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Patrícia Lourenço

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ANO X- NÚMERO 63 – CURITIBA, SET/OUT DE 2019

LEIA NESTA EDIÇÃO Museu Egípcio: os misteriosos sarcófagos da capital paranaense - Página 3 Homens são as principais vítimas de transtornos mentais - Página 5 Feira de orgânicos movimenta centro de Itajaí, em Santa Catarina - Página 10

Uma rádio sem voz em Curitiba Criada há cerca de duas décadas para dar voz à população, a inoperante rádio comunitária na Boca Maldita silenciou o coração de Curitiba e ficou só no papel.

Conteúdo exclusivo

Jornal Laboratório - Curso de jornalismo do Centro Uninter


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Opinião

MARCO

ZERO

N.º 63 – Set/Out de 2019

Ao Leitor

Boa leitura!

Eu = Us, vós, eles Um filme de

Q

uando em outra edição do Marco Zero fiz a resenha de “Get Out”, tentei ser mais confusa possível, isso porque o filme nos causa uma sensação de estranheza e nos incomoda. E se você leu o texto citado, sabe que eu não sou uma fã do terror. Mas Jordan Peele conseguiu, novamente, me fazer sair da zona de conforto e ir ao cinema assistir “Us” (Nós). Peele parece ter anotado todos os clichês do terror e decidiu subverte-los. Us começa como um típico filme de uma família que vai passar férias na praia. Clima descontraído, muita animação e empolgação. E nas primeiras cenas a trilha sonora já começa a chamar minha

atenção. Sabe aquela expressão “até aí tudo bem”? Então, ela sempre precede algo que não está tão bem assim. E é durante essa viagem que a família de Adelaide (Lupita Nyong’o) é surpreendida por uma versão cruel e sanguinária de si mesma. A tensão se instala na película. Se em “Get Out” tínhamos a sensação do filme ser um suspense, com elementos de terror, em “Us”, temos a certeza de que é um filme de horror. Mas não se preocupe, caro leitor, se você acha que vai se assustar com “jump scare” (técnica usada para nos espantar por algo inusitado que aparece na tela tanto por som ou voz), já saiba que não. Ainda bem que esse filme não tem isso, ele te prende por ser

Use o QR-Code ao lado para ser encaminhado à área do aplicativo no Google Play

J

OLIVEIRA

Us é uma película que critica duramente a sociedade norte americana

Passo 1

á pensou em assistir a uma entrevista nas páginas de um jornal impresso, em vídeo? Ou quem sabe conferir um mapa em terceira dimensão, ou ainda interagir com elementos gráficos que saem das páginas? O que há poucos anos seria um sonho, agora é possível e está nas suas mãos. Isso mesmo! Venha com o Marco Zero na onda

Larissa

terror que entra em nossa pele

Passo 2 da Realidade Aumentada, uma tecnologia que permite a interação entre elementos reais e virtuais. Para entrar nesta viagem, é fácil e rápido. Siga as instruções e participe da experiência da notícia interativa. Nesta primeira versão, o recurso pelo aplicativo do Marco Zero está disponível apenas para aparelhos com sistema operacional Android.

Confira se o seu celular e a versão do seu Android são compatíveis. Depois, clique em instalar.

Passo 3 Com o APP aberto, aponte a câmera do seu celular para a página do MZ quando tiver a imagem ao lado

diferente, te deixa com medo por outros motivos. Sabendo um pouco sobre o contexto do filme, gostaria de adentrar a subjetividade que ele carrega. “Us” é uma película que critica duramente a sociedade norte americana. Começando pelo sentido ambíguo do título US, que significa “nós”, e também United States, ou seja, Estados Unidos. Durante o filme, vemos o embate entre a “família do bem” e a “família do mal”, e isso nos é posto propositalmente, porque quantas vezes você viu o outro como seu inimigo mesmo sendo vocês semelhantes? Idênticos no sentido de terem os mesmos direitos, idade, gênero, etc. Peele consegue nos instigar e mostrar o quão ani-

malesco o ser humano pode ser, o quanto desumanizamos uns aos outros. Ele nos revela realidades diferentes de pessoas iguais, e isso basta para nos deixar cheios de questionamentos. Sei que não me aprofundei em outros caráteres, como o racismo, ou na atuação maravilhosa da Lupita (que dá vontade de levantar da poltrona e aplaudir), mas isso é para te convencer a assistir, e tirar suas próprias conclusões. Você é uma cópia? Você é alguém único? Você sabe o que acontece a sua volta? Você sabe o que é empatia? Você conhece o mundo além da sua representação? Quem é você? Quem nós somos? Será que nós sabemos? Talvez nós nunca saberemos.

EXPEDIENTE

Comunicação é poder. É direito ao espaço público, é discurso, é potencial de visibilidade de pautas e de existência na sociedade, é hegemonia, é democracia e muito mais. Por isso, uma das principais bandeiras da democratização na comunicação no país é pelo acesso aos espaços públicos e de concessão de comunicação, como Rádios e Tvs. As vitórias pela comunicação são poucas, mas sempre bem comemoradas e reconhecidas. Há mais de duas décadas uma grande vitória para a bandeira foi a regulamentação do sistema de radiodifusão comunitária no país, que criou as regras para a requisição e funcionamento de rádios comunitárias. Hoje são mais de oito mil rádios em atividade em todo o Brasil. Em Curitiba, até o começo deste ano, seis rádios estavam autorizadas a atuarem no território. No entanto, uma delas, na Boca Maldita, ficou por quase duas décadas com a concessão e nunca usou. Se alguém acha que isso é um problema para quem pediu a concessão, saiba que está muito enganado. Isso porque uma das limitações é que não pode haver duas rádios em um mesmo espaço. Ou seja, a rádio inoperante, na prática, silenciou outras rádios e outras vozes por quase 20 anos na região central da cidade. O jornal Marco Zero fala sobre este assunto na matéria de capa e aborda o histórico do processo de concessão e perda da autorização da rádio no centro da cidade. Nas páginas do Marco Zero, você também encontrará uma reportagem sobre o Museu Egípcio. Já ouviu falar das múmias em Curitiba? Então confira lá! Confira também a entrevista com o Rogério Galindo, jornalista e tradutor, que fala sobre as dificuldades da vida de traduzir livros estrangeiros. E não deixe de ler as matérias dos alunos do EaD, no “Um Marco Zero em todos os cantos”.

