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A SIRENE

PARA NÃO ESQUECER

MARÇO DE 2016


EDITORIAL Desde o dia 05 de novembro de 2015, a inquietude se abateu em muitos brasileiros e os atingidos passaram a ser conhecidos no mundo inteiro. Várias formas de manifestações de apoio ocorreram, envolvendo pessoas de diferentes lugares e ideais. Aqui em Mariana não foi diferente. O grupo #UmMinutoDeSirene, formado por moradores da cidade e de Ouro Preto, realizou muitas ações em prol dos atingidos e questionando a tragédia. Nossa missão cidadã e voluntária é lutar pelos direitos dos atingidos à comunicação e à preservação da memórias das suas comunidades – umas, afetadas e outras, devastadas –, todas atingidas pelo rompimento da barragem de rejeito da Samarco/Vale/BHP. O jornal A Sirene surgiu de uma dessas ações de apoio do grupo #UmMinutoDeSirene. Não foi criado para julgar os responsáveis por este que já é o maior desastre socioambiental dos 516 anos de história do Brasil. Mesmo porque, ao entrevistarmos a própria imprensa na reportagem “Hoje o repórter sou eu”, aprendemos com o jornalista Daniel Camargos que os veículos de comunicação não devem exercer o papel que cabe à Justiça. Muito menos, o nosso grupo. Desde a tarde daquele 05 de novembro

de 2015, os moradores do Bento e de Paracatu, que viviam unidos em suas comunidades, passaram a sobreviver espalhados pelos hotéis, ruas e casas provisórias da sede de Mariana. Pedaço de terra que respeitam e sempre agradecerão pela acolhida e solidariedade, mas que não é a “comunidade unida” deles. Por isso, a luta não terminou. Queremos apoiar a voz deles pelo novo Bento; pela nova Paracatu; por Pedras, Ponte do Gama e Barra Longa livres da lama. Queremos todas as coisas simples do dia-a-dia deles, como mostramos aqui na reportagem “Sabores da memória”. Queremos dar voz ao direito dos atingidos de viverem unidos, da forma que sempre batalharam e construíram suas famílias. O jornal A Sirene chega à sua segunda edição também como uma “voz provisória”, assim como são apenas paliativos os ressarcimentos que a empresa tem oferecido aos atingidos para minimizar o prejuízo incalculável que foi causado. Inclusive, uma forma de tentarmos mostrar a nós, marianenses, que não se pode transformar o drama de todos – da sede e das comunidades atingidas - em preconceito, em ódio, descaso e egoísmo, como tem acontecido com frequência neste mês de março.

O direito dos atingidos de se comunicarem da maneira que bem entenderem é algo que precisa ser respeitado e não pode ser visto como um afronta à empresa, a Mariana e aos governantes, pois não foram os moradores do Bento e de Paracatu que no dia 05 de novembro romperam qualquer direito de outros cidadãos e de outras comunidades marianenses e da Bacia do Rio Doce. Sabemos que a empresa e os governos possuem centenas de jornalistas e milhares de recursos para publicidade, trabalhando a história pela visão deles. Aqui, são poucos voluntários e os próprios atingidos que se juntam para debater problemas e as possíveis soluções. São os atingidos que saem em campo para pesquisar, reescrever, fotografar e mostrar a história pelo olhar deles, pelas críticas deles, pelos segredos deles, pelos questionamentos deles e apontando as soluções que eles queremos para o rumo das vidas deles. Quando as empresas construíram a barragem, não foram os moradores do Bento e de Paracatu que decidiram como ela seria. Portanto, não é justo que a comunicação deles e a reconstrução da vida deles sejam decididas por outros que não eles mesmos. #UmMinutoDeSirene

EXPEDIENTE Realização: Atingidos pela rompimento da barragem de Fundão/mariana| Apoio: #UmminutodeSirene, Arquidiocese de mariana e iCSA/UFOP| Editor: Gustavo Nolasco | Repórteres: Adelaide dias, Ana Cristina maia, Ana Elisa Novais, Elias Souza, Fernanda

