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TREVLasca 2016 Alasca — EUA


ÂŤSpace OddityÂť

A banda sonora recomendada para acompanhar esta leitura leva-nos para o espaço sideral, nas vozes de David Bowie e Kristen Wiig.


Alasca 49.º estado dos EUA

Lema:

«North to the Future» (oficial), «The Last Frontier» (alcunha)

Área total: 1 717 856 km2 (~17x Portugal, 1.º EUA) População: 742 mil hab. (est. 2016, ~7% Portugal, 48.º EUA) Densidade pop.: 0,5 hab/km2 (50.º EUA) Capital: Condução: Moeda:

Língua:

Fuso horário:

Integração nos EUA:

Juneau Direita US dollar (USD) (1 euro ~1,12 US dollar) Inglês (87%), Alasca nativo (5%), Tagalog (3,4%), Espanhol (3%) Alaskan Standard Time (AKST/AKDT) (UTC-9/-10, -8/9 h Portugal GMT) 3 de Janeiro 1959


Glaciar o branco-azul

7 p.

40 p.

49 p.

23 p.

89

Aurora borealis “hatcher’s pass”

99 p. p.

McCarthy “saloons” e bordéis

p.

Pagaia um caiaque e um nariz gelado

111

Motos dois modelos bem distintos

69

Selvagem ursos pardos, alces e águias-carecas

p.

Dalton a rota do “camionistão”

79

Estradas do ártico às minas de cobre

p.

Rota para cima, para baixo e para o lado


Oceano Ártico Prudhoe Bay Hotel

Rio Sag

Campismo

Rio Yukon Historic Alaska Railroad Depot

Crow’s Nest

Hatcher’s Pass Lodge

America Best-Value Inn Executive Suites

Rio Nenana

Nelchina Lodge

Majestic Valley Wilderness lodge

Kennicott River Lodge & Hostel

Best Western Valdez Harbor Inn

Driftwood Inn

Van Gilder Hotel

Golfo do Alasca

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Rota

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Oceano Ártico

C

om a chegada a Anchorage, a maior cidade do Alasca — ainda que não seja a capital — começamos a ter contacto com as pequenas coisas que são imagens associadas às urbes estado-unidenses, como os dinners, as ruas amplas feitas de prédios baixos onde a arquitectura parece ser um luxo raramente empregue, e as pick-ups de tamanhos exagerados. Começamos a subida em direcção ao Ártico, na ânsia de aproveitar ao máximo os últimos dias de Verão,

desejando que a Dalton Highway esteja em boas condições. No final da curta etapa acabamos a dormir em Nenana, a algumas dezenas de milhas de Fairbanks, numa antiga estação de comboios, preservada como museu e estalagem, que nos deparamos fechada à nossa chegada. No bar próximo de Caty, o veterano Bob liga para Bo, o curador, para que nos venha abrir as portas e receber o pagamento para uma noite. A espera é feita debaixo de picadas dos inúmeros mosquitos acordados pelo pôr-do-Sol na proximidade do rio Nenana. O interior da estalagem está mantido para lembrar como era uma estação de comboios antigamente

Rio Sag

Rio Yukon Historic Alaska Railroad Depot

Nenana 0 0 4 9 0 km

Canyon

Dia

Rio Nenana

Historic Alaska Railroad Depot

Nanar na Nenana

01

Air France AF1125 Lisboa 14 AGO 06:00

Delta Airlines DL0033 Paris 14 AGO 10:30 (+1h)

! Delta Airlines DL0037

Seattle 14 AGO 14:50 (-8h)

Anchorage 14 AGO 15:30 (-9h)

Caswell Camp

Anchorage Gwennie’s Old Alaska 15 AGO America Best-Value Inn Executive Suites

Golfo do Alasca

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! À chegada a Anchorage não há sinal das nossas malas e, com elas, todo o equipamento de moto. Durante a madrugada chegariam, depois de alguma ansiedade sobre se precisaríamos de adiar a partida e «perder» um dia em Anchorage, parados.

Terra Pavimentada


Motoquest (Spenard Road, Anchorage)

America Best-Value Inn Executive Suites

Enquanto esperamos por Bo — o curador do museu/pousada que irá abrir a estação para nos instalarmos —, os mosquitos atraídos pelo rio Nenana ao final do dia atacam em força, trazendo alguns quadros bizarros ao de cima na tentativa de esconder o máximo de pele possível. (@Nenana, Historic Alaska Railroad Depot)

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Yukon River Camp

! A norte de Fairbanks a gasolina é escassa, desafiando a autonomia de depósitos de motas convencionais. Um jericã resolve, atestado em Yukon River Camp a 1 dólar por litro ($4,6/gal), o dobro do preço normal.

Em Fairbanks reencontramos as mesmas opções de pequeno-almoço de Anchorage. As variações são entre o «hash-brown», panquecas, «bacon», molho branco, ovos e um pão branco. (@Fairbanks)

Café do Yukon River Camp

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Oceano Ártico

Terra

A

Pavimentada

fixação pelos locais extremos como «O mais a sul/norte, o mais elevado», são o resultado de linhas imaginárias, frutos da imaginação e engenho do Homem, mas que carregam um simbolismo de superação e concretização. É o caso do Círculo Polar Ártico, um paralelo que congrega todos os pontos acima do Equador nos quais o Sol não se põe durante o dia do Solstício de Verão.

Rio Sag

Coldfoot 0 1 0 0 0 km

Campismo

Começamos a entrar no território que chamámos «Camionistão», atravessado por uma estrada que apenas existe por e para eles. Tudo aqui é feito à sua medida e respeito, desde a estrada às (poucas) paragens e serviços existentes. Os preços sobem ao ritmo que as temperaturas descem, com a gasolina a dobrar os valores e as estadias a roçarem o escandaloso, destinadas a serem suportadas pelas empresas de transportes e da exploração do gasoduto

Circulo Polar Ártico ! Yukon River camp

Rio Yukon

Fairbanks Historic Alaska Railroad Depot

Nenana

Rio Nenana

Cruzando o Círculo Polar Ártico Anchorage

Golfo do Alasca

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Dia

02


N

a primeira noite de campismo, fizemos uso do amplo relvado defronte do Frozen Foot Saloon de Coldfoot. Pareceu uma boa ideia enquanto montámos as tendas, não fora estarmos no «Camionistão». E aqui os motores não se calam, nunca. A noite é feita dos potentes motores diesel a trabalhar ao ralenti para manter aquecidas as cabinas dos camiões onde os condutores dormem. Também para eles, pagar $200 por noite e pessoa no «hotel» de

Prudhoe Bay Hotel

Coldfoot parece demasiado, numas instalações que lembram uma estrutura de contentores acoplados para oferecer uma cama e WC partilhado.

Deadhorse 0 1 4 0 0 km

Oceano Ártico

! Gates of the Artic National Park and Preserve

Continuamos a subida para Deadhorse num caminho feito de obras e muitas paragens, altura para entabular conversa com os trabalhadores e ver alguma da vida selvagem que vai adiando o rumo a Sul, com a mesma teimosia que o Verão se arrasta este ano. As horas com luz do dia continuam a aumentar até perto das 22h, ainda que já não tenhamos «Sol da meia-noite»

B

Artic National Wildlife Refuge

C Rio Sag

B

Boi-almiscarado

Através dos binóculos de Jonathan vemos o nosso primeiro boi-almiscarado («musk ox») a apenas meia centena de metros das motos e da estrada.

Campismo Coldfoot

C

Caribu

Talvez o animal mais caçado no Alasca, pastam em manadas ao longo das margens do rio Sag. Rio Yukon

Dia

03

! Subir o nível da estrada em mais 6 metros foi a saída para as invasões anuais do delta vizinho do rio Sag. Enquanto as obras progridem na curta janela de tempo possível, a chegada a Deadhorse é anunciada por um cartaz ameaçador — «Motorcyclists use extreme caution».

Uma estrada que não pára de crescer

Rio Nenana

Anchorage

Golfo do Alasca

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Terra Pavimentada


Dalton Highway

Coldfoot «Frozen Foot Saloon»

Campismo em Coldfoot

Junto à placa que assinala o início da (James) Dalton Highway — «Gateway to the Arctic, The Road to Prudhoe Bay».

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Prudhoe Bay Hotel

Apenas se entra no Prudhoe Bay Hotel depois de limpar bem os pés e calçar uns sacos de plástico azuis sobre os sapatos ou botas. Os quartos são simples com uma cama mole, uma pequena casa-de-banho e a janela para o parque de estacionamento e rua principal de Deadhorse, a ver os pequenos aviões levantarem voo.

Cantina do Prudhoe Bay Hotel

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Deadhorse

Terra Pavimentada

À

Oceano Ártico

Prudhoe Bay Hotel

! A transmissão da V-Strom começa a desistir, perdida a batalha com o cloreto de cálcio. Este é usado na Dalton Highway para evitar formação de gelo, tornando-o contudo muito escorregadio quando molhado, além de corroer os «O-Rings» das correntes, mesmo sendo menos agressivo que o sal convencional (cloreto de sódio).

Rio Sag !

Campismo

chegada a Deadhorse não disfarçamos algum desapontamento, ainda que nada mais se podia esperar do que as ruas lamacentas de terra e os armazéns disfarçados de edifícios. Em frente ao aeroporto, o Prudhoe Bay Hotel é um desses exemplos, o qual parece viver em negação, repetindo para si mesmo — Eu sou um hotel. Eu sou um hotel... Não há mais motos por aqui, apenas pickups enormes e muitos camiões.

Wiseman 0 1 8 0 0 km

Wiseman é um pequeno ajuntamento de casas de madeira imerso na floresta que ocupa os meandros do rio. Mas as poucas vagas que oferece estão tomadas, pelo que acampamos a alguns quilómetros de Coldfoot.

Depois de um banho e de jantar entre os condutores e trabalhadores que vivem do que o gasoduto transporta, o passeio confirma a primeira imagem que tivemos. Uma placa dentro de uma pequena lagoa lembra que o acesso ao Ártico está condicionado e carece de autorização especial. Desejámos ter-nos preparado melhor para que pudéssemos cumprir esse «check» mental, mas pouco havia a fazer — o Inverno chegava amanhã pelas previsões que nos dizem. Está na altura de apontar de volta ao Sul

Rio Yukon

Rio Nenana

Tudo o que sobe... Anchorage

Golfo do Alasca

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Dia

04


Oceano Ártico

A

estrada estende-se até à linha do horizonte onde as montanhas a engolem. Parece perto, mas ainda estamos longe delas e das nuvens carregadas que lhe servem de chapéu. A nosso lado, o oleoduto corre incansável. Na berma da estrada, junto a este, vejo uma imagem de urso erguido sobre as pernas. — Que local estranho — dou por mim a pensar — para alguém colocar uma publicidade com um urso. Até que o «anúncio» se mexeu, rodando a cabeça. — Um urso! — dizemos em uníssono, enquanto procuro imobilizar a mota. Havíamos lido as recomendações todas sobre como lidar e nos comportar na presença de um. Trazíamos no saco de depósito uma lata, semelhante a um mini-extintor, com um rótulo onde se lê

Dia

05

«Repelente de Ursos», emprestado pela MotoQuest em Anchorage. Mas a excitação levou a melhor e damos por nós a inverter a marcha para o ficarmos a ver, o nosso primeiro. Guardámos uma distância respeitável que nos permitisse desligar o motor, ignorando mais uma medida de segurança. Ali estava ele, ainda. Mantinha-se erguido, avaliando-nos melhor à nossa altura. Longe das dimensões de um Kodiak, este jovem urso pardo seria pouco mais alto que nós. Um urso preto — mais agressivo — recomendaria cautela acrescida na aproximação. Este grizzly opta por evitar o confronto, volvendo para os arbustos onde retomará a sua procura incessante pelas últimas bagas, antes do Inverno. Oferece-nos as suas coxas — rechonchudas e dignas do mais fofo dos peluches — enquanto se afasta. Olha uma última vez para nós por cima do ombro antes de ser engolido pela vegetação que o esconde à justa

Rio Sag U

Urso-pardo Campismo

Não há como o primeiro. Levantada a tenda uma dúzia de milhas atrás quando, na berma da estrada, uma figura erguese sobre os pés — não parece real, mas é — um jovem-adulto urso pardo.

