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o livro que ainda não tem nome contos inspirados no álbum “Tudo Que Eu Sempre Sonhei”, do Pullovers

Daniel Corrêa . Marcio Marinho . Danielly Friedrich . Izadora Pimenta Leandro Filippi . Thiago Dalleck . Amauri Terto . Ana Clara Matta Vinícius Gandolphi . Camila Fracalossi . Leonardo Mendes . Guilherme Pietrobon

BACKBEAT


o livro que ainda não tem nome contos inspirados no álbum “Tudo Que Eu Sempre Sonhei”, do Pullovers

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o livro que ainda não tem nome contos inspirados no álbum “Tudo Que Eu Sempre Sonhei”, do Pullovers

Daniel Corrêa . Marcio Marinho . Danielly Friedrich Izadora Pimenta . Leandro Filippi . Thiago Dalleck Amauri Terto . Ana Clara Matta . Vinícius Gandolphi Camila Fracalossi . Leonardo Mendes . Guilherme Pietrobon

BACKBEAT


ORGANIZAÇÃO E PROJETO GRÁFICO Izadora Pimenta CAPA Diagramação: Izadora Pimenta Foto: Avenida Paulista por Ana Paula Santos REVISÃO Danielly Friedrich e Izadora Pimenta

Um projeto do site BACKBEAT www.mybackbeat.com

Inspirado em “Tudo Que Eu Sempre Sonhei”, álbum de 2009 da extinta banda paulistana Pullovers.


[tracklist] [01] O Não Sonhado Tudo Que Eu Sempre Sonhei por Daniel Corrêa

[02] São Paulo Não Tem Vista Para o Amor O Amor Verdadeiro Não Tem Vista Para o Mar por Marcio Marinho

[03] 1932

1932 (C.P.) por Danielly Friedrich

[04] Entre o Trem e a Plataforma Marinês por Izadora Pimenta

[05] Lição de Casa

Lição de Casa por Leandro Filippi

[06] Chora... Mas Esconde Quem Me Dera Houvesse Trem por Thiago Dalleck

[07] Cruz e Cicatriz

Marcelo Ou Eu Traí o Rock por Amauri Terto

[08] Graus de Separação

Futebol de Óculos por Ana Clara Matta

[09] ( ) [10] Ele e a Vida das Coisas

O Que Dará o Salgueiro? por Vinícius Gandolphi

[11] Semana

Semana por Camila Fracalossi

[12] Em Um Novo Gole Todas as Canções São de Amor por Leonardo Mendes

[13] Certeiro

Tchau por Guilherme Pietrobon

Jockey Club de São Paulo por Filipe Marcato


[falando pouco, em poucas palavras]

São Paulo é só um pretexto. A cidade está estampada em todas as imagens deste livro (exceto por uma, cuja licença poética foi necessária), mas as inquietações presentes em “Tudo Que Eu Sempre Sonhei”, nosso homenageado, estão por toda a parte. É por isso que Daniel Corrêa, que assina o primeiro conto deste livro, sugeriu que ele fosse chamado assim: “O Livro Que Ainda Não Tem Nome”. Porque as histórias estão incompletas. Porque nunca se sabe da inconstância das coisas (o próprio Pullovers já foi outra coisa). Porque aquilo que você sempre sonhou, bem, talvez aquilo não seja o melhor sonho para você. E tais histórias podem ser vividas em qualquer canto do globo. Utilizando metrôs ou barcos, bares ou mesas de trabalho, vistas para o mar ou não. Abraçamos as músicas do álbum e deixamos que fluíssem de acordo com a nossa imaginação. Esta é uma homenagem sincera a algo que, de uma forma ou de outra, faz parte de cada um de nós. Izadora Pimenta


“Nesse ideário, passeiam secretárias da Zona Leste, nerds futebolistas, São Paulo versus Rio, moças instigantes, despedidas, tudo costurado por amores incipientes, no auge ou no declínio.” - Release de “Tudo Que Eu Sempre Sonhei”, 2009


Tudo que eu sempre sonhei. Tanto que eu consegui... É tão bom estar aqui... Quanto ainda está por vir...

09 “A Paulista cai na Brigadeiro” por Kaluan Bernardo


[o não sonhado] Daniel Corrêa

Sempre pensei que aconteceria. Que um dia nevaria, ou as coisas seriam como nos filmes. Que daria para ser astronauta, ver o mundo lá de cima, ser sozinho de propósito, viajar na maior velocidade. Que daria para ser o craque do Vasco, e ganhar o campeonato com um gol de bicicleta no último minuto, ser carregado nos ombros pelo estádio, e as pessoas veriam meu rosto na capa do jornal. Talvez até pudesse ganhar dinheiro, e comprar um carro e uma casa com piscina. Viver sem muito motivo, mas com muitas pessoas por perto. Talvez as pessoas descobrissem que eu era um cara legal, e gostassem do que escrevo, ou das fotos que tiro, das musicas que compus. Talvez um dia eu acordasse, e visse que minha cama flutuava sozinha no mar, e só desse pra ver a ponta dos prédios, afundados. E isso me daria paz. E usaria os braços para navegar pelo céu da cidade, e as pessoas lá embaixo, nos seus engarrafamentos, correrias e mil coisas para fazer nas suas vidas submarinas, me veriam voar. E eu ia sorrir. Até acordar. No ônibus balançando, com engarrafamentos, correrias e mil coisas para fazer nessa vida na superfície, me veriam no chão, firme.

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E era firme. Nem de perto bonito, mas ainda parecia longe de ser feio. Não era dos mais magros, mas todos ainda pareciam muito gordos. Não precisava pensar para trabalhar, ou para estudar, só precisava estar lá e dar algumas horas para ganhar algum dinheiro. Tinha até alguns amigos, uns com data de validade e outros com hora pra fechar. Me sentia um estranho em casa, não falava com meu pai e não entendia a mãe. Pensava em ir embora. E tinha a namorada. Até bonita, até legal, o sexo era até bom, dava para não sentir tanta atração por outras pessoas, conseguia tirar minha cabeça de casa e o mundo parecia até bacana. E bacana é bom. E o bom é raro, diziam. E fora das paredes fiz casa naquele anel de prata. Iriamos selar tudo ali, eu e a menina que até era namorada. Iríamos ter casa, trabalhos, ganhar dinheiro e ter um cachorro para passear no fim de semana. Iriamos nos restaurantes da cidade, ouviríamos musica no carro, passariamos na casa dos pais dela, chegariamos cada vez mais em casa sem saco, odiaríamos nossos trabalhos, ganhariamos dinheiro para tentar ganhar mais, o cachorro ficaria preso em casa, assim como nós dois, dentro do carro ouvindo os rumos da bolsa e pensando em negócios, sendo o casal que não se fala nos restaurantes, eu odiando seus pais e eles me odiando. E antes disso tudo largaria o emprego, tentaria voltar para os estudos para acabá-los. E você sorriria pelo segundo e reclamaria pelo primeiro. Diria que não tenho pretensão e bateria na madeira ao ouvir que não pretendia ser rico. E passaria por tudo isso, nosso começo e nosso fim e nem te daria esse anel ainda. Esse anel de prata e 14


de impulso. Fruto do que houve de paixão por ela e do amor por ir embora. Não me estranhou a briga. Nem eu ter tido que beber tanto para falar. E você atirar o anel na minha frente. E me sentiria um merda e antes que desse para sentir pena e pensar em mudar tudo e sair de casa e pegar todas as mulheres do mundo, me vejo num hospital, por dias, sentado ao lado do meu pai. Levando ele para o quarto na cadeira de rodas e sem dormir por medo dele passar mal. Sabendo que não sou o que ele sonhou e que ele não é o que eu sonhei. Mas que somos um. E não dá pra fugir. Fiz casa em casa, fiz rumo para longe. Voltei a jogar bola e sonhar em salvar o Vasco no último minuto. Ou em ter um barco, e deixar a menina no porto, acenando, pra eu voltar pra casa logo. Em ver neve num lugar distante. Em deixar acontecer uma paixão antiga, sem pressa, que me faz voar em minha cama, remando com os braços, numa galáxia aberta no céu, no meio da serra. Em não estar tão longe. Tudo que nunca tinha sonhado.

