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abril de 2010 www.arauto.info circulação em Salto e Itu distribuição gratuita O Jornal O Arauto é uma publicação da Faculdade de Comunicação e Artes do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio - CEUNSP

Nº 14

Olhar diante do

CAOS

1) Jovem jornalista conta como foi sua primeira grande cobertura: a enchente que arrasou Capivari.

2) Militar brasileiro da Força de Paz da Onu relata o que viveu no Haiti, antes e pós terremoto.

giram tantos n ti a to n e m ti e rom nergia e comp o de um clipe çã a v ra g a i Nunca tanta e fo mo tempo: Veja co A. co u o p o tã m e pessoal da FC lo e p o it fe m lage musical de dub

Veja no Jornal do CEUNSP:

TV CELA Detentas da cadeia de Votorantim/SP pautam, entrevistam e produzem um programa de TV no qual podem mostrar sua visão do mundo.

Trem republicano

pág.10

Morreu o cartunista Glauco, mas seus traços seguem vivos

pág.15

Que tal a luz solar como fonte de alimento?

pág.14

pág.10

A vacinação contra a Gripe A

André Tim

pág.06

ex / O Ara

uto

Embarque na “Maria Fumaça” que irá ligar Itu e Salto. Projeto de Turismo saiu de Trabalho de Conclusão de Curso de formandos do CEUNSP.

Pouco pano

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Estudante de Moda confeccionou biquínis para concurso da Lycra e foi selecionado entre mais de mil concorrentes.

Fotos: Lincoln Franco e Caio Cézar Parissoto

(em duas partes)


DA MESA DO REDATOR Se a natureza é (todos sabem...) sábia, quem sou para não permitir maturação nos processos que envolvem a comunicação da FCA? Esse é o motivo deste O Arauto ter demorado um pouco mais (alguns dias) para ser lançado. Tínhamos a edição pronta quando fomos obrigados a nos reorganizar e reestruturar a equipe que faz o jornal.

Primeiro, o comunicólogo responsável pelo planejamento gráfico – e estampa – de O Arauto, o professor Murilo Santos, precisava reorganizar as tarefas na instituição. O trabalho dele mescla o envolvimento com o jornal, as atividades pedagógicas em salas de aula e ainda orientações sobre futuros projetos a serem feitos pela FCA (esses são segredos e serão informados nas próximas edições). Arranjado tudo isso na agenda, a produção dos trabalhos melhorou. Vocês verão esse avanço nos próximos números. Depois, as mesmas condições acima descritas envolvem este editor, também professor entre outras atividades. Com a nova organização, poderei conduzir O Arauto para que nada falhe.

Mas, mais importante, depois de 18 meses de bons serviços prestados, nosso redator universitário, o estudante Jean Frédéric Pluvinage, responsável por toda execução do Jornal do CEUNSP - ou “JC” - muda de endereço profissional: foi contratado pelo mercado e vai trabalhar na revista Desktop, de Itu, que trata de assuntos ligados à artes, eventos e softwares gráficos. E antes de desejar boa sorte ao Jean, é bom informar que ele publicou texto na edição março/abril da revista Continuum (da Itaú Cultural), coisa para poucos. Talento que sai para o mercado. Escrevendo um pouco mais sobre o que acontece na FCA, não podemos ignorar a gravação do Lip Dub. Espécie de desafio entre faculdades, tratase da execução de um vídeo com dublagem de uma canção (no caso da FCA, Vou Deixar, do Skank). Esse material é postado na internet e estudantes do mundo inteiro podem ver e votar na performance. A gravação foi uma festa, um verdadeiro carnaval nos blocos K e W do Campus V: ensaios, fantasias, companheirismo, sorrisos, música, sincronismo e até tirolesa. Vale a pena ver as fotos dos bastidores (páginas 6 e 7).

Os destaques da edição são dois textos de outro membro do 5º semestre de Jornalismo, Samuel Peressin. Ele foi o responsável por trazer dois assuntos trágicos ao debate Um Olhar Diante do Caos: enchente arraasadora em Capivari e o terremoto no país mais pobre das Américas, o Haiti. Além dessas três reportagens, também mostramos que vem por aí a vacinação contra a Gripe A e um passeio numa “maria fumaça”, que pretende levar para o alto os números do turismo na região. Boa leitura!

(Pedro Courbassier - editor)

Comunicação do Leitor Olá! Sou estudante de Direito no CEUNSP (4º ano) e sempre leio O Arauto. Gosto do belo visual e das belas matérias, bem redigidas. Gostaria de escrever uma coluna sobre Direito, com temas, por exemplo, como direitos do consumidor e do cidadão, curiosidades do Direito, novidades em leis. Mas seria numa linguagem mais acessível às pessoas que não tenham o conhecimento jurídico (leigos). Uma redação mais descontraída. O que acha? Acredito que irá enriquecer ainda mais algo que já está ótimo. Desde já agradeço o espaço. Vinicius Mantovani (viniciusaugusto22@hotmail.com)– estudante de Direito, por e-mail.

Resposta da Redação – Agradecemos os elogios e a sugestão. Estamos estudando a possibilidade e a melhor maneira de usarmos a sua colaboração. E também sugerimos: Que tal a própria Faculdade de Direito ter sua publicação? A FCA pode dar o apoio necessário.

Bem interessante a reportagem sobre Bullying. Tema atual. Parabéns pelo jornal! Daniel Huertas (dmhuertas@usp.com) – geógrafo de Sào Paulo/SP, por e-mail.

Tartaruga é pescada (e devolvida) no rio Tietê André Timex /O Arauto

Tarda mas não falha

O Arauto / abr.10 pág.02

O pescador estava na ponte, perto do Campus V, em Salto, quando sentiu a linha puxar. Fisgou e trouxe à tona um réptil ao invés de um peixe: uma tartaruga. O flagra foi do estudante de Fotografia André Timex, que faz parte dos trabalhos práticos de Jornalismo Impresso, dos quais O Arauto faz parte.

ACONTECE NA FCA Recepção dos calouros foi movida a “Foto-Trote” e “Café com Bicho” Caricaturas feitas com fotos dos novos estudantes ficaram expostas no bloco K

Os veteranos de Fotografia discutiam como iram recepcionar os ingressantes de seu curso quando a estudante Adriana Cruz teve uma ideia: fazer uma exposição com as fotos dos novatos. Os calouros, entuasiasmados, posaram para a câmera, esperando ansiosamente pelo resultado. “Ficou horrível!” disseram em coro ao verem as fotos. Com o uso do Photoshop todos os retratos viraram caricaturas, formando as figuras engraçadas. “Queríamos fazer um trote que interagisse com os novos alunos. Criar algo engraçado mas sem agredir!” explica Adriana. “O meu sorriso está igual mas o resto é tudo surpresa!” brincou Paulo Henrique Baldini diante de sua versão “animada”.

Edvaldo Santinon/O Arauto

O período de volta às aulas no Brasil costuma ser acompanhado por notícias de barbárie. Trotes violentos são usados como um pedágio para a vida acadêmica, cuja única “justificativa” é a continuação de um ciclo de violência. Mas aqui na FCA temos uma visão diferente, muito diferente, desse rito de passagem. É o que demonstraram duas turmas, veteranos do curso de Fotografia e de Eventos, ao organizarem trotes muito criativos!

“Breakfast” - Já os veteranos de Eventos organizaram um café da manhã especial. Deram uma lista de comidas e bebidas para os novatos buscarem numa padaria próxima. Com todos os produtos em mãos eles prepararam em poucos minutos uma grande festa. Entre sucos e salgadinhos, alunos, professores e funcionários se integraram com muita descontração. “É um momento único. Essa reunião já permite a soma de experiências, uma bagagem de novas ideias”, explicou o veterano Fernando Branco. Veja as fotos do Foto-Trote no link - http://bit.ly/trotefca

expediente

Publicação da Faculdade de Comunicação e Artes (FCA) do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (CEUNSP). Jornalista Responsável: Pedro Courbassier (MTb.: 23.727). Diagramação: Jean Pluvinage. Revisão e normatização da língua: Profª Maria Regina Amélio. Coordenador de Imagens e Fotografia: Carlos Oliveira (Arfoc-SP 23.862). Conselho Editorial: Prof. Edson Cortez; Prof. Ms. Filipe Salles; Profª Ms. Maria Paula Piotto S. Guimarães; Prof. Esp. Pedro Courbassier; Prof. Dr. Rubens Anganuzzi Filho. O Arauto tem apoio da Agência Experimental de Comunicação e Artes (AECA) e parceria acadêmica com os estudantes de Comunicação Adriane Souza, Beatriz Silva, Gisele Gutierrez, Jean Pluvinage, Jéssica Bonatti, Lígia Martin, Luana Oliveira, Luiz Carlos Pesseudonimo, Marcos Freddi, Mariana Sugahara, Nelson Lisboa e Samuel Peressin (Jornalismo); André Timex, Fabiana Ritta, Josevane Victor e Paulo Henrique Baldini (Fotografia). Coordenador Geral da FCA: Prof. Edson Cortez. Gerente do Núcleo de Jornalismo da AECA: Prof. Esp. Pedro Courbassier.

