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Storias di Mindjeris


Storias di Mindjeris


Índice 04....As mulheres da minha Terra 08......... Maria Leonor Barbosa 10......... Dina Adão 12......... Maria Rosa 14......... Eneida Marta 16......... Aissatu Djaló 18......... Edna Landim 20......... Ana Vaz 22......... Sábado Vaz 24......... Elizete Borja 26......... Sanu Mané 28......... Augusta Henriques 30......... Zinha Vaz 32......... Tamara Silva 34......... Taíbo Silva 36......... Fatu Sanhá 38......... Leila Lima 40......... Tamara Có 42......... Magda Fernanda 44......... Belisa Oliveira 46......... Nina Pereira 48......... Tarcínia Jumpi 50......... Naty Cuíno 52......... Rosa Monteiro 54......... Guie N’Djai 56......... Cantussa Lopes 59....Glossário de Kriol 3


As mulheres

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da minha Terra Sou filha de Elsa Katar Madi e de Quinzinho Moreira. Neta de Nonó Barbosa, enfermeira, e da falecida Queta Vieira. Queta de Aliu Katar Madi. Nonó, Nonó de Nána, Nána de Farim, que vivia em Belém. Assim se apresentam as mulheres da Guiné, país em que mais significativo do que o «quem somos» é o «de quem somos», pois a identificação colectiva é mais importante que a individual. Isto não retira a individualidade a cada um, apenas acrescenta história à sua existência enquanto tal. Pretende-se neste álbum de Histórias de Vida, a apresentação individual de mulheres guineenses, numa procura de conhecimento e valorização das diversas experiências e percursos, entendidos como fontes de aprendizagem e de inspiração. A singularidade de cada mulher, permite-nos chegar ao colectivo, fazendo uso das micro-histórias para a construção de Histórias de Vida de Mulheres da Guiné. É com prazer que escrevo esta Introduçaõ, sendo eu uma dessas mulheres e sendo, principalmente, o resultado das suas vidas. Como muitas mulheres entrevistadas, a minha vida contém episódios de migração, de separação e de reencontro. Reencontro com os meus e reencontro com a Guiné. Com base nas experiências e vivências destas mulheres, de forma simbólica, podemos dizer que as mulheres guineenses vivem com pelo menos três panos ao longo das suas vidas: - O pano preto, o panu di pinti e o legós.

O pano preto, como cantou Zé Carlos Schwarz (mindjeris di panu preto), é o pano do pranto e da dor, dor de corpo e dor da alma, derivado de partidas, separações, do abandono pelos companheiros e da despedida e ausência dos familiares. É sofrimento causado pelo desespero, pela carência de bens e a procura quotidiana de alternativas. Esta dor é também causada pela instabilidade e pelas dificuldades que têm impedido o regresso dos filhos à Guiné. É ela também, a provocadora de nostalgia sofrida, da exaltação do passado quando comparado com o presente...e vice-versa. O segundo pano, panu di pinti, que embora não seja tradição de todas as culturas guineenses, pode ser simbolicamente visto como o pano Real da Guiné, porque o panu di pinti é o pano do bambaram, onde as mães trazem os filhos às costas, sendo assim o pano da união e da maternidade. Com padrões normalmente de cor neutra (os padrões e as cores dependem do tipo de cerimónias), este pano é marcado pelo simbolismo, pela força e pela tradição. Força da Mulher Grande e esperança da Padida. Este pano é o pano do regresso à Guiné, pois aqui se enquadram as cerimónias tradicionais que levam muitas migrantes a regressar ao país natal, para não ferir os antepassados e para proteger e iluminar o caminho dos seus descendentes. Por fim o pano legós, apelador dos sentidos, alegre e por vezes brejeiro. O legós representa o quotidiano e o social. Ele é prazer e comunicação, vaidade e feminilidade. O legós é festa e gargalhada. É o pano com o qual comunicamos na diáspora, que vestimos quando nos queremos sentir próximos di tera. O deambular, os

corpos apertados, coloridos e adornados pelo legós são a chama ardente da sedução e da africanidade. Os três panos em conjunto simbolizam a vida e as suas diferentes fases. Assim como as fases da vida podem-se fundir e confundir, os panos também podem ser usados juntos e de várias maneiras. A capacidade de substituição dos panos e a sua utilização «psicológica» em determinadas situações pode significar a garantia de sobrevivência para muitas mulheres. As mulheres da Guiné são sobreviventes natas do jogo da vida. São «engenheiras» por natureza, aquelas que se formaram na procura de soluções quotidianas para os desafios dos tempos. Mas também podem ser ameaçadoras, sabotadoras e vingativas. Mulheres de sangue quente e língua de faca. Que tudo fazem para proteger os seus, como mães leoas, perante o inimigo. A migração poucas vezes trouxe paz à mulher guineense. Normalmente o destino das migrantes é apimentado por mais desafios, quer pessoais, quer profissionais. Mas aquilo que mais pesa na migração, para as nossas mulheres, é a educação e acompanhamento dos filhos noutros contextos que não o seu original. Num espaço aonde elas também se tentam adaptar. Porquê um álbum de histórias de vida de mulheres guineenses? Porque são histórias de valência, de sobrevivência e de esperança. De guineenses porque procuramos mulheres de cultura e experiência diversa, assim como é o mosaico étnico da Guiné-Bissau. Mulheres papéis, manjacas, fulas, bijagós, mancanhas, entre outras, que são sobretudo guineenses – pois a miscigenação tocou a todas - e acima de tudo mulheres. Joacine Katar Moreira Consultora do Projecto/Investigadora

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Só Mulher tão Mulher Mulher da Guiné sorriso suspicaz paz e sossego em corpo fêmea Na hora do kufentu no rufar do macaréu na kasabi libertas amor e orquestras sinfónicas risadas - és mulher crescendo de mansinho só mulher tão mulher! Tony Tcheka in Guiné, Sabura que dói, 2008

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As entrevistas aqui apresentadas foram realizadas entre Dezembro de 2008 e Maio de 2009, entre Bissau, as Ilhas Bijagós e a região da Grande Lisboa. Foram entrevistadas mulheres de todas as idades, profissões e origens sociais, cumprindo um objectivo de ser o mais transversal à comunidade das mulheres guineenses em Bissau e das migrantes em Portugal. Em itálico optámos por manter algumas das ricas expressões em crioulo, cujo significado pode ser verificado no Glossário final. A abrir cada entrevista, um excerto de poemas de Tony Tcheka - das suas obras Noites de Insónia na Terra Adormecida (1996) e Guiné, Sabura que dói (2008) - que gentilmente nos cedeu tão belas palavras…


Maria Leonor Barbosa, 64 anos O meu pai chamava-se Raúl Teixeira Barbosa, de Cabo Verde, a minha mãe era guineense, Angelina Correia Seabra, mais conhecida por Nána. Conheceram-se quando o meu pai veio para a Guiné-Bissau trabalhar e tiveram quatro filhos. Mas tenho mais irmãos, quer da parte do meu pai quer da parte da mãe. Nasci em 1944 na terra da minha mãe, em Farim, na região de Oio. A minha mãe foi uma mulher sem igual, criou os filhos, os sobrinhos, os netos... A casa dela estava sempre cheia de gente. Ela era uma mulher muito rigorosa, dava uma educação à antiga! Mas era muito amada e respeitada por nós todos. Não sabia ler nem escrever, mas nós só descobrimos isso mais tarde, num dia que reparamos que ela tinha segurado o livro ao contrário, a fingir que estava a ler. Nós todos fomos à escola, ela sempre nos incentivou a estudar. Foi na escola, aos 16 anos, que conheci o meu primeiro marido, o Quim di nha Rosa ou Joaquim Moreira, um professor, filho de pais cabo-verdianos. Os meus pais não queriam este namoro, com um homem mais velho, por isso tiraram-me da escola e levaram-me para ­Fajonquito. Mas o Quim foi atrás de mim e disse aos meus pais que até podiam levar-me para o Inferno, que ele ia lá e casava comigo! E casámo-nos, a 31 de Maio de 1961 e tivemos dois filhos. O primeiro, Raúl Pedro, nasceu a 1 de Maio de 1962. No cenário da guerra colonial

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fui para a terra da minha mãe para ter o meu segundo filho, o Quinzinho, que acabou por nascer no meio dos bombardeamentos de um importante ataque colonial, sem condições, sem hospital, sem médicos. Foi muito difícil, a minha mãe nem queria acreditar quando comecei a sentir as dores de parto, porque estávamos escondidas e tínhamos de baixar-nos por causa dos bombardeamentos intensivos. O Quinzinho não chorou logo quando nasceu e ficamos preocupadas... o cordão umbilical estava enrolado no pescoço dele. Quando chorou foi uma alegria enorme! Foi em Farim a 1 de Fevereiro de 1964. Eu agarrei no meu bebé e apanhei um daqueles aviões militares, que chamávamos ‘Dacotas’, primeiro para Bissau, depois para Bele, onde o meu marido era chefe de posto. Acho que isto me incentivou a ser enfermeira. Em 1969, quando me separei do meu marido, fui para Bissau com as crianças e comecei a estudar Enfermagem enquanto trabalhava na fábrica Bambi. Não me esqueço que o meu pai foi preso pela PIDE nessa altura, porque foi uma das situações mais aflitivas que a nossa família passou. Conheci depois o Ulisses Monteiro, pai dos meus outros três filhos, o Hamilton, que nasceu em 1972, a Rosita de 1974 e o Vladmir, o meu codé, que nasceu em 1977. Nós não nos chegamos a casar... eu queria ser independente, já tinha tido uma má experiência e não queria casar mais. O Ulisses acabaria por casar mais tarde com outra mulher e separámo-nos. Mas somos muito amigos.

Em 1972 comecei a trabalhar no Hospital de Bissau e na Cruz Vermelha. A minha paixão era e é a pediatria, onde trabalhei durante 17 anos. Em 1986 fiz um estágio em Portugal, na oncologia do Hospital de Santa Maria, na Maternidade Alfredo da Costa e ainda no Centro de Saúde de Benfica. Na Guiné trabalhei também com os curandeiros, eu ia resgatar pessoas que estavam muito doentes para levá-las para o hospital – crianças com sarampo, por exemplo. Foi por isso que fui uma das responsáveis pela cimeira promovida pelo Ministério da Saúde, numa tentativa de encontrar entendimento entre médicos e curandeiros, em Bula, nos anos 80. Em 2004 eu ainda dirigia o centro de prevenção de VIH-SIDA num bairro de Bissau. Tive oportunidade de ficar em Portugal, a trabalhar e viver, mas eu optei por ficar sempre em Bissau a cuidar da minha mãe até ela morrer em 1999. Parece que cuido bem das pessoas. Depois disso foi o meu próprio pai que veio de Cabo Verde só para que eu tratasse dele até à sua morte. Só em 2006 aceitei vir para Portugal e só pela grande insistência dos meus filhos e netos. O meu marido e companheiro de há quase trinta anos, Marcos Góia, veio comigo para Portugal, mas foi agora para França ter com os filhos e ambos aproveitamos para passar tempo com a família, que durante tanto tempo não pudemos apreciar devido à distância.


“De longe entre as sete colinas vejo-te mulher-grande sofredora e meiga Imagino-te suave como quem diz amor” (T. Tcheka, 2008, Guiné)


Dina Adão, 39 anos Nasci cá na Guiné-Bissau e já vou a caminho dos 40, considero que a minha principal função é ser mãe e o resto faço com muito gosto. Sou filha de pais guineenses, já perdi o meu pai, a minha mãe é analfabeta mas muito inteligente porque me instruiu - tenho que dar graças a ela pelo que tenho e à Guiné-Bissau também. Estudei, fiz o liceu, não tive acesso à bolsa de estudo mas sempre fui uma pessoa que arranja alternativas para a vida – não devemos ficar paradas. Entrei para a Rádio Nacional e tive formação de jornalismo, estive 2 ou 3 anos como estagiária e ao mesmo tempo fui estudando o Inglês e o Francês. Quando abriram vagas para a embaixada dos EUA decidi concorrer e fui seleccionada, comecei a trabalhar como recepcionista da embaixada em 1989. Pouco depois abriu a televisão nacional, chamaram-me e eu comecei a trabalhar em part-time a apresentar o noticiário das nove e as últimas notícias. Como o sistema americano permite a auto-formação, fui subindo de posto gradualmente na embaixada e hoje sou assistente sénior do embaixador. Só me faltam quatro cadeiras para terminar o curso de Direito e tenho este hotel Ruby com o meu irmão - começámos com 2 quartos, hoje temos 23 e mais 24 em construção. No meio disto tudo, eu ainda agradeço ao Flora Gomes por poder ser actriz nos filmes dele, trabalhei nos filmes “Os olhos azuis de Yonta” e “Nha Fala”, entre outros. Arranjo energia para isto tudo porque eu acho que é uma característica dos guineenses: somos poucos, milhão e meio, por isso temos que conseguir fazer muitas coisas ao mesmo tempo. Eu sinto-me triste com o que se passa no meu país, mas sou optimista.

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As dificuldades com que as mulheres se deparam baseiam-se no nível de desenvolvimento de cada país, aqui e no mundo inteiro. Nós temos que lutar pelos nossos direitos. Existem muitas mulheres com valor, muito valor e que podem competir com os homens mas posicionam-se sempre atrás. Mas existem também aquelas que não têm mesmo oportunidades, também devido às nossas religiões. A religião e a tradição têm muito peso. Eu nunca senti discriminação, porque nunca aceitei isso. Eu sempre lutei para fazer tudo o que podia, mesmo no emprego, no desporto – eu pratiquei desporto, eu pratiquei basquetebol e fui campeã nacional de ténis – mesmo no ­teatro, na música e com os amigos. Eu terminei o meu primeiro casamento por incompatibilidade de carácter, com esta maneira de ver a vida. Mas há muitas mulheres discriminadas. O julgamento da nossa sociedade é mais pesado que o julgamento judicial - se formos ao interior do país as mulheres submetem-se porque são honradas quando são submissas. Porque existem leis tradicionais que dizem que os problemas devem ser resolvidos no seio da família, não devem sair para fora. Então, as mulheres têm medo: não acedem à escola, não têm muitos conhecimentos e não têm meios económicos e financeiros. É necessário um trabalho de fundo, sensibilizar as pessoas e informá-las sobre os seus direitos. Uma mulher que denuncia um abuso, um maltrato, às vezes é banida da sociedade... Mas isto está a mudar! Uma coisa que eu gosto muito é de ver o movimento dos jovens a irem para a faculdade e a saírem, é um

movimento que me dá muita esperança. Porque eu sei que este povo é muito civilizado, basta vermos como vota, de forma muito civilizada. Os nossos políticos é que têm de ter menos ambição individual e mais força. Antigamente, na Guiné-Bissau, as mulheres ficavam em casa, tomavam conta dos filhos e faziam todos os trabalhos domésticos. Mas hoje em dia nós também trabalhamos, voltamos a casa e cuidamos da casa. Uma mulher com um certo nível de educação não fica presa ao trabalho de casa, eu e o meu marido, por exemplo, partilhamos tudo, ele também me ouve, ajudame a cuidar do meu filho e ajuda-me a cozinhar. Não sou uma mulher submissa e assim é que deve ser. Mas de vez em quando, gosto de fazer uma comida para o meu marido, faz parte da minha cultura, da minha tradição. A boa tradição sempre fica. Eu gosto muito de viajar, porque é como uma universidade aberta, pois conheces culturas diferentes, instrumentos para poderes viver neste Mundo. Os jovens hoje são mais versáteis, já pensam no desenvolvimento, já pensam nas novas tecnologias, já têm uma abordagem mais harmónica. Mas ainda assim, eu vejo um crescimento em termos culturais muito negativo, reflectido, por exemplo, nestes concursos de ‘Miss’. Porque ‘Miss’ é uma referência de cada país e a beleza de uma mulher é muita coisa: tem de ter boa cabeça, conhecer, estudar, saber falar, saber lidar com as pessoas... E eu digo “Porque é que vocês têm que copiar o conceito de beleza europeu? Uma mulher africana é uma mulher já com o seu corpito, com a sua – desculpem o termo - ‘rabadinha’, não é uma pessoa magra, magra, magra… Para mim estes concursos não têm base.


“I dia nobu di padida ku na bin” É o novo dia, da mulher-mãe, que se aproxima (T. Tcheka, 1996, Nta i Ke?)


