
são paulo, 2026



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são paulo, 2026



ATO I
Em nome de um sonho por Icaro Mello e Juliana Ribeiro
ATO II
Seu palco é o mundo por Adriana Pavlova
ATO III
Ana Botafogo e o ensino do balé: transmissão, tempo e permanência por Vera Aragão
Com a precisão de um movimento coreográfico, a leveza de um salto e a disciplina que transforma o corpo em instrumento de expressão máxima, a bailarina Ana Botafogo se tornou uma das mais importantes artistas do balé brasileiro. Exibindo uma técnica rigorosa e sensibilidade interpretativa, Ana faz do palco não apenas um tablado, mas um espaço de diálogo entre o esforço físico e a transcendência estética da arte.
A 72ª Ocupação Itaú Cultural sobrevoa o percurso dessa artista fundamental, desvendando as camadas de uma carreira construída com resiliência e dedicação. Por meio de fotografias, documentos, depoimentos, cartazes e objetos pessoais, a mostra revela os holofotes e os bastidores da trajetória de Ana, apresentando a grandeza indiscutível que ela construiu como artista, com suas apresentações e seus papéis de destaque nos palcos e na televisão; a atuação dela como professora, com o compartilhamento de seu saber e de sua técnica com novas gerações; e também a sua vida pessoal, marcada pelo empenho na divulgação e na democratização da dança no Brasil.
Nascida no Rio de Janeiro (rj), onde desde criança se dedicou ao estudo e à prática do balé, Ana Botafogo começou sua carreira como bailarina na França, no Ballet National de Marseille. Em 1981, tornou-se Primeira Bailarina do Theatro Municipal
do Rio de Janeiro. Apresentou-se em mais de 100 cidades brasileiras e dançou grandes papéis em mais de 30 espetáculos clássicos do balé, não apenas se consagrando em importantes palcos nacionais e internacionais, mas tornando-se uma ponte entre a arte erudita e o grande público, reafirmando que a cultura deve surgir e pulsar em todos os espaços.
A exposição percorre a vida de Ana, estruturando o conteúdo em “atos”, como em um espetáculo, dando destaque para os principais eixos que constituem sua carreira: a formação técnica, as grandes performances e seu papel como professora.
Nesta publicação, você encontra conteúdos que expandem a visão acerca da trajetória de Ana: uma entrevista com a própria artista; um ensaio da jornalista e crítica Adriana Pavlova, que traz um panorama da carreira de nossa homenageada; um artigo da bailarina, pedagoga e professora Vera Aragão sobre a atuação de Ana como professora; e fotos dos palcos e dos bastidores. Além da exposição e desta publicação, a Ocupação Ana Botafogo conta com um site que traz conteúdos exclusivos sobre a bailarina.
Mesmo sendo símbolo de excelência e dedicação no balé clássico brasileiro, Ana Botafogo construiu sua trajetória a passos não coreografados. Entre a ludicidade da infância e a disciplina da vida profissional, ela concretizou o sonho de se tornar bailarina com sua profissionalização no Ballet National de Marseille, na França.
Nesta entrevista exclusiva, nossa homenageada relembra como a dança surgiu em sua vida por meio da forte influência de sua mãe e das primeiras aulas, ainda em um conservatório de música na Urca, no Rio de Janeiro (rj). A prática que começou como uma brincadeira prazerosa passou a se transformar em estudo mais sério quando Ana entrou para a Academia de Ballet Leda Iuqui.
Ela também compartilha conosco alguns momentos decisivos de sua formação, como a maneira pela qual uma viagem de intercâmbio para Paris – planejada apenas para o estudo da língua francesa – acabou se tornando o ponto de virada de sua carreira, com a aprovação na mencionada companhia de dança de Marselha.
Por fim, a bailarina elenca algumas das maiores contribuições da dança em sua vida, especialmente as parcerias profissionais e pessoais.
Como a dança surgiu em sua vida?
A dança surgiu na minha vida por meio de muita influência da minha mãe, que gostava muito de dançar. Ela já tinha aprendido balé, mas não tinha ido adiante; era outra época, meu avô parece que não gostava muito, não queria que ela continuasse. Ela sempre gostou muito; e, quando teve a oportunidade, me colocou no balé.
Eu fui introduzida primeiro num conservatório de música, onde depois chegaram as aulas de balé, com uma bailarina do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, a Luciana Bogdanich, que morava na Urca, bairro onde também morávamos. Ela dava aula e a mãe tocava piano. Era tudo muito bonito, muito lúdico.
Eu gostava bastante, porque gostava de música e logo comecei a gostar de dançar. A professora me incentivava muito, pois acho que eu já tinha uma musicalidade desde esse momento. Ela sempre comentou com minha mãe que me achava muito musical.
Nesse primeiro momento, diferentemente do que é hoje – quando as crianças com 7 anos já sabem que querem ser bailarinas e tentam entrar em escolas profissionalizantes –, naquela época era mais difícil.