O jornal Marco Zero é uma publicação feita pelos alunos do Curso de Jornalismo do Centro Universitário Internacional Uninter

Coordenador do Curso: Guilherme Carvalho Professor responsável: Alexsandro Ribeiro Diagramação: Equipe Marco Zero Projeto Gráfico: Equipe Marco Zero Uninter - Campus Tiradentes Rua Saldanha Marinho 131, CEP 80410-150 |Centro- Curitiba PR E-mail - alexsandro.r@uninter.com Telefones 2102-3377 e 2102-3380.


N.º 63 – Set/Out de 2019

MARCO

Cultura

ZERO

3 Luis Gustavo

Os misteriosos sarcófagos em Curitiba Luis

GUSTAVO

Uma estrutura imensa e rica em bens culturais está presente há mais de 20 anos na capital paranaense

Além das múmias, museu reúne centenas de obras e de peças que contam a história do povo egípcio

A

lém de um aeroporto, de um batalhão do Exército e de um parque, o bairro Bacacheri abriga também um pedaço do Egito Antigo. Ali há muitas relíquias históricas, réplicas, monumentos e até uma múmia verdadeira com mais de seis mil anos. O museu da Antiga e Mística Ordem Rosacruz (Amorc) guarda muitas peças que trazem um pouco do antigo Egito e da história dos domínios dos faraós no mundo. A múmia Thotmea está aqui em Curitiba desde 1995, quando foi doada por uma entidade dos Estados Unidos para o museu. Ela foi encontrada em escavações no século XIX na cidade de Luxor, no Egito. De lá, foi enviada para o museu Amorc de San José, na Califórnia. Na época, o grande mestre Charles Vega Parucke, presidente

da instituição em Curitiba, solicitou a doação de uma peça real para o museu curitibano, sendo encaminhado essa múmia que não estava em exposição na Califórnia. Para manter a sua conservação, há todo um processo de cuidado, como manter a umidade controlada em seu sarcófago por meio de um gel que suga a umidade e deixa a temperatura média em 21°C. Ela está isolada do restante do museu, em um quarto sem janelas, onde só se chega depois de passar por duas portas. Recentemente, Thotmea ganhou a companhia de outra múmia, a Wanra. Esta, contudo, é nativa aqui do continente americano. Trata-se de uma criança que foi mumificada na região dos Andes, na América do Sul. As duas múmias do museu apresentam formas diferentes

de manutenção do corpo. A múmia egípcia Thotmea passou pelo processo que ficou característico ritual egípcio. Já a múmia Wanra passou por um processo natural de mumificação. Além das múmias, o museu tem muitas réplicas dos utensílios utilizados pelos egípcios, inclusive bustos e representações de alguns deuses e faraós do antigo Egito. Antes de se tornar um dos mais emblemáticos museus de Curitiba, as obras integravam a mostra itinerante pertencente a Eduardo Vilela, que era aluno e membro da Ordem Rosacruz. Vilela levava essas relíquias egípcias de cidade em cidade, principalmente pelo interior de São Paulo, onde morava. Por lá, propagou muito a cultura do antigo Egito. Vilela resolveu parar com o museu itinerante e fez a doação

de todo o seu acervo para a Ordem Rosacruz.

Arquitetura e ambuiente externo do museu integram o rol de obras

Amorc

O conjunto de obras e relíquias do museu encanta todos os visitantes. Morador das redondezas do museu, o atendente de farmácia Jefferson Munhoz diz que foi lá várias vezes e sempre admira as belezas: “Eles têm um conteúdo riquíssimo do faraó Tutancâmon, e fazem muito bem essa função de ensinar e trazer cultura, pois mostra como era a vida dos povos antigos e ainda acarreta cultura e lazer”. Mas as belezas do museu não são apenas as obras, e sim a decoração e as instalações externas. Para a coordenadora cultural do museu, Vivian Tedardi, os jardins também representam uma extensão do lugar. “Temos lá fora uma estrutura feita para que o visitante sinta como era o ambiente do Egito na época, temos a pirâmide que remonta a obra egípcia, além de esfinges, uma estátua do imperador romano Otávio Augusto e um obelisco com um jardim bem cuidado e ambiente calmo para o nosso visitante se sentir bem”, enfatiza.

Múmias em 360º

Esfínges, esculturas e uma série de outras obras artísticas destacam o exterior do museu

Conteúdo exclusivo

Não pode ir agora no museu? Então pega o celular e use o Qr-Code ao lado para fazer uma visita virtual em 360º.

A Ordem Rosa Cruz

A

Amorc tem jurisdições divididas de acordo com os idiomas do mundo, e a sede em Curitiba foi designada para abranger Brasil, Portugal e Angola (países de língua portuguesa) no ano de 1990 pelo então presidente da Suprema Grande Loja Christian Bernard. A Ordem de domínio curitibano possui um total de 280 organismos afiliados, conta ainda com duas sedes em Portugal e uma na Angola. Toda ela conta com 20 mil membros ativos da Ordem nos três países.


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Entrevista

MARCO

ZERO

N.º 63 – Set/Out de 2019 Acervo Pessoal

Um ‘traduttore’ nada ‘traditore’

Por trás de um bom livro estrangeiro sempre tem um tradutor que, muitas vezes, dá vida ao livro. O jornalista Rogério Galindo é um deles.

Rafaelle

BATISTA

Jennifer

SILVA

“Meu irmão começou a trabalhar profissionalmente com tradução. Descobri que podia fazer isso sem largar meu trabalho de jornalista”, afirma Galindo

T

raduttore, traditore! De origem italiana, o provérbio parece colocar em xeque a função do tradutor. Ma, de fato, esconde no joguete de palavras o sentido de que toda tradução não corresponde necessariamente ao original. Há aqui um espaço de criação, de interpretação e de reapropriação da obra a partir da tradução. Que o diga o caricato personagem Pierre Menard, do escritor argentino Jorge Luis Borges, que “ reescreve” o Quixote de Cervantes com as mesmas palavras. De biografias à ficção, o trabalho de um tradutor de livros traz diversas histórias ao nosso alcance. E o volume de trabalho e importância no cenário livreiro é grande. Dos vinte livros mais consumidos pela população brasileira em 2018, metade é de origem estrangeira, de acordo com dados da Lista de Mais Vendidos Geral da Publish News. Apesar do grande interesse pela literatura estrangeira, pequena é a evidência dada justamente a um importante integrante deste processo, que é o tradutor. Muito mais que um dicionário, a função requer um tino com as palavras, um conhecimento literário e so-

bretudo um perfil de devorador de livros. Este basicamente é o currículo do curitibano Rogério Galindo. Com duas décadas de atuação no jornalismo político, Galindo encontrou na tradução uma folga para a corrida do noticiário e também uma forma de aumentar a renda. E não foi um nem dois livros

Traduzo do começo ao fim. Depois volto e reviso tudo de novo. Na editora, o trabalho em geral ainda é lido por um preparador, pelo editor e mais dois revisores. traduzidos por ele ou em parceria com outros tradutores. São mais de onze títulos, dentre eles obras como Campos de Sangue, de Karen Armstrong, Terra Estranha, de James Baldwin, e A Conexão Bellarosa, de Saul Bellow. Confira a entrevista concedida pelo tradutor ao jornal Marco Zero.