Tropia, Geralda Alves, Gladismar inácio, isabella Walter, Keila dos Santos, Kléverson Lima, Letícia Oliveira, Lucas de Godoy, Luiza Geoffroy, manoel marcos muniz, maria das Graças Quintão, maria do Carmo Consolação, marília mesquita, marinalva Salgado, marlene Agostinha, mauro marcos da Silva, milton Sena, mônica dos Santos, Neuza Santos, Rádio Brota (equipe), Rosângela Sobreira, Silvany diniz, Sônia dos Santos Souza, Stênio Lima e Viviane Novy moreira| Fotografia: Ana Elisa Novais, Bruno Arita, Cristiano Sales, Fábio Júlio, Jorge Lelis, Lucas de Godoy, Luiza Geoffroy, Stênio Lima e Thatyanna motta | Projeto Gráfico/Diagramação: Carlos Paranhos, marília mesquita e Silmara Filgueiras | Agradecimentos: Ahobeiro, Caburé, daniel Camargos, Guilherme meneguin, João Pinheiro (Circovolante), movimento dos Atingidos por Barragens – mAB, José Benedito donadon Leal, Padre Geraldo martins e Roberto Verona| Impressão: Sempre Editora e UFOP| Tiragem: 2.000 exemplares| Contato: umminutodesirene@ gmail.com / htpp://somos-bento.webnode.com


Belezas de Bento

POR ELIAS SOUZA COM O APOIO DA ANA CRISTINA MAIA, GLADISMAR INÁCIO, KLEVERSON LIMA E Lucas de Godoy

Nos locais esquecidos de Bento Rodrigues, encontra-se uma igreja abandonada entre o morro do Fraga (mina de Fábrica Nova) e uma fazenda no Ouro Fino. Ambas eram de propriedade do casal de fazendeiro Seu Georvazio e dona Olinda. Por eles não terem filhos, decidiram doar as propriedades para Arquidiocese de mariana. Em 1916, o terreno da fazenda foi cedido a um garimpeiro cujo o nome ninguém sabe. Ele cedeu a Carlos Pinto (engenheiro e professor da Escola de minas de Ouro Preto), que demarcou o terreno por inteiro como se fosse sua propriedade. Explorava as minas até encontrar o veio mais rico, pois era de seu interesse só descobrir as riquezas ali encontradas. O ouro encontrado naquela região era apurado, separado e beneficiado num engenho logo abaixo da ponte e do lado da fazenda do Ouro Fino. Segundo Seu Filomeno, ali tinham cinco minas, todas de extração de ouro, pois a região era muito rica em materiais metálicos como ouro, bauxita e minério de ferro. Quando Carlos Pinto paralisou a retirada de ouro das minas de Ouro Fino, em 1938, o terreno ficou abandonado. depois dele falecer, o seu neto chegou a vender as peças do engenho onde fazia a apuração de ouro e as peças da usina que gerava energia para fazer o beneficiamento dos materiais preciosos para um senhor da região de mariana. Cachoeiras ficaram escondidas no meio do mato, perto da fazenda do Ouro Fino e do antigo engenho. Hoje resta pouco do calçamento de pedra que era o primeiro acesso à comunidade de Bento Rodrigues. Nos séculos anteriores, esse calçamento era chamado de estrada de carro de boi. A fazenda e a igreja de pedra, que encontram-se em ruínas em meio ao mato, deveriam ser preservadas, pois são de séculos anteriores. Uma bela demonstração de que ali não só morou a gente, que fomos atingidos, mas também vários senhores donos de fazendas e seus escravos.

Foto: Cristiano Sales

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Agenda de março Por Maria das Graças Quintão, Mauro Lúcio Paes, Milton Sena e Mônica dos Santos Com apoio de Ana Cristina Maia, Bruno Arita, Letícia Oliveira e Lucas de Godoy

Manifestação em Barra Longa Conseguimos ampliar a concessão de cartões e o pagamento de valores de antecipação de algumas indenizações.

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Visita à Lavoura Acompanhamos o promotor e os peritos ao terreno onde provavelmente será o novo Bento. Foi uma manhã bastante proveitosa. Tinha equipe da Prefeitura, do SAAE, Secretaria de Obras, Meio Ambiente e cobertura da imprensa.

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Cobranças, atrasos, promessas e negativas Cobramos da empresa o início do pagamento das OTRs (Ocupação Trabalho e Renda) para as famílias que possuem mais de um contribuinte para a renda familiar. O compromisso de pagar um salário mínimo para cada contribuinte foi proposto pela própria empresa em janeiro, mas ainda não foi iniciado (a empresa se recusou a marcar um prazo para o início do pagamento). Cobramos da empresa o atraso no pagamento dos aluguéis de algumas casas (falaram em problema de documentação de alguns imóveis) e a montagem do escritório da comissão solicitada em reunião anterior (prometeram para o dia 08/03). Cobramos a marcação de um prazo para início das negociações com quem não quer ser reassentado nas novas comunidades e que indenização pelos prejuízos causados pelo rompimento da barragem (a empresa alegou que ainda não tem como marcar tal prazo, pois depende da finalização do acordo com a União). Reclamamos de problemas no funcionamento do cartão fornecido pela empresa, que não está permitindo saques.