Até existia a escola do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, mas era fora de cogitação para mim, porque era distante da minha casa, e minha mãe não dirigia.
Depois, quando eu estava com 11 anos, minha mãe achou que era o momento, se eu quisesse mesmo, de entrar para uma academia mais especializada. Ela tinha uma amiga da época do balé que era professora na Academia de Ballet Leda Iuqui, escola muito bem-conceituada e que ficava em Copacabana, mais próximo da gente.
Na Academia de Ballet Leda Iuqui, eu tive outras responsabilidades. Vi como era mais difícil, eu tinha que saber mais coisas, dar mais conta do que estava fazendo. Começou a deixar um pouco de ser brincadeira para ser um estudo. Eu tinha testes a cada dois meses, escritos e práticos. Sempre havia algum teste para fazer um passo que a gente tivesse aprendido.
Lá tinha um grupo de dança da academia, dividido por idade: um das crianças, o infantil; e um grupo dos adolescentes. Primeiro eu participei do infantil, já que eu tinha 11 anos. No primeiro ano, não participei de nada, era só aluna da escola; no segundo ano, entrei nesse grupo e ali eu fui caminhando, começando a fazer os primeiros papéis. Quando eu tinha 13 ou 14 anos, comecei a me destacar um pouco. Cada vez mais isso me dava vontade de dançar, mais e mais. Até esse momento, era um hobby. Eu queria ser bailarina, já era um sonho, mas eu achava que era tão difícil; só existia o Theatro Municipal. Não existia essa quantidade de festivais de hoje, com você se colocando à prova
a cada mês ou a cada três meses. Nesse período da adolescência, sempre havia testes para o Theatro Municipal e, num deles, uma bailarina nossa, um pouco mais velha, entrou. Isso foi o máximo. A gente sabia que existia talvez uma luz no fim do túnel, mas ela era uma no meio daquela infinidade de alunos.
Quando você pensou que poderia ser bailarina?
Bom, eu queria, mas fiz outros estudos ao mesmo tempo. Cheguei a entrar na faculdade e ainda não era bailarina profissional, porque não tinha surgido a oportunidade, não tinha surgido nenhum teste para o Theatro Municipal, que era a companhia que a gente tinha no Rio de Janeiro. Nessa época, eu não pensava em ir para lugar nenhum nem em viajar, porque a gente não conhecia muito. Sem internet, era muito difícil a vida do aluno.
A oportunidade surgiu quando entrei na faculdade, e meu tio, irmão da minha mãe, era diplomata e morava em Paris. A gente aventou a possibilidade de eu fazer uma espécie de intercâmbio e passar uns dois ou três meses na casa dele, para estudar francês. Era uma maneira de viajar e, claro, de estudar balé. Eu havia feito um semestre da faculdade, tranquei o curso, e preparamos essa viagem.
Quem me incentivou primeiramente foi minha mãe, o tempo todo. Ela achava que [balé] era lindo, via que eu estava progredindo, conversava com as professoras. Ela nunca foi a mãe de bailarina que fica na escola conversando com as outras mães. Ela me deixava lá, ia fazer os cursos dela e depois voltava para me buscar. Mas sempre me incentivou. Meu pai, meu irmão, minha família também começaram a ir me ver quando tinha espetáculo. Às vezes, havia apresentação livre nas praças, nas praias do Rio de Janeiro, e minha academia era convidada. Ia a família inteira.
Bom, então, eu fui a Paris para estudar. Minha mãe, meu pai e meu irmão voltaram do aeroporto arrasados e caíram os três na cama, tristes: “Ana foi pra muito longe”. Era uma época em que telefone não era uma coisa tão fácil. O que a gente não imaginava é que esses três meses iriam se transformar em muitos mais e que iriam mudar minha vida. Nesse período, eu me comunicava com meus pais por cartas.
Cheguei a Paris em outubro e, dois meses e meio depois, passei numa audição do Roland Petit [coreógrafo e bailarino francês], do Ballet National de Marseille. Aí, fiquei pensando se ia para Marselha ou não. Tive de ligar para o Brasil, porque meu tio me disse: “Da minha casa você não pode sair, como que vai para o sul da França sozinha?”. Não tinha ddd nem ddi na época, a gente tinha que passar pela
telefonista, falar que a gente queria falar com o Brasil, com o número tal, e aí a telefonista dizia: “Olha, daqui a três horas a gente vai completar a ligação”. Nessa primeira ligação, nada foi decidido, já que meus pais precisavam conversar entre si. A gente marcou outra ligação, e nessa eles disseram que tudo bem.
Em janeiro ou fevereiro do ano seguinte, depois de terminar meu curso de francês, fui para Marselha. Eu nunca tinha viajado sozinha. Era outro tempo, e eu não estava habituada a cuidar de mim. Mas cuidei muito bem de mim quando saí da casa do meu tio. Foi maravilhoso para a vida.
O Ballet National de Marseille foi minha primeira companhia profissional. Eu saí de aluna de uma academia, onde eu era uma das melhores alunas, para as aulas na França, onde eu era só uma entre muitas. E isso minha professora de lá sempre me dizia: “É muito importante que você veja quem é sua geração, quem são as outras meninas e como elas estão, porque você tem que chegar ao nível delas”. Entrei num universo muito mais competitivo e saí do casulo que era a academia de balé.
