EUTHYMIA - A FELICIDADE ESSENCIAL

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A FELICIDADE ESSENCIAL Reginaldo Vasconcelos 2011


EUTHYMIA A Felicidade Essencial (Ensaio Filosófico)

Reginaldo Vasconcelos da Academia Cearense de Literatur a e Jornalismo

2011 G r á f i c a G AR I N Fortaleza – Ceará Arte, Com posição e Editoração Nazaré Silva Revisão Edmilson Nascimento da Silva

Adotadas as regras da reforma do Acordo Ortogr áfico da Língua Portuguesa – 2009 Segundo o rigor profissional do revisor, sob protesto do autor, que não abona essa desnecessária e prejudicial alteração gramatical “ O q u e n ã o é p r e c i s o f a ze r é p r e c i s o n ã o f a z e r ” Públio Siro (85 a.C. - 43 a.C.)

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SUMÁRIO PREFÁCIO ..................................................................................04 PRÓLOGO ..................................................................................05 TEOLOGIA CIENTÍFICA ............................................................. 06 FILOSOFIA E RELIGIÃO ............................................................ 10 A ME C Â N I C A Q U Â N T I C A . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 1 3 CONCLUSÃO ........................................................................... 15 RESUMO ................................................................................. 17 C O N F I G U R A Ç Ã O D O H O ME M V I T R U V I A N O M E T A F Í S I C O . . . . . . . . . . . . . 1 9 OBSERVAÇÕES ....................................................................... 20 A S I MB O L O G I A T E O L Ó G I C A . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 1 A S I MB O L O G I A D A F E L I C I D A D E F I L O S Ó F I C A . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 3 OBSERVAÇÕES CONCLUSIVAS ................................................. 27 A S I MB O L O G I A D O S F A T O R E S D O E S T R E S S E . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 2 9 OS PEQUENOS PRAZERES ....................................................... 30 O OBJETIVO INTELIGENTE ....................................................... 31 DIALÉTICA S OCIAL .................................................................. 35 INTERFERÊNCIA CONSCIENTE NO PLANO DO DESTINO ............. 39 OS TRÊS NÍVEIS FILOSÓFICOS DA REALIDADE ......................... 43 DA CONDUTA E DA ÉTICA ........................................................ 47 A CONDIÇÃO IDEAL ................................................................. 51 DA ESTÉTICA E DA DIFERENÇA ................................................ 53 D A I MP O R T Â N C I A D A P A L A V R A . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6 2 DA LUTA ESSENCIAL ............................................................... 64 A FÉ ...................................................................................... 68 A PAZ ..................................................................................... 72 AS DORES DO MUNDO ............................................................. 75 SOBRE A MORTE ..................................................................... 79 A PARCIALIDADE DA MORTE ................................................... 81 A PÍLULA ............................................................................... 84 DESIDERATA .......................................................................... 88

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PREFÁCIO

O

poeta, filósofo e jurista sergipano Carlos Ayres Britto, eminente ministro do Supremo Tribunal Federal e vice-presidente do Superior Tribunal Eleitoral, telefonou para o autor no dia 9 de julho de 2008, para comentar longamente o conteúdo deste opúsculo, do qual recebera um exemplar editado em gráfica rápida, o qual, em generosíssimo juízo, qualificou como “original”, “quântico” e “genial”. Depois, Sua Excelência enviou o bilhete reproduzido abaixo, que aqui faz as vezes do honroso prefácio prometido, que não se tivera sequer a intenção de pedir, nem se tem a veleidade de esperar.

“ Ca r í ss imo Reg in a ld o . É s emp re b o m rec eb e r n o tíc ia s su a s, a in d a ma i s q u a n d o a co m p a n h a d a s d e q u a lq u e r d o s exemp la re s d e su a n o tá ve l p ro d u çã o f ilo s ó fica . A ss im q u e b a i x a r a p o e ira d e ssa co r re ria e lei to ra l d e sen fr ea d a , vo u t ece r a lg u n s co m en tá rio s so b re o s seu s f ecu n d o s e mu i to b em exp o sto s p en sa men to s, to d o s e le s se rv id o s p elo s ma i s p u r o s sen ti men so . U m a b ra ço ca rin h o so . Ca rlo s A yr e s B ri tto Bra sí lia , 0 3 .1 1 .2 0 0 8 ”

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PRÓLOGO

A

felicidade é a finalidade da vida consciente, portanto o grande objetivo de todo ser pensante. A dificuldade filosófica reside na sua conceituação verdadeira, assim como na sua consecução prática. A frequente frustração da sua busca alimenta a falsa tese de que a felicidade não existe como estado de espírito constante, frequentement e confundida com o prazer, com a alegria, com o poder, com a liberdade, que são efêmeros bens da vida metafísicos. Mas a felicidade existe como bem durável, a depender de um conjunto de fatores, objetivos e subjetivos, que mantenham as oscilações do humor numa faixa de equilíbrio. O grau de dificuldade para atingir a felicidade e para mantê -la sofre variação de indivíduo para indivíduo, haja vista que cada um, naturalmente, dispõe de diferentes potenciais e sofre diferentes circunstâncias. Mas, em tese, não haveria quanto à felicidade, em relação a quem quer que seja, insusceptibilidade definitiva e absoluta. Isto é: sendo a felicidade atributo p síquico livre de condicionantes entre os haveres materiais mais ambicionados e os valores sociais mais requestados, bem como sendo indiferente a vicissitudes toleráveis, teoricamente ela teria alcance universal, de modo a qualquer um poder conquistá -la. Em suma: podem ser felizes o rico e o pobre, o feio e o belo, o doente e o são, o melancólico e o efusivo, o preso e o liberto. O dorido e o famélico, o mal -amado e o ressentido, o desiludido e o solitário, o desapaixonado e o improdutivo, são esses os que encontraram dificuldade. Enfim, o livro procura revelar o segredo para a abertura dessa caixa de pandora. Mas o fabrico da chave da felicidade a mera leitura não opera. Cabe ao leitor executar essa tarefa.

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TEOLOGIA CIENTÍFICA

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imitações da condição humana propiciam ao raciocínio meramente horizontal grandes ilusões cognitivas. Observa-se isso, por exemplo, ao se considerar a vida como regra e a morte como exceção, quando na verdade vivemos apenas algumas décadas, enquanto temos estado mortos desde sempre, por milênios incontáveis, antes do nosso nascimento. Também nos enganamos ledamente ao pensar que a luz do dia é a norma e a escuridão da noite a transgressão. Ora, todo o imenso Universo é escuro e frio, sendo o fogo de uma isolada estrela solar, es se sim, um episódio limitado e finito. Tal miopia psicológica ocorre porque, sem um maior esforço de aprofundamento na verticalidade filosófica, ou de ascenso na lógica científica, tudo se nos afigura inteiro e acabado, quando de fato o que podemos enxergar é sempre ínfimo e parcial. Quem visse o segmento milimétrico de uma circunferência de astronômicas dimensões, juraria vê -lo reto, quando, ao fim e ao cabo, no cômputo geral, aquele pequeno traço será curvo. Posto isso, como nos exemplos acima, tem -se que a idéia de casualidade é ilusória, fruto da restrita visão que a estreita condição humana nos permite, da mesma forma que não é aleatória a passagem de um avião, embora certamente assim o fato vá parecer ao silvícola ignaro que observe o aparelho sobrevoando sua tribo, por não saber daquele objeto a natureza nem a função, a sua origem e o seu destino. Ipso facto, por meridiana lógica científica, tudo que existe ou que acontece é resultado de um processo. Um processo se constitui numa seq uência de causas e efeitos, que não prescinde de um impulso, que,

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por sua vez, é sempre resultado de um intuito. Se há um intuito, há um projeto. A não ser assim, toda a estrutura da personalidade humana ruiria – o afeto, a ética, a estética, a compaixão – tudo perderia o seu sentido. Seria a revogação da coerência. Admitir meramente casual a própria existência seria negar qualquer importância aos valores que compõem a consciência e amalgamam a sociedade pelo sentimento de em patia e de perpetuidade: a personalidade, a família, o intelecto, a história. Destarte, tudo que ocorre ou que aparece de maneira fortuita, na verdade traz da origem uma intenção suprema, imperiosa e incógnita, assim como coisas e fatos provocados pelo hom em nascem de sua imaginação e de sua vontade. Por outro lado, em última análise, a imaginação e a vontade humanas são conseq uências das involuntárias circunstâncias das pessoas, que, de fato, não dependem delas próprias: sua genética, sua formação, suas vivências, sua experiência, seus estímulos externos. Pois é a vontade absolutamente exterior ao ser humano que se tem chamado “Deus” – a qual move um processo inexorável, na execução de um ignoto projeto universal. Seria “Deus -Pai”, na expressão católica, qu ando vontade absoluta, onipresente, onipotente e onisciente. Sabe-se de Sua existência pela mera observação de sua força na condução de todos os destinos. Geralmente, no correr banal do dia a dia, não O notamos. Mas quando a fatalidade nos atinge, pela tragédia, por súbita ventura, quando a sorte nos bafeja de modo abrupto e inopinado, então podemos sentir nitidamente que somos conduzidos por um intuito maior que a nossa mera volição. – Por que eu? – consulta-nos a consciência, quando a Suprema Vontade Divina nos atinge de repente,

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fazendo-se notar pelo vigor imperioso. Lula da Silva, o operário metalúrgico elevado à Presidência da República, no dia da posse para o seu primeiro mandato foi às lágrimas, traindo o seu pasmo ante o destino, ao comentar que o título de dignitário máximo do Brasil era o primeiro diploma que recebia em sua vida. Eleito para um segundo mandato, no discurso de posse Lula novamente manifestou -se algo surpreso com o rumo de sua sina, demonstrando sentir -se agora como uma seta na zarabatana de Deus-Pai. Por que ele? Ressalvados todos os seus méritos pessoais, sua militância, sua persistência, seria ele o único ou o mais preparado para o cargo, dentre os milhões de brasileiros – pobres e ricos, operários e doutores, administradores públicos e cientistas políticos, diplomatas e empresários, intelectuais e professores? Não. Ele foi aquele que Deus Pai pôs na senda certa e no momento adequado de assumi-lo. Outra evidência do misterioso plano superior que nos embala e nos comete é o grupo s ocial mais íntimo a que a sorte nos confia ao longo da vida – pais, irmãos, preceptores, cônjuges, patrões, filhos, empregados, amigos – as mesmas pessoas a que de outra feita nos incumbe dar esteio. Sim, é intuitivo que os nossos parentes, o consorte que cada um via de regra agrega a si, bem assim os filhos que de inopino vêm a nós, e mesmo os estranhos que se perpetuam em nossa história, todos eles são favor e missão divinal ao mesmo tempo. Compreender os extremos porquês não nos é dado. Seria como, para um cego de nascença, a informação sobre o negrume do café e sobre a brancura do leite que ele toma. Ele percebe o odor da bebida, a sua consistência, o seu peso, a sua temperatura, o seu sabor, portanto constata que ela existe ; mas não tem como perceber a sua cor. Do mesmo modo, o nosso aparato cognitivo pode constatar a existência de Deus -Pai, como

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energia volitiva que move um projeto cósmico, mas não tem instrumentos hábeis para alcançar a Sua coloração ideológica. Mas há uma vertente de Deus que aponta à consciência do homem regras deontologicamente sábias, orientando condutas e prevendo conseq uências, expondo a lei de causa e efeito, instituindo a responsabilidade moral do indivíduo por meio do “livre arbítrio”. Esse seria o Deus racional, o “Deus -Filho” dos católicos, capaz de nortear racionalmente a alma humana, de forma extrínseca e indireta. É eminentemente o Deus de todas as escrituras sagradas e de todas as profissões religiosas. Esse é o Deus, de caráter masculino, que previne do pecado e indica a culpa. Ele não tem controle sobre a gênese dos fatos, mas apenas sobre as atitudes humanas, em seus desdobramentos. Finalmente, uma terceira vertente de Deus é o chamado “Espírito Santo”, Parákletos para os gregos, o qual se manifesta direta e intername nte ao indivíduo. É o Deus intuitivo, sede do afeto e do sentimento de justiça. É aquele que inspira, que enleva, que conforta, e que tem caráter feminino. Esse é o Deus de todas as preces, da contrição, da remissão dos pecados, do sentimento de perdão. Enfim, a ideia católica de trindade divina, que se reproduz em outras religiões, é filosoficamente coerente, como demonstrado. A partir dessa evidência científica – a existência de Deus nas três dimensões – que até aqui não envolve questão de fé, mas apenas reflexão lógica, inferem -se conclusões filosóficas e, a partir delas, nascem as formulações místicas.

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FILOSOFIA E RELIGIÃO

C

om base na realidade implícita de que h á um projeto transcendente, alguns filósofos passaram a desconstituir a culpa intrínsec a, já que uma força superior dirige os fatos, sendo por todos eles responsável. Alguns pensadores, com base nessa mesma conclusão, entraram a defender a ética, para acompanhar a ordem maior que concebem existir; outros, ao contrário, embora fulcrados na concepção da mesma realidade – a existência de uma vontade e de uma responsabilidade superiores – chegam a adotar a estética hedonista e a defender o anarquismo, eliminando a ansiedade provocada pelo regramento moral, demitindo toda a culpa e se eximindo de imposições deontológicas. As religiões e as seitas, por seu turno, vão além. Cada uma, a seu modo, propõe -se a interpretar a vontade divina, e até a interferir nela, seja por meio de atitudes piedosas, de práticas litúrgicas, de obrigações votivas ou de transes psíquicos. Mais adiante se abordará em que medida essa possibilidade de interferência do indivíduo no seu destino pessoal pode ser filosoficamente considerada, segundo a nossa teoria. Quase todas as religiões conferem à pessoa de Deus uma feição an tropomórfica – imagem e semelhança do homem – trajando e agindo, usando e cuidando, pondo e dispondo, conforme estamentos sociais situados e datados sobre a Terra, dependendo do local e do tempo da fundação de cada rito, para transformar a divindade em objeto de culto e adoração. Muitas dessas doutrinas concebem ainda legiões de entidades paralelas – os santos, os anjos, os arcanjos, os querubins, os serafins, os orixás, as almas penadas, as potestades, os elementais, os semideuses, os djins, os gênios, os demônios, os súcubos – cada uma

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delas, de alguma forma, interagindo com o psiquismo dos crentes, e pretensamente interferindo em seu destino. As religiões, via de regra, criam dogmas, ditam normas, formam estruturas de dominação social que usam a fé como instrumento. Insculpem sistemas presuntivos de prêmios e castigos divinos, além de desenhar elaboradas teorias sobre a criação do Universo e sobre o destino da personalidade consciente após a morte. A filosofia, por seu turno, forçada a admitir um ritmo tacitamente congruente a orientar o espaço tempo, trata somente da lógica da vida, não se detendo no ocultismo, nem se debruçando sobre a fenomenologia espiritualista, tampouco discorrendo sobre a morte. Mas o pensamento místico, este defende a id eia de um a justiça superior, a garantir que toda conduta torpe seja debitada ao indivíduo, e que toda virtude moral seja premiada, de alguma forma, em algum momento da existência, terrena ou extraterrena. De fato, ao se conceber que Deus exist e, necessariamente ter-se-á que admitir que Ele há de ser justo, porque fora da id eia de justiça impera o caos absoluto da casualidade aleatória, sem compensações racionais. Quem não fosse justo não conceberia a id eia de justiça, tampouco poderia perseguir a lógica essencial. Se a justiça não fosse intrínseca à lógica essencial, tudo seria um emaranhado de equações matemáticas que se entrecruzam para compor o destino universal, atribuindo -se perversa geração espontânea à desgraça e ao infortúnio pessoais, como a dor e o sofrimento, dando -se também por meramente incidentais a ventura e a fortuna, a gratificação e o prazer – sem interferência do “amor cósmico”, do mérito, da piedade, da ponderação, do acatamento moral, da equidade. Assim, quem negue a existência de Deus como foco de coerência e de justiça não tem onde ancorar o sentido deontológico de “moral”. A deontologia

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apareceria como mero produto do intelecto, para pontual aplicação, e não como regra implícita em toda a lógica do Universo. “Não posso crer que Deus seja um j ogador de dados”, afirmou Einstein, constatando o intuito universal. A existência de Deus subsume todo o destino universal numa grande e única equação, que como tal obedece a uma lógica matemática convergente – embora o raciocínio humano somente consiga pe rceber as operações intermediárias do fadário, das quais os indivíduos forçosamente participam. Então, ao pretender se conduzir com um mínimo de corretismo social, o descrente probo, o agnóstico équo, o materialista justo, hão todos de se fiar tão-somente numa ética fragmentária, tópica, meramente humana e, portanto, sociológica e culturalmente variável. Ora, não há negar que a existência universal importa em movimento, e todo movimento tem impulso e objetivo. A lei de causa e efeito impõe que um proces so físico esteja em curso, cumprindo leis da matemática, para que se chegue a um resultado. Qual seria o resultado do processo como um todo não se sabe, mas, como nos fractais e no desenho das mandalas, é óbvio que ele resulte da composição de milhões de r esultados parciais, com os quais todos lidamos, ou de que fazemos parte. Nossas vidas se compõem de microprocessos, que vão compor processos maiores, que resultam nos macroprocessos que a história leva a cabo. .

