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ANTOLOGIA


readonportugal@gmail.com www.readon.eu @readonportugal

ANTOLOGIA

readon

2019/2020

http://tiny.cc/canalyoutubereadon

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READ ON é um projeto que aposta nos jovens que leem ou que, aparentemente, perderam o gosto pela leitura ou, de facto, ainda não se tornaram leitores. O projeto visa apoiar e disseminar a paixão pela leitura nos jovens europeus, entre os 12 e os 19 anos, através do seu envolvimento ativo na reformulação das formas de vivenciar, compartilhar e criar literatura.

Título: Antologia READ ON 2019/2020 Edição: Agrupamento de Escolas Carlos Gargaté Autores: Inês Barata Raposo Nuno Matos Valente Maria Francisca Macedo Sandra Carvalho Ilustração da Capa: Mariana Santos

Escola Secundária Romeu Correia, Almada, Feijó Criação, Paginação e Impressão: CDC - Código de Cores, Design e Produção, Lda Data da publicação: Setembro 2020

O nome deste projeto é um acrónimo de Reading for Enjoyment, Achievement and Development of yOuNg people, constituindo-se como uma oportunidade para uma nova geração de leitores. Com o apoio do EACEA’s Creative Europe Community Program, o projeto READ ON tem uma duração de quatro anos (junho 2017 - maio de 2021) e conta com sete parceiros internacionais, incluindo escolas, festivais e centros de promoção cultural, todos com foco especial em jovens com menos de 20 anos: Haugaland Videregående Skole (Haugesund, Noruega), Skudeneshavn Internasjonale Litteratur-og Kulturfestival (Skudeneshavn, Noruega), Festivaletteratura (Mântua, Itália), Escrita West Midlands (Birmingham, Reino Unido), Agrupamento de Escolas Carlos Gargaté (Almada, Portugal), Associació Tantàgora Serveis Culturals (Barcelona, Espanha) e West Cork Music Ltd (Cork, Irlanda). O projeto READ ON está organizado numa série de ações coordenadas, focadas na promoção da literatura nas diferentes vertentes, hábitos de leitura, narrativas e mundo digital, relação entre autores e jovens leitores, procurando estimular a energia criativa dos jovens, expandir o seu conhecimento e dar respostas às suas preocupações e à plena expressão do seu potencial.

Depósito Legal nº: 472854/20 ISBN nº: 9789893308325 4


Algumas das iniciativas planeadas pelo projeto READ ON incluem a criação de antologias colaborativas, a produção de podcasts dedicados a formas emergentes de contar histórias, a criação de uma oficina permanente para fãs de ficção, uma competição para narradores e autores de banda desenhada menores de 20 anos, encontros entre autores e jovens leitores, e autores que envolvem jovens na criação de histórias. Este livro, que tens nas tuas mãos, a que se chamou “Antologia” teve origem numa das atividades do projeto READ ON.

A pandemia gerada pela infeção do Vírus COVID-19 “trocou-nos as voltas” e tornou-se impossível, a apresentação da Antologia no Festival READ ON Almada, mas como o Projeto READ ON não quer e não pode parar, porque o tempo dos jovens é diferente do tempo instituições, porque muitos dos jovens escritores saíram no final do ano letivo 2019/2020 das escolas secundárias que frequentavam, optámos por dar à estampa uma primeira versão da Antologia, só com os textos portugueses, de modo a ser publicada em ebook, que já foi apresentada no Festival READONline. Esta é a versão completa da antologia 19/20.

DESENCONTROS Francisca Macedo

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CORO Inês Barata Raposo

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O MAIOR AMOR DE TODOS Sandra Carvalho

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EQUÍVOCOS Nuno Matos Valente

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INGLATERRA

ÍNDICE

Como deves saber, as antologias escolares habituais são uma coletânea de obras que os estudantes devem ler. A partir deste conceito, os autores deste projeto foram pensando neste assunto e tiveram uma ideia: “E se tentássemos virar o conceito ao contrário, reunindo, numa antologia, os textos que os jovens gostam de ler?” E mais ainda... “E se fossem os próprios jovens a escrever a ilustrar os seus textos/contos, com a ajuda de autores (escritores, professores,…), e os publicassem, criando uma Antologia?” Foi isto que fizeram jovens de 4 países parceiros, cada um à sua maneira: uns escreveram textos em conjunto com escritores e/ou professores e/ou ilustraram-nos (Portugal), outros apenas se dedicaram à produção escrita (Inglaterra e Noruega). Os jovens italianos optaram por escolher textos de autores consagrados.

PORTUGAL

O RAPAZ E O GRILO Bali Rai

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CORDAS TENDINOSAS Ken Preston

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SELADO COM UM BEIJO Lauren James

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PROCURA-SE... PAZ Liam Brown

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NORUEGA O PEQUENO, GRANDE AMOR Eldrid Johansen

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CONGELADO Geir Tangen

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ROCK'N'ROLL, BABY! Arne Svingen

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A APOSTA Annette Münch

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Sonha connosco, vai ficar tudo bem. O parceiro Português READ ON Agrupamento de Escolas Carlos Gargaté, Portugal Setembro 2020

ITÁLIA O MONTE DOS VENDAVAIS Emily Bronte

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ORGULHO E PRECONCEITO Jane Austen

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portugal


FRANCISCA MACEDO

DESENCONTROS

DESENCONTROS

Maria Francisca Macedo é autora de livros infantojuvenis. A sua coleção de estreia, O Clube dos Cientistas, alia aventuras e experiências, tornando-se um sucesso em muito pouco tempo. Professora de formação, viu o seu trabalho ser reconhecido, em 2018, pelo Global Teacher Prize, com uma menção honrosa pelo contributo para a educação e sustentabilidade social, e os seus livros são um reflexo das sua criatividade, também eles reconhecidos pelo Plano Nacional de Leitura e pela rede de museus e centros CiênciaViva. É membro do Conselho Editorial da revista APEduC, sobre investigação e práticas no ensino da Ciência, Matemática e Tecnologia. Para além da educação, procura aprofundar conhecimentos na área da leitura e das histórias, tendo concluído uma pós-graduação em Livro Infantil em 2019, ano em que também foi galardoada com o prémio Maria Rosa Colaço para a melhor obra infantil inédita. Actualmente escreve, dá formação e percorre as escolas, de lés a lés, em encontros e workshops. Quando lhe perguntam a profissão, diz que é sonhadora profissional. Ah, e nómada nas horas vagas!

Tens ficado presa nos meus pensamentos desde o dia em que te conheci e não consigo perceber porquê. Gostava que levasses contigo a parte que te pertence dentro de mim. De uma vez por todas. É que, sabes, amar-te dói. Deixa-me confuso. Nunca te vi sorrir, jurei a mim mesmo que te faria feliz. E essa é a minha história: a de um tolo apaixonado por uma infeliz.

O dia tinha começado há meia hora e nada. Ela passava os portões da escola, e nada. Os colegas conversavam entre eles: e nada. Joana não conseguia sentir fosse o que fosse. Joana não tinha mãe. Nem pai. Nem casa. E, agora, não tinha avó. — Tu estás bem? — quis saber a colega. — Ouviste alguma coisa do que dissemos sobre hoje à tarde. Joana forçou um sorriso enorme enquanto o seu olhar caía nele: Samuel, com os seus olhos honestos, o seu jeito elucidativo que trazia aquele encanto estonteante e passava a sensação de paz aos conflitos que ela tinha. Samuel. — Claro. Vai lá estar toda a gente. Praia. Depois da escola. Conta comigo. Talvez ele estivesse lá. Ele, que tinha cabelos da noite com olhos de dia, mãos mornas e firmes e cheiro a mistério. Joana não sentia nada, andava ausente, mas quando olhava para ele havia qualquer coisa que tentava despertar. Como se a alegria não lhe fosse vedada. A campainha ainda não tinha tocado. Os autocarros chegavam e partiam. Ela ajeitou a sua mochila enquanto o admirava ao longe. Decidiu dar um passo, ignorando os nervos, mas foi impedida por uma voz conhecida: — Bom dia! — sentiu o seu coração a saltar quando se voltou para encarar a voz familiar. Tentou fazer-lhe um sorriso rápido. Porém, quando se virou, foram os faróis do transporte que anunciaram a desilusão, já há muito marcada no seu rosto pálido. 11


DESENCONTROS

FRANCISCA MACEDO

Ele já lá não estava. Abanou a cabeça e voltou a concentrar-se em guardar a tristeza. As aulas iam começar.

Todos acham que sou insensível. Um rapaz fútil. Já dizia Fernando Pessoa que a partir do momento em que intelectualizamos os nossos sentimentos, estes deixam de ser puros. São emoções racionalizadas e em constante mudança, a modo de serem melhor mediadas. Como quero sentir verdadeira e genuinamente prefiro nada dizer, para que consiga manter-me fiel.

Quando Joana chegou à praia, ondas gigantes batiam fortemente sobre a areia molhada, ao som de gargalhadas que eclodiam aquele ambiente caloroso de verão. O céu, azul claro, encontra-se com um tom levemente rosado, anunciando a entrada do pôr do sol, enquanto gaivotas agitadas inundam aquele final de tarde. “Devia estar feliz”, pensou ela. “Eco. Toda a praia se enche do meu eco. Grito em silêncio por ajuda. Ninguém me ouve!” A prima e a amiga acenaram-lhe. Ela acenou de volta, com um nó no estômago: ele estava lá. Enquanto avançava, pousou a toalha antes de ir a correr para o mar. Aproximou-se com as bochechas vermelhas e cumprimentou todos, ou quase: — Ei! Então e eu? Estás a esquecer-te de mim? — Perguntou o Samuel. Ela sorriu, impaciente, enquanto mergulhava. Ele, meio desnorteado, tirou o cabelo da cara e perguntou: — Não me ouviste? — Ouvi! — respondeu-lhe, rodopiando nas ondas satisfatoriamente. Parecia uma borboleta esvoaçando com uma estranha alegria, quase exagerada. Ele abanou a cabeça, confuso. Amava-a. Desejava-a. Mas não conseguia perceber estas inconstâncias dela, que tão depressa parecia alegre como estava triste. Talvez a chave estivesse nessa palavra: parecia. 12

Samuel não hesitou. De um salto, levantou-se e correu para o mar. As ondas enormes temperavam-lhe a pele. — Gostava que não me deixasses pendurado, sabes? — Exclamou ele, meio a brincar meio a falar muito a sério, enquanto mergulhava atrás dela. Ela sorriu, desta vez era um sorriso genuíno. Como se a deixassem ser feliz por breves instantes. — Joana, vá lá! Já não falas comigo há meses! Desde aquele dia que… Os olhos dela ensombraram-se imediatamente. Aquele dia, não. Que não lhe falassem daquele dia. O sorriso desfez-se e ela saiu da água numa corrida. O mar, que escorria dos cabelos, disfarçava as lágrimas que teimavam em chegar. — Bolas, — pensou ele, estático entre as ondas, — já fiz asneira outra vez. E ficou a vê-la fugir da praia. A noite caía depressa. Levantou-se, pegou nas suas coisas e afastou-se dos amigos que ainda estavam estendidos na areia. Tinha a bicicleta estacionada no pontão, à chegada da praia, e aproveitou para ligar ao irmão, em desabafo. Pegando na bicicleta, disse-lhe ao telemóvel: — Mas ela é tão fechada, já tentei, mas não consigo chegar até ela. — Tens de ser paciente, não podes deixar esta réplica da Natalie Portman escapar-te assim tão facilmente. Já a pedalar e com a toalha quase a cair, enquanto equilibrava o telemóvel entre a orelha e o ombro, ele respondeu: — Eu sei, mas não dá para saber o que se passa na cabeça dela quando ela está comigo. Não consigo entendê-la! Passa da alegria à tristeza num segundo… O irmão interrompeu-o: – Claro que não consegues! Ela é uma mulher! Mas se tu deixares de ser tão tímido e te abrires mais com ela se calhar ela faz o mesmo.

O meu nome é Samuel. Estou na inquietude do: e depois? Cada vez que durmo é sempre o mesmo. Sempre o mesmo cenário: Um corredor escuro, portas trancadas pilares com desenhos bizarros, eu não sei o que se passa. Eu oiço gritos, melhor será dizer que oiço apenas 13


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FRANCISCA MACEDO

o grito de uma simples pessoa, uma criança, não consigo dizer nem o género nem a idade. Mas quando tenta alcançá-la sinto uma presença dentro de mim que me faz perder as minhas forças. Eu não sei o que é aquela presença ou o que ela quer de mim, mas ao colapsar os gritos param por momentos e oiço um respirar forte e pesado, e depois de algum tempo oiço o mesmo grito, mas muito mais intenso e com uma maior agonia e então acordo. O que raio se passa comigo?! Joana, Joana: a tristeza que escondes está a dar comigo em doido.

Eram 7:57 da manhã e Joana acordou com uma luz a cobrir-lhe a face, ainda que o céu estivesse cinzento. Com os olhos ensonados, arrastou-se, abriu a janela de casa e ficou a observar o que estava por detrás dela, indolente. Uma senhora na rua despertou o seu olhar. Levava consigo um casaco e uma flor na mão, que Joana imaginou ser ter-lhe sido oferecida. Quando a senhora se virou, apercebeu-me que era a sua avó. Estremeceu, olhou melhor. Não era, claro. Seria impossível. “Tenho saudades dela desde aquele dia”, pensou, “Aquele fatídico dia”. Não era só saudade o que sentia. Era uma dor enorme, uma culpa avassaladora. Por vezes, sentia-se angustiada, como se nunca mais pudesse ser feliz. Como se mais valesse terminar tudo. “Outras vezes sinto me assim: estranhamente calma por não conseguir. Por não conseguir fazê-lo por ti…” Partir. Voltar a encontrar a avó, quase mãe, que a criou. Colou a cara ao vidro, embaciando-o com as lágrimas. — Oh, avó… desculpa… — O facto de ter 16 anos tornava-a, aos olhos da lei, capaz de cuidar de si mesma agora que não tinha família. Ninguém para lhe amparar a queda. — Estou sem rumo, sem direção. Sinto que não sinto quando não estás, é difícil entender o que sinto sem ti para me ajudar. Todas as manhãs era o mesmo. Custava tanto abrir a luz, fingir que estava tudo bem. Que o que sentia era apenas tristeza, apenas luto. Joana vestiu-se, em piloto automático, e regressou à escola. Ontem tinha

faltado outra vez. Ou talvez não, talvez tivesse sido fim de semana. Teria dormido demais? Pouco importava. Hoje ia vestir-se e regressar à escola. Ouviu o silêncio luminoso da manhã que ecoou dentro de si como uma ave mansa. Talvez Samuel hoje percebesse, talvez hoje a salvasse. “Apenas ele me consegue tirar do escuro que é a minha vida”, pensou, enquanto avançava pelos portões, o cabelo a esconder os olhos cheios. Ouviu uma voz que parecia uma melodia para a sua alma. — Hey, hoje não te vi na escola, está tudo bem? Todo um sentimento de surpresa atravessou o seu ser, na esperança que esta preocupação e importância fosse sincera e recíproca. — Nada, estava só cansada — respondeu ela com o desejo que ele a desmentisse. “Por favor, repara. Por favor, abraça-me. Vou quebrar. Oh, por favor…” — Ah, está bem. — Anuiu o rapaz, voltando-se para se afastar. — Espero que amanhã estejas melhor. De repente, sentiu-se como se um camião esbarrasse contra ela a deixasse inconsciente. Não. Não era hoje que seria salva. Estava na hora de voltar a vestir o sorriso. — Eu… preciso de falar contigo, Samuel. — Comentou ela, fingindo casualidade. — Será que podíamos encontrar-nos no pontão, depois das aulas? Ele acenou sem olhar para ela, com medo de responder seja o que for e assustar a borboleta. — Saio às cinco. — disse Samuel, à laia de despedida. E entrou na sala. Escusado será dizer que fez tudo menos concentrar-se nas aulas. Precisava de aproveitar a oportunidade; talvez não tivesse outra, não era? As horas passaram e a cabeça dele só pensava no encontro, revendo mil vezes o filme do que podia acontecer. Teria de ser genuíno, interessante, seguro e disponível. Muito bem, vamos a isso! Quando chegou ao pontão, atirou com a mochila e abriu o livro que estava a ler. Os olhos passavam as páginas, mas nada lia. Estava à espera, sozinho junto ao mar. Só se ouviam as gaivotas a chilrear

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e a crocitar. Esperou horas, usando o casaco para se proteger daquele frio cinzento, mas ninguém aparecia. A Joana não aparecia. Enquanto esperava por ela, deixou-se invadir de novo por aquela sensação de tristeza que o acompanhava sempre pensava nela. “Há algo escuro ali dentro. Algo que está a gritar para sair.” A boca estava seca da ansiedade da espera, bebeu água para suavizar o sabor salgado que vinha do vasto horizonte de material líquido de cor azul cristalino. O mar sempre o acalmara, sobretudo nesta altura do dia em que o sol se punha e o frio se instalava. Ouviram-se passos a aproximar-se. Samuel tentou não reagir, como se lhe fosse indiferente o atraso dela. — Desculpa, distraí-me com as horas. Posso sentar-me ao teu lado? Ele nada disse. Levantou os olhos do livro que estava no seu colo e acenou com a cabeça. Depois daquele breve momento, Joana sentou-se, inquietada com a sua misteriosidade. Se nada lhe tinha chamado a atenção até agora, ele chamou. Restava saber se era pelos movimentos com que passava as leves páginas do livro ou se pelo doce aroma que pairava à sua volta. — Chama-se “Mil e um pecados” — disse ele com um pequeno sorriso na cara, enquanto se levantava, e guardava o livro na mochila — parecias interessada! — Obrigada — não conseguia dizer mais nada, o frio que se sentia na barriga dela queimava em comparação com a temperatura exterior. — O que me querias dizer? — Eu… nada em concreto. É só que… — Joana calou-se e forçou um novo sorriso. Como dizer-lhe que precisava de ser salva? De ter alguém que lhe estancasse a alma. Como explicar-lhe que sentia que ele era a saída deste enredo que era a vida? Samuel esperou em silêncio. O horizonte morno estendia-se a seus pés, a areia macia e quente, juntamente com o canto das aves marinhas, o rebentar das ondas e o agridoce cheiro da maré levavam quase todo o seu corpo a relaxar, a única parte teimosa é a sua teste fortemente franzida, que junta com os óculos imundos traduzem claramente o seu estado de espírito. O entardecer estava quente: ela é que não. Olhou para o horizonte e apenas disse: — É ali que a vida começa. Ela irritou-se. Não queria saber de filosofias, não era capaz delas agora. 16

Precisava que ele reparasse na sua dor, que a abraçasse. Mas ele não via a sua queda. — Estou farta, sabes? — cortou ela. — Dizem que a vida começa todos os dias. Amanhã é um novo dia, está bem, mas para quem não vive que sentido isso tem? Depois levantou-se. — Falar contigo é como um grito no escuro. Murmuro com a esperança de que me oiças… — virou-se e começou a avançar pela praia, dizendo num tom falsamente animado, — isto foi má ideia. Está tudo ótimo. Esquece que pedi para falar contigo. Vemo-nos na escola. E afastou-se com um sorriso, como se tudo estivesse bem. Só que aquele sorriso era o último que tinha.

Oh, Joana. Todas as pessoas carregam segredos, mas algumas não têm segredos, carregam perdições. A minha és tu.

Eram sete horas, o despertador tocou e ela levantou-se apressadamente. Era o dia mais importante da sua vida. Último cartucho. Ia ser feliz à força, já que nada mais funcionava. Ia caminhar para a escola com o espírito leve, livre de toda a culpa e angústia. Por ela, pela avó, pelo Samuel. Era hoje. Desceu a rua, aquela que era diferente das outras. Era a sua favorita, antiga, as pedras da calçada a refletir a luz, o piso escorregadio do orvalho da manhã, canteiros com tulipas presentes ao longo do passeio, que cheiravam e dançavam com o vento. “Sim, sim! Consigo fazer isto”, pensou ela, apressando o passo. “É este o espírito. Vou convencer-me de que estou alegre.” Inspirou fundo, absorvendo o mundo. “Até consigo detetar à légua os cachorros da roulotte do Sr. Rui e observar 17


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as vizinhas da minha avó reunidas na esplanada a beber o seu café, protegidas dos raios solares pelos chapéus a discutir as recentes notícias. A minha avó não está com elas. Ela que era tão mãe, tão colo, tão chão. Tenho tantas saudades. Cada segundo longe dói, e apenas a ideia de nós sufoca.” Naquela rua pigmentada com o verde das árvores e aquecida pelo amarelo do sol, ouvia-se ao longe a maresia. Era verão, mas o dia escureceu. Joana escureceu: vivia no inverno de novo. Perdeu o controlo, a olhar nas vizinhas do café, tão alegres, tão vivas. — Por favor, não vás… — murmurou, caindo ao chão de joelhos. — Não quero apenas a tua recordação, quero os momentos. O dia estava perdido. Nem o facto de ver Samuel ali, na esquina da rua, a olhar para ela, a ajudou. Levantou-se. Tentou avançar, forçando o passo, mas era inútil. Não conseguia. Agarrou a árvore mais próxima com uma mão para ter a certeza que ainda ali estava e era real. Não conseguia respirar. Todas as tentativas de o fazer eram falhadas. Tudo o que via era nublado. E, por momentos, não sentia nada, o único som que ouvia era o da sua respiração pesada. Até que as memórias lhe batem como um comboio em alta velocidade, tudo volta num piscar de olhos. A raiva, a tristeza, o arrependimento, a mágoa, a desilusão, a solidão, o pânico, todos se juntaram num ponto de abrigo na sua cabeça e por mais que ela quisesse, não se iam embora: atropelavam-na. Joana largou tudo. Samuel fitou-a, preocupado. As velhas vizinhas na esplanada olharam escandalizadas ao vê-la correr pela rua em direção à praia, ao mesmo tempo que se despia, largando a roupa e os sapatos pelo caminho. Enterrou os pés na areia fria da manhã, correu para o mar e mergulhou de rompante. Precisava de se sentir viva. E depressa. A água gelada batia-lhe no corpo e, de um certo modo, relaxava-a. Perdia-se e baralhava-se nos seus próprios pensamentos, os quais acabava por descobrir não terem saída alguma. Ele seguiu-a. Chegou trazendo a Primavera. A leveza das searas ondulava no cabelo. A esperança brilhava nos olhos verdes. Aproximou-se pela areia.

— Respira fundo… — disse-lhe, parado na rebentação das ondas. — Vai correr tudo bem. — Pára, Samuel! Não me digas o que eu quero ouvir, palavras bonitas agora não me vão fazer bem. Não adianta vir com flores depois de tantos cravos que recebi no caminho. Não me digas o que eu quero ouvir porque eu realmente não quero partir, e, no entanto… Ele olhou para ela. Tinha uma voz melodiosa que combinava com o aroma sutil e doce do seu perfume, mas estava cravada de dor. Samuel respirou fundo, descalçou-se e entrou no mar gélido. Abraçou-a com força. — O que quer que seja, sabes que podes contar-me. — Murmurou com intensidade. Ela devolveu-lhe o olhar por um segundo e desviou-o. Fez-se silêncio. As ondas murmuravam e batiam-lhes no corpo, constantes. — Sabes… sozinha na rua, confesso todos os meus segredos à lua, na esperança de que a avó os oiça. Ele engoliu em seco. Preferia uma declaração de amor. Mas não comentou nada, não fosse assustar o momento. Ela prolongou o silêncio mais um pouco, antes de continuar: — Não me consigo recordar de uma altura em que a tristeza não fosse constante e a dor sufocante. Não me recordo de uma altura em que sorrir fosse sem tanto esforço nem de uma altura em que não tivesse de vestir uma personagem que está sempre feliz para as outras pessoas. Será que isto alguma vez irá mudar? Só quero desaparecer. Samuel apertou o abraço. — Estou aqui. Não te julgarei. Conta-me tudo... — Ouço sempre os gritos dela e sinto a sua presença, é algo inexplicável. As memórias boas desaparecem e só fica aquela… daquele dia… O facto de, após tanto tempo, ainda ser capaz de me lembrar do que aconteceu naquela sexta-feira como se fosse ontem… a culpa é toda minha! O frio da madrugada entranhava-se nos ossos, as ondas fustigavam-lhes o corpo, mas nenhum parecia sentir. — Foi um acidente… — exclamou ele, resoluto. — Não foi acidente nenhum. — Cortou ela, furiosa, entre lágrimas salgadas. — Lembro-me de cada segundo, cada pormenor. Era uma fria noite de inverno, a

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geada começava a cair tranquilamente, os nossos passos ecoavam inseguros ao longo da rua, as mãos da avó tremiam ao apertar o casaco contra o corpo débil. Soluçou. Joana nunca tinha contado a ninguém o que acontecera. Mas agora que começara não conseguia parar. — Um homem aproximou-se. Agarrou-nos. Gritei... fui a única que conseguiu fugir das mãos daquele homem e chamar as autoridades. Ela ficou para trás... ele era repugnante, ainda o é. Quando a polícia chegou ele já tinha fugido e ela estava no chão… dizem que era só um assaltante, que o coração dela não aguentou, mas… — A culpa não foi tua! Fizeste o que devias, foste chamar ajuda. — Não devia ter fugido… deixá-la assim sozinha… — Joana enterrou a cara no peito molhado de Samuel. — Desejava que fosse eterna, pois não sei lidar com a saudade. Dizem que a minha tristeza terá um fim, ou foi o que me tentaram convencer. Porém, ela partiu e o inverno passou a ser a única estação. Ele agarrou-a pela mão e, lentamente, puxou-a de volta à praia. O sol brilhava intensamente, aquecendo a areia fina. Conseguia-se sentir a brisa do verão a aquecer a alma. — Não consigo, Samuel. Estou sempre no escuro, perdida por dentro de mim mesma. Não consigo mais. Não tenho família, não tenho casa… nem a mim me tenho, porque não me encontro. Estou tão vazia, tão perdida. Samuel suspirou. O som de pássaros marinhos relaxavam a sua mente, soando como um embalo. Ele afastou o cabelo molhado da cara dela e olhou-a intensamente nos olhos. Era agora. Não podia ajudá-la se não se entregasse por inteiro. Aproximou-se. Os lábios tocaram-se, primeiro de mansinho e depois revoltos, em tempestade. Abraçou-a como se pudesse, naquele aperto, consertar-lhe as mágoas. — Deixa-me encontrar-te, Joana. Deixa-me ser a tua casa.

ESCOLA SECUNDÁRIA ANSELMO DE ANDRADE, ALMADA Turma 10º A Bernardo Nobre Margarida Correia Ricardo Gil Sofia Lopes Turma 12º A Eva Pinho Inês Gama Isabella Baltazar Madalena Rega Rita Patrício Ricardo Gil Sofia Lopes Professores Cristina Botelho Jorge Carvalho Rita Neves Vanda Cândido

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INÊS BARATA RAPOSO

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Inês Barata Raposo Natural de Castelo Branco, venceu os prémios Branquinho da Fonseca Expresso/Gulbenkian e Tábula Rasa 2019 com o livro juvenil Coisas que Acontecem (ed. Bruaá, 2018). A mesma obra é recomendada pelo Plano Nacional de Leitura e integra o catálogo "White Ravens" da Biblioteca Internacional da Juventude. Foi selecionada na categoria de literatura do concurso nacional Jovens Criadores em 2018. Tem contos publicados em diversas antologias. Vive numa aldeia no interior de Portugal e trabalha como redatora publicitária.

A primeira coisa que precisam de saber sobre nós é que não interessa quem somos. Estas são as nossas histórias; num universo paralelo, poderiam ser as vossas. Há dias em que nos tranquiliza sabermos que somos todos personagens secundários no palco da humanidade. Noutros, sentimos que o centro de gravidade do planeta está incrustado no meio dos nossos pescoços. Fossemos borboletas, pensaríamos duas vezes antes de cada bater de asas. Ressentimo-nos da filosofia, que nos dá apenas perguntas. Trincamos argumentos e desmontamos determinismos. Duvidamos da literatura, das canções de amigo e do amor romântico, cujo vermelho ou é paixão ou é sangue. No nosso mundo, mais vezes o vermelho é Benfica, ketchup ou cor primária. Tranquilos por não sabermos quem somos, para onde vamos ou que fazemos aqui, sabemos que nenhuma cábula resolve a matemática dos dias. Ontem fomos sonho de formiga, hoje somos humanos, amanhã folha em branco. 23


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INÊS BARATA RAPOSO

TAKE 1

Eu cresci numa zona Onde a paciência Muitas vezes não funciona Meias verdades Fazem meia maratona Mas o silêncio acaba Por subir à tona A banda sonora para a caminhada até está escolhida. Hoje não há ostentação, riqueza e engates ao ligar os auscultadores. Depois de uma manhã de aulas sonolentas sobre tempos e vidas que nada me dizem, vou assumir o controlo e ouvir algo que me faça dizer: esta pessoa sabe do que está a falar, podia ser um dos meus irmãos, uma das caras que vejo todos os dias ao chegar à minha rua. Calha o primeiro artista ser um homem que chora às escondidas, que sabe dos “putos que vão de cana”, da comida que falta no prato, da criminalidade no bairro. Mas que também aprendeu com a família sobre a importância de ter princípios, não guardar ódio nem rancor, acreditar num mundo mais bonito. Isto tudo em três minutos e meio é mais terapêutico do que três semanas a tentar trocar palavras com mãe entre turnos extra e idas ao supermercado. Mais depressa desço a escada e bato à porta da Mena, a matriarca de todos no bairro.

Evito falar de mim, partilhar sentimentos e derivados. No bairro, aprendemos cedo o valor da informação. Muito do que sei preferia não saber: quem esteve até que horas na casa dos vizinhos, para onde vão os homens depois do jantar, o que dizem as mulheres enquanto esperam por eles. Depois, há tudo o que desconheço e cujo preço pago sempre que me deixo levar por ilusões: o que será feito do meu pai? Irá o meu irmãozinho respeitar-me quando crescer? Podemos escolher as nossas tias e amá-las como uma mãe? Não é algo de que se fale, porém suspeito que há outros como eu, num malabarismo constante entre respostas que não podemos dar e perguntas que não podemos fazer. Para além da música, é raro identificar-me com a versão do mundo que me querem servir. Sempre que me faltam palavras, agarro-me às barras. Agrada-me a ideia de que uma barra esteja para o rap quase como um verso está para um soneto. Parece-me adequado de uma forma meio errada.

No andar de baixo, a cozinha tem sempre bancos para sentar mais um, dois ou os que vierem. Nos dias em que a apanho sozinha, fala-me dos filhos, que saíram do bairro para longe da má vida, dos esquemas. Agora fazem parte do sistema, diz às mães dos outros com orgulho, como quem diz que há esperança. Não os cheguei a conhecer, são mais velhos que eu, ainda assim a Mena garante-me que nos íamos dar bem. Ao que parece temos todos o coração no sítio certo, à esquerda, “tal e qual a revolução que nos trouxe até aqui”. É uma jogada típica da Mena: fazer uma afirmação misteriosa, dando-nos apenas dois caminhos: fingir que sabemos do que está a falar, o que é arriscado pois não conseguimos continuar a conversa; ou pedir-lhe que nos conte com mais detalhe, o que acaba sempre em histórias épicas que atravessam o Atlântico. Aos poucos vou-me apercebendo deste jeito de nos obrigar a conversar sem fazer

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perguntas. No bairro, ser mãe de todos não é para todas. É por isso que me custa tanto que os meus colegas façam verdadeiras confissões em público, seja nas aulas ou nas redes sociais. Nas últimas semanas, toda a escola se deixou encantar por um perfil desconhecido que partilha tudo sobre a sua vida de sonho em HD: frigorífico cheio, roupa por estrear, vista para o parque, relva do quintal. Hoje a grande dúvida existencial que assombra esta pessoa é uma questão de estilo: “Queridos seguidores, ajudem-me que não sei que casaco hei de vestir.” Usa hashtags motivacionais, quer fazer-nos acreditar que ser vulnerável é um superpoder, nunca uma fraqueza. Eu digo que nem uma coisa nem outra; a vulnerabilidade é um privilégio que varia consoante o código postal. Num mundo onde as janelas têm grades e os telhados que são postos de vigia, nasci quase predestinado com um balde e uma espátula na mão, pronto para construir as muralhas invisíveis que me protegem. Havendo janelas, deixoas bem altas, para que ninguém espreite de dentro para fora. A porta de entrada está escondida e reservada à família, aquela que não partilha o meu sangue, mas que sangra o dia-a-dia comigo. Um dia hei de sair, pôr à prova as vozes que me dizem que “vem por aqui” e mostrar-lhes que posso ir por ali sem esquecer o ponto de partida. Os filhos da Mena dizem-lhe que querem retribuir tudo o que o bairro lhes deu, assim que conseguirem aquele negócio, aquela oportunidade, aquela fortuna. Não os conheço, mas se cá viessem mais vezes implantava-lhes uma ideia, como os androides ao aprenderem as subtilezas da humanidade: em vez de retribuírem tudo, retribuam só o bom. Esse é o meu plano para um dia. Mas hoje é quarta-feira, a bateria do telemóvel está nos mínimos e tenho de acelerar o passo se quero chegar a casa com música nos ouvidos. Amanhã a playlist é outra.

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TAKE 2

“Casaco preto ou blusão amarelo?” Ajudar influencers com a escolha da roupa do dia dá-me uma sensação de controlo, o que me tem faltado nestes dias. Depois de passar em revista o Twitter e exercer o meu direito ao voto em prol de um casaco preto, escolho a lista de músicas para o regresso a casa. Tenho a tarde livre e, se pedalar a bom ritmo, chego antes de toda a gente. Mais do que querer estar a sós, dou por mim a querer voltar atrás no tempo, antes de o abalo do desamor ter rachado os pilares da minha família. A banda sonora para a viagem até casa está pejada de músicas da infância – ouço em modo privado, claro. A nostalgia é um luxo que a adolescência ainda não permite. Só poderei regressar aos hits da Disney por volta da crise dos 25, e mesmo aí será de forma irónica. Isto, até me transformar numa pessoa séria da sociedade, com um trabalho e uma família, então a cultura pop dos anos 2000 será o meu porta-estandarte - a minha forma de dizer ao mundo que em tempos fui jovem e tive interesses para além de confirmar o saldo da conta bancária. Faço-me à ciclovia em modo bola demolidora. 27


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Às vezes é preciso mandar abaixo para construir de novo. De cada vez que há estardalhaço lá em casa e a minha irmãzinha se queixa à avó, o casamento dos meus pais vira um estaleiro de construção civil. Por via de metáforas batidas, quer fazer-nos crer que os alicerces nunca foram muito firmes, que o projeto não foi bem traçado, que certas traves-mestras foram descobertas mais tarde, que as paredes cedo começaram a lascar, e que falta uma ponte para unir as duas margens. Certo é que o risco de colapso está lá. Por motivos de sanidade mental, evito meter-me nesta conversa. Mas tenho uma teoria alternativa à da avó: o casamento desabou tão lentamente que ninguém reparou, o chão abriu-se e devorou o entulho; resta zero para construir de novo. É impossível censurar a minha irmãzinha por acreditar em finais felizes, apesar de ter uma vontade louca de lhe dizer o que sei sobre os pais. Respiro fundo, endireito o guiador e salto para a próxima a música. “Sometimes mums and dads fall out of love / Sometimes two homes are better than one / Some things you can't tell your sister cause she's still too young.” Amem a Nossa Senhora Ordem Aleatória da Igreja Sagrada de Spotify Todo o Poderoso. Hoje o algoritmo está do meu lado.

