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ARTISTAS CATARINENSES DILUEM FRONTEIRAS, TRANSFORMAM SUAS CASAS EM ESPAÇOS PÚBLICOS DE EXPOSIÇÕES ARTÍSTICAS E ELEVAM SEUS “VESTÍGIOS” À CONDIÇÃO DE MATÉRIA-PRIMA ARTÍSTICA

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Foto: Fernanda Kock


por Jessé Torres

“O

nde um trabalho começa? Onde começa minha casa?”, pergunta-se a artista Raquel Stolf, professora de artes visuais da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc). Rachel não tem dúvidas de que seu trabalho e sua casa se contaminam. A fronteira entre a criação e o banal parece destruída. Vive com o marido na Lagoa da Conceição, em Florianópolis. Nunca separou a casa do ateliê – que é também biblioteca, depósito e escritório. Essa ruptura de limites criou um território vago e instável, que define sua arte. Não está sozinha. Também no caso da artista catarinense Aline Dias, de Itajaí, a arte se mistura com as coisas da vida comum. Aline leva para a galeria partes aleatórias de seu mundo privado. Cubo de Poeira, um trabalho da artista selecionado pelo Prêmio Projéteis Funarte de Arte Contemporânea 2007-2008, é o resultado de um longo processo que acontece na intimidade de seu lar, em Florianópolis, onde vive com o marido, o artista e professor Diego Rayck, e a filha de poucos meses. Tornou-se uma aplicada colecionadora de vestígios da passagem do tempo pela casa. Tem o hábito de guardar parte do lixo caseiro, sem pensar muito se um dia vai utilizá-lo ou não. Pulgas dos gatos, migalhas de pão, cinzas de incenso, palitos, casulos de traças fazem parte de sua bizarra coleção. Eles são acomodados em embalagens de chocolate e arquivados com método. A arte pode vir das coisas mais desprezíveis. Fotografias de alimentos mofados ilustram sua estranha relação com a geladeira enquanto cursava o mestrado em Porto Alegre. Por passar a maior parte do tempo na rua, muitos alimentos estragavam. Parte desses restos virou obra de arte.

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Um projeto de Tamara Willerding, Espaço Contramão transforma casas em espaços de arte. “Curadoresresidentes” foram convidados a ceder o lar, em substituição às galerias. Realizaram, então, uma seleção de trabalhos que a artista Adriana Barreto, uma das participantes, chama de “curadoria afetiva”. A primeira curadora-residente foi Tamara, que hospedou em sua casa obras das colegas Adriana Barreto, Bruna Mansani e Sandra Checluski. As primeiras exposições foram combinadas e divulgadas boca a boca, em um clima de absoluta informalidade, tal qual um cafezinho na cozinha, aproximando assim a arte da vida. Na sexta edição do Contramão, denominada Fogos de Artifício e realizada no ano de 2006 na casa de Julia Amaral, amiga de Aline, a proposta era convidar amigos para expor trabalhos tão sutis que se misturassem aos objetos da casa e simplesmente desaparecessem como obras de arte. Eles criam o que chamam de uma “arte invisível”. Arte tão sutil a ponto de a faxina que Aline fez na residência da amiga horas antes da abertura da exposição se tornar, ela também, uma performance artística, simplesmente porque deixou suas marcas no ambiente. Conta Julia que foi uma “puta festa”, com a presença de cerca de 120 convidados, que circularam entre uma arte que, à primeira vista, não se deixa ver. De tempos em tempos, a dona da casa dava “blecautes”: apagava todas as luzes para que pudessem ver as moscas pintadas nas paredes com tinta fosforescente pela artista Adriana Barreto. No fim da festa, Julia descobriu que o símbolo do projeto, uma placa de trânsito fincada na entrada da casa, havia sumido. Doada por um amigo de Tamara que trabalha no Detran, ela foi simplesmente retirada por um vizinho desavisado, que a confundiu com uma placa comum – que, de fato, era. Aline ajuda a amiga Julia caçando os insetos que ela usa em seus trabalhos de fundição. Os três cães de Julia e seus próprios gatos a auxiliam nessa empreitada. A insólita cena aparece em um tríptico de fotografias sem título Casa-movente, montada sobre rodas: combinação impossível de nomadismo e sedentarismo. 28

