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REVISTA DA ASSOCIAÇÃO PARA ESTUDOS HISTÓRICOS INTERDISCIPLINARES

Revista nº3 Março 2013

O Itinerário de João dela Câmara

Lisboa

da cidade-fronteira à cidade-capital 1147- 1383

A Núbia do Neolítico à XXV Dinastia A CIDADE MEDIEVAL ISLÂMICA

As Ralações da História Uma visita... Museu São João de Deus História e Psiquiatria

Outras Conversas... com Paulo Fontes


Editorial O lançamento do terceiro número da Revista Férula marca um sentimento de dever cumprido (ou parte dele). Os diversos artigos que tivemos oportunidade de ler e reflectir permitiram perceber que existe em Portugal uma forte vontade de observar, compreender e interpretar a História, desenvolvendo assim novas investigações. Um país com mais de oitocentos anos de História – se só o contarmos a partir do momento em que Afonso Henriques assina como Rex a documentação oficial portuguesa - que teve momentos do mais sublime destaque, como é o caso dos Descobrimentos, com a interacção com novos mundos, povos e culturas, abrindo uma nova época para Europa, trazendo mais do que especiarias e porcelanas, mas que também demonstrou o poderio que uma pequena nação poderia atingir quando acredita nas suas capacidades militares, “científicas”, náuticas, entre outras. Este é um dos diversos exemplos da História de Portugal que para além dos momentos de brilhantismo também teve os seus momentos de decadência e obscuridade, mas não cessou de existir como nação e identidade nacional. Numa história tão repleta de marcos significativos e que necessita ser analisada por um olho cuidado e instruído, foi necessário que surgissem os “cientistas da história”, ou melhor, os historiadores. Desde o séc. XIX fomos bafejados por um número de historiadores de qualidade comprovada, caso de Alexandre Herculano, José Leite de Vasconcelos, Oliveira Martins, Torquato de Soares, entre outros – não quero tirar valor a todos os outros grandes nomes da historiografia portuguesa, mas seria um exercício quase impossível de os nomear aqui a todos – o que permitiu termos a nossa História exposta a todos os que tivessem interesse nela. Todavia, a excelência da nossa historiografia nacional é ainda vista como um hobby ou um diletantismo social, tentando tirar assim o impacto e importância da função do historiador na sociedade portuguesa. Claro que há uma parte da sociedade que entende e tenta acompanhar o espírito historiográfico, entusiasmando-se tanto pelos conferencistas como pelos temas que são apresentados, incentivando homens e mulheres que fazem a História a continuarem a fazê-la. A função de historiador não existe na nossa legislação, enquanto no outro lado do oceano, mais precisamente no Brasil, a proposta de lei 368/2009 do ofício de historiador já está para ser votada, isto apesar de haver uma contestação por parte dos historiadores brasileiros face a alguns pontos do projecto lei. Contudo já há uma vontade do Estado brasileiro em legitimar a profissão de historiador. Em Portugal não há, e tão cedo não haverá, vontade de aceitar o historiador como funcionário das estruturas empregadoras, afastando a necessidade de haver historiadores nos diversos sectores da sociedade. A sobrevivência dos investigadores em história parte do desejo e da necessidade da sociedade em saber da sua história, dos problemas e problemáticas que advêm dela. A função do historiador, é sem dúvida de Relembrar o Passado, Pensando o Futuro, sendo assim fundamental que ela exista, garantindo a sobrevivência do espírito humanista em todos nós. O meu obrigado, de um colega e amigo, Francisco Isaac Lembrando o Passado, Pensando o Futuro

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Índice Agenda cultural do instituto Agenda cultural externa

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A Núbia do neolítico à XXV dinastia

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A cidade medieval islâmica: entre dois mundos

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Lisboa da cidade de fronteira à afirmação da capital do reino: 1147-1383 João dela Câmara, condestável de artilharia no Oriente As ralações que a história nos dá

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36

Uma visita ao Museu São João de Deus - História e Psiquiatria Outras Conversas com Paulo Fontes

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62

Recensão ao simpósio «Body, Cosmos and Eternity: The Symbolism of Coffins in Ancient Egypt»

70

Comentário Crítico ao Filme O Assassínio de Júlio César (Stuart Burge) Roteiro histórico de Florença

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1212-2012 800 anos de Navas de Tolosa

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Director da Publicação Francisco Isaac Redactora Chefe Catarina Almeida Conselho de Redacção João Camacho, Amanda Coelho, Catarina Almeida, António Teixeira, Ricardo Martins, Carolina Soares e Sérgio Gomes. Autores dos Artigos Maria Joaquina Carita, Fernando David e Silva, Tiago Pires Marques, Carlos Guardado da Silva, Alexandra Duarte e Sérgio Tenreiro. Edição Laura Saldanha Designer Gráfico Laura Saldanha e Gonçalo Ribeiro A Imagem exposta na Capa foi retirada do sitio Web: Não nos pertencem quaisquer direitos de uso da imagem.

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Agenda Cultural do Instituto até agora... Conflitos e Ameaças no Mundo Contemporâneo O Passado, o Presente e o Futuro Conflitos Sociais, Económicos, Militares e Institucionais - Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa No dia 24 de Junho, terá lugar o evento Conflitos e Ameaças no Mundo Contemporâneo O Passado, o Presente e o Futuro - Conflitos Sociais, Económicos, Militares e Institucionais - no Salão Nobre da Reitoria da Universidade de Lisboa. Na segunda edição dos Conflitos e Ameaças no Mundo Contemporâneo, irão ser abordadas questões sobre o impacto da emigração, a destruição de ecossistemas vítimas da guerra, a qualidade e os modelos de educação, a participação da sociedade nas questões de segurança e urbanismo, entre outras. Nesta segunda edição contaremos com a presença de diversos oradores caso do Professor Doutor Adriano Moreira (Academia das Ciências de Lisboa), Professor António Figueiredo Lopes (Euro-Defence), Professor Doutor Jorge Bacelar Gouveia (FDL-UNL), Professora Doutora Ana Nunes de Almeida (ICS), entre outros. Nesta edição o formato será diferente da anterior, funcionando num sistema de mesa redonda, optando assim por um debate mais dinâmico e aberto. A entrada é livre, todavia, para todos que desejarem certificado e materiais para as mesas, haverá lugar para inscrição. Este evento é organizado pelo Instituto PAEHI e a Reitoria da Universidade de Lisboa, contando com a presença do Excelentíssimo Reitor da Universidade de Lisboa, Professor Doutor António Sampaio da Nóvoa.

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...a não perder Colóquio “Mitologia Comparada: Índia e Grécia Antigas” – Museu do Oriente

Colóquio Nacional “Ambientes e Conteúdos no quotidiano Medieval” – Câmara Municipal de Odivelas

No dia 27 e 28 de Março, terá lugar o colóquio “Mitologia Comparada: Índia e Grécia Antigas”, na sala Beijing do Museu do Oriente em Lisboa. Destacamos a presença de investigadores de diversas áreas e linhas de investigação, casos de Carlos João Correia (Centro de Filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), Maria do Céu Fialho (Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra), José Carlos Fernandéz (Nova Acrópole de Portugal), Shiv Kumar Singh (Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), Elisabetta Colla (Instituto de História de Arte da Universidade de Lisboa) e Nuno Simões Rodrigues (Centro de História da Universidade de Lisboa). A entrada é livre para todos os que desejarem assistir ao colóquio. Para todos os que tiverem interessados em receber pasta com os materiais didáticos, diploma de presença e outros conteúdos deverão se inscrever no Colóquio (a inscrição tem um custo de 7€).

Entre os dias 7 e 8 de Junho de 2013, o Instituto PAEHI e a Câmara Municipal de Odivelas organizam o colóquio de História Medieval, “Ambientes e Conteúdos no Quotidiano Medieval”, no Centro de Exposições da Câmara Municipal de Odivelas. Neste colóquio, os diferentes oradores apresentaram comunicações sobre as diferentes temáticas dentro do quotidiano medieval, como os ofícios, o comércio, as festas, a medicina, entre outros temas. Neste colóquio destacamos a presença de Maria Helena da Cruz Coelho (Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra), Pedro Gomes Barbosa (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), Flávio Miranda (Universidade Nova de Lisboa), Mário Farelo (Faculdade de Ciências Socias Humanas da Universidade Nova de Lisboa) e Bernardo de Sá Nogueira (Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa).

Para mais informações consulte: http://instituto-prometheus.org/viagens_cursos/ eventos-e-cursos-do-instituto/

Para todos os interessados em assistir a este evento, a entrada é livre, assim como a inscrição no colóquio. Brevemente teremos novidades sobre a inscrição e programa e sugerimos a visitarem a nossa página www.instituto-prometheus.org/viagens_cursos/ eventos-e-cursos -do-instituto/

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Agenda Cultural Externa Cfp: Encontro Internacional Sobre Claustros No Mundo Mediterrânico 20-22 de Junho de 2013 Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa

II Congresso de História Contemporânea 16-18 de Maio de 2013 A Rede de História Contemporânea, constituída por diversos centros de investigação nacionais, vai realizar o II Congresso Anual de História Contemporânea, nos dias 16 a 18 de Maio de 2013, na Universidade de Évora, organizado pelo Centro de Estudos de História e Filosofia da Ciência (CEHFCi), da mesma instituição, e pelo Centro de Investigação Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória (CITCEM), das Universidades do Porto e do Minho. O Congresso inicia-se com a conferência de abertura, a cargo do Professor Doutor Boaventura Sousa Santos (CES-UC). Ponto de partida para um debate centrado no tema «História e Ciências Sociais: desafios transdisciplinares da História Contemporânea», com a participação de José Manuel Sobral (ICS-UL), Augusto Santos Silva (FEP-UP), Irene Vaquinhas (FLUC), Fernando Catroga (FL-UC), e Fernando Rosas (FCSH-UNL) como comentador/moderador. Para a edição de 2013 a Rede de História Contemporânea realiza um call for papers tematicamente aberto a todos os investigadores. Para mais informações dirija-se: http://congressohc2013.blogspot.pt/.

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O Instituto de História da Arte da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa organizar o Encontro Internacional sobre Claustros no Mundo Mediterrânico (séc. X-XVIII), no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, nos dias 20 a 22 de Junho de 2013. Convida-se a comunidade científica a apresentar propostas de comunicação, as propostas deverão ser submetidas até ao dia 28 de Fevereiro de 2013. O Encontro visa promover o debate em torno dessa estrutura, simultaneamente funcional e simbólica, e, concretamente, dos claustros edificados entre os séculos X e XVIII no espaço mediterrânico, entendido em sentido lato como área de relações e intercâmbios culturais. Pretende-se, assim, incitar a uma reflexão interdisciplinar e potenciadora de novos contributos sobre estas estruturas arquitectónicas, nem sempre devidamente aprofundadas no plano da investigação. As análises congregadas poderão ser de múltipla origem disciplinar - estudos artísticos, arqueologia, arquitectura, teologia, literatura, historiografia, conservação e património - e deverão concorrer para uma visão alargada destes espaços, tanto do ponto de vista cronológico, incluindo o modo como outras épocas os olharam, entenderam e usaram, como na perspectiva funcional e artística, englobando usos, práticas e mensagens dos seus programas iconográficos. Para outros esclarecimentos: http://internationalconferencecloisters.weebly.com/.


Perspectives on Sources for Economic and Business History 18-19 de Abril de 2013

IIº Congresso Internacional sobre Arqueologia de Transição: O Mundo Funerário 29 de Abril a 1 de Maio de 1013 Évora Inserida numa região onde se têm vindo a identificar, nos últimos anos, novos e importantes contextos funerários, da Pré-história recente até ao período Romano, a Universidade de Évora, através de um dos seus Centros de Investigação (CHAIA) convida todos os arqueólogos, antropólogos e todos os interessados em dar a conhecer os seus trabalhos, a participarem neste evento que se procura que seja um espaço para apresentação dos novos dados e, simultaneamente, de reflexão e discussão teórica que nos permita compreender as diferenças cronológicas e regionais existentes. Neste IIº Congresso Internacional sobre Arqueologia de Transição pretende-se explorar, os novos dados da Arqueologia de contextos funerários, englobando as diferentes disciplinas: Arqueologia, Antropologia Física e outras ciências, sendo os temas de enfoque: 1.Contextos funerários nas sociedades Pré e Proto-Históricas; 2. Contextos funerários nas sociedades Romana e Medieval; 3. Arqueologia e Antropologia biológica; 4. Espaços e Espólios; Para mais informações aceda : http://www.igespar. pt/pt/agenda/15/2489/.

Este seminário visa pós-graduados e investigadores no início de carreira que trabalhem nos campos da história económica e de negócios. Este workshop destina-se a motivar investigadores para temas como temas como redes comerciais, finanças, transportes, comércio, economia de investimentos. O tema desta oficina é, portanto, “Perspectivas sobre Fontes para História Económica e de Negócios”. Os participantes serão convidados a considerar algumas questões em relação à sua própria pesquisa, incentivando-os a ser principalmente reflexivos e críticos em relação às suas fontes. Áreas que possam ser discutidas incluem (mas não se limitam a): identificação e localização de fontes relevantes; que fontes com que objectivo? Reunir fontes díspares, gestão de fontes e criar bancos de dados / recursos de TI; preocupações intelectuais e direitos de propriedade, questões legais e éticas, problemas com recolha e compilação; publicação. As propostas devem ter 500 palavras e serem enviadas até sexta-feira 15 de Fevereiro para ahxebexmail. nottingham.ac.uk. Este evento é patrocinado pelo CEBH, a Sociedade de História Económica e do Departamento de História da Universidade de Nottingham. Para outras informações aceda: http://eh.net/content/call-papers-perspectivessources-economic-and-business-history-18-19april-2013. Pátria e Liberdade. História e Cultura Política 12 de Março de 2013 Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa O Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, através do seu grupo de investigação Memória & Historiografia, vem por este meio divulgar o seu V Seminário de História e Cultura Política, dedicado à temática «Pátria e Liberdade». O Seminário decorrerá no dia 12 de Março de 2013, no Anfiteatro III da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A entrada é livre, sendo de cinco euros a inscrição para aqueles que desejarem diploma de participação. Para mais informações, poderão contactar o Secretariado do Seminário, através do email: centro.historia@fl.ul.pt.

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A NÚBIA DO NEOLÍTICO À XXV DINASTIA Por Maria Joaquina Carita1

1

Mestre em História Antiga pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. 2

DRAPER, «Faraós negros», pp.

7-8.

8

Ao longo de muitas décadas, os historiadores debateram-se sobre a cor da pele e sobre a competência dos faraós kuchitas. Em 1942, os egiptólogos Keith Seele e George Steindorff resumiram a dinastia kuchita no «When Egypt Ruled the East». Mas os preconceitos da época, completamente imbuídos pelo fascínio do Egipto, demonstraram-se pela indiferença quanto à dinastia núbia. Alguns arqueólogos passaram pelo Sudão, como Giuseppe Ferlini e Richard Lepsius, mas infelizmente para a história o primeiro destes senhores provocou danos em pelo menos uma pirâmide, removendo-lhe o topo, e o segundo tirando conclusões precipitadas em relação à origem dos kuchitas. George Reisner foi o primeiro a fornecer as primeiras evidências arqueológicas sobre os reis núbios, todavia ao insistir que os monumentos que escavou não foram construídos por africanos negros, desacreditou a sua descoberta. O arqueólogo Charles Bonnet, deu-nos a conhecer, então, uma nova civilização quando escavou no Sudão na década de 1960, antes da subida das águas da grande barragem de Assuão2. É sobre ela que nos vamos debruçar nas próximas páginas deste artigo.


3

MANZO, Introduzione alle Antichità Nubiane, pp. 21-22. 4

AAVV, O Antigo Egipto, Os segredos do Alto Nilo, p. 12.

5

Ibidem.

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Os primeiros vestígios do Neolítico aparecem na Alta Núbia com a cultura de Cartum (no actual Sudão) e remontam ao VI milénio a. C., com a introdução de bovinos domésticos. A inclusão destes animais deu-se como um fenómeno explosivo por todo o Sudão central, ao longo de quinhentos anos. A economia pecuária está associada com a adopção de modelos de mobilidade, talvez favorecidos pela degradação ambiental. O aumento da mobilidade em busca de pastagens pôs fim à instabilidade e à economia da caça e da recolecção, tendo também por ouro lado desenvolvido as tradições culturais. Também a cerâmica neolítica de Cartum continua com uma decoração impressa com movimentos ondulatórios em espinha de peixe e com os vasos de boca negra3. A região que maior informação nos deu sobre o Período Neolítico tardio, na Alta Núbia, foi a de Kadruka na terceira catarata. Estendendo-se por uma área de 30 quilómetros, forneceu-nos cemitérios com datação absoluta de cerca dos anos 5500-4000 a. C., caracterizando-se por uma cerâmica com formas variadas. As habitações consistiam em cabanas ovais ou circulares, com um diâmetro compreendido entre 1 a 7 metros, sendo as mais tardias de formato rectangular. As paliçadas serviam para a recolha de animais e as mais externas tinham carácter protector e serviam ainda como elemento delimitador da aldeia. O verdadeiro arranque deste período pré-histórico corresponde à cultura do «Grupo A» (3500 a. C.-2800 a. C.) na Baixa Núbia. Este grupo decompõe-se em três: Grupo A - antigo (3500-3250 a. C.); Grupo A - clássico (3250-3150 a.C.); Grupo A - recente (3150-2800 a. C.). Situada na rota comercial da África profunda, a Núbia viu desenvolverem-se trocas comerciais intensas entre a cultura de Cartum e a cultura do «Grupo A» 4. A Baixa Núbia, localizada entre a primeira e a segunda catarata, fica progressivamente despovoada a partir de 2900-2800 a. C., por volta da Época Arcaica no Egipto (I e II dinastias). Motivos climáticos ou simplesmente o desenvolvimento do poder egípcio no seu gradual avanço para sul podem ter estado na origem deste despovoamento. Com o Império Antigo a Baixa Núbia é completamente subjugada5. Segundo Margaret Drower6 e Mohamed Sherif7, a Baixa Núbia na

DROWER, Nubia, A Drowning Land, p. 16.

7

SHERIF, «A Núbia antes de Napata», p. 238.

9


fase final do Império Antigo egípcio era habitada por um povo nativo distinto que precedera ao do «Grupo A». A este grupo mais empobrecido foi dado o nome de «Grupo B». No entanto, David O’Connor8 diz-nos que a presença deste grupo entre o «Grupo A» e o «Grupo C» tem-se demonstrado inválida. Por seu lado, Andrea Manzo9 sublinha que a observação cronológica e a reclassificação dos enterramentos atribuída a Reisner para o «Grupo B» indica uma acentuada diminuição da população na Baixa Núbia entre 2900 e 2400 a.C., confirmada através de testes radiométricos. Para esta autora, o aparente desaparecimento da população do «Grupo A» deve-se talvez à adopção de uma vida mais móvel, ou por outro lado, ao contacto deste grupo com comunidades pastoris ou mesmo pela presença no seio da população de uma componente especificamente pastoril e móvel.

8

O’CONNOR, Ancient Núbia,

Egypt’s Rival in África, p. 25. 9

MANZO, Introduzione alle Anti-

chità Nubiane, p. 45. 10

BONNET, «Kerma, Territoire

et Métropole», pp. 5-6. 11

AAVV, O Antigo Egipto – Os

segredos do Alto Nilo, p. 12. 12

SHAW, Ian; NICHOLSON,

Paul, «Pan-grave culture», The British Museum Dictionary of Ancient Egypt, pp. 218-219.

10

Ao longo das fases históricas do Egipto (Época Arcaica e parte do Império Antigo), na Alta Núbia, por volta de 3000-2400 a. C. (fase pré-Kerma), desenvolveu-se um reino que viria a perdurar durante muito tempo, à volta da terceira catarata, em Kerma. Charles Bonnet10 diz-nos que o território dos núbios do «Grupo A» e o dos habitantes da região de Shendi, perto de Cartum, distanciavam mais ou menos em 600 km e que entre estas duas zonas de culturas muito diferentes, a cultura de Kerma constituía-se, no final do Neolítico, num marco essencial, como intermediária na região compreendida entre a segunda e a terceira catarata. Paralelamente, em cerca de 2300 a. C., após o declínio do Império Antigo no Egipto e a retirada gradual dos Egípcios da Núbia, aparece na Baixa Núbia uma nova cultura, a do «Grupo C»11. A cultura do «Grupo C» divide-se em duas fases, a primeira fase corresponde ao desaparecimento do Império Antigo e à retirada total dos Egípcios durante o Primeiro Período Intermediário e ao seu regresso sob o Império Médio, a segunda assiste à queda do Império Médio e à perda de importantes fortalezas egípcias durante o Segundo Período Intermediário. No entanto, está particularmente atestada no Alto Egipto e na Baixa Núbia a presença de uma cultura seminómada, de criadores de gado, caracterizada pelas sepulturas circulares rasas chamadas «pan graves», que preservavam a tradição núbia de sacrifícios animais, como gazelas, bois e carneiros. A cerâmica desta cultura mostrou afinidades com a cultura do «Grupo C» bem como com a cultura de Kerma12. Mas é do Sul profundo que vem a ameaça com a expansão de Kuch, que se apodera da região da Baixa Núbia. A cidade de Kerma, que se desenvolve na Alta Núbia (c. 2400-1750 a. C.) passa a ser a capital do reino a que os antigos Egípcios chamavam de Kuch e desenvolveu-se em três fases: Kerma antigo (2400-2050 a. C.) Kerma médio (2050-1750 a. C.)


Kerma clássico (1750-1550 a. C.) Os sítios da cultura de Kerma descobertos na Núbia, ao norte, vão até Mirgissa, o que indica que a segunda catarata servia de fronteira entre o «Grupo C», tendo esta cultura características como uma cerâmica torneada fina, feita em torno de oleiro e muito polida, vermelha e com a parte superior preta, vasos em forma de animal ou decorados com desenhos de animais, punhais de cobre e artigos de madeira incrustados em marfim. Apesar da maior parte destes objectos terem tradição cultural nativa, não se pode ignorar a influência de técnicas egípcias. Esta civilização vê chegar o seu fim sob o domínio dos faraós egípcios do Império Novo que vão controlar toda a Núbia até à quarta catarata. Por volta do ano 1100 a. C., com o final da XX dinastia, o Egipto entra em decadência e retira-se da Núbia permitindo o desenvolvimento do reino de Napata, que se situava entre terceira e a quarta catarata. Este reino atinge o seu apogeu com a XXV dinastia, conhecida por «kuchita», por volta de 750 a 656 a. C., quando se apodera do Egipto. Em 656 a.C. são expulsos do país pelos reis assírios e os soberanos núbios encerram-se num isolamento no que diz respeito ao Egipto. Segundo Charles Bonnet13, os conhecimentos históricos e arqueológicos sobre as diversas populações que ocuparam a Núbia é bastante incompleto. Os primeiros dados sobre as fases cronológicas do povoamento entre a primeira e a segunda catarata só foram possíveis aquando das campanhas de salvaguarda efectuadas antes da subida das águas do lago Nasser. Esse estudo colocou em evidência as originalidades núbias e a influência egípcia sofrida por estas populações. Novos trabalhos arqueológicos efectuados a montante da terceira catarata, ao longo do rio Atbara, deram-nos a informação que as vias comerciais seguiam em direcção do centro do continente africano e até ao mar Vermelho. Os seus produtos, como o ouro, o incenso, o ébano, gado e outros, eram encaminhados até ao Mediterrâneo desde o Império Antigo egípcio. As expedições realizadas pelos Egípcios a esta zona tinham por parte dos governantes locais núbios apoio logístico e militar contra as tribos mais belicosas da zona. O ouro da Baixa Núbia e de Kuch, na Alta Núbia, foi a base da economia e do poder egípcio na Ásia durante a XVIII dinastia. A posição do Egipto como potência dependia da grande quantidade de ouro extraído na Núbia. Podemos mesmo dizer que o nome de Núbia deriva da palavra hieroglífica nub + ouro, transformada pelos árabes em “nuba”14. Quando o império de Napata estava em ascensão com a XXV dinastia kuchita, o ouro foi fundamental para os seus objectivos dinásticos15. Mas o ouro não era o primeiro metal que chamava a atenção dos estrangeiros. O forte de Buhen fundia cobre, cuja origem é ainda desconhecida. Também o granito rosa de Assuão era procurado (para colunas, obeliscos e estelas), e o marfim, que nos sugere a angariação de elefantes através de intermediários núbios. Ao longo de muitos séculos os Egípcios pensaram que os povos que viviam a sul de Elefantina eram perigosos. Tinha sido um rei do Sul que havia unido as Duas Terras de modo que este potencial perigo sempre existiu. Historicamente, a «Terra do Arco» era o antigo nome da província egípcia entre Tebas e Assuão, à qual os documentos egípcios se referem como Ta-seti, hoje, conhecida como Núbia. A proeza dos Núbios na luta e na habilidade com o arco garantiu-lhes a fama, tendo combatido muitas vezes no exército egípcio como mercenários. Como se sabe, a política externa egípcia estava dependente da estabilidade e da força do poder central. No Império Médio, a emergência de um poder forte na Núbia incitou os reis egípcios a fortificarem a fronteira sul, e assim enormes fortalezas são edificadas junto à segunda catarata. Esta ostentação militar mostra até que ponto os Egípcios temiam ataques dos povos estabelecidos mais a sul, para lá de Elefantina. Porém, as perturbações que marcaram o Segundo Período Intermediário egípcio iriam favorecer o controlo por parte dos reis de Kerma de um território que se estendia da primeira à quarta catarata, permitindo o desenvolvimento desta civilização. Os Egípcios não apreciavam a existência de tão poderoso vizinho a sul, sobretudo porque dependiam das minas de ouro núbias para sustentar o seu domínio sobre a Ásia. Por isso, no Império Novo os faraós conquistaram a Alta Núbia pondo

13

BONNET, Charles, «O Reino

de Kerma», p. 50. 14

BRISSAUD, Jean-Marc, A

Civilização Núbia, das origens à conquista Árabe, p. 11. 15

HARKLESS, Nubian Pharaohs

and Meroitic Kings, p. 56.

11


16

DRAPER, «Faraós negros»,

p. 26. 17

DAMIANO-APPIA, «O mistério

dos faraós negros», p. 61. 18

Société des cultures nubiennes,

«La XXVe Dynastie: Un retour aux sources». http://nubie-international.fr/ accueil.php?a=page144000 19

Título sacerdotal feminino

muito comum durante o Império Novo com notória importância no Terceiro Período Intermediário. A Adoradora Divina era sempre da família real. Devia manter-se virgem, e a herdeira do cargo era sua filha por adopção. Teoricamente era casada com o deus Amon, prestando-lhe culto. ARAÚJO «Adoradora divina», Dicionário do Antigo Egipto, pp. 29-30. 20

PADRÓ, Historia del Egipto

Faraónico, p. 307. 21

Société des cultures nubiennes,

«La XXVe Dynastie: Un retour aux sources». http://nubie-international.fr/ accueil.php?a=page144000; PADRÓ, Historia del Egipto faraónico, p. 311. 22

Machauach eram tribos ber-

beres líbias. Segundo Josep Padró, a linha dinástica de uma destas tribos derivava provavelmente de Heracleópolis, onde elementos líbios se instalaram durante a XX dinastia, lá se mantendo no início da XXI dinastia. Obtiveram do rei o comando supremo das tropas mercenárias líbias e ameaçaram estender a sua influência por todo o vale do Nilo. Circunstâncias desconhecidas colocaram Chechonk I como sucessor de Psusennes II, começando a XXII dinastia (Historia del Egipto Faraónico, p. 311).