Após vários ataques de ansiedade e outras tantas sessões de terapia, fiz as pazes com o facto de viver nos destroços de um casamento. Um gesto dos pais do Lopes denunciou esta realidade. Estávamos a fazer um trabalho de grupo e, na hora do lanche, encontramos os pais do nosso amigo, encostados à bancada. Os dois cantarolavam enquanto intercalavam folhas de alface e fatias de fiambre nas nossas sanduiches. Do nada, a mão do Sr. Lopes pousou muito leve no ombro da Sra. Lopes, seguida pelo que só consigo descrever como uma marradinha à gato, testa com testa, só ternura. Num primeiro momento senti que ia vomitar de raiva. A inveja de ver que o Lopes vivia numa casa com chão, paredes e teto robustos. Enfim. As ondas de tristeza nascem para ser surfadas, não para afogarmos os nossos amigos nelas. A culpa não era do Lopes. Nunca vi os meus pais de mão dada, aos beijos ou sequer a trocar daquelas apalpadelas que envergonham toda a gente em redor. Vi mãos afastas no último segundo, vários abraços e estaladas daquelas que fazem eco em bochechas alheias. As discussões, na verdade, são cada vez menos. Do mesmo modo que os gestos desaparecem, também as palavras se esgotam. Se sobrevivi ao terror das trincheiras – com pratos a voar, como nos filmes –, não hei de ser uma baixa em plena Guerra Fria. Vivo com dois adultos-fantasmas, que me dão alojamento, internet grátis e stock ilimitado de lasanhas congeladas do Lidl. Jogo as minhas cartas e pratico a arte das retiradas estratégicas. O modus operandi é simples: fazer os trabalhos de casa, ajudar nas tarefas e não levantar ondas. Assim esquivo-me à frente de batalha. As quartas-feiras, como hoje, são fáceis. Almoço na escola, pedalo a toda a velocidade, e durante duas horas tenho o castelo todo para mim. Acontece perder-me a olhar para as nossas caras nas molduras empoeiradas. Às vezes, passo os olhos pelo álbum de família esquecido na mesinha da sala. Vou ao quarto deles – que na verdade é o quarto da mãe; o pai mal dorme em casa – e abro o roupeiro. Tiro um dos vestidos de verão da mãe e o fato das entrevistas de emprego do pai, estico um de cada lado sobre a cama ainda e deito-me no meio. Finjo que o candeeiro do teto é uma câmara fotográfica das antigas, puxo as mangas das roupas para perto de mim e sorrio. Click. Somos de novo uma família feliz.

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TAKE 3

Esta manhã, enquanto experimentava o casaco preto, o mais votado na última sondagem do blogue, não me reconheci ao espelho. Sei que parece grave, mas não acho que haja grandes motivos para alarme. Tenho-me sentido muito assim, como uma tira de pasta de dentes na ponta da escova. Não é azul, nem vermelha, nem branca. Contudo, não deixa de ter essas três cores. E para piorar, depois de algumas esfregadelas e bochechos, fica uma espuma rosada sem vestígios das cores que tinha a princípio. Será que é essa a verdadeira natureza da pasta ou ficará assim apenas por ter sido amassada durante a escovagem? É claro que isto tem muito pouco a ver com higiene oral e tudo a ver com o que a tia Salete costuma chamar “as dúvidas normais da adolescência” em conversas sussurradas, ao telefone, com a minha mãe. Ambas se consideram as rainhas da discrição, porém os interrogatórios a que me sujeitam nos almoços de família não têm nada de inocente. Por vezes, perguntam-me pelos meus atores e atrizes favoritos – querem saber que poster ficaria melhor na parede do meu quarto. Tentam agarrar-se ao que têm, a qualquer pista que as deixe espreitar para a caixa de linhas e botões emaranhados que é a minha cabeça. Outras vezes, as perguntas são tão insossas que mal dá para perceber se parte de um plano maior. “Esta cor fica mesmo bem à tua irmã, não achas?” ou “Então, como que está o nosso Benfica?”. Ainda tenho muito para aprender sobre os métodos de espionagem sentimental passados de geração em geração.

“Para pessoas que sabem o que querem.” Como se fosse fácil. Como se alguém soubesse. Não sei por que motivo continuo à procura de sinais nos anúncios do metro. Será que esta gente percebe que a vida é mais do que um desfile de escolhas. Abrigo-me no telemóvel no caminho até casa; online, tenho quem me ajude com as decisões mais inócuas. É um alívio que os meus seguidores escolham a roupa que visto, é menos uma decisão a tomar. As águas profundas da identidade são tão difíceis de navegar, que me agarro ao que tenho: perguntas, looks do dia, tutoriais de maquilhagem, frases motivacionais e artigos sobre identidade de género. Tudo no embrulho bonito das redes socais, num perfil com a curadoria perfeita, sem vestígios da vida dupla que levo-o eu digital a rir-se nas barbas do eu real.

O dia até começou tranquilo, o casaco que escolheram para mim não me pesou. Sobrevivi a uma manhã de aulas e a um teste. Apanhei o metro à hora certa e consegui um lugar à janela – a viagem até casa ainda é longa. Todavia, o anúncio apanhou-me de surpresa. “Pessoas que sabem o que querem.” A sério? Mensagem para o Cosmos: se é para enviares sinais destes, mais vale estares calado. É a velha história das caixinhas em que nos querem meter, desta feita em formato A3 com um plano de crédito imperdível. De um lado do cartaz, uma mulher sorridente com batom vermelho e sapato alto; do outro, um homem confiante com fato completo e relógio de ourives. É isto ou aquilo, para a menina e para o menino. A publicidade a reduzir a vida a gelataria com um balcão sem-fim na qual só podemos escolher dois sabores. Morango ou baunilha, sem misturas e para sempre. Quem quiser uma amostra de outro sabor tem de estender bem

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alto a colher de plástico transparente e justificar-se perante o júri dos bons costumes. O mesmo para quem não quiser sabor nenhum, quiser os dois ao mesmo tempo, ou achar que há mais formas de aproveitar o gelado para além do copo ou do cone. E sim, admito, oscilo entre desconfiar das pessoas que sabem o que querem e querer ser uma delas. É uma conversa que hei de ter com os meus pais, mas para a qual tem sido difícil encontrar coragem. Se ao menos houvesse uma forma de saber que falar com ele era o caminho que a Fortuna queria que eu seguisse… Bem, admito que foi assim que, sem querer, dei por mim à procura de um sinal no caminho para casa, com uma certeza apenas: precisava de falar com alguém em carne e osso, desligar dos tweets confessionais e do apoio dos meus seguidores. A única forma de me sentir na minha pele em casa é abrir a caixa onde guardo o medo de me expor. O metro encheu. Uma rapariga da minha idade segura-se ao corrimão, traz um saco de pano com todas as cores do arco-íris. Seja este o meu sinal, já estou por tudo. Começo a traçar um plano para quando chegar a casa. O mais importante é não ligar a net, zero distrações enquanto não falar com eles. Entro em casa e ligo a net. Eis como fazer um plano falhar em plena fase de aquecimento. Tenho uma mensagem privada: “@lov4bites, não me conheces, mas quero que saibas que te sigo há muito tempo e admiro a tua coragem em seres quem és. Tens me ajudado muito a lidar com problemas em minha casa. Continua a espalhar magia. Thankz!” O sinal demorou, mas chegou. Por fim, sei o que fazer. Torno pública a minha conta no Twitter e envio o link por Whatsapp para os meus pais. Consigo ouvir o ping da notificação vindo da sala, estou em pedra. Vejo as duas setinhas passarem de cinzento a azul. Passam-se vários minutos, ninguém responde. O pai e a mãe entram na cozinha, esborracham-me num abraço e choram um bocadinho. Eu também choro, mas não é um bocadinho. Depois rimos que nem loucos até ficarmos exaustos. O peso desaparece. Continuo sem ter certezas, mas desta vez sou eu que lhes digo “vai ficar tudo bem”.

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ESCOLA SECUNDÁRIA CACILHAS TEJO, ALMADA Turma 10º D Aidiana Cristiano Mendes Datupe Daniela Alexandra Gomes Nunes Turma 10º H Alexandra Sofia Catanho Silva Ana Luísa Afonso Carpinteiro João Manuel Ramos Santos Madalena Graça Pereira Osvaldo Gomes da Silva Neto Teo Pescador Ruas Gabriel Rodrigues Gonzaga Medeiros 33


SANDRA CARVALHO

O MAIOR AMOR DE TODOS

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Sandra Carvalho nasceu em Sesimbra, numa rua antiga virada para o mar. Cedo o seu amor pelos livros a conduziu à descoberta de novos mundos, que inflamaram a sua imaginação e a incentivaram a escrever. Hoje é uma das autoras portuguesas mais conceituadas do romance fantástico, com doze livros publicados pela Editorial Presença, um dos quais traduzido para castelhano e publicado no México pela Ediciones B, da Penguin Random House. A sua escrita, feita de emoções, destaca-se pela capacidade de transportar o leitor para dentro das histórias, fazendo-o visualizar as cores e sentir os cheiros e os sabores, ao mesmo tempo que o deslumbra com a autenticidade das suas personagens. Em 2019, Sandra Carvalho foi distinguida pela Associação Mulheres Empreendedoras Europa & África, na categoria Literatura.

Lembro-me bem daquele dia. É impossível esquecê-lo. Deixara para trás a minha terra, a minha casa, os meus amigos… Sentia-me miseravelmente infeliz! No banco da frente do carro, o meu pai ia calado, sem tirar os olhos da auto-estrada. A minha mãe debruçava-se para trás, estraçalhando-me a paciência, repetindo pela milésima vez com um entusiasmo forçado: “Vais adorar a casa nova! E não te preocupes, pois não tardarás a fazer amigos. Os nossos vizinhos têm uma filha da tua idade, gira e simpática…” Sim, pensava eu com desdém. E ela vai adorar conhecer-me, porque eu sou o sonho de qualquer rapariga! De súbito, um estrondo como uma explosão… E um dos carros que seguiam mais à frente despistou-se e capotou. Foi tudo muito rápido, mas distingui uma coisa preta a voar para longe. Então, o caos abateu-se sobre nós, enquanto o meu pai pisava o travão. Cerrei os olhos e parei de respirar, estrangulado pelo cinto de segurança. Escutei o ruído ensurdecedor dos pneus a derraparem, fundido com os guinchos do metal, e apercebi-me de que o carro girava. Depois, um silêncio tenebroso tomou conta da minha perceção. Questionava-me se estaria morto, quando a minha mãe bradou aflita: “Sebastião, querido… Estás bem?” A raiva que sentia, por eles me terem imposto uma mudança de vida tão brusca, diluiu-se num abraço apertado. Escapáramos ilesos, graças à habilidade e à calma do meu pai. Infelizmente, outros não tiveram a mesma sorte! A polícia chegou rápido, mal recuperáramos o fôlego. Sucedeu-se um aparato de veículos de socorro. Vários carros tinham chocado na sequência do primeiro acidente, mas, devido às ordens que recebêramos para ficar na viatura, desconhecíamos a dimensão da tragédia. A minha mãe vigiava-me como uma ave de rapina, receosa de que eu fosse acometido por um ataque de pânico. Há muito que isso não acontecia, mas o psicólogo avisara que uma situação extrema poderia despoletar um novo episódio… E aquela era uma situação extrema! No entanto, contra toda a lógica, o medo não me subjugou. Um agente veio recolher os nossos dados, e eu nem gaguejei ao avisá-lo de que vira algo a ser projetado do carro. Ele tomou nota e mandou-nos seguir viagem. Ao passarmos pelas ambulâncias, a minha mãe suplicou-me que não 35


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olhasse. Obedeci sem protestar. Nunca, como nesse instante, a expressão carpe diem me fez tanto sentido. Na casa nova, o meu quarto possuía espaço de sobra para os meus livros e jogos, e enchia-se de luz logo pela manhã. Porém, tais benefícios não compensavam o sacrifício de enfrentar uma escola fria e hostil, comparada com a escola acolhedora que fora obrigado a abandonar para que os meus pais ficassem mais perto dos respetivos empregos. Mal entrei pelo portão, dirigi-me à biblioteca, desejoso de minimizar o meu desconforto. Seria lá que encontraria os meus “futuros amigos”. Frustrado, descobri que não havia um clube de leitura na escola. Isso dizia muito acerca dos “nativos”, com quem eu teria de conviver nos próximos dois anos. Regressei ao pátio, a remoer. O espaço enchera-se e todos me miravam como se eu fosse uma mosca que lhes caíra na sopa. Forcei um sorriso, mas ninguém sorriu de volta. Ainda faltava muito para o toque de entrada. Encostei-me ao pavilhão, e assisti às brincadeiras dos rapazes e das raparigas que se reuniam em grupos. Continuei sozinho. Na minha antiga escola, teria sido o primeiro a dar as boas-vindas ao aluno recém-chegado. Aqui não havia ninguém disponível para me saudar; ninguém interessado em perguntar o meu nome. Baixei a cabeça e a minha franja caiu, ocultando-me o rosto. Sempre que espreitava por detrás dessa cortina longa e escura, acudia-me uma sensação de segurança, como se os meus cabelos tivessem o condão de me tornar invisível. Era um gesto instintivo de defesa… Uma perfeita parvoíce, porquanto alguém alto como eu jamais passaria despercebido! O tempo foi-se arrastando penosamente… Até que a vi. Também estava sozinha, mas por opção. Os colegas tentavam levá-la consigo, mas ela resistia. O seu entusiasmo pelo livro que segurava, como se de um tesouro se tratasse, iluminava-lhe as faces sardentas. Era ruiva… Linda como uma deusa! Uma deusa com um livro! Um oásis no meio deste deserto árido! Dei um passo na sua direção… Então, nas minhas costas, uma voz jocosa estridulou a cantiga: “Sebastião come tudo, tudo, tudo. Sebastião come tudo sem colher…” Não era possível! Após tantos anos… Virei-me devagar, com as entranhas a atarem nós sobre nós. O Batman tem o Joker. O Homem-Aranha tem o Duende Verde. O Super-Homem tem o Lex Luthor… E eu tenho o Dinis Costa! Abri a boca, estupefacto, sem acreditar que ele estava à minha frente. Mas, antes que pudesse emitir um som, já uma das

suas manápulas me puxava a camisola e a outra se fechava, direto ao meu ventre. Frequentáramos a mesma turma no segundo ciclo. Nesses anos, os piores da minha vida, não houvera um dia em que o Dinis não me humilhasse. Ele era o craque do futebol; eu era o miúdo gordo que se divertia a ler. Comecei a usar lentes de contacto depois de ele me partir os óculos. Está claro que disse aos meus pais que os partira porque caíra da bicicleta! A minha querida bicicleta servira amiúde para justificar as nódoas negras no meu corpo, até ao dia em que a minha mãe me proibira de andar nela por ser “distraído e desastrado”, e a oferecera a uma instituição. Não, nunca contei aos meus pais que era o saco de pancada do Dinis. Só quando os meus ataques de ansiedade surgiram, é que eles suspeitaram que eu era vítima de bullying. Contudo, por essa altura, os pais de Dinis decidiram emigrar, e eu não mais ouvira falar da besta… Até agora! Nesse instante, vergava-me à mercê da sua força e, embora ele só tivesse encostado o punho ao meu estômago, simulando o murro, eu sentia uma dor real, consequência das recordações terríveis que me assombravam. “Sebastião é um grande barrigudo… E é por isso que é tão fixe lhe bater!”, cantarolava o energúmeno, incentivado por um coro de gargalhadas. Engoli as lágrimas que me subiam aos olhos. Não ia sucumbir ao pânico! Dinis já não era muito mais forte do que eu! Enchi-me de coragem e libertei-me com um safanão. Irritado, ele investiu com dobrada sanha… Dessa feita, o murro seria implacável! “Tudo bem, Dinis?” A voz de uma rapariga fê-lo desviar-se à pressa, e o seu punho falhou o meu nariz por milímetros. Desatou a saltitar, lançando socos para o ar como se estivesse a treinar boxe, e respondeu: “Claro que sim, Rita! Estou só a brincar!” As minhas faces quase explodiram de vergonha perante a deusa ruiva. Ela alargou o sorriso e inquiriu com candura: “O tipo novo é teu amigo?” Dinis atrapalhou-se: “Não! Achas que eu sou amigo deste «luzer»?” A deusa fixou-me e volveu num tom crítico: “De facto, alguém tão ignaro como tu jamais seria amigo de um loser!” Quedei-me, pasmado. Além de lhe corrigir o péssimo inglês, ela ainda o afrontara? Porém, Dinis ria e os serviçais amigos batiam-lhe nas costas, esbanjando os louvores da praxe. O toque para a entrada ecoou e eles afastaram-se. A deusa encarou-me. “Para teu bem, espevita-te depressa!”, exclamou, reprovadora. Vi-me compelido a agradecer, mas ela virou-se, desinteressada. Apelei: “Espera… O Dinis ficou

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contente por lhe chamares ignaro?” Rita parou, admirada por eu a ter compreendido. “O morcão acreditou que eu estava a elogiá-lo… Aqueles imbecis desconhecem a existência de dicionários. E ainda bem! Assim, posso dar asas à imaginação e insultá-los à vontade.” E pronto, pensei. Estou apaixonado! Uma funcionária interrompeu-nos e mandou-nos para as aulas. Que pena Rita não ser da minha turma… Raios, se não corresse ia levar falta! Galguei as escadas do pavilhão, a deitar os bofes pela boca e a repetir: O Dinis não pode estar na minha turma…

A turma reunira-se, a aguardar pela professora de Português, e Dinis não se fartava de me atormentar. “Abram alas para Sebas, o seboso que devora banha ao pequeno-almoço!” Os seus aduladores gargalharam, mas alguns colegas torceram os olhos, enfadados. Afinal, talvez houvesse gente simpática entre aquela amálgama de idiotas! A professora chegou, sorridente, e pôs fim ao alvoroço. Mal nos sentámos

na sala, expôs a razão do seu entusiasmo: “Este ano, irei dar-vos a oportunidade de fazerem um trabalho sobre um livro do qual gostem… Qualquer um, à vossa escolha!” O aborrecimento de uns misturou-se com os aplausos de outros. Eu fiquei satisfeito, até ela revelar em tom de gracejo: “Para vos deixar ainda mais felizes, a apresentação será oral!” Trocaram-se olhares de indignação e de horror. Depois, os protestos troaram em uníssono, até a professora cortar: “Se continuarem a expressar a vossa «alegria», vou acrescentar mais «ideias criativas» ao projeto!” Num piscar de olhos, o silêncio engoliu a sala. Aquela professora era porreira, mas transformava-se numa fera quando se irritava. A aula começou e, aos poucos, todos pareceram esquecer-se da incumbência… exceto eu! Uma apresentação oral... Não me faltava mais nada!, cismei assustado, com o estômago às cambalhotas. Baixei a cabeça para que a franja me ocultasse o rosto. Como é que eu vou falar diante de tantos estranhos? O Dinis irá gozar comigo até o Sol gelar! Só percebi que a professora já me chamara diversas vezes, quando estridulou o meu nome. Encarei-a com uma rapidez temerosa, e deparei com o seu olhar zangado. “Queres explicar-me o que é mais importante do que a lição, Sebastião?” Desejei ardentemente que um buraco se abrisse no chão e me engolisse. Tentei desculpar-me, mas tinha a língua presa. De súbito, ela determinou: “O Sebastião será o primeiro a fazer a apresentação… E quem mais achar que não vale a pena estar atento à minha aula será a seguir.” O meu coração contraiu-se e o fel queimou-me a garganta. Nauseado, deduzi que estava prestes a sofrer um ataque de pânico.

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“O Dinis Costa está na minha turma”, resmunguei, quando a minha mãe indagou sobre o meu dia. Ela puxou pela memória e sorriu. “Não sabia que os Costa tinham regressado de França. Estão a viver aqui? Que bom! Vês? Já tens um amigo na escola!”. Apeteceu-me gritar. Às vezes, tinha a impressão de que os meus pais não sabiam nada acerca de mim… Nem se esforçavam por saber! A minha mãe não podia adivinhar que o Dinis me infernizara no passado, mas deveria perceber, pela minha cara carrancuda e o meu tom infeliz, que aquilo não era uma boa notícia. Porém, já mudara de assunto. “Fui prestar depoimento sobre o acidente na auto-estrada… No carro que capotou, ia um casal com a filha. Os pais faleceram e a jovem está internada no hospital.” Senti-me mal ao recordar o susto que apanháramos. Já no meu quarto, para me distrair, pus-me a pensar na deusa ruiva. Que livro estaria a ler? Tomara que fosse um dos meus preferidos! Assim, teria o ensejo de fazer boa figura quando conversasse com ela. Não obstante, ao deitar-me, a lembrança do acidente tornou a perturbar-me. Murmurei uma oração pela salvação da rapariga que estava no hospital, e isso apaziguou-me um pouco. Depois de terminar, adormeci.


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Felizmente, a campainha soou nesse instante. Saí desembestado da sala. Se não me afastasse de tudo e de todos, seria incapaz de me controlar. Corri e corri, até esgotar as forças, possuído por uma angústia sufocante, totalmente desorientado. Recuperei o discernimento num descampado, já longe da escola. Recobrava o ar quando uma rapariga surgiu. “Sebastião, vem depressa!” Fixei-a, abismado. Aparentava a minha idade e era bonita, com cabelos pretos compridos, e olhos verdes realçados pelo alvor do seu vestido. Como sabia o meu nome, se eu não a conhecia? “Vem! Só tu podes salvá-lo!” O seu desespero persuadiu-me a acompanhá-la. Disse que se chamava Maria… E não houve tempo para mais. À nossa frente, encolhido sob os ramos ressequidos de um arbusto, encontrava-se um cão pequeno, bastante maltratado. “Que miserável é capaz de fazer isto a um animal?”, desabafei horrorizado. “Ajuda-o, por favor!”, rogou Maria, explicando que não conseguira agarrá-lo. “Precisamos levá-lo a um veterinário”, concluí. O ganido do cão soou fraco quando lhe toquei. Tinha uma coleira bonita, com Toy escrito, por isso devia ter dono. Achei que era o nome perfeito para aquele peluche preto, com uma mancha branca por cima do nariz. “Calma, Toy”, murmurei ao pegar-lhe, receoso de que me mordesse. Porém, apesar da dor, os seus olhos negros fitaram-me com gratidão ao aninhar-se na proteção dos meus braços. “Há um veterinário aqui perto”, urgiu Maria. E regressámos às ruas da cidade, com ela a correr à minha frente, veloz como uma chita. As pessoas olhavam-nos com curiosidade, mas ninguém se incomodou a oferecer-nos ajuda. Dobrei uma esquina e deparei com a porta do veterinário… Mas onde estava Maria? Teria entrado? Não. Confuso, entreguei o cão à enfermeira e apressei-me a telefonar à minha mãe.

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Toy não possuía chip de identificação, por isso seria impossível encontrar o seu dono se este não o procurasse. Estava faminto e desidratado, tinha várias costelas partidas e perdera imenso sangue. O veterinário opinou que ele fora atropelado e, em choque, correra sem rumo até a exaustão o prostrar. Mais umas horas sem receber cuidados e teria morrido. A minha mãe comoveu-se ao vê-lo, e aceitou acolhê-lo até que ficasse curado. “Mas se o dono não aparecer, teremos de o entregar a uma associação para que outra família o adote. Sabes que o pai não gosta de animais!” Não falei sobre Maria, para que a minha mãe não se abespinhasse por ela ter fugido à responsabilidade… De qualquer modo, provavelmente não tornaria a vê-la. A semana estava a terminar e Dinis continuava a fazer-me a vida negra. Ninguém da turma se atrevia a falar comigo, com medo de represálias. Rita acenava-me às vezes, mas eu não mais me aproximara, receoso de que Dinis me amesquinhasse à frente dela. A última aula era de Português. Entrei nervoso, pois a escolha do livro para apresentar na próxima semana estava a ser difícil. Deveria ser um que abordasse um tema cativante, que me permitisse conquistar uma boa nota. Sentei-me ao fundo da sala, na esperança de que a professora não reparasse em mim. Estava ansioso por chegar a casa e brincar com Toy… Finalmente tinha um cão, algo com que sempre sonhara! Porém, essa felicidade sustinha-se por um fio. Toy estava quase curado e o meu pai mantinha-se irredutível na decisão de o entregar a uma associação. Curiosamente, talvez 41


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porque Toy pressentia que o meu pai era o líder da sua “nova matilha”, seguia-o para toda a parte com um olhar de adoração. Sem nenhum resultado positivo, para meu desgosto e já confessada pena da minha mãe. A aula nunca mais acabava! Olhei para o pátio, impaciente, e o meu coração acelerou ao ver Rita sentada num banco, a devorar as últimas páginas do seu misterioso livro. Eu ainda não descobrira… “É o Harry Potter e a Pedra Filosofal”, disse uma voz doce, do outro lado da janela. Sobressaltado, inclinei-me para averiguar quem me “lera a mente”, e quase gritei de susto ao deparar com Maria. De repente, o meu nome ecoou-me aos ouvidos, numa arrepiante sensação de déjà vu. Os meus olhos viraram-se para a professora, como um metal atraído por um íman poderoso. “Qual é o livro, Sebastião?” Atordoado, respondi: “Harry Potter e a Pedra Filosofal…” Os rapazes desataram a rir. “Silêncio!”, ordenou a professora, arrematando: “De acordo. Será uma apresentação interessante.” “O quê? Não… Não!”, apavorei-me, ao inferir o que estava em causa. “Estás a brincar comigo, Sebastião?” O tom exasperado da professora gelou-me. “Desculpe…” E calei-me. O meu destino estava selado.

péssimo, e o rapaz estava a gozar comigo”, remoí. Ia perguntar-lhe porque me deixara sozinho no outro dia, quando apontou em frente. “A Rita está ali!” A adrenalina envenenou-me o sangue. Quis escapulir-me, mas a deusa ruiva já se aproximava com outra rapariga. “Olá, Sebastião! Esta é a Beatriz.” Controlei os nervos e virei-me para o lado. “E esta é a…” Calei-me, aturdido. Maria sumira outra vez! Mas que raio?! Rita estendeu-me um dos folhetos que andavam a distribuir. “Amanhã vai haver um espetáculo de música e dança no cineteatro. Nós iremos participar.” Depois de elas se irem embora, ainda procurei por Maria, mas, mais uma vez, ela abandonara-me sem nenhuma justificação.

Isto não me está a acontecer!, afligi-me, parado diante da montra da livraria. Estava roxo de vergonha só de pensar que tinha de comprar o maldito livro… Morreria quando fosse apresentá-lo à turma! “Alegra-te, Sebastião! Não há nada melhor do que uma história fantástica para estimular a imaginação… E é a imaginação que alimenta os nossos sonhos, e nos permite criar coisas originais e maravilhosas!” Encarei Maria, atónito. Ela tivera a desfaçatez de me seguir até ao centro comercial para me dar sermões? “Pois eu detesto fantasia! E, por tua culpa, vou ser obrigado a ler uma história ridícula para meninas!” O meu resmungo fê-la replicar: “Que culpa tenho eu de teres escolhido o livro que a Rita anda a ler?” Entrou na livraria. Contrariado, fui atrás dela. Esperei até ficarmos sós, para que mais ninguém me visse a comprar aquela tolice. O empregado, que já devia achar que eu pretendia assaltar a loja, lançou-me um olhar pouco amistoso quando pus o livro no balcão. Atrapalhado, titubeei: “Não é para mim! É para oferecer… à minha irmã!” Apontei para Maria. Ai dela que me desmentisse! De soslaio, vi-a acenar em confirmação, mas o sujeito continuou a mirar-me, como se ela fosse invisível e eu fosse doido. Assim que saímos, Maria desatou a rir. “Fizeste figura de parvo!” “Ou o livro é

Entrei no cineteatro desejoso de mostrar à minha deusa que viera apoiá-la. A minha mãe acompanhava-me, pois o meu pai tivera de trabalhar. Não tardou a meter conversa com outras senhoras… Quem me dera possuir a sua habilidade inata para fazer amigos! O auditório era agradável. As luzes apagaram-se e o palco iluminou-se. As gargalhadas sucederam-se com a peça apresentada pelo grupo de teatro. Seguiu-se um número de arte circense. Depois, cantou-se o fado. Um mágico espalhou encanto… “Estás a gostar?” Espantei-me ao ver Maria sentada nas escadas, ao meu lado. Era incrível, mas não conseguia zangar-me com ela! “Muito”, respondi. “Que bom, Sebastião! A Rita é a seguir…” No palco, o mágico despedia-se. Virei a cabeça para as escadas, mas, para variar, Maria já lá não estava. Esqueci-a num ápice, pois a minha deusa fez a sua aparição, com os cabelos ruivos a flamejarem… Deslumbrante! “Boa noite”, saudou ao microfone. “Hoje terei a honra de cantar The Greatest Love Of All, da diva Whitney Houston. Mas antes, irei partilhar convosco um texto que escrevi, inspirado nesse tema. Para ser original, chamei-lhe O Maior Amor De Todos.” O seu gracejo arrancou risos gentis da assistência… Quem era essa Whitney? A minha mãe parecia saber… Ponderei abrir a Wikipédia, mas desisti, pois Rita já declamava: “Entrei no vosso mundo com o coração aberto e um sorriso nos lábios… Porém, vós repudiastes a mão que estendi e troçastes da minha voz. Que magníficos sois, caros senhores, altos como gigantes, sábios como deuses! Do topo da vossa soberba, escavastes rios profundos ao meu redor, erguestes montanhas à minha frente, incendiastes a terra sob os meus pés… Não

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obstante, aqui estou! Cheguei ao meu destino, exausta, mas muito orgulhosa de mim. Desenganai-vos! O vosso desdém não me fere; só me dá mais força… Porque o caminho espinhoso que percorri ensinou-me que o respeito e a estima que um ser humano nutre por si próprio é o maior amor de todos… E agora, o maior amor de todos arde como uma esplendorosa fogueira dentro de mim!” Os aplausos estilhaçaram o meu pasmo. Rita expressara-se como se aquele fosse o seu desabafo de superação, após uma descriminação! Começou a cantar… E que linda voz tinha! Deixou a sala debaixo de uma enorme ovação. Eu ainda me debatia com a confusão, quando um grupo de raparigas subiu ao palco para dançar ao som de Jenny of Oldstones. Beatriz era quem mais se destacava… até Maria entrar. O meu queixo pendeu, ao vê-la mover-se entre as demais com uma graciosidade insuperável. Girava, saltava, corria e rodopiava… deslizava no ar, com o vestido branco a exaltar a leveza dos seus movimentos. Estaria presa a um cabo? A ilusão era tão magistral que parecia voar! A dança terminou e eu aplaudi com ênfase. Se tivesse de eleger a melhor prestação, Maria ganharia. Rita fora fenomenal... Maria fora perfeita! No regresso a casa, a minha mãe louvou o desempenho de vários artistas, incluindo Rita. Admirei-me por ela não mencionar Maria, mas calei-me para não ter de contar como a conhecera. Mal podia imaginar que a noite ainda me reservava o mais fabuloso dos prodígios! Já em casa, surpreendemos o meu pai profundamente adormecido no sofá… abraçado a Toy! Fixei a minha mãe, abismado, e ela abriu um grande sorriso. Aquilo só podia significar que o cãozinho conquistara o coração do meu pai! Senti um alívio e uma alegria descomunais. Após quase ter morrido, Toy encontrara uma família que o amava… Toy ia ser muito feliz! No domingo, os meus pais saíram para passear. Eu fiquei em casa para iniciar a leitura do Harry Potter… Só que mais alegremente daria uma martelada num pé! No quarto, aborrecido, pus-me a recordar a excelente performance da minha deusa. Era bom saber que Rita também bebia inspiração da música. Eu só resistia às provocações de Dinis porque fechava os ouvidos e trauteava, dentro da cabeça, as minhas “canções de guerra”, que me ajudavam a ultrapassar as dificuldades. Pus uma a tocar e distraí44

-me a dançar… Até que, numa reviravolta, deparei com Maria a observarme, trocista. O meu berro de susto fundiu-se com o seu riso. “Não quero ser desmancha-prazeres, Seby, mas tens um livro para ler!” “Como entraste aqui?”, perguntei afastando a franja da cara. Maria apontou para a janela aberta. “Posso ver o Toy?”, suplicou. “Antes, vais explicar-me porque estás sempre a sumir”, encrespei-me. “É complicado… Eu estou sozinha, Seby! A minha família está longe… Por favor, não te zangues!” Era loucura, mas ia jurar que Maria irradiava luz! Perdi a vontade de questioná-la. Abri a porta e Toy entrou aos saltos, louco de alegria. Contei a Maria que o meu pai já confirmara que aquela bola de pelo adorável se tornara um membro da família. Ela regozijou. “Estou feliz! Sei que ireis cuidar bem dele.” Depois, apontou para o livro do Harry Potter. “Queres companhia para começar?” Enfadado, confessei: “Só esse monte de feiticeiros na capa tira-me a vontade… Estas sagas famosas irritam-me! Toda a gente leu os livros, viu os filmes e conhece a história de trás para a frente.” “Isso só prova que a história é boa.” “Duvido!” “Não sejas do contra, Seby! Garanto-te que vais gostar.” Toy pulou para a cama e aninhou-se, pronto para uma soneca. Eu respirei fundo… e rendi-me aos argumentos de Maria e à inevitabilidade do meu dever. O tempo voou, muito por culpa do livro que me abriu os olhos para um mundo novo. Era inacreditável, mas estava a adorar a história do Harry Potter! As primeiras páginas tinham sido quase dolorosas de assimilar… Sem o incentivo de Maria, talvez tivesse desistido no primeiro capítulo! Porém, mal me dispus a abraçar a fantasia dentro da aventura, tornou-se difícil parar de ler. Dei por mim eufórico e ansioso, com as emoções ao rubro, subindo e descendo ao ritmo das de Harry, enquanto gravava na mente cada palavra com espanto e admiração. Tão absorto estava, que só com a chegada dos meus pais me apercebi de que Maria se fora embora. Mais tarde, após terminar o livro, admiti, com um nó na garganta, que o li tão depressa porque me identifiquei com a personagem principal, na sua luta contra o mal. A saga entusiasmou-me tanto, que comprei o segundo volume e comecei a sonhar que fazia parte da história. Tornei-me um corajoso feiticeiro, travei gloriosas batalhas e venci os meus demónios...

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O mais extraordinário era que esses sonhos me ajudavam a enfrentar o medo! Até passava por Dinis sem me encolher, o que o desencorajava a cuspir a sua coletânea de atrocidades. Estava preparado para falar sobre o livro na aula… Só que, no dia marcado, a professora anunciou de surpresa: “Por sugestão do coordenador de departamento, as vossas apresentações serão feitas no auditório da escola, com a participação das outras turmas de Português. Podem ir andando para lá.” E isso foi quanto bastou para despedaçar toda a firmeza que eu entretanto reunira. Vou ter de falar para uma centena de pessoas? Não! Não pode ser! Saí intempestivamente da sala, com o coração a mil, a mente num turbilhão e a vista a turvar-se. Sabia o que me estava a acontecer… Não! Tenho de me controlar… Não posso quebrar-me à frente deles! Sim, as pessoas também se quebram… E eu estava prestes a estilhaçar-me num milhão de cacos! Ao invés de ir para o auditório, precipitei-me para a casa de banho e fechei-me num dos compartimentos. Sentei-me na sanita, abraçado aos joelhos, a respirar aos arrancos e com as lágrimas a escorrerem pelo rosto, enquanto me balançava para a frente e para trás, e cravava as unhas nas palmas das mãos. Não consigo… O meu corpo convertera-se numa massa informe, que tremia por inteiro. A cabeça latejava, o coração ameaçava rebentar e os pulmões contraíam-se. Ia desmaiar… De repente, um estrondo sacudiu-me a consciência. A porta da casa de banho fora escancarada! No meio da aflição, a voz jocosa de Dinis feriu-me a alma: “Sebas… Sei que estás aqui!” Ouvi as risadas de Vitor, o seu melhor amigo. Começaram aos murros à porta do compartimento. Tapei a boca e encolhi-me ainda mais, em pânico. Eu não mereço isto! De súbito, silêncio. Teriam desistido? Não! Voltaram a atacar a porta, tentando abri-la com um cartão. Conseguiram. “O seboso está a chorar!” Arrastaram-me para fora e prostraram-me no chão gelado. Ali fiquei, desesperado, à mercê das suas gargalhadas. “Achaste que podias esconder-te?”, rosnou Dinis, cuspindo-me para cima. “Vamos gravar este mariconço e torná-lo uma estrela do YouTube”, lembrou-se, sacando o telemóvel. Contudo, a ideia fez Vítor vacilar. “Vá lá, Dinis… Já chega! Deixa-o em paz!” “Deixá-lo…?! Estás parvo?!” “Não… É que… Eu não posso meter-me em sarilhos! O meu pai já me avisou…” “Pois, desaparece! Não preciso de um cromo como tu para nada!”

