LEITURA PÚBLICA, GRATUITA E DE QUALIDADE
SEJAMOS BEM-VINDOS: TUSP OFERECE
Teatro da USP exalta a qualidade pública da universidade, propõe extensão direta e atrai olhos para as virtudes da leitura por Lucas Rodrigues de Campos
PROGRAMA TUSP DE LEITURAS PÚBLICAS II CICLO PEÇAS DE UM ATO DE ANTON P. TCHÉKHOV 17/9 A 29/10, QUI., 16H SALA EXPERIMENTAL DO TUSP – TEATRO DA USP, R. MARIA ANTÔNIA, 294 – CONSOLAÇÃO TEL. 3255 7182 R.4, WWW.USP.BR/TUSP ATIVIDADE GRATUITA
“A cada leitura é proposta uma forma de intermastigando rosquinhas e polvilhos, produzia sonidos voluntários que demons-traram interesse prévio e constituíram o pretação. Como a gente se aproxima do texto captados por um microfone sobre a mesa. Assim to- grupo responsável pelas leituras das peças radiofônicas, tema de uma maneira nossa?”. Na quinta-feira (16) a dos foram responsáveis pela cama sonora da peça, do primeiro módulo do programa, que já trabalhou Becket, Breparticipação do público reunido na sala expericriando não apenas sonoplastia, mas dando concre- cht, e Adolf Himmel. tude ao único espaço sensívO fim de Vozes Familiares provoca morbidez e impede aplaumental do Teatro da USP (TUSP) “VOZ 2: - Querido. Onde você está? Por que nunca me es- el da leitura e da própria sos à experimentação. O falecido está na mesa, e prova estar morto - O-tacílio Alapara o Programa creve? Ninguém sabe do seu paradeiro. Ninguém sabe se está dramaturgia: a mesa. cran, o leitor da voz 3, Em Vozes Familiares três de Leituras Públi- vivo ou morto. Ninguém pode acha-lo. Você mudou seu nome? “VOZ 2: - Talvez eu devesse confirma a única certeza cas foi através /- Se você está vivo você é um monstro. No seu leito de morte são as personagens ativas: esquecer tudo que diz res- oferecida pelo drama da produção de seu pai te amaldiçoou. Ele me amaldiçoou também, para dizer filho (voz1), mãe (voz2) e favorecida ruídos em uma re- a verdade. Ele amaldiçoou todos que estavam à sua vista. Com pai (voz3). “Filho e mãe” peito a você. Talvez eu de- narrado, pela “adequação de esunião “familiar”, exceção de você que não estava à vista. Eu não te culpo inteira- estavam em uma espécie de vesse amaldiçoá-lo como pacialidades” que o deum café da tarde. mente pelo mau humor do seu pai, mas tua ausência e silêncio cochia na sala de experiforam um grade fardo, um desgosto para ele, ele morreu se mentação. Uma breve hoteu pai te amaldiçoou. Eu ixou na mesa, de corpo Orientadora de lamentando e blasfemando. Era isso que você queria? Agora menagem a Harold Pin-ter, arte dramática, rezo, eu rezo para que sua presente. estou sozinha, e se não fosse Millie, que algumas vezes vem de O morto é o pai da Dedé Pacheco faz Denver. Ela me serve de algum consolo. Seus olhos se enchem brindado à brasileira - ao vida seja um tormento, personagem voz 1, rapaz o segundo convite: de lágrima quando ela fala de você, os olhos da sua querida irmã invés de chá, café. Junto ao espero uma carta tua me na flor da juventude que “fiquem a von- se enchem de lágrimas. Ela fez um casamento realmente feliz brinde a voz 3, uma personimplorando para ir te en- afasta-se da mãe, pertade pra comer, e tem um garotinho lindo. Quando ele cescer vai querer saber agem falecida e ressentida, escrever, desen- onde está seu tio. O que lhe diremos?/- Que talvez você chegue sentimento comum à todas contrar. Eu cuspirei nela.” sonagem lida por quatro vozes distintas e de conhar”, sobre os pa- aqui em um carrão último tipo, um dia de repente, num futuro vozes familiares. strução arquetípica. A O programa TUSP de péis distribuídos a não tão distante, em um belo terno novo e um abraço?” multiplicidade da mãe leituras públicas carrega cada participante caráter experimental. Apesar de estar dentro de um cria uma súplica uníssona: “Volte para mim!”, “Eu estou doente!”