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SUMÁRIO EXECUTIVO Dezembro de 2015

Realização:


Equipe técnica: Maria Rita Villela (ISER) Coordenação geral mvillela@iser.org.br

Diego Ferreira (ISER) Assistente de pesquisa e comunicação diego.ferreira.hist@gmail.com

Denise Pini Rosalem da Fonseca (Parole) Consultora cultural e social denise@parolecorp.com

Maria das Graças (MIR) Coordenação da Aldeia Sagrada graça@iser.org.br

Ana Beatriz Occhioni (ISER) Coordenação financeira e administrativa anabeatriz@iser.org.br

Igor Barradas (IGLU) Direção de vídeo cinebarradas@gmail.com

Helena Mendonça (ISER) Coordenação de campo helena@iser.org.br

Silvia Dias (Aviv Comunicação) Assessoria de imprensa Silvia.dias@avivicomunicacao.com.br

Alice Amorim (GIP) Coordenação de relações institucionais alice@gip.net.br

Susana Macedo Produção susana-macedo@hotmail.com

Fernando Rossetti (GIP) Coordenador de comunicação rossetti@gip.net.br

Diego Ferreira Guilherme Karakida Webmasters diego.ferreira.hist@gmail.com guilherme@casafluminense.org.br

Clemir Fernandes (ISER) Articulação institucional cfernandes@iser.org.br Amy Westhrop (ISER) Assistente de pesquisa e comunicação amywesthrop@iser.org.br


Índice

1. APRESENTAÇÃO

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2. CONTEXTO INTERNACIONAL

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2.1. CONTEXTO BRASILEIRO 3. ATIVIDADES 3.1. ENCONTRO INTERNACIONAL FÉ NO CLIMA 3.2 ALDEIA SAGRADA

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4. PESQUISA QUALITATIVA E MAPEAMENTO

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5. INICIATIVAS ONLINE E DE COMUNICAÇÃO

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6. RECOMENDAÇÕES E PRÓXIMOS PASSOS

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7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

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1. APRESENTAÇÃO Fé no Clima: comunidades religiosas e mudanças climáticas é uma iniciativa do Instituto de Estudo das Religiões (ISER), desenvolvida em parceria com o Gestão de Interesse Público (GIP), cujo objetivo foi oferecer um espaço de diálogo e convergência de distintas comunidades religiosas sobre o tema das mudanças climáticas. Concebida e iniciada em 2015, o Fé no Clima surge no momento político criado por dois grandes eventos neste ano: o lançamento da encíclica papal “Laudato Sí”, pelo Papa Francisco, em junho, e as preparações dos países para a Conferência das Partes da Convenção Quadro das Nações Unidas para Mudanças Climáticas (UNFCCC) —a COP21—ocorrida em Paris, em dezembro de 2015. Neste contexto, o Fé no Clima partiu da visão de que as comunidades religiosas devem assumir maior responsabilidade moral e compromisso político de se preparar para tratar desse tema com suas comunidades e se mobilizar para ações de sensibilização para os eventos ligados às mudanças climáticas. Para auxiliar a construção de espaços de debate, compreender melhor como os grupos religiosos lidam e trabalham o tema de mudanças climáticas à luz de suas pertenças e em suas respectivas comunidades, o projeto assumiu a missão de oferecer um espaço de convergência entre distintas comunidades religiosas para que seus líderes que já possuem afinidade com temas relacionados ao meio ambiente se tornem vozes mais influentes e ampliem o engajamento e o esclarecimento de suas comunidades com essa agenda política. Para isso, foram realizadas três atividades principais ao longo de 2015: 1) Encontro Internacional Fé no Clima, no qual foi discutida e assinada a Declaração e Compromisso Fé no Clima; 2) Aldeia Sagrada 2015; e 3) Realização de uma pesquisa, com busca de conteúdos online e por meio de entrevistas e análise qualitativa de narrativas sobre o engajamento de lideranças religiosas com o tema. A receptividade e participação dos participantes foi muito positiva e a percepção de que existe uma grande demanda por continuidade de atividades de investigação, engajamento e aprofundamento das ações iniciadas em 2015 instigaram a equipe do projeto a buscar a continuidade ao Fé no Clima, ampliando ainda mais o seu escopo no futuro.

