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Ano 31 • número 194 • Abril de 2014 • Belo Horizonte/MG HIagO SOaRES

MUITO

LEPO LEPO E UM POUCO DE

ALELUIA IMPRESSÃO envia 12 repórteres para (des)cobrir os carnavais da capital e do interior de Minas:

da rua ao camarote, do clube ao bloco caricato e da gandaia ao retiro espiritual. PÁGINAS 4 a 16

do!s - surpresas de camarim e outros flagras da arte sem holofotes


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Belo HorIzonte, aBrIl de 2014

primeiras palavras

Impressão

Impressão itinerante Alex Moura 6º PEríodo

O IMPRESSÃO, em suas últimas edições, tem inovado. Com textos instigantes e subjetivos e com uma diagramação, que, a cada número, fica mais experimental e arrojada. Nesta edição, tudo isso foi elevado à máxima potência. Vários calouros desembarcaram na redação para participar da primeira reunião do ano. Ninguém saiu incólume. No fim do encontro, todos foram embora com uma pauta para o Dossiê Carnaval. Na página 3, uma reflexão sobre a frase que ouvimos à exaustão em nosso dia a dia: “O povo brasileiro é muito alegre”. Dois artigos antagônicos esmiúçam os porquês de se concordar ou não com tal máxima. O dossiê apresenta o Carnaval de diversas cidades de Minas Gerais. Os repórteres não se limitaram aos temas rotineiros da festa, que são pauta todos os anos da mídia. Foram além, contando, por meio de descrições e narrações minuciosas, o que presenciaram e viveram durante o período. Na matéria “Odisseia de Carnaval”, a repórter Larissa Kümpel descreve a experiência de, pela primeira vez, desfilar e fazer parte de um bloco caricato. Ela conta a saga do início (quando recebeu o convite) ao fim (quando aguardava, ansiosa, pelo re-

Hiago Soares 6º PEríodo

Abuse das cores, me disseram os editores, logo após ficar decidido que o tema do dossiê desta edição seria o Carnaval. Esse pedido foi o primeiro dos muitos em que, exageradamente falando, me coloquei contra a parede. Pensei: Carnaval pede muita cores e serpentinas e confetes e máscaras, enfim. Acontece que sempre adorei espaços em branco e tons pastel. Gosto de minimalismo. Mas, um dossiê sobre o carnaval gritava o contrário. “Será?”, martelava minha mente. Em uma das reuniões de pauta, coloquei na mesa minha primeira ideia para a capa. Não me lembro de tudo, mas sei que envolvia glíter e um mapa das cidades onde os repórteres documentaram as festas. Tentava ser artisticamente viável, jornalisticamente falando. No encontro seguinte, fui categórico. “Não gosto mais daquela

sultado da apuração das notas). Todavia, não nos limitamos às folias mais conhecidas. Você também encontrará a cobertura de eventos voltados à espiritualidade e à reflexão. Nesses casos, os jornalistas tentaram captar as nuances, as semelhanças e, principalmente, as diferenças em relação às demais festas “da carne”. No DO!S, apresentamos um dossiê sobre bastidores de peças teatrais, bandas e filmes. Em “Prazer, Luna Lunera”, é mostrada a ligação que os atores estabelecem com os espectadores, mesmo antes do início da sessão. Em “Soy lo que soy”, Hiago Soares acompanha a produção, os ensaios e a apresentação do espetáculo-festa No soy um maricón, em que o grupo Toda Deseo convida o público a celebrar o universo “trans*”. Como de costume, temos duas críticas. A primeira – “Por trás das coxias” –, sobre o filme Cisne Negro, que retrata os bastidores de um balé. A segunda é de um livro da jornalista Lilian Ross, que trabalhou, por muitos anos, na revista americana The New Yorker. Lançado em 1952, Filme é a compilação de uma série de cinco reportagens publicadas na revista. Ross acompanhou todo o processo – do roteiro à estreia – da produção do longa A glória de um grande covarde, e transformou sua observação em um saboroso relato.

ideia da capa”. “E o que você está pensando?”, perguntaram. Descrevi o que agora vocês podem ver. A única diferença é o título do dossiê por cima da imagem. Foi penoso. A foto era interessante, iria ser aproveitada em quase toda a primeira página. Mas e o título? No inDesign, software utilizado na diagramação, tentei, de todas as maneiras, desvencilhar texto de fotografia, mas não adiantou. Começou aí meu processo de “quebra estética”, daquilo que minhas referências, meus maneirismos não seriam capazes de fazer dar certo, de ser bonito e funcional para este projeto. Por fim, consegui até juntar o amarelo com o preto, impensáveis até então. Mas meu pesadelo como diagramador

Calma, caro leitor! Ainda temos duas crônicas: “Pesos e medidas” e “Dias de luta, dias de glória”. A primeira é uma crítica à forma como determinadas pessoas lidam com as questões práticas da vida. Na segunda, você encontrará um texto envolvente sobre os 18 mil dias de existência do UniBH. Esperamos que goste. Boa leitura! P.S: Quinta-feira, 17 de abril de 2014. Ainda fechávamos esta edição do IMPRESSÃO quando surgiu a notícia da morte de Gabriel García Márquez. O escritor colombiano era metódico e obsessivo. Acordava todos os dias às cinco da manhã para ler um livro, depois todos os jornais do dia e, posteriormente, dedicava, no mínimo, quatro horas à escrita. Cem anos de Solidão lhe deu projeção. Sempre irreverente, ironizava sua própria fama. “O pior que pode acontecer a um homem que não tem vocação para o sucesso literário, ou em um continente que não está acostumado a ter escritores de êxito, é publicar um romance que venda como salsichas”, satirizava. O jornalismo sempre foi essencial em suas obras. Dizia que seu objetivo era, nada mais, nada menos, escrever histórias, para, assim, tornar a vida de um leitor inexistente mais feliz. Grande perda, mas seu legado segue vivo.

– função em constante aprendizado, visto que o pouco que sei aprendi nas aulas de Design Visual do curso de jornalismo – estava prestes a começar. Não dá para contar tudo aqui. Cheguei a desenhar em folha A4 três propostas para a paginação do dossiê. Tenho no celular algumas anotações de insights. Mas nada disso aconteceu. O que a impressora cuspiu na gráfica é resultado de papéis amassados, jogados no lixo. De tentativas frustradas do que minha mente dava como brilhante, como certo. O que você tem em mãos agora é fruto dessas engenharias descartadas, dessas anotações nunca concebidas. Corri contra o tempo. Ganhei dores de cabeça. Pedi que cortassem textos, alinhei e desalinhei campos de imagem, fiz e desfiz um sem número de vezes as mesmas ações. Por fim, consegui trazer até essa edição um pouco de mim, daquilo que levo comigo enquanto jornalista, aspirante a artista, leitor de jornais e revistas (não apenas no sentido literal, mas como aquele que observa as propostas visuais) e diagramador faz-de-conta. O resultado foi um aprendizado. E como todo aprendizado, sempre dá para ficar melhor.

eXpedIente

REITOR Prof. Rivadávia C. D. de Alvarenga Neto INSTITUTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS Prof. Rodrigo Neiva (diretor) Profa. Cynthia Enoque (diretora adjunta) COORDENAÇÃO DO CURSO DE JORNALISMO Prof. João Carvalho

LABORATÓRIO DE JORNALISMO IMPRESSO EDITORES Prof. Leo Cunha Prof. Maurício Guilherme Silva Jr. Dany Starling (editor convidado) PRECEPTORA Profa. Ana Paula Abreu (Programação Visual) ESTAGIÁRIO Hiago Soares COLABORADORES Alex Moura Ananda Gama Wilson Albino LAB. DE JORNALISMO ONLINE EDITORA Profa. Lorena Tárcia Parcerias Lab. de Criação Publicitária (LACP) Laboratório de Jornalismo Online Laboratório de Fotografia Laboratório de Experimentações Gráficas (LEGRA)

IMPRESSÃO / TIRAGEM Sempre Editora 2.000 exemplares

eleito o melhor Jornal-laboratório do país na expocom 2009 e o 2º melhor na expocom 2003

O jornal IMPRESSÃO é um projeto de ensino coordenado pelos professores Maurício Guilherme e Leo Cunha, com os alunos do curso de Jornalismo do UniBH. Mesmo como projeto do curso de Jornalismo, o jornal está aberto a colaborações de alunos e professores de outros cursos do Centro Universitário. Espera-se que os alunos possam exercitar a prática e divulgar suas produções neste espaço. Participe do IMPRESSÃO e faça contato com a nossa equipe: Rua Diamantina, 463 Lagoinha – BH/MG CEP: 31.110-320 Telefone: (31) 3207-2811 Email: impresso@unibh.br

para seGUIr o Jornal Facebook TudoUni – Centro de Experimentação Transmídia

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Visão crítica

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Belo Horizonte, abril de 2014

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Sem alegria o brasileiro não é nada REPRODUÇÃO

Gabriel Medeiros 7º Período

Não cantamos a tradicional melancolia do fado. Não temos o estilo europeu de jogar futebol, marcado pela forte disciplina tática dos atletas em campo. Não somos sisudos como os franceses, muitos menos irredutíveis e extremistas como em alguns países árabes. Nós somos a alegria do samba, o futebol irreverente, a descontração e a flexibilidade que ajudam a contornar os problemas diários. Somos brasileiros, somos aqueles que, por natureza ou necessidade, encontram alegria para viver. Parece que vivemos em uma constante luta de boxe. De um lado, estamos nós. Do outro, os problemas que vemos e encaramos todos os dias. Sentimos que somos menores, mais fracos, sem experiência para a batalha. E não poderia ser diferente. O adversário é maior, cheio de forças que podem nos derrubar com poucos golpes. Mas não há como fugir, não existe saída. Enfrentá-lo é a única alternativa. E como fazer isso? Apenas com a já conhecida alegria brasileira. Pode parecer infantil, até mesmo ridículo, mas não é. A alegria é uma arma que o brasileiro tem para enfrentar a batalha cotidiana. Uma batalha que não saímos como vencedores, mas como sobreviventes depois de muita esquiva, jabs, diretos, cruzados e um eficiente

jogo de pernas. Se o adversário nos ataca com os problemas no trabalho, temos a capacidade de esquivar e fazer piada com isso na hora do cafezinho. Se somos atingidos com a ineficiência do transporte público, revidamos com a uma boa conversa com quem está ao nosso lado, esperando pelo ônibus há horas, mas que depois de cinco minutos de uma boa prosa parece nos conhecer há anos. Quando o governo parece que vai dar o golpe certeiro que nos levará à lona, saímos do raio de ação e contra-atacamos. Nos revoltamos com o mau uso do recurso público, mas não deixamos de agir. Fazemos aquilo que deveria ser feito pelo poder público. Os projetos sociais feitos por cidadãos comuns são a prova disso, independentemente do recuso que dispõem para ajudar o próximo. Por isso não dá para negar que somos alegres. Se não nascemos assim, somos forçados a ter essa postura. Somente ela faz com que possamos sobreviver em um cenário que muitas vezes nos desanima e deixa sem esperança. Somente a alegria faz com que o brasileiro levante cedo para ir trabalhar e buscar o sustento da família, não se deixando abater pelos problemas diários. Somente alegria faz com que o cidadão esqueça, em uma mesa de bar rodeada de amigos, a semana difícil que teve. Não há muito que falar. Somos alegres, corajosos, batalhadores... Somos brasileiros.