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Pegou na m達o dela, cansou de esperar. Abriu a janela pra chuva entrar. O amor verdadeiro n達o tem vista para o mar.

30 Vila Mariana por Renan Campanini


[são paulo não tem vista para o amor] Márcio Marinho

São Paulo. Megalópole. Selva de pedra. Quase 11.5 milhões de pessoas vivendo, sonhando e respirando um ar nada puro nessa cidade que amedronta e encanta ao mesmo tempo. Pra quem vem de fora São Paulo é um sonho e um pesadelo ao mesmo tempo. Talvez o paulistano não perceba, mas se trata de uma cidade que estimula a solidão. Não que a solidão seja um defeito, veja bem, acredito cegamente que certos sentimentos bons são possíveis apenas na solitude. Mas a solidão deve ser uma escolha própria e não um calabouço que a geografia e o dia com apenas malditas 24h te impõe. Em São Paulo o desapego é tão denso que conseguimos senti-lo no toque da estação do metrô ou na automática pergunta do CPF na nota. Aliás, se eu pudesse definir uma frase que defina São Paulo seria “CPF na nota?”. O “Mais amor, por favor” é apenas uma ilusão de meia dúzia de românticos. Onze milhões e meio de pessoas. Quantos românticos?

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Milhares de casas de shows, teatros, museus, festas esdrúxulas, bares e, talvez mais tentador do que todas essas opções, uma cama quentinha em seu quarto: é muito difícil se relacionar com uma pessoa em São Paulo. Mais difícil ainda é manter uma relação duradoura. Criar uma afeição, se apaixonar, amar, morar junto, casar, ter filhos... Quem ama em São Paulo não é um romântico. O amor nessa cidade é feita por guerreiros. Você luta contra o cansaço do trabalho exaustivo, você luta contra a distância, luta contra a geografia, luta contra São Pedro e as chuvas que param a cidade, luta contra a saudade de sua vida, de sua cidade, luta contra as infinitas possibilidades de ser sozinho ou de ter muitas outras, além dela. Sempre encontramos esses guerreiros no meio dessa apatia que transforma a selva de pedra em eternos corações petrificados. Pegar na mão de uma pessoa em São Paulo é um ato quase revolucionário, é libertador, é quebrar paradigmas com a sociedade. A vida é bela. Independente de todo o contexto, a vida é bela! Mais do que isso, para um homem apaixonado em São Paulo A VIDA É DELA. O amor em São Paulo talvez seja o amor mais puro, mais 18


forte, mais sincero. É o amor de uma escolha, não de uma circunstância. É gritar ao mundo que se quer amar, contra tudo e contra todos. Que é muito bom ser desse lugar. É vestir a amarela, ou a azul, ou a vermelha e ir para a Paulista comemorar. Que bom, assim se pode amar. O guerreiro corre pela Angélica, sobe a Consolação, desce a Augusta e grita, de peito aberto e cheio do ar pesado da cidade: “Vou peitar o amor. É hora de encarar”. Acredito, e me desculpem a referência ao irritante refrão que virá a seguir, que existe sim amor em SP. Porém, o amor aqui não tem vista para o mar. Talvez até por isso ele seja, de fato, verdadeiro.

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Quando vocĂŞ sorriu, me repartiu em antes e depois. Hoje eu me rendo, Rio. Mil novecentos e trinta e dois.

Praia de Botafogo (Rio de Janeiro) por Mariana Rosa


[1932] Danielly Friedrich

O que fazer quando alguém invade sua vida, toma tudo o que é seu, e não te deixa outra alternativa se não a adequação a uma nova realidade? Em 1932, os paulistas decidiram lutar; hoje, 80 anos depois, eu só consigo pensar em me render. Minha história poderia ser dividida entre antes e depois de Manuela. A transição de um cara que nunca se importou sequer com ele mesmo para um alguém que pensa tanto em par que até aprendeu a viver no verão eterno por um simples sorriso. Toda a prova de que nem precisamos de tanta coisa em comum para se apaixonar, mesmo que a maldita sensação de “o que estou fazendo aqui?” seja uma constante. Ela chegou sem pedir licença. Mesmo sem dizer uma palavra, permanecendo parada ali, minha mente foi dominada por Manuela. MA-NU-E-LA. Confesso que mesmo chegando onde estamos, toda vez que a vejo sinto como se fosse a primeira. A falta de fôlego, o frio na barriga, o queimar do coração. Meu corpo não nega a sua existência, feita sob medida para me tirar o controle e deixar cada aspecto da minha vida mais irracional, mais... ela.

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Não temos nada a ver. Eu amo o frio, ela o calor. Eu sou do concreto, ela do mar. Eu tão exato, ela humana. Opostos. A vida com ela não me faz feliz, mas ela faz. Prefiro abrir mão da minha essência do que deixar escapar meu único floco de neve no meio de tanto sol. Eu não preciso da minha rotina e do que eu pensava constituir minha vida, preciso de Manuela. Preciso de sorrisos, mesmo que envoltos em frustração. Ela é a origem de todos os problemas que me envelhecem precocemente, mas a cada dia agradeço pelos planos que (ainda) me incluem e não permitem a morte de meu brilho nos olhos. Ah, Manuela... Se tu soubesses o quanto prefiro abrir mão dos meus sonhos para sonhar os seus, nunca mais pensaria em partir. Rio de Janeiro, sol, praia, malandragem, distâncias, caos. Poderia ser um inferno, mas nem tudo o que mais odeio supera Manuela e seu sotaque encantadoramente detestável. Me rendo.

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23 Avenida Paulista por Ana Paula Santos


Naquela vez, só o doce olhar de um mano já desfez tudo de cartesiano que havia no coração suburbano de Marinês.

Avenida Paulista por Carlos Frucci


[entre o trem e a plataforma] Izadora Pimenta

Ela gostaria de saber, em números exatos, quantas pessoas se sentavam naquele banco por dia. Se fosse possível, faria ainda uma pesquisa detalhada sobre suas rotinas, suas famílias ou a ausência delas, seus pratos ou cachorros-quentes para o jantar. Mas eram todos uns desconhecidos. Partes que se moviam inconscientemente para deixar a esquerda livre ou fazer uso dela. Rostos incontáveis camuflados pela velocidade de seus pés. Ela era apenas mais uma no meio de tantos – o que acabou lhe rendendo a mais triste sina de todas: a solidão inercial. A solidão inercial consiste em viver para si (e somente para si) em meio à cidade de concreto. Porque ela parecia ser a única que realmente se importava com o que viria depois da plataforma em sua vida - já que era cautelosa demais para cair no vão. Rotina não é difícil quando se torna mecânica. Poderia percorrer a distância entre o metrô e o trabalho sem prestar atenção em nada. O cérebro já sabia o tempo dos semáforos, as viradas de esquina e os cumprimentos: a senhora da banca, o dono da padaria e o porteiro do prédio. A mesma coisa, todos os dias, como naquele filme do Adam Sandler com a Drew Barrymore que já se cansara de assistir. 25


