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Fé no Clima Comunidades religiosas e mudanças climáticas

Relatório dos resultados consolidados na primeira etapa da iniciativa Fé no Clima, principiada no Rio de Janeiro em junho de 2015 pela parceria ISER/GIP. Este documento está destinado aos atuais e potenciais financiadores e parceiros desta iniciativa, em sua etapa inicial e futuros desdobramentos. O objeto da iniciativa Fé no Clima é a promoção de uma articulação entre comunidades religiosas diversas e o movimento ambientalista para a reflexão e ação em face das mudanças climáticas. Os objetivos deste relatório são: 1) descrever as atividades realizadas entre junho e outubro de 2015, destacando os mais relevantes achados em cada uma destas e 2) apontar para os desdobramentos presentes e futuros da iniciativa Fé no Clima.

Comunidades religiosas e mudanças climáticas

Rio de Janeiro, novembro 2015


Resumo Fé no Clima: comunidades religiosas e mudanças climáticas é uma iniciativa do Instituto de Estudo das Religiões (ISER) que foi desenvolvida em parceria com a organização Gestão de Interesse Público (GIP) a partir de junho de 2015, no Rio de Janeiro. Esta iniciativa contou com o apoio financeiro da ClimateWorks Foundation e da Rede Interfaith para a sua realização. A iniciativa Fé no Clima foi desenvolvida a partir de três movimentos: 1) o Encontro Internacional Fé no Clima, no qual foi discutida e assinada a Declaração e Compromisso Fé no Clima; 2) a Aldeia Sagrada 2015, e 3) uma pesquisa de mapeamento na internet e qualitativa. O Encontro Internacional Fé no Clima foi um evento fechado de 30 pessoas, que congregou 12 importantes lideranças religiosas, observadores e multiplicadores. O evento ocorreu no dia 25 de agosto, na sede do GIP no Rio de Janeiro. Os palestrantes convidados foram: 1) Mãe Beata de Yemonjá; 2) Txai Leopardo Yawa Bane; 3) Inkaruna Dolores Ayay Chilón; 4) Padre Josafá de Carlos Siqueira S.J; 5) Jornalista André Trigueiro; 6) Pastor Ariovaldo Ramos; 7) Mãe Flávia Pinto; 8) Baba Kola Abimbola; 9) Lama Padma Samten; 10) Reverendo Fletcher Harper; 11) Pastor Timóteo Carriker, e 12) Rabino Nilton Bonder. A Ex-Ministra do Meio Ambiente Marina Silva, contribuiu com um vídeo que foi exibido ao final do evento. Os palestrantes convergiram nas seguintes perspectivas de desdobramentos e iniciativas futuras: 1) compromisso com a busca de superação de diferenças para promover as mudanças desejadas; 2) reconhecimento da necessidade de professar e promover mudanças de estilos de vida; 3) compromisso de depositar maior atenção nos mais vulneráveis; 4) responsabilidade de trabalhar para proteger os povos tradicionais, e 5) decisão de depositar esperanças nos mais jovens, atuando como facilitadores para uma educação renovadora. A Declaração e Compromisso Fé no Clima, que resultou destas convergências, foi subscrita por aquelas lideranças religiosas ao final do evento. A Aldeia Sagrada é um encontro anual realizado pelo Movimento InterReligioso do Rio de Janeiro (MIR), desde 2002. Sua edição de 2015 teve como objetivo sensibilizar e mobilizar religiosos e não-religiosos para as mudanças climáticas. O evento ocorreu entre 1 e 3 de outubro na sede do ISER e contou com 150 participantes. O Painel Fé no Clima foi composto por: 1) Augusto Zimbres (Brahma Kumaris); 2) Alexandre Nascimento (Povos Quilombolas); 3) Papiõn Karipuna (Povos Indígenas), e 4) Druidesa Branduir (Cultura Celta), sob a mediação de Denise Fonseca (Parole). No evento identificaram-se os seguintes aspectos: 1) a articulação entre comunidades religiosas e mudanças climáticas é ainda um tema de difícil sensibilização e mobilização no meio religioso em geral; 2) o público ambientalista demonstra a mesma dificuldade de mobilização para esta articulação, e 3) as estratégias de comunicação futuras deverão ser mais pedagógicas e mais agressivas. A pesquisa de mapeamento e qualitativa sobre a articulação entre fé e clima foi realizada em três frentes: 1) mapeamento de iniciativas multirreligiosas no mundo; 2) mapeamento de instituições religiosas no Brasil, e 3) entrevistas com seis lideranças religiosas. Dentre os temas reiterados, destacamos: 1) a relevância dos conhecimentos tradicionais; 2) a oralidade como forma de transmissão de conhecimentos religiosos; 3) a oportunidade de superar intolerâncias; 4) a oportunidade de reinterpretar doutrinas; 5) a sacralidade da natureza; 6) a dificuldade de praticar aquilo que se prega; 7) a organicidade da relação homem/natureza nas tradições de matrizes africanas e indígenas, e 8) a racionalidade dialética desta mesma relação na tradição judaico-cristã. 2


Sumário Introdução................................................................................................................ 4 O que é a iniciativa Fé no Clima?....................................................................... 4 Contexto do seu desenvolvimento...................................................................... 4 Metas e estratégias............................................................................................. 5

Atividades ................................................................................................................ 6 Encontro Internacional Fé no Clima.................................................................... 6 As comunicações e seus destaques.................................................. 7 Conclusões e resultados do evento...................................................... 10 Aldeia Sagrada..................................................................................................12 Painel Fé no Clima................................................................................ 13 Avaliação da Aldeia Sagrada................................................................ 14 Pesquisa de mapeamento e qualitativa............................................................ 14 Objetivo e metodologia..........................................................................14 Temas identificados através das entrevistas......................................... 15 Conclusões da pesquisa....................................................................... 16

Desdobramentos ................................................................................................ 17 Equipe técnica ..................................................................................................... 19

