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simplesmente the amo eu preciso dizer que the amo "existirmos: a que será que se destina?" as caras de teresina "um povo honrado, alegre, acolhedor" o nome dos bairros "refulges, cristalina, em chão agreste" as várias faces do mesmo lugar "no verde dos seus olhos de menina" 160 coisas que só têm em teresina "champanhe é cajuína" verdade ou mito? "ai troca, quem troca, destroca" todo dia é dia dele "que alegre enchente no meu coração" meu amado mal-humorado "ei, você me deixa tonto zonzo" figurinha fácil "que desatina até o sol raiar" a cidade em "panelinhas" "realça a faceirice nordestina" dois rios que te abraçam "como quem delira na beira do cais" chuva® em teresina - [modo de usar] ou [produto pra tomar] "quase como louco de encantamento"

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Fenelon Rocha escreveu

simplesmente, 04


, the amo

Uma cidade é feita de várias faces. Teresina é mais que isso: é feita de várias faces e vários jeitos. A face dos cantos que só encontramos aqui. E o jeito das criaturas irrepetíveis. Juntando uma coisa com a outra, temos uma cidade de identidade muito particular e um modo de vida único, a nos diferenciar de outras partes deste mundão. Até o sol que nos cobre é único, ainda que seja o mesmo de toda parte. Aqui ele é mais forte, mais cheio de luz e mais vermelho, teimoso em manterse no céu até mais tarde da noite, tingindo o horizonte de um dourado que não há em lugar nenhum. Muitas das faces e jeitos desta cidade estão aqui, nesta nova edição da revista Piauí Terra Querida, um espaço em que as gostosas coisas da gente ganham cores ainda mais saborosas. Pois não falta gosto nestas páginas. Aqui encontramos cantos a encantar toda gente, mas temos principalmente muita gente que nos enche de prazer. Gente a marcar nossas mentes e corações, às vezes pelo talento, outras vezes pelo ofício especial e até pelo (mau) humor. Porque aqui nestas páginas só não entra o que é trivial. Sorte nossa que temos coisa de sobra que destoa da mesmice. Temos gente de toda qualidade. São criaturas bem diferentes. Atuando em campos distintos. Motivadas por desejos diversos. E carregando modos desiguais. Mas que tentam, do seu jeito e com a cara que carregam, dizer a mesma coisa: Eu amo Teresina. Ou, simplesmente, The Amo.

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Teresina, 16 de Agosto de 2012 Aos 160 anos, você que guarda no seio uma contradição. Já se fez grande e forte, mas ainda é uma criança no coração dos seus filhos. Escrevo essa carta para te falar de um deles. O que te guarda como uma joia rara, a melhor amiga, a mãe que protege, cuida e ensina sobre as coisas do mundo. Ela já nasceu te amando, sem sequer te conhecer. Da primeira lembrança, aos dois anos de idade, até hoje, é você no pensamento e na alma. Veja só, mesmo há sessenta anos, a mais de 200 quilômetros de distância, ela já sonhava contigo e abria no rosto um sorriso quando ouvia a sonoridade das suas sílabas. TE RE SI NA. Da infância ao casamento, fez de tudo para estar perto de ti. Era o grande sonho. Quando a chamavam de cega por não saber ler, ela nadou contra a correnteza e se preparou para ganhar o mundo. Era você que ela buscava. Casou com um cacheiro viajante que trazia na bagagem a promessa do encontro contigo. O amor por ele veio de brinde. Foi quando viveu tua pulsação, tuas cores, teu cheiro, teu movimento. Depois vieram os filhos, netos, bisnetos e a vida que ela tem agora. De dia, a mulher com nome de flor, vive de saudade. Do tempo que andava pelas tuas ruas, levava os filhos ao teu cinema mais antigo, passeava tranquilamente pela Pedro II. À noite, veja só, é com você que ela sonha. Revive tudo até adormecer no seu coração; a Igreja de Lourdes, que ajudou a construir ainda quando a terra vermelha deu o nome ao bairro. Ela não nasceu do teu ventre. Mas olha que coisa, Teresina; como não consegue mais te viver em plenitude, há dez anos passou a escrever cartas no seu aniversário! Não enxerga direito, tem problemas de locomoção, coração e outras limitações, mas esquece das mãos dolorosas e trêmulas quando quer falar contigo. Você virou confidente. Quem diria... Chama-te de mãe, de querida e te defende contra tudo e todos. “Ela não tem culpa!”, diz sem cerimônia e com certa irritação. E quando a gente pensa que ela não é mais capaz de surpreender, ela publica as cartas que escreveu desde o seu sesquicentenário para te dar de presente em forma de livro. Olha que danada! Hoje, com as marcas do tempo no rosto e com cabelinhos de algodão, ela sonha te ver crescer com o coração de criança. Aos 82 anos, tua filha guarda a ternura dos teus primeiros tempos. Com um sorriso sempre franco, é acolhedora, carinhosa. Tem um espírito adolescente de inquietação permanente. E o humor? Isso ela tem de sobra. Ri de si mesma. Ela é admirável. Mas engana-se quem pensa que a velha garota aceita conformada a noite mansa, como bem disse teu poeta. Maria Rosa grita. Protesta. “Eu mando no meu destino!”. Ela tem esperanças. Ama, vibra, cria. Faz acontecer. Pensando bem Teresina, essa filha tem a quem puxar. Com amor, Paula Danielle


“Mais um a no estou te escrevendo com a mão dolorida e trêmula e minha cart a nunca é d ivulgada. Minha amig a eu quero tanto que o mundo todo saiba o qua nto eu te amo”. 2006

“Hoje você está completando 152 anos. Como sempre linda, verdadeira, acolhedora. Uma mãe para todos. Que Deus te abençoe sempre. Com abraços da filha que te ama”. 2004

“Amiga, eu sinto muita falta de você, sinto saudades de quando eu andava todos os dias nas ruas para te ver. Era maravilhoso. Agora só vou onde me levam”. 2007

Maria R o de amor sa, 82 anos por Tere sina

“Quer ida am iga vo médic cê sab a de e o q s c obriu? amarg ue mi nha a. Voc Q u e so ê acha acho u ? muito Eu nã muito o acho doce, para . Eu m porqu supor e e t s a ó mu r tant sabe ito m as for o que e l m i gas... eu fiz Essa g Amiga ? Mu osta m , dei d uito d Nós d e mé e dica. mim e uas so mos d eu ad ois po oro el a. ntinho s de m el”.

“Hoje de algum lugar dentro de você, alguém que já te amou muito e ainda te ama, diz para você que valeu a pena ter estado nestas terras, sob estes céus. Muito obrigada por teu olhar de bondade”.

“Teresina, você teve muita sorte, cresceu muito. Hoje com 150 anos está nova e bonita. Minha amiga, eu vou completar 72 anos e continuo pequena”. 2002

2004

“M i qu nha ee am sa nd u so iga, u o ge lou algu n c ca é qu te, m om eg po m p vo a o r s en c te, par ê c esta de a ch rc é m a m om inh im o s onv ar e e v aa fos rmi ocê s é ga ma e ”. 20 is 07

de pé o s to mo mui o fa d l a a c le o e mbr um lo s e i l c e cê sa pr “Vo Era nos foi a ? s i r a a u ga m peq o, om r lu d C a a d . da anim r para des e our e a j r L r e dos Igr mo de a to a r a d a j p o Igre sceu uçã e r t r s c 2 ê con 200 voc ça a r p s”. ado os l

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“Para béns pelo anos. seu a Que niver linda sario Teres ! Eu de 15 ina. t 5 V e o c amiga ê cre amo . Foi sceu muito muito com lutar você pelo m minh que a eu so apren nho”. di a

2007


Glenda Uch么a escreveu

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Em todos os cantos, personagens fortes, criativos e cheios de vida dão luz e gás a uma cidade em transformação. Esses são apenas uma amostra de como nossa gente é corajosa, bonita e dedicada em fazer de Teresina um lugar muito mais gostoso de se viver.


a artesã do poti velho

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“O barro e a cerâmica fazem parte de quem eu sou, fazem parte da minha vida”. O amor à profissão é declarado. Dona Raimundinha, como é carinhosamente conhecida Raimunda Teixeira, 49 anos, é artesã e presidente da Cooperativa do Polo Cerâmico do Poti Velho, onde, assim como centenas de outras famílias, conta sua história através das peças produzidas nas olarias do bairro. Raimundinha aprendeu desde cedo a carregar a responsabilidade de ajudar no sustento da família, que, na prática, significou transportar tijolos por 22 anos. Na década de 1980, o trabalho era dividido por sexos: os homens produziam e as mulheres carregavam os tijolos. Essa era a principal forma de renda da maioria da comunidade da época. Com o tempo, as atividades do Poti foram ganhando em quantidade e diversidade. Na década de 90, por exemplo, além de tijolos, jarros, potes e filtros, os artesãos criaram uma marca na produção de peças decorativas e artísticas. Foi quando Raimundinha aprendeu a pintar e a produzir séries como 'As mulheres do Poti' – bonecas de cerâmica que retratam a história das mulheres que trabalham nas olarias. Com um sorriso caloroso e frequente, a mãe de dois filhos artesãos, explica que atualmente milhares de pessoas sobrevivem do artesanato. O polo cerâmico virou referência para Teresina e é marcado pela alegria de um povo que faz o que gosta e molda a arte e a vida com as próprias mãos.


a empresária do jóquei

Alguns elementos ficam evidentes já nos primeiros minutos de conversa com Lúcia Silveira: elegância, experiência e aptidão para os negócios. Ela foi testemunha ocular da consolidação e transformação do bairro Jóquei, na zona Leste de Teresina, conhecido por ser reduto de muitas famílias tradicionais da cidade. Lúcia Silveira é filha do empresário Marcolino Rio Lima, homem influente, um dos primeiros moradores do Jóquei e dono, na década de 1950, de grande parte dos lotes mais nobres da região, incluindo o terreno onde hoje fica o clube que dá nome ao bairro. “Na infância, nossa casa era onde hoje está o hotel Palácio do Rio. Reconhecia as pessoas pelas famílias e o nome da maioria das ruas da região foi meu pai que colocou, como as ruas Orquídea, Angélica e Fortaleza, hoje João Elias Tajra”, explica. Do pai, católico fervoroso e um dos melhores amigos do arcebispo da cidade Dom Avelar Brandão Vilela, ela herdou o tino empresarial e, com uma das irmãs, montou uma loja especializada em peças de decoração, a Vivenda, que existe há 38 anos. A mudança é inevitável e, aos olhos de Lúcia Silveira, muito rápida e natural. A empresária continua investindo nos negócios e na própria elegância, característica forte da tradição que ainda sobrevive no Jóquei.