Texto do Borges Use o Qr-code para ver uma versão em PDF de Ficções, do escritor Jorge Luis Borges. A obra contém o citado capítulo sobre Pierre Menard.

MZ – Como surgiu o interesse por essa área? Galindo - Sempre gostei de escrever, sempre gostei de livros. Meu irmão começou a trabalhar profissionalmente com tradução e acabei vendo que aquilo era divertido. Descobri que podia fazer isso sem largar meu trabalho de jornalista, conciliando as duas coisas. Acabou juntando o útil ao agradável: coisas que eu gosto e ainda dão um dinheirinho extra. MZ - Você atua em uma vaga fixa ou freelancer? Galindo - A maioria dos tradutores é freelancer. É meu caso também. Acho que não conheço casos de tradutores com vagas fixas em editoras. MZ - Como é o processo de tradução de um livro? Galindo - Em geral a editora te procura, diz que tem tal livro, explica prazo e valor orçado. Normalmente o pagamento é por laudas. Você vê se te interessa e aceita ou não. No meu caso, faço nas “horas vagas”, à noite ou fins de semana, principalmente. Abro dois documentos na tela do computador - o original e a minha versão. Traduzo do começo ao fim. Depois volto e reviso tudo de novo. Na editora, o trabalho em geral ainda é lido por um preparador, pelo editor e mais dois revisores. MZ - Como você aprende os detalhes e macetes da língua para aprimorar a tradução? Galindo - Meu irmão, que é meu professor de tradução, sempre me disse que o mais importante é você falar bem a língua “de che-

gada”, no caso, o português. Esses macetes não tem como “aprender” na hora. A língua de partida às vezes você pode ir aprendendo no processo. Existem bons dicionários de inglês, inclusive para coisas específicas, como expressões e gírias. Em último caso, você tem que procurar alguém especializado em certo assunto. Acontece, mas é raro. MZ - Quando fica com alguma dúvida sobre a tradução de uma palavra ou frase, a que meios recorre? Galindo - Dicionários on-line, principalmente. Desde o Google até o Free Dictionary, do Urban

A língua de partida às vezes você pode ir aprendendo no processo. Existem bons dicionários de inglês, inclusive para coisas específicas, como expressões e gírias. Dicitonary ao Oxford. Tem alguns instrumentos que às vezes são úteis. Wikipedia pode ajudar com termos científicos. Minha mulher, que também traduz, já achou coisas até no Pinterest. Tem instrumentos também como o Linguee, essas coisas. MZ - Ferramentas como o Google Translator são úteis na prática? Galindo - Sim! Lógico que a

tradução do Google, usada pura, é horrível. Mas às vezes eu uso até para lembrar “como-a-gente-diz-isso-em-português-mesmo”. Porque a tradução literal às vezes não serve, e aí você tem que ficar lembrando como as pessoas falam de verdade, na rua, na escrita do dia a dia. Tudo ajuda. MZ - Na sua opinião, qual o aspecto mais trabalhoso na tradução de um livro? Galindo - No meu caso específico, brinco que seria útil se eu soubesse uma segunda língua. Meu inglês podia ser melhor. MZ - Após a tradução, o que acontece com o texto? Galindo - Ah, respondi antes da hora. Mando por e-mail para editora. Lá, vai para o preparador, uma espécie de subeditor. Essa pessoa deixa anotações (mas não tem poder de mudar arbitrariamente). O editor (a editora) lê o meu texto com as anotações da preparação, decide quais acata. Faz suas próprias mexidas. Vai para diagramação, em seguida dois revisores. Aí é capa e imprimir. MZ - Qual a orientação que você pode dar para quem tem interesse pela área? Galindo - Estude português com afinco. Esse é o principal. Tem que ter um texto BOM. Segundo, estude uma segunda língua. Terceiro, traduza por diversão, só para testar a mão. Por último, infelizmente o mercado não é essas maravilhas, e normalmente as pessoas entram em editoras boas por indicação. Então procure alguém que já esteja na área e mostre teu trabalho, peça recomendações.


Cidades

N.º 63 – Set/Out de 2019

MARCO

Saúde

ZERO

5 Juliana Veiga

Homens são as principais vítimas de transtornos mentais

Doenças comportamentais e mentais mataram mais de 44 mil homens em cinco anos, segundo DataSus

Juliana

VEIGA

Millena

PRADO

Cláudia

FREIRE

Em cinco anos, mais de 63 mil pessoas morreram de doenças decorrentes de transtornos mentais

N

o mundo, mais de 400 milhões de pessoas são diagnosticadas com transtornos mentais e comportamentais. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que no Brasil 23 milhões, ou seja, 12% da população, necessitam de atendimento em saúde mental. Destes, 5 milhões sofrem com transtornos mentais graves. Segundo o DataSus, base de dados alimentada pelo Ministério da Saúde, estão incluídos na lista de doenças que integram os transtornos mentais a depressão, o transtorno bipolar e esquizofrenia. O número de vitimas de tais

doenças, conforme destaca a base da OMS, é alarmante. Mais de 300 milhões de pessoas no mundo sofrem de algum grau de depressão. Soma-se a tais números cerca de 60 milhões de pessoas que são vítimas de transtorno afetivo bipolar. O estudo da organizacão destaca ainda mais de 23 milhões de pessoas com esquizofrenia ou outras formas de psicoses, e 50 milhões de pessoas com diagnóstico de demência. Um levantamento realizado pela reportagem na base do DataSus revela que em cinco anos mais de 63 mil pessoas morreram de doenças ou por medidas em decorrência de transtornos mentais e comporta-

