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Rio Lis 39,5 kms da nascente à foz

Alice Neto voltou a lavar roupa no rio Lis, em Cortes, para poupar na água e eletricidade

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Este suplemento é parte integrante da edição nº 3912 de 9 de março de 2012 do semanário REGIÃO DE LEIRIA. Não pode ser vendida separadamente


Rio Lis Da nascente à foz com passagem pelo futuro Reportagem O passado é agitado, o presente incerto e o futuro soa a ficção científica. O rio Lis é uma equação complicada de resolver mas a associação ambientalista Oikos resolveu analisá-lo no final de 2011. Foi o mote para o REGIÃO DE LEIRIA partir numa viagem pelos 39,5 quilómetros que ligam a nascente à foz de um rio maltratado e muitas vezes esquecido. Mas também pouco conhecido, repleto de vida e cheio de potencial

Textos Manuel Leiria

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Fotografia Joaquim Dâmaso Impressão Sogapal Tiragem 16.000 exemplares

Apoio: Este suplemento é parte integrante da edição nº 3912 de 9 de março de 2012 do semanário REGIÃO DE LEIRIA. Não pode ser vendida separadamente

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Com origem no Parque Natural das Serras de Aire e Candeeiros, o Lis brota nas Fontes, a 400 metros de altitude. Só com chuvas intensas é que a água surge à superfície no local assinalado como sendo a nascente


Nascente Nos primeiros quilómetros, o Lis leva pouca água mas transborda vitalidade. Os novos caminhos para a nascente e o parque de merendas ali construído prometem mexer com Fontes, a primeira localidade atravessada pelo rio

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Praia da Vieira

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É nas Fontes, Cortes, o ponto zero dos 39,5 quilómetros que o Lis percorre Leiria adentro, até à foz. A zona foi recentemente requalificada e tem atraído muitas pessoas. Mas quando vierem as chuvas a sério o cenário será outro, avisa António Ferreira, 75 anos. Há meio século que ele é o mais próximo habitante da nascente e conhece o rio como poucos. “É bom viver aqui, é sossegado, não tenho vizinhança”, conta-nos, apoiado na enxada com que trabalha um pequeno talhão. Foi lá debaixo, do rio, que acartou a água para construir a sua casa. Ao longo da vida de António Ferreira ele esteve sempre ali, pre-

sente. “Os invernos não têm estado com aquela força, têm sido fracos... Quando os campos de Minde enchem é que a água vem aparecer aqui. No ano passado só apareceu duas vezes”, diz o sr. António, que se lembra, há décadas, de ver o rio a sair com “uma força doida. Parecia uma fonte luminosa!”. Os tempos são outros. A nascente do rio não é exatamente onde está agora a placa a encimar o poço, tapado. É uns metros mais à frente, onde a água brota debaixo das paredes de pedra que ladeiam o fio de rio. E que tal é essa água? António Ferreira garante que é pura e que se pode beber. Mas não será exatamente

assim. A contaminação que adoece o Lis começa antes de a água ver a luz do dia e é frequente, logo à nascente, a água estar imprópria para qualquer uso, adverte Judite Vieira. “Já na zona a montante, os parâmetros microbiológicos são muito significativos”, explica a autora de uma tese de doutoramento sobre a bioquímica da bacia do Lis. A contaminação inviabiliza a utilização da água para qualquer uso, seja rega, recreação ou consumo humano. Para voltar a poder ser utilizada, “o tratamento tem de ser muito mais dispendioso”, sublinha. A contaminação é um problema antigo, refere o presidente da associação


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ambientalista Oikos, Mário Oliveira. “Já em 1967 havia queixas com a questão dos suínos nas Cortes”. Apesar de poluído, o Lis ainda encanta. Testemunha disso é Jorge Santo, 54 anos, há 17 à frente da Quinta de Santo António do Freixo. A história daquele espaço perde-se no tempo, mas ali eram produzidos vinho, azeite, farinha e gado. Em 1994, um amigo pediu-lhe a quinta emprestada para fazer a festa de casamento e Jorge Santo percebeu que era esse o caminho. Desde então, na margem esquerda do Lis, poucos quilómetros depois da nascente, realizase ali cerca de meia centena de eventos por ano. “As pes-