Coldfoot

U

Yukon River camp

Rio Yukon

49th State Brewing Company Crow’s Nest Rio Nenana Canyon 0 2 4 0 0 km

Um urso pardo à mão de semear Anchorage

Golfo do Alasca

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Terra Pavimentada


«Eu tinha dito que, para a fogueira, precisávamos de pauzinhos, Zé...»

Depois de tentarmos arranjar forma de colocar um tronco de pinheiro inteiro na fogueira, contemplamos a única comida que tínhamos para colocar ao lume... uma maçã.

49th State Brewing Company

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O nosso condutor até Eielson foi uma diversão em si mesmo.

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Oceano Ártico

Terra

D

Pavimentada

ecidimos dormir duas noites em Canyon, junto ao parque nacional de Denali, permitindo-nos tempo para um dia de passeios a pé para esticar as pernas, e outro para ir até Eielson, estação terminal da visita de autocarro que adentra no parque até bem próximo do monte Denali.

Rio Sag

— Estão a ver estas ravinas? — pergunta-nos Matt, o nosso guia/ comediante/ condutor de autocarro, que não tinha na realidade duas cabeças, como parece na fotografia. — Cientistas determinaram que, se um autocarro se despistar aqui, dará 10 voltas antes de chegar lá abaixo —, conforta-nos enquanto fazemos mais um gancho apertado na estrada de terra. — Eu aposto que consigo em 7 cambalhotas — remata

Rio Yukon

Denali National Park and Preserve

Canyon Crow’s Nest U

Eielson

C

A

Rio Nenana

Monte Denali (6190 m)

O autocarro dos ursos Anchorage

Golfo do Alasca

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Dia

06


Oceano Ártico

O

dia ia longo. Uma boa parte foi feita a percorrer a Denali Highway debaixo de chuva. Este estava a ser o dia mais frio até agora, onde o vento e a chuva nos enregelava os ossos. As opções de paragem são poucas — duas, na verdade — e, deixando a primeira fugir, subimos a ladeira para encontrar o Triple Bob Bar.

— Na história do lodge existem três Bob — explica-nos Claude, por detrás do balcão. Para beber uma bebida quente, sugere, o melhor é subirmos ao andar de cima. O café quente é oferecido no Alpine Creek Lodge ao viajante, tomado nos confortáveis sofás de pele em volta da salamandra, cujo lume enche a sala, enquanto fazemos festas na barriga do pequeno rafeiro que chama casa a este local. Juntam-se mais, atraídos

Rio Sag

Rio Yukon

Canyon Crow’s Nest

Rio Nenana Alpine Creek Lodge

Cantwell

Dia

08

No território de caçadores

! No único dia de chuva continuada da viagem, o frio ataca protegido do Sol pelas nuvens e ajudado pelo vento.

! Meiers Lake Roadhouses Sheep Mountain lodge

Anchorage

Glenallen

Majestic Valley Wilderness lodge 0 2 9 0 0 km

Golfo do Alasca

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Terra Pavimentada


pela coluna de fumo que se avista o longe. São os caçadores de pistolas e longas facas à cintura, vestidos de camuflados e bonés de pala — homens, mulheres e crianças — relembrando que a tradição da caça é forte no Alasca. Tomamos a enlameada estrada para mais uma tirada, mais frio, mais chuva. Parece não terminar. Desejávamos Paxson, mas esta revelou-se pouco mais que uma mão-cheia de celeiros e armazéns. Forçamos até chegar ao Meiers Lake Roadhouse onde Linda nos recebe com uma sopa quente de carne, aipo e batata. — É a nossa função — diz Linda, enquanto dispõe na pequena mesa junto à parede um tabuleiro com a fornada fumegante de muffins de mirtilos ou chocolate —, aquecer e pôr-vos confortáveis para regressar à estrada. — Missão cumprida, Linda — dizemos entre dentadas no muffin que vai escorrendo a calda azul. — Missão cumprida. Regressamos em direcção à Glen Highway, agora quentes e mais cómodos, para fazer uma das estradas mais panorâmicas do Alasca, vizinha dos vales glaciares avistados acima da linha da floresta

Triple Bob Bar, Alpine Creek Lodge

Meiers Lake Roadhouses

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Majestic Valley Wilderness lodge

Sheep Mountain Lodge

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Oceano Ártico Terra

C

Pavimentada

lara recebe-nos no Majestic Valley Wilderness Lodge recomendado pelo Kevin da Motoquest. Para as duas noites, acabamos a escolher a cabina de madeira com o nome de «Grizzly Cabin», situada no generoso e bem cuidado jardim com vista para a cadeia montanhosa de MatanuskaSusitna (Mat-Su).

Rio Sag

No dia seguinte, fomos explorar a pé o glaciar Matanuska terminando a comer tartes de ruibarbo e de maçã no vizinho Sheep Mountain Lodge (ao qual voltaríamos duas vezes para uma recarga). Em volta, pouco mais sinais de casas há ao longo da Glen Highway, pelo que regressamos a pé ao longo da distância de 3 milhas que os separa depois de um banho quente no jacuzzi ao ar livre

Rio Yukon

Rio Nenana

Sheep Mountain lodge Matanuska Glacier

Um glaciar frio e um banho quente

Majestic Valley Wilderness lodge

Anchorage

Golfo do Alasca

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Dia

09


Oceano Ártico

E

ste foi o último dia com as primeiras motas, apontando a Anchorage para substituir pelas pequenas Cyclone e, sem grandes demoras na trasfega da bagagem, rumar para a península de Kenai. Debaixo de um dia nublado com alguma chuva no final à chegada

a Homer, não nos permitiu ver do outro lado do golfo a península de Katmai enquanto percorremos a Sterling Highway, numa viagem interrompida inúmeras vezes com circulações alternadas devido a obras. Instalados no acolhedor Driftwood Inn em Homer, jantamos a uma dezena de metros do outro lado da rua no AJ’s OldTown Steakhouse & Tavern para experimentar o caranguejo do Alasca

Rio Sag

Rio Yukon

Rio Nenana

Marmota

Dia

10

Trocar de moto e rumar a sul

Salmão

Junto ao cais de Homer, os mexilhões repousam sobre a barriga peluda da marmota, antes de serem quebrados e comidos.

S Sheep Mountain lodge

M Anchorage 0 3 1 0 0 km Península de Katmai

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A estrada corre junto com o rio onde o salmão procura subir a corrente no esforço derradeiro para desovar.

Majestic Valley Wilderness lodge

S Península de Kenai

Homer Driftwood Inn 0 3 4 5 0 km M

Golfo do Alasca

Terra Pavimentada


M Uma marmota disfarça-se de tronco no porto de Land’s End (fotografia acima, e não à esquerda). É na península de Kenai que uma boa parte dos operadores organizam os vôos para a vizinha península de Katmai e aí verem os ursos em acção dentro dos rios a fisgarem salmões... a 2 mil euros o bilhete...

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Land’s End

A grande literatura atrai a Nélia, enquanto folheia o «best-seller» de Robert Newton Peck, «A Day No Pigs Would Die».

La Baleine Café, Homer

Gwin’s Roadhouse

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Oceano Ártico

Terra Pavimentada

Rio Sag

Rio Yukon

Rio Nenana

Homer a Seward

Anchorage Hope

Van Gilder Hotel Driftwood Inn Land’s End

Seward 0 3 7 5 0 km

Golfo do Alasca

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Dia

11


A

Oceano Ártico

Portage Glacier Road parecia terminar num pequeno buraco negro escavado numa enorme parede de pedra de onde emergem duas linhas curvas cintilantes. O buraco é na verdade o túnel Anton Anderson Memorial e para nós assume personalidade de vórtice tirado de um episódio de Star Trek, entrando nele com tempo cinzento, carregado, e saindo para um dia limpo de céu azul, às portas da pequena Whittier. Na base do

Passage Canal, vive virada para o mar, construída em volta e ao serviço do porto, o mesmo que nos atraiu até aqui para embarcar no Aurora, o ferry que percorre o golfo Prince William Sound e nos largaria em Valdez, no coração da reserva natural Wrangell-St. Elias. Levantamos os ingressos na bilheteira e, depois de fazer tempo no café em frente ao mar, alinhamos as motos no parque para embarque. Para nós, reservaram-nos os primeiros lugares na linha mais próxima do espelho calmo da baía natural. Sentamo-nos contra a

Rio Sag

Rio Yukon

Dia

12

Cruzando as águas geladas

Anchorage Whittier Exit Glacier Seward

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Van Gilder Hotel

Best Western Valdez Harbor Inn Valdez 0 4 5 0 0 km

Wrangell — St. Elias National Park and Preserve

Prince William Sound Golfo do Alasca

Terra Pavimentada Água


Exit Glacier

A bordo do «Aurora» nas águas do golfo de Prince William Sound

Exit Glacier

Seward

Van Gilder Hotel, Seward

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pequena protecção, dando as costas à água para assim ver a montanha envolvente que isola a pequena vila. O glaciar no topo, encaixado na portela que fizera para si mesmo, entrega-se de corpo e alma a reflectir os raios de sol. Desta luta nasce uma pujante cascata que se despenca bem acima da linha de telhados. Enquanto aproveitamos o cenário de excepção vão chegando os demais companheiros de viagem marítima. Brigitta e Viola abandonam o seu Jeep e aproximam-se de mim, movidas pela curiosidade que os viajantes de mota parecem emanar. A mãe reformada e a filha decidiram viajar durante várias semanas pelo Alasca. — É um pouco como a nossa terra — responde Viola, quando lhe pergunto como tem sido —, mas tudo é maior. A escala das montanhas, dos vales e planícies é outra. Mas muito plano — remata. Sendo suíça, sente falta das caminhadas alpinas, lamenta. Ambas parecem mais interessadas em ouvir que falar. Rimo-nos enquanto conto as peripécias do Matt aos comandos do autocarro no parque de Denali e das anedotas infantis de Lizzie, os encontros com ursos, caçadores e camionistas. Os anos em Brigitta não disfarçam a mulher deslumbrante que terá sido, com olhos cheios de vida, curiosos, inquisitivos. Viola, escondendo a beleza que herdou por trás dos óculos e um penteado que lhe cobre a cara, parece mais recatada, mas apenas por comparação na sombra da mãe. Optaram por um carro alugado para percorrer o estado, mas não subiram a norte de Fairbanks, elogiando a determinação

da nossa escolha, mas como algo que as via fazer — fiquei com a ideia que tinham esse sentido aventureiro. Desculpando-se — algo tristes por interromper a conversa — regressam ao carro onde, entretanto e vestindo uma farda de alta visibilidade, uma enérgica mulher nos seus cinquenta adianta trabalho, percorrendo as filas de carros, caravanas e camiões que aguardam a chegada do Aurora. Vai pedindo os documentos e distribuindo etiquetas para colocar visível algures na viatura até que chega a nossa vez.

