Skip to main content

SENSO INCOMUM 042 - NOV/DEZ 2018

Page 1

Jornalismo UFU Ano 9 • 42ª edição Nov/Dez de 2018 Distribuição gratuita

comum

senso

Edição especial

Vozes da memória: UFU 40 anos Páginas 6 e 7

Fatos Marcantes

Muito mais que 40

Senso Entrevista

UFU gera desenvolvimento e conquistas importantes em 4 décadas de federalização

Após avaliação da Capes, cursos de Pós-Graduação se reestruturam

Reitor Valder Steffen relembra trajetória da UFU e faz projeções para o futuro

Página 3

Página 8

Página 11


DA REDAÇÃO EDITORIAL//

Perspectivas de uma história Os 40 anos de federalização resultam em histórias presentes nas memórias de quem viu e viveu a UFU. Fatos marcantes contam quais são nossas origens. Por meio da melodia, surgimos junto aos primeiros acordes do curso de Música e montamos a primeira bateria universitária do Brasil. Saltamos de pequenas graduações isoladas para uma Universidade Federal que se estende por quatro cidades. Toda história é feita de dados e datas, mas, principalmente, por pessoas. A reportagem especial desta edição é destinada a estes sujeitos que, diariamente, constroem e reconstroem a UFU com seu trabalho e suas lembranças. Há espaço para falar de quem, muitas vezes, passa invisível no cotidiano, mas conta a universidade por outro

lado, com a mesma importância de quem representa a instituição na mais alta posição. Muito mais que 40 anos, a universidade vive o hoje. As pesquisas desenvolvidas vão além dos muros. As fazendas da UFU não são apenas locais para disciplinas práticas, mas possuem trabalhos voltados à comunidade e são fonte de produtos que estão tanto nos RU’s quanto na mesa da população. Do Hospital Veterinário aos programas de pós-graduação, passando pela sustentabilidade, a ciência se faz presente, enquanto tenta resistir às dificuldades. Sem negar a história para entendermos o presente e nos preocupando com o futuro, o Senso InComum pretende levantar nesta edição questionamentos importantes. O que significa ser uma

universidade federal em tempos de polarização política e fake news? Qual a importância de cada parte da nossa história? Quais os impactos dos cortes de verbas na educação? E as incertezas sobre a ciência brasileira? Vivemos tempos em que não se consegue imaginar o que está por vir. As últimas quatro décadas não foram perfeitas, mas o desejo é de que a importância desta instituição fique evidente para que, apesar das falhas, possamos nos orgulhar dela, buscar melhorar e continuar existindo. A universidade é mais do que números. São pessoas reais fazendo história e pensando em como outros indivíduos poderão compor esse cenário, que é de todos. Veja mais em: https://sensoincomum.net/

CRÔNICA// TUILA TACHIKAWA

Eseba entre "focas"

Meados do segundo ano da faculdade, a menina descobre um mundo de entrelaços da Universidade com a escola. Escola? Sim, a Eseba. “ESEBA”? Nome esquisito que rima com…amoeba, jurubeba, oreba. Logo depois se esclarece: “Escola de Ensino Básico da UFU”, e o esquisito se torna aconchegante. Nos desbravamentos do aconchego, pimba! Descobre-se que discentes do jornalismo desenvolvem projeto de extensão de um jornal virtual, produzido pelos alunos do 9° ano. Como todo jornalista - ou projeto de um - a curiosidade daquilo que ronda faz olhar por mais perto. E assim foi. A menina encontra duas aprendizes de jornalistas, integrantes do e-jornal, o dito cujo. Sobre a produção, cobrem eventos da esco-

la e publicam textos em seus blog e site. Ao olhar para o fazer jornalístico de ambas, que de quase nada se difere essencialmente do fazer jornalístico da menina, as duas engasgam num gole seco, frente à pergunta: “o que é o jornalismo?”. Uai! Perguntinha essa com a desculpa simples de um termo corriqueiro, mas que, quando invocado para uma definição pessoal, exige uma revisão interna tão grande que despe o conhecido. São essas as respostas que geram mais borbulhos de ansiedade dentro do peito da entrevistadora. Depois da pausa, as respostas: “É aproximar as pessoas dos acontecimentos, ao mesmo tempo as incentivando à leitura”. A outra: “É se comunicar com pessoas, criar laços, porque as notícias envolvem direta ou in-

diretamente todo o mundo”. Para outras aprendizes que foram questionadas, “é conhecer pessoas e lugares, noticiar e agregar conhecimento para o jornalista”. “É informar e opinar. O e-jornal envolve escola e universidade com a gratificação de escrever e publicar”. As e-jornaleiras não são muitas, mas se demonstram entusiasmadas e buscam promover o jornal, falando para outros estudantes sobre o “esquema”, com cartazes e músicas no intervalo. As futuras “focas” andam pelos corredores da Eseba-amoeba-jurubeb... Elas e suas concepções sobre o que é o Jornalismo, como deve ser o jornalista, o que faz, lugares e pessoas que conhecem. E a menina? A menina só quer cumprir com as expectativas delas…

JORNAL LABORATÓRIO DO CURSO DE JORNALISMO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE UBERLÂNDIA (UFU) Reitor Valder Steffen Jr - Diretora da Faced Geovana Ferreira Melo - Coordenador do Curso de Jornalismo Marcelo Marques de Araújo - Professores Responsáveis Gerson de Sousa, Ivanise Andrade, Raquel Timponi - Jornalista Responsável Raquel Timponi (0015003/MG) - Revisão Ivanise Andrade - Editoras-Chefe Cecília Almeida e Naiara Ashaia - Foto de capa Rodolffo Garcia Editores de Sessões Amanda Marques, Aurélio Barcelos, Beatriz Ortiz, Caroline Soares, Felipe Melo, Gabriela Francis, Heitor Gomes, João Ricardo Camilo, Marina Rosa, Mateus Prata, Pedro Henrique de Paula, Rafael Gobi, Sara Camelo e Thais Fernandes - Repórteres Ana Luiza Vargas, Clarice Bertoni, Gabriel Caixeta, Jhonatan Dias, Luiz Gustavo Ribeiro, Mateus Oliveira, Matheus Minuncio, Pedro Prado, Rodolffo Garcia, Tuila Tachikawa, Vanessa Gianotti e Vitória Bertolucci - Fotorreportagem Gabriel Caixeta - Livreto Monallysa Leite - Ilustrações Sara Camelo, Valquíria Vieira e Vanessa Gianotti - Finalização Ricardo Carvalho Tiragem 2000 exemplares Impressão Imprensa Universitária - Gráfica UFU sensoincomumufu@gmail.com www.sensoincomum.net