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o sambista da baixa da égua

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Foi debaixo da sombra do maior pé de umbu do Centro de Teresina, na década de 1970, que cerca de dez amigos tiveram a ideia que sacudiria, literalmente, com a rotina dos teresinenses: a criação da escola de samba “Sambão”. Manoel Messias, um dos fundadores, presidente de honra e participante fiel de todas as edições do carnaval garante: “a Baixa da Égua não seria a mesma sem a Sambão”. Ele explica que o curioso nome da região, localizada no Centro Norte da cidade, surgiu da história de uma equina azarada. Diz a lenda que o animal caiu em um grotão e só foi encontrado quando o corpo já cheirava mal. O episódio batizou o lugar e virou berço da escola de samba, uma das mais antigas do carnaval teresinense. Para quem mora por lá, o carnaval não se restringe ao mês de fevereiro. São eventos e reuniões que fazem a Festa de Momo durar 365 dias nesta região especial da cidade. Entretanto, às vezes o samba rasgado fica quadrado, sem graça. É quando chegam as vacas magras que Messias começa a queixar-se às rosas. A falta de patrocínio e a “profissionalização” dos foliões – que muitas vezes não sentem o espírito do carnaval –, são coisas que quase sempre deixam essa lenda viva do samba teresinense numa tristeza sem fim. Mas até nesta hora, o amor à escola e à Baixa da Égua falam mais alto, Manoel Messias levanta a cabeça, sacode a poeira e samba por cima das adversidades. E o ritmo segue. Há 39 anos, Manoel Messias coloca seu chapéu, a roupa com a égua estampada no peito, afina o banjo e coloca a Baixa da Égua e Teresina toda para sambar ao ritmo da Sambão.


a invasora da vila irmã dulce Dois de junho de 1998 ficou marcado na vida de mais de três mil pessoas em Teresina. Naquele dia foi ocupada aquela que hoje é considerada a segunda maior comunidade da América Latina originada a partir de uma invasão de terras; a Vila Irmã Dulce. Na linha de frente da multidão, uma jovem de 25 anos e toda determinação do mundo. Dona Neguinha. A vida simples da Vila condiz com a maneira que a líder comunitária explica as conquistas desses quatorze anos. O momento em que mãos, pés, braços e corações lutaram unidos na construção de um lugar para se viver melhor. Mãe de três filhos e avó de três netos, Neguinha, naturalmente, conjuga uma sequência de pronomes na primeira pessoa do plural e fala com a propriedade de quem luta por objetivos comuns. “Nós fomos duramente reprimidos durante a ocupação. É diária e insistente a nossa luta por melhores condições de vida. Já conseguimos organizar a horta comunitária, escola, quadra poliesportiva e queremos isso: nossa comunidade reconhecida pelas coisas boas que têm a mostrar” conta Neguinha, enfatizando o plural para dar vazão à voz de muitos. A vila, que agrega em torno de 15 mil moradores, apesar de ainda apresentar desafios a serem superados é, também, reduto de companheirismo e união. É comum a visita na casa do vizinho no finzinho da tarde, a ida à igreja, as pipas da criançada planando pelo céu e o encontro despretensioso na praça central.

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o comerciante do saci

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Há vinte e dois anos, trabalhando com comércio, ele revolucionou a forma de lidar com as dívidas dos clientes - o temido 'fiado'. O visionário chama-se Messias Andrade, 69 anos, que também atende pelo apelido que ganhou quando criança, 'Dedinho' - titulação concedida por conta da amputação de parte do dedo indicador direito. O nome pegou e batizou o bar, localizado no bairro Saci, onde surgiu o inovador método do 'fiado de prateleira' e, também, o assustador 'caixão das dívidas'. A forma de cobrança é simples, engenhosa e, como o próprio Dedinho faz questão de ressaltar: 'a mais ética de todas'. Quem consome as cervejas geladas no Bar do Dedinho e deixa fiado, não vai ganhar nome em caderno, nem cobranças aleatórias, mas ganha espaço fixo na prateleira do estabelecimento. É uma dívida visual. “Está na vista do cliente a própria dívida e quem não pagar eu coloco o nome no caixão”, ressalta sorridente o comerciante, vitorioso pela criação da fórmula inédita na cobrança. Mesmo com as regras atípicas, o bar tem uma clientela fixa, que aprecia o lugar para saborear cervejas geladíssimas e conversar sobre futebol, sem restrição de torcida para nenhum time, apesar do dono ser flamenguista convicto. Na verdade, o futebol é mais uma das atrações do estabelecimento que exibe um painel enorme com recordações das partidas que o dono do bar disputou, dos times de amigos por onde passou e visitas ilustres que recebeu. Os próprios clientes – pagadores à vista e os que vão mesmo sem dinheiro – afirmam que frequentar o bar do seu Dedinho é como estar em casa.


o capoeirista do grande dirceu

Não se surpreenda se, ao andar pelas ruas movimentadas do Grande Dirceu, o som do berimbau, acompanhado por palmas ritmadas e vozes uníssonas, invadir seus ouvidos. É que José Marinho, o mestre Pebança, de 48 anos de idade, 30 deles dedicados à capoeira, gosta de ensinar e praticar sua arte nos espaços da região mais populosa de Teresina. A ginga, a dança e o ritmo, são alguns dos elementos que, segundo Pebança, provam a expressão de vida e liberdade encontradas na capoeira. Quem entra na roda, independente de sexo, idade, tamanho, cor ou religião, é envolvido pela magia do esporte-arte, que ganhou adeptos da filosofia de disciplina e superação. “Esse trabalho não visa retorno financeiro. A minha recompensa é saber que eu estou ajudando a formar cidadãos e pessoas de bem”, diz Pebança, que com pouco mais de 1,70m de altura, agiganta-se quando o assunto é a vontade de mostrar a beleza da capoeira. Junto com experiência na capoeira, Pebança conquistou a graduação de mestre, representada pela corda de cor branca. Mas para os mais de 5 mil alunos que, de uma forma ou de outra, aprenderam com ele os segredos da armada, da queixada e da meia-lua, ele não é mestre só na roda mas, também, na vida.

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o pai de santo do aeroporto

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No cruzamento das ruas Sergipe e David Caldas, no bairro Aeroporto, zona Norte de Teresina, os Orixás se comunicam. É uma conversa feita por intermédio de terceiros, onde deuses como Oxalá, Yemanjá, Oxum e Xangô reafirmam a fé e as esperanças dos praticantes do Candomblé, no terreiro Ilê Opassoró Fadaquá, fundado pelo pai de santo Oscar de Oxalá. Figura emblemática e responsável por inserir o Candomblé em Teresina, Oscar de Oxalá, com ajuda dos búzios e dos deuses, prevê o futuro há 26 anos. Na mistura do passado, presente e futuro, o babalorixá – nome usado para identificar o sacerdote do Candomblé - faz do seu dom uma porta de entrada para novos adeptos da religião na capital. “Quando as pessoas conhecem nossos ritos, cantos e danças passam a ter outra concepção do Candomblé. Nós somos uma igreja aberta”, explica. O pai de santo entende a comunidade como uma extensão das forças que controlam a natureza e seus fenômenos. Por isso, durante todo o ano acontecem atividades que envolvem não só os religiosos, mas simpatizantes, curiosos e a comunidade em geral. É o caso da festa de Xangô, em junho, e a festa de Cosme e Damião, que acontece em setembro. São as festividades, fé, cultura e, sobretudo, respeito, os atributos que cercam cada milímetro do terreiro Ilê Opassoró, um lugar onde Oscar de Oxalá disserta sobre a valorização da vida, doação, crenças e compartilha o sonho de que os búzios também anunciem, em um futuro próximo, a história de um Candomblé aceito e livre de todos os preconceitos.


a bela da zona leste Beleza, talento e simpatia. Quem anda por Teresina reconhece facilmente esses requisitos nas suas mulheres. Andressa Leão é um exemplar perfeito. Uma jovem antenada com a moda, faz o seu próprio estilo e fala com propriedade sobre o assunto: “Além de muito bonitas, as mulheres de Teresina investem na moda e fazem isso de forma elegante e ousada”. Ela, assim como boa parte de suas conterrâneas, irradia uma beleza espontânea, daquelas impossíveis de passar despercebida. Formada em design de moda, Andressa recentemente inaugurou sua loja e a própria marca onde apresenta criações que vão do básico ao chique, em consonância com o gosto dos mais variados públicos. “As mulheres daqui estão quase sempre em cima do salto e super arrumadas. Não interessa o lugar”, garante. Sobre o desafio de criar e produzir para um público tão exigente, Andressa acredita no planejamento. “Acredito em tudo aquilo que e bem implementado, organizado, idealizado. Sou a favor do crescimento sólido, ainda que precise ir devagar. Estou muito feliz com a aceitação da marca”, diz a estilista.