Assisti à discussão dos meus carrascos, paralisado de horror. Porém, ao ver Vítor sair, uma chama acendeu-se dentro de mim. Mal Dinis me apontou o telemóvel, levantei-me e enfrentei-o: “Julgas que és o maior? Não passas de um cobarde, estúpido como uma pedra!” Isso não ia soar bem na gravação. Furioso, Dinis empurrou-me contra a parede, berrando: “Vais morrer…” Todavia, antes que o seu soco me atingisse, foi puxado para trás. Atónito, vi Maria dar-lhe uma palmada na mão. O seu telemóvel foi projetado pelo ar, bateu num lavatório e desfez-se em pedaços. Dinis fitou-me, com os olhos esbugalhados de assombro, e gaguejou: “C… Como… fizeste isto?” E, de novo, Maria investiu contra ele e, sem um pingo de temor, apertou-lhe o pescoço. Certo de que Dinis lhe ia bater, lancei-me em sua defesa. No entanto, detive-me ao vê-lo levar as mãos à garganta e arfar: “Para, Sebastião… Para...” Tombou de joelhos diante de Maria, mas continuou a fixar-me e a gorgolejar, como se a sufocar: “Por… favor…” Encarei Maria, perplexo. E, desta vez, não tive dúvidas. Ela espargia luz! Maria soltou Dinis. Ele despenhou-se no chão e recuou, arrastando-se sobre o traseiro, a esbofar, aterrado. Assim que alcançou a porta, fugiu. Convicto de que Dinis não vira Maria, inquiri, estarrecido: “Quem és tu?” Sim, quem era aquela rapariga que aparecia e desaparecia como por encanto, que brilhava como se coberta de pó mágico e que ninguém mais lobrigava? Seria uma feiticeira verdadeira? Ou eu estava a delirar? Então, Maria abeirou-se de mim, envolveu-me no seu olhar verde profundo e enunciou com candura: “Tu salvaste o meu melhor amigo, por isso quis ajudar-te… Mas, agora, tenho de

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ir ter com a minha família. De qualquer maneira, já não precisas de mim! A chama que hoje se acendeu em ti não mais se apagará… Vai! Tens um livro para apresentar… O primeiro de muitos desafios que hás de superar com distinção! Em breve, quando encontrares a Joana, ela irá contar-te tudo sobre mim… Sê forte, Seby! Sê grande!” Estupefacto, vi-a desvanecer-se no ar, como se feita de uma poeira cintilante que, lentamente, se dissipava ao sabor de uma brisa inexistente. Entrei no auditório com as pernas a tremer. Terá sido uma alucinação? Contudo, não tinha tempo para esmiuçar o pasmo e a incredulidade, pois já ali estava toda a gente. No palco, a professora de Português anunciava: “O Sebastião Rodrigues irá apresentar o livro Harry Potter e a Pedra Filosofal, de J. K. Rowling.” Todos os olhos se viraram para mim. Recomecei a andar, mas vacilei ao avistar Dinis no caminho. Segredava ao resto da turma, gesticulava e apontava para mim. Inesperadamente, Rita surgiu, deu-me o braço e incentivou-me a avançar. “Boa escolha de livro! Vem. Eu ajudo-te a passar pelo teu Voldemort.” Refutei: “Dinis é só um fanfarrão. A timidez e a insegurança são o meu Voldemort… mas eu vou vencê-las!” Chegado ao palco, apercebi-me de que transpirava abundantemente. Afastei a franja do rosto e engoli em seco, olhando para o teto alto e para as janelas que deixavam entrar a luz no espaço, antes de reunir coragem para enfrentar a expectante plateia. Aqui e além, ouviam-se risos abafados. “Queres que chame o INEM?”, alguém troçou. A minha professora estava a perder a paciência. “O tempo está a contar, Sebastião. Os teus colegas também têm de apresentar…” Eu consigo fazer isto, pensei. Afinal, irei falar sobre um livro que adoro… Comecei numa voz titubeante e rouca, com os nervos entalados na garganta. Porém, após uns segundos de angústia, concentrei-me totalmente, o meu raciocínio fluiu com naturalidade e a voz ganhou firmeza. A partir daí, o tempo pareceu voar… De repente, a apresentação estava concluída e toda a gente aplaudia de pé, lançando gritos de apoio! Até a minha professora exibia um grande sorriso. “Bravo, Sebastião!”, exclamou. “Estou orgulhosa do teu trabalho!” “Sebastião Rodrigues: 19,8 valores.” Fiquei estático, a fitar a professora de Português. Teria escutado mal? Os meus colegas levantaram-se e bateram palmas, tornando o momento

bem real. Fui invadido por uma onda de felicidade, como se um calor crescesse dentro do meu peito e se expandisse pelo corpo. Com uma expressão satisfeita, a professora perfez: “Quero que saibam que esta foi a melhor nota que atribuí em todas as turmas. Parabéns, Sebastião! O teu esforço e o teu progresso foram notáveis!” Agradeci, ruborizado. Vítor bateu-me nas costas, ergueu-me um braço e clamou: “Viva Sebastião Potter, O Vencedor!” Toda a turma gritou: “Viva!” E, finalmente, eu percebi o que Rita quisera dizer, ao afirmar que não existe amor maior do que a nossa auto-estima. Depois de ter superado o terror da apresentação oral, eu aprendera a confiar nas minhas capacidades. Sabia, instintivamente, que não voltaria a sofrer ataques de pânico, pois não existiam “monstros” no meu caminho que a espada da minha inteligência e a varinha mágica da minha confiança não pudessem derrotar. Volvi à realidade e confrontei-me com o esgar rancoroso de Dinis. Após o incidente da casa de banho, ele afiançara a toda a gente que eu era um bruxo, que o atacara com os meus poderes abomináveis e por pouco não o matara. Ninguém acreditara! Por fim, até os amigos se tinham fartado da sua obsessão, e começado a defender-me sempre que ele me insultava. Apesar de tudo, eu não lhe guardava ressentimentos. Pelo contrário, alimentava a esperança de que, um dia, Dinis tivesse a hombridade de admitir que errara e se retratasse. No intervalo, Rita veio congratular-me. A notícia da minha nota espalhara-se pela escola, qual rastilho de pólvora. Também trazia boas novas: “Hoje, o nosso clube de leitura conquistou mais cinco membros!” Eu lançara-lhe esse desafio a seguir à apresentação, e ela aceitara de imediato. Felizmente, reprimira a vontade de me declarar, pois, nesse mesmo dia, descobrira que Rita e Beatriz namoravam. O desabafo de Rita, no espetáculo, fora disfarçadamente dirigido ao pai e à madrasta, seguidores fanáticos de uma seita esquisita, que a tinham expulsado de casa quando ela contara que se apaixonara por uma rapariga. Como a mãe vivia na Austrália, Rita estava a morar com os avós. Para minha própria surpresa, eu não ficara amofinado nem triste com a revelação. Ainda achava que Rita era linda como uma deusa, mas o nosso convívio provara-me que só desejava ser seu amigo. Estava em pulgas para contar aos meus pais que tivera a melhor nota a Português. Era incrível o quanto a minha vida mudara numa semana…

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em parte, graças a Maria! Continuava a não saber quem ela era, ou “o” que ela era, nem porque me procurara, nem porque sumira de vez. Mas jamais a esqueceria! Num impulso do coração, esboçara o seu rosto no meu “caderno secreto”. Modéstia à parte, fizera um óptimo trabalho! Nessa tarde, desenhei o último traço e, com a respiração acelerada, escrevi num canto: “Quem é a Joana?” Nesse instante, Toy entrou no quarto e tocou-me com a pata, sinal de que precisava de ir à rua. Como os meus pais se iam demorar, levei-o a passear no parque. Já no caminho de volta, ao passar pela porta do ginásio, tornei a sorrir ao pensar que também os meus hábitos se haviam alterado. Inscrevera-me nas aulas de karaté e estava a comer melhor, não porque me sentisse “o Sebastião que come tudo e é um barrigudo”, mas porque queria ser mais saudável. Ao chegar a casa, encontrei a porta dos vizinhos aberta e algumas malas à entrada. Aquando da nossa mudança, os meus pais tinham falado neles, mas, até agora, eu não lhes pusera a vista em cima. Espreitei discretamente… De repente, Toy deu um forte puxão à trela, soltou-se e invadiu o território alheio. Aflito, corri atrás dele. Então, uma voz gritou, cheia de comoção: “Mãe, pai, o Toy está aqui!” E eu deparei com uma rapariga da minha idade, com cabelos pretos compridos, a abraçar o meu cão com os olhos verdes cheios de lágrimas. Chocado, senti-me a gelar e a arder por dentro, em simultâneo, com o coração a galope e a mente aos espasmos. “Ma… Maria?”, gaguejei. De súbito, os seus pais apareceram. “Joana, o que foi…?” Surpreenderam-se ao ver-me. A senhora reparou na bola

de pelo no colo da filha e exclamou: “Santo Deus, é mesmo o Toy!” Entretanto, os meus pais chegaram. Todos se cumprimentaram. Aparentemente, eu era o único que não entendia nada do que estava a acontecer. “O Toy era o cão da Maria”, dizia a mãe de Joana. “O Sebastião encontrou-o num descampado”, explicava a minha mãe. Ciente da minha confusão, Joana mostrou-me no seu telemóvel a foto de duas miúdas muito parecidas, ela e a sua prima Maria, a brincarem com um cão. Com Toy! A mancha branca no focinho preto era inconfundível! Será que eu tombei numa realidade paralela…? Será que isto é um sonho? Será que enlouqueci!?

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Nessa tarde, confirmei que nem tudo na vida pode ser explicado pela frieza da razão. Maria e os seus pais seguiam no carro que capotara no acidente que nós testemunháramos na auto-estrada. A “coisa preta” que eu vira a ser projetada para longe era Toy. Os pais de Maria haviam falecido de imediato; ela ficara em coma. Joana e os seus pais, tios de Maria e nossos vizinhos, quase não tinham saído do hospital, na esperança de que Maria despertasse. Só vinham a casa para dormir, mas eu nunca me apercebera deles. Então, há uma semana, no dia da minha apresentação, a luz de Maria apagara-se. Prostrada pelo desgosto, a família fizera uma curta viagem para recobrar o alento, e acabara de regressar. Sim, os meus pais sabiam disto tudo, exceto do que a Toy concernia. Inclusive, haviam atendido aos funerais. Porém, eu fora mantido na ignorância “para não ficar traumatizado”… Se eles sequer sonhassem! De alguma maneira, enquanto o seu corpo jazia na cama do hospital, o espírito de Maria procurara-me para que eu salvasse o seu melhor amigo: Toy. Após cair longe do carro, ferido e desorientado, o pobre animal devia ter deambulado em busca dos donos, até que, exaurido, se deitara para morrer. Se eu contasse isto aos meus pais, eles arrastar-me-iam para um psiquiatra, em pânico! Contudo, não fui capaz de enganar Joana. Quando lhe chamei “Maria”, ela inferiu que eu guardava um segredo, e só descansou quando o confessei. Mostrei-lhe o desenho que fiz da prima e amparei o seu choro compulsivo. “Joana irá contar-te tudo sobre mim…” E Joana contou! Para ela, Maria era a pessoa mais maravilhosa, generosa e terna que já vivera. “Porque será que ela me escolheu?”, perguntei-lhe, enquanto passeávamos Toy no parque. “Porque tu também és especial, Seby”, respondeu-me. E ficou


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encantadoramente vermelha, ao acrescentar: “E, se calhar, porque sabia que nós dois acabaríamos por nos encontrar!” Um ano depois, o Projeto Read On chegou à minha escola, e cada membro do clube de leitura foi convidado a escrever um conto. Rita já não está connosco, pois transferiu-se para a escola de Beatriz. Contudo, eu não esqueço a lição que ela me ensinou, sobre quão importante é superar os nossos medos e inseguranças, e acreditar na força do nosso coração. Logo, assim que me sentei para escrever esta história, tributo a Maria, o título surgiu naturalmente… Porque, agora, o maior amor de todos também arde com fulgor dentro de mim!

ESCOLA SECUNDÁRIA EMÍDIO NAVARRO, ALMADA TEXTO Turma 11º LH Diogo Marques Filipe Santos Gonçalo Jorge Inês Santos Ivan Rafael Joana Rosa Mariana Takenit Tomás Alves Turma 12º AV Sofia Sousa ILUSTRAÇÕES Sandra Carvalho (ilustração Toy) Turma 12º AV Ângela Nunes Professora: Maria da Conceição Costa 52

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NUNO MATOS VALENTE

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Nuno Matos Valente É natural de Lisboa. Cresceu na cidade de Castelo Branco, onde viveu a partir de 1980. Reside em Alcobaça desde 2007. É professor de Educação Visual e editor das Edições Escafandro. É coautor da coleção "Segredos" de manuais escolares para o primeiro ciclo do ensino básico, publicado pela Raiz Editora. É autor da Coleção de Ficção Juvenil "A Ordem do Poço do Inferno", recomendada pelo PNL. Foi pioneiro no estudo e compilação das criaturas tradicionais do imaginário popular português, de onde resultou a publicação do primeiro Bestiário Tradicional Português, editado pela Escafandro em 2016. Em 2019, foi-lhe atribuída uma bolsa de criação literária pela Direcção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas.

Naquela manhã, ao entrar para a aula, tornou a vê-la. Sentou-se atrás, no seu lugar do costume, e observou, sem se cansar, as linhas suaves do rosto, o cabelo longo, o ar de quem parecia estar atenta a tudo sem dar grande importância a nada. Estava sentada na segunda fila da frente e conversava animadamente com uma colega. O João sentou-se no lugar vazio ao lado do amigo. — Olha lá, Ricardo, quando é que te declaras? Fingiu não entender. — Acho que só o professor é que ainda não percebeu que tu estás apanhado. O amigo agitou-se na cadeira e não escondeu um sorriso. — Hoje vou falar com ela. — A sério? Então? — Logo te conto. Olha o “profe”. O Ricardo trabalhava numa loja de calçado depois das aulas e, na loja em frente, trabalhava a Rita. Os dois costumavam sair da universidade em direção à Rua da Vitória, aparentemente indiferentes um ao outro, apesar de percorrerem sempre o mesmo caminho. A meio da tarde, a Rita costumava sair da loja para fumar um cigarro, em pé, junto à porta. Apesar de o fazer pontualmente, e de o Ricardo ter imaginado dezenas de maneiras diferentes de meter conversa com ela, a coragem tardava. Mas, naquela tarde, tinha decidido: também ele iria lá fora fumar! Assim que viu que a Rita saía da loja para fumar, imitou-a. Naturalmente, não conseguiu evitar o ataque de tosse. Mas, pelo menos, chamara a atenção da colega do outro lado da rua que, inesperadamente, a atravessou ao seu encontro. — Nunca tinhas fumado, pois não? — troçou. — Não. — Então não comeces. Dizem que mata! Antes que o Ricardo tivesse tido tempo de pensar numa resposta, ela apagou o cigarro e voltou à loja. A conversa não correra como ele imaginara, mas era um progresso. 55


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O resto da semana não trouxe novidades: a Rita não tornou a atravessar a rua, nunca se voltou para trás na aula, não tornaram a contactar. Talvez aquela pequena interação, que fora o ponto alto do seu semestre, não tivesse tido qualquer significado para ela. Chegou o sábado. Levantou-se tarde. Tentou estudar, adiantar alguns trabalhos, mas nenhuma tarefa chegava realmente a ir por diante, entrecortadas por consultas constantes ao telemóvel, às redes sociais, aos emails. Perguntava-se quanto tempo duraria aquela letargia. Aquilo seria ele, agora? Os relógios ainda não marcavam as cinco da tarde quando as primeiras luzes se acenderam nos candeeiros da rua sem qualquer efeito na iluminação do bairro para além dos pontinhos alinhados que pareciam sublinhar os caminhos possíveis. Permanecia imóvel, de lápis na mão assente sobre uma folha branca, sentado à mesa da cozinha coberta de papéis amarrotados. Quando o candeeiro que estava do lado de fora da sua janela se acendeu precocemente, a sua mão movimentou-se sobre o papel e a ponta do lápis começou a libertar partículas de carvão que formariam setenta e duas vezes a palavra Rita, Rita, Rita, Rita...” À septuagésima terceira repetição parou e decidiu dar àquela folha o mesmo destino das outras que se amontoavam amarfanhadas à sua frente. Não chegou a terminar o gesto, interrompido por um zunido familiar, emitido pelo smartphone pousado na cadeira ao seu lado. O ecrã iluminou-se com um número de nove algarismos que não reconheceu. O aparelho vibrou um pouco mais até que, por fim, sossegou. Um ícone indicava que a chamada ficara por atender. Deitou as folhas todas para o lixo e abandonou a cozinha em direção ao quarto, evitando o colega de casa, e fechou-se sozinho, saltando para a cama, onde tinha decidido fitar o vazio das paredes. As imagens que lhe ocupavam o pensamento projetavam-se sobre a parede, sempre o mesmo tema, sempre as mesmas imagens, sempre a mesma miúda. E assim esteve, durante algum tempo, até que um pequeno pensamento, como uma larva que eclode pequenina, começou a incomodá-lo, primeiro como um grãozinho, pouco depois um ruído de fundo e, por fim, um impulso pleno transformado em sinais elétricos com que o seu cérebro comandaria os músculos da sua mão e braço na direção do telefone e do ícone de chamada por atender que permanecia no ecrã. Observou o número mas, apesar de

algum esforço, não lhe conseguiu associar nenhuma memória. Decidiu ligar de volta. Escutou um toque, dois toques… e quando se preparava para desligar, o aparelho do lado de lá atendeu. — Estou, Ricardo? — Sim? — É a Rita.

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O sol brilhava intensamente naquela tarde de domingo. Sem conseguir controlar o desejo de a ver, chegara meia hora mais cedo ao parque perto do trabalho onde ficara combinado o encontro. Sentado num banco de madeira em frente de um lago com patos, observava as brincadeiras das crianças que por lá andavam. Ela chegara à hora combinada trazendo um vestido amarelo. Sentados lado a lado sem falar, abanava a perna, agitado, enquanto ela, corada, mexia no cabelo. — Aquela menina ali no escorrega podia ser eu. Tranças e tudo. — Vai lá dizer-lhe que quando crescer vai ser uma mulher linda. Passaram a encontrar-se com mais frequência. Na faculdade trocavam olhares e beijos e palavras. Com a chegada do inverno, escurecia cada vez mais cedo e as luzes da cidade brilhavam com intensidade ao refletirem o chão molhado. Certa noite, em que a cidade estava muito movimentada, saíram para jantar. No restaurante onde se encontravam, os empregados não tinham mãos a medir para os pedidos, pormenor que passava completamente ao lado do casal. Não há vocabulário em todo o dicionário que possa descrever a perfeição do encontro. Nem das horas que se seguiram, os dias, e algumas semanas. Eram a definição de paixão. Era frequente vê-los de mão dada pela rua, fazendo sorrir quem por eles passava, fosse pela doce memória que o par lhes despertava, fosse pela confirmação de que aquela harmonia é, afinal, alcançável. Numa tarde de domingo encontraram-se no parque. Ricardo, sentado num banco, viu a namorada aproximar-se com o seu cão, Feijão, pela trela. — Já estava preocupado! — Mas cheguei antes da hora… — Se calhar eram saudades. — Então, amanhã venho mais cedo. Feijão corria alegremente atrás dos patos enquanto Rita e Ricardo tentavam


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acompanhá-lo sem perder o fio à conversa. Quando Feijão se cansou, voltou para junto da dona que pôde finalmente sentar-se ao lado de Ricardo num daqueles bancos prateados de jardim, por baixo de um grande carvalho que lhes fazia sombra. — Amanhã sempre vais ver o meu jogo? O meu colega de casa convidou-te para jantar. Também vai a namorada dele. A Ana, conheces? Depois podemos ir para tua casa. — Sim, claro, vou levar o Feijão ao veterinário, mas depois vou lá ter. Posso levá-lo? — É na boa! Eu sei que ele não morde. Já estava a escurecer quando decidiram ir embora e despediram-se com um beijo. Ricardo fez o longo caminho até casa sobre nuvens. Ao chegar à porta, meteu a mão na mochila para retirar as chaves e sentiu um tremor: era o seu telemóvel. Observou o nome “João” no ecrã e, quando atendeu, escutou uma voz exclamativa: — Mano, nem sabes o que acabei de ver! Ricardo, ao destrancar a porta, hesitou, mas arriscou perguntar: — João? O que é que se passa?! — Acabei de ver a Rita a entrar no meu prédio em direção ao andar do meu vizinho, o Fernando do segundo ano! — O Fernando? Qual Fernando? O ex dela? — Ya! Desligou a chamada abruptamente e, sem olhar para trás, dirigiu-se ao prédio do amigo e do vizinho dele. “O Fernando”, pensou. “A Rita continua a encontrar-se com o ele!”. Perto do prédio, protegido pela penumbra, estacou e permaneceu assim, como um lobo à espera de uma presa que não quer realmente apanhar. Já se fazia noite e apenas a lua iluminava aquela rua, quando finalmente a Rita saiu do maldito prédio. Deu um passo em frente, para o luar. — Ricardo? O que é que estás aqui a fazer? — Isso pergunto eu. Já sei de tudo, Rita. Andas a trair-me? Como é que é possível? Depois de tudo o que temos feito um pelo outro, partilhei contigo a minha vida inteira e é assim que me retribuis? O que é que esse gajo tem que eu não tenho, Rita, hã!? Diz-me! Quero saber! — Ricardo! Já chega! Eu e o Fernando somos amigos! Sabes que mais? Não confias em mim? Esquece-me! 58

— Rita! A rapariga já se afastava. — Não me procures! Devia ter corrido atrás dela, devia ter-se justificado, mas os pés recusaram sair do lugar. Só caiu em si já estava de volta em casa. Sentou-se no sofá. Olhou para cima e respirou fundo na tentativa de se acalmar. Ao fim de alguns minutos, os sentimentos de angústia e raiva foram desaparecendo e encheu-se de coragem para ligar para a Rita. Da primeira vez ela não atendeu. À segunda tentativa, também não. Agitado, andava de um lado para o outro, e ensaiou uma terceira tentativa. Finalmente a Rita atendera a chamada, mas permanecia muda. — Estou? Rita? Podemos ter uma conversa calma?! — Ricardo, eu... — começou Rita por dizer, interrompendo-o. — Rita, por favor, não digas nada de que te possas arrepender. — Eu preciso de um tempo, eu preciso de espaço, está tudo muito confuso na minha cabeça. Eu acho que devíamos pensar em nós mesmos durante um tempo. Percebes? Percebes, Ricardo? Estou? Alô? Resolveu respeitar e dar o tempo que Rita lhe pedira. Por isso, quando passava por ela na faculdade, apenas lhe dizia bom dia e lhe perguntava como ela estava, ao que Rita respondia que estava bem e retribuía-lhe a pergunta. O tempo foi passando e a relação deles resumia-se a isso. Até que, um dia, ela resolveu procurá-lo para conversarem. Ricardo estava no corredor, em frente à sala onde normalmente tinha aulas. Estava de frente para a porta por onde Rita havia entrado e ria de algo que o João tinha dito. Ela observava-o atentamente de longe e, quando os seus olhos finalmente se cruzaram, não soube decifrar aquele olhar. Avançou vacilante na sua direção. Sentia o olhar de Ricardo cravado em si enquanto caminhava lentamente, pensando no que haveria de dizer. Quando estava prestes a alcançá-los, o João retirou-se - decerto ele sabia que estava para vir uma conversa delicada que dispensava espectadores. — Olá…— disse ela timidamente, encarando-o finalmente, frente a frente depois de todo aquele tempo em que se trataram quase como estranhos — Olá... Rita, tudo bem?— respondeu ele sem saber muito bem o que dizer. — Olha, Ricardo… não quero estar aqui com rodeios, ambos sabemos por que 59


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é que eu estou aqui e acho que não vale a pena fingirmos que está tudo bem quando não está. Somos os dois adultos e sei que parece um pouco hipócrita dizer isto depois de ter sido eu a evitar esta conversa, mas eu realmente precisava de um tempo para pensar sobre nós... se é que ainda existe um nós… — acrescentou, baixinho. — Rita, eu respeitei o teu espaço, dei-te tempo para pensares e também aproveitei eu mesmo para pensar e tu sabes que eu te amo. Acho que nos devíamos dar mais uma oportunidade. Eu realmente acredito que o nosso amor é muito mais do que isto. Eu precipitei-me, eu sei. Mas quando te vi com ele... — Ricardo, o amor é fundamental num relacionamento, mas também tem de ser baseado na confiança, no respeito. Como é que pudeste pensar que eu te estava a trair? A partir do momento em que tu te envolves com alguém tens de ter a noção de que as tuas escolhas, as tuas atitudes não te afetam somente a ti. Magoaste-me, mostraste-me que não confias em mim, que não confias na força do nosso amor, da nossa cumplicidade. Como esperas que eu continue num relacionamento onde o meu parceiro desconfia do que eu faço? Onde o meu namorado me segue, me tenta controlar? — Rita, ouve, eu sei que errei mas… Levantou a mão, como que pedindo para que ele aguardasse e prosseguiu: — Ao dizer isto, não estou a pôr as culpas todas em ti, tu não estavas num relacionamento sozinho… eu também tenho a minha parcela de culpa, devia ter sido honesta contigo desde o início e… olhando agora para trás, nem sei porque não o fui. Mas agora já está feito e só nos resta lidar com as consequências. Talvez isto que aconteceu tenha sido apenas um "bom pretexto" para pormos um fim a isto... — Tu ainda não entendeste, pois não? Eu não quero acabar contigo. Eu quero lutar por nós, eu quero lutar por ti, Rita! — Já não há nada pelo que lutar, Ricardo! — disse ela enquanto uma lágrima solitária lhe corria pela face direita. — Quanto mais cedo pusermos fim a isto melhor, por tudo o que nós vivemos, peço-te que não o tornes mais complicado do que já é. Ricardo aceitou a decisão de Rita, mas no seu coração sentia uma raiva imensa, um rancor inexplicável.

Seguiu-a vezes e vezes sem conta e ela nunca se apercebeu de nada. Até um dia. Parecia-lhe que ela se dirigia para a biblioteca mais próxima de casa, talvez para evitar vê-lo na biblioteca da faculdade, mas era algo mais sinistro que isso. Um rapaz? Aquilo era um rapaz?! Não podia acreditar no que os seus olhos viam! Aquele era o Fernando? Aproximou-se. — Então, Rita? Afinal eu tinha razões para ficar desconfiado! — Ricardo?! — balbuciou a rapariga, levantando-se da cadeira onde estava sentada. — O que fazes aqui? Estavas a espiar-me? Outra vez? — E pelos vistos com razão! O Fernando estava visivelmente atrapalhado e não dizia nada. — Não acredito que depois de tudo aquilo que passámos por culpa dos teus ciúmes, tu ainda me segues! E o pior é que nós já nem namoramos! Nós não estamos juntos, Ricardo. Vê se pões isso na cabeça de uma vez por todas! Custou-me imenso, mas eu acabei contigo justamente porque não existia confiança. O mínimo que podias fazer era dar-me um pouco de paz! — Ouve lá – disse o Fernando, aproximando-se. – Ela já te disse que a deixasses em paz! Não percebes português? Cego pelo ódio, só caiu em si quando o Fernando caia no chão, consequência de um soco que nem um nem outro tiveram tempo de evitar. Caiu no chão, bateu com a cabeça e ficou inconsciente. — Fernando! Ó Ricardo, o que é que fizeste? Fernando? Alguém chame uma ambulância! Liguem para o 112! Depressa! A ambulância chegou e levou o Fernando para o hospital. Ela entrou na ambulância com o rapaz ferido e, quando o bombeiro fechou a porta, lançou-lhe um último olhar, um que o Ricardo não soube decifrar. Chamou um Uber e dirigiu-se ao hospital.

Dias se passaram desde então e Ricardo não se conformava. Decidiu, então, tornar a segui-la. Era a pior decisão que podia ter tomado, ele sabia mas, às vezes, há algo dentro de nós que não conseguimos controlar.

— Boa tarde. Um rapaz chamado Fernando Lopes entrou hoje no hospital, não deve ter sido há mais de meia hora, ele veio de ambulância. Sabe onde está? A rececionista consultou o computador e escreveu umas palavras num pedaço de papel, que lhe entregou. — É neste piso, cama 233. Pode subir por aquele elevador. Entrou no elevador, subiu ao segundo andar e dirigiu-se ao corredor das enfermarias. Tremeu quando viu a especialidade: Oncologia.

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Entrou no corredor, sentiu um frio na barriga como se o seu coração congelasse a cada passo que dava naquele escuro e solitário corredor. Antes de dar o próximo passo, olhou em frente e viu a Rita, sentada com a cabeça entre as mãos como uma deusa grega em lágrimas enfeitando o fundo daquele corredor triste. — Ricardo? Outra vez? Não me deixas em paz? — Espera, Rita! Vinha pedir desculpa! A sério. Quero ver o Fernando e pedir-lhe que me desculpe, estou tão arrependido! — O Fernando está ali dentro, mas não podemos entrar. — Porquê? E porque é que ele está neste piso? — Ele foi diagnosticado com um tumor cerebral recentemente e só me contou a mim, nem os próprios pais sabem! Por isso é que o trouxeram logo para aqui! — Então foi por isso que tu… — Foi! Não te contei nada porque ele me pediu. Querias o quê, que o abandonasse naquela altura? Por causa dos teus ciúmes? — Eu não podia adivinhar. — É melhor ires embora. Ele não te pode receber e eu… eu não te quero ver. O alarme tocava. Abriu um olho, olhou para o despertador: 7:20 “Tenho aula. Mas não me apetece nada levantar”, pensou. O despertador tocou de novo. Caíra no sono. 7:29 “É tão cedo. Como estará o Fernando? E a Rita? Estará com ele?” O despertador insistia: 7:36 A cara pesava na almofada quente, o peso do corpo deformava docemente o colchão. “Rita, espero que me perdoes. Estás a ouvir-me, Rita? És tu que estás aí ao fundo? Eu sei que me vais perdoar. Não sei o que me deu, lamento, lamento!”

7:45 7:54 8:03 “Não vou às aulas, Rita. Preciso de descansar. Ainda bem que voltaste. Estás diferente.” ”Descansa meu amor. Vai tudo ficar bem” “Perdoas-me?” “Claro, Ricardo. O amor perdoa tudo. Sabes que o que temos é amor, não sabes?” 8:12 “Ficas comigo?” “Claro, meu amor. Para sempre. Aqui, contigo.” 8:21 8:30 8:39 … ESCOLA SECUNDÁRIA FERNÃO MENDES PINTO, ALMADA Turma 11º7 do Curso Científico-Humanísticos - Línguas e Humanidades Alexandre Abrantes da Silva

João Filipe Babo de Almeida Félix

Andreia Filipa Pedreira Pinto

Leonardo Filipe N. Pedroso

Beatriz Filipa Ramalho Abreu

Luís Carlos Pestana Pica

Beatriz Gomes Rebelo

Luís Henrique Mourato Rosinha

Beatriz Silva Santos

Mafalda Nabais Baldo F. Bóia

Carlos Miguel Mota Dinis

Mariana Painto Correia P. Barros

Daniel Alexandre G. Ucuahamba

Nadine Simone Silva Monteiro

Daniela André Gunza

Rafaela Ferreira Esteves

Daniela Filipa dos Santos Simões

Rodrigo de Oliveira Figueiredo Tito

Elisiane Euridice Ramos Tavares

Rúbia de Fátima C. Marques da Costa

Emanuelle L. Basilio de Oliveira

Tomás Fernandes Santos

Érica Martins de Borba 62

Inês Figueira Correia

Professora: Sandra Videira

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INGLATERRA


BALI RAI

O RAPAZ E O GRILO

O RAPAZ E O GRILO

Bali Rai escreveu mais de quarenta romances sobre adolescentes e crianças. Nascido em Leicester, a sua escrita é inspirada na sua classe trabalhadora e no contexto multicultural. Uma voz de destaque na ficção juvenil no Reino Unido, Bali é um apaixonado defensor das bibliotecas, da leitura por prazer e da promoção da literacia. Tem quase vinte anos de experiência no trabalho com jovens em todo o Reino Unido e noutros países e é extremamente popular entre as escolas. Foi nomeado e já ganhou inúmeros prémios desde 2001. Bali trabalhou em estreita colaboração com The Reading Agency, Booktrust, The National Literacy Trust, Empathy Lab UK e muitas outras organizações, e recebeu um doutoramento honorário pela De Montfort University em 2014. Participou no programa Rebel Writers da BBC1 e é embaixador / patrono de vários projetos artísticos e de alto nível. Foi juiz do Costa Book Award em 2019/20 e, atualmente, está a trabalhar em dois novos títulos. O seu livro mais recente é Now or Never - A Dunkirk Story, e o seu próximo título, Mohinder's War est disponível em junho de 2020.

