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Escrever Escrever

A Amante

A Amante “E se ela não gostar de mim?” “Mas porque é que eu me meto nisto?”, dou por mim a pensar enquanto tento estacionar a moto no buliço do Chiado. “Será que irá gostar das minhas conversas?” E sentirá orgulho quando me mostrar aos seus amigos? Ao tirar as luvas reparo que as mãos me tremem. “Já não tenho idade para estas coisas.” A minha vida está organizada; sou casado e tenho as minhas rotinas estáveis. Precisarei mesmo de arriscar nesta nova relação? Estaco em frente do 36. As mãos suadas mal seguram o capacete. Toco à campainha e sobressalto-me com o disparo seco da resposta. A porta entreabre-se, lenta sobre os gonzos cansados. Ao fundo, uma escadaria escura sobe. “Vai ser bom”, tento convencer-me em cada degrau. “Tu mereces!”. No cimo, uma porta. Branca. De todas as cores, logo aquela que me assombra o caderno. Nela apenas se lê uma palavra. E, como num feitiço mágico, repete-se duas vezes: Escrever. Sei que ao entrar me vou enamorar dela, da Escrita. E acalento uma imagem: velhinhos, à lareira, folheando as nossas viagens juntos. 2010 © José Bragança Pinheiro (http://clipFile.weebly.com)


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