Mas não naquele dia. O certo seria, depois de acenar para a senhora da banca e para o dono da padaria, chegar na portaria do prédio, lançar um sorriso de lábios fechados e dizer, discretamente, bom dia ao porteiro. Mas, por algum motivo inexplicável, como o New Beetle azul calcinha que havia passado por ela no caminho, Marinês fez o sinal da cruz e soltou baixo um “Amém”. Entrou no prédio como se nada tivesse acontecido e só percebeu o ato no elevador, quando já subia instintivamente ao sétimo andar para chegar à sala de trabalho. Culpou-se internamente pela sua mania de atos mecânicos e cronometrados, como se o dia inteiro fosse uma prova cujas questões deviam ser resolvidas em seus tempos exatos. Mesmo assim, conseguiu cumprir seus próximos atos já programados: dizer “oi” para o chefe e ligar seu computador já ansiando pelo momento no qual daria dois cliques sobre o botão do Microsoft Excel para continuar seus trabalhos, sempre impecáveis, exaustivamente elogiados, estressantemente chatos e abusivos. Naquele dia, no entanto, os dedos de Marinês tremiam ao digitar. Como evitava que as emoções lhe atrapalhassem, esqueceu-se de que estava com uma vontade enorme de cair em lágrimas no meio do escritório de contabilidade. Também procurava explicações de motivos, já que estes eram efêmeros e ela não acreditava muito neles - algum pensamento vago, que logo sumia, lhe dizia que devia ter 26


algo a ver com o “amém” para o porteiro. Além dos dedos trêmulos, o olho esquerdo também pulsava. Mas ela não podia se entregar a estas coisas. Ela precisava cumprir seu trabalho para pagar o inglês e a faculdade. Seu id lhe dizia para chutar tudo e gritar que não aguentava mais nada daquilo. O superego lhe acalmava. Marinês se sentia invisível e não entendia nada de psicologia. Observava o brilho que carregava as outras moças do escritório. Ela poderia se portar bem, escolher a roupa mais socialmente aceita do armário, mas nunca possuía aquele brilho nos olhos. Aquela vontade de viver quente, pulsante, alegre com todas as possibilidades. Parecia não existir possibilidades. Parecia não existir saída. Parecia que a sina era passar a vida toda trancafiada em um escritório durante o horário comercial enquanto todo o mundo lá fora girava. O que antes pensava ser um sonho, tornara-se um pesadelo. Marinês costumava falar o necessário. Porque todo mundo parecia viver assim - ela só caminhava para uma construção do fluxo. Vivemos nos evitando porque, talvez, tenhamos medo de que algo afete nossos planos. Mesmo considerada uma boa moça por todos à sua volta, Marinês privava-se no mundo dos fones de ouvido e culpava a miopia quando era pega ignorando algum rosto conhecido. Era o medo da conversa. De chocar dois mundos. De conhecer alguém que carregava uma bagagem da qual a senha era lentamente descoberta – e ela mesma temia quando alguém 27


iniciava o processo de abertura da sua. Um medo constante de ser ignorada rapidamente por, sei lá, odiar comida japonesa e não entender de cinema, ou então parecer invasiva demais. Mas aquele era o dia do “Amém” ao porteiro. As coisas não poderiam mais ser taxadas de matematicamente impecáveis. A equação teve um erro de processo. Naquele dia, sentada em seu banco habitual no caminho para a faculdade em meio a todas as suas confusões conflitantes que nunca vinham à tona, ela olhou para cima quando alguém lhe chamou. Em pé, ele vestia terno e uma faixa do Corinthians campeão da Libertadores. Meio atrasado, mas depois ela descobriu se tratar de uma aposta. Era um cara com quem já havia tido conversas não-programadas na faculdade. Várias delas. E gostava delas, só não se dava tempo para refletir sobre isso ao longo da linha reta de seu dia. Então, começaram mais uma. Um fone de ouvido era abaixado, o direto. Logo também ia o esquerdo, resultando em um triste fim no bolso da mochila para o celular e os fios. E ali ela percebera que aquelas conversas eram cheias de aberturas – suas e dele – e nada incomodava, na verdade. Sua invisibilidade parecia radiante. Sorriu. 28


Ele também. Gelou. [Cuidado com o vão entre o trem e a plataforma] Pela primeira vez em muito tempo ela se sentiu convidada a se afogar no incerto. Não queria pensar em consequências, não queria prever felicidade contínua ou lágrimas insistentes. Nada de histórias mal calculadas – o destino é que seria o grande responsável por suas decisões. Adeus às relações exatas, precisamos de um pouco mais de humanas. Pela primeira vez em muito tempo, o coração cartesiano de Marinês perdeu seus pontos e decidiu que não teria medo de um possível amor. Mesmo que precipitado. Então ela o abraçou e sentiu que ainda corria sangue em suas veias. E depois correu para derramar motivos para si mesma, esperando que pudesse ter várias outras chances de sair fora de seu eixo ao longo dos próximos dias. Sem a iminência de uma mudança de fato, aquilo a deixava feliz.

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Quero aprender a andar na luz do dia. Quero aprender a gostar de calor. Enquanto esse ver達o ainda existe, antes do frio e do cobertor.

Bairro da Liberdade por Ana Motta


[lição de casa] Leandro Filippi

Na maior parte do tempo sozinho e em certos períodos nem tanto assim, P. morava no mesmo apartamento há décadas. Ali era a caixa da sua existência, onde guardava todo o material dos seus 85 anos anteriores. Nunca fora um hipocondríaco, mas naquela idade não se tratava disso e a consciência de finitude era apenas um ato racional. Tinha horror às guerras transmitidas na televisão, mas gostava de chamar o lugar de bunker. Esse era só um exemplo mínimo de suas contradições. Em um dia frio, como gostava, abriu a tampa do toca discos, pôs seu vinil favorito e acomodou-se na poltrona. Pausou e sem querer avaliava se havia feito bem a lição de casa da existência. Infância, escola, viagens, namoradas, músicas, amigos e histórias pairavam na mente. Sentia-se mal com isso, pois era um clichê rebobinar a vida na memória àquela altura. E pior: se comprar uma fita nova era impossível, achava um tormento estar preso a esses pensamentos. Passou a tarde toda entre a realidade das memórias e a ficção de mudar um ponto aqui e outro acolá nos pensamentos. Não conseguia sair da jaula, queria voltar no tempo, ter mais 85 pela frente. Estava num ponto em que seria inevitável colecionar, em definitivo, mais arrependi31


mentos ou triunfos. Havia chegado a hora: a crueldade de atribuir uma nota, de 0 a 10, à própria existência. Adormeceu. Os pensamentos pautaram os sonhos. Acordaria apto a sentenciar o valor das suas décadas. Quando criança, P. precisava colocar almofada e apoiar-se para fazer a lição de casa. A cadeira era demasiadamente espaçosa e a mesa parecia alta e grande o suficiente para acomodar um jantar imperial. Ser rei era encarar, sem preguiça, os textos de português, de extensa meia página. P. precisava copiar tudo o que lia no papel para o caderno. A letra era desengonçada, mas achava aquilo melhor que somar e subtrair. Com lógica, as lições pautavam a mente de P. com assuntos até então inúteis não fosse o aspecto prático: as provas. Alguns poucos, na verdade, eram, mas ninguém poderia saber com precisão quais àquela altura. Capitais brasileiras, escravidão, relevos, frações, sujeito, predicado, anfíbios, ou então “copie o texto para o seu caderno”. A lógica das lições da época era precisa. Estava sempre escrita, detalhada. Se não tinha interesse em aprender, com a corda no pescoço tornava-se um mestre em decorar: essa era a considerada a segunda maior arte do improviso à época. Porque a genuína arte do improviso era burlar as regras. E depois era só ir à pia e lavar as mãos para apagar a equação, escrita, propositalmente, em tom azul claro.