Entorpecidos Asley Gonçalves 7º Período

O Brasil vem acumulando, ao longo de décadas, inúmeros elementos que fazem parte do imaginário mundial e até mesmo nacional. São incontáveis as representações que se amontoam e repercutem por meio do senso comum e que se encaixam de forma confortável no cotidiano da população, servindo para alimentar o orgulho da nação e impulsionar o homem, que outrora foi tão bem retratado na música “Pequeno Perfil de um Cidadão Comum”, do cearense Belchior. No entanto, dentro desse caldeirão de peculiaridades, existe uma que parece resumir toda a miscelânea cultural tão venturosamente ostentada. Essa satisfação advém da expressão popular “o povo brasileiro é um povo alegre, que não se deixa abater”. Após exclamar esse grito de guerra, a maioria dos indivíduos vai à luta e, de uma forma ou de outra, finda por conquistar seu tão sonhado “lugar”. Embora a frase seja nutrida por um romantismo extremante válido, ela não condiz de forma alguma com a realidade e com os verdadeiros méritos da população. A verdade é que o povo brasileiro não é naturalmente alegre, essa alegria certamente existe, mas, talvez, a definição ideal para tal seja

a de que o cidadão brasileiro tenha se tornado “entorpecido”. Desse torpor surge o tão famoso sorriso na cara e o jeito alegre de ser, alimentado posteriormente, pelo campeonato brasileiro, pelas lindas novelas globais e pela precariedade educacional. Como ser alegre - no sentido mais profundo da palavra - em um país que não oferece condições para isso? Pesquisas apontam que o maior número de pessoas com depressão encontra-se nos países mais desenvolvidos, tornando essa reflexão bastante relativa. Contudo, a questão a ser observada por aqui não é necessariamente a riqueza, mas, por outro lado, o respeito e a dignidade ofertada e compartilhada pelos compatriotas. O que faz brotar a verdadeira alegria de uma nação e a inabalável autoestima do cidadão é, sem sombra de dúvidas, a disseminação da honestidade e da educação, curando de uma vez por todas a falsa ilusão de alegria que, embora venha a calhar, não passa de um paliativo hipnotizante e extremante ineficaz. Ainda não existe essa tal “alegria” utopicamente intrínseca na vida dos brasileiros, apenas momentos de curto deleite, prazer e glória. Ao invés de esbanjar essa farsa, felizes serão os que poderão, quem sabe algum dia, bater no peito e gritar ao mundo: “nós vivemos em paz”.


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Belo Horizonte, abril de 2014

Dossiê Carnaval

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fotoS e montagem: HIAGO SOARES


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Dossiê Carnaval

Belo Horizonte, abril de 2014

Março. O Carnaval, festa de raiz brasileira tão ressignificada pelas terras tupiniquins, toma o coração dos foliões e se faz presente das mais variadas formas. São quatro dias em que é permitido se libertar de preconceitos, amarras sociais e normas – tácitas e expressas – que permeiam o cotidiano. Para uns, é tempo de festejar nas ruas, nas ladeiras, nas praças. Para outros, o feriado é uma proposta à fuga, à interiorização. A massa entra na onda do “Lepo Lepo”, mas também existem aqueles que preferem ficar sob o sacrossanto manto do aleluia. E é uma jornada e tanto! Não à toa, 13 corajosos repórteres do IMPRESSÃO aceitaram o desafio de desbravar este verdadeiro circuito carnavalesco, a fim de relatar suas experiências pessoais. Mais que isso: analisar o contexto social no qual foram inseridos durante os dias de festa – afinal de contas, Carnaval lida com cultura e cultura lida com pessoas. Nada mais justo. Cada qual com o Carnaval que melhor lhe convém. Alguns, pela primeira vez enfrentando a rua. Outros, veteranos de folia. Preparar, apontar! O norte bussolar perdeu-se na largada: foi-se o tempo em que o Carnaval tinha data de início e término. Os pré-Carnavais de Belo Horizonte, em particular, entraram em cena para avisar que os festejos renasceram das cinzas na capital mineira e trouxeram a reboque um debate político latente e um reconhecimento da cidade mais ainda expressivo.

Carnavalizemos Ocupar a cidade, portanto, é palavra de ordem para muitos que optam por foliar nas ruas. E o interior de Minas Gerais não ficou de fora, com suas ladeiras embebidas em álcool e ruelas sacolejadas pelo sertanejo e pelo funk. As reportagens, contudo não se limitaram às festas de abadás: mostraram que a tradição ainda continua inalterada em muitos pontos de nosso Estado. Este Carnaval típico, de marchinhas e batuques, não saiu do roteiro de muitos de nossos repórteres. Ao contrário, promoveu a nostalgia de outros tempos. Existem escolhas. A ditadura de trios elétricos e avenidas de escolas de samba é mito quando se abre o leque de um Carnaval tão diversificado. As festividades podem ser um pretexto para sair de casa... mas também para voltar ao ninho. E reconhecer-se nele, como membro não só de uma cidade, mas de seu povo e sua identidade. Experiência sentida na pele por alguns de nossos foliões. Mas o Carnaval não é só grito em nossos ouvidos. A folia pode se voltar para dentro, ser interiorizada e transformada em dias de silêncio, fuga e reflexão. E um retiro espiritual com amigos ou em um sítio com a família representa, igualmente, uma festa de quem não entra no mapa principal do período, mas ainda coexiste no todo, na intenção de carnavalizar como melhor lhe convém. A festa é para todos, da forma que a cada um couber. Ao final, tal qual no início, a linha de chegada é rasurada. As experiências de auto-conhecimento entre a folia e a calmaria escaparão pelas lacunas da rotina, trazendo novo sentido às certezas antes firmadas. Ou concretizando, ainda mais, antigas convicções. É o legado que esta grande manifestação cultural deixará a cada um de nós. O resultado desta destemida jornada você confere a seguir.

Maria Beatriz de Castro 5º Período

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Belo Horizonte, abril de 2014

Dossiê Carnaval

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Chuta! Chuta! Chuta! Parei em frente a uma lojinha acanhada na rua Caetés em uma quarta-feira nublada de pré-Carnaval. O letreiro prosaico em nada lembrava as festividades e a vitrine resistia entre dois blocos de concreto, restando-lhe apenas amontoar adornos e fantasias contra o vidro, em um visual pouco atrativo. Maíra, amiga da faculdade, havia me dito que encontrara este achado no Centro da cidade e que, apesar da fachada simplória, a loja não deixaria a desejar. Entrei no cubículo e um novo mundo se abriu diante de mim: cores tridimensionais, explosões de confetes e serpentinas, fantasias musicais e máscaras que falavam. Era magia, era o próprio paraíso! Invadi a loja dotada do ímpeto infantil de querer tocar em tudo ao mesmo tempo. Esperava a reação dos objetos, como se fossem seres adormecidos que despertariam ao contato com meus dedos. Maíra e eu passamos horas nos deliciando com acessórios e fantasias que poderiam compor nossos looks carnavalescos. A lojinha agigantava-se ao passo em que nosso espírito folião se inflava com a descoberta de mais um adorno que pudesse somar ao conjunto da obra. Antes de entrar, já sabia o que queria: um quepe de marinheira, para construir a personagem que iria representar no bloco Alcova Libertina. Afinal, o que é se fantasiar, senão atuar sob uma máscara? Com o quepe em mãos e mais alguns adereços, saí pela portinha de volta ao Centro, de volta ao mundo que esquecera por alguns momentos. Mas algo havia mudado. O tempo, até então nublado, abrilhantou-se com a recente perspectiva de dias ensolarados: o Carnaval chegou! Ah, o carnaval! Aqueles dias enfileirados nos quais nos desgrudamos da massa cinzenta cotidiana para compor uma união multicolorida pelas ruas, blocos, praias e avenidas. Ah, o carnaval! A fuga de foliões desperdiçados em filas de supermercados, salas de espera e telefonemas de telemarketing. Ah, o carnaval... Dias merecidos! Esta seria a terceira folia da minha vida. Nunca pulei o carnaval em outro lugar que não Belo Horizonte. A esta decisão, em parte atribuo a sorte que tive em coincidir meu primeiro ano nas ruas com o renascimento dos blocos na capital; a outra se deve à indisposição de curtir o período nos moldes de cidades do interior de Minas, onde impera o “abadá para beijar”. Eu procurava uma festa que remetesse aos bloquinhos, à ocupação da cidade, à folia livre, sem cordas. Queria mesmo “botar meu bloco na rua”! E o destino de um bloco diz muito sobre seu carnaval. O

“Mamá na Vaca”, que parte religiosamente do alto do Santo Antônio para a Savassi, este ano resolveu mudar sua rota e encontrar com o bloco caricato Vila Estrela, na entrada da comunidade – uma união que aproximou milhares de pessoas para uma festa mais perto da periferia. Já o Alcova Libertina, que antes subia aos palcos na Praça Duque de Caxias, em Santa Tereza, migrou para a Praça da Savassi, na quinta edição do festival SENSACIONAL – sigla para Simpósio de Empreendedorismo Nada Sensato Articulado no Cenário Internacional e Organizado por Nossos Amigos Legais. Criativos, não? Grupo oriundo de um ateliê no bairro de Santa Tereza, o Alcova faz morada no carnaval mineiro desde 2011. A banda, que neste ano contou com cerca de 30 pessoas, mescla rock com marchinhas típicas. O repertório conta com Strokes, Beatles e Radiohead, uma alternativa para os belo-horizontinos que não se identificam com blocos tradicionais. Domingo. Lá fui eu, marinheira, acompanhada de meu namorado Fernando e seu inseparável chapéu azul, cúmplice de seis carnavais e adornado com uma rosa que eu ganhara no bloco “Moreré”, dias atrás. Aderimos ao ‘’isoporzinho’’ e levamos nossa própria cerveja para a folia. Morando em BH, não gasto nada com hospedagem, mas a bebida custa caro. Mais tarde, quando nosso estoque havia acabado, o preço de R$5 por lata desceu quadrado. Vítima da rápida absorção de álcool pelo organismo, as visitas ao banheiro eram frequentes. Me senti grata pelo apoio da Prefeitura, ao disponibilizar sanitários químicos, mas ainda eram poucos, com filas tumultuadas. Atenção, Belotur: a estrutura com relação à segurança e a proteção de patrimônios públicos precisam ser melhoradas! Conhecidos relataram assaltos e, apesar das campanhas para não fazer xixi na rua, a regra não foi seguida. Obviamente, eu não era a única fantasiada. Havia deuses, super-heróis, fadas, policiais e até um bacon falante! Um dos pontos altos do Carnaval é este eterno ato de se despir se mascarando. A libertação que um chapéu, uma meia arrastão colorida ou um tapa-olho podem representar para quem não pode brincar de ser o que se é no resto do ano. A mineirada não se rogou e, no quesito figurino, a criatividade ornava bem o momento. O Alcova é miscelânea, é um grito à massa, à liberdade. Neste dia, Nelson Rodrigues daria licença para que eu pudesse afirmar:

toda libertinagem será perdoada! Em 2013, seu grande público – cerca de cinco mil pessoas, segundo a Belotur – lotou os arredores do Bolão e não agradou os moradores do bairro, que se reuniram com a Prefeitura e vetaram as festividades por lá neste ano. A atitude é compreensível, uma vez que, sem o apoio das autoridades, ao final da festa da carne, o cenário é de guerra. Não havia banheiros químicos e nenhum suporte para viabilizar algo por ali, principalmente com o número de pessoas que se instalava diariamente. Se, por um lado, o espaço na Savassi acomodou melhor um público ainda maior – cerca de 20 mil pessoas –, por outro, a identidade do lugar não harmonizou com a proposta do bloco. Ao começar o show, pontualmente às 19h, o primeiro fator de estranhamento pode ser percebido. A música tema dos libertinos, bradada aos quatro ventos em seu reduto boêmio, mal fazia coro entre os presentes naquele domingo de carnaval. “Chuta, chuta, chuta! Chuta a família mineira”, entoava a banda, sem muito apoio dos presentes, alheios ao hino. Sem moralismo

