz Natal aos nossos colaboradores, patrocinadores e assinantes

O SÃO PAULO - edição 3032  

Jornal O SÃO PAULO semanário da Arquidiocese de São Paulo, há 58 anos levando informação e formação para os católicos de SP

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