

No improviso do jazz

FIM DE SEMANA, 4



Comportamento
Jazz: aprecie sem moderação
Ritmo que ganha evidência com o filme La La Land, sobrevive ao tempo com a expansão a outros estilos e gêneros musicais
Desde o primeiro filme sonoro, O Cantor de Jazz (1927), o ritmo criado em Nova Orleans ocupa o papel de protagonista em Hollywood. O favorito ao Oscar 2017, La La Land, repete a fórmula de sucesso dos clássicos. No casamento entre trilha sonora e enredo, o jovem diretor Damien Chazelle faz o espectador levitar.
Um piano delirante dita o movimento da história. Sebastian (Ryan Gosling), um músico desapontado, quer resgatar a essência do jazz. No meio do caminho, apaixona-se por uma atriz (Emma Stone). Toda magia das canções funciona como
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catalisador para que o casal siga em frente, mesmo diante dos fracassos.
Para o crítico e jornalista especializado, Walter Ferreira, a obra tem uma semelhança com Chicago (2002). “A trilha de La La Land, porém, é mais orgânica, visceral. Tem uma correlação intensa com a narrativa. Na maneira como a história é contada, só o mais gélido dos corações consegue se manter indiferente.”
O longa é, segundo ele, uma celebração à vida, aos seus sucessos e fracassos, aos encontros e desencontros. “Ancorado na música e na dança com inspiração no que de melhor o cinema já apresentou. Tudo orquestrado com muita sensibilidade e um impecável rigor técnico”, avalia.
O swing nas telonas
A essência do jazz já serviu como pano de fundo para o conflito de vários personagens cinematográficos. No
aclamado musical de Chazelle, a trilha compõe o drama do personagem principal. “Ele curte o jazz de 'raiz', cujo público é bem específico, mas no decorrer da história se depara com uma outra realidade, que é reveladora e serve de lição pra ele”, analisa Ferreira. “É citado como artifício dramático para respaldar o gosto peculiar do protagonista.”
O balanço nascido no Delta Mississippi não se reduz aos
musicais. O diretor Woody Allen, por exemplo, tece forte relação com o movimento. Fica evidente em Em Poucas e Boas, que transpõe o gênero para a história do guitarrista interpretado por Sean Penn. Nas produções mais recentes, como Bird, de Clint Eastwood, o gênero aparece também para costurar a história. Na obra, é o saxofone de Charlie Parker que cria o tom para o enredo.


A trilha de La La Land é orgânica, visceral. Tem uma correlação intensa com a narrativa. Na maneira como a história é contada, só o mais gélido dos corações consegue se manter indiferente.”
Walter Ferreira, jornalista e crítico de cinema
Direção Editorial e Coordenação: Fernando Weiss - Produção: Taciana Colombo e Anderson Lopes - Arte: Gianini OliveiraRevisão: Viandara Rempel - Foto de capa: Anderson Lopes - Tiragem: 7.000 exemplares. Disponível para verificação junto ao impressor (ZH Editora) Jornalística)
4 | Você. | FIM DE SEMANA, 4 E 5 DE FEVEREIRO DE 2017

O colecionador de vinil, Leonardo Alcântara Coelho da Silva, acredita que o ritmo é universal


Você tem medo do jazz?
Ele não tem medo de você

Conforme o colecionador Leonardo Alcântara Coelho da Silva, de seu primórdio dançante, animado por orquestras de swing e dixieland, o jazz se mostrou efêmero e soube transitar de acordo com a evolução musical, tanto nos Estados Unidos como no resto do mundo. Carrega um forte espírito de sobrevivência: do triste e sangrento período escravocrata americano aos dias atuais. Para ele, entretanto, uma parte da população brasileira tem medo do jazz. “No imaginário popular, muitos consideram o gênero difícil e repetitivo. Há até quem o coloque no mesmo nível da música erudita.” Mas para Silva o jazz não cabe em nenhuma tendência intelectual. “É uma música universal, acolhedora e de todos que a queiram descobrir. Se você se permitir ouvir mais o jazz, vai ver que ele não é erudito.” Tem origem no blues. “Pegue um solo de Miles Davis em RoundMidnight ou um de Coltane em Lazy Bird, que você sentirá o blues naquelas notas”, explica.
E continua a se expandir. “Devido à sua capacidade de manter um pé na sua origem e, ao mesmo tempo, em outros estilos e gêneros musicais, sem restrição.”