Tiragem: 20.000 exemplares Contato: redator@arauto.info

Blog: arautomania.blogspot.com

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Todos os textos são de responsabilidade de seus autores


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Os 400 anos de Utuguassu

Profª Drª Milena Fernandes Maranho Pesquisadora e colaboradora do IFCH/Unicamp

De paragem a vila. De vila a cidade conhecida em todo país minação pública em 1864, foram inaugurados a Santa Casa de Misericórdia e o Colégio São Luís (atual Quartel) em 1867, a Fábrica de Tecidos São Luís em 1869, o Cemitério Municipal em 1884 e o Mercado Municipal em 1905. Não podemos nos esquecer da importante participação da cidade na fundação do Partido Republicano Paulista em sua Convenção realizada no ano de 1873, com a inauguração do Museu Republicano no antigo sobrado oitocentista da Família Almeida Prado, no ano de 1923.

André Timex / O Arauto

Em 1610, foi oficialmente fundado o primeiro povoado pertencente à chamada paragem, ou região, de “Outuguassu”, que na língua tupi significa “Salto Grande” devido à queda d’água existente na hoje cidade de Salto. Naquele ano, o bandeirante paulista Domingos Fernandes e seu genro Cristóvão Diniz construíram uma capela em homenagem à Nossa Senhora da Candelária, nos chamados “Campos de Pirapitingui”. Consta que a família Fernandes possuía terras nesta região em que se encontravam os “Campos” desde pelo menos 1604, mas não as habitava. Parte da família se estabeleceu nas terras próximas à Capela durante muitos anos nos quais Utuguassu foi “termo”, ou seja, um bairro mais afastado e subordinado juridicamente à vila de Santana de Parnaíba. Apenas no ano de 1657 houve a sua elevação à categoria de “Vila de Nossa Senhora da Candelária de Utuguassu”, que com o passar dos anos tornou-se vila de Utu. Apenas 185 anos depois, em 1842, a “vila de Itu” foi reconhecida enquanto cidade, após ter modificado muito a sua paisagem urbana. Em 1769, há registros da existência de 2.700 habitantes e 1.230 escravos de origem africana. Também havia sete lojas de “secos e molhados”, sete sapatarias, sete carpintarias, sete alfaiatarias e vinte e seis engenhos de açúcar nos quais trabalhava a maioria dos escravos citados. Desde 1790 o calçamento das ruas já fora iniciado, e nessa época a ainda vila de Itu já era um centro comercial e econômico que dominava a região. Deste mesmo século XVIII datam as construções de seu patrimônio arquitetônico mais famoso: as Igrejas. A capela de Santa Rita é de 1728, a Igreja do Bom Jesus data de 1765, a do Carmo é de 1777, a Matriz de 1780 e a do Patrocínio, já no século XIX, é de 1820.

Fazer uma linha do tempo com os principais acontecimentos dos 400 anos de Itu não serve apenas como lembrança das antigas aulas de História, nas quais tínhamos que decorar datas e nomes; ainda bem que isso já mudou muito. Mas serve, na verdade, para termos ideia do processo pelo qual a cidade passou para chegar até este momento

Maior que um orelhão: Itu é sinônimo de patrimônio colonial, republicano e industrial

de 2010. Serve também para fazer com que, ao passarmos em frente a tantas construções preservadas na cidade, as admiremos com olhos diferentes, com olhos de respeito.

Conservar o Patrimônio Histórico é também conhecer a própria História do lugar onde vivemos, trabalhamos ou estudamos, e fazer com que todos conheçam essas riquezas históricas e culturais, o que faz de nós “agentes históricos”, ou seja, pessoas atuantes em nosso presente e no futuro de todos. Como já dizia o historiador inglês Charles Boxer, “um povo que não é dono de sua própria história, nunca será dono de seu destino”, e para ser dono é preciso conhecer, valorizar, conservar e defender.

Em 1798 já podiam ser contados 107 engenhos produzindo açúcar e 60 fazendas de café. Para 1803 os números computados sobem para 8.000 habitantes e as reclamações sobre a falta de água já eram frequentes. Muitos edifícios importantes e ainda conservados foram construídos no século XIX: o Hospital dos Lázaros de Padre Bento Um passo importante para que mais em 1807, o Colégio Nossa Senhora do Patrocínio em 1859. pessoas conheçam e valorizem a riqueLogo após a chegada da ilu- za cultural de Itu foi dado durante os

desfiles das Escolas de Samba de São Paulo. A Escola “Império da Casa Verde” apresentou o samba enredo “Itu: Fidelíssima terra de gigantes” e destacou principalmente a importância histórica da cidade. Uma curiosidade interessante... O título de fidelíssima foi dado a Itu no ano de 1822 porque alguns movimentos contrários à Independência do Brasil foram repreendidos na então vila. Samba também é História... Mais resultados podem ser alcançados de forma individual, e apresentar a mesma eficácia para a conscientização do papel de todos enquanto cidadãos, ou agentes históricos. Na verdade, muitas dessas ações estão ocorrendo exatamente neste momento de reflexão. Como será possível? Bom, se você leu este artigo até o fim, pode ter certeza de que está começando a fazer a sua parte.

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ESPECIAL

O caos

parte 1

e t n a i d

Samuel Peressin / A Gazeta

s o h l o dos Estudante de Jornalismo do CEUNSP e estagiário de A Gazeta de Capivari, conta como foi cobrir a inundação que assolou a cidade.

Água. Muita água. Resume-se a isso aquela que considero como minha primeira grande experiência jornalística. O cenário dessa história é Capivari. Município com pouco mais de 46 mil habitantes, que fica a cerca de 130 km de São Paulo e 40 km de Salto e que, de pacata cidade interiorana, tornou-se assunto em rede nacional. Era a primeira semana de dezembro e eu acabara de completar um mês de estágio no jornal A Gazeta - meu primeiro trabalho na área – quando ocorreu a primeira das quatro enchentes que atingiram o município, entre os dias 7 de dezembro a 19 de janeiro, em decorrência das fortes e prolongadas chuvas que caíram na região. Foram dias em que a água assombrou a cidade, espalhando tristeza, desespero e destruição. Não irei apontar aqui quem ou o que acredito ser os responsáveis por tudo que aconteceu. Apenas pretendo relatar tudo de mais marcante que vi, ouvi, senti e pensei, mas que, ainda, não havia ousado dar vida, por meio de palavras. Dias de “Atlântida” Fui pego totalmente de surpresa. Óbvio. Não há como se preparar, pois,

infelizmente, desastres naturais não têm hora e data para acontecer. Com papel, caneta e uma câmera na mão, lá fui eu, cheio de dúvidas e incertezas, que, naturalmente, desapareceram depois de uma ou duas entrevistas e meia dúzia de fotos. Casas e ruas foram “abocanhadas” pela água barrenta. O que se via eram imensos “lagos” que traziam consigo “partes” da tragédia. Boiavam sob a água peças de roupa, calçados, alimentos, pedaços de móveis e brinquedos, além de muito lixo. Moradores ignoravam o risco de contaminação e enfrentavam a água para resgatar seus bens ou, até mesmo, protegê-los, pois muitos demonstravam medo de que a casa fosse furtada. O ambiente era tenso, pesado. Incrédulas, as vítimas carregavam no semblante a desolação. Foi grande o número de pessoas que perderam absolutamente tudo. Casa, móveis, documentos. Para essas vítimas só restou a roupa do corpo e a esperança, mesmo que mínima, de seguir em frente. Esperança que me surpreendia num primeiro momento dada a grande destruição. Mas que, depois de uma reflexão, parecia normal. Afinal, a vida tinha que conti-

nuar. Trabalhar para reconstruir tudo aquilo que foi conquistado durante anos e perdido em minutos, era a única opção.