Quem mora junto à nascente confia na água do Lis. Mas a contaminação começa muito antes, na serra, onde a soma de descargas domésticas e industriais verte nos lençóis subterrâneos agentes poluidores que frequentemente inviabilizam a utilização da água para qualquer uso

soas que visitam a quinta ficam fascinadas. A nossa relação com o rio é de cumplicidade”, sublinha Jorge Santo. “Para mim o rio é um amigo. Tanto gosto dele na calma no verão como com a fúria do inverno”. Mais à frente encontramos Américo Vicente, 75 anos, a pescar. Ali o Lis, ainda antes de chegar a Cortes, já apresenta um tom esbranquiçado. Mas isso não lhe diminui a confiança. “Pesco no rio desde pequeno, na minha zona, Amor. Vim para aqui porque a água é mais limpa”. Mas antigamente é que era. “À sertela, enchia-se um balde de enguias”. Como antigamente está Alice Neto, 65 anos, de bo-

tins calçados e pés dentro do rio, já nas Cortes, ao pé da nora. Esfrega uma toalha azul tanto quanto permite o seu pulso direito ligado. Ao lado, repousa uma pilha de roupa lavada. “Sempre lavei aqui, desde garota, e agora temos de voltar ao passado”, diz, sorridente. Explica que foi a crise que a fez voltar ao rio: “Enquanto a máquina está ali a fazer ‘tumb, tumb, tumb’, está a gastar água e luz”. O Lis é uma alternativa barata, eficaz e ajuda a lembrar tempos antigos, em que os rapazes namoravam as meninas que lavavam no rio. “Ficavam em cima da ponte e nós todas envergonhadas. Agora é diferente; são elas a pedir namoro!”.

01 António Ferreira lembrase de ver o rio Lis sair do poço da nascente com tal força que parecia “uma fonte luminosa!” 02 A Quinta de Santo António do Freixo tem o rio como cúmplice e amigo 03 Américo Vicente é de Amor e vive em França. De férias em Portugal, aproveitou para matar saudades da pesca nas Cortes


A Quinta de São Venâncio marca a transição do rio: do trajeto inicial em ambiente rural, o Lis chega ao percurso urbano de Leiria. Este é um aspeto das traseiras do palacete


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No verão de 2011, o percurso Polis cresceu com a abertura da ligação entre o jardim de Santo Agostinho e a rua de Tomar, em terrenos cedidos pela EDP. A cidade ganhou uma ligação ao rio


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Cidade Frequentemente Leiria parece zangada com o Lis, ignorando-o e maltratando-o. Mas também há quem considere que é o melhor que a cidade tem. O Polis abriu portas a uma reconciliação

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Praia da Vieira

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Leiria

Fontes

Há 37 anos que Paula Gaspar convive com o Lis. No café-quiosque junto à ponte Afonso Zúquete, assistiu já a muita coisa. “Há uns dois anos tínhamos muitos problemas com as descargas. A partir da meia-noite não se conseguia estar aqui com o mau cheiro”. Nesse capítulo as coisas melhoraram e, agora, até há uns habitantes muito especiais nas águas que passam na cidade. “O rio tem sido muito bom vizinho. Tem magia, tem os patos e agora até lontras tem!”. Apesar de considerar o rio “a coisa mais bonita que há em Leiria”, Paula lamenta que esteja desaproveitado. “Está assim por falta de civismo. Em Leiria olha-se muito para

o umbigo e não se liga ao que pertence a todos”. Vestindo o fato de socióloga, Paula Gaspar identifica o problema que afeta Leiria e, consequentemente, o Lis: “Há muito poucos leirienses e, por isso, as pessoas não amam Leiria. O rio está como está por falta de civismo”. A opinião é partilhada pelo presidente da Câmara de Leiria. Raul Castro revolta-se com “situações que detetámos, de pessoas que moram junto ao rio e que fazem desaparecer resíduos atirando sacos [de lixo] para o leito”. O autarca diz que falta educação entre os mais novos e também entre os mais velhos. “Tem de haver uma forte campanha de sen-

sibilização, com filmes pedagógicos que dramatizem a situação”. Porque a situação é mesmo dramática: 2027 é o horizonte mais otimista para toda a bacia hidrográfica do Lis ser despoluída. A meta é avançada por Judite Vieira com base em diretivas da União Europeia. “Atualmente 53,8 por cento das massas de água tem um estado inferior a bom” e os culpados são vários: as suiniculturas, mas também a agricultura, que contribui para a contaminação química, e de todos que tratam mal o rio. “Alguns cidadãos estão a funcionar à velocidade e à escala de 1981”, nota Mário Oliveira. O presidente da Oikos refere que, ainda assim,