O pássaro mágico abanou a cabeça. As penas roxas com pontas douradas, os olhos cor de safira e o bico carmesim pontiagudo davam-lhe um ar peculiar. E era. — Só há uma solução — disse. — Qual? — Tens de corrigir o teu último erro — respondeu o pássaro mágico. — O meu último erro? — Não gosto de me repetir. Agora vai-te embora antes que me arrependa e decida comer-te. — Mas o que devo fazer? — Tu é que sabes. — Disse o Pássaro Mágico — Tens uma semana a partir do nascer do sol de amanhã. A Profecia pode ajudar-te... O Arjun ficou desanimado. Ao entrar em casa, os Bhags tinham trazido terra para o chão de pedra acabado de lavar. — Volta a lavar — disse o Sr. Bhag, um homem cruel e volumoso. O casal não tinha filhos, mas eram os tutores legais do Arjun. Eram comerciantes ricos que o tinham tirado das ruas imundas da cidade sobrepovoada. — Mas acabei de o lavar — queixou-se o Arjun. — Vá — disse a Sr.ª Bhag, abanando o dedo indicador na sua direção — Não reclames. Devias agradecer-nos por termos tido a amabilidade de te salvar. — Mas… — Basta! — Gritou — Mostra um pouco de gratidão, criatura nojenta! A Sr.ª Bhag pegou num tacho com guisado frio. — Meu Deus — disse ao marido — Acho que fiz asneira. O tacho de barro bateu violentamente contra as lajes e o guisado de galinha gorduroso desenhou uma poça no chão. — Quando acabares, — disse a Sr.ª Bhag ao Arjun — podes fazer mais guisado. O Arjun mordeu a língua. Um guisado estragado era um pequeno preço a pagar. As cicatrizes que tinha nas pernas e no torso contavam histórias de castigos muito mais dolorosos. Um escravo à mercê dos Bhags. — Tens um teto, cama e comida — disse-lhe o Sr. Bhag — Quando te 67


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encontrámos quase não tinhas roupa no corpo e estavas esfomeado. Nunca te esqueças da nossa amabilidade, criatura. Assim que viraram as costas, o Arjun tentou afastar as lágrimas. Era verdade que o tinham tirado da rua. Era verdade que lhe tinham dado cama, roupa e um pouco de comida. No entanto, também o tinham escravizado. Era repreendido e insultado todos os dias e frequentemente espancado. Tinha uma vida miserável. Questionava-se constantemente se não estaria melhor na rua. Teria fome e estaria sujo, mas seria livre. — Eles não sabem nada — sussurrou. — Eu estou destinado a muito mais do que isto! O Arjun não sabia qual era o seu verdadeiro nome, não sabia que idade tinha, nem quem era a sua família biológica. Todas as memórias da sua infância estavam difusas. — De certeza que te bateram quando eras pequenino — tinha-lhe dito um dia a Sr.ª Bhag — Bateram-te na cabeça para perderes a memória. O que também explica a tua estupidez. — E quem pode culpar os pais dele? — Acrescentou o Sr. Bhag — Já se imaginou ter esta criatura inútil como filho? Aposto que estavam desesperados e que o abandonaram por vergonha. Estes campónios não têm qualquer sentido de responsabilidade, e este foi provavelmente um entre muitos; já se sabe que eles procriam que nem coelhos. Mas o coração do Arjun dizia-lhe outra coisa. Uma sensação de dignidade que negava a sua deplorável existência. Todas as noites dava voltas e voltas na cama, convencido de que os seus sonhos eram reais. Sonhava com banquetes luxuosos e espaços magníficos. Sonhava com uma vida muito diferente da sua. — Talvez seja o filho há muito perdido de um casal rico? — Sussurrava na escuridão — Devem morrer de saudades minhas e anseiam pelo meu regresso. Quanto mais aquele casal infernizava a vida do Arjun, mais a sua imaginação voava. — Eu era um príncipe — dizia. — Um grande guerreiro. Um homem de medicina que curava doenças. Contudo, a sua realidade era outra. Uma realidade dura, impaciente por destruir as fantasias ridículas e extravagantes do Arjun. Ao varrer o chão a altas horas da noite, ansioso por chegar à sua cama de palha, surgiu no parapeito da janela um grilo maior do que o normal, de corpo verde e cabeça cor de laranja. Dedicou-se a observar o rapaz taciturno

trabalhar, sem rumo. Demasiado deprimido para se aperceber da existência do Grilo. — Perfeito — sussurrou o Grilo com os olhos postos num monte de ossos de galinha. Aproximou-se lentamente pelas paredes de pedra. Os ossos descartados tinham um cheiro forte e desagradável, tal como as cascas de legumes e as mangas bolorentas ao seu lado. O Grilo ia ter uma bela ceia, se o rapaz não reparasse nele. Felizmente para o Grilo, cricrilar não era um problema. Era o único grilo que conseguia ficar calado. — Um talento conveniente — disse ao aproximar-se do seu jantar. Enquanto o Arjun terminava as suas tarefas, o Grilo empanturrava-se. Pouco depois, o rapaz deitou-se totalmente vestido e exausto. O Grilo comeu até estar satisfeito e quando terminou, foi deitar-se na palha ao lado da cabeça do rapaz. — Esta poderia ser uma bela casa — disse o Grilo ao deitar-se. — Se eu quisesse ser um grilo, quero eu dizer. O Arjun abriu de imediato os olhos. — Quem disse isso? — Perguntou, de olhos postos no grilo. O inseto ficou imóvel, com medo de ser esmagado. — Olha a minha sorte, — disse o Arjun. — Agora oiço vozes. Como se não tivesse já problemas que chegue. Ainda considerou afastar o grilo com um piparote, mas não o fez. — Vive e deixa viver, — disse. — Mas não comeces a cricrilar e deixa-me dormir. — Eu não cricrilo — respondeu o Grilo. O Arjun saltou da cama. — T-T-T... — Gaguejou. — Sim, — respondeu o Grilo. — Falei. — Mas tu és um... — Grilo. Eu sei. Incrédulo, o Arjun abanou a cabeça. — Estou a ficar doido. Devo estar a perder o… — Não, nada disso. Mas sim, percebo porque o dizes. Quem é que já viu insetos falar? Depois de se acalmar um pouco, o Arjun sentou-se. — Então, isto está mesmo a acontecer?

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O Grilo assentiu. — Sim — disse. — A menos que eu esteja muito enganado. — Como te chamas? — Que eu saiba não tenho nome — mentiu o Grilo. — O meu nome também não é meu — disse o Arjun com um ar triste. — A sério? Conta-me tudo. O Arjun e o inseto falaram até o sol nascer. O rapaz contou tudo ao Grilo, desde as suas memórias confusas e sonhos grandiosos, a ser encontrado na rua pelos Bhags. O Grilo ouviu com atenção tudo o que este tinha para dizer, respondendo-lhe esporadicamente. O rapaz falou até adormecer de tão exausto que estava. O Arjun tinha apenas dormido uma hora quando a Sr.ª Bhag irrompeu pela cozinha. — Acorda, criatura! — Disse a rosnar. — O nosso pequeno-almoço? O Arjun saltou da cama, vomitando desculpas. A Sr.ª Bhag ignorou-as e bateu levemente nas costelas do Arjun com um rolo da massa. Quando este gemeu, ela bateu-lhe novamente. — Inútil! — Gritou. — Levanta-te! O Grilo viu tudo o que tinha acontecido. Mais tarde, depois de o casal sair, aproximou-se do campo de visão do Arjun. — Eles são muito maus — disse. O Arjun pestanejou. — Ah, então não foi um sonho. — Não — respondeu o Grilo. — Como vamos parar estas pessoinhas? — O que podemos fazer? — Perguntou o Arjun. — Que escolha tenho? — Meu amigo — disse o inseto — há sempre algo a fazer. Mais tarde, o Arjun arrastou-se até à zona comercial, sempre com o Grilo no seu ombro. O mercado era muito movimentado e ruidoso, igualmente nauseabundo e fragrante. Na banca da fruta, os habitantes espalhavam mexericos sobre a Imperatriz. Enquanto os pobres descansavam perto de esgotos a céu aberto e pediam ajuda. — Dizem que é uma bruxa — disse um. — Sim — disse outro. — Ouvi histórias de magia negra e bruxaria. — Matou o próprio irmão, — disse o primeiro. — Se bem que ele era um soberano desprezível. 70

O outro homem sorriu. — Fizemos uma festa quando ele morreu. — Quem não fez? — Disse o primeiro. — A irmã é tão má quanto ele. Quanto mais cedo nos livrarmos dela, melhor. — A Profecia vai cumprir-se — disse o outro. — Bendita seja a Profecia. O Arjun ficou intrigado pelos mexericos. — Que profecia? — Não é nada, são só disparates supersticiosos — disse o Grilo. — Estas pessoas acreditam em tudo e mais alguma coisa. — É óbvio que odiavam o Imperador. — O Imperador era um homem cruel e rancoroso — disse o Grilo. — Como sabes? — Nem sempre fui um inseto. — Reencarnaste e lembras-te da tua vida passada? — Sim. Acredita, é uma maldição. — O que fizeste para teres esse meu carma? — Perguntou o Arjun. — Não é assim tão mau — protestou o Grilo. Mais uma pequena mentira sem importância. O Grilo passou quatro dias a implorar que o Arjun fugisse. Quatro dias em que o rapaz foi insultado, espancado e ridicularizado. Ao quarto dia, quando a Sr.ª Bhag não gostou do estado tépido do seu chá, foi buscar um cinto e começou a chicotear o Arjun impiedosamente. Os gritos do rapaz apenas a encorajavam mais. Finalmente, ao nascer do quinto dia, o rapaz ferido cedeu. — Talvez tenhas razão — disse ao Grilo. — E tenho — respondeu. — Se ficares, vão acabar por te matar. — Mas para onde posso ir? — Eu sei de um sítio — disse o inseto. — Eu explico-te tudo. — Explica, então — pediu o Arjun. — Mais logo — respondeu o Grilo. — Primeiro tens de arrumar tudo o que queres levar. Temos de ir embora antes que eles acordem. O Arjun vestiu a única roupa e calçou os únicos sapatos que tinha. Não tinha mais nada. No lugar de tudo o que não tinha, pegou em pão, fruta e frango, bem como na faca mais afiada. 71


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— Pelo sim pelo não — disse. — Inteligente da tua parte — respondeu o Grilo. Com a manhã aproximar-se, afastaram-se da casa, sempre com cuidado de permanecer nas sombras. A cidade era um labirinto de ruas e becos estreitos e o Grilo parecia conhecê-la como a palma da sua mão. Em pouco tempo, estavam muito longe da casa dos Bhags e a aproximar-se do palácio real. — Porque estamos aqui? — Perguntou o Arjun. — Eu trabalhava aqui — revelou o Grilo. — Sei onde nos podemos esconder. O palácio fortificado tinha apenas duas entradas bem protegidas. A muralha do lado norte estava rodeada por um lago e foi para aí que o Grilo levou o Arjun. — Há ali uma sarjeta — disse o Grilo. — E um túnel que nos vai levar até um anexo abandonado. Só eu sei da sua existência. A outra pessoa que o conhecia já morreu. — Quem era? — O Imperador — respondeu o Grilo. — Conhecias o Imperador? O Arjun estava chocado. — Ele era o meu melhor amigo — confessou o Grilo. O inseto esperou uns momentos antes de continuar. — Fui eu que o matei.

— És muito jovem para compreender. — Disse o Grilo. — Questões sentimentais para lá da tua compreensão. — Estavas apaixonado pela Imperatriz? — Disse o Arjun, provando que compreendia. — Ele não devia ter morrido — respondeu o Grilo. — O veneno só o devia ter incapacitado. Ela ia destroná-lo e assumir o controlo do império. — Mas morreu? — Sim — disse o Grilo. — E ela traiu-me. Usou o mesmo veneno em mim, também me queria matar. Deu-me tâmaras envenenadas. E eu que nem gosto de tâmaras... — É o carma — arrematou o Arjun. O inseto franziu o sobrolho. Ou o equivalente para os Grilos. — Algo do género — disse. O Arjun olhou à sua volta para as paredes de pedra cheias de limo e tentou ignorar o enorme lagarto dourado de olhos escarlate postos neles com a língua a serpear. — Então porque estamos aqui? — Perguntou o rapaz — Preciso da tua ajuda — disse o Grilo. — Tenho de restabelecer o meu equilíbrio cármico e voltar à minha vida. — Não estou a perceber — confessou o Arjun. — Não te preocupes. Já vais perceber.

Entraram na sarjeta e o Arjun rastejou pelo túnel com o Grilo no seu cabelo. Estavam a aproximar-se do anexo secreto. Uma vez lá dentro, o Grilo contou-lhe tudo. — O meu nome era Deven. Era um assassino. O melhor de sempre. O Imperador era meu amigo de infância. — Como foste capaz de matar o teu amigo? O Grilo fez uma pausa, refletindo sobre o que dizer. — O Imperador estava consumido pelo poder — respondeu por fim. — O povo começou a odiar a sua crueldade e a irmã do Imperador suplicou-me que a ajudasse a livrar-se dele. — E porque concordaste? Podia ser mau, mas era teu amigo. — É complicado — respondeu o Grilo. — Complicado?

Não era possível chegar ao anexo a partir do palácio, a não ser que soubessem da sua existência. Era um refúgio clandestino, escondido por detrás de uma parede falsa e uma porta de pedra secreta. — Foi o pai do Imperador que o criou — disse o Grilo. — Para se esconder das suas dezasseis mulheres e trinta e sete filhos... O Arjun estava chocado. — Outros tempos — disse o Grilo. — Não devemos julgar. — Ganhavas a vida a matar pessoas — relembrou o Arjun. — De certa forma, julgavas pessoas, não? — Tão inteligente que tu és — disse. — E irritante. — Posso ser novo, mas não sou idiota — respondeu. O Arjun subiu os degraus gastos até chegar à porta secreta. — Empurra esta pedra — disse, pousando na parede. — É preciso fazer alguma força.

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O Arjun esperou que o Grilo se afastasse e começou a empurrar. Quando nada aconteceu, tentou uma segunda vez. — Mais força! — Insistiu o Grilo. Depois de várias tentativas, o mecanismo finalmente cedeu e a porta abriu-se. Do outro lado, esperava uma ampla, opulenta e deserta sala. — Os aposentos do Imperador — disse o Grilo. — Não estão a ser usados porque... — Mataste o teu melhor amigo para conquistar o coração da irmã dele. O Grilo queria esbofetear o rapaz. Se ao menos o pudesse fazer. — O sarcasmo é... — Muito oportuno — concluiu o rapaz. — Dadas as circunstâncias. — Cala-te e deixa-me pensar — disse o Grilo. — Estamos numa luta contra o tempo. — Como assim? O Grilo instalou-se num parapeito da janela que estava a ganhar pó. O vidro tinha uma enorme camada de sujidade. — Limpa este vidro — pediu o Grilo. — Porquê? — Para conseguir olhar lá para fora, como é óbvio! O Arjun levou um dedo indicador ao vidro e fez um círculo pequeno. — Olha para o pátio — disse o Grilo. Os jardins do palácio estavam muito movimentados. Havia bancas improvisadas a vender bebidas, fruta e doces e vários cabritos a assar sobre carvão incandescente. As paredes estavam decoradas com tecidos acetinados dourados e escarlates. Um grupo de músicos ensaiava num palco temporário. Os cortesãos corriam de um lado para o outro em pânico enquanto gritavam uns com os outros. — Parece ser uma festa. — É o aniversário da Imperatriz — disse o Grilo. — Hoje? — Não, estava a brincar — respondeu o inseto. — Sim, hoje! O Arjun sentiu um súbito impulso de esmagar o inseto, mas resistiu. Levantou a cabeça e reparou que estava a ser erguido um patíbulo. — E aquele carrasco? — Perguntou, observando o homem gigante que testava as cordas. — A Imperatriz gosta de ver execuções — explicou o Grilo. — É tudo um espetáculo para o povo.

— Enforcamentos? — Respondeu o Arjun. — Que primitivo. — O Imperador fazia o mesmo — disse o Grilo. — É uma tradição de família. Comer, beber, festejar, matar umas quantas pessoas que não queres voltar a ver. — Mas que família — disse o Arjun. — Não gostava de fazer parte desta família. — Quem gostaria? — Respondeu o Grilo. — Nada disto explica o que estamos aqui a fazer — disse o Arjun. — É fácil. Vamos matar a Imperatriz para eu recuperar a minha vida. O Arjun caminhou até à enorme cama e deitou-se. Fechou os olhos e imaginou como seria ter uma vida cheia de riquezas e alegria. Como seria ter criados à sua disposição, um palácio e um império só dele. Como seria estipular todas as regras. Seria como estar no Paraíso. — Então? — Perguntou o Grilo. — Não — respondeu o Arjun, recostado em mais de uma dezena de almofadas cor de marfim com as melhores penas de ganso. — Não podemos simplesmente ficar aqui? — E fazemos o quê? — Disse o Grilo. — Queres viver escondido e entrar no palácio à socapa para roubar comida? — Porque não? — Seríamos apanhados e mortos — respondeu o Grilo. — Bem... tu serias. Eu voava daqui para fora. Provavelmente coziam-te em água a ferver ou deixavam-te ser espezinhado por elefantes. Problema teu… — Então porque precisas de mim? O Grilo ansiava pela sua forma humana. Só para poder bater no rapaz. — Porque sou um grilo — disse. — Não posso matar a Imperatriz. Tens de ser tu. — Não! — Exclamou o Arjun. — Não vou matar ninguém. É imoral e cruel e... — Ela é um monstro! — Disse o Grilo. — Vais fazer um favor a todos. — O que queres dizer é que estaria a fazer-te um favor — disse. — Porque o faria? — Porque também seria bom para ti — disse o Grilo. — Porquê? O rapaz fechou novamente os olhos e deu asas à sua imaginação. — Porque eu te matei — revelou, por fim, o inseto. O Arjun caiu por terra. — O quê?! — Disse, estupefacto. — Eu matei-te — repetiu o inseto. — Mas eu nunca te tinha visto antes — disse o rapaz.

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— Tinhas, sim — respondeu. — Não estou a... — disse o Arjun. — Tu eras o Imperador! Vinte minutos depois, o choque de Arjun ainda era bastante visível. Estava perfeitamente imóvel na cama do Imperador, na sua cama... — Todos aqueles sonhos — suspirou. — Todas aquelas vezes em que sentia que era outra pessoa. — Eram visões da tua vida passada — disse o Grilo. — Não é possível — disse o Arjun. — As pessoas não andam por aí a lembrar-se das suas vidas passadas, certo? — Talvez seja uma falha cármica — disse o inseto. — Sinto que não pertenço no Universo — respondeu o Arjun. — Que não pertenço em lado nenhum. Sinto-me perdido num vazio. — O vazio não existe — disse o Grilo. — Eu enganei-te e quero reparar o estado das coisas. Tens de voltar a ser Imperador. — Só para te salvares? O Grilo ponderou por um momento. — É uma ótima consequência, sim. — E o teu único motivo — respondeu o Arjun. — Cometi um erro — confessou — E quero corrigi-lo. — Mas como o podes fazer? — Perguntou o Arjun. — Confia em mim — disse o Grilo. — Confiar em ti? Um assassino, hipócrita e mentiroso? — E tu eras um soberano atroz e supérfluo — disse o inseto — Consumido pelo poder e odiado pelo povo. — Era assim tão mau? — Sim — confessou o Grilo. — Se calhar eu também não devia confiar em ti. — Muito bem — disse o Arjun. — Não te vou ajudar. — Perfeito — disse o Grilo. — Vamos embora então. Tenho a certeza de que os Bhags têm saudades tuas. O Arjun considerou este cenário opulento e toda a sua vida passada. Comparou-os com a sua vida atual. Lembrou-se do bullying, da violência e dos insultos aos quais era sujeito diariamente. — O que tens planeado? — Disse, passados alguns momentos. — Pode ser que te ajude...

O pessoal e os guardas estavam demasiado ocupados com os preparativos para reparar no Arjun. Com o Grilo no cabelo a orientá-lo, o antigo Imperador encontrou a cozinha do palácio com bastante facilidade. Os cozinheiros suavam, davam ordens aos gritos e mexiam o conteúdo das enormes panelas. Naquela azáfama, o Arjun passava despercebido, era apenas um criado no meio de tantos. — Por aquelas portas ali ao fundo — disse o Grilo — Rápido! Entraram numa enorme sala de jantar com trinta filas de mesas postas, cada uma sentando mais de duzentas pessoas. Havia um trono dourado numa plataforma que dominava todo o espaço. — Uau! — Exclamou o Arjun. — Que trono. — Majestoso — disse o Grilo — E é teu... — Já foi meu — corrigiu o Arjun. Percorreu rapidamente todas as mesas até chegar a umas portas abertas de madeira trabalhada. À sua frente, mais um corredor. — Vira à direita, para as escadas — indicou o Grilo. O piso superior deveria estar bem protegido. No entanto, não havia um único guarda à vista. — Por aqui vamos dar aos aposentos privados da Imperatriz. — Onde estão os guardas? — Perguntou o Arjun. — Andam ocupados pelas ruas — respondeu o Grilo. — Não vão suspeitar de que há pessoas no palácio. Ninguém se atreveria. — E se formos apanhados? — Será o nosso fim — disse o Grilo. — Ou melhor, o teu... — Vou esmigalhar-te quando tudo isto acabar — disse o Arjun. — Logo vemos — disse o Grilo. — Por agora, podemos concentrar-nos em continuar vivos? Encontraram o veneno escondido na mesa de apoio. — Ela bebe vinho mesmo antes de falar com o povo — disse o Grilo. — De um cálice cerimonial. — Continuo sem perceber como não vamos ser apanhados — confessou o Arjun. — Já te disse — reafirmou o Grilo. — Continuo sem saber se a quero matar — acrescentou o Arjun. — Afinal de contas, é minha irmã. — Ela vai reencarnar — respondeu o Grilo. — Por isso, tecnicamente não vai

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morrer. Pelo menos, não por muito tempo. O cálice estava perto do trono de talha dourada. Banhado a ouro e revestido com pedras preciosas, constava que era inestimável. O copo já tinha vinho e o Arjun não tardou em adicionar o veneno. — Já está — disse. — Agora basta esperar? — Não — respondeu o Grilo. — Temos de estar lá... — Não me tinhas dito isso — protestou o Arjun. — Pois não — disse o Grilo. — Nunca revelo tudo, é o Código dos Assassinos. Agora despacha-te. Está quase na hora! Juntos desceram ao piso inferior, até ao pátio do palácio. As paredes estavam decoradas com grossas cortinas de veludo azul-marinho e o pavimento tinha folhas de ouro incrustadas. Um outro trono menos pomposo dominava igualmente esta divisão. Estava num plano mais elevado para que a Imperatriz estivesse sempre acima de qualquer visitante. À frente deste, a varanda real. — Ela fez remodelações — disse o Grilo — Está horrível. — Despacha-te! — Disse o Arjun ao perceber que alguém se aproximava. — Atrás das cortinas — disse o Grilo. — A varanda tem salas laterais. As portas estão escondidas nas paredes. O Arjun conseguiu ver de relance a comitiva antes de se esconder. Os guardas reais, os melhores e mais mortíferos. A Imperatriz seguia-os, ladeada por duas aias e um oficial aterrorizado que levava consigo um pergaminho. — Rápido — disse o Grilo. O Arjun deslocou-se cuidadosamente, colado à parede, o calor sufocante e o espaço fechado fazendo-o suar. — Vamos morrer aqui — sussurrou. — O que estou a fazer? — Relaxa — disse o Grilo. — Eu nunca falhei nenhuma missão. — Sim, mas eu não sou como tu. — Basta fazeres o que eu te digo — disse o Grilo. — E já chega de lamúrias, que não são dignas do futuro Imperador. Por fim, alcançaram uma porta de madeira e, ao atravessá-la, o Arjun ficou aliviado com a súbita brisa de ar fresco. A sala lateral tinha uma passagem com uma abóbada que dava acesso à varanda. — E agora? — Perguntou o Arjun. — Agora, cumpres o teu destino — disse o Grilo. — O primeiro-ministro vai apresentá-la e depois o plano põe-se em marcha.

— Mas... A sua voz foi abafada por um toque de trombetas. Quando a Imperatriz subiu à varanda, o povo abaixo aplaudiu sem entusiasmo. O primeiro-ministro deu um passo em frente com o pergaminho na mão. — Sua Majestade, a Imperatriz! — Bradou. Desenrolou o pergaminho e fez uma vénia. A Imperatriz era alta, feições marcadas e olhos escuros. Levava no corpo um vestido prateado e fluido, e uma tiara simples. A sua cara demonstrava uma confiança majestosa com um pouco de repugnância. — Tragam o cálice! — Ordenou o homem. Apareceu uma jovem aia com o vinho na mão. Ajoelhou-se e apresentou-lhe o copo. — Viva a Imperatriz — disse. A Imperatriz levantou o cálice. Ouviu-se o estrondo de trinta canhões e a multidão aplaudiu apaticamente uma vez mais. — Aqui vamos nós — disse o Grilo. A Imperatriz bebeu o líquido de uma só vez enquanto o eco dos canhões esmorecia e entrou de imediato em choque. Começou a arfar e a revolver-se, fazendo com que a aia se estatelasse no chão. O cálice caiu perto dos seus pés. — VENENO! — Gritou a Imperatriz. — AGORA! — Disse o Grilo. O Arjun correu o mais rápido que conseguiu até à varanda e pegou no copo. A Imperatriz tentou falar, mas o veneno fez efeito rapidamente. — Olá, outra vez, querida irmã — sussurrou o Arjun. — NÃO! — Coaxou a Imperatriz. O Arjun levou o cálice ao céu e virou-se para a multidão. O Grilo permanecia no seu ombro. No céu, viram-se amplas asas bater. Quando os guardas reais se lançaram na sua direção com espadas desembainhadas, a multidão começou a murmurar. — NÃO! — Gritou o primeiro-ministro, afastando os guardas. — VEJAM! Abriu os olhos em choque e a sua pele ficou sem cor. — É A PROFECIA! — Disse sobressaltado. Um pássaro gigante poisou no parapeito da varanda. As suas penas roxas com pontas douradas, os olhos cor de safiras. Abriu o bico carmesim e dirigiu-se para a multidão com uma voz possante.

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— OLHAI! A PROFECIA REFERIA UM RAPAZ E UM GRILO. UM RAPAZ QUE SE TORNARIA IMPERADOR! No chão, a imensa multidão em silêncio. Muitos de joelhos, com as mãos lançadas ao ar, em exaltação. — A PROFECIA CUMPRIU-SE. VIVA O RAPAZ IMPERADOR! Afastou impetuosamente a sua ampla asa em veneração, fez uma vénia e dirigiu-se ao Arjun. — SUA MAJESTADE… A multidão irrompeu em gritos. Aplaudiram e muitos dançaram com alegria. Por todos os cantos do palácio começou a ouvir-se cânticos: «a profecia cumpriu-se». O Arjun não tinha palavras. Observou com atenção a multidão e o enorme pássaro mágico. Os guardas de joelhos, de espadas no ar. O primeiro-ministro também de joelhos, com as mãos juntas. O Arjun permaneceu imóvel e desorientado. Ousaria acreditar em tudo o que estava a acontecer? Seria outro dos seus sonhos? — E agora? — Perguntou ao Grilo. Contudo, o inseto tinha desaparecido. Uma jovem mulher ocupava agora o seu lugar ao seu lado. Esta sorriu e fez uma vénia. — Sua majestade — disse — Permita-me que me apresente. O meu nome é Deven. — Mas... És uma mulher — disse o Arjun. — Da última vez que vi, era um grilo — disse a Deven. — Mas sim, sou uma mulher... O pássaro mágico grunhiu com desdém. — Conseguiste concluir a tua missão? — Perguntou o pássaro. — Claro — disse a Deven. — Eu nunca falho. O Arjun aclarou a voz. — O que faço agora? — Perguntou. O pássaro mágico riu-se. — Diz-lhes que se divirtam e aproveitem a festa — disse, inclinando a cabeça para a multidão. — Tratamos do resto mais tarde. Tenho fome... — Eu também — disse a Deven.

Alguns dias depois, a Sr.ª Bhag voltou para casa do mercado com uma rapariga pelo braço. — Apresento-te a nova criada — disse ao Sr. Bhag. — É obstinada e está imunda. Nada que um banho e uma tareia não resolvam. A rapariga pestanejou, apanhada de surpresa. — Mas eu sou a Imperatriz — sussurrou. — Não devia estar aqui... — Meu Deus — disse a Sr.ª Bhag enquanto pegava no rolo da massa. — Outra doida varrida. Parece que o banho vai ter de esperar...

Traduzido do inglês para português por Susana Valdez

HARBORNE ACADEMY WITH BALI RAI Zuhair Mohamed William Isabelle Endry Kodie Aliyah Izwi Khyra Andreja Yoonis Zahraa Ilham Amir Omar Mrs Andrew Farrell Mrs Samera Dhansey

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Ken Preston é neurocirurgião, ex-Mister Universo, estrela do rock, campeão mundial de surfe, agente secreto, fluente em 12 línguas e conselheiro de líderes mundiais; adora contar mentiras.

O meu pai é um falhado. É tudo o que precisam de saber para o conhecerem. Talvez não seja mesmo tudo, mas cada coisa a seu tempo. O meu nome é Shahzana. A maioria das pessoas chama-me Shaz, mas não a minha mãe. Ela diz que o meu nome foi-me dado por uma razão. Diz que Shahzana significa «princesa», o que eu sou para ela — a sua princesa. Sim, sim. A minha mãe é mesmo fixe, né? Para começar, é neurocirurgiã, o que é brutal. Ao contrário do meu pai, que é um falhado a todos os níveis. Já vos tinha dito? Mas por mais fixe que ela seja, não acertou no nome que me deu. Porque eu não sou nenhuma princesa. A minha mãe criou-me sozinha. O meu pai, o Falhado, abandonou-nos quando eu tinha 6 meses. Simplesmente, desapareceu. A minha mãe disse-me que ficou muito assustada. Pensou que o tivessem morto ou que ele tivesse tido um acidente. Mas depois, levantou todo o dinheiro da nossa conta (não que fosse muito) e a minha mãe teve de a fechar e abrir uma nova. A polícia nunca o encontrou: parece que um dia decidiu sair de casa e nunca mais voltar. Esperem aí, estou a contar tudo mal. Às vezes, é difícil saber por onde começar. Talvez comece pela minha avó e pelos ladrões que assaltaram a casa dela. Ela é a mãe do Falhado, mas ao contrário do seu filho, é espetacular. Após o Falhado ter abandonado a minha mãe, a avó tomou conta de nós: enquanto a minha mãe terminava o curso de medicina e quando ela começou a trabalhar. Ainda hoje, continua a tomar conta de nós. Esperem, a minha avó não foi assaltada. Isso também é mentira. E agora estou a contar tudo mal. Bem, vou começar pelo momento em que conheci a Lenore. Foi no dia após o assalto, quando fui de autocarro, depois das aulas, ao hospital ver a minha avó. Tinha ficado internada de um dia para o outro para ser observada, pois tinha sido vítima de violência e batido com a cabeça. A minha mãe já a tinha ido ver às urgências na noite anterior. 83


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Quando cheguei, chovia torrencialmente. Corri entre a paragem de autocarro e o hospital e, assim que cheguei, começou a chover a potes. Da entrada, virei-me para observar a chuva. Um dilúvio, uma muralha de água erguida. A avó estava na enfermaria B6, num espaço com três outras camas. As cortinas envolviam a cama da avó e era possível ouvir vozes a sussurrarem. A avó estaria acompanhada por um médico ou enfermeiro. Não os queria incomodar e, como tal, esperei do lado de fora. — Sai já daqui! — Sibilou a avó, com um veneno na voz inédito para mim. A cortina à minha frente foi puxada e, à minha frente, estava a Lenore. Mais alta que eu, a olhar-me de cima para baixo, como se eu fosse algo desagradável e fedorento que estivesse colado à sola do sapato dela. A Lenore era alta, elegante e bonita. Os seus olhos tinham forma de coração, os lábios, vermelho-sangue, e pálida como a Morte. Nesse momento, ainda desconhecia o nome dela. Devia ter-me desviado o mais depressa possível. Tentei, mas não consegui. Os olhos dela agarraram-me, prenderam-me. Senti-me como uma borboleta exótica que é afixada num quadro para ser examinada à lupa. Os lábios dela, vermelho-sangue, expressavam repúdio. — Beti 1 — disse a minha avó, esticando os braços e acenando as mãos na minha direção. O movimento e a voz da minha avó quebraram o feitiço, e dei um passo em frente. Ainda assim, Lenore não dava sinais de se ir embora. A sua cabeça simplesmente rodava sobre esse eixo que era o esguio e longo pescoço dela, com os olhos a seguirem-me enquanto eu me afastava. — Yeh larki churail hai! 2 — Sibilou a avó. Agarrei a sua magra e enrugada mão, que se fechou com força sobre a minha. A palma da mão dela quente sobre a minha. Lenore virou-se e foi-se embora, deslizando pela enfermaria como se transportada por correntes invisíveis de ar. — Quem era, avó? — Sussurrei. — Churail 3 — respondeu, os seus olhos trancados na Lenore, que se afastava.

Puxou-me para ela e abraçou-me. — Não percebo — disse. A avó riu-se. — Querias perceber tudo? Achas que és tão crescida, mas ainda és uma criança. Não precisas de saber tudo. Ainda não. — Mas aquela mulher vai fazer-te mal? A avó abanou a cabeça e abraçou-me com mais força. — Não, ela não consegue fazer-me mal. Há algo que têm de saber sobre a minha avó. Ela não é propriamente a velhinha que fica no sofá a bisbilhotar a vida dos outros. É uma mulher forte e independente, e sempre assim foi. E se ela me dizia que a Lenore não a podia magoar, eu acreditava. Ninguém se metia com a minha avó. Até agora, a Lenore tinha-me distraído com o seu encanto, mas agora que se tinha ido embora, começava a dar conta das nódoas negras e arranhões no rosto da avó. Não conseguia abrir um dos olhos e tinha o pescoço coberto por hematomas. — Avó! Levantou a mão. — Isto não é nada. E sussurrou algo em hindi. — Para, avó. Tu sabes que eu não percebo hindi. Deitou-me aquele olhar, o que ela guarda para quando está especialmente desiludida. — A tua mãe disse-me que estavas a aprender. — E tentei, mas era muito difícil. Desviei o meu olhar do dela e fitei o chão. Parecia ser o mais seguro a fazer. Ouvi-a bufar. — Muito difícil. Devias passar menos tempo nessa maquineta a fazer lá sei lá o quê. — Avó, é um telefone; um iPhone. — Bem, não te vejo a fazer chamadas com ele.

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N. da T.: «Filha» em língua hindi, possivelmente remetendo para a origem indiana da personagem e/ou da família.

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N. da T.: «Esta rapariga é um demónio!» em língua hindi. 84

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N. da T.: Uma criatura mítica e demoníaca do folclore persa com traços femininos.2 N. da T.: «Esta rapariga é um demónio!» em língua hindi. 85


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Quando voltei a olhar para ela, estava a sorrir para mim, as rugas de riso a cercarem os olhos enrugados. A personalidade radiante e forte dela fazia-se sentir, mesmo com feridas e inchaços. — Como se está a sentir? — Muito melhor. O médico diz que tenho alta amanhã. Eram boas notícias. Estava mesmo preocupada com ela. Ficámos um pouco à conversa até ela ficar cansada e decidi que devia ir-me embora. A avó queria que ligasse à minha mãe e que lhe pedisse para me vir buscar. Mas a minha mãe estava a trabalhar e, além disso, já tinha idade suficiente para ir para casa sozinha. Dei um beijo à minha avó, com cuidado para não a magoar. Quando recuei, segurou na minha mão e olhou para mim de forma determinada, quase assustadora. — Vai para casa! — Disse a silvar — Vai para casa, tranca as portas e não deixes ninguém entrar. — Mas posso deixar entrar a minha mãe, certo? Os seus olhos relaxaram e sorriu. — Sim, a mãe podes. À entrada do hospital, fiquei junto das portas automáticas a observar a chuva a atingir carros e as ambulâncias a chegar. Como podia o céu guardar tanta água? E estava tão escuro, como se fosse plena madrugada. Quando senti uma mão tocar-me no ombro, encolhi-me e, quando me voltei, encolhi-me novamente. A Lenore. O olhar de repúdio já não estava lá, mas o seu belo rosto deixava-me desconfortável. O que produzia aquele efeito em mim? Talvez os lábios? Um pouco carnudos e vermelhos demais. Ou seriam os olhos? As suas pupilas eram largas e negras. — Acho que a chuva não vai parar tão cedo — disse. Descolei os meus olhos da Lenore e voltei a olhar para a chuva. — Estavas a discutir com a minha avó? A mão dela permaneceu no meu ombro. O seu toque era delicado, mas tinha de combater o ímpeto de a afastar. Tinha um mau pressentimento de que isso podia ser má ideia, embora não soubesse bem porquê.