Vítimas - Nas palavras e gestos dos atingidos, os reflexos de quem queria, apenas, que tudo aquilo acabasse logo. Uma situação que me lembro bem e dificilmente irei esquecer, foi quando um senhor, de aparência saudável, pele branca, cabelos grisalhos e aparentando ter uns 50 anos, surgiu em meio à rua alagada, saindo de sua casa, com água na altura do quadril, carregando uma garrafa de conhaque cheia e um copo. Já em “terra firme”, com a garrafa na mão, ele disse para duas mulheres que também haviam perdido tudo: “Olhem o que consegui salvar. Agora, a única coisa que nos resta é beber. Já perdemos tudo mesmo”. Fiquei no local por mais uns dez minutos e vi os três, dividindo o mesmo copo, degustarem a bebida e a oferecerem para todos os “companheiros de tragédia” que por ali passavam. Foi como se eles tivessem encontrado naquilo uma solução, mesmo que momentânea, para esquecer o pesadelo que estavam vivendo.

André Timex / O Arauto

Samuel Peressin

Samuel Peressin, do 5º semestre de

Jornalismo, acompanhou o drama das

famílias de sua cidade.


O Arauto /abr.10 pág.05

A natureza - Já era janeiro e a cidade ainda estava alagada quando algo inusitado aconteceu. Em uma quarta-feira, 13 de janeiro, li, pela manhã, um texto do escritor e jornalista gaúcho Luís Fernando Veríssimo, no qual ele defende que somos inquilinos de passagem pelo planeta. Porém, inquilinos que não respeitam os regulamentos do prédio chamado Terra. E como é natural, quando um morador de um condomínio não cumpre as regras dos direitos e deveres, ele acaba punido. Baseandome no pensamento de Veríssimo, presumi que com o planeta, realmente não há de ser diferente.

Neste mesmo dia, na parte da tarde, o Secretário Chefe da Casa Civil de São Paulo, Aloysio Nunes Ferreira Filho, foi até Capivari para anunciar a liberação de R$ 2 milhões do governo estadual para ajudar na recuperação da cidade. Eu estava lá e durante a entrevista coletiva ele disse uma frase que soou como resposta para minhas indagações sobre

o texto de Veríssimo. “A natureza cobra suas dívidas. Muitas destas casas já estavam condenadas, há muito tempo, sem seus donos saberem. Estes acontecimentos nos ensinam que devemos ser mais cuidadosos no futuro”, declarou o secretário. Realmente o “bicho homem” não tem cuidado muito bem da sua casa e está pagando um alto preço por isso.

As enchentes • Ao longo dos muitos dias de chuva e das quatro enchentes do rio Capivari, os desabrigados e desalojados, somados, beiraram a marca de quatro mil pessoas. O nível do rio chegou a ficar três metros acima do normal. Mais de 200 residências (em área verde ou área de risco) foram condenadas pela Defesa Civil. Foram ou estão sendo demolidas. • Centenas de pessoas passaram o ano novo nos alojamentos da Prefeitura. Cinco casos de leptospirose foram confirmados. Nenhuma morte foi registrada. • Uma ponte caiu e mais de 15 sofreram danificações e terão que ser recuperadas. Unidades de captação, tratamento e distribuição de água foram atingidas, comprometendo a distribuição em diversos bairros.

Ao final desse grande desastre, que acompanhei como estudante, foram dias e situações enriquecedoras, que jamais esquecerei. Como pessoa, um choque e um conflito de realidades. Somos mais de seis bilhões de indivíduos espalhados pelo planeta. Seis bilhões de realidades. Senti que, quando inserido em uma que não é a minha, questionamentos e valores são postos à prova e tendem a mudar.

• Comércios foram alagados e produtos perdidos.

• Como muitos pontos ficaram intransitáveis, para ir de um bairro a outro, era necessário trilhar caminhos alternativos sempre mais demorados do que os normais. • Doações, como roupas, calçados, alimentos, produtos de higiene pessoal e domésticos e colchões chegaram de diversas cidades, enviadas por empresas, prefeituras e moradores - o CEUNSP fez uma campanha interna e também colaborou com donativos. • O governo municipal estimou em quase R$ 25 milhões os prejuízos. Foi decretada situação de emergência.

Emocional x Profissional - A todo instante, ver, mas não se deixar envolver pela dor daquelas pessoas, era um desafio. Separar o emocional do profissional foi difícil. Acredito que foi algo natural. Sou humano, ainda. Digo ainda pois me questiono se a prática não enrijece o profissional. Será que lidar com a desgraça de terceiros e fazer daquilo um ganha pão, com o tempo, não se torna algo normal, que não exerce sobre o jornalista nenhum sentimento? Ainda não encontrei a resposta. Não sei se um dia encontrarei. Mas sigo me questionando.

• Atualmente, 69 famílias (269 pessoas) estão em alojamentos da prefeitura. O restante, que também não pôde voltar para casa, alugou outro imóvel ou se fixou na casa de parentes ou amigos.

• Para algumas destas famílias, o drama chamado enchentes tem data para acabar. Estão sendo construídas 323 casas populares na cidade e parte delas deverão ser destinadas a famílias atingidas. O acordo firmado entre a prefeitura e a Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), prevê que as casas sejam construídas em seis meses. As obras começaram no início de fevereiro.

Frases dos moradores sobre o caos da cheia Samuel Peressin / A Gazeta

Com toda a inocência das crianças, meninos – em sua maioria –, conseguiam encontrar graça na tragédia. Eles tinham uma grande “piscina” na porta ou dentro de casa. Sem ter ideia que corriam riscos de contrair doenças, se divertiam. Nadavam, pulavam, brincavam com bolas. Logo imaginei que, talvez, todos os adultos atingidos quisessem ser como eles, para ver, mas não entender direito, tudo o que estava acontecendo.

“Falaram (a Defesa Civil) que a casa estava em risco. Eu gritei para o homem do trator: Deus está vendo o que vocês estão fazendo. A máquina só encostou e a casa foi pra baixo. Foi a última vez que eu vi meu barraco em pé.” Sandro José da Silva, 43

(Ele se recusou a ir para os alojamentos da Prefeitura e passou a morar em um já desgastado Corcel azul, de um vizinho).

“O que conquistei em 13 anos, perdi em 13 minutos. Só consegui salvar minha esposa e meus filhos.” Vanderlei Silva, 45 “Comprei um pernilzinho, mas nem deu tempo de sentir o gosto, a água levou.” Roberto Bueno, 51

(Faltavam quatro dias para o ano novo e a semana que deveria ser de festa, transformou-se em pesadelo para sua família).

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VIDA UNIVERSITÁRIA Fotos: André Timex, Fabiana Ritta, Paulo Henrique Baldini / O Arauto

Lip Dub: As fotos mostram a agitação ocorrida na noite (8 de março) em que foi gravado o plano-sequência (gravação contínua, sem cortes) que originou uma espécie de videoclipe: encenação que dubla uma música (a escolhida pela FCA foi Vou Deixar, do Skank) ao mesmo tempo que mostra as instalações do local. O material está postado na web, precisamente no Youtube e no University Lip Dub. Este último motivou toda a agitação, pois provoca as faculdades de todo mundo a fazer esse projeto de “dublagem labial” (em tradução livro para o inglês: lip dub). A FCA planejou (roteirizou) e ensaiou por três dias e executou quatro filmagens até finalizar o produto. A TV Tem. A TV Tem, afilhiada Rede Globo gravou tudo e exibiu no programa Revista de Sábado.