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#UmMinutoDeSirene No dia que marcou o quarto mês da tragédia, fizemos uma chuva de poesia em Mariana, com parceria do poeta Guilherme Mansur, e soamos a sirene.

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A agenda é nossa Em reunião interna da Comissão dos Atingidos, confirmamos o calendário das reuniões gerais de cada comunidade atingida e comunicamos a nossa decisão ao Ministério Público, prefeitura e Samarco.

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Dia de Luta Manifestação paralisa operação da Vale no Dia Internacional da Mulher para denunciar a empresa pelo rompimento da barragem.

Decisão pelo novo Bento Em reunião, a empresa apresentou três opções de terreno para a construção do novo Bento. O terreno da Lavoura foi comemorado com gritos e aplaudido de pé, não deixando dúvida de onde queremos a reconstrução.

Foto: Divulgação MST

Reinauguração da fábrica de geleia da Associação de Hortigranjeiros de Bento Rodrigues Ainda não tem tudo que precisamos, mas é um recomeço e vamos tentar empregar mais gente do Bento.

Mais luta Saída da Caravana pela Bacia do Rio Doce de Mariana a Governador Valadares organizada pelo MAB e outros movimentos sociais. Reunião de Negociação dos atingidos de Barra Longa com a empresa e o Ministério Público Às 14:00 ahoras - Câmara Municipal de Barra Longa

Reunião do Grupo de Trabalho Temático da comunidade de Bento Rodrigues – 17h – Escritório dos Atingidos Reunião Pública das comunidades de Paracatu, Ponte do Gama, Pedras, Campinas e Camargos com a empresa e o Ministério Público – 18h - Centro de Convenções

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Reunião Grupo de Trabalho temático de ponte do Gama – 10h – Ponte do Gama

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Reunião Interna da Comissão dos Atingidos – 18h – Escritório dos Atingidos Reunião Grupo de Trabalho Temático de Paracatu – 19h – Escritório do Atingidos

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Reunião Interna da Comissão dos Atingidos – 18h – Escritório dos Atingidos Reunião Grupo de Trabalho Temático de Paracatu – 19h30 – Escritório do Atingidos

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Reunião de Negociação dos atingidos de Barra Longa com a empresa e o Ministério Público – 14h Câmara Municipal de Barra Longa

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Reunião do Grupo de Trabalho Temático da comunidade de Bento Rodrigues – 17h – Escritório dos Atingidos Reunião Pública Geral dos atingidos de Mariana com empresa e Ministério Público – 18h – Centro de Convenções A SIRENE

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A gente explica Preconceito: 1. falta de caráter 2.

Acordo: 1. pacto entre pessoas

História: 1. a lama levou 2. perdemos a nossa 3. minha infância e adolescência que passei no lugar que eu gostava 4. ficou tudo soterrado na lama 5. tudo referente ao passado.

pessoas xingando a gente na rua, falando que a empresa está acabando por nossa culpa 3. é o que estamos sofrendo todos os dias 4. tratamento utilizado por pessoas egoístas, sem sentimento, sem Deus, sem fé.

Arquitetura:

1. estudo, levantamentos feitos por arquitetos 2. projeto igual ao que era antes de toda essa tragédia 3. a reconstrução do jeito que era.

Indenização: 1. é um direito 2.

Processo:

Casa: 1. Moradia 2. local para

Lugar: 1. localidade 2. local para

Saudade: 1. sentimento 2. palavra

2. um que seja favorável a todos 3. teria que ser a opinião de todos os envolvidos 4. empresas sendo beneficiadas e vítimas excluídas 5. covardia 6. meio das empresas manipularem o destino de quem ela destruiu.

reparação de perdas 3. queremos uma justa 4. meio de pagar à pessoa o que foi retirado 5. a quantia justa pelo que perdemos.