2


FATOS MARCANTES HOSPITAL DE CLÍNICAS

ANO: 1970 Além dos procedimentos padrão, o HCU conta com 20 projetos de humanização que melhoram a vida dos pacientes . “Conversamos e trocamos experiências. Isso nos faz entender que não somos só nós que temos problemas.” (Sandra Gonçalves - mãe de paciente do Amigos do Coração)

JORNALISMO 10 ANOS

ANO: 2008 Com apenas dez anos de história, o curso conta com premiações regionais e nacionais. “Nossos alunos estão esparramados no Brasil e no mundo, fazendo pesquisa, empreendendo, desenvolvendo projetos". (Marcelo Marques - coordenador do curso)

MOVIMENTO ESTUDANTIL

ANO: 1971 “Os DCEs e os movimentos estudantis defendem os interesses dos estudantes perante a Reitoria e o Governo Federal. Não só em assuntos cotidianos, como assistência, mas também em questões da política nacional que afetam nossas vidas.” (Bianca Freire - Coordenadora geral do DCE)

PEDRO PRADO Em 2018, completam-se quatro décadas desde a publicação da Lei nº 6.532, sancionada pelo General Ernesto Geisel, que tornou a UFU uma instituição pública mantida pela União, em 1978. Desde então, sua cidade sede, Uberlândia (MG), consolidou-se como um polo de desenvolvimento de ensino superior, científico e tecnológico do país, atraindo discentes e pesquisadores de diversos estados. De acordo com o jornalista e pesquisador da federalização da universidade, Marden Rangel, a cidade começou a ofertar os primeiros cursos na década de 1950, com o surgimento de faculdades isoladas mantidas por instituições familiares, religiosas ou comunitárias. Foram elas: o Conservatório de Música, a Faculdade de Engenharia, a de Direito, a de Ciências Econômicas, a de Filosofia, a de Ciências e Letras. Posteriormente, foram incorporadas a Escola de Medicina e Cirurgia de Uberlândia, que deu origem à Faculdade de Medicina, e as faculdades de Educação Física, Medicina Veterinária e Odontologia. “Não demorou muito para que essas organizações dessem início aos primeiros processos de unificação e para criarem uma universidade em Uberlândia”, relata o pesquisador. Na década seguinte, as instituições superiores da cidade fecharam o acordo de criação da Universidade de Uberlândia (UnU), em 1969, regularizado pelo Ministério da Educação (MEC), no Decreto-Lei n° 762. Rangel relembra que essa

unificação foi resultado de mobilização da população, que reivindicava ensino superior para o município de Uberlândia. “Nesta época, vivíamos entre dois grandes polos educacionais: Goiânia e Uberaba. Com jogadas políticas e grandes nomes ao nosso favor, como o do Governador Rondon Pacheco e o Professor Jacy de Assis, a UnU saiu do papel”, conta.

20 mil alunos

Universidade Federal de Uberlândia (Fujub), que em pouco tempo passou a ser nomeada como Universidade Federal de Uberlândia (UFU). A professora da Faced e do Centro de Educação à Distância (EaD) da UFU, Aléxia Pádua, conta que começou a cursar História na universidade em 1985 e recorda que este processo ocorreu em meio ao regime militar vigente no Brasil. “Os primeiros reitores foram escolhidos pelos próprios militares. Coincidentemente, era na universidade que se concentrava a maior parte dos movimentos estudantis de luta contra a ditadura”, afirma. Pádua relata que nas décadas que sucederam a criação da UFU a cidade passou por um processo de expansão populacional, social e cultural. “Uberlândia era uma cidade relativamente pequena, provinciana e elitizada. É inegável que a UFU contribuiu para um ‘boom’ de desenvolvimento da região”, finaliza.

240 cursos de graduação e pósgraduação

Leia mais sobre o HCU, o Jorna UFU e o movimento estudantil, respectivamente, em:

A UFU EM NÚMEROS 32 unidades acadêmicas 7 campi 5 mil servidores

Mas foi apenas em 1978 que a nova organização de departamentos consolidou a criação de três centros educacionais: o Centro de Ciências Exatas e Tecnológicas (Cetec), o de Ciências Humanas, Letras e Artes (Cehar), e o de Ciências Biomédicas (Cebim). Foi então que o Governo da época sancionou a lei de criação da Fundação

3


FATOS MARCANTES

Primeiro acorde por quem toca a história No ano passado, o curso de Música celebrou seu sexagenário e teve destaque por ser o primeiro superior de Uberlândia MATEUS OLIVEIRA

O VIOLÃO: DA MARGINALIDADE AO PIONEIRISMO NA INTEGRAÇÃO NO NÍVEL SUPERIOR. FOTO: GENIVAN JÙNIOR

Era 13 de julho de 1957. A pianista Cora Pavan Capparelli fundava, na própria casa, a primeira faculdade da região. A cidade ainda não tinha curso superior. A criação da Universidade de