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Em uma classe de 30 alunos, haviam três tipos, alguns oscilando entre os perfis: os inteligentes, os estudiosos e os mestres do improviso; esses últimos, em geral, eram temidos. P. alternava entre todas as características, com maior propensão para a primeira. Não à toa era elogiado e até querido pelos seres máximos: aqueles postados em pé à frente de todos, altos, por vezes imponente, com o poder de, com uma nota no boletim, aniquilar os presentes do próximo Natal. Certa vez, a professora pegou o giz, escreveu “Para casa” no fim da aula e disse em seguida, num tom de sabedoria, de quem já havia reprovado nas lições um dia - e que, na verdade, continuava a reprovar (algo que só inúmeras mudanças de estação depois P. entendeu): - Essa lição é importante pra vocês. Façam com atenção, pois amanhã vou corrigi-la e dar nota. Serve de preparação para a prova. P. achava o mundo complexo, tinha medo de não conseguir aprender apesar da facilidade já demonstrada. A preocupação era sempre com o fim do bimestre, as notas: mas não tinha problema, se nada desse certo bastava decorar a apostila. Gostava das aulas de educação física. Na verdade, só do futebol, e por isso apreciava a disciplina. Como uma criança comum, fez alguns amigos na rua e na escola. Mas raríssimos foram aqueles os quais podia pegar sua agenda 33


anos depois e ligar com naturalidade. Nunca pensou por que isso aconteceu, mas também não se importava muito. Jogar futebol, passar de ano. Fazer a lição de casa direito. Apostila. Prova. Prova. Prova. Preparação para a prova. Esse era o mundo pra ele. Quando tinha 20 e poucos, P. bebia, ouvia música, gostava de Miles Davis. Tentava entender as pessoas e o mundo. Pensava muito mais do que fazia. Sabia disso, admitia ser um problema, mas sentia-se com os pés fixados e sem poder mudar: com o passar dos anos, parecia ainda mais difícil. Era do tipo com preguiça de se aborrecer. Por isso, gostava de esvaziar o copo logo. Tinha amores, mas para um deles a memória reservava atenção privilegiada. P: Coloca uma música, M. O mundo é mais moribundo sem algo tocando. M: Qual você quer? P: Esqueci o nome. Vou cantar um trecho. P: “Quero aprender a perder o meu rumo, chupar o sumo do que eu for sentir”... M: Lembrei. Esta? P: É! M: Por que você se apegou tanto a essa música? P: Não sei, a letra... A melodia também é viciante. Pra eu conseguir gostar muito de uma banda, preciso ver e ouvir sinceridade. Parece meio insano, mas é possível perceber se há ou não. E isso faz toda a diferença. M: Como assim? 34


P: Em espanhol há uma palavra, duende, usada para qualificar cantores de flamenco. Já li descreverem como a capacidade de transmitir uma emoção profundamente sentida para uma plateia de estranhos, com o mínimo de estardalhaço e um máximo de moderação. Não conheço um termo compatível em português, então fico com a sinceridade. M: E quem você descreveria com essa palavra? P: Não sei, Billie Holiday, Miles Davis... M: Mas e a letra? O que é fazer a lição de casa pra você hoje? P: Ah, não sei. Ficar bêbado parece ser a melhor lição agora. Aliás, pode pegar mais uma pra mim? M: Mas tem outras boas. Aquela que canta assim, ó: “mesmo assim, contudo, o tempo foi passando e eu fui adiando, mudo, os grandes dias que ia conhecer”. P: Gosto também. Os caras gravaram um vídeo embaixo de um viatudo dessa aí. O vocalista canta o tempo todo com uma garrafa na mão, tipo esta. P: “E por fim cresci, de insulto em insulto, eu me vi como um adulto, culto, pronto pra o que mesmo? Já nem sei”. P: Sempre fui um desastre em imitações. M: Tá ficando bêbado, né? P: Mas eu gosto mesmo é de Lição de Casa. P: Mas, ei... Tenho vontade de lhe dizer algo faz tempo. M: Então diga... P: ...Deixa pra lá... Me fala, qual é a sua preferida? P. acumulara situações semelhantes, em maior ou menor intensidade. Já naquela época condenava a característica 35


a qual tinha total consciência, mas não conseguia domá-la. P. era como uma garrafa térmica, que sugeria a presença do calor, sem irradiá-lo. Para poucos bastava. Bem poucos. Nunca mais viu M. após o dia rememorado no sonho. Filósofo, dedicou parte da existência a ensinar os outros a refletir o mundo. Virou o ser imponente capaz de destruir um Natal e entendia, como nunca, quais eram as lições de casa da sua existência. O problema é que continuava desleixado. Sempre ponderou se havia escolhido a profissão como um subterfúgio para outro traço de sua personalidade: esconder-se dos próprios problemas, gastar toda a capacidade mental para pensar no todo até cansar e não deixar espaço para nada além disso. E parece que tinha acumulado cansaço para usar de muleta até o fim. Horas depois, P. acordou sozinho, pois não havia ninguém para chamá-lo. Há tempos o disco já nem tocava mais. Ficou um pouco perturbado com os pensamentos e os sonhos. Com um pouco de esforço poderia sentenciar se teve uma existência protocolar, comum, ou o oposto. Um meio termo, talvez. Mas não sentiu a necessidade de avaliar: em breve todas as lições terminariam à sete palmos.

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CCBB por VinĂ­cius Novaes


Chuva que cai, vem e vai, molhando quem eu deixei. Ficou pra trás, nunca mais, quem me quis bem e eu também.

Estação Pedro II por Thiago Dalleck


[chora... mas esconde] Thiago Dalleck

Maria dos Anjos era nova. 35 anos e cuidava da casa, ajudava o marido e criava dois filhos, Alice e Pedro. Morava quase na beira do mar, onde o sol dava as graças com brilho nos olhos e as ondas cantavam sem parar um instante. Maria era prendada. Passava as tardes costurando redes para o marido trabalhar no barco. Garantiam o sustento da casa. Garantiam o sorriso das crianças e paz. “Não brinque de pescador”, era como Maria repreendia Pedro todas as vezes na Ponte do Ribeirão, sem que o pai soubesse. Na casa, piranhas empalhadas, instrumentos artesanais e o cheiro, muito forte de peixe, infestavam o lugar. Suas narinas já tinham se acostumado, mas Maria não gostava nada de aventuras. Não queria que o filho trabalhasse com pesca, já sofria demais com o marido. Jonas, o esposo, dizia ter nascido pra domar as águas. Maria era o bem da terra de Jonas. O bem do mar era seu próprio espírito. Afogando-se em dúvidas, todo dia às seis da tarde, Maria ajudava Jonas a empurrar seu velho barco. Na chuva de dezembro que caía, ia e vinha o barco, chacoalhando antes mesmo de chegar às primeiras ondas. Jonas, devoto de Iemanjá e orador pragmático da Rainha, nunca errava. Beijo 39