O Alcova é conhecido por sua crítica contundente ao conservadorismo da tradicional família mineira, instituição engessada como uma fortaleza e respaldada por outra grande instituição, a Igreja Católica. Fazendo jus ao nome, os libertinos instalaram uma cruz no meio do palco enquanto cantavam: “Os moralistas, com sua batina, querem fechar o Alcova Libertina”. A multidão era enorme, imponente. No ano passado, eu, então Minnie, Fernando e amigos nos infiltramos ao máximo no meio da massa na Praça Duque de Caxias. Quando a cerveja pedia para sair, era um sufoco desgrudar da multidão e voltar para o mesmo lugar depois. Por isso, desta vez ficamos mais atrás, com visão parcial do palco e mais espaço para dançar. Para quem conhece o bloco, existem músicas icônicas que, se tivessem sido deixadas de lado, deixariam a noite incompleta. “É proibido proibir’’, de Caetano Veloso, embalou a vibe necessária para que pudéssemos nos aconchegar na nova casa dos libertinos. Já ‘’Balada do Louco’’, d’Os Mutantes, instalou o caloroso debate interno pelo qual todos devem passar ao ouvir os trechos reflexivos da ex-banda de Rita Lee: “Mais louco é quem me diz/ E não é feliz / Eu sou feliz”. Somos loucos por procurar liberdade? Somos loucos por gozar desta liberdade? E o mais importante… ‘’você é feliz?’’ me perguntou uma moça com olhos marejados, abraçada ao companheiro, bem maior que ela. “Eu sou feliz!”, respondeu


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Dossiê Carnaval

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Maria Beatriz de Castro 5º Período

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ela à sua pergunta, aparentemente retórica. Já chorava, abraçada ao companheiro. Os dois combinavam perucas azuis. O estado no qual se encontrava eu não sei, mas certamente poderia rotular como ‘’estado de carnaval’’. A cerveja do isoporzinho acabara. Por perto só vendiam catuaba, preferimos ficar sem o álcool. A noite nos presenteava com uma trégua das chuvas e a brisa que soprava sobre a pele trazia os bons ventos de outros carnavais. Tudo ia bem, mas o estranhamento voltava vez ou outra, como quando os integrantes da banda gritavam palavras de ordem como “Não vai ter Copa!” e “Pela desmilitarização da polícia!” em um local onde o público não compartilhava das mesmas opiniões e, portanto, não respondia aos chamados. Foi com a mesma apatia que os presentes receberam a Marcha do Pó Royal, música que satiriza o caso dos 450 quilos de cocaína encontrados no helicóptero do deputado estadual Gustavo Perrella (SDD-MG). No bloco “Moreré”, que desfilou na quinta-feira anterior (27), a música, vencedora do concurso de marchinhas de Belo Horizonte e segunda colocada no Concurso Nacional de Marchinhas, fez grosso coro pela Avenida Brasil, fechada para os dias de folia. Mas os trechos “O pó rela no pé/ O pé rela no pó/ Esse pó é de quem estou pensando?/ Ah é sim! Ah é sim!” não agradaram muito na Savassi. É fato que os frequentadores da região fazem parte da classe média branca e, em uma festa de rua, a segregação imposta pelos camarotes caríssimos das festas privadas é invalidada. Mas os blocos não estão livres dessa divisão injusta manchada pelo racismo e pelo preconceito. Numa multidão tão aglutinada, a abertura de qualquer espaço, somado à premência do afastamento e aos olhares de censura da parte fora do círculo, configura um sentimento de medo. Coincidiu, porém, que os protagonistas do rombo formado na massa carnavalesca fossem, sem exceção, jovens negros que aparentavam ser de classes baixas. Enquanto dançava com Fernando, percebi o início de um tumulto e nos afastamos. Os jovens se empurravam e se acotovelavam, porém, pareciam dançar. Fernando, então, me explicou que não era briga, e sim a prática do mosh, dança atrelada a gêneros musicais como punk rock e semelhantes. Os movimentos, apesar de simularem o confronto, não intencionavam machucar nenhum dos participantes.

Mesmo após o fim da dança, o buraco criado no meio do povo só se desfez quando os jovens saíram de lá – e, mesmo assim, o espaço ficou vazio, imaculado, até que alguns começaram a desbravar a delimitação imaginária e unir a multidão novamente. O palco continuava em chamas, mas com músicas mais lentas. Eu, aninhada com a cabeça no vão entre o ombro e o pescoço de Fernando, curtia o som no embalo do meu amor de carnaval, que não havia começado ali e tampouco terminaria após a Quarta-Feira de Cinzas. À minha frente, casais também de outros carnavais; ao meu lado, casais que acabavam de ser formados. E, quem sabe, mais atrás, pessoas que ainda haveriam de se encontrar. E segue o baile...

Mais que uma festa de cunho identitário para os brasileiros, o Carnaval é um ode ao encontro. Do unir. Do tocar. E – quem poderá dizer o contrário? – do amar. E o Alcova conseguiu, bloco único que é, unir a crítica política e social, que não atenuou ante o público resistente, à loucura, ao desapego e à paixão febril de milhares de mineiros – e turistas, com certeza – que fugiam do concreto dos apartamentos para morar na rua por uma noite. O show acabou. O povo ficou. E eu fui embora puxada pelos olhos pesados que me repreendiam tacitamente: “Amanhã, Baianas Ozadas estarão esperando por você!” O protesto festivo do Alcova balançou meu carnaval como na primeira vez, em 2012, com seu zunido libertário e desafiador. Uma estrutura maior representa uma abrangência maior, naturalmente. O deslocamento para a Savassi e a mudança de público apenas representou uma cidade que, querendo ou não, irá – e está a – se moldar para receber esta forte manifestação cultural que chegou para ficar. Estas transformações são fruto do esforço popular para que se possa carnavalizar também pelas ruas de nossa cidade. Tudo se ajeita. A portinha da loja na Rua Caetés se fecha para que a vida continue. Faço uma mesura e sigo para além da Praça da Estação: é preciso coragem para carnavalizar na ponta dos pés pelo resto do ano. Deste carnaval, trago bagagem. Pisando em ovos, uma hora algum deles irá se quebrar. E quem sabe este não será o início de uma revolução no grande Curral del Rey? Mas isso já será assunto para o próximo carnaval.


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Dossiê Carnaval

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Larissa Kümpel 5º Período

Belo Horizonte

Era a sexta-feira pós-Carnaval. Eu acompanhava, ansiosa, a apuração de notas dadas aos Blocos Caricatos de Belo Horizonte. O coração batia forte. Ali, veio a certeza de que me envolvera demais naquela história. Sentir medo de perder uma disputa insignificante para a minha sobrevivência não era algo novo, mas a causa da disputa, sim, totalmente inédita. Na sala de imprensa da Câmara Municipal de Belo Horizonte, um vidro me separava daqueles que, há dois meses, conheci e, agora, torcia pela vitória. Os prêmios disputados por mais outros oito blocos eram de R$ 25 mil para o primeiro lugar, R$ 12,5 mil para o segundo e R$ 6,25 mil para o terceiro. Nossa esperança era a de um lugar no pódio, mesmo que no menor. Início da jornada

Dois meses antes da apuração, um amigo ligou para fazer uma proposta estranha. Ele iria assessorar um bloco carnavalesco do Morro do Papagaio, no Aglomerado Santa Lúcia, região Centro-sul de Belo Horizonte, e seria importante a minha presença para ajudá-lo. E mais, seria um serviço voluntário, ou seja, sem remuneração. Era janeiro,

mês de férias, sem nada para fazer. Abelhuda e metida a querer aprender culturas diferentes, aceitei. Nem sabia o que era Carnaval, ainda mais o que significava ser um bloco caricato. “A amaldiçoada festa da carne”, como dizia minha mãe, não passava de um feriado bom para dormir, viajar ao interior, assistir à televisão, ou, às vezes, ir a algum retiro espiritual de igreja evangélica. Não conhecia ninguém. Mal sabia o caminho de volta para casa. Porém, o ambiente me agradou. Não sei se pela cerveja de graça, se pela alegria estampada no rosto de quem me cumprimentava ou pelos dizeres de quase todos. “Seja bem-vinda! Você é tão nova”. Me senti aconchegada. O lugar não é assustador, na mesma rua estão os prédios de classe média alta do bairro Santo Antônio. Um passo adiante, na direção contrária, está o Morro do Papagaio. A Vila é como uma fronteira. Tem fácil acesso, sem tantos becos e vielas. O tráfico de drogas se faz presente na “boca” localizada bem na entrada do morro. Tímida, sem armas aparentes, bem frequentada. Pessoas bem vestidas entram de nariz empinado e saem, escondendo algo, apertando os dedos contra as mãos. Participei de duas reuniões com o grupo que faria a comunicação do projeto. No segundo encontro, realizado no barracão do Grêmio Recreativo Acadêmicos da Vila Estrela, conheci o produto que seria “vendido”, a bateria. Batidas ainda sem ritmo, faltando integrantes e instrumentos. E ainda inventaram de colocar sanfona no meio do samba. Não cabia, não combinava e me incomodava. Faltavam 60 dias para o carnaval e nada estava pronto. A Belotur ainda não mandara a verba de auxílio que prometera aos blocos. A Vila tinha

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Dossiê Carnaval

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retensão de arrecadar R$ 40 mil, mas recebeu mente R$ 16,75 mil. Ainda havia muito a ser to, as fantasias não estavam prontas, a bateria safinava, não tínhamos sequer o número comto de pessoas para entrar na avenida. De conto, tínhamos apenas o samba-enredo, feito por ário Emílio Moura e Marcelo Roxo, e o esboço alegoria que seria usada no caminhão no des.

escoberta do samba

Os finais de semana eram marcados pelas ros de samba no Bar do Iraquiano, em frente ao rracão. Enquanto o lugar enchia de gente e meu ado de consciência se alterava pelo alto nível álcool ingerido, descobria meu samba no pé. E e samba era aquele? De onde vinha? Não sei, só que meus pezinhos se movimentavam de acorcom o ritmo da música. Quem diria... Nascida em berço evangélico, anca, baixinha e gordinha, me acabando no mba da Vila Estrela. Lugar que, de acordo com moradores mais velhos, é uma das comunidas mais antigas do Aglomerado Santa Lúcia e bitada por descendentes de escravos. Dizem

ter sido uma área quilombola. O contraste era nde, dentro da roda de batuques estava eu, de scendência europeia. Ainda latejavam nos meus vidos as palavras firmes de minha avó. “Nosso ngue é azul. Nossa família tem brasão”. Meus pais, como de praxe, odiaram a ideia de essorar um bloco de carnaval. O que eu podia er? Já começava a acreditar na existência de vis passadas e que meu espírito vinha de lá. Proti que só iria pela experiência profissional, que deria me abrir outras oportunidades. Promessa o cumprida. Em uma dessas noites de samba, presidente do bloco, Alvimar Nery, pediu mia participação na comissão de frente. Aceitei. ensaios começariam no dia seguinte de manhã, Igreja Velha, lá em cima do morro. Até então, nca tinha me atrevido a entrar em favelas, não r medo, mas por falta de oportunidade.

escoberta do morro

No primeiro dia, vi a subida do morro pela jaa do carro. O cenário é parecido com o clichê s novelas da Globo, o acesso é largo, há lixos palhados pela rua, cães vira-latas, homens e mures vira-latas – nesse caso, de cerveja. Olho para ma e vejo fios se cruzando sem ordem, casas peenas sem muito acabamento, igrejas e bares distando a freguesia. Meninas mulheres sentadas calçada com seus filhos no colo, shorts curtos olados, umbigos à mostra, tudo natural. O sofá gado da esquina me chamou atenção, nele estam rapazes vestidos de bermuda colorida e camilargas, usando bonés e óculos espelhados. Um ntava funk, enquanto o outro dava o ritmo com ns feitos pela boca. Não agredia meus ouvidos, ha talento por ali.