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o Lis não é muito melhor nem muito pior que outros rios do país. “Mas a nossa cabeça construiu essa ideia, com base em notícias que se foram publicando”, defende, com a autoridade que lhe confere uma épica investigação para o doutoramento: leu 6.993 jornais regionais com notícias sobre o rio Lis - o equivalente a 150 anos de publicações. A história da relação de Leiria com o seu rio é marcada por contrastes: há momentos em que é visto como maravilhoso (na representação estética e literária, por exemplo), noutros é encarado como odioso. Para esta perspetiva contribuem as cheias. “A história da cidade tem 157

A relação de Leiria com o seu rio é uma história de contrastes: o Lis tanto inspira poetas e escritores como é metido num canal para não causar problemas

anos de cheias. Se não houve recentemente, vai haver de certeza”. É uma questão de tempo. Leiria sempre tentou dominar o seu rio. Data de 1702 a alteração do percurso do Lis. “Falamos do rio, mas é mais um canal que atravessa a cidade”, reconhece Mário Oliveira. A relação entre Leiria e o Lis conheceu desenvolvimentos positivos nos últimos anos. O programa Polis revelou um rio que, para muitos, era desconhecido. “O Polis passa por sítios que não se imaginava que lá estavam”, observa, encantada, Paula Gaspar. Cremilde Silva, 36 anos, docente, é utilizadora habitu-

al da nova face que o Lis ganhou com o Polis. Encontramo-la numa das suas sessões regulares de exercício. “Moro cá há nove anos e de todas as alterações a que assisti, esta foi uma mais-valia importantíssima”, conta a um par de metros da água, interrompendo os alongamentos. Nestes anos de usufruto do Polis, percebeu que o investimento levou “muito mais pessoas a fazer exercício” e até há quem encare esse hábito mesmo a sério. “Há dias vi uma pessoa aqui com uma bola de Pilates e pesos”. Nesta relação próxima com o rio, não é só o corpo que beneficia da proximidade com o Lis. “Este burburinho da água faz maravilhas à alma”.

01 Paula Gaspar convive há 37 anos com o rio. “É a coisa mais bonita que há em Leiria” 02 Cremilde Silva é fã do Polis: é frequente ligar S. Romão ao Centro Nacional de Lançamentos de atletismo, a correr ou a andar, sempre junto ao rio 03 O Polis revelou à cidade espaços que muitos desconheciam existir. E mostrou o resultado de décadas de pressão urbana sobre o rio


Sem ponta de romantismo, é esta a fonte de inspiração de poetas, confinada por canais de cimento. O rio Lena encontra o Lis pouco depois da Ponte das Mestras, na confluência das freguesias de Barosa, Leiria e Marrazes


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Campo É aqui que o rio mais sofre com a poluição mas também é nestes terrenos que ganha os contornos mais selvagens. Limitado por altas margens para evitar inundações, o Lis fomenta uma riqueza inesperada, lembrando um parque natural

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Praia da Vieira

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Fontes

De cana debaixo do braço, autoritário, Luciano Capitão Caetano, 60 anos, toma conta das vacas nos Campos do Lis. “Cheguei a amanhar isto tudo até Amor, mas estou gasto, cansado de trabalhar para malandros”, desabafa. Hoje investe em gado, mas o negócio está mal e o rio pior: “Há canas por todo o lado, silvas ao monte e a Vala Real há 11 anos que não é limpa”. Para complicar, convive com os espalhamentos das suiniculturas nos terrenos. Se há dias em que o cheiro se sente em Leiria, imagine-se nos campos. “É um cheirete, uma porcaria, uma vergonha”. A causa do problema tem várias consequências. Desde

logo para os terrenos, que servindo de esgoto, recebem “a criolina e coisas piores” usadas na criação de gado. “A erva nasce com isso, o gado come e depois nós também comemos tudo isso”, revolta-se. As queixas à GNR pouco adiantam: “Chamo-os para verem os camiões dos porcos a despejar e implicam com a minha casa-debanho...”. Esses despejos prejudicam também a estratégia turística do concelho. “Estamos a tentar atrair turistas a Monte Real e depois é isto. Imaginem as queixas que recebemos na Câmara por causa dos cheiros nos campos do Lis...”, lamenta o presidente Raul Castro.