Então, um dia eu pensei: “Hum, virei profissional”. Mas como assim? Ninguém sai de aluna para profissional. Não é um clique, um interruptor. Mas foi meio assim na minha vida. Estava na França, estudando, fiz uma audição só por experiência e saí
de lá com um contrato. Ali foi a certeza. Eu não havia lutado mais antes porque achei que era muito difícil.
E sua volta para o Brasil?
Eu saí do Ballet National de Marseille porque havia sido convidada para uma companhia inglesa de balé clássico, que era o que eu queria fazer. Quando cheguei na Inglaterra, não consegui o visto de trabalho. Eu tinha um visto de trabalho francês, mas, na Inglaterra, exigiam que eu fosse do Mercado Comum Europeu, e, como eu era brasileira, não consegui. Fiquei na Inglaterra estudando um pouco, mas logo tive que voltar para o Brasil. Para minha decepção, quando cheguei no Brasil, o Theatro Municipal do Rio de Janeiro estava fechado. Acabei recebendo um convite para dançar em Curitiba [pr]; fiquei quatro meses lá, voltei para o Rio e, seis meses depois, retornei para Curitiba, onde passei dois anos.
Voltei para o Rio em 1979, aproveitando uma troca de direção do Balé Teatro Guaíra.
Lá no começo de seu percurso, como foi essa questão do corpo? O balé exige muito, não é?
Você se sentia segura?
Quando eu era criança, ali com 6 anos, eu tinha total segurança, porque tinha total desconhecimento do
que era ser uma profissional do balé. Para mim, o balé era uma diversão, uma alegria, algo de que eu gostava por unir música e dança. Então, eu não tinha nenhuma questão com o corpo.
Na adolescência, quando fui para a academia da Leda Iuqui, mesmo com os anos de aula que eu tinha, a professora disse: “Olha, ela tem que fazer desde o primeiro ano; ela só não vai entrar no preliminar porque já tem algumas noções”. Mesmo assim, nessa escola não tive questões com o corpo, eu era uma adolescente magra – não magra feito bailarina; assim [com corpo de bailarina], eu fiquei lá na França. A única questão é que, quando eu tinha 12 ou 13 anos, queria dançar com as grandes, mas, como era muito pequena, dançava com as crianças.
Quando entrei para a companhia francesa, vi que eu precisava estar mais em forma. Foi quando me tornei profissional que passei a ter essa sensação de preocupação com o físico.
Hoje em dia, as crianças já se preocupam com o físico desde muito cedo, sabem que precisam ter uma performance física e técnica mais cedo. Para mim, o profissionalismo entrou de uma maneira muito mais leve.
O que de marcante a dança e o balé lhe trouxeram?
Eu acho que a dança me trouxe oportunidade de encontros. Tive encontros com profissionais muito importantes: grandes diretores, grandes bailarinas e bailarinos.
Entrei para o Theatro Municipal do Rio de Janeiro numa época em que nós não tínhamos Primeiros Bailarinos homens. Os que existiam já tinham parado de dançar, não havia novos. Levou um tempo para novos Primeiros Bailarinos se formarem. Durante cerca de quatro anos, o Theatro Municipal trouxe bailarinos homens de fora para dançar com as Primeiras Bailarinas. Foram encontros importantes também.
Meu primeiro marido, eu encontrei através da dança.
A dança me deu a oportunidade de ter conhecido uma pessoa fantástica. Ele me ajudou muito no começo da carreira como bailarina, porque já era um bailarino havia mais tempo, na Escócia. Ele me deu confiança como artista, foi o amor da minha vida e amigo de todas as horas nessa época.
Meu segundo marido, também encontrei por causa da dança. Ele era advogado no Theatro Municipal, e nos encontrávamos constantemente em reuniões do teatro.
A dança também me trouxe controle sobre minhas emoções, especialmente as emoções dos personagens, além da vontade de sempre me desafiar e a confiança pessoal. Trouxe, ainda, a alegria de ver que o trabalho não é em vão; de que, quando a gente se dedica e se empenha, os resultados vêm e, junto com eles, o reconhecimento.
O nome de Ana Botafogo é sinônimo da história do balé no Brasil. Uma artista completa que, em cinco décadas de carreira, popularizou a dança clássica no país como ninguém – e continua popularizando. Dotada de inteligência, técnica, musicalidade, carisma e uma capacidade enorme de trabalho, Ana deixou sua marca no histórico Theatro Municipal do Rio de Janeiro, tanto em cena como nos bastidores. Encarou todos os tipos de palco e levou suas sapatilhas para os recantos mais distantes do país, fazendo multidões e gerações sonharem com a magia de suas Giselles (Giselle), Swanildas (Coppélia), Fadas Açucaradas (O quebra-nozes), Odettes e Odiles (O lago dos cisnes) e Kitris (Dom Quixote).
