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Aqui ao lado

Aqui ao lado Para nos afastarmos, nem sempre precisamos de ir para longe. Saber esperar A lua nova não traz grande luz na pista de areia que percorro entre o pinhal. Depois de algumas horas a tentar adormecer na nossa tenda dupla, desisti de esperar pelo fim da animação vizinha. Com os timbales e pandeiretas em fundo, levanto-me e dirijo-me para a praia. As chaminés da arriba fóssil da Praia da Galé crescem como ninhos gigantes de térmitas. A fraca luz da noite não me permite recrear as tonalidades que nos deixaram boquiabertos no final do dia. As chapadas de sol laranja transportaram-nos para outro local, impossível de ser nesta Terra, assegurávamos. Rapidamente, a desilusão nocturna é substituída pela nova descoberta pessoal. Colunas fantasmagóricas erguem-se, alinhadas como sentinelas ao longo da arriba. Os contornos ténues e diluídos acrescentam-lhes agora uma nova dimensão. Uma diferença de horas bastou para que o conhecido seja na realidade um estranho. E bastou saber esperar.

–1– 2010 © José Bragança Pinheiro (http://clipfile.weebly.com)


Aqui ao lado Lusco-fusco A hora do dia mais injustiçada é porventura a que sucede o pôr-do-sol. Atordoados pela lamechice das ondas de Sol mornas e lânguidas, segue-se um período de anti-climax. Arriscamo-nos a ouvir “Muito giro. Vamos embora?”. O frio começa a morder. A tendência é bater em retirada, como se as nossas vidas dependessem da fotossíntese. Que melhor altura para puxar daquela manta esquecida na bagageira do carro? Enrolamo-nos nela e deixamos as pupilas crescerem como as de um gato predador na noite. A vegetação rasteira de salva e chorão florido de azul e amarelo abandona-nos. Esquecemos os olhos e abrimos as narinas. As cores são rendidas pelos aromas do tomilho-limão selvagem e do alecrim, condimentados pela sugestão de sal. Small Canyon O acesso do parque de campismo à praia faz-se por um caminho surpreendente. Damos por nós soterrados entre paredes de areia, circulando em sulcos. O inverno recente trouxe torrentes de água e abriu sulcos de uma dimensão pouco usual. Construiu um labirinto de paredes de areia e raízes expostas. Vencido o desafio, o espólio é a praia, deserta como nas brochuras de agência de viagem. Não há coqueiros, nem piñacoladas. Não há gritos nem relatos de futebol aos berros em rádios de pilha. Há areia e mar. Fizemos a ligação do ferry até Tróia quando as nossas sombras sonolentas se começam a deitar. À direita o cenário excepcional da Arrábida cresce nas ondas do Atlântico, em camadas de gradientes azuis. Alimentamos um desejo ingénuo, escondido, de vislumbrar nas águas do Sado um golfinho-roaz de outros tempos. O cais em Tróia emerge do arvoredo, para pousar na estreita língua de areia da praia estuarina. Atarefados na lufa-lufa da chegada, quase passa despercebido. Parecemos ter receio de verbalizar certezas, à força de soar a lugar-comum, a cliché: este é o cais mais bonito de Portugal.

–2– 2010 © José Bragança Pinheiro (http://clipfile.weebly.com)


Aqui ao lado Na estrada ao longo da restinga rolamos por aldeias que não imaginámos ainda existirem. Para sentir o aroma dos juncos e dos arrozais, levanto a viseira e arrisco a chuva de mosquitos na cara, fruta da época. O sol reflecte-se nos espelhos de água e, por momentos, imagino ver um personagem de chapéu cónico, dobrado sobre o arroz, num cenário do sudoeste asiático. -§Nos dias de hoje, encontrar um balão sobrevoando a Capadócia numa qualquer revista de viagens é mais que uma probabilidade: é uma certeza. Quase tão grande quanto a de teimarmos em não descobrir Portugal em cada dia. Se precisar de uma desculpa e quiser muito ser popular nas conversas de escritório junto à máquina de café, diga que o faz a pensar na pegada ecológica. Não há gases de aviões em voos intercontinentais nem longas tiradas a 180km/h na autoestrada. À chegada a casa no regresso dou por mim a cutucar o contaquilómetros. Apenas 80km? Está decidido: vou colocar uma nova tarefa na minha lista de afazeres: sair com um Guia de Portugal no bolso.

Imagem da Arriba Fóssil da Praia da Galé Exercício de escrita (22 de Maio de 2010). Objectivo: exercitar a escrita de viagens. Tema: Escapada de fim-de-semana em moto, acampando junto à praia alentejana das Fontainhas. Coordenadas: N38.205932,W-8.776467

–3– 2010 © José Bragança Pinheiro (http://clipfile.weebly.com)


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