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A MECÂNICA QUÂNTICA

A

ciência, a princípio dedicada a desvendar os intrincados diagramas da matéria palpável e o comportamento físico -químico dos processos visíveis, excluía de seus cânones o que não pudesse ser constatado e demonstrado de forma absolutamente pragmática, embora Einstein, grande ícone da física, houvesse afirmado a existência de Deus como verdade matemática. No início do século XX, tentando comprovar exatidões absolutas, os cientistas desenvolveram a teoria quântica, e formularam o Princípio da Incerteza. Concluíram os fís icos quânticos, em suma, inversamente ao que imaginavam, entre outras coisas, que mesmo exauridos todos os recursos lógicos e esgotadas todas as possibilidades matemáticas para chegar a um resultado, sempre restará um fator imponderável a interferir no intuito humano, para controlá -lo e o conduzir. Eis Deus, segundo Einstein. Para dar um exemplo banal, imagine -se uma garrafa de vidro que se precipite de uma mesa, e, ao se chocar contra o solo, se fragmente em dezenas de pedaços, de configurações as mais var iadas, como acontece normalmente. Suponha -se agora que a ciência fosse reproduzir o mesmo evento, usando exatamente as mesmas variáveis – qualidade do vidro, altura da mesa, temperatura ambiente, velocidade do vento, etc. e tal. Pois os matemáticos concluí ram que ainda assim não chegariam a obter o mesmo resultado – exatamente o mesmo som, o mesmo número de cacos e de farelos de vidro, exatamente no mesmo formato de cada qual. Haverá sempre a participação de alguma força misteriosa que distinguirá os dois e ventos. A propósito, os automobilistas sabem que os carros não saem exatamente iguais das mais rigorosas

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linhas de montagem, enquanto os enólogos distinguem os vinhos pelas safras, conforme se tenha comportado o clima a cada ano – a despeito da manutenção de todas as austeras fórmulas e da rígida obediência aos controladíssimos processos de fabrico. É o Deus científico. Na vida prática, podem -se colher exemplos observando a sorte das pessoas e das empresas. Via de regra os indivíduos mais preparados e as organizações mais sólidas prosperam mais. Mas nem sempre. Não são raros o fracasso de gênios e a débâcle de negócios cientificamente conduzidos. Assim também na genética, grandes cerebrações humanas têm produzido filhos idiotas e vice versa. Do mesmo modo , o empresário não necessariamente consegue reproduzir o sucesso comercial de um concorrente, ainda que se copiem todos os seus procedimentos. Eis o Deus filosófico.

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CONCLUSÃO

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esacreditar da existência de Deus é, pois, trocar a miopia filosófica pela cegueira completa, embora fazê-lo, proclamando-se agnóstico, possa causar a justa satisfação de negar o misticismo e a dogmática, atitude socialmente ousada e corajosa, capaz de provocar uma sensação de grande bravura moral. De fato, o agnosticismo tem uma aura de realismo modernista, porque contesta o pieguismo carola dos santarrões hipócritas, e libera o espírito da culpa moral que atormenta os frágeis pudicos, cegos, por sua vez, pelo fanatismo da fé exacerbada. Contudo, a atitude m ais madura é partir do princípio de que nada se pode afirmar ou negar com convicção absoluta, em assuntos esotéricos, porque nesse campo somente a reflexão filosófica nos socorre. Nessa área, a certeza absoluta pode até ser sentida, mas não pode ser transmitida, cabendo a cada um fazer suas ilações, procurar a verossimilhança lógica, e concluir individualmente. Quando se procuram transmitir conclusões místicas, termina-se sempre por produzir crendices e criar seitas, porque os menos pensantes têm grande se de de crença, que lhes possa conferir, sem grande esforço filosófico, algum conforto psíquico sobre o sentido da vida e da morte. Por conseguinte, os bem -pensantes não devem crer nem descrer, desmentir ou confirmar, mas apenas considerar séria e corajosam ente aquilo que sua própria reflexão lhes propicie, procurando, a partir daí, desenvolver seu próprio código de conduta, baseado no natural sentido de justiça e ética universais, deixando tudo o mais por conta da energia maior que

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inexoravelmente move noss o destino e propulsiona o Universo do qual somos parcelas. E não lhes é defeso professar um culto místico, assumindo a sua estética histórica e a sabedoria prática que lhes perpasse os ditames – desde que o façam sempre de forma moderada, modesta e alegre, sem proselitismo sectário e intolerante, sem maniqueísmo fundamentalista – mantendo tal atividade como fonte de serenidade e de prazer. Reunir-se aos fiéis, fazer orações, cumprir os mais belos rituais religiosos que sua cultura lhes haja transmitido não desabona os mais sábios nem enfraquece os portentosos. Ao contrário, isso deve fortalecer convicções pacificadas no espírito e evidenciar segurança filosófica. Mesmo quando não se tenha um entendimento simplista dos dogmas e das liturgias, é preciso vê-los como necessários aos mais ingênuos, bem como úteis à integridade do inconsciente coletivo e, por conseguinte, do tecido social. Mas a percepção lógica da força intelectual suprema que preside o Universo não depende de fé nem implica ascetismo, religião, dote místico. Na verdade, sua existência é tão óbvia que sua constatação racional requer esforço. Se perguntarmos ao silvícola ignaro, jejuno em física, se há algo no ambiente em torno dele, ele asseverará que não há nada, confundindo o ar com o vácuo, pois os gases que compõem a atmosfera e o próprio oxigênio essencial que ele respira para haurir seu organismo não lhe são perceptíveis. Por processo análogo ao desse exemplo a existência de Deus é posta em dúvida.

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RESUMO

E

ncontramos aqui cinco realidades distintas e estanques, que servirão de base ao estudo que se segue, acerca da trindade divina e sobre a felicidade:

a) a de que a existência de Deus, em suas três esferas concêntricas, ou nos vértices do triângulo teológico, é fato filosofi camente admitido e matematicamente confirmado, como um intuito exterior ao homem, que move um projeto universal coerente, cujo objetivo final não podemos conceber;

b) a de que a própria vontade do homem não é senão o reflexo da vontade de Deus, pois tudo o que queremos e fazemos nos vem daquilo que produzem a nossa capacidade, a nossa sorte e a nossa inspiração – e todos esses nossos dotes psíquicos independem de nós;

c) a de que ao longo da aventura humana sobre a Terra, algures têm aparecido alguns filósofo s que tiraram conclusões mais avançadas sobre a existência de Deus, fazendo -se seguir por hordas de pessoas sequiosas pelas verdades transcendentais, porém incapazes de encontr á-las pessoalmente. Uma vez escritas, muitas vezes deturpadas, as idéias desses grandes avatares da história se projetaram no tempo para formar religiões;

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d) a de que as religiões detêm verdades filosóficas, que tratam de forma pouco científica, porém muito utilitária, no sentido do atingimento das personalidades mais ingênuas, as quais não alcançariam a necessária agudeza ontológica. Essas pessoas podem e precisam acreditar na transcendência, e o fazem com facilidade, por meio dos rituais, dos dogmas, da fé absoluta; e

e) a constatação de que a genuína sabedoria filosófica reside em não contestar a fé alheia, respeitando -se as religiões como sistemas necessários, além de histórica e esteticamente interessantes. Reside em que se seja autorreferente, sem ser ostensivamente iconoclasta, mas humildemente reverente com a crença dos outros. Sem prejuízo, inclusive, de poder adotar um culto – como meio subsidiário de obter serenidade psíquica e garantir saúde social, evitando sectarismo fanático.

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CONFIGURAÇÃO GRÁFICA DO HOMEM VITRUVIANO METAFÍSICO (INSERIDO NO TRIÂNGULO TEOLÓGICO )

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OBSERVAÇÕES a) Marco Vitrúvio Polião foi um desenhista romano, que viveu antes da era cristã, e que realizou estudos de arquitetura e de anatomia, dos quais se conhece a figura de um homem nu dentro de um círculo, delineando -se sua musculatura e suas proporções – grafismo histórico conhecido como “Homem Vitruviano”, de que se imagina serviu -se o artista plástico renascentista florentino Leonardo da Vinci, autor de sua reprodução mais conhecida, que ilustra a contracapa. O “Homem Vit ruviano Metafísico” é uma paródia do antigo desenho, concebida para servir de modelo gráfico aos fatores psíquicos da felicidade, definidos por pesquisas científicas atuais. b) O triângulo teológico é um desenho de composição livre e arbitrária do autor, que visa tão-somente à configuração visual da teoria da trindade divina, não tendo , portanto, nenhuma pretensão mística ou significado cabalístico, embora essa forma geométrica componha a simbologia de vários ritos e seitas filosófic os.

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A SIMBOLOGIA TEOLÓGICA NO TRIÂNGULO METAFÍSICO (VERIFICAR NO GRÁFICO) Nã o h á vid a fel i z, a n ã o se r n o p er fe ito co n h eci men to d e Deu s . Sa nto Ag o sti n ho

A letra no vértice superior do triângulo representa o ABSOLUTO, o intuito divino, que é superior e exterior à vontade do homem. É o “Deus Pai”, assim chamado no mito católico da Santíssima Trindade, o qual é onipresente, onisciente, e onipotente, e que dispõe sobre todos os fatos. É dEle que dimanam a sorte, o destino e a fatalidade, que o homem deve suportar, cabendo a este resignar -se ou reagir. Qu e Deu s me emp r es t e â n imo p a ra mu d a r o q u e eu p o ssa , re sig n a çã o p a ra a cei ta r o q u e eu n ã o p o s sa , e sa b ed o r ia p a ra d is tin g u i r u ma co i sa d a o u tra . Sã o Fra nc is co d e As s is

A letra no vértice inferior esquerdo do triângulo representa a manifestação intuitiva de Deus, que frequenta a alma do ser racional e lhe apascenta o coração, movendo a fé, a caridade e a harmonia, e inspirando o perdão, a sabedoria, a bondade e os valores éticos. É o “Espírito Santo”, a que os católicos se referem, que os gregos denominaram Parákletos, que tem caráter eminentemente feminino, traduzindo o sentimento de que fragmento de Deus habita o homem.

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Deu s emp reg a d o i s m ei o s: a a u to r id a d e e a r a zã o . A a u to rid a d e exig e a f é e p rep a ra o h o mem p a ra a re fl exã o ; a ra zã o co n d u z a co mp reen sã o e o co n h ec imen to . Sa nt o Ag o st in h o

A letra no vértice inferior direito do triângulo representa a manifestação racional de Deus, que a Igreja Católica chama de “Deus -Filho”, e a quem as religiões orientais atribuem a “Lei de Causa e Efeito”, que rege o “Karma” – conduta e resultado. É ele que frequenta a mente, que ensina sobre a senda , que aponta o caminho e que é fisicamente cultuado. Infunde os sentimentos de dever, culpa e pecado. É representado pelo messias, pelo avatar, pelos santos, pelos mandamentos, pelas sagradas escrituras, pela religião. Pressupõe a possibilidade de interfer ência da vontade do devoto na vontade do Deus Absoluto, por meio da austeridade, da liturgia, da caridade, do sacrifício ou da mera devoção. Tem caráter essencialmente masculino.

Co mo n ã o te r Deu s? ! Co m D eu s e xi st in d o , t u d o d á e sp e ra n ça : se mp r e u m m ila g re é p o s sí vel, o mu n d o s e re so l ve. Ma s, se n ã o te m Deu s, h á - d e a g en t e p e rd id o s n o va i - ve m, e a vid a é b u r ra . É o a b er to p er ig o d a s g ra n d es e p eq u en a s h o ra s , n ã o se p o d en d o fa ci li ta r, é to d o s co n t ra o s a ca so s. Ten d o D eu s , é men o s g ra v e s e d escu id a r u m p o u q u in h o , p o i s n o f im d á ce r to . J o ã o G u i ma rã e s Ro sa – in Gra nd e Sert õ es , V e reda s.

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A SIMBOLOGIA DA FELICIDADE FILOSÓFICA NA CONFIGURAÇÃO DO HOMEM VITRUVIANO METAFÍSICO ( VERIFICAR NO GRÁFICO )

A pequena estrela sobre o pé direito da configuração do Homem Vitruviano Metafísico representa a VOCAÇÃO, um dos requisitos essenciais para a felicidade. Representa também a integração da pessoa com o mundo, quando as suas habilidades pessoais inatas são bem acatadas e remuneradas pela coletividade.

O pequeno coração sobre o pé esquerdo da configuração do Homem Vitruviano Metafísico representa o AFETO, um dos requisitos essenciais para a felicidade. É o sentimento de integração d a pessoa com o mundo, quando ela ama e percebe que é amada.

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O círculo com as setas convergentes, todas apontando para a estrela ao centro, na perna direita da configuração do Homem Vitruviano Metafísico, representa o ENGAJAMENTO, um dos fatores essenciais da felicidade, que ocorre quando se tem uma atividade profissional a dequada à VOCAÇÃO, capaz de causar ao indivíduo o prazeroso sentimento de produtividade.

O círculo com as setas divergentes, tendo o coração ao centro, na perna esquerda da configuração do Homem Vitruviano Metafísico, representa a TRANSCENDÊNC IA, um dos fatores essenciais da felicidade. A transcendência ocorre quando se tem um ideal a defender, uma posição filosófica a professar, uma atividade diletante em torno de um grupo passional ou de uma id eia transcendente, que projete a importância e a influência do próprio ser para além dele mesmo ou dos limites da existência individual, emprestando à pessoa o sentimento de que sua existência é útil e válida, por meio de alguma forma de AFETO, mais concentrado ou mais difuso. A transcendência manifesta -se por meio das teses propugnadas, das religiões professadas, dos clubes de serviços, das confrarias, das atividades

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patrióticas, das ideologias, das práticas intelectuais diletantes, do colecionismo ativo, das paixões desportivas, do altruísmo ou da mera carid ade. Pesquisas mostraram que após um ato benemérito – segundo a disponibilidade e a carência afetiva de cada um – os índices corporais, mensuráveis por meio da medicina, relativos à saúde física, melhoram por vários dias, ou até meses, num processo de somatização positiva dos efeitos psíquicos de um ato transcendente. Note-se que, na configuração gráfica, as pernas do engajamento e da transcendência estão separadas, mas nada obsta que, na vida prática, eventualmente estejam juntas, quando coincid irem a profissão e a paixão.

A silhueta clássica de uma casa, com uma maçã no interior, junto ao braço direito da configuração do Homem Vitruviano Metafísico, representa as NECESSIDADES BÁS ICAS da subsistência física da pessoa, quais sejam : abrigo, aliment o, vestimenta e remédios, enfim, o chamado “mínimo existencial”. Esse também é fator essencial à felicidade. Dizia Santo Agostinho, o grande pensador católico, que sem o alimento não se pode sequer servir a Deus. “Primeiro a ração, depois a devoção”, na livre tradução popular desse mesmo pensamento.