Os números superlativos não mentem. Até dançar pela última vez um grande balé – Oneguin, de John Cranko, com o Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio, em 2012 –, foram 109 cidades de 23 estados (de Boa Vista, em Roraima, a Uruguaiana, no Rio Grande do Sul), 99 parceiros [entre eles grandes nomes internacionais, como Fernando Bujones (American Ballet Theatre), Jean-Yves Lormeau (Ópera de Paris), Julio Bocca (American Ballet Theatre e Teatro Colón) e Richard Cragun (Stuttgart Ballet)]
e 31 balés completos em seu repertório.1 Em Cuba, recebeu conselhos ao pé do ouvido da mestra Alicia Alonso sobre sua personagem Giselle. Também bebeu na fonte de outras lendas coreográficas do século xx, como a brasileira Marcia Haydée, as russas Natalia Makarova e Tatiana Leskova, os britânicos Peter Wright e Margot Fonteyn e o francês Roland Petit.
Mas ela foi além, e continua indo. Só no Rio de Janeiro, sua cidade natal, Ana dançou em palcos montados em favelas, ao lado de crianças de projetos sociais, em estacionamentos de shoppings, em teatros de subúrbio e aos pés de cartões-postais como a Enseada de Botafogo e o Cristo Redentor. Desafiou o senso comum mostrando que sapatilhas de ponta também combinam com samba no pé ao desfilar como destaque em carros alegóricos no Sambódromo carioca, depois se tornando coreógrafa de comissões de frente e de casais de mestres-salas e porta-bandeiras.
Versátil, sempre disse sim a projetos autorais ao lado da pianista Lilian Barretto e do seu amigo Carlinhos de Jesus. Foi atriz em uma novela de Manoel Carlos (Páginas da Vida, de 2006), interpretando a proprietária de uma academia de dança. E, finalmente,
1. O pai da bailarina, Ernani Ernesto Fonseca, lançou o livro Ana Botafogo: palco e vida (Artepadilla), em 2021, no qual faz um levantamento detalhado de todos os dados da carreira de sua filha.
tornou-se uma jurada respeitada do quadro “Dança dos famosos”, do programa Domingão com Huck, da TV Globo, mostrando a milhões de brasileiros, ano após ano, as muitas nuances da técnica dos movimentos coreográficos.
Nascida numa família carioca de classe média alta e criada no bairro nobre da Urca, Ana Maria Botafogo Gonçalves Fonseca poderia ter sido apenas mais uma das tantas meninas matriculadas por seus pais em academias de balé em busca de refinamento, mas, desde que entrou na escola de Leda Iuqui, que havia sido primeira bailarina no Theatro Municipal do Rio, nunca deixou escapar nenhuma oportunidade.
Em 1974, aos 17 anos, foi estudar na França, onde integrou o Ballet National de Marseille, então dirigido por Roland Petit, dançando pela primeira vez um de seus carros-chefes, o balé Coppélia. Nessa temporada formadora, ela ainda passou por Cannes e Londres.
De volta ao Brasil, no fim de 1976, a profissionalização foi inevitável. Ana logo aceitou o desafio de dançar o papel-título de Giselle, marco do balé romântico, com a companhia do Balé Guaíra, em Curitiba (PR).
Foi um sucesso e, ao longo de sua carreira, ela fez do Guaíra outra casa muito querida. Ainda naquele primeiro momento, aconteceria outro encontro divisor de águas em sua vida: em 1977, a bailarina fez uma audição para participar de uma noite de gala da
Associação de Ballet do Rio de Janeiro, companhia da coreógrafa e produtora Dalal Achcar. Com seu olho clínico, Dalal convidou Ana para um duo com o bailarino estadunidense Fernando Bujones, grande nome da cena internacional.
Deu tão certo que a produtora se transformou em sua fada-madrinha: Ana foi a escolhida para dançar uma versão pop de Romeu e Julieta na Praia de Botafogo, para um público de 70 mil pessoas, e, em seguida, tornou-se estrela de um musical, também assinado por Dalal, em que sua Cinderela se movia ao som da disco music de Donna Summer, lotando teatros.
Com essas credenciais, não demorou muito para que, em janeiro de 1981, no concurso para solista do Corpo de Baile do Theatro Municipal do Rio, Ana Botafogo se tornasse primeira bailarina da companhia clássica mais histórica do país, sendo apontada por Marcia Haydée – que estava na banca da prova –como “a melhor bailarina brasileira”.
A partir daí, é a pura história da dança no Brasil, e Ana Botafogo nunca parou de surpreender e encantar. Fez todos os grandes balés de repertório no teatro que escolheu como casa maior, sempre com o afinco e a dedicação de uma perfeccionista. Mesmo após parar de dançar, ela dirigiu o grupo de 2015 a 2018, ao lado da colega Cecília Kerche. Foi convidada por
companhias de fama internacional, como o Ballet
Nacional de Cuba e o Sadler’s Wells Royal Ballet, de Londres (depois renomeado Birmingham Royal Ballet), mas sempre voltou, porque, como gosta de repetir, é aqui seu porto seguro, o lugar onde escolheu viver, dançar e, naturalmente, inspirar. Sorte nossa. Sorte da dança no Brasil.
adriana pavlova é jornalista, crítica e pesquisadora de dança, redatora e editora da ong Redes da Maré.
É doutora em literatura, cultura e contemporaneidade [Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (puc/rJ)] e mestre em artes da cena [Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (eco-ufrj)].