Mortes decorrentes de transtornos mentais 2013/17

mentais, aliados ao uso de substâncias psicoativas, como álcool e drogas ilícitas. Observando os dados compilados na base do SUS de 2013 a 2017 é possível traçar o perfil das pessoas que mais morrem de causas tipificadas como transtornos mentais e comportamentais. Os homens são as maiores vítimas, respondendo por 71% do total de mortes. Dentre eles a maioria é solteiro (44,2%), com idades entre 50 e 59 anos (24%), moradores da região sudeste (41%), pardos (43,6%) com 1 a 3 anos de escolaridade. Já as mulheres representam apenas 28% da mostra. A maioria é viúva (40,2%), tem de 70 a 79 anos (13,3%), moradoras do sudeste (55,9%), com um a três anos de escolaridade (26,8%) e são em sua maioria brancas (55,6%). A mortalidade de homens no período pesquisado foi 56%, sobre todas as causas registradas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), enquanto as mulheres representam apenas 43% do total. Em contra-

ponto, levando em conta dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio Contínua 2018 (PNAD), homens representam 48,3% e mulheres 51,5% da população total do país.

Porque homens sofrem mais com transtornos mentais? Podemos apontar algumas das causas para que o sexo masculino seja mais afetado por estes problemas. Conforme indica a psicóloga Ana Paula Melnechenko, os fatores de risco estão ligados à pouca procura dos homens a apoio profissional. Segundo Paula, “Eles tendem a não procurar ajuda quando apresentam algum sintoma. Quando estão com depressão, estresse, alguma outra alteração comportamental ou de autoestima, costumam negar mais as doenças, que acarreta um agravamento do quadro e leva a outros transtornos ou até ao suicídio”. Esta postura masculina pode estar relacionada, segundo a profissio-

Conteúdo exclusivo

nal, a uma construção sócio-histórica em que o homem foi pressionado pela sociedade para demonstrar virilidade, assim, o sexo masculino internaliza esta cultura e não se permite recorrer a ajuda. Outro fator importante, segundo Ana, as psicopatias e esquizofrenias afetam mais homens que mulheres. Os estudos ainda não conseguiram apontar porque o gênero masculino tem maior predisposição a estas doenças. Entre os fatores de risco destacados pela OMS, o desenvolvimento de transtornos mentais e comportamentais está ligado a fatores sociais, psicológicos e biológicos além de eventos extremos como desemprego, luto e traumas.

Mortes decorrentes de transtorno mentais / recorte por gênero - 2013/17


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Especial

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N.º 63 – Set/Out de 2019

Patrícia e Igor

Uma rádio fantasma em Curitiba

Há quase duas décadas uma concessão de rádio comunitária dada a uma associação na Boca Maldita vem silenciando a voz do centro da cidade Patrícia

LOURENÇO

A saga burocrática para conseguir uma concessão parece não ser a mesma para todos

Q

uem passeia pelo emblemático calçadão da Rua XV de Novembro no centro de Curitiba ouve a voz da multidão. Ambulantes defendendo seu ganha pão, palhaços e malabaristas trocando gracejo pelo sustento, músicos, poetas e loucos inundando cada metro quadrado com arte, voz, melodia e alegria. A Boca Maldita, então, é a síntese da participação política, o palco da esfera pública e cenário das mais diferentes manifestações do povo paranaense: de gritos de Diretas Já! passando por camisetas verdes, amarelas e vermelhas. Apesar do

forte pulsar humano e da vontade de fala, desde o começo deste milênio o centro da cidade se cala quando o assunto é ter voz nas rádios comunitárias. Em 2001, três anos depois da regulamentação do serviço de radiodifusão comunitário no país, um grupo de oito notórios senhores, integrantes da Sociedade Civil Boca Maldita, conseguiram do governo federal o aval para instalar uma rádio comunitária na Praça Osório, no coração do bairro central de Curitiba. À época, o projeto de abrir um rádio foi encabeçado pelo ex-de-

Decreto presidencial autorizando a rádio Diário Oficial

legado de polícia e ex-funcionário do Tribunal de Contas, Anfrísio Fonseca de Siqueira, conhecido como o fundador da Boca Maldita e da tradicional entidade curitibana Confraria dos Cavaleiros da Boca Maldita. Segundo o vice-presidente da Sociedade Civil Boca Maldita e um dos sobreviventes da lista de dirigentes da entidade, Luiz Geraldo Mazza, o objetivo naquela época era desmistificar o imaginário de que aquela região da cidade seria um polo de manifestações políticas, mas sim, de manifestações culturais. A saga burocrática para abrir a rádio leva em média uma década. Para a sociedade curitibana, contudo, o processo foi menos demorados. Conforme aponta documento dos Ministérios das Comunicações sobre o andamento do processo da rádio, a “Sociedade Civil Boca Maldita foi autorizada pela Portaria nº 606/2001, de 24 de outubro de 2001, ratificada pelo Decreto Legislativo nº 597/2003, de 26 de agosto de 2003, a executar, pelo prazo de dez anos, sem direito de exclusividade, serviço de radiodifusão comunitária na cidade de Curitiba”. Em dois anos, a documentação tanto do ministério quanto da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), responsável por fiscalizar o serviço de telecomunicações no país, já havia

dado aval para que os “cavaleiros” pudessem dar voz à comunidade do centro da cidade. Quase duas décadas depois disso, no entanto, a rádio que deveria funcionar com sede na Avenida Luiz Xavier, na Galeria Tijucas, especificamente nas “coordenadas geográficas 25°25’55”S de latitude e 49º16’23”W de longitude”, jamais saiu do papel. Mazza afirma que ficou ao largo do projeto. “A rádio nunca saiu do papel, participei inicialmente do plano, mas eu não era o responsável, o falecido Anfrísio que se encarregava de tudo”. Ao ser questionado quanto ao cargo de

Segundo Mazza, o objetivo naquela época era desmistificar o imaginário de que aquela região da cidade seria um polo de manifestações políticas, mas sim, de manifestações culturais