Foto: Fernanda Kock


já exibido por Julia na Galeria Pedro Paulo Vecchietti e na exposição Impremeditações, realizada no Memorial Meyer Filho, ambos em Florianópolis. Um vídeo que nos ajuda a ver a arte invisível. Raquel Stolf também participou de edições do Contramão. Mantém caderninhos que, a qualquer momento, podem ser expostos: seu processo de criação é a própria obra. Guia-se pelo acaso, como quando um grilo entrou em seu quarto e, ato contínuo, foi incorporado a seu trabalho. Raquel gravou o cricrilar do inseto e depois reproduziu a gravação em carros de som, que circulavam pela cidade nos fins de tarde e à noite, confundindo os moradores. A fita chegou a Belém, onde a performance foi registrada em um vídeo. Nele, conhecemos Bacalhau, o responsável pela execução do som dos insetos na capital paraense. Em vez de carro de som, porém, Bacalhau usa uma bicicleta sonorizada. Uma coisa leva a outra. O vídeo, que a princípio era um simples registro de sua performance, foi parar na Fiat Mostra Brasil 2006, na qual Raquel expôs três bicicletas sonorizadas, disponíveis para quem desejasse pedalá-las. Os trabalhos da artista não são objetos fechados, mas objetos soltos no mundo, que estão sempre a gerar novos trabalhos. Com o abandono das técnicas clássicas das artes plásticas, os artistas não precisam mais de um lugar específico para trabalhar. Diego Rayck desenha não só em seus cadernos, mas nas paredes das galerias, como na série de desenhos Buracos, na qual retrata esburacamentos e escavações ficcionais. Sempre com o mesmo entusiasmo pelo desconforto provocado pelos falsos buracos, repetiu a experiência em outros ambientes. Ele é autor ainda de estranhos “homens paredes” – homens de gesso que emergem das paredes, como se estivessem presos a elas. Estudante de artes visuais, Priscilla Menezes tem um “ateliê” que não usa. Antigo laboratório da mãe, patologista, nele guarda seus trabalhos, além de materiais diversos, como conchas de praias da Grécia, penas, folhas

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Para os artistas do Espaço Contramão, o registro do processo de criação é a própria arte. Foto: Fernanda Kock

secas e insetos em vidrinhos. Hoje, ela prefere trabalhar no ambiente mais íntimo, mas também mais instável, do próprio quarto. Sua relação com o espaço é a de quem ama algo sobre o qual não tem total controle – análoga à que temos com o corpo, que não controla o lapso, o susto, a gargalhada. Muitas vezes, os trabalhos se aproximam tanto da vida que se transformam em uma ficcionalização dela. Isso acontece, por exemplo, quando Priscilla desafia seu medo do abismo em fotos que a mostram adormecida nas pedras da praia da Joaquina. A máquina de escrever sobre a mesa da avó já falecida, a também artista plástica Jarina Menezes, lhe serve como ferramenta para emprestar uma aparência antiga aos textos que usa em suas obras visuais. Na Exposição Seminário, atividade final da disciplina de performance na Udesc, de que também participa Tamara Willerding, Priscilla mostra fotografias em que aparece na casa vazia da avó morta. “Interessa-me pensar a matéria biográfica como fábula. Esquize1 confessional, suspensão de limites. Gênese de si mesmo, e o ‘si mesmo’ como ficção. Imaginar uma vida”, dizem as primeiras palavras do texto que lê. 1

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Termo usado pela artista para expressar uma subjetividade ficcionalizada.

Até os ruídos cotidianos se incorporam a esse trabalho. Raquel Stolf já gravou o som do fim do vácuo em embalagens de alimentos e o barulho que fazem as panquecas no fogo (faixa 31 do disco Fora [do Ar], “Panquecas Fantasmáticas”). No fôlder da exposição Cadernos de Desenho, pequenas imagens mostram a mesma mesa onde me recebe para a entrevista, mais uma obra em que um pedaço de sua intimidade aparece. Nascida de uma lista de compras, a primeira montagem da Lista de Coisas Brancas de Raquel foi feita em casa. É um inventário sem fim, que já conta com mais de 400 “coisas brancas” – palavras como “parede”, “comprimido”, “pessoa pálida”, “tudo” e “nada”. As palavras são adesivadas sobre diversas superfícies, em livro da artista, ou gravadas em áudio pela própria artista. Nesses casos, explica, “a palavra sonora é coisa”. Tomar a palavra em sua aparência física é também uma característica do poeta Dennis Radünz. “A casa mora onde


obra a noite / se nenhum rumo mais a mura”, dizem os versos de “Casas Noturnas (I)”, do Livro de Mercúrio (Letradágua, 2001). O escritor teve uma infância nômade: já morou em 25 casas em seis cidades diferentes, entre elas Blumenau, onde nasceu, Joinville e Florianópolis. Considera que seus livros e discos são, na verdade, sua casa. Ou pelo menos os livros, já que os discos arranham, como frisa. Diz em “Moradas Volantes”, do livro Cidades Marinhas: Solidões Moradas (Lábias, 2009): “No final de meia vida, todas as casas são a mesma, com os cômodos à escolha, cheiros, caixas...” Radünz e Raquel compartilham a ideia de que o escritor se alimenta da perda, do esquecimento e do branco. Ele lembra de Funes, personagem do conto “Funes, o Memorioso”, do livro Ficções, de Jorge Luis Borges, um homem em conflito com o excesso de memória. Para Radünz, é preciso primeiro esquecer, para só então rechear as palavras de significado. Para ele, “um dos problemas da sociedade contemporânea é a repetição”. No poema “Impossível Silenciar o Mundo”, de Raquel, disponível no site Poetas no Singular (http://www. p o e t a s n o s i n g u l a r. c o m . b r ) , aparece a ideia de deter o fluxo das palavras: “Decisão: durante cinco dias, a primeira palavra que surgisse em sua cabeça, / seria perpetuada até o pôr do sol / seria sincera consigo, / com a palavra / e o silêncio / viveria apenas uma palavra / fosse qual fosse”. Radünz não tem uma relação forte com seu lugar de origem, nem com a cidade onde mora. Prefere a falta de identidade da vida urbana e por isso vive se mudando. “Eu sou sempre o mesmo, as casas é que passam por