Ana Botafogo com 4 meses.
Rio de Janeiro, 1955 foto Autoria desconhecida acervo Ana Botafogo

Registro de Ana Botafogo começando a caminhar. Rio de Janeiro, 1956 | foto Autoria desconhecida | acervo Ana Botafogo


Ana Botafogo com 1 ano e 9 meses. Rio de Janeiro, 1956 | foto Autoria desconhecida
acervo Ana Botafogo


Ana Botafogo na sala de casa brincando de ser bailarina, com tutu feito por sua avó, e sendo fotografada pelo pai. Rio de Janeiro, 1960
fotos Ernani Fonseca acervo Ana Botafogo

Ana Botafogo em cena, dançando Chapeuzinho Vermelho, primeira vez em que utilizou sapatilhas de ponta. Academia de Ballet Leda Iuqui, Rio de Janeiro, 1967
foto Autoria desconhecida | acervo Ana Botafogo

Caderno de estudos religiosos de Ana Botafogo. Na página exibida, há um texto escrito por ela, no qual redige seu autorretrato, Rio de Janeiro, 1966 | acervo Ana Botafogo

Registro de Ana Botafogo no seu primeiro dia de faculdade em celebração com a família, quando recebeu um buquê de flores dos pais.
Curso de letras, Associação Universitária Santa Úrsula (ausu), Rio de Janeiro, março de 1974
foto Autoria desconhecida
acervo Ana Botafogo


Ana Botafogo e Julio Bocca em Floresta Amazônica (1975), balé de Dalal Achcar com música do compositor Heitor Villa-Lobos (1887-1959). A apresentação ocorreu no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, 1992
foto Amir Sfair Filho | acervo Ana Botafogo
Ana Botafogo em cena no balé La fille mal gardée [A filha malcriada], apresentado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, 1983
foto Amir Sfair Filho
acervo Ana Botafogo



Ana Botafogo em cena no balé A morte do cisne, apresentado no Teatro
Odylo Costa Filho, no Rio de Janeiro, 1999
foto Bruno Veiga | acervo Ana Botafogo