1. tudo relacionado à justiça 2. queremos ter o melhor resultado possível 3. meio utilizado para atrasar nossa vida 4. temos que participar 5. uma coisa muito demorada.

chamarmos de lar 3. para morar com conforto 4. no mesmo modelo que era cada uma 5. minha, igualzinha a que era antes 6. um sonho cada vez mais distante.

vivermos, que seja tão bonito como era antes 3. a Lavoura para ser o novo Bento 4. ter o direi to de escolher 5.nosso novo destino.

que dói muito dentro do coração 3. é o que sentimos dos nossos animais, do que vivemos e construímos com o suor do nosso trabalho 4. do Bento, das cachoeiras, do campo de futebol, quadra 5. de uma vida 6. saudade de tudo.

Controle social: 1. demanda

Medo: 1. insegurança 2. de não

Território:

de apoio às comunidades 2. esperamos medidas que realmente atendam ao nosso interesse, sempre com a nossa participação e levando em conta nossas decisões.

Futuro: 1. à Deus pertence 2.

Amanhã 3. incerteza por ter perdido tudo e esperança de termos um novo lar 4. ter um bom emprego e morar na nossa vila 5. temos somente incertezas.

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ter mais um lar 3. de não ter paz 4. de perder meus amigos e familiares 5. de não conseguir ver o novo Bento 6. é o que temos para o futuro.

Patrimônio:

1. tudo que pertence às pessoas 2. perdemos bens materiais que lutamos para conseguir 3. nossas igrejas reconstruídas novamente 4. Igreja do Bento, que restou.

1. área delimitada 2. espaço que escolheram para o resto de nossa vida 3. espaço que pertence à gente.

Tradição:

1. toda história em comum 2. sonho 3. nossa comunidade, nossas festas 4. não queremos que ela mude.


Hoje o repórter sou eu!

Em quatro meses, respondemos milhares de perguntas para os jornalistas. Agora, resolvemos inverter os papéis. Entrevistamos a imprensa: o Daniel Camargos, do jornal Estado de Minas e o Roberto Verona, da Rádio Mariana. POR CLÁUDIA ALVES, ELIAS SOUZA, MARIA DAS GRAÇAS QUINTÃO E MARINALVA SALGADO COM O APOIO DA SILVANY DINIZ E DA THATYANNA MOTA

Como ficou sabendo do acontecido? Verona – Usei fontes dos rádios amadores. Eles conseguiam entrar na frequência dos Bombeiros, da polícia e da Defesa Civil. Foi aí que comecei a perceber o que estava acontecendo e que os boletins que eles soltavam eram diferentes do que as minhas fontes conseguiam pegar. Daniel - A gente não sabia se o pessoal tinha conseguido sair da escola (do Bento). Senti um desespero. Quando as informações chegaram, bateu um alívio. Foi o momento mais tenso que tive em 13 anos de profissão. Qual matéria mais te comoveu? Daniel – Foi o enterro do Thiago. A dor da Geovanna (mãe do Thiago). Quando ela postou as fotos dele no Facebook, eu estava no hotel Muller. Fiquei chorando no quarto. Verona – Foi quando as famílias voltaram ao Bento porque as vi procurando e garimpando os seus pertences. O que te deixou indignado e sem palavras? Daniel – As respostas lacônicas, a falta de compaixão dos presidentes das Samarco, Vale e BHP, que agora, estão preocupados em parcelar o valor da multa. O comportamento da presidente (Dilma), que não desceu aqui. O governador (Pimentel), que deu entrevista dentro da Samarco. O secretário de Meio Ambiente (Sávio Souza Cruz), que nem apareceu aqui. Isso tudo me indignou. Verona – “E ela (Dilma) fez a parada em

Roberto Verona (Esquerda) e Daniel Camargos (Direita).

Governador Valadares porque lá a Daniel – Respeito a opinião das pessoas, mas não conseguiria de prefeita era do PT, partido dela. forma alguma. Qual a sua conclusão sobre tudo O que acha de termos agora o isso? nosso jornal? Daniel – O papel do jornalista não é ter opinião. Não podemos assu- Verona – Bacana, fácil, tem uma mir o papel de juiz. Claro que te- linguagem gostosa de ler. Vocês nho a minha opinião, mas ela não têm de continuar. pode ir para o papel. O nosso tra- Daniel – Sensacional. É uma forbalho é contar as histórias. Não ma de ficarem unidos. Inclusive, pensem que fazer esse trabalho isso que estamos fazendo aqui é não é chato para a gente. Somos uma boa pauta. Vai sair no próximo? humanos também, a gente sofre. Se fosse um atingido que perdeu Vai sim, Daniel. A história do tudo, ainda participaria de uma dia que você e o Roberto foram passeata em favor da Samarco? entrevistados pelos atingidos já está aí. Obrigado! Verona – Não iria de jeito nenhum. Só iria pelo meu trabalho de cobrir. A SIRENE