— Eu estou de carro. Posso dar-te boleia e falamos sobre isso. Como se isso alguma vez fosse acontecer. Afastei-me e a mão dela saiu do meu ombro, deslizando. — Achas mesmo que me vou enfiar num carro contigo? Tenho cara de parva ou quê? Os rúbeos e volumosos lábios da Lenore afastaram-se ligeiramente, um pequeno sorriso. Virou-se, saiu do hospital e — juro que estou a dizer a verdade — parece que atravessou aquela tempestade sem que um único pingo de chuva lhe tocasse. Nem um. Chegou um carro, a Lenore abriu a porta do passageiro e entrou. As janelas do carro estavam fumadas e não se conseguia discernir nada do interior. Fui até à cantina do hospital comprar uma Coca-Cola e sentei-me. Talvez a avó tivesse razão e eu devesse telefonar à minha mãe. Esperava e ela vinha apanhar-me. Naquela noite, não era só pela chuva que não queria andar na rua. Como sempre, a chamada não foi atendida, mas sabia que a minha mãe a ia devolver assim que conseguisse. Sentei-me e bebi a Coca-Cola diretamente da garrafa. A minha mãe estava sempre a dizer-me para não o fazer, que as garrafas tinham resíduos de urina de ratazana. Ela dizia que quando bebia diretamente da garrafa estava a beber Coca-Cola com sabor a urina de ratazana. A minha mãe diz muita coisa tonta. Comecei a pensar novamente na avó. Ela não era assim. Ou dava a sua opinião de forma direta ou dizia que não tinha nada que ver com isso e calava-se. Exatamente o que estava a fazer agora. Quem quer que a Lenore fosse, e fosse qual fosse o assunto entre elas, a minha avó não me queria contar. Pensei em voltar à enfermaria para falar com ela, mas quando vi as horas no telefone, percebi que o horário das visitas já tinha terminado. Acabei por chegar à conclusão que estava a ser parva e que devia ir para casa. Para ajudar, a chuva tinha parado. Chegada a casa, deparei-me com silêncio e solidão. Deitei-me na cama e vi televisão durante um bocado. Acabei por adormecer. Acordei com uma leve batida na minha porta. — Shahzana, posso entrar? Sentei-me na cama, atordoada e sonolenta.

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— Sim. A minha mãe entrou e sentou-se na ponta da cama. — Como está a avó? — Está bem. Amanhã tem alta. A minha mãe sorriu. — Ainda bem. Eu vou buscá-la e ela fica connosco. Não quero que ela vá já para casa. — Estava lá uma mulher que a foi visitar. A avó não gosta dela. Não sei quem era e a avó não me disse. A minha mãe franziu a testa. — A tua avó às vezes é muito misteriosa. É um bocado irritante. — Pois, também acho — fiz uma pausa, tentando recordar-me do que a avó tinha dito — Mãe, o que quer dizer churail? A testa dela ficou ainda mais franzida. — Onde é que ouviste essa palavra? Foi a avó que a disse? Acenei com a cabeça. — Uma churail é um demónio que suga a vida das pessoas. É uma lenda, uma história para assustar crianças. — E porque estaria a avó a falar de demónios e monstros? A minha mãe abanou a cabeça. — Não faço ideia. Perguntamos quando ela chegar a casa, sim? A minha mãe fez uma pausa, fixando o seu olhar em mim. Não foi um daqueles olhares em que eu sei que fiz asneira. Era um olhar mais ponderado, pensativo. — O que foi? — Como foi o teu dia? — Passou. Já sabes como é a escola. A minha mãe suspirou. Antes que ela conseguisse falar, levantei a minha mão. — Sim, mãe, tenho de me esforçar para ter boas notas, esta vai ser a única fase da minha vida em que a educação é gratuita, devia desfrutar das aulas e… — E blá-blá-blá! — disse a minha mãe, empurrando-me de forma carinhosa — Sou assim tão chata? Adotei uma postura pensativa e jocosa. — Deixa-me pensar….

A minha mãe levantou as mãos em sinal de rendição. — Pronto, já percebi. — E como foi o teu dia? — disse eu. A minha mãe acenou com a cabeça, de forma ponderada. — Foi bom. Passou-me um caso pelas mãos em que tive de reparar as cordas tendinosas do coração de um senhor idoso. Dei por mim a coçar a cabeça. — Já me perdi. Cordas quê? — Tendinosas. São fios resistentes, como cordas, que fecham determinadas válvulas do coração e impedem que o fluxo sanguíneo seja invertido. — Certo. Então são as cordas do coração que mantêm tudo no lugar. A minha mãe sorriu. — As cordas do coração. Exatamente. A minha mãe estendeu o braço e remexeu o meu cabelo, tal como fazia quando eu tinha 5 anos. — E tu estás sempre a puxar as cordas do meu coração, especialmente quando estou a trabalhar tanto e até tão tarde. Afastei a mão dela. — Mãe! Não sou uma criança e já te disse que está tudo bem. — Eu sei que estás bem. Já comeste? Abanei a cabeça. — Nem eu. E que tal encomendarmos uma piza? Esbocei um sorriso. — É preciso responder a isso? Claro que sim! Embora fosse um dia de semana, o que normalmente era sinal de comida saudável e fazer trabalhos de casa, comemos uma piza e vimos um filme parvo na Netflix; a minha mãe bebeu vinho e eu bebi Coca-Cola com sabor a urina de ratazana. E foi altamente. Quando fui para a cama, a minha cabeça estava ao rubro e não conseguia adormecer. Sobre que estaria a pensar? As churail e outras criaturas sanguessugas? A misteriosa Lenore? A minha avó? Não, estava a pensar no Falhado e em quão o odiava. Se não nos tivesse abandonado, haveria sempre alguém em casa quando a minha mãe estava a trabalhar e ela não teria de se preocupar em trabalhar tanto. Quão diferentes seriam as nossas vidas se o Falhado nunca se tivesse ido embora?

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Mas apesar do que ele fez, talvez tenha sido pelo melhor. Talvez tudo esteja melhor sem ele. Acabei por adormecer. Não me lembro de que horas eram quando acordei. Sei que era de madrugada, possivelmente noite cerrada, a fase mais negra da noite, quando talvez as churail vagueiam pelas ruas, procurando vítimas. Acordei tal qual quando a minha mãe bateu à porta. Mas quando olhei para a porta, esta estava fechada. Ouvi novamente o barulho. Uma leve batida na janela do meu quarto. Sentei-me na cama e puxei o cobertor até ao queixo. …toc…toc…toc… Estava a tremer. Os arrepios espalhavam-se pelos braços e pescoço. …toc…toc…toc… O que era aquilo? Um ruído provocado pelo vento? Um ramo de uma árvore, talvez. Mas nós não tínhamos nenhuma árvore perto da casa. Um pássaro? Uma… coisa? …toc…toc…toc… A batalha entre a curiosidade e o medo decorreu até o medo bater em retirada. Mas apenas por breves instantes. Saí da cama, as minhas mãos ainda agarradas ao cobertor. …toc…toc…toc… Larguei o cobertor e palmilhei descalça o pavimento rígido de madeira. As solas dos meus pés arrepiavam-se com frio. Parei em frente das cortinas, mas sem fazer qualquer movimento para as abrir. Shahzana… Encolhi-me, como se tivesse levado uma palmada na cara. O que era aquilo? A voz era real ou imaginária? …toc…toc…toc…Shahzana Vi as minhas mãos, como que possuídas por uma vontade alheia, esticarem-se e agarrarem o tecido da cortina e, envolvendo as extremidades do mesmo nos meus punhos, e puxei-as. A Lenore estava a bater à janela com as unhas longas e escarlates dela. O rosto e mãos eram inacreditavelmente brancos, os olhos negros como lagos de água preta, o cabelo lustroso e brilhante a envolver as belíssimas feições dela. Mas os lábios volumosos eram obscenos, repudiantes.

Shahzana…deixa-me entrar… toc…toc…toc… A Lenore estava a pairar do lado de fora janela do meu quarto. Sorria e no seu sorriso vi presas afiadas e pontiagudas. Mordeu o lábio inferior e saiu sangue, que correu até ao pescoço. A minha cabeça palpitou assim que olhei para ela, como se ela estivesse a bater dentro do meu crânio. Mas por mais que quisesse afastar o olhar dela, pôr as mãos sobre a minha cara e fugir, não conseguia. Uma vez mais, com vontade própria, as minhas mãos precipitavam-se para a janela. ….deixa-me entrar…Shahzana… Puxei o manípulo para cima e abri a janela. A Shahzana pairava à minha frente e a fresca brisa da noite acariciava-me a cara. Pensava que ia lançar-se à janela e atirar-se para cima de mim. Afinal de contas, eu sabia bem o que era a Lenore. Uma vampira. …Shahzana…posso entrar…? Abanei a cabeça com um movimento brusco, tal qual uma marioneta. Lenore abriu a boca, mostrando os seus dentes branco-pérola. Escorria sangue escarlate pelo queixo dela. A língua, longa e pontiaguda, saiu da boca para lamber os lábios. …deixa-me entrar, Shahzana… Os olhos dela, tão negros e profundos, como lagos onde quisesse mergulhar, mantinham-me imóvel. Não tinha escolha. Tinha de a convidar a entrar. Abri a boca para proferir as palavras. — Podes… A sirene de uma ambulância rasgou a noite, o som veio repentino e como um choque. A Lenore desviou o olhar e virou a cabeça, distraída pelo barulho. Libertada da hipnose, fechei a janela e as cortinas. Fui a correr para a cama e puxei o cobertor sobre a minha cabeça. Eu sei, é estúpido. Como se isso me fosse proteger. Mas sabia que a Lenore não podia entrar se não a convidasse. E eu não ia fazer isso. Na manhã seguinte, o meu encontro com a Lenore parecia ter sido um sonho. A minha mãe perguntou-me se estava tudo bem ao pequeno-almoço e

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eu respondi que estava apenas cansada. Para quê dizer-lhe? Ela ia dizer que foi um pesadelo. E eu estava a começar a pensar que talvez tivesse sido. Um sonho parvo. Saí de casa em direção à escola. O Sol estava a brilhar e isso fez-me sentir bem depois da noite anterior. Mas depois, vi o carro. O tal onde a Lenore entrou quando saiu do hospital. O tal com janelas fumadas. Seria para proteger a Lenora da luz solar? O condutor seria também vampiro? Não pensava noutra coisa senão na Lenore. Não me lembrava de uma única aula ou de algo que os meus colegas tivessem dito. Devo ter feito figura de sonâmbula. Quando cheguei a casa à tarde, a minha mãe e a avó estavam em casa. Fui ter com ela, sentei-me no seu cadeirão preferido e dei-lhe um enorme abraço. — Não é que me esteja a queixar, mas isto vem a que propósito? — Disse ela, a rir-se. Tinha razão, não sou muito de demonstrações de afeto. — Estou contente que estejas aqui. — Sentei-me de pernas cruzadas no tapete. — Agora, podemos cuidar de ti. A avó sorriu. — Só durante algum tempo. Depois, vou para casa. — Tens mesmo de ir? Podias viver connosco. A avó sorriu e lançou-me exatamente o mesmo olhar que a minha mãe na noite anterior. O que era estranho, visto não virem da mesma família. Quando chegou a hora de dormir, pensei novamente na Lenore, a pairar do lado de fora da minha janela, a bater com as unhas vermelhas dela no vidro e a pedir para entrar. Parecia cada vez mais um sonho, mas ainda assim provocava-me arrepios. — O que se passa? — Disse a avó. Puxei as mangas para baixo. — Nada. Boa noite. O meu quarto estava frio, portanto mudei de roupa rapidamente e meti-me de baixo do cobertor. Puxei-o até ao queixo e olhei para as cortinas, que estavam fechadas. Porque não tinha dito nada à minha mãe ou à avó?

Porque elas ter-se-iam rido de mim? Porque nem eu acreditava? Fiquei acordada durante imenso tempo a ouvir os pequenos barulhos da casa. Lá fora, a coruja fazia sentir a sua presença. Fechei os olhos, tentei pensar em coisas boas, tentei contar de 100 até zero. Nada funcionava, não conseguia adormecer. …toc…toc…toc… Abri os olhos. Não estava a sonhar. E a Lenore tinha voltado. …toc…toc…toc… Tudo o que tinha de fazer era ficar ali, no calor da minha confortável cama, e ignorá-la. A Lenore não podia entrar sem que eu a convidasse. …toc…toc…toc… E eu não tinha intenções de a convidar para entrar. …toc…toc…toc… Pois não? …deixa-me entrar, Shahzana… Tapei os meus ouvidos com as mãos e fechei os olhos. «Vai-te embora!», pensei. «Vai-te embora e deixa-me em paz!» Nada me iria tirar daquela cama. Nem pensar. Nada… Puxei as cortinas e lá estava a Lenore. O que se tinha passado? A Lenore sorriu pela vidraça. Arranhou o vidro com as suas longas e escarlates unhas. …deixa-me entrar, Shahzana… Puxei o manípulo e empurrei a janela. Tal como se tivesse a escutar outra pessoa a falar, ouvi as palavras a ganhar forma na minha voz. — Entra. Podes entrar. — Disse a minha voz. A Lenore entrou a flutuar pela janela aberta. As mãos dela agarraram as minhas bochechas e a sua pele estava gelada. Não me conseguia mexer, não conseguia falar ou gritar para pedir ajuda. Com o seu polegar, a Lenore limpou uma lágrima que descia pela minha face. — Não chores, — sussurrou — só vai doer um bocado; depois, ficarás livre.

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CORDAS TENDINOSAS

KEN PRESTON

O seu hálito era gélido e fedia a terra húmida e carne podre. Conforme empurrava a minha cabeça, expondo o meu pescoço, abriu a boca. Fazia lembrar o bocejo de um cemitério vazio. A Lenore parou, com a cabeça para trás, e lançou um grito. Libertei-me e tropecei, ficando sentada no fundo da cama. A sair do peito da Lenore estava uma estaca com sangue a escorrer pela sua ponta afiada. A Lenore caiu de joelhos, com a avó atrás dela com outra estaca pronta a ser espetada na vampira. — É assim que se lida com uma churail — disse ela. O rosto da Lenore tremeu. Lançou a cabeça para trás, as suas feições distorcidas e a mirrar. A pele começou a borbulhar e a rebentar, pus a escorrer das feridas abertas. Outrora volumosos, os lábios vermelhos estavam agora enrugados e descamados, os dentes podres e a cair. Por fim, a Lenore caiu no tapete. Por baixo da roupa, o corpo dela continuava a mirrar. Os dedos ganhavam a forma de garras ósseas e caíam das mãos. O cabelo lustroso estava cinzento e soltava-se da cabeça. O corpo continuava a desintegrar-se até que, enfim, não restava nada senão roupa e cinzas. Um soluço vindo da janela assustou-nos. Na janela aberta, estava um homem. O vento soprava contra a camisola e o longo cabelo dele. Não precisava de ver o sangue nos lábios ou aqueles olhos acutilantes para perceber que também era um vampiro. — Vai-te embora! — A avó proferiu a palavra como se veneno fosse e levantou a estaca — Vai-te embora já ou mato-te! O vampiro não se mexeu. Nem fitou a avó, o seu olhar repousava em mim. E eu sabia. Não me perguntem como porque não sei explicar, mas sabia que aquele homem era o Falhado. Virou-se e saltou da janela. Corri até à janela e debrucei-me na mesma, mas já não o vi. — Pai? Pai? De manhã, já quando o Sol ia alto e os acontecimentos da última noite começavam a poder ter sido um sonho (não fosse o monte de cinzas em forma de pessoa que estava no chão do meu quarto), a avó contou-nos tudo. Sobre as más companhias do Falhado, como se tornou vampiro e como a avó o proibiu de visitar a família, correndo o risco de ser morto por ela. 94

Ele emigrou. A avó nunca mais o viu. Até há uns dias, quando ele e a Lenore foram a casa da avó. Disse que queria a sua família de volta. — Ele queria-te a ti, Raajakumaaree 4, — disse a avó. — Ele queria que tu te tornasses vampira e te juntasses a ele, mas não tinha a coragem de o fazer e, por isso, veio falar comigo primeiro. A avó disse-lhe que não. Disse-lhe para se ir embora, outra vez, ou então mataria os dois. Ninguém tinha assaltado a casa da avó. A Lenore tinha atacado a avó. O Falhado teve de impedir a Lenore e fugir. — Achas que ele ainda me ama? Senti-me estúpida por sequer pensar nisso, quanto mais dizê-lo. Era assim tão miserável que precisasse do amor do Falhado? A avó, como se estivesse a sentir o mesmo que eu, pousou a sua mão na minha. — Acho que sim. — As cordas do coração. — disse a minha mãe, pegando na minha outra mão. — Tens estado a puxar-lhe as cordas do coração. Pensei nele no parapeito da janela aberta. Não tinha olhado para a Lenore, mas para mim. E talvez — talvez — tivesse vislumbrado amor no seu olhar. Mas continua a ser um falhado. Ao contrário da minha mãe, que é incrível. E a minha avó, caçadora de vampiros? É o máximo. 4

N. da T.: «Princesa» em língua hindi.

Traduzido do inglês para português por Susana Valdez

ARK BOULTON WITH KEN PRESTON Areeba

Mariyar

Ezan

Zara

Haris

Aisha

Rayeema

Adil

Ayub

Raiden

Hajrah

Tayyab

Muhammed

Momina

Hamza 95

Miss Jessica Lee


LAUREN JAMES

SELADO COM UM BEIJO

SELADO COM UM BEIJO

Lauren James é uma autora de ficção destinada a jovens adultos, nomeada duas vezes para os prémios Carnegie e que escreveu «The Loneliest Girl in the Universe» (A Rapariga Mais Solitária do Universo, não publicado em Portugal), «The Reckless Afterlife of Harriet Stoker» (A Imprudente Vida Póstuma de Harriet Stoker, não publicado em Portugal) e a série de livros «The Next Together» (Os Próximos a Ficarem Juntos, não publicado em Portugal). Escreveu também os contos adaptados para jovens com problemas disléxicos «The Starlight Watchmaker» (O Relojoeiro da Luz das Estrelas, não publicado em Portugal) e «The Deep Sea Duke» (O Duque do Mar Profundo, não publicado em Portugal), assim como o romance publicado online em partes «An Unauthorised Fan Treatise» (Um Tratado de Fãs Não Autorizado, não publicado em Portugal). Leciona escrita criativa na Conventry University, WriteMentor e Writing West Midlands, e através do programa Spark Young Writers, mostra o poder da escrita criativa a crianças. O seu site é www.laurenejames.co.uk.

O boneco de neve estava quase terminado quando Paige ouviu o ruído. Era um murmúrio com estalinhos, do qual deu conta quando estava a enfiar galhos, tornados braços, na redonda e compacta barriga do boneco. Tirou os auscultadores, duvidando se era apenas estática que vinha do podcast que estava a ouvir, mas não – era antes um som distante, monótono. Paige virou-se para ver se era o carro dos pais. Num dia de neve como este, apesar de estarem ambos nos respetivos empregos, havia sempre a hipótese de serem mandados para casa. A rua estava vazia. O tom do ruído aumentava cada vez mais. No céu, um fragmento de luz incandescente, cada vez maior. Com um grito penetrante, a luz brilhante caiu na sua direção. Paige recuou, aos tropeções, atrapalhada com a líquida mistura de neve e lama que tinha à sua volta. A erva que estava por baixo do gelo era escorregadia e húmida. Paige atirou-se para o jardim quando a estrela cadente caiu na sua direção, o ensurdecedor ruído a vibrar nos seus tímpanos. Quase era atingida. Com os olhos entreabertos contra a luz ofuscante, susteve a respiração e… ouviu-se um estrondo abafado, seguido de um ruído sibilante, tal qual água despejada em pedras de carvão a escaldar. Abriu os olhos. O boneco de neve, com os seus olhos feitos de seixos e nariz de cenoura, cachecol mostarda às riscas e chapéu de algodão, tinha desaparecido. A manhã toda tinha sido dedicada a fazer aquele boneco de neve. A sua mãe tinha-lhe pedido para aproveitar o dia de folga da escola para procurar um estágio para o próximo período ou para rever os exames nacionais que tinha realizado para estudar. No entanto, a neve tão branca quanto recente, era difícil de resistir. Assim que os seus pais saíram para o trabalho, calçou as suas galochas e foi para o jardim, esmagando os delicados e felpudos cristais de neve, reduzindo-os a uma papa castanha. O boneco de neve tinha sido o seu trabalho desta manhã, enquanto ouvia o podcast «Welcome to Night Vale» e comia gomas. Agora, era apenas uma pilha de gelo quente. A luz radiante tinha desaparecido e, no seu lugar, algo esfumaçava na neve. Paige pegou no seu telefone e pensou em ligar para o número de emergência. E se fosse uma bomba? A estrela cadente não parecia perigosa. Na verdade, o calor parecia ter dissipado totalmente. Tinha sido tudo tão rápido que nem um 97


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vizinho tinha vindo cá fora ver o que se passava. Certamente que não lhe iria fazer mal, certo? Em vez de ligar à polícia, começou a gravar um vídeo. Aproximou-se. Parou, à espera que algo acontecesse. Mais um passo. E outro passo, até pisar o que restava do boneco de neve. No centro, um pequeno objeto gélido. Era escuro, entalhado e estava protegido por camadas de gelo. Não era uma bomba. Parecia mais uma pedra envolta em gelo, como uma bola de neve. Deve ser um meteorito! Baixou-se e com cuidado, colocou-o na relva. Tinha talvez o tamanho de um pequeno livro, retangular e estreito. Experimentou tocar-lhe. Esperava que o meteorito estivesse quente, mas era frio ao toque. Perguntou-se, embora já demasiado tarde, se devia estar a usar luvas. Seriam os meteoritos tóxicos? E se o tivesse danificado? Podia contaminá-lo com bactérias humanas. Se tivesse mesmo vindo do espaço, podia ter algum interesse científico. Com que frequência eram encontrados meteoros? Um museu poderia querer comprá-lo ou mesmo os jornais poderiam querer pagar por fotografias! Rapidamente, engendrou um plano. Iria tirar algumas fotografias e guardar o meteorito, antes que mais pessoas saíssem para perceber o que se tinha passado. Até o podia pôr no congelador, para que o gelo espacial não derretesse. E só depois iria decidir o que fazer. Talvez até pudesse enviar as fotos à NASA. Eles saberiam o que fazer. Entrou em casa e encontrou uma daquelas caixas de metal para bolachas que tinham sobrado do Natal. Forrou-a com panos de prato, pousou o meteorito na lata usando uma espátula de metal e embrulhou-o com cuidado. O congelador estava cheio. Esvaziou uma das gavetas. Uma piza e um strudel de maçã podiam bem ser o seu almoço. Afinal de contas, estava a nevar e ela tinha de se alimentar. Depois de tirar mais fotos do local onde o meteorito caiu, Paige passou os pés por cima do boneco de neve com minúcia. Não queria deixar pistas que os caçadores de meteoros pudessem usar para chegar até ela. O meteoro era dela. Enquanto a piza estava no forno, Paige transferiu as fotos para o seu computador. Em comparação com o que se via nas fotografias, o meteorito era pouco imponente. Parecia apenas ser uma lamacenta bola de neve. Não parecia certamente perigoso, tal como tinha sentido quando caiu. Podia ter-se magoado se não se tivesse desviado a tempo. No entanto, e olhando para as fotografias, ninguém iria acreditar nisso.

De qualquer forma, ia enviá-las para a NASA. O site da NASA tinha imensas notícias recentes, desde o último lançamento da Estação Espacial Internacional, passando por uma estátua que celebrava o aniversário da primeira nave espacial fabricada nos anos 50 e até à avaria de um velho satélite. No entanto, Paige não conseguia encontrar forma de reportar um meteorito. Acabou por conseguir encontrar a Rede de Meteoros do Reino Unido, onde poderia reportá-lo, mas teria de revelar a localização onde o tinha visto. Enquanto comia a piza, pensou sobre o assunto. Estava relutante em divulgar essa informação, tinha receio que confiscassem o meteorito. Paige queria guardá-lo. Tinha sido o acontecimento mais emocionante da sua vida e não queria que este chegasse ao fim antes de começar. Além disso, e de acordo com as informações de «eventos» reportados do site, alguém já tinha reportado o avistamento da estrela cadente. Se eles já tinham conhecimento, para quê dar-se ao trabalho? Certo? Paige decidiu guardar a informação para si. E, se passados uns dias se sentisse culpada, podia sempre mudar de ideias. Ela merecia isto, um pequeno segredo para a animar na época de exames. Confiante sobre a sua decisão, lançou-se aos trabalhos de casa de matemática e começou a estudar.

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* Na manhã seguinte, Paige recebeu um e-mail a informar que a escola tinha retomado a normalidade, mesmo que ainda estivesse a nevar. Comeu uma taça de cereais, observando a mãe às voltas na cozinha a despachar-se para ir trabalhar. «Já encontraste um estágio?», perguntou a mãe. «Viste o carregador do meu telefone?» «Não», respondeu Paige, servindo-se dos restos de strudel que estavam no frigorífico. Tinha sido a sobremesa ao jantar na noite anterior, mas ainda havia uma fatia. Podia levá-la para almoçar na escola. «Não sei para onde quero ir.» No próximo período, todas as turmas do seu ano teriam de realizar um estágio de duas semanas. Muitos dos seus amigos iriam para a escola primária ou para o canil, mas Paige não queria fazer isso. Não havia maneira de decidir o que queria fazer. Gostava muito de matemática, mas não havia propriamente um sítio que acolhesse números abandonados.


SELADO COM UM BEIJO

LAUREN JAMES

Paige estava a arrumar o strudel na lancheira quando sentiu uma das suas meias molhada. Havia água a escorrer do caixote do lixo. «Ai, mãe, está aqui uma coisa esquisita no chão» disse Paige, descalçando a sua meia molhada. «O que foi?», disse a mãe enquanto procurava pelo carregador por baixo da mesa da cozinha. «Ah, isso. Encontrei uma coisa no congelador que estava a ocupar demasiado espaço. Deve ter sido algo que o teu pai encontrou». O coração de Paige parou. Aterrorizada, abriu o caixote do lixo. O seu belo meteorito estava pousado em cima de cascas de banana a apodrecer e sucos de frango cru. Tanto cuidado que tinha tido para não contaminar o meteorito com bactérias humanas e agora estava coberto de substâncias viscosas. «Mãe!», gritou Paige. «Aquilo é meu! Estava a guardá-lo!» A mãe fez uma cara estranha. «Mas é o quê?» «É…», disse Paige, fazendo uma pausa. Ainda não queria falar do meteorito a ninguém. «Era para um projeto de ciências.» A mãe encontrou o carregador e dirigiu-se para a porta. «Desculpa, filha. Consegues tratar disso?» «Claro», disse Paige, de forma carrancuda. «Espero que tenhas um bom dia.» «Xauuu!», gritou a mãe. «Não te esqueças de trancar a porta!» Com uma expressão contorcida, Paige retirou o meteorito do caixote do lixo. O gelo tinha derretido, sobrando apenas a rígida pedra que estava a envolver. Paige passou-a por água, retirando um pequeno pedaço perdido de cebolinho. Afinal, este objeto não era rochoso de todo, mas antes uma espécie de metal. O meteorito era de um preto mate, mais ou menos revestido por um material rígido e esmaltado. Tinha extremidades afiadas e lustrosas de aço, como se tivesse sido arrancado de algum lado. Parecia ser antiquíssimo. Deve ter atravessado o espaço, à boleia de um asteroide, durante milhares de anos. Paige ia chegar atrasada às aulas, mas tudo isto era demasiado interessante para sair de casa. Depois de secar o objeto com um pano de cozinha, descobriu pequenos entalhes numa das extremidades, como se tivesse sido unido com solda. Parecia ter sido fabricado e não tanto uma massa metálica encontrada na natureza. Parecia uma peça de um computador ou algo semelhante, mas isso era impossível. Tinha vindo do espaço! Page sentiu um sobressalto. E se este objeto fizesse parte do disco rígido de um computador alienígena? Os extraterrestres podiam tê-lo enviado para

a Terra, numa tentativa de entrar em contacto com os humanos. Conforme virou o objeto, uma parte afiada ficou presa na palma da sua mão. Havia uma lingueta na extremidade do metal. E parecia haver um compartimento soldado no mesmo. Paige pegou numa tesoura e empurrou a extremidade da lâmina por baixo do ferrolho, agitando-o até que a lingueta abrisse. Não tinha um único vestígio de ferrugem e soltou-se com um pequeno clique. Um objeto negro caiu para o balcão da cozinha. Um minúsculo círculo de plástico preto. O disco era totalmente liso, repleto de estrias circulares, que percorriam a cintura exterior do círculo até ao seu centro. Um objeto imaculado. Não era o que Paige esperava, mas sentia que era um objeto familiar. Passou um dedo por uma das estrias, tentando lembrar-se onde o tinha visto. Havia um pequeno orifício no centro, apenas grande o suficiente para lá caber o seu dedo mindinho. O que era este objeto? Nesse instante, o relógio da cozinha tocou e Paige deu conta de que estava atrasada para a escola. Empurrou o disco de plástico para o seu compartimento, atirou o meteorito para a mochila e saiu a correr.

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* Foi a meio da terceira aula, em Biologia, que Paige deu conta do que era o disco preto. Era um disco de vinil. Aqueles velhos discos onde as pessoas antigamente ouviam música, antes de haver CD ou telemóveis. Lembrava-se de os ver em filmes antigos. Os discos eram colocados numa plataforma giratória e a agulha entrava em contacto com as estrias do disco. Conforme este rodava, o contacto que a agulha fazia produzia vibrações que eram transformadas em sons. Mas o que estava a fazer um velho disco de vinil num meteorito a vaguear pelo espaço? Há décadas que ninguém os usava. Quando a campainha tocou, dirigiu-se imediatamente para o departamento de música. Uma professora estava a arrumar uma pilha de pratos de baterias. «Desculpe, professora, sabe se há algum gira-discos aqui?», perguntou Paige. A professora fez uma expressão surpreendida. «Creio que há um no armário que está no corredor», respondeu a professora. «Porquê?» «Encontrei uns discos antigos em casa», disse a Paige. «Posso usá-lo durante um bocado?»


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«Claro que sim!» O leitor de vinil era antigo. O pó indicava de forma inequívoca que não era usado há anos. No entanto, Paige conseguiu pô-lo a funcionar. De forma apreensiva, colocou o disco de vinil no prato e baixou a agulha, repousando a agulha sobre a estria mais exterior. As suas mãos estavam a tremer. Estaria prestes a ouvir uma mensagem alienígena? Podia ser a primeira pessoa a ouvir uma voz extraterrestre. Começou a gravar um vídeo com o seu telefone e deixou o disco tocar. As colunas crepitaram e, do som de estática, ergueu-se uma voz. «Olá.» Paige susteve a respiração, incrédula. Era uma voz humana! «O meu nome é Dorothy Jackson. Estou a gravar esta mensagem no mês de janeiro do ano 1958, em Cape Canaveral, no estado da Flórida, nos Estados Unidos da América. Trabalho na administração nacional de aeronáutica e espaço, também conhecida como NASA. Faço parte de uma equipa que está a trabalhar no lançamento de uma nave para espacial em direção à atmosfera da Terra. Esperamos que este “satélite” esteja operacional e a orbitar o planeta dentro de alguns meses. Queria gravar uma mensagem para enviar na nave, à qual demos o nome Vanguard 1. O meu trabalho consiste em fazer cálculos geométricos para órbitas, mas tenho um amigo no departamento de engenharia que está a desenvolver uma espécie de cápsula do tempo. Vai soldá-la ao interior do satélite e deixou-me incluir o que eu quisesse. Dei voltas à cabeça sobre o que colocar nesta cápsula e acabei por decidir que o melhor seria fazer uma gravação. É difícil saber o que dizer. Esta mensagem pode nunca ser ouvida. Ou alguém, daqui a milhares de anos, poderá ouvir a minha tímida voz. Talvez alguém de outro planeta, imagine-se! Olá, quem quer que sejas. Bem, agora que penso na mensagem que quero partilhar com o futuro, só me lembro de uma coisa. Quero falar-te de uma mulher chamada Lily Fellowes.» A gravação parou, mas o choque era tal, que Paige demorou um bom bocado a dar conta disso. Não podia acreditar. Tinha encontrado uma cápsula do tempo! De um antigo satélite que tinha sido lançado nos anos 50! Era incrível que a mensagem tivesse resistido à passagem do tempo. Como era possível que tivesse chegado até ela? Paige virou o disco para tocar o lado B. «O trabalho da Lily consiste em fazer cálculos para a missão Vanguard. Um computador humano, tal como eu. E eu estou apaixonada por ela.»