12

fim à independência de Kuch e instalaram ou reocuparam guarnições ao longo do rio Nilo, nomeando chefes núbios como administradores e educando em Tebas os filhos de núbios da classe mais elevada. A jusante da quarta catarata, na extremidade da região de Dongola, a montanha sagrada, a «Montanha Pura» ali existente denominada Guebel Barkal, cativara os faraós egípcios do Império Novo, crentes que Amon nascera naquele local16. Este foi o sítio escolhido para a constituição de uma nova colónia que marcava a fronteira sul do império egípcio. Nasce assim Napata, que por volta dos anos 1100-1000 a. C. viria a ser a capital política e espiritual do novo reino independente de Kuch, impregnado de cultura egípcia. Junto a ela ergueram-se pirâmides pontiagudas e templos imponentes. Segundo Damiano-Appia17, na época em que Napata foi fundada os sacerdotes de Amon constituíram a primeira sede do que veio a ser a religião do reino de Napata. Sob o reinado de Amen-hotep II, Napata era já uma importante cidade. Nesta rica região de Dongola situavam-se as minas de ouro de Kuch e de Karei, que depois viriam a ser exploradas pela dinastia kuchita. Devido à política de aculturação levada a cabo pelos reis egípcios a Núbia manteve-se em paz. A população local vivia do comércio e da agricultura mantendo os costumes núbios. Os nobres kuchitas ao serviço do Egipto adoptaram os costumes egípcios devido à sua educação na corte faraónica. Os faraós construíram templos e a população adorava o deus Amon. Ramsés II mandou erguer um templo a este deus em Napata que viria a tornar-se tão importante como o de Karnak e como o centro da fé núbia. Após o reinado de Ramsés II a derrocada egípcia começa e foi apenas retardada pelos dois reis seguintes, Merenptah e Ramsés III. Na crise que se seguiu, as relações entre o Egipto e a Núbia cessaram, deixando a Núbia a nível de documentação numa escuridão completa. Todavia, os núbios continuaram a submeter-se ao clero tebano de Amon que continuava a sua ascensão na obtenção de títulos e poder, nomeadamente o de «filho do rei de Kuch», isto é, vice-rei da Núbia. Após a morte de Ramsés XI, o Império Novo viu chegado o seu fim, já há muito esperado. O desaparecimento dos ramséssidas permitiu à Núbia encontrar de novo a sua independência e sob a XXII dinastia a fronteira sul egípcia fixou-se em Assuão como no tempo do Hórus Djoser 18. A influência do clero de Amon tinha vindo a crescer desde a segunda metade da XVIII dinastia. Akhenaton tenta dominar essa ascendência, mas a normalidade regressa após a sua morte. Tendo o clero amoniano instituído o cargo de Adoradora Divina19, que só podia ser uma princesa da família real, forçaram a união do soberano com o deus. Com o princípio do reinado de Smendes, antigo vizir do Baixo Egipto no tempo de Ramsés XI, começou a XXI dinastia e o Terceiro Período Intermediário, que se dividiu em três fases, denominadas fase tanita (XXI dinastia), fase líbia (XXII à XXIV dinastias) e a fase kuchita (XXV dinastia), por alguns designada de «época etíope». O caos instalou-se em Tebas e houve duas linhas dinásticas, uma em Tânis e outra em Tebas, que coexistiram durante cerca de cinco anos. Os reis do Norte renunciaram ao enterramento em Tebas, preferindo sepultar-se em Tânis dentro do templo de Amon 20. Enquanto a política externa dos reis do Baixo Egipto beneficiou do comércio da prata com a Península Ibérica e de outros produtos com vários povos do Mediterrâneo, a dinastia “teocrática” de Tebas perdeu o controlo da Núbia e foram incapazes de governar mesmo internamente, sujeitando-se constantemente aos oráculos do deus Amon mesmo em questões banais. Esta corrida aos vaticínios fomenta a superstição. Se já havia saques a túmulos, estes foram aumentando devido à desordem e à pobreza geral. As cidades desertificaram-se e os templos foram abandonados21. O final da XXI dinastia registou o poder crescente de tribos Machauach22 instaladas no Delta. Com estas tribos instalou-se a chamada anarquia líbia que acabou por dividir o Egipto, e os sacerdotes tebanos, que após terem fomentado a guerra civil se refugiam em Napata favorecendo nesta cidade o culto a Amon. Durante este período da história do Egipto, na Núbia começou a formar-se um pequeno reino indígena em Napata, que se foi engrandecendo e egipcianizando progressivamente. A origem do reino de Napata tem gerado controvérsias entre os historiadores,


sendo uma das hipóteses, a retirada dos Egípcios da Núbia e o poder tanto da Núbia como do Egipto ter sido tomado pelos sacerdotes de Amon que governavam a partir de Karnak e de Napata. No entanto, estes sacerdotes para se poderem impor devem-se ter apoiado em grupos de guerreiros. Escolheram uma família núbia de Kurru e pequenos reis obscuros foram elevados à categoria de soberanos reivindicando o trono do Egipto. Apresentavam-se como defensores da fé do deus Amon, transformando a Alta Núbia num reino reunificado. Outra hipótese é que os novos senhores de Napata tenham vindo de uma linhagem de príncipes núbios egipcianizados, deixada pelos faraós egípcios do Império Novo, quando criaram a cidade de Napata em Guebel Barkal, e que se apropriaram do poder do centro urbano23. Entendemos que a segunda hipótese será a mais correcta devido aos ritos funerários encontrados em Kurru e à lei da sucessão, tipicamente africana. Desde a queda do Império Novo não houve qualquer documento nem vestígios arqueológicos sobre este período da história da Núbia até às escavações arqueológicas realizadas por Reisner no cemitério de Kurru. Através destas estruturas tumulares e religiosas foi possível corrigir o hiato existente na cronografia, quer do Egipto, quer da Núbia24. A lei de sucessão era característica de uma raça claramente indígena, onde se destacava, como ainda hoje, uma sociedade matriarcal, que dava preferência ao irmão antes dos filhos25. David O’Connor não concorda com esta designação e diz tratar-se de uma sociedade patriarcal que decretava que o herdeiro tinha de ser um filho do irmão paterno do rei falecido26. Assim, não haveria apenas um candidato mas vários candidatos, de entre os quais o exército escolhia o rei. Esta escolha tinha de ser autenticada pelo deus Amon, supondo-se haver alguma influência por parte dos sacerdotes. Segundo Damiano-Appia27, um membro da sexta geração dos soberanos sepultados em Kurru, chamado Alara, começou a conquista do território a norte de Kuch, fundando a dinastia dos faraós negros e adoptando características reais egípcias como a inscrição do seu nome numa cartela28. Dominou a Alta Núbia até Kaua onde mandou construir um santuário para o deus Amon. Quando Alara faleceu, sucedeu-lhe o seu irmão Kachta que resolveu conquistar Tebas, beneficiando das divisões internas existentes entre as várias dinastias no Egipto, sendo, portanto, o primeiro núbio a cingir a coroa do Alto e do Baixo Egipto e a apresentar-se como faraó, como testemunha uma estela deste rei em Elefantina29. Em nome de Amon e apoiados pelo influente clero amoniano, os reis kuchitas, repuseram a maet no país das Duas Terras. Nessa época, a classe dirigente núbia estava completamente convertida aos hábitos e costumes egípcios quer através da religião, da cultura, da escrita e mesmo da raça, devido aos muitos casamentos contraídos ao longo de gerações entre núbios e Egípcios. Mais, desde há séculos o exército egípcio integrava contingentes de archeiros núbios, e por isso Kachta tinha adoptado parte dos títulos, língua e espírito religioso egípcio. Quando este rei se apresentou em Tebas foi acolhido como um guardião da fé de Amon. O rei assegurou-se da fidelidade da Adoradora Divina de Amon, filha do rei Osorkon III, obrigando-a a adoptar a sua própria filha, Amenirdis I, assegurando a esta a sucessão numa função prestigiosa e reforçando o apoio do clero egípcio à família núbia. Depois de se sentir estável, Kachta regressou a Napata onde morreu por volta do ano 751 a. C.

23

MANZO, Introduzione alle

Antichità Nubiane, pp. 146-147. 24

WILLIAMS, «A prospectus for

exploring the historical essence of ancient Nubia», p. 92. 25

PADRÓ, Historia del Egipto

faraónico, p. 314; GRIMAL, Historia del Antiguo Egipto, pp. 365-366. 26

O’CONNOR, Ancient Nubia,

Egypt’s Rival in Africa, p. 75. 27

DAMIANO-APPIA, «O mistério

dos faraós negros», p. 62. 28

Société des cultures nubiennes,

«La XXVe Dynastie: Un retour aux sources». http://nubie-international.fr/ accueil.php?a=page144000 29

MANZO, Introduzione alle An-

tichità Nubiane, p. 153; SALES, «O poder do Sul: a dominação núbia», p. 41.

13


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14

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15


A cidade medieval islâmica: entre dois mundos Fernando A.C. David e Silva1

“O interior da tua casa é um santuário: os que o violam quando estás lá dentro, faltam ao respeito que devem ao intérprete do céu.” Corão, LXIX, 4-5. 1

Sócio Honorário do Instituto

PAEHI – Associação para Estudos Históricos Interdisciplinares. 2

Textos “A Mesquita de Damasco

(705) foi edificada por artífices bizantinos”, de Ibn Batuta, erudito e viajante árabe do séc. XIV e “O plano da cidade de Bagdad”, do árabe Al Khatib Al Bahgdadi, na sua História de Bagdad, redigida no séc. XI. Os textos figuram em Fernanda Espinosa, Antologia de Textos Históricos Medievais, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1981, pp. 110-111.

16

As cidades são elementos orgânicos, que reflectem os períodos de ascensão e declínio das sociedades. Deixam marcas claras e perduráveis, que nos dão a conhecer as estruturas políticas, culturais, económicas e sociais, bem como as suas alterações, quando ocorrem. O islamismo, nascido em meados do séc. VII, cedo revelou uma fulgurante capacidade de captação de crentes e de expansão territorial. Ainda que emergente de uma cultura eminentemente rural e nómada, o novo movimento, em que se mostravam inseparáveis a prática religiosa e a acção política, foi nos aglomerados urbanos que construiu as bases do seu poder. Seguindo a regra, a cidade medieval islâmica ficou como legado da sociedade do seu tempo, no que foram as suas expressões de curta e de longa duração. Com recurso a dois textos árabes2, que se referem às mesquitas de Damasco e Bagdad do séc. VIII, procuramos contribuir para a compreensão da sociedade islâmica medieval, e dos contrastes e semelhanças com a sociedade europeia do seu tempo. O primeiro texto descreve a mesquita de Damasco, construída no reinado do califa Al Walid (705-715), que nesta cidade instalou a sua capital. Estamos em plena época omíada, na “juventude triunfante” do Islão, como lhe chamou Maurice Lombard. De certo modo, a mesquita ocupou na cidade islâmica medieval o papel que o forum desempenhava na cidade romana. Faz, em consequência, sentido abordar uma cidade a propósito de um texto que descreve uma mesquita: as indicações fornecidas sobre o templo permitem descobrir influências que não terão deixado de se reflectir sobre a sociedade em geral e a sua cidade em particular. O segundo texto descreve a cidade de Bagdad no reinado do califa Al-Mansur (754-775), no início da dinastia abássida. A descrição permite reconstruir uma cidade dramaticamente distinta da anterior. Bagdad surge como o símbolo de uma nova dinastia que se apoia a Oriente e pretende, na cidade, marcar a distância em relação à dinastia anterior. Será pois no séc. VIII que este texto vai concentrar mais a sua atenção, sem deixar de alargar os horizontes cronológicos, quando se torne necessário revelar mecanismos de mais longa duração.


3

Vide Maurice Lombard, L´Islam

dans sa Première Grandeur, VIIeXIe Siècle, Paris, Flammarion, 1971, p. 139. 4

Vide id., ibid., p. 137.

ECONOMIA E CIDADE NA ALTA IDADE MÉDIA

Vive-se, entre os séc. VII e IX, um período oriental da história. A Europa, ruralizada, em movimento iniciado já no Baixo Império, acentua a sua depressão, pelas consequências das migrações dos povos germânicos, eles também oriundos das paragens mais orientais do continente. É um fenómeno de longa duração que, pelas rupturas que implica, perturba significativamente o modo de vida e a segurança de todo o território europeu, em particular dos seus aglomerados urbanos. As redes mercantis são estranguladas e a circulação monetária torna-se quase nula. Com a perda do seu potencial de criação de riqueza, as cidades contraem-se e são abandonadas pela população, que busca nos espaços rurais a sua sobrevivência, também assente em melhor segurança. A autoridade central entra em declínio, a cidade fica reduzida a um espaço muralhado, que abriga pouco mais do que as autoridades administrativas e a igreja. A área habitada decresce e torna-se mais modesta, com grupos concentrados de casas e ruas desorganizadas. É, no continente europeu, o tempo da barbarização e da ruralização, que se constituem como um fenómeno de média duração. A cidade europeia só no séc. X começará a entrever a sua recuperação. Até ao séc. VII, também o Mediterrâneo irá sofrer de baixos ritmos económicos, principalmente ditados pelo estreitamento do raio de acção do império bizantino. A ascensão do mundo muçulmano, que começa a tomar forma na segunda metade do séc. VII, irá promover a criação de ”… um vasto mercado comum, da Ásia Central ao Oceano Índico, do Sudão ao Ocidente bárbaro e às regiões dos grandes rios russos. Este conjunto, ancorado sobre os três grandes domínios anteriores, que são o império sassânida, a Síria e o Egipto bizantinos, e o Mediterrâneo ocidental barbarizado, vai caracterizar-se pelo afluxo de ouro, uma grande oferta de escravos (turcos, africanos e eslavos), uma rede de grandes rotas comerciais, que se estende da China à Espanha e da África Negra à Ásia Central….”3. Em contraste quase paradoxal, os grupos tradicionalmente fragmentários e nómadas da península arábica, aderem à cidade como forma de estruturação social, e rapidamente lhe conferem um carácter notavelmente singular. Escreveu Maurice Lombard4: “Entre os séc. VIII e XI, o mundo muçulmano é palco de um prodigioso desenvolvimento urbano. Este desenvolvimento pauta-se, em primeiro lugar, pela criação de cidades, algumas das quais se tornam rapidamente das maiores do mundo. … Ao lado destas aglomerações, … antigos centros urbanos voltam a animar-se … e assumem, em população e extensão, proporções até então desconhecidas.”.

17


O ISLÃO MEDIEVAL – BREVE CARACTERIZAÇÃO

5

Vide André Miquel, O Islame e

a sua Civilização, Lisboa, Edições Cosmos, 1971, pp. 83-84. 6

Vide id., ibid., p. 14.

7

Vide Robert E. Dickinson apud

Fernando Chueca Goitia, Breve História do Urbanismo, Lisboa, Editorial Presença, 1982, p. 69. 8

Vide Rachel Arié, “España

Musulmana (Siglos VIII-XV)”, Historia de España. Dirigida por Manuel Tuñón de Lara, 10 vol., Tomo III, Barcelona, Editorial Labor, 1983, pp. 278-282.

18

A Arábia pré-islâmica já vive do comércio: é desértica, rude, isolada, mas dependente dos aglomerados urbanos para as funções de entreposto, de apoio logístico às caravanas e de local de troca. A Arábia é, no próprio dizer dos árabes, uma “ilha”, a djazirat al-Arab, mas é a plataforma giratória das trocas comerciais entre o oriente e o mundo euro-mediterrânico. Os povos que habitam a península arábica vivem em movimento, da recolecção, da pastorícia (que os obriga a perseguir as pastagens) e da caça ocasional. Também se ocupam do comércio e, por modo de vida ou por sobrevivência, do assalto às caravanas ou da razia a outras comunidades. Nas margens do deserto e nos oásis vivem os sedentários, que trocam frequentemente parte da sua produção agrícola pela protecção dos beduínos. O grupo de base é a tribo, polarizada num antepassado comum. A família, célula elementar da sociedade, com ascendência masculina, é alargada ao conjunto dos descendentes do seu chefe e das respectivas famílias. A religião revelada que emerge na península arábica, a partir da pregação de Maomé (c. 570-632), não altera os modos de vida mas cria uma comunidade de crentes, a umma, em torno da obediência a um deus único e uno (não-trinitário, como o deus dos cristãos), e aos associados modelos jurídico e político. A sua designação explica tudo: Islão, a “submissão”. O Islão nasce na cidade de Meca e tem outras cidades como símbolos religiosos e, indissociavelmente, também políticos: Medina, Damasco, logo depois Bagdad. As cidades que aqui nos ocupam pertencem ao Islão árabe, o Islão da expansão, que se desenrola entre os princípios do séc. VII e os meados do séc. VIII. O alargamento do território do Islão, o dar-al-Islam, vai reproduzir, em propósitos e em extensão, os antigos impérios. Diz André Miquel5: “As mais belas jóias da Idade Média muçulmana são as suas cidades. Requerido, ao mesmo tempo, por um ideal de vida comunitária, onde a mesquita e o púlpito representam papeis essenciais, pela necessidade de dominar os países conquistados, e até pela preocupação da glória, a fundação das cidades é um dos factos maiores desta história.” A CIDADE ISLÂMICA MEDIEVAL A cidade islâmica reflecte o Islão, que tudo impregna: “… organização do Estado, suporte das ligações do poder com os crentes, ou dos crentes entre si, código de honra das transacções comerciais, fonte da inspiração ou dos interditos em arte.”6 Assim, a mesquita é o centro, em torno do qual se desenvolve a cidade. À sua volta surge um urbanismo espontâneo, contrastante com a regularidade da cidade antiga. As ruas são estreitas e tortuosas, com casas sem janelas. A casa respira para o seu pátio interior, que parece uma herança greco-romana, mediterrânica, mais do que uma inovação islâmica. A vida familiar é recatada, escondida dos olhares de quem passa na rua, tendo o pátio como o seu forum íntimo. O convívio ocorre na mesquita, na oração de sexta-feira, nas portas da cidade e nos seus arrabaldes, locais de mercado e de confluência das caravanas mercantis. A cidade hispano-muçulmana, da nossa herança, não escapa ao paradigma islâmico medieval. Um geógrafo contemporâneo, referindo-se às cidades mouriscas na península ibérica, escreve7: “Estas cidades sem plano, amontoado de edifícios e casas, com ruas cheias de vida, que variam de largura e de direcção, e se ramificam à saída de outras principais para irem terminar em becos sem saída, estas cidades, labirintos impossíveis de decifrar mesmo com um mapa…”. As cidades andalusas caracterizavam-se por serem rodeadas por um muro alto, no qual se abria uma porta singela, de dois batentes. Em sua casa, através das portadas de tabuínhas, as mulheres podiam ver para o exterior, sem serem vistas. As casas mais abastadas, sem que tal fosse perceptível do exterior, abriam com um vestíbulo, enquanto as mais modestas apenas dispunham de um corredor, que conduzia ao pátio interior8.


Ainda interessa notar que a irregularidade da cidade medieval islâmica é menos tributária da apressada conversão dos beduínos à vida urbana, do que do próprio modo de ser árabe, defensor da sua privacidade: a sua casa é um santuário, como ensina o Corão (designadamente sura XLIX, versículos 4 e 5)9. As ruas desta cidade não têm a função pública que exercem na cidade grega ou romana, apenas são um incómodo, embora inevitável, um mero elemento de acesso do crente ao seu santuário privado. DAMASCO: A CIDADE MEDITERRÂNICA A sociedade islâmica da época omíada (661-750) é profundamente urbana: a matriz cultural beduína não é logo rejeitada, mas a nova cultura é urbana. No seu seio florescem as “… grandes disciplinas do pensamento árabe: a exegese corânica, história, jurisprudência, lexicografia, gramática, colectâneas de poesia arcaica.”.10 O texto de Ibn Batuta aqui abordado chama-se, adequadamente “Memória sobre a Mesquita de Damasco, conhecida pela Mesquita de Bani Ommia”11: é Memória porque o texto não é coevo da construção, a que se refere, e faz-nos saber que o templo foi estreitamente associado ao clan dos Omíadas 12. O viajante e erudito do séc. XIV descreve a grandiosidade do templo: “É ela a maior das mesquitas do mundo, a mais firme na construção, a mais admirável na beleza … de maneira que não se sabe haver igual a ela. … Foi o que presidiu à sua edificação e firme construção o príncipe dos crentes Alualid13…”. A nova mesquita, na sua grandiosidade, não é o único testemunho do esplendor omíada, dado que sabemos da construção de numerosos palácios, que rodearam Damasco de uma cintura de residências áulicas.

9

Uma versão desta passagem

encima o presente texto. A versão que figura na mais recente tradução do Corão para português não reflecte uma leitura tão literal: vide Alcorão. Américo de Carvalho (tradução). Suleiman Valy Mamede (introdução e

notas), 2 volumes, Vol. 2, Lisboa, Publicações Europa-América, 2002, p. 144. 10

Vide André Miquel, ob. cit.,

p. 94. 11

Vide Fernanda Espinosa, ob.

cit., p. 110. 12

Bani está por banu, plural de

ibn ou “filho”. O termo é usado para designar os membros de um clan ou de uma tribo ou, de forma geral, os descendentes de um mesmo antepassado, o que se aplica aos membros de uma dinastia. 13

Al-Walid ibn Abd al-Malik, o 6º

califa omíada. 14

Vide David Nicholas, A

Evolução do Mundo Medieval – Sociedade, Governo e Pensamento na Europa (312-1500), Lisboa,

Com vestígios de presença humana desde o sexto milénio a.C., com passado sob os gregos e sob os romanos, Damasco foi conquistada aos bizantinos, em 635. Embora não se trate de uma cidade ribeirinha, a sua história foi sempre mais a de uma cidade mediterrânica do que oriental. O império bizantino estava, no séc. VII, pressionado tanto por hordas bárbaras (os avaros), como pelos persas sassânidas. A Síria era uma zona limítrofe do império e caiu perante um exército muçulmano que tinha metade do seu poderio humano.14 Em mãos muçulmanas, Damasco vai progredir, até alcançar o seu apogeu durante a dinastia omíada. Em 705, quando Al Walid inicia a construção da nova mesquita, Bizâncio era governado por Justiniano II, que entrou nesse mesmo ano no seu segundo reina-

Publicações Europa-América, 1999, p. 105.

19


do. A sua acção contra os muçulmanos não foi feliz, com momentos de alguma subordinação, que o texto de Ibn Batuta nos revela: “… o príncipe dos crentes Alualid … [dirigiu-se] ao rei dos Gregos em Cosntantinopla, ordenando-lhe que lhe mandasse os oficiais, o qual lhe enviou doze mil.”. Esta mão-de-obra bizantina, para além de fabricar tijolos, colunas, arcos e abóbodas, não terá deixado de acentuar o carácter mediterrânico da nova construção. Vive-se ainda, no interior da cidade, um tempo de convivência, demonstrado pelo facto de a construção da mesquita ter sido compensada pela autorização, concedida aos cristãos, para edificarem quatro novas igrejas. A mesquita foi uma construção imponente, à medida da ambição dos califas omíadas: 210 metros de comprimento por 140 de largura, “As [suas] paredes estão todas com pastas de ouro … os números de imagens de sol com vidros de diversas cores que há nela são setenta e quatro.”.

15

Apud Fernando Chueca Garcia,

ob. cit., p. 76. 16

Vide Maurice Lombard, ob. cit.,

p.150. 17

Um dos raros sobreviventes, o

príncipe fugitivo Abd al-Rahman, será o primeiro emir omíada do Andalus, no trono de Córdova a partir de 761.

O centro da cidade de Damasco, renascida sob os omíadas, é ocupado pela nova mesquita, localizada nas margens do rio Barada. Perto do templo, implanta-se o palácio de Al Walid (al-Kahdra, a “casa verde”) e as casernas militares. A cidade cresce, asfixiando progressivamente o antigo traçado recticulado regular, paradigma da cidade antiga mediterrânica, substituído pelas ruas traçadas em aparente desordem. É assim descrita por Pierre George15: “A velha cidade oferecenos o contraste comum a todo o Mediterrâneo muçulmano, entre os bairros de moradias e a rua dos comerciantes. O primeiro é um formigueiro de ruas estreitas, frequentemente cobertas por saliências das casas e que às vezes terminam em azinhagas sem saída. As casas baixas … estão fechadas à curiosidade. Nenhuma abertura excepto a porta de entrada. … A vida privada é impenetrável para o transeunte…”. Tomada pelos abássidas em 750, as suas muralhas são destruídas e Damasco declina para uma pequena cidade de província16. BAGDAD: A CIDADE ORIENTAL

20

A “revolução abássida” esmaga a dinastia omíada e extermina os seus membros 17 . Os relatos muçulmanos são, geralmente, desfavoráveis à dinastia reinante entre 661 e 750, que acusam de se preocupar mais com assuntos mundanos, que do


Islão, bem como de manter os clérigos afastados dos círculos áulicos. Em 750, os omíadas são destronados por um movimento militar de inspiração religiosa: o califado passa para as mãos dos abássidas, que se reclamavam da descendência de Ali, o tio do Profeta. A distância que pretendem estabelecer em relação à dinastia afastada e, sobretudo, o facto de a sua base de poder se localizar bem para leste, na região do Kurasan, levou os abássidas a deslocar a sede do califado para Bagdad. O novo poder começa por se afirmar através de um rigorismo religioso e promove a redução a escrito do Corão que, até então, era transmitido apenas oralmente e estimula a sua interpretação. Bagdad é uma cidade nova, fundada em 762, na região onde os cursos do Tigre e do Eufrates se aproximam, região de confluência e ponto-chave do controlo das rotas caravaneiras, com comunicações ancestrais para os quatro pontos cardeais. Foi iniciativa do 2º califa abássida, Abu Jafar Abdallah ibn Muhammad Al-Mansur, que a designou como Madinat as-Salam, “a cidade da paz”. Nasce assim a nova capital política, espiritual e económica do mundo islâmico. Inteiramente orientada para a defesa e glorificação do califa (“o sucessor do Profeta”), Bagdad converte-se rapidamente numa cidade ostentatória, pela quantidade e luxo dos seus palácios.

18

E também sírios: vide André

Miquel, ob. cit., p. 126. 19

Vide Fernanda Espinosa, ob.

cit., p. 111.

O núcleo inicial da cidade segue um plano circular, em cujo centro se localizam a mesquita e o palácio califal. Desde logo, o formato marca a diferença para a mesquita de Damasco, de planta rectangular, como os templos mediterrânicos. O formato da cidade de al-Mansur tem precedentes mesopotâmicos18 e, como boa residência islâmica, resguarda o seu interior de olhares interrogadores. A cidade nuclear é descrita num texto de Khatib al-Bahgdadi (“o erudito de Bagdad”) na sua História de Bagdad (Tarikh Bahgdad), escrita no séc. XI19: “A cidade tinha quatro portas … construídas segundo o mesmo modelo… A segunda porta … dava acesso a uma passagem oblonga, abobadada com tijolos … Entra-se pelo segundo corredor para um pátio quadrado de 20 côvados [14 metros] de lado. Para o espaço entre as muralhas abrem-se as portas de certas ruas e em frente de uma delas fica a Pequena Arcada … pela qual se passa para a área circular onde estão o palácio e a mesquita”.

21


20

Vide André Miquel, ob. cit.,

p. 130.

É à terceira muralha que se acede acesso ao pátio circular, em cujo centro se divisam as duas construções áulicas, a do sucessor do Profeta e a dedicada ao louvor do Deus único. No interior, apenas vivem os guardas e os partidários do califa. O anel urbano é composto por uma coroa circular, que tem a largura do corredor que liga as duas muralhas interiores e não dá acesso directo ao pátio interior. Ao modo medieval, os mercados não se realizam no centro da cidade, situando-se fora das suas portas. A cidade de al-Mansur protege o califa e a mesquita como os seus bens mais preciosos. Os abássidas orientalizaram o califado e construíram Bagdad, uma cidade que é mais persa do que mediterrânica. Escreve André Miquel20: “O Islame, nas suas mais altas emanações temporais, enfeita-se de Oriente e de luxo, aproximando-se destas velhas tradições das Ásia entre as quais a da Persa sassânida, para só falar dela, que lhe fornece a imagem mais imediata.”.

CONCLUSÃO

22

A cidade medieval islâmica, reflecte o carácter de uma sociedade cuja matriz é ancestral, mas que se reveste de novos traços à medida que se converte à emergente religião islâmica. Uma religião monoteísta é, de momento, uma religião urbana, centrada no templo onde os crentes dialogam com a divindade. A natureza tribal e clânica das sociedades arábicas ajuda a compreender o carácter resguardado, intimista, que caracteriza as cidades islâmicas: o seu espaço público, o pátio, está no interior da sua casa, o seu espaço inviolável, mesmo aos olhares exteriores. O Islão tem um berço mediterrânico, no pensamento e na sua cultura material inicial. No entanto, a sua vocação universalista e razões de política conduzem-no à expansão para oriente. Damasco e Bagdad, aqui invocadas como paradigma do papel das cidades na sociedade islâmica medieval, são contrastantes mas, ao mesmo tempo, unas na expressão do espírito islâmico do tempo.