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Sabores da Memória O almoço na roça sai cedo. É o arroz com feijão, quiabo, frango. Algumas vezes com tropeiro e salada fresquinha, direto da horta do quintal. Agora, a comida não falta, mas os sabores de cada momento, na minha casa, não voltam mais. Ali, os sabores eram únicos. Em meio a tanta saudade, o que eu quero de volta? Por João Gregório da Cruz, José Eurípedes de Souza, Kívia Pena, Maria Cornélia de Souza, Maria da Conceição Martins, Marlene Martins dos Reis, Mauro Lúcio Paes, Milton Sena, Sandra Quintão, Tereza Josefa Lino e Terezinha Quintão Com apoio de Ana Cristina Maia, Lucas de Godoy, Luiza Geoffroy, Kleverson Lima e Viviane Moreira

Esse negócio de rejeito é complicado. Só a manga sobreviveu. Não morre porque a casca é grossa. A de casca fina, foi tudo embora. Laranja... Você visse esse quintal aqui, ih, menina, como que era bonito. Banana igual tinha nesse quintal da prima… Isso aí tinha ameixa, jabuticaba, abacaxi. Ali tinha três poço. Tambaqui, piau, carpa, tilápia. No Natal, a gente ia assar um peixe. Hum. Assou? Foi tudo embora, teve peixe não. Se quiser tem que comprar pra comer. Seu João (de Pedras)

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Dois pés de jabuticaba. 42 anos. Eu que plantei tudo ali. Se agradava, gente dava pra eles.

Sinto falta de tudo. Estava conservando umas beterrabas, umas cenouras, porque vinha o Natal né? Eu queria plantar, Sabia que era uma coisa sadia. Dona Bilica (de Pedras) A galinhada e o feijão português. Feijão vermelho não leva porco, só carne de boi e linguiça. Minha irmã Terezinha que fazia, mas foi Maria que ensinou. Teve uma vez numa virada de ano diferente. Mesa na rua: dona Ducha traz o macarrão, dona Cema traz o que puder trazer. Cada um traz prato de casa. peço muito a Deus pra ter isso de volta. Sandra Quintão (do Bento)


Pepino tinha quase direto lá na horta. Agora quando tem, tem que comprar. Faz muita falta o pepino, pra quem tem pressão alta. Seu José Eurídice (de Pedras) Almoço Na cozinha comunitária. Cuscuz, tem de tudo Linguiça, parece tropeiro. A Conceição faz, a dona Geralda faz. Macarrão com urucum, o jeito é diferente. Se vier quatrocentas, comem quatrocentas de graça. Reunião, marco na dona Terezinha. Lá tem queijo e broinha. Nu! comi frango caipira até virar o olho! Mas isso daí acabou tem tempo. Nunca mais teve. Não tem mais a cozinha, desde de novembro que já não reúne o pessoal mais. Milton Sena ( de Ponte do Gama) A comida eu deixo pronta. Quem aparece vai comer. Com esse pessoal da Samarco, agora passa muita gente aqui. Sempre tem uma merenda em benefício de quem passa. Tô fazendo essa brevidade pro Rodolfo, que teve aqui sexta-feira. Comeu a brevidade e gostou muito. Falou pra eu fazer pra ele levar hoje de tarde. Terezinha Lino (de Ponte do Gama) Frango com quiabo, lembro do meu pai. Latinha de Skol. No Natal, doce de figo de arroz e de pão. A gente fazia

todo dia 24, minha mãe falava: a casa precisa ter cheiro de doce. Terezinha Quintão (do Bento) Cavalgada, 100, 200 pessoas, era almoço de graça. Muita feijoada panelões da Dona Geralda. Fartura. Tinha uma horta maravilhosa, sem agrotóxicos. A gente não comprava nada. Tomate tão doce... como o que eu colhi lá. Figo? A gente fazia doce todo ano. Manga, geleia goiabada, compota em calda. polpa a época da fruta. Batia, congelava em saquinhos de chup chup. Mauro e Kivia (de Ponte do Gama) Cebolinha pra fazer com angu, assim frito. Mandioca cozida, frita com ovo. O cuscuz. Minha mãe ensinou. Ralava mandioca, misturava no fubá, rapava rapadura, o queijo. Fazia broa, angu doce, rosquinha, tudo fazia. Dona Conceição (de Pedras) Lobrobô com costelinha de porco. Aqui em Mariana não tem não vejo nem pra comprar. O franguinho galinhada, um bambá. Mas só mãe que sabe fazer. Marlene (de Pedras)

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A união faz a geleia São sete mulheres e três homens. Mas não tem chefe. Todo mundo ajuda todo mundo. Todo mundo faz um pouquinho de cada coisa. Da capina a se inscrever em editais. Sempre com muita luta. Desde o começo, em 2002. Prestes a recomeçar o trabalho: uma fábrica de lutas e de geleias.