Do rock à bossa nova
No fim dos anos 60, quando o jazz se viu preso e agonizado diante da onda revolucionária do rock, os jazzistas enxergaram um caminho de mudança e outra forma de sobreviver. “Liderados por Miles Davis, criaram a Jazz Fusion, que mistura rock com funk a elementos eletrônicos”, lembra o colecionador.
Até a bossa nova, de Jhonny Alf, Tom Jobim e João Gilberto, encontrou abrigo no jazz e uma forma de se expandir. “Inúmeros músicos gravaram a nossa criação e fizeram dela uma das manifestações musicais mais conhecidas e apreciadas do mundo.”
Conforme Silva, existe jazz para todos os gostos, do clássico ao abstrato, do conceitual ao popular. “Sua improvisação trouxe talentos extraordinários. Para apreciar o jazz, basta ter ouvidos. E para compreendê-lo, precisamos de algo elementar de todos os seres humanos: alma. Simples assim.”
Descubra o jazz
Para quem quer conhecer o gênero, nunca foi tão fácil. “Os mais relevantes discos estão disponíveis nos principais aplicativos, como Spotify, Google Music, Itunes, YouTube”, lembra o colecionador Silva. Locais que oferecem jazz ao vivo também pipocam pela Região Sul. “Somente em Porto Alegre, existem inúmeros, como o Nina Bar Café, London Pub, Café Fon Fon, Odeon e In Sano Pub.”
A capital gaúcha é palco do Poa Jazz Festival, um dos mais importantes do país, por onde já passaram grandes nomes nacionais e internacionais. O evento ocorreu nos dias 20, 21 e 22 de janeiro. “Não há desculpas para não conhecer o jazz e romper com o seu medo de ouvi-lo. Sua origem e seu desenvolvimento estão mais próximos do que imaginamos”, avalia.
Nas ondas sonoras
A professora Rosane Cardoso é fã do ritmo desde a adolescência. “Nem sabia que aquilo era jazz. Havia algumas – raras – rádios que transmitiam programas jazzísticos, como a Band FM e eu curtia ouvir.” Comprando discos e se interessando pela história afro-americana relacionada ao blues e ao jazz, nunca mais deixou de ouvir, ler e ter curiosidade sobre o tema. “Não sou nem pretendo ser uma expert. É prazer mesmo”, conta.
Ela é a apresentadora do Jam Session, no ar desde o fim de 2014 na Rádio Univates FM. Transmitido às terças-feiras, das 23h às 24h, com reprise aos domingos, no mesmo horário, as sessões exploram um tema relacionado
ao gênero como o jazz no cinema, vocal jazz, standards, big bands, entre outros. “A ideia é fazer um programa em que as músicas não sejam apenas tocadas, mas que sigam uma linha de discussão e reflitam uma fase, uma ten dência ou um es tilo da longa e comple xa histó ria do jazz.”


Sem igual
A chef Petra Krüger convida a vestir o avental e preparar o frango cipriota para servir aos amigos no verão
Aidealizadora do site
Meu Kit Gastrô acredita que qual quer pessoa pode se aventurar nas panelas. Para facilitar a vida dos corajosos, recomenda a receita de filé de frango recheado com ricota, tomates secos e manjericão. O prato pode ser acompanhado de arroz integral com raspas de laranja. “Cada ingrediente foi pensado para despertar todos os sentidos e paladares, permi te uma experiência deliciosa.” E o melhor: ninguém precisa fugir da dieta para saborear um prato digno de um restaurante.
Ingredientes
Filé de frango, salsa, manjericão, tomates secos em óleo, creme de ricota, alecrim, azeite de oliva, pimenta, sal, arroz integral, cebola, alho, laranja, limão.
Preparo
Para o arroz, coloque 1/4 do azeite na panela e aqueça. Adicione a cebola e, assim que estiverem douradas, adicione o alho. Deixe refogar por alguns segundos. Adicione o arroz e o sal. Cozinhe por mais alguns segundos e acrescente o suco da laranja. Deixe mais alguns segundos e adicione a água, cobrindo até dois dedos acima do nível do arroz. Cozinhe em fogo baixo até secar a água. Sirva e finalize com as raspas de laranja.