— Tempo maravilhoso, verdade? — abordanos Elizabeth, semicerrando os olhos como quem saboreia o calor dos raios de sol na cara. Este era o primeiro dia com Sol, desde há cinco semanas, conta-nos. — Não precisa agradecer — respondemos.

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— Trouxemos connosco o bom tempo. — De onde são? — pergunta-nos, sorridente. — De Portugal — devolvemos, enquanto lhe entregamos os bilhetes. — A sério? Que giro! — abre ainda mais o sorriso. — Eu sou 11 % portuguesa. Não fujam, que já cá volto — deixa no ar, enquanto regressa para despachar o serviço nos demais passageiros. Entreolhamo-nos, pasmados com a precisão ancestral. Não era dez, nem vinte — ou mesmo quinze —, mas sim onze por cento. Podia ser o resultado de um algoritmo duvidoso de algum teste das redes sociais, como aqueles que determinam termos sido Genghis Khan noutra encarnação, descendentes de Aníbal (o general cartaginense, não o Cavaco) ou a personalidade da Barbie. Aurora chegava e da sua barriga saíam pessoas caminhando, camiões que parecem demasiado grandes para ter viajado nela e casas em forma de caravanas que nos habituámos a ver por todo o Alasca. Com a sua chegada a animação aumenta no parque e vemos Elizabeth apressar-se para garantir que tudo estaria pronto do seu lado. Engolida no mar de jipes e atrelados, vemo-la desaparecer entre as vagas que se repetiam. — Vemo-nos lá dentro — atira-nos um piscar de olhos, como num fôlego de náufrago, desejosa de continuar a história com os conterrâneos de 11 % dos seus antepassados. Não nos voltaríamos a encontrar, nem Elizabeth nos relevaria a facilidade com que se poderia ter chamado Elisabete


D

Oceano Ártico

Terra

ecidimos parar em Valdez por um dia, estendendo a dormida no Best Western Valdez Harbor Inn (aparte — mas não conseguirão arranjar nomes mais curtos para os hotéis?). O objectivo seria andar de caiaque por entre os icebergues na baía de Columbia, uma oportunidade que a cada dia que passa se torna mais especial, dado o ritmo que estes estão a desaparecer. Fechadas as lojas à hora que chegámos no dia anterior,

Pavimentada

Rio Sag

logo cedo de manhã corremos para procurar reservar e partir numa das duas referências que tínhamos. Teríamos de ser rápidos, pois os barcos partem cedo para aproveitar ao máximo o dia, havendo alguma distância para vencer até à baía. A Margarida e o João optam por não alinhar na saída náutica, utilizando o dia para visitar as imediações de Valdez. Apesar de ser cara a experiência — a Anadyr Adventures cobra $260 por pessoa, com material e equipamento incluído — avançámos e, no final, foi um dos pontos altos de toda a viagem

Rio Yukon

Rio Nenana

F L

Columbia Glacier Anchorage

F

Focas e leões-marinhos Num dia de Sol, os leõesmarinhos aquecem-se sobre uma bóia, enquanto as focas espreitam à tona da água gelada dos icebergues de Columbia, intrigadas com os caiaques.

De pagaia na mão e gelo no nariz

Valdez

L

Golfo do Alasca

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Dia

13


À

Oceano Ártico

saída de Valdez, o glaciar homónimo termina num pequeno lago de igual nome, ao qual se chega por uma estrada de terra. Esta era uma das opções disponíveis para andar de caiaque — cerca de metade do valor —, desaconselhada pelo dono da Anadyr por causa dos ventos fortes que haviam estado nesse dia. E em boa hora, pois empalidece por comparação com Columbia, em dimensão e impacto visual. Ainda tivemos tempo para

ir até à maternidade de salmão que mais parecia uma «mortandade», sendo aí que termina a vida de muitos peixes depois de longas e duras viagens contra a corrente dos rios. Seria esse o dia para rodarmos em duas das melhores estradas (Edgerton e McCarthy), pela paisagem envolvente do parque nacional e reserva natural de Wrangell-St.Elias — classificado pelo Kevin «Motoquest» como a zona mais bonita de todo o Alasca. Abastece-se em Chitina a preços inflaccionados — daí em diante não há muito mais civilização

Rio Sag

Rio Yukon

Dia

14

A Edgerton Highway termina em Chitina, mas é no seu início, saindo da Richardson com a cordilheira de Wrangell à nossa frente, que a magia acontece. Recebem-nos três dos seus guardiões de longos cabelos brancos —Sanford, Wrangell e Blackburn.

Wrangell - St. Elias e uma águia-careca

Águia-careca Rio Nenana

A apenas dois metros, a enorme ave de rapina levanta vôo e, enquanto o tempo pára, vemos o bater de asas em câmara lenta. E

Glaciar Valdez

Wrangell — St. Elias National Park and Preserve E Kennicott

Anchorage

Valdez Best Western Valdez Harbor Inn

Chitina

McCarthy 0 4 8 5 0 km Kennicott River Lodge & Hostel

Golfo do Alasca

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Terra Pavimentada


Tonsina River Lodge

Kennicott

Edgerton Highway

Valdez Glacier Lake

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McCarthy

McCarthy

Kennicott River Lodge & Hostel

Apesar de ser uma terra de «janados», as companhias de aviação sobrevivem, oferecendo viagens sobrevoando o parque nacional de Wrangell-St.Elias e uma forma rápida de acesso a um local remoto.

Kennicott River Lodge & Hostel

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N

Oceano Ártico

Terra

esta altura da viagem, João e Margarida haviam decidido antecipar o regresso a Portugal, enquanto nós ficaríamos a dormir perto de Kennicott, na minúscula povoação que partilha o nome com a estrada — McCarthy. A localização do Kennicott River Lodge & Hostel é acertada, com as cabanas de madeira orientadas para o vale do glaciar na envolvência do parque natural. Recebe-nos o dono e gerente, Brad, o qual aparenta ser um adepto

Pavimentada

Rio Sag

da marijuana, na forma como fala e se arrasta em tudo o faz, que não parece ser muito, traço comum em todos os McCarthianos, que só começa a ser verdadeiramente preocupante visto aí existirem pilotos que alugam os seus serviços. Integramos um pequeno grupo guiado pelas ruínas das antigas minas de cobre, onde reencontramos as suiças, Viola e Brigitta. Conta o guia que são «mantidas em estado de suspensa decadência» (N.E. as ruínas, não as suiças...), enquanto percorremos de capacete as estruturas de madeiras e a maquinaria pesada

Rio Yukon

Rio Nenana

Nelchina 0 5 2 0 0 km Nelchina Lodge

Copper Center Chitina

Anchorage

McCarthy Road: segundo «take»

McCarthy Kennicott River Lodge & Hostel

Wrangell — St. Elias National Park and Preserve Golfo do Alasca

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Dia

15


N

Oceano Ártico

a última das duas noites em Hatcher’s Pass as auroras boreais apareceram, quando quase toda a esperança se esvaíra. Esta havia sido a recomendação de Rebecca, simpática sexagenária de boné de pala e trança por detrás do balcão em Caldwell Camp, recomendando as estradas de montanha ao longo do rio. Percorremo-las no caminho alternativo, mais longo, que escolhemos para voltar a Anchorage. Antes, optámos por visitar as minas e descer até à feira estadual em Palmer, uma animação que nos

habituámos a ver na televisão e filmes, agora presenciada. Os espectáculos multiplicam-se nos vários recintos, desde concursos divertidos de lenhadores de moto-serra e machados em punho, corridas de ratos, carrocéis e comida de rua. Experimentamos a «Orelha de Elefante», uma massa frita coberta de açúcar em pó e tudo o mais que a imaginação do vendedor permita. Lambem-se os dedos, enquanto vemos os vegetais-aberração nas competições de agricultores. As famílias encontram aqui a animação que não parece haver em volta, para um dia bem passado

Rio Sag

Rio Yukon

Rio Nenana

Dia

16

Na peugada da aurora boreal

Hatcher’s Pass 0 5 4 5 0 km

Nelchina Lodge

Hatcher’s Pass Lodge Palmer Anchorage

Golfo do Alasca

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Terra Pavimentada


Hatcher Pass Lodge

Alaska State Fair, Palmer

Hatcher’s Mill

Uma «orelha-de-elefante» é algo de respeito. (@Feira estatal de Palmer)

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Lake Spenard airport

São muitas as cores que pintam as margens do lago Spenard, cortesia dos pequenos aviões.

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Oceano Ártico

Terra Pavimentada

O

s últimos dias no Alasca são passados na cidade que nos acolheu nos primeiros. Visitámos o museu de Anchorage, o aeroporto de hidro-avionetas e comemos bem. Até a uma multa de estacionamento tivemos direito.

Rio Sag

Repetimos o mesmo hotel do início da viagem, depois de procurarmos com alguma calma e tempo uma alternativa. Nenhuma se provou à altura, principalmente por serem demasiado caras. Deixamos as Cyclone com Kevin que nos convida para voltar aos EUA e passear com ele e a patroa no Nevada, com a sua BMW RT

Rio Yukon

Rio Nenana

De volta a Anchorage

Hatcher’s Pass Lodge Palmer America Best-Value Inn Executive Suites

Anchorage 0 5 7 0 0 km

Golfo do Alasca

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Dia

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AS Estradas

A

ssociamos ao Alasca um clima agressivo, onde o frio é Imperador. Com ele, vêm as neves e o gelo. Mas quando o Sol se mantém no horizonte durante as vinte e quatro horas do dia, o gelo torna-se em água. Não é preciso ser «engenheiro das estradas» para antecipar o esforço de manutenção que esta realidade exige. Uma boa parte das estradas apenas está aberta à circulação entre Junho e Setembro e daí resulta que, no lugar dos ursos e alces, o que mais se vê são obras. E aquele senhor encapuzado, vestido de laranja com um sinal de STOP na mão, torna-se nosso companheiro e confidente nas esperas frequentes e há muito a aprender com eles, novos e velhos, nativos ou imigrados, homens e mulheres. As obras são caprichosas e tornam efémero

tudo o que vivemos a andar de mota no Alasca — uma viagem feita um dia antes ou depois, será diferente. E são muitas as razões para que assim seja, bastando que a máquina que repõe a terra na estrada tenha acabado de passar, deixando um rasto de piso fofo, escondendo pedras e lama. Agosto, altura escolhida por nós para visitar a «Última Fronteira», é o mês mais chuvoso por aquelas bandas. E a água muda tudo numa estrada de terra barrenta, transfigurando um troço prazenteiro num inferno de escorregadelas e «paninhos quentes», a um ritmo prudente de 20 a 30 milhas por hora. E é neste cenário que sentimos o bafo quente do camião na nossa peugada — um deslize aqui e temos um 18-wheeler às cavalitas. Pouco antes de partir, reparava num relato publicado no Horizons Unlimited, no qual a

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Katmai Peninsula

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Canyon

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Para Prudhoe Bay

Fairbanks

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A Denali Highway, fechada durante o duro Inverno do Alasca, é uma das candidatas a ficar no topo das preferências dos viajantes de moto. Connosco, foi vítima do mau tempo, com um piso enlameado e paisagem toldada.