BIBLIOGRAFIA PRINCIPAL CHOUEIRI, Youssef M. (Editor) A Companion to the History of the Middle East, Oxford, Blackwell Publishing, 2005. ESPINOSA, Fernanda Antologia de Textos Históricos Medievais, Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1981. GOITIA, Fernand Chueca Breve História do Urbanismo, Lisboa, Editorial Presença, 1982. HEERS, Jacques La Ville au Moyen Âge, Paris, Fayard, 1990. LOMBARD, Maurice L´Islam dans sa Première Grandeur, VIIe-XIe Siècle, Paris, Flammarion, 1971. MIQUEL, André O Islame e a sua Civilização, Lisboa, Edições Cosmos, 1971. NICHOLAS, David A Evolução do Mundo Medieval – Sociedade, Governo e Pensamento na Europa (312-1500), Lisboa, Publicações Europa-América, 1999. SOURDEL, Dominique Vocabulaire de l´Islam, Paris, Presses Universitaires de France, 2002 [Reimp. 2008]. SOURDEL, Janine et Dominique Dictionaire Historique de l´Islam, Paris, Presses Universitaires de France, 1996.

23


1

Director do Arquivo Municipal

de Torres Vedras e Professor Auxiliar Convidado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. carlos.guardado@clix.pt. 2

A este propósito, vejam-se

apenas as IV Jornadas Luso-Espanholas de História Medieval: as relações de fronteira no século de Alcañices: Actas. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1998. Vol. 1-2. 3

LADERO QUESADA,

Miguel-Angel, «reconquista y deficiones de frontera». In IV Jornadas Luso-Espanholas de

Lisboa

da cidade de fronteira à afirmação da capital do reino: 1147-1383

História Medieval : as relações de fronteira no século de Alcañices:

Carlos Guardado da Silva1

Actas. Porto: Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 1998. Vol. 1, p. 656. 4

A propósito do conceito de cidade-fronteira, veja-se J. M. Lacarra referente às povoações castelhanas e leonesas fundadas entre os séculos XI-XII na raia entre os territórios cristão e islâmico e a sua aplicação ao caso português, e MARTÍN Y MARTÍN, José Luis - «Las funciones urbanans en la Transierra occidental». In SÁEZ, Emílio, SEGURA GRAÍÑO, Cristina e CANTERA MONTENEGRO, Margarida, coords. - La ciudad hispanica durante los siglos XIII a XVI: Actas del coloquio celebrado en La Rábida y Sevilla del 14 al 19 de septiembre de 1981. Madrid: Universidad Complutense, 1985. vol. 1, p. 406-407; RUIZ DE LA PEÑA SOLAR, Juan Ignacio «Ciudades y sociedades urbanas en la frontera castellano-leonesa (1085-1250, CIRCA)». In Aragón en la Edad Media: Sesiones de Trabajo: II Seminário de Historia Medieval - Las Sociedades de Frontera en la España Mediaval. Zaragoza: Universidad de Zaragoza. Faculdad de Filosofia y Letras. Departamiento de Historia Medieval, Ciencias y Tecnicas Historiograficas y Estudios Arabes e Islamicos. Zaragoza: Universidad de Zaragoza, 1993. p. 84; Id., «La ville frontière: un modèle original d’urbanisation?». In MENJOT, Denis, ed. - Les Villes frontières (Moyen Age-époque moderne).

24

Introdução A historiografia medieval portuguesa tem privilegiado o estudo da fronteira portuguesa com os outros reinos cristãos ibéricos, sobretudo nos séculos XII e XIII, até à assinatura do Tratado de Alcanices, entre Fernando IV de Castela e D. Dinis de Portugal, a 12 de setembro de 12972. De modo distinto, a fronteira sul, cuja evolução foi paralela à expansão territorial dos reinos cristãos, não mereceu, parece-nos, a mesma atenção por parte desta mesma historiografia, talvez porque, no território que viria a ser o reino de Portugal, o fenómeno terminou em 1250. Tornava-se então clara a ideia de limites políticos próprios para circunscrever a acção da soberania régia, continuada, posteriormente, com as noções de homogeneidade linguística e de fronteira “natural” que, no sul, o próprio rio Guadiana imporia, ainda que em 1250 os limites políticos ultrapassassem os limites naturais. A conquista de Lisboa por D. Afonso Henriques e a sua colocação sob domínio cristão, em 25 de outubro de 1147, integrava então a cidade de Lisboa nos limites do “reino”, a que chegava o poder do jovem rei, que começava a encarnar as noções de Estado e de soberania, ainda que as mesmas não se encontrassem definidas com a clareza que viriam a alcançar mais tarde3. Lisboa foi uma cidade situada na fronteira sul, sob domínio cristão, entre 25 de outubro de 1147 e 1217, momento em que o limite entre o reino português e al-andalus avançou para sul, até à linha do Sado, com a conquista definitiva de Alcácer do Sal, por acção do bispo de Lisboa D. Soeiro, com a ajuda da 5.ª Cruzada, chefiada por D. João de Brienne, rei de Jerusalém, e André II da Hungria. Durante este período de 70 anos, Lisboa foi uma cidade-fronteira, afirmando-se, desde logo, do ponto de vista económico, designadamente, artesanal e comercial, assim como pela sua dimensão física e populacional, como a mais importante cidade do reino, crescimento que é notório desde o século IX. A estes factores económicos e demográficos, juntar-se-iam outros, nomeadamente de ordem política, transformando a maior cidade do reino em cidade-capital, afirmando-se enquanto tal logo em meados do século XIII, no reinado de D. Afonso III, sobretudo com a fixação da chancelaria régia em Lisboa, em 1256, e uma maior permanência do rei na cidade. Pois a cidade-capital foi, simultaneamente, a cidade da corte, que projectaria o seu poder e a sua influência, atraindo gentes de todo o reino e, no século XIV, de outros reinos mediterrânicos, nomeadamente das penínsulas ibérica e itálica. A proposta que trazemos é precisamente o percurso da cidade de Lisboa, uma cidade-fronteira4, desde a conquista cristã por Afonso Henriques até à afirmação da cidade enquanto capital do reino, limitando-o entre 1147 e 1383. Este é o nosso


contributo para a discussão da ‘importância do baixo vale do Tejo na construção de Portugal’. A CIDADE-FRONTEIRA Lisboa era, em meados do século XII, a maior cidade do Gharb al-Andalus, com cerca de 15 hectares de área urbana no interior das suas muralhas. Pela sua dimensão, era comparável apenas à cidade de Braga (com cerca de 15 hectares), Silves (com 15 hectares) e Évora (com 16 hectares), menor que Coimbra, cuja muralha fechava uma área de 22 hectares, e quatro vezes maior do que o Porto, que não passava de uma pequena cidade, com uma área de 4 hectares. Todavia, se tivermos em conta os três arrabaldes, existentes já em meados do século XII, testemunhados pelo cruzado inglês R[aul]5, no relato da conquista de Lisboa, a área urbana da cidade duplicava, atingindo a dimensão de cerca de 30 ha. De dimensões incomparáveis a Córdova, Sevilha ou Granada, apenas Coimbra e Badajoz, com cerca de dez hectares de área definida pelas suas muralhas, se aproximariam de Lisboa e, talvez Santarém, com os seus arrabaldes da Ribeira e Alfange, atingisse os 4 ou 5 mil habitantes. As outras principais cidades do Gharb al-Andalus – Elvas, Alcácer, Évora, Beja, Aroche, Mértola, Silves e Faro – seriam mais pequenas, não ultrapassando os 7 hectares de perímetro urbano, com uma população entre dois a três mil habitantes. Lisboa era uma cidade cercada, cujas muralhas remontavam ao Baixo-império, erigidas em inícios do século IV e reedificadas entre finais do século X e inícios do séc. XI, na sequência da conquista e saque da cidade por Ordoño III, rei de Leão, em 9536, procurando reconquistar a cidade, sob domínio islâmico desde 714. Dimensão espacial e demográfica que correspondia a uma certa importância económica registada pelas fontes cristãs e árabes dos séculos XII e XIII. Lembremos, neste aspecto particular, que os geógrafos árabes herdeiros duma escola nascida no Oriente com Ibn Ḫurradābih não deixaram de elogiar a cidade, destacando nela os edifícios e as suas riquezas, privilegiando a visão do conjunto e os edifícios do poder, referindo, por vezes numa pincelada, as casas, as ruas ou as actividades comerciais e os seus proprietários. E lembremos ainda que o papel e as funções definiam a cidade islâmica, descrevendo-se os lugares de poder, como a qaṣaba, os arsenais, no caso das cidades portuárias, ou ainda a mesquita maior – al-jāmi‘- e a cintura de muralhas. Pois, como refere Cristophe Picard, o edifício fazia a cidade7. No momento da conquista cristã da cidade por D. Afonso Henriques, viviam nela gentes das três religiões, onde, cremos hoje, a maioria da população professaria a religião cristã, o que parece justificar a presença de um bispo. A sua presença é testemunhada pelo próprio Raul de Glanville, autor do relato da conquista de Lisboa, referindo que, no momento da rendição, a 21 de Outubro de 1147, aparece nas muralhas, acompanhado pelo alcaide, um bispo. Este é descrito como idoso, tratando-se, muito provavelmente, do chefe da comunidade cristã de Lisboa, talvez eleito ainda c. de 1094 ou 1095, quando D. Afonso de Leão manteve a cidade algum tempo sob domínio cristão, ou mesmo em momento posterior, e que acabaria por morrer nas mãos dos cruzados, tendo-o tomado por mouro. Na verdade, sendo o islamismo a religião da elite dominante, não seria certamente maioritária na cidade de Lisboa, lugar deixado à religião cristã. Deste modo, a presença de cristãos em Lisboa, sob o domínio islâmico, parece ter sido marcante, com um elevado número, certamente superior ao dos muçulmanos. Ainda, em meados do século XII, quando o processo de islamização se encontrava avançado em outras cidades de al-Andalus, a população de Lisboa parece ser maioritariamente cristã, respirando-se um clima de grande liberdade religiosa8. Assim o testemunha Raul de Glanville no relato da Conquista de Lisboa aos Mouros aquando da entrada dos cristãos: «os que ainda tinham vida, semelhantes a fantasmas que andassem errantes à face da terra, abraçavam-se ao sinal da cruz e beijavam-no, confessavam que Maria, cheia de bondade, é a bem-aventurada Mãe de Deus, de tal modo que em tudo o que fazem ou dizem, mesmo nos momentos extremos, misturavam invocações a Maria boa, boa Maria

Paris-Montréal : L’Harmattan, 1996. p. 9; COELHO, Maria Helena da Cruz e MAGALHÃES, Joaquim Romero - O Poder Concelhio…, p. 1-3; ANDRADE, Amélia Aguiar - «L’organisation de l’espace dans le Nord du Portugal au Moyen Âge». In BOURIN, Monique e BOUSSELIER, Stéphane, eds. - L’espace rural au Moyen Âge : Portugal, Espagne, France (XIIe-XIVe siècle): Mélanges en l’honneur de Robert Durand. Rennes : Presses Universitaires de Rennes, 2002. p. 97; FARELO, Mário Sérgio da Silva – A oligarquia camarária de Lisboa: 1325-1433. Lisboa: Universidade de Lisboa, 2008. Dissertação de doutoramento em História Medieval apresentada à Universidade de Lisboa. p. 123, nota 1029. 5

Raul de Glanville é, muito provavelmente, o autor do Relato, escrito entre finais de 1147 e cerca de 1210, enviado ao clérigo Osberto de Bawdsey, narrando «os sucessos e progressos da empresa dos Cruzados no seu caminho para a Terra Santa». Um presbítero com fortes ligações aos meios premonstratenses de SuffolK, que os Glanville patrocinavam na época e, muito provavelmente, o autor do legado de uma capela ao mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. ANTT - Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Maço 3, n.º 18, 1148 Abril. Cf. NASCIMENTO, Aires Augusto, ed., trad. e notas - A Conquista de Lisboa aos mouros: relato de um cruzado. Lisboa: Vega, 2001, p. 202-205. 6

«Chronicon de Sampiro». In

España Sagrada, tomo XIV, P. M. Fr. Enrique Florez, 1786. p. 469. 7

PICARD, Cristophe - Le Portu-

gal musulman (VIIIe – XIIIe): L’Occident d’al-Andalus sous domination islamique. Paris: Maisonneuve & Larose, 2000, p. 150. 8

Cf. NASCIMENTO, Aires

Augusto, ed., trad. e notas - A Conquista de Lisboa aos mouros: relato de um cruzado. Lisboa : Vega, 2001, p. 95.

25


9

Idem – Ibidem. P. 143.

10

«Depois disso, o rei Sigurd partiu com sua frota para Lisboa, que é uma grande cidade na Espanha, metade cristã e metade pagã». STURLUSON, Snorri (1225) Heimskringla or The Chronicle of the Kings of Norway: Saga of Sigurd the Crusader and His Brothers Eystein and Olaf [em linha]. Disponível no endereço da URL: <http://omacl.org/ Heimskringla/crusaders.html>. [Acedido em 17-11-2012]. 11 FALQUE, Emma, int., trad., notas e índices - Historia Compostellana. Madrid: Ediciones Akal, 1994. P. 244-245. 12 A Conquista de Lisboa aos Mouros: Relato de um Cruzado. Edição, trad. e notas de Aires Augusto Nascimento; introdução de Maria João Branco. Lisboa: Vega, 2001. P. 77. 13 «Era MCLXXVIII. (...) Eodem, quoque tempore venerunt quedam naves exinsperato de partibus Galliarum, plene armatis viris votum habentes ire in Jerusalem, cumque venissent ad Portum Gaye, et intrassent Dorium, audivit hec Rex, et gavisus est cum eis, erant enim fere septuaginta, et paccitus est cum eis ut irent ad Ullixbonam ipsi per mare, et ipse cum exercitu suo per terram, et obsiderent eam forsitan placeret Domino ut traderet eam in manibus eorum. Conventione itaque facta, illi per mare, et Rex per terram cum exercitu suo venerunt undique ad Ullixbonam, et circumdederunt, et oppugnaverunt eam, sed non potuerunt adversus eam, quia nondum advenerat tempus ut traderetur in manibus Christianorum, sed irruperunt suburbana eius, et demoliti sunt multas vineas, et succenderunt domos, et fecerunt plagam magnam in terra. Videntes itaque quod non cito, nec per multum temporis spatium non posset capi, etiam si quotidie foret obsessa, quoniam erat multum referta, et populosa, et tunc satis abundabat omnibus bonis, reliquerunt eam. Rex cum exercitu suo regressus est in terram suam, et illi marini naute abierunt viam suam, quod tendebant ire in Jerusalem». HERCULANO, Alexandre - Portugaliae Monumenta Histórica:

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e lhe dirigem apelos angustiados»9. Já o viking Sigurd tinha assinalado, em 1109, a presença de metade de pagãos (muçulmanos) e de metade cristãos na cidade: After this, King Sigurd sailed with his fleet to Lisbon, which is a great city in Spain, half Christian and half heathen10. Lisboa era uma grande cidade portuária, que disputava a importância do seu porto, já em inícios do século XII (cerca de 1113), antes do enfraquecimento da dinastia berbere, com Sevilha, Saltes, Cacela (?), Silves e Alcácer do Sal, todos portos de esquadras, de onde partiam as razias costeiras para os territórios de Portucale e Galiza, e estaleiros navais11. Testemunham-no as fontes árabes,de que são exemplo o Livro de Geografia (Kitāb al-ja’rāfiyya) de al-Zuhrī, da segunda metade do século XII, a incontornável Descrição (Nuzhat) de al-Idrīsī e a Historia Compostellana como um dos mais importantes portos de al-Andalus com a presença de mercadores europeus e de África12, onde a navegação e as actividades económicas ligadas ao mar contribuiriam certamente para o desenvolvimento urbano e, consequentemente, para um aumento demográfico da região, como notaram al-Idrīsī e Ibn Sa‘īd. A importância da cidade é tal que D. Afonso Henriques inscreve-a no movimento da 2.ª cruzada, conferindo-lhe um papel simbólico idêntico ao de Jerusalém, como testemunha a Chronica Gothorum13, sendo objecto de programação cisterciense e crúzia, a que se juntou o apoio dos templários e os esforços de D. João Peculiar14, arcebispo de Braga, D. Teotónio, prior do mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, e D. Pedro Pitões, bispo do Porto, para além da intervenção de Bernardo de Claraval15. Conquistada Lisboa, a mesquita maior foi objecto de purificação, sendo nomeado bispo da cidade D. Gilberto de Hastings, em data posterior a Abril de 1148, ainda que a primeira referência à frente da Sé de Lisboa apareça somente mais tarde em documento de 8 de Dezembro de 1149. Sob o seu domínio espiritual ficavam, para além do território urbano, todos os seus termos que iam do castelo de Alcácer ao de Leiria, e do mar ocidental até à cidade de Évora16. A sua sagração coube a D. João Peculiar e não ao arcebispo Compostelano ou de Mérida, em consonância com a estratégia autonómica de D. Afonso Henriques. Importava então estruturar a cidade, de modo a organizar a administração da cidade, que passava também pela sua defesa. A atribuição pelo monarca da carta de foral aos Mouros Forros de Lisboa, Palmela e Alcácer, no ano de 1170, parece responder ao intuito da sua integração no sistema político-tributário cristão e certamente do reforço das solidariedades no espaço recém- povoado, a que não é alheia uma estratégia de defesa. Esta passava também por dotar e sobretudo organizar as estruturas militares e administrativas da cidade, o que ocorreu em Maio de 1179, com a atribuição de foral. A carta de foral reforçava a estratégia de D. Afonso Henriques na demarcação do poder régio na região fronteiriça do baixo Tejo, quando, no final da década de 70, se anunciava o recrudescimento do perigo almóada, que exigia o reforço da linha do Tejo, através da concessão de cartas de foral, tais como as de Santarém e Abrantes e, logo depois, as de Coruche e Palmela. Perigo esse que se concretizara com o cerco que ameaçou Abrantes nesse mesmo ano de 1179, e com o ataque do exército almóada a Coruche em 1180, tendo Évora perigado em 1181. Pressão que se exercia sobre a linha do Tejo, de sul para norte, tornando-se mais intensa a partir de 1184, aquando do ataque a Santarém. Assim se justifica que no foral de Lisboa sejam dados significativos privilégios aos cavaleiros vilãos, testemunhando uma grande preocupação com a defesa da cidade e do território dela dependente, tal como no foral de Santarém, apesar das preocupações militares não serem dominantes17, quando comparadas com as económicas, nomeadamente tributárias. Simultaneamente desenvolviam-se as estruturas de exercício dos poderes municipais, dotando a administração municipal de novos cargos, nomeadamente o alvazil e juiz. Destaquem-se, na carta de foral, os confirmantes Fernando Peres, que aparecerá em documentos de 1182 e 1185 a exercer o cargo de alvazil de Lisboa, e Gonçalo Arrizado que, em 1193, exercia as funções de juiz de Lisboa. São


novos cargos no exercício do poder municipal, formalmente instituídos pela carta de Foral de 1179, a par do poder régio, que procuravam, mais do que estruturar a administração, estabelecer de iure as práticas ancestrais legitimadas pelo direito consuetudinário. Assim se explica que os «oficiais municipais» só apareçam a partir de 1179. À Assembleia de Vizinhos competia a escolha do oficialato concelhio, cuja primeira referência encontramos na carta de Foral de Lisboa, de 1179. Os seus representantes máximos eram os alvazis, a par do alcaide, representante do monarca no concelho. Apesar de estar ausente do foral, o cargo de alvazil remonta, como testemunhamos, ao reinado de D. Afonso Henriques, tendo conhecimento da sua existência três anos depois da outorga do foral a Lisboa, o que aponta para a presença de um alvazil na cidade pelo menos desde 1179. Mais tarde, um documento de D. Sancho I confirma-o: o monarca ordena aos mouros forros e aos judeus maltratados pelos cristãos de se apresentarem para pedir justiça ao alcaide e alvazis «como era costume em tempo de meu pai»18. Para além da extensa área, a cidade e os arrabaldes eram densamente povoados, sendo possível que a sua população atingisse, já em meados do século XII, os 10 mil a 15 mil habitantes, nos séculos XII e XIII, aproximando-se, no seu apogeu, dos grandes portos de Málaga e Almería (20 a 25 mil). Uma intensa densidade demográfica que justifica a uma estrutura paroquial remota na cidade de Lisboa, definida desde finais do século XII, já em 119119, a mesma estrutura que se manteria até à criação da freguesia do Loreto, em 1551, com 23 freguesias dentro e fora de muros20. A primeira delimitação do território das paróquias, que conhecemos, data de 27 de Setembro de 1257, da qual pouco sabemos, nem tampouco se chegou a realizar-se. Conhecemo-la apenas por um breve do papa Alexandre IV, em que ordenava ao bispo de Lisboa, D. Aires Vasques, que fizesse a delimitação das paróquias do seu bispado21. Em 30 de Julho de 1382, as paróquias conheceriam nova divisão, desta vez por D. Martinho I, mas da qual nada sabemos. Todavia, se é certo que a defesa da cidade passava também pela intensificação do seu povoamento, a ameaças vindas do sul continuavam a fazer sentir-se até à conquista de Alcácer do Sal, por acção do bispo de Lisboa D. Soeiro, em 18 de outubro de 1217. A CIDADE-CAPITAL Apesar da sua grande dimensão, Lisboa parece não ter tido até meados do século XIII um papel de primeiro plano. Recordemos que Ibn Abī ‘Āmir al-Manṣūr escolheu Alcácer do Sal, preterindo Lisboa, para arsenal atlântico, na ocasião da sua expedição contra Santiago de Compostela, apesar da cidade do baixo Tejo ficar melhor situada para assumir esse papel, com condições suficientes, quiçá vantajosas, para o estabelecimento de um arsenal. Pois já no século X, os famosos aventureiros de Lisboa, referidos por al-Idrīsī e al-Ḥimyarī, tinham aí podido construir um navio22, episódio digno de relevo, testemunho de uma actividade que parecia comum. Na verdade, Lisboa e o espaço em redor sobressaem nas descrições, integrando uma região rica e dinâmica. Se é verdade que al-Idrīsī não cita Lisboa enquanto estaleiro naval, a referência de que os aventureiros lisboetas partem à descoberta do mar tenebroso [al-baḥr al-muẓlim], feito único nos anais da história muçulmana para a costa ocidental, parece testemunhar que os seus habitantes tinham o hábito de navegar, por vezes, fora da vista das costas, e de construir embarcações aparentemente capazes de afrontar o largo oceano. Mas também não podemos descurar o posicionamento de Lisboa face à Cristandade. A este propósito é bem elucidativo o argumento de Urbano IV dispensando o bispo de Lisboa, D. Mateus, de se apresentar em Roma para a Visita ad limina apostolorum23, porque a cidade situavava-se in remotis mundi finibus24. Nas décadas seguintes à conquista de Alcácer, estabilizada a região, desenvolvem-se as actividades económicas na cidade de Lisboa. A par do artesanato, prospera o comércio interno e externo, sobretudo com o norte da Europa. Em meados do século XIII, Lisboa era já a capital de um reino que se afirmara

Scriptores. Reprodução fac-similada executada em 1969. Lisboa: Academia das Ciências, 1856. Vol. I, fasc. I. p. 13-14. 14 SILVA, Carlos Guardado da - «O Mosteiro de S. Vicente de Fora: Fundação, organização interna e património rural (séculos XII-XIII)». Olisipo: Boletim do Grupo «Amigos de Lisboa». II Série, n.º 13, Julho/Dezembro 2000, p. 29. 15 BARBOSA, Pedro Gomes - «S. Bernardo e a Independência de Portugal». In IX Centenário do Nascimento de S. Bernardo: Actas do Encontro de Alcobaça e Simpósio de Lisboa. Braga: Universidade Católica Portuguesa; Alcobaça: Câmara Municipal, 1991. p. 348-349; PHILLIPS, Phillips - «St. Bernard of Clairvaux: the Low Countries and the Lisbon Letter of the Second Cruzade». Journal of Ecclesiastical History. 1997. 48, p. 495-496; SILVA, Carlos Guardado da - O Mosteiro de S. Vicente de Fora: A comunidade regrante e o património rural (séculos XII-XIII). Lisboa: Edições Colibri, 2002. P. 33 e ss.; NASCIMENTO, Aires - A Conquista de Lisboa aos Mouro: Relato de um Cruzado. ed. trad. e notas de Aires Augusto Nascimento; introdução de Maria João Branco. Lisboa: Vega, 2000. P. 158; MATTOSO, José – D. Afonso Henriques. [Lisboa]: Círculo de Leitores, 2006, p. 170. 16 A Conquista de Lisboa aos Mouros: Relato de um Cruzado. Edição, trad. e notas de Aires Augusto Nascimento; introdução de Maria João Branco. Lisboa: Vega, 2001, p. 143. 17 PRADALIÉ, Gérard - Lisboa da Reconquista ao fim do século XIII. Lisboa: Palas Editores, 1975, p. 25. 18 Arquivo Municipal de Lisboa Livro dos Pregos. fl. 29. 19 Traslado datado de 1346 da divisão das igrejas da diocese entre o prelado e o Cabido de Lisboa de 1191. Veja-se a nota 1372 em FARELO, Mário Sérgio da Silva - A oligarquia camarária de Lisboa: 1325-1433. Lisboa: policopiado, 2008. Dissertação de Doutoramento apresentada à Universidade de Lisboa, p. 249. 20 SILVA, Carlos Guardado da – Lisboa Medieval: a organização e a estruturação do espaço urbano. Lisboa: Ed. Colibri, 2008, p. 120-121.