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O desenho integrado de uma lira e uma copa, junto ao braço esquerdo da configuração do Homem Vitruviano Metafísico, representa os PEQUENOS PRAZERES da vida, definidos em capítulo próprio, que são também essenciais à plena felicidade pessoal – mantidos em regularidade sensata e em lícita medida – compreendidos eles entre as experiências estéticas e afetivas, bem como entre as atividades gastronômicas, sexuais, sociais, lúdicas, festivas, ou o cumprimento d e rotinas diletantes, de encontros agradáveis ou de viagens periódicas – não necessariamente a efetivação regular de todas essas possibilidades, mas de pelo menos uma, idealmente duas ou três. É o fator que denominados “hedonística”.

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OBSERVAÇÕES CONCLUSIVAS

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s fatores essenciais da felicidade, descritos acima, foram confirmados por estudos científicos. A felicidade – euthymia, para os gregos antigos – que, em última análise, é a finalidade existencial do ser humano, não pode ser compreendida como um es tado de contentamento ou de gratificação permanente, porquanto certo grau de oscilação lhe é inerente, assim como acontece, por exemplo, com o ato de caminhar, que se dá por uma sequência de desequilíbrios controlados, para obtenção do equilíbrio dinâmico . Mas, tanto num caso quanto no outro, essas oscilações podem se dar em nível mais ou menos ritmado, em frequência mais ou menos eficiente, para um andar mais fácil e célere, para um viver mais pleno e confortável. Pernas mais fortes, passadas mais amplas , passos mais firmes podem superar qualquer terreno. Do mesmo modo, atendidos os fatores essenciais da felicidade já descritos, pod em ser felizes o homem pobre, assim como o rico; o homem simples, assim como o culto; o homem encarcerado, tanto quanto o homem livre. A felicidade se afigura, então, relativa. Para se chegar a ela, depende-se da sorte, em boa medida, o que independe do indivíduo, mas também se depende da sabedoria filosófica que ele próprio produza ou adote. O homem sábio pode transformar os bo ns frutos da vida em saborosos quitutes, bem como tomar os amargos limões do destino e fazer com eles as mais deliciosas limonadas. O estresse é componente inarredável da condição dos seres vivos. A existência de um rio, por exemplo, decorre da tensão o casionada entre o peso e a força de sua água e a resistência da areia que lhe compõ e o leito e as margens.

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Analogicamente, tem -se aqui uma demonstração de estresse físico. Do mesmo modo, a vida das pessoas transcorre numa sucessão de tensões e distensões, com sucessos e insucessos, dificuldades e problemas, que vêm compor o estresse lúdico essencial, o dito “estresse bom”, que nos motiva e estimula. Na configuração gráfica do Homem Vitruviano Metafísico, a maromba de pesos representa os fatores do estresse , a qual sofre a influência dos sortilégios e infortúnios em geral, ditados pelo destino – por sua vez representado no triângulo teológico pelo Deus Absoluto. A presença da maromba de pesos é inevitável e até necessária para a existência consciente, mas su a carga pode se tornar excessiva e até insuportável, mercê de fatos aleatórios, bem como da maior ou menor resistência da estrutura psíquica e filosófica do indivíduo. Um peso maior da fatalidade e um suporte psicológico menor produzirão o “estresse ruim” , que pode levar à infelicidade, à depressão, à loucura, ao suicídio. Se o “corpo metafísico” estiver debilitado em um de seus membros, por lhe faltar um ou mais dos fatores essenciais da felicidade, até o peso do estresse normal da vida pode se tornar intolerável. Mas se todos os fatores da felicidade estiverem presentes, mesmo os maiores embates da fatalidade poderão ser bem suportados. Cuida-se então aqui, a priori, da sanidade do corpo metafísico, para o suporte dos fatos aleatórios do destino, e somente depois especular-se-á sobre a possibilidade de controle da sorte pela mente, influindo na vontade suprema do Deus Absoluto, conforme tantas vezes as seitas pretendem e as religiões prometem.

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A SIMBOLOGIA DOS FATORES DO ESTRESSE NA CONFIGURAÇÃO DO HOMEM VITRUVIANO METAFÍSICO (VERIFICAR NO GRÁFICO)

ANSIEDADE

FRUSTRAÇÃO

SAUDADE

MEDO

MÁGOA

DOR

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OS PEQUENOS PRAZERES

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s prazeres da vida têm qualidade e preço, como os artigos de um empório. Assim como as mercadorias postas no comércio, ofertadas nas feiras, expostas nas vitrines das lojas, cada um dos prazeres que a existência nos propõe traz em si seu custo e seu benefício. O benefício de determinado prazer está entrevisto na sua intensidade, enquanto seu custo reside nos futuros sacrifícios pessoais que o seu desfrute importará. No caso das mercadorias em geral, o preço correspondente a cada uma delas é geralmente monetário – seja aquele valor comutativo da compra, seja eventual despesa que a sua manutenção acarretará. No caso dos prazeres, o dispêndio econômico respectivo é apenas um dos componentes da contrapartida aquisitiva, que pode, em alguns casos, ser preponderante, mas que pode também, em outros casos, não ter importância nenhuma na composição do sacrifício. A cocaína, por exemplo, provoca no consumidor um intenso prazer psíquico, porém a elevadíssimo custo, inclusive financeiro. Entretanto, o preço do pó não tem grande importância se comparado ao prejuízo moral, social, físico e mental que seu consumo impenderá. Por outro lado, férias com a família em um dos riquíssimos hotéis de Dubai trarão, sem dúvida, um prazer inenarrável, mas aqui o ônus maior será patrimonial – podendo ter reflexos morais subsidiários, se trouxer dívidas insuportáveis e consequente insolvênci a ao imprudente consumidor de pouco lastro. Pequenos prazeres, portanto, são aqueles, de qualquer intensidade, mas sempre de baixo custo em relação à saúde – econômica, física, mental e social.

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O OBJETIVO INTELIGENTE

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s objetivos do homem são como o coe lho mecânico usado em corridas de cães galgos. O objetivo é perseguir; não é alcançar. Uma vez alcançada uma meta, logo outra se impõe. “Nós somos sendo”, como dizia Ortega y Gasset. Nós somos gerúndio. Imaginemos que um andróide, muito bem instruído em ciências exatas, mas absolutamente nulo em biologia, visse um campo verde com uma grande manada de animais pastando. O seu raciocínio eletrônico iria computar imediatamente que o objetivo daquela faina frenética seria eliminar o gramado. Parecer -lhe-ia que os bichos fossem máquinas destinadas a esterilizar todo o terreno. Do mesmo modo, se o mesmo robô assistisse à determinação da ciência para salvar vidas, o esforço dos médicos para promover curas, a consternação geral quando morre alguém, certamente calcu laria ele que o desiderato final da medicina é elidir o fenômeno morte. Entretanto, a ciência entende que a morte é inevitável, enquanto o real objetivo do gado é alimentar se. Sabe o médico que a sua atuação é momentânea; as vacas pastam, mas pressentem e m seu instinto que o relvado se renovará continuamente. São como o andr oide do exemplo os idealistas radicais, os quais carecem de embasamento filosófico. Não há como proscrever toda fei ura, exterminar todo o sofrimento, delir todos os vícios, expungir todo o pecado, evitar todas as falhas, afastar toda injustiça. Sem prejuízo de que a virtude exista, e que seja mister lutar por ela, buscando sempre o bom e o melhor, contudo não se deve ficar frustrado diante do resultado, porque o objetivo de quem luta é lutar , e o

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resultado da luta é estar lutando. Tudo é meio. O objetivo é meio. A felicidade está no meio. Nada é definitivo. “A conquista é tudo; o resto é quase nada”, segundo o adágio popular. Assim, a finalidade da vida, realmente, é “combater o bom combate”; não é salvar o mundo. Não é possível crestar a imperfeição para produzir o paraíso. Se o homem fosse perfeito e o mundo fosse o éden , não haveria o certo, nem o bem, nem o belo, nem o justo, por ausência de contraste. Se se atingisse a perfei ção não haveria busca, nem trabalho, nem heroísmo, nem vitória, nem alegria, nem virtude, nem beleza. Se a vida fosse perfeita e justa, a vida se autoanularia. Então, o ideal humano é um coelho mecânico, e é preciso saber disso, pois a perfeição é inatingível. A felicidade permanente, a justiça plena, a vida eterna, a total sublimidade, enfim, a ordem completa, isso seria o caos absoluto. A tese aqui expendida não é anarquista, nem niilista, nem dadaísta, como pode parecer. Nem sequer é pessimista – e até pelo contrário. O que dizemos é que o objetivo ideal é a justiça ; a missão natural é perseguir a ordem; o dever essencial é pervagar a virtude ; o mais sábio desiderato é promover a equidade. Todavia, é também sapientíssimo que não se alimente a veleida de pessoal de poder corrigir o Universo, aniquilar todos os males, santificar todos os homens, harmonizar todos os seres, sanear a sociedade, ou atingir a perfeição, porque é de antagonismos que se alimenta a existência. Para se acender uma lâmpada elétrica, precisa-se do fio azul da corrente positiva, mas também do fio vermelho, que representa o p olo oposto. Deus nos dá objetivos virtuais, mas os Seus reais fins são os nossos meios de buscar a felicidade. Não espera Ele que atinjamos metas divinas e que esterilizemos as geenas mundanas, mas certamente

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pretende que o tentemos sempre, porque nossa missão é praticar a virtude, mesmo sem jamais alcançarmos esplendores – termos consciência disso é sermos mais humildes e felizes. Como aquele colibri da conhecida alegoria, cada um tem que transportar no bico a gota d’água que lhe cabe, e lanç á-la sobre as chamas, mesmo sabendo que , isoladamente, essa atitude não apagará o incêndio na floresta. Lutar é preciso, buscar a vitória é imperioso, mas, vencer ou não, isso é aleatório. Diz o pensamento olímpico que o importante é competir: assim também na vida diária. Como naquela alegoria bíblica, devemos manter o cavalo pronto para a batalha, sabedores de que a vitória final, ou a derrota, pertence a Deus unicamente. Há muitos espíritos nobres, mormente entre religiosos e políticos, que sofrem com as dores do mundo, e então entram em melancólica luta pelo total banimento de todos os males. Constroem ideais quiméricos e imaginam a possibilidade de uma realidade excelente e exata, a qual passam a descrever tão factível como os efeitos do cinema. Acontece de nesse afã desenvolverem teses messiânicas e recolherem sequazes, dentre os tantos sequiosos de preencher o seu próprio vazio filosófico com paix ões fanáticas. Aqueles aludidos “mestres do bem” muita vez descuram da própria família e prejudicam a felicidade pessoal – que deveriam ser seus primeiros e essenciais deveres ontológicos – em busca de um eldorado ideológico que se lhes afigura como um infantil desenho animado, em que tudo é alegre, tudo dá certo e termina bem, onde todos são puros e imortais, a depender unicamente de suas boas intenções. Assim, sonhando espanar toda a poeira do mundo, essas pessoas deixam de varrer a própria casa. E não é raro no fragor do devan eio ideológico deflagr arem guerras santas e justifi carem a violência como meio

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válido, até que, por fim, sentimentos subalternos de orgulho cívico, de vaidade épica, de beligerância her oica, de depuração religiosa, se apoderem de suas almas, desvirtuando o seu altruístico desiderato inicial. Este é o cerne do pensamento revolucionário: fixar um ideal perfeccionista, e colocar essa ideologia acima de todos os demais valores – ética, moral, família, afeto, tradição – tudo em prol de uma pretensa desconstrução radical de todas as relações sociológicas, para a construção de novos modelos, presumidamente infalíveis e perenemente autossustentáveis, teoricamente desenhados como absolutamente justos. O homem sábio é o homem feliz: humilde na consciência de sua lim itação e de sua pequenez dentro do cosmo; regular em seus próprios deveres familiares e sociais; justo, fraterno e solidário em suas relações pessoais. O homem feliz é comedido nos seus hábitos, resignado ante os reveses da sorte e intimamente gratificado pelos favores do destino. O homem feliz está sempre apercebido de coragem e vigor para a luta da vida, e principalmente para os embates imprevistos, constantemente empreendendo e edificando – mas sem a jactância de pretender dar combate ao imponderável e de chamar para si tarefas divinais, de intangíveis resultados. Claro que pessoas com cada uma das condutas descritas hão de sempre existir e conviver, pois seria um contrassenso endógeno a es sa tese pretender eliminar antagonismos. Afinal, o charco do m undo não estará jamais completo sem que nele pudessem coexistir as garças e os sapos, espécies animais tão díspares entre si, mas necessárias à biota universal.

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DIALÉTICA SOCIAL liberdade da pessoa, que lhe permite o “livre arbítrio” sobre suas atitudes, é um bem essencial. Contudo, quando se nasce na civilização, celebra -se um tácito contrato social, no qual há o firme compromisso de renúncia de boa parte das prerrogativas naturais, em prol da coletividade. Estabelece-se, então, aquele postulado segundo o qual “o direito de cada um termina onde começa o direito dos demais” – em que pese a inevitável parcela de infratores, que recebem o bônus da civilização, mas que não querem arcar com o ônus disciplinar que lhes cabe, e , por meio de condutas ilícitas, descumprem a sua parte no “contrato”. Desde o código de Hamurábi até o moderno ordenamento jurídico dos países, passando pelo Bhagavad Guita, pelo Corão e pela Bíblia, que também, como outros livros sagrados, ditam normas de conduta, as pessoas tiveram de dominar instintos, refrear impulsos, comedir desejos, no interesse maior do bem comum. O Estado e suas leis assumem hoje a função de regular esses direitos, de estabelecê -los, de limitá-los, por meio da ciência jurídica, procurando garantir a máxima equidade social, com a mínima necessidade de intervenção na liberdade das pessoas. Ferir o laisser-faire, o direito de ir e vir, a liberdade de expressão, o jus proprietatis, em suma, todo o jus naturalis – sob o império das leis, por meio do chamado “poder de polícia” de que se investe o ente público, é tarefa restrita, que deve ser limitada ao mínimo necessário ao equilíbrio social, sob pena de sufocação psíquica das pessoas, com prejuízo da sua felicidade e, consequentemente, do bem -estar geral.

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Contudo, em determinado momento da História, intelectuais beneméritos passaram a defender a teoria segundo a qual para se atingir justiça plena , seria necessário promover e garantir igualdade absoluta entre as pessoas, no tocante aos bens da vida, ao patrimônio, à distribuição das riquezas, para a obtenção de um perfeito equilíbrio social. E essa teoria, de índole profundamente humanitária, transformou -se em ideologia apaixonada, mobilizou castas sociais menores, encantou líderes políticos, provocou revoluções, passando a ser aplicada em diversas latitudes do Planeta. Entretanto, um Estado somente consegue implantar a igualdade ideológica por meio de um regime de força, com imenso e inevitável prejuízo da liberdade pessoal, pois as pessoas já nascem diferentes , não só em sua aparência física, mas em todos os seus potenciais, e instintivamente querem competir, buscando sempre se distinguir umas das outras, expor id eias novas, tirar conclusões próprias, fazer experiências, reunir méritos, acumular vantagens. Por essa razão, a ideologia comunista não prosperou na extinta União Soviética, foi mitigada na China, e não conseguiu, enfim, em lugar algum, produzir felicidade. Façamos, então, doravante, uma sinapse entre o conhecido lema da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – e o método dialético de Hegel – Tese, Antítese e Síntese – para, no cotejo filosófico de ambos, solucionarmos a questão posta acima. Tomemos a “Liberdade” como tese. É um valor fundamental e indispensável, mas não pode ser absoluto, sob pena de se implantar a barbárie entre indivíduos e entre classes sociais. Tomemos então a “Igualdade” como antítese, valor socialmente importante, mas que também não pode ser hegemônico, sob pena de sacrificar a felicidade,

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inibir a expressão i ntelectual, limitar a criatividade, desestimular o crescimento econômico das nações. A implementação da plena igualdade social não se sustenta democraticamente, pois somente pode ser assegurada de maneira artificial, pondo -se em prática um verdadeiro “leito de Procusto” – anfitrião que, segundo a mitologia grega, espichava ou cortava as pernas dos seus hóspedes, para que preenchessem com exatidão milimétrica a sua cama. Tão importante se torna estabelecer essa igualdade, onde esse tipo de regime é implantado, que não só a vontade individual, mas a própria vida dos indivíduos também perde a sua importância ontológica – haja vista as execuções sumárias largamente praticadas onde o comunismo se instalou. E a ideologia igualitarista, porquanto aparentemente justa e humanitária, não fracassa somente no tocante à economia. Ela também constrange as artes, ataca as tradições, as expressões culturais, a religião – enfim, a própria estética é relegada, porque os artistas não podem expandir a criatividade. Por exemp lo, em países sob esse tipo de regime não há espaço garantido à beleza arquitetônica. Monumentos, palácios e templos são execrados. No território da antiga Alemanha comunista , vemos centenas de edifícios iguais e cinzentos, pois o uso de pigmentos na tint a era considerado um excesso burguês despiciendo. Grandes artistas russos modernos, inclusive o famoso compositor Sergei Prokofiev, tiveram sua produção censurada pelo Partido Comunista, se as obras se lhe afiguravam “burguesas”, e não eram “engajadas” na doutrina marxista. Então, visto acima que a liberdade plena é deletéria, e que a igualdade absoluta é insustentável, a tese e a antítese contrapostas remetem à síntese dialética. E a síntese é Sua Excelência a FRATERNIDADE. Essa

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deve ser a chave para a “ terceira via”, que se poderia talvez chamar de “socialismo liberal”. Assim, os regimes mais modernos deverão proteger a liberdade dos indivíduos, no limite do bom senso; garantir a igualdade para os iguais e a desigualdade para os desiguais, nos parâmetros da segurança jurídica; e promover a fraternidade, por todos os meios e de todas as formas em Direito admitidos.