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Valdez

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Terra

100km

Excepcional Boa Razoável Indiferente Paisagem

Pavimentada

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Monte Blackburn (4996 m)

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A Edgerton Highway termina em Chitina, mas é no seu início, saindo da Richardson com a cordilheira de Wrangell à nossa frente, que a magia acontece. Recebem-nos três dos seus guardiões de longos cabelos brancos —Sanford, Wrangell e Blackburn.

A velha McCarthy Road corre sobre a antiga linha de caminho-de-ferro das minas de cobre, hoje soterrada para dar vida à estrada de terra batida, por entre destroços de pontes de madeira e lagos azuis que reflectem as montanhas de Wrangell.

Chitina

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McCarthy

Antes de se transformar a sul de Glenallen, a Richardson Highway não encanta, excepção feita à folhagem outonal da floresta de cedros.

Estado do piso Péssimo Mau Bom Excelente

Glenallen

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A Richardson Highway segue ao longo do vale entre as montanhas de Chugach. Junto à estrada começamos a adivinhar as cores do Outono nas folhas das árvores.

Esta ligação não é uma estrada para motas. Isso não impede a ligação de 5 horas feita no «ferry» Aurora (reserva aconselhada) desde a pequena aldeia de Whittier até à movimentada Valdez de ser um ponto alto da viagem, navegando entre glaciares que beijam o Golfo do Alasca.

Golfo do Alasca

A Glen Highway mantém os glaciares à vista, numa sucessão incrível de montanhas e vales brancos — imperdível.

8

Rebecca em Caswell Camp recomendou-nos o desvio por Hatcher Pass, para ela uma das mais lindas estradas do Alasca. Começando na zona alpina que lhe dá o nome, desce num caminho de terra que acompanha o rio e a floresta de cedros, atingindo as expectativas que Rebecca criara 2 semanas antes.

Palmer

Whittier

A Seward Highway atravessa a Floresta Nacional de Chugach bem perto do lago que dá nome à península de Kenai.

Seward

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Caswell Camp

O Parque Nacional de Denali é uma área protegida selvagem («Wilderness») na qual se procura evitar o contacto humano com os animais. Por isso, apenas se permite entrar na Denali Park Road de autocarro por uma estrada de terra que nos oferece uma envolvência de excepção.

Monte Denali (6190 m)

A George Parks Highway atravessa uma das zonas mais densas populacionais do Alasca, ligando as suas principais cidades, Anchorage e Fairbanks, excluída a capital Juneau no sudeste e sem ligação por estrada.

Kenai Peninsula

Anchorage

Em Turnagain Arm, um braço de mar força a Seward Highway a contorná-lo antes de chegar à impressionante península de Kenai. Batida por fortes ventos, segue colada à linha de costa avistando na outra margem as montanhas da floresta de Chugach e a aldeia de Hope.

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Homer

A Sterling Highway fizemo-la debaixo de chuviscos enquanto as obras decorriam durante muitas milhas. Talvez por isso não nos tenha impressionado, cientes que do outro lado do canal, já ali, se avistam as montanhas do Chigmit Aleutian Range.


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Coldfoot

Wiseman

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Deadhorse

Dalton 3 Highway

Passada a montanha, as árvores desaparecem para dar lugar a pequenos arbustos, dos quais emergem bois-almiscarados e caribus. As obras aqui são de monta, procurando elevar a estrada uns 3 metros para sobreviver ao rio Sag que a destrói em cada degelo.

Apenas neste troço a paisagem arrisca algo mais que um terreno plano, tornando-se estrada de montanha com direito a temperamento e tudo nas Philip Smith Mountains e o Atigun Pass.

Até chegar a Coldfoot pouco mais há para além de um novo sinal, este para marcar o Círculo Polar Ártico. E é daqueles para coleccionar, também.

Círculo polar ártico

Dalton 2 Highway

Yukon River Camp

Para sul (Anchorage)

Rio Sag

Prudhoe Bay

Dalton Highway

Dalton Highway

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Fairbanks

Oceano Ártico

O território do Alasca foi comprado pelos EUA à Rússia por 7,2 milhões de dólares em 1867. Apenas em 1959 se tornou o 49.º estado, com uma área maior que os 2.º, 3.º e 4.º estados juntos e a menor densidade populacional dos seus «irmãos». A sua bandeira representa o «Arado», parte da constelação de Ursa Maior (associada ao urso, símbolo do estado) e a estrela Polar.

No Alasca, maior dos estados norte-americanos, as estradas são poucas. Ganham o estatuto de Highways indiferentes ao piso e estado de conservação que oferecem. Como são, então, as estradas do Alasca?

O guia do Alasca da Lonely Planet e os conselhos da MotoQuest são uma combinação vencedora

Quando se chega à Dalton Highway há uma sensação de se ter chegado a um local especial, no qual apenas alguns se atrevem aventurar. Até há um sinal para aliviar a tensão com uma fotografia. Mas o piso começa a revelar a personalidade difícil. Rio Yukon


fotografia mostrava uma BMW GS coberta de lama, enquanto o piloto, de pé e algo divertido, erguia uma pedra do tamanho e forma de um melão de Almeirim. Na legenda lia-se que esta é a «fruta» que se apanha na Dalton Highway. Um dos comentários de outro viajante sobe a parada, lembrando a sua experiência ali mesmo, a caminho do Ártico. — Pensei que ia morrer nesse dia.

Um santo na algibeira

Habituados a exportar santos, levámos connosco o São Pedro. Na sua sacola, trouxe o bom tempo e a fortuna dos audazes entregou o resto. Apanhámos apenas um dia de aguaceiros em três semanas, que afectou apenas a Denali Highway. Debaixo de frio e chuva transfigurou-se uma das mais belas estradas no vale do Alaska Range, ao longo da floresta boreal coberta de pinheiros-do-Canadá e na taiga mais rarefeita de árvores. Os cumes nevados da cordilheira de Wrangell mal se vêem debaixo das nuvens persistentes. A estrada segue as linhas de eskers, estruturas sedimentares de origem glaciar, deixando exposto um piso duro de argila, areia e cascalho. Nos seus duzentos quilómetros, apenas dois locais para beber algo quente. Protegidos da chuva, no interior do Alpine Glacier Lodge sentimos o olhar vítreo dos muitos troféus de caça e, em volta da salamandra onde a lenha crepita, apertamos

bem a caneca de café quente oferecida aos viajantes pelo Claude.

Gostas mais do pai ou da mãe?

Hesitamos em partilhar as que mais gostámos da nossa experiência pessoal, certos de que vale pouco, este exercício individualista e irrepetível. As montanhas nevadas e o céu limpo jogam num campeonato à parte, quase injusto — sempre que esta dupla entra em campo (forçando a metáfora desportiva), é para vencer. Depois juntam-se pequenas coisas, como uma majestosa águiacareca que levanta vôo ao nosso lado, sobre um fundo do glaciar Worthington. E assim nasce uma campeã — a pequena Edgerton Highway. E, como nos desportos que valem a pena seguir, será desafiada uma e outra vez, vítima da dureza do clima para quem não há filhos predilectos.

Encarrilados

Há no Alasca ligações que devemos ao comboio, duas delas muito especiais. Uma é a única forma de chegar à pequena aldeia de Whittier por terra é através de um estreito túnel de quatro quilómetros, no qual seguimos entre os carris por uma via pouco mais larga que um camião. Num cortejo meticuloso e coordenado ao pormenor, às motas é reservado o último lugar da fila. Largos minutos passam desde que o último

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carro à nossa frente desapareceu, engolido pela abertura negra na rocha. A ordem de partida é dada na voz esganiçada da portageira lá atrás, gritando «Go now, Go now!», saindo da guarita esbracejando como se afugentasse o boi almiscarado atrevido que procurava mordiscar as suas petúnias no jardim. A razão de assim ser (a saída em último, e não a senhora ofegante e agitada) é por acontecer motociclistas que, atraídos pelos rasgos no piso, se atrapalham e tombam, causando um AVC a Whittier. A outra ligação remonta ao início do século xx. A McCarthy Road foi buscar o nome à cidade de pecado, terra de prostitutas e outros vícios onde os mineiros gastavam os dólares ganhos nas minas de cobre de Kennicott. Para levar o precioso minério até Cordova no sudeste do Alasca — onde era embarcado para os Lower-48 (denominação dada pelos aleuquianos aos demais estados) — a Copper River and Northwestern Railway construiu em tempo recorde as 196 milhas de caminho-de-ferro. Todos as primaveras o degelo enchia os rios com a água que destruía as pontes, reconstruídas todos os anos até 1938, altura em que terminou a exploração da mina. Nessa altura, a ferrovia foi doada ao estado que a converteu na estrada que hoje usamos para ligar Chitina a McCarthy. Isto é História, caro leitor. O que não o é — porque acontece todos os dias a quem faz esta dura

estrada — são pneus furados. As vítimas, procurando o conforto dos regos sulcados na gravilha pelos carros e camiões, sucumbem aos espigões que afloram aí, recordações da estrutura dos caminhos-de-ferro soterrados. Nós, motociclistas, raposas sabichonas que somos, procuramos as bermas fofas de gravilha, longe dos rodados e corrugações. E assim fomos, incólumes, flutuando sobre a antiga linha de ferro que encheu os bolsos da família Guggenheim, memória lembrada ao longo do caminho nas derelictas pontes de madeira engolidas pelos cedros.

Céu estrelado

No Alasca sentimo-nos como alguém que, vivendo sempre na cidade, decide passar uma noite no campo e olhar para o céu. Não se vê uma estrela brilhante, mas sim muitas. Assim são as estradas no estado boreal dos EUA — nenhuma se destaca. É o colectivo de estrelas que nos deslumbra e dá o rumo, como nos lembra a sua bandeira. — Tudo! — respondia-me um viajante quando, antes de partirmos, lhe pedia recomendações para a viagem. — Não há como falhar — rematava

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Dalton

O

lhamos em volta e questionamo-nos sobre a verdadeira atracção pelo norte do Alasca, 500 km acima do Círculo Polar Ártico. Para além da estrada e do omnipresente oleoduto que lhe deu vida, tudo o mais é selvagem. Jonathan empresta-nos os seus binóculos com os quais se entretém nas horas mortas da Dalton Highway. Perscruta o horizonte procurando companheiros na desolação. Encontra ursos pardos, caribus, bois-almiscarados — como aquele que está já ali à nossa frente, aponta-nos. Tomamos à vez espreitar, para sentir mais próximo o herbívoro estranho, lento, possante, debaixo de uma farta cabeleira negra que deixa escapar um par de cornos curtos numa testa proeminente. Pasta na vegetação rasteira procurando bagas na taiga alasquiana, indiferente à fila de camiões