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o leitor do centro

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Aos 15 anos de idade, Antônio de Pádua, o 'Dentinho', deixou as salas de aula e transformou em negócio uma das grandes paixões de sua vida: os livros. Com publicações como revistas, quadrinhos e outros volumes literários, Dentinho ganhava a vida durante a década de 1960, levando e vendendo cultura pelo Centro da cidade. “Naquela época, a única diversão era ir ao Lindolfo Monteiro, Cine Rex ou Teatro. Eu comprava revista porque gostava de ler, me divertia fazendo isso” conta. Atualmente, dono do sebo de livros mais conhecido de Teresina, ele não é modesto ao afirmar: “Quem lê me conhece. Quem não gosta de ler, não me conhece”. A conclusão não é à toa. Dentinho explica que até quando viaja pelo interior do Piauí encontra clientes. “Viajei com minha mulher para Gilbués, quando me espantei, ouvi uma pessoa gritando meu nome. Olhei para minha esposa e ela disse 'Poxa, até aqui?”, conta entre sorrisos. A banca é reduto de edições populares e exemplares raros, como a revista “O Cruzeiro”, que data do ano de 1956. O espaço atrai leitores e colecionadores das mais diferentes faixas etárias, que, assim como Dentinho, são também apaixonados por leitura. Muita coisa mudou. O lugar da banca não é o mesmo, saiu do centro da Praça Pedro II e descentralizouse para as laterais da Avenida Antonino Freire, onde também divide espaço com outras estruturas semelhantes. Uma das poucas coisas que permanece é o amor de Dentinho à literatura. E isso não muda, passe o tempo que passar.


oc cientista e t st sta ta do liceu c u ce Reza a lenda que o Isaac Newton estava bem tranquilo debaixo de uma macieira quando, de repente, catapimba!, cai uma maçã no seu cucuruto. Desse galo latejou a Lei da Gravidade, primordial para a existência da Física. Em Teresina, foi o cheiro-verde que mudou a vida de Antônio Araújo, 31 anos, e acabou lhe direcionando para a ciência. Ele, que hoje é professor de Física do Colégio Estadual Zacaria de Góis, o Liceu Piauiense, teve o cheiroverde e os estudos intimamente ligados por muito tempo, pois foi com o dinheiro da venda das verduras, que ele ajudava em casa e comprava o material que precisava. Formado há 8 anos pela Universidade Federal do Piauí (UFPI), Antônio Araújo é o único piauiense selecionado pela Sociedade Brasileira de Física para conhecer o CERN - Centro Europeu de Pesquisa Nuclear, na Suíça, nesse mês de agosto. “Muitos alunos que não gostavam de física, depois do meu convite para conhecer o CERN, até pensam em prestar vestibular para a área”, se orgulha o professor, que tem cerca de 200 alunos na instituição. O ex-feirante virou referência nas salas de aula com o convite, e vai à Europa para ver de perto o que os cientistas estão fazendo para encontrar a partícula subatômica mais procurada dos últimos tempos e que pode desvendar os mistérios da formação do Universo, o Bóson de Higgs. E o cheiro-verde nem precisou cair na cabeça dele...

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Mara Teles e Vanessa Mendonça pesquisaram

AlÔ, ALÔ TERESINA Você acha estranho e não entende o que significa o nome do lugar onde você mora? Nós resolvemos seu problema. CABRAL O bairro desenvolveu-se em torno do abatedouro de propriedade de Antônio Paz Cabral, alferes da Polícia Militar, ficando conhecido pelo seu sobrenome. MATINHA Com a abertura de uma estrada para o Matadouro Municipal, ficou entre o centro da cidade e aquele local uma área com vegetação baixa, a qual passou a ser chamada de Matinha. Quando o local virou bairro, o nome foi mantido. MARQUÊS DE PARANAGUÁ O bairro era conhecido por Vila Militar ou Estande de Tiro, pois lá os soldados do 25º BC praticavam tiro ao alvo. Com a inauguração do Clube Marquês de Paranaguá, destinado aos sargentos e subtenentes do Exército, a população adotou o nome. REDENÇÃO Com um certo tom pejorativo a área passou a ser chamada de Redenção por causa das características em comum com a cidade da novela Redenção, uma novela de rádio que fez muito sucesso. MONTE CASTELO (conjunto) Em 1966, a prefeitura comprou o terreno para construir o conjunto Ipase destinado a ex-pracinhas da Força Expedicionária Brasileira, FEB, que lutaram na Itália durante a II Guerra Mundial e em batalha conquistaram o Monte Castelo. MORRO DA ESPERANÇA O bairro ocupa uma área que pertence à Colônia dos Psicopatas (hoje Hospital Areolino de Abreu), invadidas por sem-teto. A área foi chamada de Morro do Urubu, mas mudou de nome por sugestão do então Arcebispo de Teresina Dom Avelar, na década de 60. TABULETA Com a abertura da estrada para o Sul do Estado (BR-316, na época denominada Tancredo Neves), existia naquela área uma placa de madeira (tabuleta) que indicava ser ali um posto fiscal e a entrada da cidade. A região ficou então conhecida por Tabuleta. TRÊS ANDARES A população passou a chamar a área de Três Andares por causa de suas características geológicas com subida em três etapas. ILHOTAS O bairro se desenvolveu em torno de uma área militar e foi chamado de Ilhotas por se localizar próximo às ilhotas de pedras fósseis do Rio Poti. PIÇARRA, PIÇARREIRA E AREIAS As áreas receberam estes nomes por causa das grandes jazidas dos minerais que deram seus nomes. VERMELHA O solo da área é formado por barro vermelho, por isso chamou-se Quinta Vermelha a quinta de Laurindo Veloso, o mais antigo morador da região. Com o povoamento manteve-se o nome Vermelha. MACAÚBA O bairro foi assim chamado porque por lá havia grande concentração de macaúba, palmeira de fruto amarelo-pálido, mas já foi conhecido também por Bairro dos Carvoeiros por causa dos trabalhadores que atuavam nos grandes depósitos de carvão vegetal da área.

VILA OPERÁRIA A área era conhecida por Vila de Abreu. Mais tarde, os operários que trabalhavam na construção da Estrada de Ferro ali fixaram residência e a região passou a ser chamada de Vila Operária. MAFUÁ Na década de 1920, quando dos trabalhos de nivelamento da Estrada do Cabo (Av. Circular e hoje Av. Miguel Rosa) para a colocação dos trilhos da Estrada de Ferro, o capitão engenheiro José Faustino Santos e Silva chamou a área de Mafuá, referindo-se às atividades de feira livre, venda de comida aos trabalhadores da construção, junto ao atual mercado do bairro, à saída do viaduto. O nome origina-se do francês ma foire, que quer dizer minha feira. PIRAJÁ O bairro desenvolveu-se em torno da Estação Experimental da Pirajá, pertencente ao Ministério da Agricultura. O nome Pirajá significa aguaceiro rápido e súbito comum nos trópicos. SACI Em 1979, foi construído o conjunto habitacional Saci, da Cohab, em área vizinha à Saci S.A. Concreto Industrializado, empresa do Grupo Lourival Parente. Todo o bairro ficou assim conhecido. ITARARÉ O bairro ocupa uma área que pertencia à Fazenda Itararé, de Pedro de Almendra Freitas, daí seu nome (a sede desta fazenda localizava-se na área do atual bairro São João Eldorado Country Clube). A palavra Itararé, de origem tupi, significa curso subterrâneo das águas de um rio através de rochas calcárias. REDONDA, ININGA, URUGUAI, PRIMAVERA, ALTO ALEGRE, MOCAMBINHO Bairros que ganharam o nome que pertencia às fazendas com seus respectivos nomes. NOIVOS Havia na região uma gleba de terra chamada Noivos porque, segundo alguns, no local reuniam-se noivos para a celebração do casamento, por ocasião da desobriga dos vigários de Teresina. VALE QUEM TEM Área da antiga Fazenda Vale Quem Tem, hoje parcialmente loteada (loteamento com o mesmo nome). Diz-se que o proprietário da fazenda, Geovane Prado, nomeou – a Fazenda Vale Quem Tem Vergonha, porém, não oficializou a denominação completa. SOCOPO O nome está relacionado à Sociedade Construtora Poti LTDA, Socopo, que lá construiu um balneário de fonte sulforosa e água mineral. JÓQUEI A denominação do bairro associa-se ao Jockey Club do Piauí, ali localizado. Com a construção da ponte sobre o Poti, em 1956, pelo DNOCS, intensificou-se o povoamento do bairro.