Ana Botafogo em cena no balé La fille mal gardée [A filha malcriada], apresentado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, 1983
foto Bruno Veiga
acervo Ana Botafogo

Ana Botafogo em ensaio fotográfico do balé A sagração da primavera, apresentado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, 1982 foto Wania Sandris Delamico acervo Ana Botafogo

Ana Botafogo em cena no balé Pas de quatre, Cerrito's variation, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, 1996 | foto Mário Veloso acervo Ana Botafogo

Ana Botafogo em cena no balé
Onegin, no Theatro Municipal
do Rio de Janeiro, 2013
foto Mário Veloso
acervo Ana Botafogo


Caderno do Colégio Santa Ursula, admissão de Ana Botafogo com orações, histórias e passos de balé. Rio de Janeiro, 1967 acervo Ana Botafogo
Ana Botafogo e o partner Marcelo Misailidis em cena no balé Onegin, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, 2001 | foto Mário Veloso
acervo Ana Botafogo

Ana Botafogo e o partner Hélio Bejani no balé Suite en blanc, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, 1988
foto Mário Veloso | acervo Ana Botafogo





Ana Botafogo em cenas no balé A morte do cisne, no Teatro Odylo Costa Filho, Rio de Janeiro, 1999 fotos Mário Veloso e Bruno Veiga acervo Ana Botafogo
Ana Botafogo em cena no espetáculo
Três momentos do amor, no Theatro
Municipal do Rio de Janeiro, 2006
fotos Alice Bravo
acervo Ana Botafogo



