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VIVER DENTRO DA HISTÓRIA 02 MEMÓRIA PÓLVORA SANGUE 04 PERSONAGENS 06 DESGASTE EM LONGA DISTÂNCIA 12

S U M Á R I O NO IMAGINÁRIO POPULAR 14 ESPÍRITO DE FORÇA 18 A RENDIÇÃO DE UM VAIDOSO 24 ESTÁVAMOS TODOS LÁ 26


VIVER DENTRO DA HISTÓRIA


Não faz muito tempo. Mas, antes tarde do que nunca, o Brasil

buscava um rumo definitivo. Esta edição da Piauí Terra Querida

descobriu que em solo piauiense

leva nosso olhar para dentro da

aconteceu uma batalha que se

História. Mais especificamente, para

revelou decisiva para que o nosso

dentro da Batalha, permitindo que a

país fosse o que é hoje. Por conta

gente possa compreender o tamanho

dela, somos esta imensidão entre o

do desafio daquela gente que

Atlântico e os Andes.

clamava por liberdade. Certamente

Foi uma luta desigual, onde os

não é uma tarefa fácil. Mas o

piauienses estavam em desvantagem

resultado está aqui, como uma nova

em quase tudo. Sim, quase tudo,

contribuição no esforço para

porque havia algo insuperável no lado

compreendermos a luta e as

das nossas trincheiras: a vontade de

conseqüências da Batalha do

ser livre.

Jenipapo.

Passados 189 anos do embate às

Se a História nos ensina, viver

margens do riacho Jenipapo, em

dentro da História nos ensina muito

Campo Maior, continuamos nós

mais. E aí está esse “passeio” pelo

mesmos a descobrir aspectos novos

front, pelo tempo do confronto. Tudo

do confronto.

feito com leveza, mas também com

Nas revisitas que fazemos à Batalha do Jenipapo, as descobertas

rigor científico. Tomem cada texto e vivam aquele

se apresentam a cada dia. É curioso,

acontecimento por dentro. Mergulhem

por exemplo, descobrir como se vivia

nessa extraordinária História.

naquele tempo, o que se comia, como

Certamente, cada um de nós

se vestiam os soldados que deram

emergirá mais consciente do tamanho

combate às tropas de Fidié. Ou como

da importância daquela luta tão

os batalhões desbravavam as

marcante na trajetória de nosso país.

veredas da província que ainda Wilson Martins Governador do Piauí


VOCÊ SABIA QUE... ... 1822 foi um ano de seca e que os soldados caminhavam longas distâncias debaixo de sol escaldante, sem água e sem sombra?

Carlos Lustosa Filho escreveu

MEMÓRIA PÓLVORA Antonio Miranda de Sousa, 65 anos, a paixão pela história da

Batalha do Jenipapo tomou anos de pesquisa deste senhor que nunca frequentou um curso de História

SANGUE


A História tem seus heróis e seus vilões. Ela ajuda a alimentar o sentimento patriótico, cria mitos, pode transformar mentiras em verdades e fatos em engodos. Também ilumina episódios, ao mesmo tempo em que permite que outros se percam pelo esquecimento do tempo. Essa poderosa história é construída por pessoas, que contam e recontam a nossa passagem pelo mundo, formando, ainda que de forma imperfeita, a memória de um povo. Antonio Miranda de Sousa nunca pisou em um curso de História, o que não o impede de ajudar a reconstruir o passado. Aos 65 anos, ele é um apaixonado pela Batalha do Jenipapo, que já lhe tomou anos de pesquisa tentando juntar os resquícios da luta pela independência. Nascido em União, Antonio mudou-se ainda adolescente para Campo Maior. Seu caminho entrelaça-se com o percorrido pelos combatentes de séculos atrás. Foi por União que Fidié rumou até o Maranhão após a Batalha. Talvez um sinal de que Antonio dedicaria muito da sua vida a descobrir, por conta própria, o que aconteceu naqueles dias de guerra contra as tropas portuguesas. Conversou tanto e com tantos, que hoje seria capaz de escrever um livro sobre o conflito. "Eu cheguei aqui em Campo Maior