Maria Rosa, 55 anos Sou Maria Rosa Pereira da Rosa, mais conhecida por Maria Rosa Rosa ou Necas. Nasci numa boa família, muito humilde, que me transmitiu bons valores e me deu uma boa educação. É pena que hoje na Guiné tenhamos uma imagem muito degradada daquilo que somos, porque continuam a existir boas famílias. Para estudar, tive de ir viver para a casa de um tio meu e da minha avó em Bissau porque os meus pais viviam na Ponta em Quinhamel e lá não havia escolas, como em muitos outros sítios do país. Aos 14 anos fui para Portugal. Estudei num colégio em Santarém e depois fui para Lisboa, onde estudei Agronomia até ao 3o ano. Interrompi o curso, vim para Bissau em 1973 e casei-me. Dois anos depois voltaria para Lisboa para acabar o curso. Naqueles 2 anos que interrompi para o casamento deu-se o 25 de Abril em Portugal e eu estive a dar aulas em Bissau. Foi uma altura muito importante, muito alegre! Eu era jovem, tive muita actividade não só profissional mas também ao nível social, mesmo aqui na Ponta. Por isso sou muito conhecida aqui em Quinhamel, gosto muito da população. Costumo dizer que “eu sou da praça, mas com o coração aqui na Ponta”. Os meus filhos e os meus sobrinhos também adoram estar aqui. Entretanto fui acabar o curso em Portugal e depois regressei à Guiné. Trabalhei no Ministério da Indústria e depois dirigi a Fábrica de Leite, que produzia também a famosa cerveja Pampa, com o nome da nossa rainha africana. Depois de algum tempo afastei-me do Estado e comecei a trabalhar directamente com o meu marido na actividade comercial, tivemos uma loja muito bonita mas que com a Guerra de ’98 se desfez... Entretanto, eu e o meu marido comprámos uma empresa que era do Estado, uma propriedade agrícola e é a empresa que dinamizamos até agora. 12

Houve um período muito difícil da nossa vida, quando o Estado se apoderou de toda a actividade comercial e os privados, como nós, ficaram um bocado mutilados. Naquela altura era com as tortas e com os pudins que eu fazia que conseguia pagar ao pessoal todo e sustentar a casa, porque muito pouco da nossa actividade entrava. Aí é que se vê a característica da mulher guineense, pois é ela que está a sustentar a economia da Guiné, que é a chefe de família, que manda os miúdos para a escola, que paga a alimentação, o vestuário, enfim... porque a vida não pode parar. Os meus pais a partir de uma determinada idade precisaram de ajuda e eu comecei a cuidar também da Ponta, que hoje tem o nome do meu pai, Vítor Robalo, que faleceu há um ano atrás. Um dos trabalhos que fazemos aqui e em toda a Guiné é a campanha de caju, mas felizmente as pessoas estão a virar-se para outras culturas tradicionais como o arroz (é necessário recuperar as nossas bolanhas), a mancarra, a mandioca e mesmo a cultura hortícola. Hoje, boa parte das bideras já vende produto produzido localmente. Há algum regresso à terra. Eu sinto-me mesmo uma típica mulher da Guiné-Bissau, muito cedo fui para Portugal mas em nenhuma ocasião deixei de ser mulher guineense. Uma mulher muito activa e que é mãe acima de tudo - até temos uma expressão Ami i padida di dus mama, porque realmente a mulher guineense não se considera só mãe do seu próprio filho, considera-se mãe das outras crianças, das outras pessoas, ela não é egoísta. A casa do guineense é uma casa grande, aquela casa dos antepassados, vem uma visita e é acolhida, há um problema de família e retorna-se à Casa Grande. No caso de morte é na Casa Grande que se faz toda a cerimónia. O guineense é de uma abertura muito grande, não consegue

ver-se encurralado numa família pequena. Eu não vou dizer que o guineense se tornou individualista, mas há uma tendência, de algum tempo para cá, de um grupo político ou outro, de nortear os sentimentos e de conduzir ao individualismo. Outrora todas as etnias na Guiné conviviam de uma forma sã, hoje há uma tendência de sobreposição, “a minha etnia tem de ser a maior” e começa a haver uma divisão que vai culminar nas aspirações políticas. Hoje há partidos que se regem só por isso, o que é muito mau porque quebra aquilo que a Guiné de facto é: uma Casa Grande, onde toda esta diversidade étnica era vivida de uma forma positiva e isso via-se nos nossos Carnavais. Hoje a tendência está a ser outra, mas eu quero crer que o bem nunca vai ser vencido pelo mal. Uma das grandes dificuldades das mulheres guineenses é a independência económica, que as condiciona, as torna submissas. Mas quero crer que a mulher guineense hoje tomou conta da situação e é ela própria que se lança à procura do seu “ganha-pão” para não depender nem de homem nem de outras pessoas. Eu propriamente nunca me senti discriminada mas faço parte de uma camada privilegiada que cedo se libertou, sou uma mulher livre, dona de si própria. Vejo esta nova geração guineense com muita esperança misturada com alguma tristeza, pois não soubemos criar condições para uma parte da juventude que está apanhada por este problema da droga, por exemplo. Mas sei que os jovens querem ser diferentes porque compreenderam o mal do passado. Quando forem donos de si próprios, quando puderem decidir aquilo que querem e não depender da decisão de terceiros, serão livres e a Guiné também. Nós não podemos ter medo da nossa casa e eu não tenho medo da Guiné.


“Ami i padida di dus mama” (provérbio guineense)


Eneida Marta, 36 anos Sou Eneida Marta, nascida e criada na Guiné-Bissau. Dos dois aos quatro anos vivi em Angola com os meus pais, depois deu-se a fatalidade de eles se separarem e voltei para a Guiné com a minha mãe. Fui uma criança normal, muito feliz e muito traquina. Costumo brincar e dizer que dou graças a Deus por nenhum dos meus filhos terem-me saído na traquinice, porque fui mesmo daquelas crianças que davam trabalho. Se eu não andasse à pancada durante uma semana ficava doente, aquilo não era normal. Hoje, graças a Deus, sou uma pessoa melhor nesse aspecto, já não ando à pancada, já converso, sou apologista de uma boa conversa. A educação que eu dei aos meus filhos é a que eu gostaria de ter tido, porque eu e a minha mãe, até hoje, não nos sentamos para conversar… Lembro-me que aos fins-de-semana ia para casa do meu avô, coisa que eu adorava. Chegava a casa, punha a mochila e ficava no portão de casa à espera que o meu avô chegasse, já reconhecia o som da carrinha dele e mal o ouvia gritava, “chegou o papá”! Na casa dele, no Bairro da Ajuda, era liberdade total. Eu era a neta dos olhos dele, então fazia o que bem me apetecia, ou melhor, as coisas que eu não fazia em casa da minha mãe, como andar descalça, porque ela era mesmo muito dura e não me deixava muito à vontade. Lembro-me de faltar à escola para ir ver os tocachoro ou quando havia festas do fanadu. Desde muito pequena o movimento cultural mexia comigo, seja ele positivo ou negativo, como é o caso do fanadu - hoje eu sei o que é que acontecia nas barracas onde eu não podia entrar e eu acho uma barbaridade indescritível. Mas em criança eu não podia ouvir um tambor que eu arranjava logo maneira de lá estar. Podia voltar a casa e levar uma tareia mas tinha de estar lá! Depois a minha mãe veio para Portugal com os meus irmãos, porque um deles precisava de cuidados médicos e como eu estava a acabar o ano fiquei com os avós. Como não queria vir para Portugal, sempre que me mandavam à Embaixada 14

saber do Visto dizia que ainda não estava pronto… até que um dia o meu avô disse “não, espera aí, essa historia está muito mal contada!” e ele vai à embaixada… Foi logo tirar a passagem e disse-me “vais amanhã!”. Isso desabou tudo. Claro que tinha que vir, era menor. Vim para Portugal em 1989 com o intuito de continuar a estudar e continuar a fazer atletismo, pois eu na Guiné jogava futebol 11, fazia atletismo, corria 100 metros, 200 metros, daí que muita gente quando soube que eu era cantora não acreditaram, porque eu era maria-rapaz na altura. Desde os 4 anos, que eu me lembro, que queria ser policia ou cantora! Por isso quando ouvi falar que estavam a fazer inscrições para polícia, fui logo inscrever-me, começaram com um batalhão de exames médicos e aí descubri que estava grávida… e o sonho de ser polícia ficou adormecido. Fui viver com o pai dos meus filhos, com quem estive casada durante dez anos. Na altura em que passava na televisão o concurso Cantigas da Rua quis experimentar o meu outro sonho. Inscrevi-me e fiz o casting, mas quando me telefonaram a dizer que tinha sido seleccionada, fiquei com medo e não fui! O meu amigo Dalau depois apresentou-me o Juca Delgado num concerto, uma daquelas coincidências da vida e disse ao Juca “olha, ela tem boa voz, eu acho que a devias ouvir”. Um dia encontrei-me com o Juca no comboio e ele convidou-me para o projecto “Juntos pela Guiné”, fomos naquele momento para o estúdio gravar. Começamos depois a trabalhar juntos e acabamos por fazer a maqueta do «Nô Stória», que foi o meu primeiro disco, embora tenha sido repertório escolhido pela editora. Depois gravamos mais dois trabalhos e comecei a entrar por onde eu queria, até que tive a oportunidade de gravar o «Lôpe Kai» com uma editora francesa, e realmente este é o meu disco, o disco que tem a minha cara, a minha identidade. A partir daí a Eneida Marta começa a explodir no mundo e agora só vou fazer discos que tenham a

ver realmente comigo e com a minha Guiné, com a música de raiz guineense. Eu quando estou na Guiné sou outra pessoa, lá eu me encontro. Eu costumo dizer que não sou feliz na Europa, vou sobrevivendo. Ainda não voltei para a Guiné por causa da minha carreira. Posso dizer que sou uma mulher guineense tradicional urbana. De um modo geral, as mulheres guineenses são espontâneas, são alegres, gostam de viver e têm muita personalidade! Eu gosto de ser mulher e adoro ser mãe, adoro ser dona de casa, gosto de fazer comida, limpar a casa, cuidar dos meus filhos e do meu marido, é uma das coisas que me dá grande prazer na vida. Agora, quando somos impedidas de fazer o que desejamos, isso é diferente, há mulheres que não têm outra alternativa. Não foi nada que nos tocasse porque a minha mãe sempre trabalhou, a minha mãe sempre fez a vida dela. Mas o homem já foi muito mais valorizado do que está a ser agora, eu acho que as mulheres a par e passo vão conquistando o seu espaço e valor. O futuro da Guiné é a mulher, sem dúvida! Eu acho os homens muito fracos, nós as mulheres não somos muito facilmente compradas, por isso que eu acho que o futuro da Guiné, no comando, na política, é a mulher, não há outra forma. As mulheres que ponham essa força cá fora, mesmo que não sejam «visíveis» como eu, de alguma forma mostrem a garra que têm. Ser submissa? Nunca! Em Portugal, eu acho que todos nós somos invisíveis. Por exemplo, a música da Guiné não é conhecida aqui em Portugal, é estranho não é? Eu nunca me senti discriminada porque eu nunca deixei. Uma vez no autocarro, eu ia a passar com sacos e bati na perna de uma senhora e eu disse “desculpe minha senhora”, ela responde “estão aqui a estorvar” e eu viro-me para a senhora e digo “eu, a estorvar? A senhora que vá para a sua terra!”. Então toda a gente no autocarro olha para mim e começa-se a rir: quem está a mandar quem para a sua terra? Não dou oportunidade!


“SOLTO todas as vozes silabando a paz com acentos de liberdade� (T. Tcheka, 1996, Silabar a Paz)


Aissatu Djaló, 18 anos O meu pai é muito importante para mim, ele dá-me muito apoio e às minhas irmãs e sempre deu muito apoio à minha mãe - aí ele não é nada tradicional guineense. A família dele nem queria que ele casasse com a minha mãe, são muçulmanos e a minha mãe é cristã. Ele é funcionário público, trabalha no Ministério das Pescas. Apoia-nos muito, no outro dia ouviu-me num debate na rádio e disse “é a minha filha, está indo bem”, ele tem orgulho em nós. A minha mãe, Maria Aniquela (presidente da AMBA - Associação das Mulheres do Bairro Belém A) diz que eu sou, das minhas irmãs, a que tem mais espírito associativo e gosta de participar. Ela brinca a dizer que eu é que a vou substituir! Já tinha participado noutras organizações e transmiti a vontade aos colegas para nos organizarmos dentro da organização mãe e fundamos a JAMBA, a Juventude da AMBA. A partir daí começamos a dinamizar actividades dentro da comunidade - capacitação cívica, o campo de férias com outros jovens e outras associações, actividades desportivas e culturais e até estamos a fazer pequenos negócios como as rendas - e a sensibilizar colegas a participarem. A minha mãe Aniquela não é só um exemplo para mim, mas para as outras pessoas também, pela sua maneira de ser. A forma como capacitam as pessoas, faz com que as pessoas de fora venham e queiram logo entrar para a AMBA porque ela é uma figura que faz as pessoas estarem mais perto da Associação. Eu acho que ela

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é um exemplo também para todas as mulheres de Belém A. Nós as duas às vezes discutimos, até fazemos comparações das duas organizações, o que é que a JAMBA faz e o que é que a AMBA faz: “nós devemos fazer isto”, “não deves meter a boca no nosso saco, porque o saco é nosso”! Às vezes não é fácil, mas eu gosto porque ela ajuda as pessoas a melhorarem e porque faz criticas construtivas. Isso é que faz as pessoas crescerem. Estou no último ano do liceu mas já fiz muitos cursos. Tive aulas de inglês, francês e também de informática. Antes de ser a presidente da JAMBA eu era e sou ainda voluntária da Caritas de Bissau, trabalho com um grupo de inspiração católica na prevenção de Vih-SIDA, por exemplo em Bissorá, a norte de Bissau. Eu quero ser médica, quero estudar medicina aqui em Bissau. A Aniquela é enfermeira no Hospital Simão Mendes, mas nunca parou de fazer cursos, de viajar em trabalho e é uma mulher empenhada, que também pertence à Rede de Luta contra a Violência de Género, a RELUV. Há uma violência que as pessoas não percebem o impacto, que é a violência entre namorados e a violência doméstica. Aqui no Bairro de Belém A existe e em grande número. Até na rua há ameaças, violências verbais e assim. Nos jovens há muita violência entre namorados. É por isso que estamos agora a fazer formação, capacitação dos jovens e também das mulheres e dos homens mais velhos, para melhorar, não podemos dizer acabar, mas diminuir essas violências.

Aqui no bairro de Belém A não se fazem cerimónias de mutilação genital feminina. Nas escolas as pessoas não falam muito destes assuntos e as pessoas que já sofreram essa violência não se costumam abrir - é muito difícil fazer ver esse tipo de violência. O machismo talvez esteja a diminuir um pouco. Vê-se na escola que os homens não ficam bem quando uma menina é mais destacada na turma, ficam muito mal porque acham que só o homem pode ser mais inteligente, só o homem pode ocupar um lugar assim, isso é muito mau! Até nas associações juvenis vê-se menor número de liderança feminina, as meninas só ficam como secretárias, como vogais, às vezes não ocupam nenhum lugar e presidentes há muito poucas. Por isso eu acho que o processo é longo e muito lento. Os homens aqui viram que eu sou dinâmica, da maioria das meninas aqui eu sou a mais dinâmica e as pessoas incentivam-me. Eu já sou a presidente da JAMBA e existem muitos homens aqui, muitos jovens e meninas também. Isso é uma prova de que foi com esforço e é por isso que eu digo às meninas para se esforçarem mais, uma maior participação efectiva vai contar muito. Se nos destacarmos nas escolas e nas associações isso vai mudar depois a esfera política, porque começando aqui é que depois se chega mais alto. Começando aqui podemos mudar a politica e a economia da Guiné.


“Tataruga kuma si pe i kurtu ma i ta lebal tudu kau ki misti” A tartaruga diz que as suas pernas são pequenas mas levam-na onde ela quer (provérbio guineense)


Edna Landim, 34 anos Eu nasci em Bissau e cresci com a minha família aqui mesmo, nesta casa no Bandim. A minha mãe herdou esta casa e alguns terrenos e, apesar de ser doméstica, ela é uma verdadeira empresária, aluga espaços aos comerciantes do mercado ao lado da nossa casa. Quando tinha 7 anos, o meu tio, irmão da minha mãe, achou que eu podia perder-me e que precisava de mais acompanhamento. O meu tio é cabo-verdiano, muito católico e conservador, já o meu pai é muçulmano. Fui viver com o meu tio para outro Bairro, ele era muito exigente mas apoiava-me e eu fui estudando e tendo boas notas. Ele convenceu-me a entrar em enfermagem e eu, mesmo não querendo ao princípio, ganhei o gosto pelo curso. O meu tio insistiu e eu fiz mais cursos, tirei inglês e também informática. Comecei a trabalhar no Hospital de Quinhamel, em Biombo, na minha área de especialidade que é saúde materna, sou enfermeira parteira, fiquei logo com a responsabilidade da maternidade no Hospital. Há 10 meses atrás tirei uma licença sem vencimento e fui trabalhar com a ONG Effective Interventions, num projecto de saúde materno-infantil no Sul da Guiné, para fazer consultas pré e pós natal, mais consultas e vacinação às crianças dos 0 aos 12 meses.