SATÉLITE Criado pelo então prefeito Joffre do Rego Castelo Branco, inicialmente o bairro se chamava, Cidade Satélite a exemplo das cidades satélites de Brasília. PEDRA MOLE Havia na região uma gleba de terra conhecida por Pedra Mole. Segundo os moradores antigos, quando procuravam pedras para construir suas casas, só encontravam pedras moles, inúteis para a construção. Daí, o nome. FÁTIMA Inicialmente os moradores costumavam adotar o mesmo nome do vizinho bairro Jóquei. Com a implantação da Paróquia de Fátima, por Dom Avelar Brandão Vilela, arcebispo de Teresina, a área ficou popularmente conhecida por bairro de Fátima. PORENQUANTO Existem diferentes versões para o nome incomum. Alguns moradores contam que quando os primeiros habitantes chegaram à área não havia nome oficial e diante da insistente pergunta dos visitantes: “Esse bairro já tem nome?”, respondiam sempre “Por enquanto ainda não.” POTI VELHO Antigamente era chamado de Barra do Poti, a mais antiga ocupação de Teresina, localizada na confluência do Rio Parnaíba com o Poti, em 1760, já havia um aglomerado de fogos, ou seja, casas habitadas por pescadores, canoeiros e plantadores de fumo e mandioca. Em 1832 foi elevada à categoria de Vila do Poti. Em novembro de 1850, Saraiva visitou a Vila do Poti e ficou acertada sua mudança para a Chapada do Corisco, a 6 Km. ao Sul. Nascia, assim, a Vila Nova do Poti e a antiga ficou conhecida como Poti Velho. ÁGUA MINERAL Desenvolvendo-se entorno da fonte de água mineral (York), o bairro ficou assim conhecido. ITAPERU Diz-se que na década de 1940 morava na região um rezador poderoso chamado Domingos José da Costa. Na área começou a aparecer a assombração de um peru que fazia roda em cima de uma pedra, às quintas e sextas-feiras. Seu Domingos colocou um cruzeiro no local que já havia sido benzido por padres missionários e a assombração nunca mais apareceu. A propriedade mudou de dono que a vendeu em seguida para as Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado, que construíram o convento e um Lar Educacional dos Menores, e, utilizando a palavra tupi-guarani ita (pedra), alteraram para Itaperu. REAL COPAGRE Nesta região, em outubro de 1968, um grupo de jogadores de baralho criou o Centro Social Real Copag 139, uma referência ao nome da marca de baralho. Na década de 70, os moradores da área passaram a denomina-la de Real Copagre. MEMORARE O bairro ganhou este nome graças às Irmãs dos Pobres de Santa Catarina de Sena, que não tendo onde passar as férias, algumas vezes utilizaram a casa de um amigo, perto do Itaperu. À tarde, passeavam e caminhando faziam suas orações, ainda em latim ou italiano e sempre que passavam por um morro ali próximo, coincidia de estarem rezando uma oração à Nossa Senhora que começava com o termo latino Memorare, traduzido para Lembrai-vos.

BUENOS AIRES O nome do bairro se deve à Estação Experimental Buenos Aires, do Ministério da Agricultura que desenvolvia trabalhos com hortaliças, frutas e criação de aves. TABOCA DO PAU FERRADO Na zona rural de Teresina, em uma região com muitas tabocas, havia um grande pé de jatobá. As pessoas costumavam gravar seus nomes na árvore com facas ou outros tipos de objetos pontiagudos. Com o crescimento da capital, o pau ferrado próximo às tabocas acabou virando ponto de referencia. IAPC é um acrônimo para Instituto de Aposentadorias e Pensões dos Comerciários criado durante o Estado Novo, que tinha como objetivo principal financiar projetos de habitação popular nas grandes cidades. PALITOLÂNDIA O líder comunitário conhecido como Palito foi um dos primeiros a liderar a ocupação da área na região Sul, sendo que uma das últimas áreas a serem ocupadas deram o nome em homenagem ao líder comunitário. VAMOS VER O SOL; ALÔ TERESINA; DEUS QUER; NOVA TERESINA; SATURNO; VERDE TE QUERO VERDE; DIGNIDADE; O SONHO NÃO ACABOU; PASÁRGADA; NIRVANA; SOL, CÉU, BRISA E MAR Durante a década de 1990, no governo Mão Santa, com Prado Júnior na presidência da então Cohab foram construídos dezenas de conjuntos habitacionais, que foram nomeados com nomes inusitados: Vamos Ver o Sol; Alô Teresina; Deus Quer; Nova Teresina; Saturno; Verde Te Quero Verde; Dignidade; O Sonho Não Acabou; Pasárgada; Nirvana; Sol, Céu, Brisa e Mar ALTO DO BODE Essa comunidade se localiza no espaço entre o rio Poti e a Avenida Ininga e entre as avenidas Dom Severino e a Coronel Costa Araújo, no local antes conhecido como "Alto do Bode", em razão de ser o espaço mais alto da região e onde dona Maria Pedreira criava seus bodes soltos, sendo comum encontrá-los pastando na região. Mas atualmente o local é denominado por Alto da Graça, nome dado pelo Padre Tony que fez o lançamento de uma nova igreja em 8 de dezembro de 1980. BAIXA DA ÉGUA Nome pelo qual ficou conhecida a região localizada entre as ruas Riachuelo e Benjamin Constant, em uma época em que as ruas do Centro não tinham pavimentação e eram comuns os buracos de água e lama. Conta-se que uma égua ficou atolada em um desses buracos e necessitou de várias pessoas para desatolar o animal. O lugar acabou sendo referência de localização, "Fica alí, perto da baixa em que a égua caiu, na baixa da égua".

Quer saber mais? www.piaui.pi.gov.br

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Carlos Lustosa escreveu

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O nome de imperatriz não é suficiente para abarcar as multifaces de Teresina. Para o bem – e para o mal – a capital do Piauí tem seus apelidos, codinomes e expressões que a caracterizam. Convidamos artistas plásticos que se destacam no cenário local para colocar no papel a capital que sai da boca dos teresinenses. O mais famoso apelido certamente é o “Cidade Verde”, dado pelo poeta maranhense Coelho Neto, em 1899. A tese mais disseminada é que o nome tenha surgido por causa da exuberância do verde, sobretudo de palmeiras como o babaçu e posteriormente pelas árvores frutíferas, que penetrava e circundava a cidade. Entretanto, há quem diga que a verdura à qual se referia o imortal da Academia Brasileira de Letras tenha sido da mocidade da população e da própria capital piauiense. Quem dá cores ao nome é a arquiteta, urbanista e ilustradora Mariana Ribeiro, que se inspirou no “Theatro 4 de Setembro, nosso cartão postal, torneado pelo verde


das palmeiras e das árvores frutíferas. A brisa leve que nos rodeia e o canto dos pássaros que aqui habitam...” A incidência de relâmpagos e raios e sua formação geológica majoritariamente plana deram a Teresina o apelido de: "Chapada do Corisco". Antes de se tornar capital do Piauí, Teresina foi Vila Nova do Poti, Vila do Poti e Barra do Poti, mas sempre teve a Chapada como sua referência de localização. Marcos Pê e sua xilogravura dão vida ao apelido. “Mesopotâmia Brasileira” é um nome bem apropriado para Teresina. Tal qual à região do Crescente Fértil no Oriente Médio, a capital piauiense está inserida entre dois rios – só que aqui, o Tigre e o Eufrates são substituídos pelo Poti e o Parnaíba – e também se tornou referência para diversos povos e culturas que se misturam e se integram. O super Gabriel Archanjo não economizou cores para nos brindar com a beleza da sua arte.

O calor escaldante já garantiu também à cidade o epíteto de Therehell, uma mistura do There de Theresina antigo (ou o there, do inglês, que indica lugar) com o “hell”, inferno, no idioma shakespeariano. Já nas palavras do ousado Lysmark Lial: “Eis aqui Therehell/ Escaldante / Afrodisíaca / Ardente / Gostosa / Quente / Fogosa... / E mais todos os adjetivos que a este tema couber. / Therehell é uma aparição. / É corpo de Deusa, espeto de diabo, calor de sertão. / É fogo que nem cajuína gelada pode apagar. /É só banho de rio, sem água de mar. /É lava quente / É rubro céu. / Da Costa e Silva que me perdoe o furto e redirecionamento de ideias, mas Teresina é um sol, literalmente, se há um sol sobre a terra”. O poeta Torquato Neto, um dos mais importantes artistas piauienses, acabou criando uma cidade própria baseada na Teresina em que viveu: a Tristeresina. Essa cidade, parida de seus conflitos internos fruto do lirismo da sua infância livre, idealizada, e sua conturbada juventude, deixou rastros na sua obra. Torquato escreveu o objetopoema homônimo, montado sobre quatro fotos onde o poeta aparece em duas delas na frente de um painel onde está escrita a palavra “triste” várias vezes como plano de fundo e a palavra “RESINA” que se transforma em “SINA” no último quadro. Antônio Amaral mergulhou nesse universo e usou as cores do poema visual do Torquato para revisitar a história de um mártir da capital, o motorista Gregório dos Santos. Uns falam por maldade, outros como brincadeira, mas muita gente se refere a Teresina como “Fazendinha Asfaltada”. Essa comparação associa a cidade a um local que, apesar de ter piche e betume nas vias, continua guardando traços de uma cidade do interior, onde as pessoas dão conta da vida das outras, a fofoca corre à boca pequena e os “cacifes da moralidade” têm liberdade para ditar regras onde já não cabe mais. Dino Alves resume “Acho que ouvi dizer que um amigo de um primo meu falou que disseram que em Teresina, comentam essa tal fofoca”.

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Vanessa Mendonça escreveu

32 Capital mais quente do Brasil. Cidade com maior incidência de raios do país. Ou simplesmente “um ovo”. Algumas das características mais comumente atribuídas à cidade não são verdadeiras ou não possuem comprovação. Aqui segue uma lista de mitos, verdades e incertezas sobre Teresina.

TERESINA É A JUNÇÃO DE TERESA + CRISTINA Sobre a denominação dada a Teresina, é certo que se trata de uma homenagem à imperatriz Teresa Cristina Maria de Bourbon, que teria intermediado com o esposo, imperador Dom Pedro II, a aceitação da ideia de mudança da capital piauiense de Oeiras para a Chapada do Corisco. Porém, há contestações em relação à formação do nome. A versão mais aceita é a de que a palavra Teresina foi formada a partir da contração dos dois primeiros nomes da imperatriz. Para outros estudiosos, a palavra seria originada do diminutivo de Teresa em italiano. LOCAL ONDE SE REGISTRA MAIOR INCIDÊNCIA DE RAIOS NO BRASIL Teresina se localiza na Chapada do Corisco, região em que mais se observa incidência de raios e relâmpagos no país. Essa assertiva não chega a ser um mito. Mas carece de comprovação científica. A cidade possui condições favoráveis às tempestades. Está localizada na faixa intertropical, uma região bastante aquecida. A formação de raios e trovoadas exige umidade e calor para que o ar seja ascendido acima da superfície do solo e, portanto, formemse as nuvens tipo cumuloninmbus (onde ocorrem as descargas). Entretanto, não há um radar próprio para a medição de descargas atmosféricas no Piauí, mas a termodinâmica local favorece a ocorrência dessas descargas. Além disso, é fácil observá-las visualmente, principalmente no verão e parte do outono, período em que acontecem as chuvas no Piauí, a atmosfera está mais úmida e a cidade recebe intensa radiação solar. O fato de se localizar em uma chapada também colabora: descargas atmosféricas ocorrem em obstáculos mais altos.