Uberlândia só viria a ocorrer quase dez anos depois. Na década de 70, o Conservatório Musical recebeu o reconhecimento e pôde ser considerado a primeira escola superior do município. Com a federalização da UFU, as Faculdades de Música (1957), Direito (1959), Filosofia, Ciências e Letras (1960) e demais transformaram-se em cursos da então recém-criada universidade. A atual coordenadora do curso, Sandra Alfonso, relata que Uberlândia é uma das pioneiras no Brasil na área do estudo musical. “A UFU foi uma das primeiras universidades a unir música ao conhecimento. A integração do violão no nível superior, em 1981, é um exemplo claro disso”. Autora do livro “O violão da marginalidade à academia: trajetória de Jodacil Damaceno”, ela define o enredo da obra nas conquistas e dificuldades encontradas pelos professores da época para a obtenção de seus cursos e instrumentos. A também professora da graduação, Maria Le-

mes, relembra suas relações acadêmicas com o curso de Música da UFU. Aos sete anos entrou para o conservatório, permanecendo até os 20. Após isso, ingressou na universidade, obtendo a licenciatura e o bacharelado. Lemes, mesmo frisando que as duas instituições são independentes, esclarece que há um fator histórico que as une. “Antes, a maioria dos professores do conservatório não tinha graduação, apenas cursos técnicos. Atualmente, por conta da UFU, quase todos os educadores têm nível superior completo”, declara. Em busca dessa qualificação, o estudante do oitavo período Lucas Almeida expõe que um dos seus desejos é continuar na academia após o término da graduação, dedicando-se à prática. O artista lamenta que, apesar de a Música ser pioneira na UFU, muitos estudantes não sabem de sua existência e nem mesmo da rica história, que ainda promete muitos acordes.

Baterias universitárias trazem cultura ao esporte Os grupos deram sua batucada inicial dentro da UFU há quase 50 anos ANA LUÍZA VARGAS Apoio, amor à camisa, música e integração. As Baterias Universitárias surgiram para ajudar, das arquibancadas, os atletas durante as competições. Essa prática coletiva teve início no Brasil, dentro da UFU, antes mesmo de sua federalização, há 40 anos. Hoje, 21 baterias trabalham para incentivar, ao máximo, seus atletas em competições dentro e fora da universidade. A Charanga, bateria das Engenharias da UFU Uberlândia, é considerada a primeira do país. Após a sua criação, em 1969, outras centenas foram surgindo e, segundo dados do blog especializado Bateria S/A, em 2011 existiam mais de 250 baterias universitárias no Brasil. Além da música, as baterias integram as pessoas e promovem socialização. Para o coordenador do Grupo de Percussão da UFU e professor no curso de Música, César Traldi, isso faz com

4

que muitos alunos se tornem parte dessas entidades dentro da universidade, mantendo o costume durante muito tempo. História é o que não falta para quem já fez parte da Charanga. O ex-membro da bateria entre 1982 e 1987, José Francisco Andrade conta que essa integração com outras pessoas da instituição foi a motivação para sua entrada na entidade. “Os grupos de convivência ensinam coisas que a Charanga também apresenta para os participantes, como ter respeito, pois somos pessoas diferentes e devemos nos acolher e ajudar”, relata o ex-charangueiro, que ainda diz ter contato com os atuais membros. Manter esse elo e não acabar com a tradição da bateria, que em 2019 completa 50 anos, é algo prezado pelos integrantes. Segundo o atual presidente da Charanga, João Goulart, os ensaios

acontecem às quartas-feiras, como forma de preservar o costume histórico da entidade. Para ele, fazer parte da bateria não implica, necessariamente, em tocar algum instrumento. “É mais um sentimento de ser charangueiro e isso envolve muitas coisas”, explica. Muitas vezes, o problema de manter a tradição é que atitudes do passado não cabem no atual cenário em que a discriminação não é tolerada. Conhecida por alguns como “a bateria dos hinos preconceituosos”, Andrade afirma que, antigamente, eles não entendiam os hinos como homofóbicos e machistas, sendo considerados brincadeiras sem caráter ofensivo. Já Goulart reconhece que, quando a Charanga foi criada, a mentalidade era diferente. Hoje, eles tentam mudar a forma de agir e finaliza: “não é só música, não é só arte, são ideias que a gente leva”.


COMUNIDADE

Fazendas da UFU produzem alimentos para os RU’s Apesar de pouco conhecida, zona rural da universidade exerce papel importante em projetos de pesquisa VANESSA GIANOTTI O diretor das fazendas conta que as terras foram adquiridas quase na mesma época de criação da faculdade. Em 1977, a UFU recebeu, por meio de doação, as terras que correspondem à fazenda do Glória. “O interesse sempre foi em uma área de suporte ou para a criação de um futuro campus, como está acontecendo agora. Além disso, os cursos mais antigos, como o de Medicina Veterinária, precisavam de uma área rural na época”, explica. Inicialmente, a UFU não possuía todos os hectares de terra à disposição na zona rural. A fazenda Água Limpa, por exemplo, só foi agregada à instituição em 1992, e, ainda hoje, não está de posse da universidade. Ela é um empréstimo gratuito da Prefeitura de Uberlândia, com prazo de devolução determinado para 2022.

AS HORTALIÇAS PLANTADAS NAS FAZENDAS SÃO ENVIADAS PARA OS RESTAURANTES UNIVERSITÁRIOS (RU'S) DOS CAMPI DE UBERLÂNDIA. FOTO: PEDRO PRADO

Entre a enxada e o bandejão existe um processo pelo qual os alimentos passam até estarem prontos para o consumo dos estudantes dentro dos Restaurantes Universitários (RUs). Por essa razão, a UFU mantém fazendas para garantir a produção daquilo que será consumido internamente e, também, para oferecer um espaço para a realização de aulas práticas e pesquisas dos cursos que dependem da área agrícola. A UFU possui três fazendas experimentais: Glória, Capim Branco e Água Limpa. Os vegetais plantados nas fazendas, como vagem, acelga, couve, dentre outros, são enviados para os Restaurantes Universitários (RUs) dos campi Santa Mônica, Umuarama e Glória. “[As hortaliças vão] para a ‘Nutri’, uma empresa terceirizada que recebe, processa o alimento e manda para os RUs”, informa a técnica em Nutrição e Dietética de Alimentos, Lindamar Lima. Ela explica que os outros alimentos não produzidos nas fazendas são encomendados do Ceasa e enviados à universidade. Ao longo do tempo houve um crescimento em sua produção. Na fazenda Água Limpa é extraída

a polpa das frutas que faz parte do cardápio de todos os sucos servidos diariamente nos RUs dos campi de Uberlândia. Já os 12 mil litros de leite produzidos mensalmente na fazenda do Glória são vendidos para a cooperativa dos laticínios da Itambé. Segundo informa o diretor de Experimentação e Produção Vegetal das fazendas da UFU, Maurício Martins, o dinheiro arrecadado é usado para a manutenção da fazenda. “Nós entregamos 800 quilos de alimentos por mês para o almoxarifado central da UFU que distribui para todas as unidades”, revela. RECONHECIMENTO A produção de alimentos para consumo dentro da universidade nem sempre foi tarefa das fazendas da UFU, como parte de seu propósito inicial. Essa e outras funções foram adquiridas com o tempo, como reconhecimento do potencial das atividades realizadas nas fazendas. Com o passar dos anos, percebeu-se a necessidade da agregação de mais terras para o cultivo e ampliação da produção.