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gigantes e pick-ups a esteróides que recomeça a estender-se na estrada, barrada pelo pequeno Jonathan e atrás das nossas duas motas. Nos mapas dá pelo nome de código — AK 11 — e, como a adolescente que é, cresce ainda a cada Verão que passa. As obras que nos interrompem a marcha devem-se a esse desejo, de crescer, ser mais alta, tudo para sobreviver às Primaveras de degelo do rio Sag, companheiro durante uma centena de quilómetros. Desde 1974 — uma garota, em idade de estradas — vai rasgando a taiga norte-americana. Chamavam-lhe então North Slope Haul Road, exclusiva dos camionistas até há vinte anos, os quais ainda a reconhecem por esse nome. Já desde a placa que assinala o começo da Dalton, 400 milhas a sul, que é claro que este é o território dos bonés, da camisa de quadrados, barbas longas


e braço esquerdo bronzeado — estamos no «Camionistão». Tudo é feito por e para eles. Como a pequena localidade de Slate Creek de uma dezena de habitantes, onde acampámos a noite passada, agora Coldfoot em memória dos mineiros que, em 1898, tiveram medo (coldfoot em inglês) de passar ali o Inverno. A tenda no relvado a 100 m do Frozen Foot Saloon é a alternativa razoável para fugir aos preços exorbitantes do «hotel» de Coldfoot — duzentos dólares por cada noite passada — mais próximo de um sistema de contentores, que de uma unidade hoteleira. Apesar da envolvência quase idílica na floresta, o romantismo desaparece ao som continuado dos motores, forma de alimentar o aquecimento das cabinas onde dormem os camionistas. Há um estilo rude, cru — gordurento — e gosta-se deste local da mesma forma que se rói uma tira de beef jerky (carne seca) ou se agarra num hambúrguer com ambas as mãos. De outra forma não há razões para prolongar a visita para lá do tempo necessário para atestar o depósito, única oportunidade até ao oceano Ártico. Imaginar todo o Alasca no Inverno é um desafio constante para nós que estamos acostumados aos climas temperados. Até 1975, a estrada era interrompida pelo rio Yukon. Os camiões que pretendessem prosseguir viagem mais para norte usavam uma barcaça. Excepto no Inverno, altura em que o rio gelado permitia a travessia dos pesados camiões sobre a sua superfície. — Sempre que posso — revela Zack —, venho até aqui acima. Descobrimo-lo a terminar o jantar no interior do saloon. Nasceu em North Pole, explica-me, e é para lá que regressa. Lá fora o seu trenó de renas é uma CB 500 X, coberta de um tom laranja-Dalton, incapaz de disfarçar o

Yukon River Camp

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Como fazer um pino sem ficar «à lasca».

Há sempre tempo para escrever uns postais para amigos e família.

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Yukon River Camp


Coldfoot

castigo que sofreu vindo de Norte, vestindo as cores da lama barrenta que fazem a AK 11. Reconhecemos no jerricã de gasolina e na lama os sinais de quem se aventura na Dalton de mota. — Gosto da reclusão e da vastidão que esta estrada oferece — remata. Despede-se, lembrando que o caminho se torna duro — mas só lá mais para o fim, a chegar a Deadhorse — concretiza. É aí que estamos agora, na companhia de Jonathan, a 40 km da última vila do Alasca antes do oceano. Diz-nos que apenas está aqui quatro meses por ano, ganhando 1400 dólares por semana, o suficiente para viver os restantes a aproveitar o tempo com os netos. — Eles então ainda ganham mais — diz, apontando com a cabeça para a curva lá ao fundo, onde os condutores das máquinas

pesadas constroem a estrada. Não lhe sentimos inveja nas palavras, parecendo satisfeito com o que tem. Entretanto, atrás de nós a fila de camiões crescera, altura em que avistamos uma coluna no sentido contrário, liderada por uma pick-up. Jonathan despede-se de nós, entregando-nos aos cuidados de Amanda, a jovem condutora do pilot car que invertera a marcha e já se prepara para iniciar novo cortejo — o nosso. Percorremos as primeiras milhas convictos que todo aquele aparato e o sinal na estrada dedicado aos motociclistas seriam um exagero, excesso de zelo pela segurança. Afinal, o piso era fácil, compacto, apesar de molhado. Dividimos a faixa com pesados camiões que descarregam montes de terra sobre o piso, procurando subir a altura da estrada até aos pretendidos 9 m que Jonathan nos falara. Já se avista a cidade

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mineira de Deadhorse, lá bem longe, quando trocamos de carro-guia em nova paragem. Angie dirige-se a nós. Parece nervosa, acentuada por uma palidez quase albina por detrás das lentes grossas. — Têm de ter muito cuidado — diz, olhando para as nossas companheiras, enquanto as mãos nervosas não param no regaço. — As minhas orações estão convosco. Vou a rezar por vós — é a última coisa que nos diz, antes de voltar para dentro do carro. Associamos o seu ar inquieto a uma preocupação desnecessária, mais devida à sua própria natureza que à dificuldade do piso, se for como o troço que acabámos de fazer. Troco um olhar com o João, encolhemos os ombros e seguimos Angie, já pronta para arrancar. Acreditamos, ao percorrer a primeira centena de metros, que Angie terá visto já muitos tombos de motas por aqui.


Um semĂĄforo vermelho no meio de nada...

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À terra fofa, acabada de ser largada sobre a estrada, junta-se uma calda. Esta combinação tem um efeito que nunca experimentáramos até então — um misto de seixo rolado, envolto em lama. Visualize uma barra de chocolate com pedaços de amendoim, depois de esquecida na mala de depósito numa tarde de Verão enquanto fomos à praia. A prudência recomenda que aceleremos, mas a condutora reduziu a velocidade ao nível de uma procissão de andarilhos, preocupada connosco, mas ignorando estar a tornar tudo mais difícil. Ron abre a janela do seu camião e aventa cá para baixo. — A senhora não quererá vir de boleia aqui em cima? A dificuldade em manter uma linha bem definida foi por demais evidente para ele, que se prontificou a ajudar. — Também sou motociclista e sei bem quão difícil podia ser aquela estrada — partilha com Nélia. Diz que sonha ir até à Europa de moto, pois do Alasca só lhe falta fazer a Denali Highway. Libertos das pendura e com o caminho desimpedido à frente, agora que Angie se distanciara, a Suzuki ganha uma nova vida e vai flutuando sobre a barra gigante de chocolate derretida. Ultrapassadas as dificuldades, chegamos a Deadhorse, onde Ron se despede com um toque na pala do boné, devolvendo Nélia à mota. Deadhorse é a ante-câmara para chegar ao Ártico, o oceano. Faz-se de contentores que queriam ser edifícios

e, não fora o novo hotel Aurora e o terminal do pequeno aeródromo, tudo o mais parece um enorme estaleiro, imagem acentuada pelos camiões e trucks que chegam e partem. Aqui o território é dos oilfielders, trabalhadores da indústria do petróleo. Tanto mais que a própria costa norte não é uma zona pública, acessível a «visitantes» apenas após um escrutínio minucioso pedido com 24 horas de antecedência, com envio de passaporte e verificação de cadastro. Todo o oleoduto — que aqui começa e termina em Valdez, percorridas 800 milhas — é um elemento sensível a ataques terroristas, para os EUA, com alguns episódios de tentativas goradas para o fazer explodir, ao longo da sua história. «Everyone must wear booties» afixase na janela da porta do Prudhoe Bay Hotel, para manter a lama das estradas lá fora. Pisamos a alcatifa creme já calçados com uns sacos de plástico azuis (booties) sobre as botas, percorrendo um dos longos corredores de paredes branco-sujo decoradas com mapas e cartas da costa ártica. Podíamos estar a caminho de Júpiter, a bordo da Discovery One no filme Odisseia no Espaço. No lugar de Hal, o super-computador de Kubrick, encontramos Joy aos comandos dos destinos desta embarcação, por detrás do balcão recortados na parede do corredor. Num universo duro e agreste de trabalhadores das explorações petrolíferas, a autoridade de Joy é incontestada. Move-se com

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Ao contrário do que acontece em Portugal onde a costa marítima (e fluvial, para esse efeito) é de domínio público e livre acesso. Aqui, onde a exploração petrolífera detém a sua concessão, tida como de importância geoestratégica e económica para os EUA — sendo a fonte do gasoduto —, chegar até à faixa costeira norte banhada pelo Ártico carece de especial autorização prévia, entregando os passaportes para validações de segurança que podem demorar alguns dias... que não tínhamos, nem antecipámos.

Deadhorse

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a dificuldade que a perna manca lhe permite, mas sem lhe roubar a boa disposição e um sentido de humor saudável, evidentes na roupa rosa e os exuberantes óculos azuis que a ponta do nariz segura. Como a maioria daqueles com quem nos cruzámos no Alasca, não nasceu aí. O jantar, como todas as refeições no «hotel», é com tudo incluído, mas aí terminam as semelhanças com os resorts de férias. Nas mesas, os trabalhadores vão se revezando. A nosso lado, conversamos com um camionista de t-shirt preta e calças de ganga numas pernas arqueadas de cowboy. — É sempre a mesma comida — lamenta John, com o cabelo liso penteado para trás, ainda húmido do banho de final de dia. — Estamos aqui durante 4 meses seguidos a comer os mesmos pratos. A comida é boa, mas torna-se cansativo. Para nós, que aqui passamos uma única noite, tudo é novo — as caras, as sanduíches embrulhadas, a sobremesa que gira, gira e gira por detrás da vitrina. Como as voltas daquela fatia de bolo, é talvez a rotina e o ambiente sem janelas que mais desgastará John e os seus colegas de profissão. No dia que regressamos para sul, a promessa do mau tempo era recordada com frequência e relembramos o que Kevin vaticinara — seríamos as últimas motos nesse ano a tentar chegar

Fotografia tirada por Shoey, assinalando o regresso e o encontro com aqueles que — provavelmente — seriam sim os últimos a subir até Deadhorse naquele ano.

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até ao Ártico. Assim acreditávamos, até encontrarmos James numa paragem para apreciar as vistas no regresso a sul. Viaja numa Yamaha Super Ténéré 1200 adaptada com sidecar. Parece surpreso por nos ver, até atrapalhado, enquanto procura uma máscara que coloca enquanto me desmonto da mota. — Como está a estrada até Deadhorse? Quem pergunta é Shoey, o seu companheiro de viagem que chegara entretanto. Está curioso, e algo ansioso, viajando para norte numa FJR equipada com pneus de estrada. Recebe a novidade das dificuldades que os esperam com a descontracção do gigante simpático e calmo que parece ser. Conta-nos que o seu amigo, James, preparou uma lista, aquela que todos de certa forma tememos. Os ingleses chamam-lhe bucket list, numa alusão a tudo o que se gostaria de fazer antes de «kick the bucket», eufemismo para morrer. Um cancro agressivo do cérebro roubou-lhe uma boa parte da cabeça e James mostra-se pouco à vontade com a nossa presença, receoso de nos perturbar. Como antigo alpinista, escolhera começar por caminhar sobre um glaciar — algo que lhe escapara, como todas aquelas experiências que achamos ter tempo… um dia. O Alasca parece carregar este misticismo, de Última Fronteira — chegar de moto ao Ártico é o próximo desejo da lista que concretizará hoje


Ursos do alasca

Nesta região do mundo existem 3 tipos de urso — polar, preto e pardo. Os mais comuns são os ursos pretos, os mais pequenos, perigosos e agressivos. Os ursos polares apenas se encontram em latitudes mais elevadas e longe do contacto humano acessível por estrada. Há três variedades de ursos pardos, em grande medida resultado da abundância de comida nas zonas onde vivem. Os «grizzlies» são mais pequenos, vivendo à base de bagas. Os ursos de Kodiak são, a par dos polares, dos maiores. A alimentação abundante na ilha que lhes dá o nome é a principal responsável pelo seu tamanho, sendo na verdade um urso pardo sobre-alimentado. O Kodiak está para o urso pardo como o lutador de Sumo está para um japonês «normal».