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Deparei-me com uma situação aflitiva: as mulheres não sabem as causas das doenças das crianças, nem das diarreias, nem das febres. E também nada sabem das gravidezes, quais os sinais de perigo. Usam os tabus, acham que é feitiçaria, nada de médicos. Muitas mulheres morrem porque não têm transporte para se deslocarem ao Hospital, muitas pensam que não precisam de ir ao médico. Agora já começam a saber e querem o nosso apoio e já começam a ver resultados: ‘levei o meu filho ao apoio de saúde de base porque me lembrei do que me disseram e ele ficou bom’. Esse apoio de saúde de base existe em todas as tabankas e é dado por pessoas locais que tiveram formação básica em saúde materno-infantil. Os homens também já começam a aparecer. Antes, as mulheres diziam que queriam parir, dar à luz sozinhas, agora são os próprios maridos que obrigam as mulheres a participarem das formações em saúde e ir às consultas. Eu sou um ponto de contacto pois além dos conhecimentos de saúde materno-infantil sou metade beafada e metade cabo-verdiana, então acabo por conseguir lidar com toda a gente, o que é importante neste trabalho nas tabankas. Há muita gente que faz fanadu, mas no sul fazem às escondidas, por causa da sensibilização que fazemos sobre o fanadu. Uma mulher que faz fanadu corre sérios riscos de saúde. As pessoas fazem fanadu às meninas às escondidas, à noite, nós tentamos saber mas eles negam, os vizinhos por vezes é que nos alertam para estas situações. São por vezes crianças de 3, 4 e 5 anos de idade, algumas morrem devido à hemorragia.

É difícil pensar em igualdade de direitos para a mulher no Sul… Até aqui, em Bissau, há muitos homens que ouvem falar e dizem ‘Vamos ter igualdade de direitos? Isso é que vamos ver…’ Temos igualdade formal com o homem, mas igualdade de direitos não existe de todo. Nunca me senti discriminada no meu trabalho como mulher, não sei se o serei no futuro. Hoje em dia, os trabalhos que os homens fazem as mulheres também podem fazê-los, mas alguns homens não consideram isso, mesmo no Hospital ouvimos comentários de outros colegas que dizem ‘tu não consegues fazer isso e eu consigo’ ou ‘as mulheres agora são muito abusadas’. Eu não sinto isso na minha vida pessoal, mas as minhas amigas com os seus maridos sim. Talvez por isso ainda não casei, eu desejo ter filhos e família, mas agora estou dedicada ao trabalho. Eu gosto de trabalhar, gosto da minha profissão, mas tenho de fazer muito sacrifício para me manter uma mulher independente. Eu penso em namorar, mas primeiro o meu trabalho e em segundo o meu marido, porque se eu não trabalhar e depender do meu marido, ele não conseguiria fazer tudo o que desejo, porque a vida é difícil, por isso trabalharemos os dois. Quero ter filhos e casar, é o desejo de quase todas as mulheres. Tenho uma amiga que é como uma irmã, é a Francisca, que está a acabar enfermagem. Ela para mim é tudo.


“no sossego do teu corpo bronze que levita o amor e eterniza a paixão” (T. Tcheka, 1996, Força de Paixão)


Ana Vaz, 30 anos Nasci quase no mercado Bandim: a minha mãe ia a caminho das compras quando entrou em trabalho de parto, mas acabou por me ter no Hospital Simão Mendes. Sou a primeira menina da família, tenho 4 irmãos mais velhos e uma irmã e um irmão mais novo. A minha família vivia no Bairro de Banco, em Bissau. O meu pai é cabo-verdiano, a família veio para a Guiné quando ele tinha 11 anos, na época das grandes fomes em Cabo Verde. Vieram para o leste da Guiné. O meu pai deu lá aulas, trabalhou nos Correios e depois veio para Bissau, onde foi funcionário da administração colonial, no Banco Ultramarino – mas tinha o sonho de ser engenheiro electrotécnico, coisa que um dos filhos hoje já é! A minha mãe era oriunda de uma família modesta de Bolama, os meus avós eram padeiros e a infância dela foi difícil, mas conseguiu estudar e tornar-se enfermeira. Trabalhou no Hospital Militar no final da guerra da independência e os portugueses perguntaram-lhe depois se queria vir para Portugal. Conheceu o meu pai e não lhe ligou nenhuma pois ele era mulherengo. Mas o meu pai apaixonou-se e a minha mãe - que chegou a ter um pedido de casamento de um português - optou por ficar em Bissau e acabaram por se casar. Com a independência o meu pai foi discriminado por ser cabo-verdiano. Queriam tirar-lhe a casa (do Banco) mas depois as coisas amenizaram, pois precisavam dele no Banco. Ainda teve

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grandes chatices, chegou a ser preso passado uns anos, pois houve um desfalque e acusaramno injustamente – o meu pai conseguiu sempre manter-se calmo, desdramatizar e tudo se esclareceu: ele até estava de férias na altura do desvio do dinheiro. Eu sou a primeira menina de muitos irmãos e isto pesou-me, porque a minha mãe sempre trabalhou muito e eu acabei por assumir muitas funções de mãe. A casa estava sempre cheia, nunca tive muito espaço e talvez por isso sou tímida e reservada: sinto-me sempre responsável por todos, isso bloqueou-me em alguns níveis. É algo frequente nas famílias guineenses. Como éramos muitos irmãos cada um tinha a sua tarefa, mas as tarefas domésticas pesaram sempre em cima de mim e só depois tive a ajuda da minha irmã mais nova, a Jacque. Eu não tinha muito tempo para brincar na rua como os colegas do Bairro, que eram quase só rapazes - eu também sempre fui um pouco maria-rapaz. Fui para o atletismo pois não gostava das aulas de Educação Física e nessa altura foi mesmo difícil. Fiquei toda contente por ter aprendido a cozinhar e mal sabia o inferno que me esperava, pois a partir daí era meu dever cozinhar! Ia para as aulas, tinha de cozinhar para toda a família, depois tinha o atletismo do outro lado da cidade, à noite ainda tinha tarefas em casa… Por isso eu nunca tive grandes notas até chegar ao Liceu. Como poderia?

Na minha casa estavam todos habituados a isso e eu era aquela que o pai achava que não iria para a faculdade. De alguma maneira, o meu pai é muito restrito, conservador, a minha mãe já foi contra as ideias dele ao trabalhar e ter uma carreira - não é fácil ser filha dele. Aos 17 anos senti necessidade de provar as minhas capacidades: fiz exame, entrei no Liceu João XIII e foram os anos mais difíceis e mais maravilhosos ao mesmo tempo. Uma revolução na vida, na amizade, em competição pelas melhores notas na escola. Estava a fazer o 12o ano na escola portuguesa e… rebentou a guerra de 1998! Fugimos todos pela Gâmbia, cheguei a Portugal com os meus irmãos e acabei por ficar muito tempo sem voltar a estudar. Comecei a trabalhar para ajudar em casa, não podia esperar pelo subsídio de refugiado, tinha os meus irmãos para cuidar e entretanto um deles ia ser pai. Eu já nem sabia se queria ir para a Universidade, mas foi o meu namorado que me incentivou para eu estudar. Nós éramos amigos do tempo do Liceu João XIII, ele veio para Portugal estudar medicina e acabámos por nos apaixonar. Decidi-me, terminei o 12o e fui fazer o curso de Comunicação Social. Foram quatro anos de estafa, a correr das aulas para o trabalho, mas o Anaxore, o meu namorado, é que me dava ânimo. Entretanto, acabei o curso, fiz estágios mas não encontrava trabalho na área e estou a trabalhar num Call Center… Decidi não ficar por aqui e estou a fazer mestrado no Instituto Superior de Economia e Gestão, em Desenvolvimento e Cooperação.


“já não caibo nesta concha” (T. Tcheka, 1996, Sonho de Emigrante)


Sábado Vaz, 43 anos Eu nasci no leste do país, onde não há água, na Zona de Bafatá. Estudei até ao nono ano, tinha 17 anos e pouca experiência. O meu primeiro namorado era um homem que gostava muito de mulheres, mas naquela altura, eu era a santa dele. Então, ele aconselhava-me, ensinava-me… Mas quando eu fiz o quinto ano, apanhei a primeira gravidez. Ainda falei com o médico mas ele disse “Tu podes ter este filho e depois continuas a estudar.” Complicou-se a situação porque o meu namorado foi engravidar outra moça e depois, com medo dos meus pais e do pai da outra moça que era um homem do Ministério da Justiça, fugiu para Portugal e deixou as duas! Eu fiquei com aquela gravidez, sem mãe e sem marido, pois a minha mãe morreu quando eu tinha cinco anos. Sozinha com o meu pai e a minha irmã mais velha, passei três anos triste, sem conseguir estudar. Foi um primo meu que tinha possibilidades económicas que me ajudou psicologicamente. Depois da criança crescer eu quis voltar a estudar. Apareceu um projecto de desenvolvimento rural com o Pepito (da ONG Acção para o Desenvolvimento), que investiu muito em mim: fiz o curso de assistência técnica e trabalhei em aspectos técnicos da agricultura. Fui fazendo mais formações e continuei a trabalhar, estive seis meses no Brasil, três meses em Burquina-Faso. Eu vou ser sempre grata ao Pepito.

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Eu sou uma mulher de desafios e posso dizer hoje que consegui dar a volta à minha vida, para sobreviver! Então trabalhei, trabalhei até que apareceu um técnico e começamos a namorar. Como já tinha apanhado aquela pancada disselhe que não queria mais arriscar. Ele quis casar, ficámos onze anos juntos, tivemos dois filhos, um rapaz e uma menina. Aquela menina faleceu com nove anos. Teve uma crise de paludismo, eu estava fora a trabalhar e ela morreu... Ele tinha feito só curso médio e queria fazer o superior, então combinamos que ele ia estudar e quando voltasse eu também ia estudar em Brasília, onde eu queria fazer hortifruticultura. Então ele foi para os Estados Unidos e pura e simplesmente já não quis voltar! Até agora! Já casou lá e tudo, veio cá só uma vez e estamos a tratar dos documentos dos miúdos para irem estudar para os Estados Unidos. Então estou divorciada há quatro anos e, até agora, sou mãe e sou pai. Está cada vez mais complicado, mas tenho dificuldade de casar de novo porque quero que os dois arranjem a sua vida, para eu poder sonhar com aquele compromisso. Porque eu também não sou mulher de solidão, gosto de viver com uma pessoa, mesmo que não tenha nada, mas que goste de mim, o resto eu faço para mim mesma, gosto de trabalhar!

Aqui nas ilhas Bijagós onde trabalho há anos (com a ONG Tiniguena), havia uma cultura diferente da habitual cultura africana: as mulheres é que mandavam. Elas é que iam procurar os homens, construíam as casas, faziam tudo. Mas com a entrada de muitos muçulmanos que se refugiaram durante a guerra da independência e casaram com Bijagós, vieram mudar, aos poucos, a realidade dos Bijagós. Por exemplo, agora já não é visível, tornou-se segredo, quando as mulheres vão à procura dos homens. Mas o fanadu continua a ser diferente: aqui há fanadu masculino e feminino, mas é de cerimónia não é fanadu de corte. Fanadu Bijagó é ir ao mato, ficar três meses a comer, a educar e a conhecer a tradição, conhecer os velhos, respeitar os velhos, dar aos velhos de comer... Na Guiné está na moda falar de género e direitos das mulheres. Dizer é fácil… Tens de ser uma mulher de garra, uma mulher muito rebelde! Se não, não tens espaço, só te deixam o que não conseguem fazer ou as situações mais complicadas. Mas quando chega o momento das decisões, quem passa à frente são os homens. É por isso que as dirigentes mulheres têm aquela má fama, de que são agressivas. Às vezes somos obrigadas, para que a nossa voz seja ouvida! Mas para ser mulher, para contribuir para o meu país, não é preciso ir ao Governo. Eu sinto-me orgulhosa de estar aqui em Urok, nos Bijagós, a trabalhar como mulher e a contribuir para o desenvolvimento da minha terra. Todas as mulheres podem, nos locais onde se encontram, aceitar desafios e criar o seu estatuto de mulher.


“Mame/ sukundi/ si dur/ bas/ di kabas/ finkandadu/ na urdidja/ di kansera” A mãe escondeu a sua dor debaixo da cabaça soerguida sobre a rodilha do sofrimento (T. Tcheka, 1996, Dur di Mame Rosa)


Elizete Borja, 72 anos Nasci em Farim, no Norte, mas sempre vivi aqui em Bissau. De vez em quando viajo mas volto sempre para a minha terra. Eu era telefonista internacional e hoje sou reformada mas continuo com as minhas actividades: na UDEMU – União Democrática das Mulheres do PAIGC, fundada por Amílcar Cabral, que sempre considerou as mulheres como parceiras e em cada comissão de base mantinha a paridade: pelo menos 2 mulheres para cada 3 homens. Continuo na AMAE, a Associação das Mulheres para a Actividade Económica e quero abrir uma fábrica de gelo. Sou membro do PAIGC… Sou uma mulher muito ocupada! Acho que comecei a lutar com 22 anos, quando entrei na cena política, na clandestinidade com o meu marido. As mulheres da Guiné-Bissau são mulheres corajosas, fortes e decididas, lutam até à vitória final! Nós todos fazemos política, as mulheres fazem política, mas as mulheres lutam pela paz, os que fazem confusão são os homens porque lutam por causa de poder… A cadeira de reinado é só uma e nós devemos apoiar seja quem for que tem a confiança do povo. Senão a Guiné-Bissau nunca mais vai andar para a frente. E nós queremos andar para a frente! Porque as mães, as mulheres, não vão querer nunca ver conflito no país onde têm os filhos, os irmãos, os maridos. Porque, quando o pai morre, as crianças ficam ao cuidado da mãe. E eu bem sei como é: quando o meu marido morreu, fiquei sozinha com cinco filhos. Porque ele meteu-se na política e foi descoberto, a PIDE deu cabo dele. Eu lutei muito para aguentar a casa, quando saía do emprego fazia filhoses, qualquer coisa, para vender e sustentar os meus filhos.

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A situação da mulher piorou porque não há estabilidade. A mulher é que se preocupa, a mulher é que vende para poder dar de comer lá em casa, para manter os filhos na escola. As mulheres têm capacidade de gerir, até melhor do que certos homens. Há violência doméstica, mas nem todos os homens são violentos. Nós temos que exigir o direito de igualdade, em casa e no trabalho. Na luta de libertação nacional as mulheres mostraram a sua capacidade, porque é que agora as mulheres não teriam o direito de ser dirigentes, de serem ministras, de serem directoras? Temos mulheres guineenses, quadros capazes de assumir essas funções. Os homens guineenses são machistas. Só se lembram de mulheres quando é altura do trabalho. Mas quando é para andar no carro com ar condicionado não se lembram das trabalhadoras. Durante a luta de libertação nacional não se falava em etnias, Amílcar Cabral uniu todos os guineenses em torno da liberdade da GuinéBissau, sem distinção de raça, nem de sexo, nem de cor. Depois da abertura política, com a guerra, é que essas distinções começaram a crescer. Mas é coisa que nós não devemos alimentar. As mulheres são vítimas nessa situação de etnias em guerra. Outra coisa é o fanadu, que prejudica as nossas jovens, algumas depois já não podem ter filhos, algumas ficam com deficiências. É uma maneira de privatizar a mulher! Há muitas mães que

deixam as filhas irem ao fanadu porque não sabem qual é a gravidade, mas se elas soubessem se calhar não deixavam. Se conseguirmos arranjar um meio pacífico para tirarmos aquelas facas às mulheres fanatecas, elas vão passar a viver outra vida e as nossas jovens, em particular nas tabankas, poderiam ir à escola... A taxa de analfabetismo das mulheres está cada vez mais alta. Mesmo eu, tenho a minha quarta classe e, com a minha idade, eu gostaria de aprender mais. Uma jovem só com o fanadu, o que é que ela vai aprender? Vai ser ignorante para o resto da vida dela, não vai poder ir à escola, não vai poder estar com os colegas, com os companheiros… Temos que entrar pelas tabankas, mobilizar as pessoas, sensibilizá-las. Mostrar-lhes por A + B que essa prática não ajuda, é melhor ir à escola do que ir ao fanadu, porque a menina vai aprender a ler, pode depois formar-se e ser amanhã uma boa governante para o nosso pobre país. Por exemplo, os beafadas antigamente eram animistas como os papéis, como os manjacos, como os balantas. Agora a maioria deles mudaram para religião muçulmana. Há até outros países vizinhos onde o fanadu já está a acabar, no Mali, por exemplo, já há mulheres livres dessas tradições. O Governo está com vontade mas sozinho não pode, nós todos temos de ajudar a resolver esse problema. Eu sou uma cigana africana, tenho muita mistura de raças. Eu quero pedir paz para esta Guiné: para sermos unidos, para sermos cada vez mais irmãos, sem ver a cor, a etnia ou tribo, ou o sexo… todos somos guineenses!