PROJETOS A história também possibilitou o desenvolvimento de projetos de destaque. Há 18 anos, durante as manhãs de quartas-feiras, é realizada a “Horta Terapêutica”, dirigida pelo Centro de Assistência Psicossocial (Caps), da Prefeitura de Uberlândia, na fazenda do Glória. Acompanhados por uma psicóloga ou assistente social e em parceria com alunos do PET da Agronomia, os participantes do programa aprendem os processos para a manutenção de uma horta. Eles plantam, capinam, limpam e colhem, além de receberem orientações da psicóloga responsável sobre os benefícios terapêuticos para a saúde mental, proporcionados por essa atividade. Na época de colheita, os participantes podem levar as hortaliças para casa. Outro projeto realizado na fazenda do Glória, coordenado pela professora Karina do Valle Marques, da Faculdade de Medicina da UFU (FamedUFU), é o Universidade Amiga do Idoso (Unai). Voltado para pessoas com 50 anos ou mais, o programa é uma extensão multidisciplinar que promove ações educacionais e recreativas em diversas áreas no campus Umuarama. Uma dessas atividades é o cultivo de hortaliças na fazenda e, assim como o projeto do Caps, todo participante tem direito a uma parte da colheita e o que resta é vendido em uma feirinha para manter o projeto.

5


ESPECIAL

A história da UFU pelo olhar de quem faz parte dela As memórias são recontadas por profissinais e estudantes da instituição

CLARICE BERTONI Ao longo de quatro décadas de federalização, milhares de pessoas tiveram seus caminhos cruzados com os da instituição. Algumas por poucos dias, outras por alguns anos e há quem tenha dedicado toda a sua vida à universidade. Independente do tempo, são todas responsáveis por uma história de expansão, desenvolvimento e conhecimento. Foi no campus Santa Mônica que Edna Pereira da Costa conquistou seu primeiro emprego, em 1976. No início, trabalhou na biblioteca da Faculdade de Engenharia como auxiliar administrativa. Um ano depois, Baltazar Ferreira foi convidado a trabalhar no setor de Recursos Humanos da Reitoria, que funcionava no bloco 2U do Umuarama. Com pouco tempo na função, ouviu conversas sobre os esforços de administradores do órgão e de alguns deputados da região, como Rondon Pacheco e Homero dos Santos, em favor da federalização. Maio de 1978 marca um dos momentos mais importantes para a história da instituição e da cidade. A partir daí, a Universidade de Uberlândia (UnU), nascida em 1969, passou a se chamar Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Edna

6

lembra que, mesmo com a federalização, os discentes continuaram pagando mensalidade por um ano, até que a universidade concluísse o processo de organização das faculdades em centros. Com o progresso da faculdade, Uberlândia prosperou. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que a década em que o município teve o maior salto populacional foi a partir da federalização. Sobre o campus Umuarama, Baltazar explica que “até essa época, a Medicina tinha poucos prédios. Mas construíram blocos, garagem e um novo pronto socorro”. Uma de suas lembranças mais marcantes foi quando retiraram os trilhos da linha de trem de ferro, que separavam a cidade do campus Santa Mônica. “Os trilhos deram lugar ao traçado do que hoje é a Avenida João Naves de Ávila”. Edna se tornou assistente administrativa em 1987 e lembra que, nessa época, os funcionários do seu setor trabalhavam desanimados pois, apesar de todo o desenvolvimento e de tantos prédios construídos, a biblioteca continuava sem um espaço físico adequado. “A UFU já não tinha tanto investimento, mas o professor Antonino Martins prome-

EDNA SE SENTE REALIZADA TRABALHANDO HÁ MAIS DE 40 ANOS NA BIBLIOTECA. FOTO: RODOLFFO GARCIA

teu que, se eleito reitor, construiria três bibliotecas”. Em 1990, foram inauguradas a Biblioteca Setorial Educação Física e, no ano seguinte, as Bibliotecas Central Santa Mônica e Setorial Umuarama. Em 1994, Ilda Cristina da Silva Constantin ingressou na UFU como aluna do Curso Técnico de Enfermagem. Dois anos mais tarde, foi aprovada em concurso público e assumiu a vaga no Hospital de Clínicas de Uberlândia (HCU). A profissional ex-

plicita que “na década de 1990 havia um histórico de abandono social do servidor público e não existia uma legislação específica”. Mas, em 2003, “o presidente Lula incentivou a qualificação”. E, então, ela mesma teve oportunidade de se especializar na universidade. EXPANSÃO A UFU se expandiu para além de Uberlândia com a criação da Faculdade de Ciências Integradas do


ESPECIAL

“

O ambiente acadêmico foi fundamental para a minha formação como cidadão. (João)

Pontal (Facip), em Ituiutaba, no ano de 2007. Nathália Freitas Guimarães é da primeira turma de Pedagogia e conta que os primeiros anos foram difíceis para alunos, professores e coordenação. “Na ausência de uma sede, assistíamos às aulas em espaços improvisados, em salas de outras universidades e em um prédio onde funcionou um colégio infantil. Chegamos a estudar na quadra desta escola”. Ela se formou em 2011, poucos meses antes da inauguração do prédio do campus Pontal. Em 2010, foi aprovada a criação dos campi Monte Carmelo e Patos de Minas. Para Baltazar, a UFU tomou conta dos quatro cantos de Uberlândia e das cidades vizinhas, levando educação e progresso. Ilda corrobora e acrescenta: “ela atrai pessoas de todas as partes do Brasil para estudar ou fazer suas atividades laborais”. Segundo estimativa da Pró-reitoria de Planejamento e Administração (Proplad), por mês a universidade injeta aproximadamente R$ 70 milhões na economia das quatro cidades. Nathália voltou à Facip para fazer uma Especialização em Educação Infantil e descreve o novo campus Pontal como “espaçoso, confortável, e com equipamentos modernos, unindo as salas de aula, o setor administrativo e o auditório.”