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vida Selvagem

A

vida selvagem no Alasca parece ter encontrado um equilíbrio com um Homem-caçador que se recusa a baixar as armas. Para o viajante, são frequentes os encontros com ursos, alces, bois-almiscarados, caribus, águias-carecas e douradas, marmotas, salmões, focas ou leões-marinhos, para citar apenas alguns. Depois daquele contacto na Dalton Highway, voltaríamos a contactar com vários ursos no parque nacional de Denali a bordo do autocarro autorizado. Ao alcance de quem queira despender dois mil euros e à distância de um vôo de helicóptero, a reserva na península de Katmai

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permite o contacto a pequenos grupos de vinte pessoas com os ursos pescando salmão no rio. Para nós, bastou a proximidade daquele momento vestibular, mais íntimo — demasiado, porventura — insensato, até. Em volta da tenda perto de Wiseman, os vestígios de vida selvagem abundam, dispersos entre as árvores, evidentes enquanto recolhemos alguma lenha para a fogueira. De manhã, do mesmo fogo que nos ajudara a afugentar os mosquitos, apenas resta um monte de cinzas, molhado pela chuva leve que caíra durante a noite. Regressamos ao Frozen Foot Saloon para o pequeno-almoço com os camionistas, antes de retomar a Dalton Highway para sul.


C

Caribu

U

B

Deadhorse

A

A

6

Nelchina

Matanuska

S

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Artic National Wildlife Refuge

Alce

Alasca (EUA)

Kennicott

McCarthy

Wrangell — St. Elias National Park and Preserve

Uma alce (N.E. Não era giro que se dissesse «Alça»?) corre ao lado da moto do João durante uma dezena de metros. Depois, faz o que se temia — corta a direito na estrada para regressar à floresta.

E Chitina

Cordova

Num dia de Sol, os leõesmarinhos aquecem-se sobre uma bóia, enquanto as focas espreitam à tona da água gelada dos icebergues de Columbia, intrigadas com os caiaques.

Focas e leões-marinhos

L

A

Não há como o primeiro. Levantámos a tenda uma dúzia de milhas atrás quando, na berma da estrada, uma figura ergue-se sobre os pés — não parece real, mas é — um jovem-adulto urso pardo.

Urso-pardo

U

Através dos binóculos de Jonathan vemos o nosso primeiro boi-almiscarado («musk ox»), apesar de estar perto, a meia centena de metros das motos.

Boi-almiscarado

B

Prudhoe Bay

C

Palmer

Whittier

Seward F L

Prince William Sound

Columbia Glacier Valdez

Cantwell

Canyon

Fairbanks

Círculo Polar Ártico

C

Denali National Park and Preserve Eielson U

M

Península de Kenai

S E

Hope

Anchorage

Homer

Golfo do Alasca

Hatcher Pass

Nenana

Yukon River Camp

Coldfoot

Gates of the Artic National Park and Preserve

Monte Denali «ex-McKinley» (6190 m)

Uma das espécies mais caçadas no Alasca é a rena, ou caribu como é mais conhecido nestas bandas.

M

Marmota Junto ao cais de Homer, os mexilhões repousam sobre a barriga peluda da marmota, antes de serem quebrados e comidos.

Península de Katmai

Oceano Ártico

Canadá

Águia-careca

Salmão

A apenas dois metros, a enorme ave de rapina levanta vôo e, enquanto o tempo pára, vemos o bater de asas em câmara lenta. E

S

Aqui, quem os viu nascer testemunha agora o suicídio colectivo que é, na verdade, uma celebração de vida.


Apesar de vistos ao longe, não deixam de causar uma impressão bem forte, indiferentes à nossa presença, continunando a embuchar bagas para o Inverno que se aproxima.

«Qual a diferença entre um caribu e uma rena? Os caribus não voam.» Anedota contada por Matt, o algo louco condutor de autocarro no parque de Denali.

A

U

Sim, um cachorro também conta como vida selvagem. Enfureçam-no, que vão ver.

C


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A vida selvagem nestes primeiros dias no Alasca tinha ficado longe de ser exuberante, digamos assim, não fora os avistamentos que os binóculos de Jonathan nos permitiram. — Bom dia — cumprimenta-nos um pai caçador, enquanto estaciona à porta do saloon e o filho ajeita a carga na pick-up. — Vieram de norte? Respondemos que sim. — Há muitos caribus? — Vimos um ou dois, não mais. Não estávamos sozinhos na tristeza e desapontamento em não os ver, aos animais, ainda que as razões diferissem. O Alasca é um destino para caçadores de todos os EUA e até do mundo. As conversas que fomos tendo com caçadores e locais ajudaram-nos a perceber que não é uma rebaldaria, onde todos pegam na Kalashnikov e descarregam uma rajada de tiros para a floresta esperando obter uma nova fotografia de perfil para as redes sociais. É muito limitada a quantidade de animais que podem ser caçados e o controlo é levado muito a sério, bem como o nível de exposição humana permitido com a vida selvagem, para a manter assim. São muitas as reservas onde a caça é proibida e outras onde apenas é permitida para fins de subsistência. A imagem de uma Sarah Palin que abate ursos do seu helicóptero privado a caminho do Senado parece exagerada — mesmo dando o desconto de ser a visão do lado de dentro, num dos estados mais armados dos EUA

O «mushing» continua a ser algo especial no Alasca, mesmo com as motos de neve as quais, ao contrário dos cães, não são de grande ajuda em caso de perda de visibilidade, como explica o «ranger» Smokey (a sério que era o nome dele).

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— Achas que vá, Zé? — Sim, querida. Deve ser seguro. Avança, mas deixa-me primeiro começar a filmar.

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Glaciar

O

nde as montanhas de Chugach encontram o vale de Mat-Su (Matanuska-Susitna), encontrámos o glaciar Matanuska — afinal, está ali há uns largos milhares de anos. Cedemos ao impulso de dedicar um dia para uma caminhada sobre o gelo, de certa forma recordando um dos últimos desejos na bucket list de James. Lizzie e Rebecca são as nossas guias para a incursão no glaciar, depois de um curto trajecto na carrinha da MICA Guides. Ambas norte-americanas, adoptam o estilo neozelandês de caminhada no gelo onde os guias vão reagindo às constantes alterações que o glaciar vivo vai fazendo, intervindo

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directamente esculpindo degraus onde são necessários, por oposição ao estilo norte-americano que visa não alterar nada. Chegando ao gelo calçamos os crampons sobre as botas e, como numa escola de modelos, reaprendemos a andar com calçado especial — à John Wayne, calcando cada pegada para cravar na superfície dura do gelo. É um território inóspito e perigoso, onde as rachas podem significar quedas de dezenas de metros. Lizzie vai alternando entre anedotas infantis que conta com alguma ironia e factos curiosos, como a utilização de abutres para detectar fugas no oleoduto, usando a sua capacidade de detectar um etil adicionado ao gás que tem um cheiro semelhante a carne putrefacta


Podemos optar por levar as nossas próprias botas ou umas emprestadas. Qualquer que seja a decisão, levarão sempre por cima os «clamps», uma espécie de aparelho-dos-dentes com espigões para o gelo.

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De que serve ter uma picareta se não se puder, de quando em quando, assassinar alguém no gelo?

Uma torneira portátil que permite beber as gotas, aparafusando-se a um bloco de gelo. A piada fácil — à qual não resistimos — é perguntar se existe uma vermelha para água quente.

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Não é o melhor sítio para se perder uma lente de contacto.

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É a referência incontornável para o viajante de moto no Alasca ou mesmo na Costa Oeste dos EUA. A oferta de motos é variada, desde as 1200 às 250, mas o que os distingue são as pessoas — Kevin, Jason, Brandon, Phil — que nos recebem de forma calorosa e disponível. Nas latitudes boreais a época de aluguer estende-se por 90 dias. Por isso oferecem promoções para viagens de ida no início e fim de época, ligando aos estados a sul. MotoQuest Guided motorcycle tours and rentals

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— Sempre que vendem uma moto, tocam a buzina — explica Kevin, sócio da MotoQuest, apontando para a vizinha Harley-Davidson — e nós respondemos-lhes tocando uma, também. — conta-nos, divertido.

o parque do porto de Valdez vêem-se caravanas e trucks — na Europa conhecemo-los por pick-ups. Aguardam o regresso dos pescadores, de recreio ou profissionais. Não é, pois, território de Kawasaki KLR 650, um vulto de mota, negra de uma ponta à outra. A poeira denuncia alguma falta de cuidado e atenção do seu dono. Está preparada para viajar, equipada com malas de alumínio e punhos aquecidos, não fora estarmos no Alasca. Sobre as malas, duas raquetas para andar na neve revelam que será no Inverno que acorda da hibernação que dura o resto do ano. O Verão boreal não desafia o viajante de mota a aventurar-se sobre a neve ou gelo. São outras as provocações, como as longas distâncias na Dalton Highway para chegar ao Ártico, os espigões que afloram na McCarthy Road ou os alces numa correria pelas estradas. Da Spenard Road não se avista o mar. Estranha-se ouvir uma buzina de barco ao chegar ao local onde as nossas motos nos esperam para começar viagem. Seguese-lhe uma buzina de carro, repetida como em resposta.

À porta da loja, um jovem casal prepara-se para sair numa R1200 GS, espalhando tudo sobre uma mesa improvisada, tirada da carrinha. Brandon, de cabelo claro, parece saber o sítio às coisas, encontradas com a desenvoltura de quem conhece a casa — é um dos guias da empresa. Conseguiu tirar uns dias para levar Christina numa curta viagem. A entrada da garagem cobre-se de imagens, postais, recortes de revista, mapas. Paira no ar um aroma de viagem, misturado o cheiro forte da borracha dos pneus e do óleo. À esquerda, somos recebidos por uma celebridade local, vestida com um conjunto de saia e casaco de mulher-executiva. Os óculos longilíneos são um traço que nos habituámos a reconhecer na controversa ex-governadora Sarah Palin. Não a verdadeira, mas um modelo em cartão recortado à escala. Jason, o mais novo da casa — não parecendo ligar muito à política —, explica-nos que «o patrão gosta muito dela». E por aí ficámos porque, na casa dos outros, não se discute política ou religião

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As motos

Dois modelos muito diferentes

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Quem V-Strom, não vê corações

J

ason aponta-nos as duas Suzuki alinhadas na rua, uma vermelha e uma cinza. A última — a versão XT da 650 — está equipada com jantes de raios e um pequeno «bico» à frente para reforçar que é uma moto de aventura, porventura. Cortámos a viagem em duas e, para cada uma, um modelo de moto distinto — Suzuki V-Strom 650 e a Cyclone RX3 250 — ambos alugados aqui, na referência incontornável para os viajantes de moto no Alasca. Colado nas malas de plástico pretas, um enorme autocolante branco transparente recorda quem as aluga. Não se encontram à venda, parecendo uma adaptação de uma mala profissional para transporte de material fotográfico. O espaço generoso permite-nos arrumar tudo, deixando fora apenas o saco de campismo, com a tenda, os sacos-cama e colchões. Completamos a arrumação na mala de depósito, procurando que não esconda por completo os

manómetros da japonesa. Os pneus mistos e as recomendações de Jason combinam — vamos apanhar muita lama escorregadia a subir pela Dalton Highway. Há um silêncio de breves segundos e lemos nos seus olhos apreensão pela escolha de viajarmos com pendura. Amarramos o pequeno jerricã, essencial para vencer a desolação acima de Coldfoot e partimos.