“ma i li li ku nô na firma kan nô yalsa pitu suma polon di bardadi I li I li propi ku faronparia Na kaba kasabi na bida sabi” É aqui, aqui é que vamos ficar de pé, de peito alto, como um poilão de verdade/ é aqui, é mesmo aqui, que a faronparia vai acabar e a tristeza vai virar alegria (T. Tcheka, 1996, Limarias na Kuri)


Sanu Mané, 45 anos Sou do Sul, depois vim para Bissau, onde me casaram. Comecei a vender para poder arranjar terreno para construir a casa. Seguimos os usos e costumes tradicionais na nossa família beafada, mas estamos a reduzir por causa dos novos conhecimentos e as pessoas viraram-se mais para as vendas. Nós vamos a Guiné-Conacri, Gâmbia e Dacar buscar roupas para depois vendermos em Bissau. Vendemos todo o tempo, mas na época das chuvas é época do fanadu. Nem todos os costumes podem acabar. O número de pessoas para o fanadu está a aumentar porque é uma festa bonita, a medicina é que agora diz que o fanadu é mau. Mas nós, pessoas do Sul, nós vamos ao fanadu. Eu pari normalmente, tive 8 filhos, mas já morreram cinco. Eu é que fiz o fanadu às minhas filhas e nenhuma teve problemas de parto. A única que não foi ao fanadu foi a minha filha portuguesa. Agora, o fanadu é bom ou não? Digo a Deus que se está a fazer com que as pessoas morram, nós paramos. Mas temos de deixar com condições, porque precisamos de ter o que comer. Nós que fazemos fanadu nunca fomos aos papéis, manjacos, balantas dizer-lhes para pararem com o toca-tchur, de matar dez ou quinze vacas, aquela carne fica uma semana no chão e eles vão cortando e vão comendo. Essa carne podre também faz mal ou não? Mas se nos reunirmos como família, todos os guineenses, e pedirem que cada um deixe algumas práticas, todos vamos deixar – se o nosso estado quer acabar com o fanadu, podem chamar-nos com

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boas maneiras, conversamos até chegarmos a um entendimento, proponham outras condições, nós deixamos de fazê-lo. O fanadu é segredo! A explicação do fanadu não está no Alcorão, porque, por exemplo, as mulheres senegalesas não vão ao fanadu, condenam-no. Na Guiné, Senegal, Conacri e Gâmbia somos todos muçulmanos, mas só nós vamos ao fanadu. Porque os senegaleses pediram com modos às mulheres para deixarem o fanadu. Os homens da Guiné não pedem, eles querem isso à força e as mulheres não gostam. As pessoas na Guiné não respeitam as mulheres, porque ficam na rádio a dizer que o fanadu não presta, o fanadu traz a SIDA… Enquanto eles estão na rádio nós vamos buscar palha para fazer as barracas de fanadu! No ano passado levei a minha neta Kadi ao fanadu, ela está bem de saúde. Vieram 503 pessoas, rapazes e raparigas, cobramos 10 mil CFA por cada um. Durante três meses demos comida, medicamentos, lugar onde dormir a 500 pessoas. Não é brincadeira. Se quiseres tirar de lá alguém, é difícil. Sobre o fanadu alternativo, sem corte, se os médicos o quiserem tudo bem. Mas à força não mudamos. As mulheres da (ONG) Sinin Mira não vieram explicar às pessoas, foram à rádio e na televisão dizer para deixarmos o fanadu. Elas foram todas ao fanadu. Porque não vão à casa de todas as fanatecas cumprimentar e pedir para deixarmos o fanadu?

A sida não está na barraca de fanadu, os homens que vão para longe é que trazem sida. Há homens muçulmanos com 5 ou 6 mulheres, é demais. Mas se for uma mulher para um homem não apanham sida. A rivalidade de duas mulheres casadas com o mesmo homem existe porque dentro de nós não gostamos, mas temos de aceitar. Somos três com o meu marido, não gosto nada. Nunca o vimos escrito no Alcorão, mas dizem que o homem muçulmano pode casar com 4 mulheres. Os fulas fazem um fanadu mais perigoso, eles tapam tudo, para que o marido encontre a mulher “virgem”. Quando uma mulher vai ser dada em casamento volta para a barraca de fanadu outra vez. Nós não namorávamos com os nossos maridos, chamavam-nos quando tínhamos 13 anos e diziam-nos: este é o teu marido! Agora namoras dois ou três anos e depois é que casas. Assim também o fanadu um dia pode acabar. O fanadu não é violento, o casamento forçado é mais violento e é feito por todas as raças na Guiné, até cristãos. Quando via o homem grande que me arranjaram, até perdia a fome e pensava “com este homem é que me vão casar?!” Para sair do Sul para Bissau, tive ajuda de um português, da nossa relação nasceu uma filha, a Fátima. Não me deixaram casar com o branco, porque não o conheciam e sabiam que ele ia voltar para a terra dele. Nunca mais o vi. Escrevi uma carta antes de 7 de Junho (de 1998). A Fátima quer ir agora procurar o pai, mas o marido não deixa.


“Guiné és tu mulher-bidera em filas de insónia” (T. Tcheka, 1996, Canto a Guiné)


Augusta Henriques, 56 anos Nasci a 29 de Novembro de 1952, na ilha Formosa, no Arquipélago dos Bijagós, onde o meu pai era comerciante. Formei-me em 1976 pelo Instituto Superior de Serviço Social de Lisboa. Tenho dois filhos mas divorciei-me muito cedo, quando estava grávida do segundo filho, de maneira que criei os meus filhos sozinha. Como mulher divorciada, senti dificuldade em impor autoridade no meu espaço territorial. Ainda por cima era uma mulher mestiça e jovem com crianças a cargo, tive dificuldades em atingir o reconhecimento – imaginem trabalhar na alfabetização com uma equipa que veio das Forças Armadas logo depois da Independência. Como era profissional rapidamente fui responsável na minha área de trabalho, mas foi difícil aceitarem a minha autoridade quando depois fui directora do Departamento de Alfabetização. Não é fácil conciliar o nosso papel de mãe com o nosso papel de esposa, de profissional, de cidadã e de mulher que nós somos também. Os meus filhos foram criados entre as responsabilidades que eu tinha em casa e no trabalho. Não é um problema da Guiné-Bissau, é um problema das mulheres num mundo em mudança, mas a dificuldade maior é que nós não temos serviços públicos nos quais se possa confiar. É a grande angústia de ter uma criança doente três dias seguidos e não saber o que se vai passar; confiar em médicos que não têm meios de diagnóstico; passar noites em branco num hospital sem condições sanitárias! Actualmente tenho 56 anos, já tenho uma neta e o que me dói mais é ver que o hospital onde eu levava os meus filhos está pior. Eu vivi a guerra de 1998 e tivemos de fugir todos. Até hoje a instabilidade política e militar nos ultrapassa. Este contexto de insegurança é uma angústia acrescida para as mulheres, mas elas têm uma capacidade de resistência incrível, guardam a capacidade de rir, de projectar, de empurrar a vida para a frente. No porto onde partimos para as 28

ilhas Urok (onde a Tiniguena, a ONG que dirijo, trabalha), as mulheres estão lá logo de manhãzinha, a brigar pela sua vida, para alimentar a família. É sempre um testemunho de coragem, vê-las a desembarcar com água pelo peito, a criança às costas e ainda têm braços para agarrar a carga… Em termos da educação as mulheres são as grandes sacrificadas, sistematicamente há sinais de corrupção, o sistema de ensino não avança, há uma sensação de que as gerações estão a recuar no acesso ao progresso. Em termos de saúde, tenho famílias amigas que têm condições económicas e intelectuais, mas que perderam os filhos por causas que já não são aceitáveis hoje, como uma crise de paludismo ou um problema no diagnóstico. Sentimo-nos impotentes. No que se refere à justiça, este é um país de impunidade onde as pessoas não podem esperar por nada. Eu criei os meus filhos sozinha mas sempre que saía do país eu tinha de ter a autorização do pai deles, mas nunca a justiça trabalhou para que o pai se coresponsabilizasse pelos filhos na sua educação, na sua saúde, na sua vida. Há um longo caminho a percorrer. Não posso dizer que a nossa sociedade exclui as mulheres porque nós temos oportunidades de emprego, temos mulheres em postos de decisão, temos mulheres que conduzem a família. Uma larga maioria da população da Guiné-Bissau é alimentada graças ao trabalho das mulheres. Aí é que nos falta a compreensão de que as conquistas das mulheres são conquistas das sociedades. A nova geração, a da minha filha, dá-me muita esperança mas também faz-nos muitas dores porque vemo-las a passar pelos mesmos caminhos por que nós passámos. Que progressos nos direitos das mulheres, direitos práticos na sociedade? Lembro-me quando hesitei na minha vida pessoal em manter ou não o meu casamento, a minha mãe dizia-me “eu aceitei que vocês fossem criadas longe de mim para poderem ter formação e es-

tarem livres para escolherem o vosso caminho, o que vocês me devem é não terem que passar aquilo que eu passei para vocês poderem fazer esse percurso”. Este Natal mandei para os meus amigos uma fotografia com as quatro gerações Semedo Henriques: a minha mãe que tem 79 anos, eu que tenho 56, a minha filha que tem 25 e a minha neta que tem 2 anos. Quando vejo mulheres vestidas de burkha às 11h00 da manhã no mercado, eu tenho receio pela minha neta, será que ela vai ter que voltar a fazer os mesmos combates que nós fizemos!? Há um ditado em crioulo que diz “Guiné Bissau padi só fidjo matchu”: Guiné-Bissau só tem filhos varões, no sentido mais machista, pois ao mínimo conflito é para guerrear! Mas depois são as mulheres que têm que correr com as crianças às costas, são elas que dão à luz no meio de combates, são elas que têm de alimentar os que lá estão e... já chega disto! Porque as batalhas das mulheres conduzem a uma sociedade mais justa, de mais paz, por isso a partilha de poder é também a oportunidade na Guiné-Bissau de fazermos cultura de paz. A construção das governações não pode ser apenas tratada com homens, é preciso incluir as estratégias femininas na construção de paz na sua família, nas suas tabankas, na gestão e economia da casa e na educação dos filhos. É também forma de lutar contra a cultura da violência que ganha terreno, que encontra ingredientes favoráveis nos lugares onde há pobreza, onde há injustiça… A imigração clandestina, o negócio da droga: quando as pessoas não têm nada a perder estão dispostas a tudo. Por isso eu desejo para a minha neta, para as mulheres da Guiné-Bissau, que possam ter paz e continuem a ter a fibra para investir no futuro de forma a salvaguardar valores: o “homem honrado” hoje é uma espécie em extinção e nós temos que trabalhar para repovoar a Guiné-Bissau com homens e mulheres honradas.


“amanhã/ se tiveres tempo/ e se acaso/ houver luz/ dá-me um sorvo/ desse amor” (T.Tcheka, 1996, Canção do Amor)


Zinha Vaz, 56 anos A minha vida é política! Desde os 15, 16 anos que me envolvi na política. Nasci em 1952 em Bissau mas aos cinco anos fui para um colégio de freiras em Portugal, onde estava quando rebentou a guerra colonial. O meu pai foi preso pela PIDE e foi obrigado a ir para Angola e nós tivemos de voltar para a Guiné-Bissau pois não havia dinheiro para pagar os colégios. É aí que eu entro de cabeça na política! Começo a descobrir África, o meu país, começo a namorar e conheço o meu primeiro marido, filho de combatentes – e é aí que eu entro na clandestinidade e vou para a ‘roda livre’: aprendo crioulo, formamos as células da Zona Zero… Nessa altura foi complicado, pois o governador Spínola deu uma relativa liberdade (autodeterminação) e chegou a balançar a luta… Quando o meu pai volta de Angola e resolve levar a família para Portugal, eu começo a revolução: não vou! Fico com a minha avó e a fazer o magistério primário, até que há ataque a Bissau e eu fujo para Portugal. Mas eu tinha começado a conhecer esta minha cultura africana, a luta pela libertação, o meu namorado… Volto de férias e fico grávida de propósito só para ficar cá! Acabei o Magistério Primário e vivi com o meu marido e a bebé. Entretanto dá-se o 25 de Abril, a independência e, na óptica de trabalhar para revolução sou transferida para Bolama Bijagós - um paraíso - como Directora Regional de Educação, onde a Francisca Pereira era Governadora Regional. Foi aí que fui obrigada a assistir a um fuzilamento - mataram muita gente naquela altura e nós não podíamos dizer nada… Começou aqui a minha rotura: era um regime de partido único! Conto tudo no livro que estou a escrever. Vou para Cabo Verde dar aulas em 1976 e entro na clandestinidade assinando textos panfletários com o nome Aminata Sumai: juntei-me à UPANGO e sou presa em Farim, durante quase 3 anos. Saio da prisão em Maio de 1980, proibida de leccionar – e a 14 de Novembro 1979, depois do golpe do Nino a Luís Cabral, convidam-me para Ministra 30

da Educação… Recusei, pedi amnistia e fui para Portugal recuperar a saúde da prisão. Tenho uma segunda filha e… o governo fica escandalizado por eu ficar em Portugal, o meu marido volta para a Guiné-Bissau e separamo-nos. Em1984 regresso a Bissau e como ainda não podia dar aulas fui trabalhar numa empresa de petróleo, onde fiz muita inovação nos recursos humanos – cantina, assistência médica. Ao mesmo tempo fiz um pouco de tudo para sustentar as minhas filhas: pastéis de massa tenra à noitinha, comprei um táxi, cultivei manga num terreno. Entretanto, comecei a namorar com o José, homem impecável que nessa altura estava excluído do PAIGC - casámos em 1986 e tivemos uma filha em 1988. Eu tenho sangue político e estava revoltada com muita coisa. Ainda não há abertura política, a 17 de Outubro de 1986 tinha havido de novo fuzilamentos. Em 1990 vou trabalhar para o Brasil através do FNUAP e quando regresso, em 1992, por Lisboa, junto-me ao RGB Bafatá (resistência e clandestinidade, com Hélder Vaz) – ou seja, eu estava na clandestinidade como RGB e o meu marido José era na altura ministro! Claro que em 1994 quando há abertura política eu tinha de dar a cara pela RGB - o meu marido não queria acreditar, eu saí de casa e voltei a fazer pastéis! Entretanto, sou candidata a deputada e fui, na altura, das poucas pessoas que ficaram em Bissau em 1998, na comissão de mediação do conflito. No governo de transição vou para a Câmara de Bissau onde consegui fazer muitas coisas, até um apoio para ter computadores! Como professora conheci e apaixonei-me pela Guiné, senti na pele as necessidades que a Guiné tinha. Era necessário fazer algo para as mulheres e logo após a abertura politica consegui ser uma das primeiras presidentes de uma organização não governamental (ONG), a AMAE - Associação das Mulheres para as Actividades Económicas. E não deixei de trabalhar nesta área, como empresária e em busca de apoios para as minhas mulheres: agora sou Presidente da Bambarã, uma instituição

financeira de poupanças não-bancárias. O Governo convidou-me para ser Comissária da representação da República da Guiné-Bissau na EXPO 2010. Estou a ter aulas de inglês para me preparar. Bato sempre na tecla que a mulher tem que se formar e eu costumo dizer “não quero que me dêem o lugar, eu quero é conquistar esse lugar, porque se os homens realmente nos derem, tiramnos”. Mas há muitas mulheres que são chefes de família hoje na Guiné e nem têm tempo para cuidar da formação ou da saúde delas. Por isso é que quando chega a altura a mulher fica nos lugares subalternos, somos poucas dirigentes. Tenho muito respeito pela tradição e cultura dos outros, mas costumo dizer que há coisas boas e há coisas más: há uma data de práticas nefastas no nosso país que ainda não conseguimos terminar, o caso da excisão (mutilação genital) feminina, o casamento forçado, a própria lei do aborto que ainda não está aprovada na Guiné mas que se pratica temos que continuar essa luta. Tudo passa por falta de um certo controlo do Estado, hoje em democracia é preciso que haja a lei. Mas é preciso também que se criem condições, com muito jeito para não ferir a cultura de muitas etnias - porque no fundo isso é um grande negócio, as fanatecas têm a tal faca que é-lhes paga para praticar. O Instituto da Mulher e da Criança está neste momento com um projecto e penso que vamos conseguir que elas entendam que isso não está no Alcorão e o prejuízo que isso leva às crianças na hora do parto e mais penso que fomos muito infelizes há três anos atrás, ferimos muitas sensibilidades, hoje já dialogamos e já participam muitas fanatecas nas conferências. Eu tenho muita esperança na nova geração e hoje vêm-se muitas enfermeiras, médicas, advogadas...o problema é que estamos a viver em constante instabilidade, o país está completamente retalhado e nós os políticos é que estamos a dividir a Guiné. Tenho vergonha daquilo que vamos deixar a essa geração. Continuo a lutar e nem posso parar, com a situação como está.