INGRESSO NA UFU Para além do investimento em infraestrutura, a UFU faz parte de um processo de democratização do ingresso no ensino superior. O sistema de cotas entrou em vigor no primeiro semestre de 2013, quando João Kaian dos Santos Perlingeiro ingressou no curso de Engenharia Civil, formando-se em dezembro de 2017. Na família do engenheiro, poucos tiveram acesso à educação. Entre seus avós, só um terminou o ensino médio. Na geração dos seus pais e tios, apenas sua mãe possui nível superior. A mudança pode ser vista agora: além do jovem, uma de suas primas se formou em uma universidade particular este ano e sua irmã cursa Pedagogia na UFU. João considera sua admissão no curso de Engenharia como parte de uma mudança de paradigma na família. “O ambiente acadêmico foi fundamental para a minha formação como profissional competente e como cidadão”, avalia. Ele acredita que as cotas democratizam o acesso, mas ainda é algo paliativo. “Muitas outras políticas públicas são necessárias para incluir mais pessoas no ensino superior e diminuir essa desigualdade entre classes sociais”, conclui. Ilda, a enfermeira que por mais de uma década se dedicou ao HCU,

adoeceu no seu espaço de trabalho e, em consequência disso, foi relocada para a Diretoria de Qualidade de Vida do Servidor (DIRQS), no Santa Mônica. “Eu tive um câncer de intestino e vim parar aqui. Hoje estou curada e tenho a oportunidade de cuidar dos meus pares. Isso dinheiro nenhum paga”, reflete. Ela se diz preocupada com o futuro da UFU, por temer uma diminuição das políticas públicas. “Eu, como sonhadora, queria que todos tivessem oportunidades”. Baltazar não fez graduação. Dois dos seus três filhos não passaram no vestibular da UFU, mas se formaram em outras universidades. O mais novo está estudando para fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Porém, alguns de seus primos e sobrinhos se formaram na instituição. “A gente gosta de ver o crescimento da família através da educação, do estudo. Eu mesmo quero voltar pra universidade após me aposentar”, pondera. Edna também não fez curso superior, mas suas duas filhas estudaram na UFU. A mais velha se

formou veterinária e hoje faz doutorado em Patologia. A caçula cursou bacharelado, mestrado e doutorado em Pedagogia. UFU DO FUTURO Baltazar vê o futuro de forma positiva. Acredita que o novo governo, assim como na época de Figueiredo, investirá na universidade pública para que ela continue seu processo de expansão e impulsione o crescimento de Uberlândia e de todo o Triângulo Mineiro. Para Edna, o futuro é uma incógnita. Ela também considera o último presidente militar diretamente responsável pelo desenvolvimento da UFU, mas teme um retrocesso nas liberdades individuais. Ilda prevê anos difíceis, pois “o projeto do presidente eleito será terrível para as políticas públicas”, e diz que se desespera ao ver a sociedade prejudicada por questões políticas. João argumenta que “não se surpreende se houver subfinanciamento das universidades públicas e retrocesso nas políticas inclusivas”.

ILDA SE DIZ PREOCUPADA COM AS POLÍTICAS PÚBLICAS QUE SERÃO ADMINISTRADAS PELO PRÓXIMO GOVERNO. FOTO: RODOLFFO GARCIA

7


CIÊNCIA E TECNOLOGIA

CAPES avalia 42 cursos de pós-graduação da UFU Impacto do exame para o quadriênio 2017-2020 determinou a reestruturação de cursos na universidade LUIZ GUSTAVO RIBEIRO E JHONATAN DIAS Os programas de mestrado acadêmico, profissional e doutorado passam por uma avaliação quadrienal realizada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Na UFU, o Programa de Pós-Graduação em Engenharia Mecânica (PPGEM) recebeu nota máxima (avaliação sete da Capes) nas duas últimas edições do exame, ao contrário do Programa de Pós-Graduação em Artes (PROFArtes), que foi descredenciado. Segundo o coordenador do PPGEM, Gilmar Guimarães, o resultado foi obtido a partir do trabalho árduo e do foco em pesquisas relevantes. Por ano, o programa recebe cerca de R$300 mil, provenientes da taxa de bancada da Capes. Além das bolsas, a Faculdade de Engenharia Mecânica (Femec) realiza diversas pesquisas vinculadas às entidades e instituições externas à UFU, como Petrobras e Eletrobras Furnas. Durante o período, os investimentos podem superar R$30 milhões. “A Petrobras financiou a construção de dois laboratórios que atualmente são utilizados para as pesquisas dos projetos executados pela Femec, e existe uma demanda dessa instituição que é realizada por essas instalações”, afirma Guimarães. No caso do PROFArtes, a nota baixa obtida na última avaliação determinou o descredenciamento do curso. De acordo com a docente do Instituto de Artes (Iarte) Tatiana Sampaio Ferraz, o programa enfrentou alguns problemas. “Originalmente, a pós-graduação do Iarte en-

globava a Música e o Teatro. Em determinado momento, houve uma separação, e o curso de Artes Visuais herdou um programa incompatível sob a visão da Capes” contextualiza. Após o resultado da avaliação, o PROFArtes precisou se reestruturar, e um novo curso deverá ser oferecido a partir do segundo semestre de 2019. Para Ferraz, a produção voltada para o uso prático atrai mais investimentos externos do que os projetos desenvolvidos no campo teórico. “A gente [as Artes Visuais] não possui a aplicabilidade que as exatas têm, como as Engenharias que, nesse sentido, servem diretamente o mercado”. Para a diretora de Pós-Graduação da UFU (DIRPG), Eloisa Amália Vieira Ferro, o descredenciamento dos cursos de pós-graduação é negativo para toda comunidade acadêmica: “o repasse dos órgãos de fomento de pesquisa é determinado de acordo com as avaliações dessas instituições sobre os nossos cursos. Portanto, se temos mais notas baixas, os repasses serão menores”, afirma Ferro.