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vice-presidente, afirma, “queriam o meu nome e o conhecimento jornalístico apenas, a rádio comunitária queria trazer para a Boca um aspecto cultural”. Dentre as exigências da lei da concessão da rádio está a necessária renovação de contrato e atualização de dados. Se isso não ocorre, o Ministério da Comunicação caça as concessões. É o que aconteceu com mais de 130 rádios comunitárias na virada do ano passado para 2019. Segundo portaria do órgão, a maior parte dos encerramentos se deu pela falta da renovação das outorgas das emissoras. A rádio da Boca, segundo o jornalista Mazza, nunca existiu, “fiquei surpreso ao saber que está ativa, nunca fomos ao ar e pelo que sei, ninguém mais toca esse projeto”. Sem funcionamento e com dívida com a União, a Sociedade perdeu a concessão da Rádio Boca Maldita em agosto deste ano. Uma portaria publicada pelo Ministério da Comunicação declara “peremp-


N.º 63 – Set/Out de 2019 ta”, ou seja, sem efeito, a “autorização outorgada à Sociedade Civil Boca Maldita, inscrita no CNPJ nº 68.676.154/0001-31, por meio da Portaria nº 606, publicada no Diário Oficial da União de 31 de outubro de 2001, para executar o Serviço de Radiodifusão Comunitária na localidade de Curitiba, estado do Paraná”. A portaria, assinada pelo ministro Marcos Pontes, foi publicada no Diário Oficial da União no início de agosto. O fechamento da concessão, que parece um retrocesso no acesso à comunicação, na verdade esconde uma oportunidade para que de fato uma rádio comunitária seja instalada no centro de Curitiba, já que a Rádio Boca Maldita, que deveria ser um espaço democrático e cultural no centro da cidade, acabou se tornando um ponto sem voz e de dominação política e cultural.

Falha na fiscalização das concessões A existência de uma rádio comunitária no plano formal que nunca operou indica uma falha da fiscalização pelos órgãos oficiais, bem como a falta de informações sobre o caso, tanto pela Anatel nacional quanto pela sua regional. A reportagem do jornal Marco Zero entrou em contato com o setor de fiscalização paranaense da Anatel. A agência afirma que não tem conhecimento sobre o acompanhamento do caso Rádio da Boca. “A fiscalização estadual é feita por nós, mas no sistema tudo se encontra correto, melhor fala-

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Especial

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O cumprimento do dever de transparência pelos órgãos públicos, fator essencial para um governo democrático, não se materializa apenas na existência de sites e portais com dados, defende a advogada Rafaela Silva rem com a rede nacional”, destacou a agência, sem sequer ter ciência de que a rádio tinha perdido a outorga. De acordo com a advogada e pós-graduanda em Direito Público, Rafaela Lourenço da Silva, “o cumprimento do dever de transparência pelos órgãos públicos, fator essencial para um governo democrático, não se materializa apenas na existência de sites e portais com dados, é necessário que haja organização na informação prestada, bem como facilidade de acesso e compreensão da mesma”, afirma.

Ligação política e de elite do poder Um dos pressupostos da rádio comunitária é a representatividade ampla da comunidade em que será

Mazza: nunca fomos ao ar e pelo que sei ninguém toca o projeto

instalada, com a garantia de uma programação plural, sem discriminação racial, sexual, convicções político-partidárias e intolerância religiosa. A lei que regulamenta o serviço no país é clara quando afirma que a entidade deve ser isenta. “A entidade detentora de autorização para execução do Serviço de Radiodifusão Comunitária não poderá estabelecer ou manter vínculos que a subordinem ou a sujeitem à gerência, à administração, ao domínio, ao comando ou à orientação de qualquer outra entidade, mediante compromissos ou relações financeiras, religiosas, familiares, político-partidárias ou comerciais”, aponta a legislação. A formação da diretoria da Sociedade detentora da licença da rádio, contudo, acende a luz vermelha pelas conexões políticas, comerciais e com o poder público. Além de Afrísio e Mazza, a lista de dirigentes ainda contava com nomes como do jornalista e ex-vereador Mário Celso Cunha, hoje dirigente da Copel, de Joaquim Antônio Penido Monteiro, o empresário e presidente da Associação Comercial do Paraná (ACP) Gláucio Geara, o ex-servidor público municipal Ygor Kruchowski de Siqueira, e o jornalista e imortal da Academia Paranaense de Letras Adherbal Fortes de Sá Júnior. A ata de fundação da Sociedade faz constar ainda, como orador, o nome do jurista Rene Ariel Dotti.

A conexão política na formação da Rádio Boca Maldita e da sociedade que dirige no papel a rádio consta no relatório Coronelismo Eletrônico de Novo Tipo, produzido em 2007 pelos sociólogos Venício Lima e Cristiano Lopes sobre as rádios comerciais e comunitárias em todo o país. Os pesquisadores mapearam todas as concessões em que havia algum dirigente ou integrante com conexões políticas. Alguns com mandatos há décadas nos estados e também no Congresso Nacional como senadores e deputados. “As rádios comunitárias legalmente autorizadas, exploradas por associações e fundações, deveriam ser um dos mais importantes instrumentos para a efetiva democratização da comunicação no Brasil. Nelas deveria ser exercido o direito à comunicação por aqueles que, em geral, não o têm – até porque, muitas vezes, o desconhecem. Infelizmente, não é o que acontece”, destacam os pesquisadores no estudo.

Sem voz, rádio inoperante impedia outras de atuarem O problema em não tirar a rádio do papel é que isso impede que outras rádios comunitárias atuem no espaço. Como não existem muitos sinais disponíveis para uma infinidade de rádios, as comunitárias devem usar a mesma frequência. Isso mesmo. As rádios comunitárias não podem operar com uma frequência exclusiva, sendo que o sinal é designado pelo município. O entrave aqui é que duas rádios operando no mesmo espaço com a mesma frequência interromperia os sinais de ambas. Para resolver isso e dar conexão da rádio ao local, foi determinado que o raio de atuação de uma rádio é de um quilômetro, o que dá dois quilômetros de diâmetro. Mas na prática, pelo Ministério das Comunicações, a distância de uma rádio para outra deve ser ainda maior.

Coronelismo eletrônico Use o Qr-code para ver a pesquisa sobre a dominação política a partir da concentração de concessão de rádios no Brasil


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Especial

MARCO

Arquivo Marco Zero

Relações políticas estão desde o início do grupo, na década de 1950 Isso para resguardar a qualidade do sinal e evitar a interferência de uma na outra. Conforme destaca o Ministério, pode ter mais de uma rádio por município ou até por bairro, tudo depende da distância de uma a outra. O que não pode é ter mais de uma em um mesmo raio.Para evitar interferências, a distância mínima entre uma estação e outra é de quatro quilômetros. Isso inviabilizaria outra rádio operando no centro de Curitiba. Ou seja, ao não operar e ficar apenas no papel, a Rádio da Boca, além de não ter

voz, silenciou todas as possibilidades do centro da cidade ter uma rádio comunitária ativa tocada por outras instituições.