“Combati! Vivi! Senti a independência logo ali” (T. Tcheka, 1996, Ason)


Tamara Silva, 27 anos Nasci em Bissau em 1981, vim para Lisboa em 1998, estudar Direito, agora estou a acabar o mestrado para ingressar na magistratura, porque é o que eu sempre quis fazer, ser juíza… Penso regressar para a Guiné, sempre foi o meu desejo, dar um contributo para o meu país seguir um rumo diferente - se a nossa geração decidir ficar por cá aquilo fica parado! Não tenho receio porque eu acho que se cada um contribuir um bocadinho, acabamos fazendo alguma mudança - e a esperança está na nossa geração, se dermos a volta e dissermos ‘Nós podemos, nós conseguimos!’ Eu gosto de seguir regras, gosto de fazer com que as outras pessoas sigam regras e desde pequena sou assim, faz parte do meu feitio. Estou na área jurídico-criminal e toda a gente diz que na Guiné é um bocadinho mais difícil ainda. Mas não me vou desviar do meu caminho só porque a Guiné está nesta situação. Sei que há muitas mulheres guineenses determinadas como eu: a experiência na Associação de Estudantes Guineenses, com a Joacine e com a Tamara, que são jovens, mulheres, bonitas, determinadas, sabem o que querem e sabem o que é melhor e o que é menos bom para o nosso país. Se todas as mulheres como nós trabalharem para o futuro da Guiné, conseguimos dar a volta a essa mentalidade. Claro que há muitas mulheres que acham que não podem ajudar, porque têm aquela mentalidade antiga que os homens são mais capazes do que as mulheres - mas eu sei que consigo fazer idêntico ou mais do que eles. A minha avó

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também pensa como eu: ela acha sempre que as mulheres mais velhas devem dar também o contributo, para depois as mais novas irem já com o caminho meio limpo. É a garra das mulheres da minha família - portanto, vamos à luta! Para ser sincera eu não sou muito apologista do casamento! As pessoas perdem muito tempo a pensar no casamento, na vida do casal. Para mim assinar um papel ou viver com alguém é a mesma coisa - e por agora não faz parte dos meus planos. Felizmente já se começa a perder essa tradição, graças a Deus, porque uma mulher consegue fazer muito mais do que pensar no casamento e ter filhos. Todas as mães sonham ver a filha a entrar numa igreja com véu e grinalda mas nem todas as filhas têm esse objectivo. Acordo de manhã, caso-me e pronto! Eu posso organizar a minha casa, normal, de jovem mulher profissional e os meus pais e avós podem visitar-me. Eu não sou contra casamento, de forma alguma. Mais tarde posso pensar nisso. Claro que partilho a opinião da minha mãe: não faz sentido ter, na mesma casa, duas mulheres… Respeitamos a experiência da minha avó, claro, eu cresci com ela e com a minha outra avó, é como se fossem irmãs! A família ali é quase como se fosse uma única família mas… eu não era capaz de viver a mesma situação! Nem dá para imaginar que se continue a fazer a mesma coisa de há quinhentos anos… Para mim, não servia, prefiro algo só para mim, não partilhado.

Eu fui educada de duas formas. Fui criada pelas minhas avós e pela minha tia – que foi a minha mãe durante essa altura. Quando os meus pais regressaram em 2004, tive outra experiencia e acabei conciliando as duas coisas! Muita gente diz que eu sou mimada mas… eu tenho é a minha personalidade! Há coisas que não me dizem nada e não faço, pronto! Cresci nesses dois ambientes diferentes e graças a Deus construi a minha personalidade a partir dali. Se um dia pensar em ter filhos quero dar o que eu recebi das duas partes e deixá-los construir a sua personalidade e serem livres como eu sou! O meu pai sempre esteve ligado à política e dizem sempre que eu tenho isso em mim, porque sou determinada e quando quero uma coisa luto por ela. A política não é uma coisa que eu quero... Mas também não vou fugir a sete pés! Sou parecida com a minha mãe no que ela herdou da minha avó porque mesmo na época dela fazia a vida independentemente do marido. As mulheres da minha família são independentes. Eu dou graças a Deus de ter uma família assim que, embora respeite as tradições, aceitaram sempre as diferenças. Os muçulmanos são muito apegados às suas tradições e qualquer interferência é uma ameaça… Já cresceram com aquela mentalidade que é necessário as mulheres fazerem isso (fanadu, poligamia). Mas os meus pais não são assim e eu pessoalmente não concordo nada, mas é claro que isso tem de ser um processo de aprendizagem. Enquanto não aprenderem que o fanadu não é benéfico para a saúde, assim como a poligamia é uma tradição que hoje já não faz sentido nunca se vai conseguir fazer com que deixem de praticar estes actos.


“Flur iardi na mi susega na mi pa n sedu bu sol nin ku sol noti sukuru iabri si mantu n na lumiau kaminu” Flor, arde em mim, sossega em mim, para que eu seja o teu sol, nem que anoiteça, a escuridão abre o seu manto, para eu te iluminar o caminho (T. Tcheka, 1996, Flur di Mi)


Taíbo Silva, 52 anos Eu sou a mãe da Tamara Silva, a minha mãe é Fatu Sanhá. Nasci em Bissau, vivi sempre com os meus pais e os meus irmãos, tive uma infância maravilhosa. O meu pai tinha três mulheres e de todas nasceram vários filhos. Nunca, nunca o meu pai fez diferença entre nós. Vivemos tão felizes, tão felizes, que até agora continuamos unidos. O nosso pai já faleceu, há muito tempo, mas entre nós – os irmãos – continuamos na mesma. Criamos os nossos filhos e eles também vivem como irmãos de pai e mãe e não apenas como primos. Portanto estamos felizes em família. A única diferença que sentimos são as tarefas específicas para as meninas e para rapazes, as meninas ajudam as mães na cozinha e essas coisas. Os rapazes não faziam nada se não estudar e passear. Mas íamos todos à escola juntos… Eu tentei criar as minhas filhas na mesma educação. O meu filho é caçula, é mais novo e é o único homem da casa para além do pai – então como há mais mulheres, esses homens são mais mimados! Portanto, eu vivi, estudei, fiz o liceu. Os meus pais deram-me todo o apoio, incentivaram-me na escola, nunca senti dificuldades. Eu encontrei-me com o meu marido na escola, éramos da mesma turma - já convivemos há mais de 32 anos. No princípio éramos apenas amigos, mas… apareceu o namoro! Nessa altura o meu pai já tinha falecido, só estava a viver com a minha mãe, que gostou do Paulo Silva desde o primeiro dia, ele era já responsável, estava a trabalhar e a estudar. Era responsável da juventude da Guiné-Bissau, eu também fazia parte, portanto estudávamos e trabalhávamos juntos.

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Casámos na Guiné, tivemos o casamento tradicional. Depois apareceu a Tamara e a Lisiana e depois disso é que fomos estudar. Tivemos bolsa de estudo e fomos estudar na Rússia, eu fiz medicina, especialidade em obstetrícia. Vivi seis anos em Moscovo, casei oficialmente na União Soviética e no último ano, nasceu o meu filhote mais novo, o meu Quirilo no final do meu curso. Foi uma surpresa para o meu marido, só ao 3o mês lhe contei “Vou te dar um filho” e ele disse, um bocadinho triste “Taíbo, tu não vais acabar o curso!” E eu disse “- Não, não, eu vou acabar o curso.” E foi assim, o meu menino nasceu dia 24 de Dezembro de 1992 em Moscovo e o meu marido em vez de ir para o hospital ficou em casa a festejar o nascimento! Depois disso acabei o curso e voltámos para a Guiné. Sempre desejei ter um filho homem mas não há diferença para nós, o meu marido sempre queria uma menina, ficámos assim felizes com os três. Tenho duas filhas que eu gosto tanto, tanto, tanto… Quero que essas minhas duas filhas tenham uma casa, com os maridos, felizes. Mas eu não posso obrigar, agora depende delas… A Tamara é que pensa de outra forma, a Lisiana não. Eu não era capaz de viver da mesma maneira que a minha mãe, já são duas épocas muito diferentes. Eu não sou capaz de viver com duas mulheres na mesma casa… Mesmo se hoje em dia ainda há mulheres que seguem essa tradição muçulmana. O meu marido é só para mim!

Eu sou muçulmana mas não vivi profundamente na religião muçulmana. O meu pai saiu do meio dos pais dele e teve sempre convivência mista, eu nasci em Bissau. Portanto não estou lá a fundo para ver o que é que eles fazem, o que é que deixam de fazer… Intervir na religião de uma pessoa é uma coisa complicada. Portanto não posso chegar na minha religião muçulmana e dizer olha: “Não podem fazer fanadu…” É muito difícil dizer que isso vai acabar, na religião muçulmana. Porque eles não vão aceitar…! Porque eu fiz medicina, eu sei porque é que não é bom. Mas a minha mãe nasceu naquele meio não sabe porquê… Mas vai acabar sim! Nas mulheres como a Tamara, porque a Tamara sabe que a mãe dela é muçulmana, mas não está bem ligada àquelas coisas. Eu acho que não deve ser feito nas meninas. Eu estou quase a sentir-me uma mulher realizada! Porque acompanhei as minhas filhas até aqui, estou em Portugal para lhes dar apoio, para elas poderem estudar. A minha filha mais nova vai também entrar para a universidade, vai fazer o cursinho dela e depois de acabar, vou sentir-me uma mulher realizada. Daqui a um aninho já posso voltar para a Guiné. Quero voltar para a Guiné mesmo!


“para que a fonte não seque e na mesma canoa navegarmos comandando as ondas quebrando as correntes refazendo a vida” (T. Tcheka, 1996, Mea-Culpa)


Fatu Sanhá, 74 anos Sou filha de Ana Jao e de Djai Sanhá. Nasci em Bolama. Tenho 2 filhos, uma menina e um rapaz. Cresci em Bissau com a minha mãe, o meu pai e os meus irmãos. Há muita diferença naquilo que foi a minha infância e no que é agora a das minhas netas, são outros tempos. Nós passámos bem, não nos sentíamos mal com os nossos pais. A educação era diferente. Nós fomos educadas a vender, a minha mãe tingia os panos e nós íamos vender e entregávamos-lhe o dinheiro. Sou a irmã mais velha, quando fui casar, o meu irmão mais novo substituiu-me. Casaram-me em Bissau. O homem que se interessou por mim, veio pedir a minha mão ao meu pai e à minha mãe e levou-me para o Senegal. Fiquei com o meu marido até engravidar do meu único filho rapaz, quando estava de oito meses, vim para a Guiné ter o bebé. Mas depois, o pai do meu filho morreu. Fomos ao Senegal para o meu filho receber a herança do pai e regressámos para a Guiné. Depois o pai da Taíbo quis-me. Casei-me e fiquei com ele. Vivemos muito bem em casa, não nos faltava nada. Éramos duas mulheres, a minha cumbossa mais velha era a dona da casa, eu era a noiva. Ficámos assim. Não queria um marido só para mim, partilhávamos o nosso marido sem problema. Se éramos duas, éramos duas, se fossemos três, seríamos três. Cada uma no seu lugar. Quem viesse a ter mais força, podia viver bem com o marido. Portanto, conforme uma pessoa está

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com o marido, as pessoas dizem «o fulano tal gosta mais daquela mulher do que da outra», é assim. Nos tratávamo-nos bem. A minha cumbossa tinha-me como uma filha mais nova. Ela é que me orientava. A noiva é que ia à feira, é que lavava, é que cozinhava e que passava a ferro, é que fazia tudo. Depois de cozinhares é que chamavas a dona da casa e dizias-lhe «já está pronto!» e ela servia e fazia a divisão de comida para todos. Mas com amizade e alegria, sem raiva nem nada. Eu penso que é bom ter uma neta como a Tamara Silva. A verdade é para ser dita, se ela é assim, ficamos muito contentes. Termos alguém assim na Guiné, com voz. Talvez assim a nossa terra melhore. Eu ouvi o que a Tamara disse sobre o casamento, mas da minha vontade, antes de eu morrer, queria vê-la casada e com filhos. Se tu tens filhos, sendo tu casada, gostarias que o teu filho também casasse, para que as pessoas participem, assim como tu participas nos casamentos de filhos de outros, onde levam presentes e se apresentam. Para esses também verem isso. Mesmo se não presenciar os filhos delas, pelo menos quero assistir o casamento delas. Uma mulher não pode ficar sem ser casada, não. Então ela também não quer ter um filho, para lhe pegar ao colo e dizer «este é o meu filho»?

Todas as mulheres desejam ter um filho e ter os netos. Se hoje me chamam avó, se hoje estou com as minhas netas, a brincar e a conversar, isso é porquê? Porque são filhos da minha filha. Se ela acabar de estudar e encontrar o que quer para a vida dela, que arranje um rapaz para casar. Se eu morrer, morro feliz. Perguntam-me sobre o fanadu: o fanadu é uma coisa que nós encontramos quando nascemos, que existe desde os nossos bisavós e outros antepassados. Dizem que se não fores ao fanadu não podes entrar na Mesquita, que as tuas preces e orações não são atendidas; que por mais que te laves não ficas limpa. Os da Praça é que estão a deixar de praticá-lo, mas aqueles do interior fazem-no e vão fazer sempre. Por mais que se faça tudo, não conseguem acabar com isso. Mesmo na Guiné, quando nos reuníamos para discutir certos assuntos, quando começavam a falar de acabar com o fanadu, a reunião terminava, porque os muçulmanos iam-se embora. Porque é que não acabam com os Irãs? Não acabam com as cerimónias? Os católicos têm a sua cerimónia, outros levam o cabaz, e nenhuma lei consegue impedi-los de fazer isso. Nem que sejas de pele clara, se fores papel, se te chamarem, vais até à Guiné levar o cabaz. Por isso os muçulmanos perguntam-lhes se eles é que vão acabar com o fanadu. Fanadu, não é de hoje que se diz que é mau, mas cada um com a sua religião, porque é como se nós tivéssemos feito um juramento.


“Bias bu ta sibi dia di bai, ma bu ka ta sibi dia di ribaâ€? Nas viagens, sabe-se o dia da partida, mas nunca se sabe o dia de regresso. (provĂŠrbio guineense)


Leila Lima, 45 anos Nasci em 1964, no auge da guerra colonial, em Buba. Os meus pais eram administrativos na Guiné colonial mas depois o meu pai foi apanhado pela PIDE e preso na Ilha das Galinhas. Não me esqueço que íamos levar-lhe a comida à prisão. Foi um período traumatizante para mim. Quando o meu pai foi libertado fomos para Mansoa, onde estudei até à 3o classe. Depois seria transferido para Bissau. Eu tenho três irmãos da parte da mãe e quatro da parte do pai. A dada altura a minha mãe adoeceu muito gravemente e teve de ser evacuada para Portugal, onde os médicos a aconselharam a não voltar para a Guiné. Eu ia para Itália estudar nessa altura, já tinha tudo preparado, mas depois tive de ir para Portugal cuidar da minha mãe. Às vezes penso como teria sido, se tivesse ido para Itália... Acabei por ir viver com a minha mãe e o meu namorado, que era músico e já estava em Portugal – nós tínhamos começado a namorar em Bissau, contra a vontade do meu pai. Fiz o curso de secretariado e comecei a trabalhar. Depois fui viver para um quarto com o meu namorado e lembro-me que foi uma experiência terrível, até tinha de lavar a roupa à mão, no tanque, coisa que em Bissau não fazia.

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A minha mãe depois foi para a Guiné pedir o divórcio ao meu pai, que entretanto já tinha outras mulheres e outros filhos. Eu fiquei em Portugal e em 1989 engravidei do meu único filho, o Jorge, que tem o nome do pai e do meu irmão. Casei em Abril de 1990 sem muita convicção e mais por força dos pais. Gostava de não o ter feito pois depois de casada tudo mudou, ele mudou e depois não me queria dar o divórcio. Acabei por apanhar uma forte depressão que me deixou dependente dos amigos e da família. Só em 2002 ele me viu tão mal que aceitou darme o divórcio e eu fui logo para Bruxelas, para junto da minha irmã, tentar recuperar o ânimo. Desde aí que eu é que arco com todas as despesas, sem apoios de ninguém. Tive vários empregos, trabalhei na Embaixada do meu país, no grupo Sonae, mas em 2001 fui para a Fundação Mário Soares, por intermédio da minha prima Iva Cabral (filha de Amílcar Cabral), onde trabalho até agora, no Arquivo Documental. Onde eu gostei muito de trabalhar foi na Expo 98, no pavilhão da Guiné-Bissau, foi fantástico e acabei por fazer muitos contactos e ganhar bastante dinheiro a vender artesanato africano. Gostava muito de ter uma loja de produtos de artesanato, é um sonho meu. Se tivesse um companheiro eu conseguiria fazer mais coisas… Durante vários anos fui mãe também da minha sobrinha Naina, que viveu connosco. Quando a minha irmã a mandou buscar foi muito difícil para mim e para o Jorge, separarmo-nos dela – gostam-se como irmãos. Foi nessa altura que o Jorge começou a sofrer de epilepsia e isso impede-me de voltar para a Guiné com receio de não ter respostas em termos de saúde.

Estou em Portugal há 25 anos, sinto-me completamente integrada. Mas sei que em geral a mulher emigrante africana depara-se com muitas dificuldades, quer em termos de emprego e documentação, quer para acompanhar a educação dos filhos: são mulheres que acordam de madrugada para ir trabalhar, muitas vezes têm dois, três trabalhos e só regressam à noite para casa. Muitas vezes são rejeitadas pela sociedade portuguesa, há um racismo encoberto. Eu pessoalmente só tive dificuldades em lidar com as pessoas, que são muito fechadas. Gostava muito de voltar para a minha terra, eu lá seria mais feliz. Tenho muitas saudades dos meus familiares, dos meus amigos de infância e acho que não voltaria a emigrar. Estive recentemente na Guiné para assistir a uma cerimónia tradicional da minha família e foi muito marcante. Mas há coisas que se mantêm e não deviam: nunca estive de acordo com a mutilação genital feminina, o fanadu, de que tantas mulheres e crianças da Guiné-Bissau são alvo, é terrível. E o meu país não tem estabilidade nenhuma… Se fossem mulheres a comandar a Guiné-Bissau, eu acho que seria uma solução viável porque até hoje foi sempre comandada por homens e posso dizer que não deu em nada. As mulheres guineenses não hesitam em atravessar fronteiras em busca de algo melhor para os seus. Elas são as minhas heroínas. A minha avó materna, Clementina Cabral, foi uma mulher que me marcou muito, por ser uma mulher forte, uma mulher com garra para criar os filhos, os netos, os bisnetos...