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2. CONTEXTO INTERNACIONAL As mudanças climáticas são consideradas por muitos um dos mais graves desafios da humanidade no século XXI. Elas tendem a provocar profundos impactos em vários aspectos cruciais para a sociedade que variam de mudanças nos regimes de chuvas à segurança alimentar, de efeitos adversos na saúde decorrentes da poluição à eventuais restrições à utilização de combustíveis fósseis, dentre muitos outros. Neste sentido, em Junho de 2015, o Papa Francisco lançou publicamente sua primeira encíclica, denominada Laudato Sí, que se debruça sobre vários temas relacionados a ecologia, padrões de consumo, com ênfase nas mudanças climáticas e seus efeitos sobre os mais vulneráveis, tendo ampliado o alcance e o escopo dos atores políticos engajados nessa discussão. A diplomacia religiosa praticada pelo Papa Francisco1 ao longo de 2015 exerceu grande influência nos processos de tomada de decisão sobre a agenda de desenvolvimento global e em particular nos debates sobre mudança do clima. Embora a iniciativa tenha sido muito bem-vinda, sabemos que é fundamental ampliar a pluralidade de vozes de diferentes denominações religiosas engajadas nos debates e ações neste tema que afeta a vida de todos, indistintamente. Diversas outras religiões também se pronunciaram sobre o tema das mudanças climáticas ao longo de 2015 2, como a Declaração Islâmica sobre Mudanças Climáticas Globais, a Declaração Budista sobre Mudanças Climáticas para os Líderes Mundiais, além muitas outras. Todas essas declarações promoveram na cena política internacional uma forte articulação entre fé e mobilização política em busca de justiça socioambiental. “Mudança climática, demografia, água, alimentação, energia, saúde global, empoderamento feminino – todos esses temas estão interligados. Nós não podemos olhar para cada um isoladamente. Ao contrário, nós devemos observar como esses pontos se relacionam”. Ban Ki Moon (Secretário Geral da ONU) Esses esforços tiveram como pano de fundo as preparações para a Conferência das Partes no âmbito das negociações da Convenção Quadro das Nações Unidas para as mudanças climáticas (UNFCCC), realizada em Dezembro de 2015 em Paris, na qual 196 países membros da Convenção se reuniram para assinar um novo acordo global sobre clima para substituir o Protocolo de Kyoto, único instrumento legal da Convenção.

1 Insert link Papa na ONU e no Congresso Americano 2 http://www.interfaithpowerandlight.org/resources/religious-statements-on-climate-change/

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2.1. CONTEXTO BRASILEIRO Não obstante as inúmeras evidências científicas dos potenciais impactos das mudanças climáticas no Brasil, o tema ainda não está no centro dos debates sobre a agenda política e de desenvolvimento nacional. O Brasil é visto internacionalmente como uma importante liderança no combate às mudanças climáticas, sobretudo em virtude de seus esforços em combater o desmatamento na Amazônia, principal fonte de emissões de gases de efeito estufa (GEE) do país. Mas a nível nacional a proteção do meio ambiente ainda é largamente vista como estando a serviço da promoção de crescimento econômico e inclusão social. Embora ainda em estágio inicial, é necessário reconhecer que a opinião pública brasileira vem progressivamente se apropriando das questões relacionadas às mudanças climáticas. A recente crise hídrica no Sudeste brasileiro, bem como as mudanças no regime hidrológico, que vem afetando a operação das hidrelétricas localizadas no Norte do País, ameaçando a provisão de energia no Brasil, vem contribuindo para que se dê maior atenção para o tema. Esse contexto torna essencial que se amplie o engajamento da sociedade brasileira com o tema que tem uma natureza tão complexa e ao mesmo tempo interligada a demandas e garantia de direitos fundamentais como acesso à água, saúde, segurança, alimentação, dentre muitos outros cujos impactos das mudanças climáticas ainda estão pouco claros para grande parte da população. É muito importante ampliar a pluralidade de vozes influentes, de diferentes segmentos da sociedade, em prol de uma postura mais ambiciosa do governo brasileiro tanto a nível nacional como no âmbito das negociações internacionais sobre clima. Embora possuam amplo engajamento político, as comunidades religiosas no Brasil têm uma atuação ainda pouco estruturada em torno das mudanças climáticas, muitas vezes desenvolvida a nível local e pontual voltadas à educação ambiental, energias renováveis e agroecologia. Embora o país abrigue uma das comunidades católicas mais numerosas do mundo, é marcado por uma notável diversidade religiosa, que conta com milhares de grupos protestantes, comunidades indígenas, religiões de matrizes africanas, judeus, muçulmanos, povos ciganos, espíritas, entre muitos outros. Isso torna-o um lugar especial para observar as dinâmicas religiosas de convivência, limites de tolerância, resistência social e resiliência cultural, tornando-o um terreno fértil para ressoar agendas políticas através das comunidades religiosas. As comunidades religiosas exercem grande influência na sociedade brasileira, destacando-se o fenômeno internacional da rápida expansão das comunidades evangélicas —principalmente do segmento neopentecostal— que tem no Brasil um dos seus centros propagadores mais importantes. A “bancada evangélica” do Congresso Nacional brasileiro é um grupo de interesse de notória influência sobre a agenda doméstica em uma ampla gama de assuntos políticos. Além disso, algumas dessas comunidades religiosas estão bastante instaladas como grupo político em agências