Coloque sobre a tábua de corte a salsa, o manjericão, os tomates secos em óleo, a pimenta e o alho. Pique tudo muito bem, misturando com a faca enquanto trabalha. Adicione o creme de ricota e as raspas da casca de limão. Misture tudo muito bem, e reserve. Arranje os filés de frango sobre a tábua ou um prato, se preferir. No espaço cortado, abra os filés e coloque o recheio previamente misturado. Aperte e feche os filés.
Coloque o restante do azeite de oliva na frigideira. Quando estiver quente, transfira os filés para a frigideira. Tampe e mantenha sempre em fogo baixo. Quando estiverem dourados no lado inferior, vire-os, tampe novamente e espere dourar do lado oposto. Transfira os filés para cada um dos pratos e decore com um ramo de alecrim.
Tenha em casa
1 tábua de corte, 1 faca, 1 colher de sopa, 1 frigideira média ou grande, 1 panela pequena, 1 espremedor de frutas, 1 ralador




Panela estilo luxo rústico Tramontina
Espremedor de suco de inox da Tramontina
Espumante Luiz Argenta Brut Rosé – 750ml
Petra Krüger sugere receita especial para servir no verão
FRANCINE NORSCH DIVULGAÇÃO
Fala, Doutor
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Como controlar o incontrolável
Psicóloga questiona a razão para tanta intolerância racial, religiosa e de gênero no país
Em um país multicultural como o Brasil, a intolerância soa como uma incoerência para especialistas em saúde mental, como a psicóloga Rebeca Katz. Segundo ela, a inflexibilidade social é um mecanismo inconsciente que costuma ser utilizado como defesa. “Sempre que criticamos algo e nos voltamos a outra pessoa, estamos buscando mudar o foco.”
O preconceito racial, religioso e de gênero pode esconder aquilo que incomoda e não se compreende. “A falta de tolerância com as diferenças aponta uma dificuldade maior no intolerante do que no diferente”, lembra.
A ameaça ao bem-estar social se confirma nas notícias que se multiplicam. “Episódios ocorrem com frequência entre nossos próprios amigos e familiares. Quando se comete crime contra homossexuais ou religiosos e até quando brigamos pelo direito de amor alheio.”
É preciso questionar a violência, defende a psicóloga.
“Quanto mais intolerantes formos com os outros, mais serão


Sempre que criticamos algo e nos voltamos a outra pessoa, estamos buscando mudar o foco”.
psicóloga Rebeca Katz


conosco. Temos que começar a discutir os padrões sociais.”
Para ela, os recentes crimes de ódio apontam que o Brasil pode não ser um país tão condescendente quanto parece. “Pode, sim, ser um país formado com base na intolerância em relação às suas misturas”, analisa.
Menino 23
As investigações do historiador Sidney Aguilar sobre tijolos marcados com a suástica nazista encontrados no interior do Brasil revelam a história de meninos órfãos e negros, vítimas de um projeto criminoso. Aloizio Silva, o menino 23, sobreviveu para contar.
Intolerância.doc


O que motiva os crimes de ódio e a intolerância dentro da sociedade brasileira? Essa pergunta, ainda sem resposta definitiva, ganha cada vez mais importância conforme novas notícias e acontecimentos surgem, provando que o Brasil pode não ser um país formado apesar de suas contradições e por causa de suas misturas, mas sim um país formado com base na intolerância em relação às suas misturas.
Meu Nome é Jacque
O filme conta a história de Jacqueline Rocha Côrtes. Uma mulher transsexual portadora do vírus da aids, que precisou e ainda precisa superar grandes obstáculos para viver sua vida da melhor forma possível, quebrando paradigmas e rompendo preconceitos.
Entrevista Filmes
VOCÊ – Qual a relação da intolerância com os transtornos de ansiedade?
Rebeca Katz – A forma como cada um vai desenvolver a intolerância pode ser a mais variada. Temos que diferenciar a intolerância em sua causa e consequência. Em um trastorno, ela pode aparecer como consequência da doença. Já numa pessoa que apresenta preconceito racial, por exemplo, a

intolerância é a causa. Como identificar sintomas e pensamentos de uma pessoa intolerante ao outro?
Rebeca – O sintoma causa prejuízo na vida funcional. Pode gerar mal-estar, como angústia ou receio excessivo frente a determinadas situações. Como qualquer outro conflito que não faça bem, o indivíduo deve procurar ajuda.
Apoiadores