mim.” Aos 12 anos, desenhou uma cidade imaginária, onde tudo que possuía era um pequeno quarto. Já nesse desenho de menino despontava a ideia de que o artista não necessita de um lugar especial para criar, qualquer pequeno espaço – um quartinho apertado – lhe serve. “Um escritor não tem o pertencimento de nada, nada possui.” Esse nomadismo teria influenciado seus livros, que ele vê como uma reunião de poemas aleatórios, sem lastro, sem teto e sem arquitetura. O sentimento de nada possuir se estende a seus cadernos, onde faz anotações em um código muito pessoal e igualmente transitório. Achar um bloquinho com anotações de 1998 em 2010 é reencontrar coisas estranhíssimas. “Aquilo que nos surpreende muda com o passar do tempo.” Radünz anota tudo que lhe soa estranho (“ossoso”, “lanugem”...), como se desbravasse novos “lugares” na linguagem. Considera que “as palavras em si mesmas são obras de arte” e, por isso, o trabalho do escritor pertence à arte (e à ruptura), e não à cultura e à tradição.

ATÉ OS RUÍDOS COTIDIANOS SE INCORPORAM AO TRABALHO DE RAQUEL STOLF, QUE JÁ GRAVOU O SOM DO FIM DO VÁCUO EM EMBALAGENS DE ALIMENTOS E O BARULHO QUE FAZEM AS PANQUECAS NO FOGO

Filha de uma família de alma cigana, Helene Sacco considera que as várias mudanças de sua infância a construíram como artista. “Via tudo que tínhamos se transformar num grande bloco, que se deslocava pelo país e tomava forma de lar, sempre igual, pois se tratavam dos mesmos objetos, mas dispostos de uma forma totalmente diferente...” Os primeiros trabalhos de Helene, desenvolvidos quando estudava artes visuais na Universidade Federal de Pelotas, já tratavam da questão da memória e do tempo no universo doméstico. Gaúcha de Canguçu, viveu alguns anos em Meleiro, pequena cidade catarinense de 7 mil habitantes, onde deu aulas

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Os artistas do banal recolhem os fragmentos do cotidiano para transformá-los em arte, dos sons do quintal a milhares de palitos de fósforo usados.

de pintura para mulheres. A experiência a mergulhou no universo caseiro, resultando na exposição individual Antologia Feminina, realizada na Fundação Cultural de Criciúma. Uma das pesquisas da artista, cujo trabalho está permeado pela ficcionalização do cotidiano (“O real e o inventado oscilam a todo momento”), resulta na obra Casa-movente, exposta até julho no 12º Salão Nacional de Artes de Itajaí. Uma casa ambulante, montada sobre rodas, que “expõe, sobretudo, a construção permanente do viver”. “A casamovente apresenta um paradoxo. É uma combinação impossível de nomadismo e sedentarismo.”

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Helene considera o lugar em que mora como um abrigo. “Eu sempre o pensei assim. Mas ele me ajuda também a pensar a construção de um território. Minha casa é ferramenta de criação.” Seu caderninho é virtual: o site a1infinito.net, criado praticamente junto com a construção da casa, mostra um pouco desse processo. “Deambulei por Porto Alegre à procura de objetos e isso me levou a pensar no funcionamento da cidade, nas formas de habitação, em soluções alternativas de moradia, em consumo, descarte.” Há 23 anos na Holanda, a artista brasileira Renata de Andrade também trabalha com material abandonado


Foto: Fernanda Kock

nas cidades. “Sinto-me muito ligada ao meio ambiente. Em casa, sou cuidadosa com o uso de energia, água, reflito muito antes de comprar uma roupa, e evito comidas embaladas em plástico. Procuro viver de uma forma consciente e respeitosa, que acaba influenciando meu trabalho.”

ateliê!” Como Aline Dias, Renata acumula em sua casa materiais como plástico, papelão, rolhas, sem saber que destino lhes dar. “Acho muito difícil não ver arte em tudo.” Na maioria das vezes, se sente mais como um instrumento do que a autora de sua obra. “Sou sua humilde serva...”

Em novembro de 2009, fechou o ateliê que tinha havia 22 anos em Amsterdã. Um pedaço de sua sala de visitas virou um estúdio. E começou a se interessar muito mais pelo espaço público. “Passei a fazer mais grafites, a colocar mais assemblages, esculturas e pinturas nas ruas, a considerar as ruas e as calçadas de Amsterdã como meu

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Colecionadores do Banal  

O projeto artístico Espaço Contramão convida "curadores-residentes" a transformar suas casas em espaços públicos de arte. O autor Jessé To...