POR MARINALVA SALGADO, NEUZA SANTOS, KEILA FIALHO E SÔNIA SANTOS COM APOIO DA ANA ELISA NOVAES, Jorge Lelis e SILVANY DINIZ

“Começou em 2002 com a Paula, sô Antônio e sô Raimundo. Para vender verduras. Mas depois do prédio pronto, o dono do terreno pediu o terreno. A associação parou”, Keila

“Entrei em 2007. Morava em Camargos e fazia faxina. Sabia que tinha muito serviço e pouquíssima renda. Mas eu queria trabalhar”, Sônia

“Meu cunhado doou um terreno pra gente trabalhar. Eu não queria deixar a associação morrer”, Neuza

“Tinha vez que a gente não tinha um centavo, mas ali, esforçando, quando a gente vendia, corria para pagar uma conta”, Marinalva

“Em 2006, reativamos. A Emater sugeriu pimenta biquinho. Teve muita sobra e aí veio a ideia da geleia”, Keila “Fiquei viúva e elas me chamaram. No tempo que estava ali, esquecia muitas coisas da vida”, Marinalva

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“A gente fazia tudo: quebrava piso, furava buraco, enchia caminhão de esterco, capinamos, trabalhamos com serragens, plantamos, era muito suado. Mas nunca deixamos a associação morrer”, Rosângela

“Fomos para as feiras. A produção cresceu e tinha de adequar o prédio para ganhar o certificado da Anvisa”, Keila “Era caro. Fomos para um edital com mais de 5 mil concorrentes. Vencemos”, Keila “Já nos roubaram, já passamos por duas enchentes (água despejada do complexo de barragens) que destruíram nossa plantação de pimenta, mas nunca desistimos”, Sônia “A última pintura do galpão foi feita dois meses antes do desastre”, Keila


“Nosso prédio estava maravilhoso. Até a papelada foi perdida na lama”, Marinalva “A gente saiu correndo sem nada, com a roupa do corpo. Ainda bem que estamos vivos para recomeçar”, Rosângela “Aqui é provisório, não tem depósito para separar cada coisa, não temos lugar pra trocar de roupa. E deixamos de vender também, porque não tinha como produzir. Mas a nossa protetora, Nossa Senhora Aparecida, já está lá na cozinha para nos proteger. Agora vamos recomeçar”, Marinalva “Temos que continuar a sonhar. Quem sabe empregar mais pessoas. A gente quer crescer”, Marinalva “Queremos a sede da Associação no novo Bento do jeitinho que ela era, nada mais. Com o espaço para plantar, para processar a pimenta e para produzir a geleia. Vamos continuar a lutar”, Rosângela “Falaram que a gente ia a uma feira na Alemanha, mas com a tragédia não falam mais. Quem sabe ainda não vamos, né?”, Marinalva

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Sobre Pontes e Pedras Mariana é um lugar que cabe vários lugares. Em Mariana cabe Ponte do Gama e Pedras. Nos subdistritos, a lama passou mesmo sem caber. E por não caber, destruiu. Por moradores de Ponte do Gama e Pedras Com apoio de Ana Cristina Maia, Lucas de Godoy, Luiza Geofrey, Marília Mesquita e Milton Sena

A criação vem pra cá e atola tudo no barro. Semana passada uma vaca minha atolou e teve que tirar também.”

Maria José Carneiro, Ponte do Gama

Vou falar o que eu lembrar. Tinha pêssego, laranja, limão, goiaba, manga, abacate, banana e abacaxi. De tudo tinha plantado. Agora tenho que comprar.” Maria Cornélia de Souza, Pedras

Estou recebendo silagem pras vacas, mas tive que vender seis. A silagem é pouca. Antes eu tirava 50 litros de leite, agora, 20 e poucos.” João Gregório da Cruz, Pedras

O nosso Gama é muito mais que uma praça, é uma infância minha, assim como a do meu pai, a dos meus irmãos. O Gama não tem explicação, só se explica com a palavra amor.” Madalena das Dores dos Santos, Ponte do Gama

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O pior já passou? A lama passou. A comoção passou. A imprensa passou. O tempo passou. O Bento não tem mais. A comunidade reunida não tem mais. A alegria de viver juntinho não tem mais. O que tem – e não tinha – são as pessoas se adoecendo por causa de um trauma tão grande.