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Desci do carro, entrei na Igreja Velha, um salão de aproximadamente 12 metros quadrados, pé-direito de quatro metros e chão liso, quase escorregadio. Percebi a falta de púlpito e santos no local, concluí que era um espaço comunitário. Conheci o Barão, coreógrafo e professor de dança voluntário, e meus novos parceiros de comissão de frente. Com alguns, eu já havia esbarrado no samba da Vila. Lá estavam a Jó, cozinheira e moradora do Papagaio, sua filha Núbia, a ex-professora de dança do ventre Ruth e quatro nativos da Vila Estrela, Stephanie, Wania, Lucimar e Furita. Após o ensaio puxado, de coreografias pouco definidas, sentamos na fina calçada, bebemos e conversamos até o sol se pôr. O papo me fez enxergar um pouco da realidade dos que vivem ali. A decisão de ser integrante da comissão de frente me trouxe problemas familiares. Outra vez me fazia a pergunta: o que eu podia fazer, se não via nada de pecaminoso ali? Confesso que não me importei, a sensação era de total liberdade. Virei a madrugada ajudando a confeccionar adereços de fantasias. Dormi no barraco da Jó e, quando acordei e saí na varanda, a vista dava pra grande parte da cidade, o céu estava em um azul vivo.

um desastre. Tocou o primeiro sinal, tínhamos que fazer o que aprendemos. Foram 37 minutos de desfile na Avenida Afonso Pena, 205 integrantes sambando por só um ideal, fazer o melhor. Fizemos. Os erros cometidos não foram percebidos. A arquibancada estava cheia, o chão também. Na dispersão, não existia uma área delimitada que nos separasse da multidão. Saímos do desfile e caímos direto no meio do povo. As mulatas reclamavam do abuso dos homens, que as agarravam e passavam a mão. A bateria não parava de tocar, o público pedia mais. Coisa bonita de se ver, arrepiante. Fiquei para ver os blocos concorrentes, conseguimos entradas para o camarote que estava posicionado na calçada do Parque Municipal. Sem comida, sem bebida, sem cadeiras. De lá, consegui ver a movimentação do outro lado da avenida. Em meio aos desfiles, também rolavam arrastões. Não havia espaço suficiente para todas as pessoas. A correria era tanta que alguns invadiram parte da área demarcada para escapar do tumulto. As arquibancadas abarrotadas e, do outro lado, pessoas penduradas na grade. Eram quatro da manhã quando cheguei à casa

Somente na penúltima semana antes do desfile é que me aventurei a encarar o morro a pé – até então, só havia subido de carro. A ladeira é íngreme até chegar aos becos, são como labirintos apertados, escadas longas, mal construídas e cansativas. Às vezes, é preciso virar de lado para passar duas pessoas. Entre um barraco e outro, descortina-se uma janela com vista para a paisagem esplêndida da cidade. Já na reta final, nem todos haviam decorado a coreografia, estávamos péssimos. A bateria já estava linda, com tudo completo, ritmado. A sanfona e o triângulo, que outrora não entendia, estavam em perfeita sincronia. O clima era tenso, as mulheres que viviam na Vila e que participaram de todo o desenvolvimento do bloco se revoltaram por achar que o presidente estava dando mais atenção ao grupo da comunicação. Uma discussão que não deu em nada, só resultou em olhares e encaradas furiosas.

de uns amigos. O transporte público se desviava das suas rotas principais pelo centro da cidade. Isso nos obrigou a subir toda a Rua da Bahia para encontrarmos um ônibus que nos salvasse. Chegando lá, era tanto cansaço que o sono foi quase imediato, instantâneo. E reparador. A sensação era de dever cumprido. Na sala de imprensa, jornalistas dos veículos de comunicação mais importantes da cidade. Antes da abertura da apuração, um dos repórteres zoava o carnaval de Belo Horizonte. “Minha animação de cobrir o carnaval dessa cidade, nota 3. Minha vontade de estar na minha cama, nota 10”, e todos os outros gargalhavam. A menor nota recebida pela Vila Estrela foi nove, no quesito bateria. Todas as outras foram 10. Logo na primeira vez em que a Vila pisou no Grupo A, o bloco foi campeão. Ao invés das insossas sessões solenes dos vereadores, a Câmara se contagiou com a alegria dos vencedores. Ecoava o choro e o samba enredo que estava na ponta da língua: “Eu só quero xodó, você é meu chamego...” De volta à Vila, no decorrer das comemorações, refleti sobre tudo que havia acontecido. As mulheres que outrora me olharam torto me abraçavam, trocávamos desculpas e agradecimentos. O lugar, antes totalmente desconhecido, tornou-se uma casa, um barraco, uma família. Simples e humilde, mas tem tudo o que se precisa para sobreviver. Tornei-me uma pessoa confiável. São tantos os convites para aniversários de crianças que, não demora, vou acabar sendo chamada para madrinha de um bebê. “Some não, hein?”. “Muda pra cá!”. São frases que ouço a todo momento. “Domingo tô aqui”, respondo. É, fiz amigos para o resto da vida.

O desfile

Enfim, chegou o aguardado três de março, segunda-feira, dia do desfile. O enredo homenageava o Nordeste do Brasil. Por isso as fantasias da comissão de frente e da ala das mulatas remetia a Maria Bonita e as da bateria a Lampião. As crianças estavam vestidas de luar do sertão e os adultos, de mandacaru. Existia outra ala só de dançarinos de quadrilha, com suas roupas características. Tudo estava pronto, menos a coreografia. O Furita foi substituído por faltar demais aos ensaios. Wania, uma das que não tinha pegado direito a coreografia, resolveu beber e não ouvia quando era chamada. A Jó inventou de passar mal e a Lucimar insistia em falhar em um dos passos. Seria


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BH: Carnaval sem Maíra Duarte 5º Período

Belo Horizonte

Preparada para o pré-carnaval, esperava o sinal da Avenida Augusto de Lima abrir. Era sábado de festa e logo pegaria o ônibus para a concentração do Bloco “Mamá na Vaca”. Um fusca vermelho me encantou ao passar pela avenida, mas não era qualquer fusquinha. Dentro tinha um palhaço, que buzinava seu carro com o rosto para fora. Foi aí que me dei conta do anúncio, ainda que indireto: o Carnaval chegara a Belo Horizonte. No entanto, não acreditei na multidão que descia as ladeiras do bairro Santo Antônio. Belo Horizonte, cidade conhecida pela tranquilidade e pelo silêncio nos períodos carnavalescos, lembrada apenas pelas comemorações dos clubes e salões à moda dos anos 60, estava transformada. Observei, contente, a reviravolta no cenário. As serpentinas e confetes voavam pelo ar e a criatividade comandava as fantasias. Tinha de tudo. Uma astronauta que encantou uma criança com seus passos lentos de “gravidade zero”, um lindo trio de moças que interpretavam mímicas, também monstros e super-heróis. Em certo momento, falei para um amigo: “Olha aquele rapaz, do que ele está fantasiado?”, Meu amigo respondeu: “Acho que ele está fantasiado de fantasia!”, caímos na gargalhada. Os enfeites eram pitorescos, cômicos e simbólicos. Todas aquelas pessoas transformando o apagado carnaval de Belo Horizonte em um mar de cores! Com uma coroa de flores, entrei no batuque e iniciei minha peregrinação pelas ladeiras do Santo Antônio. O povo pulava, dançava, socializava sua alegria. Uma “noiva cadáver” – um homem fantasiado – abordou o meu namorado e falou que ele era lindo e que eu era “viva” demais para ele. Com bom humor, perdoei a ousadia. Uma família e um grupo de amigos que assistiam a festa da varanda de sua casa refrescavam os foliões com jatos de água da mangueira. Sobe e desce

Descemos o morro sambando e cantando. Apesar do barulho, tentava escutar e entender o que as pessoas diziam. Uma mulher, provavelmente de outro Estado, exclamou que “só mineiro mesmo para fazer carnaval em ladeira!”. Tudo entre risos, alegria, diversão. O tempo passava e a animação aumentava, não importava quantas ladeiras tinham que ser encaradas. Como dizem por aí, “para baixo todo santo ajuda”. No meio da multidão, encontrei vários conhecidos, todos fantasiados, uma de máscara, outro de “lacinho” no cabelo com o rosto cheio de beijos, tinha também uma espanhola, enfim, era um conto de fadas só. Todas as pessoas se transformaram em personagens extraordinários de um carnaval reinventado. Ent ardeceu, anoiteceu

e o “Mamá na Vaca” continuava firme e forte. Nas ruas mais planas, tinha gente dançando até frevo. Tirei o chinelo e entrei na folia, mesmo não sendo especialista no ritmo. Mas compensei a falta de rebolado apropriado com muito samba no pé! Era só o começo de um Carnaval sem fim. Logo após um breve descanso, minha coroa de flores foi substituída por um “arquinho” de cabelo com dois chifres de capetinha, um belo adorno para usar ao som do “Alcova Libertina”. Conhecidos por tocar clássicos do rock, como Beatles e The Doors, além de grandes nomes do Tropicalismo, como Caetano Veloso, tudo isso com uma boa levada de batuque carnavalesco. O bloco fez um pré-carnaval no Granfino’s, casa de shows que fica no bairro Santa Efigênia. A fila para entrar na casa de shows estava bem cômica, tinha capetinha, deus grego, sereia, casal de vampiros... Agora sim