“Na luz dos teus olhos vejo Veneza que não conheço” (T. Tcheka, 1996, Imerecimento)


Tamara Có, 28 anos Nasci em Bissau a 27 de Agosto de 1981. A minha mãe era parteira e foi transferida para Cantchungo, onde passei uns bons anos da minha infância. Quando eu tinha 4 anos a minha mãe foi estudar medicina para a Rússia com uma bolsa de estudos e até aos nove anos eu vivi só com o meu pai. Para falar verdade, eu só me lembrava que tinha uma mãe quando ouvia o meu pai chorar no Natal, porque no quotidiano não sentia muito a sua falta. Na ausência da minha mãe, o meu pai teve outras relações e tenho cinco irmãos de outra mãe. Ele era manjaco e a minha mãe é mancanha. Quando a minha mãe viajou para a Rússia não sabia que estava grávida do meu irmão e só regressou definitivamente em 1991. No tempo que esteve fora, a minha mãe visitou-nos duas vezes – deixava saudades e criava-me fortes laços com ela. Eu já vivia com a minha avó. Só em 1993, já com a minha mãe na Guiné, é que os meus pais se casaram e depois tiveram o terceiro filho. Mas a partir de 1994 a vida da minha família e a minha, mudou drasticamente. A minha mãe partiu os pés e esteve em coma, não conseguia curar-se – ela que gosta de ser muito científica, mesmo sendo médica, chegou a recorrer aos curandeiros. Logo depois, o meu pai foi parar ao Hospital por causa de uma verruga (na Guiné chamamos de mandita) e acabou por ficar internado no Hospital, onde faleceu de forma triste em 1997. Foi muito difícil para mim. Sinto muita dificuldade ainda em falar sobre isso.

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Eu sempre gostei da escola. Fiz o jardim de infância em Cantchungo numa escola de padres, depois quando fui para Bissau e andei na Escola «19 de Setembro» onde fiz a quarta classe. Depois entrei para o Ciclo na Escola Salvador Allende, tenho muitos amigos que são desta altura. Era uma aluna muito irrequieta, estava sempre na fila da frente e destacava-me também pelas notas. Fui para o Liceu Kwame Nkruman onde estudei até ao 9o ano, que não cheguei a concluir por causa da guerra civil de 1998. Nessa altura, comecei a trabalhar na Cruz Vermelha, a tentar fazer algo para ajudar as pessoas vítimas daquela situação. Finda a guerra, fui estudar para uma escola privada para concluir o 9o ano e depois voltei para o Liceu onde estudei até ao 11o ano. Só em 2003 vim para Portugal, na verdade vim por motivos de saúde, mas acabei por ficar porque queria muito estudar. Sem documentos e sem apoios, lutei muito para entrar na Universidade e continuo a lutar porque não consigo bolsa de estudos e tenho de trabalhar ao mesmo tempo, para pagar a casa, a faculdade, e outras despesas. Mas não é por isso que deixo de arriscar nos meus sonhos. Estou a tirar Gestão e Administração Pública no ISCSP. Na minha família as mulheres sempre foram independentes, a minha mãe já trabalhava como enfermeira quando eu nasci. Na GuinéBissau o nível de desigualdade das mulheres depende também da etnia a que pertencem.

Por exemplo, eu tinha colegas meus da escola que viviam em casas grandes, com várias mães. Lembro-me de saber de meninas da minha escola que não eram de etnia muçulmana e fugiam para irem ao fanadu com as amigas e depois arrependiam-se. A minha mãe, que é enfermeira, conta muitos casos de mulheres cortadas no fanadu que têm hemorragias graves no parto e que acabam por morrer. Tinha também muitas colegas que ficavam envergonhadas, traumatizadas, por terem passado pelo fanadu. O próprio segredo, a cultura que se criou à volta, transmite algo de muito negativo e traumatizante. Sou, claro, pela emancipação da mulher, mas há coisas que acho que a mulher não deve perder. Eu por exemplo, ainda sonho em entrar na Igreja de véu e grinalda! Temos também de ser tolerantes com os homens em certos aspectos, mesmo para mantermos uma vida conjugal pacífica. Mas isso não significa que temos de ser submissas! Eu estive sempre ligada ao Associativismo Juvenil. Em Portugal fui membro da Direcção da Associação de Estudantes Guineenses e fizemos muitas iniciativas interessantes. Sou dinâmica e gosto de ser independente. Agora estou a tirar a carta e já comprei um carro a uma amiga. A minha intenção é acabar o curso e voltar para exercer na Guiné-Bissau. O meu sonho é ser gestora, eu gosto! Quero dar a minha contribuição. Dizem que sou um bocadinho mandona desde pequenina, não gosto que mandem em mim...


“badjuda ku ta masa tchon sabi tok i ta nhi-nhac sakudi kurpu suma pumba nobu ora ku i na nina bentu pa buaâ€? Rapariga que caminha bonito/ ao ponto de fazer nhic-nhac/ sacode o corpo, como pomba criança, quando embala e mima o vento para conseguir voar (T. Tcheka, 2008, Koti-Koti )


Magda Fernanda, 37 anos Nasci em Junho de 1971 em Bafatá, vim para Bissau onde vivi até aos cinco anos. Depois voltei para Bafatá, no leste do país, onde passei a infância e adolescência e estudei até ao 9o ano do liceu. O meu pai é filho de pai português e mãe Balanta da Guiné-Bissau, a minha mãe é filha de mãe cabo-verdiana e pai guineense. Lembro-me que no liceu faziam brincadeiras de mau gosto, por causa da minha cor mais clara, me diziam ‘és cabo-verdiana vai para Cabo Verde com Luís Cabral, vai embora’, depois do Nino ter dado o golpe de estado no Luís Cabral, o primeiro presidente. Vim para Bissau terminar o liceu, para casa de parentes e foi muito complicado: aqui todos estavam habituados a fazer só uma refeição por dia e eu tive de me adaptar. Conheci o meu marido, Fernando Mota, de Bolama e ele ajudoume muito – não podia levar nada para casa dos parentes, senão ficavam todos ofendidos, mas ia sempre comer a casa da família dele. Foi difícil, pois estávamos noivos mas eu não podia sair à noite com ele, nada. Os meus pais são católicos e muito conservadores, mas em casa todos trabalhávamos e todos tínhamos tarefas, meninos e meninas – éramos muitos, 6 filhos da minha mãe e mais 9 de outras 2 mulheres - o meu pai acabou por decidir criar todos os seus filhos em casa e a minha mãe aceitou isto…

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Entrei para a faculdade em 1989. Conseguir uma bolsa para estudar fora são coisas de gente de ‘costa larga’ e eu não podia esperar isso – os meus irmãos já haviam sofrido por não conseguir bolsas para estudar o que eles desejavam. Felizmente, achei eu na altura, estava já a funcionar a Faculdade de Medicina de Bissau, numa parceria com Cuba e eu entrei aqui. O primeiro ano correu bem, no segundo casei com o meu marido. A vida mudou, não queria mas acabei por ficar grávida logo 3 meses depois e isso prejudicou os meus estudos, claro, tive notas baixas. No ano seguinte tinha o bebé e a minha família toda longe, não tinha apoio, deixava-o em casa de uma amiga quando ia para as aulas e vinha dar de mamar no intervalo. À noite preparar biberons, dar banho, lavar fraldas – e o meu marido era político, do PCD, estava fora de Bissau pois havia sido a abertura política de 94 e andava a fazer campanha nas tabankas – ele envolve-se muito, já em 92 havia levado uma sova e ficou com problema de coluna, mas não desistiu. Eu fiquei exausta, não aguentava mais, o meu pai mandou a minha mãe buscar o bebé e levar para cuidar em Bafatá., mas as saudades eram muitas e eu ia todos os fins de semana para Bafatá… Foi difícil mas lá cheguei ao 5o ano e já estava tudo a correr bem, tinha o meu filho perto de mim, a ajuda de uma empregada… e dá-se a guerra e fico 10 anos sem estudar!

Fui para Buba, onde o meu marido estava a fazer a campanha de caju, fomos ter com ele quando rebentou a guerra. Outro acidente e fiquei grávida do 2o filho – que hoje tem 10 anos, o primeiro tem 15. Fiquei lá alguns meses, fugi depois para Dacar, para o Senegal e grávida de 7 meses embarquei para Portugal onde nasceu o bebé. Fiquei com os meus irmãos que lá viviam – tenho mais família em Portugal que em Bissau – mas não gostei, não aguentei longe do meu marido e vim ter com ele passados 11 meses. E aí fizemos tudo o que podíamos: eu não gosto de estar parada, fizemos campanha de caju e outros negócios, cheguei a ter uma carrinha e ir buscar peixe à costa para vender no interior do país. Depois comecei a trabalhar como técnica de saúde com a ONG Effective Interventions, em saúde materno-infantil, que é a especialidade que estou a seguir, em tabankas do sul do país. Entretanto, a Faculdade de Medicina de Bissau reabriu e decidi voltar a estudar – agora faltamme poucos meses para acabar o curso, deixei de trabalhar e vou fazer o exame finaol. Nem mesmo assim é fácil pois não há muitos livros, fico aqui no Simão Mendes à espera que a electricidade volte para poder ir ao computador e à internet. Mas estou dedicada a ser finalmente médica como sempre sonhei.


“Bolta di mundu i rabu di pumba” As voltas que o mundo dá são como as asas da pomba (provérbio guineense)


Belisa Oliveira, 28 anos Nasci em Novembro de 1980 em Bissau e sempre fui muito reservada, sou a mais nova de quatro irmãos (tenho irmã mais velha, depois dois irmãos). Nasci numa casa de família no Bairro de Reno (perto do Bandim), onde vivíamos e comíamos todos juntos na travessa. O meu pai trabalhava no Instituto da Educação mas quando eu tinha só quatro anos ele veio para Portugal à procura de melhor vida e deixou a minha mãe grávida de gémeos, que entretanto morreram – por isso eu fiquei tão tímida, era muito mimada pela minha mãe, que se agarrou muito a mim. O meu pai ainda foi para Angola e depois foi trabalhar para as Nações Unidas, mas acabou por encontrar outra mulher e tem três filhos. Eu cresci com os meus tios, que também iam comigo à escola e me acompanhavam muito, nos trabalhos de casa e tudo – a minha mãe nunca ligou muito – e eu fui aprendendo, fazendo a escola bem. Os meus dois irmãos foram depois para o Senegal ter com a minha avó. Fiz o 11o, fiz cursos de educadora de infância e informática e depois vim para Portugal inesperadamente, pois o meu namorado Telmo veio para cá estudar. Eu tinha 20 anos e a minha irmã mais velha 24 e quando chegámos as duas foi um choque: o meu pai disse-me para esquecer o namorado, que aqui não era como em Bissau e percebi que ele queria recuperar o tempo perdido: deixou-nos quando nós tínhamos quatro anos!

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Levava-nos ao circo, fazia-nos surpresas de criança, vivíamos de casa para a escola, da escola para casa – e chegávamos a casa e o meu pai já tinha comida pronta e tudo. Saíamos aos fins de semana só com os amigos do meu pai e não podíamos falar com os filhos jovens nem nada! Eu não gostava nada e não conseguia suportar – a minha irmã ainda se aguentava, pois não tinha namorado, mas para mim era insuportável! Só nos livrámos disto porque entretanto o meu pai não arranjava trabalho e foi para Inglaterra. O Telmo também me foi dando sempre apoio e bons conselhos - assim que eu e a minha irmã conseguimos liberdade do meu pai, alugámos um quarto para as duas e começamos a trabalhar e a estudar o 12o ao mesmo tempo. Trabalhei no Carrefour, a minha irmã também, agora trabalho no Picoas Plaza e acabei o curso de Política Social no ISCSP. Foi difícil mas consegui! O meu plano de vida é trabalhar aqui mais uns três anos e organizar-me, pôr um pouco de dinheiro de parte e depois voltar para Bissau e abrir o meu negócio. É o meu sonho, abrir uma empresa como um jardim de infância ou então uma instituição de apoio a crianças e jovens abandonados – há cada vez mais crianças abandonadas em Bissau, casos de órfãos de pais que morrem com SIDA ou outros. O Telmo também está no último ano de Engenharia Civil e o pai, que já tem certa idade, quer que ele volte para tomar conta da sua empresa de construção civil.

Eu sou um pouco diferente mas ao mesmo tempo sou muito igual a muitas mulheres guineenses: que pensam no futuro, que não querem só diversão e brincadeira, estar no Paiã (espaço de diversão em Odivelas), mas que quer organizar a sua vida. Foi o meu plano, estudar aqui e voltar para dar o meu contributo. Há muita gente que se perde entre festas e cerimónias, como maneira de mostrar que está muito bem, que tem posses. Eu vou casar mas só assinar o papel pois não tenho condições de fazer grandes festas e se eu juntar algum dinheiro será para o meu negócio – ainda tenho de falar bem com a minha família, que adora festas… Eu sinto que na Guiné-Bissau, neste momento, as mulheres estão a assumir o rumo das casas, pois os homens já não ganham ordenados e elas é que fazem a venda, é que abrem negócios. O Telmo costuma dizer que eu sou uma mulher ‘moderna’. Em nossa casa, eu faço uma tarefa e ele faz outra, dividimos as despesas e vemos em conjunto o que temos e como gerir – não como uma mulher antiga em que o marido fica sempre sentado… Por causa do meu tio, Alexandre Cabral, eu desgostei da política, vi como ele acabou por morrer sozinho, acho que não vou entrar na política activa, talvez na área social eu possa intervir!


“Esta ausência demorada faz-me ver Geba subindo o Tejo” (T. Tcheka, 1996, Guiné)


Nina Pereira, 23 anos Nasci em 1985, no bairro de Missira, em Bissau. O meu pai é papel de Biombo e a minha mãe é uma mistura de manjaco e mandinga. Somos quatro irmãos, o Ortega tem 25 (também é animador na Apelação e foi o melhor aluno da escola), eu tenho 23 e mais duas irmãs de 20 e 15 anos. Vivi na Guiné até aos 6 anos. A minha mãe diz que eu chorava muito, porque só queria o colo do meu pai. Desde pequena pertencia a grupos de dança, fazíamos concursos, mas a minha irmã parecia ter mais jeito que eu. A minha mãe não pensava que eu iria depois dançar ­assim. A minha mãe era empregada doméstica na casa de uma senhora portuguesa. A patroa tornou-se madrinha da minha irmã e a nossa infância foi a brincar em casa e no quintal dela. Não estávamos perto da minha avó. A minha mãe também vendia gelados na feira para ganhar mais um pouco para a família e eu às vezes ajudava. A madrinha da minha mãe ensinou-nos a escrever, eu sabia fazer todas as letras menos o “A”, então um dia elas ameaçaram-me dizendo que iam pôr-me na despensa onde estava uma cobra e eu consegui desenhar o “A”. A minha infância foi boa. Depois, a patroa regressou a Portugal e queria trazer a minha mãe, mas decidiram que o meu pai vinha primeiro. Depois, sem o meu pai saber, prepararam a nossa ida para Portugal e fizeram-lhe surpresa. Lembro-me que eu e a minha irmã viemos para Portugal vestidas de igual, com tranças de missangas e as pessoas mexiam nos nossos cabelos. A primeira coisa que sentimos foi frio. Depois, estranhámos viver num prédio, alto, porque na Guiné vivíamos numa vivenda.

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No primeiro dia da escola gostei logo de uma menina chamada Cátia. Ela ajudou-me a integrar-me. Gostávamos tanto uma da outra, que o nome de casa da minha irmã mais nova é Cátia, eu tanto chamei que agora todos a conhecem assim. Ficámos meses na casa da patroa, depois fomos viver em Chelas, e a seguir fomos para o Prior Velho, onde ficamos até 1996. Daí, viemos para a Apelação. A minha irmã mais nova nasceu quando estávamos no Prior Velho. O meu pai é carpinteiro e a minha mãe trabalha nas limpezas. Entretanto o meu pai ficou doente e reformou-se por causa de problemas de coração. Eu estava no 10o ano e decidi ir trabalhar, mas não consegui conciliar com os estudos e parei de estudar. Trabalhei primeiro na Telepizza, depois numa loja de sandes no Colombo. Ao mesmo tempo eu fazia voluntariado na Casa da Cultura da Apelação e consegui espaço para a dança. O “Petchu” é que nos ensaiava, mas quando o projecto acabou houve aquelas que nunca desistiram, como eu. Comecei a ensaiar as meninas nas minhas folgas. Depois, no ATL de Loures, consegui dar aulas de dança e fazer actividades com as crianças. Gostaram do meu trabalho e convidaram-me para ser animadora de um projecto. Começámos a trabalhar no dia 2 de Dezembro 2006 e ficámos a trabalhar na escola nos projectos que foram surgindo. Trabalhávamos na ocupação de tempos livres, a ajudar os miúdos a fazer os trabalhos de casa. Éramos a ponte entre a escola e o bairro. Quando a escola queria chegar a alguns pais, nós íamos à frente para preparar o terreno. Estamos no último ano do projecto, espero que tenha continuação.