Dorothy fez uma pausa e inspirou profundamente. A gravação continuou com aquela voz norte-americana antiquada e crepitante. «Nunca o tinha dito em voz alta. Não sei como vão ser as coisas no teu tempo, mas nos dias que correm, as mulheres não podem amar outras mulheres. E isso não me parece justo. Apaixonei-me pela Lily no dia em que a conhecia não vejo tal facto a mudar. Portanto, aqui tens. É esta a mensagem que te deixo. Estou a gravar esta mensagem em 1958. A Lily e eu nunca poderemos estar juntas, mas eu amo-a profundamente e quero deixar um registo desse amor para um tempo em que o mundo seja melhor e pessoas como nós sejam mais aceites. Espero que o futuro seja um pouco mais generoso que o presente. Talvez no teu tempo, todos possam amar-se livremente, como merecem. Acho que é tudo o que tenho para dizer. Isso e também que espero que este satélite entre em órbita, especialmente depois das longas horas e noites que passámos a trabalhar nele! Obrigada.» Com um crepitar final, a mensagem chegou ao fim. Paige parou a gravação do vídeo, fixando o seu olhar no inócuo disco preto. Era difícil de acreditar que uma mulher tinha gravado aquela mensagem há 60 anos. As suas palavras estiveram a orbitar o planeta desde então, à espera de alguém que as ouvisse. E de alguma forma, tinham chegado até Paige. Quando procurou no Google por «Vanguard 1», encontrou uma notícia do dia anterior. Deu conta que já a tinha visto, no site da NASA, mas não tinha prestado muita atenção. Lia-se no artigo: «O satélite há mais tempo em órbita, tendo sido lançado em 1958, foi retirado de circulação hoje. Os satélites desativados são geralmente lançados na direção do Oceano Pacífico, o ponto mais distante de qualquer habitação humana. Infelizmente, quando a NASA tentou guiar o satélite para sair de órbita, recorrendo a uma explosão controlada, este desintegrou-se em pequenas peças. Os pequenos estilhaços caíram pela Europa em vez de caírem em segurança no mar. Foram reportados, e gravados em vídeo, múltiplos avistamentos dos resíduos que caíram, pensando-se que eram estrelas cadentes. Por sorte, a maioria das peças foi destruída ao atravessar a atmosfera e não chegou ao solo. O satélite Vanguard 1 foi lançado em 1958 para testar a utilização de satélites na órbita da Terra. Foi o primeiro veículo espacial a usar células solares e o transmissor esteve operacional até 1964. Desde então, o satélite de alumínio tem permanecido na órbita da Terra, até

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a NASA ter decidido, esta semana, removê-lo para evitar colisões com outros satélites.» Paige não podia acreditar. Como era possível que precisamente a parte que continha uma mensagem há muito perdida tivesse aterrado intacta no seu jardim? De certa forma, parecia que Dorothy tinha vindo do passado entregar-lhe em mão uma mensagem destinada a chegar até ela. A campainha tocou, interrompendo a leitura. De forma apressada, voltou a arrumar o gira-discos no armário, certificando-se de que o disco de vinil estava bem acomodado na sua mala. Agora que sabia do seu valor, não podia correr o risco de ocorrer algum acidente. A aula seguinte era TIC, portanto acedeu de imediato ao Google para procurar pela Dorothy Jackson da NASA. Encontrou um artigo antigo sobre a passagem da cientista para a reforma, onde era referida como um computador humano que trabalhou nos lançamentos das missões Apollo durante a corrida espacial. O artigo incluía uma foto esbatida e monocromática de uma mulher negra, de saia e casaco de algodão, a apertar a mão de uma astronauta num fato espacial da NASA. Além do artigo, não havia muita informação sobre ela. Quando Paige procurou por Lily Fellowes, encontrou algo ainda melhor – a sua página de Facebook. Lily era idosa, a julgar pela sua fotografia de perfil. Era uma mulher caucasiana, com cabelo cinzento encaracolado e óculos de armação grossa. Na sua descrição, lia-se que tinha trabalhado na Divisão de Mecânica Aeronáutica na NASA ao longo de 35 anos. Não parecia que alguma vez se tivesse casado. Paige ficou a pensar se Dorothy alguma vez tinha partilhado os seus sentimentos com Lily. Será que Lily tinha conhecimento de que a sua colega nutria um amor tão intenso por ela que tinha enviado uma mensagem para o espaço para que, milhares de anos depois, alguém viesse a saber do mesmo? Subitamente, Paige percebeu o que tinha de fazer. Não podia dar o estilhaço do Vanguard 1 a um museu ou laboratório. Tinha de o entregar à sua destinatária – Lily. Era seu de direito. E era demasiado pessoal para se tornar notícia ou peça de museu. Paige enviou uma mensagem de Facebook para Lily, anexando o vídeo que ela gravou da mensagem de Dorothy a ser reproduzida no gira-discos. Enviou também algumas fotografias do boneco de neve atingido pelo objeto onde a mensagem estava guardada, assim como do compartimento que tinha sido soldado no seu invólucro metálico. 104

A mensagem dizia o seguinte: «Olá, Lily: Não sei se viu as notícias, mas ontem o satélite Vanguard 1 foi retirado da órbita da Terra. Penso que tenha colaborado no seu lançamento, em 1958, com a sua amiga Dorothy Johnson. Uma parte do satélite aterrou ontem no meu jardim, em Inglaterra, e continha um antigo disco de vinil. Era uma gravação da sua amiga. Anexei um vídeo porque penso que vai gostar de ouvir a mensagem. Não é preciso responder a este e-mail, mas tenho curiosidade em perceber se ainda é amiga da Dorothy? Ela alguma vez falou consigo dos sentimentos que nutria por si? Espero que ambas estejam felizes. Adorei a mensagem dela. Parece ser uma pessoa incrível. Se quiser, posso enviar-lhe o disco por correio. Acho que merece tê-lo. Paige» Após inspirar profundamente, Paige enviou a mensagem. Queria esperar para ver se Lily iria responder, mas já tinha perdido o início da aula. Tentou acompanhar a atividade de programação que o resto da turma estava a fazer, sentindo borboletas às voltas no estômago. Teria tomado a atitude certa? Será que Lily ficaria irritada quando lesse a sua mensagem? E se a tivesse incomodado? Agora, era demasiado tarde. Tudo o que Paige podia fazer era esperar. * Paige fixou-se na caixa de mensagens do Facebook a caminho de casa, na esperança que Lily lhe respondesse. Para sua surpresa, a mensagem para Lily estava marcada como tendo sido vista. Lily ainda não tinha respondido, mas tê-la visto já era mais do que Paige esperava. Durante essa noite, e durante grande parte do dia seguinte, Paige só conseguia pensar em Lily e Dorothy. Tinha apenas mais uma semana para tomar uma decisão sobre o seu estágio, mas não se conseguia focar de todo. A espera era agonizante. Por fim, um dia acordou e tinha uma mensagem 105


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LAUREN JAMES

de Lily. Tinha sido enviada de madrugada dos Estados Unidos. Um vídeo. Paige pôs o vídeo a tocar, esperando impacientemente que carregasse. Uma senhora velha sorria para a câmara, o rosto recheado de rugas. Lily empurrou os óculos pelo nariz acima e disse, «Está a gravar?» No fundo, outra voz disse: «Está sim!» «Olá, Paige! Muito obrigada pela tua mensagem. Não sabes a alegria que me deste. Foi como uma cápsula do tempo, que remonta ao período mais feliz da minha vida, voltar a ouvir a voz da Dottie. Que coincidência incrível teres encontrado a mensagem dela desta forma. Ela manteve isto em total segredo, não fazia ideia que tinha gravado esta mensagem. Que alegria. A verdade é que eu também a amava. Desde o dia em que a conheci, ela tornou-se na minha melhor amiga e na minha pessoa preferida. Passávamos os dias juntas, a fazer cálculos e à conversa. Amava-a, mas não tinha ideia de que ela sentia o mesmo. Quem me dera que ela mo tivesse dito em vez de enviar uma mensagem para o espaço!» Fora do plano da câmara, a outra voz disse: «Hei!» Lily sorriu. «Trabalhámos juntas durante anos, mas na década de 70, ela foi trabalhar para uma agência diferente. E passado algum tempo, perdemos o contacto. Quando recebi a tua mensagem… há décadas que não falo com ela, mas penso muito nela. Ela foi o grande amor perdido da minha vida. Sempre me arrependi de nunca ter partilhado com ela como me sentia. Como podes imaginar, quando ouvi esta carta de amor do passado, foi um grande choque. Não fazia ideia de que ela gostava de mim desta forma ou mesmo se se casou. Mas tinha de a encontrar. E ontem, consegui encontrá-la. Passados estes anos todos, descobri que ela vivia numa cidade aqui perto. Mostrei-lhe o vídeo da gravação e disse-lhe que sentia o mesmo. E pedia-a em casamento.» O rosto de Lily encheu-se de vincos para mostrar um sorriso radiante. Fora do plano da câmara, a outra voz disse: «E eu aceitei!» Dorothy apareceu no plano, envolvendo o seu braço à volta de Lily e acenando para a câmara. Tinha cerca de 80 anos, com caracóis de um branco puro e um batom cor de rosa. À volta do seu pescoço, estavam uns óculos de leitura pendurados por uma corrente. Lily beijou a bochecha de Dorothy e virou-se para a câmara. «Paige, não é possível exprimir a forma como mudaste a minha vida. Nunca pensei que seria possível ser assim tão feliz. Tenho 84 anos, mas sinto que

a minha vida está prestes a começar. Se não tivesse ouvido a mensagem da Dottie, nunca a teria procurado.» Dorothy pegou na mão de Lily e levou-a ao peito. «Na altura, não nos podíamos casar, meu amor. Agora podemos. E podemos recuperar o tempo perdido.» Lily fixou o seu olhar em Dorothy por um instante e disse: «Ah, mais uma coisa! Paige, quero mostrar-te isto.» A câmara estava agora fixa numa fotografia. Podia ver-se um par de jovens mulheres em vestidos dos anos 50, juntas a uma nave espacial da NASA que se preparava para o lançamento. Cada uma com os seus braços à volta da outra, a sorrir expressivamente para a fotografia. Paige conseguia ver os mesmos sorrisos nas velhas senhoras que estavam a agarrar na fotografia. «Se alguma vez pudermos fazer algo por ti», disse Dorothy, «basta dizeres. Devemos-te muito!» Quando a gravação terminou, Paige deparou-se com lágrimas. Não podia acreditar na felicidade delas. O reencontro de Dorothy e Lily era um mero acaso. Se Paige não tivesse decidido fazer aquele boneco de neve, nada disto teria acontecido. Limpou as suas humedecidas bochechas e escreveu-lhes uma longa mensagem, certa de que as palavras ficariam embebidas de emoção. No fim, acrescentou: «Se me quiserem retribuir mesmo o favor, há algo que quero pedir. Se ainda conhecerem alguém na NASA, estou à procura de um sítio para estagiar. Sou boa a matemática… e seria ótimo poder devolver-vos o disco de vinil.»

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Traduzido do inglês para português por Susana Valdez

QUEENSBRIDGE SCHOOL WITH LAUREN JAMES


LIAM BROWN

PROCURA-SE… PAZ

PROCURA-SE… PAZ

Liam Brown é o autor de quatro romances, Real Monsters (2015), Wild Life (2016), Broadcast (2017) e Skin (2019). O seu trabalho foi publicado internacionalmente, traduzido para várias línguas e escolhido por um grande estúdio de Hollywood. Vive em Birmingham, Inglaterra, com a sua esposa e dois filhos.

Alguma vez paraste para pensar em quão barulhento é o mundo? Não me refiro aos sons vulgares: o para-arranca que perturba as pedras do pavimento; o vento arrepiante que faz as folhas das árvores dançar; o grunhido metálico do camião do lixo que passa pela janela do teu quarto todas as terças-feiras às seis da manhã. Falo dos outros sons, aqueles que muitas vezes passam despercebidos. Não sabes do que falo? Fecha os olhos e presta atenção. Não te preocupes, eu espero. Estás de volta? O que ouviste? Eu conto-te o que ouvi no meu escritório enquanto escrevia estas linhas. Ouvi o pio de uma coruja. O ensurdecedor ladrar do cão do vizinho. A estridente sirene de um carro da polícia. O repetitivo gotejar do cano que nunca cheguei a arranjar. O murmúrio distante de um avião ou, mais perto, os incansáveis ponteiros do relógio que não param um segundo. O suave zumbido do meu candeeiro de mesa. O som da minha respiração pesada. O ruído do meu pegajoso teclado. Todos juntos, estes sons criam uma cacofonia dissonante que ecoa na minha cabeça, cada vez mais intensa. É o suficiente para enlouquecer qualquer um… * Conheço uma pessoa que definitivamente percebe o quão barulhento pode ser o mundo. Chama-se Taz. Se te mostrasse uma fotografia e pedisse para a descreveres, talvez me dissesses que era uma rapariga de quinze ou dezasseis anos, alta e magra, com cabelos castanhos pelos ombros e um sorriso acolhedor. E se tivesses olho para o detalhe, talvez reparasses no livro de arqueologia que trazia no braço ou a menina a fazer caretas no canto da fotografia. Se te perguntasse depois a tua opinião sobre Taz, é possível que escolhesses adjetivos óbvios ou previsíveis. Provavelmente, alegre. Talvez engraçada. Simpática. Ou, se tivesses reparado nas olheiras ou unhas roídas, talvez achasses que estava um pouco cansada ou até mesmo exausta. Tirando isso, dirias que Taz tem um ar contente e despreocupado. E é aí que te enganavas redondamente. 109


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Embora fosse verdade que Taz poderia ser assim descrita – alegre, simpática, acolhedora – no dia em que tal fotografia foi tirada estava exausta, pois estava a estudar para os exames finais. Ou melhor, a tentar estudar para os exames finais. Desde pequenina que Taz sonhava em ser arqueóloga. Sempre se imaginou nos desertos do Jibuti a descobrir dinossauros (Tazossaurus?) ou a passear numa floresta tropical no Rio de Janeiro e descobrir as ruínas de uma civilização desconhecida. Era o seu trabalho de sonho. Mas, para o concretizar, tinha de passar nos exames. O que implicava muita revisão. Infelizmente, tal revisão estava a ser quase impossível. O problema era a sua família ou, mais especificamente, o barulho que estes insistiam em fazer sempre que ela pegava nos livros para estudar. Nunca se calavam, nem por um minuto. Sempre que tentava decorar as capitais dos países da África Ocidental ou se tentava lembrar da fórmula para calcular os ângulos de um triângulo isósceles, a sua família começava a fazer a maior balbúrdia imaginável, tornando impossível que se concentrasse. O seu pai, por exemplo, parecia incapaz de falar ao telefone sem gritar e soltar uma gargalhada em cada frase, que fazia lembrar um ganso a tocar um saxofone desafinado. Ainda era um mistério para Taz por que razão os vizinhos não tinham ido bater à porta para reclamar. Já a sua mãe parecia esperar que ela se sentasse na secretária com os livros à frente para começar um projeto para fazer deitar mãos à obra. Furava paredes, serrava madeira, martelava objetos. Era ridículo. Mas a que a irritava mais era a sua irmã mais nova. Estava constantemente a assobiar, a tossir, a espirrar, a bocejar, testando sempre a paciência de Taz. Até o som que ela fazia a comer os cereais do pequeno-almoço a enlouquecia. Acima de tudo, Taz desejava um dia inteiro sozinha para conseguir estudar sem marteladas nas paredes, pesados passos e o metal a ressoar pela casa. Sonhava com ilhas desertas, cumes de montanhas no meio do nada, abrigos subterrâneos. Sonhava com silêncio. * A sua paciência esgotou-se numa bela manhã de sábado. Taz tinha acordado com os pés de fora. O chilrear dos pássaros na rua fazia-a querer

matar tudo e todos. Na casa de banho, o som da irmã a lavar os dentes era uma afronta pessoal. No andar de baixo, o som do motor do aspirador parecia ecoar no seu cérebro. Era impossível trabalhar naquela casa. Até que aconteceu algo milagroso. A família foi toda às compras, deixando-a sozinha em casa. Ansiosa por aproveitar a paz e o silêncio, correu para o seu quarto, pegou nos livros e espalhou-os na secretária. Sentiu uma brisa de frio, por isso foi buscar o seu casaco de malha mais confortável. Depois, decidiu que a cadeira de madeira ia ser desconfortável, por isso passou os livros todos da secretária para a cama. Por fim, estava pronta. Fechou os olhos por um segundo. Respirou fundo. Ouviu o que a rodeava. Não havia chamadas telefónicas. Nada de tarefas barulhentas. Nenhuma irmã tagarela. Até os pássaros tinham por fim fechado o bico. A casa não estava tão silenciosa como naquele momento há meses. Tudo era perfeito… Bam!

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Taz abriu os olhos ao ouvir a porta da entrada bater. Estava deitada de barriga para baixo na cama, um dos livros colado na sua cara. Devia ter adormecido. Conseguia ouvir, vindas do andar de baixo, as familiares vozes da sua família. E de repente, um grito de agonia. Teria alguém sequestrado a família? Teria um grupo de hienas entrado na casa? Desceu as escadas a correr, pronta para os salvar. No entanto, ao entrar na sala foi confrontada com a imagem do seu pai com um microfone na mão, a tentar desesperadamente acompanhar a letra da música que passava no ecrã da televisão. «Taz! Olha só o que comprámos», disse a irmã com um sorriso enorme estampado na cara. «Uma máquina de karaoke.» Foi a gota de água. Sem dizer uma única palavra, Taz virou costas, voltou a subir as escadas e bateu com a porta do quarto. Não aguentava mais. Estava farta daquela casa, daquelas pessoas, do barulho sem fim. Tinha de sair dali e já. Pegou em todos os livros, enfiou-os na mochila e foi até à janela. Ao ouvir o falsete do pai a ecoar pelas divisões da casa, abriu a janela e desceu pelo cano.


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Nas horas que se seguiram, Taz visitou vários locais da cidade à procura de um bom sítio para estudar, mas sem sorte. A biblioteca municipal estava fechada por falta de fundos. O café com o empregado tagarela e a máquina de cappuccinos que mais parecia um avião a descolar. O restaurante de fast-food com as chapas a crepitar e as fritadeiras a borbulhar. O café do supermercado com os bips das caixas registadoras e o chiar das rodas dos carrinhos de compras. Tentou até um banco de jardim, mas os gritos dos fanáticos do futebol e das crianças tornaram-se intoleráveis. O dia estava quase a chegar ao fim e, por isso, decidiu sair da cidade. Apanhou o 61 e contemplou a paisagem do outro lado da janela enquanto este navegava pelo trânsito intenso típico de sábados. Ali sentada, foi cada vez mais dando conta dos sons à sua volta. O rangido do velho motor a gasóleo. A conversa fútil dos outros passageiros. A campainha intermitente a soar. O balbuciar de um bebé num carrinho. As buzinas dos carros. O chocalho das moedas. O rasgar dos bilhetes… Quanto mais ouvia, mais difícil era abafar todos os sons em seu redor. Sentia-se sufocada pelos sons. E, sem ver onde estava, levantou-se e correu para as portas. Depois de recuperar o fôlego, olhou à sua volta. Estava ao lado de um enorme descampado, mas os seus olhos detetaram algo brilhante à distância. Um conjunto de edifícios com um aspeto peculiar escondido atrás de uma vedação de aço. Começou a andar na sua direção. Estava talvez a meio caminho quando deu conta de que era um recinto de uma feira. Uma torre vermelha e branca envolta em carris a partir da qual se viam as restantes diversões e bancadas de jogos clássicos, tais como carrosséis, carrinhos de choque, pesca do pato, jogo das latas… Taz sentiu subitamente um aperto no peito. Uma feira seria o último sítio de onde podia esperar silêncio. No entanto, quanto mais se aproximava, mais se apercebia o quão contida era esta feira. Não ouvia a música tecno das diversões. Não ouvia os gritos dos visitantes ou dos feirantes. Na verdade, a feira parecia totalmente deserta. Quando chegou à vedação percebeu porquê. Encontrou uma grande faixa pendurada numa caravana:

Feira do Blippo, e, por baixo, escrito com caneta permanente: Fechada por tempo indeterminado. Taz encostou a cara à grade da vedação. Não se via uma única pessoa. O recinto parecia mesmo abandonado. Começou a caminhar ao longo da vedação, admirando a feira deserta, até chegar à entrada. Até a bilheteira estava vazia. «Está aí alguém?», disse Taz. Sem obter qualquer resposta, tentou novamente, mas desta vez colocou as mãos à volta da boca para amplificar o som. «ESTÁ AÍ ALGUÉM?» No outro lado do descampado ouviu-se o bater de asas e um bando de pombos a levantar voo. Além disso, silêncio total. Taz voltou-se mais uma vez para o recinto da feira. Apesar de saber que provavelmente seria uma péssima ideia, a simples possibilidade de ter finalmente um lugar para trabalhar sem distrações era uma oportunidade que não podia desperdiçar. Olhando uma última vez para trás, passou pela bilheteira deserta e entrou no recinto. * Quando era mais nova, adorava feiras. Achava que as diversões eram um pouco assustadoras, mas também entusiasmantes ao mesmo tempo. A forma como pareciam nunca estar bem montadas, como se a qualquer momento o barco víquingue se fosse separar do resto do carrossel e fosse lançado para as estrelas. Contudo, estar em feiras durante o dia era muito diferente. Era como as luzes das salas de cinema quando se acendem depois de um filme terminar e ficas a olhar para as pipocas todas espalhadas no chão. Agora, ao ver todos os carrosséis parados, Taz não conseguia evitar sentir a mesma desilusão. Sem as multidões ou as luzes ofuscantes, tudo parecia triste e medíocre. A tinta desvanecida. As máquinas ferrugentas. Os sinais a descamar. Era como se a magia tivesse desaparecido. Caminhando pelo recinto, procurava um sítio para se sentar e estudar. A maioria das bancadas tinha as portadas fechadas. As bancadas de tiro. A bancada do jogo das toupeiras. Todas fechadas. Por momentos, ainda ponderou entrar na casa de espelhos, mas descobriu um comboio fantasma no outro lado do recinto.

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A diversão tinha sido construída para se parecer com um castelo sinistro e tinha um quadro gigante do Drácula pendurado numa das torres. Em criança, tinha um pouco de medo do comboio. No entanto, a luz do dia fê-la ver tudo de forma diferente. Agora, o castelo parecia mais o lar onde estava a sua avó. Já o Drácula, de camisa branca e cabelo preto cheio de gel, lembrava-a do empregado de mesa do seu restaurante italiano preferido. De assustador não tinha nada. Ainda assim, era o sítio ideal para estudar por uma ou duas horas. Tinha mais do que espaço suficiente para se sentar e espalhar os livros no comboio que estava estacionado em frente à diversão. Assim que Taz entrou na carruagem da frente, viu algo a mexer-se pelo canto do olho. Levantou a cabeça e sentiu o coração a bater tão depressa que parecia querer sair do peito. Olhou à sua volta e nada, apenas o mesmo recinto deserto. Abanou a cabeça e soltou um riso nervoso por estar tão sobressaltada. À luz do dia ou não, o comboio fantasma continuava a inquietá-la. Quando tentou pegar na sua mochila, ouviu uma música ensurdecedora e súbita de um órgão. Olhou incrédula para a barra de segurança que estava agora no seu colo, antecipando o início da viagem. O comboio andou para a frente de um modo tão repentino e violento que a fez agarrar a barra como se temesse pela sua vida. «Espera!», gritou. «Parem! Quero sair daqui!» Não obteve qualquer resposta. Não havia ninguém por perto, a bilheteira continuava definitivamente vazia. O comboio ia dar a volta completa, quer ela quisesse ou não. Segundos depois, as portas do castelo abriram-se e ela desapareceu na escuridão. * Os olhos de Taz demoraram uns segundos a habituar-se à falta de luz. Para seu alívio, o comboio era quase tão assustador por dentro como por fora. Uma aranha robótica com sete pernas começou a caminhar de forma pouco convincente por uma teia. Um esqueleto com tinta verde fluorescente saltou de uma lápide de cartão enrugado. Uma colónia de

morcegos de borracha baloiçava inocentemente, suspensa por um arame. Nem a sua irmã mais nova se teria assustado com estes adereços. Quanto muito, era irritante, especialmente a música alegre de órgãos que saía das colunas com um volume ensurdecedor. Taz continuou sentada, com os dentes cerrados, esperando pelo fim da viagem. Enquanto o comboio continuava a sua viagem, Taz deu conta de que o castelo estava dividido em duas secções. Havia uma secção ocidental, na qual esqueletos apareciam por portas de bares do faroeste, com pistolas nas pontas das falanges dos indicadores. E também havia uma secção do antigo Egito, com uma múmia que saltava de um sarcófago de papel mâché. Tinha acabado de entrar numa secção particularmente confusa de piratas, na qual um grupo de corsários robóticos mortos-vivos com alfanges a oscilar na sua direção. Quando as luzes se apagaram, mergulhou abruptamente na escuridão. Por momentos, desejou que fosse tudo parte da viagem. Uma última tentativa de a assustar. Contudo, segundos depois, tanto a música como o comboio pararam. Taz ali ficou, no escuro, à espera que as luzes se acendessem novamente e que o comboio recomeçasse a andar. Minutos depois, ainda nada tinha acontecido. Mais irritada do que assustada, pegou na mochila e procurou o telemóvel. A luz branca da lanterna tornava os piratas mortos-vivos ainda mais patéticos, com os arames e os circuitos elétricos expostos. Revirou os olhos. Mas nesse mesmo momento, viu algo em fuga no chão, seguido de um chiar desconcertante. Seria um… rato? Não teve tempo para pensar. Segundos depois ouviu algo ainda mais assustador. Pegadas que ecoavam pelo castelo. E aproximavam-se cada vez mais. Inquieta, voltou-se no banco, usando a lanterna para procurar uma silhueta. Estava alguém nos carris a vir na sua direção. Ou melhor, estava algo nos carris a vir na sua direção. Parecia impossível, mas a silhueta que se estava a aproximar parecia ser de um palhaço, com um bizarro sorriso vermelho estampado na cara branca. Agora sim, Taz estava assustada. Aterrorizada até. Agarrou a barra de segurança que estava apoiada nos seus joelhos, tentando desesperadamente levantá-la. Não se mexeu. Estava presa. Virou-se para o palhaço, que estava

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agora muito perto dela, com dentes amarelos à mostra e olhos muito abertos cheios de raiva. «Não! Por favor!», gritou. «Pare. PARE!» Para sua surpresa, o palhaço parou. Parou à frente do comboio, pôs as mãos nas ancas e soltou um riso. Não era o riso demoníaco que estava à espera, mas um riso abafado. Como se se estivesse a rir por estar a vê-la. «Não me mate», conseguiu dizer. O palhaço parecia confuso. «Matar-te? O que estás para aí a dizer? Vim para te salvar.» «Salvar-me?» «Sim, do comboio. Já está a dar problemas há semanas. Penso que sejam os circuitos elétricos. Começa e para quando quer. É como se tivesse vontade própria. Tiveste sorte que te vi nos ecrãs das câmaras de segurança. Estou mais interessado em saber o que te passou pela cabeça para vir para aqui? Sabes que devia chamar a polícia? Isto é propriedade privada. Se bem que, a julgar pela tua cara, o susto é castigo suficiente. Agora, vamos tirar-te daqui…» * Depois de a salvar do comboio avariado, o palhaço, que tudo indicava chamar-se Blippo, ajudou-a a sair da diversão em segurança. Enquanto andavam, Taz contou-lhe o quão horrível tinha sido o seu dia e o quão difícil tinha sido arranjar um sítio calmo para estudar. «Bem, o último sítio no qual deverias querer estar é num parque de diversões», disse Blippo. «Ainda que, como deves ter percebido, este está ligeiramente mais silencioso do que qualquer outro. Tivemos alguns problemas com... visitantes indesejados. Mais especificamente, uns de quatro patas que guincham. A agência de proteção ambiental obrigou-nos a fechar. Temporariamente, devo acrescentar.» Quando chegaram ao final dos carris e saíram do castelo, os seus olhos estranharam a luz do dia. «Bem, tenho de ir andando», disse meio envergonhada. «Mais uma vez, peço desculpa por ter dado tanto trabalho.» «Espera aí», disse Blippo. «Tive uma ideia para o teu problema com o barulho. Tenho o sítio perfeito para estudares.»

* A diversão chamava-se «Cosmonauta» e Blippo garantiu que era a única em funcionamento fora do Japão. «O meu filho convenceu-me a comprá-la. Disse que era o futuro dos parques de diversão. Já eu, não tenho tanta certeza. Para mim, não há nada melhor do que uma montanha russa tradicional. Ainda assim, devo admitir que até estava a ser um êxito entre os mais jovens. Pelo menos, estava a ser até a agência nos obrigar a fechar.» «Mas é o quê em concreto?», perguntou. Estavam os dois à frente de uma pequena diversão no formato de um vaivém espacial com NASA escrito a vermelho na parte lateral. As janelas estavam todas seladas, por isso era impossível ver o interior. «É um simulador», explicou Blippo. «Uma coisa qualquer virtual. Como um videojogo enorme, sabes? É muito bom, bastante realista e tem vários programas. Normalmente, usamos um que se chama “Aventura Marciana”, em que as pessoas, os astronautas, se deparam com uma cintura de asteroides e vão acidentalmente parar a Marte. Consegues imaginar o resto. Também temos outro, chama-se “Perdidos no Espaço”.» «”Perdidos no Espaço”? O que acontece nesse?» «O que achas que acontece? Bem, vais ver dentro de um minutinho…» Antes que pudesse fazer o que quer que fosse, Taz estava a subir escadas e a passar portas duplas, que produziam um som sibilante, tal qual uma câmara de vácuo. No interior, deu por si numa pequena sala construída para se parecer com uma cabina de um vaivém, a única diferença era o ecrã gigante em vez de uma janela. Blippo prendeu-a numa cadeira e, de seguida, premiu alguns botões do centro de controlo à sua frente. «Podes ficar aqui o tempo que quiseres», disse. «Até porque ninguém está a fazer fila para entrar…» Em seguida, virou costas e saiu. Pouco depois, começou uma contagem decrescente. Dez, nove, oito… E assim descolou, atravessando a atmosfera em direção ao desconhecido. O som era assoberbante e a câmara abanava por todos os lados. Apesar de saber que era uma simulação, teve de se agarrar bem à cadeira. Esta

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simulação era muito mais assustadora do que qualquer coisa que tinha visto no comboio fantasma, incluindo Blippo! Os sons dos motores pararam pouco depois de começar, deixando Taz a olhar fixamente um ecrã repleto de estrelas cintilantes. Era uma imagem linda. E não era só isso: não se ouvia um pio. Pegou na mochila e tirou os livros. Por fim, tinha encontrado um sítio para estudar em paz. Contudo, com o passar do tempo, ocorreu algo estranho. Enquanto viajava pelo vasto e silencioso cosmos, deu conta de que era cada vez mais difícil concentrar-se nas palavras. Tinha uma sensação estranha na barriga que a distraía. A princípio, pensou que poderia ser fome. Depois, chegou a pensar que poderia estar a ficar doente. Até que percebeu. Sentia-se sozinha. Ali estava ela a viajar pelo universo virtual, sozinha, e no verdadeiro planeta Terra, a sua família deveria estar preocupadíssima sem saber onde estava. Assim, sem esperar que o vaivém regressasse à base, arrumou os livros na mochila, ajeitou as alças e dirigiu-se à saída de emergência. * Já quase não havia luz quando chegou à sua rua. Na casa ao lado, os vizinhos pareciam estar a dar uma festa. Pelas janelas abertas, escapavam gritos de entusiasmo e música muito alta. Taz não queria saber, estava simplesmente feliz por estar em casa. Passou pelo beco apertado nas traseiras da casa até ao jardim, trepou pelo cano e entrou no quarto pela janela que tinha deixado aberto. Uma vez lá dentro, parou e ouviu. Nem um som. Nada de música. Nada de cantorias desafinadas. O seu coração ficou pesado. Tinha chegado demasiado tarde. De certeza que os seus pais tinham dado conta de que estava desaparecida e tinham ido à polícia. Deviam estar desesperados. Abriu a porta do seu quarto e correu escada abaixo. No entanto, quando chegou à sala ficou espantada por ver toda a sua família ali sentada, cada um com um livro nas mãos.

«Olá, filha», disse a mãe, levantando os olhos das páginas à sua frente. «Já terminaste por hoje?» Taz olhou incrédula para a mãe. «Se terminei?» «Sim. A tua irmã disse-nos que estavas a estudar. Desculpa se te incomodámos hoje. Achámos melhor não fazer barulho o resto do dia.» «A sério?», disse a rir-se. «Não me importo, podem fazer o barulho que quiserem.» Olhou à sua volta, dirigiu-se à máquina de karaoke e pegou no microfone. «Quem quer fazer um dueto? Pai?» Passaram o resto da noite os quatro juntos, a cantar quase até ficarem sem voz. Soltaram guinchos agudos. Assobiaram e gritaram, arruinando música atrás de música com as suas desafinadas vozes. Era o som mais bonito que algum dia tinha ouvido, pensou.

Traduzido do inglês para português por Susana Valdez

KING EDWARDS VI BALAAM WOOD ACADEMY Majdi

Skye

Baha

Fathi

Carter

Bradley

Tayla

Taylor

Roni

Courtney

Alfie

Damien

Jordan

Kayla

Blake

Natasha

Ladja

Keira

Jubair

Mr Josh Woods

Sophie 118

Mrs Emma Turrell 119


NORUEGA

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ELDRID JOHANSEN

O PEQUENO, GRANDE AMOR

O PEQUENO, GRANDE AMOR

Eldrid Johansen, nascida em 1973, publicou muitos livros para crianças e jovens, desde a sua estreia com «Sara quer ser uma estrela», em 2005. Eldrid trabalha como cantora e produtora de literatura no programa escolar do governo “A mochila cultural”, para além de escrever livros. Durante muito tempo, organizou oficinas de escrita criativa em todo o país. Eldrid também apresenta os seus livros com concertos e performances especiais para crianças. Visitou festivais de literatura, bibliotecas e escolas e é uma artista popular. "Escreve de forma brilhante!" foi nomeado para o prémio Brage e ganhou o prémio do Departamento de Cultura de melhor livro factual para crianças e jovens em 2016. Em 2017, a “Maldição de Faroé” foi nomeado para Prémio de livro infantil da ARK. Em agosto de 2020 é publicado o seu 25º livro. "De você me viu ”é um romance para a juventude.

O som da campainha ecoa pelo ar. Somente quando descolo como um foguete é que percebo que tenho estado à espera à beira do sofá. O meu coração bate forte com os passos a bater no parquet em direção ao corredor. À frente do espelho do armário, paro e passo a mão pelo cabelo recém-lavado. Estava a chorar. Penteei-me mais de vinte vezes com a escova de cabelo. Procurei ainda os nós que se formam sempre no pescoço, onde os caracóis e os cabelos lisos se entrelaçam, são dos piores que conheço. Felizmente, o meu cabelo ainda está brilhante e caído sobre os ombros. Um pequeno sorriso encorajador para os olhos que brilham no espelho: Tu consegues! Estás bem e preparada! E aí, com um empurrão, abro a porta. Sei que as bochechas momentaneamente pegam fogo e ficam certamente ruborizadas. Porque o sorriso torto que me encontra faz o meu corpo explodir. Um formigueiro selvagem na pele das minhas mãos espalha-se como uma pandemia descontrolada, através do meu coração trémulo, até fazer cócegas nos meus pés. - Olá! - digo. A minha voz soa estridente e estranhamente desconhecida. Corro para me voltar para o corredor. Glória. Não consigo falar como deve ser? Encolho-me. Tento novamente. - Entra! - Obrigado, obrigado! - diz ele, enquanto fecha a porta atrás de si. Permaneço de pé e observo-o a tirar os ténis brancos. E como num momento fascinante, ele tira o casaco de couro preto e pendura-o no cabide que acabei de desocupar. Algo surge no fundo da minha garganta. Uma manga do meu casaco cor-de-rosa, aquele que tirei do cabide e coloquei num monte com outros, sobressai. - Tens fome? - pergunto. Mas agora com os olhos desviados dele, para ganhar o controlo sobre a voz. - Temos pizza e salada. - Seria fantástico! - responde ele. - Estás sozinha? Sozinha. Como se estivesse. - Só o Kim é que cá está. - respondo. – Está a ver Netflix na sala de estar. Viro-me para ele novamente. O cérebro implora às bochechas que parem de arder, mas não estou certa se as bochechas recebem a mensagem ou se pararam de se importar. 123


O PEQUENO, GRANDE AMOR

ELDRID JOHANSEN

- A comida está pronta. Ele senta-se. Sorri novamente. Aquele sorriso maravilhoso que faz o coração falhar uma batida. Para não mencionar o olhar azul brilhante que, sempre que os meus olhos o encontra, desencadeia uma dança selvagem no meu estômago. A caminho da cozinha, segui estranhamente no meu próprio passo. Será que ele acha que estou a ir bem? Estou feia? Demasiado depressa? Durante todo o tempo, estou consciente de que ele está logo atrás de mim. É tão estranho, porque mesmo que não o ouvisse, eu sinto-o. É como se os meus sentidos estivessem bem afinados quando ele está por perto. Notei-o também da última vez. Como se me tivesse tornado tão sensível quanto o Estrela, o Golden Retriever do meu avô, que sabe quando chego e deixa-o flagrantemente claro, muito antes da porta se abrir. - Por favor - digo, enquanto apoio a mão direita no balcão da cozinha. – Tira o que quiseres. Enquanto questiono o meu cérebro para saber o que dizer, mantenho-me de pé e vejo-o a agradecer. Imagino como pegar num prato e enchê-lo com fatias de pizza e salada pode ser feito tão bem. O seu rosto é belo como um póster de estrela de cinema. O corpo também. Tudo o que ele faz é perfeito. Na verdade, antes de conhecê-lo, não fazia ideia de que os rapazes reais, na vida real, podiam ser assim. Nem que aquele cabelo de menino podia ondular daquela maneira, perfeitamente meio colado ao rosto. Ele olha para o prato. Alguém olha para mim antes que ele pergunte: - Também queres? Percebo que ergui os ombros até às orelhas. A tentar fazer com que não fosse tão óbvio. - Talvez um pouco. - digo. - Já comi, mas aguento um pouco mais. Ele sorri. - Para mim é perfeito ter companhia enquanto como.

- Queres ver um filme, talvez depois? Ri-se para dentro. Eu aceno. Ele olha para baixo. Isso era o que eu sonhava e adorava. Eu e ele. No sofá, sozinhos. - Tens alguma preferência? – continua ele. - Para filmes, quero eu dizer. Claro que sim. O conjunto de sugestões ainda está debaixo da almofada, mesmo que eu tenha há muito tempo definido a ordem de preferência para filmes. Ainda hoje cedo creia que tinha pensado em tudo, mas será que pensei? Não queria fazer a escolha errada. Ele não podia mesmo ficar entediado ou ter uma impressão errada de mim. - Há muitos filmes que gostaria de ver. - Engulo. – Banda desenhada também. E tu? Ele olha para cima. - Eu alinho em tudo. Alinhas mesmo em tudo? Um arrepio percorre-me, o qual espero que ele não note. - O Kim... - Sussurrei. - Ele tem de se ir deitar primeiro, então. - Claro. - diz ele, enquanto tira o telemóvel do bolso. Por um longo momento, ele permanece sentado e mexe no telemóvel.

Apoio-me e sento-me na cadeira à sua frente na mesa da cozinha. Encontrar palavras é tão difícil. Normalmente, tenho facilidade em fazer conversa. Agora é como se todas as frases tivessem desaparecido e escondido na parte mais profunda do meu cérebro. De algum modo, elas desviam-se e são impossíveis de apanhar. Depois de mastigar por uns momentos, em silêncio, ele volta os olhos para mim.