“TERESINA SÓ TEM 3 PESSOAS: EU, VOCÊ E ALGUÉM QUE A GENTE CONHECE” Claro que isso é brincadeira, mas valem a algumas informações. Nos últimos 20 anos, a população teresinense aumentou mais de 35%, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 1991, a população da capital era de 599.272 pessoas. Pela pesquisa mais recente, referente a 2011, há 814.439 habitantes em Teresina - bem mais que três. Nem quando Teresina foi criada era possível que todos os seus moradores se conhecessem: em 1872, a cidade tinha 21.692 habitantes. Hoje, se somada a população de municípios que compõem sua área metropolitana, chamada de Grande Teresina (Altos, Beneditinos, Coivaras, Curralinhos, Demerval Lobão, José de Freitas, Lagoa Alegre, Lagoa do Piauí, Miguel Leão, Monsenhor Gil e União, no Piauí, além de Timon no Maranhão), o total populacional da região é de 1,15 milhão de habitantes. É POSSÍVEL FRITAR OVO NO ASFALTO Na literatura científica não há registro de pesquisas a respeito. Porém, acredita-se que para fritar um ovo no asfalto é necessário que haja não só superaquecimento da superfície, mas também condições favoráveis relativas à umidade. Estima-se que para fritar um ovo no asfalto seja necessário alcançar cerca de 60 ºC. A umidade deve estar baixa, pois isso faz com que o calor emitido pelo asfalto não caia em função do vapor d'água da atmosfera. Fizemos o teste - sem validade científica. O local escolhido foi a Avenida Frei Serafim. Horário, “pingo” do meio-dia. Temperatura do asfalto superior a 50ºC. O ovo não fritou; esparramou-se no asfalto. Ficou, no máximo, um pochê muito mal acabado. POSSUI A MENOR AVENIDA DO MUNDO Um dos maiores mitos sobre Teresina é o de que a cidade possui a menor avenida do mundo. Ocupando apenas dois quarteirões e tendo aproximadamente 200 metros de extensão, a avenida Antonino Freire, cujo nome homenageia um dos nossos ex-governadores, é maior que a Avenida Luís Xavier, em Curitiba (PR), que possui 150 metros. Apesar de tão pequena, a Antonino Freire é presunçosa; é cortada por três das principais ruas do Centro da capital; liga dois dos pontos mais conhecidos da capital, a Igreja de São Benedito e a Praça Pedro II; além de servir de endereço para importantes edificações, como a sede do Governo do Estado, o Palácio de Karnak, o casarão do ex-governador Eurípedes de Aguiar, e a sede da Empresa de Correios e Telégrafos.

MAIOR BAIRRO DE TERESINA É O DIRCEU ARCOVERDE Mais que um mito, afirmar que o Dirceu Arcoverde é o maior e/ou o mais populoso bairro de Teresina é reflexo da terminologia adotada pela população local para denominar a região no entorno do bairro Itararé, na Zona Sudeste de Teresina, onde se localiza o conjunto habitacional Dirceu Arcoverde. Na década de 1970 iniciou-se um forte processo migratório do interior do estado para Teresina e os novos moradores eram ocuparam a região Sudeste da capital, ainda praticamente tomada por fazendas e estâncias rurais. Em 1977 e 1980 foram inaugurados os conjuntos habitacionais Dirceu Arcoverde I e II, que concentraram os moradores da região. Com mais de 200 mil habitantes, o Grande Dirceu surgiu da união de vários conjuntos habitacionais populares e é hoje a região mais populosa de Teresina. IMÓVEL DO LADO DA SOMBRA É MAIS CARO Em cidades que recebem intensa incidência de raios solares é comum que imóveis que passam maior parte do dia à sombra sejam mais valorizados. Em Teresina, por conta da ausência de um inverno bem caracterizado (o que torna a entrada de calor no imóvel uma desvantagem para alguns moradores), esse aspecto tem forte influencia em relação ao preço dos imóveis para compra e locação. Em anúncios do mercado imobiliário o fato de uma edificação se localizar na “face leste”, que recebe menor radiação solar (o chamado “sol da manhã”), é bem explorado. Em um condomínio de casas, por exemplo, isso pode levar uma determinada unidade a ser até 15% mais cara que outra. Em um prédio com apartamentos ou salas comerciais, esse up grade vale até para um imóvel que fique à sombra de outra unidade.

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CAPITAL MAIS QUENTE DO PAÍS Apesar de moradores e visitantes sofrerem com as altas temperaturas frequentes e da fama nacional alcançada por sua “quentura”, a cidade não é a mais quente do país em números absolutos. A maior temperatura registrada no Brasil se deu em Santa Catarina: 45°C na cidade de Orleans. E as capitais com maiores picos de valor de temperatura são Cuiabá e Rio de Janeiro, todas localizadas lá para as bandas do Sul do país. No Piauí, quando se fala em frequência de altas temperaturas, Teresina (ao lado de Paulistana, Bom Jesus, Floriano e Picos) detém mesmo as maiores médias, com termômetros marcando, em geral, índices na casa dos 39°C. Mas Bom Jesus é campeã no Estado: já registrou 44,7°C (em 21 de novembro de 2005). Uma coisa é certa: em Teresina, as temperaturas mínimas médias estão entre as mais altas do país. A menor temperatura mínima registrada na capital piauiense foi 17,6°C, em 28 de julho de 2011. A maior máxima, 40,8°C em novembro de 2005.


Paula Danielle saboreou e escreveu

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estúpida, exagerada, deliciosamente gelada

A primeira pessoa que comeu um caranguejo certamente estava com muita fome. O bichinho, além de pouco apetitoso, não é tão fácil de ser apreciado. Mas para quem gosta da iguaria, o “toc toc” dos pauzinhos acaba se transformando num ritual tão saboroso quanto à carninha difícil que ele fornece. Teresina não tem mangue, não produz caranguejo, não tem mar. Mas no Brasil, poucas, ou mesmo nenhuma cidade é tão apaixonada pelo crustáceo quanto a nossa. Criança, velhinho, patricinha, executivo. Todo mundo reserva um dia para comer caranguejo. Às vezes mais de um. Seja em casa ou em um dos centenas de bares que fornecem a delícia, seja no leite de coco, na cerveja ou apenas na água com limão e sal, comer “caranga” é tão teresinense quanto tomar cajuína . No alto dos seus 91 anos e com tarimbo suficiente para reconhecer o que de fato é a cara da cidade, seu Cornélio do Pão de Queijo poderia tranquilamente ser “Seu Cornélio do Caranguejo”. Dono da lanchonete Mary Lucy, que há mais de 40 anos funciona na Praça Pedro II, não titubeia quando perguntado qual a comida é tão boa quanto seu pãozinho. "Só o caranguejo!", diz enfático. E diz com propriedade. As cordas do bicho são obrigatórias nos seus passeios. “É bom demais”, fala enquanto divide as pernas e patas do bichinho com crianças com idade de serem seus bisnetos e tataranetos. Isabelli Brandão, de sete anos, é uma delas e tem dificuldade de falar enquanto come. Ninguém quer perder a batalha pelas maiores patas. “Eu já deixei de comer porque comia tanto que abusei. Mas já passou. Adoro demais”, ressalta. Na casa da advogada Nilsa Tajra, há dezessete anos a família se reúne em torno de uma caranguejada. “Todos os sábados é sagrado. Não é só pelo sabor, mas também pelo ritual. A carne é escassa, então ninguém fica com a sensação de cheio de imediato. Dá muito tempo para bater papo e degustar. Minha filha de seis anos sabe comer até a cabeça. Todos amam” declara-se.

Sacode, sacode até criar três centímetros de espuma. Alisa várias vezes o fundo da garrafa em círculos. Passa o velho abridor de ferro na bicha. Dá aquele soprinho pelo corpo da dita cuja. Não vale pegar no meio antes de abrir. Todo garçom que se em Teresina tem uma técnica para impedir que a cerveja congele na mesa. Sim, porque véu de noiva, boca de jumento, canela de pedreiro, suvaco de pinguim você encontra por aqui. A fama da cerveja mais gelada do Brasil não é à toa. Os nativos chiam sem cerimônia se a cerveja não vem de franzir a testa. Os de fora se surpreendem com o “estado” que a loira chega. “É impressionante. Todo mundo reconhece Teresina como a terra da cerveja mais gelada do país.”, revela o pernambucano Felipe Antunes. Há 40 anos com bar no Mercado Velho, seu Brasil tem sua técnica. “Tem que balançar até criar espuma. Isso impede o congelamento”. São muitas as explicações para a beleza da nossa cerveja. Uns dizem que o segredo é o armazenamento, outros que o calor não aceita nada menos que isso. O fato é que se você quiser tomar uma gelada ou espancar uma loira, é bem mais gostoso por aqui. Mas sempre, claro, com moderação.

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Vanessa Mendonça escreveu

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O medo de levar um belo “carão” quando eles estão por perto só não é maior que o carinho que a cidade tem por eles. Exigentes, responsáveis e muitas vezes intransigentes, construíram ao longo dos anos uma aura quase mítica de mau humor e admiração. Com personalidades tão famosas quanto o trabalho que desenvolvem, eles são a cara de Teresina, mesmo que ela não seja tão sorridente assim.