Agora estou com cinco grupos de dança, damos aulas para todas as idades. No âmbito do projecto Escolhas nasceu a Associação de Jovens da Apelação onde sou responsável pela área da cultura. Fazemos formação de voluntariado, intercâmbios com outros bairros sociais, já fomos a França e à Polónia, organizamos festas, acampamentos, torneios… Tentamos não competir com os outros projectos e associações mas trabalhar em conjunto com eles. O meu sonho é voltar a estudar, já me inscrevi e tudo. Quero formar-me na área de Animação sócio-cultural. Aprendi cada dia com esta experiência. A dança para mim é uma maneira de nos expressarmos. Em vez de escrevermos no papel, fazemos desenhos com o corpo. Quero pesquisar sobre a dança e a cultura guineense. A minha mãe também faz parte de um grupo de dança tradicional que se chama “As cotas da Apelação”. Acho que os guineenses não dizem logo o que sentem. Eu sou uma pessoa muito fechada. Tive uma relação de um ano mas terminámos, de momento estou solteira. O sentimento tem de ser mútuo e eu agora ponho o trabalho em primeiro lugar.


“reparei que a minha Lua/ é também a candeia de outros meninos/ como eu/ a sua luz/ encanta tanta gente/ como eu/ as minhas estrelas/ brilham também para outros meninos/ como eu” (T. Tcheka, 1996, Pensar de Menino)


Tarcínia Jumpi, 35 anos Nasci em 1974 em Cantchungo, onde vivi até aos 17 anos. Cresci num ambiente saudável, numa casa cheia de gente, em casa dos meus tios. Nunca tive o meu pai perto de mim, posso dizer que senti falta, ele vivia em Bissau e deixou-me ao cuidado do irmão. Eu chamo papá ao meu tio de criação... A minha mãe fez-me muita falta, ela chama-se Sábado Gomes e nunca viveu com o meu pai pois a família dele não queria. Ela era de outra tabanka, de Cachéu, e já tinha filhos - mas depois veio ficar em Cantchungo para estar perto de nós. Às vezes, quando voltava da escola não havia comida em casa do meu tio e eu refugiava-me com a minha mãe... Gostei sempre de andar na escola, fui uma boa aluna e tive uma boa educação, apesar de eu e o meu irmão nos sentirmos isolados sem os nossos pais. Mas foi bom porque acabamos por descobrir que temos é de contar com nós próprios. Eu fui mãe e mulher muito cedo, houve muitas coisas que eu perdi por causa disso, mas o lado bom é que tenho a minha filha aqui comigo, de quem me orgulho tanto! Estudei até ao 9o ano, altura em que ela nasceu. Quando fiquei grávida, em 1993, tive de sair de casa do meu tio, porque o meu pai disse que não ia lá mais a casa se eu lá ficasse. Fui para casa da minha tia em Cacheu e tive o apoio da minha mãe. Fiz tudo o que podia, fazia bolinhos para vender e foi assim que consegui juntar dinheiro para o enxoval da menina, a Eulínia. Mas quando eu já estava a ter as dores do parto, o meu tio voltou a mandar-me buscar para casa dele, onde tive a menina.

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Mas entretanto o meu namorado, hoje meu marido, queria vir para Portugal e eu fui levá-lo ao aeroporto, a Bissau. Estávamos no final de 1996 e acabei por ficar em casa do meu cunhado em Bissau pois o meu pai não deixou que eu voltasse para casa do meu tio. A minha mãe acabou por trazer-me a minha filha já no início de 1997, sentia muito a falta dela e vivemos em Bissau até 1998. Era um ambiente muito bom na casa do meu cunhado, eles ajudaram-me muito. Ainda me cheguei a inscrever no 1oo ano mas não conseguia estudar. Em 1998 começou o conflito político-militar na Guiné. Fugimos para uma tabanka perto de Bissau e depois para a casa do meu tio em Cantchungo. Pensámos chegar à Gâmbia no carro do meu cunhado, mas na fronteira, em São Domingos, não nos deixaram passar. Dormimos nas varandas das pessoas de São Domingos, que nos ajudaram depois a passar a fronteira através do mato, todos com medo das minas antigas que ainda lá existem. Conseguimos passar para o Senegal onde nos disseram que as tropas guineenses é que nos tinham impedido de sair! Quando finalmente chegámos à Gâmbia, o meu pai disse-nos para tentarmos chegar a Dacar e ir ter com ele a Portugal. E aí é que foi mesmo complicado, pois éramos um grupo de 5 mulheres e 8 crianças sem comida e sítio para ficar e não nos deixavam embarcar para Portugal. Ficamos mês e meio à espera. Se não fosse um amigo português do meu pai a falar com a embaixada em Dacar, não nos deixavam passar.

Conseguimos chegar mas não foi fácil e éramos muitos. Eu e a Eulínia viemos para o Bairro das Marianas ter com o meu marido e só consegui Autorização de Residência de um ano. Engravidei do Bernardino e fomos para o Algarve atrás do meu marido que tinha trabalho lá, numa obra. A menina entrou para a escola mas tudo se complicou pois o SEF não me concedia Autorização de Residência e eu não conseguia trabalho. A minha mãe faleceu em Bissau em 2001... Durante este tempo a Associação dos Filhos e Amigos da Ilha de Jeta, a AFAIJE, ajudou-me muito, nomeadamente com o curso de informática que me permitiu melhorar o meu português e em que tive muito bom aproveitamento. Em 2005, já com o segundo filho nascido em Portugal, o Samuel, deu-me uma ideia e fui ao SEF de Cascais falar com o Director… Menos de um mês depois tinha os papéis. A Câmara também nos apoiou, atribuiu-nos uma casa num bairro social em Tires, pois o meu marido tinha feito o recenseamento nas Marianas. Agora o meu marido está no Luxemburgo. Eu trabalho num refeitório, vivo com os meus filhos e a minha irmã mais nova, que felizmente arranjou logo documentos e trabalho. A minha filha está no 10o ano, já me ultrapassou nos estudos. Os meninos só querem jogar no Magalhães, já lhes disse que a vida não é só jogar...


“Sorti na pe ki sta” A sorte está no pé (provérbio guineense)


Naty Cuíno, 39 anos Sou filha de Sérgio Cuíno - mais conhecido por Sedja - e de Honorata Soares. Nasci em Bula em 1969. Não fiquei muito tempo com os meus pais porque depois fui para Bissau e eles ficaram no interior do país. A minha infância foi passada em Bissau, em casa dos meus tios, para poder estudar. Senti falta dos meus pais, como qualquer criança sentiria. A vida também não era fácil na altura e eu penso que as dificuldades por que passei serviram para eu ser a pessoa que sou hoje: uma mulher, acima de tudo, independente! Vim para Portugal de férias e gostei tanto que acabei por ficar. Tinha 24 anos na altura. Não percebi que depois seria tão com complicado para mim, porque uma coisa é quem vem de férias e outra é quem vive aqui. Quando estamos de férias, parece tudo perfeito, tudo diferente, mais moderno, com isto e aquilo. Mas depois, quando começamos a sentir a realidade, vemos que ela é dura. No princípio passei por muitas dificuldades, desde a obtenção de documentação, à procura de emprego. Cada vez que ia a uma entrevista diziam-me que o lugar já estava ocupado. Comecei a achar estranho a dificuldade de encontrar trabalho, porque eu era jovem e tinha vontade de trabalhar.

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Entretanto engravidei das minhas filhas gémeas, Joyce e Geovana, o que me imobilizou durante pelo menos dois anos. Por um lado porque passei muito mal durante a gravidez, porque foi uma gravidez de risco, e depois porque não podia pô-las nas amas porque seria praticamente o meu salário caso fosse trabalhar. Findo este tempo tive de procurar emprego para fazer face às necessidades da família. Sofri bastante, com discriminação e racismo, mas isso não me fez parar. Foi por intermédio de uma amiga, a Mima, que consegui trabalho num cabeleireiro na Mouraria. Com o curso de cabeleireira, desenvolvi ainda mais este gosto e correu mesmo bem. Cheguei ainda a trabalhar num cabeleireiro nos Anjos, mas passado pouco tempo aluguei um pequeno espaço no Centro Comercial do Campo Grande e comecei a minha própria actividade de cabeleireira. É onde estou até agora. O espaço é reduzido, mas é onde me sinto bem. Já tive oportunidades de mudar para outros sítios, mas aqui ficamos assim, muito juntinhas, temos de pedir licença umas às outras quando está cheio e isso é bom, acabamos por nos conhecermos todas e conviver. Com uma sócia da família abrimos em frente ao cabeleireiro um café, que acaba por servir de suporte ao cabeleireiro. É onde as pessoas aguardam a vez, tomam um suco de cabaceira, comem um petisco para matar saudades da Guiné-Bissau.

Sou uma mulher preocupada com a Guiné, com o meu país. Tenho ido lá todos os anos. Fico triste porque acho que o país tem estado a andar para atrás e eu quero muito que o país ande, pois não desisto de pensar que poderei regressar e fazer lá a minha vida ainda. Não entro na política, mas tenho as minhas opções políticas. Sou uma fair-play, porque sou democrata. Na Guiné, quando uma pessoa pertence a um partido diferente, é porque já é inimigo. Divorciei-me do meu marido há quatro anos e posso dizer que sou uma «mãe solteira». Eu é que sustento a minha família, com o meu trabalho e suor. Se querem saber a verdade, se eu soubesse que estaria tão bem depois da separação, já o teria feito há mais tempo! As minhas filhas hoje têm doze anos. Não entro nas escolhas das minhas filhas, quero que sejam elas a escolher a vida delas, o que querem ser no futuro. Sou apenas orientadora. Não me arrependo das escolhas que fiz até hoje. Vivi o que tive de viver. Mas sei dar a mão à palmatória quando algo não corre bem, aprender e corrigir as coisas!


“Imagino-te mulher-mãe gente adulta renascendo como companheira do mundo novo” (T. Tcheka, 2008, Guiné)


Rosa Monteiro, 35 anos Nasci em Bissau a 18 de Fevereiro de 1979. Sou a única menina dos cinco filhos de Leonor Barbosa, era muito mimada! A minha mãe é enfermeira. O meu pai, Ulisses Monteiro, primeiro foi professor, depois trabalhou na Embaixada de Cuba e no Ministério dos Negócios Estrangeiros. Ele vivia com outra mulher e outros filhos, no total tenho 12 irmãos. Estudei em Bissau até aos catorze anos e o meu pai ofereceu-me umas férias em Portugal por eu passar de ano. Acabaram por achar por bem que eu ficasse a estudar num colégio interno de freiras, perto de Mafra, no Gradil. Não conhecia praticamente ninguém, foi uma experiência boa para amadurecer um bocadinho mais. É um mundo fechado, claro, tínhamos visitas uma vez por mês quando vinham os meus tios. Eu tive uma infância muito feliz, com treze anos ainda andava de cuequinha na rua sem maldade nenhuma, foi uma grande diferença… Estive três anos no colégio, até fazer o 9o ano e fui para casa da minha tia Adelina. Foi assim uma ordem de soltura, entre aspas! A minha mãe só vinha de vez em quando passar férias e eu sentia a sua falta. A minha tia é praticamente a minha segunda mãe, foi sempre protectora… Quando sai do colégio não tive coragem de falar-lhe de algumas coisas (o meu tio até é ginecologista, oferecia-nos pílulas), quando eu comecei a minha actividade sexual fiquei grávida quase logo a seguir! A minha mãe rejeitou o meu casamento, ficou na Guiné, o meu pai não se pronunciou. A minha tia achou que tinha falhado na educação mas ajudou-me nos preparativos do casamento com o Celino, o meu namorado, aos 21 anos ele quis logo assumir e casar. Não sabia fazer praticamente nada, pois a minha tia cuidava de tudo em casa, a nossa obrigação era estudar! Tive o privilégio de ficar duran52

te um ano a cuidar apenas do meu filho Rúben. Lembro-me que fazia um prato de papa para ele e outro para mim, mas pensei ‘Não posso continuar a minha vida assim, tenho de começar a tomar conta da minha casa como deve ser e arranjar um emprego!’ Nos primeiros anos ele era um homem quase perfeito mas depois agravaram-se os ciúmes… Entretanto tivemos a minha filha Jessica. Fui trabalhar para uma empresa de limpezas mas eu queria mais… Estava a acabar o 12o à noite e às vezes uma das chefes via-me à hora de almoço a estudar. Um belo dia, alguém decidiu fazer uma necessidade no chão e eu fervi… tirei a bata e despedi-me. Essa chefe disse-me para preencher uma ficha, fiz uns testes e fui aceite como preparadora de encomendas nessa empresa da Sonae. Mas eu dizia sempre que queria mais e esta é a minha maior conquista, no meu trabalho. Concorri cinco ou seis vezes e consegui, neste momento sou administrativa! Mas ainda vou conseguir fazer mais coisas! O meu marido sentia um desconforto muito grande… Comecei a ganhar um bocadinho mais, depois decidi tirar a carta, comprar um carro… O meu ex-marido, trabalhava nas obras, nem sempre tinha salário e eu lutei e consegui uma coisa segura. Ele é muito machista “Eu quero, posso e mando!”, cultura do homem africano. Infelizmente… não sou mulher de obedecer muito! Respeito, sim, mas independência acima de tudo! A minha separação foi terrível porque ele, quando bebia… já entrava numa fase da agressão, não só verbal mas também física e os miúdos a assistirem… Muita gente sabe que isto é frequente nas famílias guineenses, os homens agredirem, dizerem mal… mas eu não convivi com isso, nunca vi os meus tios ou avós falarem alto ou tratarem-se mal. Quando me deparei com uma situação dessas chorei a noite toda!

E um dia eu decidi: ‘Não, não posso continuar, ele segue a vidinha dele e eu vou criar as duas crianças que pus no mundo com muito, muito amor!’ E é o que eu tenho feito! Na altura, juntou-se a família toda a querer que nos entendêssemos… Havia pessoas que me diziam ‘Tens que sofrer, o casamento é mesmo assim…’ E eu respondo: nenhuma mulher devia aguentar sujeitar-se a esse ponto… Eu digo sempre às pessoas, é fundamental nunca deixar de conversar e tentar, mas há limites! Separei-me após 11 anos de casamento, tive de lutar para ter o divórcio e só o consegui porque encontrou outra companheira. Hoje em dia se eu sentir que os meus filhos sentem falta do pai sou eu que os vou levar a casa dele, sei bem como me fez falta ter pai e mãe por perto. O fundamental de tudo é que eles sejam felizes e ensino-os a serem responsáveis. O engraçado é que a cultura guineense está mesmo inserida na família, os meus filhos comem tudo o que vem da Guiné e adoram, acho que vão gostar quando lá forem, tenho muita pena da instabilidade não me permitir levá-los com essa idade... Não me sinto tão mulher guineense porque vim para Portugal pequenina, tenho hábitos daqui. Mas uma mulher guineense é sempre lutadora, trabalha fora, trabalha em casa e, se for preciso, ainda fazem part time - lá diz-se bida - para conseguir educar os filhos. Nesse sentido acho que sou uma mulher guineense, por mais dificuldades que eu tenha acho que nunca os tirava de ao pé de mim, não abro mão dos meus filhos! Na minha altura achava-se que era importante enviar os filhos para estudar fora mas… Eu na verdade não sei o que teria conseguido se ficasse em Bissau. Os nossos filhos cá são criados entre quatro paredes e lá não… Eu brinquei muito, subi às árvores, fui tomar banho de cachoeira, andei descalça na rua…e isso foi muito bom!