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O Arauto / abr.10 pรกg.07

r a ix e d u o v / y .l it b / :/ p t t h

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REGIÃO

Trem Republicano agita turismo e deve gerar mais empregos

Coordenadora do curso do CEUNSP aposta no crecimento do turismo

A professora Sandra Rigatto (foto abaixo), coordenadora do curso de Turismo do Ceunsp, cujas aulas são em Itu, banca a aposta do ministro que o turismo vai se desenvolver cada vez mais em nossa região, gerando empregos em diversas áreas, como na de hotelaria, eventos, gastronomia. “Hoje a nossa região tem muitos empregos gerados nessas áreas, como em agências de viagens, hotéis, restaurantes, organização de eventos públicos e empresariais, postos de apoio ao turista, guia de turismo e também em órgãos públicos e ONGS qeu atuam em nossa região”, aponta. Quanto ao trem republicano, a professora diz que ele vai ampliar a base da oferta turística de Itu e de Salto e também resgatar a importância histórica da região, contribuindo ainda para a preservação do patrimônio férreo. Roteiro – Sandra lembra que o trem em fase de implantação em nossa região vai integrar os Roteiros Brasileiros de Trens, como Trem da Mantiqueira; Maria Fumaça da Serra Gaúcha; Trem de Jundiaí; Maria Fumaça de Campinas. Diferencial – Questionada sobre o diferencial do curso de Turismo do Ceunsp, a professora afirma que o aluno tem a seu dispor excelentes laboratórios e um corpo docente qualificado e atuante no trade turístico. A estrutura curricular está em sintonia com os grandes centros de formação do país e as aulas são sempre participativas, baseadas na prática da profissão, com atividades curriculares fora da sala de aula, que envolvem os alunos e estimulam os professores. “Nosso aluno saí formado com a possibilidade de atuar como guia de turismo regional credenciado pela Embratur”, finaliza. Carlos Oliveira / O Arauto

Assessoria Imprensa Salto

O Arauto / abr.10 pág.08

Nelson Lisboa

O ministro do Turismo, Luiz Barretto, esteve em Salto e em Itu, em fevereiro, para o lançamento da licitação para a implantação do Trem Republicano, um comboio puxado por uma “maria fumaça”, que percorrerá 7 quilômetros entre as duas cidades. O ministro afirmou à reportagem de O Arauto que o turismo é cada vez mais uma opção de vida profissional para os jovens por ser a atividade econômica que mais cresce no mundo. “O turismo é sim uma grande possibilidade de inserção profissional do jovem. É uma indústria do futuro, que é limpa, que não polui e que gera integração, gera renda e qualidade de vida”, destacou. A aposta do turismo como opção de emprego e de vida para os jovens é referendada pela professora Sandra Rigatto, do curso de Turismo do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio (CEUNSP). Para ela o turismo é uma área interessante, vibrante, onde cada dia é uma nova experiência. “É um segmento que surge e que necessita de profissionais cada vez mais qualificados e competentes já que o consumidor do turismo é exigente e curioso. Quem entrar na área deve sempre investir, ao longo de sua carreira, na qualificação e na atualização porque é uma área que vive em constante mudança”, finaliza. Números - Hoje, além de gerar 3 milhões de postos de trabalho em toda a sua cadeia econômica, o turismo também responde por 3% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, com amplas possibilidades de elevar mais ainda esse índice. Essa projeção deve-se ao fato do turismo estar sendo estruturado em várias partes do país, indo além do turismo de passeio, principalmente no Rio de Janeiro e Nordeste, e o de negócios, em São Paulo.

Para o ministro, as possibilidades do turismo são imensas porque o Brasil tem dimensões continen-

tais, com uma natureza exuberante, como o Pantanal, a Floresta Amazônica e o litoral. Ele aponta a diversidade cultural como outro diferencial. “Além disso, nosso potencial industrial e comercial tem se ampliado e colocado o país na rota do turismo de negócios. A chegada da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016 também elevarão em muito o turismo”, aposta.

O trem deve ser instalado até junho de 2011, desde que a licitação federal seja concluída em maio, antes do início da vigência da Lei Eleitoral. Há a previsão do investimento de R$ 10 milhões em todas as instalações, tanto em Itu quanto no trajeto em Salto. A verba será usada na adequação das duas estações ferroviárias: uma na praça Gaspar Ricardo, no centro de Itu, e a outra no bairro da Estação, em Salto. Assim como na implantação dos trilhos e dormentes do trajeto de 7 quilômetros.

Estrangeiros – A renda recorde gerada pelo turismo no ano de 2008 deve-se, em grande parte, à vinda de turistas estrangeiros, que somente em 2008 deixaram quase 6 bilhões de dólares no país. Dados atuais divulgados pela Embratur apontam que em janeiro deste ano os turistas deixaram no país U$ 566 milhões. No mesmo mês do ano passado este valor foi de US$ 495 milhões. O resultado é o segundo melhor da série histórica do BC, iniciada em 1947, para o mês de janeiro e fica atrás apenas da receita obtida no primeiro mês de 2008, quando os gastos de estrangeiros somaram US$ 595 milhões. “Este é um sinal claro de que o turismo brasileiro, além de ter sofrido menos do que outros países, está se recuperando rapidamente dos efeitos da crise econômica”, avaliou a presidente da Embratur, Jeanine Pires. “Temos recebido muitos turistas de lazer, o que é esperado para esta época do ano, mas também registramos o crescimento dos turis-

tas de negócios, sobretudo pela boa situação econômica do País e pelo interesse causado com a realização da Copa do Mundo e das Olimpíadas no Brasil”, ressaltou Jeanine.

Tendência – No contato com a imprensa regional, após a assinatura da primeira licitação para o trem, de R$ 4 milhões e do compromisso de empenhar outro R$ 1 milhão até março, o ministro afirmou que o Trem Republicano Itu/Salto segue uma tendência nacional de revigoramento da sua malha ferroviária para fins de transporte e de turismo. Ele lembra a inauguração do trem da “Volta do Pantanal”, no Mato Grosso, ocorrida no fim de 2009, além da restauração de um trem de “maria fumaça” no Espírito Santo. Outras atrações turísticas com locomotiva antigas estão presentes na Serra Gaúcha, em Jaguariúna/SP, na Serra da Graciosa, no Paraná, e entre São João Del Rey e Tiradentes/MG. Em Salto – Antes de assinar o convênio de liberação de recursos em Itu, o ministro, na companhia de Geraldo Garcia e Herculano Passos Júnior – além de vereadores, secretários municipais e deputados – visitou as instalações do Complexo da Cachoeira, ao lado do prédio histórico do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio.

FGV avaliará - A Fundação Getúlio Vargas, contratada pelo Governo Federal, em parceria com o Governo Estadual, fará um inventário do turismo de Salto e Itu, para apontar deficiências e formas de ampliação de seu potencial. A ideia é qualificar as duas cidades para que possam lucrar com o turismo durante a Copa de 2014.

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Nome da atração vai relembrar a Convenção Republicana do século XIX O Trem Republicano, pretendido pela administração de Itu como marco das comemorações dos 400 anos do município – em conjunto com Salto – relembra a Convenção Republicana realizada em Itu, em abril de 1873, quando grandes nomes da política nacional, comerciantes e fazendeiros se reuniram para discutir a implantação da república no país. O encontro foi o primeiro que tratou do assunto e foi a semente da adoção do regime de oposição à monarquia, em 1889.

Copa de 2014 deve trazer novos negócios A realização da Copa do Mundo de Futebol de 2014 no Brasil deve atrair inúmeros novos negócios, inclusive no turismo regional. À imprensa, o ministro diz que a tradição ituana no futebol, a existência do Estádio Municipal “Dr. Novelli Júnior” e o plano do município de transformá-lo em uma arena multiuso poderão auxiliar na conquista de uma seleção europeia para por aqui treinar. Caso o projeto de construção da arena se viabilize, o Ministério do Turismo poderá auxiliar no aporte de verbas, caso as futuras instalações também contemplem o turismo.


SENSIBILIDADE

O Arauto / abr.10 pág.09

André Timex / O Arauto

A primeira impressão é a que fica? Cientistas dizem que em 30 segundos conseguimos formular até 200 impressões a respeito de alguém que acabamos de conhecer Gisele Guitierrez