Trindade VTS – Vicente dos Santos

Um clube para poucos e bons. Boa comida: peixe frito sequinho, branquinho cozido, arroz soltinho. Cerveja geladíssima. Boa música também é bem-vinda. Ambiente que lembra o quintal da casa de parentes do interior. Assim é o ClubVTS, criado à imagem e semelhança do dono, o senhor Vicente Trindade dos Santos. Maranhense de nascimento, teresinense por querer. Apaixonado pelo calor da capital do Piauí. “Eu gosto é de ser do contra”, assume. A fama de “enjoado” é coisa dos invejosos. “De quem não tem capacidade para frequentar o lugar”, define Seu Vicente, que não aceita a pecha de “zangado”. Com fama de mal-humorado, ele diz ser seletivo. No VTS só entra quem já é conhecido ou chega em companhia de antigos frequentadores. Não há placas ou letreiros indicando o lugar nem anunciando suas delícias. “É uma forma de dar segurança aos meus clientes. Zelo por minha clientela”, conta. O clube, aliás, começou por causa de amizade. “Tive cálculo renal e só podia comer peixe e frango. Comecei a fazer peixe também para os amigos, como brinde. Depois o pessoal começou a frequentar mais; alguns comem, bebem, tocam. É isso”, define.


Padre Florêncio “Escreve-me as perguntas que te passo as respostas”. “O senhor me passa seu e-mail?”. “E-mail? Tá”. No cartão, nome, endereço, e-mail e skype (!). Florêncio Lecchi, padre jesuíta há 50 anos, é conectado às novas tecnologias. Religioso por vocação. Químico pela vontade de Deus. Franco, direto e com fama de zangado. Nascido em Bérgamo (Itália), até ser convidado a evangelizar em Teresina nem sabia que a cidade existia. “Em se tratando de Teresina (em italiano, diminutivo de Teresa), minha Santa preferida, não pensei duas vezes. Às ordens”, relata. Além de mentor religioso de várias gerações de teresinenses e não teresinenses, lecionou Química para milhares de pessoas. Já em seu primeiro ano, eram mais de cem alunos. A fama de mal-humorado o surpreende: “Nunca me achei mal-humorado! A não ser que por 'mal-humorado' entendam 'exigente'”. Para Florêncio Lecchi, exigência é cumprir a palavra. “E essa é a falta maior que encontro em quase todos os

37 teresinenses. E isso eu não aceito. Para mim, uma pessoa tanto vale quanto vale a sua palavra”, argumenta. O padre não tolera atrasos. “Quando tocava a campainha do Colégio, começava a aula. Isso foi duro de engolir. E fazia a chamada pelo nome e não pelo número, o que ele considerava uma vergonha”, conta. Também não aceitava cola em suas provas, especialmente por deixar os alunos a sós no momento dos testes: “Nota zero para colante e colado”. Em caso de “peraltices”, seus alunos só poderiam assistir à aula após recitar a “Canção do Tamoio”, de Gonçalves Dias, com seus 80 versos. Florêncio Lecchi é durão. Rígido em seus princípios. Mas sempre disposto a escutar e orientar. Temido, às vezes, mas, sobretudo, amado. “Gostei de THE porque foi o Senhor que me chamou à THE. E seria feliz de deixar meus ossos no 'Jardim da Ressurreição'. Gostei de THE pelo calor de seu clima (muito melhor que o frio no inverno da Europa) e pelo calor de seus habitantes. Quantos amigos entre os alunos e também não meus alunos... Graças a Deus”.


38 Nonato do Caneleiro Roqueiro com fama de mal-humorado há aos montes. Mas, o dono de bar onde só toca rock mais amado de Teresina é o Nonato do Caneleiro. Ou apenas Nato para os clientes mais assíduos. Não importa se haverá prejuízo, o que vale mesmo são as regras do proprietário. Mais de 20 integrantes da banda Calcinha Preta tiveram de se retirar do quiosque mais famoso da cidade porque queriam ouvir forró. Nem o time do coração, o Vasco, contou com complacência do hoje empresário (tem outro quiosque, dois pontos em um shopping e um bar nas proximidades da Universidade Federal do Piauí). No bar do Nato, só rock. “Essa fama de zangado é porque, no início, chegava no quiosque muito filhinho de papaizinho querendo colocar som de carro e isso eu não aceito. Às vezes, um chegava dizendo 'sou filho de fulano' e eu respondia 'e eu sou filho do Eneas Vaz lá de União'”, conta. “Gosto das coisas bem feitas. A maioria dos meus funcionários não gostava de mim, mas nunca me largaram”, acrescenta.

Nato é um zangado assumido. Mais que isso, mal-educado assumido. “Trabalhando o dia todo, não tinha como não ficar mal-humorado. Estou há 19 anos sem férias. Tiro um final de semana para ir ao interior da minha mãe ou a Luis Correia. Teresina é uma cidade muito boa para ganhar dinheiro, mas para quem quer trabalhar. Teve uma enchente que chegou até o quiosque, e me fez passar nove dias fechado. Foi difícil”, lembra o unionense. Com todas as suas regras, o quiosque do Nato é sucesso. “A clientela do quiosque é de rock e a turma do rock é fiel. Teresina não tinha um bar só com rock. Alguns colocam, mas chega um filho de papaizinho e troca a música; coisa que eu nunca fiz. Mau humor vai ter sempre. Mas me acho querido. Tenho muitos amigos, mesmo sendo mal-educado”, admite.


Cineas Santos

O dia de Cineas Santos começa quase sempre com o cantarolar da canção “Nada Além”. Para os que acreditam na fama de mal-humorado do professor isso pode parecer impossível. Mas para os que o conhecem de perto, a certeza é de que Cineas Santos não sabe o que quer dizer a expressão “fazer média”. É autêntico e sincero. “Não posso andar por aí com um sorriso escancarado para o mundo, com os dentes 'à fresca', como afirmava meu pai. Quando o assunto é sério, eu o trato com a necessária seriedade. Além disso, se eu gosto, digo; se não gosto digo, com todas as letras”, conta o professor, acrescentando não ter ressentimentos, inimigos ou razões para romper com o mundo. “Estou em paz”, complementa Cineas, que adora tirar sarro das pessoas mais próximas. O professor se define como honesto, generoso e franco. “Às vezes, minha franqueza gera incompreensões. Como penso com minha cabeça e falo o que quero, pago um preço por isso.

39 Quando arrogância e burrice se juntam, aí eu tenho dificuldade para me segurar. No mais, sou tratável, cordial e civilizado”, assegura. Natural de Caracol, Cineas Santos diz estar ligado a Teresina de tal forma que tem a impressão de ter nascido na cidade. “Moro e vivo em Teresina há 47 anos. Já não me lembro de ter vivido em outro lugar”, argumenta. E é tão teresinense que nunca passou mais de uma semana longe da capital piauiense. “Em Timon já me sinto um pouquinho estrangeiro. Sou o aldeão lírico da Chapada do Corisco. Teresina me basta”, brinca. A cidade e seu povo retribuem esse carinho. “Tenho a estima de algumas pessoas e o respeito de muitas. O que mais posso querer? Veja bem: não consigo me lembrar os nomes das ruas da cidade (sou péssimo nisso), mas sei onde mora, por exemplo, o Geraldo Brito, o Douglas Machado, o Gabriel Archanjo, o Josué Costa e todas as moças bonitas da cidade. Tenho o mapa afetivo da cidade gravado em mim, isso me basta”, conta.


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Zé de Mello

O nome oficial é Bar São Francisco. Mas, para os teresinenses, é Confraria do Zé de Mello. Um bar frequentado majoritariamente por homens, a maioria deles amigos uns dos outros. E todos submetidos às regras da casa. “Quem não se comporta, eu não aceito. Pode ser amigo do jeito que for”, conta Zé de Mello. Dono de bar há 35 anos, Zé de Mello é natural de São Miguel do Tapuio e mudou-se para Teresina para trabalhar. “Trabalhei em fazenda, com telha, tijolo, laranja. Até que coloquei o bar nesse ponto”, lembra. O ponto é o mesmo desde a fundação e a clientela é fiel. “Começou com amigos, que trouxeram seus amigos e filhos”, relata. O que para alguns é mal humor, para Zé de Mello é correção. “Eu não aceito coisas ruins. Qualquer coisa ruim. Sou de bem com a vida. Se a pessoa não se comportar, pode é ser meu amigo, eu mando embora. Se fizer coisa ruim comigo, fim de papo. Seja quem for”, diz, enfático.

E se um cliente for convidado a sair, não adianta voltar. É ignorado pelo proprietário. Na Confraria do Zé de Mello não vale “carteirada”. Saldo bancário também não tem valor. “Tem de respeitar o ambiente e acabou-se”, finaliza. Os frequentadores que se comportam são mais que clientes ou amigos, são defensores da “autenticidade” de Zé de Mello, que, mesmo tachado de “ignorante” por alguns, é muito querido e admirado.


Amariles Borba

Seja no ambiente de trabalho, em uma entrevista ou no cotidiano de sua vida pessoal, a médica pediatra Amariles Borba mantém seu estilo durão e veemente. O jeito sisudo às vezes espanta, mas a disponibilidade para orientar e ajudar fez com que ganhasse o coração dos teresinenses. “Muitas vezes, nem preciso falar. Minha fisionomia já diz tudo que está passando pela minha cabeça. Acho que essa fama de zangada é porque eu falo aquilo que acredito; não é da boca para fora. E seja no campo técnico, filosófico, do entendimento das coisas. Isso leva as pessoas a fazerem essa leitura”, diz. As “zangas” são sinceras, mas, segundo Amariles, fluidas. “São uma bolha de sabão, que explode na mesma hora. Eu faço um trabalho comigo mesma de não guardar rancor. Se eu estou em uma entrevista, uma palestra, coloco tudo de mim naquele momento. Quero que aquela palestra seja entendida e praticada em sua totalidade. Não me vejo sendo de outro jeito”, admite.

