Os filhos bastardos do presidente
anos com assuntos estritamente confidenciais. Já pensou se o Eurico fosse um dos delatores da ditadura, certamente não estaria aqui sentado nessa mesa com ele agora. Já teriam me jogado esquartejado no Rio Tietê por causa de suas informações. Respirei aliviado. Agradeci em silêncio a Deus por ele ser humilde e simples e também por ser o meu ouvinte mais discreto. Levanto a garrafa contra a luz, verifico se ainda tem alguma coisa e completo o meu copo com cerveja quente. Após ter contado como era a sua vida de garçom, Eurico me perguntou como me sentia sendo um famoso jornalista. Fiquei em silêncio por alguns instantes, procurei o último cigarro do maço, peguei o isqueiro no bolso esquerdo da calça, acendi, dei duas tragadas daquelas que o pulmão quase que explode. Depois desse rápido intervalo perguntei qual a intenção em querer saber, porque me perguntou isso, uma vez que ele já sabia de toda a minha vida. Ele me olhou sem graça, deve ter pensado na besteira de ter feito aquela pergunta, deve ter se sentido um idiota querendo ser agradável tentando continuar aquele início de conversa. Sempre defendi uma tese que o mais difícil de toda conversa são os primeiros minutos. As primeiras palavras têm uma importância crucial para o desenrolar de um bom bate papo. Tentanto não deixá-lo ainda mais sem graça respondi: — Sou igual a você, com apenas uma diferença, eu publico a vida dos outros, sou um delator, uma pessoa que não está preocupado em manter o sigilo de ninguém, pelo contrário, meu trabalho é expor as pessoas e a vida delas, tenham feito coisas ruins ou boas. Do contrário você guarda consigo tudo o que ouve ou vê. O admiro Eurico pela sua discrição. Coisa que na minha profissão é pecado. O garçom me olha novamente com um ar de espanto, acho que nunca se deu conta disso, talvez nunca na vida chegasse a essa conclusão. Ele me pergunta novamente se houve algum caso 18