Rádio comunitária: a voz do povo, para o povo e sobre o povo Pensar em democratização dos meios de comunicação é mais que abrir as portas de rádios, canais de televisão e permitir a popularização da produção. É também pensar em como as pessoas podem ter acesso ao conteúdo de qualidade,

Pesquise as rádios Use o Qr-code para encontrar as outorgas de rádios comunitárias ativas e inativas na sua cidade pelo no site da Anatel

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e como elas podem definir como a melhor programação com a integração social. Estas são algumas das premissas de quem defende a democratização da comunicação. Uma das vitórias do movimento pelo acesso à produção e decisão de comunicação foi a criação do Serviço de Radiodifusão Comunitária no país, em 1998. A lei que especifica como funciona o sistema no Brasil destaca que o serviço tem como objetivo dar oportunidade à difusão de ideias, elementos de cultura, tradições e hábitos sociais da comunidade; oferecer mecanismos à formação e integração da comunidade, estimulando o lazer, a cultura e o convívio social; prestar serviços de utilidade pública, integrando-se aos serviços de defesa civil, sempre que necessário; contribuir para o aperfeiçoamento profissional nas áreas de atuação dos jornalistas e radialistas, de conformidade com a legislação profissional vigente; além de permitir a capacitação dos cidadãos no exercício do direito de expressão da forma mais acessível possível. As rádios Comunitárias existem por meio de associações e fundações sociais sem fins lucrativos, com sede na região em que a prestação de serviço será feita. O objetivo dessas rádios é fornecer uma opção de conteúdo voltado para a comunidade. Devem ter uma programação pluralista, podem ser divulgadas ideias, manifestações culturais, hábitos sociais, e tradições. Uma rádio voltada à comunidade, fala de certa forma, por si só. Seu objetivo principal consiste em cobrir, dar suporte, e elaborar uma programação totalmente relacionada à comunidade. De maneira geral, a necessidade mais destacada é a valorização da cultura local, além dos cuidados como publicidade e propagandas. Uma rádio comunitária fornece a opção de fala para questões sociais e assuntos que nem sempre são pautados na grande mídia.

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Quais as diferenças entre rádio comercial e comunitária

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xiste uma fiscalização própria, de acordo com a legislação, que regulamenta as transmissões não comerciais. Para uma rádio comunitária se manter ativa, é preciso que uma atualização de dados seja feita mensalmente por meio de um sistema da Anatel. Além disso, as rádios comunitárias seguem normas de utilização, como por exemplo, devem ter uma frequência modulada (FM), de baixa potência (25 Watts) e com cobertura restrita a 1 km a partir da antena transmissora. De uma forma geral, as transmissões em rádios comunitárias, são um importante instrumento para a democratização da informação e da cultura em nosso país. A lei que regulamentou o funcionamento das rádios, passou a restringir o seu espectro de atuação. De acordo com a Pós-graduanda em Direito Público, Rafaela Lourenço da Silva, “a lei, ao reduzir o espaço de funcionamento das rádios comunitárias, limitando sua potência e alcance, vedar publicidade, dificultando a sustentação econômica e ainda instituir uma lista de infrações passiveis de punição, dificultou a permanência no ar, bem como a transferiu para um espaço de marginalidade”, aponta. A diferença que ela tem com a rádio comercial, é que os anúncios de uma rádio aberta, são aqueles em que os concessionários têm liberdade de exploração comercial, sem deixar de respeitar os limites impostos pela legislação, elas são baseadas primeiramente na prática de exibir publicidade para obter lucro. A maioria das permissões (ou outorgas) de rádios comerciais é usada pela iniciativa privada, mas também existem rádios comerciais que são fundações de direito público e privado ou até órgãos públicos. De acordo com números oficiais do extinto Ministério das Comunicações, existiam 4,8 mil rádios comunitárias em operação no país, em 2016. Segundo dados de janeiro de 2018, no Paraná, funcionam 130 rádios comunitárias. Em Curitiba, somente seis rádios que se localizam nos bairros: Capão Raso, Orleans, Cidade Industrial, Centro, Sítio Cercado e Cajuru. A Anatel realiza a fiscalização de todas as rádios comunitárias registradas no atual Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações. Essa fiscalização é dividida por estado.


N.º 63 – Set/Out de 2019

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William Ramos

Ilegal e perigoso: o pixo nas alturas Pichações na região central de Santa Maria incomodam moradores e comerciantes William

RAMOS

Reportagem de Santa Maria (RS) Mobilizados, comerciantes começaram a afixar cartazes chamando a atenção para os problemas

O

s perigos e as estratégias de escalada enfrentados por pichadores para desenhar os quinze andares de um prédio intriga os moradores do município gaúcho de Santa Maria. “Imagina o risco que essa gente corre escalando as paredes na madrugada, sem nenhuma proteção, só pra demarcar território. Não entendo essa guri-

U

ma Câmara Municipal instalada. Este era o requisito para que Joinville, nos ido de 1868, fosse elevada à categoria de vila, o equivalente hoje a município. Para conquistar o status, a população de uma das principais cidades do estato catarinense iniciavam á época o primeiro processo eleitoral como município. Há mais de um século e meio, a cidade que hoje agrupa cerca de 600 mil habitantes, contava em seus limites territoriais cerca de cinco mil pessoas, em sua maioria, imigrantes europeus. Em setembro daquele ano, o destino da pequena vila estava nas mãos de 213 eleitores, que no espaço da Igreja São Francisco Xavier manifestaram seus votos pela formação do primeiro quadro da Câmara Municipal, com sete novos parlamentares instituídos. Meses depois, no começo de um novo ano, iniciavam os trabalhos os vereadores na primeira legislatura de Joinville, composta por cinco representantes do Partido Conservador e dois do Partido Liberal. Naquele tempo, o presidente da Câmara também exercia

Há mais de um século, a Câmara de Joinville é arena de debates políticos da cidade e palco da democracia local

zada de hoje em dia”, reclama o aposentado Júlio do Santos, de 59 anos. Não bastasse a vida em risco, a prática é tipificada como crime ambiental e como vandalismo, o que pode dar ao pichador uma pena de três meses a um ano. A pichação é recriminada na pequena Santa Maria, de pouco mais de 280 mil habitantes. E para tentar impe-