Artes e tudo o que é fundamental para a construção do conhecimento, e não apenas as áreas técnicas”, finaliza. Na universidade, 933 bolsas são destinadas para os discentes de Mestrado e Doutorado, e 88 bolsas para o Pós-doutorado. Ao todo, são repassados pela Capes e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig) cerca de R$24 milhões para a universidade, a partir do Programa de Apoio à Pós-Graduação (Proap).

INVESTIMENTOS EXTERNOS Ferro defende que o paradigma mercadológico deixe de ser um dos quesitos na avaliação, e sugere uma política consistente do Governo Federal, no sentido de valorizar todos os programas de pós-graduação. “Se você pensar apenas do ponto de vista do mercado, irá destruir essa base intelectual importante que é o pensar as

PROFESSOR MARCELO BACCI, DO CURSO DE ENGENHARIA MECÂNICA, RELATA A IMPORTÂNCIA DA JUNÇÃO DA TEORIA E DA PRÁTICA PARA O APRENDIZADO. FOTO: LOISE MONTEIRO

MESTRADO

DOUTORADO

ETAPAS PRINCIPAIS DA PESQUISA

INICIAÇÃO CIENTÍFICA

A iniciação científica é importante para a carreira acadêmica, pois muitos pesquisadores tiveram o primeiro contato com a ciência logo na graduação. Para participar, é necessário selecionar um orientador, criar um projeto de pesquisa e ficar atento aos editais de concessão de bolsas ou seguir os critérios da iniciação científica voluntária.

8

O mestrado exige o diploma de graduação. Existem duas modalidades: mestrado acadêmico (que visa a formação de professores universitários e cientistas) e profissional (que tem por objetivo criar produtos para o mercado de trabalho). Geralmente, o curso dura dois anos para construir a pesquisa e, ao final, há apresentação de uma dissertação.

O doutorado oferece um conteúdo mais aprofundado e teórico sobre as áreas do conhecimento e é bastante exigente. Em média, os cursos têm a duração de quatro anos e, ao final deste período, há a defesa da tese, trabalho inovador no campo de pesquisa em que o doutorando atua. O título de Doutor é exigido em muitos concursos para professores universitários.


MUITO MAIS QUE 40 ANOS

O papel da UFU no desenvolvimento sustentável Projetos voltados para a área aumentam após criação de diretoria específica MATHEUS MINUNCIO Em 2011, foi criada a Diretoria de Sustentabilidade Ambiental (Dirsu), que ajuda a intensificar a prática da educação ambiental tanto no campo educacional quanto no espaço físico da UFU. Segundo determinação federal, é obrigatória a presença dessa atividade em todos os níveis de ensino, visando à conscientização pública. Diante disso, a universidade procura promover ações voltadas à sustentabilidade, através do tripé universitário: ensino, pesquisa e extensão. O Projeto Sala Verde procura estimular o interesse da comunidade acadêmica para o trabalho em prol do meio ambiente em ações de educomunicação. O atual diretor da Dirsu, Nelson Barbosa, que há 27 anos presta serviços para a universidade, explica que estagiários de diferentes cursos estão constantemente envolvidos em

programas. “Uma das parcerias é com a Empresa Júnior da Biologia, em um projeto piloto para manuseio de pombos no campus Umuarama. Ao mesmo tempo você tem ensino, a extensão, por estarem prestando serviço remunerado, e tem a pesquisa, um conhecimento para provar que a metodologia dá certo”, avalia. Um exemplo da importância da pesquisa na universidade é do primeiro brasileiro indicado ao prêmio Nobel da Educação, Marcio Andrade Batista. O pesquisador defende a sustentabilidade como um caminho de aproximação entre a universidade e a sociedade. Seu projeto de doutorado, desenvolvido na Engenharia Mecânica da UFU, foi o vencedor do primeiro Prêmio Novelis de Sustentabilidade, em 2015, em estudo que usava alumínio para desenvolver carregadores de

celulares com energia solar em bicicletas. “Foi uma ótima notícia saber que havia vencido. Tivemos excelentes instituições disputando, como USP e Unicamp. Foi muito bom trazer essa honra para a nossa UFU”, conta. No campo da extensão, o Centro de Incubação de Empreendimentos Populares Solidários (Cieps) apoia três cooperativas de recicláveis, que já possuem um contrato firmado com a Dirsu para a coleta seletiva. O volume médio de resíduos recolhidos, antes feito isoladamente, hoje é de 25 toneladas por mês. A coordenadora do Cieps, Cristiane Betanho, todavia ressalta que a sustentabilidade não se restringe à reciclagem. “Temos que repensar o próprio processo do consumo, a forma que a gente se relaciona não só com a natureza, mas com os seres humanos”, analisa.

Pesquisa analisa contaminação de tartarugas Laboratório de Ensino em Animais Silvestres do Hospital Veterinário mostra eficácia com estudo da influência de agrotóxicos em répteis VITÓRIA BERTOLUCCI Órgão suplementar da UFU desde 1976, o Hospital Veterinário (HV) dispõe do Laboratório de Ensino em Animais Silvestres (Lapas), que desenvolve o Projeto de Ecotoxicologia em Répteis. Voltado para a análise de prejuízos causados por agrotóxicos no meio ambiente, o setor tem como objeto de estudo ovos de Tartarugas Tracajá. Para o Coordenador do Lapas, André Quagliatto, o investimento feito pelo Governo Federal nesse campo foi o que propiciou a construção de um ambulatório para triagens e atendimentos clínicos iniciais. “É um centro de atendimento hospitalar que está bem equipado, com um corpo de veterinários especialistas em clínica de animais silvestres”, descreve. Em execução há oito anos, o Projeto de Ecotoxicologia tem como proposta o teste da utilização de produtos químicos, como agrotóxicos, no desenvolvimento de embriões de répteis. “Durante cinco anos, coletamos os ovos e fizemos a incubação artificial no laboratório, inserindo-os no substrato – areia em que ficam incubados –