na filha grandinha e um aperto na bochecha da menina. Beijo no filho mais novo e jogava o moleque pras alturas, espalhando areia pra todo lado. Beijo na mulher de toda a vida, de lábios serenos e olhos negros. Olhos de Maria, que fitavam o horizonte além-mar. Jonas sabia dos riscos. Beijava a família, esperançoso de um dia farto. Voltava a beijar todos nos primeiros raios de sol, agradecido aos orixás por o protegerem. O peixe ia pra frigideira na cozinha, mas também ia para as feiras e para os mercadores do porto. Camarão também dava dinheiro, dava pra sobreviver. Nas águas, Jonas fazia da solidão a melhor amiga pra espantar a tristeza. Para o sol, cantarolava folclores baianos com toque de alma. Para a noite, dedicava seus olhos ao céu estrelado. “Perco o barco, perco a família, perco os braços e as pernas, mas enquanto eu tiver olhos para as estrelas, as estrelas terão olhos para mim”, dizia Jonas para o mar ouvir. Quem lhe dera houvesse vento suficiente para fazê-lo voar. Através do amor, era como alcançava as estrelas todos os dias. Se chovia, Jonas chorava. As águas de Deus se misturavam com as águas de um ser tão minúsculo, que era ponto de equilíbrio entre céu e mar. Rapaz de mãos enrugadas e pernas cansadas, mas de coração romântico. Pescador apaixonado pela vida, seduzido pelo mar de Dona Janaína. O anzol levava o amor do pescador para onde deveria ser 40


levado. O fogão de Maria assobiava. Ela assobiava mais alto enquanto costurava. Pedro flutuava na areia. As bochechas de Alice estavam coradas. Se chovia, Jonas chorava. Mas não contava. Se chovia, Maria chorava. Mas escondia. Chovia, as crianças estavam assustadas. Navegava o barco, guiando o amor do pescador entre remos e chuva. “Amanhã melhora”, pensou. Não tinha mais beleza nos cabelos ao vento, estava encharcado. Doce e encharcado, Jonas era protegido. E por ser protegido e especial, foi convocado a comparecer. “Amanhã melhora”. Não haveria amanhã. O vento soprou e o barco Valentin II finalmente virou. Sem volta. Sem ajuda. As águas ganharam uma nova estátua purificada no fundo do mar. Maria continuou indo todos os dias pra beira do mar. Besteira. Suas mãos empurraram o que o mar, ingrato, não trouxe de volta. Maria dos Anjos chora, mas esconde. Iemanjá canta, mas baixinho. Os anjos também choram. O mar molha quem ficou. Vai de volta, indomável. Vem calmo, sozinho.

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Que chato. Não me vendo barato só pra não ser clichê, até mesmo porque desisto de ver e ser visto, disso e de querer.

Avenida Paraíso por Ana Paula Santos


[cruz e cicatriz] Amauri Terto

Toda manhã é a mesma situação. Cercado por dezenas de outros septuagenários, ocupo uma das poltronas aguardando minha bandeja. É nesse momento que a garganta resseca. Os pensamentos tomam rumos inesperados, despertam lembranças esquecidas, revelando que ainda não morri. Olho meu braço direito. Essa cruz e essa cicatriz já não impressionam como antes. Agora frágeis, minhas mãos recebem o rotineiro pão com manteiga, três bolachas de água e sal e um copo de leite. O sorriso de Marcela - a garota que aparece por aqui aos domingos - é um alento à minhera solidão medíocre. Já seus olhos contornados de preto são um grito em meu ouvido dizendo o que sou agora. Tomo um gole do leite morno e sinto a densidade do gim. Do palco eu olho pra ela, faço um acorde na guitarra e canto algo que rima com rua Augusta. Cercada de amigas, ela sorri meio sem jeito e faz promessas com o olhar. Eu só quero ela pra mim. Minhas mãos trêmulas deixam a bandeja cair. Não consi43


go reagir ao constrangimento. Meu corpo não obedece à ordem do cérebro. Tento morbidamente esticar os braços que, no mesmo instante, passam a formigar de maneira assombrosa. Marcela aparece e me acomoda novamente na poltrona. Recolhe a imundície do chão com a mesma rapidez com que serve os outros ocupantes de poltronas. Fico inerte. Sinto uma dor, mas não sei onde. Limpo os farelos de pão da minha boca. Não sei mais no que estava pensando. Marcela volta trazendo no rosto um sorriso ainda mais bonito. Uma argola prateada balança sob seu nariz. Ela me entrega a bandeja e vai embora. Vejo uma caveira tatuada no antebraço quando ela passa pela sombra. Ela ainda acredita no rock.

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Vista da Pinacoteca de S達o Paulo por Fernando Galassi


Então vem fazer parte dessa história: “Craque míope atinge a glória”. Rei do gramado que te chama de minha Primeira Dama.

20 Estádio do Morumbi por André Magalhães


[graus de separação] Ana Clara Matta

O treinamento de inúmeros dias na pequena quadra do prédio, as bolhas nos pés do novo par de chuteiras e os hematomas nos joelhos, tudo aquilo culminaria naquele momento. Era o início de um outono seco de Belo Horizonte. Ela era Atlético, ele era Cruzeiro, mas ela não precisava saber disso... ainda não. Ele treinou durante cada minuto das férias e feriados, impressionou os colegas na Educação Física e se inscrevia agora para o time da classe nos Jogos Olímpicos da Escola. O sorteio dos países nomeou a sua sala como a Espanha - e, amigos, era hora de João Pedro se transformar no Iniesta da classe. No teste para formar a lista dos titulares da equipe de futebol, João arrebentou (profético, será?). O garoto franzino estava dentro do time e era só uma questão de tempo para que tudo aquilo que ele imaginou, que ia e voltava da sua cabeça nas férias, entre reprises dos melhores desenhos (e de alguns programas esportivos), se transformasse em realidade. Ela adorava futebol. Ele não... ainda não. Mas era só uma questão daquele primeiro gol do campeonato, após o qual, perante todo o colégio, ele iria dedicar à sua musa. Já podia até imaginar um dia o casal relembrando seus dias de quadra para seus filhos. Liga a TV de novo e vê mais um desenho. 47


O professor com seus shorts cômicos e sua voz de Comando em Ação afirmou o já imaginado: João seria um dos pivôs do time. Dias de insônia e expectativa. Mais um pouco de treino na quadra do prédio. Pensava em como seria o gol. Bicicleta? Calcanhar? Camisa do time com seu nome escrito nas costas, recebeu na sala, na frente dela. Olhou para trás ao vestir pra ver se seus olhares cruzavam. Aquelas bolas de gude negras olhavam para o celular. Teria que se esforçar mais. Treinar mais. Dias de insônia e expectativa. Era o dia do jogo. Do Jogo. Os times se cumprimentam, as garotas na arquibancada (ela ainda ofegante, saída do jogo do time feminino, cabelo despenteado sobre a testa suada). O juiz começa a cerimônia e... PAUSA. - Ei, sem óculos. É a regra. - Mas eu não enxergo direito! - Você pode se machucar e machucar seu colega - olha para a parte de trás da camisa - João. - Bem, eu definitivamente VOU me machucar nessa quadra sem óculos. - E aí, Espanha, quem é o pivô reserva? 48