Quando finalmente se levanta, coloca o prato no lava-louça e caminha em direção à sala de estar. Eu sigo-o. Acontecerá agora. Finalmente! - Olá, amigo. - diz ele, ao despentear o cabelo do Kim. - Tudo bem? O Kim continua com os olhos colados ao ecrã da televisão. - Estás a ver algo interessante? O Kim concorda com a cabeça novamente, mas em vez de parar, ele atira-se para o sofá ao lado do Kim. A irritação cresce dentro de mim. O tempo está a passar. Vão sentar-se os dois a ver desenhos animados estúpidos e barulhentos? Ele não percebe que cada minuto com o Kim consome um pouco do meu tempo. Do nosso tempo. O meu coração bate cada vez mais depressa quando me viro e volto para a cozinha. Paro em frente do lava-louça da cozinha e espero. A sério! Não temos tempo para isto. Antes que saibamos, ela volta e será tarde demais. Abro a torneira e deixo a água cair sobre os pratos com migalhas. Após lavar os dois pratos, regresso à sala de estar. - Hora de ir para a cama, Kim. - digo, enquanto pego no comando e desligo a televisão. - A sério? Não posso acabar de ver?

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O PEQUENO, GRANDE AMOR

ELDRID JOHANSEN

- É tarde. - continuo. - Podes ver o resto amanhã. - És tão chata. – suspira o Kim. - Ela não é tão chata? - Ela tem razão. - responde ele. Solta uma risada. Tão suave e quente que cria ondas nas minhas profundezas. - Amanhã também é dia. O Kim levanta-se do sofá e desaparece na casa de banho. Já lá deixei o pijama e a escova de dentes. Até pasta de dentes deixei. No dia seguinte verei como conseguirei a caixa de Lego que prometi ao Kim, em troca de ele escovar os dentes e se deitar sem ouvir uma história e uma canção. - Uau. Que bem. - diz ele enquanto o Kim desaparece. Mais uma vez, tira o telemóvel do bolso das calças. – Tão bom que o Kim já se esteja a preparar. - murmura ele com os olhos fixos no ecrã. Permaneço de pé até ouvir o Kim a sair da casa de banho e a porta do quarto a deslizar novamente. Perfeito. A primeira parte do plano está feita. Agora é a minha vez. Só quando me sento ao lado dele é que ele tira os olhos do telemóvel. Percebo que, ao mesmo tempo, se está a afastar de mim. Tão ocupado com o telemóvel. Ele não costumava ser assim. Sinto uma dor no peito. Estará ele a falar com alguém? Com uma rapariga? Tapo-me com o cobertor que o Kim estava a usar. Ainda tem o calor dele. - Noite de cinema! - exclamo em voz alta para ele ouvir. Como se fosse uma ordem, ele pousa o telemóvel na mesa da sala. - Oh sim. - diz ele. Pego novamente no comando e encontro a 1ª opção de filme: Love Actually. Era a comédia mais romântica de todos os tempos. Agora não havia como voltar atrás. Dado que ele não reclamou, ponho o filme e reclino-me confortavelmente no sofá, bem pertinho dele. Apenas quando chegamos à parte dos beijos e abraços e da alegria do amor num aeroporto é que inspiro e percebo que prendera a respiração. Ele olha para mim, sorri brevemente e reclina-se para trás também. - Tens a certeza de que este filme está bem para ti? - Está bem. - concordo. Um artista desaparecido canta num estúdio de música. As pessoas preparam-se para o Natal. Esqueço-me dos detalhes de todas as histórias. Em vez disso, utilizo a minha energia para me aproximar um pouco mais. 126

Finalmente, estou bem. Enquanto o calor da sua perna flui para a minha, não consigo parar de tremer. Ele olha para mim novamente. Desta vez com as sobrancelhas levantadas. - Estás com frio? Encolho os ombros, tapo-me com o meu cobertor e enrolo-me. - Talvez um pouco. - Vem cá. - diz ele, enquanto coloca o braço em volta dos meus ombros. – Eu aqueço-te. Se ao menos ele tivesse visto a minha expressão facial. Se ele tivesse alguma ideia de como o meu interior brilha. Como a minha pele sente cócegas. Quando ele me puxa para si, tenho de me concentrar para me lembrar de respirar. Não é apenas o seu calor. É também o seu cheiro, é quase demasiado para aguentar. Nariz de menino, cabelo acabado de lavar e perfume masculino. Afundo-me completamente no seu braço e, lentamente, a minha respiração acalma-se. É como se os nossos corpos se estivessem a fundir num organismo respiratório, onde nos sentamos, bem escondidos, debaixo do cobertor. Fecho os olhos. Se apenas este sentimento ficasse armazenado no meu corpo e na minha cabeça. Se ao menos este momento pudesse durar para sempre. Porque é onde eu quero estar. Agora e para sempre. Continuo até a porta se abrir. Ele fica logo na porta da sala de estar. Ainda de casaco e botas. – Tão bem que vocês estão. - Sorri. – Correu tudo bem? Inclino-me pesadamente e insistentemente contra ele, enquanto viro a cara e olho para cima. Fica. Fica aqui comigo. Mas em vez de obedecer aos meus pensamentos, ele afasta-me gentilmente, pega no telemóvel, levanta-se e deixa-me sozinha debaixo do cobertor. – Ótimo. - responde ele, caminhando em direção à minha mãe. - O Kim está a dormir e nós vimos um filme. Enquanto ele caminha em direção a ela, a minha mãe abre a mala e tira a carteira. - Obrigada novamente. - Sorri e entrega-lhe o dinheiro. – É óbvio que as crianças gostam muito de ti. És o melhor a tomar conta delas! Traduzido do norueguês para português por MULTILINGUAL EUROPE 127


GEIR TANGEN

CONGELADO

CONGELADO

Geir Tangen nasceu em 1970 e publicou o seu primeiro romance criminal "Maestro» em 2016. Publicou mais 2 romances policiais na mesma série - "Heartbreaker", em 2017, e "Dead man's tango", em 2018. Os direitos de publicação de seus dois primeiros romances foram vendidos para quinze países, enquanto o seu último livro foi vendido para a Dinamarca, Itália, Holanda, Suécia e Alemanha. Geir Tangen também escreveu algumas histórias curtas para antologias. Além de autor, trabalha como professor em Haugesund.

Mantive-me em segundo plano. Fora de vista, escondido atrás das folhas murchas e do arbusto. Os ramos desnudos abrem-me um novo caminho de ansiedade. Levanto a cabeça de vez em quando para ver se ela está ali. A procurar a casa onde ela vive, à espera de um sinal de vida, como tenho vindo a fazer há vários dias. De todas as maneiras. Uma sombra junto ao vidro. Uma porta fechada. Uma janela em posição vertical que não estava lá ontem. Sei que ela está lá dentro, porque a vi hoje cedo. De manhã, enquanto ela ainda tinha imagens a flutuar no espírito. O seu cabelo estava desarranjado e ela tinha um laço desatado à volta da cintura do quimono preto. Penso no tecido sedoso contra os meus dedos como se fosse ontem. Tal como eu penso em tudo o resto. O calor interior manteve-me então por perto. A pele a arder na minha bochecha. O sorriso irritante que começa sempre por ser um palerma. Aqueles lábios macios que sussurram no meu ouvido. As mãos que gentilmente acariciavam o meu cabelo. Tudo foi há tanto tempo. Instantaneamente não passa de uma respiração entre dois batimentos cardíacos. Naquela época era só eu e tu. Dois seres humanos que jogavam xadrez juntos contra o resto do mundo. Para ficar como estou agora, no exterior de tudo, escondido de olhos curiosos, e ver que a sua vida continua... Parece um absurdo. Mas, não é isso que é. Não foi ela quem seguiu o seu caminho. Fui eu. Ela virava o mundo de cabeça para baixo para me impedir, se pudesse. Mas eu não era capaz de enganar. Estava tão cansado disso. Cansado de toda a choradeira e da agitação. Cansado de todas as lágrimas e de todo o drama. Cansado de pensar que ela podia decidir por mim. Cansada de todas as nossas discussões, e de estar histérica, porque não conseguia exactamente o que queria. Não ajudou o facto de ela ter dito que me amava. Ela era uma caçadora que um dia esmagou pequenos pedaços de mim. Eu tinha que sair daquela relação. Por vezes, engano-me a mim próprio para pensar que era inevitável que fosse como foi. Era o óleo e a água. Que não podia acabar de outra forma. Mas, isso é errado e...

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CONGELADO

GEIR TANGEN

Eu tê-lo-ia conseguido se nos tivéssemos preparado. Então podemos sempre perguntar-nos porque é que não foi, de qualquer forma. Não ajudou a que nos amássemos mais do que a vida. Que alegremente saltasse por um inferno ardente para salvar o outro. Eu apegava-me num só lugar, mas quando o dia chegava a rastejar para longe dos azulejos do chão frio, o amor ainda era demasiado escasso. O gelo prendeu-se nos meus maxilares. A martelar em fios nervosos sensacionais que gritam ao alvo. Não deixei aquele dia. Só vejo o fogo na casa onde eles vivem. Dentro dela está quente, o cão está deitado sobre o vidro, e a luz manda longas sombras de tudo o que aí se move. As estrelas de erva congelada crescem entre os meus dedos, e o matagal descoberto que deixei para trás obriga-me a dobrar as costas e a levantar a cabeça para a ver. Como um médico nos postos de observação, já não falo mais. Já vi inúmeras pessoas através de um binóculo. Em encostas íngremes em Djibuti, ao longo de estradas sinuosas na Eritreia e em crateras de bombas distorcidas na Síria. E agora, aqui, na minha própria cidade natal na Noruega. Coloquei os pés no chão quando me afastei dela, mas sempre soube que as forças da gravidade me enviariam o décimo oitavo. O amor não conhece fronteiras. Não faz distinção entre bom e mau, entre razão e sentimentos. É pior. Nua, honesta e sem sentido. À noite, é pouco provável que ela me veja por aqui. Estar numa sala onde a luz atravessa, e olhar para uma paisagem escura, é tão explícito como olhar para a noite estrelada, para ver o que se move no fundo da lua, por isso vou na minha direção, e levanto a cabeça ainda um pouco. O carvalho pesado inclina-se contra o muro de leste e ramos longos e escuros estendem os braços em direção à luz. Tal como eu, também ele está no exterior e quer entrar. Para dentro do calor que sabe que está lá dentro. Recupero o fôlego quando vejo que ela se levanta da cadeira e se afasta em direção ao aquecedor. Ela é tão bonita quanto eu. O longo cabelo escuro ondula por cima dos ombros que nela repousa. Emoldura o rosto como numa fotografia de passaporte. Ela está tão perto através da vista que eu posso vê-la levantar-se e baixar-se, mas tão infinitamente distante. Mais do que quando me encontrei em cativeiro durante dois meses na Zâmbia. Consigo ver como ela alcança o teto e rola o pescoço lá dentro. O desejo de deixar entrar nos seus braços e esquecer todos os medos de que falei é tão intenso que parece uma dor física no peito.

Agora sei. Que a amo mais do que qualquer outra coisa. É neste lugar que ela me pertence. Mas, ela não sabe. Ela não sabia que eu estava aqui deitado na relva e a olhar para ela. Eu olhava o inevitável, e dava-me pequenos reflexos. Nada mais do que isso. Um segundo, ou dois. Um pequeno fragmento de tempo onde conheço a minha cura. Pequenos grãos de areia numa ampulheta onde a luz escapou, onde estou com ela aos dezoito anos. Que tudo o que aconteceu não é verdade. As lágrimas estão a pressionar-me enquanto a vejo ali parada. Sozinha, com os braços estendidos para o lado. Uma camisola azul-marinho com o botão superior aberto. O meu olhar fica assim em cima dela. Tiro novas fotos para o banco de memória. Acho que ela tem algo de melancólico na sua posição. Como se ela também olhasse para algo que foi, mas nunca foi como deveria ser. Se o tivesse feito noutra altura, poderia ter-me levantado agora. Teria tirado a neve das calças e ido ter com ela à porta. Chamá-la e esperar que ela abrisse. Ser convidado a entrar. Mas, como era, haviam as coisas más. As palavras que caíram não desaparecem. Mandei-a ir para o inferno. Disse que a odiava e que nunca mais queria ver o seu sorriso feio. Eu gritei e respondi. Cuspi-lhe, gozei com ela, e ri alto enquanto ela chorou. Virei-lhe as costas e dei a minha palavra de que nunca mais voltaria. Então talvez isto seja amor? Nessa altura, só conhecia um profundo desprezo, mas agora, passados apenas quatro anos, a saudade é um rio que corre cada vez mais forte em mim. Percebi que não posso passar sem ela. Ela é tudo para mim. Eu não sei. Ainda não sei. Tudo seria mais fácil se eu pudesse dizer isso. Disse-lhe que era assim que as coisas eram. Recebeu todo o desgosto e maldição, e quando ela acabou, virou-se e seguiu. Mas, não ouso. Eu sei que vou arruinar tudo então. Perder as raízes e cair. Então, é melhor manter-me à distância. O tempo passa ao entardecer. Vejo que ela está inquieta. É como se ela estivesse à espera de alguém lá dentro. Alguém que estaria aqui há muito tempo. Ela sai da cadeira quando um carro passa por cima do cascalho, espreita, mas vira as costas quando o carro passa. Perdi as sensações, tanto nos dedos dos pés como das mãos, e sei que me ouço agora. As calças verdes encharcadas de humidade quando me meti na relva solidificaram na geada, e picaram-me na coxa. Tal como foi ontem, e na noite anterior. Tive

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uma visão dessas tardes, mas descobri-o no último segundo. A única coisa que me provoca noite após noite é o médico desaparecido que interveio em mim. Telhados profundos e doloridos que estilhaçam ossos e cartilagens. O que me impressiona é que tudo o que eu sei é um grito silencioso que se derrama em silêncio. É o pior tormento do auto-tormento. Eu sei. Um castigo que me impus a mim próprio. Eu estou bem, mas não sei o que é um castigo razoável pelo que fiz. Fui eu que o fiz. Fui eu que falhei com ela. Fui eu que chamei todas aquelas palavras feias e lhe pedi para recomeçar tudo sem mim. Fui eu que pisei em cheio tudo o que ele pensava estar bem, e isso destruiu todas as pontes da estrada. O que poderá ser punição suficiente para tais pecados, se é que há alguma coisa? Não sei, e foi por isso que vim aqui. Deitei-me aqui na relva, e a geada e o frio congelaram em mim. Com tosse e os dedos congelados. Tudo para voltar a vê-la. Só mais uma vez... De uma beleza infinita. Infinitamente amável. Infinitamente querida... Tudo nela parece ser infinito. Mas, pelo menos não era assim. Queria afastar-me dela, mas não encontrei alegria nenhuma. Pensei que tinha escolhido a paz, que tinha quebrado laços quando fiz o meu caminho. Que o mundo lá fora provaria ser muito mais do que me poderia dar. Não, eu sei que lamento. Uma experiência preciosa. Tive de me afastar dela para perceber que a amava. Tive de me libertar para compreender que tinha sido sempre livre. As lágrimas correm agora, porque percebo que perdi o meu amor, em busca do que estava lá antes. A lua inclina-se ligeiramente sobre o telhado e olha para mim. É uma solitária oficial como eu, onde ficou pendurada. Uma legionária que manteve os homens sob controlo. Ela olha para o chão e abana um pouco a cabeça. A lua entende pouco das coisas que também eu pouco entendo. Olho para ela durante algum tempo, antes de acenar com a cabeça brevemente, e de me levantar. Deixo o binóculo ficar na relva. Vou buscar o saco militar verde que contém tudo o que tenho. Tudo o que eu já tive. Em pernas trémulas, cambaleio em direção à casa. Um passo de cada vez. Desconfio do saco como se fosse a última âncora. Pela vida que tenho vivido. Para a Legião Framand. Às almas mortas que arriscam as suas vidas durante a noite. Arranjo o uniforme. Prendo a farda debaixo do braço. Escondo-me nos arbustos que se erguem como uma coroa de flores à volta do jardim.

Depois esgueiro-me para o alpendre do carvalho e percebo que a geada que me cai por baixo das botas não fica bem lá em cima. A coragem vem não sei de onde. Talvez seja o desânimo que me impulsiona? Algo aconteceu dentro de mim quando estava lá deitado a olhar para a lua brilhante. Se foi algo que rebentou, ou se foi algo que me remendou, não é muito fácil de dizer. Seja como for, leva-me até à porta. A mesma porta onde eu já estive tantas vezes antes. A respiração torna-se pesada. Ouve-se tocar enquanto me mantenho de pé. O coração enfurece-se no peito, e os pensamentos agarram-se uns aos outros na cabeça sem poderem ficar presos em nada. O meu dedo está a tremer enquanto carrego na campainha. Consigo sentir o seu movimento no caminho através da sala. Está completamente silencioso lá fora. O fumo gelado do meu hálito encosta-se à janela da porta. Primeiro como um cão, mas depois é como se o cão estivesse a gelar e a rastejar no alpendre. Pestanejo uma e outra vez. Aterrorizado, mas seguro. Não podia continuar. Mais cedo ou mais tarde, tive de fazer isto. Quando a porta finalmente se abre, ela mantém-se ali. Alguns anos mais velha do que a última vez. Mas, só que é como se o tempo tivesse parado. Os seus olhos fecham-se e ela bate com as mãos. Posso dizer desde já que ela está a ofegar para respirar. Depois ela afasta as mãos, e vejo como as lágrimas brilhantes começam a cair. Sem dizer nada, ela veio ter comigo. Abre os braços e leva-me para dentro. Como se todo o despertar tivesse rebentado, e há uma brecha furiosa onde eu pensava que tudo era frio. Senti o cheiro do perfume. O mesmo que lhe comprei para o Natal há muitos anos. - Meu Deus... És tu, Arvid? Estás bem? Eu quero ficar em casa. Não a vou largar. Quero sentir o seu calor que me descongela. Por dentro e por fora. Primeiro, eu não digo nada. As palavras não saem, mas pelo menos consigo sussurrar. Bati-lhe nas costas. Beijei-a na bochecha. E sussurro as palavras em que tenho estado a pensar há apenas um dia, desde que saí há três anos, vinte e duas semanas, quatro dias e duas horas atrás... - Sim, sou eu, mãe... Tenho saudades tuas.

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Traduzido do norueguês para português por MULTILINGUAL EUROPE


ARNE SVINGEN

ROCK'N'ROLL, BABY!

ROCK'N'ROLL, BABY!

Arne Svingen deixou o seu emprego em 1997 para se dedicar a ser escritor. Desde a sua estreia, dois anos mais tarde, tem publicado muitos livros - ou com bastante precisão: 100! Com o lançamento de Todos os meus amigos são vampiros (2020), Svingen é um dos poucos autores noruegueses que se pode gabar de ter 100 romances publicados. Svingen escreveu muitos livros populares para crianças e jovens em particular e recebeu o Prémio Brage, o prémio do Ministério da Cultura e uma série de outros prémios. Os livros de Svingen foram traduzidos em 20 línguas e vários dos livros deram origem a filmes. Nas bibliotecas do país, é hoje o terceiro autor norueguês mais lido. A combinação de humor e seriedade caracteriza os seus romances infantis e juvenis, e com a canção sobre um nariz partido, Svingen fez a sua estreia internacional. Além de romances aclamados pela crítica, Svingen está por trás de várias séries populares, incluindo a série de terror O Mundo Sombrio de Svingen, a série de humor O Mundo Louco de Svingen, e os livros sobre Hubert. Em 2019 vieram as primeiras histórias sobre o agente infantil Elvin Griff. Arne Svingen trabalha há vários anos para melhorar a leitura entre as crianças e os jovens, com especial incidência na leitura dos rapazes. Ele é um dos autores que mais tem visitado escolas e bibliotecas. Está também por detrás do podcast "O mundo infantil de Svingen", no qual entrevista outros escritores e ilustradores noruegueses de livros infantis e juvenis.

- Tu e eu não nos devemos encontrar, disse Emilie. - Tu tens namorado, eu tenho namorado. Vivemos a quase cinquenta quilómetros de distância. Não vai funcionar. - Sabes que o primeiro encontro é como a faixa de abertura de um álbum, disse Jacob. - Colocaste o hit em primeiro lugar, certo? É por isso que a segunda faixa é toda sobre isso. Se a música durar, só se pode olhar para o resto. Emilie balançou a cabeça e olhou para ele durante um longo momento. - Mas não pode haver uma segunda canção entre nós. Jacob acenou com a cabeça resignado. - Eu sei, disse ele tão baixinho que mal era possível ouvi-lo por cima das vozes no café. - Mas foi muito bom conhecer-te um pouco, disse ela. - Igualmente. Ela sorriu para ele. Ele sorriu de volta. E abraçaram-se. E então ela partiu para sempre. Pelo menos era esse o plano. Mas agora ele fica do lado de fora de uma casa pintada de branco numa cidade estranha e gelada. Sentou-se no comboio e lamentou-se. E regozija-se. E ficou assustado. No entanto, só havia uma conclusão: Ele teve de arriscar. Ser o maior idiota do mundo ou fazer a escolha mais inteligente da vida até agora. Para alguns desses encontros, a música não é apenas doce. Além disso, são um refrão insanavelmente cativante que se agarra ao cérebro. É por isso que ele fica debaixo de uma enorme bétula e olha para uma sala de estar iluminada. Não há um único movimento lá dentro. Não aconteceu nada na hora em que ele esteve ali. Mas ele tem tempo suficiente. De repente, ele vê uma sombra a passar pela janela. No segundo seguinte, ela aparece atrás da próxima paisagem. Ela faz uma pequena pausa, como se estivesse a pensar em algo, antes de desaparecer de vista. Emilie está em casa. Essa é metade da informação de que ele precisa. Os pais dela também estão lá? E se o seu namorado está de visita? Ele é paciente. Mas só até um certo ponto. É por isso que ele acaba por resolver as dúvidas e toca à campainha. Nada acontece. 135


ROCK'N'ROLL, BABY!

ARNE SVINGEN

Ele próprio toca frequentemente música tão alta que não consegue ouvir a campainha, o telemóvel ou as pessoas a atirar pedras à janela. Ele sobe as escadas para apertar o botão da campainha durante algum tempo, quando a porta se abre de repente. - Oh? diz ela, a apenas meio metro de distância. Ele não esperava que ela dissesse nada de sensato. Mesmo com o penteado dela e com uma camiseta velha, ela é mais bonita do que ele se lembrava. - Eu trouxe uma guitarra. E funciona, explica ele. Ela não vê a caixa da guitarra nem o amplificador, mas olha para trás dele, como se esperasse que ele viesse com uma banda completa. - O que estás a fazer aqui? pergunta ela. - Eu não pude evitar. - Podias enviar uma mensagem. Ou telefonar. - Então achas que eu não devia ter vindo. - E o que é que vai acontecer agora? - Escrevi uma canção para ti. E adoraria tocá-la... para ti. É como colocar a lista de músicas do Spotify no shuffle, ele não tem ideia do que está por vir. Tudo o que ele pede é que o seu silêncio seja em breve substituído por algo agradável. - Meu Deus, Jacob. Vieste até aqui para tocar uma canção para mim? - Posso entrar? Ela hesita, antes de dar um passo atrás e fazer um gesto confuso de mão. Não vai haver abraço. Nem ele esperava que ela se agarrasse ao pescoço dele. A esperança era que ela não lhe atirasse a porta à cara. Jacob não sabe se deve tirar o casaco e os sapatos, ou apenas tocar ali no corredor. Eles olham um para o outro. Ele talvez fique de pé por um tempo. - Vamos para baixo, para a cave", diz ela, e percorremos a cozinha em frente e entramos numa escadaria escura. Ele bate com o amplificador na porta no caminho para baixo. Ela pede que ele tenha cuidado. Na sala da cave, Emilie senta-se no sofá. Jacob fica de pé. - O que estás realmente a fazer? pergunta ela. - Eu ouvi as melhores músicas do mundo. - De que é que estás a falar?

- Todas as músicas realmente boas são sobre ... algo que é realmente difícil de dizer, mas muito mais fácil de cantar. - Sentimentos? Jacob acena com a cabeça. - E depois as letras dizem que temos de arriscar, senão arrepender-nos-emos para sempre. - Então a tua vida é como uma canção? - Não, mas a melhor letra diz mais em três minutos do que um livro inteiro diz. Não é rock 'n' roll sentar-se em casa e sonhar com tudo o que poderia ter acontecido. Tens de sair. Correr o risco. Estar um pouco ... despido. E eu acho que foi isso que fiz hoje. Mas... com roupa. Emilie sorri momentaneamente. - Tenho estado a pensar em ti, diz ela. - Na verdade, foi um prazer conhecer-te... naquela altura. Jacob pousou a caixa da guitarra e o amplificador. Não chegam a mais do que dois passos do sofá, mas mesmo assim ele dá um passo para a direita e senta-se no apoio do braço do amplificador. - Mas eu tenho uma namorada, acrescenta, com uma cara mais séria. Também tens disso? - Há muitas canções sobre como é bom ter uma namorada. As pessoas escrevem sobre o amor o tempo todo. Mas sabes que mais? - Agora estou curiosa... - Se não fosse por algumas das melhores canções que existem, haveria muitos que só queriam estar com uma rapariga que se dedicasse, uma namorada decente, o melhor que pudessem encontrar nessa altura, de alguma forma. Mas as melhores canções dizem-me que eu consigo encontrar algo muito melhor. Há alguns que são totalmente, completamente ... sim, que são apenas ... - Essas canções dirão sempre que se pode encontrar algo muito melhor. Nem eu teria sido suficientemente bom depois de algum tempo. - A diferença é que eu escrevi uma canção para ti. E nunca fiz isso a mais ninguém. Os olhos da Emilie estreitam-se. - E agora achas que vou cair por ti no momento em que a tocares? Tal como todas as raparigas ficam completamente moles quando vêem um rapaz

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com microfone ou guitarra no palco. Porque essas canções também te dizem, certo? Escreve uma canção para a rapariga e ela vai amar-te para sempre. É barato, Jacob. - Mas eu acho que temos algo muito especial como... - Pois essas canções também te dizem que um pequeno encontro num café é suficiente, certo? A nossa pequena conversa de alguma forma fez com que tivesses a certeza de que eu sou a pessoa certa? - Disseste que tinhas pensado em mim. A cara dela amolece. - E tinha. No comboio, ele imaginou centenas de cenários. Nenhum deles é semelhante a este. Ela tem estado a pensar nele. Ninguém o diz, a menos que esses pensamentos tenham ocupado muito espaço. - Antes de te conhecer, não percebia porque é que todos deviam escrever canções sobre o amor, diz Jacob, e lamenta logo que o tenha dito. - Então agora também começaste a escrever este tipo de canções? - Posso tocar ... a minha canção? pergunta Jacob, acenando com a cabeça para o instrumento. - Será que tenho escolha? Estás sentado no comboio há horas só para tocares a canção. O Jacob abre a caixa da guitarra e tira a Stratocaster. Ele liga o cabo e liga o amplificador. O botão de volume já está predefinido a um nível que corresponde a uma canção sem microfones. Ele começa em A, e nem sequer tem de pensar até as cordas se encontrarem. E então ele começa a cantar. Há uma boa repercussão na cave e ele encontra facilmente o tom. No início ele canta com os olhos concentrados na sala, mas logo os seus olhos aterram em Emilie, em busca de uma reação, de um toque de resposta positiva. Ela senta-se imóvel com os ombros altos e um rosto esculpido em mármore. Os versos dizem o suficiente e são os melhores que ele já construiu. No final do último verso ele sente as emoções tombarem, um caroço na garganta ameaça sufocar a sua voz, mas felizmente ele flutua no refrão e encontra a calma nos acordes certos. Ele nem sequer cai na tentação de continuar o refrão, apenas termina a canção como planeado e deixa o G aguentar até o som assentar.

O silêncio das boas canções às vezes é doloroso e triste. Ele não quer ficar a olhar para ela, mas não consegue deixar de procurar um sorriso. - Foi... ela começa, mas faz uma longa e séria pausa. - Tu, isto não era bem o meu tipo de música. - Está bem. - E eu não compreendi muito bem o texto. - Talvez eu não tenha cantado suficientemente alto. - Desculpa, mas não era a minha cena. - Não tem importância. - Nunca ninguém escreveu uma canção para mim, por isso gostaria de a ouvir. Mas... - O gosto é como..... - Sim, é. Desculpa. - Eu... sim, talvez eu devesse... diz Jacob, apontando para as escadas da cave. - Eu posso verificar quando os comboios partem. - Não, eu descubro por mim mesmo. Se for muito tempo, posso passar por um café. Jacob puxa o cordão para fora e coloca a guitarra em cima da caixa. Pouco depois, ele põe-se em frente à porta de saída com o amplificador numa mão e a caixa da guitarra na outra. É completamente impossível dar-lhe um abraço. - Desculpa, repete Emilie. - É o que acontece, diz Jacob, sorrindo gentilmente para ela. - Estás bem? Jacob sorri um pouco mais. - Sim, na verdade está a correr muito bem. - Está? Está bem. Fica bem, então. Então ela fecha a porta. Mas o Jacob não pára de sorrir. As melhores canções não são de todo sobre a rapariga que se encontrou. As melhores canções do mundo são sobre o pesadíssimo e consumido luto amoroso. Ele faz passos fortes em direção à estação dos comboios. Ele tem um refrão totalmente novo na cabeça.

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Traduzido do norueguês para português por MULTILINGUAL EUROPE


ANNETTE MÜNCH

A APOSTA

A APOSTA

Annette Münch é escritora, jornalista e redatora de Oslo, Noruega. Trabalhou como editora de revistas para jovens e formou-se em várias artes marciais nos últimos 18 anos. Pelo romance de estreia "The Chaos Warrior", recebeu o prémio de estreia do Ministério da Cultura. Quando escreveu "The Girl Code", entrevistou ex-membros de grupos de raparigas criminosas e violentas. Quando escreveu "Badboy: Steroid", entrevistou rapazes jovens que usavam esteróides anabolizantes. O livro foi galardoado com vários prémios literários. Münch também escreveu o romance de suspense "Dropout" e um livro de factos sobre artes marciais. Mais informações: www.annettemunch.com

Domingo, 1 de Fevereiro A Selma arranha o seu pescoço rapado curtinho. Atrás dela, a chuva de Fevereiro desce pela janela. Imagino que seja o céu a chorar sobre o quão patéticos somos: Três horas num sofá de couro húmido, no meio de um café... - Depressa! Digo eu. - A minha bexiga está prestes a rebentar, e estou farta de me contorcer... Todos os outros clientes já saíram da sala. O homem que está nos altifalantes só está a fazer rap para a Selma, para mim e para as canecas de plástico vazias em cima da mesa à nossa frente. No extremo oposto da sala, o rapaz passa um pano por cima do balcão com o avental verde. Ele anda com um poster "Dois por um no dia de São Valentim". - Sabes o que teria sido perfeito no dia de S. Valentim? pergunta a Selma, enquanto as unhas verdes de néon batem contra a superfície da mesa. - Vais voltar a adiá-lo. Vai e fala com ele! Eu suspiro e afundo-me de novo no sofá. - Além disso, o dia de São Valentim é uma loucura. Aqui ninguém se importa muito. A Selma tira a palhinha de uma caneca de plástico e começa a morder a ponta. - Viajar para Roma, continua ela, tentando despir o rapaz com os olhos. - E comer pizza com pimentos numa mesa com toalha vermelha axadrezada. E alugar uma Vespa e fazer um cruzeiro pela cidade. Romântico doentio! - És na verdade a única pessoa que conheço que se preocupa com o dia dos namorados, digo eu, a abafar um bocejo. - Não é assim tão importante. No ano passado, passei esse dia a ver o Ulrik jogar Fortnite. No ano anterior, esperei duas horas no centro comercial Marcus, porque se tinha esquecido que tínhamos um encontro. Finalmente, a Selma afasta-se do rapaz que está atrás do balcão. Ela tira a palhinha da boca e mete os cabelos pretos de lado. - Estás apenas mimada. Sempre tiveste namorado no dia de São Valentim! Não é a primeira vez que estás solteira? Eu levanto os ombros. A Selma não percebe como consegue ser cansativo. A insegurança, os mal-entendidos óbvios, o medo de ser abandonada, dou meia volta e estudo as fotografias na parede. Todas são tiradas do ar. É fácil reconhecer o pinhal à volta da cidade, com águas escuras e caminhos estreitos 141


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que se cruzam como fios nervosos através da paisagem. De acordo com a nota abaixo, o fotógrafo é Leon Knutson. - Desta vez vou ficar solteira durante muito tempo, murmuro. - Nunca ficas solteira por muito tempo. Aposto que conseguirias desistir após duas semanas sem afirmações e sem elogios sobre o quão bonita e inteligente tu és. A Selma sorri enquanto pinta os lábios com um bálsamo rosa brilhante. - Se deixares de ser tão rude, podes ter o teu namorado pelo menos uma vez, eu respondo. - Pelo menos eu não tenho medo de ficar sozinha! Tu tens. É por isso que agradeces aos tipos infantis e egocêntricos que se sentam e jogam até no Dia dos Namorados. - Ninguém leva esse dia tão a sério! Repito. A Selma, pensativa, inclina-se de novo para a cadeira, virando lentamente os seus piercings nos ouvidos. - Aposto que não te consegues continuar solteira até ao dia 14 de Fevereiro, diz ela após alguns segundos. - Claro, e vou fazê-lo! - Muito bem! Quem perder tem de usar um soutien na cabeça durante um dia inteiro. Eu abano a minha cabeça. - Doentio e infantil... - O que torna a situação duas vezes mais vergonhosa. As pessoas certamente irão filmá-lo. - Filmar-te, corrigi e peguei na mão da Selma. - Escolhe um com renda, sussurra ela. - Encaixa nos teus caracóis. Não consigo parar de rir. Os sinos da Câmara Municipal estão a tocar do outro lado da rua. São oito horas. O rapaz tira muffins e bagels untados do balcão de vidro. Inclino-me sobre a mesa contra a Selma. - Ouve, isto é demasiado estúpido. Estás a perder o emprego porque mudaste de atitude para te sentares aqui e olhares fixamente para ele. Bebes café, que não gostas! E ele nem sequer sabe qual é o seu nome... A Selma vira uma das suas canecas de plástico para mim. O seu nome está em letras maiúsculas com tinta preta. - Nas últimas semanas eu pedi-lhe dezoito bebidas e recebi duas de graça,

sorri ela. - Provavelmente ele sabe o meu nome. - Então vai falar com ele antes que ele te denuncie por perseguição! O café está a fechar agora, peço eu. Ponho a minha mão na dela e acrescento mais gentil: - És a mais dura que eu conheço, consegues fazer isto. Primeiro, tira a palhinha do cabelo.

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A Selma sobe as encostas das montanhas, fala alto em grupos e consegue trancar-se num quarto e despir-se para um tipo extraterrestre numa festa. Mas quando ela pára em frente ao balcão do café, uma cor vermelha rubi sobe pelo pescoço. Os dedos finos fogem para o carapuço. O rapaz sai enquanto limpa as mãos com um pano e diz que infelizmente a caixa está fechada. A Selma responde com uma voz agitada. Ela fala muito rápido. Demasiado alto. Quero esconder a minha cara na almofada do sofá. A minha melhor amiga é boa a dançar, a fazer as pessoas rir e a falar fora de todo o tipo de situações, mas ela é miserável por se apaixonar. - Fiz uma tatuagem ontem! Queres ver? ela choraminga e vira o braço esquerdo para cima do balcão. - Uma tatuadora que eu conheço fê-lo depois da hora de fechar. Antes que o rapaz possa responder, ela puxa a manga para cima e mostra a escrita em laço na pele rosa. - Forza! É italiano e significa "poder" ou "ser forte". Ou "força". Eu amo a Itália. O meu pai vinha de lá. Ou veio de lá. Ele não está morto, de alguma forma. Penso eu. Eu grito por dentro, agarro na mala de couro e levanto-me. É preciso ajuda de emergência aqui. - Vá lá, Selma! A Lilly foi deixada, temos de nos despachar! Atiro-lhe o braço por cima do ombro e espero que ela não pergunte quem é a Lilly. Eu também não faço ideia. O rapaz atrás do balcão está de frente para mim. Leon, está escrito na placa com o nome. - Nunca te vi antes, diz ele, levantando a sobrancelha. Nunca cuidei das sobrancelhas de rapazes antes. Nunca pensei que eles pudessem ser feios ou bonitos. Mas as tuas são densas, estreitas e escuras, e encontram-se numa curva invulgarmente perfeita sobre os olhos sorridentes.