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21 CUNHA, Rodrigo - Historia ecclesiastica da Igreja de Lisboa: vida e acçoens de seus prelados, e varões eminentes em santidade, que nella florecerão... Lisboa: Manoel da Sylva, 1642, fl. 163v. 22 Al-Idrīsī, ed. p. 547, trad. p. 223; al-Ḥimyarī, ed., p. 16-17, trad., p. 23. 23 “Visita aos túmulos dos Apóstolos” é uma obrigação dos bispos diocesanos e de outros prelados da Igreja Católica, cada 5 anos, de se encontrarem com o papa e de visitarem os túmulos de São Pedro e São Paulo, em Roma. 24 FARELO, Mário Sérgio da Silva – A oligarquia camarária de Lisboa: 1325-1433. Lisboa: Universidade de Lisboa, 2008. Dissertação de doutoramento em História Medieval apresentada à Universidade de Lisboa, p. 2. 25 PESSOA, Fernando – Mensagem. 2.ª ed. Aveiro : Editora Estante, 1990, p. 47. 26 Teve por ama de Leite Maria Miguéis, provavelmente de Guimarães, irmã ou filha de Silvestre Miguéis, sobrejuiz da corte. Cf. PIZARRO, José Augusto de Sotto Mayor – D. Dinis. Lisboa: Círculo de Leitores, 2005. p. 215. 27 BRANDÃO, Francisco - Monarquia Lusitana: Parte Quinta. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1976. Vol. V, p. 315. 28 IDEM – Ibidem. Vol. V. p. 3v.º. 29 Data mais remota revelada pela dissertação de Doutoramento apresentada à Universidade de Lisboa por Mário Farelo, que permite recuar a data de 1331 proposta por nós para 1322. ANTT – Mosteiro de São Vicente de Fora. 1.ª inc. m. 6, n.º 37. 1322 Mai. 29, Lisboa, paços onde fazem o concelho. Cf. FARELO, Mário Sérgio da Silva - A oligarquia camarária de Lisboa: 1325-1433. Lisboa: policopiado, 2008, p. 91. Veja-se também SILVA, Carlos Guardado da – Lisboa Medieval: a organização e a estruturação do espaço urbano. Lisboa: Ed. Colibri, 2008. 30 PIZARRO, José Augusto de Sotto Mayor – Op. Cit., p. 63-65, 96-97,161-162 e 184. 31 PIZARRO, José Augusto de Sotto Mayor – Op. Cit., p. 188. 32 IDEM, Ibidem. P. 174. 33 SILVA, Carlos Guardado da – Lisboa Medieval: a organização e a estruturação do espaço urbano. Lisboa: Ed. Colibri, 2008. p. 286; MARQUES, João Martins da Sil-

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com Afonso, terceiro do nome, e, nomeadamente, com a fixação da chancelaria régia, em 1256. Na cidade tornada “capital” por seu pai nasceu o rei plantador de naus25, nela foi baptizado e cresceu, e teve ainda a sua criatio26, na mesma cidade onde foi «levantado rei»27. Certamente por isso D. Dinis nutria uma especial afeição por Lisboa, pois como afirmara: «não havia conselho em todo o seu reino com que tivesse maiores dívidas de bem, do que com o concelho de Lisboa, porque aí nascera e aí fora criado e baptizado e aí fora feito Rei»28. Ao mesmo tempo, desenvolviam-se as estruturas de exercício dos poderes municipais: a assembleia de vizinhos, que sofreu uma oligarquização em 1298 quando D. Dinis ordenou que a assembleia fosse feita apenas com o alcaide, os alvazis e “grande peça de homens bons”; a vereação, que passou a dispor de local próprio para reunião, com a criação do ‘paço do concelho’, cuja primeira referência data de 29 de Maio de 132229, no adro da sé, consolidando este espaço como o centro político da cidade, a par de centro religioso. Pois, do ponto de vista religioso, também Lisboa se destaca enquanto centro urbano, uma vez que é a cidade episcopal, arcebispal a partir de 10 de novembro 1393, com a criação da metrópole de Lisboa pela bula In eminentissimae dignitatis de Bonifácio IX, ocupando então o lugar de arcebispo D. João Anes, um ‘natural’ do reino, que já governava a diocese, desde 1383. A título de exemplo, os itinerários de D. Dinis testemunham a sua preferência por Lisboa. Durante os 46 anos de reinado, o monarca não habita a cidade apenas nos anos de 1280, 1282, por ocasião da recepção, em Trancoso, de Isabel de Aragão por sua mulher, a filha mais velha de Pedro III, e nos anos de 1292, 1297 e 1308. Grande parte de cada ano era habitualmente passada em Lisboa, permanecendo em média um período de quase seis meses, percorrendo preferencialmente o território de Lisboa-Santarém-Coimbra. E a partir de 1320, parece notória uma tendência para valorizar o itinerário entre Santarém e Lisboa, com algumas idas ao paço de Frielas, deixando a sua cidade, pela última vez, em Outubro de 1324 30 , rumo a Santarém, onde expiraria a 7 de Janeiro de 1325. Habitando em permanência a cidade, o monarca fez-se vizinho de Lisboa, o rei morador na cidade, onde também tinha paço habitado e mobilado, onde residia de modo continuado mais de três meses por ano. Lisboa testemunha o esforço dionisino no desenvolvimento da marinha de guerra, no contexto da defesa do reino. Já existia certamente uma força naval. Todavia, em 1307, D. Dinis criou uma estrutura de comando, nomeando almirante Nuno Fernandes Cogominho, que permaneceria no cargo até à sua morte, ocorrida em 1316. Mas foi em 1317 que teve lugar o salto qualitativo para uma efectiva política de defesa do reino com a nomeação do seu sucessor, o almirante-mor do reino, o genovês Micer Manuel Pessanha, que recebera com o cargo uma tença anual de 3000 libras, assim como a doação hereditária do lugar da Pedreira, em Lisboa, aos quais direitos se somariam posteriormente outros privilégios31. Pessanha teria um papel fundamental na organização da frota naval do reino, especialmente vocacionada para defender a costa dos ataques da pirataria muçulmana32, relegando para segundo plano o ofício de alcaide do mar. Com Manuel Pessanha vieram vinte cidadãos da «comuna» de Génova, que constituiriam, a partir de 1317, um núcleo de genoveses mercenários com certa importância na cidade de Lisboa, que atrairiam outros ligados ao comércio, estabelecendo-se em Portugal33 uma “colónia” genovesa de alguma importância já no reinado de D. Afonso IV. O desenvolvimento da marinha, exigiria o incremento da construção naval e, naturalmente, a edificação de novas tercenas d’El-rei34, na Ribeira, no território da paróquia de São Julião, onde o monarca guardava as suas galés, em número de 12 em 1299, então reinado de D. Dinis35. Desde início do século XIII, e sobretudo depois de 1217, o comércio externo tinha aumentado, nomeadamente com o Norte da Europa. O aumento da actividade económica testemunha um momento de grande prosperidade no reinado de D. Dinis, atingindo o seu pico no último quartel do século XIII. No âmbito do comércio externo, intensificam-se as relações comerciais com o norte da Europa, a partir de Lisboa, como se atesta no dinamismo das relações com Inglaterra, de


que são exemplo as diversas cartas de segurança conferidas aos mercadores portugueses por Eduardo I, em 1294 e 1297, bem como a Carta Mercatoria de 1303, e com a França (Harfleur) e Flandres36, e ainda com a criação de Bolsa de Mercadores, na Flandres, que D. Dinis confirmou, em 1293, um fundo que se destinava a ser usado, nos seus «pleitos, negócios e no mais que à terra aproveitasse», contribuindo para a ascensão de uma burguesia mercantil, rica e privilegiada. O incremento da economia no reinado dionisino passava igualmente pelo desenvolvimento do comércio interno. Para tal, a par da política de fomento de feiras37, D. Dinis procurou aumentar significativamente o património régio – sobretudo tendas e casas – na cidade de Lisboa, forma de investimento, multiplicando os rendimentos da coroa na maior cidade do reino. Data de 1299 um repertorio (rol) dos bens imobiliários do monarca em Lisboa, onde avultam vários paços, quintãs, casas, sobrados, pardieiros ou sótãos, mas também inúmeras tendas e fracções de tendas, armazéns, açougues, fornos de pão, lagares, estrebarias, entre outros, situados maioritariamente nas freguesias de Santa Maria Madalena, São Nicolau e São Julião, de que o rei receberia anualmente avultados rendimentos38, circunscrevendo a geografia do património régio ao ‘coração económico’ da cidade. Desde sempre a cidade mais importante do reino, o papel económico e político de Lisboa reforça-se a partir de D. Afonso III, tendo-se multiplicado cerca de cinco vezes o espaço urbano, bem como o número de habitantes, se atendermos que já existiam três arrabaldes povoados no exterior da Cerca Velha, em 1147. Deste modo, Luís Suárez Fernández compara Lisboa a Londres, Bruges, Sevilha ou Lübech, devido ao seu crescimento desmesurado39, que resultara no aumento das rendas habitacionais atingindo valores elevados, acima da média praticada em outros centros urbanos40. Mas também na cidade, num tempo em que a maioria dos homens não conhecia a leitura e a escrita, D. Dinis fundou a primeira universidade portuguesa, decidiu criar o Estudo Geral de Lisboa, em 1 de Março de 1288, na Pedreira, onde funcionaria até ser transferido para Coimbra em 1308, devido à vivência conflituosa entre os estudantes e os cidadãos de Lisboa, concretizando-se, porém, apenas em 15 de Fevereiro de 1309. Um documento datado de Montemor-o-Novo, de 12 de Novembro de 1288, enviado ao papa Nicolau IV, solicitava-lhe a confirmação e a protecção de um Estudo Geral fundado em Lisboa com o consentimento do monarca, o qual seria financiado com as rendas de diversos mosteiros e igrejas portugueses, entre os quais se encontrava São Vicente de Fora, de modo a sustentar os seus professores, maioritariamente da diocese de Lisboa41. A confirmação da fundação teria lugar pela bula De statu Regno Portugalie, de 9 Agosto 1290. Teria Artes, Cânones, Leis e Medicina, vindo instalar-se na cidade diversos estudantes e professores, a quem o monarca concedia a sua protecção. Importava ao rei a promoção do conhecimento das leis, indispensável ao bom governo dos povos, formação jurídica que poderia ser, desde de então, adquirida fora dos círculos controlados pelas instituições eclesiásticas, ao mesmo tempo que o clero teria ali a forma de adquirir uma melhor preparação42. Com D. Dinis em Lisboa, a cidade que teria cerca de 15 mil habitantes em finais de Duzentos43, ou talvez um pouco mais, crescia economicamente. A cidade crescia, tornando-se necessária uma administração municipal mais exigente, complexificando-se o elenco camarário a partir de finais do século XIII, integrado por oito magistrados, um procurador do concelho (representante do concelho), um tesoureiro, que conhecemos em Lisboa desde 1314, três vereadores44 e vinte e quatro almotacés eleitos anualmente no mês de Março ou Abril45. Ao mesmo tempo, assistimos a um recrudescimento da intervenção régia na administração da cidade e seu termo, assim como na nomeação de cargos, testemunhos do aumento de importância da cidade de Lisboa. Tal verifica-se, por exemplo, na escolha por D. Dinis do procurador, assim como do tesoureiro do concelho. Naquele caso, importa ter presente que o procurador do concelho era também procurador da corte régia46. O desenvolvimento económico contribuiu para o aparecimento, no seu reinado, do contador, oficial régio encarregado das receitas e despesas, assim como ao aperfeiçoamento dos porteiros-mores, e a melhoria do sistema fiscal47. E também

va - Descobrimentos Portugueses: Documentos para a sua História: 1147-1460. Lisboa: Instituto para a Alta Cultura, 1944. Vol. 1, n.º 37, p. 28-30. 34 Do árabe dar-as-sina), ‘estaleiro naval’. 35 Livro dos Bens dos Próprios dos Reis e das Rainhas. fl. 18v., 1299; ANTT - Colecção Especial, cx. 86, 1282 Abril 5; Apud SILVA, Augusto Vieira da - As Muralhas da Ribeira de Lisboa. 3.ª ed. Lisboa : Câmara Municipal, 1987. Vol. 1, p. 10. MENEZES, José de Vasconcelos e – Tercenas de Lisboa I. Lisboa: Revista Municipal. Lisboa: Câmara Municipal, 1986. Ano 47, 2.ª série, n.º 16, 2.º Sem. 1986, p. 8. 36 Em 16 de Maio de 1373, D. Fernando fez doação em vida de umas casas no Canal a Garcia Fernandes, seu falcoeiro . Uma alusão ao antigo Canal ou Canal da Flandres, ancoradouro do comércio internacional com o norte da Europa, já referenciado em 1240, que, em inícios do século XV, se faz defronte de São João da Praça. ANTT - Mosteiro de Chelas. M. 5, doc. 96, 1240 Outubro 16; ANTT - Mosteiro de Chelas. M. 3, n.º 41, 1426. Cf. SILVA, Carlos Guardado da – Lisboa Medieval: a organização e a estruturação do espaço urbano. Lisboa: Ed. Colibri, 2008, p. 251. 37 PIZARRO, José Augusto de Sotto Mayor – Op. Cit. P. 130-131. Em Lisboa, é possível datar o microtopónimo Chão da Feira de, pelo menos, 1319. ANTT Chancelaria de D. Dinis. Livro IV, fol. 86v, 1319. 38 Documentos para a história da cidade de Lisboa: Cabido da Sé : Sumários de Lousada: Apontamentos dos Brandões: Livro dos Bens Próprios dos Reis e das Rainhas. Lisboa: Câmara Municipal, 1954. P. 333-353. 39 GONÇALVES, Iria - «Aspectos económico-sociais da Lisboa do século XV estudados a partir da propriedade régia». Um Olhar sobre a cidade medieval. Cascais: Patrimonia Historica, 1996. p. 12. RAVARA, António Pinto – A propriedade urbana régia (D. Afonso III e D. Dinis). Lisboa: [s.n.] 1967. Dissertação de licenciatura em História apresentada na Faculdade de Letras de Lisboa. [exemplar policopiado), p. 109110.

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40 RAVARA, António Pinto – A propriedade urbana régia (D. Afonso III e D. Dinis). Lisboa: [s.n.] 1967. Dissertação de licenciatura em História apresentada na Faculdade de Letras de Lisboa. [exemplar policopiado), p. 109110. 41 PIZARRO, José Augusto de Sotto Mayor – Op. Cit. p. 138. SÁ, A. Moreira, col. e pub. - Chartularium Universitatis Portugalensis : 1288-1537. Lisboa: Instituto de Alta Cultura, 1966. Vol 1: 1288-1377, p. 6-9. 42 Integra-se no contexto da política de nacionalização: definição das fronteiras, reforço e organização militar, controle das ordens militares, adopção do português nos documentos oficiais e a fundação da Universidade de Lisboa. MATTOSO, José – 1096-1325. In: MATTOSO, José, dir. – História de Portugal: A Monarquia Feudal. Lisboa: Círculo de Leitores, 1993. Vol. 2, p. 153-155. 43 MARQUES, António Henrique de Oliveira - Lisboa Medieval: uma visão de conjunto. Novos Ensaios de História Medieval. Lisboa: Editorial Presença, 1988, p. 85. 44 Cuja presença em Lisboa se assinala desde os anos 1339-1340, ainda que o termo ‘vereador’, ligado ao vereamento, surja em 1344 ou inícios de 1345. FARELO, Mário Sérgio da Silva - A oligarquia camarária de Lisboa: 13251433. Lisboa: policopiado, 2008. Dissertação de Doutoramento apresentada à Universidade de Lisboa, p. 55-56. 45 FARELO, Mário Sérgio da Silva - A oligarquia camarária de Lisboa: 1325-1433. Lisboa: policopiado, 2008. Dissertação de Doutoramento apresentada à Universidade de Lisboa, p. 37. 46 Situação atestada em 1314. Cf. Livro I de Místicos de Reis. Livro II dos Reis D. Dinis… p. 127. Cf. FARELO, Mário Sérgio da Silva A oligarquia camarária de Lisboa: 1325-1433. Lisboa: policopiado, 2008. Dissertação de Doutoramento apresentada à Universidade de Lisboa. p. 65. 47 HOMEM, Armando Luís de Carvalho – A corte e o governo central. In: SERRÃO, Joel; MARQUES, António Henrique de Oliveira - Nova História de Portugal. Lisboa: Editorial

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a deslocação do centro económico da cidade do espaço em torno e próximo da Sé para a cité, nomeadamente as freguesias de Santa Maria Madalena e São Nicolau e, menos, São Julião, onde também se integrava a Judiaria Grande de Lisboa, junto da qual se situava a rua dos Bolseiros48 e a Casa dos Pesos49. Com uma intensa política de fomento, D. Dinis adoptou a libra, substituindo o velho morabitino como moeda-padrão. Mas a cidade de Lisboa não era apenas a cidade da coroa, onde o monarca obteve parte do seu apoio. Lisboa era a cidade que viu nascer Dinis e o fez rei. Lisboa era a sua cidade, uma cidade, afinal, realenga, que assim se reforçaria ao longo do século XIV, como a esse respeito D. João I afirmaria, a cidade de Lisboa he nossa propria que foi senpre dos outros reis que ante nos forom e que posto que eles desem terras e juridiçoes que guardavam essa çidade per sy e que as apellações dos fectos d´hi que senpre veerom a nos e aos dictos reis que ante nos forom50. Como senhor da cidade, promoveu e consolidou as actividades mercantis, renovando a frota naval, atraindo estrangeiros, fazendo de Lisboa uma cidade, que do mar da palha se uniu ao norte da Europa, aventurando-se no Atlântico e, através deste, no Mediterrâneo, transformando-se, um pouco mais tarde, numa capital do mundo, cidade de muitas e desvairadas gentes, epíteto cada vez mais presente desde a 2.ª metade do século XIV, saído da pena de Fernão Lopes, registado na Crónica de D. Fernando, porque «havia outrossim mais em Lisboa estantes de muitas terras, não em uma só casa, mas muitas casas de uma nação, assim como Genoveses e Prazentins e Lombardos e Catalães, de Aragão e de Maiorca e de Milão (…) e Corciris e Biscainhos, e assim de outras nações, a que os reis davam privilégios e liberdades». CONCLUSÃO Em suma, a conquista por Afonso Henriques foi um empreendimento nacional, que desde a sua preparação adquiriu uma dimensão internacional, dado o seu enquadramento na segunda Cruzada, face ao apoio de São Bernardo, garantida a participação de Cister e de Santa Cruz de Coimbra, a que não foram alheios os esforços de D. João peculiar, D. Teotónio e D. Pedro Pitões. Para além disso, o alargamento da fronteira sul do reino constituiu uma moeda de troca face à Santa Sé, com o alargamento do espaço da Cristandade, e a conquista da maior cidade de al-Andalus que o Papa Alexandre III teria de reconhecer com o título de rex, título que era já indiscutível no reino, desde 1138, também reconhecido por Afonso VII, mas que não conferia a Afonso Henriques a independência almejada, só conseguida em 1179, através da bula Manisfestis probatum est. E face ao Islão, também o avanço sobre a Linha do Tejo tornou-se irreversível, para a qual foram importantes as conquistas de Santarém e Lisboa. O alargamento da fronteira sul, em 1147, foi decerto um acontecimento assaz importante para a obtenção do título que Afonso Henrique viria a obter do papa. Se Coimbra permitiu a Afonso Henriques emancipar-se da nobreza linhagística do Norte, as conquistas de Lisboa e do vale do Tejo acentuaram essa emancipação. O rei deixou de apoiar-se no clero secular, nomeadamente nas dioceses de Braga e Coimbra, para se apoiar nos mosteiros sujeitos ao seu padroado, sobretudo Santa Cruz e os Cistercienses, como concretização da sua progressiva independência e crescente politização da autoridade do rei, sustentado na protecção das ordens militares e religiosas, que o apoiavam no povoamento do território recém-conquistado. A partir da conquista de Lisboa, o rei tornou-se mais independente da nobreza linhagística do norte, aumentando, desde então, os privilégios concedidos pelo monarca em favor dos concelhos, de que as cartas de foral são um bom exemplo. Dada a proximidade física do rei, sobretudo a partir de Afonso III, o poder régio afirmava-se e exercia-se nas estruturas concelhias de Lisboa, notando-se, nessa relação, uma vontade de centralização régia. Para o exercício de cargos concelhios, a sua intervenção ultrapassava largamente o poder de confirmação. Simultaneamente, a intervenção de magistrados no concelho fazia-se notar cada vez mais, intensificando-se a partir da década de 70 do século XIV51.


Se parecem tímidas as relações comerciais entre Portugal, através de Lisboa, e o norte da Europa no século XIII, que a própria toponímia medieval de Lisboa registara no topónimo Canal da Flandres, a afirmação internacional do seu porto aconteceria ao longo do século XIV, na relação com o Mediterrâneo, nomeadamente com a vinda de Manuel Pessanha, em 1317. Como em Londres e Paris, ou Barcelona, Burgos e Huesca ou Saragoça, os rendimentos provenientes do comércio constituíam para os mercadores de Lisboa uma fonte importante de enriquecimento e consequente integração na elite dirigente da cidade. Situação que parece associada, desde inícios do reinado de D. Afonso II, a um regime de crescente oligarquização proporcionada pela diminuição da pressão senhorial e clientelar dos Sousas em Lisboa, como notara Hermenegildo Fernandes, no estudo biográfico que dedicara a D. Sancho II, acentuando-se o fenómeno a partir do século XIV52. Neste aspecto, Lisboa cresceu numa luta contra a senhorialização protagonizada por alguns magnates da coroa, com destaque para os Sousas, ‘oligarquizando-se’ a cidade, onde terão lugar também os mercadores que projectarão no mediterrâneo o nome e os produtos de Lisboa. Naturalmente, Lisboa, enquanto centro urbano e cidade-capital do reino, teve um papel de relevo na construção de Portugal e contribuiu decisivamente para o reforço da importância do baixo vale do Tejo, não apenas num primeiro momento para a afirmação da independência do reino, mas também para a sua afirmação internacional. A partir de D. Afonso III, os monarcas portugueses compreenderam a sua importância económica e geoestratégica, transformando a cidade na ‘sede’ da corte. Não esquecendo que a cidade medieval concentrava o poder – o poder político, régio e concelhio, o poder económico, o poder religioso, Lisboa destacava-se neste aspecto face a outros centros urbanos, sobretudo a partir de meados do século XIII. Cidade mercantil por excelência, mas também cidade da corte, do rei e do bispo e, mais tarde, do arcebispo, com uma comunidade de mercadores e letrados, oficiais régios, uma comuna judaica significativa com três judiarias, nela também se encontrava o arrabiado-mor e diversas comunidades de estrangeiros ligados ao comércio e à alta finança. A cidade cresceu em população, de cerca de 15 mil indivíduos estimados por Alexandre Herculano, quase o triplo que A. H. de Oliveira Marques estimou para o século XII, para 30 a 40 mil em finais do século XIV53, o quíntuplo populacional das maiores cidades do reino54. Dimensão atestada igualmente pela quantidade de tabeliães, sendo a cidade com maior número55. A presença física do monarca e, com ele, as estruturas burocráticas, onde se movimentava o oficialato régio, contribuíram decerto para a sua dimensão política. Fixara-se em Lisboa os contos, os tribunais, e a chancelaria régia. A universidade e a corte do desembargo, esta no reinado de D. João I, até então em Santarém56. Neste contexto, Lisboa tornou-se a capital do reino de Portugal, valorizando, desde então, do ponto de vista político, o baixo Tejo. E afirmar-se-ia ainda mais no século seguinte, porto de partida para Ceuta, em 1415, e para os mares nunca dantes navegados, fazendo-se a expansão marítima de Portugal através de Lisboa.

Presença, 1996. Vol. 3: Portugal em definição de fronteiras: 10961325: do Condado Portucalense à crise do século XIV, p. 537-538. 48 ANTT - Direitos Reais, Liv. 2, fl. 59-59v, 1295 Agosto 8. 49 ANTT - Direitos Reais. Liv. 2, fl. 131v.-132, 1295 Abril 12. 50 AML-AH - Livro I de D. João I. n. 13; Livro dos Pregos. n. 143 (1386, Abr. 26, [Arraial sobre] Chaves. Sobre a data tópica do documento, veja-se MORENO, Humberto Baquero - Os Itinerários de El-Rei Dom João I. Lisboa: ICALP, 1988. p. 237. Cf. FARELO, Mário Sérgio da Silva - A oligarquia camarária de Lisboa: 1325-1433. Lisboa: policopiado, 2008. p. 91. Dissertação de Doutoramento apresentada à Universidade de Lisboa. 51 FARELO, Mário Sérgio da Silva - A oligarquia camarária de Lisboa: 1325-1433. Lisboa: policopiado, 2008. Dissertação de Doutoramento apresentada à Universidade de Lisboa, p.145. 52 FERNANDES, Hermenegildo – D. Sancho II: tragédia. Lisboa: Círculo de Leitores, 2006, p. 55 e 59. 53 História de Portugal. Lisboa: Presença, 1972. vol. I: Portugal na crise dos séculos XIV e XV. Lisboa: Presença, 1987, p. 186. 54 GONÇALVES, Iria - «aspectos económicos-sociais da Lisboa do século XV estudados a partir da propriedade régia». Revista da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. 1 (1980). p. 153-154. 55 PEREIRA, Isaías da Rosa - «O tabelionado em Portugal». Notariado público y documento privado de los orígenes al siglo XIV: actas del VII Congreso Internacional de Diplomática. Valencia: Generalitat, 1989. P. 662. 56 FARELO, Mário Sérgio da Silva - A oligarquia camarária de Lisboa: 1325-1433. Lisboa: policopiado, 2008. Dissertação de Doutoramento apresentada à Universidade de Lisboa, p. 6.

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FONTES E BIBLIOGRAFIA AL-ḤIMYARĪ (séc. XIV) - La Péninsule ibérique au Moyen-Age d’après le «Kitāb al-Rawḍ al-Mi‘ṭār». Texte arabe des notices relatives à L’Espagne, au Portugal et au Sud-Ouest de la France, texto e tradução E. Lévi-Provençal, Leyde, 1938. [ed. I. ‘Abbas, Beyrouth, 1975, pp. 22-24]; trad. Parcial, Maestro Gonzalez P., Valencia, 1963, pp. 16-18. AL-IDRĪSĪ (séc. XII) - Nuzhat al-muštāq fī Iḫtirāk al-afak, ed. Instituto Universitario Orientale di Napoli e Instituto per il Medio e Estremo oriente, Al-Idrīsī opus geographicum, Naples-Rome, 1975, pp. 547-549; trad. R. Dozy e M. DE Gœje, Description de l’Afrique et de l’Espagne, nvle ed. Leyde, 1968 ; trad. Relativa ao Ocidente, H. Bresc. A. Nef, Idrīsȋ. La première géographie de l’Occident, Flammarion, Paris, 1999. pp. 222-225. ANDRADE, Amélia Aguiar - «L’organisation de l’espace dans le Nord du Portugal au Moyen Âge». In BOURIN, Monique e BOUSSELIER, Stéphane, eds. - L’espace rural au Moyen Âge : Portugal, Espagne, France (XIIe-XIVe siècle): Mélanges en l’honneur de Robert Durand. Rennes : Presses Universitaires de Rennes, 2002. BARBOSA, Pedro Gomes - «S. Bernardo e a Independência de Portugal». In IX Centenário do Nascimento de S. Bernardo: Actas do Encontro de Alcobaça e Simpósio de Lisboa. Braga: Universidade Católica Portuguesa; Alcobaça: Câmara Municipal, 1991. BRANDÃO, Francisco - Monarquia Lusitana: Parte Quinta. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1976. Vol. V. «Chronicon de Sampiro». In España Sagrada. P. M. Fr. Enrique Florez, 1786. Tomo XIV, p. 469. COELHO, Maria Helena da Cruz e MAGALHÃES, Joaquim Romero - «O Poder Concelhio: das origens às cortes constituintes». In Actas das jornadas sobre o município na Península Ibérica: sécs. XII a XIX. Santo Tirso : Câmara Municipal, 1988. Vol. 1, p. 235-277. CUNHA, Rodrigo - Historia ecclesiastica da Igreja de Lisboa : vida e acçoens de seus prelados, e varões eminentes em santidade, que nella florecerão... Lisboa : Manoel da Sylva, 1642. Documentos para a história da cidade de Lisboa: Cabido da Sé: Sumários de Lousada: Apontamentos dos Brandões: Livro dos Bens Próprios dos Reis e das Rainhas. Lisboa: Câmara Municipal, 1954. DOZY, R. ; De GOEJE, M. J. - Description de l’Afrique et de l’Espagne par Edrîsî. Réimpr. anastatique. Leiden : E. J. Brill, 1968. FALQUE, Emma, int., trad., notas e índices - Historia Compostellana. Madrid : Ediciones Akal, 1994. FARELO, Mário Sérgio da Silva – A oligarquia camarária de Lisboa: 1325-1433. Lisboa: Universidade de Lisboa, 2008. Dissertação de doutoramento em História Medieval apresentada à Universidade de Lisboa. FERNANDES, Hermenegildo – D. Sancho II: tragédia. Lisboa: Círculo de Leitores, 2006.

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fevereiro - abril - 2013

Conversas Históricas da Almedina Coordenação: Instituto PAEHI - Associação para estudos Históricos Interdisciplinares Organização: Almedina 26 de fevereiro, 17h30

História de Lisboa - Da Lisboa a Islâmica até à Lisboa de 1385

com Pedro Gomes Barbosa (FLUL), Mário Farelo (FCSH-UNL) e Carlos G. Silva (CMTV) 19 de março, 17h30

Os Antigos Mestres - As suas obras, ideias e contribuições - A. H. de Oliveira Marques com Pedro Gomes Barbosa (FLUL) e Manuela Santos Silva (FLUL) 19 de abril, 17h30

Lembranças de um passado Nacionalismo no Mundo Contemporâneo com Sérgio Campos Matos

ENTRADA LIVRE LIVRARIA ALMEDINA Atrium Saldanha, Praça Duque de Saldanha, 1, Loja 71, 2o Piso, 1050-094 Lisboa


João dela Câmara, condestável de artilharia no Oriente Tiago Machado de Castro1

1 Mestre em História Marítima pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Bolseiro de Investigação do Centro de Linguística da Universidade de Lisboa.