- Não, não! Os planos não podiam dar errado. O que eram aqueles graus, aquelas lentes? Elas não influenciavam em nada. Era agora. Não tinha outra chance. - Eu tô dentro, Seu Juiz. João passa por três, João toca a bola, Souza marca! João se vê livre na frente do goleiro, a bola tira TINTA da trave velha do colégio, PRA FORA! Já era metade do segundo tempo. Ainda sem gol. Era agora o momento decisivo. A bola estava com o outro time. Eles chutaram para o gol e a rede se moveu. Era o que o borrão nos olhos de João indicavam. Droga, Gol da França. O grandalhão da sala guardava o gol e rolou a bola para João. Ele, agitado, se lembrava - depois do gol, a bola começa no centro. No centro da quadra. Alguns metros de Maria Luiza. Ok, postura de capitão. Pega a bola no chão, coloca na bola do centro, pintada em tinta descascada pelo uso dos garotos do colégio que não sabiam de nada do que se passava ali, no coração de João, agora. SOA O APITO DO JUIZ, a cabeça de João roda, roda, por 49


vaias frenéticas, olhares que o fuzilavam e risos maldosos. Não tinha sido gol. Gol nenhum. Da França, da Espanha, nem da maldita Nárnia ou Pasárgada. A bola havia raspado a rede pelo lado de fora, causando aquela pequena ondulação, aquele truque de vista cruel como a vela de um navio pirata fantasma dos filmes de aventura. Aquilo era um tiro de meta. Caramba. O goleiro rolou a bola. Dentro da área, João pegou a bola com as mãos. Era pênalti. Era pênalti. Era pênalti. Era gol. Agora sim. Gol da França. O grandalhão se aproxima gritando de João, e pela primeira vez ele vê seu goleiro em foco. João está tremendo, suando as lágrimas que queria estar chorando. Promete não olhar para Maria Luiza. Em instantes, some para a salinha de trás do vestiário e está tudo perdido. Dias de insônia e expectativa. Reprises dos mesmos desenhos na TV, desenhos que assistiu enquanto ainda sonhava. Nos próximos jogos conseguirá uns óculos daqueles de squash, de moto, de esqui, com grau. E eles, um dia, ainda vão contar sobre os dias de quadra para os seus filhos.

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25 Avenida Paulista por Ana Paula Santos


Sublimar. Sublimei daqui esta manhã, chovi depois entenda. (Esquece o caos e as descul entender que você não influi no trânsito e mais cedo do que de costume). Precisava fug descobrir alguém. A cidade é tão grande e v de se estabelecer em um estado que você ju máxi Você nunca quis caminhar com meus pés. Mas por aí, sem pensar no que eles vão pensar d um livro para alguém, como sempre quis lh Queria que você arriscasse mais. (Pegue a mais bonito. Reinvente-se. Jogue xadrez com sobre você). E que você demonstrasse o quan (Tome cerveja às segundas feiras e às terç religiosamente toda quarta). Vou magoada, n tade de terminar relacionamentos no futur possam sorrir ali pela Augusta amanhã). Di me envolvi. (Sonhei com você esta noite, e rava: seus próprios ídolos te amavam). Eu g Mas não gostava de como você colocava as santes que eu conheci, talvez. Tão interess nada a descobrir o que lhe faz gostar de ca descobrir porque você não vai atrás de al conforto te levar, você já tem 23). Você prec a você: a gente vive um tanto quanto caóti só respirar um pouco de ar litorâneo). E e

(


i longe. Espero que se preocupe com isso. E lpas pelo atraso - os superiores nunca vão e que os despertadores não gostam de tocar gir. Era cinza demais. (Vai, levanta e vai se você é tão megalomaníaco quanto - sem essa ulga confortável, mas que não implora pelo imo). s você não utiliza os seus. (Bata nas portas de você. Escreva uma dedicatória bonita em he fazer, mas nosso tempo não me permitiu). a linha amarela do metrô, é tudo um tanto m um velhinho na praça - ele sabe bem mais nto gosta de mim e das coisas que eu gosto. ças também. Sem essa de assistir ao futebol não era isso que você temia? (Se sentir vonro, termine enquanto é tempo para que elas ifícil abstrair do nada. Difícil quando já no sonho eu não era a única que te admigostava de como você colocava as palavras. ações. (Você é um dos homens mais interessante que eu passaria horas a fio determiaminhar pela Paulista às sextas a noite. A lgumas coisas que lhe interessam - deixa o cisava arriscar mais. (O Rio iria fazer bem ico também, mas é só olhar para a paisagem, eu, eu precisava retroceder. Cair no mundo.

)

Catedral da Sé por Tay Gomes


E eu respondo certeiro, tarde, mas primeiro; me dará o Salgueiro você de corpo inteiro, o Amor Verdadeiro, seja lá quem você for.

26 Rodovia Presidente Dutra por Fernanda Praisler


[ele e a vida das coisas] Vinícius Gandolphi

Ele tinha nos olhos o tom da descoberta. Se ralava todo dia no cimento e no asfalto da sua rua. Trazia pra casa sempre mais bolinhas de gude do que levara. Fazia isso com as figurinhas da Copa do Mundo, também. Aos oito anos, na estranha idade da razão, se preocupava menos com as coisas da vida. Queria mesmo é saber da vida das coisas. Pensava que tudo era tão vivo como ele, que tudo respirava, que tudo se movia mesmo quando ele não podia ver. E de um pé de moleque poderiam nascer muitos amigos, moleques como ele. De um pé de mesa vinha muito lugar pra gente se acomodar e comer rapidinho, com meio bumbum na cadeira e os pés sujos até as canelas em posição de corrida pro almoço não atrapalhar um segundo de diversão. Se precisasse de brisa, um pé de vento trazia um novo ar pros seus pulmõezinhos hiperativos. De cada pé tirava um fruto, e todos eram bons. Ficava sempre no pé da mãe quando queria um carinho, no pé do pai quando precisava de uma companhia mais experientes para seus grandes jogos de futebol, no pé do 55


irmão mais velho quando queria treinar sua capacidade de perturbar o sossego, no pé dos avós quando queria voltar alguns anos no tempo. E quem pegava no pé dele eram os professores, e ele não sabia que o pé cresce melhor com algumas podas. Foi aprender isso mais tarde, e não foi tarde demais, graças a Deus. Ele cresceu. Parecia não mais dar atenção à vida das coisas. As coisas da vida o atraíram de tal forma que o mundo já precisava ser visto de outra forma, por outro prisma. É o que sempre acontece, são coisas da vida. Mas com ele foi um pouco diferente, ainda que não soubesse. A mania de ver a vida das coisas não o deixou de completo. As responsabilidades, os projetos e as ambições faziam parte de sua vida assim como fizera a sua infância. Ninguém esquece a própria história sem motivo. Sabia de onde vinham todas as coisas, menos o mal, o fel, o amargo. Sabia da existência do que é ruim, mas acreditava que essas coisas eram filhos sem pai, e que até o menos doce dos pés poderia lhe trazer um amor, fosse quem fosse. 56


Rua 15 de Novembro por Fernando Galassi


Nunca pensei tanto no após. Nunca falei tanto de depois. Foi só ficar a sós, um e um são dois e a gente foi esquecendo até de dormir.