Depois desse “esquenta” intenso e delicioso, esperava, ansiosa, pelo “Bloco do Moreré”, que aconteceria cinco dias depois, na Avenida Brasil. O desfile marcaria, finalmente, o início do carnaval em BH. Se o “pré” já fora um espetáculo, o que a festa oficial me reservava? Me impressionei com a estrutura

fim

montada para a realização do show. Um grande palco foi erguido, banheiros químicos disponibilizados para o público e até uma ambulância. Enfim, a Prefeitura de BH enxergou uma parte deficiente e sem investimentos na cidade e tentou fazer sua parte. Motivada, contudo, pela comoção dos belohorizontinos, verdadeiros responsáveis pelo renascimento do Carnaval. O bloco foi fundado em 2011 na praia de Moreré, que se situa na Ilha de Boipeba (BA). Naquele mesmo ano, o grupo tocou pela primeira vez no carnaval de Belo Horizonte, no Bar do Orlando, ponto tradicional do bairro Santa Tereza. A ideia era levar o samba de roda da praia para o ressurreto, mas ainda incipiente, carnaval de BH. Os integrantes do Moreré são fascinantes, a composição é variada, com músicos profissionais, artistas plásticos, cineastas, pesquisadores, fotógrafos, artistas, mistura fina. E não para por aí, o grupo ainda tem um mascote conhecido como “Gigil Petisco”, ele é natural de Moreré e sua caricatura, onde equilibra uma latinha de cerveja na cabeça, está estampada nas camisas do bloco. Do Gigil ganhei folhas de manjericão, de mim ele ganhou um beijo de batom laranja. O show começa e milhares de pessoas já estavam reunidas em frente ao palco. De repente, aquele samba maravilhoso, músicas de Chico Buarque, Noel Rosa, Nelson Cavaquinho, Vinicius de Moraes, Dorival Caymmi, Clara Nunes, Paulinho da Viola, tudo isso em meio a composições do próprio bloco, o que fazia meus ouvidos derreterem de alegria. Samba animado, com maravilhosas cantoras no palco arrebentando nos vocais, a mineira Laura Lopes e a carioca Jhê Delacroix. O Moreré fazia meu corpo chacoalhar, o time que estava reunido ali era de tirar o fôlego. Fotógrafos por todos os lados tentando eternizar em suas lentes o momento incrível que BH estava vivendo. Não faltaram marchinhas de cunho político, cantadas, animadamente, por uma população que avisa: estamos de olho. Da “coxinha da madrasta” ao “Pó Royal”, que condenam, de modo zombeteiro, a desfaçatez de nossos “homens públicos”. Uns poucos até podem indagar se carnaval é lugar para falar de política. Ah, é sim. Fim de festa. O corpo, apesar de exausto, queria mais, mais. A sensação era de plenitude, como se o carnaval de BH não fosse acabar nunca. O que importa é que ele veio para ficar. Movido pela força, pela gana, pela vontade do povo de ir para as ruas festejar, zoar, libertar-se. Evoé, Moreré, axé! Até o carnaval que vem.


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Estações de um mesmo Carnaval Hiago Soares 6º Período

Belo Horizonte

Todos os dias, a Praça da Savassi, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, vive de seus barzinhos nas calçadas e de jovens esfomeados em alguma poltrona de McDonald’s. À noite, junto aos copos de cerveja na rua e ao fast-food por trás das vitrines, filas para uma noite nos “inferninhos” dançantes brotam pelos cantos de rua, em diferentes pontos do bairro. Há uma variedade de público e opções de entretenimento (cinema, galerias) e diversão (casa de shows, lojas, cafés), mas a concentração majoritária é de estudantes universitários de classe média/alta, artistas e outros grupos que, satisfeitos ou não, são acomodados em alguma caixinha classificatória. O pessoal “moderninho e descolado”, chamados de hipsters, são um exemplo. Contudo, era um domingo diferente. Onde antes atravessavam carros, agora circulavam, cambaleantes ou não, um sem número de gente fantasiada, diferente e “com samba nos olhos”. Corpos suados se encontravam e trocavam calor. Homens musculosos andavam em bando. Caça. Despiam os botões da camisa e exibiam seus corpos sarados. Culto. Mulheres desfilavam entre um e outro tropeção, tentando abrir caminho pela passarela-avenida-praça, dividindo atenção com amigos e flertes ligeiros. Charme. Uma reunião acalorada, diversa e alegre, com êxtase no sangue e música alta furando os ouvidos. Carnaval. Dois de março. Às sete da noite, o coletivo Alcova Libertina, grupo de artistas com sede na praça Duque de Caxias, no bairro Santa Tereza, apresentara seu repertório de covers de rock e marchinhas de carnaval reunindo super-heróis, personagens infantis, madames pomposas com seus chapéus de penas e um Jesus Cristo em vestes brancas maltrapilhas, com sua coroa de espinhos iluminada pelos holofotes e uma guitarra pendendo do ombro, num show performático, com ares dionisíacos. Pelos arredores, entretanto, alguns “movimentos” aconteciam.

Quem quisesse escapar do show para aproveitar a farra em outras paragens acabava indo ao encontro de pequenos nichos de estilo. Foi o que encontrei durante um trecho da avenida Cristóvão Colombo, que corta a praça da Savassi, próxima às ruas Alagoas e Sergipe. O capô do carro guardava o ouro. Caixas robustas de som que rugiam batidas rápidas, tipicamente eróticas. Meninas em shorts curtos e blusinhas decotadas subiam e desciam em suas coreografias ensaiadas. Meninos exibiam seus abdomens magros, enquanto rebolavam com orgulho suas cinturas que me pareciam sem ossos. Roupas e acessórios de marcas famosas compunham seus trajes de festa. No meio deles, vestido em jeans skinny, camisa estampada de alguma fast-shop e confortável em meu All-Star, sentia-me como um estrangeiro sem domínio da língua nativa. Eu era um turista no meu próprio carnaval.

Onde antes atravessavam carros, agora circulavam, cambaleantes ou não, um sem número de gente fantasiada, diferente e “com samba nos olhos” Na calçada, os estilos, as marcas e os interesses se confundiam. Subi a rua e, adiante, juntei-me a uma reunião entusiasmada de gente ouvindo e dançando reggae. Um “intruso”, segundo a recepção dada por quem estava ali ouvindo os brados de Bob Marley e Natiruts, tentou estacionar seu carro com o funk arrebentando nas caixas, mas foi vaiado. “Vacilão”, bradavam. Recolheu sua tentativa de posse da área

e foi se juntar a quem o receberia, alguns metros à frente, com bastante entusiasmo. Cigarros de maconha eram acesos sem parcimônia. A maresia voava tonta pelo alto. Havia uma mistura de estilos e gostos sexuais por todos os lados. De caráter mais libertário, este grupo recepcionava, mesmo que de maneira indireta, o maior número de pessoas em toda a sua diversidade. Entretanto, mesmo próximos aos banheiros químicos, o cheiro forte de urina despejada nos postes, árvores e passeios intrometia-se nariz adentro e incomodava. Nada suficientemente capaz de fazer os pés pararem de dançar. Subi a rua. Em frente ao Bar Imperial, de frente para o Club Velvet, uma das casas noturnas do bairro voltadas ao público LGBTT, outra parada para quem quisesse ouvir música “bagaceira” (aqueles hits de décadas passadas que você morre de vergonha por ter dançado em frente à tevê quando criança), além de hinos do pop nacional e internacional. Frequentado cotidianamente por gays, lésbicas e simpatizantes, naqueles dias não foi diferente. O espaço era como um abrigo das ofensas e violências cometidas pelos arredores, ao mesmo tempo em que funcionava como um verdadeiro caça-níquel de amores expressos. Era uma festa de tipos, alegre e acolhedora, o que abarrotou o lugar, dificultando até mesmo ir de um ponto a outro, seja para encontrar ou fugir de alguém. Como que combinado, quase todos os bares cobravam pelo uso de seus banheiros. Aliviar o aperto custava um ou dois reais, dependendo do lugar, e no Imperial não era diferente. Para saciar a fome, pouquíssimas opções: uma delas, descendo a rua Sergipe, era o famoso Rei do Pastel, que colecionava filas enormes para a compra das massas fritas recheadas com queijo, carne ou napolitano. Por fim, virando a esquina, tomando outra vez o rumo da avenida Cristóvão Colombo, a noite continuava a abrigar seus libertinos, que lutavam para que, parafraseando a marchinha do Alcova, os moralistas não calassem suas esperanças e seus sorrisos. Subi a rua. E comecei tudo outra vez. reprodução


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Carnaval em Bonfim é de tradição Izabel de Souza 7º Período

Bonfim

Para os moradores de Bonfim, na região central de Minas Gerais, a cerca de 90 quilômetros da capital Belo Horizonte, com seus sete mil habitantes, o Carnaval é sinônimo de tradição. Há quase dois séculos, cavalheiros e amazonas repetem o gesto trazido pelos portugueses e que é passado de pai para filhos, netos e bisnetos. A festa relembra uma batalha da Idade Média, da conquista da Península Ibérica pelos mouros, um exercito cristão é preparado para reconquistar suas terras. Em Bonfim, o objetivo dos guerreiros locais é chegar até a praça principal da cidade e divertir e embevecer o público que aguarda por seus heróis contemporâneos. Vestindo roupas de gala medievais, veludos bordados à mão – frutos de um ritual familiar e que levam cerca de um ano para ficarem prontos –, máscaras e penas na cabeça, os foliões se transformam em príncipes. Quando cavalos e cavaleiros ganham a praça, não dá para descrever a sensação. Os animais são um espetáculo à parte: crinas penteadas, flores de papel de seda e guizos no peitoral, eles se tornam astros da festa, é de encher os olhos. Um a um, eles entram na praça para dar início a três dias de muita festa. Em Roma, como os romanos O barulho dos guizos se mistura ao som das antigas marchinhas, saudosamente relembradas pela banda da cidade. A mescla substitui o barulho dos canhões e embala a entrada dos guerreiros mascarados no campo de batalha. Moradores e visitantes sentem-se como em uma arena da Velha Roma. Só que, no lugar de leões e outras feras, os mais belos cavalos da região. Os gladiadores, por sua vez, são homens e mulheres ávidos por exibir as fantasias. Com apenas uma grade a separá-los, espectadores vibram a cada evolução de cavaleiros e amazonas, que se revezam em coreografias preparadas ao longo de meses. Em meio a gritos e chuvas de papel picado, cada instante desperta novas impressões. Reconhe-

cidos por seus trajes, os cavaleiros são saudados efusivamente por amigos e familiares. A paz costumeira da pequena cidade é deixada de lado durante o Carnaval, substituída pela sonora mescla de trotes equinos, banda de música e uma plateia que não se cansa de se comover. “É muita emoção, estou quase chorando”, diz Gilvania Eliza, moradora de Contagem. “É lindo ver crianças, jovens e adultos se divertindo juntos, sem agressões e erotismo, em uma festa onde toda família pode participar”, relata a visitante. Como se fosse um jogo de futebol, o espetáculo dura exatos dois tempos de 40 minutos, divididos por um pequeno intervalo, essencial para o descanso de foliões e montarias. O desfile encena uma batalha na qual não há vencidos: todos são vencedores, público e artistas. Se há uma guerra, é apenas de confetes e serpentinas, jogados de um lado para o outro, em cenas de contagiante alegria. Folia abençoada

“É Carnaval, mas sem apelo sensual. Somente arte, beleza e cultura popular”, frisa o padre Geraldo Magela da Silva, pároco da Igreja de São Expedito, do bairro Dom Bosco. “Estou muito emocionado”, confessa. Com 17 anos de Carnaval a cavalo, o guerreiro Gustavo, desta vez, preferiu ceder seu lugar a um amigo. Apesar de ter ficado de fora do evento, a alegria era exatamente a mesma. “É muito bom poder colaborar para que a tradição não se acabe. As novas gerações só irão pegar gosto pela coisa se realmente fizerem parte da festa. Por isso, cedi meu lugar. Assim, ajudo a perpetuar nossa tradição”, disse. Comemorado há 174 anos, o Carnaval a cavalo chegou a Bonfim pelas mãos do padre Chiquinho, que buscou uma forma diferente de comemorar o reinado de Momo em uma festa sem bebedeiras e confusões. Símbolo da cidade, a celebração é uma maneira sadia e divertida de unir as famílias de Bonfim e convidados, que passam o ano inteiro esperando pela chegada do espetáculo. E que, mesmo visto e revisto incontáveis vezes, continua a emocionar.