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INTRODUÇÃO O trabalho que aqui apresento vem no seguimento e é produto da investigação pessoal que venho conduzindo sobre os bombardeiros nos reinados de D. Manuel e D. João III. O resultado mais visível é a dissertação de mestrado Bombardeiros na Índia: Os homens e as artes da artilharia portuguesa (1498-1557), apresentada no final de 2011. Uma das conclusões nela tirada foi que o resultado apresentado estava longe de ser definitivo, mas que pretendia compilar e organizar muita da documentação já recolhida, servindo este processo para orientar novas etapas e eixos de investigação para a construção de uma biografia colectiva do ofício de bombardeiro, na época moderna e no império português. O que aqui se apresenta vem enquadrado nesta proposta. João dela Câmara, ou Camera, como por vezes vem mencionado, condestável de artilharia, teve então papel destacado, a par de outros homens que desempenharam funções de artilharia no período seleccionado. Nova documentação entretanto levantada, veio tornar pertinente a elaboração deste trabalho, mas não veio resolver diversas dúvidas e lacunas cronológicas existentes na sua carreira, algo que aqui se vai procurar reduzir. Assim a abordagem escolhida foi a de fazer um elenco cronológico da documentação conhecida sobre o condestável de bombardeiros João dela Câmara. Ancorados na informação constante nestas fontes pretende-se obter a trajectória geográfica e cronológica do seu serviço a D. Manuel I. Observando o exemplo desta carreira queremos observar as regras e circunstancias que são aplicáveis à biografia colectiva do conjunto dos bombardeiros. Outra coisa que desde já tenho noção é que este não será o único retrato deste género que irei fazer, e que só com a imagem individual do serviço de muitos se poderão obter dados conclusivos para a generalidade deste ofício. Tomam-se como principais fontes as crónicas de João de Barros, de Gaspar Correia, de Fernão Lopes Castanheda e a Crónica Anónima, a par de fontes de arquivo manuscritas ou publicadas. Num esforço para reduzir uma bibliografia que seria extensa, seleccionámos algumas obras que, para além da qualidade de concentrarem nelas diversas das referências possíveis de ser citadas individualmente, ajudam a definir e contextualizar os momentos aqui apresentados. A dissertação Bombardeiros na Índia acaba por ser de novo incontornável, tanto pelas definições gerais sobre o ofício, que aqui não podemos trazer de modo extenso, como sobre outras personagens que se entrecruzam no trajecto do condestável e que surgem aqui mencionadas.


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Rosa elegíveis para receber mantimento. Exceptuando os casos, essencialmente mandados, em que intervêm uma terceira pessoa, não se encontrou ordem escrita do governador para o desempenho de acções da sua competência. De novo acreditamos que ocorrem oralmente, um sinal que reforça a ideia de uma permanente proximidade ao seu comandante militar. O que encontramos por escrito, na forma das suas duas cartas ao rei, as principais novidades documentais deste trabalho, são relatórios operacionais compostos no âmbito de expedições dos governadores. Fora destes casos específicos, mas pertinente como exemplo, está a análise que faz às defesas de Diu em 1521. Os dois “tiros de renome” que protagoniza são a expressão directa da sua habilidade como bombardeiro, desenganando qualquer ideia de estarmos perante um elemento exclusivamente votado a acções de comando e logística dos meios operacionais de artilharia. Algo que definitivamente não encontrámos foi qualquer ligação a meios de produção ligados à artilharia. Durante esta cronologia temos por certo que já se produzia pólvora em Goa e Cananor principalmente, enquanto a reparação de peças não lhe cabia a ele, mas sim a João Luís de Cochim. Sirva também este exemplo para desmistificar uma imagem geral do bombardeiro como mestre de todas as artes da artilharia. Muito poucos são fundidores; alguns estão ligados à produção de pólvora e são carpinteiros de reparos para as peças de artilharia. João de la Câmara não faz nenhum destes serviços. Ficou exposto o que até ao momento se apurou sobre a carreira do primeiro condestável-mor da Índia, cargo de comando, mas bombardeiro como tantos outros. Cumprido o objectivo de divulgar o projecto pessoal, resta aguardar a resposta daqueles que com a sua critica ou confirmação, desejarem dar um contributo que sempre agradecerei.

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FONTES E BIBLIOGRAFIA I – FONTES 1. Fontes manuscritas 1.1 Instituto dos Arquivos Nacionais/Torre do Tombo [IAN/TT] 1.1.1 Chancelaria de D. João III 1.1.2 Chancelaria de D. Manuel I 1.1.3 Contos do Reino e Casa 1.1.4 Corpo Cronológico [CC, parte, maço, documento] 2. Fontes impressas ALBUQUERQUE, Afonso de, Cartas de […]: seguidas de documentos que as elucidam publicadas de ordem da classe de sciencias moraes, politicas e bellas-lettras da Academia das Sciencias de Lisboa sob a direcção de Raymundo António de Bulhão Pato, 7 vols., Lisboa, Academia Real das Sciencias, 1884-1935. [CAA, Volume, Pagina] ALBUQUERQUE, Brás de, Comentários de Afonso de Albuquerque. 5ª edição conforme a 2ª edição de 1576 com prefácio de Joaquim Veríssimo Serrão, 2 vols., Lisboa, INCM, 1973. BARROS, João de, Ásia de […]: Dos feitos que os portugueses fizeram no descobrimento e conquista dos mares e terras do Oriente. 4 vols., Reedição, Lisboa, INCM, 1988. [Ásia, volume, pagina/fólio] CASTANHEDA, Fernão Lopes de, História do descobrimento e conquista da Índia pelos portugueses. 3ª edição conforme a edição princeps anotada por Pedro d’Azevedo e P. M. Laranjo Coelho, 4 vols., Coimbra, Imprensa da Universidade, 1924-1933. [História, volume, página] CORREIA, Gaspar, Lendas da Índia. Introdução e revisão de M. Lopes de Almeida, 4 vols., Porto, Lello e Irmão Editores, 1975. [Lendas, volume, página] MALDONADO, Maria Hermínia, Relação das Náos e Armadas da India com os sucessos dellas que se puderam saber, para noticia e instrucção dos curiozos, e amantes da Historia da India. Leitura e anotações […], Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade, 1985. REGO, António da Silva, Documentação para a história das missões do padroado português no Oriente – Índia. Coligida e anotada por […], vols. I a IV, Lisboa, Fundação Oriente/ CNCDP, 1995. [DHMPPO-I, volume, página] REGO, António da Silva e T.W. Baxter, Documentos sobre os portugueses em Moçambique e na África Central 1497-1840. Prefácio de […], vols. I a VII, Lisboa, National Archives of Rhodesia and Nyasaland/ Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, 1964. [Docs. Moçambique, volume, pagina] II – BIBLIOGRAFIA 1. Bibliografia Geral 1.1 Obras de Referencia ALBUQUERQUE, Luís de, Dicionário de História dos Descobrimentos Portugueses. Direcção […], coordenação Francisco Contente Domingues, 2 vols., Lisboa, Caminho, 1994. DALGADO, Sebastião Rodolfo, Glossário Luso-Asiático. 2 vols., New Delhi, Asian Educational Services, 1988.

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AS RALAÇÕES QUE A HISTÓRIA NOS DÁ Joel Costa

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«O governo não fez nada. Posso garantir que o 1º ministro esteve sempre perfeitamente informado. Só que não enfrentou nem deixou de enfrentar a situação. E manteve essa posição até à tarde do 25 de Abril de 74, recusando-se inclusivamente a sair do quartel do Carmo quando os carros que o haviam de levar estavam estacionados junto do elevador de Santa Justa. Um dos inspectores que o acompanharia entrou calmamente no quartel e responsabilizou-se pela sua saída com total segurança. O 1º ministro limitou-se a um breve agradecimento e a dizer-lhe que já combinara tudo com o general Spínola». - transcrição de declarações do ex-inspector da PIDE Abílio Pires. Bom, pessoalmente, só me posso exprobar pela figura de parvo que estive a fazer ao fim da tarde de 25 de Abril de 74 no largo do Carmo, à espera da rendição dos GNR’s, da rendição do tirano acabado de depor, indignado com o fascismo, a ver o desassombro e o destemor da acção dos novos heróis-capitães. Realmente, não percebíamos nada de política. E continuamos a não perceber. De política, de História. Do que eu gostaria de ser capaz era de reflectir (se puder e souber) acerca das partidas que a História nos prega e das ralações cívicas que a História dá a um honesto e crédulo homem da rua que nunca teve, nem terá, acesso a informação classificada ou privilegiada. Ainda quando se trata de História da outra, universal, com letras grandes, já poucos problemas aparecem ao simples como eu. Podendo embora muitas das coisas, tal como ficaram historiadas, não passar de fragmentos da verdade ou mesmo de fingimentos da verdade. Ou mais longe ainda, de rotundas mentiras bem arranjadas para a posteridade. De qualquer das formas, o pessoal simplório acredita com facilidade no que aprendeu nos bancos da escola, ou no que lhe contam os eruditos, esses de quem não se espera outra coisa a não ser poderem mexer nos papeis autênticos. Quando a História é contemporânea, tem testemunhas vivas e presentes, não sei se já é História ou se ainda não é História e ainda é jornalismo, ou menos ainda que jornalismo: comunicação social que dá para tudo – ou não será o compêndio de História um momento de comunicação social? É isso: quando a História é o conto do que se passou faz agora 20, 30 ou 40 anos, quando muitos de nós estiveram vivos e presentes e de boa saúde física e mental aos acontecimentos, quando julgamos ter visto uma coisa que afinal não era exactamente o que vimos, aí sim, começam as ralações… A minha ralação básica com a História é ensinarem-me que o acontecimento que presenciei, que se deu quase na minha frente, na minha cidade ou na minha aldeia, não foi afinal um acontecimento; ou que foi um acontecimento mas eu não o presenciei. Então digam-me ao certo o que foi que eu presenciei. Um sonho?


O que se passou nos nossos tempos e que nós vimos com os próprios olhos foram evidentemente acontecimentos, acontecimentos que para nós possuiam um sentido. Mas quando, muitos anos depois, nos vêm dizer que os acontecimentos a que assistimos ou de que fomos contemporâneos não tinham o sentido que lhes demos, que os jornais do próprio dia lhe deram, que toda a gente lhes deu, esses acontecimentos é como se deixassem de ter acontecido. O que eu vi, vivi, senti, naquele fim de tarde entroviscado no largo do Carmo, lado a lado com milhares de cidadãos, meus companheiros de anti-fascismo básico e primário, aconteceu.

Mas afinal não aconteceu como eu vi, vivi e senti. Aquelas cenas de chaimite, salgueiros maias, apelos de democratas inflamados, ultimatos, rajadas para as paredes do quartel, guardavam um sentido oculto. E todas as personagens importantes que nos anos que se seguiram celebraram publicamente esse momento da queda da ditadura com o mesmo sentido que eu lhe dei na própria da hora, mentiram. Sabiam de tudo, mas mantinham uma versão de lenda. Tudo foi combinado. Não houve verdadeiro suspense, nunca nada nem ninguém esteve em risco. Tudo combinado em bastidores. Chiquè. Como no boxe.

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Perante os sentidos da História o homem da rua é um parôlo que só vê passar carros eléctricos. A História do nosso passado pode ser contada e escrita em função dos interesses em jogo no tempo presente, no presente da sua escrita. Donde é capaz de resultar ser a História do passado uma retro-projecção dos acidentes políticos do presente. Disse um certo erudito chamado Prokovski que, no presente, uma História do passado se escreve tendo em conta os objectivos que o presente aponta para o futuro. E sendo óbvio que, como acontece com o passado, a nossa visão do próprio futuro decorre da qualidade da nossa visão e vivência do presente. Eu estive no Lago do Carmo ao cair da tarde de 25 de Abril de 74, quando a chuvinha molha-tolos começou a caír. Pensei que estava a ver acontecer uma história heróica e abnegada. E eu, orgulhosamente, estava a ser testemunha dela. Mas não estava coisíssima nenhuma. Interiorizei (e idealizei) o momento, o lugar e o gesto de uma mística e de uma verdade que nunca existiram. Então para que foi aquela fita encenada pelos militares a favor e contra fosse do que fosse ali no Largo do Carmo? Foi uma encenação para a parcela de compreensão mais facil e imediata da História – que também será preciso contar. Mas o sentimento que agora me assalta de ter vivido uma comédia de mau gosto ao longo de todo o pomposamente dito processo histórico e vivencial que se chamou 25 de Abril reforça-se: o governo de Marcelo Caetano teve conhecimento da existência e dos propósitos do Movimento das Forças Armadas desde Setembro de 1973. A PIDE estava por dentro de reuniões de oficiais cujo objectivo era derrubar o governo, o regime. Cinco Meses que Mudaram Portugal: livro de Otelo Saraiva de Carvalho – o governo não suspeitava apenas, o governo sabia, diz ele. Sabia de quê? Da existência e dos propósitos do MFA. O então major Aventino Teixeira, homem do 25 de Abril, chegou mesmo a dizer: «o golpe de Estado militar teve a conivência da PIDE e de Caetano.» Não havia então inimigos naquela tarde húmida de Abril no largo do Carmo? Aquilo foi espectáculo, foi comunicação social para os incautos, para os simples? Vou citar: «Por altura do almoço, o major Silva Pais recebe um telefonema de António de Spinola. Nessa altura já havíamos tomado a decisão de resgatar Marcelo Caetano do quartel do Carmo. Conduzi-lo-íamos para o Forte de S. Julião da Barra ou para Espanha, onde poderia formar um governo no exílio.» Quem falou foi o ex-inspector da PIDE Óscar Cardoso. Mais: «planeámos assim: Abílio Pires, com Agostinho Tienza e Sílvio Mortágua estacionavam na rua do Carmo, junto ao elevador de Santa Justa. Eu entraria no quartel do Carmo por uma porta lateral. Discretamente, conduziria Marcelo Caetano por uma outra porta até ao tabuleiro superior do elevador. Alcançariamos depois a Rua do Carmo e o carro que nos transportaria. O primeiro carro era um Mercedes e o segundo era um FIAT que, sendo necessário, transportaria Marcelo Caetano, porque o Mercedes podia dar nas vistas. Por volta das quatro da tarde, já com o largo do Carmo com alguma gente, lá fomos. Entrei, mas o Prof. Marcelo Caetano não quis saír. Disse-me que estava tudo tratado com o general Spinola. E que fossemos às nossas vidas.» E cá estamos. Afinal, quem foi a individualidade que, mesmo a contra-gosto, restituíu a democracia ao povo português? Os heróicos capitães? Ou o próprio Marcelo Caetano combinado com a surpreendentemente inerte PIDE-DGS? E não era só a PIDE que sabia do que se estava a passar e que ficaria para uma primeira leitura histórica como a maravilhosa revolução dos cravos, como a heróica acção dos bravos militares de Abril que restituiram a liberdade ao povo português. Os serviços secretos de vários países sabiam há muito do que se pas-


sava. E dois ou três dos mais influentes torcionários da instituição zarparam para o estrangeiro na hora H. Havia membros do governo de Marcelo Caetano cientes do que estaria para se passar e, segundo se lê, deixaram-se convencer não só de que Marcelo continuaria à frente do governo, como de que eles próprios seriam inamovíveis dos seus lugares ministeriais. Só Américo Thomaz seria a vítima. Só ele seria arredado dos seus poderes presidenciais para dar o lugar a Spínola. Um 25 de Abril? Não. Vários. Ou quase nenhum? «Com Salazar o 25 de Abril nunca teria acontecido», opina o ex-inspector da PIDE Abílio Pires. Como de facto nunca aconteceu. Mas não esqueçamos: nas vésperas do 25 de Abril, por ocasião de um Sporting-Benfica, Marcelo Caetano foi aclamado no Estádio José de Alvalade. Um ano antes do 25 de Abril, Marcelo Caetano não só era aclamado fosse onde fosse como era levado em ombros pelas populações. Que raio de inquietante coisa é a política? Em que fraudes autorizadas e universais pode beber a História? Por conhecermos de ouvido a lenda de uma instituição pensamo-la homogénea, muito coesa, com grande espírito de corpo, em especial quando se trata de um órgão de repressão do Estado. Mas pode não ser assim. Na PIDE, pelo menos naquelas horas de iminência do golpe ou do não-golpe, do golpe dado por estes ou por aqueles, as estruturas dirigentes cindiram-se. Um dos grupos de influência dentro da PIDE era constituído pelos salazaristas puros e duros até à última, os mais antigos, ou mais tradicionais dos inspectores. O outro grupo integrava inspectores e agentes com experiência continuada nos teatros operacionais de Angola, Guiné e Moçambique, tinha contactado estreitamente com oficiais, inclusivé milicianos, no quente das operações da guerra colonial, e quiçá também eles teriam sido tocados pelas doutrinas espúrias da esquerda estudantil, marxismos e leninismos, ou, vamos lá, pelas aragens de um viver democrático moderno e alinhado pelo Ocidente. Na verdade, a Junta de Salvação Nacional, horas depois do eclodir do 25 de Abril, nomeia director da PIDE um inspector superior chamado Coelho Dias, antigo colega de Spínola no Colégio Militar e homem próximo do general. A PIDE conhecia a existência e actividades do Movimento dos Capitães, oh, se conhecia!, e de ginjeira, e desde Setembro de 1973. Mas nunca recebera ordens superiores para actuar adequadamente. Julgavam que o reviralho rebentaria talvez no dia 1 de Maio de 74. A 24 de Abril de 74, o sub-director Barbieri Cardoso, acompanhado por um ou dois inspectores, abalou para Bruxelas para uma reunião da NATO. Ignoro se sabia a data do golpe e se por isso se quis pôr ao fresco. O certo é que nem ele nem os que o acompanharam regressaram a Portugal. Os intrépidos rapazes da António Maria Cardoso ficam de boca aberta de pasmo quando sabem que Marcelo Caetano se vai refugiar no quartel do Carmo, ali mesmo no centro da Baixa lisboeta, nas barbas do populacho que nesse dia, lá para o meio da manhã, sentindo já as costas quentes, se dera conta dos afogueamentos revolucionários que lhe subiam pelo corpo. Impressão benfazeja e redentora que durante 48 anos não haviam experimentado.

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A ida de Marcelo Caetano para o Carmo baralhou o esquema dos homens da PIDE. A norma não era essa em caso de perigo. A norma era o presidente do Conselho refugiar-se em Monsanto, de onde seria muito mais fácil tirá-lo e pôlo a caminho de outro destino qualquer. Segundo o testemunho pessoal de um inspector da PIDE, Marcelo tinha a certeza de que iria caír, de que seria arredado do caminho ou pela esquerda ou pela direita. Tendenciosamente, o inspector refere que Marcelo resolveu cair para o lado dos comunistas. Dir-se-ia também que Marcelo Caetano avaliara mal a situação e tivera, mesmo no último minuto, algumas esperanças de que tudo viesse a ser diferente daquilo que foi. Mas a facções no interior da PIDE discutiam. Os puros, ainda herdeiros das delícias do Tarrafal, contra os veteranos da guerra colonial, esses cristãos-novos da repressão política. Havia inspectores aparentemente feitos com Spínola. Barbieri Cardoso, pouco antes de embarcar para Bruxelas, terá dito ao inspector Abílio Pires: “prefiro que você fique por cá, cheira-me que eles estão quase a sair da toca”. As informações de que dispunham eram completas, exaustivas. Só lhes faltava saber o dia certo do levantamento. Espiavam intensamente um certo capitão. A 24 de Abril seguiram esse capitão até Cascais, até ao Centro de Instrução de Artilharia de Costa, Registaram que o nosso capitão saíu de Cascais ajoujado ao peso de uma quantidade de rádio-transmissores. E pensaram: é amanhã! Na solidão do seu incerto poder, sabendo-se na iminência de ser apeado, em que estaria Marcelo Caetano a pensar? Na morte? Nas condições de um exílio? Nos enxovalhos a que o povo o poderia sujeitar? Nos hipotéticos estratagemas para se manter no poder. O Secretário de Estado do Exército era um coronel chamado Viana de Lemos, que por sua vez era cunhado do coronel comandante do Regimento de Cavalaria 7, ali da Ajuda. Viana de Lemos tinha excelentes relações pessoais com o inspector que sempre me pareceu mais intelectual e civilizado da PIDE, Álvaro Pereira de Carvalho. O inspector alertou o membro do governo, “olhe que a situação não está para brincadeiras, ouviu”. Foram jantar. Ao Gambrinus. Claro, segundo o inspector, era absolutamente preciso que se tomassem medidas militares para travar a saída para a rua dos revoltosos. O Secretário de Estado, surpreendentemente, não pareceu muito apoquentado com o caso. “Deixe-os vir, amigo, deixe-os sair que o meu cunhado comandante de Cavalaria 7 lhes dará tamanho arraial de porrada que eles nem sabem de que terra são…” É previsível que na madrugada de 24 para 25 de Abril de 74, o ambiente na sede da PIDE na rua António Maria Cardoso fosse de cortar à faca. Que diabo! A missão daqueles homens era defender o regime se fosse preciso à custa da própria vida. Aqueles homens tinham toda a informação sobre o que se iria passar dentro de


umas horas. Aqueles homens não havia meio de receberem instruções para actuar. Aqueles homens tinham ouvido dizer, como todo o cidadão interessado tinha, que quando as coisas dessem uma volta os candeeiros de Lisboa seriam poucos para pendurar os servidores da ditadura fascista. Aqueles homens viviam naquela madrugada a tensão da impotência. É humano, que diabo! Coitados! E para se entreterem e aquecerem as mãos iam queimando papeis… Entretanto, o inspector nomeado por Spínola já se assenhoreara da situação no interior da PIDE, já começara a dar ordens. Muitos do homens de serviço na António Maria Cardoso na noite de 24 para 25 de Abril, depois de queimarem os papéis mais secretos e comprometedores, podiam ter optado por fugir. Tinham meios para isso. Aliás, já podiam ter fugido há dias, sabendo eles o que sabiam. Mas não fugiram. Porquê? Porque tinham a sua fezada no general Spínola, no grande cabo de guerra, no militar de cavalaria, no oficial prussiano tradicional de monóculo no olho. Um oficial prussiano de monóculo no olho, bolas!, não mentia. Não só não mentia como dava garantias. (A propósito, onde estavamos nos dias 24 e 25 de Abril? A fazer o quê? Com quem? A pensar em quê? A pensar o quê de quê?) Entretanto, nasce o dia. No Terreiro do Paço e na rua do Arsenal as tropas sublevadas encontram-se frente a frente com os tanques de Cavalaria 7 comandados pelo tal cunhado do Secretário de Estado do Exército, o tal que iria dar aos revoltosos um arraial de porrada que eles nem saberiam de que terra eram. Pois bem, quando chegou a hora do arraial de porrada, quando chegou o momento da verdade, o momento de abrir fogo sobre os insurrectos, à ordem de fogo dada pelo comandante, os soldados viraram-lhe as costas, abandonaram-no, desobedeceram-lhe. E desataram aos beijos e aos abraços aos seus camaradas inimigos. A chamada revolução portuguesa iria mais tarde, no Ralis, por exemplo, conhecer outros tocantes momentos de ternura entre militares que todos julgavamos inimigos. Spínola, o prussiano, o do monóculo, dera garantias. Os homens da PIDE não mexeram uma palha nem para impedir o golpe nem para darem à sola. Cairam que nem uns patinhos nas inércias que a História também tem. Ah não, não se chateiem, rapazes, isto é tudo fogo de vista. O que vai haver são umas alteraçõezitas nas cúpulas do Estado, mas ninguém vos vai incomodar, vocês vão continuar a ser precisos para aplicarem as técnicas da estátua e da tortura do sono e um chapadão ou outro nos mais relapsos, era o que faltava… com os comunistas agora à solta, sim, sim, deixem-se estar…

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Nasce soalheira a manhã do dia 25 de Abril. Por volta das 11 horas, recebe-se um telefonema na PIDE. Um oficial às ordens do Chefe do Estado Maior do Exército pergunta se é possível calar uma estação de rádio que se está a tornar impertinente, o Rádio Clube Português. A PIDE diz que sim, que vai tratar do assunto. E vai. Arranja alguns materiais e prepara-se para arrancar para o Porto Alto e rebentar com os emissores. Mas para rebentar com aquela gigajoga era preciso pelo menos um morteiro. Dirigiram-se ao comandante de fuzileiros. E ele que sim senhor, façam favor, o morteiro está no Arsenal à vossa disposição, rebentem-me depressa com esse estupor desse emissor. Isto, como disse, na manhã do próprio dia 25 de Abril. Os homens da PIDE, devidamente mandatados pelo comandante dos fuzileiros, vão ao Arsenal da Marinha buscar o morteiro. Onde é que está o homem que tem a chave do armeiro? Então, o homem nunca mais aparece? E o Rádio Clube Português nas calmas, a transmitir. Que horas já são isto? Então onde é que pára o homem? Onde é que está a chave? Isto, mesmo nas revoluções e nas contra-revoluções, os portugueses são assim, sempre atados de pés e mãos por questões ridículas, domésticas, digamos: um homem, uma chave; que é do homem?, que é da chave?, nem homem nem chave, nem o pai morre nem a gente almoça, está-se a fazer tarde e a revolução nem se faz nem deixa de se fazer… Últimas da revolução: o homem da chave do armeiro onde estava o morteiro desapareceu como o fumo. Vamos lá, então, quem é o fortalhaço valentão que é capaz de arrombar esta porta? Eu! Bum! Nada. Outra vez. Bum! Nada. Experimenta tu. É para já. Bum! Nada. (Depois de 48 anos de fascismo e por força das leis darwinistas da evolução das espécies, ele até é capaz de haver portas anti-fascistas.) Tento eu, tentas tu. Bum! Nada. Só faltava ouvir-se uma gargalhada de escárneo vinda do outro lado da malfadada porta. Mais tentativas. Nada. Um homem que desaparece. Uma chave que desaparece com o homem. Uma porta que ninguém consegue deitar abaixo… é disto que se faz a História. Então? Ninguém é capaz de arrombar o raio da porta? Não. Era impossível arrombar a porta. E ali estavam uns quantos façanhudos agentes e inspectores da temível polícia política que fazia suar frio a qualquer cidadão, armados em parvos diante de uma porta fechada, com as horas a passarem-se e com o Rádio Clube a transmitir calmamente palavras de ordem ao povo e mensagens cifradas aos rebeldes. Cai a noite. O emissor de Porto Alto do Rádio Clube Português não podia ser dinamitado por causa da porta e da chave e do homem. Cai a noite com o Rádio Clube Português do lado dos revoltosos. Terá sido exactamente assim? Não terá? Quem pode dizer que foi testemunha dos factos? Cai a noite (cairam várias noites naquele dia) e a emissão da RTP abre com um grupo de circunspectos senhores sentados a uma mesa corrida. Entre eles está o comandante de fuzileiros que prometera um morteiro para dar cabo do emissor do Rádio Clube: o almirante Pinheiro de Azevedo. Calcule-se a cara com que ficaram os homens da PIDE ao vê-lo ali refastelado ao lado do prussiano do monóculo em quem eles confiavam. Era aquele era, o almirante dos fuzileiros que horas antes tinha sido tão prestável para cortar o pio aos sublevados indicando-lhes uma porta intransponível, sem homem e sem chave. Cortar o pio aos sublevados, não era? Sublevados que afinal o acabavam de sentar no poleiro. E eu continuo a cismar. Que papel estive eu também a fazer como cidadão crente e democrata no largo do Carmo ao fim da tarde chuviscante do dia 25 de Abril de 1974?