quando estava prestes a completar os 20 anos. Naquela época, o pessoal tinha medo de falar sobre a Batalha por causa dos poderosos. Eu comecei a me interessar só depois, porque sempre pensei que era história de trancoso. Desde então, eu perdia noites e noites procurando os mais velhos pedindo para eles me contarem o que sabiam", descreve. Miranda construiu a história através da memória de gente que, à época, já contava com mais de 80 anos, cujos avós haviam vivenciado os tempos de Batalha. "Eles me disseram que no dia 13 de março mesmo morreram umas 200 pessoas do lado do Brasil, mas que, ao longo dos meses que se seguiram, muitos morreram por causa dos ferimentos, já que não havia hospital e eles eram tratados com curandeiros, chá e raiz de pau", conta. Em seu cálculo, o pesquisador autodidata fala em mais de mil mortes, uma vez que "por dia, faleciam quatro, em média, em decorrência da Batalha". Ele também narra que a cidade de Boqueirão do Piauí teria germinado em decorrência desses óbitos. "Por todos os campos se encontravam pessoas que estavam feridas ou mortas. Onde hoje é a cidade de Boqueirão, havia um cemitério que começou porque um homem encontrou um dos que lutaram do lado do Brasil, ferido na mata. Esse

combatente morreu, mas pediu para ser enterrado ali mesmo e desde então a família daquele homem começou a cuidar da sepultura que depois virou cemitério. Eu conheci a dona Maria, que era neta dele e era quem tomava de conta do cemitério", narra. Quando ainda era recém-chegado a Campo Maior, Miranda diz que foi trabalhar no comércio onde conheceu outra mulher que o ajudou a iluminar o passado. "Ela se chamava Maria José Caldas e recebia do governo a pensão vitalícia do avô Cândido Caldas Guimarães, que morreu na Batalha. Como ela já era bem velhinha e não sabia o que fazer com os comprovantes, e eu como conhecia todo mundo por causa da mercearia, pediu que eu os guardasse. Quando ela morreu, uns parentes vieram me pedir e entreguei os documentos. Eu não devia ter feito isso porque eles eram muito importantes", lamenta. Se as histórias que o senhor Miranda possui são verdadeiras ou não, só o tempo e mais pesquisas poderão dizer. O fato é que na cabeça dos campomaiorenses ainda paira o mito e o mistério que envolve a Batalha que lhes deixou no peito uma cicatriz de terra, pólvora e sangue.


VOCÊ SABIA QUE... ... Para sair de Oeiras em direção à região Norte do Piauí, a tropa de Fidié atravessou o rio Canindé num local ainda hoje conhecido como Passagem de Dona Antônia?

João José da Cunha Fidié Major português foi nomeado Governador das Armas do Piauí com o objetivo de garantir a permanência da província como território de Portugal. Chegou a Campo Maior com um exército de quase dois mil homens e onze peças de artilharia, para enfrentar revoltosos armados de velhas espingardas, foices, facas e facões.


Simplício Dias da Silva Rico fazendeiro que dominou a vida política e econômica da Vila de São João da Parnaíba (Parnaíba). Partiu dele a primeira proclamação de Independência no Piauí. Refugiou-se no Ceará e depois retornou para a Batalha do Jenipapo.


Leonardo Castelo Branco Intelectual aliado de Simplício Dias da Silva proclamou a Independência de Piracuruca e reuniu tropas para lutar na Batalha do Jenipapo, em Campo Maior. Foi preso e levado para Lisboa. VOCÊ SABIA QUE... ... Leonardo Castelo Branco, que proclamou a independência de Piracuruca em 22 de janeiro de 1823, adotou o nome Leonardo de Nossa Senhora das Dores Carvalho Castelo Branco como pagamento de promessa feita quando se encontrava preso em Lisboa?


VOCÊ SABIA QUE... ... O major Manoel de Sousa Martins, morto na Batalha do Jenipapo, era casado com uma filha do brigadeiro Manoel de Sousa Martins, de quem foi, além de genro, sobrinho e filho adotivo?

Brigadeiro (Visconde da Parnaíba)

Proclamou a Independência do Piauí em Oeiras, assumiu o poder e governou por mais de vinte anos. Armou e enviou tropas para enfrentar Fidié e participou do cerco ao major português na cidade de Caxias, no Maranhão.