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setoriais governamentais de todos os níveis, sendo muito capazes de fazer fluir seus projetos políticos e de eleger seus representantes.

3. ATIVIDADES A partir deste contexto internacional e nacional, o Fé no Clima se desenvolveu com o intuito de ampliar o conhecimento sobre como as diferentes comunidades religiosas se apropriam e trabalham o tema de meio ambiente e mudanças climáticas à luz de suas respectivas pertenças e ampliar o engajamento político de seus líderes com o tema. As atividades da iniciativa são detalhadas a seguir, sempre inspiradas pelos seguintes valores que norteiam o Fé no Clima:

Reconciliação

Cuidado

A busca de ressacralização da relação da humanidade com a natureza

A promoção de uma mudança paradigmática na compreensão do papel da humanidade para com a natureza

Justiça socioambiental A construção de instrumentos de articulação entre comunidades religiosas e agendas ambientalistas, com foco nas mudanças climáticas, em defesa dos mais vulneráveis.

3.1. ENCONTRO INTERNACIONAL FÉ NO CLIMA “Estamos sendo convidados a mudar o modelo de desenvolvimento, porque esse modelo é insustentável e está baseado no ideal do ter, quando deveríamos estar baseados no ideal do ser”. Marina Silva O Encontro Internacional Fé no Clima, realizado em agosto de 2015 no Rio de Janeiro, teve por objetivo que reconhecidas lideranças de diversas comunidades religiosas compartilhassem seus fundamentos sagrados em relação à natureza e apresentassem suas ações e propostas no campo das mudanças climáticas. O evento foi norteado a partir das seguintes questões: (a) Quais são os fundamentos religiosos da relação do ser humano com a natureza para a sua comunidade religiosa? (b) Quais as ações concretas da sua comunidade religiosa com relação ao cuidado do ambiente, com ênfase em mudanças climáticas (se existentes)? (c) Quais os desejos da sua comunidade religiosa (agenda política) para enfrentar as mazelas socioambientais decorrentes das mudanças climáticas?

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O evento contou com a presença de cerca de 30 pessoas, sendo alguns observadores e multiplicadores e 11 importantes lideranças religiosas, além da Ex-Ministra do Meio Ambiente e evangélica Marina Silva, não pôde comparecer e contribuiu com um vídeo que foi exibido ao final do evento. Para o convite das lideranças foram utilizados os seguintes critérios: (a) Reconhecimento público, privilegiando líderes de renomada reflexão e/ou ação sobre questões ambientais e mudanças climáticas; (b) Diversidade geográfica, e (c) Diversidade nas representações, sem privilegiar quaisquer segmentos. As biografias e testemunhos dos líderes, bem como um vídeo-documentário sobre a iniciativa estão disponíveis no website da iniciativa (http://fenoclima.strikingly.com/). Do ponto de vista das pertenças religiosas presentes no evento, estiveram representadas três correntes de pensamento: (a) Criacionista - Reunindo as tradições judaico-cristãs, através das igrejas Católica, Presbiteriana do Brasil e dos Estados Unidos e Comunidade Cristã Reformada e os Judeus; (b) Da ancestralidade - Representada pelas tradições de matrizes africanas dos Orixás, do Candomblé e da Umbanda, e nativas indígenas, através da tradição Huni Kuin da Amazônia brasileira e Quíchua dos Andes peruanos, e (c) Evolucionista – Reunindo o Espiritismo kardecista e o Budismo tibetano.