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As coisas começaram a ficar feias. Houve tiros, houve mortos, quatro, e feridos, o próprio António Maria Cardoso, como se sabe – ainda que muitos já o tenham esquecido. Os pides dispararam sobre o ululante povo. E no dia 26, faltava um quarto para dez da manhã, um destacamento de tropas revoltosas entrou na sede da PIDE. Disse-se que lá dentro estariam 400 ou 500 agentes – é facto, ou é lenda? Agentes ou funcionários? Ou telefonistas? Ou motoristas? Mas antes, os militares revoltosos enviaram ao interior do edifício dois ou três agentes da PIDE que previamente haviam detido. A missão deles era convencer os colegas a entregarem-se incondicionalmente. Demorou coisa de dez minutos. Mas talvez nem se tenha passado nada disto e isto tenha sido apenas uma versão para a História…

Nas imediações do Chiado, por esses dias, foi um fartote de correrias loucas e de perseguições. Qualquer tipo de má catadura era apontado como torcionário da PIDE pelos revolucionários e anti-fascistas, os ches guevaras que de repente apareceram, saídos da Brasileira. Agarravam no tipo mais façanhudo, empurravam-no contra uma parede, punham-no em cuecas, e depois não sei, mandavam vir as Forças Armadas para lhe examinar as cuecas e eventualmente para o prender. Uns seriam pides. Outros não seriam. Uns traziam pistolas Walther disfarça-

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das nas cuecas. Outros esconderiam nas cuecas outras coisas menos perigosas - ou mais, já não sei. E outros, é verdade, não traziam nada nas cuecas… Dizia eu então que acabava de assistir à História colhida no momento, ao vivo, idiota chapado que sou. Não assisti a nada. Assisti a correrias. Assisti ao facto histórico de se juntarem centenas ou milhares de populares, eu incluído, no largo do Carmo. Assisti, quando caía a noite e chovia miudinho, à saída de umas chaimites em que, numa delas, era suposto ir Marcelo Caetano. Foi um facto a saída das chaimites, isso foi. Mas iria mesmo lá dentro o Marcelo Caetano? Não sei. Ou sei. Vim a saber anos mais tarde. Não ia. Marcelo Caetano foi noutra, que passou quando o povaréu debandava, e debandava porque já tinha apupado a viatura onde lhe disseram que ele ia e ele não ia.

Passados 30 ou 40 anos sobre os factos sei lá o que era verdade, o que foi a verdade. Sei lá se aquele facto era, ou estava para ser, um facto histórico. O que é um facto? Quer dizer, o que é um facto histórico? Facto histórico foi o cruel, jurássico, despótico e sanguinário regime facista ter sido apanhado de surpresa e tão flagrantemente por uma revolução a que nem reagiu, a que nem teve forças para oferecer resistência? Facto histórico era já estar tudo combinado ao mais alto nível e há muito tempo, e só faltar quem encenasse os factos para parecerem históricos e neles fizesse o papel de herói-protagonista para a fotografia à la minute da História? Facto histórico era o pagode reunido no Carmo estar convencido de que estava a fazer História, julgando estar a pressioná-la, a faz¬ê-la acontecer? Facto histórico era Marcelo Caetano estar refugiado no quartel do Carmo à guarda da GNR e os revoltosos quererem à viva força lá entrar, ou fazer de lá sair, à força, o deposto chefe do governo? Ou facto histórico era os revolucionários que estavam no Carmo saberem perfeitamente que as coisas se estavam a passar e a ser conversadas entre os altos dignitários e as altas chefias militares, com a possibilidade em aberto de a PIDE resgatar Marcelo Caetano pelo elevador de Santa Justa e dar-lhe sumiço, e estarem esses revolucionários a representar o seu papel para o pagode, tal como o pagode repentinamente revolucionário estava a representar o seu enfurecido e impaciente papel para eles, a querer ver com os seus olhos Marcelo Caetano a ser humilhado e derrubado do poder?

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É inevitável que os factos da História não sejam a imagem exacta dos mesmos factos tal como eles aconteceram: mudam de figura no pensamento do historiador, moldam-se aos seus interesses, tomam a cor dos seus preconceitos – disse Jean Jacques Rousseau. E é verdade. O povo que se juntou no Carmo queria ser o historiador daquele momento segundo os seus interesses, a queda espectacular de Marcelo e do regime. Marcelo Caetano quis escrever o seu protagonismo naquele instante da História usando de dilacção, o poder a cair na rua e outras balelas, falando com Spínola, inclusivamente fazendo crer que estava a ser a vítima dos acontecimentos e da violência política. Spínola também queria escrever a História a seu modo, fazendo depender de uma heróica atitude sua o desenlace da cena que estava montada no largo do Carmo. E a PIDE, trinta e muitos anos depois de deixar de existir, através de depoimentos de alguns dos seus agentes, vai querer rever a História de acordo com os interesses da sua imagem corporativa: tudo aconteceu porque a corporação deixou que acontecesse. Não há factos históricos. E esta? Um outro pensador teorizou que cada historiador obtém o tipo de factos que quiser encontrar. Talvez seja verdade. E se assim for, vejam lá bem o tipo de ralações que a História nos dá. Outro intelectual, Adam Schaff, propõe que o facto histórico seja um pequeno cubo que conserva sempre a mesma forma, é igual, para todos, e com um maior número desses cubos se podem construir os mosaicos que se quiser. E a forma e o estilo e a cor desses mosaicos dependerá da colocação dos cubos. Poderemos construir da vida das comunidades a História que quisermos. Tudo dependerá de como colocamos os factos. Quando os positivistas e os lógicos e os prosaicos falam de factos dão-me vontade de rir. A mim só me interessam os factos; não quero saber de blá-blá nem de conversa fiada, eu quero é factos; apresentem-me factos, não me dêem opiniões… ora, mas e se o facto já for, já contiver em si mesmo uma opinião? Serão os factos tão sólidos como a matéria física, cheia de substância, definida, perfeitinha, de contornos nítidos e indiscutíveis como tijolos? É complicado e equívoco falar-se em facto histórico. É como falar da liberdade. Ou mesmo de democracia. Ou, em suma, falar seja no que for. O que dá conta da nossa cabeça e da nossa consciência cheia de opiniões e teorias são os contextos. Alguns dizem que um facto histórico não existe por si mesmo, independentemente dos seus contextos; um facto só seria histórico se construído pela opinião pública. Pois é a opinião pública que neste momento de revisionismo histórico está a ser provocada para consagrar factos diferentes dos consagrados até agora; é a opinião pública que se quer influenciar para alterar a História conhecida, ou operar a recontextualização dos factos a que assistimos, como eu no largo do Carmo, no dia 25 de Abril, e sendo que, às tantas, passados estes anos todos, já não sei o que lá estive a ver, o que lá estive a fazer ou a ajudar a fazer (já nem sei ao certo se lá estive), e em que espectáculo/contexto fui figurante, e quem eram nesse momento os artistas principais do filme - e de que filme… Os principais e mais escaldantes ficheiros da PIDE desapareceram. Foram roubados. Por quem? Não interessa. E para quê? Ora para quê, para que os factos constantes desses ficheiros deixem de uma vez por todas de ser factos. E, naturalmente, de ser históricos. Ficheiros outros foram forjados para arranjar o curriculum democrático ou revolucionário a certas individualidades que os não tinham. Ficheiros novos para criar novos factos históricos. Não importa já muito se reais ou irreais. Porque na crónica histórica começa a germinar a dúvida quanto aos factos. Sim, quanto à própria realidade. Delgado foge para o Brasil. Galvão evade-se da embaixada da Argentina onde estava em regime de asilado político. Cunhal foge de Peniche. Coisas que aconte-

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cem quase em simultâneo. Depois, quer fazer-se crer terá sido do grupo de Argel a responsabilidade da morte de Delgado. E por aí adiante. Alguém está a querer construir factos para outra História, para a pós-pós-modernidade, recontextualizando da História as estórias? Só ralações para o cidadão honesto e bem intencionado, enfim. O homem da rua, para acreditar nalguma coisa gostaria de saber o que é aceitável e o que é recusável em cada momento como facto histórico. E dizem-me os teóricos que o mais difícil é escrever a História do imediato vivido, visível, presente, contemporâneo. Quem o fizer há-de estar comprometido com os factos e as fontes do que está a acontecer. Mas as mais fiáveis e bem elaboradas das fontes, e os mais formosos dos factos só mais tarde virão a aparecer. Porque é difícil interpretar o sentido dos factos quando só se têm gestos para apreciar.

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Uma visita ao Museu São João de Deus História e Psiquiatria

Sérgio Tenreiro Gomes1

1 Licenciado em Enfermagem. Investigador do Instituto PAEHIAssociação para Estudos Históricos Interdisciplinares. 2 Natália Correia Guedes, Museu São João de Deus - Psiquiatria e História, Lisboa, Editorial Hospitalidade, 2009, pp. 15-16. 3 José Augusto Louro, Museu São João de Deus - Psiquiatria e História, Direcção de Natália Guedes, pp. 7- 8.

Inaugurado a 8 de Março de 2009, o Museu São João de Deus – Psiquiatria e História, surge como sucessor do Museu da Loucura, localizado na Casa de Saúde do Telhal de 1920 até 1983. Os objectivos que impulsionaram o Director Clínico, Dr. Luís Cebola, à constituição daquele pequeno núcleo museológico no início do séc. XX, ainda hoje, quase um século depois, se mantêm actuais. Deste modo, para além de preservar como memória histórica a produção artística dos doentes, sensibilizar os visitantes e estimular uma educação de índole estética e cultural, este novo museu procura uma abordagem mais abrangente e pluridisciplinar, onde a história da Ordem Hospitaleira em Portugal se cruza com a história da psiquiatria, da medicina e da enfermagem. Num sentido mais lato pretende-se, com o intuito de diminuir o estigma associado ao doente e à patologia mental, esclarecer a sociedade em geral e envolvê-la na adaptação e recuperação sociocultural dos doentes.2 Para albergar este espaço cultural foi recuperado e convertido o edifício que havia sido construído em 1937 destinado à Escola Apostólica da Província Portuguesa, na Casa de Saúde do Telhal. Assim, este renovado imóvel, provido de um forte sentido emblemático para os Irmãos de São João de Deus, encontra-se hoje perfeitamente integrado na paisagem envolvente e dotado de singulares condições que permitem cumprir na íntegra a sua nova função.3

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Com a extinção, em 1834, das Ordens Religiosas em Portugal, o património artístico e museológico da Província Portuguesa da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, ficou disperso por entre acervos particulares e instituições públicas e privadas. O intuito de reunir e preservar esse mesmo património materializa-se


na galeria de exposições permanente. O museu dispõe ainda de uma galeria de exibições temporárias que albergou, aquando da sua inauguração, uma mostra dedicada à vida e obra de São João de Deus. Actualmente encontra-se em preparação uma exposição que incidirá sobre diversas manifestações artísticas, desde a pintura à escultura, passando pelas pirogravuras e maquetas, que têm como denominador comum a autoria de artistas que, em algum momento da sua vida, se encontraram institucionalizados num dos diversos Centros Assistenciais da Ordem Hospitaleira presentes em Portugal.4

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Natália Correia Guedes, ibidem, pp. 15-16. 5 Augusto Vieira Gonçalves, Museu São João de Deus Psiquiatria e História, pp. 174175.

A evocar o passado formativo da instituição, encontramos um espaço que recria uma antiga sala de aulas. Foi em 1937 que o actual edifício começou a funcionar como Escola Apostólica, inicialmente com 12 candidatos. Mais tarde, em 1944, vê reconhecido oficialmente o seu currículo ao nível da instrução primária e 4 anos depois ao nível dos estudos secundários. Paralelamente aos ensinos Apostólicos, que versavam uma formação humana, cultural e espiritual, é organizado, em 1936, o primeiro curso de enfermagem. Este capacitava 16 alunos para o exercício legal da profissão, e era ratificado por provas na Escola de Enfermagem Artur Ravara, em Lisboa. Posteriormente, em 1939, o Ministério da Educação aprova dois cursos de Enfermagem na então denominada Escola de Enfermagem dos Irmãos de São João de Deus, um geral e o outro especializado em psiquiatria. Acompanhando as tendências da época, em 1952, com a reforma do ensino da enfermagem em Portugal a exigir estágios prestados num hospital geral, é construída no Telhal uma Clínica Cirúrgica com capacidade para 20 camas que estaria em funcionamento até meados da década de 70. Assim, após um período áureo na década de 60, quando o número de alunos nas diversas valências chegou a atingir os 900 estudantes, assiste-se a uma redução gradual até ao seu encerramento em 1976, quando novas teorias educativas e ideológicas condenavam os então frequentes regimes de internato.5 A colecção museológica, em si, abarca quatro domínios distintos, onde a história da psiquiatria, enfermagem e farmácia se entrelaça com a obra de São João de Deus, perpetuada pelos seus seguidores. Encontramos então um núcleo de arte sacra, espaços dedicados à história da psiquiatria, medicina, farmácia e uma importante exposição de obras realizadas em contexto ergoterápico. A génese religiosa desta Ordem Hospitaleira justifica a presença de um importante núcleo de arte sacra, que se encontra exposto, na sua maioria, no

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Manuel Ferreira da Silva, Hospitalidade com S. João de Deus no coração da história, Lisboa, Co-edição da Editorial Hospitalidade e Rei dos Livros, 1994, pág. 38. 7 Joaquim Chorão Lavajo, Ordem Hospitaleira de S. João de Deus em Portugal, Lisboa, Editorial Hospitalidade, 2003, pp. 198-199.

interior da renovada capela. Para além da diversa estatuária e paramentos de diversas épocas cronológicas, destaca-se ainda uma pintura de grandes dimensões, da autoria de Domingos Rebelo, que ilustra vários momentos da vida de São João de Deus. No entanto, um pouco por todo o museu, podemos encontrar representações do mesmo Santo em diversas pinturas e esculturas expostas. Prosseguindo a visita, deparamo-nos com um espaço dedicado ao restaurador da Província Portuguesa da Ordem Hospitaleira, o Padre Bento Menni. Este, em 1893, adquire a Quinta do Telhal, local onde se situa este museu e reactiva, em Portugal, a Ordem da qual fazia parte. Renascem deste modo os ideais dos seguidores de São João de Deus, expulsos em 1834 com a extinção das Ordens Religiosas. Este último movimento foi patrocinado por Joaquim António de Aguiar, que havia de ficar eternizado pelo povo como o “mata-frades”. Podemos aqui admirar uma cadeira de braços do séc. XIX onde o Padre Bento Menni, em 1910, se deixou fotografar durante da sua última visita ao Telhal. Junto da mesma encontra-se ainda uma fotografia que perpetua esse momento.6 Posteriormente a esta homenagem ao agora Santo Bento Menni começase a desenhar o núcleo dedicado à história da psiquiatria. Aí encontramos uma série de objectos, instrumentos, aparelhos, livros e fotografias que ilustram a evolução, nos vários domínios, da assistência aos doentes mentais. Pelo local de destaque que ocupam no museu, faremos incidir este artigo em alguns desses instrumentos utilizados nas diversas formas de tratamento, outrora usadas em psiquiatria. Num local privilegiado podemos observar uma banheira que evoca técnicas de hidroterapia, muito utilizada em Portugal desde o final do séc. XIX até meados do séc. XX. Sendo uma terapia cujo uso se intensificou desde a abertura do balneário do manicómio de Rilhafoles, em 1853, foi também um dos métodos privilegiados pelos Irmãos de São João de Deus. Estes banhos eram administrados aos doentes em momentos de maior excitação, sendo considerados produtores de consideráveis efeitos calmantes. 7

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Como terapêutica sedativa, era frequente a utilização dos banhos de imersão, onde o doente era deitado numa banheira, semelhante à exposta, contido a uma lona fixa à parte superior da banheira, mantendo apenas a cabeça de fora. A temperatura da água do banho deveria situar-se entre os 37 e os 38 graus Célsius. Para melhor ilustrar este procedimento, encontra-se exposta uma fotografia que expõe esta técnica, podendo o visitante mais facilmente visualizar o ambiente que a rodeava. Encontramos também um registo fotográfico de outra das formas de hidroterapia que maior expressão teve nos centros assistenciais da Ordem: o duche escocês. Neste procedimento, o doente era imobilizado numa estrutura de ferro e posteriormente atingido por fortes jactos de água, alternadamente fria e quente. Certos tratamentos como os banhos de chuva, o duche de pressão, o


duche circular e o banho de assento8 tiveram uma menor expressão. Antes do advento dos psicofármacos, na década de 50 do séc. XX, a agitação e agressividade dos doentes era travada com alguns métodos que, embora a comunidade científica actual os considere desadequados, eram prática comum em toda a Europa e representavam muitas vezes a única forma de conter o doente. A metodologia utilizada pressupunha o desvio do seu foco de atenção, ou seja, a agressividade contra terceiros seria substituída pela necessidade de o doente se centrar no seu próprio sofrimento físico, infligido através da injecção de substâncias no corpo do indivíduo. Uma das mais frequentes era o leite, que sendo administrado por via intramuscular, provocava febres altas bem como estados de desidratação e prostração. Também a terebentina, por via subcutânea profunda, provocava uma forte irritação, seguida de um abcesso, que causava grande sofrimento físico. Com o mesmo objectivo utilizava-se na década de 30 a denominada malarioterapia, que consistia na propositada contaminação do doente com malária originando fortes febres e processos de desidratação, ocorrendo deste modo a fixação do doente no seu sofrimento físico e uma consequente diminuição dos comportamentos agressivos 8. Ainda que frequentes, estes métodos eram apenas utilizados quando se esgotavam as tentativas menos invasivas de conter a agitação do doente. Para recordar estes procedimentos, encontramos exposto um colete-de-forças, bem como luvas de contenção, que tinham como principal objectivo restringir os movimentos dos pacientes. Nesta linha, é possível ver a recriação de um quarto preparado para imobilizar fisicamente os enfermos mais agitados. Aqui podemos observar uma cama destinada a esse efeito, contendo os respectivos dispositivos de imobilização. É ainda de referir a existência de uma porta reforçada, bem como de grades nas janelas.

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Joaquim Chorão Lavajo, Ordem Hospitaleira de S. João de Deus em Portugal, pp. 198-199. 8 Idem, ibidem, pág. 201.

Progredindo na visita encontramos vários aparelhos antigos de electroconvulsivoterapia, mais conhecida por electrochoques. Inicialmente utilizada em Roma em 1938, no ano seguinte a sua utilização era já rotineira na Casa de Saúde do Telhal, traduzindo a modernização da Ordem no acompanhamento da Ciência Psiquiátrica da época. Este procedimento encontra-se também ilustrado numa fotografia, dos anos 50, que retrata os Irmãos a aplicar eletrochoques num doente. No núcleo dedicado à evolução da enfermagem, encontramos vários instrumentos utilizados pelos enfermeiros de então, como seringas em aço inoxidável, agulhas, cuvetes reniformes, esfignomanómetros, entre outros. Neste espaço pode-se observar ainda um carrinho de enfermagem, contendo o material mais frequentemente utilizado nos meados do séc. XX por estes profissionais. Um carrinho semelhante é representado no registo fotográfico exposto, figurando os Irmãos numa enfermaria na década de 40.

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João Lobo Antunes, Museu São João de Deus - Psiquiatria e História, pp. 217-219. 11 Margarida Cordo, , Museu São João de Deus - Psiquiatria e História, pp. 223 -225. 12 Idem, ibidem, pág. 228

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Embora com uma vocação assistencial centrada inicialmente no doente mental, ao longo do séc. XX a Ordem Hospitaleira segue também os caminhos da medicina cirúrgica. Deparamo-nos com diversos instrumentos utilizados em áreas tão distintas como a ortopedia, neurologia, odontologia e obstetrícia. Dos muitos clínicos que exerceram funções nos vários Centros Assistenciais da Ordem, refira-se o papel de Egas Moniz, vencedor do Prémio Nobel da Medicina em 1949. Esta distinção teve por base os seus métodos inovadores na área da Neurocirurgia, realizando em conjunto com o Dr. Almeida Lima as denominadas leucotomias. Estas consistiam em seccionar, na substância branca do cérebro, feixes de associações com centros afectivos diencefálicos. Tendo realizado a primeira cirurgia do género em 1935, um ano depois já havia intervencionado nove doentes no Telhal nos mesmos moldes. A sua memória é recordada através de uma fotografia aí exposta. Com o evoluir da quimioterapia, iniciada na década de 50, assiste-se a uma revolução no tratamento psiquiátrico que teve importantes repercussões nos centros assistenciais da Ordem. É no núcleo de história da farmácia onde essas transformações ganham maior visibilidade. Encontramos expostos vários exemplos bibliográficos de farmacopeias do séc. XVIII e XIX, assim como instrumentos utilizados no manuseamento de terapêuticas medicamentosas (tabuleiros e caixas para medicamentos, frascos, provetas, balanças, entre outros). Estes testemunham a crescente importância das terapêuticas medicamentosas no tratamento das diversas patologias do foro mental. Da exposição permanente do museu faz ainda parte um espaço dedicado à ergoterapia, onde se podem observar várias obras, de diferentes quadrantes artísticos, realizadas por doentes dos centros assistenciais. Desde sempre que a Ordem Hospitaleira mostrou consciência de que a ocupação estruturada através do trabalho tinha um importante contributo no processo terapêutico dos doentes. Apesar de nem sempre se tratar de um assunto consensual, continua a acreditar-se na existência de um importante papel da ocupação estruturada na manutenção do equilíbrio psíquico das pessoas com problemas de saúde mental. A institucionalização de um doente não o destitui de todas as suas capacidades produtivas e muitos continuaram a produzir obras de arte, em variados domínios, durante o tempo que se encontraram nos centros assistenciais da Ordem Hospitaleira. Dos trabalhos desenvolvidos destacam-se as obras de Stuart de Carvalhais, autor da primeira banda desenhada e do primeiro filme cómico realizado em Portugal. Durante os períodos em que esteve internato na Casa de Saúde do Telhal, na década de XX, foi autor de variadas aquarelas, algumas das quais fazem parte da colecção permanente do museu. Encontramos também obras de Simões Costa, em madeira recortada e policromada, representando caricaturas


de diversos personagens da cena política e social europeia. A testemunhar a importância deste núcleo está a nova exposição temporária, a inaugurar brevemente, onde vão ser reunidos no mesmo espaço vários trabalhos realizados por doentes, trabalhos esses que se encontram actualmente dispersos em colecções privadas. De referir ainda o vasto e rico espólio bibliográfico que o museu possui, que pode ser consultado no seu centro documental. Este constitui um espaço de excelência para qualquer investigador que se interesse pela história das práticas assistenciais em medicina e psiquiatria, bem como pela história de São João de Deus e da Ordem Hospitaleira fundada pelos seus seguidores. As visitas guiadas que o museu proporciona, associadas à existência de um catálogo da exposição bastante completo, permitem ao visitante a obtenção de um vasto conjunto de informações, não só sobre as peças expostas, mas também dos factos mais marcantes da história da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, desde a sua fundação no séc. XVI até aos dias de hoje. Por último, mas não menos importante, fica o agradecimento ao Padre Álvaro Lavarinhas, coordenador do Museu, bem como à Dr.ª Estela Rodrigues, pela disponibilidade e apoio prestado. BIBLIOGRAFIA GUEDES, Correia Natália (coord.), Museu São João de Deus - Psiquiatria e História, Lisboa, Editorial Hospitalidade, 2009. LAVAJO, Joaquim Chorão, Ordem Hospitaleira de S. João de Deus em Portugal, Lisboa, Editorial Hospitalidade, 2003. SILVA, Manuel Ferreira da, Hospitalidade com S. João de Deus no coração da história, Lisboa, Co-edição de editorial Hospitalidade e Rei dos Livros, 1994.

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Outras Histórias com...

Paulo de Oliveira Fontes Por Carla Valente Tavares 1

“Que é que me revela?” Ruy Belo É o sorriso generoso que primeiro impressiona quando se conhece o Prof. Paulo Fontes, é no fundo, um enorme abraço de disponibilidade ao outro que define este intelectual licenciado em História pela Faculdade de Letras de Lisboa com Bom com distinção. Deste período recorda o Prof. Doutor Borges Coelho, uma pessoa que lhe permitiu apaixonar-se pela docência, que o influenciou na metodologia do trabalho com fontes, ferramenta essencial a um historiador, e que se caracterizava por ser um homem de tolerância prática. O gabinete em que me recebe no Centro de História de Estudos Religiosos da Universidade Católica está repleto de livros, muitos, alguns em equílibrio instável, é um homem ocupado e o tempo que disponibiliza a esta entrevista é prova da sua enorme gentileza e generosidade. Frequentou o Cycle Supérieur du Vintième Siècle no Institut d’Études Politiques de Paris entre 1986 e 1987 onde foi aluno de figuras importantes como Serge Bernstein e Pierre Milza autores de obras de síntese de historiografia política em que destaca um seminário temático a que dedicou um trabalho de investigação sobre o tema La jeunesse, les jeunes et la société: tendances de la recherche sociologique; a vivência em Paris é uma memória feliz e embrulhada num sorriso nostálgico, dos franceses recorda o espírito curioso e o respeito académico pelos alunos. Fala pausadamente, o que revela uma serenidade invejável, ouvir o Prof. Paulo Fontes é sempre um momento de aprendizagem, o rigor com que aborda os temas e a forma cuidada como procura as palavras certas para os conceitos que pretende transmitir mostram um espírito treinado para a excelência no qual a improvisação não é apreciada. Aluno do mítico René Rémond, o homem responsável pela criação da área de História Religiosa em França, guarda dele a imagem de “un grand seigneur”; o seminário de Metodologia que fez com ele primava pela originalidade, eram convidados autores relevantes nas áreas tratadas permitindo aos alunos debaterem e aprenderem com aqueles que faziam história, não se limitando a aulas de formato tradicional menos estimulantes. A luz pálida de meio da tarde encosta-se suavemente às estantes permitindo que uma poeira dourada suspensa no ar torne a conversa num quadro de Rembrandt.

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Abordo o seu opus magnum , a tese de doutoramento feita pela Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica com a classificação máxima ,suma cum laude ,sobre a Acção Católica, Elites Católicas em Portugal, O Papel da Acção Católica (1940-1961), quando o questiono sobre a interação entre a Acção Católica e o Estado Novo suspira, impossível abordar um tema tão extenso em tão pouco tempo e com tão pouco espaço, sublinha o essencial da Acção Católica, reconquistar a sociedade para Cristo, independentemente do regime político em vigor na altura. O relógio impõe-se, e o tempo materializa-se, junto do Professor Paulo Fontes percebe-se que o conceito de eternidade é uma estrutura de vivência no interior do tempo. Como professor o verbo aprender ganha um novo sentido, os seus alunos entre os quais me conto, saem das suas mãos pessoas diferentes, para melhor. Autor de artigos, entradas de dicionários, Director-Adjunto e investigador do Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR) da Universidade Católica Portuguesa (UCP) membro do conselho editorial da Revista Lusitânia Sacra, impõe-se que lhe questione o que define afinal um intelectual, a resposta é firme, um intelectual é alguém cuja palavra autorizada lhe permite um posicionamento ético incontornável. Na opinião do Prof. Paulo Fontes em Portugal, é Eduardo Lourenço quem melhor representa essa categoria, em que a enorme capacidade analítica lhe permite interrogar o presente e simultaneamente apontar caminhos. É nos silêncios que o Professor Paulo Fontes rasga o espaço, observar uma mente brilhante a pensar é um privilégio ímpar, os gestos são amplos e os seus olhos têm um brilho estelar. Sobre o incontornável tema da renúncia de Joseph Ratzinger define a atitude como um gesto de grande determinação, fruto de uma convicção profunda e ponderada, sendo que ainda não é possível entender historicamente o alcance completo do gesto . O tempo esgotou-se, temos de terminar, enquanto me preparo para sair, fica a sensação que uma vida seria insuficiente para ouvir este homem fascinante, sem dúvida, uma pessoa que faz do mundo um lugar mais luminoso.