«Vemo-nos do outro lado»

Para a primeira metade da viagem escolhemos apontar a norte, esperançosos que o frio e chuva cheguem apenas no final de Agosto. A Suzuki teve um comportamento exemplar, mesmo quando, a chegar a Deadhorse, o terreno impunha respeito e cautela. — As minhas orações estão convosco. — benzia-se Christie antes de entrar no carro de segurança destinado a guiarnos pela estrada em obras. — Vemo-nos do outro lado — terminava, com um tom dramático. Trocámos um olhar silencioso, seguido de um encolher de

ombros — Não pode ser assim tão mau. — pensei. Subindo nas peseiras — apesar do guiador estar demasiado baixo para suportar longas tiradas a conduzir de pé —, levámos de vencida uma e outra vez o desafio lançado. Confiantes na prestação de condutores e motos, arriscámos fazer mais tarde a Denali Highway. Esperava-nos a chuva e o frio nesse dia. Desejámos os punhos aquecidos e acumulámos camada sobre camada de roupa A Suzuki V-Strom 650 foi uma surpresa agradável, um modelo bem escolhido para o percurso realizado, combinando um comportamento fiável e previsível do motor e da ciclística nos vários tipos de piso, com um conforto imaculado. A viagem foi feita com dois em cada mota, carregando material de campismo e depósitos auxiliares de gasolina para cobrir as distâncias maiores sem qualquer alternativa de abastecimento intermédia. Com uma etiqueta leve no preço — posicionamento claro da Suzuki — a qualidade do conjunto é muito boa não perdendo para modelos de outras marcas que custam bem mais do dobro.

Conforto Bastante confortável, tanto para o piloto como a pendura. Tirando um menos bem conseguido ajuste da altura do guiador para condução em pé, é irrepreensível.

Autonomia Mesmo carregada, o rendimento permite-lhe percorrer 340 km, o que é suficiente na grande maioria das vezes. E quando não chega, tem pontos de amarração para um pequeno jerricã.

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Carga Ainda que não sejam as malas de origem, a capacidade de carga e opções de amarração funcionam na perfeição.

Pendura Avaliada como confortável e fácil de se montar, permite uma boa visão da envolvência e pegas ergonómicas.

* O valor diário inclui $15 de seguro e outros tantos para redução de franquia em caso de perda total. Para quem planeia ir acima de Coldfoot, há uma tarifa adicional visto ser um local remoto, mais caro de resgatar em caso de avaria ou acidente. Avaliação da Cyclone 250

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1 consumos O depósito de 20 L permite uma autonomia de 340 km (205 milhas). Para fazer os 390 km de Coldfoot a Deadhorse convém levar um pequeno jerricã de 4 L para um consumo médio de 5,8 L/100 km, carregada com passageiro e bagagem. 2 Malas Laterais Um sinal distintivo das motos da MotoQuest são as malas laterais. Feitas à medida, lembram malas técnicas de material de filmagem, num termo-plástico preto, com um autocolante branco da MotoQuest. São estanques e com a dimensão certa. 3 Suportes das malas O aperto aos suportes metálicos é feito por uma maçaneta que convém verificar com frequência quando o piso é duro e as vibrações abundantes. 4 Roda dianteirA A jante de liga leve (de raios na versão XT, ambas versões «tubeless») vinha equipada com um Michelin Anakee Wild (110/80 R19), com um piso misto para fora-de-estrada. Óptimo comportamento nos três mil quilómetros das estradas duras até Prudhoe Bay. No pavimento não é desconfortável, ruidoso nem inseguro, mesmo em pavimento molhado. No final, a borracha começa a mostrar falhas nos tacos, roídos pelas pedras do caminho. 5 Roda traseira Mais duros que os Michelin dianteiros, os Shinko Adventure Trail E805 (150/50 R17) aguentaram bem a carga, sem nunca perderem a compostura e mantendo a frente equilibrada.

6 Pré-carga Comportamento muito bom com ajuste (manual) de pré-carga no máximo, ainda que o terreno fosse regular, excepção nos troços pavimentados com depressões feitos em velocidade. 7 MOTOR O V-Twin de 645 cc foi uma agradável surpresa, suave, reforçando a ideia que as cilindradas médias se adequam às viagens.

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8 Transmissão Este foi o pior aspecto da moto utilizada. A corrente, atacada pelo cloreto de cálcio nas estradas de terra, degradou-se bastante, sensível a mínimos descuidos na manutenção ou revisão. 9 «bico» O «bico» frontal — introduzido pela Suzuki em 1988 com a DR 750 S —, apenas está incluído na versão XT, única diferença a par das jantes de raios, ambas «tubeless». A diferença de preço nos EUA são apenas $100 no preço base.

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10 protecção de cárter Essencial nas estradas de terra e gravilha, esta protecção da SW-Motech é composta por duas peças de alumínio, bastante eficazes. 11 Protecções do quadro A protecção tubular metálica (extra da Suzuki na versão XT, SW-Motech na versão normal), deixa exposta a caixa de velocidades. 12 descanso central A sua ausência no modelo XT foi sentida nas frequentes lubrificações da corrente, difíceis de fazer sem ajuda.

7 5 12 10 17 Na viagem usámos duas variantes da Suzuki V-Strom 650 — uma normal e a XT, percorrendo uma distância total de 3100 km na viagem de ida-e-volta de Anchorage a Prudhoe Bay, no norte do Alasca. Suzuki V-Strom 650 0 3 1 0 0 km

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Transferir toda a bagagem das malas de porão para as da moto, exige espaço e algum planeamento - a oficina da «MotoQuest» parece ter sido feita a pensar nisso.

Aqui começou o concurso de tartes de maçã.

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“Operator only”

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moto que nos esperava na MotoQuest para substituir a V-Strom para a segunda metade da viagem costuma vir com um autocolante no depósito — descobrimos mais tarde — onde se lê «Operator only. No passengers». Talvez por isso, ao ver-nos passar a bagagem da Suzuki para a CSC, Jason tenha sugerido alugarmos um carro para as penduras — hipótese rejeitada no acto. A arrumação fica bastante limitada na pequena CSC, com malas laterais «decorativas». Optámos por deixar (muita) roupa e o material de campismo, com alguma pena. O custo de vida no Alasca é alto e ficar sem tenda significava reduzir as nossas opções. Completa a transferência de viajantes e bagagem, não sobrava muito espaço em cima da moto. Partíamos — usando um eufemismo — aconchegados.

Apesar do rugir do escape da Cyclone, a velocidade não acompanha, baixando muito o ritmo de viagem — chegava a altura de viajar lento, já que, como com as bicicletas, o simples vento faz-nos andar bem mais devagar. Com uma autonomia de 270 km e para um depósito de 16 L atestado com gasolina de 87 octanas (máxima disponível no Alasca é 92 octanas), tem um rendimento idêntico à V-Strom. As distâncias da última porção da viagem, além de mais curtas, percorrem áreas do Alasca mais povoadas e com oferta de gasolina mais frequente. Saímos da MotoQuest com alertas para algumas secções onde teríamos de ter cuidado, pois não há postos de combustível indo mais para leste, para os lados de McCarthy. A falta de espaço e arrumação havia determinado que até o pequeno jericã ficara para trás. É uma moto ágil e leve, aproximando-se de um conceito de viagem que começa a crescer em mim. Tanto que terminei a viagem com uma decisão — arranjar

uma moto de 250 para nela começar a viajar, juntando-me à minha companheira nas pequenas motas de viagem. Há muito para gostar quando seguimos lentos, demorando-nos. Este modelo não o consigo recomendar para viajar com pendura — está pensado para viajar sozinho. Não suportou bem as milhas percorridas, com algumas mazelas no final, entre discos de travão empenados, parafusos semeados algures e uma manete de embraiagem que disputa com buzina, tamanho o chinfrim que faz quando accionada. Quando em 2015 saiu no mercado dos EUA, há cerca de 1 ano, a etiqueta rondava os três mil euros. A análise, então feita pela CycleWorld, tocava no ponto certo. — Há pessoas que gastam 300 dólares nuns sapatos feitos à mão, enquanto outros gastam 12 no Guimarães, — parafraseando — mas ambos acham que fizeram um melhor negócio que o outro

Autonomia Capaz de percorrer 270 km com um depósito, não impressiona com um rendimento próximo da V-Strom uma moto bem mais pesada.

Conforto A suspensão é de entrada de gama, e o banco duro. Não tem grande protecção do vento e o volume do escape podia ser menor, tornando-se cansativo em menos de nada.

110/dia

$

Carga As malas de brinquedo e falta de pontos de amarração penalizam muito uma moto com aspiração a viajante.

Pendura Com a «top-case», mesmo duas pessoas de média estatura ficam apertadas. Não está feita para levar passageiro.

Avaliação da V-Strom 650

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Depois de percorrer quase dois mil quilómetros na chinesa CSC Cyclone RX3 250, fica a ideia que está pensada para levar apenas o piloto, algo que toda a geometria, suspensão e travagem confirmam. Tudo o resto, como a capacidade de carga e potência do motor, sofre quando se procura ir mais além desse limite. O motor é bastante bom, regular e com uma entrega adequada na maioria dos regimes, seguramente o aspecto mais positivo. 1 roda dianteira Com alguma surpresa nossa, as jantes de raios da CSC permitem a utilização de pneus «tubeless». Este modelo estava equipado com Shinko Trail Master E-705 (110/80 R19 na frente e 130/80 R17 atrás). Estes pneus e a McCarthy Road — ambos duros — deram-se bem. 2 Suporte de carga Para conseguirmos levar o material de campismo neste modelo teríamos de usar o suporte traseiro para o saco impermeável. Contudo, a base é demasiado pequena e frágil para algo mais que a diminuta mala que equipa de série. 3 Malas laterais Apesar do bom aspecto, as malas de plástico não são impermeáveis e, do lado do escape, permite arrumar pouco mais que um computador portátil ou uma pasta de documentos. O fecho com chave é decorativo, sendo possível abrir qualquer mala, indiferente a estar aberto ou fechado. 4 Sistema de som A expressão «a formiga já tem catarro» aplica-se bem. O pequeno motor quer parecer maior à força de gritar bem alto com um escape — entusiasmante, a princípio — que se torna cansativo, ensurdecedor, obrigando a usar tampões nos ouvidos,

mesmo com as invejáveis insonorizações dos Touratech Aventuro Mod e Nexx Voyager X-D1. 5 Conforto Com um banco e suspensão traseira duros, torna-se penoso percorrer grandes distâncias. 6 Travagem Como a suspensão — componente de segurança importante — a travagem apenas se encontra em níveis aceitáveis pelas baixas velocidades que o conjunto consegue atingir, carregado com bagagem e dois passageiros. Ao final de mil quilómetros os discos estavam empenados (dianteiro numa das motas, traseiro noutra).

Para a segunda parte da viagem, usámos algo mais pequeno — a chinesa CSC em roupagens de Indiana Jones. Cyclone RX3 250 0 1 8 5 0 km 7

7 Saco de depósito O mesmo versátil saco da SW-Motech usado com a Suzuki adaptou-se na perfeição a este modelo, apesar das muitas diferenças de geometria. 8 GPS Com um suporte RAM montado no guiador, o sistema de navegação Garmin Zumo — cedido pela MotoXplorers — com os mapas da Open Street Map, foi gravando o percurso efectuado, sendo de pouca utilidade na rede de estradas simples do Alasca.