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INTERFERÊNCIA CONSCIENTE NO PLANO DO DESTINO útil conceber a trindade teológica, principalmente para entender que a responsabilidade do homem sobre o seu próprio destino é limitada. A consciência disso tem o poder de elidir parte do sentimento de culpa sobre os maus fatos da vida, já que há sempre uma vontade suprema e irresistível, superior e exterior ao indivíduo, que dimana do incógnito plano do Deus Absoluto. Se tudo afinal é manifestação de Sua soberana vontade, basta quedar-se ao seu império. Mas, será que pode a pessoa interferir nessa vontade maior, para melhor fazer prospera r os seus desejos, a partir do ace sso psíquico que tenha ao Deus Racional – aquele que se manifesta nos homens santos e nas escrituras, e que indica ao crente a melhor lógica e a melhor ética? Ou, quem sabe, recorrendo ao Deus Intuitivo, que por sua vez se insinua na alma e inspira o bom senso e a boa índole? Ao longo dos séculos , as religiões têm ensinado que certas condutas morais, ou práticas rituais, ou preitos votivos, ou mortificações intencionais, ou sacrifícios prometidos, podem fazer com que Deus afaste os males ou garanta benesses ao fiel ou ao penitente, ou, enfim, que tais ascetismos propiciem que Deus venha a atender suas pretensões terrenas – além de lhe salvar a alma no além-túmulo. Vai-se ao culto, faz -se contrição, confessam se as faltas, reza-se muito, pede -se em grupo, ac endem-se velas, fazem -se promessas, e assim se afastaria a má sorte e se obteriam sortilégios pretendidos. Sabe -se, no entanto, que, porquanto a fé e a oração sejam sempre benfazejas ao espírito, não basta conduzir -se pela melhor

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senda moral e crer piament e em um determinado orago , para se obter tudo de melhor que se deseje . A sorte das pessoas varia de forma caprichosa, fazendo parecer que forças tangíveis a conduzam. Há dias em que todos os fatos da vida se nos afiguram favoráveis, enquanto em outros, se nos vislumbram claramente aziagos. Também é fácil notar que períodos inteiros de nossas vidas são felizes, enquanto há fases de sequentes infortúnios. Por isso os oráculos, os horóscopos, as pitonizas, a cabala, o I Ching, o tarô, a quiromancia, o vodu – enfim, um sem-número de técnicas presuntivas de antecipar o futuro e alterar o destino se desenvolveram em toda parte, em cada época, sem que ninguém jamais haja efetivamente comprovado esse poder, com acerto razoável. Hodiernamente, desenvolveu -se, no gênero literário “autoajuda”, a tese livresca de que a prática de pensamentos positivos bast a para que todas as graças divinas sejam alcançadas dentro do mundo material. Seria querer e acreditar profunda e intensamente, e tudo viria a nossas mãos. Os defenso res dessa teoria misturam muito bem a fé cristã com psicologismo científico , para concluir que basta querer e crer que a montanha arredará. A conclusão do presente estudo, a respeito disso, é a seguinte: é preciso fazer planos concretos, estabelecer metas justas e realistas, mentalizá -las com insistência, mesmo sem nenhuma preocupação fideísta ou grande carga de esperança. Isso seria o bastante, e seria o limite. Mas traria resultados. Comumente dizemos que queremos isso e aquilo, mas, por não estarmos realmente convictos e decididos, ou psiquicamente preparados, ficamos à deriva no destino, colhendo imensas frustrações. Na verdade, conscientemente queremos todas as benesses, mas, inconscientemente, impomos uma grande série de condicionantes para a sua cons ecução. Pensamos querer,

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mas, no íntimo, não estamos dispostos a pagar o preço. Enfim, quereríamos, se nos caísse do céu. E como dificilmente o que desejamos nos vem às mãos de modo gratuito, facilmente nos frustramos. Muitos dos projetos mentalmente conce bidos da forma acima proposta no parágrafo em negrito não se concretizarão – é bem verdade – mas é certo que mentalizando com precisão e insistência as vontades íntimas, elas se fortalecem, fazendo com que a mente esteja atenta às oportunidades objetivas. O comodismo perde força, o ânimo se robustece, as condicionantes subliminares são superadas, e cresc e a disposição para pagar o preço necessário, ante todo e qualquer sacrifício. Assim, praticando aquelas mentalizações sugeridas, em pouco tempo se notará q ue melhor se conduzirá a própria sorte, parecendo mesmo que a vontade de Deus converg e para as nossas pretensões, ou que “todo o Universo passou a conspirar em nosso favor”, no dizer tão ao gosto dos autores de obras de autoajuda. Será científica ou místic a a nossa conclusão? Abona a doutrina da fé ou a técnica do pensamento positivo? Talvez explique as duas. Mas difere de ambas, porque não envolve fanatismo nem propicia frustração. Seria apenas uma prática saudável e sábia para que se alcancem objetivos. Parte-se de uma enigmática reflexão atribuída a Santo Agostinho, que recomendava: “Cuidado com aquilo que realmente queres, porque é exatamente o que obterás”. Séculos depois , a psicologia concluiu que conteúdos secretos do nosso inconsciente podem nos impelir a condutas estranhas e a canhestros resultados. Se cotejarmos o que pregou Agostinho com o que defendeu Freud, concluiremos que para melhor conduzirmos o nosso destino , precisamos trabalhar a nossa vontade interior (ou inconsciente), para que ela se fortaleça no íntimo e se exteriorize nas ações.

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Sem inibições e amarras sobre o que realmente queremos, profundamente certos das nossas verdadeiras pretensões, melhor enxergaremos os caminhos e abriremos as portas para atingir objetivos. Não cabe especula r se o processo recomendado é mágico ou divino, espiritual ou psíquico, materialista ou religioso. Afinal, a ciência também é instrumento de Deus-Pai. Por outro lado, podemos prever o futuro com alguma margem de acerto, se fizermos um bom exercício probabilístico com bravura realística. Nem sempre é fácil, tampouco agradável, enfrentar cruamente todas as tendências do porvir: o envelhecimento de todos, a morte de alguns, o malogro final do que já se afigure malparado, o insucesso dos processos malsãos – embora essas pré-constatações tristes sejam compensadas pelas premonições mais bonançosas, que também ocorrerão. Examinando o presente com acurada franqueza notar-se-á o prenúncio da breve falência de entes e seres imprudentes, assim como o êxito próximo dos comedidos e aplicados – sejamos nós mesmos, sejam os circunstantes. Exóticos fatos imprevisíveis podem sempre intercorrer, mas esses, por sua raridade, não provocarão mudanças substanciais no resultado global das previsões. E tanto menos ocorrerão imprevi stos, quanto mais habilidade presuntiva o raciocínio adquirir.

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OS TRÊS NÍVEIS FILOSÓFICOS DA REALIDADE

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olipsismo é a doutrina segundo a qual a única realidade existente seria o próprio eu. Tudo em volta do eu seria ilusório. De fato, a consciência ontológica de si mesmo é a primeira e maior evidência do real. Logo em seguida vem a consciência do fazer, da necessidade de agir em prol de existir, na defesa da incolumidade ameaçada e na satisfação de carênci as naturais. “Eu e a minha lut a”. A “luta”, lato sensu, é entrevista na necessidade de decidir pelas ações e inações imprescindíveis à manutenção da existência – o que fazer, o que evitar; quando atacar, quando se abster ; quando se ocultar, quando fugir. Seria essa, então, a única cert eza absoluta do indivíduo. Até porque, em tese, bem ou mal ele pode subsistir sem todo o mais, mas não subisistirá sem a existência de si mesmo, e não perdurará sem algum esforço para permanecer existindo. Feito esse raciocínio básico, analisemos a realidade exterior, entrevista em tudo o que nos cerca – as outras pessoas e tudo mais que compõe o nosso cotidiano e a nossa vida: tudo que somos, tudo que acontece, tudo que observamos, tudo que fazemos, tudo que nos anima ou nos constrange. Considerando essa complexa universalidade de componentes da realidade, não é raro que alguém, ao ser confrontado com uma evidência escatológica, com alguma vilania, com alguma abominação, tenha súbita sensação de desdouro sobre os valores maiores da existência. Essa eventual desvalia da sublimidade do ser, da ética dos homens, da estética da vida, da grandeza da alma, das posturas sociais, da seriedade das leis, da

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validade da moral, provocada pela constatação da iniquidade ou da imundície, é um sentimento equivocado. Muita gente enfrenta sofrimento filosófico por pretender que as coisas feias contaminem, ou mesmo desmintam as coisas belas – sejam fatos, sejam atos, sejam pessoas, sejam objetos – quando a existência do mau e do feio jamais anula o seu oposto, mas apenas confi rma o que é melhor. Também é equivocado prender -se cegamente ao lado sublime da vida, recusando -se a admitir e aceitar serena e naturalmente as coisas mais comezinhas, como querendo negar as realidades mais toscas, em busca de um purismo absoluto. Na verdade, o que é grave, o que é pomposo, o que é severo precisa existir e precis a conviver com o que é banal, pois , para algo existir de fato , necessita de contraste. Portanto, as coisas sérias precisam ser cultuadas, as frivolidades precisam ser respeitadas, e as coisas torpes precisam ser reconhecidas, sem que se entrechoquem ou se anulem entre si. Cada uma dessas coisas tem a sua hora e o seu lugar para acontecer e para existir, e deve ter sereno acatamento do psiquismo do indivíduo. Façamos então a seguinte alegoria, para que fique claro aquilo que dizemos: imaginemos a realidade com três níveis, correspondendo aos níveis que envolvem a paisagem de um lago na planície. A realidade superior seria o céu, azul e profundo, alto e sobranceiro. A realidade mediana seria a superfície do lago, em que se pode e costuma, normalmente, flutuar. A realidade inferior estaria então nas profundezas lúgubres e escuras, onde tudo é frio e triste, tudo são lodo e lama imunda. De ordinário nós flutuamos nesse lago, e a vida transcorre normalmente, com as nossas aspirações triviais, as lutas da profissão, a convivência em família,

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as contingências sociais, as conquistas materiais, as vicissitudes cotidianas, o chamado “estresse bom”. Às vezes boiamos na realidade burguesa , com os olhos voltados para o céu, cheios de vontade e de esperança, e às vezes a vida nos põe de borco no lago da realidade, fazendo -nos, nesses momentos, menos animados e mais pessimistas, olhando para o fundo – mas ainda inseridos na normalidade da existência. Ocorre, no entanto, que podemos vez por outra alçar pequenos v oos, saindo da superfície do lago e indo flanar gostosamente sobre ele. É quando nos apaixonamos por alguém, quando estamos em festa, quando ouvimos música, quando nos concentramos em uma prece. Vamos, assim, para outro nível de realidade, porém não menos real. É a suprarrealidade. Depois , voltamos normalmente à navegação do dia a dia. Voltamos à mesorrealidade. Malgrado, às vezes os reveses da vida nos obrigam a mergulhar, e então passamos por um transe sinistro junto às algas e à lama. É quando nos ocorrem tragédias, tristezas, apuros, ridículos, opróbrio, fatalidades. Então, passada a provação, voltamos a navegar naturalmente na superfície da realidade mediana. Os loucos, os ascetas e os míst icos mantêm o “voo” continuamente, permanecendo nas alturas filosóficas, às vezes por toda a vida, abandonando assim os níveis da realidade inferiores. Os bêbados e os drogados, por sua vez, também o fazem, nesse caso por meio químico, mas sempre que a quí mica termina eles voltam ao lago, e muitas vezes não mais conseguem boiar na superfície. Como perderam suas “b oias” psiquicas, afundam então em profundas crises de abstinência, sofrendo agruras enormes, presos à fossa mais odienta – mas não menos real. Vão para a infrarrealidade.

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Também se prendem patologicamente à lama tétrica da realidade profunda os deprimidos, penosamente presos às tristezas da existência – que são reais, porém infrarreais, portanto inúteis ao viver e prejudiciais à felicidade. A profis são muita vez impõe à pessoa um contato maior com uma das três realidades – a supra, a meso e a infra. Os sacerdotes, os músicos, os poetas, os festeiros, os artistas em geral, esses vivem muito mais em contato com o lado sublime da vida, e, portanto, por mais tempo se avizinham da realidade superior. Já os garçons, os bancários, os taxistas, os comerciantes, entre outros, por seu turno, passam o tempo lidando com a realidade mediana, flutuando naquele lago da nossa alegoria, sem enxergar excelsitudes, mas também sem defrontar dores e pústulas. Mas os sanitaristas em geral, a maioria dos médicos, os policiais, os que lidam profissionalmente com a doença, com o crime, com a morte, com a podridão, esses são obrigados a encarar a realidade inferior no dia a dia, carecendo sempre de maior força moral, de mais embasamento filosófico, de maior proteção psicológica.