Isso passa na cabeça de quem diz que “o pior já passou”?

dona marcelina tem 76 anos. Uma guerreira como tantas outras pessoas. deparou-se com a lama na porta da cozinha de sua casa. Viu-se obrigada a se jogar na lama e a se agarrar em um pé de abacate para se salvar. Religiosa como ela é, se apegou em Nossa Senhora Aparecida e São Bento. Foi resgatada por moradores da comunidade. Teve fratura no fêmur e hoje, quatro meses após a tragédia, está se recuperando muito bem. Já está andando. E desde sempre, otimista e com o sorriso no rosto.

maria da Penha e eu éramos vizinhas no Bento. Em setembro do ano passado, ela teve uma queda e quebrou o fêmur. Ela estava se recuperando muito bem, mas com o rompimento da barragem, está muito fragilizada. Em uma visita à casa que está morando em mariana, relembramos momentos que passamos no Bento. Um deles foi quando, num certo dia, ela me chamou em sua casa pra comer carne de paca. depois que comi muito, o marido dela e ela me perguntaram o que eu havia comido. - Uai, a senhora me disse que era carne de paca. - Não, mônica. Você acaba de comer carne de gambá. Eu fiz muito vômito, mas confesso que a carne estava uma delícia. Relembrando pra ela essa história, consegui arrancar um sorriso do rosto de dona maria. Por instantes, esquecemos o sofrimento que estamos passando.

Por: Mônica dos Santos Com o apoio da Cláudia Alves, Marília Mesquita, Rafael Drumond, Silvany Diniz e Stênio Lima

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A mulher além do campo Por Alenir Maria Alves, Alexsandra Silva, Efigênia Benta, Joyce Carneiro MARIANNE CAMPIDELLE E Mônica dos Santos Com apoio de Adelaide Dias, Fernanda Tropia, Isabella Walter, Rádio Brota (equipe), Stênio Lima

A ESPORTISTA “praticamente todas as meninas jogavam junto com os homens. Se falavam que eu não ia jogar dentro da quadra, eu brigava. Os homens não deveriam ficar descriminando, falando que mulher é fraca, porque não é. A mulher tem mais força que o homem, em certo tipo de coisa. Vai ter um filho, passa dor. Mulher passa dor pra tudo. Pra mulher é tudo mais difícil, mas não pode desistir. Se ela quer fazer, faça.” Joyce Caroline, 19 anos, secretária do escritório da comissão, atingida de Paracatu. A EMPREENDEDORA “As mulheres do Bento são todas batalhadoras. Sacolão, tinha de sair e vir comprar aqui em Mariana. Então, eu abri. Era corrido, mas lá todo mundo dava apoio. Meu filho de 16 anos me ajudava sempre! Não temos que nos sentir menos que os homens. Temos de lutar por aquilo que queremos e em momento nenhum nos diminuirmos.” Alexsandra, 36 anos, proprietária de um sacolão, atingida do Bento. A JORNALISTA “25 anos de Bento, não queria ter vindo para cá, não gosto de Mariana. Podia ter cinco homens na roda, eu estava no meio. Minha mãe falava que eu era Maria Macho. Não era papo besta de homem machista, era um papo bom. Eu queria fazer jornalismo, só que agora vai ser mais difícil. Qualquer notícia que tinha lá, eu era a primeira saber. Meu colega falava: você tem de ser jornalista porque tudo que tem aqui, você dá notícia. Emprego está difícil. Tudo hoje pede seis meses de experiência, mas se não derem oportunidade para a gente, como vamos ter experiência?” Marianne Campidelle Silva, 25 anos, auxiliar administrativa, atingida do Bento.