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Batidão na lata, rock e cupcake Maíra Leni 1º Período

Ouro Preto

Sabe aquele feriado para o qual você se programa há meses, mas, de última hora, tudo sai ao contrário do planejado? Foi o que ocorreu com o meu carnaval este ano. Já estava tudo combinado para passar os quatros dias na folia. Mas, com o cancelamento de algumas pessoas e o mal estar súbito de uma amiga proprietária da casa onde me hospedaria, a viagem acabou sendo cancelada. Apesar disso, não me dei por satisfeita, recorri ao jeitinho brasileiro e, no penúltimo dia do feriado, liguei para uma turma e consegui carona. Às 13h, já estávamos na estrada. O destino? Ouro Preto. Um dos mais agitados e tradicionais carnavais de Minas Gerais, que atrai turistas de todos os cantos do Brasil, além de inúmeros estrangeiros. Os blocos, liderados pelos moradores das repúblicas de estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), desfilam pelas ladeiras da cidade histórica e reúnem, todos os anos, mais de 75 mil foliões. Logo na chegada, inúmeros cambistas negociavam abadás dos blocos com shows para aquela tarde. Ao descer as ruas da cidade, uma multidão de foliões cercava a Praça Tiradentes, de frente para o palco principal, esperando a ‘’banda popular’’ tocar. Com grande infraestrutura, o carnaval ouro-pretano contou com sete palcos na sede, espalhadas nas praças Tiradentes, Orlando Trópia, Reinaldo Alves de Brito, Silvano Brandão, Passo da Ponte Seca, Antonio Dias e Nossa Senhora da Piedade. Os blocos principais seduzem pelos artistas contratados para o carnaval, como Tuca Fernandes, Monobloco, Alexandre Peixe e Anitta. O mais aguardado pelos integrantes do “Bloco Forca” era o cantor Marcelo D2, que se apresentaria exatamente naquela terça-feira, dia 4 de março. Para somente um dia de festa, o preço dos abadás variava entre R$ 110 e R$ 140 para pista e R$ 300 o camarote. A quem não queria gastar tanto, restava a opção de acompanhar os shows gratuitos, animados por bandas pouco conhecidas, que se espalhavam pelas praças da cidade. De todos os shows, o que me

chamou mais atenção foi de rock metálico, no sobrado da República Chaparral. Quem quisesse curtir um bom solo de guitarra e se refugiar do “Lepo Lepo”, só precisava descer por uma ruazinha ligada à Praça Tiradentes e aproveitar o show gratuito. Também aproveitei para conhecer o bloco “Charanga de Lata”, que há 40 anos não desfilava na cidade. O grupo circundou as praças em meio ao inconfundível som de batidas em latas, suaves, lembrando a musicalidade dos pandeiros. Os instrumentos foram construídos com latas antigas, tentando se assemelhar àqueles tocados durante os desfiles das associações recreativas típicas da década de 1960. A alegria nas ruas eram contagiantes. Pessoas de todas as gerações caracterizaram-se com as mais diversas e pitorescas fantasias. Personagens de contos de fadas, heróis, índios e o que mais vocês puderem pensar. A mais engraçada e criativa de todas, sem dúvida, foi o cupcake personalizado por uma estudante de Farmácia da Ufop. Em busca de histórias que marcassem seu carnaval, a moça resolveu inovar e, para isso, apostou em uma fantasia diferente e colorida. E que, segundo ela, não foi difícil de confeccionar. Bastou cortar o fundo de um cesto de roupa e envolvê-lo com uma cartolina dobrada em forma de leque. Para a cobertura, ela usou enchimento de almofada e finalizou picotando papel crepom de diferentes cores para formar o granulado. Caixas eletrônicos, lanchonetes, feiras e lojas estavam funcionando normalmente. Havia policiamento em todas as praças da cidade. O posto policial atendia feridos e aqueles que passaram um pouco da conta devido à bebida. Eu e minhas amigas não precisamos de ajuda nesse sentido, mas encontramos conhecidos sendo amparados pelo excesso de álcool. Vergonhoso, mas vamos dar um desconto, né? Afinal, era carnaval. A volta para Belo Horizonte foi bem tranquila. A estrada estava em boas condições e não enfrentamos engarrafamentos. Mesmo com os imprevistos e sufocos para chegar a Ouro Preto, valeu a pena. Aproveitei bastante as poucas horas na cidade e já estou desejando o carnaval do ano que vem para passar por lá novamente. Sem tanta correria.


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Tempos Momescos Wilson Albino 4º Período

Esmeraldas

Quando vou a Esmeraldas, tenho a impressão de que lá o tempo anda mais devagar. É possível que o arvoredo verdejante provoque tal sensação. Mas, além do verde esmeralda que envolve o que está pertinho e distante, ainda há uma atmosfera formada por construções octogenárias e por um povo “amigueiro”. Que, sem luxo, festeja a rotina rural. Essa gente não economiza saudações ou sorrisos. Às visitas, sempre é oferecido um cafezinho coado na hora. Prosear sem pressa já é costume no lugar. Um freio no tempo, pois lá a vida é levada em ritmo de valsa. Até chegar o Carnaval. Há tempos que eu não ia à área central de Esmeraldas. No dia 2 de março, em um domingo ensolarado, a fim de registrar a comemoração carnavalesca, parti rumo à terra que um dia já se chamou Santa Quitéria. O núcleo da cidade é pequeno em comparação a alegria dos foliões. A igreja, o cartório, a prefeitura e quase tudo que lá existe concentra-se no entorno da formosa Praça Getúlio Vargas, palco

de incontáveis eventos. Entardecia quando cheguei ao local previsto para a realização da folia. Contornei a praça enquanto um técnico de som arriscava-se como DJ e soltava, rumo aos céus, uma música eletrônica. Não sei como o homem que operava as pickups não botou abaixo as heranças arquitetônicas de tempos imemoriais. Perguntei-me: “Isso é carnaval ou rave?” Pequenos grupos de homens travestidos de mulher dançavam ao som do “bate-estaca”. Destaque para os excessos, pois teve gente que não se contentou apenas em se fantasiar, e também enfeitou o bicho de estimação. Ninguém estranhou quando apareceu uma onça trazendo, a tiracolo, seu cãozinho, todo colorido com tinta spray pink. Passados 20 minutos, um locutor solicitou que a multidão se dirigisse a uma rua paralela à praça. Fantasiados ou não, todos obedeceram ao comando. O motivo - concentração do povo que desfilaria ao som da Banda de Música Euterpe Quiteriense. É o conjunto composto por 15 músicos e liderado pelo senhor Geraldo Vitor, que dita o tom na cidade desde junho de 2004. Executando marchas carnavalescas,

matrimoniais ou fúnebres, esta banda marca presença em todas as ocasiões comemorativas em Esmeraldas. Entre afinações e gargalhadas, mais dez minutos se passaram até que o maestro, munido de trompete, e não de batuta, gritou: “ATENÇÃO!!! Um, dois, três...” Porém, as primeiras notas musicais da marchinha Mulata Bossa Nova foram abafadas pelo estrondoso retumbar de um trovão. Cheguei a pensar que até o infinito enchera-se do barulho e, por isso, se fizera breu. O céu, que minutos antes estava preenchido por um anil majestoso, ficou oscilando entre o azul violáceo e o marinho. No intervalo entre as músicas “Aurora” e “Bandeira Branca”, ouviu-se um novo troar, que deixou trombones, trompetes e o bumbo inaudíveis. Tão logo o povaréu começou a brincar o carnaval, segui fotografando quem de livre vontade posasse para minha câmera. Alguns participantes, mais misteriosos que tímidos, reprovaram as presenças, da máquina e do repórter. Que pena! Impediram-me de registrar encontros inimagináveis de figuras como a presidente Dilma de mãos dadas com Hulk, ou

a Mulher Gato “pegando” o Saci Pererê. Ainda bem – ou não – que é só no período carnavalesco que o fantástico e o real se complementam. Antes que as nuvens abrissem suas comportas e as águas viessem purificar ou dissolver a alegria de quem comungava a festa da carne, por volta de 17h o locutor anunciou o encerramento do Baile da Saudade. A Euterpe Quiteriense, com o sentimento de dever cumprido, calou os metais e silenciou a percussão. Segundos depois, o aprendiz de DJ tripudiou: parou de tocar música Techno; era a hora e a vez do funk. Sinto-me na obrigação e na satisfação de informar que não testemunhei violências. Talvez por causa do horário, ou por causa do efetivo policial, ou por pura sorte mesmo. De regresso para casa, refleti muito sobre o louvável e gratificante ofício de jornalista. Entendi que além de registrar fatos por meio de fotos e palavras, faz-se necessário divulgar, incansavelmente a cultura. Talvez este seja um caminho que possibilite as intervenções sociais, o combate à ignorância e, principalmente, a promoção da justiça, independentemente de tempos momescos.

De volta a Lambari Bárbara Germano 1º Período

Lambari

Depois de cinco anos seguidos me divertindo no carnaval de Lambari, cidade do Sul de Minas onde nasci (mas me criei em Jesuânia, que é do lado), dessa vez eu não estava muito animada. Havia acabado de me mudar para Belo Horizonte e já me habituara a novos amigos, que iriam ficar por aqui ou, no máximo, iriam para Ouro Preto. Lambari sempre teve vários blocos. Os mais populares, no entanto, são o “Hard Roça”, famoso por desfilar nos quatro dias de folia, o “Dim Terim Bebim”, tradicional no domingo à noite, e o “Bloco do Ahhhh”, que sai na tarde de sábado e, para mim, sempre foi o melhor e mais organizado. Em 2012, porém, o “Dim Terim Bebim” também passou a

sair nos quatro dias. Apesar de a disputa ter sido ótima para os foliões, por proporcionar mais estrutura e shows melhores, para os empresários não foi bem assim. O lucro foi bem menor que o previsto. Ao invés de voltarem com a divisão inicial, os blocos decidiram se unir, com a desculpa de promoverem um carnaval ainda maior. A união fez com que os preços subissem – sim, os blocos em Lambari são pagos, custando de R$ 150 a R$ 465. Criaram setores diferentes, mas a reclamação foi grande, principalmente por causa da qualidade das bebidas e da falta de banheiros químicos. A ausência da tenda eletrônica, adorada por foliões mais alternativos e que vibravam com a batida do trance, surpreendeu a todos e também foi muito sentida. A grande expectativa do carnaval era a presença da funkeira Anitta. Famosa pelo hit “Show das Poderosas” – prepara! –, a cantora fez com que muita gente

comprasse o abadá apenas para vê-la. Marcado para a terça-feira, o show, infelizmente, decepcionou pela falta de emoção e pelo comportamento de Anitta, que não conseguiu empolgar o público. A apresentação durou pouco mais de 40 minutos, apesar da previsão inicial de uma hora e meia. Soube, depois, que a artista tentou cancelar o contrato, alegando que Lambari não era uma cidade conhecida, o que seria ruim para sua fama. Para compensar a apatia de Anitta, a apresentação que abriu o show da funkeira valeu por todo o carnaval. O público, já cansado de “Lepo Lepo”, “Beijinho no Ombro” e “Vai no Cavalinho”, músicas que tocaram insistentemente nos dias anteriores, se agitou com a ousadia do MC Sapão, que deixou de lado os hits tradicionais e apostou no melhor do rock brasileiro nos últimos anos, como Rappa, Raimundos e Charlie Brown Jr.