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A CONDUTA E A ÉTICA

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inguém tem obrigação de fazer o bem, de ser magnânimo, de prestar favor, de praticar caridade. O dever de cada qual é não fazer o mal. É isso que as leis regulam, ao estabelecer os devidos limites entre direitos e deveres. Fazer o bem é uma faculdade, para alguns é prazer, para ninguém será encargo. Ressalvemos aqui que há leis que obrigam o cidadão a socorrer outro , em certas circunstâncias. Também há normas que limitam prodigalidades patrimoniais, no interesse de futuros herdeiros, por exemplo. Essas são isoladas exceções em que o ordenamento jurídico, em casos específicos, obriga ao altruísmo e constrange a libera lidade pessoal. Mas há religiões que defendem a benemerência como norma geral de conduta, pregando ser necessário produzir “boas obras” para se obter a “salvação”, enquanto há outras em que é primordial aceitar dogmas e cumprir rituais, remetendo antes à adoração e ao serviço místico de Deus, que ao altruísmo e à caridade. Há também certos indivíduos beneméritos com tendência a dilapidar os próprios bens, a dissipar o patrimônio, em benefício alheio, dedicando a vida a praticar filantropia, fazendo disso o grande fanal de sua existência. Fazem com grande prazer o que para outros seria imenso sacrifício, porque, não tendo outra forma de “transcendência”, adotam diretamente a caridade, em busca da felicidade pessoal, o que termina sendo uma maneira inteligente de proteger o próprio interesse. Falamos nos deveres impostos pela lei, nos ditames religiosos bonançosos e no desprendimento natural de certos indivíduos, que se querem divididos com os demais. No primeiro caso, referimos o compromisso jurídico que to do cidadão capaz deve

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assumir para viver em sociedade – o de cumprir a legislação; no segundo caso, o compromisso moral com o grupo místico a que esteja integrado; no terceiro, o compromisso subjetivo pessoal com a indulgência e a compaixão. Nesse ponto , chegamos ao que seja a ética, exatamente. Ética é a disposição individual para firmar e cumprir compromissos. Assim, o indivíduo que obedece à lei atende exigência ética básica, ao cumprir o compromisso que ele assume tacitamente ao nascer e conviver em so ciedade. Se, além disso, ele tem compromissos com a família, com a Igreja, com a pátria, com o clube de serviço, com seu time desportivo, com o código de conduta da profissão, com a empresa em que trabalha, com seu círculo de amigos – e procura cumpri -los todos – eis aí uma pessoa extensamente ética. Se os assume e não os cumpre, ele seria, então, aético. Se nem sequer assume compromisso com a lei, como no caso dos criminosos contumazes, n ós o diríamos “antiético” – sem prejuízo de que possa cumprir éticas espúrias, em compromisso com estamentos marginais a que pertença. Interessante notar aqui que cada compromisso lícito tem um fundamento ideológico, baseado em princípios, instruído por valores – sejam afetivos, sejam culturais, sejam sociais, sejam míst icos, sejam profissionais – todos eles mais ou menos orientados por intuitivas noções de direito natural. A preservação da vida, a proteção à prole, a defesa do grupo, a cooperação, o comensalismo, a simbiose, são tropismos naturais instintivos dos seres v ivos em geral, que se refletem e instruem as normas jurídicas, os compromissos civis das pessoas e a boa ética social do ser humano – a hombridade, a fraternidade, a solidariedade.

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Contudo, é preciso também registrar que se conduzir bem e ser plenamente ético requer sabedoria e bravura moral para administrar prioridades, porque entre todos os compromissos que a pessoa assume em sociedade, tem que haver hierarquia. O amigo, por exemplo, tem que saber discernir entre a solidariedade e a conivência, quando o outro infringe a lei, que é a norma ética maior da sociedade; o pai precisa divisar a benevolência paternal e o rigor disciplinar, na hora de impor limite ao filho; o juiz precisa decidir entre aplicar a letra fria da lei e transigir para a justa exceção que a verdade real faça exsurgir, na peculiaridade de determinado caso concreto. De resto, a boa ética é intrínseca à estrutura básica do Homem Vitruviano Metafísico, pois as pessoas mais éticas mantêm maior higidez psíquica, melhor segurança afetiva, melhor conceito profissional, tendendo a mais efetivamente garantir a felicidade – embora os menos éticos, os ím probos, os ambiciosos, os arrivistas busquem obter progresso material pela iniq uidade e pela perfídia, e algumas vezes o consigam, expondo -se, consequentemente, à instabilidade emocional – por não ser material o objetivo ontológico essencial do ser humano. Por fim, estabeleçamos o fato curioso de que a ética jurídica é a segunda em relevância, pois é ainda superada pela esfera da ética persona líssima, que se desenha acima daquela. A ética personalíssima advém do compromisso existencial do indivíduo consigo mesmo, com a sua sobrevida, com a sua higidez, com a sua dignidade, com a sua família, com o seu patrimônio afetivo. As pessoas autodestruti vas, destituídas de autoestima, drogadas, prostituídas, amorais, são absolutamente antiéticas, pois não se comprometem nem com elas próprias.

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O ordenamento jurídico presta algumas homenagens aos personalíssimos valores, quando, por exemplo, institui circun stâncias excepcionais excludentes de antijuridicidade: a legítima defesa, o estado de necessidade, o estrito cumprimento do dever legal, o exercício regular de direito. E quan do não agrava a pena do preso que intenta se evadir; quando instrui que ninguém se obrigue a produzir prova contra si mesmo; quando admite que o parente de um réu pode falsear o próprio depoimento, já que o dispensa de prestar juramento formal; quando estabelece que certos crimes de ação pública somente se processam mediante representação do ofendido, para lhe privilegiar a privacidade.

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A CONDIÇÃO IDEAL

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m sua condição ideal, como descrito acima e exemplificado adiante, em tese, é plenamente feliz o Homem Vitruviano Metafísico – a qualquer gênero ou classe pert ença. Ele tem o afeto do consorte, do cônjuge, do companheiro, da família, dos amigos, e retribui esses amores. E abraçou a profissão mais adequada ao seu caráter, no exercício da qual se sente bem recompensado. Demais disso, ele se mantém envolvido com obras sociais, talvez da Igreja que freq uenta, ou do clube de serviço a que pertence, ou então se ocupa apaixonadamente com pesquisa, com a sua produção artística ou literária, com a filatelia que seja, com a numismática, ou com qualquer outra atividade pas sional amadorística. Se nada disso ele pratica, é o sindicato, o partido político, é o time do coração que o apaixona inteira e ativamente. Até aqui ele tem firmes os pés e as pernas da sua estrutura metafísica. O afeto, a vocação, o engajamento, a transcendência. Ele tem, no mínimo, o padrão de vida que sempre teve. Consegue, portanto, na hipótese mais modesta, manter para si e os seus o mesmo nível socioeconômico que seus pais deram à família, se aquelas condições superavam a dita linha da pobreza. Por outra, se teve uma infância de penúria, se a juventude foi de carência, ele superou esse estado de coisas e adquiriu dignidade econômico -financeira: mora razoavelmente bem e consegue prover a família ao menos com o essencial. Se foi rico, conheceu o faus to, e desceu na escala social, mas consegue o padrão de vida básico, agora livre da “espada de Dâmocles” ele será mais feliz que antes.

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Necessariamente sobra -lhe ainda algum recurso, em alguma medida, para o drinque, não importando se vinho do Porto ou agu ardente; para a música, seja erudita, seja samba, seja rock – enfim, para a dança, para a festa, para o hobby, para a viagem de lazer, para o fim de semana, para as férias – casinha no campo ou mansão de praia, tanto faz. Agora também estão compostos os braços simbólicos do seu corpo metafísico, com o essencial físico e o essencial psicológico. Essa pessoa assim descrita está feliz, pois sua estrutura psíquica, afetiva, social, metafísica está completa e organizada. Ela tem problemas, estresse, experimenta frustrações e ansiedades, sofre, adoece, amarga perdas, mas supera tudo, suportando bem o seu destino, representado naquele desenho pelos pesos da maromba. Todavia, fizemos aqui um quadro estático, e o nosso modelo precisa pensar, decidir, interagir no dia a dia. Então, é importante ainda que ele tenha alguma fé, um credo, uma religião, uma posição filosófica, uma opção ideológica, algo enfim que oriente o seu caráter. Importa também algum otimismo, alguma esperança, algum idealismo que o seu raciocínio lhe sugira seja lógico. Convém também que seja ético, que cumpra as leis gerais e honre os contratos que firmar, sendo fiel ao que diz e leal com os circunstantes. Na média, ser constante e coerente. Praticar a cortesia, sempre que oportuno, e exercer a fi rmeza e a energia quando necessário, sem qualquer hesitação. Estudemos, pois, o conceito de estética, essencial para a administração da convivência.

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A ESTÉTICA E A DIFERENÇA

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convivência humana é necessária , mas envolve esforço e sacrifício. Considerada stricto sensu, a convivência não é prazerosa, porque importa em hierarquia, em compartilhamento, em renúncia, em sujeição, em concorrência – seja de espaço, seja de atenções, seja de id eias, seja de interesses, seja de autoridade. Portanto , provoca sem pre atrito e desgaste entre as pessoas. O prazer da alteridade está no encontro, não na convivência. Assim, o namoro é encontro – o casamento é convivência; o parto é encontro – a educação do filho é convivência; a festa é encontro, o futebol é encontro, o domingo de praia é encontro – mas o cotidiano no lar é convivência; o expediente na empresa ou na repartição é convivência. Contudo, as dificuldades inerentes à convivência podem ser contornadas , quando o grupo estabelece um modus vivendi sadio, disciplinado, inteligente. Preservem -se mutuamente e a qualquer custo a intimidade, o respeito, a cortesia, a urbanidade, a empatia – eis a primeira regra. Mantenha-se o hábito do diálogo esclarecedor e conciliatório, praticado de forma imediata, humilde e franca. Evitem-se gestos e palavras ofensivas, ferinas, afrontosas. Cultivem -se a paciência, a tolerância, o perdão, a solidariedade incondicional e irrestrita, nas grandes vicissitudes e mesmo nas dificuldades comezinhas. O que foi dito acima é constatação do ó bvio, e a receita apresentada é tão simples quanto árdua. Claro que a banal teoria encontra na prática complexidade colossal. A explosão do gênio e o incêndio dos egos é quase inevitável no dia a dia, pois o nervosismo embota a

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mente, atropela as fórmulas, precipita o pensamento e a atitude. Mal-entendidos, incompreensão, ou a mera desatenção geram ofensas. O orgulho ferido provoca mágoas, que levam a revides, o que gera antipatia, ódio e intolerância, muitas vezes sem causa concreta e definida. Todavia, é útil entender que a principal diferença entre as pessoas reside na maneira distinta , que é inerente a cada qual , de perceber a vida. Essa maneira de perceber a vida manifesta -se naquele elenco de estímulos gerais que nos comove a cada um, parte nos grati ficando o ser anímico, parte nos repugnando ou sendo infenso. Esse acervo de coisas que agradam o ser, em contraste com aquelas outras que desagradam, corresponde exatamente à sua percepção estética pessoal. É essencial conviver com as diferenças, e procurar aceitá-las, o que é facilitado pela sua compreensão. Essas diferenças são lícitas, se forem éticas, porque a sua causa é a variação do acervo estético que cada qual reuniu e detém, patrimônio adquirido pela sensibilidade gestáltica, de acordo com a dis ponibilidade genética, por meio da experiência. É estético tudo aquilo que o indivíduo aprova, abona, defende, procura, admira, pratica – tudo aquilo que faz parte do que ele aprendeu a apreciar, dando-lhe o seu próprio conceito pessoal de belo, bom, agradável, saboroso, correto, e fazendo -lhe o contorno do caráter. Qualquer forma, som, odor, paladar, prática, ideologia, paixão, que seja capaz de agradar a alguém, tem potencial para agradar a qualquer outro que tenha oportunidade de assimilar sua estética específica – esse é o ponto. A música dos pássaros, o canto do galo, o toque de sinos, o som de gongos, a aurora e o ocaso, as flores, o voejar das borboletas, esses são alguns dos

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estímulos estéticos que costumam ser de gosto comum e universal. Dos Alpes suíços às savanas africanas, passando pelo Nepal e pelas planícies da Mongólia, incluindo a tundra russa e as florestas da Amazônia, em todo lugar se apreciam e se cultuam esses sons, imagens e formas, por razões ainda obscuras. A beleza facial, por seu turno, atende a critério estético subliminar que nunca se identificou. Cientistas fizeram exaustivos estudos e experimentos, e ainda não se sabe, de forma conclusiva, por que razão determinado rosto humano – seja ele afro, oriental, helênico, nórdico – é definido como belo, de forma unânime e hegemônica. Tanto assim que , nos estertores da Segunda Guerra Mundial, mulheres alemãs sujavam o rosto com tisna para parecerem feias e não despertarem interesses eróticos nos soldados russos do exército invasor. Aqueles cientistas, em certo momento do estudo, haviam chegado à conclusão de que o padrão da beleza dos rostos estava relacionado à sua simetria. Mas, ao formarem imagens de rostos absolutamente simétricos, com um mesmo lado fotograficamente replicado e fundido, não obtiveram resultados agradáveis. Mas, em relação a todos os demais componentes do Universo, a concepção de beleza, de preferência, de atração, de interesse, de boa qualidade, e mesmo daquilo que possa ser entendido como virtude ou como vício, vai s ofrer variações, de um indivíduo para outro, de uma cultura para outra, de uma geração para outra. A orientação sexual, o gosto artístico, o pendor profissional, o enlevo poético, o fervor patriótico, a apetência culinária, a predileção esportiva, o conservadorismo ou o vanguardismo, a beligerância ou o pacifismo, a castidade ou a boemia – enfim, todas as tendências e vocações lícitas que cada um manifeste,

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adote ou pratique, são expressões estéticas que ele aprendeu a apreciar. As ilícitas também, mas ess as não merecem o acatamento tolerante que este estudo se propõe a pregar. Para facilitar o entendimento do conceito de estética pessoal, citemos palavras de Caetano Veloso, que, embora tendo sido perseguido e preso, em tempos de “guerra fria”, por suposta tendência comunista, declarou depois jamais ter -se atraído de fato pela “energia sexual” que dimanava do mundo soviético. Em suma, de um modo próprio, ele expressou ser infenso àquela estética masculoide da camaradagem ideológica – que outros tantos valorizavam. Citemos também o falecido jornalista carioca Artur da Távola, que em uma crônica de jornal revelou sua pretensão, surrealista e metafórica, de poder torcer por todos os times, para amar todas as bandeiras, compor todas as torcidas, comemorar todas as vitórias. De tal forma o cronista apreendeu a estética futebolística , que, fosse possível, todos os gols lhe conviriam. O que mais interessa nos dois exemplos dados não é a confissão de um enfoque estético pessoal, que qualquer um pode fazer, mas o reco nhecimento da estética de terceiros, que ambos fizeram – um deles, admitindo-a, ao se declarar infenso a ela; o outro , querendo uma universalidade delas , para compor o seu próprio patrimônio afetivo. Este é precisamente o ponto central: reconhecer a estét ica alheia, para em seguida poder respeitá-la, como algo bom que não logramos obter, e não como coisa que se nos contraponha. A opinião alheia, o gosto alheio, a percepção alheia do que seja belo e seja válido, ressalvadas a licitude e a ética, são de fato atributos alheios que – infelizmente – não conseguimos alcançar. Se formos reverentes com a estética dos outros, ainda que não coincida com aquilo que nos traga prazer e

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que para nós faça sentido, aceitaremos as diferenças e conviveremos bem melhor. Gosto não se discute, gosto alheio se respeita. Essa é uma regra para a boa convivência. Mas , para promover o próprio crescimento espiritual, vale sempre um esforço extra para assimilar a estética dos outros, aprendendo a gostar daquilo de que os demais gostam, procurando perceber aquele novo fluxo de prazer, adquirindo assim uma nova fonte sensitiva – o que é mais sábio e proativo que apenas respeitar. Aversão ao que outras pessoas apreciam jamais traduz boa educação e refinamento, como alguém imagina – seja em relação a música, a culinária, a crença, a costumes... Ao contrário, não alcançar a sensibilidade estética dos demais apenas denota limitação cognitiva e cultural. Dizer assim parece significar que o bom gosto seja um mito. Não. O bom gosto existe, sim, devendo ser perseguido e cultuado. As expressões do bom gosto são aquelas que nascem da espontânea expansão da natureza – genuínas, originais, honestas, frutos do melhor estro e da elaboração mais apurada. A criação bem inspirada, a tradição verdadeira, a límpida efusão do espírito humano, a paciente depuração da arte, o desiderato honesto e persistente de aproximar a perfeição, essas são as virtudes que produzem e marcam todas as coisas de bom gosto. O cancioneiro de raiz e a música erudita são exemplos de bom gosto, abrangendo os extremos – do muito singelo ao muito complexo. É de bom gosto o que é nobre e raro, o que é original e puro, o que é criativo e autêntico. O bom vinho, a boa música, a boa mesa, o bom figurino, os bons hábitos, tudo isso nasce d o interesse humano de se aprimorar e de bem servir à obra humana. São elementos do bom gosto. A grosseria, a

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bestialidade, a cupidez, a imitação fraudulenta, o intuito de produzir em massa com o objetivo maior de corromper a cultura e mercantilizar falsos valores, esses são os grandes móveis do mau gosto. Mas os que têm bom gosto não estão por isso autorizados a desrespeitar o gosto alheio, tampouco o ecletismo cultural lhes desmerecerá a erudição. Conhecendo, respeitando, até assimilando a estética alheia, pode-se melhor avaliar a estética própria. Demais disso, um dos grandes preceitos da vida em sociedade consiste em exercitar a cortesia. Contestar a estética dos circunstantes significa atingir o seu afeto, provocando mágoa e improfícua dissensão . O conceito de bom gosto, perifericamente, é sempre dinâmico e relativo, não é estático e absoluto – não obstante no cerne ele seja notório e apodítico. Há um elenco de itens de refinamento indiscutível, como as belas artes tradicionais, o beletrismo consag rado, as bebidas muito depuradas e curtidas, a música sinfônica, o teatro lírico, a culinária étnica preciosa, como a francesa e a japonesa, por exemplo. Entretanto, a permanente evolução cultural está sempre propondo novos padrões estéticos, muitas vezes revolucionários, e que costumam obter a adesão imediata de grupos mais jovens. Mas nem sempre se sustentam no abono das gerações seguintes e nem sempre ingressam no panteão da virtude cultural. O critério do bom gosto vai exigir dessas novas expressões aqu eles mesmos dotes que caracterizam as anteriores: inspiração, talento, originalidade, nobreza, elaboração... Pode-se dizer, analogicamente, que uma flor natural reúne todas as características do bom gosto, em sua beleza delicada, na efemeridade de seu adv ento, na sensualidade de sua função reprodutiva, no seu perfume essencial, na ciência de seu cultivo. Uma flor de plástico é o seu oposto, por mais formosa, colorida e duradoura.