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A MATRIARCA “Toda vida morei na roça, nunca gostei da cidade. Tive todos os meus filhos em casa, nunca fui ao hospital. Nunca tive problema. Eu dançava no resguardo. Criar filho na roça era com muita dificuldade. Tinha que trabalhar na roça, roçando, capinado, plantando. Quando meus filhos estavam solteiros, ficava tudo perto de mim. Nunca me largaram. Criei todos eles sem discussão um com o outro. Adoro meus filhos. Tenho ciúme deles. Hoje, sinto falta da minha cama. Perdi todas as camas.” Dona Efigênia Benta, 88 anos, mãe de 12 filhos, atingida de Paracatu. A ATIVISTA “Minha avó era guerreira. Ela perdeu a mãe muito nova. Meu bisavô que a criou com outra mulher. Ela trabalhava em carvoaria na época que meu avô trabalhava em garimpo. Ela passou muita coisa ruim. Mas em momento algum ela perdeu a fé. Teve sete filhas e um homem. De netos, somos a maioria. De bisneto, agora tá empatado: metade-metade. Já eu perdi meu pai, eu tinha sete anos. Minha mãe criou sozinha eu e mais três. Já eu passo muita confiança, mas pra mim eu não passo. Passo pras pessoas. Até o ultimo minuto, enquanto tiver força, eu vou lutar pelo novo Bento.” Mônica do Santos, 30 anos, ativista pelos direitos das comunidades, atingida do Bento. A ARTISTA “Aprendi quando estava grávida do meu menino que hoje tem 22 anos. Bordo, faço crochê, vagonite, renda, fuxico, esses tapetes de amarrar. Fazia naquele saco de farelo, agora tem a tela. Enquanto não ficasse pronto, eu não almoçava. Tinha a máquina no Bento. Isso é um vício, entendeu?! O dia que não pego, passo mal.” Alenir Maria Alves, 38 anos, artista do bordado, atingida do Bento.


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O direito de entender POR MARIA DO CARMO DA CONSOLAÇÃO (CARMINHA), MANOEL MARCOS MUNIZ, MAURO MARCOS DA SILVA E MÔNICA DOS SANTOS COM APOIO DA ANA ELISA NOVAIS, LETÍCIA OLIVEIRA E DO PROMOTOR GUILHERME MENEGHIN

Quem pode ser considerado atingido? A pessoa (física ou jurídica) com qualquer prejuízo material ou moral. Seja moradia, renda, a sua vida comunitária, parte de um terreno, sua produção etc. As crianças que ficaram sem aula vários dias por conta da inexistência do acesso às comunidades são atingidas. É direito delas uma indenização por dano moral por conta disso. A Associação de Águas Claras, que dependia dos produtores de leite dos distritos atingidos. São todos atingidos. E quem ainda não foi contemplado deve ir até o escritório das comissões (rua Bom Jesus), às segundas-feiras, às 18h e pedir aos membros que façam o requerimento para sua inclusão. Também pode formular diretamente o pedido no escritório da Samarco, na mesma rua. Até quando teremos direito ao cartão? Se arrumar um emprego, eu perco? A verba de manutenção ficou fixada inicialmente em um salário mínimo por pessoa mais 20% para cada dependente, pelo prazo de um ano. Este valor será pago independente da pessoa recuperar renda ou não, independente de arrumar um emprego ou não. No novo Bento, quais os meus direitos? É seu direito ter tudo que tinha antes, igual ou melhor. Casas, terrenos, horta, comércio. Tudo com uma indenização por dano moral e correção monetária. E certas características precisam ser respeitadas. Por exemplo, a telha colonial que tinha na maioria das casas. Ela fazia parte da identidade do lugar e é direito ser mantida no novo Bento. Para garantir esses direitos é muito importante que participem de todo o processo de reconstrução. A carteira do meu marido foi embora com a lama. Como ele vai se aposentar? Se a empresa contabilizou tudo corretamente, ele recupera essas informações no INSS, pedindo a relação de todas as contribuições. Se estiver faltando alguma empresa, ele deve procurá-la e pedir as informações. Se for firma de fora, ou se não existir mais, é preciso procurar testemunhas e outras formas de provar este trabalho. É mais demorado, mas não é uma situação tão preocupante. O Ministério Público pode tentar uma ação conjunta nesses casos. Tinha um veículo, mas não tinha documentação em meu nome. Se você tem todos os documentos, a empresa tem que indenizar com juros e correção monetária contados a partir de 5 de novembro, o mais rápido possível. Isso serve para todos os casos. Mas se não há documentação ou se o veículo foi melhorado e não corresponde ao valor de tabela, é preciso juntar informações (fotos, testemunhas, recibos) para uma ação junto à empresa. Qualquer bloquinho de anotações serve como documento para provar que você é o dono.

Jornal A Sirene - Ed. 1 (março)  
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