41 E o teresinense já aprendeu a lidar com o jeito Amariles Borba de ser. “Em tudo que faço, dou o melhor de mim. E quando as pessoas veem que estou fazendo o melhor, elas entendem. Sou dura, veemente, mas na hora que precisa estou ali para acolher, para ajudar”, argumenta a médica que coordena nove gerências municipais de saúde da capital e não tira férias há mais de 15 anos. “Vontade eu tenho, mas é tanta coisa para fazer, que não tenho coragem”, brinca. Florianense, Amariles Borba mora em Teresina desde julho de 1975. O motivo da mudança: trabalho. Foi convidada para coordenar o programa materno infantil da Secretaria Estadual de Saúde. “Gosto do traçado planejado de Teresina, com vias amplas. Gosto do seu povo e da maneira como fui recebida, também da sinceridade que o povo tem comigo”, define.


BENÍCIO BEM Como artista, ele nasceu dos cordéis e do rádio de sua infância; adolesceu em meio ao fricote (pai da axé music) e o forró dos anos 80; amadureceu nas festas de sua cidade natal, Piripiri, e hoje é garantia de alegria, bom humor e descontração nos bares e restaurantes de Teresina.

MARIA HILDA MONTEIRO O que seria das colunas sociais sem ela? Certamente perderiam em exuberância e charme. “Queridinha dos colunistas”, ela é presença certa nos eventos mais badalados. E também na TV, nos jornais, nos portais, nas revistas...

O REI DA COCADA “Quem não me conhece, não conhece Teresina.” José Carlos, 53 anos, não é modesto, mas tem razão. Há mais de 30 anos vende suas cocadas pelas ruas da cidade. Paraense, já trabalhou em vários estados e foi atraído pela fama de hospitaleira da cidade. Vendendo doces com sabores como “Sorriso”, “Amor” e “Alegria hoje trabalha para construir sua própria fábrica.

ROSANA DA ÓTICA (MISAEL BARROSO) Você está andando distraído e, de repente: - Óticaaaaaaa! Você se assusta. Com seu jeito, digamos, surpreendente, essa pessoa ganha a vida nas ruas do Centro da cidade distribuindo panfletos para tentar ajustar a sua vista.

TADEU FLAMENGO Pense num amor roxo por um time de futebol. Eita, deixa eu consertar... roxo não, rubro-negro. Coisa de casar, levar no sobrenome e colocar o sobrenome nos filhos. Há mais de 30 anos o vermelho e o preto são a armadura que cobrem o corpo desse torcedor fanático.

JOÃO CAMPELO DA SILVA (CABEÇA DE PATO) Se você quiser encontrá-lo basta ir ao Albertão ou Lindolfo Monteiro. A paixão pelo futebol lhe garantiu muitas emoções e um apelido que lhe deixa fulo da vida, dado pela torcida durante um jogo há dezenas de anos. A resposta é a mesma desde aquele tempo: “É a mãe!”


SAMDRADE (SAMUEL ANDRADE DA SILVA) O visual pode chocar, mas não faz mal; ele é elétrico mesmo. E eletrônico. Se você precisa de uma discotecagem, pode chamar. Do popchiclete da Madonna ao pioneiro eletro-brega do Raimundo Soldado, ele dá o tom (e performance) pelas festas mais descoladas de Teresina.

HE-MAN/LOURÃO DO KARNAK (FRANCISCO LOURO) Vá lá que ele não tem um Castelo de Grayskull, mas em compensação trabalha ao lado do Palácio de Karnak. Há mais de 20 anos ele usa a sua habilidade para salvar cadeiras de palhinha machucadas nas batalhas do dia-a-dia.

ELIVALDO BARBOSA Se você quer saber de algo de política, pergunte a ele. Esse jornalista está há quase três décadas na ativa e conhece como ninguém os políticos e as politicagens do Piauí. Nas coberturas e eventos decisivos ele está lá. Em carne, osso e em Tempo Real.

ED, DO BAR Há trinta anos o Ed Bar abre suas portas de domingo a domingo, feriado ou dia santo. Além da vista privilegiada para a Igreja São Benedito e Palácio de Karnak, o dono do estabelecimento, Edvaldo Brandão se orgulha da clientela que fez. Apesar da amizade, ele aprendeu a ter mão firme nos negócios “Fiado só para os maiores de 90 anos acompanhados dos pais!”.

IRMÃ JANAÍNA Ela está nos postes, nos muros, nos ônibus, nas calçadas, nas mãos habilidosas de jovens que pelo Centro vão oferecendo os seus serviços em panfletos. Marqueteira de mão cheia, Irmã Janaína é especialista em serviços espirituais. Joga cartas, búzios, põe tarô. Aprendeu tudo em Salvador, mas escolheu Teresina. “Aqui é diferente de tudo. O povo tem uma energia espiritual forte”.

MIGUEL DA ALEPI Poucas pessoas circulam livremente pelos bastidores da política local como Miguel Tapuã de Castro, ou simplesmente Miguel. De tanto frequentar as sessões dos poderes legislativos ou participar das principais cerimônias do Palácio de Karnak, ele se tornou conhecido pelos políticos mais influentes. “Sou mais conhecido que farinha, todo mundo fala comigo. E tira foto também”, diz.

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Thalita Paz, Isabel Cardoso e Glenda Uchôa garimparam

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Esportes, leitura, dança, filosofia, cultura, chazinho, política. São muitos os pretextos para os amigos se reconhecerem e criarem universos próprios de diversão, criação e de vida. Em todo lugar é assim, inclusive por aqui.


45 MOTO CLUBE A vida é uma autoestrada, já dizia um poeta-roqueiro. Ele bem poderia fazer uma canção que refletisse a paixão que move dezenas de teresinenses que se reúnem todas as quintas-feiras, depois das 20h, na Avenida Raul Lopes. Esse é o dia sagrado para o encontro dos motociclistas da cidade. É impossível não ouvir o barulho dos motores e o som das buzinas. Tudo começou em 2002, com o grupo "Caçadores do Asfalto". Dez anos depois já são treze grupos vivenciando o prazer do vento no rosto pelas estradas do Piauí. Em Teresina, eles combinam semanalmente um city tour, viagens a cidades próximas ou mesmo a outros Estados.


SAMBA NO CORETO O samba de raiz tem lugar cativo no coração de Teresina. Na primeira terça-feira de cada mês, os bambas da cidade se juntam na Praça Pedro II e realizam o “Samba no Coreto”. O evento surgiu há quatro anos, com a intenção de possibilitar o encontro dos sambistas e amantes do ritmo. João Batista, um dos organizadores, explica que a celebração é regada a muita música, alegria e reencontros. “Não falta cavaquinho, violão, surdo e empolgação. A intenção é fazer uma típica roda de samba, onde vários artistas podem se confraternizar e agradar o público”, ressalta.

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CLUBE DO CHAPÉU O chapéu é uma indumentária que pode demonstrar classe, proteger do sol e até ser sinônimo de jogada de futebol. Mas para um grupo de mulheres de Teresina – entre professoras, artistas plásticas, advogadas e empresárias – ele é mais que um acessório: é um aglutinador. Elas se encontram com o adorno na cabeça para conversar e discutir sobre cultura. O “Clube de Mulheres de Chapéu” geralmente se reúne no Museu do Piauí Casa de Odilon Nunes. “Temos chapéus de várias partes do Brasil e também do exterior. Quando alguém do clube viaja tem que trazer um chapéu para usar em Teresina”, diz Dora Medeiros.


PEDAL As ruas à noite, as trilhas verdes e desafiantes, bicicletas e equipamentos de segurança. Estes são os elementos necessários para que o grupo Pedal Noturno, criado há dez anos, faça do ciclismo a sua diversão pelas ruas e veredas da cidade. As reuniões e pedaladas acontecem durante as terças e quintasfeiras, em algum bairro da capital, e aos domingos, na zona rural. Para praticar o esporte com eles é fácil: basta ter uma bicicleta, os equipamentos de segurança e, no caso de menores de idade, a companhia de um responsável. Um ingrediente a mais é ter muita disposição e espírito aventureiro.

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CLUBINHO DE LEITURA Novidade, confusão e gritaria. Não, você não está numa festa moderninha. O clube da leitura do sábado movimenta crianças de até dez anos em torno de um prazer que dura para toda a vida: a leitura. Os pequenos já se conhecem e assim que chegam à livraria ocupam as cadeirinhas para começar os trabalhos. Primeiro eles são desafiados a fazer um bichinho de papel, uma pintura ou mesmo modelar em massinha um brinquedo. Depois, o momento é de ouvir a história da semana, tudo encenado com direito a cenário, fantasias e efeitos especiais. A historinha, que invariavelmente é encerrada com aplausos e gritos calorosos precede o fim da tarde, quando cada um escolhe um livro para começar a fantástica viagem pelo mundo das letras.

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CLUBE DO CHÁ Em Teresina, a bebida que remete à aristocracia inglesa também deu origem a uma tradição que vai completar meio século. Um grupo de amigas da sociedade teresinense fundou o Clube do Chá, que atualmente possui 30 associadas. As reuniões deste exclusivo grupo geralmente acontecem às quintas-feiras, na residência de uma das integrantes ou em restaurantes da cidade. Mas nem só de chá, boa comida e muita conversa vivem as senhoras: elas cumprem uma agenda de ações filantrópicas prédefinidas no início do ano. Como diriam os ingleses: “classy”.