com agrotóxico. Assim, o ambiente imitava o ninho natural das tartarugas”, explica Quagliatto. Para o ex-diretor do HV, Amado da Silva Nunes Júnior, houve uma mudança na maneira de encarar a saúde pública e animal. “Com a participação efetiva da academia, o Lapas pôde desenvolver pesquisas que visam melhoramentos de espécies em seus habitats naturais, a partir do estudo dos efeitos de substâncias, naturais e artificiais, em organismos vivos de animais que constituem nossa biosfera”, explica. Cursando pós-graduação em Ciências Veterinárias, o estudante William Vitto de Souza analisa que é essencial que haja o estudo da importância da fauna silvestre no meio ambiente, e que essa abordagem deveria ser fomentada em escolas de periferias. “Infelizmente parte dos alunos [dessas escolas] não conhecem a UFU. As pessoas da cidade, muitas vezes, não sabem da existência da instituição e, se sabem, não possuem o conhecimento de que esta é pública e que podem ter acesso”, relata Vitto.

A PARTIR DA ESPÉCIE PODOCNEMIS UNIFILIS, O PROJETO ANALISA INTERFERÊNCIA DOS AGROTÓXICOS NO DESENVOLVIMENTO EMBRIONÁRIO DE RÉPTEIS. FOTO: VITÓRIA BERTOLUCCI

9


PESSOAS E PERSONAGENS

Histórias que se cruzam Nos bastidores, as profissionais de limpeza são peças essenciais para a preservação da Universidade GENIVAN JÚNIOR Circulando pelos campi da UFU e vendo os espaços limpos, não se percebe quem são as e os profissionais envolvidos no processo. O Senso Incomum conversou com duas dessas mulheres. São elas que deixam tudo organizado para um ambiente limpo e propício à aprendizagem de qualidade. “PODE ME CHAMAR DE GIL” Gilvanete da Silva Cardoso - Gil, para os íntimos - é de Nova Floresta, município da Paraíba com pouco mais de 10 mil habitantes. Assim como milhões de brasileiros que saem do estado de nascença, Gil veio para Uberlândia há quatro anos com o marido e os dois filhos à procura de emprego. Na cidade, trabalhou em salão de beleza e supermercado. Há três anos, é contratada da empresa responsável pela limpeza na UFU. Trabalhando desde os dez anos, teve que abandonar os estudos na 3ª série do Ensino Fundamental. “Quando criança sofri muito, não tive tempo nem para brincar”, conta Gil. Enquanto morou na Paraíba, ela sempre trabalhou na casa dos outros como diarista, doméstica ou babá. Apesar do bom humor, Gil enfrenta muitas dificuldades: com o marido desempregado, ela assumiu a responsabilidade pelas despesas da casa. “Está difícil, mas Deus ajuda quem cedo madruga”, brinca. Hoje, ela mora com a família numa casa alugada, no bairro Morumbi. Acorda às 4h40min todos os dias e pega dois ônibus para chegar à UFU às 6h. “Tem dias que, se você abrir a porta de uma sala de aula, você desmaia com a bagunça”, relata. Quando perguntada sobre a relação com os alunos, ela é bem enfática. “Uns te dão bom dia, outros nem te cumprimentam”. Ao chegar, pela manhã, Gil organiza as salas e alinha as carteiras, porém, acha que os alunos poderiam contribuir mais com atitudes simples, como por o lixo na lixeira. “Tem gente que não tem consideração e acha que, por estarmos recebendo salário, temos a obrigação de limpar. Se não fôssemos nós, a universidade nem existiria, então os alunos poderiam nos enxergar de outra maneira”, afirma. Vivendo com salário mínimo, ela não deseja

10

APESAR DE TRABALHAREM JUNTAS HÁ POUCO TEMPO, DANIELA (À DIREITA) E GIL (À ESQUERDA) MANTÊM UMA FORTE AMIZADE. FOTO: MATEUS OLIVEIRA

para os filhos a mesma vida que leva. “Meu filho já me perguntou: ‘Mãe, será que um dia eu vou chegar na universidade?’; eu digo: ‘Filho, depende de você’. Minha filha mais nova quer ser médica”. Há dois anos sem visitar a mãe e o avô no Nordeste, Gil espera o momento certo para vê-los novamente. “Laço de família é muito forte. Estou esperando o tempo melhorar, a crise está demais.” ELOS CRIADOS Daniela Rodrigues Gonçalves, nascida e criada em Uberlândia, é companheira de Gil na organização das salas e, em janeiro, completa cinco anos de trabalho na UFU. Daniela também parou de estudar cedo para ajudar a família, mas pretende voltar aos estudos e fazer um curso que possibilite uma renda melhor. “Me faltam condições para voltar a estudar, já que exerço o papel de mãe e pai”, diz Daniela, que é mãe solteira de uma filha de 16 anos e um filho de oito. Ela já trabalhou em padaria, multinacional e cozinha de restaurante. Hoje, assim como Gil, madruga para vir à universidade. “No horário

de verão, a gente sai no escuro. É perigoso, porque tem mato por todos os lados”, conta ela, que pega dois ônibus para chegar na UFU. Daniela relata que, às vezes, alguns estudantes percebem a correria e ajudam-na a ajustar as carteiras. “O pessoal da noite faz muita bagunça. Neste horário, trabalham só duas funcionárias e elas não dão conta”. Ao chegar em casa e terminar os serviços domésticos, Daniela não deixa a saúde de lado e vai caminhar, curtir a família e assistir televisão. Em 2019, sua filha mais velha terminará o Ensino Médio e fará vestibular para entrar na universidade. Gil e Daniela não têm uma vida fácil. Depois de se tornarem mães, o sonho e a prioridade delas passaram a ser dar um futuro melhor para os filhos. Elas contam que o convívio e o apoio entre os trabalhadores da limpeza dão forças para continuar. No horário de almoço, o grupo se reúne no antigo Restaurante Universitário (RU) para fazer a refeição, momento para conversar, descontrair e fortalecer os vínculos. Às 15h, chega a hora de ir para casa. No outro dia, tudo começa de novo.