por Vera Aragão
A trajetória de Ana Botafogo, amplamente reconhecida nos palcos do balé clássico, revela uma dimensão fundamental quando observada para além da cena: sua preocupação com o ensino do balé e com a formação de bailarinos, professores e público. Essa atuação pedagógica constitui um legado que se constrói na transmissão do saber artístico, entendido não apenas como técnica, mas como experiência cultural, corporal e humana.
Ao longo de sua atuação, Ana tem se dedicado à realização de cursos, palestras, oficinas e encontros formativos em diferentes regiões do Brasil, contribuindo de maneira decisiva para a circulação dos conhecimentos do balé clássico. Nesse contexto, o ensino não se apresenta como simples reprodução de modelos consagrados, mas como um espaço de mediação entre tradição e contemporaneidade, no qual o rigor técnico convive com a escuta sensível dos corpos e das trajetórias individuais.
Sua prática pedagógica evidencia uma compreensão do balé como linguagem viva, capaz de atravessar gerações e de se adaptar a diferentes contextos sem perder sua identidade. Trata-se de uma contribuição valiosa, que ultrapassa o ensino do movimento e alcança a construção de uma postura ética diante da dança: respeito à história, responsabilidade na transmissão e compromisso com a qualidade artística.
Um aspecto especialmente significativo de sua atuação é o trabalho desenvolvido com o público acima de 60 anos, iniciativa que confronta concepções historicamente enraizadas sobre idade e legitimidade no campo do balé clássico. Ao acolher corpos maduros no processo de aprendizagem, Ana Botafogo contribui para o enfrentamento do etarismo, ainda presente em um universo acostumado a associar a dança clássica exclusivamente à juventude e ao virtuosismo precoce.
Simone de Beauvoir1 aponta que a velhice não se define apenas por transformações biológicas, mas sobretudo pelo lugar social atribuído aos sujeitos que envelhecem. Ao reconhecer o corpo idoso como capaz de aprender, sentir e criar, o ensino do balé torna-se também um ato de reposicionamento simbólico, perspectiva que dialoga com a compreensão do corpo como construção social e cultural.
Também Marcel Mauss2 afirma que as técnicas corporais são aprendidas e transmitidas ao longo da vida, atravessadas pelo tempo, pela experiência e pelo contexto cultural. Assim, o balé praticado por pessoas idosas não representa uma negação da técnica, mas uma ampliação de seus sentidos, marcada pela
1. beauvoir, Simone de. A velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.
2. mauss, Marcel. Sociologia e antropologia. São Paulo: Cosac Naify, 2003.
consciência corporal, pela memória e pela escuta do próprio corpo.
O compromisso de Ana com o ensino advém de sua relação constante com o estudo. Licenciada em dança pelo Centro Universitário da Cidade (UniverCidade), em 2009, recentemente concluiu o curso de pós-graduação em ensino da dança clássica na Fundação Teatro Municipal, reafirmando a compreensão do ensino como prática que exige atualização permanente, reflexão crítica e aprofundamento teórico. Essa postura se aproxima da concepção de Paulo Freire,3 para quem ensinar implica estudar continuamente e reconhecer o aprendizado como um processo que acompanha toda a vida.
Mantendo seu interesse em dedicar-se à educação, Ana iniciou, em 2018, uma parceria com a Escola Âmbar, em Macaé (rj), instituição com duas décadas de atuação na dança. A associação de seu nome à escola ocorreu no contexto da expansão da Âmbar, que, à época, se preparava para a abertura de uma filial em Niterói (rj). Nesse projeto, a presença de Ana Botafogo teve início na divulgação e se concretizou por meio da orientação pedagógica aos professores, da participação em atividades formativas e da realização
3. freire, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
de aulas pontuais para as turmas de balé, reafirmando a prática pedagógica como eixo central de seu interesse e de seus estudos.
Nesse sentido, a bailarina leva essa preocupação para diversas cidades do país, como ela própria afirma:
Algumas palestras são requisitadas para o público em geral, outras para professores, nas quais incluo temas como a importância da didática, o conhecimento teórico/prático dos passos de balé e terminologia. Uso minha experiência prática e o aprendizado teórico adquirido no curso de licenciatura e agora, recentemente, na pós-graduação. Além disso, sou madrinha do programa Aulão do Bem, que estimula adultos a praticarem o balé.
Assim, sua ligação com o ensino do balé ultrapassa a dimensão técnica e alcança um campo simbólico e social. Ao formar novas gerações de bailarinos e professores e ampliar o acesso à dança para públicos diversos, sua atuação pedagógica reafirma o balé como prática de continuidade, na qual tradição e tempo presente não se opõem, mas se complementam.
O legado de Ana Botafogo no ensino manifesta-se, portanto, como um trabalho de permanência do saber, do gesto transmitido, do corpo que aprende
e do desejo de dançar, independentemente da idade. Trata-se de uma contribuição que inscreve o balé no tempo presente sem romper com sua história, mas abrindo caminhos para que ele continue vivo, acessível e significativo.
vera Aragão é bailarina, professora de balé, coreógrafa e pesquisadora. É formada pela Escola de Danças Clássicas do Theatro Municipal do Rio de Janeiro (atual Escola Estadual de Dança Maria Olenewa), onde também atuou como bailarina solista. É doutora em memória social [Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio)].