Quando o rio chega aos campos, aumenta os seus índices de poluição. “Nos Campos do Lis temos a contaminação resultante da prática agrícola, mas também das descargas dos efluentes da suinicultura, que são arrastados para o leito do rio, o que, muitas vezes, inviabiliza a praia da Vieira para fins balneares”, lembra a investigadora Judite Vieira. É nesta zona que água o Lis apresenta “péssimas condições”. “Em termos genéricos, em Portugal não há percentagem muito significativa de água de má qualidade. Mas a estação de Amor inclui-se nessa pequena percentagem”, nota a professora da Escola Superior


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de Tecnologia e Gestão de Leiria. Por aqui lamentam-se os sucessivos adiamentos da construção da ETAR de Amor. “Já devia estar feita há muitos anos, mas querem que o Estado meta lá uns milhões para ficarem com metade”, desabafa Luciano Caetano. A poluição acumulada faz com que, nos campos, as valas de água não tenham “um único peixe, uma enguia ou sequer uma cobra!”. E outros animais também se ressentem: “Tem morrido muito gado com doenças por causa disso”. A este criador de gado acontece de tudo, até os roubos: “Antigamente podíamos deixar um trator à vonta-

Na estação de Amor são detetadas algumas das piores águas dos país. É nos campos que são feitos os espalhamentos das suiniculturas. Mais à frente o panorama é mais animador, com cavalos, bois, garças e águias a pontuarem a paisagem

de nos campos; agora não. Roubam tudo: rodas, motores de arranque, baterias, cavilhas... Até as tampas do saneamento roubam!”. É aqui que o rio inicia o troço mais selvagem, desconhecido de muitos. Ainda bem, porque isso permitelhe ganhar contornos de parque natural, onde a fauna se multiplica numa riqueza inesperada. É terreno das garças, águias e cor vos, mas também de bois, vacas e cavalos, muitos cavalos. As estradas são estreitas e más e afastam visitantes indesejáveis. Perto de uma delas está Manuel Lopes, 68 anos. “Nasceram-me aqui os dentes”, diz, bem-disposto, referindo-se ao terreno que

herdou e que agora cultiva. Mora na Carreira e está a tratar das vinhas, apesar do vinho que o Lis dá não ser grande coisa. “É fraco, mas é para consumo próprio e para os amigos. Daqui a pouco vêm aí dois, à adega, para beber”, conta, apontando para um pequeno barracão mais adiante. A poucos metros de Manuel Lopes passa o Lis, que “não está mau”. Limparam-no e as águas correm melhor. Mas nem sempre elas estão em condições, alerta este agricultor, que trabalhou 45 anos na fábrica Dâmaso. “Ontem à noite o rio vinha com muita espuma, o que não é bom sinal...”. Significa descarga das suiniculturas.

01 Este é o rio da Aroeira, que nasce no Grou e aqui desagua no rio Lis 02 Manuel Lopes entre as suas vinhas: “Nasceramme aqui os dentes” 03 Luciano Caetano e a filha. O criador de gado critica a inércia das autoridades: “Chamo a GNR para verem os camiões dos porcos a despejar e implicam com a minha casa de banho...”


Há muita produção nos Campos do Lis. Mas quem trabalha a terra diz que antigamente se cultivava muito mais


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Foz


Göran Englund junto à sua caravana, a poucos metros da Ponte da Bajanca, que liga a Vieira de Leiria à Praia do Pedrogão. O sueco gosta do rio, mas não lhe come o peixe


Foz É aqui que o Lis se entrega à imensidão do Atlântico, depois de percorrer os 39,5 quilómetros desde a nascente. Um fim de linha onde se percebe de forma transparente que o futuro pode ser bastante turvo: se não se fizer nada pelo rio de Leiria, ele pode desaparecer