Para homenagear Chorão, cujo falecimento completaria um ano dois dias depois, Sapão abriu seu show com a música Zóio de Lula, que marcou a história do Charlie Brown Jr. Meus olhos lacrimejaram ao ver a multidão cantando junto, sem errar um trechinho sequer. Foi a cena mais bonita do meu carnaval. Para completar, lá pela metade do show, Sapão leu uma plaquinha que eu havia levado. “Quem tem limite é município”, gritou ele lá de cima. Quase delirei de emoção. Na hora de voltar para Belo Horizonte, percebi o quanto o carnaval havia sido bom, apesar do desânimo que me acometeu inicialmente. Na verdade, o que eu queria era pelo menos mais quatro dias de folia. Mesmo com as falhas, foi muito divertido o “Lambahia 2014”. O que me resta – e a todos os foliões que também curtiram os festejos – é aguardar, ansiosamente, pelo próximo Carnaval. Que venha 2015.


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Belo Horizonte, abril de 2014

Dossiê Carnaval

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Da indolência

à folia

Ludmila Bernardes 1º Período

Pompéu

Muitos brasileiros buscam escapar da folia no período carnavalesco. Desejam descansar, se refugiar. Estar em casa nesse período abre um leque de possibilidades, como ler, colocar a vida em ordem, estar com a família, ir à esquina tomar um sorvete. Ficar sozinho. A princípio, faria parte dos “muitos brasileiros” a fugir da folia, relatando para o Jornal IMPRESSÃO a opção pelo ócio em meio a tanto alvoroço. Contudo, a juventude é uma fase em que estar em movimento é mais aceitável, dentro do paradigma julgado normal, ao invés de se abster. Exacerbação do carpe diem. Portanto, a fim de não ser taxada como ovelha negra da família, me rendi e peguei estrada rumo a meu primeiro Carnaval em Pompéu. Da água para o – bom – vinho. No entanto, restaram-me ainda resquícios de esperança, pois Pompéu é uma cidade tranquila e plana, capaz de oferecer descanso. A curiosidade me impeliu à análise e ao divertimento – ninguém é de ferro – da festa que movimentou o pacato interior de Minas. A festa carnavalesca nos remete a marchinhas e fantasias. Uma modificação cultural,

porém, vem ocorrendo há bastante tempo. Ao embalo de “ô abre alas, que eu quero passar”, fantasias foram cedendo lugar aos abadás, ao mesmo tempo em que músicas antigas deram lugar aos hits do momento, dando ao Carnaval um aspecto típico das micaretas. Tais festas apresentam um tipo peculiar de organização, no qual as pessoas são separadas por espaços delimitados. Quanto mais se paga, maior o número de privilégios. O ingresso mais barato – e que atrai mais gente – é para a pista, onde não se tem a melhor visão dos shows, apresentados em cima de trios elétricos. Os abadás classificam por cor aqueles que pertencem ou não ao ambiente fechado, com bebida e, dependendo do poder aquisitivo, até comida liberados. O que diferenciou o Carnaval de Pompéu, um dos mais famosos do interior de Minas, de uma micareta, foi a gratuidade da pista. A posse do abadá dava a seus donos até o privilégio de sair de seus camarotes e circular por outros ambientes. Com uma corda, os organizadores do evento delimitaram um espaço de aproximadamente um quilômetro após o trio para esta circulação. Pelas placas dos carros, foi possível notar a presença de um público completamente variado. Rio de Janeiro, Brasília, Salvador, Belo

Horizonte e muitos outros locais se fizeram presentes. Espalhados, os visitantes apelaram para casa de parentes e aluguel de imóveis somente para o período das festas. Até barracas serviram como refúgio. O templo do prazer chamou a atenção. Quem viu a fachada da casa de longe, lendo apenas a palavra templo, chegou a pensar que se tratava de um contraponto religioso a apenas alguns metros de distância do Lepo Lepo. No entanto, a dúvida se dissipava conforme a aproximação. O espaço – uma residência alugada por um grupo de amigos – fervia com muita música, bebida e iluminação especial. O clima deixava claro que se tratava de um templo, sim, mas da folia. Mesmo em Pompéu, lugar onde o Carnaval já é tradicional, houve percalços. O show do cantor Lucas Lucco, uma das estrelas da festa, atrasou mais de uma hora. Entre os foliões, alguns incidentes foram marcantes. Após uma discussão, uma moça, em meio a lágrimas, largou a mão no rosto do namorado, talvez inspirada pela música “Desço a madeira”, que tocava naquele momento. O machismo também deu o ar de sua graça na figura de um sujeito inconveniente, que cantou meia dúzia de mulheres e passou a mão em várias outras. Mesmo escondido por trás de uma máscara, não foi tarefa difícil encontrá-lo em meio à multidão. Para sua sorte, conseguiu se esquivar antes de ser alcançado por outro homem, desejoso por justiça. A segurança no local foi reforçada e as brigas diminuíram bastante. Mas é preciso dizer que os próprios participantes se mostraram um pouco mais conscientes. Nem a tensão que paira em ambientes repletos de pessoas e encharcados de álcool atrapalhou. Quando um grupo de amigos derrubou, propositalmente, copos de cerveja em outro rapaz, todos esperavam a confusão. O jovem, entretanto, se virou e apertou, cordialmente, a mão dos provocadores, desarmando-os e surpreendendo a todos. Na medida do possível, dava até para dizer que o ambiente era familiar. Foi possível ver mães e pais tentando incutir nas crianças, desde as idades mais tenras, os aspectos da cultura carnavalesca - seja pulando nos momentos mais animados, seja com cativantes e criativas fantasias infantis. Pela alegria estampada no rosto dos foliões, eles não se arrependeram de pegar a estrada ou dormir em barracas. Acredito que suas expectativas para o momento foram supridas e que a fama de Pompéu como um dos melhores Carnavais de Minas continuará se propagando por muito tempo. A falta dos batuques, das marchinhas, da diversidade de fantasias, que levava adultos à infância e crianças ao sabor daquilo que elas têm de melhor a aproveitar, a simplicidade, abriu alas para minha nostalgia. Houve muito a se analisar, principalmente a animalização momentânea das pessoas, mas pouco a curtir, se você não bebe até perder o sentido, não sabe dançar até o chão e nem está interessado(a) em beijar alguém usando apenas um critério físico ou nem isso. Acometi-me a um tipo de ressaca moral após preferir o vinho à água. Esforços em vão, acabei sendo consagrada com a expressão cantada por Rita Lee. Nada mais tedioso que jovem com espírito de velho ranzinza, mas Pompéu, agora, só em dias corriqueiros, para o profundo ócio. Um brinde a nós, ovelhas negras!


Dossiê Carnaval

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Belo Horizonte, abril de 2014

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Renovação de fé Izabella Borges 1º Período

Sarzedo

Para fugir da loucura da “festa da carne” e celebrar o espírito, embarquei, pela quarta vez consecutiva, em uma viagem promovida pela rede de adolescentes da Igreja Batista da Lagoinha. A 12º edição do Interteen, congresso nacional de líderes de jovens, começou cheia de expectativas. No estacionamento, moças e rapazes seguram suas exorbitantes bagagens com feições extasiadas, enquanto os adultos mostram-se apreensivos por desovar seus filhos no mundo, alguns pela primeira vez. Ainda que em um ambiente espiritual. No ônibus, músicas clichês – até pueris –, como “fulana roubou pão na casa do João” e “Jacó segurou o anjo” embalaram animadamente a viagem de uma hora e meia até Sarzedo (MG), na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Envolta por uma garoa, desci do ônibus e corri a procurar meu nome na porta de algum lugar para guardar minhas coisas. Em um quarto com cerca de 30 camas, desfaleci, por alguns segundos, logo na primeira que encontrei, mas a noite havia apenas começado. O refeitório era organizado em fileiras. Mesas sequencialmente unidas começaram a estremecer e um barulho ensurdecedor, de “We will rock you”, do Queen, tomou conta do lugar. Antes de ver o fundo do prato, fui pressionada a terminar a refeição e integrar o número de dança junto aos outros bailarinos. Aquela noite seria dedicada aos últimos ensaios. As equipes de dança eram divididas por

estilos musicais e dedicavam-se a coreografar e executar uma mensagem bíblica. Pertenço ao Hagios – em grego, refere-se à santidade –, grupo de L.A. Dance, modalidade de dança de rua. Ainda que eu ame dançar desde a meninice, quando fazia balé, naquele momento só queria terminar minha refeição. Ao subir as escadas de outro salão, já se ouvia a passagem de som, que durou até três da manhã. Após a fatigante empreitada, era a vez de os ministérios passarem as coreografias. Na mesa de controle, a organizadora gritava e implorava expressões para todos os dançarinos. Não muito bem correspondida, recebia grunhidos e caretas em resposta. Depois de frustradas tentativas, nos permitiram dormir. Fomos correndo, antes que mudassem de ideia. Na manhã seguinte, encontrei rostos que não estavam no dia anterior e ouvi sotaques cariocas, sulistas, paulistas e de outras variantes brasileiras. Era o momento de debater o tema e interagir com os congressistas. Foi abordado o evangelismo em escolas, faculdades, comunidades e outros meios, de modo a associar a discussão ao slogan “Do banco pro campo” – ação direta de apresentação da palavra de Deus fora da igreja. Depois, no jantar, todos se dirigiram ao salão, agora decorado com bandeiras e bolas de futebol suspensas ao teto. Deu-se início à pregação, rápida e objetiva. “Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura”. As luzes se apagaram e começou o espetáculo. O teatro de sombras abriu a noite e, em seguida, exibiu-se um vídeo sobre “Como você vê o Cristão?”. No filme, as pessoas são entrevistadas, numa avenida movimentada, e dizem algo sobre Jesus, a

instituição e o cristianismo atual. Diante da tela, há olhares atentos, algumas gargalhadas e certas testas franzidas. É que, por vezes, os entrevistados afirmavam que o cristão seria alienado. Em outros momentos, diziam que “Jesus é um cara legal, mas ninguém o segue”. Por fim, havia quem dissesse que a igreja é uma instituição falida. Dando continuidade ao espetáculo, vários estilos de dança se reproduziram sequencialmente: manifestações de rua, jazz, balé, free step. Ao final, muitos elogios. No dia seguinte, todos já estavam familiarizados com o local e já havia grupos que aparentavam amizade de toda uma vida. As conversas giravam em torno das festas que ocorreriam durante a noite, que contaram com minha ajuda na organização. Foram dois ambientes: em um salão, Felipe Colácio tocava sertanejo. No outro, a piscina foi palco de um luau. A imitação da tradicional festa havaiana fez sucesso, mas o estilo musical deu espaço para o flerte, até então proibido no acampamento, o que fez com que os olhos da liderança estivessem sobre os ombros de todos. Programada para virar a noite, a festa teve poucos sobreviventes. A “massa” se retirou às três da matina. Na saída, abraços calorosos, pedidos de amizades nas redes sociais e muitos “nos vemos em breve” tomaram conta de toda a pousada. A frase, aparentemente frívola, era verdadeira e recíproca. Até que, enfim, as malas se arrastaram para o ônibus e fomos embora. Quis estar ali por mais tempo, quem sabe até me sentir preparada para o que em breve iria encontrar no mundo, mas, era necessário que depois de um treinamento, eu voltasse para o campo. Sentindo-me renovada e feliz.