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EaD: um Marco Zero em cada canto

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dir o avanço das marcações de paredes a prefeitura modificou uma lei municipal para fazer o vandalismo doer no bolso. As multas que partiam de R$ 100,00 aumentaram para R$3,5 mil. Além disso, em caso de reincidência, a multa sobe para R$6,6 mil. No caso do infrator ter menos de dezoito anos, os responsáveis pelo menor é que vão pagar a mul-

ta e responder judicialmente. O objetivo da pei é reduzir as infrações e promover a reeducação. E os dados apontam para um efeito positivo. Em 2018 houve uma redução de 75% no número de pessoas multadas em relação ao ano anterior. O resultado é reforçado com as ações da Guarda Municipal, que tem aumentada a vigilência. O centro da cidade é o local mais afetado por esse tipo de crime. A poluição visual inclui mensagens, desenhos e marcas de grupos de pichadores de todos os tamanhos. É algo que ainda incomoda muito a Camila Rosa, de 29 anos, moradora do bairro da região central da cidade. O prédio onde ela mora já foi alvo de pichadores quatro vezes. “Eu acredito que só aumentar a multa não resolve, deveriam aumentar a fiscalização também, principalmente à noite. Não temos mais sossego. Você pinta o muro num dia e no outro já está todo sujo novamente’’, desabafa. A indignação não é exclusiva dos moradores e tem mobilizado também os comerciantes, que frente às inúmeras pichações começaram, a fixar cartazes “ puxando” a orelha de quem vem marcando as paredes da cidade.

Em Santa Maria (RS), para reduzir os casos de pichações, a prefeitura aumentou a multa para quem for pego em flagrante . William Ramos

Pichadores se arriscam no alto dos prédios

Reportagem de Joinville (SC)

Um século e meio de história

Com um quadro de honrosa atuação, a história da Câmara de Vereadores de Joinville se confunde com a história da própria cidade

Wagner

DIAS

Prédio inaugurado em 2006 é a sexta sede, sendo a primeira própria funções executivas, como explica o historiador Dilney Cunha. “Seria algo como o prefeito da cidade na época”, destaca. Dentro desse contexto histórico, vemos que a Câmara Municipal teve papel fundamental ao mobilizar a sociedade em torno de debates democráticos desde o passado, para que Joinville pudesse se tornar hoje a maior cidade do estado de Santa Catarina. No entanto, acontecimentos afetaram as ações da Câmara em

pelo menos três períodos merecem destaque nestes últimos 150 anos. O primeiro deles é a Proclamação da República em 1889, que causou inclusive a extinção das legislaturas existentes. O historiador Dilney Cunha destaca que foi um período bastante conturbado. “As coisas só foram se normalizar alguns anos depois por volta de 1895”, afirma o historiador. Outro período de destaque foi o de 1930, com a chamada Era Vargas. Uma vez que Getúlio Vargas ficou

ao lado dos chamados Aliados, os países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão) eram considerados inimigos. A decisão teve reflexos diretos para os habitantes da cidade, cuja população é formada em grande parte estrangeiros ou descendentes de alemães e italianos. Também foram anos difíceis para a Câmara, pois com a privação da liberdade na época, o poder legislativo tinha papel basicamente homologador, não havendo uma democracia de fato.

O terceiro período que merece destaque é o da promulgação da Constituição de 1988. Graças ao artigo 29 da Constituição Cidadã, a Câmara pôde se tornar mais livre, promulgando a Lei Orgânica e o seu Regimento Interno redigidos pelos seus próprios vereadores. Assim, lá se vai um século e meio de atividade da Câmara de Joinville como palco de manifestações dos joinvilense, e como ator importante para a formação da cidade catarinense.


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N.º 63 – Set/Out de 2019 Glória e Jéssica

Reportagem de Cruzeiro (SP)

Vagas rotativas agilizam a vida em Cruzeiro Flaviano

PEREIRA

Sistema implantado prevê cobrança por permanência e multa em casos de estacionamento irregular

As sinalizações estão prontas para a orientação dos locais de estacionamento

Q

uem circula de carro pelo centro do município de Cruzeiro, no interior do estado de São Paulo, tem motivo para ter mais tranquilidade para conseguir um lugar para estacionar. Isso porque a prefeitura da cidade determinou a implantação do sistema de estacionamento rotativo, conhecido como Zona Azul. Esta não é a primeira vez que a cidade tem um sistema de estacionamento, mas desta vez a medida vem gerando polêmica e tem deixado a população dividida. Para a professora Kelly Pereira

retornar em serviços para população, caso contrário, não é bom”. Para o o diretor municipal do departamento de trânsito de Cruzeiro, Marcelo Garcia, o novo sistema foi resultado de estudos e de análises iniciados nos anos anteriores e a empresa responsável foi contratada mediante licitação pública. “São oferecidas 510 vagas, mas deveremos chegar até 800 vagas”. A tarifa cobrada por hora pela empresa Zona Azul Brasil é de R$ 1,50, e o usuário pode ainda baixar o aplicativo em seu celular para facilitar o serviço.

da Silva, a cobrança é bem-vinda e o sistema facilita a vida de quem quer resolver coisas rápida no centro. “Teremos mais vagas para estacionar. Algumas pessoas deixam o carro o dia inteiro parado no centro, dificultando aqueles que precisam utilizar a vaga por um curto espaço de tempo”. Já para servidor público Thiago Amorim Melo, é importante que exista uma contrapartida no acompanhamento dos pagamentos e do uso dessa verba. “É preciso fiscalização sobre o destino dos recursos obtidos com essa cobrança. Deve, realmente,

Rômulo Mafra

Reportagem de Itajaí (SC)

“Teremos mais vagas para estacionar na cidade. Algumas pessoas deixam o carro o dia inteiro parado no centro”

Comércio de alimentos orgânicos movimenta o centro da cidade com produtos da região MAFRA

A

Jonathan (esq) diz sentir a saúde melhor com os produtos orgânicos

umidade e o cheiro do mar invadem a cidade de Itajaí em praticamente todas as manhãs. Exceto nas quartas-feiras, quando a cidade se torna em palco de sabores e odores dos hortifrutigranjeiros, dos pães, geleias e queijos. É a combinação perfeita para garantir a alegria, mesmo que cedo, às 7h30. Estamos falando da Feirinha de Orgânicos, que semanalmente toma as ruas da praça próxima ao Museu Histórico de Itajaí e da Casa da Cultura Dide Brandão, dois prédios históricos da cidade do litoral norte de Santa Catarina. O que parece ser mais uma feira

Q

uem acha que o sistema é só simbólico e que não tem fiscalização para ver o cumprimento das leis, está muito enganado. Isso porque o Zona Azul está enquadrado nas leis de trânsito sobre o estacionamento rotativo. São consideradas infrações de trânsito estacionar nos locais definidos sem o devido pagamento da taxa e permanecer além do prazo permitido para o local. O estacionamento rotativo é regulamentado pelo Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e pela lei municipal nº 4.570, de 2 de junho de 2017. Segundo o artigo 181, do CTB, o condutor que descumprir as regras para o estacionamento rotativo comete infração grave, com penalidade de cinco pontos na CNH, além de multa no valor de R$ 195,23 e remoção imediata do veículo para um pátio credenciado.