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Mesmo assim , uma pessoa de bom gosto não tem jus de recusá-la, pois quem a oferece o faz porque, desafortunadamente, não conhece a riqueza estética dos jardins, porque a ela ainda não obteve acesso fácil. Na verdade, as pessoas são como objetos esculpidos na mesma matéria-prima, porém em variadas cores e formatos – e nessa analogia vão os aspectos físicos e morais. Falamos da aparência corporal e da personalidade, que são formadas pela genética, pela evolução intelectual, pelas conclusões filosóficas, pelas convicções ideológicas, pelos hábitos adquiridos, pelas experiências vida afora, fatores que determinam o gênero, a configuração fisionômica e a percepção estética do indivíduo. A “matéria-prima” não varia porque todos têm a mesma essência, inerente à condição humana: as dúvidas, os medos, as ânsias, as limitações físicas e as necessidades afetivas. A mesma origem biológica, as carências pueris na primeira infância, as descobertas e frustrações da puberdade, as rotinas fisiológicas, as doenças e as dores, as pulsões sexuais, a reprodução e, por fim, mais cedo ou mais tarde, a morte física. Curioso é notar que apesar dessa identidade essencial entre as pessoas, as variações “esculturais” que apresentam, acima aludidas – o gênero, a idade, a aparência física, a história de vida, a origem geográfica, o intelecto, o patrimônio, a posiçã o social – têm potencial para chamar atenção e causar atração, admiração, amizade, amor, de um indivíduo pelo outro. Os fatores da empatia apresentam a capacidade de levar um ser humano a ver em outro uma entidade especial, diferenciado dos demais, digno d e especial atenção e reverência, embora todos sejam subliminarmente conscientes de que as pessoas são ontologicamente idênticas, legatárias do mesmo drama existencial, que é comum à humanidade.

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FATORES DA EMPATIA a) Beleza física , que causa a presunção subj etiva de gratificação pela sensualidade. Leva à paixão, ao namoro, ao coito, ao estupro e ao casamento. b) Ancoragem vivencial , que identifica os indivíduos pela memória afetiva, pelo saudosismo, pela longa convivência, pelo compartilhamento, comum entre colegas, velhos amigos, parentes, familiares. c) Posição sociopolítica ou econômica , que move o glamour e inspira reverência pelos mais notórios ou mais ricos, na presunção inconsciente de transferência de patrimônio, de prestígio, de segurança social. d) Carisma mitológico, emanado pelo líder, pelo ídolo, pelo mestre, pelo caudilho, pelo amo. É a veneração hipnótica pelo mito, a reverência hierárquica exacerbada, o culto à imagem e à personalidade, a idealização da celebridade e a adoração do pedestal. e) Devoção mística, que produz presunção íntima de contado divino, de gratificação espiritual, de solução filosófica, de sortilégios e de revelação transcendental. Leva à glorificação esotérica, ao endeusamento, à louvação, ao comportamento sequaz. f) Manancial cognitiv o, que presume gratificação intelectual. Produz reverência aos pensadores, aos sábios, aos expertos, aos doutos, aos experientes.

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g) Fecundidade lírica , que induz gratificação estética, stricto sensu, provocando reverência por quem detenha o fenômeno lírico , domine o mistério da beleza artística, manifeste estro poético, tenha produção literária, exerça criação plástica e musical que cause enlevo. h) Condição etária , fonte do sentimento de enternecimento que destaca o muito jovem e o muito idoso, ou que identi fica os de uma mesma geração. i) Conterraneidade, que identifica os indivíduos pela origem geográfica comum, pelo amor ao local de domicílio, pela mesma pátria ou vizinhança. j) Exotismo, seja étnico, seja físico, que atrai pelo aspecto corporal diferenciado, pela raça incomum, pela origem distante, pela cultura estranha, pela indumentária curiosa. Produz gratificação cultural, xenofilia natural, valoração antropológica. k) Potencial malignidade, que produz subserviência aos poderosos e perversos, pela reverência ao poder, na direção da sublimação do medo, da estabilidade emocional pela anti -insegurança, e que explica a chamada Síndrome de Estocolmo.

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A IMPORTÂNCIA DA PALAVRA

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ma profunda indagação povoa o pensamento dos filósofos: de onde vêm a autoconsciência humana, a condição de gente, a percepção da pessoa, a inteligência, a racionalidade, a concepção da alma, os sentimentos nobres, que nos fazem superiores – enquanto fisicamente somos bichos? O que será que nos distingue dos ou tros animais, sendo merecedores de dotes psíquicos, de poder intelectual, da intuição do espírito, da revelação de Deus, se continuamos, como os outros seres do reino animal, sob a égide das limitações orgânicas e dos comandos instintivos? Essa dúvida tem levado às mais variadas teorias, desde aquela que nos diz especiais filhos de Deus, até aquela outra segundo a qual seríamos híbridos de algum povo inteligente do Universo, que em priscas eras teria visitado a Terra, fecundado hominídeos e voltado ao espaço. E enquanto se especula sobre as causas da inteligência humana, passa despercebido o fato de que na própria faculdade de especular está a resposta pretendida: a palavra é a causa de tudo. A palavra, ou o verbo, ou a capacidade de comunicação do pensament o, mais propriamente, é geralmente tida como efeito da inteligência, quando na verdade é o contrário. O homem não se comunica porque pensa; ele pensa porque pode se comunicar com o próprio ser, porque dialoga consigo mesmo, e assim aperfeiçoou linguagens mais refinadas para compartilhar a cerebração. Essa é a sede do livre arbítrio, da culpa, da contrição, da prece, do juízo de valor, da responsabilidade. Isso não responde à questão sobre o porquê ontológico mais profundo, mas faz recuar a dúvida até a certeza absoluta de que a palavra é o dom supremo. Foi através dela que saímos do rés natural e fizemos a

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evolução ideológica, intelectual, filosófica, espiritual, científica. É por causa da palavra que nos distinguimos como animais superiores. A capacidade de apreender mensagens, de memorizá-las, de dizê-las, de registrá -las, portanto, tem íntima relação com a consciência, com a racionalidade, com a personalidade, com o grande mistério da existência. Assim sendo, cumpre dar à palavra a reverência merecida: falar com parcimônia, com precisão, com eficiência, com habilidade ; nem de mais, nem de menos; falar com franqueza delicada, pois a comunicação rude nada aproveita – essa é uma conclusão inteligente. A palavra é um instrumento utilitário, e não um fluxo inconsequente, a ser desferido de forma casual e aleatória. Ela tem sabor, cor e odor. Um exemplo pueril e fabular ilustra bem a importância da fala, da palavra, da comunicação: ninguém jamais se peja em matar uma formiga, ou várias, ou muitas, neste último caso envenenando o formigueiro. Ato banal, até desejável, tendo em vista o incômodo que tal inseto costuma causar à humanidade. Todavia, tudo mudaria se, ameaçada , a formiga articulasse razões humanitárias para a sua sobrevivência. Imagine -se que o pequeno ser se voltasse para seu algoz e lhe pedisse clemência, dizendo -se provedor de família e clamando por justiça. Claro que muito provavelmente obteria a misericórdia do agressor, que só então veria nela a centelha de Deus que habita o homem. Tenha-se, portanto, consciência de que a comunicação é um dom divino, de que poder falar é um privilégio místico, de que ser entendido e acat ado pelo outro é uma sublime deferência. Faça -se, pois, dessa faculdade mágica uma prática solene, um ritual de amor cósmico, oportunidade para reverenciar a própria existência.

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A LUTA ESSENCIAL á referimos o solipcismo – aquela teoria segundo a qual somente o “eu” do indivíduo existiria realmente, sendo ilusória toda a realidade exterior. Em seguida , consideramos que, além do eu, é imperioso, mesmo ao solipcista, acreditar na necessidade inarredável de empreender luta diária, em prol da sobrevivência, para prevenir que o eu venha a ser aniquilado – o que já inclui a luta pela vida na realidade essencial. Assim, além do eu, pelo menos também a sua luta é absolutamente realista. Sem que se providenciem determinadas ações e inações imperiosas para a manut enção da integridade física pessoal, a existência se extingue. Se não procurar alimento, água potável, abrigo do sol e do intemperismo, a pessoa entra em óbito. Por outro lado, ela também morrerá se não contiver o último passo ante o abismo, não se abstiver de cruzar o tráfego intenso, se não evitar a torrente ou o fogo. Citamos acima situações básicas do existir, ad argumentandum , mas toda a operação do indivíduo sobre a Terra é para buscar mais vida e para evitar ou adiar o fim de sua existência. Quando estuda, quando trabalha, quando dirige, quando debate, quando adquire, quando transige, quando negocia, quando deflagra o conflito, quando defende a paixão , tudo o que o indivíduo consciente empreende ou renega compreende sua luta pela vida. Tratando da fel icidade filosófica, vimos falando quase sempre a partir da perspectiva abstrata do eu – as necessidades básicas atendidas, a ideologia, o afeto, a comunicação, o relacionamento, os compromissos, o destino, as realidades postas... Agora queremos enfocar out ra questão, apodítica, cartesiana,

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pragmática – mesmo para os minimalistas doutrinários. Falaremos sobre a concretude da luta essencial. Na luta essencial está entrevisto o enfrentamento das necessidades cotidianas, bem como a persecução dos haveres, a co nsecução de bens, a manutenção de patrimônio, a defesa de direitos, a proteção da esfera jurídica pessoal. Nela se subsum em o trabalho, o interesse material, o dinheiro, a renda, o capital. Nela se incluem também as relações erótico afetivas, que importam em concorrência, em aliança econômica, em compromisso, em interdependência material, esforço familiar, formação de prole, direitos sucessórios. Todos os dias o leão precisa correr mais que o antílope menos veloz, e o antílope precisa cor rer mais que o leão mais veloz, na luta de cada um para garanti r a própria sobrevivência. Esse esforço cotidiano do exemplo também é necessidade inerente a cada ser humano, para obtenção do mínimo fisiológico. Essa é a base da luta essencial. Na atualidade, entre as pessoas , a luta se trava em níveis mais altos – pelo mais, pelo melhor, pelo extra, pelo luxo, pelo conforto, pelo acúmulo, pela expectativa do futuro. São o porvir, a prole, a família que se quer precatar da penúria e do declínio social em tempos vindouros, quan do se procura enriquecer, quando se imobiliza capital. Modernamente, apenas os miseráveis e mendigos, os que enfrentam tragédias bélicas, climáticas, sismológicas, os que sofrem o pauperismo , somente esses conhecem a incerteza matinal do passadio. O gro sso da população civilizada atinge estabilidade financeira – emprego, renda fixa, ganho certo, atividade lucrativa, pensão, “cestas básicas”, benefícios sociais. Originalmente, a luta essencial é travada pelo mínimo fisiológico, pelo “pão de cada dia” a que já

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se refere a prece católica, cujo teor se atribui a Jesus Cristo, apelo que até parece banal para o homem civilizado, que somente conhece a fome em circunstâncias especiais – ou nas regiões mais inóspitas do planeta. Notar, entretanto, que no Portuga l antigo, para significar que alguém dependia de outrem, dizia -se que aquele vivia “às sopas” deste, pois na penúria da Europa medieval caldos ralos e cozidos aquosos eram o prato de resistência das famílias. De fato, desde as origens bíblicas, para os criacionistas – e desde os primeiros hominídeos, para os evolucionistas – nossos antepassados defrontaram a angústia diária de ter que obter alimento, além de abrigo contra o sol, contra o frio, contra o vento, contra os predadores naturais. Hoje a luta essencial é travada geralmente em prol de valores socioeconômicos mais complexos – o casamento, o mercado de emprego, os concursos públicos, a concorrência nos negócios, os embates políticos, o crescimento econômico, a disputa tecnológica, a luta de classes, a competição entre os países – tudo isso gerando a ambição e a perfídia, a cizânia e o ódio, a cupidez e a cobiça, o arrivismo e a usura, a avareza e o egoísmo. A vaidade física, o orgulho, a jactância, a desonestidade material e , por fim, a violência exacerbada são distorções decorrentes das imensas rivalidades sociais, das emulações monstruosas que as pessoas e os grupos estabelecem entre si, quando por muito mais modestos valores a luta essencial se justifica. Foi contra essa realidade que se insurgi ram os hippies, a peça teatral Hair, o musical Jesus Christ Superstar, o filme Laranja Mecânica, das décadas de 60 e 70 do século passado – no movimento que inspirou a libertária geração “paz e amor”, o qual tinha base na filosofia oriental, mas naufragou na lisérgica alienação psicodélica.

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Não vai aqui nenhuma queixa, censura ou protesto, mas apenas constatação utilitária. Não prosperaram os movimentos pacifistas – de Sidarta Gautama a Jesus Cristo, de Francisco de Assis a Mahatma Gandhi, dos beatniks aos puncs – porque o processo sociológico é inexorável, e por meio dele evoluem as ciências – a tecnologia, a medicina, a produção de alimentos – ressalvados os efeitos adversos que o progresso humano tem trazido ao meio ambiente e à paz social, que agora se agudizam, a carecer de cautela e correção. O enfoque mais lúcido sobre a luta essencial, na atualidade, é o seguinte: cada indivíduo precisa desenvolver uma habilidade própria, capaz de induzir a sociedade a lhe transferir, de bom grado, alguma pecúnia. A depender da utilidade desse serviço, ou da importância do produto que ele gere, ou da dificuldade intelectual que sua investidura imponha, ou da dimensão organizacional que esse trabalho venha a ter, essa remuneração poderá ser maior. Sendo ela elevada, maior conforto proporcionará ; sendo ela sobeja, acumular-se-á em patrimônio. Todavia, é preciso ter presente que, superadas aquelas necessidades previstas na estrutura metafísica – necessidades básicas atendidas; acesso a pequenos prazeres; engajamento e m atividade vocacional produtiva; dedicação a um ideal transcendente (intelectual, humanitário ou lúdico), tudo sobre boas bases afetivas – ficam postas as condições para a felicidade. Mas, se os bons fluxos financeiros melhor propiciam essas condições, as superiores riquezas econômicas as periclitam, porque importam em maiores tensões, na sedução dos excessos, no assédio dos mercenários, na perseguição dos invejosos – enfim, na temível espada de Dâmocles pairando sobre os poderosos, sustida apenas por um f io de crina de cavalo.