ANDERSON LOPES
E
u estava exausta e a maior empreitada do dia ainda estava por vir. Cheguei em casa atrasada, pois as convidadas das minhas filhas para a noite do pijama já chegavam animadas com suas bolsas e bichos de pelúcia.
Naquele dia, eu havia acordado muito cedo para acompanhar uma amiga que me convidou para participar de uma vivencia muito especial. Tratava-se de uma reflexão conduzida por uma terapeuta alquimista em meio a um santuário natural.
Não sou exatamente o que se pode chamar de uma conhecedora das terapias alternativas, mas simpatizo muito com a abordagem proposta, pois geralmente confere um olhar carinhoso e de compaixão com as mazelas humanas. Iniciamos as atividades do dia seguindo uma trilha em
O casamento da lágrima
meio à floresta. A trilha previa sete paradas associadas aos sete chacras, sendo que em cada uma das paradas recebíamos generosas explicações sobre a evolução de nossa consciência ao longo da vida e podíamos então nos expressar a respeito.
Quando chegamos ao quinto chacra, relacionado à garganta, fomos convidados a fazer um exercício no qual cada
participante respirava fundo e gritava o mais alto e demorado que pudesse. “Gritem o mais alto que puderem! Soltem o que estiver dentro de vocês. Libertem suas emoções”. Quando chegou a minha vez, percebi que eu não tinha nenhum grito para oferecer.
enlouquecedor barulho que misturava música, risadas e gritos eufóricos, me aproximei daquelas crianças e supliquei: “Por favor, não gritem tanto!”. Elas acenaram com suas cabecinhas algo que parecia um gesto de concordância e seguiram com sua folia.
Ela, a lágrima, é mais delicada, mais feminina, por vezes, mais dramática... Ele, o grito, em geral, é mais objetivo, forte, vai direto ao ponto.
Realmente não havia nada aprisionado em meus pulmões. Nenhuma emoção reprimida. Agradeci a oportunidade e permaneci observando os demais participantes. Saíram gritos de vários jeitos: altos, fortes, tímidos, curtos e longos. Alguns com muita dor. Não gritei, no entanto, fui contagiada pela emoção que vibrava no ar e as minhas lágrimas se manifestaram. Seguimos o dia com várias atividades envolvendo reflexão e autoconhecimento.
À noite, já em casa e em meio à algazarra das meninas de pijamas, envolta por um
Foi quando me dei conta de que vivera um paradoxo associado ao grito. Adultos escondidos no coração de uma floresta ou em consultórios terapêuticos são estimulados a gritarem suas dores, enquanto isso, crianças numa inofensiva noite do pijama foram reprimidas por gritarem espontaneamente (e muito!) expressando sua alegria e euforia.
Paradoxo que me fez pensar que talvez, concorrendo ou somando às lágrimas, o grito seja mais um meio de transbordar nossas emoções. Acho que o grito é o namorado da lágrima.
Ela, a lágrima, é mais delica-
da, mais feminina, por vezes, mais dramática... Ele, o grito, em geral, é mais objetivo, forte, vai direto ao ponto. Ambos transitam entre os humanos de qualquer gênero e, por vezes, a lágrima grita e o grito chora. A lágrima sorri e o grito festeja. E em ocasiões muito especiais ambos se encontram e, quando isso acontece, é intenso, marcante, especial. De qualquer forma, o fato é que com tantas pessoas precisando libertar-se das amarras para poder expressar o que sentem ouso dizer que a lágrima e o grito estão de casamento marcado.


Coluna
Raquel Winter
Fale comigo pelo e-mail cronicasraquel@gmail.com ou pelo WhatsApp (no número 99844-2774).
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