“iardidura di sol iabrin kaminu na mandurgada di sabura� O Sol ardente abriu-me o caminho na madrugada de felicidade (T. Tcheka, 1996, Fugu di nha Korson)


Guie N’Djai, 28 anos Nasci em Bissau. A minha mãe é funcionária pública e o meu pai é Secretário-Executivo da ONG AIFA PALOP. Os primeiros três anos da minha vida passei-os em casa da minha avó com a minha mãe e um monte de primos que os pais deixavam lá quando iam trabalhar ou que lá viviam como eu. A minha avó é das mulheres que mais me marcou, educava-me dando-me responsabilidades à medida da minha idade. Havia regras que tínhamos que cumprir e ai de quem não cumprisse, apanhávamos! Os três anos seguintes passei-os na Rússia com os meus pais. Enquanto em Bissau vivia numa casa cheia, na Rússia, éramos só os três e era tudo diferente. Quando fui para o jardim infantil os miúdos russos chamavam-me ‘chorni, chorni’ - que quer dizer preto em russo – e eu passei o meu primeiro dia a chorar. Isto deu-me por um lado uma grande abertura para o mundo, por outro… não gosto de mudanças! A adolescência foi um tanto ou quanto complicada, pois tive que sair outra vez da casa da minha avó para ir viver só com os meus pais. Quando tinha 13 anos nasceu o meu irmão, deixei de ser o ‘centro das atenções’. Mas esta foi também a fase em que eu aprendi a me afirmar no novo bairro. Foi onde arranjei os amigos que tenho até hoje e que considero ‘irmãos e irmãs’. Foi na adolescência que eu passei a ser ‘Eu’. Não fui educada para aceitar nenhuma discriminação e estava preparada para não aceitar que a sociedade me discriminasse pelo facto de ser mulher. No fundo espera-se que a mulher guineense seja ao mesmo tempo mãe, aquela que está sempre aí para resolver os problemas, mas também que ela seja mulher no entendimento africano: que se submeta às vontades da sociedade e do homem. Disseram-me há pouco tempo atrás ‘tu nunca vais casar, és muito inteligente’… Quer-se que a 54

mulher vá à escola, sim, mas que não mostre que sabe, não mostre aquilo que aprendeu, não querem que ela evolua. O problema não é só ao nível da política educativa mas a solução tem que ser transversal e apanhar a instituição “família” porque é ali que as coisas devem começar a mudar.. Nós tivemos mulheres na luta de libertação nacional que são os nossos exemplos, olhamos para elas todos os dias… Mas a geração mais nova conhece a história dessas mulheres? E onde estão essas mulheres? Não podemos deixar que o tempo apague a história destas mulheres, que a História nos apague. Eu até acho que a maternidade dá um outro sentido à vida da mulher, mas a minha gravidez foi uma tentativa de afirmação. Engravidei no meu primeiro ano do curso e, apesar de já ter dispensado de alguns exames escritos, tive de voltar a estudar tudo! Mas foi bom, porque mesmo sendo mãe, fui das melhores alunas daquele ano, foi mais uma vitória. Mas essa vitória não é só minha, é também uma vitória da minha mãe que me ajudou a cuidar da bebé. Ainda consegui ser presidente da Associação de Estudantes, embora nem quisesse acreditar que em Direito fossem tão preconceituosos… Se uma mulher, às vezes ainda uma criança, engravida precocemente, o Estado e toda a sociedade contribui para que ela erre: não existe Educação Sexual na escola, a família não o faz, é um tabu na sociedade... É claro que a consequência mais natural seja a gravidez. E a única pessoa que é punida é a menina que engravida! Eu cheguei a perguntar a um Director que tirou uma menina grávida da escola ‘E o rapaz que engravidou a menina’? ‘Ah, esse continua a ir à escola’. Meu Deus, não tem cabimento! Eu tenho um enorme fascínio pela Guiné-Bissau, pelo meu país. Eu vi o que tinha que ver da Europa com a minha mãe, mas não me sinto em casa

lá, não me sinto eu. Só saí de Bissau durante a guerra de ’98 e a minha vida só faz sentido quando vivo e fixo os meus objectivos nas condições da Guiné-Bissau: ‘o que é que eu posso fazer para melhorar o estado das coisas no meu país’? Eu costumo dizer que sou das privilegiadas e se calhar por isso não penso muito na imigração. Mas não é fácil trabalhar, viver ou estudar em Bissau, começando pelo básico: não há energia eléctrica. Já andei horas por toda a cidade à procura de um sítio para terminar um trabalho para entregar no dia seguinte… e não encontrei. E também trabalhei 4 meses na Secretaria de Estado do Ambiente e ainda não recebi - mas nem por isso deixei de trabalhar! Existe desigualdade na sociedade guineense mas a mulher também é co-responsável… Quem sustenta a família guineense é uma mulher, mas essa mulher guineense não decide. E é a mulher guineense que educa as filhas para elas aceitarem as ordens do marido… É esta mulher que não sabe reconhecer o valor das outras mulheres… e quando vê uma mulher a subir na vida ainda é capaz de arranjar histórias para destruir a dignidade da outra mulher. Falta à mulher guineense realizar que juntas somos mais fortes, que temos que nos respeitar e dar as mãos às mulheres que queiram lutar, subir na vida. Uma mulher que eu admiro muito e nos serve de exemplo é a Dina Adão: por tudo o que ela conquistou, por estar a fazer 39 anos, ter independência financeira e ainda ter voltado a estudar. – e não deixa de valorizar as pessoas e partilhar com os outros. É uma mulher que me serve de inspiração, como a minha mãe, a minha avó, a minha tia Céu, Presidente do Supremo Tribunal de Justiça – a luta contra a discriminação que ela sofre durante o mandato e durante as campanhas eleitorais no Supremo Tribunal, é incrível. São mulheres como estas que eu sigo com muito orgulho.


“partir e ter de voltar rufar como as ondas do Geba vazar para encher depois� (T. Tcheka, 1996, Sonho de Emigrante)


Cantussa Lopes, 72 anos Nasci no chão Nalu, na ilha de Canhabaque, em Cantussa, por isso me puseram este nome. Os meus pais são daqui, de Formosa, mas fui criada no chão de Nalu. Aqui é o meu lugar, vou ao chão Nalu apenas fazer as cerimónias, mas já fiz tudo o que tinha de fazer - agora, as pessoas fazem as cerimónias e eu só vou lá comer. Com o meu primeiro marido tive 5 filhos, morreram 2 e ficaram três. Com o segundo marido tive 5, morreu uma menina. Se os meus filhos não cumprissem as suas tarefas em casa, ficavam sem comer. Esta é a minha educação. Eu não batia, bater não é bom. Se um deles se portar mal na rua, que o castiguem na rua. Mas, com a idade, o meu coração ficou mais mole e já fazia aos meus netos o que não fiz aos meus filhos. As avós são para os netos, agora estou aqui sozinha com o meu neto Abdulay. O neto varre, vai buscar a água, lavar a loiça e eu cozinho. Tenho dois filhos em Cabo Verde, um filho em Bissau e um filho em Dacar. Ainda hoje são as mulheres que mandam aqui nos Bijagós e isso não está diferente. Os homens vão por um caminho e nós vamos pelo nosso, mas nós é que mandamos. Se não chover, se levantarmos e vestirmos as nossas saias e formos à porta da Baloba pedir chuva, chove! Porque nós temos cerimónias diferentes das dos homens. Antes de adoecer levantava-me às 5h ou 6h da manhã e até às 9h apanhava os molus-

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cos, quando chegava ia à fonte buscar a lenha e vinha cozinhar. À tarde, na época de cortar a palha, para renovar o telhado da casa, vou cortar a palha. Na época das chuvas, levantamo-nos de manhã cedo para ir semear arroz e depois voltamos para cozinhar. Acabas de cozinhar, vais tomar banho e descansas um pouco. Se houver maré pela manhã, vais ao mar e depois voltas e vais semear. À noite sentamo-nos, fazemos uma fogueira e conversamos. Não posso contar do que falamos, porque se estiver a falar mal do meu marido não vos vou dizer. Se houver vinho, sentamo-nos e bebemos. Nós temos muitas cerimónias: as mulheres vão buscar ostra, assam a ostra no mato e distribuem pelos mais velhos, assim como o vinho, chama-se paga garandessa. Esta cerimónia é feita pelas mulheres padidas. Se não houver ostra, não há cerimónia. A cerimónia do lingron deixou de ser feita devido à falta dos canivetes. Nos Bijagós temos 2 fanadus, mas não fazemos corte (dos genitais): fanadu das mulheres jovens (fanadu di Amedi) e o fanadu de padidas e badjudas (fanadu di cadidja) - estes últimos são segredo, se falarmos hoje, morremos amanhã. O fanadu di Amedi é como uma brincadeira, mas que se transformou numa coisa grande. Vamos lá comer e beber. Mas o outro é perigoso. Na época das chuvas não há cerimónias, porque é tempo de fome. Antigamente nós, as mulheres, enchíamos canecas de lingron, entregávamos a um homem e isso significava que o queríamos para nós.

Depois, levávamos a comida no dia seguinte e entregávamos aos pais do rapaz, declarando-nos. Ficávamos casados. Nós não morávamos juntos, cada um ficava em casa dos pais e à noite as mulheres iam à casa dos homens dormir. A mulher cozinhava e levava a comida para a casa dos pais do marido e o homem furava os palmares para levar o vinho aos familiares da mulher. Eu é que construí esta casa! Dancei na lama e construí-a. As casas não eram de zinco como agora, antes não gostávamos disso - eu não quis pôr zinco porque era desarmonioso com as outras casas. Hoje em dia o casamento é ir para debaixo da mangueira e depois engravida-se. Pergunta-se pelo pai da criança e as raparigas só sabem dizer ‘Não o fiz sozinha’. Mas não é só aqui, é em Bissau e em todas as partes do mundo. Dizem que sabem ler mas não sabem nada. Até podem usar o computador, mas isso não substitui o que as mães sabem. A tradição é o nosso computador. Olha para elas agora, nem casamento têm, andam com as anilhas dos brancos nos dedos só para saírem pelo mundo fora. Antigamente uma mulher tinha cinco filhos de um só homem. Hoje em dia os filhos não têm os mesmos apelidos, isso não é bom. A garandessa aqui nos Bijagós é que é a nossa escola, quem não cumpre as tradições é como um analfabeto. Eu já tirei o meu curso, agora sou professora, ponho outros na escola...


“Na´mindjer femia mame di matchu bai na lanta di sol i bai larga sur na mar pa tisi bagri o kakri kil son ku seta ridia” Mulher, mãe do homem, vai logo ao amanhecer, vai deixar o suor no mar, para trazer bagre ou caranguejo, aquilo só que entrar na rede (T. Tcheka, 1996, Tchur di Mpinti)


Créditos Imagens – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – – 58

Bideiras no Porto de Bissau (Capa) fotografadas por Sandra Oliveira – 18 de Março 2009 Leonor Barbosa fotografada por Neni Glock – no Sobralinho, Alverca, 12 de Maio 2009 Dina Adão fotografada por Sandra Oliveira – no Hotel Ruby em Bissau, ao final do dia 18 de Março 2009 Maria Rosa da Rosa fotografada por Sandra Oliveira – Ponta Victor Robalo, Quinhamel, 25 de Maio 2009 Eneida Marta fotografada por António Moutinho - para a capa do álbum Lôpe Kai, 2008 Aissatu Djaló fotografada por Sandra Oliveira – Bairro de Belém, Bissau, 24 de Março 2009 Edna Landim fotografada por Sandra Oliveira – Mercado de Bandim, Bissau, 23 de Março 2009 Ana Vaz fotografada por Sandra Oliveira – Campo Grande, 5 de Maio 2009 Sábado Vaz fotografada por Sandra Oliveira – Ancadaque, Ilha Formosa, Arquipélago de Bijagós, 20 de Março 2009 Elizete Borja fotografada por Sandra Oliveira – Eduardo Mondlane, Bissau, 16 de Março 2009 Sanu Mané fotografada por Sandra Oliveira – Bairro Militar, Bissau, a 24 de Março 2009 Augusta Henriques, mãe, filha e neta, fotografia do arquivo pessoal – Bissau, Dezembro 2008 Zinha Vaz, fotografia do arquivo pessoal – Campanhas Presidenciais, 2009 Tamara Silva fotografada por Neni Glock - Caneças, 25 de Abril 2009 Taíbo Silva fotografada por Neni Glock – Caneças, 25 de Abril 2009 Fatu Sanha fotografada por Neni Glock - Caneças, 25 de Abril 2009 Leila Lima fotografada por Neni Glock - Massamá,18 de Maio 2009 Tamara Có fotografada por Neni Glock – ISCSP, Ajuda, Lisboa, 27 Abril 2009 Magda Fernanda fotografada por Sandra Oliveira – Faculdade de Medicina Simão Mendes, Bissau, 17 de Março 2009 Belisa Oliveira fotografada por Sandra Oliveira - Chiado, Lisboa, 10 de Abril 2009 Nina Pereira fotografada por Sandra Oliveira – Casa da Cultura da Apelação, 27 de Abril 2009 Tarcínia Jumpi fotografada por Sandra Oliveira – Tires, Carcavelos, 2 de Maio 2009 Naty Cuíno fotografada por Sandra Oliveira – Campo Grande, Lisboa, 5 de Maio 2009 Rosa Monteiro fotografada por Neni Glock – Sobralinho, Alverca, 10 de Maio 2009 Guie N’Djai fotografada por Neni Glock – Ajuda, Lisboa, 19 de Maio 2009 Cantussa Lopes fotografada por Sandra Oliveira – Abu, Ilha Formosa, Arquipélago de Bijagós, 22 de Março 2009


Glossário de kriol arroz de npanpam (ou pampam): arroz cultivado nos terrenos de planalto, em parcelas desmatadas e sujeitas à queimada;

Badjuda: mulher jovem; rapariga; Bambaran: Pano que as mulheres usam para trazer os filhos às costas;

Homem grande: Ancião; kumbossa: Esposa ou amante do marido ou companheiro de uma mulher;

Padida: Mulher que foi mãe recentemente;

Baloba: Local de culto das divindades animistas;

Panu di pinti: Pano de tecelagem tradicional, com padrões específicos. Na Guiné é normalmente feito pelas etnias Manjaca e Papel;

Beafada: Grupo étnico de tradição animista, recentemente convertida ao Islamismo;

Papéis, manjacos, balantas: Grupos étnicos da África Ocidental, de base animista;

Bideiras: vendedoras, peixeiras;

Ponta: propriedade rural, quinta;

Bolanhas: campo de arroz cultivado por alagamento;

Irans (ou Irãs): Divindades das religiões animistas/tradicionais africanas, Espíritos;

Di Tera: Da Terra ou País, neste caso da Guiné-Bissau;

Legós: Tipo de pano, de fazenda leve, de cores e padrões diversos, existente em toda a África;

Kasabi: Tristeza, sofrimento;

Lingron: lingueirão, canivetes, começam a diminuir no ecossistema das ilhas guineenses;

Kufentu: Vento frio, ventania;

Fanadu: Ritual ou cerimónia de iniciação. Termo que designa a circuncisão ou a excisão. O fanadu feminino pressupõe o corte dos genitais femininos, daí que seja conhecida internacionalmente por Mutilação Genital Feminina; Fanateca: Mulher que pratica a mutilação genital feminina; Fulas: Grupo étnico muçulmano da África Ocidental; Garandessa: Maioridade; fase de vida adulta; Ex: Paga garandessa – espécie de oferenda/ritual que os mais jovens cumprem, numa lógica retributiva para com os anciãos ou os mais velhos;

Macaréu: Fenómeno da maré nos rios que causa o deslocamento de um grande volume de água contra a maré; Mancarra: amendoim; Mandita: verruga; Mindjeris di panu preto: Mulheres de Pano Preto; Nô Stória: Nossa história; Tabanka: aldeia, povoação; Toka-tchur (ou Toca-choro): cumprimento de cerimónias e festas em memória de pessoa já falecida.

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Ficha técnica ‘Storias di Mindjeris’ Edição: IMVF – Instituto Marquês de Valle Flôr Entrevistas: IMVF (Sandra Oliveira e Ana Isabel Castanheira) com Joacine Katar Moreira Fotos: Neni Glock com IMVF (Sandra Oliveira) Textos: IMVF (Sandra Oliveira) com Joacine Katar Moreira Coordenação: IMVF (Ana Isabel Castanheira) Consultoria: Joacine Katar Moreira

Agradecimentos

Revisão: IMVF (Sandra Oliveira, Rita Caetano, Maria Manuel Esperança) com Joacine Katar Moreira

Guiné-Bissau: Joana Vasconcelos, Ana Teresa Forjaz, Lay Seck, Graciete Brandão, Noeli Furtado, Mamadu Biai, Ila, Alfredo Handem, Cambraima Cassama, Nair Cristina Té, Miguel Barros, Sábado Vaz, Augusta Henriques, Zinha Vaz, Júlia Nacassa, Yara e Alzira Casimiro, Mariama Sanhá, Jucira Cabral, Maria Sá, Karyna Gomes, Djamila Pereira, Mariana Ferreira, Sábado Mendes, Francisca.

Design: Diogo Lencastre Impressão: Armazém Papéis do Sado Depósito legal: 296971/09 ISBN: 978-989-95775-7-2 Lisboa, Junho de 2009 60

Portugal: ao poeta e jornalista guineense Tony Tcheka, à Associação dos Filhos e Amigos da Ilha de Jeta (AFAIJE), em especial ao Tomé Correia - Presidente da Associação, à Veronique, do Cabeleireiro Chez Veroi, Odete Embali, Adelina Cunha, Manuela Té, Benvinda Correia, Jacinta Mendes, Maria Helena Lopes, Margarida e Lúcia Có, Idriça Djaló, Telmo Correia, Nelson Lopes, ao músico guineense Juca Delgado. A todas as mulheres intervenientes neste Projecto.


Storias di Mindjeris Esta Publicação insere-se nas actividades do 2o ano do Projecto “Rostos Invisíveis”, uma parceria entre o IMVF – Instituto Marquês de Valle Flôr, Organização Não Governamental para o Desenvolvimento e o Núcleo de Estudos para a Paz do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (NEP/CES).

Co-financiamento:

Album Storias di Mindjeris  

album, mulheres, guiné-bissau

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