CLUBE DE CORRIDA Em Teresina, correr pelas avenidas está se tornando algo “profissional”. Vários grupos de pessoas que se reúnem para praticar o esporte surgiram nos últimos meses, como o Ghepards. Fundado há um ano e com mais de 70 associados de todas as classes sociais, o grupo participa de todos os eventos estaduais e nacionais. O Ghepards surgiu com o objetivo de facilitar a vida dos que amam correr e buscavam mais técnica, segurança, hidratação e apoio recíproco. O grupo não tem fins lucrativos, se reúne semanalmente para definir uma agenda de treinos. Os corredores se ajudam, orientam uns aos outros e evoluem juntos com um objetivo comum: a saúde física e mental.

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SENADINHO Um grupo de amigos se reúne diariamente em um shopping da capital para falar de tudo que acontece na cidade. Desde 2001, muita conversa já rolou. A turma formada por jornalistas, empresários e políticos se aglutinava em conversas que podem durar horas e horas. Entre análises, pontos de vista, opiniões, por vezes discussões acaloradas, um gole e outro de café. Nos últimos meses, por razão da reforma do local, eles tiveram de migrar para a praça de alimentação. Mas o prato principal ainda continua o mesmo: a Política. E é por isso que este seleto grupo acabou ficando conhecido como o “Senadinho”.

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51 ESPORTES RADICAIS Velocidade e voos em cima do skate; atenção e equilíbrio no slackline; altura e coragem no rapel; escaladas, saltos e superação de barreiras no parkour. Definitivamente, esportes radicais não faltam, nem em variedade, nem em número de praticantes, em Teresina. Eles podem ser vistos nos quatro cantos da cidade e não têm medo de jogar as cordas e deslizar pelas pontes do Poti e do Parnaíba. Ou vencer os muros e obstáculos em saltos mortais. Driblar a gravidade em uma fita sob a sombra de duas árvores frondosas. Acelerar em rampas, corrimãos e degraus das praças. Tudo isso para mostrar que mesmo risonha e abraçada entre dois rios, a capital do Piauí gosta muito de sentir a adrenalina correndo nas veias.


POOL PARTY Champanhe, piscina e música eletrônica. Uma vez por mês, esses três elementos têm lugar garantido na Paradisco Pool Party, festa promovida por Felipe Fonseca, que trabalha com eventos há 12 anos e atrai um grupo seleto de pessoas que se reúne em um hotel de luxo da cidade. Sofisticada, a Paradisco atrai o público com maior poder aquisitivo de Teresina. “Em nossas festas, prezamos pela qualidade, não pela quantidade. Em média, cada edição tem cerca de 100 pessoas”, explica Felipe. O evento acontece aos sábados e oferece open bar aos frequentadores a um custo, digamos...nada doce.

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FORRÓ O forró é um dos ritmos mais populares em Teresina. Puxaram a sanfona, já tem algum casal mais animado indo para o salão. Seja dançando com giros quase impossíveis ou no estilo miudinho, bem arrochado; seja na zona Leste, Sudeste, Norte, Centro ou Sul; acompanhado com triângulo e zabumba do péde-serra ou guitarra, baixo e metais da vertente eletrônica, o forró tem seus apaixonados seguidores. A programação é vasta e lugar para dançar não falta. E para sair forrofiando não é preciso ter prática, tampouco habilidade. Mas se você for bom de matemática, ajuda: diminua o acanhamento, se assome mais um par, multiplique o aperto do abraço e divida esse prazer que o forró proporciona.

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HYPADOS Hypado. O termo ainda não está no Aurélio ou no Houaiss, mas a definição – que vem do inglês hyperbole que representa exagero e ajuda a enfatizar alguma coisa – foi abrasileirada como um assunto que está “dando o que falar” ou algo que todo mundo comenta. Em Teresina existe uma turma classificada como hype. Ela é formada por um grupo de pessoas que procuram trazer novidades para a cidade: festas diferentes, revistas, blogs, lojas, eventos, sempre com beleza. Os hypes estão sempre presentes nas redes sociais, dominam vários idiomas, estão sempre viajando e ligados à música, cultura, moda e arte. As conversas do grupo podem começar falando de política internacional, passando pelas novidades do universo digital e pelos “memes” criados em ferramentas como o twitter. Não sabe o que é “meme”? Então você ainda não é hype.


55 SOCIEDADE DOS POETAS POR VIR Ativistas Poéticos. Eles acreditam que a poesia pode ser usada como instrumento de intervenção social. Para isso, o grupo que forma a Sociedade dos Poetas Por Vir – idealizada há seis anos – realiza reuniões regadas a diálogos, debates e versos e rimas e estrofes. Mais de 150 integrantes compõem a Sociedade, que aglutina membros em mais 14 estados e está acessível universalmente através do blog homônimo na internet. Além da ocupação no ciberespaço, os poetas realizam sarais e intervenções urbanas, como a chamada "Gruda Poesia", que espalha poesias pelas ruas e ônibus da cidade.


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Clarissa Poty escreveu

Teresina calhou de nascer terra sem mar, mas se fez capital de dois rios. As águas doces do Poti e Parnaíba espalham-se pela cidade, criando bairros, lendas, formas, tradições, hábitos, letras e músicas. Influências que vão muito além dos limites das margens e contribuem para a definição do que é ser teresinense. Há quem aposte que, não fossem os rios, nem cidade haveria por essas bandas. Os leitos que atraíram o Conselheiro Saraiva para cá, há 160 anos, são pontos vitais em torno dos quais a cidade cresce e se transforma, mas sem jamais perder o vínculo com sua origem. As margens que antes pulsavam por causa do comércio e das embarcações ainda são apreciadas por milhares de teresinenses que, hoje, têm no rio mais próximo de casa a principal companhia para longas caminhadas ou corridas de fim de tarde. Quem não corre também prestigia a vista. E foi assim que as margens do Poti e Parnaíba se tornaram pontos de encontro, com seus bares, restaurantes e tira-gostos. Cria das águas, a piabinha é a rainha da mesa e está na memória gastronômica dos muitos que a consideram o par perfeito da cajuína. O rio que diverte também dá sustento aos pescadores, matéria prima aos ceramistas e inspiração aos artistas. Do Crispim da lenda, ao Lucínio de OG Rêgo, estórias e histórias começaram no Parnaíba, desaguaram no Poti. Diferentes olhares sobre o correr dos rios que ajudam a contar e a homenagear os 160 anos de Teresina.


Preciso urgentemente escrever um poema! Que os versos sejam vorazes, Lembrando do rio de minha cidade, Comendo as pedras no cais. Mas como escrevê-los? Como domar o rio de minha cidade À condição de poema? O rio de minha cidade não pede adjetivos, Principalmente recusa os que o tornam abstrato. O rio de minha cidade é um rio minguante, Porque aprisioná-lo no corpo de um poema? O rio de minha cidade guarda em suas entranhas O orgulho do homem sozinho. O rio de minha cidade é água viva na carne, Água pesada na memória. O rio de minha cidade é torto Como uma cicatriz. Fazê-lo reto seria contradizê-lo Vivê-lo, petrificá-lo nas retinas Esquecê-lo, jamais Preciso urgentemente escrever um poema! Paulo Machado Pedro dos Santos, morador solitário da ilha do rio Parnaíba. "Meu emprego sempre foi as águas, foi do rio que tirei o sustento para criar meus oito filhos. Sempre faço questão de lembrar que eles cresceram dos frutos que esse lugar deu para a gente".

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Thiago E. fez a bula

58 Mal tem pra fazer remédio. Talvez seja por isso que o teresinense ama, pede, faz poesia, mandinga e promessa.

pesquisas confirmam que chuva® se apresenta na forma de pequenos caroços d'água que demoram que só... pra cair por aqui (ou virar um toró). haveriam múltiplas aplicações para chuva® – porém existe o problema d'ela quase nunca aparecer, não podendo, assim, ser aplicada. sob esse céu-sol que sua nossa cidade, chuva® é um raro chiado, mas, quando chuvisca, bochicha e remexe a linguagem: pau d'água, pancada, ou procela varada, só com muita reza braba. seu joaquim, raimundim e seu vizim pedem um pouco de chuva® – acuda! mas veio foi um sereno e piorou o momento (repara o veneno): farelo d'água com sol de rachar faz é abafar; esquenta tudo e, mais ainda, a moleira que azucrina. estudos recentes atestam que chuva® é um cochicho – chiado baixinho, na boca do povo, talvez um boato que some de novo, um conceito empenado, bololô esculhambado, relaboque de desejos inventados: quem quer que chova está dentro de casa e não lavou roupa; quem não quer chuva® tem alguma mordomia ou resolve algo na rua. e, dependendo do que a pessoa está fazendo, ela muda o pensamento. neste entretanto de labacé e confusão, não há contraindicação: alguns fazem mandinga; outros passam os queixo, em teresina, dirdobrando – se não tem chuva® ou mar, vamos prum bar. ou vamos pra uma rede. de armador virtual brutal e total: no facebook compartilha-se a vontade por chuva®, até ciberprometendo pagar uma promessa, contudo, pós-moderna porque, o santo, depois a gente acerta; ou toda teresina trova no twitter toneladas da #chuvathe – entrando para o trending topics da tiração de "onda". quem faz roça clama chuva® pra tentar matar a saudade da fartura. diz-se, apenas por aqui, na capital do piauí, chuva® tem o princípio ativo mais charmoso disponível – o de antever o incrível, o sublime intransferível – olhar pro céu, esperançoso, e o poema de um verso só dizer: tá bonito pra chover. thiago e. poeta, músico, teresinense, gosta desse calor local mas defende a importância de se tomar chuva®


Terra Querida - The Amo  

Quinta edição da revista Terra Querida. Uma declaração de amor a Teresina

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