concepção e realização Itaú Cultural
curadoria Equipe Itaú Cultural
projeto expográfico Carmela Rocha e Sofia Gava assistência de expografia Matheus Bauer projeto de acessibilidade Itaú Cultural
presidência do conselho curador Alfredo Setubal presidência da fundação Eduardo Saron
comunicação institucional e estratégica gerência executiva Ana de Fátima Sousa
coordenação de comunicação Alan Albuquerque, Renato Corch e Simoni Barbiellini
edição de fotografia André Seiti e Letícia Vieira redes sociais Jullyanna Salles comunicação institucional William Nunes
Eventos Caroline Campos, Caroline Sant’Ana e Gabriela Araujo
superintendência Jader Rosa
curadorias e programação artística gerência Galiana Brasil
coordenação de curadorias Carlos Gomes pesquisa e produção executiva Eliza Oliver e Regina Medeiros
criação e plataformas
gerência André Furtado
coordenação de criação Carla Chagas coordenação de produção Kety Fernandes Nassar
captação de áudio André Bellentani (terceirizado)
captação, edição de imagem e roteiro Teia Documenta (terceirizados)
supervisão de som Ana Paula Fiorotto
produção audiovisual Paula Bertola interpretação em Libras Ahu Acessibilidade (terceirizada)
transcrição, revisão e sincronização de legendas
Jacqueline Plaça (terceirizada)
audiodescrição Iguale (terceirizada)
edição e produção de conteúdo Icaro Mello e Juliana Ribeiro
supervisão de revisão de texto Tatiane Ivo
revisão de texto Karina Hambra, Marina Nicoli Garcia e Rachel Reis (terceirizadas)
projeto gráfico e comunicação visual
Guilherme Ferreira diagramação
Guilherme Ferreira e Lorraine Marinho produção editorial Luciana Araripe e Pamela Rocha Camargo
informação e difusão digital gerência Tânia Rodrigues
coordenação de documentação Felipe Albert digitalização Talita Yokoyama
mediação cultural
gerência Tayná Menezes
coordenação do educativo Mayra Oi Saito
equipe do educativo Ana Beatriz Carvalho, Bianca
Martino, Edinho Santos, Edson Bismark, Gleice Kely, Julia
Fernandes, Júlia Mussalam, Matheus Maia, Mônica Caroline de Abreu Silva, Rafael Rodrigues de Oliveira, Siri Santos
e Vitor Kawabata
coordenação de atendimento Zelia Peixoto
equipe de atendimento Amanda Silva da Rocha, Fefa Ferreira, Jhonathans Soares dos Santos (jovem aprendiz),
Matheus Paz, May Pardinho, Victor Soriano
e Vinícius Magnun
infraestrutura e produção
gerência Gilberto Labor
coordenação de produção de exposições
Vinícius Ramos
produção Carlos Eduardo Ferreira, Carmen Fajardo, Érica Pedrosa, Iago Germano, Paloma Cassari, Rodrigo Auba (estagiário), Sarah Moreira (estagiária), Savi Albuquerque
e Wanderley Bispo
consultoria jurídica
gerência Julia Baptista Rosas coordenação Daniel Lourenço
Advogados responsáveis Matheus Matos da Paz
e Yasmin Alcântara
Âmbar Escola de Dança – Ana Botafogo, Carla Camurati, Carlinhos de Jesus, Centro de Arte e Cultura Ballet Dalal Achcar, Copacabana Filmes, Dalal Achcar, Danielle Bittencourt,
Ernani Ernesto Fonseca, Ernani Fonseca Neto, Francisco Timbó,
Hélio Bejani, Inês Bogéa, Luis Arrieta, Marcelo Misailidis, Marcia Fonseca, Maria Dulce Fonseca (em memória),
Paulo Rodrigues e Theatro Municipal do Rio de Janeiro
coordenação editorial
André Furtado, Carla Chagas e Kety Fernandes Nassar
conselho editorial
Carlos Gomes, Elizabete Oliveira, Galiana Brasil
e Regina Medeiros
produção e edição de texto
Icaro Mello e Juliana Ribeiro
produção editorial
Luciana Araripe e Pamela Rocha Camargo supervisão de revisão de texto
Tatiane Ivo revisão de texto
Karina Hambra, Marina Nicoli Garcia e Rachel Reis (terceirizadas)
projeto gráfico
Guilherme Ferreira
ilustrações
Flavia Ocaranza – Girafa Não Fala (terceirizada)
colaboração
Adriana Pavlova e Vera Aragão
O Itaú Cultural (ic) e a curadoria agradecem a todos os fotógrafos que cederam imagens e a todos os artistas, sucessores e colecionadores que autorizaram a exibição de suas obras e as emprestaram para a exposição.
Foram realizados todos os esforços para encontrar os detentores dos direitos autorais incidentes sobre as imagens/obras aqui expostas e publicadas, além das pessoas fotografadas. Caso alguém se reconheça e identifique algum registro de sua autoria, solicitamos que entre em contato pelo e-mail atendimento@itaucultural.org.br.
O ic integra a Fundação Itaú.
Saiba mais em fundacaoitau.org.br.
capa com composição de duas imagens
Ana Botafogo no espetáculo A morte do cisne, apresentado no Teatro Odylo Costa Filho, Rio de Janeiro (rj), 1999 | foto Bruno Veiga | Ana Botafogo nos bastidores do espetáculo
Giselle, apresentado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro (rj), 1995 | foto Bruno Veiga acervo Ana Botafogo páginas 2, 3, 28, 29, 64 e 65
Ensaio fotográfico de Ana Botafogo no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, 2025 | fotos Cassandra Mello



Dados internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Fundação Itaú | Itaú Cultural
Ocupação Ana Botafogo / organizado por Itaú Cultural; vários autores. – São Paulo: Itaú Cultural, 2026.
PDF ; 68 p.
ISBN: 978-85-7979-230-4
1. Botafogo, Ana. 2. Balé clássico – Brasil. 3. Bailarinas – Biografia. 4. Dança. 5. Artes Cênicas. 6. Artes. I. Instituto Itaú Cultural.
II. Fundação Itaú. III. Título.
CDD 792.8092
Bibliotecário Fernando Galante Silva CRB-8/10536

fontes EB Garamond e Playground março de 2026
sábado 28 de março
a domingo 21 de junho de 2026
terça a sábado, das 11h às 20h
domingo e feriado, das 11h às 19h
livre para todos os públicos
entrada gratuita
Avenida Paulista, 149, São Paulo/SP piso 2
@itaucultural