Flávio Meireles escreveu

DESGASTE EM LONGA DISTÂNCIA Entre os dias 13 de novembro de 1822 – quando João José da Cunha Fidié deixou Oeiras ao som de clarins e tambores com destino a Parnaíba – e 13 de março de 1823 – data em que o comandante português voltou em direção ao Sul do Piauí e enfrentou os resistentes piauienses em Campo Maior – os soldados a serviço de Portugal percorreram cerca de 900 quilômetros. Vencer uma distância tão grande em apenas quatro meses não foi uma tarefa fácil. Na tropa, apenas Fidié e poucos homens seguiam a cavalo. A maioria dos soldados percorreu o trajeto a pé. Muitos deles descalços.

Além disso, o Piauí vivia uma época de muita seca. Até encontrar pousada nas vilas de Campo Maior, Piracuruca e Parnaíba, eles percorriam entre 24 e 30 quilômetros diários nas veredas e caminhos acidentados do árido sertão piauiense. De acordo com o educador físico Júnior Britto, a conduta militar foi um dos fatores que garantiu a resistência aos defensores da Coroa Portuguesa até o conflito às margens do rio Jenipapo. “Esses homens passaram por treinamento militar, tinham noções básicas de sobrevivência e preparo físico. Eles também sabiam que, quando podiam, deviam se abastecer

o máximo possível”, argumenta o especialista em Fisiologia. Diversos historiadores registram que a tropa de Fidié muitas vezes chegava em propriedades rurais e matava reses e consumia a farinha ou o que quer que existisse no local, em geral abandonado pelos proprietários que fugiam ao saber da proximidade da campanha. O que os soldados ingeriam era, basicamente, carne bovina, farinha e rapadura. “A alimentação era perfeita: a carne bovina garante reservas de proteína, a farinha é uma grande fonte de carboidrato e a rapadura assegura as reservas de energia”,


comenta Júnior Britto. A comparação com atletas de alta performance é inevitável. “Competidores de marcha atlética treinam, em média, de 12 a 15 quilômetros por dia. Os atletas de fundo vão além: correm, em média, entre 20 e 40 quilômetros diários”, observa Júnior Britto.

Mesmo já tendo demonstrado pique para a andança, os soldados de Fidié ainda tiveram de mostrar fôlego extra para enfrentar as centenas de piauienses e o sol escaldante que ardeu das 9h às 14h, durante as cinco horas da Batalha do Jenipapo. Só não esperavam que encontrassem muito mais do que sertanejos

dispersos e sem conhecimento de combate. A surpresa da força dos inimigos, já acostumados com todo tipo de intempéries, preparados pelo trabalho árduo e dureza talhada pela defesa de um ideal, fez sucumbir a tropa de atletas.

VOCÊ SABIA QUE... ... Os soldados que seguiram Fidié em direção a Parnaíba usavam calças de algodão, e que a maioria deles andava descalço?


Carlos Lustosa Filho e Francisco Leal escreveram

NO IMAGINÁRIO POPULAR A equipe da Revista PIAUÍ TERRA QUERIDA percorreu todo o trecho por onde Fidié e sua tropa passaram quando saíram de Oeiras em direção a Parnaíba. Entre as duas cidades, ele esteve em Campo Maior e Piracuruca até chegar ao litoral. Fez o mesmo caminho de volta ao tentar retornar a Oeiras, mas acabou preso em Caxias, no Maranhão. Durante a viagem ouvimos depoimentos de pessoas de realidades distintas que contaram, ao seu modo, o que sabiam sobre a Batalha. Com desencontros, lendas e verdades, os habitantes das cidades que foram palco dessa História nos revelam como a memória oral da Batalha passou pelas gerações. A historiadora e professora da Universidade Estadual do Piauí, Iara Guerra, mestre em História do Brasil com uma dissertação sobre a Batalha do Jenipapo analisa as diferentes versões, esclarecendo o que ainda paira como dúvida para esses piauienses.