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A FÉ eria dito Montaigne: “O homem é um animal que crê”. Ao fazer essa assertiva, o pensador quinhentista francês certamente não excluía da condição humana os agnósticos nem os materialistas em geral. Apenas constatava que mes mo os pretensos incréus absolutos, em relação à dogmática religiosa, na verdade alimentam profundas crenças íntimas, que são inerentes à consciência, ao raciocínio, à humanidade. Um ser pensante que não tivesse fé alguma, para o suporte do seu próprio ser , não sairia da cama ao acordar pela manhã, e mesmo no recesso do leito quedaria apavorado o dia todo. A intuição lógica sobre os perigos que nos cercam, o conhecimento dos riscos que corremos a cada momento, nos colocaria em pânico permanente – não fosse a salutar ilusão de incolumidade que naturalmente sentimos, essencial à higidez psíquica dos indivíduos, que é uma forma de fé irracional intrínseca ao homem. Como se comenta no primeiro capítulo deste livro, o cosmo é um espaço infinito escuro e frio, absolutamente inóspito, e o Sol uma sáfara bola de fogo que gira no nada entre zilhões de outras estrelas e planetas. Conclui -se então que o caos, a noite, o nada e o mal são a regra, enquanto a Terra, o dia, a vida e o bem são as exceções. A existência de um pequeno astro paradisíaco como este, e da vida que medrou sobre ele, é um mero favor dos fluidos cósmicos – bem como a sobrevivência, a boa sorte, e a felicidade eventual de cada uma das pessoas que deambulam sobre ele. Assim, ao contrário do que imagi nam os agnósticos, o viver não é um direito absoluto do indivíduo, ditado por algum dogma matemático – muito

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menos o bem viver, com paz, saúde e êxito , é prerrogativa lógica garantida por alguma norma bonançosa do Universo. Não. A regra do cosmo é o nada. A regra da vida é o mal, até que a morte se imponha. O bem é tudo de bom que excepcionalmente ocorre ao homem – mas é também tudo de ruim que não lhe acontece , porque isso também é excepcional, pois nada que seja racional impede que o mal lhe aconteça a q ualquer hora. Então, sempre que o mal, que é sempre iminente, não acomete uma pessoa, ela está sendo efetivamente favorecida pela sorte – e não somente quando algo de bom lhe sobrevém. Sendo assim, indagamos: como não acreditarmos nos favores cósmicos que efetivamente nos sustêm a cada um? Ora, temos de crer na nossa sorte, não somente porque ela eventualmente nos gratifica com prazeres, mas porque nos mantém vivos e nos poupa de sofreres, em medida imperscrutável. Para simplesmente estarmos vivos, uma séri e de condições aleatórias nos está a favorecer imensamente. Se além de vivos somos lúcidos, livres, íntegros, lépidos, amados, felizes... temos de crer que forças anabólicas nos assistem. Sabendo-se que até o mais cauteloso pode ser alvo de um inf austo a cada instante – um mal súbito, o ataque de um facinoroso, um acidente de trânsito, um tiro aleatório, a descarga de um raio, o derruimento de um edifício – dentre tantos sinistros eventuais de que ninguém está a salvo, pergunta -se: em que se fia a pessoa absolutamente sem fé para enfrentar bravamente o dia a dia, a céu aberto, expor -se ao contágio de moléstias graves, arrojar-se no tráfego de veículos da cidade,...? Esplende agora que a absoluta falta de fé somente ocorre dentro de quadros patoló gicos, verificada nas pessoas acometidas de distimia, depressão mórbida, síndrome do pânico, ou em decorrência de crises que se seguem a traumas graves e estressantes.

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Até mesmo os ditos materialistas dialéticos, que negam a metafísica, têm na sua doutrina filosófica pessoal sua profissão de fé, que neles toma viés afetivo, converte-se em valor religioso e ganha força mística em seu espírito, mesmo sem admitirem eles a existência de espectros vivos dimanando sortilégios, nem a ação tutorial de entes mágico s. Uma das muitas rosas carinhosamente lançadas sobre o Papa por fiéis, acidentalmente pisoteada pelo Sumo Pontífice, e em seguida recolhida por um outro beato, que cuidadosamente a ressecou, encontra -se há trinta anos no santuário de uma devota católica, que lhe atribui santas virtudes. Pois bem... Um velho militante comunista brasileiro, que por sua ação revolucionária foi preso e torturado no passado, há décadas guarda, com zelo e veneração, uma comenda de honra ao mérito que lhe outorgou a distância o governo soviético, objeto que, portanto, foi concebido e manuseado por seus grandes ídolos políticos. Pois aquela rosa e essa medalha são dotadas do mesmo simbolismo fideísta para cada um dos detentores, embora ela só acredite em Deus, e ele somente creia no marxismo ideológico. Ambos os personagens sabem que um dia morrerão, e têm absoluta consciência de que isso pode acontecer a qualquer hora, mas ambos confiam firmemente que não morrerão agora, nem tão cedo, e de resto se comportam como se jamais fossem morrer. Aliás, mesmo na hipótese de perceberem grande perigo atual a lhes sugerir morte iminente, um segundo antes de expirar, no íntimo da alma as duas pessoas do exemplo ainda vão acreditar que escaparão a esse destino. Talvez socorra a senhora cristã nesse momento a humilde crença em Deus, enquanto ele, quem sabe, se estribe na força arrogante do ideal – duas formas de fé irracional que buscam no desespero achar razão.

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De tudo isso se conclui, independentemente de específica convicção religiosa, que te r fé é essencial, e a fé é atributo inarredável da mente sadia, para que receios racionais sejam afastados e uma confiança difusa na sorte encoraje o enfrentamento dos riscos inerentes à existência. Essa fé básica pode entrar em recessão no psiquismo de uma pessoa acometida por uma das formas de patologia do humor, como também daquele que vivencie uma experiência traumática muito aguda. Milhões de pessoas atravessam a vida sem sofrer grandes desgraças; mas alguém que sobreviva a um acidente aviatório, a uma escaramuça bélica, a um evento sísmico, a uma tragédia climática, pode perder a confiança em sua sorte, e passar a se sentir constantemente inseguro e vulnerável. Tendo ele vivenciado pessoalmente uma fatalidade casual, nenhum argumento filosófico, lógic o ou estatístico poderá demovê -lo da sensação de iminência do perigo a que de fato vive exposto. De modo inverso, aquela fé básica comum a todo ser pensante hígido, e que é irracional e inconsciente, pode, sim, ser dotada de racionalidade e consciência, ao ser incrementada pelo culto místico e pela crença em uma justiça divina, que proporcionam estoicismo e resiliência moral, fonte de conforto psíquico, que significa paz de espírito e maior felicidade. Enfim, cultuar a fé racional, por meio de uma profissão religiosa, de um preito metafísico, de uma devoção ideológica transcendente, pode ser um modo inteligente de cultuar a felicidade, não significando fragilidade moral ou inconsistência filosófica, como alguns querem entender – desde que nas sensatas medida s limítrofes entre o remédio e o veneno. Adesão cega a grupos fanáticos, sectarismo, ascetismo exagerado, mortificações rituais, alienação religiosa, nada disso se insere no sábio preceito aqui exposto.

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A PAZ

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azem pouco sentido os movimentos pela paz, os apelos populares , as passeatas brancas, porque a paz nunca é iniciativa dos justos , mas conseqüência do equilíbrio moral destes, e do controle compulsório dos cretinos. Ao longo da vida em sociedade, a paz não é ato, mas potência, que , uma vez alcançada, “é sempre por um triz” – para lembrar Chico Buarque. A paz é a ausência de conflito s, e os conflitos decorrem das muitas tensões essenciais. O que aproveita pedir aos traficantes que não atirem na polícia, e vice-versa, se o confronto se instala ? Ou suplicar aos assaltantes que não roubem suas vítimas? Acaso adiantaria rogar ao leão que n ão ataque o búfalo, se este é o seu alimento, ou instar o búfalo para que não ataque o seu predador? Claro que seria inútil fazê-lo. Enfim, excluído o exemplo da s lutas cruéis na natureza, dentro da cadeia alimentar, que a civilização já superou e os facinorosos repristinam, a paz das pessoas e dos grupos racionais é quebrada ao romper de hostilidades, que se dá pelo seguinte processo : a) a iniciativa iníqua dos insensa tos, os quais convertem sua energia sexual instintiva em ânsias de maior poder social e em atos pela conquista de privilégios em geral, b) a conseqüente indignação dos oprimidos, os quais reagem em defesa de seu patrimônio , seja de cunho material , seja de cunho moral, legitimamente adquirido . Os instintos naturais que impulsionam os animais em geral, seja para a obtenção das condições essenciais à sobrevivência, seja para garantir a

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perpetuação geracional de sua espécie, pulsões desvirtuadas ou sublimad as pelo ser evoluído, que não mais precisa delas , são convertidas em sentimentos nefastos de ambição, de vaidade, de emulação, de concupiscência, de usura, de apropriação . Sendo assim, a paz é sempre circunstância pontual, obtida aqui e ali pelos esforços do irenismo, pelo equilíbrio ético advindo de certos pactos de interesses, na configuração da bendita paz cristã. Mas se pode ainda obter a paz manu militari por meio da coerção jurídica, da sujeição moral dos mais fracos, pela contenç ão dos menos numerosos – e aqui encontramos o conceito do que se tem chamado “pax romana”. Os esforços conceituais feitos acima restam simplórios, pois na verdade a almejada paz cristã encontra limites circunstanciais incontornáveis. Tomemos como exemplo o pomo clássico, e imagi nemos que, de dois indivíduos , cada um tenha para si uma maçã. Enquanto cada um deles se conformar com essa igualdade teremos então estabelecida a melhor paz. Mas pode ocorrer que um dos dois sujeitos do exemplo, por uma daquelas compulsões animais supracitadas, passe a desejar ter para si mais do que tem, e então tente conquistar a maçã alheia. Nessa nova hipótese, a primeira fase do processo conflituoso entra em curso. Haverá, por conseguinte, um opressor e um oprimido, que medirão forças, fazendo eclodir a violência. É forçoso deduzir que o mais forte ven ça a luta e adquira a segunda maçã para o seu prol, ou parte dela, e como de regra ocorre, pela lógica da guerra, essa aquisição do vencedor se legitima. Tem ainda acontecido que o vencedor da contenda resolva aproveitar para si maça e meia tãosomente, e então, até para estabelecer mais fácil controle

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do oponente, abandone a ele a outra metade. Se, reconhecendo a derrota, o perdedor aceitar como prêmio de consolação a ração menor, eis a paz romana. Dar-se-á também alguma vez que um dos dois proprietários das maçãs íntegras , dono de espírito humanitário mais evoluído, admita que o outro merece maçã e meia, quem sabe por lhe reconhecer o mérito de ter cultivado a macieira, e por isso espontaneamente lhe conceda um quinhão maior da fruta, tendo em vista, inclusive, que meia maç ã, nesta hipótese, o satisfaça. Novamente, no exemplo presente, a paz cristã. Essa simbólica maçã representa aqui os bens da vida – a liderança, o comando, o poder, o patrimônio, a renda, o amante, o cargo, o título – e os conflitos que ela suscita (seja na forma de guerrilha, combate sangrento ou guerra fria ), podem surgir no casamento, no condomínio, na família, na escola, nos negócios, na empresa, na política, entre os países. Pessoas e instituições precisam cumprir e fazer cumprir as leis, bem como reclamar sempre, e sempre por meios idôneos, seus direitos legítimos, pois “paz sem voz, não é paz, é medo” – segundo expressão feliz do compositor Marcelo Yuka. Combater a injustiça , a ilicitude e a impunidade seria, portanto – em vez de pedir clemência aos agressores – a forma correta de impor a paz romana. Na outra ponta, procurar não oprimir quem quer que seja, dar “a Cesar o que é de Cesar, e a Deus o que é de Deus”, para que se cump ra, pelo menos na dimensão individual, a paz cristã. Ceder graciosamente a parte da maçã que lhe sobeje, reconhecer o direito alheio, ser solidário aos bons , compreensivo com os tol os e tolerante com os menores. Em suma, embora a paz social, como a felicid ade, não possa ser entendida como um estado constante, deve ser perseguida pelo indivíduo, para que ele alcance e mantenha a paz de espírito.

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AS DORES DO MUNDO m “enlatado” da cinematografia americana, sem nenhuma pretensão filosófica maior, adequad o às seções da tarde, fala de um negro gigante, médium sensitivo, injustamente preso e condenado à morte, que prefere enfrentar a execução na cadeira elétrica a aceitar evadir-se, segundo a oferta que lhe faz a comunidade carcerária, inclusive o diretor da prisão, todos cônscios de sua inocência e testemunhas de sua bondade. O filme trata de um tema muito sensível, qual seja a dificuldade humanitária de lidar com as dores do mundo, que todas as pessoas psiquicamente sadias enfrentam, sempre que deparam o agudo sofrimento alheio, ou quando apenas se detêm a respeito, no âmbito das lucubrações emocionais. É especificamente o caso dos presos e guardas prisionais que se associam de forma empática para proteger o negro místico, solidários à sua dor, prontos para livrá-lo da injustiça. Mas aquela película dramatúrgica enfoca também outro fenômeno especial, que ao nosso estudo é mais pertinente, entrevisto na razão pela qual aquele bruxo negro quer morrer, declinando da oferta de livrar se solto, às vésperas da su a inevitável execução. É o próprio personagem que diz em meio ao pranto: ele prefere assim, porque não suporta mais testemunhar as dores do mundo. A menina estuprada que quando ele tenta salvar é confundido com o agressor, a mulher cancerosa, em estado terminal, que ele consegue curar com seus eflúvios, e o rato de estimação de outro preso, que ele ressuscita, esmagado que fora o roedor pela bota perversa de um terceiro personagem, são esses os símbolos de todas as dores referidas por ele: as dores do mund o que ele não pode reverter.

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O drama existencial que vive aquele presidiário do cinema atormenta muita gente na vida real, o que faz da criação do personagem uma inspiração gentil do autor da história. Há pessoas que não podem ir à Alemanha porque não supo rtam pensar no Holocausto. Há ainda os que se tornam vegetarianos, mortificados pelo suplício dantesco dos animais nos matadouros. Há também os que saem às ruas resgatando gatos vadios e cães leprosos, inconformados com a sua sorte vagabunda. Os que se dedicam às tartarugas, aos elefantes, às baleias, aos gorilas, aos micos-leões, todos animais mortalmente vitimados pela sanha do homem e do progresso. Mas há os que se revoltam especificamente contra a riqueza material, contra todo luxo, todo fausto, todo privilégio pessoal que a sorte traga a qualquer um, meritório ou não, pelo contraste com a miséria, o pauperismo, a penúria, a desgraça humana que se observa mundo afora. Es te é precisamente o sentimento motor do ativismo ideológico, do socialismo radical, da angústia política das pastorais religiosas: é preciso libertar os tristes, levantar os pobres, agitar bandeiras, ensarilhar armas, confrontar governos, converter nações, salvar o mundo, nivelando todos em um mesmo destino moderado. As dores do mundo exi stem mesmo, a iniquidade graça de fato, o sofrimento realmente é imenso nos guetos imundos, nos campos e cidades, oceanos e florestas. Há sofrimento e morte horrenda, crime e injustiça, miséria e escravidão, prostituição e doença, humilhação e tristeza, gu erras e pobreza em toda parte. A propósito disso, há duas verdades urgentes, portentosas, irrefutáveis, no entanto distintas e mesmo antagônicas, que todo homem sábio precisa assimilar e compreender:

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a) é necessário combater as dores do mundo, no limite extremo das forças sociais, legítimas e lícitas, que cada um possa alcançar; b) as dores do mundo são da essência d o Universo, da mecânica da vida, imperativo ontológico, posto devam ser sempre combatidas pelas pessoas virtuosas – não obstante, impende tenha-se plena consciência de que nem todas as dores podem ser sempre eliminadas. Quem assim não entender – ainda que conseguisse curar moribundos e ressuscitar mortos – como o choroso mago negro do filme – vai terminar penetrando na roda fatídica em busca d e sua utopia, para produzir dores maiores e diversas das que imaginou poder elidir – muito antes de concluir que não resiste à triste sorte do mundo, e decidir afinal que só a morte o salvará do seu sofrido e honroso inconformismo – como fez aquele primoroso personagem do cinema. Dissemos acima, como a primeira verdade que ressuma da constatação inarredável de que as misérias da vida são imensas e inúmeras, que “é necessário combater as dores do mundo, no limite extremo das forças sociais, legítimas e lícit as, que cada um possa alcançar”. Essas forças sociais que cada um alcança de forma lícita e legítima, as quais deve usar no combate ao sofrimento universal, são a família, a profissão, a Igreja, a empresa, o clube de serviço, a ONG, o sindicato, o partido político, a imprensa, a Justiça, enfim, todos os mecanismos pelos quais se possa interferir na sociedade, com resultado mais ou menos efetivo, conforme a sorte, a capacidade, o esforço e a vocação de cada qual. Aqui é forçoso voltar à banal e repetida metáfora do colibri que leva no bico a gota d’água para lançar sobre o incêndio na floresta, cumprindo seu dever

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pessoal, independentemente da ineficiência prática da medida. Trata-se de um exemplo perfeito do que deve fazer o cidadão em sua própria esfera de atuação e de influência, evitando a inação pessimista ou a ebulição emocional desesperada diante de sua aparente impotência e real limitação. Fazer o que pode para melhorar a realidade, aceitar o que não pode alterar, distinguir uma coisa da outra com sabedoria e precisão. Enfim, jamais se comover excessivamente com os fatos sobre os quais não tem controle – eis sapientíssimas decisão e atitude.