Da esquerda para a direita: Pastor Ariovaldo Ramos (Comunidade Cristã Reformada), Pastor Timóteo Carriker (Igreja Presbiteriana Independente do Brasil), Monge Lama Padma Samten (Lama budista), Pai Adaílton Moreira, Mãe Flávia Pinto (Babá de Umbanda da Casa do Perdão), Graças Nascimento, jornalista André Trigueiro (praticante do Espiritismo), Dolores Ayay Chilón (Ikaruna dos Povos Quechua – meio), Txai Leopardo Yawa Bane (Txai do povo Huni Kuin – fundo), Mãe Beata de Yemonjá (Iyalorixá do Ilê Omi Ojuarô [Candomblé Ketu] – frente), Pedro Strozenberg (ISER – fundo), Baba Kola Abimbola (Babalorixá), Padre Josafé Carlos de Siqueira (Padre Jesuíta) e Reverendo Fletcher Harper (Pastor episcopal)

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As contribuições dos líderes trouxeram uma imensa riqueza de referências e detalhes sobre como diferentes aspectos que compõem o tema de mudanças climáticas são percebidos e abordados a partir de suas respectivas pertenças religiosas. Abaixo destacamos alguns dos pontos trazidos por cada um dos participantes: Mãe Beata de Yemonjá destacou como os efeitos das alterações nos ciclos da natureza já estão impactando a própria prática ritual do Candomblé, dificultando o crescimento de espécies herbáceas sagradas e litúrgicas. A Iyalorixá enfatizou ainda que a água é o principal indicador dos efeitos das mudanças climáticas para os adeptos do Candomblé. Como proposta de ação, convocou as lideranças religiosas a assumirem a responsabilidade de mobilizar suas comunidades para o cuidado da natureza, com ênfase na água. Leopardo Yawa Bane abordou os efeitos devastadores que as mudanças no regime de chuvas já estão provocando em sua região, ora causando escassez de água, ora ocasionando severas enchentes. Denunciou os efeitos perversos do desmatamento em sua comunidade, decorrentes da construção de rodovias na Amazônia. Como proposta de ação, o Txai reivindicou o reconhecimento da legitimidade da agenda política de preservação e difusão de conhecimentos indígenas, com foco na conservação da sociobiodiversidade. Dolores Ayay Chilón trouxe a profunda dimensão ritualística da relação dos seres humanos com a natureza, que é própria da sua prática religiosa, pleiteando em cada gesto a sacralização da Mamapacha, e esclarecendo como as mudanças climáticas, ao alterar o regime de chuvas, têm afetado a agricultura no altiplano andino. Ao descrever a luta da sua comunidade pelo direito ao acesso a uma nascente de água na região, o Inkaruna convocou para uma ação política em prol da preservação da natureza. Josafá de Carlos Siqueira S.J. fez um chamamento para uma mudança de mentalidade, de hábitos e costumes como forma de dar um testemunho de ressacralização e de cuidado com a natureza. Convocou todos a assumirem o compromisso de tomar atitudes que promovam a sustentabilidade do planeta e possibilitem o enfrentamento das mazelas provocadas pelas mudanças climáticas. Como proposta de ação, relembrou a inovação promovida pela Encíclica Laudato Si como um texto que busca aliar ciência e religião, destacando a importância de outros diálogos, tais como o inter-religioso, bem como de crentes com não-crentes, no cuidado do que o Papa Francisco chamou de “Nossa Casa Comum”. André Trigueiro invocou a ideia de conectividade e a sinergia que existe entre poluição energética e ambiental, ambas a serem purificadas. Destacou a lei da conservação, enquanto princípio ético do espiritismo, que fala da relação dos homens com seus meios de vida, ensinando-o a distinguir o necessário do supérfluo e chamando a atenção para a necessidade de se combater o consumismo. O jornalista manifestou ainda seu repudio à crescente onda de intolerância religiosa no Brasil e no mundo, destacando a importância do Encontro como um contraponto a essa tendência. Ariovaldo Ramos apresentou a ideia de que o Homem deve ser entendido como um jardi-