Estação da Luz por Ana Paula Santos


[semana] Camila Fracalossi

Ela encarava a tela do computador nervosamente, os dedos tamborilando levemente sobre a maior das teclas do teclado encardido de uso, como se contasse com a sorte da mesma ser pressionada acidentalmente. Fechou os olhos e o fez, fechando logo o computador e deitando a cabeça sobre o mesmo: a mensagem fora enviada. Com seu telefone. Para um estranho. Um estranho que já mexia com sua cabeça há sete dias, com seu jeito atencioso e carinhoso, atenção e carinho que ela há tanto necessitava. Um estranho que morava longe e que jamais perderia o seu tempo ligando para uma reles estranha. Mas e se ela estivesse enganada? E se ele ligasse? E se ele quebrasse o seu coração, já tão partido? Era um risco que ela corria, mas já não importava: uma fissura a mais dentre tantas em um só coração não haveria de fazer diferença, enquanto a possibilidade de que ele trouxesse um pote de cola o faria. Tantos pensamentos a levaram a um pesado estado de torpor, cortado instantaneamente pelo toque escandaloso do celular – cujo identificador de chamadas marcava um número estranho com um código de área novo. O predomínio do parassimpático foi prontamente substituído 59


pelo simpático e o instinto de luta ou fuga e a taquicardia foram estabelecidos: a indecisão foi derrotada pelo desespero e a voz até falhou quando ela finalmente conseguiu dizer “alô”. A voz dele, suave como o seu jeito, soava tal como uma melodia tranquila, capaz de acalmar seu coração. O sotaque carregado, tão diferente do seu, lhe fazia sorrir: era uma graça, um daqueles detalhes pequeninos que conseguem conquistar um coração por serem de uma uniqueza tão grande. Já se conheciam há sete dias, mas parecia o primeiro contato; a timidez fazia-se clara de ambos os lados, e logo assim, ela se viu admitindo em voz alta o quanto ela precisava dele e o quanto ela o tinha esperado. Ele riu, tímido, concordando: ele também a havia procurado, mas nas pessoas erradas. Foram três horas, quase quatro, de ligação noite adentro – tarifa mais barata vinda de um telefone fixo do Norte do país, diretamente para um telefone celular perdido pelo Sudeste. Quase quatro mil quilômetros de distância viajados tão rapidamente, de modo que ela já podia senti-lo em seu peito, pulsando junto de seu coração. O adeus fora dolorido, mesmo que junto dele viesse a promessa do “te ligo amanhã”, mas a parte mais difícil ainda estava por vir: eram três horas da madrugada, como dormir? Ela queria sair gritando aos quatro ventos, mas não se permitiu: o medo da desilusão era maior que a vontade. A insegurança, praticamente nunca experimentada, invadiu o seu coração: e se ele não ligasse? E se ele desaparecesse? E se ele jamais a respondesse novamente?

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Dentre mil e dez pensamentos, acabou dormindo – assim como logo acabou acordando. Era cedo e o sono tinha sido conturbado – mas quem ligava? Pulou da cama e abriu o computador, ligando-o apressadamente. Não se vestiu, não escovou os dentes e nem penteou os cabelos, mas ficou apressando o ligamento da máquina, que parecia desafiá-la. Quando a mesma finalmente ligou, percebeu uma mensagem dele, vinda após o telefonema. Amei poder te escutar... | HE said ~8 hours ago. O coração deu um salto e então, mais uma vez, em um desespero acelerado, ela se viu apertando o enter sem nem pensar, respondendo. Eu acho que te amo. | SHE said ~ a few seconds ago. Não demorou muito para que ele estivesse online. Não demorou muito até que eles voltassem a conversar sobre a vida, o universo e tudo mais, mas demorou – e muito, na visão de ambos – para que alguém tocasse no assunto. Cada conjunto de sessenta segundos parecia durar apenas seis, enquanto os minutos e as horas se esvaíam em uma velocidade ainda mais impressionante. Assim eles se despediam ciberneticamente, mais uma vez, e ela prostrava-se ansiosa a esperar pelo toque do telefone. Nesse momento, cada minuto passou a durar seiscentos e sessenta e seis sextilhões de segundos, punindo-a por ser precipitada. Distraiu-se com os poemas de Drummond, dos quais abstraiu depois de algum tempo, e olhou o relógio: 61


já passava da hora combinada e ele não ligaria. Acabou por adormecer sobre o poeta e despertou com o toque do telefone, sorridente apesar do susto: ele não a abandonara - pelo contrário. Pediu-lhe desculpas pelo atraso de quase duas horas, fruto de uma visita inesperada de um amigo, e dissertou sobre o quanto sentira a sua falta nesse meio tempo, o quanto ela era fofa e o quanto ela valia a pena. Ela sorriu o maior sorriso do mundo, as bochechas coradas e os olhos brilhantes, dizendo-lhe o quanto ela queria poder estar mais perto, o quanto ela queria poder abraçá-lo e o quanto ela queria tê-lo para si. A conversa durou noite adentro, os dois trocando declarações e elogios, o desejo e o anseio cada vez mais fortes. Amanhecia quando eles desligaram, e ela se via agradecida por estar de férias, por ser janeiro e por poder virar praticamente 48h sem dormir. A energia era imensa, apesar do cansaço: o coração batia vigoroso, com mais compasso, mais ginga. O sorriso nos lábios era inegável, tal qual o bom humor – estranhos àquela época do ano. Ela sempre odiara o tédio das férias e agora vivia trancafiada – alimentada por um combustível nunca antes experimentado, o amor correspondido. Se era mesmo amor, ela não sabia. Sabia que seria eterno enquanto durasse – fossem sete dias ou apenas uma semana.

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37 Parque do Ibirapuera por Fernando Galassi


Todas as canções são de amor, tudo o que cala. Tudo o que se fala é do amor, é se isolar ou se render.

38 Avenida do Estado por Ana Paula Santos


[em um novo gole] Leonardo Mendes

Restavam apenas dois amigos na mesa do bar, disposta na calçada da esquina das ruas Simão Álvares e Cardeal Arcoverde, onde era possível pedir a bebida enquanto se acompanhava o movimento na rua. Moradores do bairro levavam seus cachorros para passear. Um grupo de rapazes saía de um estúdio próximo e se esforçava para guardar os instrumentos dentro do porta-malas. Alguns ônibus se enfileiravam sempre que o semáforo fechava. Naquela quinta-feira não fazia frio ou calor, o restante dos amigos havia deixado a mesa momentos antes, entretanto os dois permaneciam, sem preocupações com a manhã seguinte. Bruno, estudante de contabilidade e atendente em uma ótica da zona leste, observava o movimento no bar em frente. Rodrigo, revisor de textos em uma editora de livros didáticos, tentava distrair o amigo listando as bandas que, segundo um boato, tocariam em um festival em São Paulo no próximo semestre. - O Arcade Fire está quase confirmado. - disse Rodrigo Mas esse papo já rolou antes. - Não estou tão empolgado pra esse festival. - Você sempre diz isso antes, mas sempre compra o ingres65


so no primeiro dia. Se rolar mesmo, aposto que você vai pra fila antes de começar a vender. As palavras percorriam a consciência de Bruno. Lembrou-se da primeira vez que escutou o “The Suburbs”. Enviou para Mari, que disse ter gostado, mas não comentou muito. Pensou se ela havia gostado realmente ou se apenas mentiu para evitar que ele tentasse convencê-la a gostar. Ele tinha mania de despejar argumentos a favor de um álbum sempre que ela dizia não ter gostado. Enquanto o amigo enchia o copo, olhou para a garrafa, pouco acima da metade, calculou quantos copos americanos ainda encheria. Mari só bebia em copo americano. Dizia que em tulipa a cerveja esquentava rápido. Não iriam mais ao show da Tulipa Ruiz. Nunca havia escutado nenhuma música, mas havia prometido ir com ela. Odiava todas as promessas que não cumpriu. Achava que cada promessa não cumprida era culpada pelo fim da relação. - Talvez eu faça isso mesmo, mas não acredito nesses boatos. - Disse Bruno, enquanto completava seu copo americano. Secou a ponta dos dedos na calça e pensou que cada boato era como uma promessa não cumprida. Ao menos havia visto o show do Pavement com ela. Era sua banda preferida. Foi cantando “Spit On A Stranger” que conhecera Mari, 3 anos antes, numa quinta-feira na pista da Torre, clube próximo ao bar onde agora bebia. Quantos boatos sobre a volta do Pavement escutara antes da confirmação. Era o show que ambos esperavam. Confirmaram a compra do ingresso pela internet 17 minutos após 66