Espiritoval frustrado Ananda Gama 4º Período

Jaboticatubas

É um Deus nos acuda quando o feriado mais aguardado do ano chega. É sabido que a comemoração, enaltecedora da carne, é a época reservada para exibir corpos moldados por meses de muito suor na academia. Mas se a festa é da carne, para onde o espírito corre nos quatro dias de folia e muito lepo-lepo? Esconde-se, ou está por aí, atrás de máscaras e serpentinas? Em busca dessas respostas, encarei um Carnaval – ou classificando mais adequadamente, espiritoval –, repensando a fé, seus seguidores e sua doutrina. Foi o tempo em que Belo Horizonte não tinha movimento no Carnaval. Aquela cidade vazia, inabitada de foliões, não existe mais, para a alegria das carteiras vazias e tristeza das almas tentadas. Eu, uma dessas almas representadas, optei por dar uma fugidinha – leia-se: fugidinha, sem cantarolar Michel Teló – para fora da cidade. Destino: Jaboticatubas, em seu mais denso interior. Este texto era para ser sobre um carnaval mergulhado na análise da fé alheia. Em meu primeiro espiritoval, esperava compartilhar e comparar impressões e sentimentos com pessoas mais experientes. Durante a viagem, relembrei carnavais passados que, comparados com a ansiedade pelos dias de calmaria que estariam por vir, não me fizeram arrepender da escolha.

Acompanhavam-me meus pais, irmã, cunhado e meu sobrinho mais velho. Fomos na frente, a fim de preparar a casa para receber as visitas que chegariam depois. Todos os convidados fazem parte da mesma igreja, na qual meu pai é pastor, acompanhado de outros dois ministros auxiliares. O combinado era reunir as famílias destes pensadores da fé para momentos de lazer e, como de costume, louvores, ensinamentos e muita oração. Mas ninguém apareceu, para minha total decepção. O céu encoberto nos dava a impressão de a hora estar bem à frente da que o relógio marcava. Chuva naquela região, dependendo da intensidade, deixa o acesso bem mais difícil, impossível. O que me fez recordar de uma reunião da igreja, feita nesse mesmo local, há quase um ano: um micro-ônibus atolado e 23 pessoas sujas de lama até o pescoço, o que talvez explique a ausência desta vez. As horas se arrastavam. Meu pai, tranquilo, adormecia na rede. A preocupação de onde estaria seu rebanho não se mostrava aparente. Era uma expressão de alívio a cada suspiro que escapava, enquanto o sono entrava em estado mais profundo. Enquanto isso, a conversa na cozinha fluía e, algumas vezes, sou tomada pelo déjà vu de já ter vivido tantos outros dias daquela mesma maneira. O sinal de telefone é bem fraco, o da internet mais ainda. Tentei acessar minhas redes sociais à cata de notícias dos convidados. Como não aparecera ninguém, talvez encontrasse mensagens com explicações que culpassem o tempo,

o carro ou qualquer outra coisa além de falta de vontade. Os poucos minutos que fiquei esticada em cima de uma cadeira, apontando para a antena, foram suficientes para dar de cara com um vazio de palavras. Ninguém havia se manifestado. Intrigada, visitei alguns perfis. O tempo não permitiu que minha busca fosse completa, mas consegui visualizar algumas atualizações sobre “carnavaliza bh”, “Pompéu bombando” e “viagem perfeita pra minha terrinha Uberlândia”. Escutei meu nome ser chamado. A mesa estava repleta de variedades, legumes pra todo gosto, verduras, sucos combinando frutas e muita carne. Os presentes não demonstravam preocupação ou frustração. Notei que o espiritoval seria aproveitado da melhor maneira possível por todos que estavam ali. Reinava o desejo do descanso, do resguardo individual. Antes de comer, uma oração em agradecimento. O pastor narra as belezas vistas e provadas até o momento, e também o sentimento de gratidão por ter esses dias libertos de doutrinas, deixando, assim, o espírito livre para ir atrás do que mais o agradava. Para alguns, seria a constante busca pela paz interior, encontrada no amor de Deus ou em um lugar sereno como aquele. Para outros, a libertação dos desejos reprimidos, escondidos pela obrigação de cumprir ordenanças que, internamente, não faziam o menor sentido. Dessa forma, os convictos ficam mais certos do caminho que seguem e os controversos encontram a oportunidade de decidir se vão ou se ficam. Amém? Amém.


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Belo Horizonte, abril de 2014

Dossiê Carnaval

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Reunidos num só corpo

Rayllan Oliveira 1º Período Ipatinga

No fim da tarde de sábado, o público já se acumulava no hall do Ipatingão. Crianças e jovens, adultos e idosos se reuniam para vivenciar uma nova experiência no período de Carnaval. Como aventado, o Anunciai, retiro espiritual organizado pela Renovação Carismática Católica em Ipatinga (MG), tornou-se meu bloco carnavalesco. O primeiro dia começou com a oração do terço. Enquanto a noite debutava, homens guiavam uma procissão tendo à frente um andor com a imagem da padroeira do Brasil. Os fiéis proferiam a oração de Ave Maria, intercalada pelo Pai Nosso e intenções para a realização do evento. As preces cessaram, deu-se início a um louvor. Músicas e coreografias de dança fizeram com que os presentes se ajuntassem próximos ao palco – estratégia para reunir e obter a atenção do público para a palestra que sucederia o momento. O responsável por conduzir a pregação, Mauro Niciolle, leu a parábola do filho pródigo, embasando seu discurso na necessidade da reconciliação do homem com Deus. Boa parte dos presentes se dispersou, ocasionando maior movimentação na área de lanchonetes. Ao perceber o fluxo de pessoas, resolvi averiguar o que estava acontecendo, mas não era nada demais. Ávidos por interação, os jovens formavam rodinhas de conversas e protagonizavam cenas de paquera. Logo que o sacerdote chegou ao palco, a chuva arrefeceu. Após a benção, era possível notar semblantes alegres nos rostos emocionados, expressos por sorrisos e aplausos. À minha esquerda, duas mulheres sexagenárias comentavam o momento místico e singular que havia ocorrido. O evento progrediu com o show do Ministério Ecle, banda que remete aos estilos musicais da década de 1960, mas com versões cristãs. No fim do domingo, saí de casa intrigado e curioso com o que ocorrera no dia anterior. Chegando ao local, deparei com a equipe de organização fazendo os últimos ajustes necessários. Embora decidido a repetir as emoções da noite passada, não conseguia manter o foco. O momento de louvor me fez arriscar alguns passos de dança, mas não o bastante para me convencer a continuar para a pregação. Resolvi fazer um tour e comprar um lanche. Enquanto aguardava na fila, percebi uma movimentação próxima à entrada. Chegando ao local, vi um homem trajando roupas femininas que protestava contra o evento e acusava as religiões de contribuírem com o preconceito sofrido pelos homossexuais. Sem responderem ao questionamento, os líderes religiosos que ali se encontravam tentaram apaziguá-lo e o convidaram a entrar. O manifestante chegou próximo ao portão e logo questionou o tema do encontro, exposto em uma faixa: “Reunidos num só corpo pela força da cruz”. Apesar das explicações recebidas, ele se retirou. Deu-se início à missa. Conforme os ritos passavam, a expectativa pelo momento presenciado na noite anterior dominava-me. O clamor, contudo, não veio, para minha total decepção.

Mas não tardaria a chegar, e se deu em meio a um ato de testemunho. Demonstrando nervosismo, Claudinei Barros subiu ao palco e começou a contar sua história. O público parecia não se interessar. A maioria, da qual fiz parte, dispersou-se e se concentrou próxima a entrada. Porém, já no término da história, outro homem, alto e cavo, disse: “Claudinei Barros precisa dar um novo passo em sua vida”. Arrisquei um palpite. Disse a meus amigos que ele iria pedir alguém em casamento. Estava certo. Claudinei retirou uma caixinha vermelha do bolso e chamou Elisa Ferreira, uma jovem clara, de cabelos negros e lisos. Emocionado, se ajoelhou diante da amada e entregou a aliança. O som da marcha nupcial e os gritos do público acompanharam o momento. Ele se levantou, ela disse sim e se beijaram. Não contive, vibrei junto da multidão. No terceiro dia, as coisas só passaram a ficar interessantes após a missa. Em uma das tendas, um ritmo eletrônico, acompanhado de jogos de luzes, reunia e agitava os jovens. Mas foi uma anciã, moradora de rua, que assumiu o papel de protagonista. Usando um vestido marrom com bolinhas vermelhas, uma touca e um par de chinelos encardidos, ela se tornou o centro das atenções. Suas coreografias engraçadas, acompanhadas por muitos dos presentes, provocaram estrondosas gargalhadas. O sucesso da velhinha continuou na hora do show. Logo no começo da apresentação, o público começou a gritar “pipoca, pipoca, pipoca”. O hit agitou o Carnaval religioso tal como “Lepo Lepo” nos demais carnavais e, quando foi cantado, os jovens pulavam e se empurravam como se fossem grãos de milho estourando em uma panela. Chegado o último dia, decidi sair mais cedo de casa. No trajeto, resolvi passar pelo Parque Ipanema – complexo de áreas verdes e lazer próximo ao local do evento. Lá, encontrei alguns jovens que contribuíam com a organização conversando com as pessoas e as convidando para o encerramento do retiro espiritual de Carnaval. Quando cheguei ao estádio, desanimei um pouco com a repetição da programação inicial, idêntica às anteriores. No entanto, na hora do sermão, o sacerdote nos convidou para um momento de oração. Todos se levantaram. Fiquei na expectativa de que o êxtase do primeiro dia se repetisse. O padre conclamava os batizados no espírito para orarem em línguas, fenômeno que ocorrera quando Jesus retornou aos céus. Um grande clamor surgiu, mas não era possível entender o que as pessoas diziam, ainda que o tom das vozes aumentasse. “Recebam o Espírito Santo”, disse o padre, e assoprou para a multidão. Momento sublime. A Quarta-Feira de Cinzas chegou e trouxe uma empolgação já não mais cabível para o tempo quaresmal que se iniciava. Restam, todavia, as belas recordações de noites realmente intensas. Posso dizer que me diverti de maneira bastante diferente. O Carnaval religioso em Ipatinga foi o meu bloco e fiz dele minha folia.

RAYLLAN OLIVEIRA

Edição 194 - Caderno 1  
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