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Introdução O que é a iniciativa Fé no Clima? Fé no Clima: comunidades religiosas e mudanças climáticas é uma iniciativa do Instituto de Estudo das Religiões (ISER) que foi desenvolvida em parceria com a organização Gestão de Interesse Público (GIP) a partir de junho de 2015, no Rio de Janeiro (Anexo I). Esta iniciativa contou com o apoio financeiro da ClimateWorks Foundation e da Rede Interfaith para a sua realização. A visão de Fé no Clima é que as comunidades religiosas assumam a responsabilidade moral e o compromisso político de se preparar e se mobilizar para ações de adaptação e mecanismos de resiliência na esfera local, em face dos eventos ligados às mudanças climáticas. A missão a que Fé no Clima se propõe é oferecer um espaço de convergência de distintas comunidades religiosas e movimentos ambientalistas para que se sensibilizem e mobilizem lideranças religiosas para ações solidárias e organizadas de adaptação e resiliência às mudanças climáticas. Os valores que inspiram Fé no Clima são: • Reconciliação – A busca de ressacralização da relação da humanidade com a natureza; • Cuidado – A promoção de uma mudança paradigmática na compreensão do papel da humanidade para com a natureza, e • Justiça socioambiental – A construção de instrumentos de articulação entre comunidades religiosas e agendas ambientalistas, com foco nas mudanças climáticas, em defesa dos mais vulneráveis. A iniciativa Fé no Clima foi desenvolvida a partir de três movimentos: • Encontro Internacional Fé no Clima (Anexo II), cujo objetivo era que reconhecidas lideranças de comunidades religiosas diversas compartilhassem seus fundamentos sagrados em relação à natureza e apresentassem suas ações e propostas no campo das mudanças climáticas. Durante este evento foi discutida e assinada a Declaração e Compromisso Fé no Clima (Anexo III), que foi posteriormente encaminhada ao governo brasileiro; • Aldeia Sagrada 2015 (Anexo IV), evento anual organizado pelo Movimento InterReligioso (MIR) desde 2002, cujo objetivo deste ano foi apropriar o debate sobre as mudanças climáticas e dar visibilidade às ações concretas das diversas comunidades religiosas neste campo, e • Pesquisa de mapeamento e qualitativa, um esforço de identificação de instituições que já articulam fé e clima (Anexos VI, VII) e de aprofundamento, realizado com seis comunidades religiosas no Brasil e no exterior (Anexo X), com o objetivo de identificar suas narrativas e ações de adaptação e resiliência em face das mudanças climáticas. Contexto do seu desenvolvimento No plano internacional, Fé no Clima surge no momento político das negociações preparatórias para a Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas para Mudanças Climáticas (UNFCCC) —a COP21— que ocorrerá em Paris, em dezembro de 2015. Neste contexto, o lançamento em junho passado da Encíclica Papal Laudato Sí, ao se debruçar sobre a questão ambiental, com ênfase nas mudanças climáticas e seus efeitos sobre os mais vulneráveis, ampliou o alcance e o escopo dos atores políticos engajados 4


nestas negociações, com destaque para o segmento religioso. Desta maneira, a articulação entre fé e mobilização política em busca de justiça socioambiental foi fortemente estabelecida na cena política internacional. Na esfera nacional, importa destacar que o Brasil é um país multirreligioso, conhecido por abrigar uma das comunidades católicas mais numerosas do mundo. Católicos, protestantes, comunidades indígenas, adeptos de religiões de matrizes africanas, judeus, muçulmanos, povos ciganos, espíritas, dentre muitos outros, fazem do país um lugar especial para observar as dinâmicas religiosas de convivência, limites de tolerância, resistência social e resiliência cultural, além de ser um terreno fértil para fazer ressoar agendas políticas através das comunidades religiosas. Como exemplo disto, destaca-se o fenômeno internacional da rápida expansão das comunidades evangélicas —principalmente do segmento neopentecostal— que tem no Brasil um dos seus centros propagadores mais importantes. Ademais, a chamada “bancada evangélica” do Congresso Nacional brasileiro é um grupo de interesse com grande influência sobre a agenda doméstica em uma ampla gama de assuntos políticos. Além disso, algumas destas comunidades religiosas estão bastante instaladas como grupo político em agências setoriais governamentais de todos os níveis, sendo muito capazes de fazer fluir seus projetos políticos e de eleger seus representantes. Metas e estratégias As principais metas a serem alcançadas foram: • Buscar engajar, igualmente, comunidades assumidamente religiosas e não-religiosas, porém organizadas a partir de uma pertença cultural ou identitária (tais como, indígenas, ciganos, quilombolas) que já estivessem interessadas no tema das mudanças climáticas no Brasil e no mundo (Anexo VIII); • Mapear através da internet instituições religiosas ou ambientalistas internacionais que já trabalhassem na articulação entre religião e clima (Anexo VI); • Buscar sensibilizar e engajar, através de redes de relações institucionais locais, os indivíduos e/ou instituições de ativismo ambientalista, que já estivessem atentos para a articulação entre clima e religiões (Anexo VII); • Aprofundar o conhecimento sobre os fundamentos da relação da humanidade com a natureza nas perspectivas de comunidades religiosas diversas, através de entrevistas qualitativas (Anexo X); • Privilegiar lideranças de comunidades religiosas com grande número de adeptos no Brasil e no mundo nos convites para o Encontro Internacional (Anexo III); • Privilegiar lideranças de comunidades religiosas minoritárias no Brasil nos convites para a Aldeia Sagrada (Anexo IX); • Articular reflexão e ação através da Declaração e Compromisso Fé no Clima (Anexo III); • Comunicar as atividades e aprendizados da iniciativa Fé no Clima “para fora” dos grupos engajados, mobilizando seguidores e multiplicadores (Anexo V), e • Criar mecanismos sistemáticos de monitoramento interno, de avaliação e de ampliação “de fora para dentro” (Anexo XI). 5


As estratégias utilizadas para atingir tais metas foram: • Principiar o esforço de mobilização com as comunidades religiosas, através de suas próprias redes de relações institucionais e/ou comunitárias, seguido pelas comunidades espiritualistas, culturais ou identitárias, através das redes de contatos do ISER, do GIP e do MIR; • Mapear na internet instituições no mundo que já manejavam a relação entre multirreligiosidade e mudanças climáticas, bem como instituições e redes religiosas no Brasil já engajadas com este tema. Nesta primeira aproximação foram identificados aspectos da articulação entre fé e clima que foram utilizados pela iniciativa; • Entrevistar lideranças religiosas de diversas pertenças, cujos conteúdos e linguagem foram incorporados pela iniciativa em outras atividades; • Utilizar o formato de apresentações individuais estruturadas a partir de um conjunto de três questões comuns previamente propostas aos convidados no Encontro Internacional. Aqui a perspectiva era da transmissão do saber “de cima para baixo”; • Utilizar o formato de partilha de experiências concretas dos participantes na Aldeia Sagrada. Aqui a perspectiva era a troca horizontal de saberes; • Articular estes dois formatos, enfrentando o desafio de equalizar conteúdos e linguagens através da Declaração e Compromisso; • Elaborar documentos de referência, de divulgação para a imprensa e parceiros e de convocação para participação; • Colher assinaturas na Declaração e Compromisso no Encontro Internacional e na Aldeia Sagrada; • Construir e publicar uma Fanpage no Facebook e um Blog, cujos acessos e interações estão sendo permanentemente monitorados; • Monitorar internamente todas as etapas da iniciativa, através de duas reuniões semanais da equipe técnica, e • Encaminhar a todos os stakeholders uma pesquisa de avaliação online, cujos resultados devem informar as próximas etapas da iniciativa.