o início das vendas. Foram cedo, nem prestaram atenção nos outros shows. Estavam perto do palco, um pouco para a esquerda. Cantaram 16 músicas antes de “Spit On A Stranger”. Nunca um show foi tão especial. Aquela música, toque de suas ligações para Mari, era cantada simultaneamente por milhares de outras pessoas. Cada uma levava consigo um motivo próprio. O dele era o mais especial. Quantas vezes Mari teria escutado os acordes iniciais dessa música após o término? Sabia ter feito exatamente 17 ligações na primeira semana após o término, sem que ela atendesse nenhuma delas. Sabia que se pudesse falar com ela, voltariam. Ela também sabia, e optou por não atender. Teria conseguido ouvir aquela música e não atender ou teria trocado o toque? Ele não suportava mais ouvir aquela música. Menos de 20 dias após a separação, a escutara num seriado de TV e nunca mais o assistiu. Para não ser surpreendido, consultava a trilha sonora antes de assistir a qualquer filme. Sabia que essa loucura já havia passado, estava praticamente recuperado, mas ainda se lembrava dela enquanto olhava o copo americano. Ao mesmo tempo em que pousou o copo sobre a mesa úmida, cruzou os olhos com os de uma garota que levantava de outra mesa para fumar. Ela usava uma blusa branca de manga curta, calça cinza escuro, o tênis combinava com a blusa. Tinha o cabelo moreno preso por um lenço, a franja caía sobre os olhos, e agitava os lábios de uma maneira engraçada antes de acender o cigarro. Ainda não havia dado a segunda tragada quando o celular em cima da mesa tocou “My Heart is an Apple”, do Arcade Fire. 67


Deu um novo gole, levantou-se e acendeu um cigarro com a certeza de que iria ao festival.

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Lollapalooza 2012 por Felipe Matheus


Só me resta desejar bom Natal e Ano Bom, cuidado no Carnaval... já é festa... Tchau.

3242 Avenida Paulista por Izadora Pimenta


[certeiro] Guilherme Pietrobon

E hoje, em clima de despedida, te deixei. Como sempre, a gente se separou. Mas dessa vez, não volto. Não agora. Já sentindo a diferença, me virei com o que tinha na cozinha. Eu fiz o que pude, e até o que não podia, pela gente. Só você não assume isso. Mas sabe que é verdade. Depois de tanto tempo, vou sair, sem ser com você, sem me preocupar em voltar. Um banho rápido, a roupa salva das traças residentes no meu guarda roupa e o vidro de perfume, que você nunca elogiou quando eu usei. Aliás, nunca me elogiou - essa parte, só cabia a eu fazer a você. Assumo que quando te ofendia, mesmo que mentalmente, me vinha o ímpeto de querer elogiar pra me perdoar. Hoje, só me restam esconjuras. Peguei uma lágrima caindo do rosto e sequei antes de chegar ao meu destino. Ah o Bar do Alcindo... O velho acolhedor das minhas noites de solteiro. As esquinas com as cadeiras e as mesinhas com os pobres boêmios de sempre. Os piores tipos estavam por lá. E eu, era um deles. Me peguei pensando em você. Depois de tudo, ainda jogava na minha cara o que eu não fiz e nunca valorizou o que teve. E eu, ridiculamente ainda corria atrás. Dou graças de não ter mais que te ver, olhar pra você com o seu humor monótono, de começo de semana, com ar de cansada. 71


Mas hoje eu vou varar a noite no bar e ai do quê tentar me impedir. Depois de uma cerveja ou outra, cantarolo junto aos ébrios do recinto, pra ocupar a mente com algo que não seja você. E mais uma vez repito, pra me firmar: você sabe que eu tentei. Ainda bem que não choveu. E eu sei que você vai arrumar outro. Como sempre arrumou. Mais um pra você ficar em cima, pra você brigar, dominar e entediar. Você e suas cobranças intermináveis. Moldou-me ao seu gosto, e ao conseguir, enjoou. O que só você não via era que o prazo de validade dessa relação enlatada, pronta pra consumir, já tinha vencido. Por fim, não posso te desejar algum mal, e aproveitando o clima de festividades, te desejo que passe bem. Mas só isso. E meu íntimo pede que não apronte, mas eu ainda aprenderei a ignorar isso. Quem sabe depois de um mês? Deixa ser. Lembro quando minha mãe disse que te adorava. Até aí, eu também.

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Passarela da Rua das Noivas por Ana Paula Santos


[sobre os autores]

é estudante de Jornalismo e acredita no poder da palavra escrita. Assume os riscos de levar a vida com bom humor desde 1988. é estudante de Comunicação Social na UFMG, editora do Rock ‘n’ Beats e do Ovo de Fantasma. 22 anos, ainda não tem tudo que sempre sonhou. é sagitariana, poeta, cozinheira, sonhadora, veterinária em formação pela FMVZ - Unesp Botucatu e, cheia de inventar moda, não poderia deixar de se meter a escrever e deixar um pouquinho de si para a posterioridade. é um amador profissional que vai se formar em Audiovisual pela UFRJ. Escreve pro Ovo de Fantasma e pro Tenho Mais Discos Que Amigos e joga futebol de óculos. , 22 anos, von allem ein bißchen. A síndrome de puxar todos os R’s imagináveis evidenciam que, apesar de ter nascido no Rio de Janeiro, grande parte de sua vida se constituiu em São Paulo. Divide o coração entre música e futebol e escolheu o jornalismo porque an75


tes a pobreza do que a falta de amor. é um cirurgião dentista em formação pela FOP-UNICAMP e pseudoescritor não só nas horas vagas. Tem um karma que o prende a certo nome e acredita em horóscopo quando quer. Nunca abriu um biscoito da sorte, ou talvez um só. é estudante de Jornalismo na PUC-Campinas. Já editou o conteúdo nacional do Rock ‘n’ Beats e hoje edita o BACKBEAT. Também organizou a coletânea “Um Ou Mais Graus de Separação”, lançada em agosto. Escreve por aí. podia ser um músico sem talento, mas preferiu o jornalismo. Qualquer outra informação válida está aqui: http://www.lastfm.com.br/user/lefilippi é paulistano do extremo leste, 27 anos, sangue AB+. Paga as contas como analista de sistemas e estuda letras na USP. Prefere escrever quando está dentro de algum ônibus ou na mesa de algum bar. Passou 1/3 da vida em um desses lugares. , 25 anos, é um imigrante de qualquerlugar-e-lugar-algum que vive em São Paulo. Publicitário, Gremista, traidor do Rock, recém apaixonado por gatos. Acredita que não há nada maior que uma Taça Libertadores da América, a não ser o amor por sua Maria.

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é uma cabeça e várias ideias, um pouco de acidez e uma dose de escrúpulos. Sal a gosto. Formado em Design Digital, é editor do Escuto no Metrô e rascunha poesias, contos e crônicas nas horas vagas e não vagas. , 21, jornalista, acredita que as coisas da vida não são tão importantes quanto a vida das coisas. Ainda não saiu do sonho de que a vida nasce da videira.

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[para escutar]

“Tudo Que Eu Sempre Sonhei” no Soundcloud: http://soundcloud.com/pullovers/sets/tudo-que-eu-sempre-sonhei-1/

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“Nesse ideário, passeiam secretárias da Zona Leste, nerds futebolistas, São Paulo versus Rio, moças instigantes, despedidas, tudo costurado por amores incipientes, no auge ou no declínio.” - Release de “Tudo Que Eu Sempre Sonhei”, 2009

BACKBEAT

O Livro Que Ainda Não Tem Nome  

contos inspirados em "Tudo Que Eu Sempre Sonhei", do Pullovers

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