Todo começo pode ser difícil. É difícil por que é novo. E tudo o que é novo assusta. Quem disse a primeira vez que “a primeira impressão é a que fica” nunca se permitiu viver a vida de forma plena. Viver plenamente não é apostar apenas na primeira impressão. Por que não apostar na segunda? O que seria do primeiro encontro, em que geralmente estamos tão ansiosos que nem ao menos conseguimos desfrutá-lo? Passamos por várias primeiras vezes, várias primeiras impressões, boas ou nem tanto. Tivemos dificuldade em aceitar o irmão mais novo quando crianças, o novo colega de classe que se destacava em sala, o novo colega de trabalho. Temos dificuldade em aceitar o novo, nossa primeira reação é de rejeição. Exemplos não faltam. Quem não se lembra do segundo prefeito negro do estado de São Paulo (sim, o segundo, o primeiro foi Paulo Lauro, que governou a capital paulista de agosto de 1947 a agosto de 1948). A primeira impressão? Anos de escravidão enfim seriam vingados na figura de um negro no poder. Doce engano. Honestidade nada tem a ver com cor da pele. Várias personagens que permeiam o pensamento coletivo se revelaram diferentes da nossa primeira impressão. E afinal, onde está Bin Laden? O terrorista mais temido e procurado de todos os tempos? Há até quem noticiou que ele planejava um atentado ao Cristo Redentor! E qualquer pessoa pode garantir que ele continua lá, no mesmo lugar de sempre, de braços abertos, velando pelos cariocas. Mas afinal, quem é ele? Terrorista ou defensor de um país invadido pelos americanos, seu principal alvo? Qual sua primeira impressão? Susan Boyle - Foi exatamente isso que aconteceu na Inglaterra em janeiro de 2009. Quando uma senhora

de quase 48 anos entrou no palco do programa Britain’s Got Talent. Jurados e plateia deixaram claro, com suas expressões, que não acreditavam na capacidade daquela senhora. Não demorou muito para vermos todo o teatro aplaudindo de pé a apresentação de “I dreamed a dream”. Atuação que deveria - pela primeira impressão - ter sido o fracasso da noite. Essa senhora é Susan Boyle e dificilmente alguém não a conhece, afinal foi um dos vídeos mais acessados na internet. Gravou CD. Vendeu milhões. Realmente, a 1ª impressão bate, mas será que fica? Há primeiras impressões que são verdadeiras e o melhor de tudo, positivas. Às vezes se faz necessário causar uma boa impressão, pois ela ficará de fato. Exemplo: em uma entrevista de emprego. “A pessoa chega toda suja do seu lado, você julga de cara”, diz o estudante Jean Lucas Pine. Pesquisa - As palavras de Jean são confirmadas por um estudo realizado nas faculdades de Ohio e Minnesota, pelos cientistas Artemio Ramirez Jr. e Michael Sunnafrank e publicada em 2004, no Journal of Social and Personal Relationships. Segundo esses especialistas, nos primeiros três minutos de um primeiro encontro decidimos o tipo de relacionamento que desenvolveremos com essa pessoa. A primeira impressão seria tão marcante que dificilmente mudaríamos de opinião. “Se a primeira impressão foi negativa, a comunicação em seguida passa a ser restrita, dificultando o desenvolvimento de qualquer tipo de amizade”, afirmou Ramirez em seu artigo. O estudante de Comunicaçao Thales Puglia não concorda e é categórico: “Só não muda o que está morto!” e

continua “Já mudei diversas vezes a minha primeira impressão.” Já Paula Pires, também universitária, acredita no ditado: “A primeira impressão é algo profundo e marcante. Em mais de 80% dos casos isso acontece mesmo”, diz ela. Porém, Paula completa lembrando que “é uma situação mutável”. Julgamos pela aparência basicamente. Observamos a fisionomia, analisamos a linguagem corporal e inconscientemente o nosso cérebro entende e classifica o que é positivo e negativo. Braços cruzados na frente do corpo, por exemplo, o cérebro interpreta como uma atitude de defesa. Mas será que três minutos são suficientes para esse julgamento? Pesquisadores das Universidades de Tufts, Harvard e Nova York, afirmam que sim. Eles examinaram a atividade cerebral no momento em que duas pessoas se conhecem e observaram que a amígdala cerebral (que funciona como um alarme contra perigos, tanto físicos como emocionais) e o córtex cingular posterior (responsável pela formação de valores e decisões) ficam extremamente ativos neste período. De acordo com esse estudo, dirigido por Elizabeth Phelps, o ato de conhecer alguém envolve processos neurológicos complexos. As avaliações são feitas rapidamente, de forma inconsciente na maioria das vezes, de acordo com nossos próprios valores e de características que julgamos importantes. Segundo os estudos, a química que acontece no nosso corpo quando nos deparamos com o novo existe, mas não quer dizer que não podemos errar nos nossos julgamentos. Afinal, como outro ditado bastante popular diz, “as aparências enganam”

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e muitas vezes nos deixamos levar pelo preconceito. E aquela ruguinha no meio da testa, que o nosso cérebro interpreta como sendo uma expressão de raiva, pode não ter nada a ver com você.

DICAS PARA UMA BOA IMPRESSÃO

Nem sempre conseguimos nos sair bem num primeiro encontro. Mas o mundo não vai acabar por conta disso. Mas para quem quer arrasar de primeira, essas dicas valem ouro: • O corpo fala tudo. Braços estendidos ao longo do corpo indicam recepcividade e atenção. • Chame a pessoa pelo nome dela. Demonstra atenção. Elogios também funcionam, mas sem exageros. •

Converse olhando nos olhos.

• Seja você mesmo. Tentar ser o que não é sempre acaba em desastre. •

Saiba ouvir.

• Aceite opiniões diferentes das suas; seja flexível. •

Seja educado sempre.

Cuide de sua aparência.

Seja pontual.

Enquanto isso, na FCA...

Pesquisa realizada entre os ingressantes de todos os cursos da FCA, com o objetivo de conhecer as primeiras impressões sobre a faculdade, indicaram os seguintes resultados: 98% dos 159 alunos pesquisados fizeram uma boa avaliação dos professores, da infraestrutura e dos funcionários. Mesma quantidade que afirma que indicaria a FCA para um amigo.


SAÚDE

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Gripe A: começou vacinação preventiva Já há novos casos de gripe A pelo Brasil. A doença é causada pelo vírus H1N1 e popularmente conhecida como gripe suína. Mas ao contrário do ocorrido ano passado, desta vez há uma vacina sendo aplicada para evitar uma nova epidemia. A vacinação contra a gripe suína em São Paulo começou em março. Desde o dia 8, com a vacinação dos profissionais de saúde realizados pela Secretaria Estadual de Saúde. A segunda fase de vacinação da gripe suína começou no dia 22 de março, para atender gestantes, crianças a partir de seis meses e menores de dois anos de idade e

portadores de doenças crônicas, asmáticos graves, diabetes, pessoas imunodeprimidas, cardiopatas, portadores de doenças respiratórias crônicas, dentre outros. Gestantes poderão ser vacinadas entre 22 de março e 21 de maio. Já as crianças de seis meses a dois anos e os portadores de doenças crônicas entre 22 de março e 2 de abril. A terceira fase de vacinação ocorrerá entre os dias 5 e 23 de abril. Todos os jovens entre 20 e 29 anos do Estado de São Paulo poderão ser vacinados. Na quarta fase, entre os dias 24 de abril e 7 de maio receberão

a vacina os idosos a partir dos 60 anos que portem doenças crônicas, os demais idosos irão tomar vacina contra a gripe comum.

Na quinta e última fase, entre os dias 10 a 21 de maio, serão vacinados adultos entre 30 e 39 anos de idade.

A Secretaria de Saúde também convoca os paulistas a doarem sangue antes de tomar a vacina, para assegurar que haverá sangue disponível durante a campanha de vacinação. É recomendado não doar sangue nas próximas 48h depois de tomar a vacina. (da redação)

Mais informações sobre a campanha de vacinação no site: www.cve.saude.sp.gov.br

OS INIMIGOS OCULTOS Conheça a história de vida do parasitólogo e pesquisador Erney Plessmann, que gerenciou instituições de combate aos vírus Jean Pluvinage

Inimigas sem rosto e forma, as doenças infecciosas precedem a existência dos homens e irá nos acompanhar por toda a história. Sua presença constante já infectou inclusive nossa arte e cultura: na Ilíada a peste era um castigo de Apolo sobre os gregos; na Bíblia Deus adoece os egípcios captores dos hebreus. Narrativas contemporâneas como “A Peste” de Albert Camus e “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago abandonam a visão de uma punição divina e apontam o caos social que as epidemias provocam - com as instituições derrotadas todos se vêem diante do absurdo, o que não tem sentido.

O medo que sempre acompanha doenças e epidemias não tem vacina, mas a melhor arma contra ele é muita informação. Para isso entrevistamos o Dr. Erney Plessmann, autoridade nacional do campo da Parasitologia [ciência que estuda a relação biológica onde um organismo tira proveito de outro]. Formado em medicina pela USP, Erney tem um extenso currículo que inclui a chefia do Departamento de Parasitologia da UNIFESP, a pró-reitoria de pesquisa na USP, a direção do instituto Butantan, e a direção do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Atualmente Erney se dedica as pesquisas sobre Filogenia [ciência que estuda as relações ancestrais entre espécies conhecidas]. Ele revela para O Arauto sua trajetória de vida, informações sobre a gripe A H1N1 [a gripe suína], malária e dengue e a posição global do Brasil na produção de pesquisas científicas.