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Praia da Vieira

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Göran Englund está refastelado junto à Ponte da Bajanca, a gozar os últimos raios de sol. À sua frente, a mesa ostenta uma perna de frango assado ainda na grelha, um copo de branco e um pequeno queijo seco cortado em fatias. O sueco, 64 anos, tem um terreno em Carvide e há dez anos que anda por cá, vivendo na sua autocaravana. “Desde o divórcio”, informa, soltando uma gargalhada. Gosta de cá estar e só o frio o faz fugir para outras paragens: “Daqui a uma semana vou para o México”. De uma perspetiva nórdica, o Lis também está “muito poluído e sujo”. “Lembram-se daquela história da Praia da Vieira [a descarga que interditou a

praia em 2003]? Disseram que ficou bom, mas não... Pfftttt”, censura. Göran nota muita poluição química e frisa que a culpa não é exclusiva dos esgotos. “Há uns anos estava a regar e lavei a cara com aquela água. Fiquei com a cara toda ferida!”. Mesmo assim, não guarda remorsos e gosta da companhia do rio. “Não como é o peixe!”. Aqui, nos últimos metros antes de chegar ao mar, o Lis revela inesperadas construções improvisadas nas margens, com grelhadores e mesinhas para piqueniques. “Nunca vi nada assim no mundo”, garante este sueco bastante viajado. É nessa zona que António Índio, 67 anos, cultiva

batatas, pimentos, alfaces, couves e “tudo o que eu e a mulher conseguimos tirar da terra”. Depois de anos a trabalhar na Alemanha, vive em Vieira de Leiria e é o último agricultor antes da foz. “Tenho muito prazer em ter este terreno aqui, há 33 ou 34 anos. Investi aqui muito do meu tempo”. António aprendeu a nadar no Lis, o que é impensável hoje. “Quantas vezes não tomei banho no rio! Mas agora nunca está limpo, está sempre turvo...”, lamenta, comparando a saúde do rio ao estado da Justiça. “Está muito doente. Quem tem poder não age. Veja-se os Milagres, uma luta com tantos anos”. Com a Justiça assim


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“não há nada a fazer”. Mais otimista, Judite Vieira acredita que o prazo de 2027 imposto pela União Europeia (UE) é mesmo para cumprir. “Sendo um imperativo legal, com a UE a controlar, não me parece tão futurista”. Sobretudo se houver “muita vontade, quer política, quer do cidadão comum” para deixar o rio autorregenerar-se. “Tem uma capacidade incrível”, nota. Mas, para ela funcionar, é necessário acabar com descargas poluentes e manter um caudal de água significativo durante algum tempo. “Infelizmente não temos dado ao rio condições para ele tratar da sua autodepuração”. Quanto mais tem-

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O futuro? Acabar com as descargas, garantir um caudal considerável e limpar os estragos acumulados por anos de poluição. Depois é confiar na incrível capacidade de autorregeneração que o rio tem. O Lis não tem tido oportunidades para tratar de si próprio

po passa, pior: anos e anos consecutivos de descargas e poluição acumularam uma quantidade significativa de sedimentos altamente contaminados. “Qualquer mobilização desses sedimentos provoca o aparecimento dos contaminantes. É preciso fazer uma limpeza do rio, das margens e do leito, onde há zonas muito problemáticas”, avisa Judite Vieira. Testemunha privilegiada das maldades que o Lis tem sofrido é Mário de Jesus, 31 anos. Há dois anos que gere o Foz Bar, o vizinho mais próximo do encontro entre o rio e o mar. Rio? Mário discorda. “Já não se pode chamar rio. Falando mal e porcamente, é a fossa de Leiria e da região.

Isto mete nojo”. À frente do bar é frequente jazerem cadáveres de porcos e cães e todo o outro lixo que o rio transporta. “O Foz Bar podia estar num sítio paradisíaco e está no meio de uma lixeira. E sem apoios para resolver a situação”, diz, desgostoso. O rio Lis chega ao Atlântico por entre uma paisagem maquilhada pelo pôr-do-sol, escondendo nódoas negras e lesões internas. Mas é urgente ir muito além da cosmética. Judite Vieira avisa: “Comparado com outras bacias hidrográficas, o rio já é um ribeiro. Se não tratarmos dele, o que vai acontecer é pura e simplesmente morrer”.

01 Vista assim parece uma cidade do Norte de África mas é a Praia da Vieira, onde o Lis chega ao mar 02 Perto da Ponte da Bajanca, um rebanho passa a caminho do pasto, deliciando Göran Englund: “Aquelas cabras estão lindas, não é verdade?” 03 A Ponte das Tercenas despede-se do rio que chega agonizante à foz. Ela não está melhor, há meses cortada ao trânsito 04 Mário de Jesus: “O Foz Bar podia estar num sítio paradisíaco e está no meio de uma lixeira”


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Suplemento Rio Lis Região de Leiria 2012  

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