Atividades Encontro Internacional Fé no Clima O evento ocorreu no dia 25 de agosto, das 9h:30m às 18h:00m, nas instalações do GIP, localizado à Rua General Dionísio, 14, Humaitá, Rio de Janeiro (Anexo II). Este encontro foi fechado e contou com a participação de 30 pessoas, entre as lideranças religiosas convidadas e agentes executores, observadores e multiplicadores, tais como: a equipe técnica de Fé no Clima e representantes de instituições parceiras; do ISER, do MIR e do GIP, e das áreas de comunicação, religião e meio ambiente. O programa (Anexo II) foi cumprido como esperado1, em termos de seus conteúdos, organograma, produtos e desdobramentos. Para o convite das lideranças que apresentaram comunicações neste encontro foram utilizados os seguintes critérios: 1

O Rabino Nilton Bonder não pode comparecer ao encontro em virtude de imprevistos, porém posteriormente subscreveu a Declaração e Compromisso Fé no Clima.

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• Reconhecimento público, privilegiando lideranças religiosas de renomada reflexão e/ou ação sobre questões ambientais e mudanças climáticas (Anexo III); • Abrangência geográfica, reunindo representantes de quatro países e quatro regiões brasileiras (Anexo VIII), e • Diversidade nas representações, sem privilegiar quaisquer segmentos. Os convidados apresentaram comunicações individuais de cerca de 30 minutos de duração, preparadas a partir das seguintes questões: • Quais são os fundamentos religiosos da relação do ser humano com a natureza para a sua comunidade religiosa?; • Quais as ações concretas da sua comunidade religiosa com relação ao cuidado do ambiente, com ênfase em mudanças climáticas (se existentes)?, e • Quais os desejos da sua comunidade religiosa (agenda política) para enfrentar as mazelas socioambientais decorrentes das mudanças climáticas? O debate e troca de observações entre os participantes ocorreu durante todo o evento, estando a palavra franqueada entre eles durante as comunicações. As comunicações e seus destaques

Do ponto de vista das pertenças religiosas presentes no evento, pode-se dizer que estiveram representadas três correntes de pensamento: • Criacionista - Reunindo as tradições judaico-cristãs, através das igrejas Católica, Presbiteriana do Brasil e dos Estados Unidos e Comunidade Cristã Reformada e os Judeus; • Da ancestralidade - Representada pelas tradições de matrizes africanas dos Orixás, do Candomblé e da Umbanda, e nativas indígenas, através da tradição Huni Kuin da Amazônia brasileira e Quíchua dos Andes peruanos, e • Evolucionista – Reunindo o Espiritismo kardecista e o Budismo tibetano. O que se segue é uma síntese destas falas, apresentada na ordem obedecida no evento, com destaque para as suas especificidades e peculiaridades: Mãe Beata de Yemonjá, Iyalorixá do Ilê Omi Ojuarô (Candomblé Ketu), principiou sua comunicação evocando a ancestralidade, através das suas entidades guias. A seguir, qualificou o Encontro como um “berçário de ideias” de importância semelhante à Vigília Religiosa pela Cura da Terra, realizada no Rio de Janeiro em 1992, durante a Eco-92, da qual ela participou. Da sua apresentação, destacamos os seguintes aspectos: 1) o depoimento sobre os efeitos das alterações nos ciclos da natureza, que já estão impactando a própria prática ritual do Candomblé, dificultando o crescimento de espécies herbáceas sagradas e litúrgicas, e 2) o destaque que a Iyalorixá conferiu à água, tomando-a como o principal indicador dos efeitos das mudanças climáticas para os adeptos do Candomblé. Como proposta de ação, ao falar simbolicamente sobre o rio da sua comunidade de origem, ela convocou as lideranças religiosas a assumirem a responsabilidade de mobilizar suas comunidades para o cuidado da natureza, com ênfase na água. Ver Testemunho Fé no Clima de Mãe Beata. Leopardo Yawa Bane, Txai do povo Huni Kuin, do Estado do Acre, BR, principiou sua comunicação afirmando a autorização que foi a ele conferida por 7


um Conselho de Pajés (líderes espirituais indígenas) para transmitir ensinamentos da sua comunidade. Da sua fala, destacamos os seguintes aspectos: 1) o depoimento sobre os efeitos devastadores que as mudanças no regime de chuvas já estão provocando em sua região, ora causando escassez de água, ora ocasionando severas enchentes, e 2) a denúncia do desmatamento e suas consequências, decorrentes da construção de rodovias na Amazônia. Como proposta de ação, o Txai reivindica o reconhecimento da legitimidade da agenda política de preservação e difusão de conhecimentos indígenas, com foco na conservação da sociobiodiversidade. Ver Testemunho Fé no Clima de Leopardo Yawa Bane. Dolores Ayay Chilón, Inkaruna dos Povos Quíchua de Cajamarca, PE, principiou sua fala com uma evocação à Mamapacha (Mãe Terra), agradecendo a Ela a sua presença no evento e expressando com reverência a importância da conexão com as outras tradições religiosas ali representadas. Da sua apresentação, destacamos os seguintes aspectos: 1) a profunda dimensão ritualística da relação dos seres humanos com a natureza, que é própria da sua prática religiosa, pleiteando em cada gesto a sacralização da Mamapacha, e 2) o depoimento sobre como as mudanças climáticas, ao alterar o regime de chuvas, têm afetado a agricultura no altiplano andino. Como proposta de ação, ao descrever a luta da sua comunidade pelo direito ao acesso a uma nascente de água na região, o Inkaruna convocou para uma ação política em prol da preservação da natureza, que demanda cuidado. Josafá de Carlos Siqueira S.J., Padre jesuíta, biólogo e Reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro organizou sua comunicação sob a forma de uma apresentação comentada da Encíclica Papal Laudato Sí. Da sua fala, destacamos os seguintes aspectos: 1) o chamamento para uma mudança de mentalidade, de hábitos e de costumes como forma de dar um testemunho de ressacralização e de cuidado com a natureza, e 2) a convocatória para assumirmos o compromisso de tomar atitudes que promovam a sustentabilidade do planeta e possibilitem o enfrentamento das mazelas provocadas pelas mudanças climáticas. Como proposta de ação, ao destacar a inovação da Encíclica como um texto que busca aliar ciência e religião, o jesuíta destacou a importância de outros diálogos, tais como o interreligioso, bem como de crentes com não-crentes, no cuidado daquilo que o Papa Francisco chamou de “Nossa Casa Comum”. Ver Testemunho Fé no Clima do Padre Josafá. André Trigueiro, jornalista, ambientalista, professor universitário e praticante do Espiritismo, principiou sua comunicação estabelecendo paralelos entre reflexões espíritas e ecológicas, a partir das histórias destes dois movimentos que surgiram no final do século XIX. Da sua fala destacamos: 1) a concepção de conectividade, presente em ambos discursos e a sinergia que existe entre poluição energética e ambiental, ambas a serem purificadas, e 2) a lei da conservação, enquanto um princípio ético do espiritismo, que fala da relação dos homens com seus meios de vida, ensinando-o a distinguir o necessário do supérfluo. Como proposta no plano político, o jornalista manifestou seu repudio a crescente onda de intolerância religiosa no Brasil e no mundo, destacando a importância do Encontro enquanto um contraponto a esta tendência. Ver Testemunho Fé no Clima do André Trigueiro. Ariovaldo Ramos, Pastor da Comunidade Cristã Reformada, estruturou