Dr. Plessmann, conte sua trajetória acadêmica. Formei-me em 1959 na Faculdade de Medicina da USP. Logo em 1961, no começo da carreira docente, fui contratado como auxiliar de ensino pela aquela Faculdade, lotado no Departamento de Parasitologia, conhecido como o “Departamento Vermelho” por suas posições ditas de esquerda. Na realidade, o Departamento lidava com doenças que interessavam às populações menos favorecidas da sociedade (Malária, Doença de Chagas, Esquistossomose, verminoses intestinais e outras) o que nos dava uma percepção aguda da grave situação sanitária do país diante da qual não conseguíamos nos calar. Por causa disso, em 1964, durante o golpe militar, alguns de nós foram demitidos da USP. Fui para os Estados Unidos contratado como docente pela Universidade de Wisconsin, em Madison. Lá fiquei por cinco anos. Aprendi muito e conheci a ciência do primeiro mundo, da qual nunca mais me afastei.

Voltei ao Brasil para a Escola Paulista de Medicina, hoje a Unifesp, onde fiquei 15 anos como professor titular e chefe do Departamento de Parasitologia. Durante esse período, passei um ano e meio em Paris, no Instituto Pasteur, apreendendo Biologia Molecular. Em 1986 prestei concurso para professor titular do Departamento de Parasitologia da USP, onde acabei ficando até me aposentar aos 70 anos, em 2005. Inicialmente, na USP, geri um programa de modernização para alocar computadores e servir os campi com um sistema de comunicação por fibras ópticas. Isso ocorreu mui-

to antes da Internet se popularizar. Acho que o sucesso desse programa teve a ver com o convite do Reitor José Goldemberg para que eu assumisse o recém-criado cargo de próreitor de Pesquisa da USP. Cumpri meu mandato com o Goldemberg e mais dois mandatos com o reitor que o sucedeu, Roberto Leal Lobo e Silva Filho. Devo ter tido gestões satisfatórias, porque um segmento considerável da USP exigiu que eu me candidatasse a reitor. Felizmente perdi por 14 votos.

Estive em sossego no meu laboratório com meus alunos e minha pesquisa até 2001, quando o governador me convidou para assumir a direção do Instituto Butantan. Meti-me outra vez em gestão, mas não foi ruim. Gostei muito. O Butantan é uma instituição de renome científico internacional e igualmente popular por causa das cobras, conhecido tanto quanto o Pelé por todos os lugares da Terra onde andei. Infelizmente não pude ficar muito tempo no Butantan, porque logo no início do governo Lula fui convocado a assumir a Presidência do CNPq. Fiquei lá 5 anos e parece que minha gestão foi importante para restabelecer o CNPq como agente maior do financiamento à pesquisa no país. Porém o CNPq me deu muito trabalho, além de me obrigar a morar em Brasília, longe de minha família. Resolvi voltar à USP, aos prazeres de minhas pesquisas. Quais foram suas principais pesquisas no campo da parasitologia? Desde os tempos da Faculdade de Medicina que estudo doença de chagas, uma doença de complica-

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Dr. Plessmann (à direita) durante encontro com o ministro de Ciência e Tecnologia de Moçambique


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Dr. Erney Plessmann com pacientes na África.

ções cardiológicas e digestivas que afligia milhões de brasileiros e hoje ainda mantém sob ameaça dezenas de milhões de latino-americanos. Felizmente o Brasil conseguiu controlá-la. Nunca me ocupei da parte médica da doença, apenas de seu causador, o Trypanosoma Cruzi. Dediquei-me ao estudo de sua bioquímica e sua biologia molecular e acho que minha contribuição teve alguma importância. Mais tarde passei a estudar também o parasita da malária e a sua epidemiologia molecular [ciência que ajuda a determinar os padrões de ocorrência de uma doença] na Amazônia. A malária acomete anualmente dezenas de milhões de africanos e cerca de três milhões de latino-americanos. A doença é mais grave em crianças e fatal em alta percentagem na África, mas muito pouco no Brasil. Felizmente. Em função dessas parasitoses [doenças causadas por parasitas] acabei percorrendo todo o mundo, seja a serviço da OMS (Organização Mundial da Saúde) ou do governo brasileiro ou em função de meus projetos de pesquisa. Hoje estou mais tranquilo. Ocupo-me muito mais, embora não exclusivamente, de estudos de biodiversidade e ecologia de tripanossomas [microorganismos do grupo dos protozoários] do que das doenças humanas. Ainda viajo com frequência pelo Brasil e África coletando animais, cobras, lagartos, morcegos e sobretudo insetos, que são reservatórios desses tripanossomas. A Filogenia e a evolução dos tripanossomas são meu assunto atual de pesquisa. Divirto-me. Não aceitarei qualquer outro cargo administrativo. Basta já o que tenho como presidente da Fundação Zerbini, gestora do Incor (Instituto do Coração, do Hospital das Clínicas). É o suficiente. Há poucos meses fui levado à Presidência da Fundação Butantan, mas foi em caráter provisório enquanto se aparavam algumas arestas. Já foram aparadas. [A Fundação Butantan passou por problemas administrativos no ano passado].

Para o senhor a epidemia da gripe A, conhecida como gripe suína, voltará? Quais os melhores tratamentos contra ela? Não pesquiso ou tenho trabalho com o vírus da gripe suína. Ninguém no Brasil trabalha com este vírus nem com o vírus da gripe sazonal [conhecida como gripe comum]. No país se trabalha com a clínica e a epidemiologia da virose [doença causada por um vírus], não propriamente com o vírus. O Butantan produz vacinas contra a gripe,

mas usa linhagens importadas dos vírus para produzi-las em ovos de galinha embrionados.

A gripe sazonal percorre o mundo inteiro em levas epidêmicas, todo ano. Ela tem trajetória definida. Todo ano o vírus é novo e resulta de recombinações genéticas geralmente entre virus de aves, suínos e humanos. Logo que a onda epidêmica começa, já se conhece o novo vírus e já se começa a produzir vacinas contra ele. No Brasil o vírus começa a chegar em abril, pouco antes ou pouco depois, e quando ele chega já dispomos de vacinas fabricadas pelo Butantan.

A gripe suína não é do tipo sazonal. Ela foi um incidente esporádico. Um novo tipo de vírus surgiu das recombinações genéticas mencionadas. E foi erroneamente chamada de suína. Ninguém a esperava e ninguém estava preparado para ela. Felizmente foi um terror mais midiático do que médico. Parece que está voltando, mas o mundo já dispõe de vacina contra ela e o Butantan começa a fabricá-la para o Brasil. Não antecipo grandes problemas.

blema é que elas ainda dependem, principalmente a malária, de muitos estudos. O parasita da malária vem, a pelo menos 50 mil anos, driblando as defesas imunológicas do homem e não descobrimos ainda um jeito de evitar seus dribles. Quando descobrirmos todo mundo estará interessado em produzir a vacina, principalmente a indústria farmacêutica. Como o senhor vê a posição do Brasil na produção científica mundial? Vamos muito bem. Em termos de produção científica (número de trabalhos científicos publicados) estamos já entre os países do primeiro mundo. Na rabeira, é verdade, mas na frente da Índia e dos demais países do terceiro mundo. Juntos com a China. Em algumas áreas, como a da parasitologia, em que eu trabalho, ocupamos o segundo lugar no mundo, apenas atrás dos Estados Unidos e na frente de Inglaterra, França e Alemanha. Não era assim há vinte anos. Hoje é. Em outras áreas importantes, como imunologia, microbiologia e bioquímica, oscilamos entre o 14º e 18º lugar.