“A primeira manifestação de insatisfação pública contra o domínio português, em Oeiras, foi a Noite da Chibata. Piauienses encapuzados surraram de chicote os guardas portugueses que vigiavam a Casa da Pólvora” - Carlos Rubem Reis, do Instituto Histórico e Geográfico de Oeiras – Oeiras. Quando Fidié estava em Parnaíba, as forças brasileiras em Oeiras se uniram. Manuel de Sousa Martins (que viria se tornar o Visconde da Parnaíba e presidente da província) pretendia realizar um plano para tomar o governo. Um ponto primordial era a Casa da Pólvora. Durante a madrugada, os guardas foram presos e pela manhã, foi proclamada a Independência de Oeiras.

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VOCÊ SABIA QUE... ... O Maranhão proibiu a venda de farinha para Parnaíba depois que a vila declarou sua independência de Portugal?

“Não sei contar direito como foi a Batalha. Só sei que morreu muita gente” - Sandra Mateus, 25 anos, Técnica em Enfermagem – Parnaíba.

Não há um número correto. Alguns livros falam em mil mortos, outros citam mais, outros menos. Em sua obra, “VARIA FORTUNA DE UM SOLDADO PORTUGUEZ”,Fidié diz que foram mais de mil mortos do lado piauiense. Já historiadores do Piauí dizem que não foi uma carnificina. É um dos temas que não se tem consenso.


“Foi uma batalha entre portugueses e piauienses. Os cearenses também participaram”. Manoel Bezerra, 76 anos, aposentado – Parnaíba.

Os cearenses haviam proclamado independência antes do Piauí e propagavam as ideias de liberdade de Portugal por diversos meios, como panfletos. Eles vieram em grupo ajudar a emancipar a região do Piauí. Após a batalha as forças piauienses e cearenses foram atrás de Fidié em Caxias.

“Só sei que houve a Batalha e que Simplício Dias foi a Granja, no Ceará, em busca de reforço”. Edilson Magalhães, 68 anos, funcionário público – Parnaíba.

Simplício Dias foi a Granja como um recuo estratégico, porque não havia um movimento forte em Parnaíba. Havia o desejo de autonomia política e comercial entre os parnaibanos, então eles proclamaram a Independência. O grupo de Simplício Dias depois retornaria para dar frente às tropas de Fidié. “Quando a tropa de Fidié vinha no Buriti (Buriti dos Lopes), o povo de Parnaíba já ouvia o tropel dos cavalos. Pelo menos foi isso que ouvi de um professor em sala de aula” - Aurélio Amaro, 26 anos, policial – Parnaíba.

O caminho dos soldados foi muito longo. Os oficiais vinham a cavalo, mas o grosso da tropa andou a pé e isso retardou muito a viagem. Durante o percurso, quando chegava ao povoado, a tropa saqueava fazendas e havia violências sexuais contra as mulheres.


“O primeiro sangue brasileiro a ser derramado nas lutas pela Independência foi em Piracuruca, no dia 22 de janeiro de 1823. O dia 22 de janeiro deveria ser o Dia do Piauí”. Maria do Carmo Brito, pesquisadora – Piracuruca.

Não há registros oficiais desse episódio em Piracuruca. Mas é sabido que lá aconteceu combate entre piauienses e as tropas de Fidié. Não há dados sobre mortes em campo. É um caso que precisa ser mais aprofundado.

“O que meu pai contava era que Fidié queria passar em paz, mas o povo de Campo Maior tava zangado com ele e não quis o pedido de paz. O povo se levantou e saiu com facões e umas toras de pau para matar Fidié. Aí foi ele quem matou um bocado de gente. Não foi pior assim? Maria Eurídes, 80 anos, aposentada – Campo Maior.

Fidié saiu às pressas de Parnaíba para sufocar o movimento em Oeiras. Os piauienses sabiam que era preciso evitar que ele chegasse a Oeiras, por isso, eles bateram de frente.

“Meu avô contava que houve um tiroteio muito grande na beira do riacho, porque os portugueses queriam tomar nossas terras” – Raimundo Francisco de Oliveira, 74 anos, aposentado – Campo Maior.

O patriotismo foi um aspecto importante. Mas havia algo maior: os piauienses também foram para a luta porque queriam respeito. Alguns posseiros e vaqueiros trabalhavam para os fazendeiros, que os mandaram lutar. Muitos escravos também entraram na empreitada por isso. Há vários fatores, em sua maioria, interesses reais. Havia uma tensão entre portugueses e brasileiros porque os portugueses tinham mais vantagens políticas e sociais. O status era diferente dos mestiços, mulatos e caboclos, cuja maioria era analfabeta. Tal situação gerava revolta e animava a vontade de lutar.