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a sua apresentação a partir da reinterpretação da passagem bíblica “dominai sobre a terra”, de um ponto de vista não-predatório. De sua comunicação destacamos: 1) a ideia de que o Homem deve ser entendido como um jardineiro solidário, que exerce os mandatos de cuidar do planeta e da humanidade, e 2) a convocatória a uma ressacralização da relação homemnatureza. Enquanto proposta, o pastor convoca as comunidades religiosas a exercerem este mandato divino, mobilizando-se para o cuidado do planeta. Ver Testemunho Fé no Clima do Pastor Ariovaldo Ramos. Mãe Flávia Pinto, Babá de Umbanda da Casa do Perdão, principiou sua comunicação reconhecendo as autoridades do Txai Leopardo Yawa Bane e Mãe Beata de Yemonjá, enquanto representantes de povos originários, a quem pediu permissão e proteção para falar. Da sua comunicação destacamos: 1) a apresentação de experiências de ações concretas de proteção ambiental, através do movimento Umbanda do Amanhã (MUDA), que desenvolve ações cotidianas, tais como, mutirões de limpeza em cachoeiras e reciclagem de resíduos sólidos, e 2) a luta para educar o público em geral sobre práticas ritualísticas da Umbanda, que são realizadas em espaços públicos, como um valor sagrado para os seus praticantes. Do ponto de vista das propostas, destacamos a dimensão pedagógica das ações que já estão sendo realizadas para manter e respeitar a sacralidade da natureza. Ver Testemunho Fé no Clima de Mãe Flavia Pinto. Kola Abimbola, Babalorixá nigeriano, cientista político, filósofo e professor da Howard University, iniciou sua fala com um cântico de evocação e louvor aos Orixás no idioma ioruba. Da sua fala destacamos: 1) o conceito de “obrigação”, como um fundamento ético central para a cultura iorubana, o que significa que “... é ardentemente importante que praticantes das religiões do Orixás estejam na vanguarda da proteção ambiental (...) das mudanças climáticas...”, e 2) a ideia de que na religião dos Orixás deve haver um equilíbrio de forças dinâmicas na natureza, o que implica necessariamente no cuidado com o planeta. Do ponto de vista da sua proposta, ele professa a necessidade de uma tomada de decisão comportamental e ética, perguntando: “Como as minhas ações e inações terão impacto sobre o clima?” Ver Testemunho Fé no Clima do Baba Kola Abimbola. Padma Samten, Lama budista e físico, principiou a sua fala discriminando os aspectos do mundo que o budismo compreende como “grosseiros”, “sutis” e “secretos”. Da sua comunicação destacamos: 1) a busca de equilíbrio entre a humanidade e a natureza, através da compreensão de que somos diferentes dos problemas que nos cercam, o que convida a “... uma relação apropriada conosco mesmo, com as outras pessoas, com a natureza e com as autoridades”, e 2) a busca de uma redução de demandas, pois “... o caminho da liberação inclui a ligação direta com a natureza no sentido de (...) demandarmos o mínimo, não só dos outros, como das autoridades, como da natureza”. Do ponto de vista da sua proposta, trata-se de um convite a uma reflexão que aponta na direção de uma revisão interior de valores, costumes e expectativas, para promover felicidade, equilíbrio e menor impacto sobre a natureza. Ver Testemunho Fé no Clima do Lama Padma Samten. Fletcher Harper, Pastor episcopal norte-americano, iniciou sua fala lembrando que o seu país figura entre os maiores poluidores do mundo, contexto no qual ele atua através de uma organização ecumênica e ecológica que conta com mais de 20 anos de existência: a ONG GreenFaith. Da sua fala

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destacamos: 1) o mote da ONG “da crença à prática”, que reflete a busca por ações ecumênicas para além das palavras de fé, e 2) a busca de estabelecer advocacy junto aos representantes nacionais e na luta internacional em prol da sustentabilidade do planeta. Suas propostas apontam demandas concretas, tais como, “... o aumento das energias renováveis, a diminuição das enfermidades causadas por combustíveis fósseis, que nos protejam de severas tempestades e secas e terríveis eventos climáticos”. Timóteo Carriker, Obreiro da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil, principiou a sua comunicação reconhecendo que algumas linhas da tradição protestante contribuiriam para desafiar a questão ecológica, ao colocar o ser humano acima dos demais elementos da Criação. Da sua fala destacamos: 1) a leitura de aproximação de conteúdos dos trabalhos de Francis Schaeffer, autor do primeiro tratado ecológico protestante, com o Papa Francisco, autor de Laudato Sí, e 2) a apresentação das iniciativas ambientais da organização A Rocha, da qual participa, tal como a cartilha Cuidando da Criação – Material para educadores. Em termos de proposta, destacamos a dimensão de educação para a ação que a organização A Rocha já vem desenvolvendo. Ver Testemunho Fé no Clima do Pastor Timóteo Carriker. Marina Silva, evangélica, fundadora do Partido Rede, Ex-Ministra do Meio Ambiente, Ex-Senadora e Ex-Candidata à Presidência da República, contribuiu com uma gravação de um vídeo de seis minutos de duração, especialmente produzido para o Encontro Internacional Fé no Clima, que foi projetado ao final do evento. De suas propostas destacamos “... estamos sendo convidados a mudar o modelo de desenvolvimento, porque esse modelo é insustentável e está baseado no ideal do ter, quando deveríamos estar baseados no ideal do ser”. Ver Testemunho Fé no Clima de Marina Silva. Conclusões e resultados do evento