Kelly Pereira da Silva, professora

Feira de orgânicos movimenta Itajaí Rômulo

Infringir as regras dá multa

de rua encontrada em qualquer cidade do país, em Itajaí acaba tendo um contorno diferente sobretudo pela organização. A “feirinha”, como é conhecida, é mantida por duas famílias de cidades diferentes: a Formage, de Presidente Getúlio, a 135 quilômetros de Itajaí, e a família Diniz, de Correia Pinto, a 275 quilômetros. Ou seja, as duas famílias têm de sair bem cedo para trazer os produtos que serão vendidos. O feirante Marcos Diniz conta que sai por volta da meia-noite de Correia Pinto. “Perto das três da manhã já estamos aqui montando as barracas e preparando tudo para perto das seis horas estarmos prontos para atender”. E a feirinha faz um sucesso e garante a consumidores fiéis. O dentista Jonathan Hoffmann é um deles,

que reserva um horário para visitar a feira. “Há cerca de um ano e meio venho aqui fazer minhas compras da semana. Não podia vir antes por causa do meu horário de trabalho, mas, agora, não perco nenhuma semana”.

Por que escolher alimentos orgânicos? Tendência nas principais cidades do mundo, a alimentação orgânica tem ganho esse espaço principalmente pela qualidade de vida que traz não só a quem compra e a utiliza, mas à própria agricultura que, deixando de utilizar agrotóxicos em demasia, acaba por não contaminar o próprio solo. Até mesmo a água que corre por baixo da terra deixa de ter contaminações que futuramente chegam as nossas torneiras, sem contar estes mesmos venenos que voam livres com o vento intoxicando o ar. Os alimentos orgânicos são cultivados livres de componentes químicos, como agrotóxicos, antibióticos e fertilizantes. Inclusive, no Brasil, que já é um dos maiores importadores de agrotóxicos do mundo, em 2017, foram liberados alguns agrotóxicos que já são proibidos em diversas partes do mundo, portanto, a alimentação orgânica sugere uma vida mais saudável.


N.º 63 – Set/Out de 2019

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Tecnologia

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@TÁ NA WEB

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Poliana

ALMEIDA

Especial

Livros na internet

Esta edição da coluna é para você que está na busca de um livro. A Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin conta com mais de 32 mil exemplares. Além de disponibilizar os livros, a biblioteca reúne especialistas, sedia projetos e apoia iniciativas de estudos, desenvolvendo atividades em torno de quatro campo do saber, como descrito em seu site: 1) Estudos Brasileiros, 2) História do Libro e da Leitura, 3) Tecnologia do Co-

Biblioteca Brasiliana

Confira a lista de obras na livraria

nhecimento e Humanidades Digitais e 4) Preservação, Conservação e Restauração do livro no papel. Um exemplo de documento que pode ser acessado de forma digital e gratuita é “A conversão de S. Paulo: importante sermão do Padre José D’Anchieta, de 1895.

Use o QR-Code e baixe obras digitalizadas

Library Genesis O Libgen é um site que todo leitor compulsivo deve frequentar e sempre pesquisar antes de comprar algum livro. Claro, vale tanto para literatura quanto para livros acadêmicos. Neste site, é possível buscar por livros de não

Se você precisa ter acesso a jornais que já não circulam mais, a Hemeroteca Digital Brasileira é uma ótima opção para essa tarefa. Com o oferecimento da Fundação Biblioteca Nacional, o portal proporciona ampla consulta ao acervo de periódico sendo jornais, revistas, anuários, boletins, publicações seriadas entre muitos outros. Na plataforma podem ser encontrados os primeiros jornais criados no Brasil, como o Correio Braziliense e a Gazeta do Rio de Janeiro, ambos de

Hemeroteca 1808. Outras publicações raras e antigas do século XIX também podem ser consultadas através da Hemeroteca, como por exemplo o Semana Illustrada e a Gazeta de Notícias. A consulta a todo o acervo do site pode ser feita através de qualquer aparelho que tenha acesso à internet, e o texto pode ser pesquisado por título, período, edição, local de publicação ou palavra

Use o QR-Code para conferir os jornais

ficção, ficção e artigos científicos através do título, autor (es), séries ou editora. Além disso, você pode fazer o download do conteúdo após abrir um link do material solicitado na aba de pesquisa da web. Há apenas uma restrição na plataforma, ela não é traduzida para o português, mas se você tem conhecimento de inglês, espanhol, francês, romano, russo, ucraniano ou chinês poderá aproveitar de tudo que ela pode oferecer.


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Ensaio fotográfico

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Araucária Poesia de Helena Kolody Ensaio de

Maria Eduarda

BISCOTTO

Araucária, Nasci forte e altiva, Solitária. Ascendo em linha reta - Uma coluna verde-escura No verde cambiante da campina. Estendo braços hirtos e serenos. Não há na minha fronde

Nem veludos quentes de folhas, Nem risos vermelhos de flores, Nem vinhos estonteantes de perfumes. Só há o odor agreste da resina E o sabor primitivo dos frutos. Espalmo a taça verde no infinito. Embalo o sono dos ninhos Ocultos em meus espinhos, Na silente nudez do meu isolamento.

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N.º 63 – Set/Out de 2019

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Marco Zero 63  

Comunicação é poder. É direito ao espaço público, é discurso, é potencial de visibilidade de pautas e de existência na sociedade, é hegemoni...

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Comunicação é poder. É direito ao espaço público, é discurso, é potencial de visibilidade de pautas e de existência na sociedade, é hegemoni...

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