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- Não gosto de café, explico, forçando os meus olhos a afastarem-se das sobrancelhas. - Então não provaste o meu café, diz o Leon. Ele sorri relaxado. Depois revela rapidamente alguns segredos de barista com os quais eu não consigo safar-me. A voz é forte como a noite de Inverno lá fora e sinto-a nas minhas costas. A minha tentativa de me virar para a Selma é apenas parcialmente bem sucedida. Uma gota de suor faz-lhe cócegas no peito. Meu Deus, espero não ficar com manchas de suor na camisa! - Tiraste... tiraste as fotografias? Pergunto, e aceno para a parede. - Sim, com o drone. Comprei-o com o dinheiro que ganhei aqui no ano passado. - Está bem. - Sim. Vou estudar tecnologia de drones depois do secundário. Volta antes da hora de fechar amanhã, para que possas tentar pilotá-lo, diz ele. - Eu faço café e levamos para fora. Não era uma pergunta. O mundo está a inclinar-se. As bochechas estão a brilhar e também sinto a humidade na minha testa. As palavras que eu deveria ter dito tropeçam umas nas outras antes de chegarem à boca. - Eu tenho de ... - Ela ia adorar, e a Selma arromba a porta. Ela agarra a minha mão e puxa-me para a saída. Em frente à porta ela chora por cima do ombro: - Traz canela, é a sua preferida! Depois corremos para o escuro. A rua para peões está vazia. A chuva parou, mas o ar está pesado com humidade normal. Pego no casaco e vou ainda mais rápido do que costumo fazer. A luz branca dos candeeiros da rua e das montras das lojas faz brilhar as lagoas no alcatrão. Como sempre, a Selma sobe, enquanto eu salto para os lados para evitar a água. Mesmo assim, entrou no couro e molhou as minhas meias em apenas alguns passos. Entro numa rua lateral estreita e escura. A Selma segue de perto atrás, ouço o seu fôlego. - Espera, então! diz ela, agarrando o meu braço. Parámos. - Não faço ideia do que aconteceu, eu gaguejo. - Claro que não me vou encontrar com ele. 144

- Tem de ser. Ele é insanamente bonito, responde a Selma. A voz está calma novamente agora. Um pouco calma demais. - E ele gosta de tirar fotografias, tal como tu. O seu rosto está escurecido pela sombra de um grande contentor. Ao aproximar-me um passo, ela recua mais no escuro. - Mas tu és... - Sim, mas é a ti que ele quer encontrar. Encontrei um novo para perseguir, responde a Selma. Ela abraça-me, inclina-se para a frente e beija-me na bochecha. - Além disso, eu sou um café de três peças. Sexta-feira, 13 de Fevereiro «Quando saímos? Sinto a tua falta, querida!» As mensagens fazem o sangue bombear com um pouco mais de força através do corpo. Sorrio. Quando respondo ao Leon, o autocarro vem para o centro a correr ao virar da esquina. Eu sento-me atrás enquanto a Selma mostra ao motorista o bilhete falso no telemóvel. Na verdade, é apenas um site que se parece com um bilhete. «Porque não respondes?» escreve Leon, seguido de um emoji cintilante. A Selma atira-se para o banco ao meu lado com um sorriso de satisfação. Ela tem eyeliner roxo, capa xadrez e um saco de viagem. Esse é o som da festa. Quando o autocarro sai para a estrada principal, ela agarra a garrafa de vodka e coloca-a contra os lábios brilhantes. Ela vem ter comigo. Eu abano a cabeça. - O Leon não gosta que as raparigas bebam demasiado. Então pensei em não beber assim tanto. - E que tal isto? A Selma pergunta e abre o saco a brilhar para eu ver uma caixa de tabaco. A tampa está desgastada e revela um pequeno saco de haxixe. - Quando começaste com isso? Pergunto-me. A Selma levanta os ombros. E eu abano a minha cabeça. O autocarro entra num túnel e o espaço está cheio de uma luz laranja cintilante. É uma sexta-feira à noite normal. O Leon telefona pela terceira vez enquanto nós tocamos à porta do seu apartamento. Segundos depois, ele aparece na entrada com a sua camisola preta russa. O baixo do sistema de som ataca-nos. - Finalmente! 145


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A intensidade do seu sorriso e os seus olhos azuis profundos atingem-me como uma onda enorme. Ele acha-me fantástica. Eu sei, porque tenho a saia e a camisola que ele me comprou. Os meus braços estão a esgueirar-se na minha cintura. Enquanto ele me pressiona contra ele, sinto o calor calmante do seu corpo. - Finalmente, chegaste. Com quem estiveste hoje? ele murmura, colocando os seus lábios nos meus antes de responder que estive até agora em casa. O seu perfume cheira a mar fresco misturado com areia na Primavera. - Vão para o quarto! diz a Selma, dando-me palmadinhas no rabo antes de desaparecer no apartamento e no meio da multidão. A música vai ficando mais alta quando o Leon me leva para a sala de estar. Ele grita enquanto me apresenta como "a senhora" aos amigos. A maior parte das pessoas frequentou o secundário no ano passado, como ele. Que orgulho. O Leon escolheu-me a mim, e não a uma das raparigas do seu próprio grupo! - Espera aqui, vou buscar uma cerveja, diz ele, desaparecendo na cozinha. Eu fico parada enquanto tudo à minha volta se move. Há pessoas a dançar, sofás, braços abertos no tempo, fumo na varanda, pipocas no ar, filmagens com telemóveis, risos a afogarem-se em música. E uma mão quente no meu ombro. Eu estremeço. - Não fizemos o mesmo curso de fotografia na escola cultural? pergunta um rapaz, gritando para abafar a música. Eu reconheço os caracóis loiros e o dente ligeiramente torto. - Sim! No verão passado? Grito de volta. Ele mostra o perfil onde publica as suas fotografias, já tem mais de mil seguidores. Eu aceno com a cabeça impressionada. - Queres provar? Amarone italiano, não há melhor! Ele dá-me o copo, eu aceito e provo. A bebida deixa uma sensação amarga e ardente na boca. - Devias conhecer a minha amiga, ela adora a Itália e... Um braço envolve-me o estômago e interrompe a conversa. Eu rio enquanto o Leon gira como um dançarino de ballet. - Leon, este é..., eu começo. - Vem cá, querida, diz ele, arrastando-me mais para a sala de estar. Quando olho para trás, o rapaz do curso de Verão já se foi.

- Estás tão linda nesta noite, sorri o Leon e segura-me a testa atrás da orelha. - Estás bem? Aceno com a cabeça. Nunca se farão silêncios constrangedores quando falamos. Quando estou ao lado dele, é como se o mundo estivesse a avançar no bom caminho. Nada corre mal quando a pele dele toca a minha. - Muito bem, ele sorri. - Mas tu? Não bebas do copo de ninguém... Não parece muito bom. Ele beija-me enquanto a vergonha dói na minha cabeça. Fiquei envergonhada como uma criança. Porque é que eu fiz aquilo? Uma rapariga da idade dele provavelmente nunca se perderia assim. Eu pediria desculpa. Que eu não tenha pensado nisso. Mas depois a língua dele cola-se à minha, e eu deixo as pálpebras escorregarem outra vez. O calor das suas mãos flutua pelas suas costas e pára nas minhas coxas. Os meus olhos brilham. A Selma fica no extremo oposto da sala. O olhar é vítreo e fechado sobre nós. Tenho a sensação de que ela nos observa há muito tempo. - Espera, murmuro na bochecha do Leon. - Está tudo bem? Ele beija-me pela garganta abaixo, com os dedos a torcerem-se no meu cabelo. Não consigo fazer isso. Incapaz de resistir. Por isso voltei a fechar os olhos. Permite que a incerteza, a vergonha e o prazer se misturem enquanto tudo o resto desaparece mais longe. Há quanto tempo estamos assim antes do Leon dizer que devemos dançar? Não faço a menor ideia. Ele conduz-me entre grupos de conversas e risos. - Cuidado! O grito rompe pela sala. Que ponto. No segundo seguinte, toda a festa olha para o tecto, onde um drone branco voa em semicírculos descontrolados como uma vespa zangada e confusa. Algo semelhante a um lenço branco colou-se a uma das extremidades. O Leon está diante de mim. Ele olha à minha volta, tentando ter uma visão geral da situação. - Mas o que ... De repente, o drone perde força e cai pelo ar. Por um momento, está em rota de colisão com a festa, as pessoas apressam-se, algumas empurrando-se contra as paredes. Recupero o sentimento irreal de quando o Leon me convidou para sair pela primeira vez. Uma rapariga queixa-se, como se fosse tudo entretenimento. De repente, o drone ganha uma força sem paralelo e

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sobe. As pessoas olham-se de forma incerta. Está planeado? Será uma piada? Depois faz-se virar e cai em declive. Diante de um rapaz com olhos do tamanho de uma bala de gelo, que ficou no meio de um canto. O seu grito é engolido pela música. Quando o drone está perto do rosto, ele fecha os olhos e entra em pânico com os braços. A garrafa de cerveja voa das minhas mãos e bate numa estante, eu não ouço rangidos, mas vejo pedaços de vidro e espuma branca. Depois volto a encontrá-la. A Selma está no meio das escadas para o segundo andar. Ela olha com horror para tudo o que acontece. Na mão dela, ela agarra um controlo remoto. É como ser atingido por uma bola de neve bem cheia na barriga. Depois tudo acontece em velocidade recorde. A mão do rapaz bate no drone, a música pára e o drone bate na parede com um estrondo. Ouço um grito de dor e um "porra" estrondoso. O silêncio cresce como uma montanha na sala de estar. O mundo pára. Depois todos começam a gritar ao mesmo tempo, a festa transforma-se num caos de perguntas, gritos e confusão. Rapidamente o rapaz está rodeado de pessoas. - Afastem-se! O Leon grita e segue o seu caminho. O rapaz olha para a sua mão, sangra de um corte. Alguns começam a filmar a menina que ata um lenço em torno da área ferida. - Era ela! gritando e bem. Ele aponta para a Selma, que está congelada nas escadas. Os nós dos dedos brancos ainda estão apertados à volta do comando. O drone parece um naufrágio no chão. Só agora é que vejo o que está preso ao braço do rotor.

- É dia de São Valentim amanhã, e perdes-te a aposta e ... - Que aposta? pergunta o Leon. Um franzido vermelho e zangado envolve-se na sua cara. Sinto-me cansada, como se tivesse feito um exame contínuo durante vários dias. - Não faço ideia, eu respondo e olho para o chão. É assim que eu fico. Completamente imóvel. Só quando o som dos passos da Selma cessa e a porta da frente se abre de novo é que olho para cima. E vejo que estou a chorar. - A tua amiga não está bem, brinca o Leon e abana a cabeça. O braço dele enrola-se à volta do meu ombro. Caímos no sofá e eu me atiro-me contra ele como um gatinho. - Ela está sentada no café há semanas, a olhar para as pessoas. Ela veste-se como uma galdéria daltónica e parece totalmente hiperactiva. E aquelas tatuagens! enfurece-se enquanto limpa o chão com o oxigénio para as pipocas. - Além disso, as pessoas dizem que ela vive em casas de acolhimento. - Eles são praticamente os pais dela, sussurro eu. - Não devias andar mais com ela, diz o Leon, mais suavemente. - Ela não presta. Um dia, ela vai passar por cima de ti. - Na verdade, ela é muito amável, murmuro. Mas dentro de mim a incerteza cresce. A Selma está a fazer coisas cada vez mais difíceis. O Leon está certo? - Mata-a, repete o Leon e levanta-se. Parece que estou a ficar submersa.

A festa dissolve-se em tempo recorde. Logo após o acidente, rolhas, garrafas de cerveja vazias, copos de plástico partidos e sacos de batata frita são deixados na sala de estar. O ar fresco sopra pela porta da frente, por onde saem os últimos convidados. - Desculpa, desculpa..., a Selma repete. - Deveria ter sido divertido... - Destruir as coisas das outras pessoas é uma forma de humor doentia! Diz o Leon. - E mandar pessoas para as urgências com ferimentos! A Selma vira-se para mim. O eyeliner roxo está esfregado nas bordas e parece uma erupção cutânea. Ela esfrega com as mãos.

Sábado, 14 de Fevereiro No dia de São Valentim, as nuvens cobrem a primeira neve do ano. Acordei ao fim da manhã com uma luz brilhante através de um longo deslizamento nas cortinas, e o som de uma mensagem de texto. «Desculpa por ontem, não era para ficar zangado. Mas economizei por muito tempo para pagar aquele drone. E a tua amiga irrita-me. Vem cá às seis, vamos buscar comida e ver um filme!» O Leon publicou uma fotografia dele deitado na cama com um sorriso apologético e olhos quentes emoldurados por pestanas negras e longas e pelas sobrancelhas lindas que reparei da primeira vez que nos encontrámos. A Selma não deu notícias. Ela também não está conectada em nenhuma

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rede. O seu último sinal de vida é um filme obscuro, publicado ontem à noite. Ela senta-se no banco de trás com alguns dos rapazes da festa. Um charro circula pela sala e é proclamado quando a velocidade aumenta. O ar na sala está húmido. Não faço a menor ideia do que fazer. A minha cabeça cai sobre a almofada e volto a ver o vídeo. Ouvi as exclamações de Selma através do altifalante. Ela consegue fazer com que todos pensem que é feliz como uma vencedora da lotaria. Mas ouço o rosnar subjacente nas notas altas. Adormeço com o meu telemóvel na mão e sonho que estou dentro do jogo de computador que o Ulrik jogou exactamente há um ano. Depois o drone vem até ao Leon a voar para me tirar fotografias. Quando acordo, estou com fome e confusa. Mas enquanto vejo os flocos de neve a rodopiar sem rumo pelo lado de fora da janela, decidi-me. Antes de mais, preciso de verificar o saldo da conta bancária na Internet.

massivos, computadores e câmaras fotográficas. Felizmente, não há fila de espera na caixa. Apenas um único homem prestes a pagar. - Selma! A minha amiga está de pé atrás do balcão de camisa azul e está prestes a colocar a mercadoria dele num saco de papel. Ela olha de surpresa: - O que estás a fazer aqui? - Este dia difícil é muito importante para ti, não é? E eu choro.

A forte queda de neve significa que a viagem de autocarro para a cidade demora o dobro do tempo habitual. «De onde és, querida? De longe?», escreve o Leon. Através do percurso vejo uma carrinha que se despistou na estrada. Pisca laranja nas luzes de emergência. Um carro parou mesmo atrás, e uma senhora de colete refletor está prestes a puxar o equipamento de reboque para fora do porta-malas. O relógio no painel da frente do autocarro mostra 17:50. Inclino os joelhos inquieta, começo a passar um mau bocado. O trânsito está a avançar. Será que me vou arrepender? Quando o autocarro finalmente vira para a estação, já estou pronta em frente à porta de correr. Dentro de alguns minutos, os sinos da Câmara Municipal vão bater seis vezes. A neve fria cola-se à minha cara enquanto corro pela cidade, e lamento ter escolhido as botas de saltos altos. Depois fico em frente à loja de eletrodomésticos. «Onde estás? Responde então, querida. Saudades tuas!» escreve o Leon. Limpo o meu rosto com o cachecol de lã. Tenho cuidado para que a maquilhagem não fique estragada. No geral, tenho a certeza de ter feito a escolha certa. Abro a porta com as duas mãos e braços para dentro. Prateleiras passadas e exposições com aspiradores robóticos, ecrãs de TV

O cozinheiro do restaurante italiano atira as pizzas finas para o ar antes de as assar num enorme forno de pedra. Quando as pizzas são colocadas na nossa mesa, estão cobertas com pimentos quentes fumados, manjericão fresco e queijo com crosta dourada. A Selma atira-se ao empregado de mesa, ele atira-se de volta e nós pedimos um gelado de morango para a sobremesa. O nó de agitação dentro de mim dissolve-se e desaparece gradualmente. Depois vemos um clássico do cinema italiano, «Cinema Paradiso», num pequeno cinema que eu não sabia que existia, até hoje, quando procurei na internet. O filme está a preto e branco e é tão aborrecido como eu pensava, mas a Selma segue com uma gargalhada e até ri algumas vezes. - Infelizmente, não aluguei nenhuma Vespa, digo eu quando saímos na noite de Fevereiro, depois do espectáculo. A neve assentou como gelo branco sobre a cidade. A Selma cantarola por breves instantes. Depois, fica séria. - Tem havido muita merda nas últimas semanas. - Está tudo bem, digo eu. - Não tens de explicar. - Bem, tu mereces. Tu és a minha melhor amiga. É como estar embrulhado num cobertor de lã grosso e quente. - Eu discuti com as pessoas em casa, continua a Selma. - Fiz algumas tentativas, perdi o meu emprego por ter trocado tantos seguranças... Depois veio o Leon. Pensei que eu estava bem... Seja como for, acabei por sair. Não precisavas de fazer isto. - Quando há uma tempestade e sais da estrada, precisas de alguém que te volte a levantar, eu respondo. - E acho que gosto mais de ti, quando te atreves mais. - O Leon odeia-me? Eu levanto os meus ombros.

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- Isso não importa. Por um momento, a Selma parece tímida, como uma menina. Depois endireita as costas e passa rapidamente a mão pelo cabelo preto. - Irmãs antes de rapazes, diz ela. - Algo do género, murmuro. Caminhamos sob as luzes laranja dos postes de iluminação, passando por árvores brancas em direção à estação de autocarros. O fumo da geada pálida sobe dos aglomerados de pessoas que esperam nas plataformas. - A propósito. Sobre essa aposta, vou começar. Paramos em frente a um bar com horários. Abro o saco, pego no soutien que a Selma pendurou no drone na festa de ontem, e entrego-lho: - Ganhei.

Traduzido do norueguês para português por MULTILINGUAL EUROPE

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ITÁLIA


O MONTE DOS VENDAVAIS

EMILY BRONTE

O MONTE DOS VENDAVAIS

Os jovens italianos optaram por escolher textos de autores consagrados. As motivações para as suas escolhas:

Emily Bronte - capítulo 9 (de “O Monte dos Vendavais”), de "Há muitas coisas a ponderar antes de poder responder a essa pergunta como deve ser - sentenciei." a "- Não, Não prometo nada - repeti. ".

"Este trabalho descreve os sentimentos confusos e perturbados da protagonista, Catherine, que, após tomar uma decisão importante, expressa as suas preocupações e arrependimentos." (Sofia Dal Ry, 17 anos) "Porque ela consegue dar forma em palavras, com um poder desarmante, a um sentimento difícil de definir. A declaração de amor de Catherine revela todo o desejo e urgência de um amor que vai além de qualquer lógica e forma de vontade." (Chiara Fiorio, 18 anos)

Há muitas coisas a ponderar antes de poder responder a essa pergunta como deve ser - sentenciei. - Antes de mais nada, a menina mesmo Mr. Edgar? - E quem não ama? Claro que sim - respondeu ela. Sujeitei-a então ao seguinte interrogatório, que não deixava de vir a propósito para uma rapariga de vinte e dois anos. - Porque é que o ama, Miss Cathy? - Que disparate de pergunta, amo-o, é tudo. - Isso não chega. Tem de me dizer porquê. - Ora, porque é bonito e gosto de estar com ele. - Isso é grave - foi o meu comentário. - E porque é jovem e alegre. - Continua a ser grave. - E porque ele me ama. - Isso não conta. Continue. - E porque ele vai ficar rico e eu hei-de gostar de ser a mulher mais importante das redondezas e terei muito orgulho no marido que arranjei. - Isso é o pior de tudo! E agora diga lá como é que o ama. - Amo-o como toda a gente ama. Que parvoíce, Nelly. - Não é parvoíce nenhuma. Vá, responda! - Amo o chão que ele pisa e o ar que ele respira e tudo o que ele toca e as palavras que ele diz. Amo o seu aspecto, e os seus actos, amo-o inteiro, integralmente. Estás satisfeita? E porquê? - Ora, estás a brincar comigo. Isso é maldade! Mas para mim, isto não e brincadeira nenhuma! - protestou a jovem, zangada, virando a cabeça e pondo-se a olhar para o lume. - Não estou a brincar, Miss Catherine - repliquei. - A menina ama Mr. Edgar porque ele é bonito, alegre, jovem e rico, e porque ele a ama a si. No entanto, a última razão não vale nada... A menina, provavelmente, amá-lo-ia mesmo sem isso, e não seria por isso que o amaria se ele não possuísse também as outras quatro qualidades. - Não, claro que não, Nesse caso, só podia ter pena dele, ou até talvez o odiasse, se ele fosse feio e parvalhão. 157


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- Mas no mundo há mais homens ricos e bonitos; e até mais ricos e mais bonitos do que ele. Porque não ama então esses? - Esses, se existem, não estão ao meu alcance. Como o Edgar, nunca encontrei nenhum. - Mas ainda pode encontrar. E ele não vai ser bonito toda a vida, nem jovem, e até talvez nem rico. - Mas é-o agora, e só o presente me interessa. Vê la se dizes coisa com coisa. - Bom, isso resolve a questão. Se só lhe interessa o presente, case com Mr. Linton. - E não preciso da tua permissão... Vou casar com ele, sim! Afinal, acabaste por não me dizer se faço bem. - Faz muito bem! Se for bom as pessoas casarem só a pensar no presente. E agora, vamos lá a saber porque se sente infeliz? O seu irmão vai aprovar; os pais dele não vão levantar objecções, acho eu; vai trocar uma casa desorganizada e sem conforto por uma casa rica e respeitável; além disso, ama o Edgar e o Edgar ama-a a si. Parece correr tudo pelo melhor. Onde está então o problema? - Aqui! E aqui! - respondeu Catherine, batendo com uma mão na testa e a outra no peito. - Nos lugares onde vive a alma. Sinto na alma e no coração que faço mal! - Isso é muito estranho! Não estou a perceber. - É esse o meu segredo. Se não te rires de mim, eu conto-te. Não sou capaz de me explicar muito bem, mas vou dar-te uma ideia do que sinto. Voltou a sentar-se a meu lado. A sua expressão tornou-se mais triste e mais grave e vi-lhe tremer as mãos entrelaçadas. Nelly, nunca tens sonhos esquisitos! - disparou ela subitamente , depois de reflectir durante alguns minutos. - De vez em quando - respondi. - Eu também. Já tive sonhos que nunca mais me abandonaram e que me mudaram as ideias; espalharam-se dentro de mim, como o vinho se espalha na água, e alteraram a cor dos meus pensamentos. E este é um deles. Vou contar-to, mas procura não te rires em nenhum momento. - Por favor, não conte, Miss Catherine! - exclamei. - Já temos tristezas que cheguem, sem ser preciso conjurar espíritos e visões para nos assombrarem. Vá, vá, seja alegre e natural! Veja o Hareton... esse não sonha com coisas estranhas. Veja com que doçura sorri enquanto dorme!

- Sim, e com que doçura o pai amaldiçoa a solidão em que vive! Deves Iembrar-te dele, quando ele era assim, do tamanho deste pequerrucho ... tão pequenino e inocente como ele. No entanto, Nelly, vais ter de me ouvir; não demora muito. Esta noite não consigo estar alegre. - Não quero ouvir. Não quero! - repeti eu, precipitadamente. Nessa altura, eu era muito supersticiosa quanto a sonhos, e ainda sou, e Catherine tinha um brilho especial no olhar, algo que me fazia recear que eu pudesse extrair das suas palavras alguma profecia e prever alguma terrível catástrofe. Mostrou-se ofendida, mas não continuou. Daí a pouco, fingindo abordar outro assunto, voltou ao mesmo. - Se eu estivesse no Céu, Nelly, ia sentir-me muito infeliz. - Porque não é lá o seu lugar - retorqui. - Todos os pecadores se sentiriam infelizes no Céu. - Não é por isso. É que sonhei que estava lá. - Já lhe disse que não quero saber dos seus sonhos, Miss Catherine! Vou-me deitar - atalhei eu novamente. Ela riu-se e agarrou-me quando fiz menção de me levantar da cadeira. - Não é nada disso – exclamou. – Só ia dizer que o céu não parecia ser a minha casa e eu desatei a chorar para voltar para a terra e os anjos ficaram tão zangados que me expulsaram e me lançaram no meio do urzal, e eu fui cair mesmo no topo do Monte dos Vendavais, e depois acordei a chorar de alegria. Este sonho explica o meu segredo tão bem como o outro: sou tão feita para ir para o Céu como para casar com o Edgar Linton; e se esse monstro que está lá dentro não tivesse feito o Heathcliff descer tão baixo, eu nem pensado nisto: seria degradante para mim casar-me agora com o Heathcliff; por isso, ele nunca saberá como eu o amo; e não é por ele ser bonito, Nelly, mas por ser mais parecido comigo do que eu própria. Seja qual for a matéria de que as nossas almas são feitas, a minha e a dele são iguais, e a do Linton é tão diferente delas como um raio de lua de um relâmpago, ou a geada do fogo. Antes de o discurso terminar, apercebi-me da presença de Heathcliff Pressentindo um ligeiro movimento, olhei para trás e vi-o levantar-se do banco e esgueirar-se sorrateiro. Estivera a escutar toda a nossa conversa até ao momento em que Catherine disse que seria degradante para ela casar com ele, e, depois, não quisera ouvir mais nada. Do lugar onde se encontrava, sentada no chão e com o espaldar do banco

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O MONTE DOS VENDAVAIS

EMILY BRONTE

de permeio, a minha companheira não deu nem pela presença de Heathcliff nem pela sua partida. Mas eu estremeci e fiz-lhe sinal para que se calasse. - Porquê - perguntou ela, olhando nervosamente para todos os lados. - Vem aí o Joseph - expliquei, ouvindo o ruído oportuno do rodado da carroça pela estrada acima. - E o Heathcliff há-de vir com ele. Até é capaz de já estar à porta. - Ora, ele da porta não pode ouvir nada! - disse ela. - Dá cá o Hareton e vai tratar da ceia e, quando estiver pronta, convida-me para cear contigo. Quero enganar a minha consciência desassossegada e convencer-me de que 0 Heathcliff não entende nada destas coisas. Ele não entende, pois não? Não sabe o que é estar apaixonado, pois não? - Não sei porque não há-de saber, e tão bem como a menina – retorqui. – E se a menina é sua eleita , ele será o ser mais infeliz do mundo! Assim que a menina se tornar Mrs. Linton, ele vai perder a amiga, a amada, tudo! A menina já pensou como irá suportar a separação, e como irá ele suportar ficar completamente sozinho no mundo? Porque, Miss Catherine... - Ele... completamente sozinho! Nós dois... separados! – exclamou ela, indignada. - E quem nos vai separar, não me dirás? Quem tentar terá o destino de Milo! Não enquanto eu for viva, Ellen... nenhum mortal o conseguirá. Mais depressa se evaporariam da face da Terra todos os Linton do que eu permitiria separar-me do Heathcliff Oh! não era essa a minha intenção ... não era isso que eu queria dizer! Nunca seria Mrs. Linton por um tal preço! Ele continuará a ser para mim o que tem sido toda a vida. E o Edgar terá de pôr de lado a antipatia que sente por ele e, pelo menos, tolerá-lo. E assim será quando conhecer os meus sentimentos pelo Heathcliff. Nelly, sei que me vais achar uma tremenda egoísta, mas nunca pensaste que, se eu me casasse com o Heathcliff, acabaríamos os dois a pedir esmola? Ao passo que, se casar com o Linton, posso ajudar o Heathcliff a erguer a cabeça e a sair do jugo do meu irmão? - Com o dinheiro do seu marido, Miss Catherine? - perguntei. - Verá que ele não é tão fácil de convencer como pensa; além disso, e sem me querer arvorar em juiz, parece-me que essa é de todas a pior razão para se tornar esposa do jovem Linton. - Não é nada - ripostou. - É mas é a melhor de todas! As outras eram só para satisfazer os meus caprichos, e também os do Edgar... para ele ficar contente. 160

E esta é por uma pessoa que congrega em si tantos os meus sentimentos pelo Edgar como os que nutro por mim mesma. Não sei como explicá-lo, mas certamente que tu e toda a gente tem a noção de que existe, ou deveria existir, um outro eu para além de nós próprios. Para que serviria eu ter sido criada, se apenas me resumisse a isto? Os meus grandes desgostos neste mundo foram os desgostos do Heathcliff, e eu acompanhei e senti cada um deles desde o início; é ele que me mantém viva. Se tudo o mais perecesse e ele ficasse, eu continuaria, mesmo assim, a existir; e, se tudo o mais ficasse e ele fosse aniquilado, 0 universo tornar-se-ia para mim numa vastidão desconhecida, a que eu não teria a sensação de pertencer. O meu amor pelo Linton é como a folhagem dos bosques: transformar-se-á com o tempo, sei-o bem, como as árvores se transformam com o Inverno. Mas o meu amor pelo Heathcliff é como as penedias que nos sustentam: podem não ser um deleite para os olhos, mas são imprescindíveis. Nelly, eu sou o Heathcliff. Ele está sempre, sempre, no meu pensamento. Não por prazer, tal como eu não sou um prazer para mim própria, mas como parte de mim mesma, como eu própria. Portanto, não voltes a falar na nossa separação, pois e algo de impraticável, e ... Deteve-se, escondendo o rosto nas pregas da minha saia, mas eu empurrei-a. Tanta loucura fizera-me perder a paciência! - Se eu for capaz de dar senso a tanto contra-senso - disse eu-, só servira para me convencer ainda mais da sua ignorância dos deveres que ira assumir com o casamento; ou seja, que a menina é uma pessoa sem coração e sem princípios. Mas não me importune mais com os seus segredos, pois não prometo guardá-Ios. - E este, guardas? - perguntou ela ansiosa. - Não, Não prometo nada - repeti. 1

Atleta grego que, ao tentar rachar uma árvore ao meio, ficou nela entalado, tendo sido devorado pelos lobos.

Agradecimento pela cedência dos direitos da publicação à editora Dom Quixote/Grupo Leya

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JANE AUSTEN

ORGULHO E PRECONCEITO

ORGULHO E PRECONCEITO

Jane Austen - capítulo 13 (de “Orgulho e Preconceito”), do começo até "Mas também tenho uma tia que não deve ser negligenciada. ".

"Bondade, consideração, elegância: as ações de Elizabeth e Mr. Darcy revelam um amor sincero e nobre, que vai além das diferenças sociais, além dos preconceitos familiares e dos obstáculos do século XIX.” (Erica Bombarda, 17 anos)

Capítulo XVIII Readquirido o seu estado de ânimo e o seu bom humor, Elizabeth quis que Mr. Darcy explicasse como se apaixonara por ela. - Como é que começou? - Perguntou ela. - Consigo compreender que, depois do primeiro passo, o seu afecto tenha crescido. Mas o que é que o impulsionou? - Não consigo determinar a hora, o local, o olhar ou as palavras que o alicerçaram. Já foi há bastante tempo. Já ia a meio quando me apercebi de que tinha começado. - Resistiu desde cedo à minha beleza, e, quanto às minhas maneiras... O meu comportamento consigo era quase sempre descortês, e nunca falei consigo sem desejar causar-lhe alguma dor. Agora, seja sincero: foi pela minha impertinência que me admirou? - A vivacidade da sua mente, sim. - Pode muito bem chamar-lhe de impertinência de uma vez por todas. Não era mais do que isso. A verdade e que estava farto de amabilidades, de deferência, de atenções oficiosas. Tinha aversão às mulheres que estavam sempre a falar e a olhar, e que pensavam apenas com o único intuito de terem a sua aprovação. Eu seduzi-o, e despertei o seu interesse, porque era bastante diferente delas. Se você não fosse tão amável, ter-me-ia odiado por isso; mas, apesar do trabalho a que se deu para os dissimular, os seus sentimentos foram sempre nobres e justos; e, no seu coração, desprezou completamente as pessoas que o cortejavam tão diligentemente. Pronto. Poupei-o ao trabalho de se explicar; e, realmente, tudo considerado, começo a pensar que foi perfeitamente razoável. A verdade é que não me conhecia nenhuma qualidade; mas ninguém pensa nisso quando se apaixona. - Não havia bondade no seu comportamento carinhoso para com Jane enquanto ela esteve doente em Netherfield? - Querida Jane! Quem poderia ter feito menos por ela? Mas faça disso uma virtude, se quiser. As minhas boas qualidades estão sob a sua Protecção, e deve exagerá-las tanto quanto possível, e, em troca, cabe-me a mim encontrar ocasiões para o provocar e discutir consigo tanto quanto possível; e deverei começar directamente, ao perguntar-lhe o que o tornou tão relutante a ir, 163


ORGULHO E PRECONCEITO

JANE AUSTEN

por fim, directo ao assunto. O que o fez ficar tao hesitante em relação a mim quando nos visitou da primeira vez, e após ter cá jantado? Mais, porque é que, quando nos visitou, pareceu não querer saber de mim? - Porque você estava séria e silenciosa, e não me deu qualquer encorajamento. - Mas estava envergonhada. - Também eu o estava. - Podia ter falado mais comigo quando veio jantar. - Talvez um homem que nutrisse menos sentimentos o conseguisse fazer. - É uma pena que tenha sempre uma resposta razoável para dar e que eu seja também tão razoável para a aceitar! Mas pergunto-me até que ponto teria continuado se eu não tivesse interferido. Pergunto-me quando é que teria falado se eu não lhe tivesse perguntado! A minha decisão de lhe agradecer pela sua bondade para com Lydia surtiu, sem dúvida, um grande efeito. Demasiado, temo bem; que acontecerá à moral quando o nosso conforto parte de uma quebra de promessa desfeita, já que eu nem devia ter mencionado o assunto? Tal nunca é aceitável. - Não precisa de se angustiar. A moral será perfeitamente aceitável. Os esforços inqualificáveis de Lady Catherine no sentido de nos separar removeram todas as minhas dúvidas. Não devo a minha felicidade actual ao seu desejo ávido de expressar a sua gratidão. Não tinha disposição para esperar por qualquer abertura da sua parte. A informação da minha tia dera-me esperança, e estava determinado a saber de tudo imediatamente. - Lady Catherine tem-nos sido infinitamente útil, o que devia fazê-la feliz porque adora ser útil. Mas, diga-me, por que razão veio para Netherfield? Meramente para visitar Longbourn e permanecer envergonhado? Ou tinha em mente uma accão mais séria? - O meu verdadeiro propósito era vê-la, e tentar perceber, se conseguisse, se poderia alguma vez fazer com que me amasse. O que disse a mim próprio foi que queria ver se a sua irmã continuava a nutrir afeição por Bingley, e, se sim, que queria fazer uma confissão a este último que, entretanto, já fiz. - Terá alguma vez coragem para anunciar a Lady Catherine o que vai acontecer? - É provável que precise de mais tempo do que de coragem, Elisabeth. Mas tem de ser feito, e, se me der uma folha de papel, fá-lo-ei mediatamente.

- E se eu não tivesse uma carta para escrever, sentar-me-ia ao seu lado e admiraria a regularidade da sua caligrafia, tal como uma jovem senhora fez certa vez. Mas também tenho uma tia que não deve ser negligenciada.

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Agradecimento pela cedência dos direitos da publicação à editora Guerra e Paz Editores


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