Guardadas as diferenças de estrutura de apresentação, das linguagens utilizadas e das perspectivas religiosas, foi possível identificar nas narrativas dos palestrantes um conjunto importante de pontos em comum: • O reconhecimento da obrigação (sagrada, moral, ética, de mandato) de cuidar da natureza (Nossa Casa Comum, Irê, Mamapacha, Criação, Jardim, Mãe Terra); • O sentimento de responsabilidade compartilhada por todas as comunidades religiosas; • A percepção de urgência da necessidade de mudanças éticas e comportamentais e de ações concretas, articulando conteúdos teóricos e convocatória político-religiosa para atitudes transformadoras; • A surpreendente disposição e capacidade de buscar sinergias e o diálogo interreligioso para superar barreiras e históricas intolerâncias em prol do enfrentamento das mudanças climáticas; • A marcante limitação no repertório de ações concretas de cuidado com a natureza, organizadas e desenvolvidas sistematicamente pelas comunidades religiosas, e • A perspectiva inter-geracional, articulando politicamente as responsabilidades de mais velhos e mais jovens. Aos primeiros cabe a tarefa de mobilizar e orientar suas comunidades religiosas para a ação. Aos mais jovens, cabe ser agentes ativos das transformações desejadas, tais como, as

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éticas e de modos de vida mais consoantes com as necessidades de cuidado com a natureza. Algumas narrativas, no entanto, contribuíram convergências parciais. Dentre estas destacamos: • O reconhecimento pelos pastores presbiterianos da necessidade de uma releitura bíblica no interior do universo religioso cristão, de maneira a desarticular os fundamentos de uma histórica relação utilitarista da humanidade com a natureza; • A denúncia das práticas de intolerância religiosa, através das narrativas das lideranças religiosas Indígena brasileira, do Candomblé, da Umbanda e do Espiritismo, como um obstáculo importante para a construção de uma efetiva agenda política interreligiosa; • A afirmação de que as alterações em curso na natureza já estão afetando organicamente as práticas rituais e os modos de vida das comunidades religiosas de matrizes africanas e indígenas a partir, por exemplo, da destruição da biodiversidade, do desmatamento e sua consequente alteração no regime de chuvas na Amazônia, e • A centralidade da água como a primeira evidência dos efeitos das mudanças climáticas, apontada nas narrativas das comunidades religiosas de ancestralidade, seja através da sua dimensão sagrada (Candomblé, Umbanda e tradição dos Orixás); da ocorrência de cheias ou secas (Indígena brasileira), ou na dimensão da luta política pelo direito de acesso à água potável (Indígena peruana). Ao final das apresentações, a equipe técnica da iniciativa apresentou uma breve síntese sobre as convergências conceituais, de propostas de ação e de encaminhamentos futuros, extraídos das falas dos convidados. Deste esforço de sistematização de falas, muitas vezes aparentemente distanciadas por conceitos, linguagens e propostas, foi possível extrair as observações que se seguem. Do ponto de vista dos conceitos reiterados nas falas das lideranças religiosas, as prevalências em cada comunidade apontam para: Indígena peruana – Mamapacha e irmandade; Indígena brasileira – Cuxipá e tradição; Candomblé – Orixá e água; Iorubana internacional – Ética e obrigação; Umbanda – Ancestralidade e preconceito; Espiritismo – Interconexão e intolerância; Igreja Episcopal norte-americana – Espiritualidade e linguagem; Evangélica brasileira – Escrituras e jardim; Presbiteriana brasileira – Livro e nova criatura; Budismo – Complexidade e construção; Igreja Católica – Criação e testemunho. No que se refere às convergências de fundamentos sagrados observadas nas comunicações dos convidados, destacamos: • O reconhecimento da sacralidade da natureza; • O entendimento de que o cuidado mútuo (solidariedade) é uma das poucas possibilidades de preservação da vida humana; • A aceitação entre os diferentes credos de uma agência na Criação (Deus, Orixá, Inteligência cósmica, Cuxipá, etc.);

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• O momento atual como uma oportunidade de salto de qualidade para a humanidade, e • A necessidade de busca de equilíbrio, de justiça e de formas de comunicação (linguagens) para perseguir estes objetivos. No que tange às ações das comunidades religiosas que já estão em curso em face das mudanças climáticas e preocupações ambientais mais amplas, observaram-se as seguintes convergências: • Rituais e celebrações de ressacralização da relação da humanidade com a Criação; • Busca de utilização de uma visão integradora; • Busca de novas conexões, encontros e diálogo interreligioso; • Chamada para uma ação imediata e conjunta, e • Iniciativas de reeducação para uma mudança ética. Finalmente, no que diz respeito às convergências de propostas de desdobramentos e iniciativas futuras, destacamos: • O compromisso com a busca de superação de diferenças para promover as mudanças desejadas; • O reconhecimento da necessidade de professar e promover mudanças de estilos de vida; • O compromisso de depositar maior atenção nos mais vulneráveis; • A responsabilidade de trabalhar para proteger os povos tradicionais, e • A decisão de depositar esperanças nos mais jovens, atuando como facilitadores para uma educação renovadora. A Declaração e Compromisso Fé no Clima (Anexo III) é o documento que resultou destas convergências e aspirações compartilhadas entre os participantes do Encontro Internacional Fé no Clima. Para viabilizar a sua assinatura ao final do evento, um rascunho foi encaminhado aos participantes na semana que antecedeu o encontro. Através desta primeira aproximação, os participantes tiveram a oportunidade de sugerir inclusões e ajustes, tornando o documento final muito representativo das ideias e conceitos que foram discutidos e utilizados durante o evento. Ao final do encontro, todos os participantes sentiram-se cômodos para subscrever a Declaração e Compromisso Fé no Clima (Anexo III). Aldeia Sagrada A Aldeia Sagrada é um encontro anual de representantes de tradições; religiões; movimentos sociais; culturas e povos diversos, reunidos pelo Movimento Inter-Religioso do Rio de Janeiro (MIR), desde 2002. A edição 2015 da Aldeia Sagrada teve como objetivo central sensibilizar e mobilizar religiosos e não-religiosos para as mudanças climáticas. O evento ocorreu entre os dias 1 e 3 de outubro na sede do ISER, localizada na Rua do Russel no. 76, Glória, Rio de Janeiro. A Aldeia Sagrada 2015 se concebeu como um espaço de encontro e diálogo entre iniciativas locais, regionais e nacionais, desenvolvidas após a ECO-92, com foco na articulação entre identidade cultural e meio ambiente, para identificar sinergias e convergências. O evento contou com cerca de 150 participantes, ao longo dos três dias da sua realização.

