Um incansável CHARLES por Elton Amorim
Dentro do panorama de artistas e profissionais da indústria fonográfica, poucos têm preocupação em resgatar, escancarar e encarar a labuta de remasterizar trabalhos do passado – incluem-se aí também clipes, shows etc. Até mesmo os próprios donos desses trabalhos não ligam muito para isso, ou, se ligam, enfrentam restrições impostoas pelas gravadoras, que hoje detêm poder sobre as fitas master (muitas já em estado putrefato ou desaparecidas). Diante desta novela burocrática e deste “muito trabalho para não ganhar nada”, há uma pessoa que se destaca; um amante do vinil e da música: Charles Gavin. Ele, que é o baterista dos Titãs, é o responsável pela maioria dos relançamentos em compact disc de diversos e importantes discos do cenário nacional dos anos 50, 60, 70 e 80. Charles começou essa saga com a já rara edição da Série dois momentos (dois álbuns em um CD), trazendo à luz novamente discos de Walter Franco, A Barca do Sol, Novos Baianos, Belchior, Tom Zé, A Cor do Som, entre outros, há pouco mais de dez anos. Desta série foram quatorze CDs, totalizando vinte e oito álbuns. Após os relançamentos, o único que permanece em catálogo é Secos e Molhados: o primeiro e o segundo disco do grupo, em pouco mais de um ano de relançamento, atingiu a marca de quarenta mil cópias vendidas. A próxima tacada foi com Arquivos Warner (antiga Continental), relançando discos do Moto Perpétuo, Bixo da Seda, Rosinha de Valença, entre títulos do samba e da geração rock 80. Desta vez foram trinta e cinco álbuns. Relançou também Eu quero é botar meu bloco na rua, primeiro disco de Sérgio Sampaio, Som, sangue e raça, de Dom Salvador & Abolição, e Som nosso segundo disco do Som Nosso de Cada Dia em projetos com diversas gravadoras. A investida mais recente foi na gravadora que Gavin mais cobiçava, a Som Livre. Batizados como Som Livre Masters, os relançamentos comemoram os trinta e cinco anos da gravadora. Ele participou da remasterização de vinte e cinco álbuns na primeira leva. Entre eles destacam-se Acabou Chorare, dos Novos Baianos, (em primeira edição “decente”), ... E deixa o relógio andar de Osmar Milito, Vila Sésamo, Molhado de Suor e Vivo, de Alceu Valença, e o raro disco de Sidney Miller
Línguas de Fogo, de 1974. A lista inclui também discos de bossa-jazz dos selos RGE, Fermata e Som Maior, dos quais a Som Livre detém os direitos. Deste trabalho saiu ainda uma segunda leva de dezenove álbuns! No total geral de seus projetos, Gavin relançou mais de 450 discos. Ele, que possui um acervo de 5 mil LPs e dez mil CDs, lançou um livro, curiosamente nas mesmas dimensões da capa de um long play. Publicado no final de 2008, 300 discos importantes da música brasileira é recheado de textos, fotos e capas de discos, e contou com a colaboração de Tárik de Souza, Carlos Calado, Arthur Dapieve, entre outros. O livro faz um panorama fonográfico do país de 1929 a 2007. Já não bastasse tudo isso, Gavin também apresenta um programa na Rádio Eldorado FM e outro no Canal Brasil, respectivamente “Quintessência” e “O Som do Vinil”, ambos relacionados à música e suas raridades.
Matança de Porco , disco do Som Imaginário de 1973, e Confusão Urbana, Suburbana e Rural, de Paulo Moura, 1976, constam no livro “300 discos Importantes da Música Brasileira”. O disco de Paulo Moura tem como músicos acompanhantes Wagner Tiso, Nivaldo Ornellas, Toninho Horta e Jamil Joanes - nessa época os músicos ainda pensavam na carreira de grupo com o Som Imaginário.
São João Del-Rey na zona de
HERMETO PASCHOAL
por Rick Unha Preta
Rota traçada, destino Ouro Preto. Tentando chegar a tempo de ver algum show dos integrantes do que foi o Clube da Esquina, ou seja, Milton, Lô Borges, Beto Guedes. Havia ainda um boato no ar: diziam, e dizia o além, que o fechamento da maratona cultural de inverno das cidades mineiras teria encerramento com a junção dos integrantes da Esquina em um mesmo palco. No meio da estrada, depois de passar por Três Corações, terra do Rei Pelé, e São Thomé das Letras, terra de reis insandecidos, o que seria uma passagem rápida pela cidade de São João Del-Rey transformou-se em porto seguro. Surgiu a programação das próximas dos shows que aconteceriam na cidade. A saber, o Inverno Cultural de Minas Gerais abrange, além de São João e Ouro Preto, a cidade de Mariana e diversas outras cidades históricas da região. A surpresa não foi pouca ao saber que o velho bruxo Hermeto Paschoal fecharia o Festival no palco montado na
avenida principal da cidade. Pitoresca pareceu a escolha do jovem de 72 anos para tal tarefa. Apesar do renome e de sua incontestável musicalidade, sempre parece estranho um show experimental ser aberto aos mais variados públicos. Houve, ainda na terra de reis, a participação da Orquestra Popular Livre de São João (OPL) formada por jovens músicos dessa cidade mineira. Antes do show com Hermeto, a orquestra apresentou seu repertório popular sinfônico de clara influência miltoniana – as derivações só são possíveis pois Milton representa a música popular brasileira moderna. Se fôssemos mineiros, bateríamos o pé dizendo que essa é nossa maior estrela: a Rua da Zona, antigo reduto dos cabarés da cidade que tem se convertido em Zona da Música. Após o concerto sem palco e com duração de quinze minutos, desce pela glote uma aguardente original de Salinas para dar seqüência à descida em direção à avenida. Avistavase, em meio às ladeiras, outro ritual musical. Cinco minutos e qualquer apreensão quanto a receptividade do público frente aos experimentos sonoros de Hermeto rolaram pelas ladeiras.
Na maior parte do show, o maestro esteve acompanhado apenas de sua esposa. Improvisando e brincando, o bruxo agiu como se estivesse entre amigos: fez cantar e vibrar uma platéia que não sabia bem o que esperar da apresentação. Tocou piano, sanfona, água, elogiou a qualidade sonora do palco e fez vibrar desde conhecedores de música até desavisados que ali passavam. Cada fraseado vinha acompanhado por um pedido, o cantarolar da platéia distribuída em vielas, barracas, casas e bares. Como em um jogo, a dificuldade harmônica aumentava. Hermeto levou todos ao ápice ao fazer uma avenida cantar contra-tempos e nonas. Encerrou a apresentação com um emblemático desabafo: “Quem for rico e burro, que vá pro inferno!”. É realmente revigorante ver a juventude tão antiga e incólume debaixo de tantos cabelos brancos. Ao término da apresentação, Hermeto Paschoal ainda passou pela Rua da Zona, simples e acessível. Falaria com o Coletivo, mas eram tantas pessoas que queriam fotos, ou simplesmente tocá-lo, que essas impressões do acontecido tornaram-se mais apropriadas. Enquanto isso, alguns integrantes da OPL ainda improvisavam ao meio da massa que ali se concentrava. Ao inenarrável e inexistente show do Clube da Esquina, sobram desculpas. A convergência das iniciativas e acasos mais toda a complexa simplicidade daquele moleque baixinho de cabelos brancos é em demasia sedutora. E a zona rolou até de manhã.