VOCÊ SABIA QUE... ... A carne bovina salgada, farinha e rapadura formavam o prato da tropa de Fidié durante sua marcha de Oeiras para Parnaíba?

Igor Prado escreveu

ESTÁVAMOS TODOS LÁ


Sentado agora no monumento Heróis do Jenipapo, em Campo Maior, olho para as cruzes de madeira cravadas nos pequenos montes de pedras irregulares. Sem nomes, sem identificação, sem distinção. Será que morrer por uma causa é apenas isso? De qualquer forma, acho que já tenho o suficiente para fazer minha matéria. Agora só preciso chamar o fotógrafo e posso voltar para Teresina. Do alto do Monumento aos Heróis do Jenipapo, você sente fácil um calafrio estranho. Não de medo, mas da certeza de que você está sobre um chão em um ponto de curva na história do Piauí. Sem Batalha do Jenipapo não haveria a mim, nem a você, nem o que conhecemos hoje como nossa civilização. E nem mesmo o fotógrafo que veio comigo. Aliás, cadê ele? - Ô amigo, vambora? - Já finalizo. Só quero tentar pegar esse fundo... – meu amigo me responde enquanto eu bocejo e levanto da borda do Monumento. Cliques e cliques de sua máquina enquanto eu estico as costas e dou uma última olhada no cemitério dos heróis anônimos. Eu daria tudo pra ver seus rostos no momento mais importante de suas vidas, lá, 189 anos atrás.


Aproximo-me mais da ponta da rampa, e antes de raciocinar essa frase, piso em falso em um lodo qualquer, torço o pé e despenco. Entre a pancada seca da minha cabeça no chão, algo aconteceu. Acredite. Algo aconteceu. Caído, abro os olhos e quase cego com a luz de um sol escaldante. Um clique, dois cliques, uma explosão. Estou ficando completamente louco, ou acabei de ouvir uma máquina fotográfica disparando uma bala de canhão.

VOCÊ SABIA QUE... ... As mulheres piauienses mandavam maridos e filhos para a guerra e chegavam a vender joias para a compra de munição?


Três jovens pardos, descalços, usando calças surradas de algodão, com foices e facões, pulam sobre mim. Eu me ergo, e a cena é surreal. Pessoas correndo sob as pedras cortantes das margens do Rio Jenipapo são brutalmente fuziladas por um pelotão de batedores.


Levanto e me mando o mais rápido possível para a direção oposta ao confronto, até me dar conta de que não sei qual é ela. É o caos. Para todos os lados, homens com rifles e facas, espetos e toda sorte de arma improvisada para matar e morrer. - Vai lá e conta como foi.


Sinto um frio na espinha ao virar as costas e dar de cara com esse vaqueiro. Camisa manchada com sangue, escapulário saltando da camisa, facão em riste apontado paro o meu pescoço e as palavras saindo novamente da boca de poucos dentes. Conta que foi não só pela Independência. Diz que foi pela terra. Diz que foi pelas famílias. Diz que veio de dentro para fora e que na frente de uma baioneta, coragem e sangue nos olhos são tão fortes quanto uma carga de chumbo. Nunca deixe de defender as coisas que são sagradas para você. Ele se vira, corre, arremessa o facão que gira no ar e crava nas costas de um soldado português no mesmo instante em que ele, o vaqueiro, tomba com um tiro nas costas. Assustado como eu, apenas o senhor pomposo e careca sentado num cavalo negro ao fundo do exército português. Não tenho dúvidas, é o Fidié. Embasbacado e catatônico com aquele lutar, povo miserável e que não sabia lutar dando a vida por quase nada. Eram os dominadores, entendendo que entre o “quase” e o “nada”, pode existir todo o amor e o sentido da vida de um homem. Fecho os olhos. Abro. De volta. Sem soldados, mas novamente com as cruzes, de 1823, mas em 2012. Meu amigo fotógrafo está por perto. - Deve ter sido uma batalha louca, né? Que tipo de homens se lança numa luta que não pode vencer? - O melhor tipo, meu amigo. O melhor tipo.



Terra Querida - Luta