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neiro solidário, com mandato de cuidar do planeta e da humanidade, convocando para uma ressacralização da relação homem-natureza. Enquanto proposta, o pastor convoca as comunidades religiosas a exercerem esse mandato divino, mobilizando-se para o cuidado do planeta. Mãe Flávia Pinto apresentou suas experiências de ações concretas de proteção ambiental, através do movimento Umbanda do Amanhã (MUDA), que desenvolve ações cotidianas, tais como, mutirões de limpeza em cachoeiras e reciclagem de resíduos sólidos. Enfatizou os desafios da luta para educar o público em geral sobre práticas ritualísticas da Umbanda, que são realizadas em espaços públicos, como um valor sagrado para os seus praticantes. Abordou ainda a importância da dimensão pedagógica das ações que já estão sendo realizadas para manter e respeitar a sacralidade da natureza. Kola Abimbola explicou como o conceito de “obrigação” é um fundamento ético central para a cultura iorubana, destacando a importância de que praticantes das religiões do Orixás estejam na vanguarda da proteção ambiental e das mudanças climáticas. Explicitou ainda a ideia de que na religião dos Orixás deve haver um equilíbrio de forças dinâmicas na natureza, o que implica necessariamente no cuidado com o planeta. Professou ainda a necessidade de uma tomada de decisão comportamental e ética, provocando uma reflexão sobre como as ações e inações de todos terão impacto sobre o clima. Padma Samten ressaltou a busca de equilíbrio entre a humanidade e a natureza, através da compreensão das diferenças entre os humanos e os problemas que os cercam, convidando ao estabelecimento de uma relação apropriada consigo mesmo, com as outras pessoas, com a natureza e com as autoridades. Enfatizou a importância de se demandar o mínimo, não só dos outros, como das autoridades, como da natureza. Convidou todos a uma reflexão que aponte na direção de uma revisão interior de valores, costumes e expectativas, para promover felicidade, equilíbrio e menor impacto sobre a natureza. Fletcher Harper apresentou suas atividades à frente da ONG Greenfaith que se baseia no mote “da crença à prática”. Refletiu sobre a busca por ações ecumênicas para além das palavras de fé e de estabelecer ações de advocacy junto a representantes nacionais e na luta internacional em prol da sustentabilidade do planeta. Apresentou demandas concretas como a necessidade de se aumentar a participação de energias renováveis, a diminuir o uso de combustíveis fósseis, e proteger de severas tempestades e secas e terríveis eventos climáticos. Timóteo Carriker fez uma leitura de aproximação de conteúdo dos trabalhos de Francis Schaeffer, autor do primeiro tratado ecológico protestante, com o Papa Francisco, autor de Laudato Sí. Apresentou as iniciativas ambientais da organização A Rocha, da qual participa, tal como a cartilha Cuidando da Criação – Material para educadores. Destacou ainda a importância da dimensão educacional para a ação, nos moldes que sua organização já vem desenvolvendo. Guardadas as diferenças de estrutura de apresentação, de linguagem e das perspectivas reli-

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giosas, foi possível identificar nas narrativas dos palestrantes um conjunto importante de pontos em comum:

Reconhecimento da obrigação (sagrada, moral, ética, de mandato) de cuidar da natureza

Sentimento de responsabilidade compartilhada por todas as comunidades religiosas

Disposição de buscar sinergias/ diálogo interreligioso, superando barreiras e intolerâncias em prol do enfrentamento das mudanças

Limitação de repertório de ações concretas de cuidado com a natureza, organizadas e desenvolvidas sistematicamente pelas comunida-

climáticas

des religiosas

Urgência de promover mudanças éticas e comportamentais e de ações concretas

Perspectiva inter-geracional, com responsabilidades assumidas pelos mais velhos e mais jovens.

Dentre as questões que apresentaram convergência parcial entre os líderes destacamos: • O reconhecimento pelos pastores presbiterianos da necessidade de uma releitura bíblica no interior do universo religioso cristão, de maneira a desarticular os fundamentos de uma histórica relação utilitarista da humanidade com a natureza; • A denúncia das práticas de intolerância religiosa, através das narrativas das lideranças religiosas Indígena brasileira, do Candomblé, da Umbanda e do Espiritismo, como um obstáculo importante para a construção de uma efetiva agenda política interreligiosa; • A centralidade da água como a primeira evidência dos efeitos das mudanças climáticas, apontada nas narrativas das comunidades religiosas de ancestralidade, seja através da sua dimensão sagrada (Candomblé, Umbanda e tradição dos Orixás); da ocorrência de cheias ou secas (Indígena brasileira), ou na dimensão da luta política pelo direito de acesso à água potável (Indígena peruana). • A perspectiva inter-geracional, articulando politicamente as responsabilidades de mais velhos e mais jovens. Aos primeiros cabe a tarefa de mobilizar e orientar suas comunidades religiosas para a ação. Aos mais jovens, cabe ser agentes ativos das transformações desejadas, tais como, as éticas e de modos de vida mais consoantes com as necessidades de cuidado com a natureza. No que se refere às convergências de fundamentos sagrados observadas nas comunicações dos convidados, destacamos: • O reconhecimento da sacralidade da natureza; • O entendimento de que o cuidado mútuo (solidariedade) é uma das poucas possibilidades de preservação da vida humana; • A aceitação entre os diferentes credos de uma agência na Criação (Deus, Orixá, Inteligência