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Recensão ao simpósio

«Body, Cosmos and Eternity: The Symbolism of Coffins in Ancient Egypt» Por João Camacho 1

1 Investigador do Instituto PAEHI – Associação para Estudos Históricos Interdisciplinares; Investigador do Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa;

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Teve lugar no sumptuoso salão nobre da reitoria da Universidade do Porto, a 22 de Fevereiro de 2013, o Simpósio Internacional «Body, Cosmos and Eternity: The Symbolism of Coffins in Ancient Egypt», iniciativa do CITCEM (da FLUP). O tema central foi os sarcófagos egípcios, mais concretamente alguns estudos sobre a organização simbólica dos seus elementos decorativos e arquitecturais, e a existência de alguns destes objectos em colecções portuguesas e estrangeiras. Logo após a breve e coloquial abertura, deu-se início à fase das comunicações com a do Doutor Rogério Ferreira de Sousa (CITCEM): «The Genealogy of Images: innovation and tradition in coffin decoration (21st Dynasty)». O egiptólogo português apresentou algumas das conclusões de um estudo (que continua a desenvolver) sobre os sarcófagos da Sociedade de Geografia de Lisboa, objectos ofertados a Portugal pelo Museu de Guiza em 1893, e oriundos de um dos famosos cachettes, em Bab el-Gassus. Para o seu estudo optou-se por uma divisão em secções e uma tentativa de compreensão dos simbolismos associados às representações. No “registo central”, secção a que se reportam as ilacções apresentadas, são reconhecidos alguns elementos comuns à maioria dos sarcófagos, nomeadamente deusas aladas (Nut, inicialmente) e escaravelhos solares (estes possivelmente relacionados, através da posição, com o coração), sempre no centro dos mesmos, funcionando como eixos a partir dos quais se reproduzem, de forma simétrica, uma série de outros elementos. Um dos objectivos da investigação é tentar identificar um “original scheme” a partir do qual se evoluiu, numa progressiva complexificação, para as ilustrações “orgânicas” e “esquemáticas” posteriores. Naturalmente, tendo em conta a profusão de dissemelhanças de ilustrações funerárias coevas, o estudo pretende contribuir para uma compreensão mais ampla das opções artísticas e simbólicas suas contemporâneas, e eventualmente para o estabelecimento de padrões. Algumas conclusões são já identificáveis: uma tendência para a miniaturização iconográfica, um preenchimento cada vez mais completo dos espaços vazios (que Kara Cooney designou como “horror ao vácuo”) ou um constante experimentalismo artístico, no interior do mesmo paradigma. Para o investigador, o sarcófago é “um edifício simbólico, arquitectónico”, um microcosmos onde “se pretenderia representar a Duat”. O Doutor Alain Dautant do CNRS, Universidade de Bordéus, apresentou uma breve resenha sobre a localização de colecções de sarcófagos egípcios em França: «Third Intermediate Period Coffins in Museums of Southwest France». Entre as diversas peças, catalogadas já por Andrzej Niwiński, muitas estão ainda por estudar. Não obstante, alguns elementos são releváveis, não só pela presença quase constante como pela sua localização, tais como asas (em deusas aladas, mas não só) que magicamente envolveriam o morto, e udjats, não só na superfície inferior\exterior, como, por vezes, na superfície lateral esquerda (do defunto).


Um dos melhores exemplos desses “sarcófagos-amarelos” é o de Itneferamon, actualmente no Museu da Aquitânia. Sobre esta peça pode-se consultar o artigo de Dautant e Aufrère, no perfil do primeiro, na rede social «Academia.edu». O Doutor Luís Manuel de Araújo, do Instituto Oriental da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, numa das suas raras intervenções em inglês, fez uma breve apresentação dos sarcófagos egípcios de colecções portuguesas, dando natural ênfase aos do Museu Nacional de Arqueologia (analisados recentemente no âmbito do «Lisbon Mummy Project», projecto interdisciplinar que veio trazer novos contributos ao estudo das peças, em específico, e da paleontologia, em geral, com a descoberta do primeiro caso de cancro da próstata em indivíduos do Egipto antigo) e Museu da Farmácia. Aqui, no sarcófago de Irtierut podemos observar uma pouco usual (nos rostos femininos) coloração castanha da face, assim como oito babuínos (animal sagrado de Tot) na base exterior, por baixo dos pés. Terminada a primeira parte da discussão, os trabalhos foram reiniciados com a comunicação «Body and cosmos in Middle Kingdom coffins» do Doutor Rune Nyord do Christ’s College de Cambridge. A questão colocada, que precipitou a sua exposição analítica e interpretativa foi: “qual a função ontológica do sarcófago?”. O investigador salientou que todos os pormenores, desde a decoração, o alinhamento do corpo e dos membros, ou do sarcófago, não são, de todo, aleatórios. A iconografia, por exemplo, reveste-se de um cariz performativo (e não exclusivamente comunicativo), pretendendo recriar um estado mitológico inicial, com uma geografia própria, com o qual o defunto deveria contactar para perpetuar a sua existência. O sarcófago propriamente dito torna-se numa entidade que de certa forma limita e regula o microcosmos que reproduz, nomeadamente na preservação da maet, ou na recriação de capítulos do Livro dos Mortos, ou dos Textos dos Sarcófagos, que pretendam ressuscitar o morto e\ou defendê-lo de certos perigos. Outra ideia transmitida, muito importante para as tentativas de definição do que se entende por “deuses egípcios”, é a de que as divindades, forças fortemente impessoais (José das Candeias Sales), definem e determinam a sua função no tipo de relação que estabelecem com os outros deuses. O Doutor René van Walsem, da Universidade de Leiden, dissertou sobre «Architectonisation and “divinization” on Third Intermediate Period “stola” coffins». O egiptólogo holandês relevou as ilustrações mais propriamente arquitecturais e estruturais, a começar pelas simplificadas representações palacianas da IV dinastia com as suas fachadas palatinas a rodearem o defunto. Depois da já referida complexificação de períodos posteriores, este, ao osirificar-se (tornando-se um deus) no Além, poderia assumir formas diversas, como no exemplo do sarcófago de Djedmontu, onde o antigo habitante do Egipto do Terceiro Período Intermediário surge representado como um pássaro-ba montando uma vaca de Hathor, tomando o lugar do rei. A última comunicação do dia foi proferida através de videoconferência desde Los Angeles (Universidade da Califórnia), pela Doutora Kathlyn (Kara) Cooney, sem que, no entanto, a dinâmica de comunicação tenha sido afectada. De facto, tratou-se de uma exposição bastante clara e vívida, na qual a investigadora americana versou sobre «Ramesside and 21st Dynasty coffins as instruments of social power: symbols of ideological, economic, political, military and sexual powers». Ao contrário das anteriores exposições, e numa perspectiva tipicamente americana, privilegiou-se o carácter social e económico da produção, ilustração e reutilização de sarcófagos. De uma forma geral, a posse e a pintura de um sarcófago era um elemento de diferenciação social. Contudo, no período compreendido entre as XIX e XXI dinastias, diversos factores contribuíram para que a inovação iconográfica, individualizada, se tenha tornado importante para essa diferenciação. Uma das possíveis causas pode ter sido a reutilização de sarcófagos que, segundo um estudo (ainda em curso) destes objectos em alguns dos principais museus europeus, atingiu proporções consideráveis na referida fase. Assim, o novo dono teria de reinventar, ou permitir a reinvenção por parte dos artistas, de motivos iconográficos que o distinguissem não só das opções

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estilísticas dos seus contemporâneos (numa lógica de competição), como das de períodos anteriores. A investigadora resumiu da seguinte forma as causas para tão inusitada heterodoxia estilística: “social context: Amen priesthood at Thebes; ideological reasons: crisis driving innovation; political reasons: absence of king and centralized government; military reasons: lack of provisions for tombs = necropolis insecurity; economic reasons: limited economic resources for coffins”. A comunidade académica em geral e os interessados por assuntos do antigo egipto em particular, que tiveram a oportunidade de assistir à sessão, ficaram certamente satisfeitos não só com tão profusa divulgação de conhecimentos relativos à problemática, como pelo contacto com aproximações, perspectivas e metodologias recentes da Egiptologia, na Europa.

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Comentário Crítico ao Filme

O Assassínio de Júlio César (Stuart Burge1) Por Pedro Marques 2

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Esta publicação resultou de um comentário a este filme no V Ciclo de Arqueologia no Cinema do Museu Nacional de Arqueologia, ocorrido no dia 19 de Janeiro de 2013. 2 Doutorando em Arqueologia na Faculdade de Letras de Lisboa (UNIARQ). Bolseiro da FCT. E-mail: pmcmarques@hotmail. com.

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Ao longo da história do cinema e da televisão foram efectuadas várias adaptações da obra Júlio César de William Shakespeare. A primeira data de 1908. Portugal esteve envolvido na segunda, do ano de 1911. A única premiada com os óscares de Hollywood foi a versão de 1953, dirigida por Joseph L. Mankiewicz. A película foi nomeada para melhor filme, melhor fotografia a preto e branco, melhor música e melhor direcção artística. Contudo, ganhou apenas este último óscar. Marlon Brando foi nomeado para melhor actor principal, pelo seu desempenho do papel de Marco António, mas não foi premiado. A adaptação cinematográfica de Stuart Burge do ano de 1970 consistiu na primeira versão a cores para o cinema. Este tinha dirigido um Júlio César para a televisão, em 1959, e ainda adaptado Otelo, também de Shakespeare, em 1965. Quanto aos actores, Sir John Gielgud (Júlio César) desempenhou o papel de Cássio no filme premiado de 1953. Charlton Heston repetiu o papel de Marco António, que tinha desempenhado em 1950. Jason Robards (Bruto) participou, por exemplo, em Aconteceu no Oeste e Massacre de Chicago. Pórcia, a esposa de Bruto, foi interpretada por Diana Rigg, a co-protagonista (Emma Piel) da série Os Vingadores, entre 1965 e 1968. Richard Chamberlain (Octávio) representou depois os papéis principais em Shogun e As Minas de Salomão I e II. Richard Johnson (Cássio) participou n’O Rei Édipo de 1968. Na minha opinião, este foi um dos actores que melhor soube interpretar a profundidade dramática da personagem shakesperiana. Uma ave esvoaça sobre um campo coberto de esqueletos com armaduras, armas e estandartes. Assim começa o filme. É o resultado da batalha de Munda, ocorrida no dia 17 de Março de 45 a. C., onde os exércitos da facção pompeiana foram quase definitivamente derrotados. Os números de mortos apresentados – 1000 homens de César e 30000 soldados inimigos – suscitam a nossa desconfiança, pois são demasiado discrepantes e “redondos”. Dos comandantes pompeianos sobreviveu apenas Sexto Pompeio, filho da famosa figura política. Esta guerra civil, que opôs Pompeio e Júlio César e que teve o seu início com a passagem do Rubicão pelas tropas do segundo, no dia 11 de Janeiro de 49 a. C., só terminou efectivamente depois da morte deste, quando Marco Emílio Lépido, membro do segundo triunvirato juntamente com Marco António e Octávio, ofereceu a Sexto Pompeio o comando da frota romana e a restituição dos bens da família. Após a vitória em Munda, começou a organizar-se um culto a Júlio César, com festas, jogos para celebrar as datas do seu nascimento e das suas vitórias, objectos sagrados e estátuas nos templos. Foi ainda nomeado Diuus. Estes aspectos solidificaram e concederam uma aura divina ao


poder pessoal e absoluto que já detinha, derivado do exercício do quarto consulado e da ditadura, que pouco tempo depois se tornou perpétua. Era o imperator por excelência. Na festa dos Lupercais, os partidários de César, nomeadamente Marco António, quiseram atribuir-lhe a realeza. Esta foi uma das razões que esteve na base do seu assassinato. Os Romanos haviam banido a monarquia em 509 a. C., com a expulsão do rei etrusco, Tarquínio, o Soberbo. Nutriam uma repulsa por esta forma de governo, considerada inferior e prejudicial a Roma. A isto se aliava a inveja de alguns senadores em ver um dos seus pares a ser elevado a um nível superior. No filme, assim como na peça de Shakespeare, observam-se precisamente alguns senadores a conspirarem contra a concentração do poder num único indivíduo, Júlio César, na sua maioria por inveja, mas também com o objectivo de evitar o mal da monarquia. Talvez simbolicamente, Stuart Burge fez sentar o ditador em cadeiras, nas quais vemos alegorias de tronos, no triunfo inicial e no Capitólio, antes do acto homicida dos conspiradores. Além disso, no cortejo triunfal da película não foi incluído aquele indivíduo que segurava a coroa de louros por cima da cabeça do general vitorioso, ao mesmo tempo que o recordava da sua mortalidade e da igualdade para com os seus concidadãos. Anacronicamente, figuram lamas, animais oriundos da América do Sul, que Roma nunca terá conhecido. Embora no filme a guerra seja a consequência imediata do assassinato, depois deste acto gozou-se algum período de paz, apesar de curto. Em Novembro de 44 a. C., reacenderam-se os conflitos entre Bruto e Marco António. Uma das suas consequências foi o estabelecimento do segundo triunvirato, no ano de 43 a. C., no qual Marco António, Octávio e Lépido dividiram as províncias entre si. O acto inicial desta associação consistiu em efectuar proscrições, que conduziram à morte de vários senadores e cavaleiros, entre os quais Cícero. Cássio chega de cavalo ao acampamento militar de Bruto e inicia uma discussão com o seu aliado. Estão em Sardes, local pertencente à província romana da Ásia, situado na região oeste da actual Turquia. Shakespeare, seguido por Burge, indicou certamente deste modo o facto de os dois generais terem percorrido aquela província, com o objectivo de a espoliarem. Pouco tempo depois, em Outubro de 42 a. C., ocorreu a batalha final em Filipos, na actual Macedónia grega, na qual se suicidaram Bruto e Cássio. Antes da batalha de Filipos, Cássio indica o recém aparecimento de corvos, gralhas e milhafres a pairar sobre o exército. É o prenúncio da derrota e da morte, resultado efectivo daquela peleja. A águia, emblema das legiões romanas e símbolo da vitória, havia abandonado antes a coluna militar. As aves estão relacionadas com a adivinhação nos avisos a Júlio César. O adivinho e os áugures obtiveram as mensagens nas entranhas de galináceos. Semelhantes avisos foram transmitidos em sonho a Calpúrnia. Artemidoro tentou avisar o ditador para ter cuidado com determinadas pessoas. Mas este considerava-se superior e revelou uma certa presunção de que nada de mal lhe iria acontecer, até porque era pior do que a própria maldade. Afirmou também que o momento da morte era imutável, entregando-se ao seu destino sem invocar os favores de

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nenhum deus, inclusive da Fortuna, cultuada para conferir um bom destino. Por outro lado e contrariamente a esta atitude descrente, na película e na peça, Júlio César disse a Marco António para tocar em Calpúrnia no decorrer da corrida dos Lupercais, de modo a libertá-la da maldição da esterilidade. Os Lupercalia eram uma festa de cariz pastoril, que ocorria no dia 15 de Fevereiro e que tinha como objectivos purificar a cidade para o ano novo, iniciado em Março, e conceder saúde e fertilidade àquelas que eram açoitadas pelos lupercais. Após a morte do ditador, não se lhe negaram as honras fúnebres e o enterramento que merecia. Os Romanos tinham um certo receio dos mortos, acreditando que estes poderiam regressar à terra, para assombrar os vivos. Deste modo, para apaziguá-los, destinavam-lhes uma sepultura digna e cultuavam-nos. No filme, observamos Júlio César a regressar do mundo dos mortos e a aparecer a Bruto por duas vezes, o que este considerou um prenúncio da sua derrota e a concretização da vingança do defunto. A produção cinematográfica O Assassínio de Júlio César, adaptação da obra Júlio César de Shakespeare, mostra-nos os acontecimentos que precederam e sucederam ao assassinato do ditador. Apesar das diferenças, e mesmo imprecisões anacrónicas, encontramos os principais aspectos políticos da conjuntura, assim como crenças religiosas e superstições romanas, apresentados com alguma precisão. Deste modo, consideramos pertinente a visualização do filme por aqueles que se interessarem pelo tema e pelo período histórico representados. Bibliografia básica: BORDET, Marcel (1995) – Síntese de história romana. Lisboa: Edições Asa. GRIMAL, Pierre (1993) – A civilização romana. Lisboa: Edições 70. SHAKESPEARE, William (1965) – Julio Cesar. Tradução de Carlos Lacerda. Rio de Janeiro & São Paulo: Distribuidora Record. Sites da Internet: http://www.imdb.com/, 19/01/2013, 22:00. http://www.freeonlinemoviestreaming.net/julius-caesar-1970.html, 21/01/2013, 23:00. http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/0/08/Caesar_campaigns_ from_Rome_to_Munda-fr.svg, 21/01/2013, 23:03. http://terrorfantastico.com/foro/index.php?topic=11564.0, 21/01/2013, 23:15. http://i825.photobucket.com/albums/zz172/dtgonehome/MUBI%20 forum%20pics/JuliusCaesar1970-448x252.png, 21/01/2013, 23:20.

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Florença Breve Roteiro Cultural

Por João Coles 1

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Mestrando em História Antiga pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Todas as imagens pertencem ao autor deste artigo, no qual o Instituto PAEHI – Associação para Estudos Históricos Interdisciplinares não tem qualquer direito sobre as mesmas.

Uma célere visita de 36h à majestosa cidade de Florença jamais seria suficiente para elaborar um digno roteiro cultural do antigo empório do Renascimento italiano. Outrora capital de Itália, logo após a unificação do país em 1861, conhece o início da sua emergente evolução no século X e torna-se autónoma em 1115; em meados do século XIII já era uma das cidades mais prósperas da Europa. Todavia, não obstante a peste negra de 1348 e algumas revoltas que abalaram a cidade, em destaque a insurreição dos Ciompi, Florença apenas conhece a sua época mais fausta sob a égide da família Medici, que conquistou para a cidade um posto muito importante no mundo dos comércios e na cultura europeia, encarregando-se de atrair para a corte os melhores artistas, artesãos, filósofos e humanistas da época.

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Basílica de Santa Maria Novella: Comecemos o ciceronear pela Piazza homónima, onde se reuniam os fiéis para ouvir os sermões dos frades dominicanos, que viviam no convento da basílica de Santa Maria Novella. Por não haver documentação suficiente é impossível indicar com precisão o responsável pela construção da igreja, porém, Vasari atribui a sua edificação a Arnolfo di Lapo, enquanto que outras fontes, consideradas controversas por críticos de renome, elegem os frades Sisto da Firenze e Ristoro da Campi como os seus criadores. Não obstante, foi a primeira grande basílica construída em Florença até então e foi a mais importante igreja dominicana da época. Durante a sua erecção, foram usados pela primeira vez vários elementos da arquitectura gótica nas capelas, em particular do estilo cisterciense, ricamente decoradas de afrescos. Consagrada oficialmente em 1420 pelo papa Martinho V, contou ainda com a intervenção de Leon Battista Alberti, de 1458 a 1477, o responsável pelo desenho da sua maravilhosa fachada de mármore, sob o mecenato de Giovanni Rucellai, que com a fachada pretendia


deixar no tempo a sua memória, como podemos comprovar pela inscrição latina no frontão superior da igreja: «Iohan(n)es Oricellarius Pau(li) F(ilius) An(no) Sal(utis) MCCCCLXX», gritando há mais de 500 anos que aquela belíssima fachada se deve ao mecenas de Alberti, como nos conta Vasari nas suas Vite. O ano de conclusão inscrito, contudo, é meramente simbólico; Vasari, confirma que o ano oficial é, ao invés, 1477. Algumas das célebres obras encomendadas pela igreja e pelo convento foram: a notável Trinità, Maria e Giovanni, de Masaccio; os frescos de Filippino Lippi na capela Strozzi e de Ghirlandaio na capela Tornabuoni; o famoso Crocefisso de Giotto, entre outras. Catedral de Santa Maria del Fiore: Também conhecida por Duomo de Florença, construída sobre as antigas fundações da igreja de Santa Reparata, começou a ser erigida em 1298. O desenho e o modelo foram concebidos pelo arquitecto Arnolfo di Lapo, igualmente conhecido por Arnolfo di Cambio. É, sem dúvida, um dos monumentos mais afamados e, segundo Vasari, «nunca suficientemente elogiado» do Renascimento e da história da arquitectura, tal como foi uma das construções mais ambiciosas e tormentosas. Após a morte de Arnolfo di Lapo as obras pararam por tempo indeterminado, mas retomou-as Giotto em 1334, assistido por Andrea Pisano, concentrando-se, sobretudo, no ilustre campanário adjacente à catedral que se ergue até 85 metros. Uma característica muito peculiar deste campanário é a sua riqueza escultórica, para a qual contribuíram artistas como o próprio Andrea Pisano e o filho, Nino, Donatello, Nanni di Bartolo e Luca della Robbia. Os baixos-relevos da base retratam episódios e personagens bíblicos, bem como alegorias que recorrem a figuras da Antiguidade; as esculturas nos nichos, por sua vez, apenas representam profetas e outras figuras bíblicas. Foi, contudo, Pisano que prosseguiu com os trabalhos após a morte de Giotto, desenvolvendo principalmente o campanário, porém, em 1348, morreu com a chegada da peste negra e os trabalhos foram novamente interrompidos. Não muito tempo depois, em 1349, Francesco Talenti termina as obras do campanário, e em 1356 retoma a construção da basílica. Todavia, contando ainda com a intervenção de outros arquitectos, só em 1421 estaria o corpo basilical completo, apenas sobrando a cúpula. A cúpula, com um diâmetro de 45,5 metros e 23 metros de altura (da sua base aos arcos), foi uma empresa tremenda levada a cabo por Filippo Brunelleschi. Em 1418, Brunelleschi vence o concurso pela cúpula, mas as obras apenas se iniciaram dois anos depois e prolongaram-se até 1434 sem qualquer interrupção, e, finalmente, em 1436 é celebrada a consagração da catedral com a solene bendição do papa Eugénio IV. A decoração interna da cúpula a afresco foi realizada entre 1572 e 1579 por Giorgio Vasari, que tem o “Juízo Final” como tema iconográfico, apesar de inicialmente estar prevista uma decoração em mosaico. Ainda no interior da catedral, sobre a porta da entrada, está o relógio magnífico de Santa Maria del Fiore decorado por Paolo Uccello; mais adiante podemos encontrar um quadro de Domenico di Michelino, Dante con la Divina Commedia che illumina Firenze, uma obra de 1465 e uma autêntica surpresa laica neste templo religioso. O profano surge pouco além ao encontrarmos os retratos dos capitães de guerra Giovanni Acuto e Niccolò da Tolentino, da autoria de Paolo Uccello e Andrea del Castagno, respectivamente. Contudo, uma das obras-primas principais do Duomo, a Pietà Bandini de Michelangelo, esculpida já em idade avançada, está hoje conservada no Museo dell’Opera del Duomo na parte absidal da igreja.

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Por fim, na rua que flanqueia a catedral, em homenagem aos dois grandes artífices desta sumptuosa obra, temos as estátuas de Arnolfo di Lapo e de F. Brunelleschi. Este último, sentado, através dos olhos de mármore da grande estátua esculpida por Luigi Pamploni, contempla a cúpula que mais nenhum arquitecto conseguiu conquistar. Baptistério de São João: O Baptistério ou Basílica de São João ainda faz parte do complexo religioso do Duomo. É um edifício de forma octogonal, mesmo diante da catedral, cujas origens remontam para um domus do século I d.C sobre o qual foi mais tarde construído no século VII. Inicialmente, à semelhança do Panteão romano, era aberto no topo, mas em 1550 foi totalmente coberto. Em 1128, o Baptistério acumula funções de catedral da cidade, recebendo o nome de Basílica de São João, para dois séculos mais tarde tê-las destituídas para a vizinha Santa Maria del Fiore. Externamente era um edifício despido, e só por volta de 1290, por intermédio de Arnolfo di Lapo, é revestido com mármore branco e verde. Porém, a grande glória do Baptistério advém dos seus lendários portões: o portão Norte, da autoria de Lorenzo Ghiberti, está dividido em 28 painéis, 20 dos quais, contando do topo, narram episódios do Novo Testamento, e os restantes representam os 4 evangelistas e os 4 doutores da Igreja; o portão Sul, de Andrea Pisano, seguindo a mesma disposição, conta com 20 painéis que relatam os episódios da vida de S. João Baptista e outros 8 representam as 3 virtudes teologais, mais a Humildade, e as 4 virtudes cardinais; por fim, o portão Este, o famoso Portão do Paraíso de Ghiberti, está disposto em 10 painéis rectangulares que representam cenas do Antigo Testamento. O interior do Baptistério resplandece dos mosaicos de fundo dourado da cúpula, nos quais também trabalhou Cimabue, e neles estão figuradas as hierarquias dos anjos, o Juízo Final, dominado pela figura de Cristo, cenas do Genesis, histórias de José, de Maria e de Cristo e histórias de S. João Batista. Era igualmente no “[...] bel’ San Giovanni” onde as grandes mentes eram baptizadas, entre as quais o grande filho de Florença, Dante Alighieri.

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Igreja de Santa Croce: A praça onde se situa, baptizada com o mesmo nome, é de amplo espaço, e em época de renascença era o local favorito para a organização de cortejos, torneios e jogos, entre os quais o famoso torneio em honra de Giuliano Medici - ainda hoje a praça de Santa Croce é utilizada para a organização dos mais variados eventos. A igreja, por sua vez, é uma das maiores da congregação dos franciscanos e uma das máximas concretizações do gótico em Itália. Foi Arnolfo di Lapo quem colocou a primeira pedra da igreja em 1294, que foi completada em 1320 e consagrada solenemente pelo papa Eugenio IV em 1442. Cerca de 100 anos mais tarde, Giorgio Vasari remodelou a igreja acrescentando os altares laterais. No entanto, a fachada permaneceu em pedra até meados do século XIX, quando o nobre inglês Sloane financiou os trabalhos de revestimento em 1867 ao arquitecto Nicolò Matias. Ambos os transeptos contêm capelas de famílias patrícias florentinas, mas não se podem ignorar pelo menos duas: a cappella maggiore, coberta de afrescos de Agnolo Gaddi acerca da Leggenda della Croce, e ornamentada por um políptico que conta com a participação de vários artistas: Niccolò Gerini pela Virgem central, Giovanni del Biondo pelos Doutores da Igreja e Maestro di Figline pela cruz; a capela dos Pazzi, uma obra de Brunelleschi, tem toda a sua estrutura coberta por uma cúpula. Na capela encontram-se doze medalhões vitrificados que representam os apóstolos, obra de Luca della Robbia, enquanto que a Brunelleschi são atribuídas as esculturas que afiguram os evangelistas. A igreja de Santa Croce é considerada o Panteão das glórias itálicas por dar sepultura às suas maiores mentes. De entre ilustres figuras, no meio do primeiro e segundo altares da nave direita, encontra-se a tumba de Michelangelo, com um monumento em sua honra. Na praça, situada do lado direito da igreja, encontra-se a estátua marmórea de Dante Alighieri, obra do escultor Enrico Pazzi, inaugurada a 14 de Maio de 1865,


celebrando o sexto centenário do nascimento do poeta. E lá do alto olha Dante para a praça, coroado de louros, com a sua Commedia em mão, qualificada divina por Bocaccio. Piazza della Signoria: É um dos espaços urbanos mais belos de Florença, dominada pelo Palazzo Vecchio, antiga sede dos priores das Artes cujo principal e primitivo núcleo foi erigido entre 1299 e 1314. Junto do lado direito do palácio está a monumental Fonte de Neptuno com a figura colossal do deus marinho no centro e com as nereides em torno, esculpida em mármore por Bartolomeo Ammannati entre 1563 e 1575. A fonte foi erguida em ocasião das bodas de Francesco Medici com Joana de Áustria. Imediatamente ao lado está o monumento equestre em bronze de Cosimo Medici I, obra de Giambologna de 1594. Os baixos relevos do pedestal recordam os momentos mais importantes da sua vida: a eleição a duque (1537), a conquista de Siena (1555) e a outorga do título de Granduca (1569). No entanto, nos dois lados da escadaria que dá acesso ao palácio encontramos uma cópia do David de Michelangelo, hoje na Galleria dell’Accademia, e a estátua de Hércules e Caco de Baccio Bandinelli. A galeria aberta da Signoria, também denominada por galeria de Orcagna, o nome do artista que a desenhou, foi construída entre 1376 e 1382 por Benci di Cione e Simone Talenti e é um dos melhores exemplos da interpretação singular do gótico pelos florentinos. No interior estão algumas das obras mais importantes que a cidade conserva, como o célebre Perseu de Benvenuto Cellini (1545-54), o Rapto das Sabinas e Hércules lutando com o centauro Nesso, da autoria de Giambologna (1583 e 1599, respectivamente). Os dois grandes edifícios paralelos da Via delle Farine pertenceram aos Guiducci e hospedaram os Lansquenetes, ou seja, milícias mercenárias alemãs agrupadas em 1493 por Maximiliano da Áustria que ficaram célebres pelo saque de Roma em 1527. Apesar de nos últimos anos esta praça ter sido sujeita a escandalosas desfigurações, deveria ser considerada, e com razão, um dos maiores “salões” do mundo. O Perseu de Cellini: Esta obra-prima de Cellini foi encomendada por Cosimo Medici I, já estabelecido como Duque da cidade, depois de pôr fim à experiência republicana de Florença. A emblemática estátua de Perseu, situada na galeria da Signoria, é uma criação absolutamente complexa envolta num grande jogo alegórico. O Perseu está directamente ligado à temática da sua semelhante Judite e Holofernes, de Donatello, porém, afasta-se deste primeiro renascimento e abraça um movimento que mais tarde denominado de maneirismo. O Perseu que Cosimo Medici pretendia era um herói político que ao cortar a cabeça da Medusa estaria simultaneamente a libertar o povo florentino do regime republicano, ou seja, um figura que reflectisse a imagem que o próprio duque tencionava que os cidadãos retivessem. Todavia, a estátua afigura-se mais complexa do que aparenta. Contornando e observando atentamente o Perseu, é impossível não reparar na segunda face que surge na nuca do herói. Este rosto poderá ser uma de duas coisas: ou um auto-retrato de Cellini mimetizado pela barba que lhe era característica ou uma alusão ao deus dos infernos, Hades. A primeira hipótese simbolizaria uma tentativa de Cellini se imortalizar pela estátua; por outro lado, a alusão a Hades poderia ser um ataque de Cellini ao próprio Duque, isto é, que Cosimo Medici I era, na verdade, um malfeitor que tentava esconder-se na pele de um herói através do elmo da invisibilidade de Hades, ergo o rosto na nuca, pois relembrando a lenda, Zeus dera ao herói o elmo de Hades juntamente com a espada adamantina. Corroborando parcialmente esta tese, Domenico Arturo Nesci num seu artigo cita um outro autor que considera Perseu e Hades um Jano bifronte, pois enquanto o herói enfrenta os seus inimigos, o deus da morte olha para trás contemplando as vítimas trucidadas pela investida de Perseu, tal como Cosimo I olharia para o passado ao recordar os republicanos trucidados.

