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Jornal Ocupação Nelson Rodrigues

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JORNAL OCUPAÇÃO

A VIDA COMO ELA É...

Angela Leite Lopes*

Durante a década de 1950, o leitor do jornal A Última Hora aguardava ansiosamente pelo adultério do dia na coluna de Nelson Rodrigues intitulada A Vida como Ela É...”. Eram contos que retratavam alguma situação de amor proibido com desfechos os mais improváveis. Essa parte da obra do autor muito contribuiu para a figura polêmica que ele se esmerou em construir e que resumiu na autoapelação de “anjo pornográfico”. A leitura desses textos, hoje, nos permite redescobrir alguns aspectos fundamentais da escrita de Nelson Rodrigues que esmaecem diante da força de sua temática e do seu próprio mito. Um desses aspectos é o fato de Nelson Rodrigues saber exatamente o que significa escrever para cada gênero, seja teatro, seja romance, folhetim ou crônica de futebol. Em todos eles é obviamente possível reconhecer o estilo do autor, mas talhado segundo a especificidade de cada um. Nos folhetins, há as repetições e os suspenses a cada final de capítulo, que levam o leitor a praticamente devorar o volume. Nas crônicas, as bem-humoradas relações e comparações entre, por exemplo, uma partida de futebol e o destino da humanidade. Já nos contos e nos romances, há algo que remete à contundente definição de trágico que Nelson Rodrigues propõe no programa de estreia de sua peça Senhora dos Afo-

gados, dirigida por Bibi Ferreira, em 1954: “O que caracteriza uma peça trágica é o poder de criar a vida e não imitá-la. Isso a que se chama ‘vida’ é o que se representa no palco, e não o que vivemos cá fora”. Ou seja, a ficção não retrata uma realidade que lhe é externa. Pela criação, pela operação da linguagem, ela é que é a própria vida. A partir daí, podemos nos deliciar com todas as paixões da carne e da alma que Nelson Rodrigues procurou repertoriar em cada um dos gêneros pelos quais enveredou. No caso dos contos, trata-se da vida como ela é não forçosamente porque tal ou qual situação aconteceu ou poderia ter acontecido com seu vizinho, sua prima, um de seus cunhados... Mas, sim, porque todos nós somos afeitos a essas possibilidades de intrigas e fabulações e, a partir delas, construímos sentidos outros para nossas meras existências. Por isso, os sentimentos narrados são sempre extremos e as situações transgressoras. Como exemplo, vou citar dois contos que colocam a situação do adultério em perspectivas antagônicas. O primeiro, “O Canalha”, começa assim: “Quando soube que a noiva tinha viajado de lotação com o Dudu, sentada no mesmo banco, pôs as mãos na cabeça”. E deu a seguinte explicação: “Porque o Dudu é um cínico, um crápula, um canalha abjeto. Um sujeito que não respeita nem poste e que é capaz até de dar em cima de uma cunhada. O

simples cumprimento de Dudu basta para contaminar uma mulher. Percebeste?”. Dividido em cinco partes – Obsessão, A Festa, O Medo, Ódio e As Bodas –, o conto narra a maneira como Lima acaba precipitando Cleonice numa traição inexorável. De tanto louvar as virtudes safadas do sujeito que lhe roubara todas as pequenas, menos aquela, ele acaba despertando a paixão da noiva por Dudu. Paixão que ela lhe revela assim que se encontram a sós na noite de núpcias. “Falaste tanto e tão mal do Dudu que eu me apaixonei por ele. Eu não trairei o homem que eu amo nem com o meu marido.” O segundo, “A Dama do Lotação”, é mais conhecido por sua versão cinematográfica. Dividido em quatro partes – A Suspeita, A Certeza, A Dama do Lotação e O Defunto –, esse conto já se inicia com a descoberta feita por Carlinhos de que sua mulher, Solange, o traía. “Entretanto, a certeza de Carlinhos já não dependia de fatos objetivos. Instalara-se nele. Vira o quê? Talvez muito pouco; ou seja, uma posse recíproca de pés, debaixo da mesa. Ninguém trai com os pés, evidentemente. Mas de qualquer maneira ele estava ‘certo’. Três dias depois, há o encontro acidental com o Assunção, na cidade. O amigo anuncia, alegremente: – Ontem viajei no lotação com tua mulher.” A partir daí, a narrativa se precipita. Ao voltar para casa, Carli-

Nelson Rodrigues autografa os livros Senhora dos Afogados e A Falecida | foto: autoria desconhecida | acervo de família

NELSON RODRIGUES E O DESEJO NOSSO DE CADA DIA

nhos pressiona a mulher e obtém dela a confissão. Mas não é com Assunção que ela tem um caso. Ou não é só com ele. Toda tarde, na mesma hora, ela senta-se ao lado de algum cavalheiro no lotação e com ele salta. Diante de tremendo choque, Carlinhos, que cogitara matar Solange, declara: “Morri para o mundo”. Entrou no quarto, deitou-se na cama e ali permaneceu, dia e noite. A mulher o acompanhou, “numa contemplação maravilhada”. E, a partir daí, passou o tempo todo no quarto, só saindo “à tarde, para sua escapada delirante, de lotação. Regressou horas depois. Retomou o rosário, sentou-se e continuou o velório do marido vivo”. Nesses dois contos, como em toda a obra de Nelson Rodrigues, o

que chama a atenção são a economia e a precisão dos seus diálogos e descrições. Mas há os detalhes sutis que vão conferindo sabor especial à narrativa, como a referência ao lotação como lugar por excelência da sedução em meio à trivialidade do cotidiano. A simples menção a uma viagem lado a lado já é capaz de despertar as mais recônditas fantasias. E a visão do casamento como algo que não atende aos anseios mais profundos de realização dos desejos, nem dos homens nem das mulheres em questão. Em “O Canalha”, o adultério é apresentado de maneira invertida, o matrimônio passando a ser o lugar da traição. Em “A Dama do Lotação”, o que interessa é o insólito da situação: a fidelidade ao casamento é preservada a partir do

ritual estabelecido por Solange de passar toda tarde no lotação e o resto do tempo velando o marido vivo. Afinal, a ânsia de realização e plenitude pode levar ao rompimento de barreiras e convenções, mesmo na vida dos indivíduos aparentemente mais inexpressivos. Pois como cantou Caetano Veloso na trilha sonora do filme A Dama do Lotação, de Neville de Almeida: “A gente não sabe o lugar certo de colocar o desejo”. Mas teima em procurar...

*Professora da Escola de Belas Artes da UFRJ, autora do livro Nelson Rodrigues, Trágico, Então Moderno (Nova Fronteira, 2007) e tradutora da obra de Nelson Rodrigues para o francês.


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