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cósmica, Cuxipá, etc.); • O momento atual como uma oportunidade de salto de qualidade para a humanidade, e • A necessidade de busca de equilíbrio, de justiça e de formas de comunicação (linguagens) para perseguir estes objetivos. No que tange às ações das comunidades religiosas que já estão em curso em face das mudanças climáticas e preocupações ambientais mais amplas, observaram-se as seguintes convergências: • Rituais e celebrações de ressacralização da relação da humanidade com a Criação; • Busca de utilização de uma visão integradora; • Busca de novas conexões, encontros e diálogo interreligioso; • Chamada para uma ação imediata e conjunta, e • Iniciativas de reeducação para uma mudança ética.

Umbanda Ancestralidade e preconceito

Igreja Episcopal (EUA) Espiritualidade e linguagem

Presbiteriana brasileira Livro e nova criatura

Indígena peruana Mamapacha e irmandade

Indígena brasileira Cuxipá e tradição

Evangélica brasileira Escrituras e jardim

Conceitos

Budismo Complexidade e construção

Católica Criação e testemunho

Candomblé Orixá e água

Iorubana internacional Ética e obrigação

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Espiritismo Interconexão e iintolerância


Dentre as principais sugestões dos participantes para uma eventual continuidade do Fé no Clima foram de que se promova a assunção de compromissos com a busca de superação de diferenças para promover as mudanças desejadas, de professar e promover mudanças de estilos de vida, de depositar maior atenção nos mais vulneráveis, responsabilidade de trabalhar para proteger os povos tradicionais, e deposite esperanças nos mais jovens, atuando como facilitadores para uma educação renovadora. Ao final do evento foi assinada a Declaração e Compromisso Fé no Clima, documento que resultou dessas convergências e aspirações compartilhadas entre os participantes do Encontro. O documento foi entregue em mãos à Ministra do Meio Ambiente em um evento sobre a Encíclica “Laudato Sí”, realizado na PUC/RJ, em setembro de 2015. Em outubro a Declaração foi encaminhada à Assessoria do Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempesta, e encontra-se em processo final de avaliação para o seu envio pela Arquidiocese ao Papa Francisco.

3.2 ALDEIA SAGRADA A Aldeia Sagrada é um encontro anual realizado pelo Movimento Inter-Religioso do Rio de Janeiro (MIR), desde 2002. Sua edição de 2015 teve como objetivo sensibilizar e mobilizar religiosos e não-religiosos para as mudanças climáticas. O encontro concebeu-se como um espaço de encontro e diálogo entre iniciativas locais, regionais e nacionais, desenvolvidas após a ECO-92, com foco na articulação entre identidade cultural e meio ambiente, para identificar sinergias e convergências. O evento ocorreu entre 1 e 3 de outubro na sede do ISER e contou com cerca de 150 participantes. Foi realizado um Painel Fé no Clima durante o evento, reunindo quatro palestrantes 1, em representação das seguintes tradições: 1) Brahma Kumaris; 2) População Quilombola; 3) Povos Indígenas brasileiros, e 4) Cultura Celta. O debate foi mediado pela consultora Denise Pini Rosalem da Fonseca, cuja participação visava articular os conteúdos da Declaração e Compromisso Fé no Clima com os exemplos de ações que seriam apresentadas no painel. Augusto Zimbres, representante do Brahma Kumaris, apresentou exemplos de projetos de produção de energia solar nas escolas de meditação da Brahma Kumaris no mundo. Apresentou o conceito de “agricultura iogue” 2 e estudos comparativos dos resultados produtivos desta com a agricultura orgânica. Alexandre Nascimento, cientista social e ativista da ONG ConVERDEgência, compartilhou um conjunto de experiências desenvolvidas junto a populações quilombolas da região sudeste do Brasil. Salientou a importância dos saberes de populações tradicionais, que nascem da observação 3 O representante da Rede Ecumênica da Juventude, Mário Luiz Gomes, não pode comparecer por motivo de força maior. 4 Produção agrícola orgânica enriquecida pelo ambiente resultante do estado meditativo dos agricultores, que meditam no campo durante a semeadura e a colheita.