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Painel Fé no Clima

O Painel Fé no Clima (Anexo IV) foi realizado no dia 01 de outubro das 19h:00m às 22h:00m e reuniu quatro palestrantes2, em representação das seguintes tradições: 1) Brahma Kumaris; 2) População Quilombola; 3) Povos Indígenas brasileiros, e 4) Cultura Celta. O debate foi mediado pela consultora do Encontro Internacional Fé no Clima, Denise Pini Rosalem da Fonseca, cuja participação visava articular os conteúdos da Declaração e Compromisso Fé no Clima com os exemplos de ações a serem apresentadas no painel: 1) produção de energia solar em centros religiosos (Brahma Kumaris); 2) práticas de agroecologia (Quilombos); 3) proteção do patrimônio cultural de povos tradicionais (Povos indígenas brasileiros), e 4) manejo de florestas (Cultura Celta). O que se segue são breves resumos destas falas (Anexo IX), apresentados na ordem obedecida no evento: Augusto Zimbres, representante do Brahma Kumaris, inicialmente apresentou exemplos de projetos de produção de energia solar nas escolas de meditação da Brahma Kumaris no mundo. A seguir apresentou o conceito de “agricultura iogue”, que é uma produção agrícola orgânica enriquecida pelo ambiente resultante do estado meditativo dos agricultores, que meditam no campo durante a semeadura e a colheita. Finalmente, o palestrante apresentou estudos comparativos dos resultados produtivos da “agricultura iogue” com a agricultura orgânica. Alexandre Nascimento, cientista social e ativista da ONG ConVERDEgência, compartilhou um conjunto de experiências desenvolvidas em campo, junto a populações quilombolas da região sudeste do Brasil. Em sua fala salientou os seguintes aspectos: 1) a importância dos saberes de populações tradicionais, que nascem da observação sistemática da natureza e das suas relações ecossistêmicas; 2) a valorização da transmissão destes saberes através da oralidade, e 3) o respeito aos ritmos naturais, como forma de preservação da saúde humana e do ambiente como um todo. Exemplificou estes argumentos relatando que determinadas espécies medicinais devem ser plantadas e colhidas em estações e condições climáticas específicas, sob pena de produzirem efeitos inversos aos desejados em termos terapêuticos. Finalmente, enfatizou que na produção familiar em pequena escala, o manejo adequado das espécies acarreta no sucesso ou no fracasso da safra. Papiõn Karipuna, liderança indígena Karipuna, proveniente do Amapá e com grande atuação no Rio de Janeiro, organizou a sua exposição sob a forma de um relato de suas visitas aos aldeamentos indígenas das etnias Guarani M’byá de Porto Alegre, Rio de Janeiro, Ubatuba, Espírito Santo e Pará. Militante do movimento de indígenas em contexto urbano, com forte ênfase na arte-educação, sua fala se centrou no tema da preservação dos valores culturais indígenas e na importância da sua transmissão, principalmente para os mais jovens, como forma de preservar a relação equilibrada entre a humanidade e a natureza. Em sua fala destacou a importância da participação dos povos indígenas brasileiros no diálogo interreligioso; no combate à intolerância religiosa; na promoção da igualdade racial, e na preservação da memória social e das histórias dos povos indígenas brasileiros. 2

O representante da Rede Ecumênica da Juventude, Mário Luiz Gomes, não pode comparecer por motivo de força maior.

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Druidesa Bandruir apresentou sua fala a partir de uma leitura decodificada de quatro imagens relativas a Deuses da natureza na Cultura Celta. Inicialmente apresentou os princípios sagrados desta cultura, dos quais resulta um modelo de desenvolvimento que é, por natureza, comunitário e de pequena escala. A partir dos valores celtas ela elaborou a necessária relação humana com as florestas, que é de respeito e veneração, posto que estas são entidades sagradas. Para explicar estas concepções, ela tratou dos seguintes aspectos: 1) o conhecimento profundo dos processos da natureza como insumo para os modos de vida; 2) a reflexão sobre o uso de materiais e seu impacto no ambiente, e 3) a consciência da equidade entre todos os elementos, animados e não-animados, na manutenção da vida no planeta. Avaliação da Aldeia Sagrada

A Aldeia Sagrada 2015 transcorreu conforme sua programação e cumpriu seu objetivo central, que era o de apresentar, discutir e aprofundar a articulação entre comunidades religiosas e suas práticas com as mudanças climáticas e suas consequências. Os rituais que se reproduzem na Aldeia Sagrada anualmente foram mantidos e realizados com sucesso, cumprindo o seu já tradicional papel de “cura espiritual da Terra” em uma dimensão cênica. O Painel Fé no Clima e a Roda de Conversas foram atividades da Aldeia Sagrada 2015 que possibilitaram conhecer práticas religiosas de proteção e respeito ao meio ambiente que são próprias deste segmento, bem como compartilhar relatos de experiências com o tema mudanças climáticas a partir de vivências concretas. Embora caiba ressaltar que 150 participantes corresponda a um bom número de interessados em uma articulação temática tão inovadora, na avaliação dos organizadores a resposta à convocatória para o evento ficou aquém do esperado. As possíveis causas levantadas para esta frustração de expectativa são: • A articulação entre comunidades religiosas e mudanças climáticas é ainda um tema de difícil sensibilização e mobilização no meio religioso, particularmente nos segmentos abrangidos pelo MIR; • O público ligado ao movimento ambientalista também não respondeu ao convite com o entusiasmo esperado, demonstrando que a mesma dificuldade existe no universo do ambientalismo; • Ficou evidente que as estratégias de comunicação a serem exploradas e adotadas na organização de eventos correlatos futuros deverão ser, ao mesmo tempo, mais pedagógicas e mais agressivas, de maneira a chegar a estes públicos com mais compreensão e intensidade. Pesquisa de mapeamento e qualitativa Objetivo e metodologia

O objetivo da realização de uma pesquisa sobre a articulação de comunidades religiosas e mudanças climáticas foi o de construir uma base conceitual para as escolhas semânticas e de conteúdos na concepção do Encontro Internacional Fé no Clima, da Aldeia Sagrada 2015 e da própria Declaração e Compromisso Fé no Clima.