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Com esta tentativa de síntese da viagem feita pela cidade de Florença, não entrando ao pormenor como desejado, tentámos dentro do possível resumir a história, as curiosidades e segredos do património cultural desta metrópole na esperança de incentivar os mais curiosos a aprofundar os seus conhecimentos sobre Florença e, quem sabe, (re)visitá-la. Reformulando uma descrição acima, Florença é, de facto, um autêntico “salão” cultural europeu. João Coles Mestrando em Estudos Clássicos na Faculdade de Letras da U.L.

BIBLIOGRAFIA Cesati, Franco, Guida Insolita di Firenze, (2010), Newton Compton Editori, Roma; Nesci, Domenico A., “Il Perseo di Cellini: chi era il doppio?”, (2005), in Rivista internazionale di psicoterapia e istituzioni, nº 9; Vanucci, Marcello, La Firenze del Rinascimento, (2006), Newton Compton Editori, Roma;

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Vasari, Giorgio, Le vite dei più eccellenti pittori, scultori e architetti, (2011), Newton Compton Editori, Roma.


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1212-2012

800 ANOS DE NAVAS DE TOLOSA

Por Alexandra Duarte 1

1 Licenciada em História pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa; Sócia Fundadora de Guildas Áureas – Associação de Recriação Histórica. 2 Vide Frei António Brandão, Crónicas de D. Sancho I e de D. AfonsoII, Porto, Editora Civilização, 1945, p. 160. 3 Vide Eduardo Manzano,” El Califato de Córdoba – Abderramán III, señor de Al-Andalus”, Historia, National Geographic, nº 62, RBA edipresse, p.61.

Decorria o ano de 1212. Em Portugal reinava el-rei D.Afonso, o segundo de seu nome. Na restante Península Ibérica, nos reinos cristãos, D. Afonso VIII velava pelo reino de Castela, D. Sancho, cognominado O Forte, reinava em Navarra, em terras de Aragão reinava D. Pedro II enquanto que em Leão o reino se encontrava sob a coroa de Afonso IX. Em termos de relações de parentesco próximo, enquanto que Afonso II de Portugal era genro de Afonso VIII, este último era avô de D. Pedro II de Aragão. Afonso de Portugal e Afonso de Leão eram primos. Diz-nos Frei António Brandão “Andava neste tempo toda Espanha revolta em armas, porque os mouros com seu rei Mahomed, …, davam ocasião a êstes aprestos e temores, intentando com grã resolução a conquista desta província….” 2

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Recuando um pouco no tempo, em Janeiro de 929, o soberano omíada de Córdoba, Abderramán III, anunciava que havia decidido assumir o título de Califa (até então eram emires), não por questão de genealogia, mas por merecimento, reclamando assim a direcção espiritual de todos os muçulmanos do globo, como representante de Deus na terra. Dois séculos passados depois da conquista de 711, o al-Andalus era já um território com maioria de população muçulmana.3


Ora, em 1031 deu-se o colapso do califado Omíada, desfeito por guerras civis provocadas por guerras de sucessão e grandes diferendos ideológicos, fragmentando o território do sul de Espanha e Portugal numa colecção de pequenos reinos/estados – taifas- tal como existiam diversos reinos cristãos no Norte. Em 1121, o muçulmano Muhammed Ibn Tumart, instalado em África, iniciou um processo de reforma religiosa. Proclamado “o guiado” pelos seus seguidores berberes, espalhou o seu movimento pela região da actual Tunísia, tendo este início nas montanhas de Marrocos. Após a sua morte, foi sucedido nas suas acções por al Muwahhidun que lançou uma invasão contra Espanha. Lançando-se muçulmanos contra outros muçulmanos, as taifas não se revelaram difíceis de conquistar a este invasor. Em cerca de 1173, os discípulos de al Muwahhidun, já dominavam praticamente toda a Andaluzia, mas este domínio sobre a Espanha muçulmana era mantido basicamente pela força. Os “novos invasores” muçulmanos, denominados almóadas, representavam para muitos muçulmanos da Espanha de então, um perigo maior que os diversos reinos cristãos4. Mas, mesmo sob o domínio almóada, a paz era mantida entre cristãos e muçulmanos à custa de continuados e renovados tratados. Também o emir almóada Abu Yusuf Yaqub e o seu filho e sucessor Muhammad al-Nasir foram regularmente renovando as suas tréguas com o reino de Castela, pelo menos até 1195, altura em que Afonso VIII de Castela não se conseguiu conter ao ser desafiado para batalha por Abu Yaqub. A BATALHA DE ALARCOS Aproximando-se a Batalha de Alarcos (18 de Julho de 1195), o emir Yaqub alMansur “O Vitorioso” atravessou o estreito de Gibraltar com um enorme exército na ordem das centenas de milhar. Estes soldados estavam bem treinados, após décadas de confrontos no Norte de África, em acções de expansão de domínios. Os seus generais haviam preparado bem as suas posições no terreno. Afonso VIII lançou-se só para a batalha, não esperando por auxílio de algum dos reinos cristãos da Península Ibérica. Segundo as crónicas, os cristãos atacaram “sedentos e exaustos pelo peso das suas armaduras”5. Em determinada altura do confronto, a cavalaria pesada cristã, com cerca de 7000 a 8000 homens, carregou sobre o centro do exército muçulmano. Este cedeu à 3ª carga, mas a força cristã não foi suficiente para romper as linhas centrais e o general muçulmano al-Senani ordenou à sua cavalaria que avançasse em duas alas, rodeando assim a cavalaria cristã, separando-a do corpo de infantaria, e estendendo também o ataque ao acampamento cristão, bem como à caravana de abastecimento. Os cristãos foram arrasados e Afonso VIII escapou por pouco, para Toledo, apenas com 20 ou 30 cavaleiros, segundo as crónicas muçulmanas. 6 Balanço final do confronto: muçulmanos mortos: 1500; cristãos mortos: 30 000. Yaqub acabaria por libertar, mais tarde, mais de 20 000 prisioneiros de Alarcos, como acto de generosidade. Este, entretanto, usou o seu exército para completar a conquista da Andaluzia, antes de regressar ao norte de África para combater os intermináveis rebeldes que se opunham ao seu regime. Foi após a morte de Yaqub, em 1199, que os cristãos de Áfonso VIII começaram a ignorar os acordos de paz estabelecidos após a derrota de Alarcos.

4 Vide Donald S. Blackburn, Collision of Faiths, Military History, June 1994, p. 65. 5 Vide idem, ibidem, p. 65. 6 Vide idem, ibidem, p. 65.

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A BATALHA DE NAVAS DE TOLOSA

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Vide Frei António Brandão, op. cit., p. 154. 8 Vide The song of the Cid – a dual-language edition with parallel text, Penguin Classics, p. 126.

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Após Muhammad, filho e sucessor de Yaqub, ter conquistado o último bastião almorávida nas ilhas baleares, decidiu pôr cobro aos sucessivos raids efectuados pelos cristãos. Há fontes que indicam que o seu exército seria de 250 000 a 300 000 homens. Mas enquanto Muhammad demoraria muito tempo a preparar-se para o combate, levando mais de dois meses a atravessar os seus homens pelo estreito de Gibraltar, Afonso VIII já há muito que começara a reconstruir o seu exército, mandara reforçar fortalezas e fizera planos para unir não só toda a Espanha cristã, mas também alguns dos reinos cristãos da Europa. Afonso VIII enviara apelos urgentes ao Papa Inocêncio III, através do seu emissário D. Rodrigo Jiménez de Rada – arcebispo de Toledo. O papa convocou, então, uma cruzada em 1211, e enviou bulas por toda a Europa, para reunir forças de todo o mundo cristão. O arcebispo D. Rodrigo, como emissário de Afonso VIII e do Papa, pregou a cruzada por Itália, França e Alemanha, ao que estimou, na altura, que de França e Itália tenham vindo mais de 62 000 soldados, muitos destes já experientes em combates na Palestina ou na cruzada albigense no sul de França. O próprio cronista português, Frei António Brandão, séculos depois, apelida este confronto armado de “santa guerra”. 7 Também o legado do Papa, D. Arnaldo, Abade de Cister e arcebispo de Narbona, acudiu em pessoa, estando presente a todo o sucesso da guerra. Sancho de Navarra e Pedro de Aragão também responderam ao apelo de cruzada, trazendo os seus exércitos respectivos, assim como milhares de portugueses e leoneses vieram, mesmo sem os seus monarcas. Os mestres de todas as ordens militares/religiosas também acorreram: Templários; Hospitalários; Calatrava; Santiago e outros. Vieram milícias das cidades e oito bispos espanhóis, com as forças que conseguiram reunir. Na altura, não seria de estranhar a participação activa de elementos do alto clero em confrontos deste género, mesmo agindo como militares: “Elo bispo don Jerónimo, caboso coronado, quando es farto de lidiar com armas las sua manos, non tiene en cuenta los moros que há matados;” 8 No final, o exército da cruzada contava mais de 200 000 homens. Até o Duque Leopoldo VI de Áustria veio, mas chegou tarde de mais para a batalha crítica. Atempadamente, Afonso VIII mandara preparar logística de suporte em Toledo – abundantes provisões – enquanto o exército ali se reunia durante o Inverno. Manter o exército calmo, enquanto se reuniam, não se revelou tarefa fácil para Afonso VIII. Os cruzados Italianos e Franceses, extra-zelosos, queriam massacrar os judeus de Toledo, mas finalmente em Junho de 2012, o exército internacional de Afonso VIII deixou a cidade. De Toledo sairia também Pedro de Aragão, juntando-se no caminho Sancho de Navarra. Num dos primeiros confrontos, os cruzados caíram sobre o castelo de Malagón e rapidamente o dominaram. Só o senhor e os seus dois filhos terão sido poupados. Entretanto, os franceses começaram a queixar-se do calor, mas conseguiram convencê-los a seguir até Calatrava, que foi posta a cerco no dia 27 de Junho. A 1 de Julho, Afonso VIII aceitaria a rendição deste castelo, que devolveria à ordem do mesmo nome. Dividiu o espólio com Pedro de Navarra e com os franceses, mas para grande desagrado destes e dos italianos, deixara partir em liberdade os defensores muçulmanos do castelo, que os queriam ver massacrados. Juntando isto ao facto de Afonso VIII ter defendido os judeus em Toledo, fazia-os duvidar do zelo religioso do monarca castelhano. O calor das planícies acabou por desmoralizar ainda mais os franceses e os italianos que na sua maioria optaram por voltar a casa. Deste contingente, só o Arcebispo Arnaut ficou com 130 cavaleiros de um total de mais de 62 000 homens. Apesar das numerosas deserções, Afonso VIII continuou, tomando mais praças aos muçulmanos: Alarcos; Caracul; Benavente; Piedrabuena, empurrando sempre mais as hostes do inimigo para Sul, em direcção a serra Morena. D. Afonso II de Portugal não pode comparecer pessoalmente na batalha de Navas de Tolosa por se encontrar em guerra com suas irmãs D. Mafalda, D. Teresa e D. Sancha.


O rei pretendia os seus direitos nos senhorios que as suas irmãs haviam herdado por testamento do pai. A questão dos direitos senhoriais, contemplava por norma, entre outras regalias, o direito a receber avultadas somas, que não seriam de desprezar. “Entre os feudos detidos por vassalos laicos e pelo próprio rei contavam-se igrejas paroquiais, mosteiros e capelas. Os senhores respectivos, frequentemente fundadores ou descendentes de fundadores dessas instituições pias, recebiam as rendas da dízima e as dotações da Igreja, incluindo por vezes rendimentos que resultavam de ofertas de fiéis, de direitos eclesiásticos, etc”9 Mas ao levantar guerra com suas irmãs, Afonso II iria ter como oponente o rei de Leão, pois este fora casado com D. Teresa (até que a santa Sé dissolveu o casamento por motivo de serem primos), existindo um filho desta união, D. Fernando, que combatia ao lado de seu pai, em auxílio a sua mãe. Mas pelo facto de o monarca português não poder participar pessoalmente no confronto (na altura da batalha de Navas de Tolosa, Afonso II mantinha cerco a Alenquer e Montemor-o-Velho e tinha guerras com os leoneses, na região conhecida por Entre Douro e Minho), não quer dizer que se tenha esquivado a verse envolvido nesta cruzada contra o infiel. Assim, diz o cronista português “Não pôde assistir a ela el-rei D. Afonso, mas mandou competente ajuda de gente armada”10 e “o nosso rei D. Afonso, à instância de seu sogro, el-rei de Castela, lhe mandou um grande número de soldados, assim de pé como de cavalo.” 11 D. Rodrigo, arcebispo de Toledo, participante activo no confronto e cronista da época, descrevia assim a comitiva militar portuguesa: “vieram ter (…) muitos cavaleiros de Portugal e um copioso número de infantaria, os quais, mostrando-se ligeiros e desembaraçados na expedição, suportavam bem os trabalhos dela e cometiam os inimigos com ânimo ousado.” 12 O confronto não foi imediato, depois da chegada dos cristãos à Serra Morena. A marcha tinha sido dura, tinha havido a conquista de algumas praças durante a marcha – com consequente desgaste de homens e animais - e os géneros alimentícios necessários a manter aquele enorme exército já não abundavam. Diz a lenda que foi um pastor que indicou aos cristãos um trilho pela aspereza da serra, permitindo a estes subi-la e alojar-se em segurança (o local onde esteve montado o acampamento cristão, no alto da serra Morena, tem a denominação actual de “mesa do rei”). Muhammad, que tinha tido conhecimento das deserções em massa no exército cristão, deveria sentir-se confiante na vitória. Mandou montar a sua tenda vermelha numa colina, situada na retaguarda do seu exército. A sua posição estava rodeada de uma vala e pela sua guarda pessoal de tropas negras africanas. Ordenou às suas tropas a mesma configuração em batalha que tinham tido em Alarcos. Os almóadas ocupavam a ala esquerda e os andaluzes, da Espanha muçulmana, ocupavam a ala direita. Ao centro ficariam os combatentes mais experientes, “os exércitos de ambos os lados eram os maiores que alguma vez se tinham confrontado em Espanha.” 13 Durante os dias 14 e 15, deram-se algumas leves escaramuças, por parte da cavalaria ligeira enviada por ambas as partes. Mas na manhã do dia 16 de Julho de 2012, Afonso VIII começou o ataque principal com uma carga do centro do exército cristão (numericamente inferior). Depois de algum tempo em confronto, a derrota dos cristãos, como em Alarcos, parecia que iria repetir-se, até que Afonso VIII avançou pessoalmente com as reservas para aliviar a pressão sobre o corpo central do seu exército. Mas, na altura crucial, deu-se uma reviravolta inesperada. Os generais muçulmanos andaluzes retiraram as suas forças de campo. Os muçulmanos andaluzes nunca tinham visto com bons olhos os invasores africanos, achando-os fanáticos e déspotas. Após a derrota de Calatrava, tinham tomado conhecimento que o emir, governador da província, tinha condenado à morte, mediante pena de tortura, o comandante andaluz que perdera a praça e que Afonso VIII deixara sair em liberdade. Para cúmulo, as forças andaluzes foram colocadas pelo emir nos pontos menos honrosos do exército. Assim, subitamente desapareceu uma ala do exército muçulmano e 60 mil homens que a compunham. O exército de Muhammad entrou em

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Vide A.H. de Oliveira Marques, Breve História de Portugal, Lisboa, Editorial Presença, 2009, p.80. 10 Vide Frei António Brandão, op. cit., p. 159. 11 Vide Frei António Brandão, op.cit., p. 160. 12 Vide Frei António Brandão, op. Cit., p. 162. 13 Vide Donald S. Blackburn, Collision of Faiths, Military History, June 1994, p. 64.

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Vide Donald S. Blackburn, op. cit., p. 67.

colapso. Rapidamente os cristãos chegaram junto da tenda vermelha de Muhammad e este pôs-se em fuga, deixando para trás o seu estandarte, que Afonso VIII capturou e entregou na casa religiosa de Las Huelgas, perto de Burgos. A matança dos fugitivos foi estimada entre os 60 000 e os 100 000 muçulmanos. No seu relatório ao Papa Inocêncio III, Afonso VIII afirmava que os inimigos eram em tal quantidade que, quando o exército dos cruzados ficou no campo inimigo, durante dois dias, com todas as fogueiras que eram precisas para cozinhar, fazer pão e outras coisas, não houve necessidade de procurar outra lenha que não fossem as lanças e flechas inimigas caídas e mesmo assim não se queimou sequer metade. 14 Afonso VIII não parou por aqui e continuou a sua investida em terreno muçulmano, tomando mais quatro fortalezas, até que a peste atacou e o exército foi desmantelado. Mohammad e os almóadas nunca recuperaram desta derrota. Os muçulmanos da Andaluzia acabaram por dividir-se em pequenos reinos conflituosos entre si, e em 40 anos, todos os pequenos reinos (excepto Granada) caíram às mãos dos cristãos. Mohammad e os almóadas foram empurrados para fora da Andaluzia pelos estados muçulmanos aí existentes, e em 1269, estavam também já fora de poder no Norte de África. DO PONTO DE VISTA DO RECREADOR….. Comemora-se este ano os 800 anos decorridos desde a batalha de Navas de Tolosa. 800 anos passados sobre um choque de forças massivo numa colisão de fés. Por vontade e engenho de um grupo de recreadores históricos de Espanha, Battle Honours, no fim de semana de 14 e 15 de Julho de 2012, levou-se a cabo uma recriação histórica, comemorativa destes 800 anos sobre uma das batalhas mais marcantes da História Medieval da Península Ibérica, coincidindo as datas actuais com as dos factos históricos, já que este ano, o dia 16 de Julho, dia da grande batalha de Navas de Tolosa, incidiu sobre uma 2ªfeira, tal como aconteceu há 800 anos atrás. Com cerca de 300 recreadores históricos presentes, de todas as idades, vindos um pouco de toda a Espanha continental e ilhas Baleares e também de Portugal e com cerca de 40 tendas de variados modelos medievais, foi montado um acampamento num terreno agrícola, na povoação de Navas de Tolosa, próximo a La Carolina, já que o local original onde decorreu a batalha se encontra actualmente inserido no Parque Natural de Despeñaperros, inviabilizando assim a realização da recriação nesse território

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Com raríssimas sombras, a não ser as fornecidas pelos diversos toldos montados entre as tendas, um imenso calor que rondava ainda os 30 e muitos graus célsius, ao fim da tarde, e uma terra vermelha que libertava um pó fino que se conseguia fixar teimosamente à pele (colando-se com a transpiração) às vestes, tendas e demais pertences, recreadores de mouros e cristãos partilharam alegremente e pacificamente o espaço e as dificuldades sentidas. Num local onde não existe electricidade, nem água corrente convencional, acendiam-se diversas velas, quando chegava a noite, pelo menos para evitar os tropeções nas milhentas cordas estendidas e cravadas no solo, em todas as direcções. No sábado, dia 14, pelas 19H00, puseram-se em marcha os exércitos para o confronto- recriação da batalha de Navas de Tolosa. Debaixo de um enorme calor, foram envergados “gambesons”15, lorigas, elmos, foram cingidas espadas, agarrados escudos e empunhadas lanças. Um combatente cristão facilmente fica a carregar 15 kg - 20 Kg (?) - só em equipamento militar, peso este que parece duplicar enquanto se marcha em coluna, sob o calor, através de filas de plantio de oliveiras, de modo a poder cercar-se o acampamento do invasor e assim atacá-lo pela frente. A fila de soldados parecia não ter fim, algo nunca visto em termos de recriação histórica medieval. Incansáveis na sua generosidade, mulheres e jovens não combatentes, acompanhavam a coluna em marcha apeada, carregando bilhas de água que iam servindo aos soldados. Soldados com elmos de viseira fechada, foram confrontados com a dureza de não poderem beber água, já que parar a marcha para desapertar o elmo, removê-lo da cabeça, beber e depois voltar a envergar o elmo e ajustá-lo novamente, custaria muito tempo e depois o esforço de acelerar o passo para voltar à sua posição nas fileiras.

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Vestes espessas e acolchoadas, compostas por várias camadas de tecido, que serviam de protecção corporal em situação de confronto armado. Podiam ser usadas só, ou sob uma protecção metálica de cota de malha ou peças de armadura, consoante a época.

Assim, quem estava mais desprotegido na face, revelava-se mais beneficiado no que tocava a um simples gesto, como beber água em andamento. Trilhos no campo que se fariam facilmente com um vulgar calçado desportivo do séc. XXI e um traje cómodo e leve, revelam a sua dureza sob o peso do equipamento e o calçado de couro. Pequenas colinas são descidas e subidas a custo, usando-se por vezes as lanças como cajados, para amparar o corpo e ajudar à marcha. Finalmente o exército cristão chega à colina fronteira ao acampamento inimigo e as diversas “companhias” são separadas e posicionadas no terreno: ordens militares para um lado, Navarros e Portugueses a outro, etc, cada qual com o seu capitão. O objectivo é posicionar os combatentes no terreno pela mesma ordem descrita nas crónicas.

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Do lado oposto, destacava-se a tenda vermelha de al-Nasir, lugar de onde o mesmo conseguia visionar toda a batalha. Conseguem-se vislumbrar os arqueiros, levemente trajados e soldados com couraças de couro. Todos visivelmente mais leves e frescos que os cristãos. Por a História Medieval não ser só composta de soldados e muito menos a recriação histórica, recreadores de homens de Deus: bispos, monges, frades, aproximaram-se dos soldados, que, de joelhos em terra, receberam a bênção em latim, antes do grande confronto. Apesar de ser uma recriação e nenhum ser membro efectivo do clero, a situação é vivida muito a sério, pois, de facto, a partir do momento em que se iniciassem as hostilidades, tudo poderia acontecer. Do lado muçulmano, um cenário idêntico. As armas são pousadas no chão, enquanto os soldados se ajoelham e inclinam durante as suas orações antes da batalha. Finalmente inicia-se a batalha. Apesar do imenso público presente, os olhos dos combatentes têm de estar virados para o inimigo, invés de para as máquinas fotográficas e atentos às ordens do capitão.

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Começam a voar as flechas muçulmanas e é preciso erguer os escudos, acima da cabeça, para protecção. Dificuldade acrescida: caminhar com o escudo levantado, por um solo altamente irregular, dividindo a atenção entre as saraivadas de flechas a coesão do grupo e o ver onde se põe os pés. Há cardos um pouco por todo o lado, e se nos descuidamos, o vestuário não evita que os sintamos cravar-se na pele. Antes de se começar o confronto físico, propriamente dito, em terreno ascendente, onde os muçulmanos aguardam, uma vala, com cerca de 1,5 m de largura e 1, 30 m de profundidade parece-nos um abismo. Descer e entrar dentro dela é uma coisa, sair de dentro da vala é um assunto completamente diferente. O peso que se carrega não ajuda à agilidade e esta só é transposta a bom ritmo graças à ajuda dos primeiros combatentes da companhia que conseguiram sair e que, tentando resguardar-se das flechas inimigas; nos estendiam a mão para nos ajudar a içar. As linhas cristãs da companhia são repostas e é dado a voz de ataque. Correr contra as linhas inimigas é um esforço que poucos conseguem manter além de algumas passadas. O ar pesado e quente, a subida íngreme, a sede e o peso do equipamento incentivam-nos a salvar as energias para brandir as armas. Os golpes sucedem-se, com maior ou menor maestria de quem manuseia as armas, mas quando olhamos nos olhos dos combatentes, de ambos os lados, não há qualquer malícia ou intenção real de magoar quem quer que seja. A intenção é puramente recriar/honrar a História e assim, aqueles que vão sendo atingidos por golpes, que teriam sido letais ou suficientes para derrubar um homem, vão tombando no solo, aguardando o final do confronto. Finalmente é derrotada a guarda negra do Califa, acorrentada em torno da tenda vermelha do mesmo. Muhammad colocara-se em fuga. Já nada pára as tropas cristãs e a vitória é proclamada ao som de cânticos religiosos e de aclamações aos monarcas. Para os recreadores, de ambos os lados, foi uma experiência ímpar. Cansativa mas geradora de uma imensa sensação de orgulho.


BIBLIOGRAFIA: FONTES BRANDÃO, Frei António, Crónicas de D. Sancho I e de D. Afonso II, Porto, Editora Civilização, 1945. The song of the Cid – a dual-language edition with parallel text, Penguin Classics. A Conquista de Lisboa aos Mouros – Relato de um Cruzado, 2ª edição, Lisboa, Vega, 2007. BIBLIOGRAFIA: FERNANDES, Isabel Alexandra, Reis e Rainhas de Portugal, 5ª Edição, Lisboa, Texto Editores, 2006. FERNANDES, Isabel Cristina Ferreira (Coordenação), Pera Guerreiar – Armamento Medieval no Espaço Português, Palmela, CÂMARA MUNICIPAL DE PALMELA, Julho 2000. MARQUES, A.H.de Oliveira, Breve História de Portugal, Lisboa, Editorial Presença, 2009. MATTOSO, José (Direcção de), História de Portugal, A Monarquia Feudal (1096 – 1480), Vol. 2, Editorial Estampa, 1993. PIMENTA, Maria Cristina, Guerras no tempo da reconquista, 1ª edição, Quidnovi, 2008. SOUSA, Manuel de, Livro de Cavalaria, 1ª Edição, Mem Martins, Chancela Real Editores, 2010. BLACKBURN, Donald S. , Collision of Faiths, Military History, June 1994. DUBY, Georges, Uma Batalha na Idade Média - Bouvines, 27 de Junho de 1214, 1ª Edição, Lisboa, Terramar, 2005. LEWIS, Bernard, Os árabes na História, Lisboa, Editorial Estampa, 1996. MANZANO, Eduardo, “El Califato de Córdoba - Abderramán III, señor de Al – Andalus”, Historia – National Geographic, nº 62, Barcelona, 2009, pp.58-71. MIQUEL, André, O Islame e a sua civilização séculos VII-XX, Lisboa – Rio de Janeiro, Edições Cosmos, 1971. NICOLE, David, MCBRIDE, Angus, El Cid and the Reconquista 1050-1492, Osprey Military, Men-at-arma series 200, Martin Windrow,1988. NICOLE, David, MCBRIDE, Angus, The moors - the Islamic west - 7th-15th centuries AD, Osprey Military, Men-at-arms 348, Martin Windrow, 2001. NICOLE, David, As Cruzadas 1095 – 1291 O primeiro grande choque de civilizações, Osprey Publishing, RBA – Barcelona, 2010. Alexandra Manuela Pacheco Duarte

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Revista ipaehi férula nº3  

Revista do Instituto PAEHI - Associação para Estudos Históricos Interdisciplinares

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