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sistemática da natureza e das suas relações ecossistêmicas; a valorização da transmissão desses saberes através da oralidade, e o respeito aos ritmos naturais, como forma de preservação da saúde humana e do ambiente como um todo. Relatou que determinadas espécies medicinais devem ser plantadas e colhidas em estações e condições climáticas específicas, sob pena de produzirem efeitos inversos aos desejados em termos terapêuticos. Papiõn Karipuna, liderança indígena Karipuna, proveniente do Amapá e com atuação no Rio de Janeiro, relatou suas visitas aos aldeamentos indígenas das etnias Guarani M’byá de Porto Alegre, Rio de Janeiro, Ubatuba, Espírito Santo e Pará. Militante do movimento de indígenas em contexto urbano, com forte ênfase na arte-educação, sua fala se centrou no tema da preservação dos valores culturais indígenas e na importância da sua transmissão, principalmente para os mais jovens, como forma de preservar a relação equilibrada entre a humanidade e a natureza. Destacou a importância da participação dos povos indígenas brasileiros no diálogo interreligioso; no combate à intolerância religiosa; na promoção da igualdade racial, e na preservação da memória social e das histórias dos povos indígenas brasileiros. Druidesa Bandruir fez uma leitura decodificada de quatro imagens relativas a Deuses da natureza na cultura celta. Apresentou os princípios sagrados da cultura, que promove um modelo de desenvolvimento que é, por natureza, comunitário e de pequena escala. A partir dos valores celtas ela elaborou a necessária relação humana de respeito e veneração com as florestas, posto que essas são entidades sagradas. Para explicar essas concepções, enfatizou o conhecimento profundo dos processos da natureza como insumo para os modos de vida; a reflexão sobre o uso de materiais e seu impacto no ambiente, e a consciência da equidade entre todos os elementos, animados e não-animados, na manutenção da vida no planeta. Foram realizados diversos rituais durante a Aldeia Sagrada, cumprindo o seu já tradicional papel de “cura espiritual da Terra” em uma dimensão cênica. No evento identificaram-se os seguintes aprendizados: 1) a articulação entre comunidades religiosas e mudanças climáticas é ainda um tema de difícil sensibilização e mobilização no meio religioso em geral; 2) o público ambientalista demonstra a mesma dificuldade de mobilização para esta articulação, e 3) as estratégias de comunicação futuras deverão ser mais pedagógicas e mais intensivas.

4. PESQUISA QUALITATIVA E MAPEAMENTO A pesquisa teve por objetivo identificar instituições que já articulam fé e clima e identificar suas narrativas e ações relacionadas ao tema das mudanças climáticas. Ela foi realizada em três frentes: 1) mapeamento de iniciativas multirreligiosas no mundo relacionadas ao tema de mudanças climáticas; 2) mapeamento de instituições religiosas no Brasil que já tivessem agenda em mudanças climáticas, e 3) entrevistas com lideranças religiosas.