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9 Parafusos Com a vibração da McCarthy Road, os parafusos da CSC começaram a desapertar-se, terminando a viagem com umas boas voltas de fita-americana a segurar a ocular dianteira.

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Kennicott

Kenai Peninsula

Hatcher’s Pass

Kennicott

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Anchorage lakefront

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Pagaia

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travessia do Prince William Sound no Aurora parecia ter sido por encomenda, num dia de céu límpido. As temperaturas baixas que relacionamos com o Alasca continuavam a esgueirar-se. Apesar de infecundo em avistamentos de vida marítima selvagem para lá de papagaios-de-mar («fradinhos») e uns repuxos longínquos de orcas, o passeio compensa pela proximidade das montanhas de Chugach a norte com os seus cumes nevados e os glaciares alabastrinos. O chef do restaurante, Paul, engraçou connosco por ter uma namorada brasileira, acabando a oferecer-nos comida e a recomendar onde comer em Valdez, só para nos ouvir falar na mesma língua doce da namorada. Esse era o nosso porto de destino, uma pequena cidade portuária onde o oleoduto

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termina, tornando-a relevante para a economia alasquiana apesar do tamanho. No domínio do insólito vemos os seus jardins públicos e passeios apinhados de coelhos anões domesticados, uma praga que persiste, sem que haja grandes certezas sobre o mal que causam na cidade — talvez contar este segredo à população de linces? A outra «praga» são os turistas — como nós, suponho — que enchem as esplanadas e acorrem aos barcos de pesca desportiva para fisgar um alabote de 2 metros e 200 kg. Do outro lado da baía, os bandos de gaivotas sobrevoam a costa, evidenciando a maternidade de salmões que, nesta altura do ano, se transfigura em cemitério. A Dayville Road leva-nos ao epicentro mórbido, onde o cheiro pungente a peixe putrefacto nos enche as narinas a milhas de distância. Quando lá se chega, o cenário lembra um episódio de «Fishing Dead», uma série de mortos-vivos.


A manhã é dos corvos, assim como a noite fora dos coelhos. Persiste o cheiro a peixe. Assim é Valdez bem cedo, envolta em montanhas onde nos cumes se vê o gelo dos glaciares. Cedo embarcamos rumo à baía de Columbia, local que ficou famoso no documentário «Chasing Ice» («Perseguindo o Gelo»), vencedor de um Emmy em 2014. Na zona de carga do pequeno barco moderno empilhamse os caiaques coloridos — vermelho, amarelo, laranja. Por ora, funcionam como bancos onde nos encostamos a ver os leões-marinhos apanhar banhos-de-sol nas bóias de sinalização, ou as focas ariscas em mergulhos envergonhados. Ilene (lê-se «Ailine») está em Valdez desde 2013, depois de um ano a trabalhar em Deadhorse como office manager, mulher da limpeza e padeira. Hoje é a nossa guia por entre os icebergues de Columbia. Chegando o Inverno troca o Alasca pelo Panamá, sempre a liderar grupos em caiaque. Largados na ilha de Heather, fala-se chinês, português e «australiano» nos quatro caiaques à responsabilidade de Ilene. Em 2012 apenas, o glaciar desprendeu-se de um volume de icebergues equivalente a cinco vezes toda a água doce consumida no Alasca. São essas estruturas de gelo que flutuam hoje na baía para nosso pasmo, num espectáculo impressionante. Ilene ensina-nos a avaliar e manter as distâncias seguras — estamos num dia invulgarmente quente, sendo comum os blocos de gelo quebrarem. Na pausa para almoço, escolhemos um promontório sobranceiro a toda a baía, a partir de onde Ilene nos mostra fotografias de satélite que ilustram bem a regressão do glaciar ao longo dos anos. Dali do alto, vemos alguns dos icebergues quebrarem-se os mesmo junto aos quais flutuávamos há pouco. O som lembra um trovão e a onda que gera ao tombar na água viraria com facilidade um caiaque. Desequilibrado, o icebergue tomba e assim a baía vai ganhando novas formas, alterando a paisagem

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— Já chega, Zé — dizem em uníssono a Nélia e Ilene. — Não te aproximes mais.

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Pausa para comer algo a meio da manhã, num promontório sobre o vale de Columbia.

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Na boia de sinalização, os leões-marinhos aproveitam os raios de sol quentes, depois de largas semanas de chuva e tempo encoberto. (@Prince William’s Sound)

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Kennecott Mines — National Historic Landmark

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McCarthy

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o longo da viagem multiplicaram-se as recomendações para mergulhar na reserva de Wrangell-St. Elias e insistir até ao fim da linha — as minas de Kennicott. Desde Valdez, a Richardson Highway o caminho está longe de ser um martírio — pelo contrário. É mais uma das estradas que encorajam uma Road Trip, à americana, envolta na floresta que acompanha o vale.

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Sergei sabe bem do que falamos. Deixou a Rússia para viver no Alasca, depois de, com as suas duas minúsculas Yorkshire terriers, ter achado que Miami ainda não era bem o que procuravam. Hoje recebe-nos no seu Tonsila Lodge — anunciado com um grande urso esculpido com machado e moto-serra, à boa moda do Alasca —, partilhando a história da sua vida enquanto aquecemos as mãos numa chávena de café. Também ele nos recomenda a antiga cidade mineira e a antiga exploração de cobre.


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Há estradas que não se percorrem, mas vencem-se — a que liga McCarthy ao resto do Alasca é assim. Para as minas insiste-se um pouco mais e somos recebidos por um enorme vale repleto de montes de terra negra. Pensamos tratar-se de sinais da exploração mineira intensa do início do século xix, altura em que a preocupação de conservação ambiental era — para usar um eufemismo — menor. Na verdade, o responsável por este arranjo paisagístico ainda é vivo hoje e está a atirar-nos um olhar gélido. É o glaciar que dá nome à cidade fantasma mineira quem empurra e revolve a terra, criando os morros que enchem o vale. Por baixo destes, o gelo mexe-se, inexorável e determinado. Lá bem ao fundo, o rio ganha força, alimentado pela água derretida que corre subterrânea devido à pressão elevada. — O edifício da mina é mantido num estado de «decadência suspensa» — explica-nos o guia, enquanto vamos avaliando com cautela onde firmar o pé, encontrando as tábuas firmes sobre as quais nos embrenhamos na velha fábrica. Vai falando sobre o engenho e a perseverança que foram empreendidos para, num local tão remoto, se conseguir extrair o cobre e fazê-lo chegar aos estados do sul. As próprias pranchas que pisamos são um tributo a esse empenho, trazidas das florestas a sul onde a qualidade da madeira permitia aguentar a vibração tremenda imprimida pela maquinaria pesada todos os dias, sem descanso durante meio século, e ainda estar de pé, hoje. Para bem da segurança no trabalho, toda a localidade de Kennicott vivia sob uma lei seca implementada de forma rígida, remetendo para McCarthy todos os vícios e excessos onde os mineiros gastavam o dinheiro e espanejavam a poeira que os cobria

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Kennicott

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Estado de «degradação suspensa» é um termo moderadamente reconfortante.

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Kennecott Mines — National Historic Landmark

O estado precário de toda a estrutura não tranquiliza e de pouco servirá o capacete se tudo se esboroar.

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McCarthy

«Do bears sh*t in the woods?»

— E se arrombássemos este cofre?

— Oops.

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McCarthy

Kennicott River Lodge & Hostel

Quarto com vista

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Kennicott River Lodge & Hostel

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título conquistado de Última Fronteira sentese em cada contacto. Dos que cá vivem, são poucos os nativos, imigrados de todo o lado, atraídos por algo que é difícil encontrar nos demais estados deste país enorme. Há uma reclusão que convida à introspecção e uma paisagem que nos empurra para a explorar, de guizo ao pescoço e uma pistola na cintura para afugentar os ursos, é verdade. É onde se vem para cumprir os derradeiros desejos de vida. É aqui que se dá por nós a preparar a máquina fotográfica e, chegado o momento,

se pára e fica a olhar sem disparar, só para viver o momento — como o fotógrafo Sean O’Connell no filme «A Vida Secreta de Walter Mitty». Onde o consumo de marijuana é legal, a fuga dos dramas da vida agitada moderna assume muitas formas. Enquanto vemos dançar para nós no céu de Hatcher Pass as esquivas auroras boreais na nossa última noite antes do regresso à cidade, olhando o Espaço apetece terminar a viagem entoando as linhas de David Bowie. «Ground control to Major Tom.... ...Take your proteins pills and put your helmet on»

Aurora Boreal 111 alasca‘16


Hatcher’s Pass Lodge

— De certeza que o caminho é isto?

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«Arre Burriquito»

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— E isto, para que serve?

Hatcher’s Pass Lodge

Hatcher’s Pass Lodge

Independence Mine State Historical Park

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Q

uando se viaja a estas latitudes, procuram-se nas horas frias da noite testemunhar as auroras boreais. É um espectáculo de côr e movimento, numa dança de luz sob a silhueta da montanha. Estar no Alasca a presenciar uma aurora boreal com a Ursa Maior à nossa frente envolve alguma sorte. Mas para capturar o momento, é preciso também preparação e técnica. Com a quantidade de luz disponível, impõese uma exposição prolongada, muito para lá do que se consegue segurando com a mão. Entra em acção o pequeno tripé «GorillaPod Hybrid» da Joby, preso nas costas de uma cadeira desmontável algures no meio dos arbustos.

Equipamento

Outras pequenas coisas que levámos connosco....

Fuji X-T10 Lente XC 16-50mm f3.5-5.6 OIS II. Sensor 23.6x15.6 mm (16.7 MP). Peso 380 gr. Dimensões: 118x83x41 mm. PVP: ~760€

Configuração

Para capturar esta imagem, usámos a «mirrorless» Fuji X-T10 equipada com a lente XC 16-50mm f3.5-5.6 OIS II. A configuração escolhida passa por definir foco manual (a maior parte das máquinas tem esta opção na própria lente, ou no corpo da máquina — caso da X-T10), escolhendo como ponto de focagem o infinito. Após alguns testes, optamos por fixar o tempo de exposição nos 30 segundos, mantendo a abertura sempre no máximo (f3.5) para permitir a maior entrada de luz possível.

Disparo

Programa-se o disparo temporizado para 10 segundos, evitando assim tremer a máquina no momento do disparo. Uma alternativa — mais versátil e dada a experimentação — é usar tempo de exposição ilimitado e um disparo remoto, possível na X-T10 com a aplicação no telemóvel, permitindo estar dentro da tenda, resguardado do frio, a tentar diferentes combinações

Joby GorillaPod Hybrid, com nível de bolha e «ballhead», é um tripé prático e compacto. PVP: ~35€

Preços?

Por que razão pomos os preços? Não damos muita importância ao custo das coisas, nem somos obsecados por encontrar o melhor negócio. Este álbum servirá para ser lido durante muitos anos e um dos aspectos engraçados de o reler, décadas passadas, é ver o preço das coisas antigamente.

Fuji X-T10; lente XC 16-50mm f3.5-5.6 OIS II, f/3.5, ISO 400, 30 s com tripé.


PM18 — Alasca 2016  
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