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SOBRE A MORTE

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fato de que morreremos um dia é infrarreal. É, portanto, absolutamente real, tem importância filosófica, mas não interessa à existência, porque não aconteceu. O fato de que não morremos ainda é mesorreal, e, obviamente, é o que mais importa ao existir. O fato de que não morreremos de fato quando vier a falência física, porque nada no Universo se aniquila, mas apenas se transforma, esse é um fato suprarreal, mais difícil de conceber, porém sem grande importância imediata. Enfim, para quem morre , a morte não é nada – rigorosamente nada. A morte é dolorosa p ara quem não morreu ainda, e fica exposto ao sofrimento, ao sentimento de perda, à dor da separação. Quem morre – não importa se o espírito sobrevive, se renasce ou se se difunde no éter – quem morre não se vai precipitar em sofrimento. O sofrimento, de q ualquer ordem, é inerente à vida, porque tanto as dores físicas quan to as ansiedades e frustrações morais pertencem ao corpo. Quem não tenha que competir por alimento, nem ansiar por sexo, nem decidir o melhor caminho, nem se consumir perante o erro, nada tem a sofrer, e nada precisa temer. A morte, para quem morre, é a antítese da agonia. Toda a dor possível está na vida, entrevista inclusive no medo fátuo de morrer. Portanto, nesse particular, a única realidade que interessa é a mediana: não morremos aind a! Façamos ainda uma alegoria sobre a morte. Imaginemos que Deus seja um oceano de amor, e que cada uma das pessoas sejamos gotas de Deus. Se somos gotas de Deus, nós somos parcelas de Deus, assim como uma gota do oceano, não sendo completamente o oceano, tem a sua composição.

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Somos gotas desse mar – umas maiores, outras menores, mais poluídas ou mais puras – mas todos nós um dia voltaremos, cada um por vez, a compor aquele manancial divino. Não importa quanto tempo isso demore. Um dia, certamente depois da morte, nos reintegraremos ao Oceano Absoluto. E tudo então voltará a ser apenas paz e harmonia.

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A PARCIALIDADE DA MORTE

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iz-se que o advento da pessoa se dá a partir do seu nascimento com vida. Todavia, a despeito desse conceito jurídico, na prática o recém -nado ainda não adquiriu a sua personalidade por inteiro, do ponto de vista social. A criancinha já tem o código genético que lhe norteará as características, tanto físicas quanto psíquicas; já tem definido seu tipo san guíneo e papilas digitais próprias; já se lhe distinguem certos aspectos descritíveis. Ser-lhe-ão notados de viso, por exemplo, o sexo, o tom da pele, certas proporções corporais, sinais particulares, a fisionomia, o tipo de cabelo e a cor dos olhos, que, com o tempo, podem sofrer alterações. Neonatologistas podem ainda apontar outros detalhes, de cunho médico, que venham a se destacar na nova pessoa, entre suas marcas singulares. Porém o indivíduo adulto é mais complexo, e é nessa complexidade maior que se vai fundar o seu caráter, sendo exatamente esse caráter que pode sobreviver à morte física. O corpo de quem morre se desfaz, mas alguma coisa de sua personalidade sobrevive. Seu nome, seu rosto, seu timbre de voz, seus modos, seus hábitos, seu humor, seu temperamento, seu odor particular, todos esses traços pessoais permanecem imorredouros e incorruptos na memória dos seus íntimos. A iconografia familiar e jornalística a seu respeito se presta a estender a existência do morto, no tempo e no espaço, entre o s seus afetos e para futuras gerações. Mas o cabedal de informaç ões culturais que ele haja reunido, as id eias particulares que esses conhecimentos tenham originado, sua atitude diante da vida, suas convicções religiosas, sua eventual produção

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artística, su as preferências, seus registros intelectuais, enfim, a história biográfica do morto – tudo isso terá um condão vivificante, para além de sua morte. A projeção existencial do indivíduo para além da morte pode se dar em níveis diversos. O primeiro deles é o âmbito afetivo, a família, os amigos. Esse nível de sobrevivência virtual é limitado no tempo, mas é o de maior interesse presuntivo daquele que morreu, porque nessas pessoas que o rememoram ele terá feito o seu grande investimento sentimental, ao longo d a vida. Um segundo nível é a celebridade, que projeta a pessoa para fora do seu círculo pessoal, em futuro ilimitado. Presume méritos do morto, mas não os garante por si sós, pois é sabido que muitos dos famosos adquirem notoriedade por feitos alheios, em que tiveram participação coadjuvante. De outras vezes , a glória advém de despotismo e violência, ou de atos menores que hajam propiciado oportunismo histórico. Distorções nessa área são recorrentes , e o renome mítico é muitas vezes postumamente destruído. Ademais, as estátuas e os logradouros com antropônimos mais aproveitam aos pombos, já que as placas de bronze nem sempre remetem ao universo psíquico que o homenageado tinha em vida – a menos que este tivesse especial fixação pelo aplauso póstumo. Essas homenagens podem servir aos descendentes, no seu orgulho genético, na sua vaidade social – muitas vezes até evidenciando declínio da família, quando esta regride e empobrece sobre os louros do passado, quando não realça o valor presumivelmente latente em se us membros atuais. O que se quer significar especificamente é que a morte da personalidade é parcial. Ela é sempre gradual, pelo menos até que se extinga todo o círculo afetivo do morto, e pode não se consumar inteiramente

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até que seja superado e esquecido todo o seu legado antropológico e etnográfico. A prole, as escolhas, as iniciativas, os acertos, os erros, os exemplos de vida, a experiência, os grandes sofrimentos, o anedotário criado, a obra social, a produção intelectual, o histórico pessoal, enfim, tudo isso permanece e sobrevive longamente – embora a convivência se interrompa, a ausência física se instale, a separação pessoal se imponha, a energia tátil se dissipe, a usina do caráter estanque e silencie subitamente. Estão sociologicamente vivos o sábio Aristóteles e o bárbaro Gengis Kan, bem como Gandhi e Hitler, assim também, entre nós, o Cangaceiro Lampião e o Padre Cícero. Por outro lado, em escala restrita, os pais de cada um de nós viverão sempre, lastreando as bases do nosso ser, e através de les os nossos avós, cujos traços repassaremos à nossa progênie em alguma medida.

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A PÍLULA

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udo que será dito agora está diluído nos demais capítulos deste livro. O que vem a seguir são a síntese, a essência, o substrato, o “princípio a tivo” comprimido, a pílula em que se contém concentrada a conclusão absoluta dessa nossa conjectura sobre a vida, mais propriamente sobre a rota filosófica para se chegar à felicidade real no labirinto da existência. O grande segredo é obter contentamento íntimo pelo maior tempo possível, de forma tão intensa e tão estável quanto a sabedoria recomende. A ilusão terrível e recorrente reside em situar a felicidade pessoal em falsas metas psíquicas, sempre fugidias como a linha do horizonte, ou em metas materiais fixas, vistosas e atraentes, arduamente perseguidas e que uma vez alcançadas se revelem poços de ansiedade e frustração. Colimar objetivos seria então desaconselhado para que se possa ser feliz? Absolutamente não! Há preceitos místicos segundo os q uais a completa ausência de desejos seja o caminho para a absoluta paz de espírito, para a libertação plena de todo anseio e sofrimento. Há ascetas e anacoretas no Oriente e no Ocidente que adotam a anulação da vontade e a negação dos prazeres em troca do êxtase moral. Essa é a opção dos franciscanos, por exemplo, que abandonam aquela maromba de pesos entrevista na configuração simbólica do Homem Vitruviano Metafísico, e prostram -se genuflexos, suportando os desígnios do destino com mais leveza – sem família, sem amigos, sem profissão, sem nada que possa atrair angústias maiores. No Oriente, os monges budistas seguem a mesma vertente anímica e prática, para cruzar as penas em posição de lótus e ficar

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contemplativos, concentrados em vislumbrar o nirvana, na profundeza prazenteira de sua meditação. Porém, o desiderato do presente estudo é saber como encarar com galhardia psíquica o desafio representado pelas tribulações da vida mundana, a que todos estamos expostos. Essas tribulações estão compreendidas no rel acionamento conjugal, na constituição de família, na construção de uma carreira profissional, na obtenção de status social, na busca e proteção de patrimônio, na formação de filhos, na defesa de ideias e de bandeiras, ideológicas e políticas – considerados todos os esforços e perdas dolorosas envolvidos no processo. Oração sapientíssima, de autoria controvertida, eleva a Deus uma súplica tríplice: serenidade, para suportar o inevitável; disposição, para alterar o que for passível de melhora; inteligência, p ara distinguir uma coisa da outra. Es ta é de fato a chave mestra para o dilema entre a ação do indivíduo e a resposta do destino : manter o ânimo para a luta essencial, apesar das limitações da sorte – limitações essas previamente reconhecidas e serenamente suportadas. Em vez de evitar ansiedade e frustração , recorrendo à inação e ao alheamento, como fazem os monges, agir energicamente, lutar com denodo, participar, empreender, reagir, todavia cônscio de que a pessoa opera sempre nos estritos limites que o fadário permitir. Essa é a fórmula mágica para evitar o sofrimento íntimo e manter a felicidade, sob o anteparo filosófico da resignação e da modéstia. O fato de que estamos permanentemente a mercê do destino imperscrutável é uma obviedade teórica, mas apr esenta um grau de dificuldade enorme para a sua aceitação prática. Então é necessário querer e buscar intensamente, amar de maneira febril, afeiçoar -se ao

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prazer lícito e à virtude com fervor, desfrutar os bons momentos com gana e apetite – entretanto, tendo sempre presente que uma vontade maior comanda os fatos, que a vida é fugaz, que a qualquer instante o caos se pode instalar; e que então será mister acatar os desígnios novos, com estoicismo e quietude. O que dizemos – voltando à configuração gráfica do Homem Vitruviano Metafísico – é que uma vez estando hirta a estrutura psíquica, o peso a ser suportado na maromba depende em parte dos caprichos do acaso, que podem, aqui e ali, ser mais severos ou mais gentis. Mas também depende da atitude filosófica do indivíduo, que, em sendo sábio, evitará traumas maiores. Fato é que apenas o esforço reduz um drama, mas até o pensamento o agudiza. Fica aqui resolvida essa questão fulcral referente à lida de cada um com o seu destino, a consciência de que existe um intuito exterior e superior à pessoa que dirige a sua sorte, dando aleatoriamente mais carga ou menos carga naquela maromba de pesos do desenho explicativo. Fica patente também que a fortuna não é somente o bem que se obtém, mas também o mal que não se sofre, e de que é preciso lutar fisicamente por melhorias, mas psiquicamente conformado com o que já se conseguiu e já se tem – ginástica mental difícil, contraditória, paradoxal, que exige compleiç ão e resiliência filosófic as. Em outras palavras, procura-se encher o copo inteiramente, mas qualquer quantidade de vinho que haja nele já significa progresso, e, uma vez meado, ele já está meio cheio – e não meio vazio. Enfim, impende entender que os objetivos perseguidos são na verdade as finalidades secundárias, por que a persecução dos nossos desideratos é na verdade a essência do viver, pois se vive lutando, e não sentado sobre os louros das vitórias.

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Vamos agora condensar em poucas linhas as condutas práticas que se devem tomar para manter hirta a estrutura metafísica do ser, de modo que ela sustente bem todo o estresse do destino, condição mínima para garantir a felicidade. a) Primeiro, garanta-se situação qualquer que mantenha seguramente o passadio, o atendimento estável ao mínimo fisiológico, a subsistência pes soal continuada, no presente e no futuro. Se possível de forma sobeja, mas não necessariamente. Não se pode ser feliz na indigência; b) Segundo, envolva-se afetivamente com as pessoas circunstantes, amando de forma franca e conquistando amor sincero, no maior espectro possível, na família e na sociedade como um todo . Não é possível ser feliz envolto em ódio ou mesmo sofrendo indiferença e ostracismo, mesmo que materialmente afortunado ; c) Terceiro, assuma-se uma atividade produtiva qualquer que dê prazer, por exercício da vocação, em casa ou fora dela, e que preferivelmente possa render contraprestação digna para corresponder ao seu esforço. No ócio , ou em profissão que se deplore, ninguém pode ser feliz , ainda que bem remunerado ; d) Quarto, adote-se um ideal, uma boa causa, um hobby, apaixone -se por ele, lute por ele, se possível associado com quem compartilhe o sentimento. Uma igreja, uma torcida, um partido, uma coleção de objetos . Se nada parecer apaixonante, assuma -se o altruísmo e a caridade. A felicidade exige que se seja útil ao coletivo. e) Quinto, proporcione-se a si mesmo, com regularidade e moderação, pequenos prazeres, recreações singelas, atividades cuja única finalidade seja lúdica. Sexo, música, festa, sem nada disso não se pode ser feliz .

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DESIDERATA Siga tranquilamente entre a inquietude e a pressa, lembrando-se de que há sempre paz no silêncio. Tanto quanto possível sem se humilhar, viva em harmoni a com todos os que o cercam. Fale a sua verdade mansa e claramente e ouça a dos outros, mesmo a dos insensatos e ignorantes, pois eles também têm sua própria história. Evite as pessoas agressivas e transtornadas; elas afligem o nosso espírito. Se você se comparar com os outros, tornar -se-á presunçoso e magoado, pois haverá se mpre alguém superior e alguém inferior a você. Você é filho do Universo, irmão das estrelas e das árvores. Você merece estar aqui. E mesmo sem você perceber, a Terra e o Universo vão cumprindo o seu destino. Viva intensamente o que já pode realizar. Mant enha-se interessado em seu trabalho, ainda que humilde; ele é o que de real existe ao longo do tempo. Seja cauteloso nos negócios, porque o mundo está cheio de astúcia; mas não caia na descrença; a virtude sempre existirá. Muita gente luta por altos idea is, e em toda parte a vida está cheia de heroísmo.

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Seja você mesmo. Prin cipalmente não simule afeição, nem seja descrente no amor, porque mesmo diante de tanta aridez e desencanto, ele é tão perene quanto a relva. Aceite com carinho o conselho dos mais v elhos, mas também seja compreensivo com os impulsos inovadores da juventude. Alimente a força do espírito, que o protegerá no infortúnio inesperado; mas não se desespere com perigos imaginários. Muitos temores nascem do cansaço e da solidão, e a despeito de uma disciplina rigorosa, seja gentil consigo mesmo. Portanto, esteja em paz com Deus, como quer que você o conceba. E quaisquer que sejam os seus trabalhos e aspirações na fatigante jornada pela vida, mantenha -se em paz com sua própria alma. Acima da falsidade, dos desencantos e agruras, o mundo ainda é bonito. Seja prudente. Faça tudo para ser feliz.

A DESIDERATA É UMA INSCRIÇÃO DATADA DE 1684, DE AUTOR ANÔNIMO, ENCONTRADA EM 1962 NA PAREDE DA IGREJA DE SAINT -PAUL, EM BALTIMORE, EUA. ES SA TRADUÇÃO É DE GEHUD BORTOLOZZY.

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