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Esta pesquisa foi realizada em três frentes: • Mapeamento na internet de iniciativas multirreligiosas em torno das mudanças climáticas no mundo; • Mapeamento através de redes institucionais e da internet de organizações religiosas no Brasil que já tivessem agenda em mudanças climáticas, e • Entrevistas semiestruturadas realizadas presencialmente, por Skype, por telefone, ou respondidas por escrito, com seis lideranças religiosas identificadas com esta articulação temática (Anexo X). Temas identificados através das entrevistas

A análise de conteúdos extraídos das entrevistas permite apontar para um conjunto de elementos que se reiteram em algumas, muitas ou todas as falas. Sobre a relação da humanidade com a natureza através da perspectiva religiosa, destacamos: • As religiões (religare) e suas práticas rituais são vistas como oportunidades de (re)ligar a humanidade com a sacralidade da natureza, “Quantas religiões não têm, por exemplo, a água como sagrada... quantas religiões não têm devoção a determinadas divindades que são a própria personificação da água?” (FERRAZ, Entrevista Fé no Clima, 2015); • Há uma combinação de narrativas e interpretações sobre as consequências desastrosas das mudanças climáticas que são mobilizadas para dar suporte à necessidade de ação, “Nos anos 60 era uma ou duas, no máximo, três estiagens severas a cada dez anos e sete anos chuvosos. E está invertido (...) Eu diria que a ciência ajuda a despertar a sensibilidade pessoal, a sensação de se sentir tocado por alguma situação, alguma desgraça, por algum problema (…) o argumento religioso nem sempre serviu. Para dar o insight, o pathos, o choque inicial, pode ser a religião, mas às vezes não é (GÖRGEN, Entrevista Fé no Clima, 2015); • As consequências das mudanças climáticas às vezes se percebem como um processo de adoecimento do planeta, resultado de um desequilíbrio na natureza, que foi provocado pela humanidade desconectada da sua própria sacralidade, “O problema que está havendo hoje é que há uma aceleração de um ciclo que é natural, e uma aceleração maligna (…) o ser humano foi desligado da terra, se desligou… (PAIVA, Entrevista Fé no Clima, 2015), e • Há um questionamento sobre o real impacto das narrativas religiosas nas práticas das suas lideranças e dos seus seguidores, “Meus colegas freis franciscanos todos aprenderam (...) que a gente tem que buscar o cuidado da Mãe Terra (...) e nem por isso a consciência ecológica dos meus confrades mudou muito (GÖRGEN, Entrevista Fé no Clima, 2015). Sobre o alcance político do compromisso das comunidades religiosas com as mudanças climáticas e sua capacidade de mobilização para a ação: • Observa-se o reconhecimento do valor político das articulações em redes multirreligiosas (tais como MIR, URI, etc) na representação e no fortalecimento político das religiões minoritárias; • Há um reconhecimento do alcance que a Igreja Católica consegue imprimir à discussão sobre as mudanças climáticas, associando-a à justiça global, “... as mudanças climáticas vêm reforçar a crítica ao modelo energético carbono intensivo (…) A comunidade católica está sensibilizada em torno do 15


tema das mudanças climáticas, sobretudo os jovens (GÖRGEN, Entrevista Fé no Clima, 2015); • Há um questionamento sobre o alcance e os limites da chamada “diplomacia religiosa” nas negociações sobre as mudanças climáticas vis-à-vis o modelo de negociação diplomática vigente, “... eu não sei se a gente deveria usar os mesmos diplomatas (…) para participar nestes fóruns do clima. O diplomata tem aula de hipocrisia (…) as regras do ONU estão defasadas (TRIGUEIRO, Entrevista Fé no Clima, 2015), e • Permanece um sentimento de incerteza sobre quais serão os rumos planetários diante da crise ambiental, “A posição do Papa é um força moral importante, dialoga bem com novas gerações. Dialoga bem com grupos tradicionais. Dá uma força enorme para nós que militamos. Mas não tem o poder de decisão de mudar a rota do modelo” (GÖRGEN, Entrevista Fé no Clima, 2015). Conclusões da pesquisa

A partir da pesquisa realizada pela internet, através de ferramentas eletrônicas de busca, constatou-se que os eventos e as ações religiosas sobre as mudanças climáticas ainda não dispõem de uma expressiva exposição e divulgação nos meios digitais. Cabe ponderar, no entanto, que o limitado acesso a registros sobre práticas religiosas relativas às mudanças climáticas na internet não necessariamente significa que elas não existam. Evidência disto é que tais experiências aparecem com frequência, através da oralidade, nos relatos das vivências dos entrevistados. A partir deste achado, destacamos a importância de: 1) ampliar e aprofundar os registros de transmissão oral destas experiências por meios tradicionais, até que a temática ganhe corpo e expressão em outros canais de informação; 2) promover a construção de registros destas iniciativas e experiências no ambiente digital; 3) desenvolver processos educativos sobre o uso de ferramentas digitais de comunicação online junto a comunidades religiosas, e 4) registrar a própria iniciativa Fé no Clima, seus produtos e desdobramentos através de mídias digitais. Mesmo em face deste limite, a pesquisa de mapeamento digital de iniciativas e instituições que articulam fé e clima identificou: 1) mais de uma dezena de iniciativas, no âmbito interreligioso internacional sobre mudanças climáticas; 2) cerca de duas dezenas de organizações de âmbito nacional espalhadas pelo mundo, e 3) pouco menos de dez iniciativas no Brasil. Quanto à autoria dos registros digitais online sobre iniciativas e organizações religiosas relativas às mudanças climáticas, no Brasil e no mundo, observou-se a inequívoca posição de vanguarda das tradições cristãs (católica e protestante). Cabe lembrar, que este achado não permite afirmar que estas tradições produzem um maior número de iniciativas, mas sim, que elas são capazes de produzir ou provocar um maior número de registros de comunicação na internet. A partir deste achado, destacamos a importância de: 1) concentrar os esforços de capacitação para uso de ferramentas de comunicação digitais online junto a comunidades religiosas minoritárias, e 2) promover iniciativas interreligiosas com foco na construção de pautas de ação organizadas e solidárias e mecanismos de comunicação comuns.

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A pesquisa de mapeamento sobre a articulação entre fé e clima em meios digitais online mostrou também que os veículos de comunicação de massa (mass media) no Brasil e no mundo, não demonstram grande interesse pelo tema. Os registros online sobre estas organizações e iniciativas ocorrem primordialmente através de websites especializados (ambientalistas e religiosos) e/ou através das redes sociais. A partir deste achado, destacamos a importância de que todo material de comunicação seja formatado, em termos de conteúdos e forma de apresentação, para estes dois tipos de ferramentas de comunicação digital online. Finalmente, do ponto de vista dos conteúdos reiterados nos veículos de comunicação digital online pesquisados, destacamos: • O reconhecimento da relevância dos conhecimentos tradicionais/ancestrais/originários; • A reafirmação da importância da oralidade como forma privilegiada de transmissão destes conhecimentos em diversas comunidades religiosas; • A oportunidade de superar históricas intolerâncias religiosas a partir do estabelecimento do enfrentamento das mudanças climáticas como pauta política comum; • A oportunidade que a reflexão sobre as mudanças climáticas propicia para a reinterpretações das doutrinas e pensamentos religiosos; • A sacralidade do dever de cuidado do planeta; • O reconhecimento da dificuldade de se traduzir em prática aquilo que se prega nas mais diversas tradições religiosas; • O reconhecimento da organicidade do pensamento integrado natureza/cultura nas tradições religiosas de matrizes africanas e indígenas, e • O reconhecimento dos limites da racionalidade dialética da relação ser humano/natureza na tradição judaico-cristã.