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A pesquisa evidenciou que os eventos e as ações religiosas sobre as mudanças climáticas ainda não dispõem de uma expressiva exposição e divulgação nos meios digitais. Foram identificadas mais de uma dezena de iniciativas no âmbito interreligioso internacional, cerca de duas dezenas de iniciativas multireligiosas espalhadas pelo mundo e cerca de dez iniciativas de comunidades religiosas sobre mudanças climáticas no Brasil. Tanto no Brasil como internacionalmente observou-se a inequívoca posição de vanguarda das tradições cristãs (católica e protestante) no que diz respeito à divulgação online de suas iniciativas. O levantamento indica, contudo, que muitas das atividades são ainda divulgadas através da oralidade, como comprovou alguns dos relatos das vivências dos entrevistados. A pesquisa mostrou também que os veículos de comunicação de massa, sobretudo impressos, no Brasil e no mundo não demonstram grande interesse pelo tema. A análise das narrativas dos entrevistados permite apontar para um conjunto de elementos que se reiteram em algumas, muitas ou todas as falas e confirmam muitos dos elementos e temas presentes tanto no Encontro Internacional Fé no Clima como na Aldeia Sagrada. Quais sejam: 1) a relevância dos conhecimentos tradicionais; 2) a oralidade como forma de transmissão de conhecimentos religiosos; 3) a oportunidade com a agenda comum das mudanças climáticas de superar intolerâncias; 4) a oportunidade de reinterpretar doutrinas a partir da visão sobre mudanças climáticas; 5) a sacralidade da natureza; 6) a dificuldade de praticar aquilo que se prega; 7) a organicidade da relação homem/natureza nas tradições de matrizes africanas e indígenas, 8) a racionalidade dialética desta mesma relação na tradição judaico-cristã, 9) As consequências das mudanças climáticas como um processo de adoecimento do planeta, resultado de um desequilíbrio na natureza, que foi provocado pela humanidade desconectada da sua própria sacralidade, 10) algum ceticismo sobre o alcance e os limites da ação religiosa para mudar o rumo planetário diante da crise ambiental. “Meus colegas freis franciscanos todos aprenderam (...) que a gente tem que buscar o cuidado da Mãe Terra (...) e nem por isso a consciência ecológica dos meus confrades mudou muito.” GÖRGEN, Entrevista Fé no Clima, 2015

5. INICIATIVAS ONLINE E DE COMUNICAÇÃO Durante o Encontro Internacional, o Fé no Clima foi noticiado 178 vezes em diferentes portais de websites especializados. Em 25 de setembro de 2015 a Declaração e Compromisso Fé no Clima foi aberta ao público para adesões sob a forma de uma petição online através do portal change.org, tendo coletado cerca de 130 assinaturas.

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As ferramentas de divulgação permanente da iniciativa são uma página no Facebook 3, um Blog 4e um canal no YouTube. Foram gerados 12 vídeos curtos, com depoimentos dos líderes participantes do Encontro Internacional. Os acessos aos vídeos no canal do Youtube somam mais de 2.500 visualizações (em xx/xx) e em breve será disponibilizado um vídeo-documentário de curta duração que registrou todos os aspectos da iniciativa Fé no Clima até o término da Aldeia Sagrada 2015. Com o apoio da Rede Interfaith, desde meados de setembro a iniciativa vem divulgando esses vídeos também na campanha #oClimaTáMudando. Nesta plataforma, a iniciativa conta com um alcance de 86.460 pessoas, gerando 7,4 mil visualizações apenas do vídeo do jornalista André Trigueiro.

6. RECOMENDAÇÕES E PRÓXIMOS PASSOS Nossas propostas de desdobramentos, com o objetivo de ampliar o alcance e o escopo da iniciativa Fé no Clima, promovendo o engajamento político dos segmentos religiosos e ambientalistas nessa articulação, são: • A ampliação e divulgação da iniciativa, através da realização de eventos itinerantes. • Desenvolver um pacote de produtos de comunicação que compreenda: 1) um número especial da revista Comunicações do ISER ou uma coletânea sob a forma de livro (público acadêmico); 2) um filme documentário de cerca de 40 minutos que explore e aprofunde os achados da primeira fase da iniciativa (público geral); 3) cinco cartilhas temáticas educativas para distribuição gratuita junto a escolas e comunidades religiosas (público infanto-juvenil); 4) inserções de material informativo em websites especializados (religiosos, ambientalistas e redes sociais), e 5) desenvolvimento do website da iniciativa Fé no Clima.

7. CONSIDERAÇÕES FINAIS A iniciativa Fé no Clima iniciou suas ações em terreno fértil, tendo sido capaz de mobilizar comunidades de fé diversas em torno de um tema que ainda é novo para o campo religioso – as mudanças climáticas. Tanto na pesquisa, quanto nos dois encontros promovidos pela iniciativa, foi possível notar que apesar a diversidade de visões de mundo, a sacralidade do planeta e nosso dever em protegê-lo são valores compartilhados por absolutamente todas as tradições. É nesse espaço de convergência que surge a oportunidade para o diálogo, o entendimento, o respeito e a possibilidade de colaboração, tendo por horizonte nada menos que a casa que abriga toda essa pluralidade. Esperamos amplificar esse espírito em desdobramentos futuros, gerando conteúdos que ajudem comunidades diversas, religiosas ou não, a aderirem a esse desafio de dimensões planetárias. 5 http://www.facebook.com/fenoclima 6 www.fenoclima.strikingly.com

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Relatório Fé no Clima 2015  
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