. do encontro. Além da comida e dos papéis desteatro os textos são trabalhados sem levar em conta Aqui a exploração do texto, surgimento de estratégias e sugestões tinados à comentários, anotações e desenhos, aspectos estritamente estéticos, o que poderia enri- possíveis dentro da trama. A súplica identifica-se com o veículo racada um dos 14 lugares da mesa oferecia ao jecer um entendimento aberto sobre o Vozes Famili- diofônico e apro-xima os ouvintes do drama. A mãe em desespero convidado o essencial: uma edição de Vozes sente a fuga da cria Fami-liares, de Harold Pinter (com tradução de ares. Em estado bruto “Voz 1:-Mais tarde, naquela noite, Riley e eu tomamos juntos uma xícara de e a intensidade do Beto Marcondes), texto originalmente veiculado esse entendimento chocolate em seus aposentos. Eu gosto de rapazes esbeltos, Riley disse. Esamor passa a acirna BBC Londrina em janeiro de 1981. vai sendo lapidado beltos mas fortes, eu nunca fiz segredo disso, mas eu tive que me conter, rar os ânimos devCarregada de certo ineditismo, a seleção a partir de uma coeu tive que manter minhas inclinações sob rédeas curtas. Isto porque a ido à sensação de desta peça permitiu aos presentes o contato letânea de diferenminha mais profunda vocação é a religião, eu sempre fui um homem properda. com uma obra de difícil acesso, e somou-se a tes apreensões. A fundamente religioso. Você pode imaginar a tensão espiritual, emocional, A voz 1 instala-se um breve movimento do teatro paulistano: a criação do campo de psicológica e física. É sufocante a disciplina a que sou obrigado a me imnuma cidade disvalorização do dramaturgo Harold Pinter. Está leitura revela o “depor. Minha luxúria é inconcebivelmente violenta mas vai contra os meus tante e maior do em cartaz na cidade a peça Celebração com sejo de estar junto”, melhores anseios, que são me conservar ao lado direito de Deus. Eu sou que a de sua natalidireção de Antônio Abujamra (Teatro Cultura expressado pelo conum homem grande, como você vê, eu poderia emagar um ratinho como dade, que por conInglesa) e no início do ano a casa Club Noir senso dos presentes: você até a morte, eu quero dizer a morte que é amor, a morte que entenseqüência oferece apresentou ao público a primeira montagem de faz-se então a leitura do com sendo o amor. Eu escondo estes desejos a 7 chaves. Eu sou bom mais perigos, mais Pinter, O quarto. Três anos antes de sua morte, pública e a extensão nesse tipo de coisa porque eu sou policial. Eu sou muito respeitado. Eu sou balburdia. Relações em 2005, o autor foi prêmio Nobel, sendo lauuniversitária encurta muito respeitado tanto na corporação como na igreja. O único lugar aonde triviais traçam o coreado pela Academia Sueca com o veredicto: a distância entre cieu não sou respeitado é aqui. Eu sou um monte de merda para eles.(..)” tidiano a partir da “em suas obras revela o precipício que se esdadão e arte. Leitu( in )comunicabiliconde sob a conversa fiada diária e força sua ras Públicas nadam entrada no âmbito fechado da opressão”. contra uma maré que tolhe parte da natureza do dade da troca de cartas entre filho e mãe. As únicas localidades A idéia do café, “o chá das 16h”, surgiu “afihomem, a capacidade de ficcionar. do drama são uma casa e uma pensão. Simples na montagem nal o autor é inglês” e também constituiu o méNão há roteiro definido no encontro, e sim uma e na proposição do drama cotidiano nota-se no texto de Pinter todo de participação do público que, comendo, montagem informal entre os leitores - as falas são certa miséria na adequação dos sonhos aos espaços. batendo a xícara no pires, servindo-se de café, ensaiadas e preparadas em dois ensaios - no caso publicada também em http://www.usp.br/prc/caminhos