Desdobramentos A Declaração e Compromisso Fé no Clima foi entregue, pelo Magnífico Reitor da PUC-Rio, Pe. Josafá Carlos de Siqueira S.J. à Excelentíssima Ministra de Meio Ambiente, Senhora Izabella Teixeira, em cerimônia realizada naquela universidade, no dia 14 de setembro de 2015. O objetivo deste encaminhamento foi o de contribuir com a representação brasileira que assistirá a COP-21 em dezembro, em Paris. O governo brasileiro, acusou o recebimento da Declaração e Compromisso Fé no Clima e agradeceu as contribuições que ela apresenta através de carta oficial enviada à Coordenadora da iniciativa, Maria Rita Villela, em 21 de outubro de 2015 (Anexo XII). Em 13 de novembro de 2015, a Declaração foi encaminhada à Assessoria do Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta, e encontrase em processo final de avaliação para o seu envio pela Arquidiocese ao Papa Francisco, como resposta ao apelo expresso por Sua Santidade, através da Encíclica Laudato Sí, de promoção do diálogo interreligioso para o enfrentamento da crise ambiental presente. Em 25 de setembro de 2015 a Declaração e Compromisso Fé no Clima foi aberta ao público para adesões sob a forma de uma petição online

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através do portal change.org. Até o momento de finalização deste relatório a Declaração havia coletado 135 assinaturas. Em termos de suas ferramentas de divulgação permanente, a iniciativa Fé no clima conta com uma página no Facebook3 e com um Blog4, através dos quais as informações, textos, notícias e vídeos estão disponibilizados para o acesso irrestrito do público. Até o fechamento desse relatório, a iniciativa contava com 676 seguidores no Facebook, através dos quais foram alcançados aproximadamente 13 mil outros usuários. Em termos de alcance em websites especializados, a iniciativa foi noticiada 178 vezes em diferentes portais (Anexo XI). Até o momento, a iniciativa Fé no Clima gerou o vídeo-documentário Fé no Clima, de 15 minutos, que conta com mais de seis mil visualizações e 12 vídeos curtos, denominados Testemunhos Fé no Clima com depoimentos de cada um dos participantes do Encontro Internacional Fé no Clima, voltados para suas próprias comunidades religiosas, em resposta à questão: —Que mensagem o(a) Sr(a). gostaria de passar para sua comunidade religiosa sobre mudanças climáticas? Além disso, a iniciativa dispõe do vídeo produzido pela Ex-Ministra Marina Silva especialmente para o Encontro Internacional Fé no Clima. Com o apoio da Rede Interfaith, desde meados de setembro a iniciativa vem divulgando esses vídeos curtos também na campanha #oClimaTáMudando. Nesta plataforma, a iniciativa conta com um alcance de 86.460 pessoas, gerando 7,4 mil visualizações apenas do vídeo do jornalista André Trigueiro. Os acessos aos vídeos Testemunhos Fé no Clima, contabilizados na plataforma do Youtube somam 2.595 visualizações até o momento. O depoimento do jornalista André Trigueiro disponibilizado através do Youtube tem sido o mais visitado, contando com 2.288 visualizações até o momento. Encontra-se em fase de finalização um vídeo-documentário de curta duração que registrará todos os aspectos da iniciativa Fé no Clima até o término da Aldeia Sagrada 2015. Nossas propostas de desdobramentos, com o objetivo de ampliar o alcance e o escopo da iniciativa Fé no Clima, promovendo o engajamento político dos segmentos religiosos e ambientalistas nesta articulação, são: • A ampliação e divulgação da iniciativa, através da realização de eventos itinerantes. Para isto já desenvolvemos um concept note para o evento Fé no Clima / Convergência, a ser realizado no Rio de Janeiro em junho de 2016 em parceria com a ONG GreenFaith, para o qual já estamos buscando parceiros; • A construção de um pacote de produtos de comunicação que compreenda: 1) um número especial da revista Comunicações do ISER ou uma coletânea sob a forma de livro (público acadêmico); 2) um filme documentário de cerca de 40 minutos que explore e aprofunde os achados da primeira fase da iniciativa (público geral); 3) cerca de cinco cartilhas temáticas educativas para distribuição gratuita junto a escolas e comunidades religiosas (público infanto-juvenil); 4) inserções de material informativo em websites especializados (religiosos, ambientalistas e redes sociais), e 5) a construção do website da iniciativa Fé no Clima. O documento de referencia para a captação 3 4

http://www.facebook.com/fenoclima www.fenoclima.strikingly.com

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de recursos destinados a estes produtos já se encontra em fase de concepção.

Equipe técnica

Maria Rita Villela (ISER) Coordenação geral mvillela@iser.org.br Denise Pini Rosalem da Fonseca (Parole) Consultora cultural e social denise@parolecorp.com

Amy Westhrop (ISER) Assistente de pesquisa e comunicação amywesthrop@iser.org.br Diego Ferreira (ISER) Assistente de pesquisa e comunicação diego.ferreira.hist@gmail.com

Ana Beatriz Occhioni (ISER) Coordenação financeira e administrativa anabeatriz@iser.org.br

Maria das Graças (MIR) Coordenação da Aldeia Sagrada graça@iser.org.br

Helena Mendonça (ISER) Coordenação de campo helena@iser.org.br

Igor Barradas (IGLU) Direção de vídeo cinebarradas@gmail.com

Alice Amorim (GIP) Coordenação de relações institucionais alice@gip.net.br

Silvia Dias (Aviv Comunicação) Assessoria de imprensa Silvia.dias@avivicomunicacao.com. br

Fernando Rossetti (GIP) Coordenador de comunicação rossetti@gip.net.br

Susana Macedo Produção susana-macedo@hotmail.com

Clemir Fernandes (ISER) Articulação institucional cfernandes@iser.org.br

Diego Ferreira Guilherme Karakida Webmasters diego.ferreira.hist@gmail.com Guilherme@casafluminense.org.br

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Relatório fé no clima 2015 consolidado  
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