Quais os principais desafios para o desenvolvimento de mestres e doutores no Brasil? Não há problemas quanto a formação de doutores e mestres. As agências estaduais (FAPs) e as federais (CNPq e CAPES) atendem satisfatoriamente as necessidades nacionais de bolsas de Pós-Graduação. Não há carência. Pelo contrário, até Quando não há disposição de há um excesso de oferta. Isso pode uma vacina, recorre-se a outros ex- ser ruim porque facilita o surgimenpedientes para evitar a propagação to de cursos de Pós-Graduação de da epidemia. Aspirina e repouso são qualidade questionável. boas medidas para aliviar os sintoE para estimular a produção mas, mas não têm nenhum efeito da pesquisa científica no país? sobre o vírus. Os antivirais do tipo Os recursos para a pesquisa Tamiflu têm a capacidade de evitar científica, tanto federais como esa invasão e proliferação do virus na taduais, aumentaram muito nos mucosa respiratória. Mas devem últimos dez anos. Estados que não ser tomados precocemente. Álcool gelificado é tão bom como lavar as investiam em pesquisa passaram a mãos com frequência. Sem para- investir com entusiasmo. Gosto de noias! Já as máscaras cirúrgicas, se imaginar que eu contribui para que usadas em larga escala pela popula- isso acontecesse quando estive na ção e trocadas com frequência, são presidência do CNPq. sem dúvida muito eficientes para Quais os seus principais conevitar a transmissão do vírus entre selhos para um jovem que quer humanos. estudar ciências e tecnologia? Que pena, mas não os tenho. Se Há também pesquisas voltaum jovem não gosta de ciência, não das para a malária e a dengue? adianta dar conselhos. Se gosta, não Há empenho da indústria farmaprecisa de conselhos. As oportunicêutica para criar essas vacinas? dades são muitas. Frequentem as A vacina contra a dengue está no páginas do CNPq e da FAPESP e fiforno. A vacina contra a malária aincarão sabendo quem faz e o que se da é um sonho remoto. A indústria faz em ciência. Há lugar para todos. farmacêutica e os serviços públicos Sejam bem-vindos! das nações têm o maior interesse em produzir essas vacinas. O pro-

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MUNDO

Par

O caos diant Samuel Peressim

O Haiti, país mais pobre do continente americano, passou seus últimos 200 anos (desde sua independência em 1804), refém da desordem. Com uma história marcada por catástrofes naturais, fome, corrupção, golpes militares e violência, o país foi, no dia 12 de janeiro, o cenário daquela que foi considerada pela Organização das Nações Unidas (ONU), a maior tragédia da história.

Um terremoto que atingiu 7 graus na escala Richter, considerado “muito forte”, destruiu a capital Porto Príncipe. Estima-se que, no mínimo, 200 mil pessoas morreram, 300 mil ficaram feridas, um milhão ficou desabrigada e quatro mil sofreram amputações. Ao menos 21 brasileiros morreram, sendo 18 militares, além da médica e fundadora da Pastoral da Criança, Zilda Arns, e do diplomata Luiz Carlos da Costa. O caos se estabeleceu na cidade. Serviços públicos pararam de funcionar, a infraestrutura foi destruída, o ambiente foi devastado. Em meio a este cenário de destruição, um soldado do 28º Batalhão de Infantaria Leve (28º BIL) de Campinas, Caio Cézar Parissoto, morador de Elias Fausto, estava entre os militares brasileiros que faziam parte da missão de paz da ONU. Ele fala sobre o país e o povo haitiano, os desafios encontrados na missão, sua rotina e o terremoto.

Pelo Atlântico - Seguir a carreira militar. Era este o desejo de Parissoto. Aos 18 anos entrou para o 28º BIL e tornou-se o soldado Cézar. No início de 2009, foram abertas

vagas para participar da missão de paz no Haiti. Caio se candidatou e após seis meses, ao final do treinamento preparatório, veio a resposta. Ele iria ao Haiti. Em 1º de julho, após escala em Boa Vista, Roraima, teve início a maior experiência de sua vida. “Eu percebi que eu estava em um lugar diferente, na hora que eu vi a claridade do sol, que é absurda, e senti o calor”, lembrou.

O país - Pobreza. adjetivo que, na visão de Caio, retrata com exatidão a realidade do Haiti. Para explicar tal afirmação, ele recorre a uma comparação: “Lá é uma pobreza total. Imagine um lugar rico, é a favela da Rocinha. Agora imagine um lugar pobre perto da Rocinha, é o Haiti”.

Biscoitos de barro eram feitos e consumidos a céu aberto, por todos que queriam se manter vivos e não tinham nada, além daquilo, para comer. Segundo ele, grande parte da população vive sem nenhum saneamento básico e a falta de alimentos é uma constante. “Tudo lá é assim. Eles vivem no meio da rua junto com os porcos. O cheiro é insuportável. As pessoas defecam no meio da rua. Isso é comum lá.” Nem tudo... - O país, banhado ao norte pelo oceano Atlântico e ao sul e oeste pelo mar do Caribe, tem seu lado belo. O soldado elogia as praias e paisagens de algumas cidades vizinhas a Porto Príncipe. “Tem lugares lindos. Tem montanhas e mares lindos, maravilhosos. O calor e a temperatura da água do mar não têm igual. Você entra seu

corpo relaxa”, lembra, expondo a paisagem caribenha.

O dia a dia - O Pelotão Sparta, do qual Cézar fazia parte, se alternava em três diferentes tipos de missão: patrulhamento, segurança da base e ocupação do “ponto forte”, pontos estratégicos, que ficam em áreas de risco, como favelas. Todos os soldados, devidamente equipados com equipamentos que pesavam 30 kg, trabalhavam diariamente para estabelecer a ordem e segurança no país. Desde 2004 o país é castigado por uma guerra entre gangues, favoráveis e contrárias ao ex-presidente Jean Bertrand Aristide. Guerra que espalha violência e criminalidade pelas cidades. A tragédia – No dia 12 de janeiro, 16h53, hora local (19h53 de Brasília), Cézar estava só, de bermuda, do lado de fora do alojamento, composto por quatro andares. Ele se distraia juntamente com um amigo no computador.

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Haiti pré-terremoto: estruturas precárias e muita pobreza

Haiti pós-terremoto: um lugar com tudo para ser reconstruído


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rte 2

Ocorreu um primeiro tremor, de menor intensidade, que durou cerca de dois segundos. “Olhei para meu amigo, ele me olhou e ouvimos alguém gritando que caíra um avião. Quando ouvi esse grito, daí deu o terremoto forte mesmo.”

Ele conta que sua primeira reação foi ver se havia alguém dentro do seu alojamento. Nesse momento, viu um amigo sair correndo do banheiro. “Quando ele saiu, veio mais um monte de gente pelada, vestindo roupa, só de toalha. Todos correndo pra fora”, disse, mostrando o desespero que tomou conta do pessoal.

Quando os tremores pararam todos se dirigiram para o lado de fora da base, porém sem saber ao certo o que acontecia. Foram informados que construções haviam caído e pessoas estavam soterradas e receberam ordens para ir até o local ajudar. “As ruas ficaram congestionadas. Tinha corpos no chão. Os haitianos iam pegando os corpos e jogando na rua. Fomos ti-

rando os corpos. Tiramos 18 militares, 16 estavam mortos. Só tiramos dois vivos”, afirmou. A Casa Azul foi o local onde se registrou o maior número de mortes de militares brasileiros no país. Como sua base foi destruída, na noite do terremoto, Caio e seu pelotão ficaram em outra base, a Charlie. “Vi os dois lados da moeda. Fiquei com dó dos meus amigos e com dó dos haitianos. Quando cheguei na Charlie, aquilo parecia um hospital gigante. Eles colocaram colchões no chão e estavam operando os militares ao ar livre.” Nas ruas, o reflexo da tragédia: “Era comum ver corpos na rua e o fedor era insuportável. Mas depois do que vimos na Charlie, nada mais afetava a gente. Você ver uma pessoa morta, na rua, é normal. O ruim é você ver uma pessoa agonizando sem perna, sem braço”, contou horrorizado.

Cézar e seus companheiros foram direcionados a outro ponto forte, receberam equipamentos e deram sequencia ao trabalho de ajuda e

segurança à população e às bases. Foram cinco dias com água racionada e pouca alimentação, até que começou a chegar ajuda dos Estados Unidos e de outros países.

Do Haiti, Caio trouxe uma experiência marcante, que o fez rever valores e conceitos. “Eu confiava 100% nos meus companheiros. Confiava a minha vida a eles. Confiava neles como hoje eu não confio em amigos de infância. Hoje eu sei o que é ter um amigo. Ali você entende o que é respeitar o próximo. Sabe os seus limites. Aprendi a dar valor às coisas. Valor aos amigos. Valor à comida que temos. Valor aos banhos quentes, porque foram quase sete meses de banho gelado todos os dias”, desabafou.