SENSO ENTREVISTA

Reitor analisa trajetória da UFU Das realizações aos desafios futuros, Valder Steffen comemora os 40 anos de federalização da universidade RODOLFFO GARCIA ao país em termos de formação de recursos humanos e de cidadãos, de responsabilidade com a cidade, com a região. Tudo isso pesa sobre os ombros das federais. Além disso, através dos vários programas de intercâmbio, a UFU se internacionalizou. Embora existam documentos de tentativas de convênios, de antes de 1983, isso se espalhou e se intensificou com a federalização.

Quais os principais desafios enfrentados pela UFU?

PARA STEFFEN, A FEDERALIZAÇÃO TROUXE MAIS REPONSABILIDADE NA FORMAÇÃO DE CIDADÃOS. FOTO: CLARICE BERTONI.

Valder Steffen está no segundo ano de sua gestão como reitor, mas há 42 anos trabalha na universidade. Um dos primeiros docentes doutorados na época em que a UFU era uma pequena universidade de Engenharia, ele conta ao Senso as transformações que vieram com a federalização e o que se pode esperar do futuro.

Senso Incomum: O que mudou na UFU com a federalização? Valder Steffen: A primeira grande mudança é que não havia pós-graduação e pesquisa. Inicialmente, era uma escola de Engenharia e depois uma universidade voltada apenas para graduação. Outro aspecto é que, durante alguns anos, a UFU situava-se só em Uberlândia. Com o Reuni, houve expansão. A política de cotas também é algo extremamente significativo. A universidade tem um retorno enorme a dar

Um dos maiores e mais recentes foi resolver a ocupação do Glória. Tivemos que trabalhar para fazer de uma forma legal, pois a UFU tem grande responsabilidade social, não podendo ignorar as famílias que lá estavam. Também temos um impasse com a empresa responsável pela expansão do Hospital de Clínicas, que está em processo de recuperação judicial. Outro desafio permanente na gestão atual, por falta de recursos, é a finalização da infraestrutura de Patos de Minas e do Pontal. Por estar mais avançado, focamos em finalizar o campus de Monte Carmelo, que será concluído no início do ano letivo de 2019. E, em todos os campi, sempre há reivindicações para criação de novos cursos de graduação. Infelizmente, o MEC já nos sinalizou que ainda não é o momento. Já na pós-graduação é mais simples: acabamos de abrir o primeiro curso de mestrado em Monte Carmelo, e Patos de Minas já tem dois. Além disso, precisamos atuar em outras áreas. O orçamento é baseado na taxa de sucesso, ou seja, no número de egressos. Por isso, há questões das mais variadas: problemas relacionados à vida moderna, pressão da universidade, bullying, questões de diversidade e inclusão, falta de recurso para viver com dignidade.

ção científica. O Congresso atual elaborou o orçamento de 2019, nele o custeio da universidade está razoável, mas, para novos investimentos, está aquém do que precisamos. É necessário ver como o próximo governo vai equacionar isso. Em relação a outros aspectos, a universidade é um ambiente plural. Os direitos básicos das pessoas devem ser respeitados, a livre manifestação de ir e vir e de exprimir suas próprias ideias. Estamos em um ambiente criativo, com pessoas envolvidas no processo de adquirir conhecimentos. Isso, naturalmente, traz ao espaço efervescência cultural e política, algo que deve ser preservado porque é próprio da universidade. Diante de uma sociedade que nos observa, nós servimos de referência. É bom que sejamos uma referência positiva.

Quais as projeções para o futuro da UFU e como a imagina nos próximos 40 anos?

A UFU ainda pode ter um crescimento bastante significativo na região, possuir mais alunos do que já tem, uma pesquisa ainda mais reconhecida nacional e internacionalmente. É provável que alguns de nossos campi localizados fora de Uberlândia também tenham um crescimento, ao ponto que queiram ter vida própria. Dois anos após minha contratação, em 1976, a UFU se tornou federal. Antes disso, ocupávamos um pequeno espaço no campus Santa Mônica. Jamais imaginei que teríamos aquela oportunidade tão rapidamente. Na época, houve uma grande greve com o temor de que acontecesse o inverso: que ao invés de federalizar a instituição se tornasse privada. Acredito que a Universidade Federal de Uberlândia possui potencial para continuar nos surpreendendo nas próximas décadas.

Como o cenário econômico e político brasileiro afeta a UFU?

Nós não temos tido investimentos e isso gera transtornos. Não podemos construir um prédio novo e há necessidades de manutenção. Sem recursos na pós-graduação e pesquisa, os trabalhos em andamento são prejudicados. Precisamos de bolsas para possibilitar a inicia-

Veja a entrevista completa: www.sensoincomum.net

11


FOTOGRAFIA

Nas lentes do tempo GABRIEL CAIXETA O ser humano sempre muda o espaço que percorre, deixando uma parte de quem é. Por isso, a prática acadêmica da UFU só pode ser compreendida quando se explora o lugar onde acontece. Durante esses 40 anos de federalização, a UFU se transformou: mudou o nome, o endereço e a estrutura. Em cada concreto, pode-se observar a expressão dos sentidos dessa história.

1- Ambulatório UFU

2 - Campus Santa Mônica

1- Biblioteca da UFU inaugurada em 07 de novembro de 1991.

2- Ambulatório que integra a Faculdade de Medicina foi doado pelo empresário Amélio Marques.

12

3- Campus Educação Física

4- Campus Glória

3- O Campus Educa, que abriga a piscina olímpica, foi inaugurado em 1971.

4- Com mais de 3 milhões de m², Campus Glória recebe aulas desde 2016.


Turn static files into dynamic content formats.

Create a flipbook
SENSO INCOMUM 042 - NOV/DEZ 2018 by Jornalismo UFU - Issuu