Gringos - De acordo com Caio, a cada três minutos chegavam aviões dos EUA trazendo mantimentos. Ele elogia a atuação dos americanos e revela: “Fiz amizade com um soldado americano. A admiração que eles sentem pelo soldado brasileiro é incontestável. O equipamento deles não pesava mais que 10 kg. Eles viam a gente andanDepois de passar fédo com 30 kg. Vem daí a rias em casa, com a famíadmiração deles”. lia, ele se reapresentou No dia 21 de janeiro, ao Batalhão no dia 22 de sua missão no Haiti che- março. Tinha em mente gou ao fim. Hora de vol- permanecer no Brasil: “Acho que não vou querer tar para casa. voltar ao Haiti. Não sei Estaca zero - Ao todo, como vai ser, como vou Parissoto relata que fo- estar me sentido.” ram 15 tremores. Uma tragédia que pôs abaixo O soldado finalitodo o trabalho do exérza definindo o Haiti cito brasileiro e demais entidades que buscavam com uma frase: “Esmelhorar a vida do povo quecidos por Deus”. haitiano. “Tudo voltou E revela seus princià estaca zero. Vão levar pais desejos para o muitos anos para se repovo haitiano: “Em cuperar. Vão ter que reconstruir o país todo”, 1º lugar, paz. Em 2º saúde e em 3º Deus”. analisou.

Militar brasileiro que participou da Força da Paz da Onu e sobreviveu ao terremoto em Porto Príncipe fala da experiência no Haiti, “um país sem Deus”

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Fotos: Arquivo pessoal/Caio Cézar Parissoto

te dos olhos


CONTRACULTURA

Você tem fome de quê? Adriane Souza

O cérebro é o centro de comando do corpo humano. Executa tarefas desde o controle temperatura corpórea, raciocínios e sentimentos. Mas ele pode ir além. É o que afirma a metafísica brasileira Evelyn Torrence, integrante do grupo Viver de Luz. Esse organização é formado por pessoas que optaram em viver, ou viveram por um tempo, sem a alimentação comum de nossa civilização. O grupo acredita que os únicos limites da mente humana são aqueles que acreditamos ter. “Tendo o pleno controle do equilíbrio mente/corpo, é possível passar um período prolongado sem ingerir sólidos.

família de Steve e realizou exames médicos a pedido da Justiça. Todas as análises apresentaram resultados excelentes, segundo Evelyn. “A ex-mulher dele tirou o filho com apoio da família dele. E, no final, acabamos abrindo mão de tudo e viemos para o Brasil”, diz. Hoje, Evelyn diz que não possui mais hábitos alimentares, digamos, ortodoxos. “Não ingiro carne há 25 anos e evito os alimentos industrializados”, esclarece. Ela diz levar uma grande certeza pela vida toda: “Não morrerei se me faltar comida.”. Hoje ela diz comer apenas quando sente vontade, sem ser escrava de nenhum hábito alimentar.

O processo é simples, trata-se de um jejum prolongado, uma limpeza orgânica profunda”, comenta Evelyn. É isso mesmo: segundo esta teoria, o ser humano pode prolongar a ausência da ingestão de comida. Antes de explicar melhor a tese, é bom lembrar que a própria medicina considera outras fontes de alimentação do corpo que não o tradicional arroz com feijão: oxigênio, água e raios solares são essenciais à vida. Analisando por esse ângulo é um pouco mais fácil entender a idéia do “Viver de Luz”.

O que dizem os especialistas - O nutricionista Luís Ricardo Alvez revela que nosso cérebro se desenvolveu devido a ingestão de proteínas como carnes e peixes. “O cérebro humano realmente é capaz de coisas fascinantes, porém, ficar sem se alimentar é um retrocesso na evolução humana. A falta de ingestão de proteínas acabaria levando o indivíduo ao óbito no máximo em 3 meses. Toda a evolução da vida do nosso planeta está relacionada e ingestão de alimentos. Os animais caçadores evoluíram para ficarem mais fortes e rápidos. Até os animais precisam ingerir alimentos. As células do nosso corpo são dependentes dos alimentos para realizarem todas as suas funções. Precisamos de energia para viver e no caso mamíferos essa energia vem dos alimentos.

Os passos - “Na primeira semana, retiram-se todos os sólidos e líquidos, inclusive água. É a parte mais difícil, chamamos de travessia do deserto. Neste período provamos que estamos dispostos a realizar a limpeza orgânica, astral e espiritual. Na segunda semana ingerimos água e sucos diluídos a vontade. Na terceira semana ingerimos água e sucos de frutas naturais. Depois disso é escolha de cada um comer ou não”, explica a metafísica. Ela decidiu realizar esta experiência para acompanhar o marido, o norte-americano Steve Torrence. “Paramos de comer em abril de 1999 e continuamos somente nos líquidos por mais três anos”, conta Evelyn. Preconceitos - Contar para a família, segundo a metafísica, foi mais complicado do que a “dieta”. Evelyn lembra que só informaram do novo estilo de vida quando estavam terminando a experiência. “Minha família me conhece e sabe que vivo de experiências metafísicas, mas a família de Steve me acusou de assassina e bruxa. Falaram que o hipnotizei para ele parar de comer e me dar tudo o que ele tinha nos Estados Unidos... que eu era uma aproveitadora brasileira”, relata. O casal foi processado pela

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Perigos - Já Adriana Campos, psicóloga especializada em Saúde Mental Clínica, diz não poder afirmar se tal controle mental é impossível de ser feito. “A mente pode ser treinada a controlar muita coisa sim e o que pensamos e sentimos interfere em nosso sistema biológico e imunológico”. Adriana acha que é um comportamento difícil de ser sustentado por muito tempo, por outro lado, o cérebro é muito complexo e ele demanda coisas que não conseguimos controlar totalmente. Ela alerta: “Pode surgir outros sintomas pra compensar a desregulação fisiológica, ou seja, somos “interligados” mente e corpo. Então pode ser que ela esteja conseguindo controlar a necessidade de ingestão de comidas sólidas, mas vão aparecer outros problemas de saúde mais tarde, como arritmias cardíacas, problemas respiratórios, queda de cabelo, problemas renais e digestivos e outros efeitos “colaterais” que, no primeiro momento, podem não ser associados a esse comportamento.”.


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Geraldão ficou órfão Glauco deixa como legado traço “rock’n roll ” e linguagem direta que influenciou gerações

Falemos agora de um grande observador da realidade brasileira e que nos deixou no início de março: o cartunista Glauco. A morte dele e do filho Raoni foi violenta: assassinato a sangue frio, segundo testemunhas e também o que indica as investigações policiais. mas deixemos o factual por conta do jornalismo diário. Vamos tentar resumir aqui o quanto o criador do “Geraldão” influênciou gerações. Glauco Villas Boas nasceu em Jandaia do Sul, no Paraná, em 1957. Ele era da família dos sertanistas Orlando, Claudio e Leonardo Vilas Boas. Como cartunista, publicou seus primeiros trabalhos em 1976, no “Diário da Manhã” de Ribeirão Preto, e em 1977 ganhou seu primeiro prêmio no Salão do Humor de Piracicaba. 

Ainda em 1977, passou a fazer parte do elenco de cartunistas do jornal “Folha de S. Paulo”, onde consagrou personagens como Geraldão, Geraldinho, Dona Marta, Zé do Apocalipse, Casal Neuras e Doy Jorge.

gas e violência urbana. Em 1991, participou ao lado de Angeli e Laerte da criação da tira “Los 3 Amigos”, uma brincadeira do trio de cartunistas com o universo dos filmes de bangue-bangue e seu retrato dos personagens mexicanos. Na TV - Glauco também fez parte da equipe de redatores dos programas “TV Pirata” e “TV Colosso”, da Globo. Atualmente, Glauco publicava tiras diárias e charges no jornal “Folha de S. Paulo”. Seus quadrinhos antigos vinham sendo republicados por editoras como Opera Graphica e L&PM.

Há anos Glauco morava em uma chácara nas proximidades do Pico do Jaraguá em São Paulo, onde também mantinha um centro de ritual do Santo Daime. Sua opção pela vida na serra em oposição à vida urbana era citada com frequência nas tiras do Cacique Jaraguá. Glauco retratava ainda a violência nas cidades através das HQ do personagem Faquinha.

Personagens neuróricos e ‘tarados’ marcaram as criações do cartunista

Em uma entrevista publicada na “Folha de S. Paulo” em 2004, Glauco lamentou a suposta falta de sintonia com as novas gerações. “Meu traço

Dono de um traço marcante e de um estilo de humor ácido e de piadas visuais rápidas, Glauco criou personagens que não é bom para rede certa forma repretratar o futuro. Corro sentavam suas próprias experiências na São Pau- o risco de não falar a lo dos anos 1980: com língua da moçada.” referências a sexo, dro- (da Redaçao)

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O Arauto 14  

O Arauto, Jornal-Laboratorio da FCA-CEUNSP. Edicao de abril de 2010.

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